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Revista do Instituto Histórico

e Geográfico de São Paulo


Fundado em 1'2 de Novembro de 1894
(Reconhecido de Utilidade Pública pelo Decreto Federal 59.151, de 26
de agasto de 1966 e'pela Lei Estadual 508, de 17 de novembro de 1949)

VOLUME LXIX

Comissão de Redação da Revista:

Jacob Penteado
Padre Hélio Abranches Viotti
Pedro Brasil Bandecchi
Vinício Stein Campos
Alfredo Gomes
Célio S. Debes

SAO PAULO
1971
Bronze de autoria de I.uiuiz 3lorrone, mandado colocar no saguão da velha Facul-
dade de Direito pelos Instituto Histórico e Geográfico de S. Paulo, Academia
Paulista de Utras, P. E. ZT. Clube de S. Paulo, Coiãa Brasileira de Escritores
e Ateneu Paulista de História. .i

1871-1971.
t
.
Bronze de autoria de Luiz Dlorrone, mandado colocar na parede
externa do Colégio dos Jesuitas pelo Instituto Histórico e
Geográfico de S. Paulo.
LX-VII-I\ICDILXXI
COMECA UM NOVO DIA EM SAO PAULO
SETECENTISTA
iMons. Luiz Castanho de Almeida

O paulista se levantava com o nascer do sol e até antes,


principalmente quando tinha de viajar, "fazia madrugada".
Que paulista? O livre senhor branco ou da classe dos brancos,
o índio administrado, o escravo negro, o agregado, o camarada
livre, a senhora dona e as donzelas (nome que foi desaparecendo
da linguagem comum). Os índios libertados dão lugar aos cabo-
clos livres e também indjos, e aumenta um pouco a escravidão
negra, pelos meados do século.
Ao despertar e pular da cama, segue-se a higiene corporal.
A gente mediana e pobre vai ao: córrego no sitio e ao poço
no povoado, os mais abastados já usam bacias de latão e de ferro,
e até de louça, raros mesmo de porcelana da índia, com respecti-
vos jarros, e uma ou outra bacia e jarro de prata. Os pobres
usavam e abusavam das gamelas. E que belas toalhas de algodão e
de linho para os ricos! Poucos poderiam comprar sabonetes, aliás
vendidos já em 1766 por mascates, como vi num documento de
cartório sorocabano. O comum era o sabão de cinza, obtido com a
decoada das cinzas do fogão e os restos de gordura dos suínos.
O "banheiro" já existia nas casas ricas, como li em inventá-
rio de 1803, na forma de canoa de madeira e banca, w m quarti-
nho escuro que sempre sobrava.
O vaso noturno - com perdão da palavra - em 17% era geral-
mente de barro e chamava-se bispote. Barro vidrado ou louça.
R certo que ao começar o século o homem mais rico da Pro-
víncia, padre Guilherme Pompeu, possuia alguns de prata, como
faz fé o seu Borrador, mas não os 100 (cem!) da lenda aceita por
Pedro Taques. O número 100 é lendário, como se sabe pelo folclo-
re. "Esmola pra Pedro Cem! "Dante "teve e hoje não tem", é O
estribilho de uma velha estória (Cfr. p.ex. Waldemar Iglésias
Fernandes, em "82 estórias populares colhidas em Piracicaba").
Ainda neste mesmo assunto mal cheiroso, mas necessário,
vale a pena observar que a banca se reservava ao sexo feminino.
aos homens doentes, de dia ou com mau tempo, e aos dois sexos
16 REVISTA DO I'TSTITUTO IIIST6P.ICO E GEOGRAFICO DE S. P A U L O

a noite, pois o elemento varão, exceto os magnates, preferia aqui-


lo que vou descrever com uma piada: O recruta embarcou no navio
pela primeira vez e, perfilando-se ante o sargento, pergunta-lhe:
"como é que a gente aqui vai ao mato?" a expressão equivalente
a "ir lá fora".
Nas vilas e povoados, inclusive na cidade de Sáo Paulo, havia
verdadeiras chácaras ou casas com quintalóes. E, no centro, eram
as fossas. Dando o nome aos bois, latrinas. A referência mais
antiga que achei diz respeito á Capital. Por ocasião da Revolu-
ção Liberal de 1842, o memorialista lançou a espingarda nesse
esconderijo seguro. Mas a heranca vinha de longe, mesmo porque
não há lembrança dos asquerosos "tigres", barris em que os
escravos, de manhã, retiravam de casa para o mar ou os rios
aquilo de que estamos tratando. Arre!
Segue-se a reza diante do oratório.
Em Sorocaba havia-os de duas espécies, como em todo São
Paulo. Móveis, como um, belissimo por dentro e que é um simples
armário por fora, e que aberto mostra no fundo um lindo painel
de Nossa Senhora do Rosário, está hoje no Museu de São Roque.
E embutidos nas grossas paredes de taipa de pilão, como nas
casas do Capitão-mór Cláudio de Madureira Calheiros e do Coro-
nel Antônio Francisco de Aguiar. Não tinham obrigatòriamente
um còmodo próprio. Ora numa sala, ora num quarto de dormir.
E lá iam as mulheres fazer a sua curta oracão da manhá,
deixando para a da noite as preces infindáveis.
A crônica da perda das velhas imagens é triste. Acordaram
tarde os responsáveis por êsse patrimònio.
Como quebravam o jejum os paulistas do século 18? Para
os escravos, os pobres e os medianos, o quebra-jejum era o almô-
ço, combinando com o jantar do meio dia e a ceia ao escurecer
(donde o nome de Vésper ser a Papa-Ceia). Almoço de feijão e
toucinho 08 carne sêca, as vêzes arroz, que era vasqueiro, couve
e verduras da roça, farinha de mandioca ou de milho, conforme
as zonas. @o vale do Tietê preferia-se a farinha de milho. Carne
de porco era trivial. Escravaria, angu, feijão, toucinho.
Mas a gente que podia mandar buscar a congonha ai por
perto, do que restam como testemunhas muitos topónimos e ainda
vi um congonhal em Taquarituba em 1928, êsses tinham a sua
cuia de beber congonha. Com quê? Até com pão de ló, como se
sabe da tradição ituana. Havia plantações e moinhos de trigo.
Ricos e pobres também quebravam jejum com mingau de farinha
de miho, chamado mingau de alho, ou de fubá. Em 1942, em
Ouro Prêto, vi o venerando vigário de Nossa Senhora do Pilar,
ao chegar da missa, tomar o seu mingau de fubá.
REVISTA DO IPÍSTITUTO NISTORICO E GEOGRLFICO DE S. PAULO 11

Na praia entre Iguape e Itanhaem um morador solitário, que


andara pelo sul, acostumara-se ao mate e ficava-se na porta espe-
rando que um viandante passasse e lho oferecesse. (nle fundou
a capela de Nossa Senhora de Guadalupe nos meados daquele
século e isso vem relatado no Livro de Tombo de Iguape). Aliás,
ainda em 1803, Martins Francisco achava que os litorâneos abusa-
vam do mate para matar a fome. Havia, pois, mate ou congonha
trazido do sul e os viandantes o transportavam até para uso
próprio.
O chocolate aparece no relato da viagem de Rodrigo César
de Menezes (1725) e no inventário do bispo Dom Manoel da
Ressurreição. E o chá da Índia parece ser mais do fim do século.
O café chegou até a vila mais longínqua pouco antes de 1800,
como vi em Sorocaba e Itapetininga. As sementes vinham do Rio
nas bruacas dos tropeiros. Logo o povo, pelo menos os livres, se
acostumou e teve inicio o café com leite matinal em boa parte
da populap5.o. Acompanhado de pão, biscoitos de polvilho e até
bolinhos fritos na hora. E até de farinha de milho entre os muito
pobres.
Outra beberagem matutina, cuja tradição era contada pelos
anciãos, que a ouviram dos pais, foi a jacuba, mistura de açúcar
mascavo ou redondo com água fresca e farinha de milho. Nas
monções de Porto Feliz e Cuiabá era indispensável e fácil.
A manteiga, só em algumas fazendas em que se fazia queijo,
aproveitando então a nata do leite.
Outro quebra-jejum bem usado era o mata bicho de pinga
nos engenhos e engenhocas e até nos povoados, pois havia estan-
cos ou até vendas de aguardente do Reino e da terra.
O açúcar refinado para adoçar diretamente na chicara o
café para os abastados e para a grande doçaria paulista, haja
vista os fios de ovos tão difíceis de fazer e os fofos pãdide-lós q u ~
tôda matrona antiga sabia confeccionar, êste açúcar era obtido
na cozinha em grandes tachos de cobre, adicionando-S-lhe clara
de ovo. A primeira fábrica de açúcar refinado - assim vem no
documento de privilégio - erigiu-se em Portugal, na Corte em
1751, já sob Dom José I, mas antes de Pombal, o ministro das
luzes e do "desenvolvimento", para falar em térmos atuais. Devia
levar nas fôrmas as iniciais F.P., fábrica primeira. Em São Paulo
a primeira refinação como indústria foi já por 1831, a do alemão
Fromm, tal como a de Lisboa era de um alemão Schmidt, ajuda-
do por dois estrangeiros, os únicos admitidos - para coméço.
O açúcar a refinar, aliás, seria dos "domínios" como diz o alvara.
É claro que logo a gente mediana e comum fervia a água
já com açúcar das três qualidades: alvo, como diziam, redondo
12 REVISTA D O INSTITUTO HISTORICO E GEOGRdFICO DE S. PAULO

e mascavo, ficando as impurezas e caroços no coador, o mesmo


adatado do que servia para o chá e - nem é mister acrescentar
- a chaleira. Esta podia ser de cobre ou ferro.
Eis o paulista abastado, desde o que não conheceu o café,
como Luiz Pedroso de Barros no seu enorme solar da atual Aveni-
da Paulista, as novas fortunas do comércio, como o primeiro
Antônio da Silva Prado, genro do capitão-mór em Jundiai, ou pelo
menos o segundo do nome, já em tempo do café, rodeado da
família a uma extremidade da grande mesa de jantar, saborean-
do a rubiácea em chícaras de rica porcelana, na intimidade. A
sua frente aquêles senhores setecentistas não abriam o jornal,
nem liam a página econômica, mas o feitor e o agregado e algu-
ma visita importuna não deixavam de quebrar-lhe o jejum de
notícias, com informes da fazenda e do comércio local, a receber
ordens.
Algumas casas grandes já contavam com a sua saleta junto
a cozinha para essas pequenas refeiçòes. A copa levava o seu
destino primitivo, e nela os serviçais é que agiam. Gente mediana
ou pobre, sem escravos, tomava o café na cozinha, diretamente do
fogão. Pois o fogão brasileiro, mesmo entre os ricos, não era o
conjunto de lar, padieiras e chaminé, ainda no dicionário setecen-
tista de Bluteau resumido na palavra chaminé. Sòmente os edifí-
cios públicos como as cadeias de Mariana e Ouro Prêto, de pedra,
tinham o fogão ou lareira a portuguêsa. A taipa de pilão, que
predominou com o pau-a-pique em São Paulo setecentista, não
consentia o furo para o cano da chaminé e não se usava um
conduto separado com tijolo e cal. E assim o fogão setecentista
era o que se tornou caipira hoje, fornecendo lugar para o bule
de café o dia todo, aquecido pelo fogo inextinto até de noite, dc
grande "pau grosso" e suas brasas.
Em 1765, um documento copiado em Portugal por Dom Cle-
mente da s i l v a Nigra, mas procedente do convento beneditino
de Sorocaba, menciona a taipa do fogão. Uma casa grande do
coméço do@éculo 19, em Salto do Pirapora, tem na grande cozi-
nha as minas do forno e do fogão. &te ainda mostra a taipa
(terra socada) que servia de assento a toda a estrutura. As cha-
pas de ferro é que são novecentistas.
Em pequenos lugares que conservam melhor a tradição, como
Bofete, o nome de todo o fogão é taipa.
A lareira, considerada apenas como o lar ou a lage para o
fogo ao nível do chão, conservou-se na forma de lage ou alvena-
ria de pedra (depois tijolo) para o aquentar fogo no meio da
cozinha, daí o sentido de "conversa ao pé do fogo", nas frias noites
do Planalto.
REVISTA DO INSTITUTO IIISTúRICO E GEOGP.AFIC0 DE S. P A U L O 13

Enquanto nos aquecemos falando em fogão, os escravos índios


e depois africanos partiram para a roça de cereais e canaviais.

Aqui deixamos o 1." capitulo, há muito tempo sonhado, de


"Vida cotidiana em São Paulo setecentista".

NOTAS BIBLIOGRAFICAS:

Além dos trabalhas já conhecidos. como %Vida e morte d o bandeirante*.


consultej, para a fábrica de a$úcar refinado, a 6Cole~ãad a Legislação Portu-
guesas. redigida pelo Desernhargador Antônio Delgada da Silva. Lisboa, 1830,
e li alguns inventários em cartórios. e o Borrador do Padre Pompeu, de Pedro
Leite Cordeiro. nesta Revista.
RUI BARBOSA - HISTORIADOR
Alvaro do Amara1

Teria sido Ruy Barbosa um "Historiador", especificamente,


conhecedor e estudioso dos grandes acontecimentos da nossa
História Pátria?
Pensamos que, tendo sido êle um dos nossos maiores Juristas,
Políticos, Diplomatas, Literatos, Oradores, ~Sociólogos, por isso
mesmo é que nunca foi citado como tendo sido também um
Historiador, em cuja atuação certamente não atingiu o apogeu.
E isso afirmamos após acuradas pesquisas, nos trabalhos dos
seus mais conhecidos e acatados biógrafos, críticos ou comenta-
dores, tais como: Batista Pereira, Luis Viana Filho, João Manga-
beira, Pedro Calmon, Gilberto Freyre, Americo Jacobina Lacombe,
Candido Motta Filho, Ernesto de Moraes Leme, Homero Pires,
Elmano Cardim, Hélio Vianna, João Neves da Fontoura, e tantos
e tantos outros.
Mas, para ter alcançado o pináculo em tódas aquelas mencio-
nadas atividades culturais, certamente necessitou ter desen-
volvido muíto trabalho intelectual, pois que, como êle mesmo
disse:
"Os gênios são meteoros raros, nem sempre benéficos. E,
raramente são frutos da notureza: a maior das vezes, os cria a
paciéncia e a perseverança. É a assiduidade da educaçáo metó-
dica e sistemática de nós mesmos, o que desenvolve a s grandes
vocações, e amadurece os grandes escritores, os grandes artistas,
os grandes observadores, os grandes inventores. as grandes
homens de Estado. Não contesto a "INSPIRACÃO", admito ape-
nas em que é frequentemente uma revelação do trabalho".
Antes de mais nada, porém, devemos procurar situar em
que consiste o ESTUDO da História, para se chegar a uma con-
ceituaçáo desta.
O Roteiro traçado pelo Prof. Pedro Calmon, n a Conferência
realizada no Instituto de Estudos Brasileiros, em 4-XI-1938 foi
o seguinte:
"1." - Alternar a descrição dos fatos históricos n o seu desen-
volvimento lógico, com a exposição das condições SOCIAIS,
ECONÓMICAS, de CULTURA e TRABALHO, - para que aqueles
16 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRAFICO DE S. PACLO

fatos não surjam irreais ou supostos, na tábua onomástica de


que se fazem os catálogos.. .
"O Prefácio da História é a Geografia. Têm de continuar
unidos n a "explicação" das modalidades sociais e económicas.
2." - Situar no seu AMBIENTE as grandes manifestações
políticas. Estudos das idéias. Evolução das atividades. Influên-
cias espirituais. História comparada. Para que cada uma dessas
transformações, corresponda à avaliação das suas determinadas,
o cálculo das forças morais nelas empenhadas.
"3." - Dar ao ensino a dignidade de uma contínua lição de
conduta. Para tanto deve ser objetivo e racional. Não basta o
"PORQUE", é indispensável o COMO" . . .
- Mais educação do que instrucão, o mínimo de nomes e

Face . a tal exposição dos fundamentos basilares e constituti-


vos da HISTÓRIA, Ruy Barbosa com seus estudos e trabalhos
sóbre: política, diplomacia, sociologia, economia, geografia, Direi-
t o e tantos outros ramos das ciências, estava inquestionàvel-
mente produzindo obras de HISTÓRIA.
E, note-se ainda que o Prof. José Honório Rodrigues em seu
trabalho "A Pesquisa Histórica no Brasil - Sua evolução e proble-
mas atuais", ed. do Instituto Nacional do Livro, 1952, I1 parte -
"Sugestões", escreveu:
Pg. 228 - "D" - "OS CURSOS DE APERFEIÇOAMENTO DE
HISTORIADORES e de Formação de Arquivistas e
Pesauisadores" . . .
Pg. 233 - "I1 - "AS NECESSIDADES NO BRASIL" . . .
"1 - "APERFEIÇOAMENTO DE LICENCIADOS
DE HISTÓRIA".
Pg. 234 3 "Entre os Cursos que poderiam .ser ministrados para
formação metodológica dos licenciados em História e
r futuros .pesquisadores, sugerimos, inspirados nos pro-
gramas universitários norte-americanos, e também
nos currículos do Instituto de Pesquisa Histórica de
Londres, o seguinte temário:
1 - Metodologia da História.
2 - A PESQUISA NA HISTÓRIA DO BRASIL.
3 - As Fontes da História do Brasil.
4 - Historiografia Brasileira.
5 - DISCIPLINAS AUXILIARES DA HISTÓRIA
6 - ICONOGRAFIA.
7 - CARTOGRAFIA.
8 - Paleografia e DIPLOMATICA
REVISTA DO INSTITCTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO DE S F A C L O 17

