Você está na página 1de 2

No dia 03/03, A vendeu um quadro a C, pelo preço de 100€.

Ficou convencionado que o quadro seria entregue em 10/03 e que o


preço seria pago nessa data.
Pressuponha, autonomamente, as seguintes hipóteses:

a) No dia 03/03 veio a constatar-se que o quadro vendido tinha ficado


reduzido a cinzas em virtude de um incêndio ocorrido no dia 25/02.

Não se coloca aqui em causa a validade do contrato, mas sim a capacidade deste
em produzir efeitos jurídicos, pois o facto que ocorreu antes da celebração do
mesmo coloca em causa a viabilidade do mesmo.
Há uma patologia anterior à realização, do contrato em virtude da impossibilidade
física da coisa, nos termos do 280º 1/. Assim sendo, estamos perante uma
impossibilidade originária quanto ao objecto da relação jurídica nos termos do
401º, pelo que o negócio é nulo por via do 286º e 289º. A relação jurídica
obrigacional não se chegou a constituir, logo, não se produziram quaisquer
efeitos, não havendo, portanto, outra consequência jurídica para além da
nulidade.

b) No dia 03/03, um incêndio por causa fortuita destruiu o quadro


reduzindo-o a cinzas. Quid iuris?

Aqui, o facto ocorre num momento posterior à celebração do contrato. No


momento em que A e C o celebraram, o quadro existe e, não havendo qualquer
patologia no contrato, este é válido e produz os efeitos decorrentes dos 408º 1/ e
879º.
Gera-se então, uma relação jurídica obrigacional complexa, em que, o contrato
sinalagmático em questão, implica a entrega da coisa e o pagamento do preço,
extinguindo-se a obrigação após a realização de ambos. No entanto, durante a sua
vida, e antes desse momento de extinção, surge um facto que vai interromper
este processo, o incêndio, que faz com que A não tenha, chegado o dia 10, quadro
para entregar a C, suscitando-se um problema impossibilidade de cumprimento
da obrigação, a qual importará perceber se é ou não imputável ao devedor, A. Isto
remete-nos para a presunção de culpa decorrente do 799º 1/, pela qual se inverte
o ónus da prova, cabendo a A demonstrar que não teve culpa no incumprimento
da obrigação. Ora, por forma a aferir a culpabilidade de A, teríamos de colocar-
nos na posição de um homem-médio diligente e concluir que, tendo o quadro sido
destruído em virtude de causa fortuita e de força maior, nem A, nem qualquer
outra pessoa colocada na posição deste, teria conseguido entregar o quadro.
Assim sendo, e partindo do pressuposto que A conseguiria afastar a presunção de
culpa, o incumprimento não lhe seria imputável por força do 790º 1/, extinguindo-
se quanto a A obrigação de entrega sem qualquer outra consequência.
Por outro lado, temos ainda de perceber se há ou não, lugar ao pagamento do
preço por parte de C.
Uma vez que o contrato de compra e venda pelas produziu os efeitos decorrentes
do 879º e 408º 1/, operou a transmissão do direito de propriedade e do risco para
o comprador, C. Ora, diz-nos o 796º que, nos contratos reais quoad effectum , o
risco de perecimento da coisa corre junto da transmissão do direito real, ou seja,
obrigação de pagamento mantém-se incólume e, chegado o dia 10, C vai ter de
pagar o preço, uma vez que a obrigação deste pagamento não se extinguiu.

Você também pode gostar