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Direito Processual Penal

Direito Processual Penal (Universidade Lusíada do Porto)

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Direito Processual Penal

Regente: Professor Fernando Torrão


Autoria: Francisco Lemos de Almeida - 21536917

Direito Processual Penal é a terceira cadeira do curso desta área do Direito Penal, pelo que
importa que algumas noções transmitidas nas unidades curriculares de Teoria da Lei Penal
e de Teoria da Infração Penal.

Este resumo – não passa precisamente disso – e, portanto, não dispensa a leitura da
bibliografia que abaixo indicarei e que fora recomendada pelo regente desta unidade
curricular. Assim, com o intuito de ajudar os demais estudantes, segue-se este documento
que poderá servir de auxílio ao vosso estudo.

O presente documento poderá conter erros ou imprecisões e, por isso, não me


responsabilizo por estes, sendo que, como referi, este deverá servir como complemento ao
estudo e nunca como base - base essa que deverá ser a leitura das obras recomendadas.

Bibliografia:

- Direito Processual Penal Português, 2ª Edição, Germano Marques da Silva

Universidade Lusíada Norte – Porto

3º Ano – 2º Semestre

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Direito Processual Penal

Capítulo I – Introdução

O Direito Processual Penal é o conjunto de normas jurídicas que disciplinam a aplicação do


direito penal aos casos concretos.
Alguns autores não concordam com a designação de Direito Processual Penal,
considerando-a pouco expressiva do conteúdo da disciplina. No entanto, esta é uma
questão meramente formal, pelo que não se vislumbra frutuoso, nesta fase, ocuparmo-nos
dela.
Em traços gerais, o processo penal português assume um caráter acusatório, ainda que se
encontre limitado por alguns vestígios de natureza inquisitória. Atualmente, e não obstante
a importância que tem o tribunal durante as fases do processo, são os demais sujeitos da
relação processual que fazem avançar o processo e, até, como veremos dar-lhe início
através de uma acusação, quer pública ou privada.
Por outro lado, e ao contrário do que era característico dos processos com feição
inquisitória, hoje ao processo penal é imposto um total respeito pelos direitos, liberdades e
garantias do arguido, o que resulta, desde logo, do artigo 32º da Constituição da República
Portuguesa.
O processo penal desenrolar-se-á através da articulação da intervenção de todos os
sujeitos. Ora, daqui decorre que a intervenção de todos e de qualquer um (individualmente)
é fundamental, pelo que não podemos afirmar que um qualquer sujeito tenha domínio
sobre os outros, como ocorria em tempos idos e no processo inquisitório (com o domínio
da figura do juiz sobre todo o processo).
O poder punitivo é, naturalmente, atribuído ao Estado e este exerce-o através da jurisdição
(dos tribunais), mas esta só assumirá relevância quando, conforme dissemos, seja suscitada
por uma acusação, pública ou privada. Donde, o poder de punir é uma competência
exclusiva da jurisdição, mas que se encontra condicionado, em todo o caso, por uma
acusação (a acusação implica a intervenção de outros sujeitos processuais1).
Assim, e citando Germano Marques, o que é essencial ao processo, é a imparcialidade
objetiva do tribunal, ausência de pré-juízos, quer para punir quer para absolver, e a
presunção de inocência que impede que seja o acusado a ter de provar a sua inocência.

O direito penal substantivo e o direito processual penal encontram-se estreitamente


ligados, uma vez que aquele define os crimes e as penas e medidas de segurança aplicáveis
aos agentes e será este, o processo, que determina o modo de proceder perante situações
concretas, isto é, estabelecendo de que forma se irão aplicar as penas e as medidas de
segurança ou, sendo caso disso, de que forma se decidirá a inexistência de um crime.
O processo é, nas palavras de Figueiredo Dias, uma sequência de atos juridicamente
preordenados e praticados por certas pessoas legitimamente autorizadas em ordem à
decisão sobre se foi praticado algum crime e, em caso afirmativo, sobre as respetivas
consequências jurídicas e sua justa aplicação.

1
Conforme veremos infra, aquando da análise dos modelos de processo penal.

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Noutras áreas do direito também existe esta conexão entre os ramos que a componham e
os respetivos processos. Todavia, as mais das vezes, o processo é meramente eventual, uma
vez que o Direito se realiza espontaneamente, através da intervenção dos interessados; por
sua vez, o crime só é reconhecido, bem como as penas e as medidas de segurança aplicáveis,
através do procedimento penal – artigo 2º do Código de Processo Penal2.
Esta conexão não se manifesta só neste sentido. O direito penal e o direito processual penal
devem estar envolvidos num mesmo pensamento, que determine uma mesma orientação
– a unidade (devem ser aplicados segundo uma mesmo ordem de pensamentos). Daí que,
muitas vezes, o próprio direito substantivo pré-determine o sentido e alcance das soluções
a serem aplicadas em sede de processo penal.
Isto não quer dizer que direito penal e processual penal não tenham interesses próprios,
até porque os têm. É que as normas deste ramo de direito adjetivo, procuram que os meios
relativos à decisão sobre existência (ou inexistência) de um crime e à aplicação da respetiva
sanção sejam justos. Ora, bem se compreende que, nesta medida, e conforme impõe um
Estado de Direito Democrático, se tenha optado pelo respeito aos direitos, liberdades e
garantias do arguido, o que poderá, inclusive, levar à renúncia da descoberta da verdade.
As restrições impostas à obtenção e utilização de certos meios de prova demonstram,
precisamente, essa ideia de que nem todos os meios ou métodos são admitidos para o
apuramento da verdade (cf. artigo 32º, nº2 CRP e artigo 126º CPP). Na verdade, o processo
penal deve zelar pelos direitos do arguido, pelo que não poderá socorrer-se de meios
injustos para fazer justiça. Ora, não se pretende, com o processo, obter uma verdade
absoluta.
Além das normas relativas aos meios de prova, existem outras que denotam essa
preocupação com os direitos, liberdades e garantias do arguido. Senão vejamos: o princípio
da presunção de inocência (artigo 32º, nº2 CRP), as normas relativas ao objeto do processo
(donde decorre que o arguido deve conhecer tempestivamente a acusação deduzida contra
si, para que consiga preparar da melhor forma a sua defesa, as limitações ao recurso de
revisão, e outras, como o regime do caso julgado.
Esta preocupação pelos direitos fundamentais do arguido não consubstancia uma
preocupação apenas do Estado português. É, aliás, uma preocupação universal, com assento
em diversos textos de caráter internacional – Declaração Universal dos Direitos do Homem,
a Convenção Universal dos Direitos do Homem, entre outros -, o que denota a exigência de
se consagrar e de se protegerem os direitos fundamentais do arguido e a dignidade da
pessoa humana (processo equitativo e justo).

Subcapítulo I – Âmbito, Objeto e Fins do processo penal

A função do processo penal (e de resto, conforme ficou dito) prende-se com a decisão sobre
a existência, ou não, de um crime e, em caso afirmativo, com a aplicação das respetivas
consequências jurídicas. Por isso, cabe-lhe a fase que se segue à notícia do crime até à
respetiva decisão tomada no âmbito do processo, compreendendo as fases de inquérito,
instrução e julgamento, a fase da execução da sentença e a fase dos recursos.

2
Adiante utilizaremos CPP para designar Código de Processo Penal.

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No entanto, e quanto à execução das sentenças3, cumpre referir que esta não cabe
exclusivamente ao processo penal. Nela, intervêm autoridades judiciárias e autoridades
administrativas, repartindo-se a competência entre o tribunal de primeira instância onde
correu o processo (artigo 420º, nº1 e nº2 CPP), o Tribunal de Execução de Penas (artigo 477º
CPP) e o Ministério Público.
Além das matérias substancialmente penais, no processo penal devem integrar-se outras,
como a ação civil de indemnização civil por perdas e danos emergente da prática do crime
(artigos 71º e seguintes CPP), que só poderão ser instauradas em instância cível nos casos
previstos no artigo 72º CPP.
Num processo com estrutura acusatória, a definição do objeto assume uma particular
relevância, na medida que é em função dele que se irá responder a algumas questões –
como a litispendência, o thema probandum, o objeto dos recursos, etc. O acusado deve,
como dissemos, ser informado tempestivamente da acusação, para que se possa defender
dela da melhor forma. Por outro lado, o tribunal só poderá julgá-lo acerca do conteúdo da
acusação, pelo que se impõe uma identidade entre o conteúdo da acusação, a atividade
instrutória do tribunal e a sentença final. Trata-se de uma garantia para o arguido: apenas
do que é acusado se terá de defender e de que só por isso será julgado (cf. artigos 309º e
359º CPP).
Assim: a acusação deverá conter a descrição dos factos que resultaram indiciados no
inquérito (artigo 283º CPP); a pronúncia deve limitar-se aos factos descritos na acusação
(artigo 309º CPP) e a sentença não pode conter uma alteração substancial dos factos
descritos na acusação ou na pronúncia (artigo 359º CPP).
O objeto do processo é o crime (artigo 1º, nº1, alínea a) CPP) - o que, ainda assim, não é
totalmente correto dizer-se. É que pode suceder que haja processo sem, no entanto, haver
crime (o acusado é absolvido, o tribunal decide sobre a não existência de um crime).
Dito isto, parece que o objeto do processo será a verificação de ocorrência ou não dos
pressupostos alegados pela acusação e que, verificando-se, levarão ao exercício do poder
punitivo do Estado, através dos tribunais (caso não se verifiquem, o tribunal declarará que
não há lugar ao exercício do poder punitivo).
Relativamente aos fins do processo penal: será a aplicação da lei penal aos casos concretos,
daí que ao processo seja atribuído um valor instrumental – que nenhum responsável passe
sem punição nem nenhum inocente seja condenado. Deste modo, conclui-se que a
finalidade atribuída ao processo penal é a da realização da justiça, que passa pelo
apuramento da verdade dos factos alegados e o restabelecimento da paz jurídica.
E com a verdade, o que se quer dizer é que o tribunal tem a certeza jurídica de que os factos
alegados ocorreram e que, por isso, tem legitimidade para poder a aplicar a sanção se
corresponde aos factos provados (determinadas pela lei penal, nomeadamente).
Do que se trata não é do apuramento de uma verdade absoluta. Essa, aliás, é incompatível
com o processo penal, uma vez que este ramo de direito adjetivo tem como finalidade a
proteção dos direitos fundamentais do arguido. Em tempos idos, era admissível recorrer-se
à tortura e a qualquer outro meio de prova para que se pudesse chegar à verdade.

3
Nesta fase, deve atender-se ao disposto no artigo 30º, nº5 CRP.

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Atualmente, a verdade só pode ser procurada de modo processualmente válido e admissível


e, portanto, com o integral respeito dos direitos fundamentais das pessoas que no processo
se veem envolvidas (Figueiredo Dias)4 – artigo 32º, nº8 CRP e artigo 126º CPP.

Subcapítulo II – Relação do Direito Processual Penal com outros ramos do direito

Neste subcapítulo trataremos, ainda que de forma sumária, as relações que o Direito
Processual Penal estabelece com outros ramos do Direito. Fora desta análise, ficará a
relação estabelecida entre este e o Direito Penal, na medida em que a conexão existente
entre estes dois ramos do Direito, já foi alvo de análise em momento anterior.
As relações entre o direito processual penal e o direito civil reduzem-se às hipóteses em
que para a prática de determinados atos é preciso ter-se capacidade civil ou está
dependente das relações de parentesco estabelecidas entre os sujeitos. Outrossim,
refletem-se na suscetibilidade de avaliação de questões prejudiciais civis (poderão, ou não,
ser decididas no próprio processo penal5; etc.
Relativamente às relações estabelecidas entre o direito processual penal e o direito
administrativo: refletem-se, nomeadamente, no que concerne à execução das penas, cuja
disciplina é, em parte, administrativa. Por outro lado, há interesses administrativos que se
encontram regulados no Código de Processo Penal – referimo-nos às medidas de polícia
(Capítulo II, Título I, do Livro VI do CPP).
Quanto às relações estabelecidas entre o direito processual penal e o direito tributário:
refletem-se, predominantemente, nas normas que classificam certos comportamentos
como crimes tributários.
Com o Direito Internacional, as relações estabelecidas pelo Direito Processual Penal são
fortes e importantes, nomeadamente ao nível da tutela dos direitos fundamentais do
arguido, mas, também, ao nível de cooperação judiciária internacional, ao nível das regras
de extradição, etc.
O Direito Processual Penal é extremamente influenciado pela estrutura política vigente no
Estado. Isto é, dependendo da ideologia política adotada, as técnicas e garantias processuais
consagradas serão, necessariamente, distintas. Assim, serão mais ou menos tutelados os
direitos fundamentais do arguido, por exemplo.
As garantias concedidas e os meios utilizados no âmbito processual penal terão, no entanto,
de estar em conformidade com a Lei Fundamental – a Constituição da República Portuguesa.
É que a fonte formal primária dos direitos fundamentais, bem como o reconhecimento da
dignidade humana, constam, prima facie, da Constituição e têm aplicação direta.
Ao Tribunal Constitucional competirá, em última instância, julgar a conformidade das leis
com a Constituição. Daí que avaliará se as normas aplicadas pelas instâncias comuns não
estarão em confronto com os valores constantes da Lei Fundamental.
Finalmente, e de forma sumária, daremos notícia das relações estabelecidas entre o Direito
Processual Penal e o Direito Processual Civil. Desde logo, deve assinalar-se que, tendo fins

4
É claro que as limitações à obtenção de prova acabam por constituir um entrave à descoberta da
verdade.
5
Conforme veremos infra.

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distintos, os processos civil e penal irão orientar-se por princípios diferentes, ainda que haja
imperativos que se possam considerar comuns a ambas as realidades (teoria geral do
processo). Na verdade, e como sucede face a outros ramos de direito processual, a
dogmática civilística é considerada de aplicação subsidiária, pelo que o mesmo sucederá em
relação ao Direito Processual Penal – esta orientação encontra-se refletida no artigo 4º CPP,
em matéria de integração de lacunas.

Capítulo II – Modelos de Processo Penal: o modelo inquisitório e o modelo acusatório

Subcapítulo I – O Modelo Inquisitório

Esquematicamente (características principais):


Princípio
Ação – arbítrio do inquisidor
do Secreto

Presunção de culpa
INQUISITÓRIO

Possibilidade de novos factos em qualquer momento processual

Inquisidor pode investigar e julgar

Confissão – regime probatio

O modo de investigação tem a ver com o modelo político previsto e vigente num Estado
(democrático ou autoritário). Donde, normalmente, após revoluções, o Código de Processo
Penal é sempre o primeiro diploma a ser alterado.
O modelo inquisitório surgiu na Idade Média. Inicialmente, para que um país fosse
declarado independente era necessário o reconhecimento da Santa Sé, através de uma Bula
Papal6. No entanto, com o passar do tempo, o poder da Igreja começou a ser posto em causa
e, por isso, criou-se o Tribunal da Santa Sé – tribunal móvel, que se deslocava aos locais
quando houvesse necessidade de fazer julgamentos. Pretendia, então, a Igreja, eliminar os
seus inimigos.
Dito isto, o modelo inquisitório pautava-se pelas seguintes características: a instauração da
ação não obedecia a requisitos legais – o inquisidor decidia se a ação seria ou não
instaurada, sem ter de justificar a sua decisão; a pessoa constituída arguida tinha, desde
logo, contra si uma presunção de culpa (de cariz religioso). Tal levava, em regra, à aplicação
da prisão preventiva, do que resultava uma enorme limitação à sua defesa. O Santo Ofício
nomeava um advogado e este, o que faria, era aconselhar os arguidos a confessarem os

6
No caso português, a bula que declarou o Condado Portucalense independente do Reino de Leão foi a
Bula Manifestis Probatum, emitida pelo Papa Alexandre III, em 1179.

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factos (normalmente, com a promessa de escapar à fogueira); a qualquer momento


processual, poderiam surgir novos factos, contrariam, desse modo, o princípio inerente ao
modelo processual acusatório de que todas as pessoas devem saber do que estão a ser
acusados e, por conseguinte, do que se têm de entender (falamos da identidade do objeto
nas várias fases processuais7); o inquisidor (quem decidia se a ação seria ou não instaurada),
era quem investigava e julgava8, falhando a ideia de imparcialidade – o inquisidor era titular
de preconceitos em relação ao arguido; a confissão era, então, o regime probatio - consistia
na tortura: se a pessoa sentisse dor e confessasse os factos, significava que era culpada,
dando razão ao julgador; vigorava o Princípio do Secreto – o único ato público era o da
execução. O caráter oculto afastava a ideia do contraditório – o que sucedia é que o arguido
respondia a perguntas arbitrárias feitas pela Inquisição.
Todo este processo levaria a uma fácil condenação (normalmente, à morte) das pessoas,
inimigas do poder. E quem não fosse julgado, pelo menos, ficaria intimidado ao ponto de
não se opor ao poder.
Este modelo foi seguido por muitos Estados autoritários (não teve sucesso em Inglaterra,
por força do protestantismo9).

Subcapítulo II – O Modelo Acusatório

O modelo acusatório é o reflexo de um Estado de Direito Democrático, que repugna


medidas autocráticas que atentem contra os direitos fundamentais das pessoas e contra a
própria dignidade da pessoa humana.
Daí que as suas características sejam como que um contraponto de todas aquelas por que
se guia o modelo inquisitório, das quais daremos conta agora (sumariamente): rege-se pelo
Princípio da Separação de Poderes – o que deste resulta é a ideia de que quem acusa (o
modelo acusatório faz depender a instauração de uma ação, pública ou privada, sem
prejuízo da investigação dos factos enunciados na notitia criminis), não julga. O que se
pretende é, naturalmente, evitar que o acusador – pessoa portadora e preconceitos face ao
arguido -, julgue; procura-se a isenção e a imparcialidade de quem julga, ao contrário do
que sucede no modelo inquisitório; por outro lado, impõe-se que o objeto do processo seja
idêntico nas diversas fases processuais. O arguido será julgado pelos factos de que foi
acusado, sendo condenado ou absolvido em função destes (dos factos alegados na
acusação); vigora o Princípio da Liberdade – este não é mais do que uma derivação do
Princípio da Presunção de Inocência. Na verdade, presumindo-se o arguido inocente (até ser
condenado), não lhe será aplicada, em princípio, uma medida privativa da liberdade –
falamos da prisão preventiva; para além do que ficou dito, o Ministério Público e o arguido
encontram-se numa mesma posição processual, pelo que vigora o Princípio da Igualdade de
Armas; o processo, em todas as suas fases é, à partida, público (contrariando-se o Princípio
do Secreto); finalmente, uma nota para o Princípio do Caso Julgado Material – é que o

7
Supra.
8
“Quem tiver um juiz por acusador precisa de Deus como defensor. Mas, às vezes, isso não é
suficiente.” (Geraldo Prado, Estudos sobre o Sistema Acusatório, Rio de Janeiro, 1999, p. 157.)
9
Em Inglaterra vigorava um modelo de cariz acusatório, tendo este servido de inspiração a outros
países, depois de saídos de revoluções (v.g., Modelo Napoleónico, em França).

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arguido, uma vez condenado, não volta a ser julgado pelo mesmo facto (entre nós, artigo
29º, nº5 CRP).

Subcapítulo III – Um terceiro modelo: o modelo napoleónico

Há, ainda, um terceiro modelo histórico, que é o modelo do CPP francês, que irá marcar a
evolução do direito processual penal nos séculos XIX e XX, tendo surgido com o código
napoleónico de 1808.
Este código assumiu que o processo penal deveria ter duas fases: uma primeira fase de
modelo inquisitório, que era uma fase de investigação e de procura pela verdade levada a
cabo por um juiz de instrução criminal e uma segunda fase de julgamento, de modelo
acusatório. A primeira fase era secreta, não contraditória e escrita. Quando o processo
ultrapassava esta fase, passava para uma segunda de audiência pública, de oralidade e em
que se admitia o contraditório. Portanto, a função da primeira fase era apurar os factos e a
segunda fase tinha a função de julgar os factos e aplicar o direito a esses factos. As garantias
do acusatório não têm de vigorar para todo o processo, mas apenas para o momento em
que se julga o caso.
Este modelo napoleónico foi acolhido pela generalidade dos países durante o séc. XIX.

Subcapítulo IV – Modelo adotado pelo Código Penal de 1987

O modelo português no CPP de 1987 não é um modelo acusatório. O que temos,


verdadeiramente, é um modelo misto de processo, influenciado pelo CP francês de 1808.
O processo penal português tem uma estrutura acusatória, significando isto que há uma
separação entre quem acusa e quem julga (neste sentido, não adotámos a figura do juiz
acusador) - garantia de imparcialidade.
Porém, o acusatório entre nós não é um acusatório pleno porque, ainda que o núcleo essencial
seja de natureza acusatória, o nosso sistema não acolhe todas as características deste modelo.
O nosso modelo acusatório é completado por um Princípio de Investigação: o tribunal de
julgamento não é um mero árbitro de um litígio entre as partes, tendo poderes de investigação;
o tribunal não está numa posição passiva a assistir a um duelo entre a acusação e a defesa, tendo
competências próprias para descobrir a verdade material dentro daquilo que é apresentado pela
acusação (por exemplo, o juiz pode livremente tomar a iniciativa de chamar um perito para
averiguar uma questão, não estando dependente das partes para o fazer), o que significa que o
direito processual português não acolhe a figura do juiz árbitro.

Capítulo III – Princípios Fundamentais do Processo Penal

O Direito Processual Penal, tal como qualquer outro ramo do Direito, é guiado por princípios
fundamentais, isto é, por traves mestras que conformam, primariamente, a sua disciplina.
Por outras palavras, do que se vai tratar neste capítulo é de parâmetros normativos do
direito vigente, que traduzem as ideias sociopolíticas de cada Estado. Entre nós, a integração
de lacunas, nos termos do artigo 4º CPP, acaba por, de forma subsidiária, mandar aplicar os
princípios gerais do processo penal.

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A nossa Constituição contém múltiplas normas que devem ser tidas em consideração pelo
legislador e, por nós intérpretes, como os artigos 32º e 18º.
Os princípios têm em comum o facto de serem vagos, pelo que carecem de concretização,
o que ocorre através das normas positivas ou decisões judiciais. Donde, oferecem uma certa
solução, ainda que por si só não a determinem.
Analisemo-los:
Princípio do “processo justo” ou “processo equitativo” – este princípio consta, na verdade,
de vários textos, tanto de caráter internacional10 como de natureza interna. Deste
imperativo resulta a ideia de que as partes devem situar-se numa posição de igualdade no
decurso do processo, que lhes sejam concedidas as mesmas garantias de defesa –
nomeadamente, através do contraditório -, para que dessa forma se consiga alcançar uma
decisão justa11.
Segundo a jurisprudência norte-americana, um processo justo é assegurado pelo respeito
a três exigências: adequate notice – o acusado deve ser devidamente informado acerca da
natureza e dos motivos da acusação, para que dela se possa defender; fair hearing – um
procedimento leal, sem influências externas na formulação do juízo; juiz imparcial – o juiz
deve ser imparcial, concedendo a ambas as partes o mesmo tratamento.
Entre nós, o artigo 32º CRP é fundamental para a prossecução deste princípio,
estabelecendo todas as garantias de defesa ao arguido.
Finalmente, importa referir que este princípio não deve ser colocado numa posição paralela
aos demais (que estudaremos em seguida). Deve antes, ter-se como um imperativo que irá
ser garantido pela concretização de todos os outros princípios; por outras palavras, este
princípio, por si só, não é (nem poderia ser) suficiente para garantir um “processo justo”,
sendo necessária a intervenção de todos os outros para que se consiga alcançar essa ideia
de justiça no âmbito do processo penal.

Subcapítulo I – Princípios inerentes à estrutura processual

Princípio da Presunção de Inocência – entre nós, este princípio encontra-se consagrada no


artigo 32º, nº2 da CRP. É, aliás, reconhecido por diversos textos internacionais, como o Pacto
Internacional dos Direitos Civis e Políticos (artigo 14º), a Declaração Universal dos Direitos
do Homem (artigo 11º), entre outros.
Este princípio surgiu, sobretudo, para colocar termo nos abusos do passado, abusos esses
surgidos ao abrigo da presunção de culpa. Representa, dessa forma, um ato de fé no valor
ético das pessoas.
A consagração deste imperativo tem consequências para toda a estrutura processual.
Desde logo, resulta que o processo deve conceder ao inocente todas as garantias de defesa,
ao longo de todas as fases, já que, o inocente será inocente até que seja condenado por uma
sentença transitada em julgado. Mas esta presunção de inocência tem outras
consequências, tais como: a estreita excecionalidade e subsidiariedade de aplicação da

10
Cf. artigo 6º da Convenção Europeia dos Direitos do Homem; artigo 14º do Pacto Internacional sobre
os Direitos Civis e Políticos.
11
Uma decisão só poderá ser considerada justa, se for precedida de um processo justo.

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prisão preventiva; o arguido deve ser prontamente e devidamente informado da acusação


e das alegações que dela constam contra si, para que se possa defender da melhor forma; a
limitação de recolha de pr ova em locais privados; o direito ao silêncio; etc.
Segundo o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem, esta presunção vincula todas as
autoridades que de forma direta ou indireta tenham intervenção no processo penal. Donde,
nenhuma autoridade poderá partir do pressuposto que os arguidos, num processo, serão
culpados pelos factos alegados na acusação. O que se exigem é, então, a imparcialidade de
todos aqueles que intervêm no processo de alguma forma.
Este princípio reflete-se Intraprocessualmente e extraprocessualmente: no seio do
processo, este imperativo reflete-se na proteção pela dignidade humana do imputado ao
longo de todo o processo e, ainda, na exigência de um juízo neutro por parte do tribunal;
extraprocessualmente reflete-se no respeito pela imagem do imputado, pela sua honra e
reputação. Assim, os direitos processuais do arguido são: a ser tratado como possível
inocente; a ser absolvido se não for feita prova bastante da sua responsabilidade; a
defender-se como entender, nomeadamente a não se pronunciar sobre os factos que lhe
são imputados; a ver protegida a sua honra e reputação por parte de todos.
O princípio da presunção de inocência consagra, antes de mais, um dever de tratamento do
arguido – o dever de ser tratado como presumido inocente, já que poderá efetivamente sê-
lo. Donde, costuma afirmar-se, que esta presunção de inocência nasce por força dos indícios
recolhidos contra a pessoa do arguido, momento a partir do qual alguém começa a ser
suspeito pela prática de um determinado crime. Na verdade, só é presumido inocente quem
é presumido culpado.
Este dever de tratamento depara-se, no entanto, com algumas limitações: a aplicação de
medidas de coação, ter um lugar próprio no tribunal (“o mocho”), entre outras.
Deste princípio resulta a imposição da celeridade do processo, já que, enquanto arguido, o
agente processual já será suficientemente estigmatizado pela sociedade, mesmo que venha
a ser considerado inocente. E, por outro lado, também se impõe que as medidas cautelares
se reduzam ao mínimo necessário, o que decorre, naturalmente, do artigo 18º, nº2 CRP – a
restrição dos direitos, liberdades e garantias deve obedecer ao princípio da
proporcionalidade.