9 - CRÍTICA HISTÓRICA.
10 - CRÍTICA DE TEXTOS.
11 - HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA ESTADUAL. REGIONAL
E LOCAL.
12 - HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA DIPLOMATICA DO
BRASIL.
13 - HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA ECONOMICA DO
BRASIL.
14 - HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA MILITAR DO BRASIL.
15 - HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA SOCIAL DO BRASIL.
16 - História e Historiografia da Arte no Brasil.
17 - HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA DA EDUCAÇÁO NO
BRASIL.
18 - História e Historiografia da Ciência no Brasil.
19 - KISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA DA IMPRENSA NO
BRASIL.
20 - HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA INTELECTUAL NO
BRASIL.
21 - BIOGRAFIA. TgCNiCA. MÉTODOS E PESQUISA.
22 -- HISTORIOGRAFIA UNIVERSAL. LEITURA E COMENTÁ-
RIO DE OBRAS CLÁSSICAS DE HISTORIA.
23 - BIBLIOGRAFIA DA HISTÓRIA DO BRASIL".
Ora, sem possibilidade de dúvidas, em face a tais exigências
curriculares para se formar u m Historiador, pensamos que a obra
de Ruy foi em magna pars baseada nos seus conhecimentos de
"HISTORIADOR".
Convem salientar que o nosso prezado Acadêmico Dr. José
Pedro Leite Cordeiro bem compreendeu essa modalidade da cultu-
r a de Ruy, quando deixou eicrito n a sua apreciada Conferên-
cia sôbre: "RUY, O ESCRITOR":
"Das obras que analisaram a vida pregressa do Brasil, sempre
conservou u m manejo constante Além de ter INTZRFERIDO
DIRETAMENTE EM NOSSA HISTÓRIA. deixou-nos uma VISÃO
AMPLA DOS MOMENTOS VIVIDOS PELO PAIS durante as
várias décadas em que êle próprio ATUOU NA0 ~8 NA VIDA
NACIONAL, mas também em acontecimentos internacionais
Tendo sido fator integrante, argumento poderoso que AJUDOU
A CONSTRUIR A HISTÓRiA DO BRASIL, DE SUA ÉPOCA, DES-
CREVEU OS SUCESSOS EM .QUE TOMOU PARTE, OU OS QUE
PRESENCIOU, EXPLICOU-OS, facilitando assim, a TAREFA
DOS ATUAIS HISTORIADORES"
Estamos convencidos ainda que Ruv Barbosa recebeu u m
verdadeiro DIPLOMA DE HISTORIADOR. que lhe foi CONFE-
RIDO pelo nosso Mestre Afonso de Taunay, quando, no 2 " volume
da sua monumental "História Geral das Bandeiras Paulistas",
colocou em destaque, n a página antecedente a o texto, o seguinte
18 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGR.íFIC0 DE S. FAULO

trecho de Oração de Ruy Barbosa sobre o papel desempenhado


pelos Bandeirantes Paulistas na expansão do território nacional:
"OS PAULISTAS.
"Numa epopéia, capaz de tuba épica, viu surdir o mundo
nóvo, a estirpe ,dos paulistas, filhos intratáveis do cruzamento
entre o gênio europeu e a energia americana, dc uma constitui-
ção a prova do medo e uma atividade inacessível ao cansaço.
Entregues a corrente .do Tietê, de rio em rio, de serra em serra,
de planura em planura, as suas expedições iam ter ao Miranda,
ao Cuiabá, ao Paraguai, arrebatando a Castela, para a casa de
Bragança "A MAIOR EXTENSA0 DA AMÉRICA DO SUL", "A
REGIÃO MAIS FORMOSA DE TODA A TERRA HABITAVEL".
Deanteiros da expansão portuguêsa na América do Sul, fundaram
nos séculos XVII e XVIII, os primeiros estabelecimentos de Minas.
de Goiás, de Mato Grosso, de Santa Catarina, do Rio Grande,
conquistaram a província castelhana de Guaira, obrigaram os
espanhóis.a evacuar a bacia do Jacuy, a do Piratinim, a do Ibicuhy,
toda a região a leste do Uruguai, levando por fim, suas destemi-
das excursões até ao Norte do Paraguai e a Cordilheira do Peru.
Não fóra o .valor e o arrojo desses caçadores de homens, gente
"mais ardida que os primeiros conquistadores" e a costa do Brasil,
ao Sul do Paranaguá, seria hoje espanhola, espanhóis veríamos
os sertões de Mato Grosso e Goiás, outro povo ocuparia as nossas
melhores zonas, respiraria os nossos ares mais benignos, cultiva-
ria as nossas mais desejadas terras".
Ora, - nem se diga que estará aí sómente um belo trecho
literário de Ruy Barbosa. Não. Aí está, numa síntese perfeita,
a conclusão de estudos essencialmente históricos certamente fei-
tos por Ruy Barbosa, em época em que ainda teimavam os histo-
riadores brasileiros, - mas não paulistas, em desconhecer e
menosprezar os gloriosos trabalhos dos heróicos desbravadores
de sertões,,dos plantadores de cidades, que, pelo "Uti possidetis"
deram a Portugal e ao Brasil, dois têrços do nosso atual territó-
rio, e prowveram a grande obra da integração nacional.
Como elemento elucidativo convém ressaltar o amor que Ruy
sempre demonstrou por São Paulo, consolidado não só pelos anos
de estudos realizados aqui na nossa Faculdade de Direito, onde
se formou, como porque Campinas era distinguida por êle como
uma das cidades de sua predileção para o repouso periódico, inte-
ressaildo-se pelas pessoas e coisas locais, e isso certamente porque
ali residiam três seus primos-irmãos, da família Barbosa de Oli-
veira, casados com distintos membros das melhores famílias
campineiras, sendo êles filhos do Presidente do Supremo Tribunal
Federal de Justiça do Império, o Conselheiro Albino José Barbosa
de Oliveira, tio de Ruy e o irmão mais amigo e mesmo protetor
de seu pai.
REVISTA DO INSTITUTO IIISTÓRICO E G E O G R I F I C O DE S. P A U L O 19

O Conselheiro Albino era casado com uma filha do ilustre


paulista, Cel. Francisco Ignácio de Souza Queirós. E, o seu primo
que também se chamava Albino José Barbosa de Oliveira e o seu
irmão Luiz Albino Barbosa de Oliveira, casaram-se com filhas dos
Barões de Ataliba Nogueira. - sendo que a prima, Maria Amélia,
casara-se com o futuro Barão Geraldo de Rezende.
Assim, Ruy Barbosa quando em Campinas, estava cercado
pelos seus três primos e respectivas famílias, e toda a ilustre
sociedade local.
Mas, continuemos em nosso intento de provar que Ruy foi
um verdadeiro HISTORIADOR.
Como sabemos, os livros clássicos, básicos da nossa História,
primeva, pelos fins do século XIX e comêços do atual, quando
eram muito poucas as suas re-impressões, e que por isso mesmo
só existindo nas edicões princeps, eram raros ou melhor, rarissi-
mos, pertencendo portanto aos verdadeiros historiadores, que
dêles necessitavam para seus trabalhos.
Ora, em Conferência pronunciada por Homero Pires, n a Casa
de Ruy Barbosa, a 3 de novembro de 1938, publicada pela Impren-
sa Nacional, 1941, a pág. 19. acha-se interessantíssima lista dos
principais livros existentes n a "Brasiliana" da Biblioteca de Ruy
Barbosa, a saber:
" . . . a crônica de Baltasar Telles; o BARLEUS, a preciosa
VIDA DE ANCHIETA por SIMAO DE VASCONCELOS, IlifAGEM
da VIRTUDE de ANTONIO FRANCO, - a da história do colégio
do Espírito Santo de h o r a . a de Lisboa e a de Coimbra, a Histó-,
ria de ROCHA PITTA, as CONSTITUICÕES DO ARCEBISPADO
DA BAHIA, de 1729, - A VIDA DE ANTONIO VIEIRA, por AN-
DRÉ DE BARROS.. .
"E em editorações mais encontradiças. o DIÁRIO DA NAVE-
GACÃO. de FERO LQPES. as CARTAS DE NÓBREGA. o JOÃO
DEEERY. OYVES D,EVREUX. FREI VICENTE DO SALVADOR.
a CRÓNICA DA COMPANHIA, do i á citado Simão de Vasconce-
los. o CASTRIOTO LUSITANO. o JABOATAO. SOUTWY em ver-
náculo, ABREU E LIMA com a sua SINÓPSIS, VARNHAGEN em
várias de suas obras, e a HISTÓRIA GERAL, - PROFUSAMEN-
TE TRACEJADA A PENA. Com iaênticos sinais de leitura, o exce-
lente compêndio de JOÃO RIBEIRO, destinado ao Curso Superior.
De ROCHA POMBO. os dez volumes E ARMITAGE, MUNIZ TA-
VARES, JOAO LISBOA, A CRONICA DA REBELIÃO PRAIEIRA
de FIGUEIRA DE MELO, ANTONIO HENRIQUE LEAL, o PAS-
SEIO PELA CIDADE DO RIO DE JANEIRO de MACEDO, o dicio-
nário de MILLET DE SAINT-ADOLPHE. SAINT-HILAIRE, COM
AS MESMAS ABUNDANTES MARCAS DE LEITURA NAS VIA-
GENS AS PROVÍNCIAS DO RIO DE JANEIRO E MINAS, a zona
dos diamantes e ao litoral do Brasil, às fontes de São Francsco e
20 REVISTA DO ISSTITUTO IIISTÓRICO E GEOGRAFICO DE S. PAULO