Subcapítulo II – Princípio da Jurisdição e do Juiz Natural ou Legal

Princípio da Jurisdição – atribui-se ao processo penal a forma dominante da jurisdição


penal. A esta, visando tutelar os direitos, liberdades e garantias que se projetem, tanto
individualmente como coletivamente, deve corresponder três missões: jurídica – enquanto
instrumento para a realização do direito objetivo; política – como garantia do arguido; e
social – deve contribuir para uma melhor convivência social.
Este poder jurisdicional deve, sobretudo, separar-se dos poderes executivo e legislativo,
aliás, como é apanágio de um Estado de Direito Democrático. Valerá o Princípio da
Separação de Valores, em que o poder se encontra limitado e subordinado ao Direito. À
jurisdição cabe aplicar o Direito conforme o interpreta, sem ceder a pressões de terceiros
ou das partes.

10

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Direito Processual Penal

A importância concedida à jurisdição não deve, no entanto, fazer esquecer a importância de


outros momentos – como o da acusação e o da defesa -, ainda para mais quando falamos
de um processo com estrutura acusatória. É, então, necessário conciliar a importância de
todos estes momentos, para que se evitem os abusos do poder estatal (associados,
naturalmente, a uma importância desmesurada da jurisdição e a um desprezo considerável
pelos outros momentos do processo).
Ao abrigo dos artigos 202º CRP e 29º CRP, é reservada aos tribunais a competência para
reprimir a violação da legalidade democrática e a aplicação coerciva da lei criminal. Ora, isto
não é incompatível com a intervenção de outros sujeitos processuais no seio do processo
penal, até porque, conforme veremos, a intervenção do tribunal, algumas vezes, encontra-
se dependente ou condicionada pelo impulso processual inicial que caberá a outros sujeitos.
Ainda assim, poder-se-á dizer que a jurisdição constitui a pedra angular do processo penal
democrático12.
À ideia de jurisdição esta associada uma outra: a imparcialidade do juiz. Isto significa que o
juiz, terceiro, esteja apenas interessado em fazer justiça, devendo ser indiferente ao
resultado do processo. E, assim, cumpre a sua missão, absolvendo ou condenando, desde
que o faça com respeito pelo cumprimento da lei e, dessa forma, com justiça.
A separação dos poderes, a distribuição das funções dentro do processo, as garantias de
independência são todos instrumentos que visam garantir a imparcialidade dos juízes.
O ius puniendi do Estado é exercido pela jurisdição. O Estado, através do Ministério Público,
formula à jurisdição uma pretensão através da acusação, alegando a ocorrência de certos
pressupostos exigidos por lei para que seja aplicado ao acusado uma pena ou uma medida
de segurança. O processo servirá para a jurisdição verificar se se verificam ou não os
pressupostos de aplicação de uma sanção e, em caso afirmativo, aplicá-las-á (exercendo o
ius puniendi); em caso negativo, procederá à absolvição do acusado.

Princípio do Juiz Natural ou Legal – este princípio encontra-se consagrado na Constituição,


no artigo 32º, nº9. Na verdade, o que se visa com esta disposição é evitar que, para resolver
um caso determinado, sejam designados arbitrariamente, tribunais ou juízes. Por outras
palavras, a competência de um tribunal deve ser determinada por critérios objetivos,
dispostos na lei13.
Assegurada a jurisdição em matéria criminal dos tribunais judiciais (artigo 211º CRP) e a sua
independência (artigo 203º CRP), importa garantia a imparcialidade dos juízes. Ora, neste
sentido, acredita-se que tal garantia é dada pela fixação antecipada e, por meio de critérios
objetivos, da competência do tribunal. É que só a lei institui o poder na figura do juiz e fixa-
lhe a competência; e a fixação do juiz e da sua competência tem de ser feita por lei anterior
à prática do facto que será objeto do processo14.

12
Direito Processual Penal Português, 2ª Edição, 59, Germano Marques da Silva.
13
A mesma ideia resulta dos artigos 209º, nº4 e 213º - ambos da CRP. Neste sentido, também outros
textos internacionais consagraram este princípio: artigo 10º DUDH; artigo 6º, nº1 CEDH; artigo 14º, nº1
PIDCP.
14
Esta questão levanta algumas dificuldades. Na verdade, o que se pretendeu foi, conforme temos
vindo a dizer, evitar arbitrariedades e a discricionariedade na designação de tribunais ou juízes. Donde,

11

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Subcapítulo III – A Estrutura Acusatória

Princípio Acusatório – previsto no artigo 32º, nº5 CRP, dispõe que o processo criminal tem
estrutura acusatória, estando a audiência de julgamento e os atos instrutórios que a lei
determinar subordinados ao princípio do contraditório.
Neste contexto, importa abordar os diferentes modelos de processo penal. Ainda que esta
matéria já tenha sido alvo de análise anterior, decidimos abordá-la, de novo, nos seus traços
gerais, com vista a contextualizar o Princípio de que agora trataremos.
O modelo puro de sistema acusatório procura uma igualdade processual entre acusação e
defesa, posicionando-se o julgador numa posição de independência, apenas interessado na
apreciação objetivo do caso concreto. O processo deve desenrolar-se sempre com respeito
pelo contraditório entre o acusador e o acusado, de forma pública e oral, recaindo o encargo
da prova sobre o acusador.
O modelo inquisitório é guiado por princípios distintos. Desde logo, o juiz intervém sem
necessidade de lhe ser submetido um qualquer caso (ex officio) – i. é., sem necessidade de
acusação. Por outro lado, o juiz pronuncia-se e julga com base nas provas por si recolhidas
– é ele que domina o processo. Ao contrário do que sucede no modelo acusatório, não há
lugar ao contraditório ao longo de todo o processo e, em vez de oral, é escrito.
Para além disto, o acusado é, em princípio, privado de liberdade na pendência do processo
(o que denota um evidente desrespeito pelos direitos, liberdades e garantias do arguido).
Em suma, o acusado fica submetido ao poder do juiz.

Com as reformas liberais, surgiu um terceiro modelo de processo penal: misto ou modelo
napoleónico.
Numa fase pré-acusatória, dominava o Princípio do Inquisitório, ao passo que na fase de
julgamento vigorava o Princípio do Acusatório. Daí que as provas recolhidas em sede pré-
acusatória não fossem diretamente para o julgamento, devendo concentrar-se na
audiência.
A acusação deixara de competir ao juiz. O Ministério Público estava incumbido, enquanto
representante da coletividade de tal tarefa.

Dito isto, é preciso ter a ideia de que nenhum processo é perfeito ou que, pelo menos,
nunca agradará a todos. Na verdade, mesmo os sistemas que se situam mais próximos do
modelo acusatório puro são alvo de críticas, nomeadamente porque podem levar à
condenação muitos inocentes.
A igualdade entre acusação e defesa é uma mera utopia, na prática. Para que o acusado
possa ter direito a uma boa defesa, é necessário que possua meios técnicos e financeiros, o
que muitas vezes não sucede; e, por outro lado, ao acusador é apenas exigido que junte
provas suficientes para que convença o tribunal para lá da dúvida razoável, enquanto que o
acusado terá de recolher provas para que contrarie as alegações que constam da acusação.

ter-se-á querido afastar qualquer forma discricionária que ponha em perigo o direito dos cidadãos a uma
justiça penal independente e imparcial.

12

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Direito Processual Penal

Com isto, pretende dizer-se que as garantias da descoberta da verdade não se relacionam
estritamente com o modelo processual vigente, mas tem a ver, muitas vezes, com o
empenho de todos os intervenientes na condução do processo.

O nosso modelo, nas palavras de Figueiredo Dias, é um modelo de estrutura acusatória,


completado por o Princípio da Investigação15.
Em primeiro lugar, o nosso Código de Processo Penal faz depender a sujeição de alguém a
julgamento de uma acusação – acusação é condição processual. O objeto do processo é
definido pela acusação; este deverá manter-se idêntico em todas as fases processuais,
conforme o preceituado pelos artigos 379º e 309º CPP.
Em segundo lugar, afasta a ideia de que, entre nós, vigora um modelo acusatório puro. Na
verdade, a igualdade de armas entre acusação e defesa só se verifica nas fases de instrução
e de julgamento. O inquérito é dominado pelo Ministério Público, pelo que esta fase tem
uma natureza predominantemente inquisitória (fase do inquérito) – artigos 267º; 86º, nº2
e nº3; 276º CPP.
Ao longo do processo, outras são as manifestações que limitam o acusatório: na fase de
instrução domina o princípio do inquisitório (artigo 289º, nº2 CPP) e, na fase de julgamento,
o próprio acusatório encontra-se temperado pelo princípio da investigação judicial (artigo
340º CPP). No entanto, não se pense que estamos perante um inquisitório ilimitado (v.g., o
que resulta do artigo 126º CPP).

Subcapítulo IV – Princípio da Igualdade de Oportunidades

Esta é uma decorrência da estrutura acusatória do processo penal português. Às partes


devem ser concedidos os mesmos meios e possibilidades para intervir no processo, para
que demonstrem a validade das suas alegações. No entanto, como vimos, este princípio só
se verifica nas fases jurisdicionais – fase de instrução e de julgamento.
Na fase do inquérito, cabe ao Ministério Público investigar, tendo a seu serviço todo o
aparelho judicial. Nesta fase, o poder de investigação das partes é limitado.

Subcapítulo V – Direito de Ampla Defesa

O direito de defesa é complexo, sendo constituído por um conjunto de atos que podem
consubstanciar omissões ou ações, do próprio arguido ou, eventualmente, de outros
sujeitos processuais – maxime Ministério Público e do Tribunal (artigo 32º, nº1 CRP).
Nesta questão, o que releva, é a suscetibilidade de o arguido ser assistido por um defensor
ao longo de todo o processo. Ainda assim, existem atos que só podem ser praticados
pessoalmente pelo arguido – e, aqui, a função do defensor é relevante: deve informar o
arguido das consequências processuais dos seus atos.
Para que uma defesa seja bem preparada e de acordo com a lei, é necessário que, no
decurso do processo, o arguido seja assistido por alguém que o guie da melhor forma,

15
Analisá-lo-emos em sede devida, infra.

13

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Direito Processual Penal

informando-o de tudo o que achar conveniente e, claro, ajudando-o na preparação da sua


defesa.
Neste contexto, podemos distinguir a defesa formal da defesa material. A defesa formal é
a defesa a cargo do arguido e do seu defensor; a defesa material abrange, igualmente, a
atividade do tribunal em benefício do arguido (artigos 53º, 262º, 323º e 340º CPP).
Por outro lado, distingue-se a defesa pessoal (a que é exercida pessoalmente pelo arguido)
da defesa técnica (através ou com a assistência do defensor). Ora, existem atos que a lei
reserva ao arguido e, por isso, só poderão ser por ele exercidos (v.g., artigos 141º e 143º
CPP); outros que a lei admite que sejam praticados pelo arguido ou através do defensor
(artigo 98º CPP); e, ainda, outros que só podem ser praticados pelo defensor (v.g., artigos
302º e 360º CPP).
A defesa pessoal distingue-se em positiva ou negativa. Na positiva, o arguido defende-se
praticando atos processuais (isto sucede quando o arguido faz declarações na audiência,
quando responde às perguntas nos interrogatórios judiciais, quando apresenta
requerimentos; etc.). A defesa pessoal também pode ser negativa: quando o arguido se
recusa a prestar o seu contributo para os atos probatórios (destacamos, neste contexto, o
direito ao silêncio – artigo 61º, nº1, alínea d) CPP: este, aliás, deve ser comunicado ao
arguido pela autoridade judiciária, sob pena de as declarações prestadas pelo arguido
constituírem prova proibida por intromissão na vida privada – “direito a ficar calado”. Do
exercício deste direito, não devem resultar qualquer prejuízo jurídico para o arguido. Trata-
se de uma decorrência do princípio da presunção de inocência: o facto de ficar calado pode
querer dizer que o arguido não sabe nada em relação aos factos de que é acusado; o direito
à não autoinculpação é outro meio de defesa pessoal negativa – o arguido não pode ser
coagido a apresentar provas contra si (artigo 61º, nº3, alínea d) CPP).
O nº3 do artigo 32º CRP consagra o direito do arguido a assistência em todos os atos do
processo. Esta possibilidade encontra-se regulada pelos artigos 61º e seguintes do CPP,
concedendo-se ao arguido a possibilidade de constituir advogado em qualquer altura do
processo.

Subcapítulo VI – Princípio da Lealdade

Este princípio envolve um conceito sensível, como é a lealdade. Trata-se de um conceito e


natureza essencialmente moral, traduzindo uma maneira de agir em conformidade com os
direitos e a dignidade de todas as pessoas que são parte no processo.
Esta postura é um reflexo dos ideias democráticos que regem o processo penal e, em geral,
todos os ramos do Direito.
A atuação desleal é reprovável, mesmo que utilizada em abono da verdade. Na verdade,
pouco importa. Não podem os tribunais condenar as atuações desleais de malfeitores e,
depois, recorrerem-se de meios não convencionais e, até ilícitos, para obter a realização da
justiça. Aliás, e como se disse, a justiça só pode ser alcançada por meio de um processo
justo; socorrendo-nos das palavras de Germano Marques: só será louvável quando (a
justiça) alcançada com engenho e arte, nunca pela força bruta, pelo artifício ou pela mentira,
que degradam quem as sofre, mas não menos quem as usa.

14

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Não obstante este imperativo, muito frequentemente há quem viole, no seio do processo
este dever de lealdade: os advogados, os magistrados, as testemunhas (que mentem para
proteger a parte que estão a defender).

Subcapítulo VII – Princípios Relativos à Promoção Processual

Princípio da Oficialidade – significa que a iniciativa e a prossecução processuais pertencem


ao Estado. No entanto, este princípio tem limites: quando o procedimento criminal dependa
de queixa é necessário que o titular do direito de queixa a apresente ao Ministério Público
para que este promova a abertura do processo (artigos 49º e 50º CPP).
Regra geral, os crimes são públicos, donde o Estado poderá realizar a sua pretensão penal,
não obstante a vontade dos ofendidos. A questão é que, ao contrário do que sucede em
direito civil, em causa estará a tutela de bens jurídicos públicos e, portanto, de condutas
que, tendo-os desrespeitado, atentaram contra a comunidade.

Princípio da Legalidade – do Princípio da Legalidade decorre que o Ministério Público


deverá proceder à abertura do processo, sempre que se verifiquem os pressupostos jurídico-
factuais da incriminação e processuais da ação penal (artigos 262º, nº2 e 283º CPP).
Isto não quer dizer que a abertura do processo esteja sujeita à discricionariedade do
Ministério Público. Após a notícia do crime, o Ministério Público deverá investigar os
indícios, averiguando se se verificam, efetivamente, os pressupostos da ação penal.
Posteriormente, fará juízos – nomeadamente de subsunção, i. é., se os factos apurados se
subsumem na previsão de uma qualquer norma.
Verificados os pressupostos, o Ministério Público não poderá deixar de proceder à abertura
do processo, sob pena de ilegalidade (o que pode mesmo constituir um crime – artigo 369º
CP). Por outro lado, a atuação do Ministério Público está sujeita a controlo por via judicial
ou hierárquica16.
Ainda assim, note-se que não é necessário que a realização da justiça penal passe pela
submissão a julgamento de todos os casos quantos forem indiciados. A Constituição não o
impõe e, atendendo à finalidade da aplicação das sanções criminais (ressocialização do
agente e tutela de bens jurídicos), poderá haver outros meios17 que os possam alcançar que
não seja necessariamente a aplicação de penas ou medidas de segurança.

Princípio da Acusação – para que a jurisdição possa intervir (já que não intervém ex officio),
é necessário que seja solicitada a sua intervenção: através da acusação.
Este princípio vem delimitar o objeto do processo, que se deverá manter idêntico durante
todas fases processuais. Assim, o arguido sabe do que tem de se defender e, nessa medida,
estamos perante uma garantia de defesa.
Poder-se-á afirmar que o próprio poder jurisdicional se encontra limitado: estando o objeto
definido no plano objetivo, só se poderá pronunciar pelos factos previstos na acusação; e
no plano subjetivo, só se pronunciará quanto àqueles que da acusação constarem.

16
Não aprofundaremos esta questão.
17
Soluções de oportunidade.

15

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Direito Processual Penal

Subcapítulo VIII – Princípios Relativos à Prossecução Processual

Princípio do Contraditório – este princípio encontra-se consagrado no artigo 32º, nº5 CRP
e repercute-se, essencialmente, na audiência de julgamento. Nela, as partes serão a
pronunciar-se sobre a prova já produzida, para oferecerem nova e para “debater” o
resultado delas.
Na fase de instrução, esta ideia de contraditório também acaba por existir, mas, contudo,
de forma menos evidente, isto é, com menos força. Esta é, aliás, uma fase guiada pelo
princípio do inquisitório, pelo que são raras as expressões de contraditório no seu seio –
ainda assim, cf. artigos 298º e 301º, nº2 CPP).

Princípio da Investigação – como dissemos, o sistema processual penal português não


adotou um modelo acusatório puro. Ora, o princípio da investigação é uma das
manifestações que reflete o modelo tendencialmente acusatório, mas não puramente
acusatório.
Segundo este, compete ao tribunal investigar autonomamente e esclarecer os factos que
foram submetidos a julgamento, independentemente do contributo que venha a ser
prestado pelos outros sujeitos processuais. Por outras palavras, o facto de o tribunal ter o
poder-dever de investigar os factos alegados, não impede que o Ministério Público, o
assistente e o arguido produzam prova e a apresentem, podendo esta ser aproveitada; mas,
por outro lado, isto significa que o tribunal não está adstrito às provas que as partes
carrearem para o processo.
A importância deste princípio é extrema, na medida em que, muitas vezes, as partes não
gozam dos meios técnicos e financeiros suficientes para apresentarem uma boa defesa ou,
até, para produzirem a prova necessária, o que os deixaria numa posição limitada e frágil
(mais do que o que já é, nomeadamente a do arguido).

Princípio da Suficiência – disposto no artigo 7º, nº1 CPP, este princípio consiste no seguinte:
o processo penal é promovido independentemente de qualquer outro e nele se resolvem
todas as questões que interessarem à decisão da causa.
Assim, em regra, no processo penal podem resolver-se outras questões, de natureza
diferente (civil, laboral, etc.), se interessarem para a decisão da causa crime. Isto é, sendo
necessário decidir previamente sobre outra questão que importe à decisão da causa crime,
o tribunal penal decidi-la-á.
Ainda assim, esta regra comporta exceções, nomeadamente as que constam do nº2, nº3 e
nº4 do artigo 7º CPP.
Estas questões que, inevitavelmente, acabam por afetar a decisão sobre o mérito da causa
e, por isso, têm previamente de ser decididas, denominam-se questões prejudiciais
(consistem em pressupostos substantivos da própria decisão da questão prejudicada,
fazendo parte do juízo da própria decisão sobre o mérito da questão principal do processo
em que surgem).

16

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Direito Processual Penal

A título exemplificativo, atentemos nos crimes previstos nos artigos 372º e seguintes CPP:
para averiguarmos um destes tipos foi preenchido por uma qualquer conduta, temos de
concluir, previamente, se o agente é ou não funcionário público.
Como características da prejudicialidade apontam-se as seguintes: antecedência lógica-
jurídica – a decisão da questão prejudicial condiciona logicamente a decisão da questão
prejudicada; autonomia – na medida em que é idónea para constituir objeto de um
processo autónomo; necessidade – a resolução prévia da questão prejudicial é
indispensável à resolução da questão prejudicada.
Neste sentido, podemos destacar questões prejudiciais de três tipos: questões criminais em
processo penal (cf. artigo 367º CP); questões criminais em processo não penal (cf. artigo 97º
CPP); questões não criminais em processo penal (questões de propriedade em crime de
furto – cf. artigos 203º e 204º CP).
O maior problema (processual) que se coloca neste âmbito, é o de saber qual é o tribunal
competente para conhecer da questão prejudicial. Não obstante a questão ser autónoma e
de natureza diferente e, por isso, em princípio, ser competente tribunal diverso do
competente para o julgamento da questão prejudicada, certo é que, por várias razões, de
entre elas a conexão entre ambas as questões e a celeridade processual, pode ser
conveniente que a questão prejudicial seja decidida pelo tribunal competente para a
questão prejudicada.
O nosso sistema, neste contexto, adota um sistema misto, isto é, impõe a devolução
obrigatória de algumas questões prejudiciais, admitindo que outras sejam decididas no
mesmo tribunal e, assim, no tribunal competente para a questão prejudicada.

Então, temos duas hipóteses: ou a questão prejudicial é julgada no tribunal competente


para a questão prejudicada e, aí, não existe prejudicialidade processual (questões
prejudiciais impróprias); ou a questão prejudicial é julgada em tribunal diverso do tribunal
competente para a questão prejudicada e, nesse caso, a questão dá origem a uma
prejudicialidade processual – o processo principal será suspenso para aguardar a decisão da
questão prejudicial no processo próprio (questões prejudiciais próprias).

O Código Processual Penal português consagrou, no artigo 7º, nº1, a possibilidade de o


tribunal competente para a questão prejudicada conhecer, igualmente, da questão
prejudicial (e nele se resolvem todas as questões que interessarem à decisão da causa)18.
Por sua vez, no nº2 é consagrada a possibilidade de o processo ser remetido para outro
tribunal, quando: a questão não possa ser convenientemente resolvida no processo penal –
esta inconveniência do julgamento da questão prejudicial deve ser apreciada em concreto19,
tendo em conta a índole da questão, a sua complexidade, a adequação ou não da estrutura
do processo penal para a sua válida solução, etc. Assim, em regra, a prejudicialidade será

18
Falamos, por isso, que a regra é a da autossuficiência do processo penal.
19
Luís Osório defende que o que irá influir nesta análise será, essencialmente, a forma de processo.

17

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Direito Processual Penal

imprópria e só se não puder ser convenientemente resolvida é que remetida para tribunal
e processo próprios (prejudicialidade própria)20.
A suspensão do processo pode ser requerida pelo Ministério Público, pelo assistente ou
pelo arguido (nº3, artigo 7º CPP) ou ser ordenada oficiosamente pelo tribunal. O prazo da
suspensão deverá ser marcado pelo tribunal e poderá ser prorrogado até um ano se a
demora na decisão não for imputável ao assistente ou ao arguido (nº4). Esgotado o prazo
sem que a questão prejudicial tenha sido resolvida, ou a ação não tiver sido proposta no
prazo máximo de um mês, a questão é decidida no processo penal.
A resolução da questão substantiva prejudicial21 no processo penal, porque decidida
incidenter tantum, só terá efeitos no processo de que é objeto22.

Princípio da Celeridade – esta exigência decorre do artigo 32º, nº2 da Constituição da


República Portuguesa. A celeridade processual é uma imposição que resulta da necessidade
de tutelar, prima facie, os interesses e posição do arguido, mas que, também, é imposta em
virtude das exigências comunitárias e do ofendido.
Na verdade, o arguido, durante o processo, é alvo de estigmatização por parte da sociedade
(que resulta do facto de estar a ser julgado), vê a sua vida pessoal e profissional
condicionada e, quanto mais longo for o processo, mais despesas com honorários terá, o
que o levará, não-raras vezes, à bancarrota. Por outro lado, um processo muito prolongado,
implica o enfraquecimento das garantias de defesa do arguido: na verdade, a maior duração
do processo coloca, desde logo, em causa a presunção de inocência.
Por sua vez, os interesses do ofendido só serão bem tutelados, caso o procedimento penal
seja célere: um processo moroso não o fará esquecer do mal causado pelo crime e,
outrossim, não irá confiar na sociedade enquanto não for feita Justiça.
A sociedade, por seu lado, necessita que a Justiça seja feita para que, dessa forma, se
consiga repor a paz. De outro modo, arrastando-se o processo, gera-se a ideia de
impunidade e descrédito na Justiça.
A lei estabelece prazos para a duração das fases processuais. Contudo, não sanciona a sua
violação23, pelo que, muitas vezes, o que sucede é que esses prazos são desrespeitados,
como consequência do desleixo das autoridades judiciais.

Princípio da Economia Processual – este princípio impõe que não sejam praticados atos
inúteis e desnecessários e vale para todas as fases processuais.
Visa-se, nomeadamente, o máximo rendimento processual com o mínimo custo; e, por
outro lado, a celeridade processual (e, assim, que o processo se protele em virtude da
prática de atos desnecessários e que em nada abonam ou contribuem para a descoberta da
verdade).

20
Fernando Torrão aponta três requisitos: existência de um crime; existência de uma questão não
penal; e a questão não penal (prejudicial) não possa ser convenientemente resolvida no processo penal.
21
A solução vale tanto para as questões prejudiciais próprias como para as questões prejudiciais
impróprias.
22
Isto é o mesmo que dizer que não tem efeitos fora do processo.
23
Ainda assim, existem meios próprios para a fiscalização do cumprimento dos prazos (artigos 105º, nº2
e 108º ss. CPP), mas não muito eficazes.

18

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Subcapítulo IX – Princípios Relativos à Prova

Princípio in Dubio Pro Reo – trata-se, desde logo, da consagração do princípio da presunção
de inocência, mas no que respeita à prova.
Isto quer dizer que qualquer caso de non liquet deve ser valorado a favor do arguido. Assim,
em caso de dúvida, não obstante o esforço feito para provar as alegações constantes da
acusação, o arguido deverá ser absolvido da mesma (e não condenado). Admitir-se o
contrário e, portanto, a valoração do non liquet contra o arguido, seria um atentado à
dignidade da pessoa humana.
Se o tribunal não conseguir provar os factos, deve considerar a acusação não provada e,
por conseguinte, não aplicar qualquer sanção ao arguido, absolvendo-o.

A presunção de inocência tem, ainda, no âmbito probatório, outras implicações: ao arguido


é concebido o direito ao silêncio – se o arguido se presume, naturalmente que também se
terá de presumir que o arguido pode nada saber quanto aos factos alegados na acusação.
Daí que lhe seja concedido o direito a ficar calado.
No processo inquisitório, a confissão era considerada a rainha das provas, pelo que se
recorria, com frequência, à tortura para que, dessa forma, o arguido confessasse os factos
de que era acusado. Ora, a tortura, muitas vezes, assumir contornos inimagináveis de dor e
sofrimento, o que levava a que muitos inocentes confessassem factos que não tinham
cometido;
E o direito à não autoinculpação – o arguido não pode ser obrigado a carrear para o
processo factos que o incriminem (não é exigível que qualquer pessoa contribua
voluntariamente para a sua condenação).

Princípio da Prova Livre – este princípio não é sinónimo de arbítrio. O julgador deve formar
a sua convicção, de forma imparcial e atento à realidade objetiva que representa, através
dos factos, alegações, meios de prova utilizados, etc., e sem ceder a pressões exteriores,
venham donde vierem. E, nesse sentido, o artigo 127º CPP dispõe que a prova é apreciada
segundo as regras da experiência e a livre convicção da entidade competente.

Princípio da Investigação ou da Verdade Material – conforme dissemos, o tribunal está


vinculado a um poder-dever de investigação oficiosa. Isto significa, em primeiro termo, que
o tribunal não se encontra vinculado e, até, adstrito às provas que as partes (acusação e
defesa) carreiem para o processo. A fase de instrução é, aliás, uma fase guiada pelo princípio
do inquisitório.
Deste modo, o tribunal deverá recorrer a todos os meios de prova que achar convenientes
e necessários para conseguir alcançar a verdade histórica dos factos24.
Este poder-dever deriva da necessidade de procurar a verdade material, não bastando a
verdade hipotética que, em todo o caso, resultasse das provas apresentadas pelas partes. É

24
Ao contrário do que sucede no processo civil, no processo penal não existe ónus da prova.

19

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Direito Processual Penal

necessário que, considerando a natureza das sanções penais, se procure uma verdade
histórica – a verdade material.

Subcapítulo X – Princípios Relativos à Forma

Quando nos referimos à forma dos atos processuais, queremos dizer, nas palavras de
Germano Marques, os requisitos de caráter instrumental exigidos por lei para que se
produzam os efeitos jurídicos dos atos.

Princípio da Publicidade – a ideia de publicidade do processo surgiu com as reformas


liberais, e com o intuito de combater a obscuridade que era características dos ideais
absolutistas e, em concreto, do processo inquisitório.
Este princípio resulta dos artigos 86º e seguintes do CPP, impondo que os atos processuais
e, em termos mais amplos, todas as fases processuais sejam alvo de transparência e
publicidade (caráter público)25. Contudo, nomeadamente, a fase de Inquérito pode ser
submetida a segredo de justiça (artigos 86º, nº2 e nº3 CPP), de modo a acautelar a eficácia
da investigação e dos direitos dos sujeitos processuais.

Princípio da Oralidade – este princípio significa essencialmente que só as provas produzidas


ou discutidas oralmente na audiência de julgamento podem servir de fundamento à decisão.
Isto não impede que os atos praticados oralmente fiquem documentados.
Entre nós, este princípio assume especial importância relativamente à audiência de
julgamento (artigo 96º, nº1 CPP).
Em estreita ligação com este imperativo, encontra-se o Princípio da Imediação – deste
decorre que a decisão jurisdicional só pode ser proferida por quem tenha assistido à
produção de provas e à discussão da causa pela acusação e pela defesa e, outrossim, que se
deve dar preferência aos meios de prova que se encontrem em relação mais direta com os
factos probandos.
Os atos processuais, tanto os orais com os escritos, devem ser prestados em língua
portuguesa, sob pena de nulidade (artigo 92º, nº1 CPP).

Princípio da Concentração – os atos processuais devem ser praticados numa só audiência


ou em audiências próximas no tempo para que as alegações orais (e outros) não se apaguem
da memória do juiz (artigo 328º CPP e artigo 365º, nº1 CPP).
Caso se tenha se adiar uma audiência, esta não pode adiada por mais de 30 dias (artigo
328º, nº6 CPP), sem prejuízo das exceções previstas a esta regra.

25
E, neste âmbito, os meios que mais contribuem para a publicidade exigida são os meios de
comunicação social.

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Direito Processual Penal

Subcapítulo XI – Princípio da Proibição de Perseguição Penal Múltipla (ne bis in idem)

Este princípio encontra-se consagrado no artigo 29º, nº5 CPP26 e, em Direito Processual
Penal, deve ser entendido como a garantia conferida a todos contra perseguições arbitrárias
e infundadas do Estado, com o intuito de, custe o que custar, condenar uma pessoa.
Assim, não é permitido repetir um processo com o mesmo objeto de processo anterior – e,
aqui, tenha-se em conta os limites do caso julgado. O critério de delimitação desse objeto
consiste em tudo o que poderia ter sido decidido em processo anterior não pode ser repetido.

Capítulo IV – Fontes do Direito Processual Penal

Atualmente, é comummente admitida a existência de um conjunto de princípio


suprapositivos que estabelecem diretrizes e, talvez, as linhas principais com que o Direito
Processual Penal se há de coser. Certo é que a existências destas ideias basilares é comum
a todos os ramos de Direito e ao Direito em si, como ramo de ciência jurídica.
Ora, estes princípios consagram regras jurídicas, não escritas, mas cuja existência é aceite
pelos tribunais, sem necessidade de serem objeto de positivação, isto é, de formulação por
uma fonte formal de Direito. A validade destes princípios subjaz ao seu conteúdo, não sendo
relevante a forma que adquirem.
No âmbito do processo penal, o estudo destes princípios assume uma maior relevância. Na
verdade, por força do artigo 4º CPP, a integração de lacunas faz-se por aplicação analógica
das disposições do Código, em primeiro lugar, e pela aplicação subsidiária das normas de
processo civil e, na falta delas, aplicam-se os princípios gerais do processo penal.

Fontes Formais

Constituição da República Portuguesa – muitas normas constantes da Constituição (Lei


Fundamental) respeitam, direta ou indiretamente, ao processo penal. Neste sentido,
destacamos os artigos 32º; 13º, nº1; 20º; 25º; 27º; 28º; 29º, nº5 e nº6; 34º; 35º; 38º; 130º;
157º e 196º; 164º e 165º; 209º, 215º e 219º; 277º e seguintes.
Em matéria de direitos, liberdades e garantias, as entidades públicas e privadas encontram-
se, desde logo, vinculados porque os preceitos que a eles dizem respeito gozam de
aplicabilidade direta (artigo 18º, nº1 CRP).
Ao processo penal, cabe a tarefa de tutelar os valores defendidos pela Lei Fundamental e,
por isso, não existe nenhum outro ramo do Direito que sofra tanto com as alterações
constitucionais.
Por outro lado, a Constituição, em relação à maioria das garantias que consagra, deixa um
poder de conformação ao legislador ordinário para regulá-las. No entanto, nessa atividade
e conformação, o legislador não poderá afetar o núcleo essencial dos direitos que são
conferidos pela Constituição.

26
E foi, inclusivamente, alvo de análise em Teoria da Infração Penal.

21

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Direito Processual Penal

Normas de direito internacional – por força do artigo 8º CRP, observadas as condições nele
referidas, as normas de direito internacional, vinculativas do Estado Português, vigoram na
ordem interna com a mesma relevância das normas de direito interno.
Neste sentido, relevam, principalmente, alguns dos seguintes textos: Declaração Universal
dos Direitos do Homem, o Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos, o Tratado da
União Europeia, entre outros.
Nota, também, para o disposto no artigo 16º, nº2 CRP: os preceitos constitucionais e legais
relativos aos direitos fundamentais devem ser interpretados e integrados de harmonia com
a Declaração Universal dos Direitos do Homem.
A Convenção Europeia dos Direitos do Homem assume, neste contexto, uma especial
relevância: para além de ser imediatamente aplicável pelos tribunais portugueses, institui
órgãos próprios de tutela internacional contra as violações que se verifiquem no interior dos
Estados signatários (artigos 19º e seguintes).

O Código de Processo Penal assume-se como a mais importante fonte do Direito Processual
Penal. Contudo, no plano interno, existe legislação avulsa vigente que importa ter em conta
– falamos, por exemplo, do DL n.º 433/82, de 27 de outubro (ilícito de mera ordenação
social); entre outros.

Fontes Não Formais

Neste plano, situa-se a jurisprudência e a doutrina.


Quanto à jurisprudência, é usual que os tribunais, para fundamentarem as suas decisões,
recorram a outras decisões já proferidas sobre a mesma matéria. Destacam-se as decisões
judiciais proferidas nos recursos extraordinários para fixação de jurisprudência (artigos 437º
e seguintes do CPP) e os acórdãos do Tribunal Constitucional.
Relativamente à doutrina27: trata-se, igualmente, de uma fonte não formal do Direito
Processual Penal, mas que, no entanto, assume grande relevância, nomeadamente em fases
de reforma legislativa.

Capítulo V – Validade da Lei Processual Penal

Validade Temporal
Esta matéria encontra-se regulada no artigo 5º CPP. Ora, o nº1 estabelece que a lei
processual penal é de aplicação imediata, sem prejuízo da validade dos atos realizados na
vigência da lei anterior. Donde, a lei penal aplicar-se-á, regra geral, aos processos que se
encontrarem pendentes – vigora a regra da aplicação imediata da lei.
Todavia, o nº2 do artigo 5º CPP vem estabelecer algumas exceções. E, assim, a lei processual
penal não se aplica aos processos iniciados anteriormente à sua vigência quando da sua
aplicabilidade imediata possa resultar: o agravamento sensível e inevitável da situação

27
“Opiniões ou pareceres dos jurisconsultos em que estes desenvolvem, em bases científicas ou
doutrinárias, as suas conceções sobre a interpretação ou integração do direito”.

22

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Direito Processual Penal

processual do arguido, nomeadamente uma limitação à sua defesa (é evidente a


preocupação com os direitos do arguido, daí que se a lei for prejudicial para este, não se
aplique de forma imediata – artigo 32º, nº1 CRP); ou quebra da harmonia ou unidade dos
vários atos do processo (esta exceção resulta de preocupações processuais,
nomeadamente).

Validade Espacial
Neste sentido, convoca-se o artigo 6º CPP. Como regra, vigorará o Princípio da
Territorialidade (ou lex fori), segundo o qual a lei processual penal portuguesa é aplicável
em território português nos limites definidos pelos tratados, convenções e regras do direito
internacional.
Nota: Poderá suceder que, ao abrigo do artigo 6º do Código Penal, um tribunal português
aplique a lei penal de outro país e aplicar-se, simultaneamente, a lei processual penal
portuguesa (artigo 6º CPP).

Capítulo VI – Sujeitos do Processo

Para que o processo penal se desenrole, é necessário que sejam praticados, em sede devida,
um conjunto de atos. Ora, esses atos serão praticados pelos intervenientes processuais:
desde a queixa (sendo caso disso) até à prolação da sentença.
De entre todos os participantes processuais, podemos distinguir aqueles que praticam atos
singulares, cujo conteúdo se esgota na própria atividade (os participantes processuais),
daqueles que são titulares de direitos autónomos de conformação da concreta tramitação
do processo, em vista da sua decisão final (os sujeitos processuais). Assim, os sujeitos
processuais são os intervenientes que participam de forma ativa e durante todo o processo,
intervindo de forma preponderante na decisão final. Desse modo, vislumbra-se que sejam
sujeitos processuais o juiz, o Ministério Público, o arguido, o assistente e o defensor; e
participantes processuais os agentes policiais, as testemunhas, entre outros.
Dito isto, importa perceber se o nosso processo é, ou não, um processo de partes.
Em primeiro lugar, importa delimitar o conceito de partes. A legislação processual penal
não nos concede uma definição de partes28, mas, e socorrendo-nos das palavras de
Germano Marques, parte é o “sujeito processual que pode pedir e o que pode contradizer
uma pretensão”.
Diríamos nós que, conforme o Princípio do Contraditório, impõe a existência de um
processo de partes, pelo menos no sentido de que defesa e acusação têm as mesmas
oportunidades ao longo do processo e, por isso, que poderão, nas mesmas condições,
defender a sua posição.
Todavia, o nosso processo não está estruturado para ser, todo ele, um processo de partes.
Desde logo, na fase do Inquérito acusação e defesa não gozam dos mesmos direitos, isto é,
não há uma parificação entre as partes. O Ministério Público domina esta fase, dispondo

28
Ao contrário do que sucede em processo civil (cf. artigo 11º CPC).

23

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Direito Processual Penal

dos meios processuais que lhe aprouver, e o arguido não goza de grandes poderes nesse
momento.
Na fase instrutória, o juiz pode, caso o entenda, não proceder a quaisquer atos instrutórios
requeridos pela defesa e assentar a sua decisão nas provas judiciárias oferecidas pela
acusação e recolhidas no inquérito (artigos 289º e 291º CPP). Donde, também não podemos
afirmar que acusação e defesa gozem das mesmas oportunidades. A paridade exigida por
um processo de partes, nesta fase, só se verifica aquando do debate instrutório.
Na fase de julgamento e de recurso, podemos afirmar que já estamos perante um
verdadeiro processo de partes, na medida em que são fases marcadas pelo debate entre
acusação e defesa.
Por outro lado, o juiz não assume um papel passivo ao longo de todo o processo, pelo que,
também por essa razão, teríamos de negar a existência de processo de partes no seio do
processo penal. Exemplo do papel ativo do juiz é o que sucede na fase instrutória, onde este
sujeito recorre aos meios probatórios que achar conveniente para o apuramento da verdade
material, o que releva o seu papel fundamental na condução do processo e, outrossim, que
não é figura passiva na instrução do mesmo. É que, conforme dissemos, e ao abrigo do
Princípio da Investigação, o juiz não se encontra adstrito às provas que as partes trouxerem
para o processo.

No âmbito do processo penal, a igualdade material de “armas” é um bom princípio, mas


que, raramente, se verifica ao longo da marcha processual. Na prática, acaba por ser uma
utopia.
A posição do arguido encontra-se limitada, em resultado da impossibilidade de poder
investigar livremente, da sua sujeição às medidas de coação que possam ser requeridas pelo
Ministério Público, na fase do Inquérito, e porque, muitas vezes, lhe é vedado o acesso aos
autos.

Subcapítulo I – Do Juiz e do Tribunal

Entramos, agora, no estudo da jurisdição – da atividade ou função de administração da


justiça.
Este poder jurisdicional consubstancia um poder-dever do Estado, exercido através dos
tribunais e encontra-se intimamente ligado ao direito processual e ao direito político.
A jurisdição penal abrange um conjunto de poderes e deveres com vista à declaração de
existência ou inexistência de um crime e, por conseguinte, à imputação de responsabilidade
penal ou não ao arguido e, verificando-se os pressupostos de aplicação de uma pena ou
medida de segurança, a sua aplicação.
A função jurisdicional penal divide-se pelo Tribunal Constitucional, pelos tribunais militares
em tempo de guerra e pelos tribunais judiciais – artigos 209º, 211º, 213º e 280º CRP. Os
restantes tribunais não têm jurisdição penal.
O Tribunal Constitucional tem, nomeadamente, competências ao nível da fiscalização da
constitucionalidade (artigos 277º e seguintes CRP), pelo que não intervém em relação à

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Direito Processual Penal

decisão a proferir ou proferida no caso concreto e a sua intervenção tem de ser requerida
(por quem a lei reconheça legitimidade)29.
Os tribunais militares apenas poderão ser constituídos durante a vigência do estado de
guerra e, quando constituídos, têm competência para o julgamento de crimes de natureza
estritamente militar (artigo 213º CRP). Em tempos de paz, os tribunais competentes para o
julgamento destes crimes (de natureza estritamente militar) são os tribunais comuns,
embora na sua composição participem juízes militares30.
Apontadas as exceções, a restante jurisdição penal pertence aos tribunais judiciais (artigos
211º CRP e 8º, 9º CPP).

Subtítulo I – Organização dos Tribunais Judiciais

Desde logo, dos artigos 210º e 211º CRP resulta que são tribunais judiciais o Supremo
Tribunal de Justiça (STJ), os Tribunais da Relação (2ª Instância) e os Tribunais de 1ª Instância
(em regra, os tribunais de comarca). O órgão superior da hierarquia dos tribunais judiciais é
o Supremo Tribunal de Justiça.
Os tribunais judiciais de 1ª Instância organizam-se segundo a matéria, o território e a
estrutura. Em função da matéria, serão de competência especializada e de competência
genérica (artigo 80º, nº2 LOSJ31); em função do território, organizam-se por comarca, mas
podem existir tribunais com competências para uma ou mais comarcas ou sobre áreas
especialmente definidas na lei; quanto à estrutura, os tribunais organizam-se como tribunal
singular, tribunal coletivo ou tribunal de júri (artigo 85º LOSJ).
O tribunal coletivo é composto por três juízes (artigo 133º LOSJ); o tribunal de júri é
composto pelos juízes do tribunal coletivo e por quatro jurados efetivos e quatro suplentes
(artigo 136º LOSJ); o tribunal singular é composto por um juiz (artigo 132º LOSJ).

À medida de jurisdição atribuída a cada tribunal chama-se competência. O Código Processo


Penal autonomizou três critérios para se proceder à distribuição da competência material:
material, funcional e territorial.
Relativamente à competência internacional: os tribunais portugueses podem ter de julgar
crimes praticados no estrangeiro a que seja aplicável a lei portuguesa.
Na verdade, pode suceder que, por força de convenções internacionais, os tribunais
portugueses adquiram competência para julgamento de determinados crimes que pela lei
processual comum não lhe caberia e pode ocorrer que, ao abrigo de convenções, seja
subtraída competência a tribunais portuguesas que, em princípio, lhes caberia.
As sentenças estrangeiras poderão ter eficácia em Portugal, mas só após serem revistas e
confirmadas (artigo 234º, nº1 CPP). Neste contexto, valerá o disposto na lei processual civil,
com as limitações consagradas nos artigos 234º a 240 CPP.

29
Recordar noções de Direito Constitucional.
30
Ver Código de Justiça Militar (artigos 109º).
31
Lei da Organização do Sistema Judiciário.

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Direito Processual Penal

Subtítulo II – Competência dos Tribunais

Quanto à competência material e à competência funcional:


O Código de Processo Penal trata destas competências nos artigos 10º a 1832, ainda que
não as autonomize, tratando-as como se fossem uma só. Ainda assim, importa distingui-las.
A competência material delimita a jurisdição penal em função da gravidade da pena
aplicável, da natureza dos crimes ou da qualidade dos arguidos.
Por seu turno, a competência funcional delimita a jurisdição dos diferentes tribunais
materialmente competentes dentro do mesmo processo e segundo as fases ou graus e para
a prática de determinados atos dentro de cada fase ou grau de jurisdição.
Neste contexto, o entendimento é que a competência funcional abarca a competência em
razão da hierarquia (cf. artigo 137º LOSJ)33. Em breve trecho, afigura-se oportuno dizer que
a regra é a de que os tribunais que funcionam em 1ª Instância são (qual sejam) os Tribunais
de Comarca. Contudo, algumas exceções podem apontar-se e, sem cairmos na redundância
que seria transcrever o texto legal para este documento, remetemos para as hipóteses
previstas no artigo 11º, nº3 e nº4 CPP e no artigo 12º, nº2 e nº3 CPP. Quando uma situação
se enquadre em alguma previsão das normas indicadas, funcionará (e, diga-se, mais uma
vez, esta é a exceção) como 1ª Instância, o Supremo Tribunal de Justiça e o Tribunal da
Relação, respetivamente (neste sentido, é comum falar-se em competência em razão da
qualidade do sujeito34).
Relativamente à competência material, e quando a tarefa seja a de se determinar a
competência em 1ª Instância, devemos atentar a dois critérios: um quantitativo, que atente
à gravidade da pena aplicável ao crime (os artigos 14º, nº2, alínea b) CPP e 16º, nº2, alínea
b) CPP) consagram o critério quantitativo); outro qualitativo, que, por sua vez, atende à
espécie do crime ou à natureza de algum dos seus elementos (os artigos 14º, nº1 e nº2,
alínea a) CPP e 16º, nº2, alínea a) CPP consagram o critério qualitativo).
Abstratamente, e segundo as normas que consagram o critério quantitativo, serão
competentes para os crimes em que não se deva aplicar uma pena máxima superior a cinco
anos – os tribunais singulares (cf. artigo 16º, nº2, alínea b) CPP); para os crimes em que se
deva aplicar uma pena máxima superior a cinco anos – os tribunais coletivos (cf. artigo 14º,
nº2, alínea b) CPP); e para os crimes em que se deva aplicar uma pena máxima superior a
oito anos – o tribunal de júri (cf. artigo 13º, nº2 CPP). Portanto, o critério é o da pena máxima
abstratamente aplicável.
Relativamente ao critério qualitativo: este, como vimos, atende à natureza do crime ou dos
elementos que o integram. Nesse sentido, o artigo 14º, nº1 e nº2, alínea a) CPP vem
estabelecer um conjunto de crimes que, independentemente da pena máxima
abstratamente aplicável, devem ser julgados pelo tribunal coletivo: o nº1 refere-se,
nomeadamente, aos crimes compreendidos entre os artigos 240º a 246º CP e os artigos

32
Germano Marques defende que entre os artigos 10º a 17º, o Código de Processo Penal regula
simultaneamente a competência material e a competência funcional.
33
Ainda assim, aquando da resolução de hipóteses práticas, não devemos descurar a análise deste nível
de competência.
34
Ao lermos as normas, facilmente compreendemos o porquê desta designação.

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Direito Processual Penal

308º a 346º CP e, também, aos que estiverem previstos na Lei Penal Relativa às Violações
do Direito Internacional Humanitário (Lei n.º 31/2004, de 22 de julho); o nº2, alínea a)
refere-se aos crimes que, não devendo ser julgados pelo tribunal singular (cf. artigo 16º,
nº2, alínea a) CPP), sejam dolosos (donde, de fora do escopo desta previsão normativa estão
os crimes negligentes) ou agravados pelo resultado e desde que o elemento morte integre
o tipo35; e o artigo 16º, nº2, alínea a) CPP estabelece os crimes que, atendendo ao critério
qualitativo, devam ser julgados pelo tribunal singular: refere-se aos crimes compreendidos
entre os artigos 347º a 358º CP.
E, neste momento, importa fazer referência ao artigo 13º CPP, em relação ao tribunal de
júri. Prima facie, este tribunal só funciona mediante requerimento do Ministério Público, do
assistente ou do arguido, ainda que seja material e funcionalmente competente para
conhecer e julgar um determinado crime. Depois, estabelece o nº1 que este tribunal é
competente para julgar os crimes a que se refere o artigo 14º, nº1 CPP (critério qualitativo);
o nº2 vem consagrar um critério quantitativo: é que, excluídos os crimes que devam ser
julgados pelo tribunal singular (cf. artigo 16º, nº2, alínea a) CPP), o tribunal de júri é
competente para os crimes cuja pena máxima, abstratamente aplicável, seja superior a oito
anos de prisão.
O requerimento para intervenção do tribunal de júri é irretratável e deve ter lugar no prazo
para a dedução da acusação, quando for do Ministério Público ou do assistente, e no prazo
para requerimento da instrução, quando for o arguido (artigo 13º, nº3 CPP).
Finalmente, e ainda que o artigo 13º CPP não se oponha a tal, o tribunal de júri não tem
competência para julgar os crimes de terrorismo e de criminalidade altamente organizada
(cf. artigo 1º, alínea m) CPP). Esta exceção consta do artigo 207º da Constituição da
República Portuguesa e do artigo 137º LOSJ.
Do que ficou dito relativamente à competência material, resulta, desde logo, o seguinte: o
critério quantitativo sucumbe perante o critério qualitativo. Vale por dizer que, atendendo
à natureza especial do critério qualitativo, este prevalecerá (quando, eventualmente existe
um qualquer conflito de competência) sobre o critério quantitativo. Na verdade, parece-nos
que o legislador não se bastou com a atribuição da competência em função de um critério
quantitativo (atento apenas à gravidade da pena abstratamente aplicável), entendendo
que, em razão dos elementos qualificativos de alguns tipos, a competência para o seu
julgamento (e, por supuesto, para o seu conhecimento) deveria ser atribuída através de um
critério (especial) qualitativo, que atendesse a tais circunstâncias qualificativas.
Quanto à prerrogativa do artigo 16º, nº3 CPP, o Ministério Público só poderá socorrer-se
dela, atribuindo competência ao tribunal singular se, quanto aos crimes previstos no artigo
14º, nº2, alínea b) CPP, entender que a estes, concretamente, não será aplicável uma pena
superior a cinco anos (ainda que abstratamente lhes corresponda uma pena máxima
superior a cinco anos). E, por isso, uma vez exercida esta possibilidade, o tribunal singular
não poderá aplicar uma pena superior a essa (i. é., superior a cinco anos) – nº4 do mesmo
artigo.

35
Estes crimes, em que o tipo subjetivo exigido é o dolo e o elemento morte faça parte do tipo, são
tradicionalmente designados por “crimes de sangue”. – Casos Práticos Direito Penal e Direito Processual
Penal, 6ª Edição, Fernando Torrão, 246-247.

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Direito Processual Penal

Dito isto, importa fazer referência à competência funcional. Na verdade, conforme


dissemos, os artigos 10º a 18º não autonomizam a competência funcional face à material.
Ainda assim, certo é que existem tribunais dotados de uma composição plural e, por isso,
releva perceber quais são as competências dos membros que o compõem: neste sentido,
existem algumas normas que devem ser consideradas como, por exemplo, os artigos 301º,
312º, 345º, 372º, nº1 e nº2 CPP, entre outras. É que a violação das normas sobre a
competência dos juízes e jurados tem-se como uma violação da competência do próprio
tribunal.

A competência dos tribunais da Relação encontra-se prevista no artigo 12º CPP. A


competência destes tribunais encontra, internamente, subdividia (ou distribuída): a
competência do plenário das relações (artigo 12º, nº1 CPP e artigo 72º LOSJ); a competência
dos presidentes das relações (artigo 12º, nº2 CPP) – nomeadamente, conhecer dos conflitos
de competência entre secções; a competência das secções criminais das Relações (artigo
12º, nº3 CPP) – destaca-se a competência para julgar os processos por crimes cometidos
por juízes de direito, procuradores da República e procuradores-adjuntos (competência em
razão da qualidade do sujeito); competência dos presidentes das secções criminais das
relações (artigo 12º, nº5 CPP); e, ainda, a competência relativa à instrução que, por força do
artigo 12º, nº6 CPP, cabe a cada juiz das secções criminais das relações.
O mesmo sucede com a competência do Supremo Tribunal de Justiça, ao abrigo do artigo
11º CPP: do artigo 11º, nº1 CPP resulta que o plenário do STJ tem competência para julgar
recursos de decisões proferidas pelo pleno das secções e exercer as demais competência que
lhe sejam atribuídas por lei; a competência do Presidente do Supremo Tribunal de Justiça (artigo
11º, nº2 CPP); a competência do pleno das secções criminais do STJ (artigo 11º, nº3 CPP) –
destaca-se a competência para julgar o Presidente da República, o Presidente da Assembleia da
República e o Primeiro-Ministro pelos crimes que pratiquem no exercício de funções; a
competência das secções criminais do STJ (artigo 11º, nº4 CPP) – destaca-se a competência para
julgar processos por crimes cometidos por juízes do Supremo Tribunal de Justiça e das relações
e magistrados do Ministério Público que exerçam funções junto destes tribunais (competência
em razão da qualidade do sujeito); a competência dos presidentes das secções criminais do
Supremo Tribunal de Justiça (artigo 11º, nº6 CPP); e, ainda, a competência relativa à instrução
que compete a cada juiz das secções criminais do STJ, nos termos do artigo 11º, nº7 CPP.
Desta forma, e a título exemplificativo, o Supremo Tribunal de Justiça funcionará como
tribunal de 1ª Instância na hipótese prevista no artigo 11º, nº3, alínea a) CPP: quando julgue o
Presidente da República por um crime praticado no exercício das suas funções; funcionará
como tribunal de recurso quando se pretenda recorrer de uma decisão proferida pela Relação,
nos termos do artigo 11º, nº4, alínea b) CPP; e, por último, funcionará como tribunal de
instrução (artigo 11º, nº7 CPP), por exemplo, aquando do julgamento de um crime proferido
pelo Presidente da República (cf. artigo 11º, nº3, alínea a) CPP): proferindo despacho de
pronúncia ou não pronúncia.