à Província de Goiás, as Províncias de S. Paulo e Santa Catarina


e a o Rio Grande do Sul, isto é, o SAINT-HILAIRE das viagens
quase completo, com exceção da Voyage dans 1'Intérieur du Bré-
sil. KIDDER E FLETCHER num exemplar de valia, pois traz uma
dedicatória de Ruy, quando ainda estudante no Recife, ao seu
pai. Seguem-se depois: PEREIRA DA SILVA, com a HIST6RIA
DA FUNDAÇAO DO IMPÉRIO em sete volumes a do segundo
oeriodo do Reinado de D. Pedro I. a d a MINORIDADE e as
MEMÓRIAS, das quais Ruy ORGANIZOU A-PARTE UM ÍNDI-
CE MINUCIOSO, õs MOTINS DE RAIOL; as MEMÓRIAS DE
FELÍCIO DOS SANTOS; e SCHNEIDER, JOAQUIM CAETANO,
MELO
- - ~~ MORAIS. a MISSA0 ESPECIAL AO RIO DA PRATA do
conselheiro SARAIVA, LUIS FRANCISCO DA VEIGA, GAFFA-
REL, MOREIRA DE AZEVEDO: os APONTAMENTOS DO BA-
RÃO DE COTEGIPE sobre os nossos limites com a Argentina,
vários escritos do barão HOMEM DE MELO, as EFEMiZRIDES
de XAVIER DA VEIGA, os livros de HISTóRIA CEARENSE DE
STUDAR, e EDUARDO PRADO, ALBERTO TORRES, LOCIO DE
AZEVEDO, OLIVEIRA LIMA, CALÓGERAS, TOBIAS MONTEIRO,
OLIVEIRA VIANNA, BASÍLIO DE MAGALHÃES. Ao lado desses,
a obra de LEVASSEUR e seus colaboradores, e sobre a qual Ruy
escreveu, no Diário de Noticias um estudo, que Rio Branco impri-
miu em avulso. chamando-lhe "NOTÁVEL". e "MODELO DE CRf-
T I C A ; as CONFERfiNCIAS ANCHIETANAS de 1897, jacobina-
mente interrompidas, e DAS QUAIS UMA SERIA DO PRÓPRIO
RTJY. o- LIVRO
- DO CENTENÁRIO DE 1900. e os TRABALHOS
~~~

COMPLETOS S ~ B R ELIMITES de a u t o r i a d e RIO BRANCO e


JOAQUIM NABUCO. A propósito dos dêste último, disse o mesmo
Ruy: "Eu os percorri todos, e, neste gênero de literatura, não lhe
conheco coisa comparável. O nosso direito ali resplandesce à luz
do meio dia".
"Quereis mais? Pois tendes o Glossarium de Martius, O
Selvagem de Couto de Magalhães, o Muyrakytã e os ídolos Simbó-
licos de Barbosa Rodrigues, de quem igualmente não falta o
Sertum Palmarum Brasiliensium. Das revistas, apenas os Anais
da Biblioteca Nacional, a segunda fase da Revista Brasileira, de
Midosi, e coleções mais incompletas da Revista Americana, da
Revista do Brasil, de São Paulo, e das Revistas dos INSTITU-
TOS HISTóRICOS E GEOGRAFICOS do Rio Grande do Norte,
de Pernambuco, da Bahia e de SÃO PAULO. E, encadernados em
volume, números do Tamõio, o famoso jornal dos Andradas; da
Malagueta, de João Batista de Queiroz; do Analista, da Luz
Brasileira, do Grito Nacional, jornais que se publicaram n o Rio
de Janeiro. nos primeiros anos da independência e os do segundo
reinado; do Farol Paulistano, redigido pelo futuro regente Costa
REVISTA DO INSTITUTO IIIST6RICO E GE0GR;IFICO DE S. P A C L O 21

Carvalho, e do Observador Paulistano; do Recopilador Mineiro,


de Pouso Alto, - conjunto todo êsse da mais extrema raridade.
"Ia-nos esquecendo indicar o tão pouco seguro e logrador de
incautos, isto é, o Dicionário Bibliográfico de Sacramento Blacke,
que a República encontrou com a publicação interrompida no
primeiro volume, e sobre cuja continuidade assim depos o autor
nas palavras prefaciais do segundo tomo, a contar a iniciativa
que no caso teve Ruy Barbosa. então Ministro da Fazenda: "Um
dia fui procurado pelo Oficial de Gabinete daquele alto funcio-
nário, propondo-me a compra de meus autógrafos. Era a aurora
que se ia abrir. Dois dias depois êsse digno Ministro, com o peito
cheio de amor às letras e a Pátria, mandou que a Imprensa Na-
cional fizesse a publicação, sem onus algum para o autor".
"A BRASILIANA de Ruy Barbosa tomaria proporções consi-
deráveis se a identificássemos com o Catálogo dos Livros sobre o
Brasil, de José Carlos Rodrigues, de que há tambem um belo
exemplar n a Biblioteca de Ruy: a ela incorporariamos então as
obras de Fernáo Lopes, Azurara, Castanheda, João de Barros,
Damiáo de Góis, Afonso de Albuquerque, Diogo do Couto, Gaspar
Correia, Duarte Nunes de Leão, Pedro de Mariz, isto é, a torrente
dos clássicos portuguêses, com os Autores da Monarquia Lusita-
n a e da História Trágico-Marítima, secção em que a livraria de
Ruy Barbosa é incomparavelmente mais rica que a de José Carlos
Rodrigues.
"Livros e autores há que Ruy Barbosa citou repetidamente
em alguns de seus trabalhos; mas que se não encontram em sua
biblioteca: GABRIEL SOARES, AIRES DO CASAL, KOSTER, AS
MEMÓRIAS DE MONSENHOR PIZARRO, o dicionário de MOREI-
RA PINTO, escritos de José Pompeu e Theberge, todos por êle
utilizados a miude nas razões finais sobre os LIMITES ENTRE O
CEARÁ e o RIO GRANDE DO NORTE. Nesta obra. no DIREITO
DO AMAZONAS AO ACRE SETENTRIONAL e noutras ainda,
também largamente se valeu de BARLEUS, SIMÃO DPVASCON-
CELOS, ROCHA PITTA, JABOATAO, SAINT-HILAIRE, JOA-
QUIM CAETANO. SAINT ADOLPHE, STUDART. RIO BRANCO.
~OAQUIMNABUCO, LUCI0 DE AZEVEDO. Serve isso para mos-
trar que, de fato, êle frequentava seus livros de HISTóRIA NA-
CIONAL, DE QUE -, ATRAVÉS DA SUA OBRA, ALGUNS QUA-
DROS E EPISÓDIOS MAGISTRAIS, EM ARTIGOS, DISCURSOS
E CONFERÉNCIAS".
Aproveitando a citação acima feita de trabalhos de Ruy, n a
defesa dos direitos de alguns Estados da Federação contra
outros, seus vizinhos, vamos referir algumas dessas Acões:
Por cinco vêzes Ruy foi chamado a intervir como advogado
em tais questões de limites entre os novos ESTADOS da Federação,
recém-criada pela República, e que por isso mesmo veio a exacer-
22 REVISTA DO IPÍSTITTTO HIST6RICO Z G E O G E i F I C O DE S. PAULO

bar as rivalidades e interêsses contrariados, em regiões das anti-


gas Províncias do Império, quando o Poder Central absorvia e se
encarregava de resolver tais demandas.
Na Ação entre o Estado do Espírito Santo e Minas Gerais, e
n a do Estado de Santa Catarina contra o Paraná, nas quais Ruy
Barbosa defendeu os direitos respectivamente dos Estados do Espí-
rito Santo e do Paraná, é certo que em suas petições e Pareceres
se limitou quase que somente a estudar as questões jurídico-pro-
cessuais surgidas nos autos, sem entrar própriamente no mérito
das questões relativas a posse e domínio com seus fundamentos
históricos.
No litígio entre Minas Gerais e Rio de Janeiro (Vol. XXVI
- Tomo I - Parte I."), - Ruy como advogado do Estado do
Rio de Janeiro, apresentou a Contestação e a Tréplica, nas quais
estudou detidamente a questão dos limites sob o ponto de vista
dos fatos ocorridos desde os tempos coloniais, baseando-se em
documentação, atos de invasão, Laudos Periciais, criacão de povoa-
dos e vilas, ainda nas Capitanias de São Tomé e de Minas
Gerais, mencionando sesmarias concedidas, e a legislação aplicá-
vel, - tendo citado elementos históricos da "Corografia" de Aires
do Casal e outros livros, - não podendo portanto pairar dúvida
de que de fato se tratava de trabalho que exigiu conhecimentos
históricos especializados.
Aliás, é curioso mencionar que, no artigo 15." da sua Réplica
escreveu:
"Que a ter o pretendido alcance a alegaçáo, de que se jacta,
no artigo 14 da réplica o amor próprio mineiro, sem outro funda-
mento que o leviano asserto de um parecer parlamentar, pela
mesma razão a São Paulo havia de pertencer todo o território de
Minas, que a paulistas deve o seu desbravamento".
Mas, Jembremos que São Paulo nunca pretendeu ficar com
mais do que aquilo que nos deixaram sobejar as Autoridades
governam tais que sempre procuraram nos tirar tudo que pude-
ram, e, n%e-se, sempre com a alegação de que somos "separa-
tistas" . . .
No litígio entre os Estados do Ceará e o Rio Grande do Norte,
do qual o advogado foi Ruy Barbosa, necessitou êle de proceder
a acurados estudos dos elementos históricos e geográficos, bem
como dos interêsses regionais de ordem política, social e econô-
mica, e ainda das tradições locais, sendo que tudo isso tinha de
ser pesquisado em seu desenvolvimento durante os três regimes
pelos quais havia passado o Brasil: n a Colônia, onde tudo depen-
dia do Direito d a Metrópole, através dos interêsses e influências
dos Donatários; no sistema centralizador do Império, e finalmente,
com as inovações trazidas pela Federação Republicana.
REVISTA DO IXSTITVTO HISTÓRICO E GEOGRAFICO DE S. P A C L O 23

Ruy aí estudou ex-abundantia a questão, tanto n a Contesta-


ção com seus 57 articulados, como nas Razões Finais que ocupam
380 páginas do Vol. XXXI, tomo IV, das suas "Obras Comple-
tas", como ainda na Impugnação aos Embargos opóstos pelo
Ceará, onde se estendeu por 22 páginas, tendo juntado 162 do-
cumentos, e anexado ainda alguns Mapas.
Nesses trabalhos, estudou detidamente a questão, desde o
Século XVII, no qual o Ceará era uma Capitania nominal, reuni-
da, juntamente com o Maranhão, a Capitania do Pará, em 1623.
Reanexada ap6s a expulsão dos Holandêses, ao Maranhão, e dêle
desanexada em 1680, para se juntar a Pernambuco, até 1699.
Quanto ao Rio Grande do Norte teve como 1." Governador a Jero-
nymo de Albuquerque, desde 1603. Passa a estudar a Carta Régia
de D. Maria I, de 7 de janeiro de 1793, que teria fixado as regiões
contestadas, segundo alegava o Ceará, tendo Ruy mostrado o
engano, proveniente de confusões entre denominações geográfi-
cas diversas, ou seja, concernentes a diferentes trechos dos rios
Mossoró e Jaguaribe.
Passa a esmiuçar a falsa execução que teve essa Carta Régia.
e depois estuda detalhadamente os elementos históricos relativos
aos Registros das terras, onde menciona perto de 40 acidentes
geográficos que necessitavam ser exatamente localizados. Esmiuqa
os fatos passados desde o domínio holandês, com a pesquisa de
centenas de documentos existentes nos mais diversos arquivos,
- tendo juntado aos autos 162 documentos!
Estuda ainda as questões relativas as explorações das salinas
exploradas naquelas regiões, baseando-se n a legislação pertinente
e nos atos públicos e particulares, mostrando o que se praticava
nesse mesmo sentido nas demais regiões do Brasil.
Finalmente, expõe a sucessão dos atos de política partidária
ali realizados, tais como eleições e nomeações para o exercicio
de cargos administrativos e políticos.
Refere os plebiscitos póstos em prática na região, e os atos
de pósse efetiva, reconhecidos pelo Direito Público Interno, na
fórma tradicionalmente válida perante toda a Nacãa.
Anexou uma "Carta Topográfica" da região do território em
litígio, - com todos os acidentes geográficos e longos trechos de
comentários.
Estudou ainda a aplicação de casos resolvidos de acordo com
o Direito Público, quer Interno e quer Internacional, em tudo
demonstrando longos estudos históricos desses litigios. bastando
citar o seguinte trecho, para bem se demonstrar a força de tais
argumentos:
"Todos os aspectos da pósse reunem em si o império daquela
jurisdição, e aquela jurisdição caminha para tres séculos de anti-
guidade, desde que o Capitão-mór do Rio Grande, André Pereira
24 REVISTA DO INSTITUTO HIST6RICO E GEOGR*PICO DE S. PACLO

Temudo, em 1630, se provê de sal nos salgados do Apodí, até que


a Fazenda Nacional em 1900, confia a cobranca do imposto do sal,
na Barra do Mossoró, ao Govêrno Rio-Grandense, e a gente da
Barra do Mossoró, Areias Alvas, Grossos, Tibaú, em 1902, como
nos comícios anteriores concorre com o povo riograndense na
eleição dos seus mandatários federais". (pg. 414). Ora, aí está,
muito mais do que o trabalho de um advogado, mesmo dos mais
cuidadosos, inteligentes e perseverantes, na defesa dos interêsses
de seus constituintes.
Tratando-se de Ação entre dois Estados da Federação, os
elementos básicos, estudados e esmiuçados, nas suas fontes de
fato e de Direito, penetraram no campo da História regional, ou
melhor, estadual de cada um de tais litigantes que, fazendo parte
do nosso país, constituem por consequência Capítulos da História
da Pátria.
Vamos passar a tratar de outro trabalho de Ruy que certa-
mente grandes esforços lhe exigiram no campo da História, e
que foi o importantíssimo "Tratado de Petrópolis".
Ruy Barbosa fazendo parte da Comissão de Plenipotenciá-
rios, juntamente com o Barão de Rio Branco e Assis Brasil, deles
divergiu e retirou-se da mesma a 17 de outubro de 1903.
E, em Exposição de Motivos de seu voto vencido á aprovação
dessa Convenção Internacional, celebrada com a Bolívia, tendo
em vista as terras do atual Estado do Acre, fêz exaustivo estudo
dos direitos básicos do Brasil, sóbre aquela região.
Lealmente explica Ruy Barbosa que, por esse Tratado, afinal,
o Brasil recebeu 191.000 Km.2., e, em troca, cedeu somente 2.293
Km. 2., indenizando a Bolívia, todavia, e como compensação, com
£2.000.000 (dois milhões de libras esterlinas), que deveriam ser
aplicadas n a construção de estradas de ferro e outros meios de
comunicação que viessem a facilitar o comércio na região.
Os incidentes fronteiriços já haviam sido objeto do Tratado
de 1867, mas não foi êste aceito pelos bolivianos, que haviam sido
agravados com a ocupação das terras pelos homens chefiados por
Plácido d e q a s t r o e com uma ameaça de venda de terras aos
Estados Unidos, tendo afinal, sido elas ocupadas militarmente
pelo Brasil, para evitar o início de uma verdadeira guerra.
Ruy mostra que, desde 1742 os brasileiros haviam ocupado a
Zona do Mamoré e do Guaporé. Estudou a ocupação das margens
do Solimóes, do Purus e do Juruá, - razões aliás, que, fundan-
do-se no princípio do "uti possidetis", com fundamento nelas se
celebrara o Tratado de 1867.
Demonstrou que, por força dos dispositivos dessa Convenção
Internacional, para mais de 60.000 brasileiros ali haviam se esta-
belecido, e estavam crescendo continuamente, com os homens que
passaram a ser chefiados por Plácido de Castro.
REVISTA DO INSTITUTO HIST6RICO E GEOGRÁPICO DE S. PAULO 25

Dita Exposição de Motivos estende-se por 70 páginas, na qual


se lê êste magnífico trecho de patriotismo candente:
"A renacionalização do Acre, ingrata e loucamente repudiada
pela política brasileira, havia de se efetuar por obra dos Acreanos,
ante cujo denodo esmoreciam, dizimadas e exaustas, as expedi-
ções bolivianas. Tempo viria, pois, necessariamente, e não longe,
em que o 'território brasileiro volvesse de todo a sua antiga intei-
reza, recompondo-se unicamente graças ao tenaz patriotismo dos
nossos irmãos abandonados". (pg. 295).
E, em réplica ao ministro da Bolívia, assim redarguiu:
Pg. 308 - "Naquelas paragens, agora mesmo classificadas
pelo Sr. Zeballos como "região mais rica de todo o continente"
se a civilização boliviana entrar, será, para deslocar, e expelir a
civilização brasileira. Esta já lá se acha. Abriu, amanhou, enri-
queceu o deserto. Entretanto, não acredita S. Exa. que haja
revolucionários no Acre. Para os não haver, necessário seria fos-
semos uma raça de amorfos, adaptáveis, sem abalo a plástica de
todas as opressões. Pois era possível que uma população exclu-
sivamente brasileira, de milhares e milhares de almas, como a
que domina e lavra aqueles sítios, tendo ali embebido as raizes
de sua existência, ali semeado a sua fortuna e a sua posteridade.
passasse, sem resistência, das mãos dos seus compatriotas ás do
estrangeiro, como passam os rebanhos das de um, as de outro dono?
Nem tão abjeta se fêz ainda a decadência moral neste ramo da
grande família européia. Tacna e Arica entraram no senhorio
do plebiscito, a aparência, ao menos, da consulta as populações
do Chile, pela conquista, e, ainda assim, aguardam, na promessa
do plebiscito, a aparência, ao menos, da consulta às populações
quanto a mudança de nacionalidade. E havia de trocá-la a colo-
nia brasileira do Acre, conformada e satisfelta, no meio da mais
completa paz, a um simples golpe de chancelaria?"
Realce-se porém que, em decorrência do protesto e.consequen-
te retirada de Ruy, assustou-se a Bolivia com o possivel e certa-
mente fatal endurecimento da atuação da Comissão brasileira
e desde então diminuiu suas oposições e exigências de tal modo
que, como demonstrou Ruy: (pg. 241).
"Vejo agora, pela exposição de motivos, que trabalhos de um
alto profissional dilatam consideravelmente as proporções da área
por nós obtida, elevando-a a 191.000 Km. 2., das quais 142.900
ao norte e 48.100 ao sul do paralelo 10" 20'.
"Por outro lado, a nesga do Madeira com o Abunã, transfe-
rida aos bolivianos, que, segundo as notas a mim comunicadas,
se elevava a 3.540 Km. 2. e 61, baixa, por essa retificação, a
2.293 Km. 2. Com essa verificação, pois, lucra, de ambas as partes,
o Brasil. Cresceu 23.063 Km. 2. o território aumentado, e decres-
ceu 1.243 o subtraído a nossa fronteira. Não procuro, já se vê,
26 REVISTA DO INSTITPTO HISTÓRICO E GEOGRbFICO DE S PAULO

talhar os fatos ao jeito da causa, que advogo. Quero ser julgado


só com a verdade, franca e lisamente exposta".
Afirma todavia que: " . . . por outro lado, a indenização pe-
cuniária era metade apenas da que hoje se lhe dá . . ."
A corajosa atitude com que tão desassombradamente lutou
pela conservação das terras do nosso território pátrio, beneficia-
ram incontestavelmente a solu$ão final, a favor dos interesses
do Brasil.
Verifica-se que, evidentemente, o tema deste assunto neces-
sitaria não só e principalmente de altos e especializados estudos,
como ainda se analisar grande parte da obra de Ruy Barbosa.
Lembre-se que as suas obras completas que já atingiram a mais
ou menos cem (100) volumes publicados, com uma média que
se pode calcular em 100 páginas cada um, e que, segundo afir-
mou o Prof. José Carlos de Ataliba Nogueira, em sua citada
Conferência, deverão chegar a 200 (dusentos) volumes!
A seguir, somos forçados a estudar ainda que por alto,
aflorando sòmente alguns outros trabalhos da tão majestosa e
monumental obra de Ruy para não ficar de todo destituída de
qualquer valor este estudo. Certamente não poderemos entrar
nos seus admiráveis e magistrais estudos sobre a História dos
Estados Unidos, da Inglaterra, de Portugal, da França e de tantos
Países da América do Sul, que o consagraram, como já foi julgado
por eméritos Professores daqueles países.
Vamos dividir os assuntos históricos mais demoradamente
tratados por Ruy, em alguns Capítulos, como: ABOLIÇÃO, RE-
PÚBLICA, EDUCAÇÃO MORAL E CIVICA e LIBERDADE POLÍ-
TICA E SOCIAL. não nos sendo aossível de modo algum perlus-
trar outros e divérsos assuntos históricos de não menor re1e;ância.
A ABOLIÇÃO

Ruy iniciou seus trabalhos históricos, ainda ao tempo de


acadêmico* pela Abolicão, com artigos publicados nos jornais:
"Radical Paulistano" e "Ypiranga", logo no ano de 1868. Nesse
mesmo ano, na Conferência da Loja América, propôs a emanci-
pação dos nasciturnos. ("Catalogo das Obras", por Batista Perei-
ra, ed. 1929).
Em 1870, proferiu discurso no Club Radical pregando a
Ablição imediata. (Idem).
Em 1875 e em 1880 publicou artigos, com o mesmo título,
"Pelos Escravos" no "Diário da Bahia".
De 1880, é o seu célebre "Elogio de Castro Alves", - o qual,
como se sabe, foi a figura máxima, o lábaro glorioso do movi-
mento abolicionista. Nesse trabalho lembra Ruy que Castro Alves
REVISTA DO IIISTITUTO HIST5P.ICO E GEOGRAFICO DE S. PAULO 27

se devotou a essa causa desde 1865, com a poesia: "Adeus, meu


canto", onde escreveu:
"Traze a benção de Deus ao cativeiro;
"Levanta a Deus do cativeiro o grito".
Relembremos os célebres versos do grande poeta cujo cente-
nário ora se celebra, tais como: "VOZES D'AFRICA" e do "NA-
VIO NEGREIRO"; o drama "GONZAGA" do qual dii Ruy:
" . . . associou indissoluvelmente a causa da nacionalidade a
da extinção do cativeiro". E, sobre "Sangue de Africano", escre-
veu: " . . . todo o fel do cativeiro parece exprimido pelo poeta
naqueles versos". Destaca na obra do poeta: "Eis o que eleva
Castro Alves a altura de um poeta nacional, e bastante eminente
para representar uma grande manifestação da pátria: é que a
alma da sua poesia é a aspiração culminante do país. Nos seus
cantos geme pela liberdade o passado, pugna o presente, e triunfa
o porvir".
Em 1885 pronunciou conferência no Teatro Politeama, sobre:
"Confederação abolicionista - Homenagem ao patriótico Minis-
tério Dantas".
Em 1886, falecendo José Bonifácio, o Moço, no dia 8 de
dezembro, realizou-se verdadeira romaria cívica que aprovou entu-
siasticamente o lema proposto por Ruv: "PRIMEIRO A ABOLI-
ÇAO, NADA SEM A ABOLTCAO, TUDO PELA ABOLIÇAO"!
(Obras Completas, Vol. XIII - I1 - 261) :
"Ele não alimentava prevenções fundamentais contra a repú-
blica. Duvidava da importância das forças exteriores; sabia que
há depravadissimas repúblicas e monarquias excelentes; via, sob
constituiçóes libérrimas, perfeitas democracias, encontrava ins-
critas na categoria das repúblicas as administrações mais opres-
sivas. não descobria ainda no povo o sentimento de sua miséria,
a consciência do seu direito, a deliberação de firmá-lo. Não enxer-
gava pois. motivos concludentes, para modificar o ruwo". . .
Pg. 285: "Certifiquemo-nos de que o pior inimigo da demo-
cracia moderna, a democracia da razão, da experiênck e da utili-
dade é o fanatismo ou a pedantocracia dos engodos, das fórmulas,
das panacéias heróicas" . . .
Pg. 309: "Entre nós, os que corrompem as instituições parla-
mentares, e vivem da degenerescência delas, são precisamente os
que malsinam, com alta sobranceria. o sistema político de que nos
priva a sua influência malfaseja. Substituem os partidos por corfi-
lhos, para depois assacarem aqueles a imoralidade destes, a conde-
narem o govêrno de partido de culpas de uma política que é exata-
mente a negação deles.
"Senhores, o nosso infortúnio não é, nem o regime parlamen-
tar, nem a ação dos partidos, mas, como pensava José Bonifácio,
a ausência de uns e de outros".
28 REVISTA DO INSTITUTO HISTfiRICO E GEOGRAFICO DE S. FAULO

Pg. 318: " . . . José Bonifácio reiteradas vezes o afirmou com


intensa energia; e o país inteiro, que o compreendeu, respondeu-
lhe, esposando a causa abençoada". "A libertação do escravo e o
alargamento do voto são os pontos cardiais da doutrina liberal",
disse o inspirado estadista. E, de éco em éco, a nação toda o aplau-
de, o aclama, e ensoberkce-se".
Pg. 330: E assim concluiu - mais uma vez, aliás, saudando
a terra de São Paulo, com palavras verdadeiramente proféticas:
"É o nascente; é o futuro, é São Paulo, a metrópole do progres-
so nacional, que acorda; estremecendo, ao apelo de Santos, e volta
a fronte do seio de seus vales para o ponto do céu de onde lhe
está a sorrir o vulto de José Bonifácio, alumiando o horizonte
como a lâmpada matutina dos cativos".
Mas, pensamos que o maior trabalho de Ruy sóbre o histórico
completo, total, de tódas as causas, efeitos e demais consequên-
cias do problema da Emancipação dos escravos no Brasil, foi o
Parecer que apresentou a 4 de agosto de 1884 sobre o projeto do
Senador Rodolfo Dantas que visava tornar livres os escravos
sexagenários.
Foi realmente admirável o trabalho histórico desenvolvido por
Ruy em quase 200 páginas de texto. abundantemente documen-
tado, mostrando todas as fontes em que se baseavam os sofismas
levantados contra esse projeto. destruindo-os um a um, com argu-
mentos, baseados em fatos tanto da nossa História, como na de
outras nações.
Como aqui não é o caso de fazermos um estudo ainda que
perfunctório sobre tal Parecer, vamos nos limitar a enunciar os
títulos de cada um de seus capitulos: "Da Emancipação - Lei
de 28 de setembro, sua ineficiência - Sofismas do Escravagismo
- Dilatórias contra a emancipação - Espírito da Lei de 28 de
setembro - "Dos Escravos sexapenários - A lei de 7 de novem-
bro de 183r - Da nova Matrícula - Fundo de Emancipação -
Valor do Escravo: arbitramento - Amortiza~ãoanual do valor
do escravo Localizacão da Escravatura - Do TRABALHO -
Transição para o trabalho livre - Trabalho dos Libertos - Dis-
posições diversas - Liherdade de libertar - Do penhor de escra-
vos - Pactos contra a Liberdade - Apreciação geral da reforma
- Conclusão".
A REPÜBLICA

Vamos estudar alguns dos trabalhos relativos a propaganda


e proclamação da República, nos quais Ruy estuda a situação
social do Brasil, seus antecedentes e consequèncias que previa
com a mudança do regime.
REVISTA DO INSTITCTO HI8T6RICO E GCOGRSFICO DE S. P A U L O 29

O próprio Ruy, por ocasião das suas festas jubilares. assim


falou no discurso proferido n a Biblioteca Nacional:
". . . Tudo o mais está evidenciando que a minha vida toda
se desdobra nos comícios e nos tribunais, n a imprensa militante
ou n a tribuna parlamentar, em oposiçóes ou revoluçóes, em COM-
BATES A REGIMES E ORGANIZAÇÕES DE NOVOS REGIMES".
O Visconde de Ouro Preto, no seu manifesto de Tenerife, lhe
atribuiu a responsabilidade principal n a derrocada do trono,
João Mangabeira, in "Ruy - o ESTADISTA DA REPÚBLI-
CA", escreveu: pg. 27:
"A História da República, ao longo desse tempo, é a sua
própria história: as lutas travam-se contra êle ou derredor dele:
"Ele É o Estadista da República".
Benjamim Constant, a 9 de novembro lhe dizia: "O seu arti-
go de hoje - "PLANO CONTRA A PÁTRIA" - FEZ A REPÚ-
BLICA e nos convenceu da necessidade da Revolução".
Lembre-se que, como escreveu Mangabeira. pg. 34:
"Dos decretos coletivos daquela fase inicial da República,
mais d a metade são da sua inspiracão, da sua autoria e do seu
punho".
Realmente:
O Decreto n." 1, que PROCLAMOU A REPÚBLICA FE-
DERATIVA, é de seu próprio punho.
O de n." 2, que concedeu 5 mil contos ao Imperador e mandou
banir a Família Imperial, é de sua lavra.
O de 7 de janeiro de 1890 que estabeleceu a plena liberdade
de cultos e decretou a separação entre a Igreja e o Estado é de
sua autoria.
O de 19 de novembro de 1889 que adotou a Bandeira Repu-
blicana é de seu punho.
O que convocou a Constituinte e o projeto da ~ons?ituiçãosão
de sua autoria.
E mais os seguintes:
- o de 20 de janeiro de 1890 que conservou o Hino Nacional,
e adotou o da Proclamação da República, e tantos e tantos
outros. . .
Por isso mesmo, Dunshee de Abranches, aliás seu desafetc,
afirmou, em "ATAS E ATOS DO GOVERNO": "Na primeira sema-
n a , após a proclamação da República, S ó UM CÉREBRO PEN-
SOU E AGIU: RUY BARBOSA".
Assim foi que Deodoro resolveu nomeá-lo, a 31 de dezembro
de 1889, Vice-Chefe do Govêriio.
Portanto, nada mais precisamos acrescentar para provar que:
RUY BARBOSA FEZ A HISTÓRIA DA REPÚBLICA em seus pri-
30 REVISTA DO IKSTITPTO HISTÕRICO E GEOGRdFICO DE S. P A U L O

meiros dias, notando-se que tudo isso ficou constando nos seus
inúmeros escritos aue elaborou a êsse respeito.
Entáo, perguntamos, não pode êle ser chamado o HISTORIA-
DOR DA REPÚBLICA? Lembremo-nos ainda que o Pedro Calmon
o chama de "MINISTRO DE IDÉIA" do govêrno provisório.
Queremos todavia relembrar que o célebre "Manifesto dos
Generais" (Pelotas e Deodoro) que tanta influência teve na Ques-
t ã o Militar, uma das causas primordiais da proclamação da
República, já que só então Deodoro resolveu se desligar do
Imperador, foi da lavra de Ruy Barbosa, como expõe o historia-
dor Helio Viana, reproduzindo declarações de Tobias Monteiro e
do próprio Ruy. (Obras, Vol. XIV - Tomo I - Prefácio). Aliás,
sobre tal questão Militar, Ruy publicou 9 artigos em setembro, e
mais 5 artigos nos primeiros dias de novembro, de 1889.
Desejamos relembrar ainda que, no célebre discurso pronun-
ciado no Teatro Politeama, a 28 de agsto de 1881, Ruy procurou
carrear toda a simpatia do Exército para o movimento abolicio-
nista, iniciando-se ai, talvez, a futura e decisiva QUESTÃO
MILITAR.
Nessa oração disse êle: "No exército e no abolicionismo está
condensada e intensificada a vitalidade nacional: êles represen-
t a m o que resta d a honra e integridade da Pátria, a sua conser-
vação e o seu futuro, a sua inteligência e o seu brio, a sua abnega-
ção e a sua fórça". (Obras, XIV, I, 7 2 ) .

INSTRUÇÃO E EDUCAÇAO
Ruy Barbosa elaborou os famosos "Pareceres" e "Projetos"
que apresentou ao Parlamento nos anos de 1882 e 1883. sobre:
"Reforma do Ensino Secundário e Superior" e "Reforma do Ensi-
no Primário e várias instituições complementares da Instrução
Pública", que se encontram em suas "Obras Completas", Vol. IX,
Tomo I e rol. X, Tomos I a IV.
Ora, é evidente que, para a elaboração de um Programa de
Reforma Gtral do Ensino, abrangendo todos os seus diversos
gráus e de Educação Moral e Cívica é necessário que o seu autor
seja um profundo conhecedor da Filosofia, da Política e da Ciên-
cia da Educação, e tambem da História da nação a que o mesmo
se destina.
Comentando esses trabalhos, o Prof. J. Querino Ribeiro, Cate-
drático de Administração Escolar e Educação Comparada d a
U.S.P., em trabalho publicado n a "Revista de História" da Facul-
dade de Filosofia da U.SP., em seu n." 2, a pg. 228 escreveu sob
o título: "Monumentos da Pedagogia Brasileira: Os "Pareceres"
e "Projetos" de Ruy Barbosa". u m excelente trabalho crítico, do
qual extraimos os seguintes trechos:
REVISTA DO IIISTITCTO HISTVP.ICO E GEOGRAFICO DE S. P A V L O 31
-- -- -

"Considerado do ponto de vista da estruturação vertical os


"Projetos" tomam desde a escola pré-primária (que ele mais pito-
rescamente chamou "Jardim de Crianças"), até os cursos de pós-
graduação das formações profissionais superiores, em medicina,
direito, etc. Do ponto de vista da estruturação horizontal, abran-
gem os diferentes tipos de escola, especialmente a partir do
segundo gráu, desde a formação geral comum, ate as mais espe-
cializada~.
"Para cada um dos tipos e graus de escolas, há uma vasta
documentação dos fundamentos filosoficos, politicos e metodolo-
gicos, documentação buscada nas mais modernas experiências
dos países líderes do desenvolvimento educacional daquele tempo
Sabe-se que, além das obras compulsadas num total de 536 (mui-
tas até do próprio ano de 1882) erivolvendo os ensinamentos de
cêrca de mil autores citados, desde Platão ate Spencer (é interes-
sante notar que faltou Rousseau, apesar de estarem citados Con-
dorcet Robespierre e Lepelletier), Ruy deu-se ao trabalho de inves-
tigar pessoalmente as condições do ensino então existente no Rio
e ouvir dentre professores, os que julgava mais abalizados para
aconselhá-lo.
"Ainda há mais: o sistema de administração central, sob a
responsabilidade direta do Ministério do Império ficou planejado
com a estruturação de um grupo de orgãos que incluia, além dos
serviços especializados, a participação da comunidade, através do
que ele chamou "Conselhos Paroquiais", até um estabelecimento
de estudos sistematicos cientificos e permanentes dos problemas
mundiais de ensino, êle propôs: o Museu Nacional Pedagógico
que era muito semelhante ao que temos hoje sob o nome de
"Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos".
E conclue seu estudo, transcrevendo a seguinte conclusão do
"Parecer" sóbre a reforma do Ensino primário:
"Sem uma resolução decidida a vastos sacrificios e a trans-
formações radiciais, não vos aventureis às dificuldades da
questão.
"Melhor é não encetá-la do que falsear-lhe o camynho.
"Antes o "statu-quo", com todas as suas misérias, do que uma
reforma avara, abortiva, sem elevação. . ."

Vamos a seguir somente mencionar alguns dos numerosos


trabalhos de Ruy Barbosa que se tornaram famosos por se refe-
rirem a assuntos da maior relevância para todos aqueles que estu-
dam exatamente a HISTÓRIA da nossa Pátria, no período tão
conturbado, decorrido exatamente durante a vida do grande
brasileiro:
32 REVISTA DO IKSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRAPISO DE S. P A U L O

- Elogio a Castro Alves, de 1880;


- A Questão Religiosa: "O Papa e o Concilio", 1877;
- O Centenário do Marquês de Pombal, de 1882;
- Educação Cívica - Discurso no Senado, de 1897;
- O Patriotismo - artigo no Jornal do Brasil;
- O IV Centenario do Descobrimento do Brasil;
- "Ruas e Monumentos - artigos em 1900;
- Pedro Alvares Cabral, de 1911;

- A Liga da Defesa Nacional, de 1920;


- O Dever do Advogado";
- A Imprensa e o Dever da Verdade, 1920;
- "AS CARTAS DA INGLATERRA'' - que se tornaram
célebres e são ainda muito citadas.

Foram elas escritas quando Ruy se achava n a Inglaterra,


exilado, ao tempo da ditadura de Floriano, e publicadas no "Jornal
do Comércio" e posteriormente reunidas em livro. Nelas Ruy
aproveitou-se para continuar seu incansável trabalho de constru-
ção da Nação, e de atacar o regime militarista de então.
1 - Por isso mesmo, o primeiro artigo sobre "O PROCES-
SO DO CAPITÃO DREYFUSS" é um brado pela legalidade, con-
t r a o predomínio do espirito fechado do militarismo perseguidor
e prepotente.
2.") -- A segunda, "BASES DA FE", foi escrito para mostrar
o valor do espirito religioso contra o ateismo. Quiz esclarecer que,
quando atacara o Poder absoluto do Papa, em "O PAPA E O
CONCÍLIO" e no Decreto de SEPARAÇÃO DA IGREJA DO ESTA-
DO, fora para deixar bem claro que a religião não deve se imiscuir
n a política partidária, sacrificando o seu prestígio e valor espiri-
tual que deve pairar acima d a política e principalmente da politi-
cagem. Além disso, quiz proclamar o seu espirito de Católico,
crente e consciente.
3.") 2 A "A LIÇÃO DO EXTREMO ORIENTE" é u m estudo
da Guerra entre o Japão e a China, que êle diz ser um aviso para
o Brasil nllo se deixar esquecer da possível necessidade de vir a
se defender contra as próprias nações sul-americanas, e também
que jamais deveremos esquecer de fortalecer nossas forças da
Marinha de Guerra, a vista do nosso imenso litoral.
4.") - Em: "DUAS GLÓRIAS DA HUMANIDADE" - é uma
critica candente contra os dois padrões do absolutismo sul-ame-
ricano, mascarado pela fórma de República: os famigerados: Dr.
Francia e Juan Manuel Rosas, com diretas alusões a o Marechal
Floriano, constituindo-se em um brado contra o despotismo.
5.") - "0 CONGRESSO E A JUSTIÇA DO REGIME FE-
DERAL" - é escrita contra o falseamento da Constituição de
1891 e é um clamor pela verdadeira observância da Constituição.
REVISTA DO INSTITCTO HISTÓRICO E GEOGPAF'ICO DE S. PAULO 33

6.") - E última, sobre: "AS MINHAS CONVERSoES". É


uma defesa contra ataques de Afonso Celso e de outros que o
ridicularizavam pretendendo mostrar que êle não mantinha fir-
meza nas suas idéias, principalmente religiosas e republicanas.
Aí, mostrou que nunca fora republicano extremado, tendo mesmo
uma certa indiferença pelas formas de govêrno, mas sempre luta-
ra pelo govêrno representativo que garantisse o regime de liber-
dade para o povo, e diz:
". . . . obedeço aos profundos instintos do meu temperamento,
defendendo, contra os regimes abastardados a lei, a verdade polí-
tica, as garantias constitucionais". Explicou porém, que não se
fizera monarquista: "porque tenho como sonho irrealizável, a
reposição da monarquia no Brasil".
Na prmeira parte dessa carta repeliu a pecha de ter sido
um ateu, relembrando sua Conferência de 1893, feita na Bahia,
onde proclamara ser pessoalmente um cristão, mas contrário aos
abusos cometidos em nome da Religião, pelos seus maus minis-
tros, levantando um hino a Religião:
". . . . da comunicaçáo interior entre o coração e Deus: da
caridade e brandura para com todos os homens; religião de luz
que só alimenta da luz, e na luz se desenvolve, reli~ião.cujo