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Competência Territorial:
Neste contexto, a regra geral é a de que é competente para conhecer de um crime o
tribunal da área onde se tiver verificado a consumação (artigo 19º, nº1 CPP)36. Na ratio
desta regra está a ideia de uma maior facilidade para obtenção de provas (associada às
garantias do arguido) e pelas maiores exigências de reafirmação da paz social no local onde
se verificou a lesão do bem jurídico tutelado.
Esta regra deparava-se com algumas dificuldades e objeções: a mais importante é,
nomeadamente, relativamente aos crimes cujos atos de execução foram praticadas em
lugares muito distantes daquele em que veio ocorrer a consumação. E, por isso, o legislador,
tentando ultrapassar as dificuldades referidas, veio estabelecer um outro critério no nº2:
tratando-se de crime que compreenda como elemento do tipo a morte de uma pessoa, é
competente o tribunal em cuja área o agente atuou ou, em caso de omissão, deveria ter
atuado (crimes formais). E, portanto, para efeitos de determinação da competência
territorial, é irrelevante o local onde a morte se verificou.
Por outro lado, se um crime se consumar por um só ato que se prolonga no tempo, é
competente o tribunal onde tiver cessado a consumação – artigo 19º, nº3 CPP (crimes
permanentes – v.g., crime de rapto (artigo 161º CP)); ou se se consuma por atos sucessivos
e reiterados, o tribunal em cuja área se tiver praticado o último ato – artigo 19º, nº3 CPP
(v.g., o crime de favorecimento pessoal (artigo 368º CP)).
Para os crimes continuados, será competente o tribunal cuja competência lhe tiver sido
atribuída pelo mesmo artigo 19º, nº3 CPP (é competente o tribunal do local onde se tiver
praticado o último ato, mutatis mutandis, (…) o último crime). É que, para efeitos
processuais, o crime continuado (integrado por vários crimes que constituem a continuação)
deve ser considerado como um crime que se consuma por atos sucessivos.
Caso o crime não tenha chegado a consumar-se, é competente o crime onde tenha sido
praticado o último ato de execução ou, em caso de punibilidade dos atos preparatórios,
onde tiver sido praticado o último ato de preparação (artigo 19º, nº4 CPP).
Todas estas regras são gerais, pelo que nos resta, de modo a concluirmos a análise da
competência territorial, analisar as regras subsidiárias. São elas: se o crime for cometido a
bordo de navio ou aeronave, opera o artigo 20º CPP e, assim, é competente o tribunal da
área do porto ou do aeroporto português onde o agente se dirigir ou onde ele desembarcar;
ou, caso não se dirija para território português ou nele desembarque, ou se fizer parte da
tripulação, é competente o tribunal da área da matrícula (nº1); e, se estivermos perante um
caso não compreendido no nº1 e nº2, o tribunal da área onde houver chegado, em primeiro
lugar, a notitia criminis (nº3). Se a localização do crime for duvidosa ou desconhecida,
convoca-se o artigo 21º CPP e, dessa forma, caso se tenha determinado que o elemento
relevante se localizou em duas ou mais circunscrições territoriais, é competente qualquer
uma delas (nº1) ou, sendo a localização totalmente desconhecida, é competente o tribunal
onde tiver havido, em primeiro lugar, a notitia criminis (nº2). Se o crime for cometido no
estrangeiro, vislumbra-se a aplicação do artigo 21º CPP: em regra, é competente o tribunal
da área onde o agente tiver sido encontrado ou, se não tiver sido encontrado em Portugal,

36
Para os crimes materiais.

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Direito Processual Penal

o tribunal da área do seu domicílio (nº1); se não for determinar a competência ainda assim,
aplica-se o critério da notitia criminis, i. é., o tribunal em cuja área houve notícia do crime
em primeiro lugar. Quando o crime haja sido cometido em parte em Portugal e em parte no
estrangeiro, ou seja, nos casos previstos no nº2, é competente o tribunal da área onde, em
primeiro lugar, houve notícia do crime. Finalmente, e relativamente aos processos
respeitantes aos magistrados, aplica-se o disposto no artigo 23º CPP: e, assim, é competente
o tribunal da mesma hierarquia ou sede mais próxima, salvo tratando-se do Supremo
Tribunal de Justiça.

Competência por conexão:


Se atentarmos a tudo o que foi e ficou dito até este momento, concluiríamos (e bem) que
a regra geral, no seio do processo penal, é que a cada crime corresponde um processo, e
que para determinarmos quem poderá (ou não) conhecer e julgar estes processos, será
necessário recorrer às regras da competência material, funcional e territorial.
Porém, a lei processual penal admite exceções a esta regra, e se a verdade é que na maioria
das vezes, os crimes são julgados separadamente, em processos distintos, não deixa de ser
verdade, também, que, por vezes, atento a uma melhor prossecução da Justiça, é melhor
que vários crimes sejam apreciados e decididos conjuntamente. Para que tal possa suceder
é, no entanto, exigido que estejamos perante alguma das formas de conexão (neste
contexto, falamos de competência por conexão), das quais trataremos agora.
Esta matéria vem regulada nos artigos 24º e 25º CPP. Podemos apontar três formas de
conexão: a conexão subjetiva – vários crimes perpetrados pelo mesmo agente; vários
agentes terem participado no mesmo crime; conexão objetiva – vários crimes que
mantenham entre si uma especial ligação.
- Conexão subjetiva: esta forma de conexão existe nas hipóteses previstas nas alíneas a) e
b) do nº1 do artigo 24º e no artigo 25º CPP.
As alíneas a) e b) do artigo 24º CPP37 reportam-se às situações em que um mesmo agente
praticou vários crimes e se verificou alguma das seguintes condições: os crimes foram todos
cometidos através da mesma ação ou omissão (alínea a))38 – v.g., o agente que comete
vários homicídios através da explosão de uma bomba. Este preceito contempla,
nomeadamente, os casos de concurso efetivo ou ideal (cf. artigo 30º, nº1 CP); foram todos
cometidos na mesma ocasião ou lugar (alínea b) – v.g., o agente injuria várias pessoas na
mesma ocasião ou lugar; sendo uns causa ou efeito dos outros (alínea b) – v.g., o agente
comete o crime de roubo e, de seguida, um crime de homicídio porque a vítima denunciou
o roubo; destinando-se uns a continuar ou a ocultar outros (alínea b) – v.g., o agente comete
o crime de ocultação de cadáver depois de ter morto a pessoa39.

37
Não é necessário que os crimes sejam praticados pelo mesmo sujeito. Exige-se que entre os crimes
praticados exista uma conexão estreita de molde a que o processamento conjunto facilite a apreciação
de todos.
38
O alcance desta condição permite incluir no seu escopo os casos de aberratio ictus.
39
Todos os exemplos enunciados estão dispostos na página 197, ibidem.

30

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Direito Processual Penal

Cumpre alertar o aluno de que as condições prescritas em b) não são cumulativas.


Necessário é que um mesmo agente tenha cometido vários e se verifique uma das condições
previstas em b) ou em a).
O artigo 25º CPP admite haver, ainda, conexão subjetiva quando o mesmo agente tiver
praticado vários crimes cujo conhecimento seja da competência de tribunais com sede na
mesma comarca. Em causa estão razões de economia processual e a vantagem de o agente
ser julgado conjuntamente pelos vários crimes para efeitos de aplicação da pena única, nos
termos do artigo 77º CP.
Todas as hipóteses enunciadas até este momento consubstanciam um concurso de crimes
efetivo ou ideal (artigo 77º CP), uma vez que o mero concurso de crimes (aparente) não
determina a alteração das regras sobre a competência. Ainda assim, a existência de um
concurso de crimes efetivo não impõe que os vários crimes sejam julgados num mesmo
processo, uma vez que, para além disso, é necessário que se verifiquem as condições de
conexão de ordem processual. O que unicamente se impõe é que, no final, seja proferida
uma única sentença condenatória.

- Conexão objetiva: por sua vez, as alíneas c), d) e e) do artigo 24º CPP estabelecem casos
de conexão objetiva. Estaremos perante uma situação destas: se o mesmo crime tiver sido
praticado por vários agentes em comparticipação (alínea c)) – abrange os casos de
coautoria, de instigação e de cumplicidade no mesmo crime; se vários agentes tiverem
cometido diversos crimes em comparticipação, na mesma ocasião ou lugar, sendo uns causa
ou efeito dos outros, ou destinando-se uns a ocultar os outros (alínea d)) – afinal não é
necessário apenas que vários agentes tenham cometido diversos crimes em
comparticipação (conexão objetiva), exigindo-se que se verifique a conexão subjetiva (daí
que possamos considerar estas hipóteses como de conexão mista); se vários agentes
tiverem cometido diversos crimes reciprocamente na mesma ocasião ou lugar (alínea e)) –
são crimes cometidos reciprocamente aqueles em que o ofendido de um crime é agente do
crime em que o agente do primeiro toma nele posição de ofendido. A esta exigência alia-se
uma outra: a de que os crimes sejam reciprocamente praticados na mesma ocasião ou lugar
(enquanto autor deste documento tenho dúvidas quanto à oportunidade do que vou dizer
em seguida, mas talvez facilite a compreensão do que são os crimes reciprocamente
cometidos: na expressão do povo parada e resposta).

Nos termos do artigo 24º, nº2 CPP, a conexão só opera, caso os processos que se pretendam
julgar em conjunto, se situem, simultaneamente, na fase de inquérito, instrução ou
julgamento (em prol da celeridade processual). Na fase de instrução, quem determina a
conexão é o juiz de instrução e na fase de julgamento o juiz presidente.
Ainda que se verifiquem os requisitos atinentes à conexão, esta não é admitida entre
processos que sejam e processos que não sejam da competência do tribunal de menores,
por força do artigo 26º CPP.
Para todos os crimes determinantes de uma conexão, é organizado um só processo (artigo
29º, nº1 CPP). Uma vez instaurados processos distintos, procede-se à apensação de todos
aqueles aos quais respeitar a conexão (nº2).

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Direito Processual Penal

Todavia, caso se verifique alguma das situações previstas no artigo 30º CPP, o tribunal,
oficiosamente ou a requerimento do Ministério Público, do arguido, do assistente ou do
lesado, faz cessar a conexão e ordena a separação de algum ou alguns processos. Estas
situações são as seguintes: houver na separação um interesse ponderoso e atendível de
qualquer arguido, nomeadamente no não prolongamento da prisão preventiva (alínea a)) –
como não poderia deixar de ser, uma vez que uma das funções do processo penal é garantir
os direitos do arguido; a conexão puder representar um grave risco para a pretensão
punitiva do Estado, para o interesse do ofendido ou do lesado (alínea b)); a conexão puder
retardar excessivamente o julgamento de qualquer dos arguidos (alínea c)) – em causa estão
razões de celeridade processual que, como vimos, constitui um princípio do processo penal;
houver declaração de contumácia40, ou o julgamento decorrer na ausência de um ou alguns
dos arguidos e o tribunal tiver mais conveniente a separação dos processos (alínea d)). Os
processos podem, ainda, ser alvo de separação nos termos do nº2 e nº3 do artigo 30º CPP.
No geral, o que fundamenta a separação dos processos é a ideia de que, tendo o processo
penal como fim a procura pela melhor Justiça, a junção dos processos não pode causar maior
dano à prossecução desse fim do que o benefício que, eventualmente, lhe possa trazer.
Ainda que os processos sejam separados, a competência do tribunal competente em razão
da conexão não cessa para os efeitos do artigo 31º CPP, nomeadamente da alínea b).
A competência para ordenar a separação pertence ao juiz de instrução ou de julgamento,
conforme a fase do processo, e ao Ministério Público, se o processo se encontrar na fase de
Inquérito (artigo 264º, nº5 CPP).
O artigo 27º CPP dispõe que se os processos conexos devessem ser da competência de
tribunais de diferente hierarquia ou espécie, é competente para todos o tribunal de
hierarquia ou espécie mais elevada. Devemos entender que os tribunais de espécie mais
elevada, são-no atendendo ao critério da pena aplicável ao crime. Assim, são de estrutura
mais elevada, o tribunal coletivo e o tribunal de júri relativamente ao tribunal singular. Entre
o tribunal de júri e o tribunal coletivo, não há nenhum que se eleve ao outro, aparecendo,
neste contexto, numa posição paritária (o que, pelo menos, o artigo 27º CPP não vem
contrariar). Contudo, ao abrigo do artigo 30º, nº2 CPP, quando a competência para um dos
processos seja do tribunal coletivo e para outro dos processos seja do tribunal de júri, é
competente o tribunal de júri. Parece, também, ser este o entendimento de Manuel Lopes
Maia, fundamentando a sua posição, todavia, num argumento distinto: Quanto à espécie de
tribunais, referida no artigo 27.º do CPP, deve atender-se à ordem estabelecida nos arts. 13º,
14º e 15º do mesmo diploma, podendo os tribunais, por ordem descendente de espécie,
classificar-se em tribunal de júri, tribunal coletivo e tribunal singular.
Caso as regras compreendidas no artigo 27º CPP não se afigurarem suficientes para
determinar a competência (e só nesse caso), opera o disposto no artigo 28º CPP41.

40
Cf. artigo 335º CPP.
41
Atentando, em particular, ao que dispõe a alínea a) desse preceito, chamamos a atenção para a
possibilidade de as penas máximas serem iguais. Nesse caso, e socorrendo-nos do apoio da
jurisprudência, o entendimento é o de que se deve atentar ao limite mínimo da pena, considerando-se
mais grave a pena do crime que tiver um limite mínimo superior.

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Subtítulo III – Regime da Incompetência

A violação das regras de competência do tribunal constitui uma nulidade insanável, nos
termos do artigo 119º, alínea e) CPP, sendo certo que não é necessário que sejam arguidas
pelos interessados, pelo que devem ser declaradas oficiosamente, independentemente da
fase do procedimento em que o processo se encontre.
A incompetência produz, desde logo, duas consequências: a primeira, e talvez a que neste
momento menos nos interessa, que se reporta à invalidade do ato em que se verificou, bem
como dos atos que dele dependeram ou possa afetar (o que resulta do artigo 122º, nº1
CPP); e a segunda, que nos interessará mais certa (pelo menos, por ora) que se encontra
estatuída no artigo 33º, nº1 CPP. O processo será remetido para o tribunal competente, no
seio do qual (e por sua ordem) serão anulados os atos que não se teriam praticado se o
processo tivesse corrido perante ele, acrescendo a possibilidade de o tribunal ordenar que
se repitam atos necessários para que possa conhecer da causa.
Dito isto, é acertado concluir que a incompetência não determina a nulidade de todo o
processo, mas tão-só dos atos que não teriam sido praticados perante o tribunal
competente. E, neste contexto, compete ao tribunal declarar quais os atos nulos (e,
outrossim, os que quer ver repetidos) – cf. artigo 122º, nº2 CPP. O tribunal que seja
declarado incompetente assume uma postura passiva, limitando-se a remeter o processo
para o tribunal que, com respeito pelos critérios legalmente fixados, se vislumbre
competente. Ainda assim, o artigo 33º, nº2 CPP reconhece legitimidade ao tribunal
incompetente para praticar os atos processuais urgentes (consideram-se urgentes os atos
cuja demora possa acarretar perigo para a aquisição e conservação da prova ou para a
descoberta da verdade e os atos cuja demora possa causar dano ao arguido, ao ofendido ou
ao Estado).
As medidas de coação que hajam sido ordenadas pelo tribunal incompetente, conservam
a sua eficácia, devendo ser, de forma mais célere possível, convalidadas ou infirmadas pelo
tribunal competente (artigo 33º, nº3 CPP).
Contudo, se em causa estiver a falta de competência internacional dos tribunais
portugueses, o processo é arquivado, conforme preceitua o artigo 33º, nº4 CPP.
Ao abrigo do artigo 32º, nº1 CPP, a incompetência deve ser declara oficiosamente e pode
ser deduzida pelo Ministério Público, pelo arguido ou pelo assistente. Consoante estejamos
perante a violação de normas de competência material ou funcional, ou de competência
territorial, a incompetência pode ser declarada e deduzida até ao trânsito em julgado da
sentença ou até ao debate instrutório ou ao início da audiência de julgamento (artigo 32º,
nº2 CPP), respetivamente.

Subcapítulo II – Ministério Público

Da conjugação do artigo 219º da Constituição com o Estatuto do Ministério Público42,


resulta a noção deste sujeito processual: órgão do Estado ao qual compete representar o
Estado e defender interesses que a lei determinar, participar na execução da política criminal

42
Lei n.º 60/98, de 27 de agosto.

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Direito Processual Penal

definida pelos órgãos de soberania, exercer a ação penal e defender a legalidade


democrática.
O Ministério Público, incumbido de administrar a justiça (conjuntamente com outros
órgãos), é uma magistratura autónoma hierarquizada. Esta hierarquia é determinada em
função dos magistrados que a compõem, i. é., em função dos tribunais com quem estes
colaboram. Assim, junto do Supremo Tribunal de Justiça temos o Procurador-Geral da
República e o Vice-Procurador; junto das Relações, colaboram os Procuradores-Gerais
Distritais e os Procuradores-Adjuntos; e, finalmente, junto da 1ª Instância colaboram os
Procuradores da República e os Procuradores-Adjuntos. Não iremos entrar a fundo na
análise desta estrutura hierarquizada. Na verdade, o que pretendemos é apenas que o aluno
fique com uma ideia de como se organiza o Ministério Público.
É, também, um órgão independente, o que significa que não está sujeito a nenhum outro
órgão, gozando de autonomia – artigo 219º, nº2 CRP.
Antes de mais, o Ministério Público é um órgão do Estado. Com isto pretende dizer-se que
é um centro autónomo institucionalizado de emanação da vontade do Estado. E que visa,
como se disse, administrar a justiça. Ora, juntamente com os tribunais, o Ministério Público
deve colaborar na descoberta da verdade e na realização do direito, estando a sua atividade,
no campo do processo penal, subordinada à obediência a certos critérios de legalidade e
objetividade (artigo 53º, nº1 CPP).
A atividade do Ministério Público é guiada, nomeadamente, pelo Princípio da Legalidade,
do qual resulta que as decisões tomadas por este órgão devem ser devidamente
fundamentadas, e nunca arbitrárias. Não se pode dizer, contudo, que a sua intervenção se
encontra limitada pelo Direito, na medida em que o Direito é a própria finalidade da sua
atuação.
Subordinados ao Princípio referido, os magistrados que o compõem podem recusar
diretivas, ordens e instruções que recebam, quando estas se afigurem ilegais, porém, mais
uma vez, desde que fundamentem a sua recusa (artigo 79º Estatuto do Ministério Público).
Uma das maiores atribuições do Ministério Público é, sem dúvida, o exercício da ação penal
– competência que lhe é reconhecida pelo artigo 219º, nº1 CRP e artigo 1º EMP. A
intervenção deste órgão no domínio da ação penal encontra-se, em muito, concretizada
pelos atos processuais a que o artigo 53º CPP43 se refere, conferindo-lhe legitimidade para
a sua prática. Ainda assim, cumpre notar que o elenco compreendido no mencionado
preceito não é taxativo, estabelecendo o artigo 3º EMP outras competências do Ministério
Público em matéria criminal.
Fora dos casos em que o impulso processual incumbe às partes, nomeadamente através do
exercício do direito de queixa, o Ministério Público tem o poder-dever de promover a ação
penal, pelo que, via de regra, é incumbido de impulsionar o processo – neste sentido, fala-
se do Princípio da Oficialidade e do Princípio da Legalidade na vertente da obrigatoriedade
e a eles se refere o artigo 48º CPP. Na verdade, mesmo nos casos em que a promoção do
processo depende de queixa particular, o Ministério Público decidirá quanto à continuidade
da ação penal, isto é, se decide (ou não) acusar.

43
Atente-se no disposto na alínea d) do nº2: ao Ministério Público está vedada a possibilidade de
interpor recurso com o intuito de agravar a pena aplicada.

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Direito Processual Penal

Ora, neste domínio, cumpre distinguir três tipos de crimes: os crimes públicos, os crimes
semipúblicos e os crimes particulares44.
Quanto aos crimes públicos, o Ministério Público goza de uma ampla legitimidade ao longo
de todo o processo (o que também se verifica quanto aos outros crimes, mas em menores
dimensões). Com isto quer-se significar que pode promover a ação penal e, por isso,
instaurar o inquérito (pois o procedimento não se encontra dependente de queixa e/ou
acusação). Para além da legitimidade para a prática deste ato, também a terá para prática
de outros: deduzir acusação, sustentá-la na instrução e julgamento, interpor recursos e
promover a execução.
Já nos crimes semipúblicos, e indo ao encontro do que ficou dito, o Ministério Público não
pode exercer a ação penal ex officio, na medida em que esta possibilidade se encontra
condicionada pelo exercício do direito de queixa dos ofendidos (artigo 49º CPP). Por outras
palavras, para que a ação penal possa ser promovida, é necessária a queixa.
Finalmente, no que aos crimes particulares concerne, para que o Ministério Público possa
exercer a ação penal é preciso que haja uma acusação particular e, assim, que o titular deste
direito se queixe e constitua assistente. De outra forma, não poderá o Ministério Público
instaurar o inquérito. E é necessário que haja uma acusação para o processo poder avançar
para fases posteriores (artigo 50º CPP).
Contudo, o que ficou dito pode ser derrogado nos casos previstos no artigo 113º, nº5 CP:
quando o ofendido for menor ou não possuir discernimento para entender o alcance e o
significado do direito de queixa; ou o direito de queixa não puder ser exercido porquanto
caberia apenas ao agente do crime. Trata-se de uma atribuição de cariz subsidiário do
Ministério Público, a fim de evitar que se reproduzam situações injustificadas fundadas na
não apresentação da queixa.
Nas situações de concurso de crime, o tratamento é diverso e encontra-se consagrado no
artigo 52º CPP. Aqui, o Ministério Público tem legitimidade para promover o procedimento
quanto aos crimes públicos, se o crime mais grave do concurso não depender de queixa ou
de acusação particular, ou se os crimes forem de igual gravidade (esta gravidade determina-
se em função da pena máxima abstratamente aplicável e, no caso destas coincidirem,
atende-se ao limite mínimo da mesma). Em caso contrário e, portanto, se o crime para o
qual o Ministério Público tiver legitimidade for de menor gravidade, serão os titulares do
direito de queixa ou de acusação particular notificados para, no prazo de cinco dias,
declararem se querem ou não exercer esse direito. Se responderem negativamente ou nada
declararem45, o Ministério Público irá promover o processo pelos crimes que puder
promover; se declararem que pretendem apresentar queixa, tem-se esta por apresentada.
Os titulares do direito de queixa encontram-se estipulados no artigo 113º CP, sendo este
regime aplicável à acusação particular, por força do artigo 117º CP.
O Princípio da Legalidade é mais rigoroso e apertado na fase de promoção do processo. No
fim do Inquérito, e sem prejuízo do disposto no artigo 283º CPP, o Ministério Público pode

44
No silêncio da lei, o crime é público (trata-se de uma questão de natureza substantiva).
45
Se os titulares deste direito forem chamados e não se pronunciarem, não perdem esse direito. Na
verdade, este extingue-se findos seis meses, a contar da data do conhecimento do facto e dos seus
autores (artigo 115º CP), ou se dele tiverem expressamente renunciado (artigo 116º, nº1 CP).

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Direito Processual Penal

socorrer-se do instituto da suspensão (previsto no artigo 281º CPP) e, desse modo, obrigar
o sujeito a adotar uma dada conduta. Caso este adote a conduta imposta, poderá ver o seu
processo arquivado, donde, o Ministério Público, nessa situação, não o acusará – fala-se,
neste contexto, de um Princípio da Legalidade na vertente de uma certa oportunidade,
porquanto é conferida àquele órgão uma margem para decidir se acusa ou não.
São estes os aspetos fulcrais que importa que consigamos reter quanto ao Ministério
Público, enquanto sujeito processual.

Subtítulo I – Direito de queixa e acusação particular

Neste enquadramento, vem reger o artigo 113º, nº1 CP, atribuindo o direito de queixa (e,
daí, legitimidade para se queixar) ao ofendido. Importa notar, ainda que já o tenhamos
referido, que esta matéria releva no campo dos crimes particulares e semipúblicos, uma vez
que, quanto a estes, é subtraída ao Ministério Público a possibilidade de promover ex officio
a ação penal.
A intervenção do Ministério Público, encontra-se, pois, condicionada pela intervenção do
particular; vale por dizer, que para que possa atuar é necessário que o ofendido apresente
queixa (nos crimes semipúblicos) ou, se assim impuser a natureza do crime, apresente
queixa e deduza acusação – os crimes particulares.
Este conceito de ofendido deve ser entendido em termos restritivos. É que ofendido não é
toda a pessoa que sofra direta ou indiretamente consequência em virtude do crime
praticado; é apenas o titular do interesse protegido pela incriminação do comportamento
que o afetou e teve de suportar.
Note-se que, no campo do Direito Penal, ao contrário do que sucede no Direito Civil (onde,
em regra, se visa imediatamente a tutela de interesses particulares), prima facie, e, por isso,
de forma imediata o interesse que se visa tutelar é o público e, só depois, de forma mediata,
se visa proteger o interesse de um particular.
No caso de o titular do direito de queixa falecer sem a ter apresentado nem a ela ter
renunciado, o direito de queixa pertence às pessoas indicada no nº2 (do artigo 113º), salvo
se tiverem comparticipado no crime – ao cônjuge sobrevivo, aos descendentes e aos
ascendentes (nomeadamente).
Se o titular do direito de queixa for menor de 16 anos, aplica-se o disposto no nº4 e nº5.
Como já se viu, não obstante a natureza particular ou semipública dos crimes, é atribuída
ao Ministério Público uma competência subsidiária para a promoção da lei penal, já que,
excecionalmente, e nas situações que se subsumam na previsão normativa constante do
nº5, este poderá propor a ação penal.
Perante um crime praticado em regime de comparticipação, a queixa apresentada contra
um dos comparticipantes, estende-se aos restantes (artigo 114º); por outro lado, a
desistência de queixa em relação a um dos comparticipantes, aproveita igualmente aos
demais, bem como aproveita a todos o exercício intempestivo do direito em relação a um
dos comparticipantes (artigos 116º, nº3 e 115º, nº3 – ambos do CP). Da conjugação de todos
estes preceitos, resulta o Princípio da Indivisibilidade da Queixa.