Pontífice é o Cristo, Religião de igualdade, fraternidade, Justica
e paz, religião em cujas entranhas se formou a civilizacão moder-
na, em cujo seio sugou o leite de suas liberdades e instituições, e
a cuja sombra amadurecerá e frutificará a sua virilidade".
Aliás, em 1904, no Colégio Santo Ignácio, em Nova Friburgo,
Ruy Barbosa pronunciou célebre Conferência, elevando um hino
a Deus, a Religião Cristã e aos benefícios que ela trouxera ao
Brasil.
Outra belíssima página de Ruy é a conferência de 1917 sobre
"OSVALDO CRUZ" onde proclamou os benefícios advindos da
obra do glorioso criador da medicina experimental no Brasil.
---000--

Finalmente resta-nos estudar, ainda que ao de leve, o imenso


trabalho desenvolvido por Ruy para firmar os princípios juridicos,
conforme Jurisprudência do Supremo Tribunal, que reconheceu
que: 1.') - o estado de sítio não pode impedir a publicacão pela
imprensa dos discursos e atos parlamentares; 2.") - o estado
de sítio não pode suspender indefinidamente a publicação e cir-
culação dos jornais; e 3.") - o estado de sitio não pode impor a
incomunicabilidade aos presos por crimes políticos.
É interessante lembrar-se que o patriotismo de Ruy, quando
estudante, fê-lo ser indicado para saudar as forças do nosso glo-
rioso 7." batalhão, de Voluntários, que regressavam da Campanha
34 REVISTA DO IXSTITCTO HISTÓRICO E G E O G U F I C O DE S. P A U L O

do Paraguay, e a recitar no Teatro São José, a 3 de agosto de


1868, uma bela poesia em homenagem a tomada de Humaitá.
Mais tarde, rebelou-se em quatro artigos, pela Imprensa, no
ano de 1899, contra a devolucão ao Paraguay dos troféus conquis-
tados pelos soldados do Exército Brasileiro, no campo de batalha,
e que assim, eram património inalienável da Nação Brasileira,
que os recebera para guardá-los em homenagem a bravura dos
que os conquistaram e a de todos os nossos mortos. Rebelava-se
ainda contra o tom que era dado pela imprensa paraguaya que
reclamava o seu direito a receber em devolução aquilo que êles
pretendiam lhes pertencer, tratando assim como se estivessem a
nos exigir a devolução de coisas alheias, e afirmando que não pra-
ticaríamos uma ação generosa, mas sim um ato de contrição.
Não admitiam siquer que se viesse a louvar tal ato como livre
homenagem que viesse. a ser praticada pelo Brasil a uma Nação
irmã, que fora a maior vitima da sanha do Ditador Solano Lopes.
Note-se que ainda em 1966, no I V Congresso de História da Amé-
rica, a Delegação do Paraguay pretendeu apresentar Moção para
forçar o Brasil a devolver tais troféus, no que foi contrariada pelo
Chefe da nossa Delegação, o Prof. Pedro Calmon.
0
--
É muito comum perguntar-se: o que fêz Ruy em pró1 da -
chamada QUESTÃO SOCIAL?
Basta lembrarmos que o Embaixador e Professor ERNESTO
LEME, na Casa de Ruy, a 5 de novembro de 1951, em sessão
solene presidida pelo Sr. Presidente da República Dr. Getúlio
Dornelles Vargas. teve a oportunidade de mostrar indiretamente
que não foi a Ditadura de 1930 que "inventou" a Justiça Social
no Brasil, tendo proferido magistral Oração da qual vamos trans-
crever sòmente êstes trechos:
"É a qyestão do trabalho dos menores já regulada pelo Decre-
to de 23 de janeiro de 1891. As horas de trabalho. A higiene das
fábricas. A proteção a operária gestante. Os acidentes no traba-
lho. O seg8ro operário. A igualdade dos sexos, no que concerne
ao trabalho. O trabalho noturno. O trabalho em domicílio. Os
armazéns de venda para os trabalhadores".
Ruy insurge-se, no capítulo referente aos acidentes no traba-
lho, contra a omissão do trabalho agricola: "A lei não considerou
sinão trabalho industrial. Como explicar singularidade tão extra-
vagante, qual a de, num País esesncialmente agricola e criador,
se esquecerem do trabalho da criação e do da lavoura, os dois
únicos ramos de trabalho naturalmente nacionais, os dois só em
absoluto nacionais, os dois só onde se assenta a nossa riqueza
toda, a nossa existência mesma e sem os quais a nossa própria
indústria não poderia subsistir?"
REVISTA DO INSTITUTO HISTORICO E GEOGRhFICO DE S. PAULO 35

E, muito a propósito, relembrou o seguinte trecho da ORA-


ÇÁO AOS MOCOS":
". . . Se a sociedade não pode igualar os que a natureza criou
desiguais, cada um, nos limites de sua energia moral, pode reagir
sobre as desigualdades nativas, pela educação, atividade, perseve-
rança Tal a missão do trabalho.. . O trabalho é o interior, o
desenvdvm, o apurar das energias do corpo e do espírito, mediante
a ação continua sobre si mesmo e sobre o mundo onde labu-
tamos".
Fica provado que razão tinha João Mangabeira ao procla-
mar (Pg. 260):
"Assim, na questão social, ninguém, no Brasil, viu tão cedo,
tão largo e tão longe quanto Ruy, em sua época".

Vamos mostrar como Ruy Barbosa tantas vêzes acoimado


- injustamente daquilo que hoje se chamaria de subversivo,
sabia como ninguém, fazer soar em unissono, as cordas do ver-
dadeiro e são patriotismo que consiste na união dos cidadãos,
visando o bem comum da Pátria: (Vol. XXXV - Tomo I
Pg. 144):
-
"Mas, de outra parte, e por isso mesmo, senhores, quando
assistimos a dias, como os das nossas datas memoráveis na Con-
ferência de Haya, a dias como o de hoje de confraternização
entre todos os brasileiros, de fusão de tódas as diversidades numa
só vibração moral, de comunhão de todos os corações, num só
pensamento nobre, humano, afinado, com a verdade, com o direito,
com o patriotismo, em uma só manhã, se nos afigura crescermos
todo um século; porque percebemos que, para nos adiantarmos
ao tempo no crescimento da nossa grandeza, basta que uns aos
outros nos conheçamos, basta que nos queiramos uns aos outros,
basta que uns para os outros guardemos justiça, resp$ito, carida-
de, sentindo que, partícuIas de um grande organismo vivo, quando
mutuamente nos destruirmos a nós mesmos nos destruimos, des-
truindo, o corpo de que somos carne, o espirito e a vida".
HISTORIADOR DE SÂO PAULO

No inicio deste trabalho, reproduzimos a belissima referência


que Ruy Barbosa fez a história épica dos Bandeirantes Paulistas,
e que foi tão admirada pelo nosso Mestre Afonso Taunay que a
transformou como que na lapidar apresentação da sua monumen-
tal "História Geral dos Bandeirantes Paulistas", em onze alenta-
dos volumes.
Não podemos porém nos furtar ao desejo de reproduzir toda
a parte da oração proferida pelo grande brasileiro, na qual se
36 REVISTA DO INSTITUTO HISTCiRI<'O E GEOGRhFICO DE S PAULO

acha engastada aquela joia antológica de exaltaçáo dos heroicos


desbravadores de sertões e plantadores de cidades, - e que é, n a
verdade, uma admirável síntese da História Paulista, que passa-
mos a transcrever:
"Não sei de outras cidades nossas, que se logrem de privilégio
semelhante ao da bella Paulicéa, capital conjuntamente, das tra-
dições e do futuro. Aqui se evoca inteira, aos olhos do espírito, a
história do Brasil; e com a expressão dos nossos destinos, em
que o espetaculo das surprezas do nosso desenvolvimento nos
enleva, se funde harmoniosamente a do nosso passado na grada-
cão natural das suas épocas, esbatidas uma a uma com a magia
do pincel das obras divinas. Não é sem razão que um ge6,grafo
ilustre cuida estar aqui, "a certos respeitos, o verdadeiro ceiitro
da América portugueza", e para este logar reivindica a preferen-
cia na honra de constituir a séde nacional do nosso governo, que
se cogita de estabelecer alhures.
"Foi nestas paragens que teve o seu foco o maior irradiar da
força expansiva desenvolvida primitivamente na elaboracão da
nossa nacionalidade e na constituição da nossa grandeza territo-
rial. Seculos depois é nellas que se encontram a sua concentração
mais poderosa, as energias criadoras de uma nova éra na civili-
zação brasileira. A actividade, a riqueza, o gosto em poucos lus-
trcs. metamorphosearam num grande theatro de vida intensa o
modesto nucleo administrativo e estudioso encontrado pela repu-
blica em 1889.
"Mas a resplandescencia de tão extraordinaria transforma-
cão não apagou da téla os formosos tracos da sua antiguidade.
Debuxo vivo, como o de certas bellezas favorecidas do céo. cujo
semblante guarda em todas as edades vestigios sorridentes da
ineninez.
"Das janellas do meu quarto de trabalho. ha trinta e nove
annos, na minha singela casa de estudantes, debruçada sobre a
varsea do Carmo. a direita dessa ladeira, que rampeava para a
Luz, d e i x a q o cahir a vista na baixada visinha, ou alongando-a
até esbarrar, ao norte, nos contrafortes da Cantareira, se me figu-
rava estar vendo fugirem ao alcance do meu raio visual, um pouco
dilatado. as scenas que, trezentos e vinte annos antes, animaram
estes sitios, quando os baluartes de Sto. André, nas terras de João
Ramalho, guarneceram de artilharia os cainpas de Piratininga e
o zelo de ANCHIETA vinha plantar á beira do Tieté a villa de São
Paulo, onde alguns lustros mais tarde, "a sua amada capitania de
São Vicente" firmaria a residencia do seu governo. O Evangelho
caminhava resolutamente para os sertões. Deixava á beira mar
a primeira escola primária, criada pelos jesuitas entre as choupa-
nas do povoado de S. Vicente, lado a lado, na ilha visinha, com
a semente do vosso futuro emporio commercial, então nascente
REVISTA DO IXSTITVTO HIST6RICO E GEOGRáFICO DE S PAULO 17

na casaria rustica de Santos, para, através de obstaculos sobre-


humanos, vir assentar nestes lagares, cobertos hoje pela mais
florescente das nossas populações, o primeiro posto avancado na
marcha para o deserto.
"Quasi toda a cidade moderna está nos lineamentos, que
então lhe traçaram os religiosos para um aldeamento, cujo nume-
ro de habitantes não chegava a centena e meio de homens. Nes-
tas alturas, onde a flora dos climas meridionais começa a desta-
car as suas arvores de vanguarda, uma lombada de campo esbo-
cava a acropole da cidadella, que os missionarios projetaram,
triangularmente, entre as aguas do Tamanduatehy e as do
Anhangabaú. Tudo o que os vosos feitos de mais de tres seculos
têm escripto nesta grande pagina das conquistas do homem á
natureza, não deliu deste palimpsesto humano e as suas legendas
primitivas. Na carta da esplendida cidade actual as indicacões
mais familiares recordam a época de Nobrega e Tibiriçá, quando
o principal dos caciques reduzidos erguia as suas tendas onde
jaz hoje o mosteiro dos benedictinos, e no meio do villar, entre o
carrego e o rio, com as suas quatro portas, as suas defesas natu-
raes, a egreja, á orla da escarpa, em vigia sobre a campina e o
interior, o collegio dos padres bracejava as suas trilhas pelo
povoado e seus arredores. Por entre as constnicções, os jardins
e os armamentos de agora ainda se não obliteraram as linhas
primitivas da villagem dos cathecumenos de 1554, cujos funda-
dores, durante mezes, tiveram por templo, cenobio e paço uma
cabana de taipa e colmo levantada pelo braço agreste dos selva-
gens; e os passos do transeunte através desses bairros opulentos,
dessas luxuosas avenidas, desses edifcios grandiosos, topam, ainda
hoje, a cada canto, de São Bento a Tabatinguera, do Acú á Rua
Direita, no largo do Theatro, no palacio do governador, na anti-
ga faculdade e em outras lembranças desse periodo longínquo,
a prefiguraçáo da actualidade no tosco escorço daqueles rudes
tempos.
"A meu ver, senhores, a nossa magnificiencia material, nos
seus esplendores, bem longe está da grandeza moral&esses gros-
seiros primordios.
"A mistura com o sangue indigena, a lucta com o deserto,
a fascinação das aventuras haviam começado a caldar o caracter
dos paulistas na tempera de uma raça nova, a cujas audacias
bravias deve o Brasil metade, talvez, dessa corporatura gigantes-
ca, em que se compraz o nosso desvanecimento. A incultura, a
bruteza, a selvageria das suas origens e do seu meio lhe mescla-
ram a escoria de paixões e crimes, cuja violencia sem freio ensan-
guentou de tremendos sacrificios a virgindade das nossas flores-
tas, onde os missionários, esposando o direito do gentio contra os
seus escravisadores, consagraram á mais nobre das causas a mais
serena e imperterrita das coragens. Já então nos davam esses
38 REVISTA DO INSTITUTO HISTORICO E GEOGR6FICO DE S. P A U L O

lidadores da cruz a lição inolvidavel do valor das resistencias


inermes da liberdade contra a ambiçáo em armas.
"Mas aquella ambição não era da intriga facciosa, a do
suborno eleitoral, a da pressão administrativa, e que se aproveita,
a seu salvo, da riqueza dos pusilanimes, dos necessitados e dos
dependentes, a que, com as costas quentes do apoio de um gover-
no, joga sobre o certo com as cobiças, as indigencias e as baixesas
dos subalternos e dos especuladores, nesta feira d'almas, que se
chama politica nos paizes degradados. Era a ambição em lucta
com o perigo arca por arca, em antagonismo fronte a fronte, com
as potencias da natureza, e desafio peito a peito com os myste-
rios, as ciladas, os assaltos do ermo, as trevas da mattaria, a
fereza das alimarias, a barbaria dos canibaes. Era a ambição cruel,
mas heroica, a ambição do mais rijo aço da vontade humana,
digna de se medir com o heroismo dos deveres sagrados. naquelle
theatro sem auditorio, entre o céo e a terra, como os titans com
os deuses.
"Nessa epopéa, capaz da tuba épica, viu surdir o mundo novo
a estirpe dos paulistas, filhos intractaveis do cruzamento entre o
genio europeu e a energia americana, de uma constituição á prova
do medo e uma actividade inaccessivel ao cansaço. Entregues á
corrente do Tietê, de rio em rio, de serra em serra. de planura
em planura, as suas expedições iam ter ao Miranda, ao Cuyabá,
ao Paraguay, arrebatando á Castella, para a Casa de Bragança,
"a maior extensão da America do Sul, a região mais formosa de
toda a terra habitavel." Deanteiros da expansão portugueza na
Amerira do Sul, fundaram nos Seculos XVI e XVII, os primeiros
estabelecimentos de Minas, de Goyaz, de Matto Grosso, de Santa
Catharina, do Rio Grande, conquistaram a provincia castelhana
do Guaira, obrigaram os hespanhois a evacuar a bacia do Jacuhy,
a do Piratinim, a do Ibicuhy, toda a região a leste do Uruguay,
levando, p& fim, as suas destemidas excursões até ao norte do
Paraguay e a Cordilheira do Perú. Não fora o valor e o arrojo
desses caçahres de homens, gente "mais ardida que os primeiros
conquistadores" e a costa do Brasil ao sul do Paranaguá seria
hoje hespanhola, hespanhoes veriamos os sertões do Matto Grosso
e Goyaz. Outro povo occuparia as nossas melhores zonas, respi-
raria os nossos ares mais benignos, cultivaria as nossas mais
desejadas terras. Na sua maior parte o sul do Brasil representa
uma conquista dos bandeirantes. A expansão irresistivel dessas
ondas humanas para as regiões andinas e equinociaes deve esta
paz a sua immensidade e a sua configuração territorial, dilatadas
e modeladas, ao meio dia e ao ocidente, pela fortuna da raça
indomavel, que, em dois seculos de triumphos, estendeu o campo
de suas façanhas desde o solo Paraguayo até a Bolivia e às ante-
montanhas peruanas.
REVISTA DO INSTITUTO HISTÕRICO E GEOGRLFICO DE S. P A U L O 39

"Desvendando o enigma do sertão meridional, penetrando ao


nosso Grande Oeste os seus segredos, estreitando a zona mysterio-
sa, que nos separava dos Andes, avassallando a solidão virgem
desde a Serra do Mar, no Atlantico, até as chapadas e espigóes
donde se entra a descortinar o espinhaço do continente no outro
oceano, annexando ao Brasil oriental vastidões e vastidóes desco-
nhecidas, o genio paulista deu ao novo imperio a sua forma, e
articulou a primeira afTirmação da nossa individualidade. Com
uma intelligencia, um sentimento, uma intuição da natureza, que
leva o assombro dos geographos modernos a ver nesses roteadores
do nosso deserto "os creadores da geographia patria", cujos cami-
nhos abriram, cujas magnificências dominaram, cujos aspectos
definiram, numa nomenclatura admiravel, os grandes sertanistas
dos seculos XVI e do seculo XVII, encarnando em si mesmos o
mundo gigantesco e agreste das suas proezas, aelle embebiam uma
consciencia de força, uma rijeza de caracter, um pendor á auto-
nomia, que os levaram a antecipar em 1641, a nossa independencia,
não consumada sinão quasi duzentos annos mais tarde.
"Justo vinha a ser que aos écos de São Paulo se confiasse, em
1822, o brado imwrial, da nossa emancipação. Era ella, para este
ramo da familia brasileira, uma tradicção duas vezes centenaria,
desde que aqui mesmo, duas centurias antes á proclamação de
D. João IV haviam revidado os paulistas, elegendo rei um dos
seus naturaes. Não dista muitas ruas do lugar onde vos falo esse
convento dos benedictinos, onde foi buscar acolhida Amador
Bueno, evadindo-se pela sahida posterior de sua casa ás aclama-
ções da multidão, cujo voto unanime lhe comminava o throno ou
a morte. Curiosidade singular da nossa proto-historia o desse
rasgo de antiga lealdade, em que um Bueno da Ribeira, com o
oceano, a serrania e o baluarte do peito popular entre o governo
que lhe ofereciam e o governo de Lisboa, toma, para se defender
contra uma coroa, imposta pelo povo, a espada, que hoje se ergue,
para impor á nação coróados de escolha alheia.
"Não fora tal a innocencia politica daquelles tempos, e os
campos de S. Paulo, onde, no terceiro decennio do2eculo deze-
nove, o grito de um principe bragantino solennisou a rotura dos
nossos vinculos coloniais, teriam visto estabelecer-se muito antes
do movimento emancipador nas provincias inglezas e hespanho-
las, o primeiro Estado independente do hemispherio americano.