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Este princípio não vale em matéria de acusação. Findo o inquérito, o assistente é notificado
para vir deduzir acusação, e se em caso de comparticipação esta apenas for apresentada
contra um dos comparticipantes, equivale à renúncia do direito de acusação em relação aos
outros comparticipantes46.
O direito de queixa extingue-se decorridos seis meses após a data em que o seu titular tiver
conhecimento do facto e dos seus autores (artigo 115º, nº1). Contudo, em caso de morte
do titular do direito de queixa, e se dele este não tiver renunciado, o prazo começa a contar-
se a partir da data da morte do ofendido.
Como temos vindo a dizer, o titular do direito de queixa pode renunciar a este direito, desde
que a renuncia seja expressa e o direito não pertença a mais do que um titular (artigo 116º,
nº1). E, também, nada impede que o queixoso desista de queixa já apresentada, desde que
o faça até à publicação da sentença em 1ª instância (nº2).
Nos termos do artigo 49º, a queixa deve ser apresentada pelo respetivo titular, por
mandatário judicial ou por mandatário com poderes especiais.
No contexto dos crimes particulares, à necessidade de apresentação de queixa para que o
processo possa ser promovido, cumula-se a necessidade de acusação particular o que, deste
feita, possibilitará o prosseguimento do processo (artigo 285º). Ora, se o titular deste direito
for chamado e não o exercer o processo extinguir-se-á47.
Aquando da fase do inquérito, o Ministério Público e os órgãos de polícia criminal devem
unir esforços para investigar os factos alegados – é o que resulta do artigo 55º CPP.

Subcapítulo III – Órgãos de Polícia Criminal

O Código de Processo Penal define, no seu artigo 1º, nº1, al. c), como todas as entidades e
agentes policiais a quem caiba levar a cabo quaisquer atos ordenados por uma autoridade
judiciária ou determinados pelo próprio Código.
Aos órgãos de polícia criminal e, também, à autoridade de polícia criminal (cuja definição,
para efeitos do CPP, se encontra prevista na alínea d) do preceito supracitado) cabe a missão
de, enquanto atividade administrativa, combaterem a criminalidade, procurando os
infratores e punindo-os pelas infrações cometidas, nomeadamente, aqueles que
consubstanciam a violação de normas legais. Como sabemos, não é a eles que cabe o
monopólio destas funções, mas, no entanto, também a eles cabe a sua prossecução; a eles,
em conjunto com os demais órgãos – fundamentalmente, o Ministério Público – impõe-se
que persigam quem desrespeita as normas legais, através da sua investigação e, sendo caso
disso, da sua condenação.
Como corporação da polícia criminal, destaca-se a Polícia Judiciária. A lei incumbe-a,
nomeadamente, de poderes de investigação criminal, os quais se destacarão e terão mais
importância num momento inicial - na fase do inquérito -, cuja intervenção será feita sob a
égide do Ministério Público que, em todo o caso, é incumbido da direção desta fase48.

46
Germano Marques, ob. cit., p. 258-259.
47
Germano Marques, ob. cit., p. 261-262.
48
Só estão numa situação de dependência funcional face ao MP no âmbito do processo. Fora desse
âmbito, os OPC’s são independentes/autónomos (cf. artigo 56º CPP).

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Assim, e em termos genéricos, conforme resulta do artigo 55º, nº1 CPP (e do próprio artigo
202º, nº3 CRP), compete aos órgãos de polícia criminal prestar coadjuvar as autoridades
judiciárias com vista à prossecução dos fins do processo. Isto quer significar que os OPC’s
estão incumbidos de colaborar e auxiliar as autoridades judiciárias a atingir as finalidades
visadas pelo processo.
A coadjuvação deve ser entendida – na linha de pensamento de Vital Moreira e Gomes
Canotilho – em três aspetos: os tribunais podem pedir auxílio aos OPC’s; estes têm o dever
de prestar a ajuda solicitada; nos termos indicados pelo interessado. É esta a interpretação
que se deve fazer do termo coadjuvar empregado no artigo 9º, nº2 CPP. Vide o disposto
270º CPP, no concernente aos atos que o Ministério Público pode delegar nos órgãos de
polícia criminal.

Subcapítulo IV – Arguido e Defensor

Subtítulo I – Arguido

Todo o arguido começa por ser apenas suspeito (nos termos do artigo 1º, nº1, alínea e) do
CPP).
Normalmente, a constituição como arguido deriva do facto de os indícios que vão sendo
recolhidos no inquérito, apontarem determinado suspeito como responsável por um crime.
Aliás, esse momento (o da constituição) pode operar nuns casos ou tem de operar noutros
– artigos 57º e seguintes.
Nos termos do artigo 57º, nº1 CPP, assume a qualidade de arguido aquele contra quem for
deduzida acusação ou requerida instrução num processo penal. Ora, também se impõe a
constituição de arguido (e, por isso, é obrigatório que tal suceda; a redação do nº1 do artigo
58º CPP, não deixa, de resto, margem para dúvidas), quando corra inquérito contra
determinada pessoa (que, em princípio, é mero suspeito) em relação à qual haja suspeita
fundada da prática de crime e esta preste declarações perante qualquer autoridade
judiciária ou órgão de polícia criminal49; tenha de ser aplicada a qualquer pessoa uma
medida de coação ou de garantia patrimonial; um suspeito for detido em flagrante delito
ou fora de flagrante delito (para interrogatório policial); for levantado auto de notícia50 que
dê uma pessoa como agente de um crime e aquele lhe for comunicado.
Dito isto, está bom de ver que dificilmente operará o disposto no artigo 57º, nº1 1ª parte
CPP. Muito dificilmente um suspeito chegará ao momento de acusação, sem antes,
decorrida toda a fase de inquérito, ser constituído arguido, até porque os interrogatórios
judiciais são um dos expedientes mais utilizados na fase de inquérito e pressupõem, em
princípio, a existência de uma suspeita fundada. O conteúdo útil daquela norma acaba, de
certa forma, por se centrar nos casos em que seja requerida a abertura da instrução (e
mesmo nestes casos, tal só releva quando a natureza dos crimes seja particular).

49
Destacamos, desde logo, a importância da intervenção dos OPC’s nesta fase do processo (como, aliás,
já tínhamos adiantado).
50
Documento autêntico exarado por autoridade pública que tenha assistido ao crime.

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Donde, em regra, a constituição não será automática, operando uma das motivações
vertidas no artigo 58º, nº1.
Mas, também o artigo 59º CPP, vem estabelecer situações que, verificando-se
concretamente, deverão levar à constituição de arguido. São elas: se, durante a inquirição
de uma pessoa que não é arguido, surgirem fundadas suspeitas que o crime foi por ela
cometido (o que acaba por ser uma constituição obrigatória); e a pedido do suspeito,
sempre que estiverem a ser efetuadas diligências destinadas à averiguação da imputação
do crime, que pessoalmente o afetem.
Em todo o caso, a constituição de arguido deve observar e respeitar um certo procedimento
formal, que consta dos nº2 e seguintes do preceito supracitado. É exigida comunicação
escrita, feita ao visado (até essa altura, suspeito) por uma autoridade judiciária ou um OPC,
da qual conste que a partir daquele momento aquele deve considerar-se arguido num
processo penal.
Não deve ser visto o estatuto de arguido como um mal em si mesmo, sem embargo da carga
pejorativa que lhe está naturalmente associada. Só o simples facto de se ser arguido num
processo penal comporta a estigmatização da pessoa constituída nessa posição; no entanto,
e no âmbito processual, este momento reveste-se de singular importância para o arguido.
Na verdade, ocupando a posição processual de arguido, são-lhe reconhecidos direitos e
deveres que um mero suspeito não teria – os quais já analisaremos. Daí que, aquando do
momento da constituição, seja imposta a comunicação dos direitos e deveres inerentes a
este estatuto (nº2), implicando, ademais, a entrega de um documento donde eles constem
(nº4).
Posto isto, referir-nos-emos de forma sucinta sobre cada uma das motivações que podem
levar à constituição de arguido ou, pelo menos, daquelas que podem suscitar dúvidas na sua
aplicação prática: artigo 58º, nº1 – al. a), não basta que esteja a correr inquérito, é
necessário que existam suspeitas fundadas contra a pessoa que está a ser alvo de inquirição
– requisitos de natureza cumulativa; artigo 59º - qualquer uma das hipóteses aqui
enunciadas, contendem com a necessidade de ser assegurado o direito de defesa,
consubstanciado, nomeadamente, no direito ao silêncio. O nº2 poderá eventualmente
suscitar outra questão: a de saber quando é que estamos perante uma diligência que
pessoalmente atente contra o suspeito. Tal sucederá, por exemplo, quando o suspeito seja
notificado para depor como testemunha sobre factos pelos quais possa ser incriminado 51.
Verificados os pressupostos para se proceder à constituição de arguido, e não se
procedendo a tal, as declarações que sejam prestadas pelo suspeito não podem ser
utilizadas como prova52 – artigo 58º, nº4 -, o que não embarga a admissibilidade das provas
anteriormente prestadas (nº5).
Dito tudo isto, cumpre analisar a posição processual do arguido, ou seja, em que é que se
traduz o seu estatuto – mais concretamente, os direitos e deveres que lhe estão associados
(artigo 61º).

51
Germano Marques, ob. cit., p. 305.
52
A pessoa deveria ter sido constituída arguida, mas não o foi. Independentemente do motivo, o que se
visa sancionar é o facto de não se ter procedido em conformidade com o que dita a lei, sendo inválidas
as declarações que sejam prestadas em momento posterior.

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O elenco apresentado pelo artigo 61º não é exaustivo; o arguido está adstrito a outros
deveres que, desde logo, vinculam todos os que participem no processo, de entre eles o
dever de colaboração com as autoridades para a realização da justiça.
Na alínea a) está consagrado o direito de presença, traduzido na ideia de que o arguido
deve estar presente nos atos processuais que lhe digam diretamente respeito (cf. artigos
300º e 332º), ainda que lhe tenha sido aplicada uma qualquer medida de coação; na al. b),
o direito de audiência – o arguido tem o direito de se pronunciar sobre os factos que lhe
sejam imputados, de se pronunciar em relação a qualquer decisão que lhe diga respeito.
Isto verifica-se, nomeadamente, em sede de audiência de julgamento (artigos 343º e 361º),
o que se traduz, claramente, numa manifestação do acusatório; o direito de informação
consta, por sua vez, da al. c) – o direito que assiste ao arguido de ser informado sobre os
factos que lhe são imputados antes de prestar declarações (artigo 141º, nº4); direito ao
silêncio (al. d)) – o arguido tem o direito a permanecer em silêncio (isto é, a não responder)
a perguntar que versem sobre factos que lhe são imputados e sobre o conteúdo das
declarações que prestar. Por outro lado, do silêncio não se pode retirar que o arguido é
culpado53, até porque tem a seu favor uma presunção de inocência – artigo 32º, nº2 CRP;
direito a defensor (al. e)) – o arguido tem direito a nomear defensor em todos os atos
processuais em que participar. Pretende-se dar ao arguido a possibilidade de se defender
da melhor forma possível, o que não conseguirá assegurar se estruturar a sua defesa,
sozinho. Para a prática de determinados atos processuais, apela-se à intervenção de
defensor que, sendo titular de conhecimento técnico-jurídico, será capaz de conceber ao
arguido uma defesa mais adequada e eficaz. A nomeação de defensor incumbe ao arguido,
sendo certo que se este não o fizer, e porque há atos processuais que o arguido não pode
praticar de per si, o juiz deve suprir a falta de nomeação – nomeando-lhe, assim, um
defensor. A lei admite a constituição de defensor durante todo o processo, a partir do
momento em que o suspeito se torne arguido; direito de assistência (al. f)) – trata-se de uma
derivação do direito anterior, consubstanciado, também, na possibilidade de comunicar em
privado com o defensor, para definirem a melhor estratégia de defesa, quando detido.
Analisámos este direito, aquando da referência ao direito contido na al. e). Para lá
remetemos; direito de intervenção – contido na alínea g), contém a ideia de que o arguido
pode participar em todas as fases processuais – inquérito, instrução e audiência -, bem como
requerer as diligências probatórias que entender e oferecer, ele próprio, prova; direito de
informação sobre os seus direitos – a alínea h) é a consagração expressa de um direito que,
por sua vez, já se vislumbrava ínsito no nº2 e nº4 do artigo 58º; o arguido deve ser informado
dos seus direitos (e, também, dos seus deveres); direito de recurso – o arguido pode recorrer
das decisões que lhe sejam desfavoráveis (alínea i)).
Aqui chegados, reforçamos a ideia de que este elenco não é taxativo. Existem outros
direitos e deveres a que o arguido se encontra adstrito pelo simples facto de ser sujeito
processual. Este preceito foi fortemente influenciado por textos de cariz internacional – de
caráter vinculativo –, como a Declaração Universal dos Direitos do Homem e a Convenção
Europeia dos Direitos Humanos.

53
Não se pode formar prova do silêncio do arguido.

40

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Analisados os direitos, importa dar conta dos deveres.


Além dos demais, o arguido está especialmente vinculado aos deveres disposto no nº3 do
artigo 61º.
Dever de comparência (alínea a)) – o arguido está obrigado a comparecer perante o juiz, o
Ministério Público e os OPC’s quando lhe seja imposto por lei e seja devidamente convocado
para o efeito, sob pena de lhe ser aplicado o vertido nos artigos 116º CPP.
Dever de responder com verdade sobre a sua identidade (alínea b)) – o desrespeito por este
imperativo, pode levar o arguido a responder penalmente.
Dever de se sujeitar a diligências de prova e a medidas de coação e garantia patrimonial
(alínea d)) – deve o arguido sujeitar-se a todos os meios de prova admitidos por lei, bem
como às medidas de coação e garantia patrimonial que se encontrem previstas nela.
Por fim, referimos o dever de prestar termo de identidade e residência, dizendo apenas que
se trata de uma medida de coação prescrita no artigo 196º CPP.

Antolhamos, na verdade, que estes deveres não são tão onerosos assim para o arguido.
Como referimos, o lado negativo de ser constituído arguido é a carga social pejorativa que
subjaz a este estatuto, razão pela qual o legislador, nas suas últimas intervenções, tenha
tentado mudar o paradigma. E fê-lo, essencialmente, através da alínea a), nº1 do artigo 58º,
exigindo que, para a constituição de arguido, haja uma suspeita fundada, ou seja, fortes
indícios de que pode ter sido o visado a cometer o crime.
A constituição de arguido é um dever, verificados os respetivos pressupostos, para defesa
do próprio arguido e é um direito deste para poder gozar de direitos inerentes à qualidade
de sujeito processual54.

Subtítulo II – Defensor

O arguido tem direito a nomear defensor em qualquer fase do processo, a partir do


momento em que se torne sujeito processual e, por isso, adquira essa qualidade (o que se
dá nos termos que abordámos anteriormente). Ora, não é só um direito; muitas vezes,
porque a prática de determinados atos não pode ser levada a cabo pelo arguido de per si, a
lei exige que este nomeie um defensor. Tal é a obrigatoriedade que, caso não se proceda à
nomeação, a mesma será levada a cabo pelo juiz.
Este direito (ao defensor) tem assento constitucional – artigo 32º, nº3 – e, naturalmente,
assento em lei ordinária, no Código de Processo Penal, no artigo 62º, nº1. Desta forma,
concede-se ao arguido a oportunidade de se defender da melhor forma, definindo uma
melhor estratégia, que só poderá tornar-se uma realidade através do recurso a uma pessoa
com conhecimentos técnico-jurídicos que o permitam – o defensor.
Ao contrário do que sucede em processo civil, no processo penal a defesa não pode ser
garantida pelo próprio arguido, porquanto também se atribui ao defensor a tarefa de
controlo da legalidade dos atos. Em regra, está vedada ao arguido a possibilidade de praticar
atos sem, para tanto, gozar de assistência técnica, a qual é garantida pelo juiz. Mas esta
ideia já referimos, pelo que não é oportuno insistir nesta ideia, uma vez que o aluno (até do

54
Germano Marques, ob. cit., p. 322.

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conhecimento geral) almeja facilmente o alcance da constituição de defensor ou, sendo


caso disso, da sua nomeação. Evitemos, pois, cair na redundância.
Anterior também já demos conta das modalidades de defesa: a de cariz formal, material; a
de cariz pessoal, a de cariz técnico. Para lá remetemos.
Os direitos do defensor encontram-se previstos no artigo 63º, nº1 e traduzem-se na
possibilidade de exercer qualquer dos atos que a lei reconhece ao arguido, ressalvados
aqueles que tenham natureza pessoal e, portanto, que estejam reservados a este (arguido).
Ora, vejamos:
Existem atos processuais que, atento ao seu caráter pessoal, a lei admite que sejam
praticados (aliás, e só possam sê-lo) pelo arguido – vide artigo 63º, nº1, 2ª parte. Outros
atos, porém, podem ser praticados pessoalmente pelo arguido ou por defensor (cf. artigo
98º CPP). Por fim, existem atos que em razão da sua natureza eminentemente técnica têm
obrigatória e impreterivelmente de ser praticados pelo e através do defensor. Estes atos
encontram-se previstos no artigo 64º, nº1 CPP e, sendo desrespeitada tal obrigatoriedade
(ou, por outras palavras, se estes atos forem praticados pessoalmente pelo arguido), ficam
feridos de nulidade que, nos termos do artigo 119º CPP, não depende de prazo para
arguição.
Nestes últimos casos retratados, a intervenção do defensor situa-se para além da ideia de
assistência; o defensor não auxilia o arguido na prática destes atos, pratica-os antes em seu
nome, o que, aliás, a lei impõe (vale por dizer que substitui o arguido). Ora, porque o
defensor atua em seu nome e aparentemente em conformidade com a sua vontade, o
arguido poderá retirar eficácia aos atos praticados pelo defensor, desde que o faça em
momento anterior à decisão que seja tomada em relação a cada um deles (artigo 63º, nº2).
Eventualmente, se isto suceder, poderá levar a uma quebra de confiança de parte a parte,
e, consequentemente, à dispensa do defensor (artigo 66º, nº3).
Pode suceder, aliás como sucede não raro, que o defensor seja substituído, porque este
renuncia, por justa causa ou porque se revoga o mandato. Neste contexto, em caso de ato
que deva ser obrigatoriamente praticado por defensor, o tribunal deve nomear
oficiosamente e imediatamente outro (artigo 67º), sem embargo do disposto no nº2.

Subcapítulo V – Assistente e Ofendido

Grosso modo, e penso que não será incorreto dizê-lo, o assistente coincide com a pessoa
do ofendido. Por outras palavras, é a posição processual que este ocupa no processo, no
caso de nele querer participar.
As suas atribuições estão definidas no artigo 69º CPP, sendo certo que, abstraindo-nos para
já do preceito, a sua intervenção no processo destina-se a fiscalizar a função do Ministério
Público, assumindo o seu papel mais preponderância nos crimes particulares do que nos
crimes semipúblicos ou públicos. No concernente aos primeiros crimes referidos, o seu
procedimento não pode passar da fase de inquérito, caso o assistente não apresente
acusação; nos crimes semipúblicos e públicos a questão é já diversa, na medida em que o
processo pode prosseguir independentemente da acusação do assistente mas, no entanto,
pode este apresentar uma acusação distinta e até contrária à apresentada pelo Ministério

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Público, a quem incumbe, prima facie, acusar (por isso, à intervenção dos assistentes
associa-se uma função de fiscalização).
Em determinadas situações, e no que respeita aos crimes particulares, a posição tomada
pelo Ministério Público não é suscetível de ser influenciada pelo assistente, revelando-se
preponderante a vontade daquele órgão; contudo, existem atos que o assistente também
praticará com autonomia. Nos crimes semipúblicos e públicos, o assistente intervém no
processo para colaborar com o Ministério Público, essencialmente. Isto resulta explícito do
artigo 69º, quando nos diz que os assistentes têm a posição de colaboradores do Ministério
Público.
Importa ter em atenção que o ofendido não é, em todo o caso, sujeito processual. Para que
o possa ser – e, portanto, lhe seja conferida legitimidade para intervir no processo -, é
necessário que se constitua assistente. Donde, se quisermos, o assistente começa por ser
apenas ofendido (de um crime), mas para que se encontre legitimado a intervir no processo
que verse sobre o crime que sobre ele foi cometido, é conditio que se constitua assistente55.
Podem constituir-se como arguido, nomeadamente, as seguintes (artigo 68º): os ofendidos,
considerando-se como tais os titulares dos interesses que a lei especialmente quis proteger
com a incriminação, desde que maiores de 16 anos (alínea a)); as pessoas de cuja queixa ou
acusação particular depender o procedimento (alínea b)) – já vimos que os titulares deste
direito são os ofendidos, salvo quando não tenham capacidade ou morram, caso em que
opera o artigo 113º CP; e as demais pessoas estipuladas nas alíneas c) e d), sendo que estas
alíneas têm aplicação subsidiária em relação à alínea a)56. Finalmente, há que referir o caso
especial dos crimes previstos na alínea d), em relação aos quais qualquer pessoa poderá
constituir assistente.
Adquirindo a posição processual de assistente, este terá de se fazer representar por
advogado ou advogado estagiário para a prática de qualquer ato (artigo 70º), pelo que
podemos concluir que se trata de uma obrigatoriedade, e não de uma opção.
A constituição de arguido opera mediante decisão do juiz sobre o requerimento do
interessado, devendo sempre dar oportunidade ao arguido e ao Ministério Público a
possibilidade de se pronunciar (artigo 68º, nº4), sem prejuízo do disposto para os crimes
particulares. Os assistentes podem intervir em qualquer altura do processo, desde que o
requeiram ao juiz, com respeito pelos prazos prescritos no nº3.
As atribuições do assistente durante o processo, têm um caráter colaborativo (artigo 69º).
De resto, o nº2, alínea a) é explícito, dispondo que o assistente intervém no inquérito e na
instrução, oferecendo provas e requerendo diligências que se afigurem necessárias; como
sabemos, a fase de inquérito é dirigida pelo Ministério Público e mesmo na fase de
instrução, o juiz não se encontra vinculado às provas trazidas pelas partes para o processo.
Destacamos, ainda, a possibilidade de deduzir acusação independentemente da do
Ministério Público (nos crimes públicos e semipúblicos, o assistente só pode acusar se o MP
o fizer57) e, no caso de crimes particulares, deve mesmo fazê-lo, mesmo que o Ministério

55
Daí termos dito que, grosso modo, o assistente coincide com a pessoa do ofendido. Contudo, nem
sempre assim será.
56
A redação da lei não deixa dúvidas, por isso não seremos redundantes.
57
Donde, se este decidir arquivar, o assistente nada poderá fazer.

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Público não a deduza, assim pretenda ver o processo prosseguir (nº2, alínea b))58. Esta
norma deve se concatenada/articulada com o disposto nos artigos 284º e 285º CPP, as quais
consagram em que moldes deve ser deduzida a acusação (nomeadamente, em matéria de
prazos). Por fim, poderá interpor recurso das decisões que o afetem, independentemente
da vontade do Ministério Público, possibilidade que é transversal a todos os crimes,
independentemente da sua natureza (alínea c)).
O elenco do artigo 69º não é taxativo, pelo que o assistente é titular de muitos outros
direitos, dispostos ao longo de todo o Código.
Note-se que o processo penal atinente a crimes públicos e semipúblicos não é
minimamente prejudicado por não haver assistente.

Capítulo VII – Partes Civis e Pedido Civil

A prática de alguns crimes pode levar, simultaneamente, à responsabilidade penal e civil do


agente. Ou seja, da prática de um crime, poderá resultar a lesão de interesses patrimoniais
ou não patrimoniais do ofendido ou de terceiro que sejam reconhecidos por lei. Neste
contexto, o que se exige é que, havendo danos civis, estes tenham origem na prática de um
mesmo facto – o crime.
Admite-se, pois, que se faça um pedido de indemnização civil, não obstante a autonomia
existente entre a responsabilidade civil e penal59, no próprio processo penal, o que se
fundamenta em razões de economia processual (de modo a não entupir os tribunais com
questões que podem ser decididas no âmbito da mesma causa), mas também evitar que,
sendo o pedido julgado em separado, surjam decisões contraditórias nas ações civil e penal.
Cingindo-nos, agora, às partes civis, importa referir que, no âmbito do pedido civil, quem
tem legitimidade ativa é o lesado – a pessoa que teve de suportar os danos que provieram
da prática de um crime. Como se referiu, pode existir identidade entre o ofendido (ou vítima
do crime) e a pessoa do lesado, mas também pode ocorrer que se trate de pessoas distintas
e, por isso, que lesado e ofendido não coincidam. Socorrendo-nos da letra do artigo 74º,
nº1, o pedido de indemnização civil é deduzido por quem sofreu danos ocasionados pelo
crime, ainda que se não tenha constituído ou não possa constituir-se assistente60. Por outro
lado, no concernente à legitimidade passiva, o pedido pode ser deduzido contra todas as
pessoas com responsabilidade meramente civil pelo crime imputado ao arguido (artigo 73º,
nº1).
A representação das partes civis não se faz nos mesmos termos das partes no processo
penal, o que bem se percebe dada a autonomia do pedido civil em face deste processo. Não
se confunda; são realidades distintas julgadas num mesmo processo pelas razões que já
tivemos oportunidade de enunciar. Dita o artigo 76º, nº1 que a obrigatoriedade da

58
Nos crimes desta natureza, é o assistente que tem o domínio da ação penal, o que prefigura com uma
exceção ao Princípio da Oficialidade.
59
Tendo em conta a sua autonomia, pode suceder que se absolva da responsabilidade criminal, mas que
se condene no pedido civil.
60
O legislador cobriu, implicitamente, os casos em que não há coincidência entre a pessoa do lesado e
do ofendido, porquanto o lesado, não sendo ofendido, não poderá constituir-se como assistente.

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representação das partes por advogado deverá ser averiguada nos termos da lei de processo
civil e atendendo ao valor do pedido, se este fosse deduzido em separado. Ora, sem nos
perdermos em matéria que já foi anteriormente lecionada, cumpre fazer referência ao
artigo 44º LOSJ, concatenando-o com o disposto sobre esta matéria no CPC
(nomeadamente, o artigo 40º).
Aqui chegados, importa perceber em que casos o pedido deve ser feito no próprio processo
penal ou pode ser feito em separado e, portanto, através da propositura de ação civil para
o efeito.
Entre nós, encontra-se consagrado no artigo 71º CPP o Princípio da Adesão, do qual resulta
a obrigatoriedade de o pedido ser feito no processo penal respetivo (o que verse sobre o
crime de onde advieram os danos61).
Se é verdade é que esta é a regra, também o é o facto de a lei reconhecer a possibilidade62
de o pedido ser feito em separado e, por isso, em ação civil própria. Tal pode suceder nos
casos previstos no artigo 72º e, por isso, far-lhe-emos algumas referências, debruçando-nos
em particular sobre algumas alíneas. No concernente à alínea a), a possibilidade de ser
deduzido o pedido em separado, tem que ver com o protelar da fase do inquérito até a um
momento em que deixa de ser exigível ao lesado – que, reitere-se pode ou não coincidir
com a pessoa do ofendido – esperar pelo fim desta fase para que possa formular o seu
pedido. Assim, ao fim de oito meses e se o processo não tiver conduzido até à acusação
nesse período, o lesado pode fazer o pedido em separado63; a alínea b), em bom rigor64,
quando se refere a extinção do procedimento antes do julgamento não consagra um pedido
em separado, mas um pedido único intentado perante um tribunal civil. Quando o processo
seja objeto de arquivação, e porque não se exige ao lesado que fique na expetativa para
saber se o assistente requererá a abertura da instrução ou não, pode fazer o pedido em
separado; por fim, em caso de suspensão provisória do processo é aconselhável que o
pedido seja feita em separado; a alínea d) abrange os casos em que ainda não existem danos
ou não estão determinados in toto no momento da acusação; a alínea g) visa atender a
situações em que poderá dar-se uma incongruência entre o processo penal e o processo
civil, nomeadamente atento a regras da competência dos tribunais; a alínea i) cobre as
situações em que no decurso de um processo penal, as autoridades se apercebem que
existem danos civis, mas não informam o lesado da possibilidade de fazer o pedido no
âmbito daquele processo-crime. E esta omissão da informação estende-se durante o
decorrer do processo, até que se atinge uma fase em que o lesado já não pode deduzir o
pedido civil. Ora, não seria justo que o lesado deixasse de poder efetuar o pedido civil
apenas porque ninguém o informou – e referimo-nos aos casos em que o lesado não tinha
conhecimento nem tinha obrigação de o ter -, pelo que o legislador admite a possibilidade
de o pedido ser feito em separado.

61
Nexo de causalidade.
62
Trata-se de uma opção que há de ser feita pelo lesado.
63
O prazo é meramente ordenador.
64
Entendimento de Fernando Torrão.

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Passámos até aqui sem fazer referência a algumas alíneas, ou porque se não nos cumpre
acrescentar-lhes mais nada, sendo a lei esclarecedora – referimo-nos a e) e h) -, ou porque
achamos que, para uma melhor compreensão, se deve articulá-las com outros preceitos.
Falamos, então, da alínea c), norma que deve ser abordada conjuntamente com o nº2 do
mesmo preceito. Ora, ao contrário do que possa aparentemente parecer não existe entre
estes dois preceitos qualquer incongruência ou contradição, já que têm um escopo e
abrangência distintos, atuando sobre grupos de casos que emergem de contextos distintos.
Concretizando: a alínea c) aplica-se aos casos em que lesado e ofendido sejam pessoas
distintas, isto é, não coincidam. Não há dúvidas que da prática de um crime podem resultar
danos para terceiro (para além de eventuais danos provocados na pessoa do ofendido), ou
assim não fosse e não estaríamos agora a dar conta do campo de aplicação destes preceitos.
Pois, bem, quando lesado e arguido sejam a mesma pessoa, aplica-se o disposto no nº2,
donde resulta que, caso o ofendido pretenda exercer o direito de queixa ou de acusação,
não pode, previamente, deduzir o pedido civil. Isto porque, conforme é estatuído, a
dedução prévia do pedido civil em tribunal civil vale como renúncia ao exercício desse
direito. Se, eventualmente, num crime semipúblico, o titular do direito de queixa, antes de
o exercer, deduzir pedido civil, já não poderá queixar-se.
Note-se que ambas as normas pressupõem a existência de crimes de natureza semipública
ou particular.
Quando lesado e ofendido não coincidam, é indiferente se o lesado apresente o pedido civil
antes do exercício do direito de queixa ou de acusação particular e, por isso, aplica-se-lhes
o vertido na alínea c), do nº1.
As autoridades judiciárias, como, de resto, já adiantámos, estão adstritas a um dever de
informação, consagrado no artigo 75º, nº1 CPP. Este dever vincula as autoridades a prestar,
quando tomem conhecimento da existência de eventuais lesados, nomeadamente, as
seguintes informações: que os danos do lesado decorreram de um crime (ideia de nexo de
causalidade), que, estando a correr um processo penal, o pedido de indemnização cível
pode ser efetuado nesse processo e que se deve vir até ao final do inquérito manifestar a
sua intenção em deduzir esse pedido no âmbito daquele processo (nº1). E a partir daqui,
cumprido o dever das autoridades judiciárias e dos OPC’s, caberá ao lesado decidir se quer
vir ao processo manifestar a sua intenção ou se nada quer fazer, o que, de resto, é de uma
importância extrema se, de facto, a sua pretensão for deduzir o pedido (o que,
naturalmente, ocorrerá na maioria dos casos). Dizemos isto porque, caso o lesado manifeste
a sua intenção, será notificado nos termos do nº2 do artigo 77º; se não o fizer, não será,
então, notificado, o que poderá levar à preclusão da possibilidade de deduzir esse pedido
porque, conforme já vimos, a regra é a que se encontra vertida no artigo 71º - o Princípio
da Adesão; com o que isso importa a obrigação de o pedido ser intentado no processo penal
respetivo, a menos a que estejamos perante uma das hipóteses abrangidas pelo artigo 72º.
Caso o pedido seja formulado pelo Ministério Público ou pelo assistente, deve ser deduzido
na acusação ou, em requerimento articulado, no prazo em que esta deve ser formulada (cf.
artigo 284º, nº1 ex vi artigo 77º, nº1, in fine). Por outro lado, caso o lesado venha manifestar
a sua intenção (de deduzir o pedido) até ao final do inquérito (artigo 75º, nº2), tem, após a
notificação a que se refere o nº2 do artigo 77º, um prazo de 20 dias para o efeito; se não

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vier ao processo manifestar a sua vontade, terá um prazo de 20 dias para deduzir o pedido,
contado nos termos do nº3. Ainda nos resta dar conta de um cenário: se o lesado tiver ido
demonstrar a sua pretensão ao processo, nos termos do artigo 75º, nº2 e, ainda assim, por
qualquer motivo, não ser notificado, pode deduzir o pedido nos termos do nº3 ou, caso o
pretenda, fazê-lo em separado, junto de tribunal civil – admite-o a alínea i), nº1, do artigo
72º.
Antes de avançarmos, importa elucidar os alunos para o alcance do artigo 77º, nº4: a lei
admite que, quando não seja obrigatória a constituição de advogado (diga-se, em
conformidade com o artigo 76º, nº1), o lesado requeira, nos prazos mencionados, sem
sujeição a formalidades especiais, a arbitragem da indemnização cível, bastando a
declaração em auto, com indicação do prejuízo sofrido e das provas.
Deduzido o pedido, a pessoa contra quem este foi dirigido é notificada para, querendo,
contestar no prazo de 20 dias (o contraditório) – artigo 78º, nº1. A falta de contestação não
importa, todavia, a confissão dos factos.
Por fim, nota para o facto do lesado, a qualquer altura do processo, poder renunciar ao
direito de indemnização civil e desistir do pedido formulado ou requerer que o objeto da
prestação indemnizatória seja convertido em diferente atribuição patrimonial, nos termos
da lei (artigo 81º).
Por fim, deverá o tribunal condenar no que se vier a liquidar em execução da sentença, se
não dispuser de elementos bastantes para fixar a indemnização (artigo 82º, nº1). Trata-se
de uma espécie de condenação genérica, sendo que execução correrá perante o tribunal
civil, servindo a sentença penal de título executivo. Isto não prejudica o disposto no nº2
deste artigo.
Se ocorrer algumas das situações previstas no nº3, o tribunal deve remeter oficiosamente
as partes para tribunal civil.
A decisão penal que conheça do pedido civil constitui caso julgado nos termos prescritos
para as sentenças civis (artigo 84º CPP).

Subcapítulo I – Reparação da vítima em casos especiais

Estamos perante casos em que condições especiais da vítima – nomeadamente, porque


carecem de proteção -, justificam o arbitramento oficioso de uma reparação pelos prejuízos
sofridos (artigo 82º-A). Ora, arbitrada a reparação, a obrigação recai sobre o responsável
penal, e não sobre um responsável civil; quando suceda a averiguação posterior de que
existe um obrigado civil, diverso da pessoa que cometeu o crime, este deve compensá-lo
pelo pagamento feito.
Se, posteriormente, for apresentado um pedido de indemnização civil, o montante
atribuído a título de reparação será deduzido na quantia indemnizatória (nº3).

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Direito Processual Penal

Capítulo VIII – Da Identidade do Objeto: Alteração Substancial dos Factos65

No presente capítulo, vamos ocupar-nos de uma matéria que se reveste de especial


sensibilidade, pelo que nos tentaremos cingir aos pontos fulcrais, seguindo a linha de
pensamento que nos foi aconselhada – que, em muito, coincide com a linha de Frederico
Isasca.
Mas, antes de avançarmos, e ainda que já o tenhamos abordado, afigura-se-nos essencial
perceber o que é o objeto do processo.
À acusação precede uma fase que, contudo, tem natureza não jurisdicional e que se destina,
essencialmente, a comprovar a veracidade da notitia criminis (isto é, o que se terá passado)
– a fase de inquérito. Poder-se-ia levantar a questão de saber se é aquando da aquisição da
notitia criminis que se define o objeto do processo. A resposta tem de ser negativa,
porquanto ainda não existe, na verdade, uma pretensão formulada e, por outro lado, pode
não se conseguir recolher indícios suficientes para se deduzir a acusação. Donde, vislumbra-
se, inclusive, a possibilidade de o processo nem sequer entrar no seu âmbito jurisdicional
propriamente dito.
Para efeitos de objeto do processo, interessa o momento da acusação, na medida em que
é nesse momento que se formula uma pretensão, bem como se indicam os factos que a
integram – maxime os indícios recolhidos na fase do inquérito.
A partir deste momento, opera o Princípio da Identidade o que implica, desde logo, que o
objeto do processo se deve manter idêntico desde a acusação até à prolação da sentença.
Em termos práticos e, até genéricos, isto quer significar que a sentença (qual seja,
absolutória ou condenatória) deve versar sobre a pretensão formulada na acusação (ou,
sendo caso disso, sobre o despacho de pronúncia) e os factos que a integram.
O arguido deve ter direito a todas as garantias de defesa, de entre elas destacando-se uma
com desmesurada importância que se encontra ínsita no Princípio da Identidade – o arguido
tem o direito de saber do que vai ser julgado, de modo a elaborar uma estratégia adequada.
Notamos que esta é uma característica do sistema acusatório, e que demonstra o contraste
e antagonismo que media entre este sistema e o sistema inquisitório – relembramos que a
estrutura inquisitória admitia que, em qualquer fase do processo, fossem trazidos para o
processo novos factos, o que impedia a defesa do arguido que, infelizmente, em regra, já se
encontrava condenado desde o início do processo, ainda sem o ter sido efetivamente.
A sensibilidade de que se reveste esta temática, dimana, desde logo, do facto de contender
com uma garantia fundamental do arguido.

Subcapítulo I – Alteração Substancial dos Factos

Qual é o limite até ao qual se considera que o objeto é idêntico? Não fosse o Código de
Processo Penal apresentar-nos a resposta, e esta questão afigurar-se-ia bastante para

65
Aconselhamos os alunos a deixar de lado a ob. cit. na bibliografia, de Germano Marques, no estudo
desta matéria. Socorremo-nos, porque assim nos foi aconselhado, de um artigo publicado por Fernando
Torrão.

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provocar um discussão/debate doutrinal sem precedentes, até porque se existem temas


propícios a visões diferentes e opiniões diversas, este é, por certo, um deles.
Antes de prosseguirmos, alertamos para que, quando estivermos a analisar a identidade do
objeto, devemos observar os factos sem valorar a sua qualificação jurídica.
Na verdade, o objeto pode sofrer algumas alterações/mutações ao longo do processo, o
que não coloca em causa a sua identidade. Todavia, esta flexibilidade conhece um limite
que, e indo ao encontro da resposta à pergunta acima colocada, se encontra consagrado no
artigo 1º, alínea f) CPP; o objeto do processo mantem-se idêntico se, havendo alteração dos
factos, esta não for substancial. E estaremos perante uma alteração substancial dos factos
quando esta tiver por efeito a imputação ao arguido de crime diverso ou agravação dos
limites máximos das sanções aplicáveis.
A alteração substancial dos factos envolve, naturalmente, a alteração de factos, implicando
isto que ao processo sejam trazidos novos factos e, por isso, diversos dos que constavam
inicialmente da acusação. Assim, ao universo de factos já existente, acrescem outros; a
alteração desta base factual (que constitui o objeto do processo e que se encontra vertida
na acusação) pode operar através de três hipóteses, sejam elas: acrescentar novos factos;
a substituição de factos já existente por outros; ou a exclusão de factos.
Começando pela terceira hipótese, a nossa intuição bastaria para não a configurarmos
como uma causa de alteração substancial de factos. Se a ratio da vinculação temática é a
proteção de uma garantia do arguido – a garantia de defesa -, não nos parece que a mera
exclusão de factos vá colocar a estratégia defensiva deste em causa, na medida em que este
já conhecia o elenco de factos dos quais se teria de defender e, nesse sentido, até se pode
considerar que menos um facto importa um benefício para o arguido, já que que é menos
um facto de que tem de se defender. Conforme ensina Fernando Torrão, nesta medida, a
pura exclusão de factos não deve, assim, ser considerada sequer alteração de factos
enquanto pressuposto necessário (ainda que, obviamente, não suficiente) de alteração
substancial dos factos. Este entendimento encontra-se, de certa forma, contido no artigo
284º, nº1 CPP – o assistente pode deduzir acusação “por parte” dos factos acusados pelo
Ministério Público. Donde se pode retirar que o legislador admitiu a possibilidade de serem
excluídos factos ao elenco.
Também a mera alteração da qualificação jurídica dos factos, ainda que leve a imputação
de crime diverso ou ao agravamento dos limites máximos das sanções aplicáveis, não
implica a alteração substancial dos factos, o que se encontra ínsito no artigo 303º, nº5 e no
artigo 358º, nº3, dos quais resulta que na fase de instrução e julgamento, poderá ocorrer
uma alteração da qualificação, devendo o juiz, oficiosamente ou a requerimento, comunicá-
la ao arguido, concedendo-lhe, caso este o requeira, o tempo estritamente necessário para
a sua defesa. Considerou, desta feita, o legislador que a mera alteração jurídica dos factos
não implica uma remodelação da estratégia de defesa, mas um mero ajustamento que,
facilmente, poderá ser levado a cabo66.
Cenário diverso será aquele em que novos factos sejam trazidos para o processo ou em
que, trazendo-se factos novos, estes vêm substituir outros que constituíam a base factual

66
Princípio da Independência do Tribunal (o juiz não se encontra vinculado em matéria de Direito).

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inicial. Na primeira hipótese, existe uma pura e simples adição de factos ao universo de
factos que já existiam; na segunda, factos que, em princípio, constituíam a base factual, são
substituídos por outros – os factos novos.
Em qualquer uma destas situações, e se tal levar à imputação de crime diverso ou ao
agravamento dos limites máximos das sanções aplicáveis, estaremos perante um caso de
alteração substancial de factos.
O critério da agravação dos limites máximos das sanções aplicáveis: se o enquadramento
jurídico que resultava da base factual constante da acusação for diverso do enquadramento
dado em sede de sentença (ou de pronúncia), e este surgir como consequência de se ter
trazido para o processo novos factos, poderemos estar perante alteração substancial de
factos. De facto, se o agravamento dos limites máximos das sanções aplicáveis derivar de
novos factos incriminadores, este cenário traduz-se na violação do princípio da identidade
do objeto.
O outro critério vertido na referida alínea f), é o da imputação de crime diverso. Este critério
contende, desde logo, com o campo de aplicação do critério anterior, na medida em que se
o “crime diverso” implicar a “agravação dos limites máximos das sanções aplicáveis”,
estaremos no habitat do primeiro critério, não nos acrescentando este último nada ao que
já vimos dizendo. Por isso, o conteúdo útil deste critério atende aos casos em que o “novo
crime” não implique a agravação dos limites da moldura penal aplicável ao “primeiro crime”
(e, assim, quando a moldura penal do crime diverso seja igual ou inferior à que caberia ao
crime, onde se subsume o acervo inicial de factos).
Não se deve fazer coincidir “crime diverso” com crime tipicamente diverso, uma vez que
poderá existir um novo crime dentro de um mesmo tipo legal. Isto é, para que haja “crime
diverso” não é conditio que esse crime se subsuma noutro tipo legal de crime e, por isso,
seja diferente do tipo inicialmente indiciado; pode suceder que novos factos levem a crime
diverso, sem que este seja tipicamente diverso (passo a redundância).
Para que consigamos almejar, afinal, o conteúdo de “crime diverso”, devemos ter em conta
três subcritérios, quais sejam – valoração social diferente, imagem social diferente, sério
comprometimento da estratégia de defesa do arguido.
Ora, os primeiros dois critérios são alternativos entre si, adquirindo natureza cumulativa
em relação ao terceiro. Por outras palavras, haverá crime diverso quando, existindo uma
valoração social diferente ou uma imagem social diferente do crime que resulta dos novos
factos introduzidos no processo, tal comprometa seriamente a estratégia de defesa do
arguido.
A valoração social prende-se com o grau de ilicitude e/ou de culpa atribuído ao agente. Não
é necessário que um crime seja tipicamente diverso, para que a carga de ilicitude e/ou culpa
seja valorada de forma diferente. A cada uma das alíneas do artigo 132º, nº2 CP – crime de
homicídio qualificado – está associada uma ilicitude material distinta e, por conseguinte, o
grau de censura de que será alvo o agente também será distinto. Repugna-nos de forma
diferente o homicídio motivado por ódio racial em relação ao homicídio precedido de
tortura; tal como nos repugnará o crime motivado por ódio racial que seja precedido de
tortura. Assim sendo, se um facto novo vier, por exemplo, ditar o preenchimento de uma
alínea do artigo 132º, estaremos perante um “crime diverso”, diferente daquele que

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inicialmente foi indiciado, não obstante a nova base factual se manter subsumida no
referido artigo 132º.
No entanto, este subcritério não se afigura bastante para cobrir todo o leque de situações
em que podemos ter um “crime diverso”. É que poderá suceder que dois acontecimentos
mereçam o mesmo juízo valorativo – não comportando um grau material de ilicitude e/ou
de censura distintos – e, mesmo assim, se tratar de “crimes diversos”.
Neste enquadramento, surge o subcritério da imagem social que, conforme já se avisou, é
alternativo em relação ao primeiro. Este prende-se, nomeadamente, com a aparência do
crime; poderão novos factos levar a que, de fora, se perspetive o crime de forma diferente.
São abrangidas, pois, situações atinentes ao tempo, lugar, modo de execução do crime, etc.
Estes subcritérios, fruto da sua alternatividade, e da necessidade de concatenação com o
terceiro requisito que referimos são, pois, se considerados isoladamente, exíguos. É preciso
que, em concreto, se cumulem com o comprometimento sério da defesa do arguido67, a fim
de averiguarmos se estamos face a um “crime diverso” e, por conseguinte, perante uma
situação de alteração substancial dos factos.

Neste momento, a questão é a de saber se um facto novo – que acresce ao universo de


factos já existente -, levando a um “crime diverso” cujos limites máximos das sanções
aplicáveis sejam menos graves, consubstancia uma alteração substancial dos factos.
Aqui, importa não esquecer os critérios que analisámos anteriormente – valoração social
distinta ou imagem social distinta e comprometimento sério da estratégia de defesa do
arguido. Verificados os requisitos, então estaremos face a uma alteração substancial de
factos, ainda que os limites máximos das sanções aplicáveis sejam menos graves.
Podemos vislumbrar três hipóteses: novos factos autonomizáveis acrescem ao objeto do
processo; novos factos autonomizáveis substituem a base factual constante do objeto do
processo; factos novos não autonomizáveis acrescem ao objeto do processo.
A autonomia dos factos novos é uma realidade quando destes deriva um crime que se situe
numa posição de crime efetivo em relação ao crime do qual era, em princípio, acusado o
arguido (isto é, do crime que constava da anterior base factual). Se, eventualmente, novos
factos conduzirem a uma situação de concurso aparente de crimes, não estaremos perante
factos autonomizáveis, embora autónomos; se, considerados individualmente, os novos
factos não constituírem crime, nesse caso, nem autónomos são.
Concluindo, são factos autonomizáveis os que de per si constituem crime e que implicam
concurso efetivo com as infrações que constituem o objeto do processo.
Imagine-se, socorrendo-nos de um exemplo de Fernando Torrão, que A, inicialmente
acusado pelo crime de roubo (artigo 210º, nº1 CP) se depara, em julgamento, com novos
factos que vêm substituir os que constavam da acusação e que, tendo em conta a alteração
da base factual, lhe é imputado o crime de recetação (artigo 231º, nº2) – este que
constituiria uma relação de concurso efetivo com o crime de roubo, caso se mantivessem
os indícios primitivos. Se é verdade que a este “crime diverso” são aplicáveis sanções cujos
limites são menos gravosos, não podemos olvidar que também o é o facto de o arguido ter

67
Por sério entenda-se, nomeadamente, a imposição de reformulação ou remodelação substancial da
estratégia de defesa do arguido.

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preparado a sua defesa, ao longo de todo o processo, para defender os factos que
constavam da acusação e que, por conseguinte, se subsumiam no crime de roubo. A sua
estratégia de defesa poderia estar de tal forma bem formulada e consolidada que, aliada às
diligências probatórias a realizar, tudo indicaria que a decisão final poderia passar pela
absolvição. Com o surgimento destes novos factos, o arguido cuja defesa passava pela
absolvição, depara-se, agora, com uma alteração de paradigma, consubstanciado na
imputação de “crime diverso”. Ainda que os limites abstratamente aplicáveis a este crime
sejam menos graves, a estratégia de defesa do arguido foi seriamente comprometida.
Donde, e ainda que inicialmente pudéssemos vislumbrar um cenário mais favorável ao
arguido (porquanto a moldura penal é menos grave), na verdade, tendo em conta o acabado
de expor, não podemos deixar de considerar este caso como um exemplo de alteração
substancial dos factos por estarmos face a um “crime diverso”, fundado na diferente
valoração e imagem social do crime.
Pode suceder também que factos não autonomizáveis acresçam ao processo (e, daí, à base
factual existente) e que, considerados em conjunto com os restantes factos, formem um
“crime diverso”, menos grave. Mais uma vez, utilizando um exemplo de Fernando Torrão,
imagine-se o seguinte: A, acusado de homicídio simples (artigo 131º CP) por ter matado o
seu irmão, B, é, aquando do julgamento, deparado com indícios de que ele havia procedido
ao homicídio porque descobrira que o seu irmão padecia de uma doença terminal grave, a
qual envolvia e provocava um sofrimento desmedido nele. Ora, considerando-se esta nova
base factual, os factos que a compõem já se encontram subsumidos no crime de homicídio
privilegiado, na medida em que este foi motivado por compaixão (artigo 133º CP).
Concluímos, desde logo, que, de facto, o grau de censura associado a este “novo crime” é
menor do que o que envolve o artigo 131º. Neste contexto, a valoração social do crime é
alterada em virtude dos novos factos, o que, alicerçado com o comprometimento sério da
estratégia de defesa do arguido, poderá consubstanciar uma situação de “crime diverso” e,
por conseguinte, de alteração substancial dos factos. Parece-nos que, e no concernente ao
exemplo referido, se o arguido tiver planeado a sua estratégia de defesa com vista à sua
absolvição e se, de facto, existia uma alta probabilidade de isso vir a acontecer, estamos
face a uma alteração substancial de factos, operando o subcritério de “crime diverso”, não
obstante os limites máximos das sanções abstratamente aplicáveis serem menos graves.
A natureza autonomizável ou não autonomizável dos factos releva, essencialmente, para o
que no subcapítulo seguinte analisaremos. Contudo, adverte-se que a natureza dos novos
factos surgidos no processo pode ser sempre averiguada, levando estes a crime diverso ou
ao agravamento dos limites máximos das sanções aplicáveis.
Em suma, a alteração substancial dos factos constitui o limite até ao qual o processo se
deve considerar idêntico.
1. Este limite pressupõe, desde logo, a alteração de factos. E esta pode resultar da adição
de factos novos à base factual já existente ou da substituição de factos já existentes por
factos novos (aditando-se ou substituindo-se, o que é certo em que em qualquer das
hipóteses, existem factos novos). Não relevam, porém, para estes efeitos a mera
subtração de factos ao universo factual existente no processo em curso.

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2. Os factos aditados podem ser autonomizáveis ou não autonomizáveis, conforme o


crime que deriva dos novos factos de situe numa relação de concurso efetivo ou,
antes, de concurso aparente com o crime constante do objeto do processo.
3. O instituto da alteração substancial de factos funciona se, em concreto, houver lugar à
convocação de um dos subcritérios vertidos no artigo 1º, alínea f): agravação dos limites
máximos das sanções aplicáveis ou crime diverso.
4. No concernente ao primeiro subcritério mencionado – agravação dos limites máximos
das sanções aplicáveis -, este convocar-se-á quando factos novos provoquem a
subsunção da base fática num tipo legal cuja moldura penal abstratamente aplicável é
superior à que caberia ao crime inicialmente indiciado.
5. No que ao segundo subcritério diz respeito – crime diverso -, já a análise deve ser mais
cuidada e detalhada. A primeira das conclusões que devemos retirar é a de que crime
diversa não encerra o seu escopo em crime tipicamente diverso. Isto é, factos novos
poderão levar a que a base factual se subsuma num crime diverso, sem que estejamos
perante um crime tipicamente diverso e, assim, subsumindo-se no mesmo tipo legal.
6. Crime diverso é todo aquele que é socialmente valorado de forma diversa (do primeiro
crime) ou que possui uma imagem social distinta, desde que, concomitantemente,
provoque um sério agravamento da estratégia da defesa do arguido. E, assim, neste
contexto, os primeiros subcritérios são alternativos entre si – por isso na redação deste
ponto nos socorremos da conjunção ou -, mas cumulativos em relação ao terceiro. Com
o que isto importa a necessidade de, para estarmos perante um crime diverso, existir
sempre um sério comprometimento da estratégia de defesa do arguido.
7. A valoração social prende-se com a ilicitude material e/ou censura que recai sobre o
agente do crime. Se a nova base factual importar uma valoração social da ilicitude do
crime e/ou envolver um grau de censura do agente diverso, estaremos face a crime
diverso. Isto desde que, cumulativamente, se verifique um sério comprometimento da
estratégia de defesa do arguido.
8. À imagem social diversa subjaz a ideia de uma perspetivação diferente do crime, em
resultado da imputação de novos factos. Em causa estão situações relacionadas com a
data, local, modo de execução do crime, etc. Mais uma vez, para que opere é imperioso
que se vislumbre uma situação de comprometimento sério da estratégia de defesa do
arguido.
9. Poderá suceder que, pelo surgimento de novos factos autonomizáveis ou não
autonomizáveis, possamos considerar que o crime é diverso, ainda que este seja menos
grave do que o indiciado inicialmente. Contudo, para que consigamos aferir se tal
envolve alteração substancial dos factos, é necessário perceber se a imputação de crime
diverso menos grave contende com a defesa do arguido, provocando um
comprometimento sério da sua estratégia.