"Os mais discretos arbitros das causas da nossa historia têm
por certo que essa insurreição prosperaria, que a sua situação,
entrincheirada na rechan paulista era inexpugnavel, e que, a
pouco trecho, o novo Estado seria o mais formidavel da America
do Sul. Inesperada e extranha situação teria sido, para a Europa
do seculo XVII, a de ver emergir, neste mundo cento e cincoenta
annos antes ignoto e tenebroso, uma monarquia semi-européa,
armada para sacudir o jugo da mãe patria entre colonos portu-
A 0 REVISTA DO ISSTITUTO HISTÕRICO E GEOGRbPICO DE S. PAULO

guezes, de oppor as gloriosas armas lusitanas o atrevimento das


nossas hostes sertanejas, e ao sceptro de Portugal um sceptro
americano, denunciava o surto d'aguia nas aspirações e a medulla
leonina no caracter da raça que o concebeu.
"Precursores da independencia, para elas haviam estendido
mãos resolutas os paulistas quasi cento e cincoenta annos antes
da conjuração mineira, quasi cento e oitenta primeiro que a revo-
lução pernambucana. A prudencia, a abnegação ou a honra de
um vassalo fiel aplacaram essa erupção. Mas a lava criadora
desses heroes não esfriou: cresceu ainda por mais cem anos. Em
1740 estava definido o contorno das nossas extremas. A nossa
expansão territorial se espraiava, pelo sul, até á margem septen-
trional do Prata, pelo oeste até o Paraguay, o Madeira e o Javary.
A área colonial se achava triplicada, mercê dos jesuitas e dos
paulistas. Aquelles obedeciam á vocação do seu apostolado. Es-
tes, a do seu patriotismo Descenderia desta linhagem, vós não a
deshonraes. Mais que nenhum outro factor, concorrestes para a
criação da Patria brasileira Pioneiros da nossa dilatação territo-
rial, pioneiros da emancipação da nossa nacionalidade, pioneiros
da nossa riqueza economica, o habito das iniciativas heroicas vos
inspira hoje a do restabelecimento da verdade nas instituições
pela convocação do paiz á escolha real do seu governo "
Esse belo estudo da história política, social e economica, desde
a fundacão de São Paulo, com idéias muito adeantadas para a
época, em relação á interpretação de diversos fatos ali comenta-
dos sob um prisma e c o a conclusões que somente desde pouco
tempo para cá é que se tomaram as da maioria, taes como as
relativas a fundação da cidade de São Paulo; ao papel dos jesui-
tas; e principalmente o representado pelos bandeirantes; e ainda
os acontecimentos relativos a procTamação de Amador Bueno, a
de ser São Paulo o centro geográfico do Brasil; e a verdadeira
interpretação do carater do povo paulista, - todos essas con-
cepções bem demonstram que Ruy Barbosa elaborou esse traba-
lho, baseado nos seus próprios estudos, e com as luzes da sua
inteligênciaaprivilegiada, sem preconceitos improcedentes, mas
que durante tantos anos procuraram conspurcar a glória dos
paulistas.
Essas palavras foram proferidas por Ruy Barbosa a 16 de
dezembro de 1909, no Teatro Casino de São Paulo, durante sua
excursão eleitoral a este Estado

CONCLUSÃO

A vista de tudo quanto acabamos de escrever sobre alguns


dos trabalhos relativos a assuntos históricos, elaborados por RUY
BARBOSA, pensamos que não póde restar qualquer dúvida de que
REVISTA DO INSTITUTO HISTORICO E GEOGRiiFICO DE S. P A U L O 41

ao grande brasileiro cabe, de pleno direito, mais esse título, ou


seja, o de HISTORIADOR.
Aliás, convem frisar desde logo que não é fácil atribuir-se
a quem quer seja essa qualidade, e, muito menos, negá-la.
Não vamos siquer reproduzir os conhecidos preceitos existen-
tes nos trabalhos de José Honório Rodrigues: "A Pesquisa Histó-
rica no Brasil", "Teoria da História do Brasil", "História e Histo-
riadores do Brasil", e outras.
Sabemos, por exempio, que a História desde a mais remota
antiguidade tem quasi que se confundido com a Literatura.
Atualmente porem se exige uma especialização, uma demons-
tração positiva de não se tratar de simples amadorismo com
pendores literários no estudo de fatos pretéritos, tratados ao sabor
de idéias patrióticas.
Mas, tantos são os ramos da História, quantas são as ciên-
cias sob cujos prismas se efetuam tais estudos, pelo que temos
a História Politica, a Militar, a Económica, a Social. a Diplomá-
tica, e outras, somente em relação a uma Nação, a um povo, sem
se falar da História de cada um dos ramos do saber humano.
Portanto, como se negar que um profundo conhecedor da
Politica, do Direito, da Diplomacia, da Sociologia, da Economia.
e emfim de todos os ramos da vida de nossa Pátria, seja um
verdadeiro Historiador. E isso, sem se levar em conta que indubi.
tavellnente Ruy Barbosa "FEZ" e "ENCARNOU a HISTÓRIA
DO BRASIL dentro de largo espaço de tempo.
E, quanto a qualidade de pesquisador, evidentemente não se
pode exigir que todo Historiador seja necessariamente um pesqui-
sador.
Lembre-se por exemplo que Robert Southey que nem siquer
esteve aqui no Brasil, no entanto escreveu uma das nossas me-
lhores Histórias do Brasil, porque baseada em documentação pos-
suida por um seu tio, residente em Portugal. E lembremos ainda
as Histórias do Brasil escritas por John Armitage e a óf: Heinrich
Handelmann, para não se falar de outras.
Assim, o necessário é que o Historiador se baseie epi pesquisas
realisadas sobre o assunto, em tela, ãe modo que ele o possa eluci-
dar com precisão, claresa e serenidade.
Lembremos ainda o caso de Gilberto Freyre que, no dizer de
Anísio Teixeira é: "o marco mais significativo no longo esforço de
introspecção que vimos fazendo para tomar consciência de nosso
país, de nossa História, de nossa cultura."
Mas, o próprio Teixeira escreveu: "Não sei se amanhã Gil-
berto Freyre não será julgado mais como escritor e pensador do
que como cientista."
Finalmente, para melhor classificar Ruy Barbosa como Histo-
riador, convem lembrar o que escreveu Oliveira Lima: ". . . a pró-
42 REVISTA DO INSTITUTO HIPTÓRICO E GEOGRÃFICO DE S. PAULO

pria história da civilização é, em resumo, a História da luta da


-
liberdade contra o desuotismo
légio."
e o da ieualdade contra o ri vi-

E, não se pode contestar que, no Brasil, ninguem mais do que


RuyBarbosa lutou pela liberdade contra o despotismo e pela igual-
dade contra o privilégio.
Em conclusão: ninguem foi melhor Historiador do que RUY
BARBOSA que, alem de haver sido ele próprio AUTOR DE GRAN-
DES ACONTECIMENTOS PARA A VIDA DA NOSSA PÁTRIA,
DESCREVENDO-OS minuciosamente, ainda ESCREVEU BRI-
LHANTES ESTUDOS sóbre diversos outros assuntos de História
do Brasil.
AFONSO D'ESCRAGNOLLE TAUNAY
Antônio Barreto do Amara1

Benemérito organizador de um futuro império, teve o prínci-


pe regente Dom João, a quem as tropas de Junot haviam tangido
para a América levando consigo a corte bragantina, acompanhada
de um séquito de 15.000 pessoas, a oportunidade de pôr em práti-
ca resoluçóes de amplos objetivos, de carater estético, político,
científico e industrial, destacando-se, entre as primeiras, a insti-
tuição de uma Escola de Ciências, Artes e Ofícios.
Por intermédio de seu ministro, Conde da Barca, incumbido
foi o Marquês de Marialva de apresentar a Joaquim Lebreton,
secretário perpétuo do Instituto de França, convite para consti-
tuir a missão que viesse a ser a primeira escola daquela natureza
criada no Brasil.
Dessa missão, entre os primeiros, destacava-se a figura de
Nicolas Antoine Taunay, que os desgostos políticos e o desconsolo
de ver a impotência napoleônica, causada pela coligação de potên-
cias europeias, aceitara dela participar, exilando-se do outro lado
do oceano, a fim de não assistir ao que julgava fóssem os sofri-
mentos da pátria.
Acompanharam-no os filhos Carlos, Hipólito, Felix Eugênio,
Teodoro e Adriano e o irmão Augusto Maria, indo abrigar-se longe
do centro urbano, na Cascatinha da Tijuca.
Seu nome havia de perpetuar-se no Brasil pela fama que
aureolou o filho Felix Emílio, pintor, diretor da Escola de Belas
Artes e preceptor de Dom Pedro 11, o neto Alfredb: militar e
escritor notável, agraciado pelo Imperador com o título de vis-
conde e o bisneto, Afonso d'Escragnolle Taunay.
Aquele que do pai herdara o talento pictórico já era artista
de consagrado renome quando, aos 45 anos de idade, desposou
a senhorinha Gabriela, jovem de não mais de 25 anos, filha do
casal Adelaide de Beaurepaire e Alexandre d'Escragnolle, conde
do mesmo nome.
No Rio de Janeiro, em lar tranquilo, onde se fazia música e,
por horas inteiras, se falava de autores gregos, latinos e france-
ses, a rua do Rezende n." 87, nascia a 22 de fevereiro de 1843 o
filho, ao qual deram o nome de Alfredo, que aos 12 anos incom-
44 REVISTA DO INSTITUTO HISTóRICO E GEOGRAFICO DE S. P A U L O

pletos já se via premiado com distinção nas provas finais do 4."


ano do Colégio Pedro 11, bacharelando-se em belas letras em 1858.
Em 18W transferia-se da Escola Central, formado em mate-
máticas, para o 2." ano da Escola Militar, completando o curso
de engenharia, cujo final coincidiu com o rompimento das hosti-
lidades entre o Paraguai e o Brasil.
O jovem engenheiro, de apenas 22 anos, iria então palmilhar
os rincões de Mato Grosso, vendo-se envolvido no drama sofrido
pela expedição a fronteira meridional daquela Provincia, retra-
tada por êle em páginas da melhor literatura brasileira.
Terminada a guerra dedicou-se as letras e envolveu-o a politi-
ca, levando-o a presidência da Provincia de Santa Catarina, por
nomeação do Gabinete Caxias, de 25 de julho de 1875.
Em Desterro, atual Florianópolis, de seu consórcio com D."
Cristina Teixeira Leite, filha dos Barões de Vassouras, fazendei-
ros na Província do Rio de Janeiro, nascia a 11 de julho do ano
seguinte, o filho a que deram o nome de Afonso, continuador das
tradições da Família Taunay.
Um ano apenas esteve êle na terra que o viu nascer, pois
em 1877 seu pai deixava o govêrno da província, afastando-se da
política em 1878, quando da queda do Partido Conservador.
Viajou a família para a Europal e regressando ao Brasil reto-
mou Alfredo de Taunay suas atividades políticas, fazendo-se eleger
a Câmara dos Deputados pelo primeiro distrito de Santa Catari-
na, em 1881.
A volta ao poder do Partido Conservador permitiu-lhe o
retorno a um dos altos cargos administrativos, sendo nomeado
presidente da Provincia do Paraná, em agosto de 1885. Em janeiro
d:e 1886 estava eleito por Santa Catarina para deputado geral e
em agosto dêsse ano, sendo o mais votado da lista triplice apre-
sentada ao Imperador, via-se escolhido para o Senado.
Voltava, assim, o menino Afonso d'Escragnolle Taunay ao
Rio de Janeiro na idade em que se fazia mister proporcionar-lhe
os primeiros estudos.
No lar% mãe ensinava-lhe francês, enquanto o pai, muita
atarefado com as atividades políticas, dava-lhe apenas lições de
português, mas fazia-o ler numerosíssimos livros dos melhores
clássicos e obras sobre o Brasil.
Preparando-se para o Curso de Humanidades teve como pro-
fessores Alfredo Alexandre para o inglês, Alfredo Moreira Pinto
para Corografia do Brasil e Capistrano de Abreu, levado por seu
tio Leopoldo Teixeira Leite, para a História do Brasil.
Cincoenta anos mais tarde, lembrando êsses nomes, contaria
Afonso de Taunay que alguem, de quem não recordava o nome,
objetivara-lhe ao pai, "que se tornaria estranho que um senador
do Império convidasse um republicano rubro que havia pouco
REVISTA DO INSTITUTO HISTÕRICO E GEOGRdFICO DE S. P A r i . 0 45

tivera uma questão com as autoridades por causa de idéias expen-


didas no seu curso da Escola Militar".
Pouca importância dera a observacão o futuro visconde e,
assim, no decorrer de 1889, recebera o filho as lições dos três
grandes mestres.
Com o advendo da Repúblico via-se truncado o futuro do
jovem Afonso de Taunay. O pai, fiel aos princípios monárquicos,
deixava a política, dedicando-se à literatura e a música, e êle,
prosseguindo nos estudos ingressava na Escola Politécnica da
Capital Federal, iniciando um curso para o qual não possuia
vocação.
O gósto pelas letras incompatibilizavam-no com as ciências
exatas, sofrendo por isso a primeira decepção ao ser reprovado
pelo professor Cirne Maia na aula de desenho.
Não o abateu o fracasso, persistiú no estudo, diplomando-se
em engenharia em 1.900. Tal, entretanto seu desinterese pela
futura carreira que não chegou a registrar seu diploma, como de
praxe o faziam então todos os titulados.
Deliberou transferir-se para São Paulo. Não viria exercer
a profissão para a qual se habilitara, mas sim prosseguir no cam-
po que escolhera e que marcou o ponto inicial de sua jornada no
magistério, facultando-lhe, em toda plenitude, a vocação de
paciente pesquisador.
A 9 de janeiro de 1899, ainda não saído dos bancos acadê-
micos, obtivera sua nomeação para exercer interinamente o cargo
de preparador das cadeiras de química analítica e de química.
industrial do curso de engenheiros industriais da 3." cadeira do
3." ano da Escola Politécnica de São Paulo, tendo sido suas fun-
ções ampliadas, em setembro, quando as acumulou com a de
preparador da 4." cadeira do 2." ano do mesmo curso.
Diplomado, tem sua efetivação a 1." de janeiro de 1901 e três
anos mais tarde o preparador Afonso de Taunay é nomeado lente
substituto da 2." seção e nela efetivado a 15 de outubfo de 1906,
atingindo o ponto culminante da carreira do magistério superior
em março de 1911, quando nomeado para lente catedrático da
3." cadeira do curso preliminar, acumulada com a 2." do curso
geral.
Logo após sua efetivacão na Escola Politécnica ingressava
no corpo docente do Ginásio de São Bento, como professor de
história, alternando, dessa maneira, as aulas de matemática
com as l i ~ õ e sda matéria a que se comecava a dedicar a qual o
tornariam o maior historiador de São Paulo.
Mais do que a matemática a história o apaixona e o seu
nome começa a aparecer com destaque entre mestres e nos arti-
gos de revistas e jornais quando, em 1917, ocorre vagar-se a dire-
ção do Museu Paulista.
46 REVISTA DO INSTITUTO HIST6EICO E GEOGRAFICO DE S. PAULO

Nomeado para gerir o estabelecimento que conservava a;


documentação sociológica e histórica de São Paulo mas que até
então fora apenas um instituto de zoologia, vai desde logo entre-
gar-se de corpo e alma a tarefa de colaborar para o brilho das
festas comemorativas do centenário da independência do Brasil,
cuja data se aproximava, transformando o amontoado de animais
empalhados e onde somente alguns poucos mostruários eram
dignos de serem vistos, em um verdadeiro receptáculo da história
de São Paulo.
Obtem do Secretário do Interior, em 1917 e 1918 os meios
para a abertura das duas primeiras salas consagradas a tradição
paulista e ao assumir o govêrno do Estado o homem que o havia
indicado para o cargo, dele consegue grande crédito, graças ao
qual poude dar a sessão de história notável desenvolvimento. de
modo a apresentar, a 7 de setembro de 1922, oito novas salas, ao
mesmo tempo em que mandava proceder a decoração do edificio,
até então nu das pinturas e estátuas que a arquitetura reclamava
e que até hoje encantam os olhos dos que visitam o magnífico
palácio.
Comemorando a data publica a Coletânea de Mapas de Carto-
grafia Paulista Antiga e institui os "Anais do Museu Paulista"
onde aparecem três memórias de sua lavra: "Pedro Taques e seu
Tempo", "Sob E1 Rei Nosso Senhor" e "Um Grande Bandeirante
- Bartolomeu Pais de Abreu", e mais uma série de documentos
de valia para a História de São Paulo.
Ao término désse ano vê criado por lei, no Museu Paulista,
a secão de História Nacional e, logo mais, o Museu Republicano
da Convencão de Itu, inaugurado a 18 de abril de 1923, ao qual
passa a emprestar um carinho ímpar, talvez mesmo superior ao
que despendera com as reformas do Museu Paulista.
Fundado para recolher e guardar a documentação histórica
da propaggnda da República em São Paulo, Afonso de Taunay
transformou êsse monumento histórico no "ambiente de uma casa
rica brasileira, nos últimos decênios do Império", enriquecen-
do-o de m&eis e objetos de toda espécie, dos que outrora adorna-
ram as residências abastadas.
Aproveitando o vasto saguão do edifício nele rememorou os
fatos locais, reproduzindo documentos iconográficos de alto valor
e efígies de ituanos de projeção histórica, mandando, ainda, or-
nar as salas do Museu com retratos de quase todos os conven-
cionais.
O seu grande amor por êsses dois museus levou-o a publicar
em 1937 o "Guia do Museu Paulista", que é, por assim dizer, um
resumo da história de Piratininga, e em 1946 o "Guia do Museu
Republicano da Convenção de Itu", ornado de grande número
de gravuras, onde painel a painel tem explicado o seu signifi-
REVISTA DO INSTITUTO HIST6RICO E GEOGRbPICO DE S PAULO 47

cado histórico, formando, dêsse modo, um resumo da história


daquela cidade, tornando-lhe conhecidos os fatos memoriais e as
figuras dos homens que enobreceram e elevaram o nome da terra
natal.
No Museu Paulista foi Afonso de Taunay compondo sua
magnífica e extensa bibliografia, ao tempo em que no lar, pela
manhã, realizava seu momento musical, dedilhando Schumann,
Chopin e outros mestres do teclado, tendo na estante, frente aos
olhos, no lugar da partitura, um jornal do dia a cuja leitura
procedia enquanto a melodia se evolava liberta do teclado por
suas mãos de artista.
No campo da lexiologia publicou, em 1924, o "Vocabulário
das Omissões", coletânea de palavras correntes do Brasil, porem
não registradas nos modernos dicionários lusitanos, um desdo-
bramento de trabalhos anteriores, pois que desde 1909 começara
o labor afanoso com o "Léxico de Termos Técnicos e Científicos",
seguido em 1914 pelo "Léxico das Lacunas", completados em 1927
com a "Coletânea das Falhas".
No ano anterior dera a público o opúsculo "Reparos ao Novo
Dicionário de Cândido de Figueiredo", reimprimindo aquilo publi-
cado na imprensa fluminense e paulistana.
Mas, apaixonado sobremaneira de nossa terra lançara-se
antes com ardor a pesquisa dos acontecimentos e dos fatos da
história piratiningana, buscando-lhe os emaranhados meandros,
trazendo a tona a descriçáo da vida de "Pedro Taques de Almeida
Pais Leme", publicada em 1914 nos anais do Primeiro Congresso
de História Nacional. Seguira-se-lhe, num folheto de 36 páginas,
datado de 1911, a biografia de Diogo de Toledo Lara e Ordonhes,
a quem classificou de primeiro naturalista de São Paulo, por haver
deixado um trabalho a respeito da ornitologia brasileira, onde
incluiu anotações sóbre a carta de Anchieta contendo "descriçáo
das inúmeras coisas naturais que se encontram na província de
São Vicente" .
Das pesquisas levadas a efeito no vasto acervo contido nos
arquivos da Prefeitura Municipal de São Paulo, recolheu material
precioso a que somou informes tirados de outras fontes, vindo-lhe
a oportunidade para escrever, em 1919, o seu primeiro livro sobre
a história local, a que denominou "São Paulo de Piratininga",
logo seguido pelas obras "Na era das Bandeiras" e "Glória dos
Irmãos Andrada", opúsculo de 40 páginas, ambos trazendo a data
de 1920.
Seguem-se, nos anos de 1921 a 1923, "São Paulo no Século
XVI", "Bartolomeu Pais de Abreu" e "Sob E1 Rei Nosso Senhor",
êste enfeixando artigos publicados nos jornais Correio Paulistano
e Comércio de São Paulo e na Revista do Centro de Ciências,
Letras e Artes, de Campinas.
48 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRdFICO DE S. PAVLO

A "História Geral das Bandeiras" é um monumento ciclópico


iniciado em 1923, que a sua pertinaz e paciente capacidade de
investigação arrancou dos arquivos para o edificar, soberbo, sobre
onze volumes, o último dos quais vindo a público vinte e sete anos
após estafante trabalho que seria entremeado por um outro de
não menor valia e profundidade, preparado no período de 1928
a 1942, a sua "História Geral do Café", em 15 volumes, que o
incumbiu de escrever o Departamento Nacional do Café e que
compendia a origem da rubiácea, sua entrada e cultivo em nosoo
pais, a sua influência na economia nacional, e da qual. "para
proporcionar a sua mais fácil vulgarização", escreveria, três anos
depois, um resumo de 500 páginas sob o título de "Pequena Histó-
ria do Café no Brasil".
Quando em meio dessa jornada magnífica, concedeu-lhe a
Academia Brasileira de Letras a insigne honra de acolhe-lo entre
seus pares, a 6 de maio de 1930, tendo a recebê-lo o acadêmico
E. Roquete Pinto que exaltou a figura do recipiendário, estudan-
do-lhe a obra, concluindo por proclamar merecer a bençáo de seu
povo "todo aquele que aumenta, pelo esforço honesto, a glória dos
antepassados".
Não seria êsse o primeiro galardão a adornar-lhe os méritos
que ano a ano avolumavam-se, pois que entre os imortais da
Academia de Letras de São Paulo já tinha assento na poltrona
n o 36, e de há muito ingressara no Instituto Histórico e Geográ-
fico de São Paulo e no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.
Novas e constantes consagrações receberia e, talvez a mais
expressiva, aquela que lhe prestou o sodalicio de São Paulo, a 6 de
maio de 1939, fazendo-o seu Presidente Honorário, honraria até
então só outorgada aos grandes brasileiros Prudente José de Mo-
raes Barros, em 1894; José Maria da Silva Paranhos, Barão do
Rio Branco, em 1901 e Rui Barbosa, em 1908.
Indifegnte as glórias, simples ao extremo, como se não lhe
bastassem os trabalhos e as horas despendidos nas pesquisas e no
preparo dagueles vinte e seis alentados volumes e aquelas dedica-
das a direcao dos museus, encontrou Afonso de Taunay a oportu-
nidade para escrever, nesse mesmo período, mais de duas dezenas
de obras notáveis, entre elas, com real destaque, "Índios-Ouro-
Pedras", "Estudos da História Paulista"; "História Seiscentista da
Vila de São Paulo", em 4 volumes, "História Antiga da Abadia
de São Bento", "História da Vila de São Paulo no Século 18", "His-
tória da Cidade de São Paulo no Século 18", em 5 tomos, "São
Paulo, Vetera et Nova", "Estudo Crítico das Obras diversas de
Bartolomeu Lourenço de Gusmáo", onde estão reunidos artigos
que publicou no Jornal do Comércio e nos Anais da Escola Poli-
técnica de São Paulo.
REVISTA DO INSTITUTO HIST6RICO E GEOGRAFICO DE S. PAULO 49

Concluída a soberba "História Geral das Bandeiras" prosse-


guiu Afonso de Taunay no seu mourejar insano, dando conti-
nuação a "História da Cidade de São Paulo no Século 18", escre-
vendo o que nela ocorreu no período de 1765 a 1801 e publicando
mais "História da Cidade de São Paulo", "Velho São Paulo", "His-
tória das Bandeiras Paulistas", onde condensou, em três volumes,
o último dos quais publicado após sua morte, a "História Geral
das Bandeiras", "Ensaio de Carta Geral das Bandeiras Paulistas"
e "A Grande Vida de Fernão Dias Pais".
Para a comemoração do quarto centenário da fundação de
Santo André da Borda do Campo escreveu, a pedido da Prefeitura
Municipal de Santo André, a obra evocativa da data, a que deno-
minou "João Ramalho e Santo André da Borda do Campo" e, no
ano seguinte, como contribuicão as festividades do quarto cente-
nário da fundação de São Paulo, apresentava "Relatos Sertanis-
tas", coletânea de dados e relatos a respeito das entradas pau-
listas para pesquisas nas Gerais e "Relatos Monçoeiros".
Nos seus últimos anos de vida escreveu tres alentados volu-
mes, a que chamou "História Colonial da Cidade de São Paulo
no Século XIX", "História da Cidade de São Paulo Sob o Império,
1822-1831", e "História da Cidade de São Paulo Sob o Império.
1832-1842", êste aparecido depois que faleceu.
Dêsse mesmo penodo existe um último volume, há alguns
anos, em poder da gráfica da Prefeitura Municipal de São Paulo,
a fim de ser impresso.
Outras muitas dezenas de obras sobre a História de São
Paulo, o Brasil e seus homens, bibliografia brasileira e estran-
geira, lingüística e traduções, escreveu êsse gigante das letras
históricas brasileiras, até que na manhã de 20 de março de 1958,
a morte veio colher aquêle "que foi boníssimo, porque quis e

.
procurou ser bom, vivendo as máximas do Evangélio que profes-
sou desassombradamente".
UM EDUCADOR BRASILEIRO
ALMEIDA JUNIOR
Antônio D'Ávila

Almeida Júnior e a educação -Ao assumir o cargo de Diretor


do Ensino paulista, a 26 de setembro de 1935, em substituição ao
professor Mota Mercier, disse o professor Almeida Júnior: "Alis-
tado exatamente há vinte e cinco anos nas fileiras do magistério
público, e tendo desde então combatido sem desfalecimento pela
educação popular, desde o grau elementar até a Universidade, se
nunca pedi postos de trabalho, também nunca os recusei. A de-
terminação do Govêrno de São Paulo, para que eu venha assumir
a responsabilidade da direção do Ensino, obedeço com o mesmo
entusiasmo e a mesma confiança que me animaram, no dia em
que entrei, pela primeira vez, como professor primário, numa pe-
quenina escola de beira-mar, e considero-me feliz por haver guar-
dado intato até hoje o amor a uma profissão a que tenho pro-
curado servir com dignidade, e haver conservado ainda vivo o fogo
sagrado dos primeiros tempos. É êste amor e êste entusiasmo que
coloco hoje ao serviço da administração escolar, em meu Estado".
Estas palavras, ditas em 1935, animariam ainda o fecundo
labor do saudoso mestre, por mais de trinta e cinco anos de cons-
tantes e desvelados serviços à Educação e devem ficar no cunho
do bronze, quando nêle se perpetuar, na Escola Normal da Praça
da República, como legenda e como roteiro, a lição d.o extraordi-
nário lidador do ensino.
Ao relê-las, de passagem, gerações e gerações de*normalistas
e o povo, hão de recordar, em face da figura e das palavras, que
realmente, para Almeida Júnior, a educacão foi na vida, destino,
vocação, fôrça e glória Ligeiros traços de sua vida atestarão a
verdade dêste julgamento
Uma vida inteira dedicada a Educação - Nasceu o professor
Antônio Ferreira de Almeida Júnior em Joanópolis, a 8 de junho
de 1892 e faleceu nesta Capital. a 4 de abril de 1971. Filho de
Antônio Ferreira de Almeida, um dos fundadores e primeiro pre-
feito da cidade e de Da. Otilia Caparica de Almeida, fêz parte de
seu curso primário em sua cidade natal, e veio completá-lo no 2."
32 REVISTA DO INSTITUTO HIST6RICO E GEOGR*FICO DE S. PAULO

Grupo Escolar do Braz, hoje Grupo Escolar "Eduardo Prado", na


Capital.
Forma-se professor normalista pela Escola Normal da Praça,
em 1909, tendo como colegas de uma turma de oitenta formandos,
entre outros, Gustavo Kulhmann. Leovigildo Martins, Carlota Pe-
reira de Queiroz, Arlindo Pinto da Silva.
Em 1916 faz exames do curso secundário no Ginásio do Es-
tado e presta depois vestibulares à Faculdade de Medicina, for-
mando-se em 1921, com tese de doutoramento no ano seguinte, com
grande distinção.
Completa-se, aí, a personalidade de Almeida Júnior com a
láurea de médico, êle que já por uma dezena de anos prestara ser-
viços como educador.
Começara professor primário, numa escola isolada da Ponta
da Praia, em Santos, ficara-lhe no coração apaixonado desvêlo pe-
la escola elementar, tão acentuado, que escreveria sobre ela, vol-
vidos quarenta e nove anos, um livro sedutor e básico sobre os
destinos e os problemas dessa escola, obra titulada E a Escola Pri-
mária? resumindo as suas apreensões, os seus carinhos e a sua ex-
periência a respeito.
Mestre ae Escola Normal - Em 1911, passa a lecionar francês
na Escola Normal de Pirassununga, nesse ano instalada, e even-
tualmente prática do ensino. Vem dêsses tempos o apelativo cari-
nhoso com que o conheceram gerações e gerações de alunos - o
Almeidinha, diminutivo que exprimia, a um tempo, o titulo de
mestre de verdade e amigo que sempre foi dêles.
Professor ainda de outras áreas, lecionou no curso noturno
do Instituto Disciplinar, da Capital e passa a seguir, em 1920, para
a cátedra em que iniciou o verdadeiro apostolado de sua vida, a
sua mais viva e constante preocupação: Biologia e Higiene, com
assento n a Escola Normal do Brás, hoje Instituto de Educação
"Padre AnSieta".
De 1921 a 1923 é Assistente do Instituto de Higiene de São
Paulo, depois transformado em Faculdade de Higiene e Saúde Pú-
blica da Universidade de São Paulo.
O professor de Medicina Legal - Passo a passo constrói Al-
meida Júnior a sua invejável carreira. Presta concurso em 1928
e nêle é aprovado, com a docéncia livre de Medicina Pública, mais
tarde cadeira de Medicina Legal. Não cuidaremos, aqui, dêsse no-
vo caminho na vida do saudoso mestre, que outros o farão com
brilho e verdade. Mas colhemos, muitas vezes, no testemunho de
seus ex-alunos e alunos, o depoimento do valor de suas aulas, e da
rigorosa atitude do professor em face do programa e da matéria.
Nesse terreno escreveu Lições de Médicina Legal, Paternidade
e Provas Genéticas de f i l i a ç h e a êle ligados ou subsidiários, A em-
briaguez no teatro de Shakespeare e Psicanálise e crime.
REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRLFICO DE S. P A U L O 53

No Instituto de Educaçáo - A velha Escola Normal da Praça


da República, a celebrada Sorbone paulista, na palavra de Olavo
Bilac, transfornia-se em Instituto de Educação e em seu curso d e
Aperfeiçoamento passa a lecionar o professor Almeida Júnior, isto
em 1931. Em 1933 torna-se professor dêsse Instituto, ocasião em
que por eventual circunstância, nêle éramos assistente da cadeira
de metodologia do ensino primário. Então pudemos conhecer de
perto, o operoso magistério do mestre, o alto nível de seu ensino
e a insinuante figura de sua presença nas reuniões da Congregação.
O Código de Educação do Estado de S á o Paulo - As leis do
ensino, em nosso Estado, tiveram um monumento de paciência e
zêlo administrativo, na Consolidaçáo das Leis do Ensino, de 1912.
Mas daí por diante, tumultuou-se a situação, com o advento de
três ou quatro reformas, e apensara-se aquele Código um mundo
de alterações e de acréscimos, que era mister concertar, unificar,
corrigir e enriquecer. Dai o Código de Educação do Estado de São
Paulo, de 21 de abril de 1933 (Decreto n." 5.884, dêsse ano), n a
direção do Ensino o professor Fernando de Azevedo.
Na elaboração dêsse Código, que representa um dos mais be-
los trabalhos em nossa administração do ensino, teve papel saliente
o professor Almeida Júnior, co-responsável por toda a parte dedi-
cada ao ensino prê-primário e primário e por toda a parte da edu-
cação pedagógica. Mange e outros cuidaram do ensino profissional.
O Hiato Nocivo na Vida Legal dos Menores - Não obstante
semanas de menores e congressos sobre êles, copiosos em temas
sobre a situação do menor, acreditamos ser trabalho pioneiro o de
Almeida Júnior, sob o título acima, conferência realizada a 20 de
dezembro de 1932, na Sociedade de Medicina Legal e Criminologia
de São Paulo. Estudo feito a base de observações e de estatísticas,
trabalho fartamente citado e comentado, servira para alertar go-
vernos e educadores para um de nossos mais graves problemas -
o da vida ociosa e perigosa do menori de 12 a 14 anosaue, impos-
sibilitado de trabalhar, por determinação de lei, e de estudar, por
ausência de recursos, constituía, n a sociedade, promztedora leva
de futuros desajustados.
Queremos crer que o trabalho de Almeida Júnior, de larga re-
percussão, tenha alcançado, mais longe, o espírito atilado de Ro-
berto Mange, quando, doze anos depois, no Serviço Nacional de
Aprendizagem Industrial - SENAI, criou o Curso de Aspirantes a
Indústria, Curso Vocacional, para menores de 12 a 14 anos, me-
nores do "hiato". Terá influenciado, também, a criacão pelo Ser-
viço de Aprendizagem Comercial - SENAC, de seus multiplicados
Cursos de Aspirantes ao Comércio, em 1948.
Se hoje a situação ao menor, de 12 a 14 anos é diversa em
virtude do texto constitucional, aquele tempo parecia, como o es-
tudou Almeida Júnior, difícil e perigosa.
Em 1915 levou-nos Roberto Mange, e nisto se mostra a sua
preocupação com o problema, a fazer, na Biblioteca Municipal,
uma palestra sobre o angustioso problema, palestra que titulamos,
dentro do sério problema - "Que fazer com os menores de 12 a 14
anos?".
Também se enriqueceu o tema do "hiato", com o inquérito
realizado pelo Dr. Sílvio de Almeida Toledo, professor assistente de
Biologia Educacional do Instituto de Educação, em 1937, sob o tí-
tulo - O trabalho do Menor.
E muitos outros estudos e pesquisas foram depois realizados,
com base nesse importante documento de 1932.
A Universidade de Sáo Paulo - Em 1933 Almeida Júnior faz
parte da Comissão Organizadora da Universidade de São Paulo,
obra imorredoura de Armando de Sales Oliveira. E quem conhece
os longos e fatigantes trabalhos dessa organização, terá sabido que
nela tomou parte relevante o professor Almeida Júnior. Dessa Uni-
versidade, faria parte do 1." Conselho Universitário, circunstância
que o levou a participar de bancas examinadoras fatigantes de
concursos Metodologia do Ensino Primário, Psicologia Educacio-
nal, Educação Comparada e Estatística, processados no Instituto
de Educação, em 1935.
Planejador do ensino e da educação - Colaborador de Oscar
'Thompson, nos trabalhos da reforma de 1918, de Sampaio Dória,
n a de 1920, na de Lourenço Filho, de 1931, um dos diretores da
Sociedade de Educação, fundada na Capital, em 1922 e reorgani-
zada em 1927, colaborador assíduo da Revista - Educacáo, cujo
primeiro número saíra a 1." de outubro de 1927, um dos fundado-
res, diretor e professor do afamado Liceu Nacional Rio Branco, cou-
be-lhe ainda, em 1935, integrar o Grupo de Educadores, constituído
pelo Ministro da Educação, para organizar o Plano Nacional de
Educação, fios têrmos da Constituição de 1934.
Outros cargos de relêvo teria como Diretor do Ensino, de 1935
a 1938, de Secretário da Educação, em 1945, integrante da Comis-
são de Estudos da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional,
organizada pelo Ministro Clemente Mariani, participando do grupo
de dezesseis educadores que formularam o primeiro projeto dessa
Lei, sendo dêle o Relator-Geral, em documento que entregou ao
Ministro, em 1948.
Membro atuante e respeitado de Comissáo e Conselhos de
Educação - No Conselho Nacional de Educação, ingressou em
1949 no de membro do Conselho Estadual de Ensino Superior, no
Govêrno Jânio Quadros, no de Carvalho Pinto, indicado para estn-
,dar, em Grupo de Trabalho, as condições do Ensino Superior. Em
1961 é membro do Conselho Federal de Educação.
REVISTA DO INSTITUTO HIST6RICO E GEOGRQ'ICO DE S PAULO 55

Em todos êsses Conselhos ou Grupos de Trabalho, teve papel


de destacado brilho, com a sua larga experiência dos problemas
do ensino, do primário a Universidade.
Professor de civismo e de brasilidade -Quem quer que acom-
panhe a obra patriótica de Almeida Júnior, no decurso de sessenta
anos de continuo labor, há de perceber que nela se aliavam, em
perfeita harmonia, o pregador de ideais de civismo e de brasilidade
e o operário praticante dêsses ideais. Assim, foi um dos membros
do Partido Constitucionalista de nosso Estado, e fêz de sua cátedra
na Faculdade de Direito um bastião de patriotismo e pregação cí-