Subcapítulo II – “Caso Julgado de Consenso”

Dissemos que os novos factos que levam a alteração substancial dos factos, por imputarem
ao arguido crime diverso menos grave podem ser autonomizáveis ou não autonomizáveis,

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cujo critério já ficou exposto supra. E esta distinção revela-se fulcral para o que vai ser dito
em seguida.
Tratando-se de facto autonomizável em relação ao objeto do processo, a impossibilidade
de operar o caso julgado de consenso, vertido no artigo 359º, nº3 CPP, não obsta a que esses
factos sejam objeto de processo penal próprio (ou, melhor dito, de outro processo penal) –
por, precisamente, de per si se subsumirem num (outro) tipo legal de crime. Ora, faltando o
acordo a que se refere o nº3 – nomeadamente, porque o arguido não deferiu tal pretensão
-, ainda que os factos não possam ser trazidos ao objeto e, por conseguinte, ser tidos em
conta pelo julgador, sempre poderão ser julgados noutro processo, que se debruçará sobre
eles68.
Apercebendo-se da alteração substancial dos factos, o tribunal deve comunicá-la ao
Ministério Público, sendo certo que se esta derivar de novos factos autonomizáveis, tal
comunicação vale como notitia criminis e, tratando-se de crime público, poderá levar à
promoção da ação penal por parte daquele órgão (nº2 do artigo 359º CPP)69.
Se, porventura, a alteração substancial resultar de novos factos não autonomizáveis, a
questão será diversa, importando consequências necessariamente distintas, caso não seja
possível o caso julgado de consenso. Na impossibilidade de acordo entre Ministério Público,
arguido e assistente (nº3), estes factos não poderão ser objeto um outro processo penal
(porque só assumem relevância jurídico-penal se considerados conjuntamente com o objeto
em causa).
Se, neste cenário, o facto não autonomizável for invocado pelo arguido, temos de concluir
que, em abono da verdade, nem sequer estamos perante uma situação de alteração
substancial dos factos, porquanto a sua invocação se enquadra na estratégia de defesa do
arguido. Assim sendo, o(s) facto(s) invocado(s) podem integrar-se no objeto do processo,
sem que seja necessário o caso julgado de consenso. Com o que isso importa a derrogação
do que dissemos acima, ou mais propriamente que, nesta conjuntura, sendo o facto
invocado pelo arguido, não opera o disposto nº3 do artigo 359º. Se assim não fosse, correr-
se-ia o risco de Ministério Público ou assistente, vedarem a integração destes factos no
objeto do processo, o que consubstanciaria um entrave à estratégia de defesa do arguido,
algo que não se pode conceber. Mais, admitir-se tal possibilidade, levar-nos-ia a concluir
que o que o legislador deu com uma mão, acabou por tirar com a outra; com isto quer-se
significar que, considerando que o escopo do instituto da alteração substancial dos factos é
(efetivamente) é garantir o direito do arguido a uma melhor defesa, tal ficaria inviabilizado
se, perante um facto que importa um crime diverso (menos gravoso), o arguido estivesse
dependente do assentimento dos outros sujeitos processuais para o trazer para o processo
e, com isso, para estruturar a sua defesa conforme mais lhe aprouver.
Se, num outro cenário, o facto não autonomizável for invocado por outro sujeito
processual, o assentimento do arguido bastará para que este possa ser integrado no

68
Havendo consenso, os factos podem ser aditados ao objeto do processo e, assim sendo, podem ser
tidos em consideração. Contudo, na linha de Fernando Torrão, o caso julgado de consenso só deve
poder operar quando, entre os factos acrescentados e a base fática já existente, se verifiquem os
pressupostos da conexão – cf. artigo 24º CPP.
69
Que, como vimos, está obrigado a tal – vale o Princípio da Oficialidade.

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processo, não sendo necessário o sim dos restantes sujeitos. Com o que isso implica o facto
de tal deixar de consubstanciar um crime diverso e, por conseguinte, uma alteração
substancial dos factos.

Capítulo IX – Tramitação Processual

Subcapítulo I – Notitia Criminis

Com a aquisição da notitia criminis dá-se, em princípio70, início ao processo penal, abrindo-
se a fase de inquérito – fase não jurisdicional, cujo logro é apurar a veracidade dos factos
que integram a notícia do crime.
A notitia criminis pode ser adquirida, pelo Ministério Público, de três formas: por
conhecimento próprio, por intermédio dos órgãos de polícia criminal71 ou mediante
denúncia (artigo 241º CPP).
Quando sejam os órgãos de polícia criminal (OPC’s) a ter a notícia de um crime, por
conhecimento próprio ou mediante denúncia, devem transmiti-la no mais curto prazo (no
máximo, 10 dias) ao Ministério Público (artigo 248º, nº1).
Quando a notitia criminis seja adquirida mediante denúncia, aplica-se o disposto nos artigos
242º e seguintes. Vejamos: o artigo 242º elenca os casos em que a denúncia é obrigatória
– para as entidades policiais, de todos os crimes de que tiverem conhecimento; para os
funcionários (cf. artigo 386º do Código Penal), quanto aos crimes que tomarem
conhecimento no exercício das suas funções e por causa delas.
Note-se que, relativamente aos crimes cuja denúncia é obrigatória, os OPC’s ou outra
entidade judiciária ou policial que presenciem o crime, estão obrigados a lavrar auto de
notícia (artigo 243º, nº1), devendo este conter os elementos constante do nº2 do
mencionado preceito e ser assinado pela entidade que o lavrou e pela que o mandou lavrar.
O auto de notícia é obrigatoriamente remetido ao Ministério Público no mais curto prazo,
este que mais uma vez não pode exceder 10 dias, valendo como denúncia (nº4).
O lavrar de auto de notícia não está excluído nos crimes semipúblicos ou particulares; na
verdade, pode o agente policial denunciar o crime ao Ministério Público e a queixa ser
apresentada no prazo de seis meses (cf. artigo 115º CP).
Deixamos, também, a nota de que o auto de notícia, em alguns casos, pode valer como
acusação. Isto sucederá quando o juiz lhe conferir particular importância e desde que o
justifique devidamente (cf. artigo 389º, nº1).
O artigo 244º CPP reporta-se aos casos em que a denúncia é facultativa. Assim, quando se
trate de crime público72, qualquer pessoa que tiver notícia de um crime pode denunciá-lo

70
Dizemos em princípio porque, atento à natureza do crime, a aquisição da notícia do crime pode não
bastar para que se promova a ação penal – a fase de inquérito. Na verdade, nos crimes semipúblicos e
particulares, para que a ação penal seja promovida, é necessário que os titulares do direito de queixa
exerçam o seu direito (queixando-se, por supuesto) – cf., entre outros, artigo 242º, nº3.
71
O que, de resto, sucederá na maioria dos casos.
72
Em caso de crime semipúblico ou particular, a apresentação de denúncia por pessoa que não tenha
legitimidade – nos termos do artigo 113º CP – para se queixar, não legitima o Ministério Público a abrir
inquérito.

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ao Ministério Público, a outra autoridade judiciária ou aos órgãos de polícia criminal (se
forem estes últimos a receberem a denúncia, aplica-se o disposto no artigo 248º, nº1 CPP).
Sendo facultativa, está bom de ver que se uma pessoa que tenha conhecimento de um crime
e não o pronuncie, não incorrerá na violação de qualquer dever. Trata-se de uma faculdade
e, como tal, as pessoas que não denunciem, não serão responsabilizadas por isso, não
havendo lugar à aplicação de uma sanção jurídico-penal.
Finalmente, e ainda em matéria de denúncia, o âmbito de aplicação do artigo 245º (cuja
redação é, em parte, idêntica ao do artigo 248º, nº1) remonta aos casos em que a denúncia
é feita a entidade diversa do Ministério Público – v.g., à Autoridade Tributária.
Havendo denúncia, o Ministério Público informa o ofendido da notícia do crime e, em todo
o caso, deve informá-lo sobre o regime do direito de queixa e as suas consequências
processuais (artigo 247º CPP).

Subcapítulo II – Detenção

A detenção pode ser realizada em flagrante delito ou fora de flagrante delito.


Nos termos do artigo 256º, a detenção em flagrante delito ocorre em relação a crime que
se está a cometer73 (flagrante delito em sentido técnico) ou que acabou de ser cometido
(quase flagrante delito). É que pode suceder que não se tenha assistido à execução do crime,
mas ser possível depreender que o crime acabara de ser cometido (nº1).
Por outro lado, reputa-se de flagrante delito – presunção de flagrante delito -, o caso em
que o agente for, logo após o crime, perseguido por qualquer pessoa ou encontrado com
objetos ou sinais que claramente mostrem que o acabou de cometer ou de nele participar
(nº2).
Têm legitimidade para proceder à detenção em flagrante delito, qualquer autoridade
judiciária ou entidade policial, ou qualquer pessoa, contanto que uma das duas entidades
referidas na alínea anterior não estiver presente nem puder se chamada em tempo útil –
exclui-se a ilicitude da privação de liberdade nestes casos (artigo 255º, nº1). Nesta última
hipótese, a pessoa que tiver procedido à detenção deve entregar imediatamente74 o detido
a uma das entidades referidas na alínea a) do referido preceito – quais sejam, uma
autoridade judiciária ou entidade policial -, a qual deve redigir auto sumário da entrega, da
qual devem constar os moldes em que foi feita a detenção (nº2). Se, todavia, se tratar de
crime semipúblico, a detenção só se mantém se o titular do direito de queixa o exercer
(normalmente, o ofendido), devendo a vítima proceder ao exercício desse seu direito. A
queixa deve, em todo o caso, fruto da aplicação do artigo 250º, nº6 CPP, ter lugar no prazo
de seis horas. Na verdade, nestes casos, não existe uma verdadeira detenção, já que o
agente só é efetivamente detido se, em momento posterior, houver a apresentação de
queixa. Nem faria sentido deter alguém, para depois em virtude da não apresentação da
queixa, ser libertado.

73
Enquanto estão a ser praticados atos de execução.
74
Não pode haver desperdício de tempo.

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Direito Processual Penal

Tratando-se de crime com natureza particular, não há lugar à detenção em flagrante delito,
mas tão-só à identificação do infrator (nº4)75.
As finalidades da detenção em flagrante delito são as que se encontram vertidas no artigo
254º, nº1. São elas: a apresentação do detido, no prazo máximo de quarenta e oito horas
(48 horas)76, a julgamento sob forma sumária ou ser presente ao juiz competente para
primeiro interrogatório judicial ou para aplicação ou execução de uma medida de coação;
ou para assegurar a presença imediata ou, não sendo possível, no mais curto prazo, mas
sem exceder vinte e quatro horas (24 horas), do detido perante a autoridade judiciária em
ato processual.
Sendo presente ao juiz, este decidirá sobre a oportunidade de lhe serem aplicadas medidas
de coação. Decidindo-se pela não aplicação, o que ocorre na maioria dos casos porquanto a
sua efetivação está condicionada à verificação de vários requisitos e ao respeito por alguns
princípios, o juiz poderá mais tarde, tendo como referência os comportamentos adotados
pelo arguido (v.g., se vem a destruir provas), aplicar uma medida de coação.
Mas, conforme referimos, a detenção pode igualmente ser efetuada fora de flagrante
delito (artigo 257º). Tal poderá suceder mediante a existência de um mandado de detenção
(artigo 258º), desde que se verifique uma das situações previstas nas alíneas do nº1 do
artigo 257º77; ou quando se deem por preenchidas as alíneas do nº278, caso em que as
autoridades de polícia criminal poderão ordenar a detenção.

Subcapítulo III – Inquérito: a fase não jurisdicional

A notícia do crime, quando seja público, dá lugar à promoção da ação penal (artigo 262º,
nº2) – vale o Princípio da Legalidade (na vertente da obrigatoriedade – cf. artigo 219º, nº1
CRP79). Assim sendo, o Ministério Público deve proceder à abertura do inquérito, cujo logro
principal é o de averiguar da veracidade da notitia adquirida e, com isso, da existência de
um crime, dos seus agentes e da responsabilidade destes (artigo 262º, nº1).
Esta fase é, então, dirigida (pelo Ministério Público) tendo em vista a reunião de provas
para que, por fim, se decida ou não pela acusação. A maioria dos atos a levar a cabo nesta
fase são delegados nos órgãos de polícia criminal (artigo 270º CPP), funcionando um
Princípio Geral de Delegação. Contudo, estes órgãos continuam a atuar sob a égide do
Ministério Público, estando, para com ele, numa relação de dependência funcional (cf.,
entre outros, artigos 55º e 56º CPP).

75
Se a pessoa se recusar a identificar-se, poderá incorrer no crime de desobediência, previsto no artigo
348º do Código Penal.
76
Em todo o caso, falamos que, durante este período, se trata de uma prisão sem culpa formada (o que
decorre, desde logo, do princípio da presunção de inocência). Porventura, se a detenção ocorrer por
período superior a 48 horas, o detido pode socorrer-se do instituto do habeas corpus, fundando a sua
pretensão em detenção ilegal (artigo 31º CRP).
77
Requisitos de natureza alternativa.
78
Requisitos de natureza cumulativa.
79
O Ministério Público não tem margem de decisão, i. é., a menos que estejamos perante uma das
exceções previstas no Código (quais sejam, os crimes particulares e semipúblicos, ou processos que
devam seguir a forma sumária ou abreviada), o Ministério Público, tendo o domínio da ação penal, deve
promover o respetivo procedimento, não podendo abster-se de o fazer.

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Direito Processual Penal

Outros atos haverá que são da exclusiva competência do juiz de instrução criminal, por cuja
prática contender com os direitos fundamentais do arguido – artigos 32º, nº4 CRP, 268º e
269º CPP. Mas também existem outros atos que não podem ser delegados pelo Ministério
Público nos OPC´s – artigo 270º, nº2 (consubstanciando uma exceção ao princípio referido).
Realizados os atos que o Ministério Público entender por convenientes, a investigação –
coadjuvada pelos órgãos de polícia criminal (cf. artigos 55º, nº1 CPP e 202º, nº3 CRP) -, tem-
se como encerrada. Com o que isso importa, naturalmente, o fim da fase (não jurisdicional)
do inquérito80.
Coloca-se, nesse momento, a questão de saber se o suspeito deve, ou não, ser acusado.
Tudo se centra em saber se foram obtidos indícios suficientes que possam suportar uma
eventual acusação pois, caso não os haja, o Ministério Público deve arquivar o processo –
artigo 277º CPP. Nesse caso, o despacho de arquivamento é comunicado ao arguido, ao
assistente, ao denunciante com faculdade de se constituir assistente (e a quem tenha
manifestado o propósito de deduzir pedido de indemnização cível – nº3 do mencionado
preceito.
Pelo contrário, uma vez recolhidos indícios suficientes, o Ministério Público deve deduzir
acusação (artigo 283º, nº1 e nº2), devendo esta ser comunicado, nomeadamente, ao
assistente e ao arguido.
Deduzida acusação pelo Ministério Público (que, para o efeito, goza de um prazo de 10
dias), pode o assistente, querendo, acusar também, contanto que o faça no prazo de 10 dias
após a notificação da acusação do Ministério Público, por parte dos factos contidos naquela
ou por outros que não importem alteração substancial daqueles (artigo 284º, nº1). A
acusação do assistente traduz-se num reforço da acusação do Ministério Público, uma vez
que, além do mais, aquele se encontra vinculado ao objeto da acusação deste órgão. Nada
obriga o assistente a acusar, podendo fazê-lo por parte dos factos ou alterando a
qualificação jurídica dos factos.
A dedução de acusação pelo Ministério Público, não é a única solução que a lei lhe oferece
neste domínio. Pode acusar, como pode não fazê-lo, não obstante tenha em sua posse
indícios suficientes que, em regra, levam a que esta seja deduzida. Quando nos referimos a
outras soluções, falamos da suspensão provisória do processo (artigo 281º e 282º CPP)81
ou do arquivamento do processo por dispensa de pena (artigos 280º CPP e 74º CP82), daí
que, atendendo a esta possibilidade, se diga que no nosso ordenamento jurídico-penal não
há pena sem culpa, mas há culpa sem pena. E, deste modo, percebemos que vigora, aqui,
um Princípio de Legalidade, num sentido de certa oportunidade (subjaz-lhe uma ideia de
legalidade aberta) – cf., mais uma vez, artigo 219º, nº1 CRP. Naturalmente que, para que o
Ministério Público possa recorrer aos institutos referidos, é necessário que se verifiquem
certos pressupostos, os quais se encontram elencados nas normas supracitadas.

80
Nota para o artigo 276º estipular prazos para a duração do inquérito. Estes não são, todavia,
vinculativos, tendo um caráter meramente ordenador.
81
Cujo tema é desenvolvido por Fernando Torrão, in A Relevância Político-Criminal da Suspensão
Provisória do Processo.
82
Antecipação desta figura para a fase final do inquérito.

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Direito Processual Penal

O recurso, tanto à suspensão provisória do processo como ao arquivamento do processo


por dispensa de pena, pode justificar-se por, em concreto, ser a medida que, do ponto de
vista político-criminal, se mostra mais conveniente e adequada à prossecução dos fins do
Direito Penal. Hipoteticamente, a melhor solução para o arguido poderá ser o evitamento
do julgamento; e, nesse sentido, recorrendo ao instituto da suspensão provisória do
processo, pode impor-se ao arguido que atue em conformidade com as medidas acordadas
nessa sede (caução de boa conduta). Atuando conformemente, o arguido dá provas de que
se encontra ressocializado e que, por isso, se revelaria inútil a aplicação de uma qualquer
sanção penal, atento à sua finalidade de prevenção especial positiva.
Desta forma, o arguido evita sentar-se no banco dos réus, o que de per si se afigura
estigmatizador o suficiente. Por outro lado, confere uma outra importante vantagem: a da
economia processual; os tribunais não enchem as suas fileiras de processos que, dada a sua
menor gravidade, podem ser resolvidos sem ir a julgamento.
Todavia, se o crime for particular, a solução é diversa. Nessa eventualidade, subtraído que
está o domínio da ação penal da esfera do Ministério Público, cabe ao assistente decidir se,
findo o inquérito, prossegue com o processo (artigo 285º). Notificado para o efeito, o
assistente goza de 10 dias para deduzir acusação particular. Conforme resulta ínsito do nº2,
poderá suceder que haja acusação sem, no entanto, terem sido recolhidos indícios
suficientes. Deduzida acusação particular, o Ministério Público pode, nos cinco dias
subsequentes, acusar pelos mesmos factos, por parte deles ou por outros que não
importem alteração substancial (nº4, artigo 285º).
Sucede, aqui, uma espécie de inversão de papeis em relação ao cenário traçado para os
crimes particulares ou semipúblicos (cf. artigo 284º). Nesta hipótese, a acusação traduz-se
num poder-dever do Ministério Público (adstrito, como sabemos, ao Princípio da
Legalidade), podendo, de forma acessória, o assistente deduzir acusação. Assim não é
quando se trate de crimes particulares, porquanto o desenrolar da ação penal está no
âmbito da disponibilidade do assistente – que, conforme a sua pretensão, decidirá ou não
pela acusação -, só sendo admitido ao Ministério Público acusar, se e só se o assistente
deduzir acusação particular. E, se assim for, este órgão poderá acusar, ainda que esta se
situe vinculada ao objeto da acusação do assistente.
Importa não olvidar que este momento é de importância extrema, mormente para efeitos
de vinculação temática ou de identidade do objeto. É a acusação que define o objeto do
processo, pelo que será sempre este um (dos) ponto(s) de referência quando se queira
averiguar se factos novos que se pretendam aditar à base fática inicial (da acusação) põem
em causa o Princípio da Vinculação Temática. Ou, por outras palavras, se podemos estar
perante uma situação de alteração substancial dos factos.

Subcapítulo IV – Instrução

Havendo lugar à fase instrutória (ou de instrução), entra-se na fase jurisdicional do processo
penal, cujos atos são praticados, em regra, pelo juiz (artigo 290º, nº1 CPP). Como demos a

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Direito Processual Penal

entender, esta fase tem um caráter facultativo (artigo 286º, nº2 CPP)83, uma vez que a sua
existência está dependente da formulação de um requerimento do arguido ou do assistente
(artigo 287º, nº1).
Esta fase, quando exista, visa comprovar judicialmente a decisão tomada na parte final do
inquérito, tenha ela sido a acusação ou o arquivamento – nos termos que já tivemos
oportunidade de mencionar (artigo 286º, nº1).
A abertura da instrução pode ser requerida, no prazo de 20 dias a contar da notificação da
acusação ou do arquivamento, pelo arguido – se é acusado, este sujeito processual pode
ter (e, decerto, tem) interesse em impugnar os factos que constam da acusação através de
uma nova fase processual, sendo, além do mais, um direito fundamental de defesa. Pode
também, querendo, requerer a abertura da instrução para alterar a qualificação jurídica dos
factos – logo, não precisando de os contrariar. Esta hipótese é-nos dada através de uma
interpretação extensiva da alínea a), nº1 do artigo 287º: o logro do arguido pode, por um
lado, ser a impugnação dos factos e, por outro, a impugnação do direito.
O requerimento pode também ser elaborado pela pessoa do assistente, cuja legitimidade
lhe é conferida pela alínea b), nº1 do artigo 287º. É verdade que este sujeito processual
pode requerer a abertura da instrução, mas relativamente a factos pelos quais o Ministério
Público não tiver deduzido acusação. Concretizando: quando o Ministério Público decida
pelo arquivamento e, igualmente, quando acusa, mas entendendo o assistente que faltam
factos.
Por outras palavras, os factos que o assistente pretenda invocar no requerimento para
abertura da instrução têm, necessariamente, de importar uma alteração substancial dos
factos. É que o artigo 284º, admitindo ao assistente a possibilidade de acusar, confere-lhe a
oportunidade de o fazer por outros factos – que não constem da acusação do Ministério
Público – e que não importem a alteração substancial daqueles.
Assim, se pretender invocar no requerimento para a abertura da instrução, factos novos
que não importem uma alteração substancial, não poderá fazê-lo, uma vez que teve
oportunidade para tal aquando da acusação. E, assim, deve fazer-se uma interpretação
restritiva da mencionada alínea b), devendo ler-se não (todos os) factos, mas apenas por
“aqueles que importem uma alteração substancial dos factos da acusação”84.
Verificados os pressupostos que analisámos, havendo requerimento para a abertura da
instrução por parte do assistente, este, conjuntamente com a acusação do Ministério
Público, formará o objeto do processo, ficando a ele vinculado, desde logo, todos os sujeitos
processuais mas, nesta fase, uma vez que é dirigida por si, o juiz de instrução criminal (cf.
artigos 288º e 289º).
Esta fase, ao contrário do inquérito, tem uma estrutura essencialmente acusatória, assente
num debate instrutório oral e contraditório (artigo 289º, nº1).

83
Nota para o facto de, nos processos especiais – processo sumário, abreviado, sumaríssimo -, não
existir fase instrutória (artigo 296º, nº3).
84
Não seria tolerável, sendo a celeridade processual um princípio em matéria adjetiva (concretamente,
em Direito Processual Penal), admitir-se que esta fosse sacrificada por algo que poderia ser decidido
sem necessidade de recurso a outra fase processual.

60

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Direito Processual Penal

Com a produção de prova é normal que surjam novos factos85, mas o juiz só pode integrar
factos que não importem alteração substancial de factos. Nos termos do artigo 303º CPP,
havendo uma alteração não substancial, o juiz pode integrar o novo facto, devendo
comunicar a alteração ao defensor do arguido, interrogando-o posteriormente em relação
ao novo facto. Deve requerer um prazo para se defender dele, de forma a ajustar a sua
defesa, sendo certo que não poderá exceder oito dias86.
Se um facto surgido implique uma alteração substancial dos factos contidos na acusação ou
no requerimento para a abertura da instrução, o juiz deve ignorá-lo, o que não leva à
extinção da instância (artigo 303º, nº3 CPP) – vigora o Princípio da Vinculação Temática.
Neste contexto, importa referir que o cenário será distinto conforme estejamos perante
facto novo autonomizável ou não autonomizável. Em qualquer dos casos, o juiz deve abster-
se de integrar o facto no processo, sob pena de o despacho de pronúncia que sobre ele se
debruce ser nulo, por força do artigo 309º, nº1. Contudo, sendo o facto autonomizável – i.
é, que de per si constitui um crime que se situa em concurso de crime efetivo com o crime
que consta do objeto do processo -, o juiz deve comunicá-lo ao Ministério Público, lavrando
certidão de novos factos, autenticada por funcionário judicial (artigo 303º, nº4). Esta
comunicação vale como denúncia, o que constituirá, tratando-se de crime público, o
Ministério Público no dever de promover a ação penal correspetiva (para julgar os factos
surgidos, que serão objetos de processo próprio). Pelo contrário, se se tratar de facto não
autonomizável – ou seja, se de per si não constitui crime ou consubstancia um crime que,
contudo, se situa numa situação de concurso de crimes aparente em relação ao crime que
consta da base factual -, o juiz deve ignorá-lo, não o comunicando ao Ministério Público. Isto
porque, na linha do que já temos vindo a dizer, este facto, sendo não autonomizável, só
assume relevância jurídico-penal se considerado conjuntamente com os restantes factos.
Reforçamos que, caso o juiz considere um facto que importa uma alteração substancial, o
despacho de pronúncia que sobre ele se debruce será nulo (nessa parte) – artigo 309º, nº1.
No entanto, caso o arguido pretenda deixar que o facto integre o objeto do processo, basta
que se abstenha de arguir a nulidade nos oito dias subsequentes a contar da data da
notificação do despacho de pronúncia (artigo 309º, nº2) – tem-se a inércia como
concordância.
À solução mencionada subjaz uma ideia similar à do caso julgado de consenso que, em sede
devida, tivemos oportunidade de abordar. Abstendo-se de arguir a nulidade, esta
convalidar-se-á, o que, em termos práticos, produzirá efeitos similares ao do instituto do
caso de julgado de consenso. Isto porque o novo facto passa a integrar a base fática e, com
isso, o objeto do processo (cf. artigo 359º, nº3).
Encerrado o debate instrutório, o juiz proferirá despacho de pronúncia ou de não pronúncia
(artigo 307º), conforme os factos fiquem comprovados judicialmente ou não.
Nesta fase, pode recorrer-se – admitindo-o o nº2 do artigo 307º -, ao instituto da suspensão
provisória do processo (cf. artigo 281º), desde que se verifiquem os respetivos pressupostos.
Mais uma vez, atento a razões de índole político-criminal, a melhor solução poderá passar

85
Quando o arguido invoca factos nunca há alteração substancial de factos.
86
Cf. artigo 303º, nº5.

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por impor ao arguido a adoção de determinadas condutas (destacamos as prescritas no nº2


do artigo 281º) – caução de boa conduta.
Por fim, cumpre deixar duas notas: a primeira é a de que os prazos dispostos no artigo 306º
são meramente ordenadores, com o que isso importa a possibilidade de estas fase se
protelar para lá dos limites “máximos” estipulados naquele preceito; a outra é a de que o
artigo 310º, nº1, estipulando a irrecorribilidade da decisão instrutória, derroga uma das
regras que regem o Direito Processual Penal, qual seja a da recorribilidade das decisões
judiciais (cf. artigo 399º).

Subcapítulo V – Julgamento

Encerrada a instrução e proferido o despacho de pronúncia, o processo é remetido para o


tribunal de julgamento competente. Este, recebendo os autos, pronuncia-se, através do seu
presidente, sobre as nulidades e outras questões prévias ou incidentais que obstem à
apreciação do mérito da causa (artigo 311º CPP) – de índole processual.
Analisadas essas questões, o presidente do tribunal, mediante despacho, designará dia,
hora e local para a audiência (de julgamento) – artigo 312º. Notificado do despacho, o
arguido goza de 20 dias para, querendo, apresentar a contestação, acompanhada do rol de
testemunhas (artigo 315º, nº1).
Depois de praticados os atos preliminares87, há lugar à audiência de julgamento (artigo
321º e seguintes do Código de Processo Penal). Quanto a esta, vigoram vários princípios,
como o Princípio da Publicidade (artigo 321º, nº1), o Princípio do Contraditório (artigo 327º)
e o Princípio da Concentração (artigo 328º, nº1). No que à publicidade concerne, o que tal
quer significar é que qualquer pessoa pode assistir à audiência de julgamento. Subjaz-lhe
uma ideia de transparência, na medida em que o tribunal julga em nome da comunidade.
Contudo, este princípio é excecionado em relação a alguns crimes, nomeadamente quanto
ao julgamento de crimes sexuais ou quando tal ponha em causa a reserva da vida privada.
Relativamente aos outros dois princípios mencionados, deixamos apenas uma breve
referência ao relativo à concentração, uma vez que a ideia do contraditório, nesta fase da
nossa formatura, dispensa já qualquer tipo de apresentação e também, tal como os outros,
foi alvo de estudo no Capítulo por nós dedicado aos princípios que regem o Direito
Processual Penal. Assim, impõe o Princípio da Concentração que a audiência seja contínua
e, nos casos que seja admitida a sua interrupção, deve continuar no dia útil imediatamente
posterior. A ratio é a de que uma melhor decisão implica que o juiz tenha presente as
declarações – nomeadamente, as orais – feitas pelas partes (cf. artigo 365º, nº1 CPP).
Na audiência, o tribunal ordena oficiosamente a produção de prova, desde que entenda
que a prova se afigure necessária à verdade material – vigora, pois, o Princípio da Verdade
Material (artigo 340º, nº1)88.
Também aqui se coloca a hipótese de, atento à produção de prova que nesta fase possa
ocorrer, surgirem novos factos. Vislumbra-se, mais uma vez, a necessidade de perceber se
os factos surgidos importam uma alteração substancial dos factos que constam da base

87
Cf. artigos 311º a 320º CPP.
88
O que configura uma exceção ao Princípio do Pedido.

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factual a que o juiz está vinculado, seja ela a acusação ou, havendo instrução, o despacho
de pronúncia.
Ora, se no decurso da audiência se verificar uma alteração não substancial dos factos
descritos na acusação ou na pronúncia, o presidente comunica a alteração ao arguido e
conceder-lhe, caso este o requeira, o tempo estritamente necessário para a preparação da
defesa (artigo 358º, nº1)89; o mesmo sucederá quando ocorra uma alteração da qualificação
jurídica dos factos descritos na acusação ou na pronúncia (nº3). Naturalmente, que se os
factos forem trazidos para o processo pela defesa, o disposto naquele preceito não será
aplicado (nº2)90.
E quando surjam novos factos que, ao abrigo do artigo 1º, alínea f) CPP, importa uma
alteração substancial? A regra é a de que os factos que importem uma alteração substancial,
não podem ser tidos em conta pelo tribunal para o efeito de condenação no processo em
curso, nem implica a extinção da instância (artigo 359º, nº1).
Contudo, esta regra sofre uma importância derrogação, traduzida no caso julgado de
consenso cuja figura se encontra consagrada no nº3 do artigo 359º91. Não obstante haver
alteração substancial dos factos, o juiz pode considerar os factos, desde que todos os
sujeitos processuais estejam de acordo. Ainda assim, o entendimento – hoje
tendencialmente unânime, inclusivamente defendido por Fernando Torrão – é o de que
basta o assentimento do arguido para que os factos possam ser integrados no processo,
uma vez que se pressupõe que o aval deste e, com o que ele importa, é parte integrante da
sua estratégia de defesa92.
Havendo acordo, os factos são integrados no objeto do processo (em resultado da
negociação), concedendo-se ao arguido, mediante requerimento deste, um prazo para este
preparar a sua defesa tendo em conta os novos factos, nunca superior a 10 dias (artigo 359º,
nº4).
Pelo contrário, se o acordo se afigurar inviável e se o facto novo for autonomizável, deve
ser comunicado ao Ministério Público, valendo como notitia criminis, para que ele,
podendo, promova um (novo) processo penal que se debruce sobre esses factos (artigo
359º, nº2). Sendo não autonomizável, o tribunal deve pura e simplesmente desconsiderar o
facto93.
Em todo o caso, não havendo acordo, é sacrificada a verdade material. Esta solução é
criticada, ao nível doutrinal, por alguns autores. Alcançando-se o acordo, salvaguarda-se a
verdade material, sem detrimento do direito do arguido a uma melhor defesa.

89
Note-se que aqui a lei já não se refere a um prazo de oito dias.
90
A redação deste artigo é em tudo idêntica à do artigo 303º CPP.
91
Lógica idêntica à que subjaz ao artigo 309º, nº2 CPP. Supra.
92
Como referimos, o cenário equacionável para a aplicação deste instituto é, indubitavelmente, quando
havendo crime diverso, os limites máximos das molduras penais abstratamente aplicáveis sejam mais
favoráveis ao arguido. À partida, um arguido não irá aceitar um facto que importe o agravamento dos
limites máximos.
A anuência do arguido não implica a prova dos novos factos.
93
Pelos motivos mencionados acima.

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Subcapítulo VI – Sentença

Finda a audiência de julgamento, é proferida a sentença – com a qual o processo culmina


(artigos 365º e seguintes).
Esta deve pronunciar-se sobre todos os elementos que constituem a Teoria da Infração
Penal – designadamente, sobre a ação, a tipicidade, a ilicitude e a culpa (artigo 368º, nº2).
Deve, igualmente, ser feita uma exposição do juízo dogmático-criminal que levou a
aplicação de uma sanção, tendo este sempre em consideração as finalidades preventivas
que estão associadas às medidas sancionatórias (artigo 369º).
Sem nos preocuparmos com grandes desenvolvimentos, apenas referimos que a sentença
condenatória se encontra prevista no artigo 375º, a sentença absolutória no artigo 376º e a
sentença sobre o pedido de indemnização civil no artigo 377º. Em qualquer caso, da
sentença devem constar os requisitos vertidos no artigo 374º.
Finalmente, nota para o facto de o artigo 379º, nº1, alínea b), o qual estipula a nulidade da
sentença que condene por factos diversos dos descritos na acusação, ou tendo havido lugar
à instrução, na pronúncia, quando tal representar um cenário de alteração substancial dos
factos e não se tenha alcançado o caso julgado de consenso.

Capítulo X – Formas de Processo Especiais

Nem sempre os processos seguem a forma comum – isto é, aquela sobre a qual até agora
nos debruçámos -, podendo o processo ser tramitado com respeito a formas especiais que,
no âmbito processual penal, podem ser três: processo sumário (artigos 381º e seguintes
CPP), processo abreviado (artigos 391º-A e seguintes CPP) e processo sumaríssimo (artigos
392º e seguintes).
A aplicação destas formas especiais tem em muito a ver com a gravidade do crime em
apreço. Por isso, estas serão aplicadas a crimes menos graves, porquanto os crimes mais
graves exigem formas mais solenes que, por natureza, são mais garantísticas (a ideia que
subjaz é a seguinte: a haver erro que seja relativamente aos crimes menos graves).
Sobre estas formas de processo especiais agora nos debruçaremos, deixando, desde já, a
nota que, comum a todas elas, é a inexistência da fase instrutória (cf. artigo 286º, nº3 CPP).

Subcapítulo I – Processo Sumário

Naturalmente que a forma de processo a aplicar ao julgamento de um qualquer crime, não


pode ser deixada ao arbítrio dos aplicadores das leis, mormente ao do tribunal. E também
não convém olvidar que, em matéria processual, a regra é a de que o processo segue forma
comum.
Assim, para que um processo siga forma especial (qual seja), é conditio que se verifiquem
certos requisitos/pressupostos, os quais acabarão por legitimar a sua aplicação.
No caso do processo sumário, os pressupostos encontram-se dispostos no artigo 381º CPP
e são os seguintes: detenção em flagrante delito (cf. artigo 255º), o limite máximo da pena
abstratamente aplicável ao crime não seja superior a cinco anos (requisito de natureza

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material). Podem, ainda, ser julgados sob a forma de processo sumário os detidos em
flagrante delito por crime cujo limite máximo da pena abstratamente aplicável seja superior
a cinco anos, desde que o Ministério Público, na acusação, entenda que não deve ser
aplicada, em concreto, pena de prisão superior a cinco anos (nº2).
Neste caso, após a detenção ou a entrega do detido, este deve ser apresentado
imediatamente – até 48 horas -, ao Ministério Público junto do tribunal competente para
julgamento, que assegura a nomeação do defensor ao arguido (artigo 382º, nº1)94.
Não se procedendo, após a detenção em flagrante delito, o arguido deverá, regra geral, ser
libertado (artigo 385º, nº1). Tal só não sucederá, caso estejamos perante cenários que se
subsumam nas alíneas do preceito supracitado.
Os princípios que regem o julgamento em processo sumário são os que tivemos
oportunidade de analisar quanto ao processo comum (por remissão do artigo 386º, nº1).
Todos eles se devem coadunar com o fim a que se vota o processo penal – apuramento da
verdade material -, pelo que, não obstante uma das principais características dos processos
especiais ser a celeridade, tal não pode nunca colocar em causa aquela finalidade, nem, por
outro lado, os direitos fundamentais de defesa (mais elementares) do arguido (cf., entre
outros, artigo 386º, nº2).

Subcapítulo II – Processo Abreviado

Este, compreendido entre os artigos 391º-A e 391º-G, para que possa ser convocado é
necessário que se verifiquem os seguintes pressupostos: crime punível com pena de multa
ou com pena de prisão não superior a cinco anos, provas simples e evidentes95 de que
resultem indícios suficientes para crer que o crime efetivamente se verificou e de quem
foi o seu agente.
Perante este cenário, o Ministério Público, em face do auto de notícia ou após realizar
inquérito sumário, deduz acusação para submeter o agente a julgamento.
Também podem ser julgados em processo abreviado, os crimes puníveis com pena de
prisão cujo limite máximo seja superior a 5 anos, quando o Ministério Público, na acusação,
entenda que não deve ser, em concreto, aplicada uma pena de prisão superior a cinco anos
(artigo 391º-A, nº2 CPP, o qual tem paralelismo – como vimos – com o artigo 381º, nº2).

Subcapítulo III – Processo Sumaríssimo

A aplicação processual desta forma depende de requerimento do arguido ou do Ministério


Público, depois de o ter ouvido e quando entenda que ao caso deve ser concretamente
aplicada pena ou medida de segurança não privativas de liberdade (artigo 392º, nº1),
contanto que o crime em apreço não seja aplicável uma pena cujo limite máximo não
exceda cinco anos.

94
Até então, há apenas lugar a um interrogatório feito ao arguido pelo Ministério Público.
95
Cf. artigo 391º-A, nº3 CPP.

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O requerimento do Ministério Público deve ser formulado com respeito pelo artigo 394º
CPP, pelo que dele deve constar, de entre outros elementos, o enunciado sumário das
razões pelas quais entende que ao caso não deve concretamente ser aplicada pena de prisão.
O juiz pode rejeitar o requerimento, reenviando o processo para outra forma nas hipóteses
previstas no artigo 395º CPP (este preceito tem paralelo no regime dos outros processos
especiais – cf. artigos 390º e 391º-D).
Aceite o requerimento, o processo segue a forma sumaríssima – nomeadamente, após a
fase do inquérito. E, assim sendo, a sanção é aplicada, caso não haja oposição por parte do
arguido ao requerimento (cf. artigo 396º), por despacho, sem que haja lugar à fase de
julgamento – artigo 397º, nº1 e nº2 CPP.

Capítulo XI – Medidas de Coação

As medidas de coação, enquanto medidas cautelares, visam assegurar o bom


funcionamento do processo. Pese embora o arguido esteja adstrito a um dever de
colaboração para o apuramento da verdade material, nem sempre atua em conformidade
com o que lhe é imposto, o que poderá prejudicar o andamento do processo e, outrossim,
a finalidade do processo penal96. Nesse sentido, a lei consagra um elenco de medidas cujo
logro é o de, precisamente, acautelar o bom funcionamento do processo.
O Ministério Público, enquanto entidade que domina a fase do inquérito requer, estando
verificados os respetivos pressupostos, a aplicação das medidas de coação. O juiz, face ao
requerimento daquela entidade, não tem outra solução, quando verificados os requisitos
de procedência, que não seja a de dar provimento, deferindo, a pretensão do Ministério
Público (artigo 194º, nº1 CPP).
Contudo, importa dar ao arguido, antes de lhe ser aplicada qualquer medida de coação,
oportunidade para se pronunciar sobre os factos que lhe são imputados, nomeadamente
através de interrogatório judicial (nº4)97.
Para se poder aplicar uma medida de coação é, antes de tudo, e sem prejuízo dos
pressupostos específicos dispostos para cada medida, fundamental que se deem por
verificados os requisitos gerais vertidos no artigo 204º CPP98. São eles: fuga ou perigo de
fuga – visa-se acautelar a presença do arguido perante as instâncias da justiça ao longo de
todo o processo e garantir a efetividade da decisão a proferir; perigo de perturbação do
decurso do inquérito ou da instrução do processo – estamos perante situações em que a
atuação do arguido pode revelar-se prejudicial para as investigações que, nomeadamente
na fase de inquérito, decorrem. Pode o arguido destruir provas ou, de alguma forma,
obstruir o caminho investigatório que é traçado pelo Ministério Público ao longo da fase do
inquérito; perigo, em razão da natureza e das circunstâncias do crime ou da personalidade
do arguido, de que este continue a atividade criminosa ou perturbe gravemente a ordem

96
Figueiredo Dias fala, neste sentido, de uma tensão dialética entre os direitos fundamentais do arguido
e o apuramento da verdade material.
97
Esta possibilidade é ainda mais relevante se tivermos em consideração que o contraditório na fase do
inquérito é quase uma miragem ou, pelo menos, é muito ténue.
98
Em todo o caso, tem de existir “pericula libertatis”.

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e a tranquilidade públicas – a interpretação deste requisito reveste-se de especial


sensibilidade, porquanto ao confrontámo-lo poder-se-á equacionar, errada e ilicitamente,
que uma medida de coação pode ser aplicada como antecipação de uma pena (que,
eventualmente, pudesse vir a ser ditada). Assim, a aplicação de medida de coação fundada
no preenchimento deste requisito deverá sempre ter em consideração um comportamento
futuro do agente e não uma qualquer presunção que derive do crime que, eventualmente,
tenha sido praticado por este.
Uma vez que contendem, necessariamente, com direitos fundamentais do arguido, a
aplicação de medidas de coação rege-se por princípios importantes, alguns, inclusive, com
assento constitucional99. Excluído está, é claro, o termo de identidade e residência (artigo
196º), uma vez que é aplicável a “todo aquele que for constituído arguido”, podendo ser
lavrado por autoridade judiciária ou por órgão de polícia criminal, dispensando a
intervenção do juiz de instrução criminal100.
O primeiro dos princípios a ter em consideração é o Princípio da Legalidade (artigo 191º,
nº1 CPP), segundo o qual “a liberdade das pessoas só pode ser limitada, total ou
parcialmente, em função das exigências processuais de natureza cautelar”. Tais finalidades
são as que acima referimos, dispostas no artigo 204º CPP que, diga-se, são de
preenchimento alternativo (e não cumulativo), pese embora poderem, em concreto, estar
as três preenchidas.
O Princípio da Tipicidade, também ele consagrado no artigo 191º, nº1 CPP, dispõe que só
podem ser aplicadas “medidas de coação (…) previstas na lei”. Fica vedada a possibilidade
de outro instrumento, que não seja a lei, criar outras medidas.
O Princípio da Proporcionalidade, segundo o qual a medida “deve ser proporcionada à
gravidade do crime e à sanção que previsivelmente venha a ser aplicada ao arguido em razão
da prática do crime ou crimes indiciados no processo” (artigo 193º, nº1 in fine). Com o que
isso importa a consideração de “todas as circunstâncias que em geral devem ser
consideradas para a determinação da pena”101, como, por exemplo, a gravidade do facto e
o relevo dos bens jurídicos violados102.
Cumpre-nos ainda dar conta dos Princípios da Necessidade e da Adequação, consagrados
no artigo 193º, nº1 CPP. Segundo estes princípios, as medidas a aplicar devem ser
necessárias à prossecução das exigências cautelares que se impõem. Com isto quer-se
significar que devem idóneas a prosseguir a finalidade a que se votam e a provocar os
resultados que com elas se visam alcançar. E, por outro lado, deve reduzir-se ao mínimo
necessário, mormente quanto à sua natureza, duração e intensidade.

99
Deve, por um lado, acautelar-se a eficácia do procedimento penal, não onerando em demasia a
descoberta da verdade material, sem descurar aquilo que são os valores basilares subjacentes a um
Estado de Direito – de entre eles, naturalmente os direitos fundamentais do arguido. Assim, procura-se
a sua conciliação. Isasca fala, a este propósito, de um “princípio do equilíbrio”.
100
Dispõe o nº4 do preceito mencionado que esta medida é sempre cumulável “com qualquer outra das
previstas no presente livro”.
101
Como leciona Germano Marques.
102
Se, por exemplo, não é provável que uma sentença, ainda que condenatória, venha condenar o
arguido a uma pena de prisão, será claramente desproporcional aplicar-lhe uma medida de coação que
o prive de liberdade, como a prisão preventiva.

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Finalmente, surge o Princípio da Judicialização, o qual impõe que todas as medidas de


coação – reforce-se, excecionado que está o termo de identidade e residência – sejam
aplicadas por um juiz (de instrução criminal). Só mediante despacho deste, é que, a priori,
se encontra legitimada a aplicação de uma medida desta natureza, na medida em que,
conforme sabemos, irá contender – restringindo – direitos fundamentais do arguido (artigos
194º, nº1 CPP e 32º, nº4 CRP a contrario).
Antes de prosseguirmos, alertamos para o facto de as medidas de coação só poderem
cumular-se nos casos expressamente previstos na lei (cf. artigos 204º, nº4 e 205º CPP).
As medidas de coação reconhecidas pelo nosso ordenamento jurídico-penal103 são as
seguintes (cuja explanação será feita por ordem crescente de gravidade): termo de
identidade e residência (artigo 196º) – deve ser lavrado em relação a “todo aquele que for
constituído arguido” no processo, cuja legitimidade é reconhecida – excecionalmente – à
autoridade judiciária e aos órgãos de polícia criminal; caução (artigo 197º) – esta aplicável
ao arguido cujo crime imputado é punido com pena de prisão e “consiste na obrigatoriedade
de o arguido entregar determinado montante como garantia de comparecimento aos
futuros atos processuais e de cumprimento das obrigações que lhe foram fixadas com outras
medidas de coação”. Pode ser prestada através de depósito, penhor, hipoteca ou fiança
(artigo 206º); obrigação de apresentação periódica (artigo 198º) – aplicável ao arguido cujo
crime imputado é punido com uma pena de prisão de máximo superior a seis meses, o juiz
pode impor ao arguido a obrigação de se apresentar a uma entidade judiciária ou OPC em
dias e horas preestabelecidos; suspensão do exercício de profissão, de função, de atividade
e de direitos (artigo 199º) – aplicável caso o crime imputado for punível com pena de prisão
de máximo superior a dois anos; proibição e imposição de condutas (artigo 200º) – aplicável
se “houver fortes indícios de prática de crime doloso punível com pena de prisão de máximo
superior a três anos”; obrigação de permanência na habitação (artigo 201º) – se as medidas
anteriormente referidos se afigurarem inadequadas ou insuficientes (cf. artigo 193º, nº2),
se o crime imputado ao arguido for doloso e punido com pena de prisão de limite máximo
superior a três anos, e desde que existam indícios da sua prática, “o juiz pode impor ao
arguido a obrigação de não se ausentar, ou não se ausentar sem autorização, da habitação
própria ou de outra em que de momento resida”; por fim, e a mais grave, a prisão
preventiva (artigo 202º104) – o juiz só se encontra legitimado para aplicar esta medida
quando todas as outras se mostrem inadequadas e insuficientes para prosseguir as
concretas exigências cautelares (cf. artigo 193º, nº2 e 28, nº2 CRP), tendo um caráter
excecional. De todo o modo, para que possa ser aplicada é fundamental que a concreta
situação se subsuma na previsão normativa de uma das alíneas do nº1 do artigo 202º CPP.
De notar que a aplicação da prisão preventiva está sujeita a prazos máximos, os quais se
encontram expressamente previstos no artigo 215º CPP, variando conforme o caso.
Por fim, resta-nos deixar algumas breves considerações: as medidas de coação podem ser
alteradas ou revogadas durante o processo, uma vez que podem deixar de se verificar os
pressupostos que as legitimam (artigos 212º e seguintes). Os seus pressupostos –

103
No Código de Processo Penal, podendo existir outras em legislação avulsa.
104
Cf. artigo 27º, nº2, alínea b) CRP.

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nomeadamente, da prisão preventiva e da obrigação de permanência na habitação – devem


ser reexaminados decorrido um determinado hiato temporal (artigo 213º).
As decisões que decretem a aplicação, substituição ou manutenção das medidas de coação
podem ser impugnadas mediante recurso (artigos 219º e 399º) como, de resto, não poderia
deixar de ser, uma vez que contendem, restringindo, com direitos fundamentais do arguido.
Não se devem confundir as medidas de coação com as medidas de garantia patrimonial,
estas últimas previstas nos artigos 227º e seguintes, cujo logro é evitar que o arguido
proceda a alterações financeiras, aniquilando ou extraviando o seu património de alguma
forma – destacamos a figura do arresto preventivo (artigo 228º), a qual assume especial
relevância nos crimes económicos (Lei n.º 5/2002, de 11 de janeiro).

Subcapítulo I – Habeas Corpus

De forma a encerramos o estudo deste Curso, faremos referência à figura/instituto do


habeas corpus.
Trata-se de um meio processual de reação contra uma detenção ou prisão ilegais, com
caráter de urgência, com assento constitucional no artigo 31º (CRP) e legal no artigo 222º,
nº1. Assim, qualquer pessoa que se encontre numa das situações referidas pode requerer a
providência de habeas corpus.
Requerida a providência, o Supremo Tribunal de Justiça tem o prazo de oito dias para se
pronunciar sobre a sua admissibilidade (artigos 31º, nº3 CRP e 223º, nº5 in fine CPP).
Ora, detenção ilegal é, a título exemplificativo, aquela que se protele por prazo superior a
48 horas sem que o detido seja apresentado a julgamento sob a forma sumária ou seja
presente ao juiz competente para primeiro interrogatório judicial (cf. artigo 254º, nº1, alínea
a) CPP). Por outro lado, prisão ilegal é toda aquela que seja decretada sem que as outras
medidas de coação se afigurem inadequadas ou insuficientes (artigo 202º, nº1 ab initio).
Em caso de privação de liberdade ilegal ou injustificada, quem a tiver sofrido pode requerer,
perante o tribunal competente, indemnização pelos danos sofridos (artigo 225º), contanto
que o faça temporaneamente, dentro do prazo fixado pelo artigo 226º - um ano.

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Índice
Capítulo I – Introdução .................................................................................................................. 2
Subcapítulo I – Âmbito, Objeto e Fins do processo penal ............................................................ 3
Subcapítulo II – Relação do Direito Processual Penal com outros ramos do direito .................... 5
Capítulo II – Modelos de Processo Penal: o modelo inquisitório e o modelo acusatório ............ 6
Subcapítulo I – O Modelo Inquisitório .......................................................................................... 6
Subcapítulo II – O Modelo Acusatório .......................................................................................... 7
Subcapítulo III – Um terceiro modelo: o modelo napoleónico ..................................................... 8
Subcapítulo IV – Modelo adotado pelo Código Penal de 1987 ..................................................... 8
Capítulo III – Princípios Fundamentais do Processo Penal............................................................ 8
Subcapítulo I – Princípios inerentes à estrutura processual ......................................................... 9
Subcapítulo II – Princípio da Jurisdição e do Juiz Natural ou Legal ............................................. 10
Subcapítulo III – A Estrutura Acusatória...................................................................................... 12
Subcapítulo IV – Princípio da Igualdade de Oportunidades ........................................................ 13
Subcapítulo V – Direito de Ampla Defesa ................................................................................... 13
Subcapítulo VI – Princípio da Lealdade ....................................................................................... 14
Subcapítulo VII – Princípios Relativos à Promoção Processual ................................................... 15
Subcapítulo VIII – Princípios Relativos à Prossecução Processual .............................................. 16
Subcapítulo IX – Princípios Relativos à Prova.............................................................................. 19
Subcapítulo X – Princípios Relativos à Forma ............................................................................. 20
Subcapítulo XI – Princípio da Proibição de Perseguição Penal Múltipla (ne bis in idem) ........... 21
Capítulo IV – Fontes do Direito Processual Penal ....................................................................... 21
Capítulo V – Validade da Lei Processual Penal ............................................................................ 22
Capítulo VI – Sujeitos do Processo .............................................................................................. 23
Subcapítulo I – Do Juiz e do Tribunal .......................................................................................... 24
Subtítulo I – Organização dos Tribunais Judiciais........................................................................ 25
Subtítulo II – Competência dos Tribunais ................................................................................... 26
Subtítulo III – Regime da Incompetência .................................................................................... 33
Subcapítulo II – Ministério Público.............................................................................................. 33
Subtítulo I – Direito de queixa e acusação particular ................................................................. 36
Subcapítulo III – Órgãos de Polícia Criminal ................................................................................ 37
Subcapítulo IV – Arguido e Defensor .......................................................................................... 38
Subtítulo I – Arguido.................................................................................................................... 38
Subtítulo II – Defensor................................................................................................................. 41
Subcapítulo V – Assistente e Ofendido ....................................................................................... 42
Capítulo VII – Partes Civis e Pedido Civil ..................................................................................... 44

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Subcapítulo I – Reparação da vítima em casos especiais............................................................ 47


Capítulo VIII – Da Identidade do Objeto: Alteração Substancial dos Factos............................... 48
Subcapítulo I – Alteração Substancial dos Factos ....................................................................... 48
Subcapítulo II – “Caso Julgado de Consenso” ............................................................................. 53
Capítulo IX – Tramitação Processual ........................................................................................... 55
Subcapítulo I – Notitia Criminis ................................................................................................... 55
Subcapítulo II – Detenção ........................................................................................................... 56
Subcapítulo III – Inquérito: a fase não jurisdicional .................................................................... 57
Subcapítulo IV – Instrução........................................................................................................... 59
Subcapítulo V – Julgamento ........................................................................................................ 62
Subcapítulo VI – Sentença ........................................................................................................... 64
Capítulo X – Formas de Processo Especiais ................................................................................. 64
Subcapítulo I – Processo Sumário ............................................................................................... 64
Subcapítulo II – Processo Abreviado ........................................................................................... 65
Subcapítulo III – Processo Sumaríssimo ...................................................................................... 65
Capítulo XI – Medidas de Coação ................................................................................................ 66
Subcapítulo I – Habeas Corpus .................................................................................................... 69

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