vica. Na União Democrática Nacional, de que foi um dos funda-
dores, exerceu o cargo de presidente de seu Diretório Regional. E
multiplicada aqui e ali a sua atenção voltada para os problemas
da Pátria, o civismo nas escolas, a desnacionalização e a naciona-
lizaçâo da criança, os núcleos estrangeiros, a necessidade de atua-
ção do brasileiro n a vida cívica, antes que a simples divulgação de
discursos e de recomendações teóricas. Dêle estas palavras oportu-
nas: "A formaçãa moral e cívica do educando, em lugar de consti-
tuir assunto de prelecões e de basear-se na memorização de regras
de conduta, deve ser ensejada desde o primeiro ano da vida no seio
da família, para continuar mais tarde na escola de vários níveis
e nos embates da própria vida. Seu melhor exercício, acrescenta,
decorre da prática diuturna de virtudes que lhe correspondem -
a disciplina, o rigoroso cumprimento do dever, a fidelidade e a
pontualidade nos compromissos, a honestidade nos atos, a dedi-
cação ao bem comum".
O espírito das palavras êle o imprimiu na linha de sua vida,
nas lutas que empreendeu contra a ociosidade nos estudos de nos-
sa criança e de nossa mocidade, com férias em demasia, contra o
uso da "cola", contra o regime ditatorial, que combateu com ve-
emência, contra o "quisto racial", que encontrou em re iões do Es-
f
tado, nos grupos de colonização japonêsa, no culto qu devotou às
grandes figuras de nosso ensino e de nossa cultura. Vimo-lo mui-
tas vêzes nesses movimentos cívicos. E tivemo-lo, a 8 nosso lado,
prelecionando sõbre os trabalhos e os merecimentos de Oscar
Thompson, quando em 1957, inauguramos o retrato dêsse eminente
educador na Galeria dos Diretores do Ensino, no Departamento de
Educação.
E atento, soubemos de suas longas e fatigantes viagens pelo
interior do Estado, no litoral, a conhecer de perto a obra do sacri-
ficado mestre escola, a qualidade e o rendimento de seu ensino, e,
sobretudo, as suas agruras e sofrimentos.
Da cátedra, h realidade, realizou uma larga pregação cívica
e um largo serviço patriótico.
56 REVISTA D O INSTITUTO HISTORICO E GEOGRhPICO DE S. PAULO
-- - -

O nacionalista - Com raizes profundas na velha alma paulis-


ta, sua obra a favor da escola popular deve ser encarecida. Não
se limitando a administrar o ensino de gabinete, como diretor da
instrução, visita escolas, de várias regiões do Estado, vê com olhar
minucioso as boas e as más condições da escola primária, no seu
prédio e no seu equipamento, conhece as precárias condições de
vida do professor. Tem um profundo sentido humanitário pela
sorte de seus colegas das escolas rurais, perdidos nas beira-cor-
regos. no fundo do sertão ou na orla do litoral. E relata o que
viu, e traz a publicidade o que sentiu. Tudo observa, perquire,
esmiuça. E alcança, com visão patriótica, o grave problema do
"quisto racial", implantado nas regiões da Noroeste - escolas
estrangeiras, desnacionalizantes de nossa criança, quistos fecha-
dos, populaçórs estrangeiras com escola estrangeira, imprensa,
bibliotecas, usos e costumes alienigenas, neutralizando a influên-
cia da escola nacional e mesmo a anulando.
Alcança o problema e providencia. Alerta os responsávei por
essas escolas, convoca-os a encontros elucidat6rios. reclama e exi-
ge que se cumpra a Lei. E adverte contra o desconhecimento por
parte dêles da língua pátria, língua que se ia deturpando e envi-
lecendo com professôres estrangeiros
- que mal a pronunciavam.
Constsnle prsocupação sua a escola brasileira, forjadora de
bons cidaduos. conhecedores da língua pitria e d a i tradi~õesna-
cionais.
Dessa preocupação enriqueceu o temário do I." Congresso Es-
tadual de Ribeirão Preto, de 1956, em que o ensino da língua
materna alcançou grande relêvo e de que disse o Professor
Almeida Júnior: "Não se faz mister encarecer a importância cul-
tural e social e política do ensino da língua materna a criança
nem lembrar que, em relação ao Estado de São Paulo, centro de
convergência de brasileiros de todo o País e de estrangeiros de
tódas as Na~óes,funciona êle como instrumento de unificação lin-
guística, contribuindo vantajosamente para reforçar os laços de
fraternidadg nacional". A Revista de Educação, de São Paulo, nú-
meros 15 e 16, de setembro e dezembro de 1936, relata-nos, porme-
norizadamente, o trabalho de Almeida Júnior contra a desnacio-
nalização de nossa criança, naqueles núcleos estrangeiros, e as
medidas que tomou com respeito ao grave problema.
O sucessor de Alcântara Machado - Em 1941 exonera-se Al-
meida Júnior do Instituto de Educação da Universidade de São
Paulo, por se fazer catedrático de Medicina Legal, da Faculdade
de Direito, após brilhante concurso de provas e de títulos. Nessa
cátedra permaneceu até 1962, com vinte e um anos de serviços
prestados a formação da mocidade, acadêmica, sendo nela apo-
sentado por limite de idade.
REVISTA DO INSTITUTO HISS6RICO E G W G R A F I C O DE S. P A U M 57
- - --

Por ocasião da aposentadoria, em maio dêsse ano, 1962, disse


um dos mais respeitáveis órgãos da imprensa paulista, o ESTADO
DE SAO PAULO: "Com a sua aposentadoria, a Faculdade e a
Universidade perdem um de seus mais competentes e dedicados
mestres, que consagrou inteiramente sua vida e suas atividades
ao ensino e a educação. Iniciando-se como professor primário,
passou pelo curso médio e chegou ao superior. Como professor,
no ensino particular e oficial, deu sempre provas de extraordiná-
ria capacidade didática, desenvolvendo profícuo labor, quer em
aulas e cursos, quer escrevendo obras didáticas, de que o Pais é
tão parco".
Servidor Emérito do Estado - É nesse ano ainda que recebe
o alto e merecido titulo, com aplauso geral de quantos conheceram
e sentiram a longa e patriótica trajetória de sua vida. Já em 1957,
havia recebido o "Prêmio de Educação Visconde de Pôrto Seguro"
da Fundação "Visconde de Põrto Seguro", que o instituira, para
ser conferido àquele que no exercicio do magistério, da adminis-
tração pública ou do ensino, pela imprensa, por meio de pesquisas
ou de obras publicadas contribuissem de maneira decisiva para
o estudo e a solução de problemas educacionais brasileiros.
Outros altos cargos e honranas - Um dos fundadores da Es-
cola Paulista de Medicina, ai lecionou por algum tempo a cadeira
de Medicina Legal. E por ocasião da 2." Grande Guerra, atribuiu-
lhe o Govêrno delicada e difícil tarefa: dirigir a antiga Escola Ale-
mã, depois Colégio "Visconde de Põrto Seguro", da Capital, como
interventor pedagógico, no trabalho de harmonizar os interêsses
nacionais com os da tradicional escola. cheia de servicos a edu-
cação.
Em 1957 seu nome foi inscrito na Ordem Nacional do Mérito
Educativo e em 1970 atribui-lhe o Prêmio "Moinho Santista", no
campo das Ciências, Letras e Artes.
O Secretá~ioda Educação e Saúde Pública - A 12 de novem-
bro de 1945, restabelecido o País na plenitude constitucional, Al-
meida Júnior ê convocado para dirigir a Pasta da flducação, no
Estado. Como há dez anos atrás, na Diretoria do Ensino, reitera
a linha de seu procedimento no cargo. E discursa, entre outras
coisas: "É óbvio que minha administração será curta: dois ou três
meses no máximo. Acresce que estando a nação brasileira, como
felizmente está, nas vésperas de entregar a desmantelada máquina
do Estado aos mandatários do povo, não considero legítimo, do
ponto de vista democrático, aproveitar-me do ensejo da efémera
posição, para introduzir na estrutura desta Secretaria, ou na de
qualquer de seus departamentos, alterações que reflitam os meus
pendores pessoais, ou os pendores dos meus auxiliares de admi-
nistração. Como auxiliar do Govêrno, não farei política, nem per-
58 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÃFICO DE S. PAULO

mitirei que para fazê-la, os funcionários a mim subordinados se


sirvam de cargos públicos que exercem. Com relação a êsses fun-
cionários, cabe-me dizer ainda que, se qualquer dêles, indiscrimina-
damente, vier a ser ameaçado, ou vier a ser vítima de coação po-
litica, terá a seu lado, com absoluta certeza, como seu defensor,
intransigente o Secretário da Educação".
Prédios escolares - Poucas vêzes temos notado maior inte-
resses pelo grave problema das edificaçóes escolares, quanto en-
contramos na obra fecunda de Almeida Júnior. Na teoria e na
prática do assunto, sempre teve suas vistas voltadas para os pro-
blemas dêsses prédios, corn visão de higienista e educador. Na
publicação - Novos Prédios para Grupos Escolares - Estudos da
Diretoria do Ensino e da Diretoria de Obras Públicas, da Secre-
taria dos Negócios da Educação e Saúde Pública - São Paulo -
1936, compendia-se o que de melhor se estudou, até hoje, nesse
terreno. E nêle Almeida Júnior publica artigos a respeito, com três
excelentes trabalhos: Dados essenciais para a soluçáo do problema
(prédios escolares), As janelas da sala de aula e Chuveiros nos
Grupos Escolares, trabalhos êstes de minúcia exaustiva, mas prá-
ticos e utilíssimos na construção das escolas.
No primeiro artigo, para o qual convocamos a atenção dos
interessados, estuda o mestre, além de outros aspectos, o grave
problema do tresdobramento das aulas, medida que nasceu em
1928, mas até hoje sem solução, não obstante as suas graves con-
sequências, entre outras, a da supressão do recreio e do alonga-
mento "do tempo de rua" da criança. Ainda nesse estudo analisa
Almeida Júnior e vale a observação para os dias de hoje, o sério
decréscimo das horas escolares (1904 - cinco horas, 1928 - 3 ho-
ras e hoje, grupos com apenas duas horas de atividades escolares).
Vale o trabalho de rebuscar êsses estudos e relê-los com atenção,
para a atualidade e reconhecer quanto de esfôrço e pertinácia de-
senvolveu e saudoso mestre no campo da boa edificação escolar.
E acrescente-se, neste ponto, o notável trabalho realizado pelo
Ministro Pwla Lima, quando na Pasta da Educação em benefício
dos prédios escolares.
Almeida Júnior e escola nova - Ia acesa, no Estado, a bata-
lha a favor da renovação escolar, deflagrada por um grupo de
educadores, em São Paulo, no Rio de Janeiro e Bahia, com larga
pregação doutrinária e lances de autêntica luta por uma escola
melhor. Cresce o movimento nas revistas e na tribuna, desenvol-
ve-se o trabalho de novos métodos e programas, de orientacão pro-
fissional dos testes como nova medida do rendimento escolar.
Alteiam-se. na batalha, as figuras de Lourenço Filho, Jônatas
Serrano, Fernando de Azevedo, Everardo Backheuser, Isaias Al-
ves, Noemi Silveira, Renato Jardim e tantos outros. Bibliotecas
REVISTA DO IKSTITVTO HISTÓRICO E GEOGRbFICO DE S. PAULO 59

infantis, cinema, cooperativas, associações de pais e mestres, auto-


nomia didática, o confronto entre a velha e a nova escola, a polê-
mica entre educadores moderados, conservadores e os arautos das
novas idéias. O exame retrospectivo da Grande Reforma de 1890
com Miss Browne, Caetano de Campos, Gabriel Prestes.
Que pensaria Almeida Júnior, a respeito do movimento? Que
visão teria do problema, assim pôsto e assim agitado?
Thompson, em 1918, pelo Anuário de Ensino lançara semente
da renovação. Antecipara-se com dez anos ao debate.
Elogio a escola "tradicional" paulista - Considerando com
exato juizo os valores da escola paulista de ontem, em face da
renovação que se pregava e dos ataques que sofria a educqão dos
últimos anos, em nossas escolas, ponderou Almeida Júnior: "Êste
re2aro a um desvio de conceito, espelhado em algumas publica-
ções, torna-se aqui necessário, porque por natural translação, o
equívoco se transfere para a escola pública paulista, que é, indis-
farçavelmente, na sua quase totalidade, de tipo "tradicional". Quer
isto dizer que ela se caracteriza por todos aqueles atentados a pe-
dagogia e ao bom senso, que vem sendo profligados desde o século
XVI? - De nenhuma forma. A leitura das velhas "Revistas",
"Anuários" e obras didáticas dos últimos quarenta e cinco anos
de educação, mostra que houve sempre, entre nós, espíritos clari-
videntes, aos quais não escaparam certos pecados de técnica e de
organização escolar, encontrados no ensino, e que a pouco e pouco
foram ficando limitados ás escolas de professâres ou diretores in-
competentes. Tivemos e continuamos a ter, a respeito de trauma-
tismos vário3 por que tem passado o ensino, um tipo médio, bas-
tante satisfatório de escola "tradicional", demarcado, de um lado
por escolas inferiores, explicáveis pela extensão do sistema pau-
lista e, de outro, por algumas tentativas de franca renovação".
(Anuário de Ensino - 1935 - 1936).
Almeida Júnior Diretor do Ensino - A 26 de setembro de 1935,
como já recordamos, Almeida Júnior recebe a direçáco do ensino
em nosso Estado. Seria longo, mas instrutivo, para a justiça da
história, enumerar os largos serviços que prestou a São Paulo,
nessr cargo. Atestam-nos, porém, os dois alentados Anuários que
publicou - 1935-1936 e 1936-1937, documentos originais em nos-
sa administração escolar, quer pelos temas que versaram, quer
pela soma de atividades que atestam o fecundo labor de nosso
professorado. Anuário que desaparecera em 1928, reviveu nessa
administração ordenado, racional, expositivo, repletos de estatis-
ticas e de gráficos elucidativos, de estudos, de pareceres, de infor-
mes, que hão de ficar na história do ensino paulista. Um ligeiro
apanhado de seus temas, mostrará aí o problema dos prédios es-
colares, o das condições da escola rural, o dos professôres dessas
60 REVISTA DO IKSTITUTO HIST6P.ICO E GEOGRLFICO DE S. PAULO

escolas, o do rendimento do ensino, o custo dêste, o da formação


de professôres e muitos outros, tudo assentado a base do trabalho
atento e sólido dos delegados, dos inspetores do ensino e do pro-
fessorado, todos na dura prática e experiência da escola.
Valeria reapontar nos Anuários, o problema dos prédios esco-
lares, questão que até hoje, malgrado 35 anos passados, reponta
grave e irresolvído nas preocupações de nossa administração es-
colar.
Anuários - Práticos e Úteis, num dêles se compendiam todas
as leis, decretos e atos referentes a Instrução Pública, de 30 de
novembro de 1930 a 20 de maio de 1936, além de relatórios com-
pletos das administrações do ensino de Lourenço Filho, Sud Men-
nucci ( I ) , João Toledo, Fernando de Azevedo, Sud Mennucci (2),
Francisco Azzi, Luis Mota Mercier. Seria de interêsse acrescentar
aqui, quanto fêz o professor Almeida Júnior com relação ao livro
didático, ao ensino da higiene nas escolas, as escolas experimen-
tais, que tanto animou, e quanto estimulou a cultura do professo-
rado com reuniões, palestras e publicação de boletins monográficos
que divulgou, a saber:
Curso abreviado de administrqxio escolar, Sugestões para o
programa das escolas normais, Bibliotecas Escolares Infantis, Os
problemas da escola primária na zona rural, Problemas de Admi-
n i s t r a @ ~escolar, As reuniões pedagógicas de 1935, As reprovações
na escola primária, e outros.
esses Boletins atestam a seriedade com que os problemas es-
colares eram estudados e esclarecidos na Administração de Al-
meida Júnior. Dois dêles, especialmente, merecem citação - o
de número 5, do Professor Luiz Damasco Pena e o de número 7,
do Professor Gonzaga Fleury, por abordarem temas de grande in-
terêsse.
O escgtor de obra numerosa - Ocupante de cátedras univer-
sitárias e integrante de Conselhos de Educação, participante de
congressos no Estado, no País e no estrangeiro, multiplicado em
afazeres que lhe atribuíam os governos de São Paulo e do Brasil,
na elaboração de leis, regulamentos, planos e programas, houve
ainda em Almeida Júnior tempo e vagar para escrever livros dos
mais apreciados no terreno da didática e no campo das idéias ge-
rais sobre educação e ciência.
Recolhe esta bibliografia os seguintes trabalhos, deixando de
citar artigos diversos espalhados por jornais e revistas.

- Cartilha de Higiene - 1922


- Noções de Puericultura - 1927
- Anatomia e Fisiologia Humanas - 1939
- Biologia Educacional - 1948
REVISTA DO INSTITUTO HISTORICO E GEOGRhFICO DE S. PAULO 61

- Lições de Medicina Legal - 1948


- Teses-Saneamento pela Educação - 1921
- Exame médico pré-nupcial - 1927
- Provas Genéticas de filiaçáo - 1941
E ainda livros e conferências:

- Escola Pitoresca - 1934


- Paternidade - 1940
- Problemas do Ensino Superior - 1956
- Investigações sobre algumas medidas para avaliar a ca-
pacidade respiratória - 1923
- Crenças e superstições brasileiras ligadas à puericultura
- 1927
- O hiato nocivo na vida legal dos menores - 1932
- O alcoolismo no Brasil colõnia - 1934
- A embriaguez no teatro de Shakespeare - 1940
- Embriaguez habitual-crime ou doença - 1940
- Os objetivos da escola primária rural - 1944
- Hereditariedade e cri me- 1947
- A experiência mundial da socialização da medicina - 1951
- A Resistência Acadêmica ao Estado Nôvo - 1953
- A Repetência na Escola Primária - 1956
- Tradições Acadêmicas - de Bologna ao Largo de São
Francisco - 1957
- E a Escola Primária? - 1962
O ualor da obra numerosa - Não seria possível aqui, mas
outros o farão com maior acuidade e zêlo, de hoje por diante, pes-
quisar os valores da copiosa obra publicada por Almeida Júnior,
tais a enumeramos. Obras de feitio didático claro, de linguagem
agradável, com numerosas edições, obras de combate e polêmica,
algumas, obras de divulgação de idéias, especializadaifem vários
campos da medicina, terão, por certo, seus estudos e mereci-
mentos.
Ficamos aqui apenas com duas dessas obras - a Escola Pito-
resca e a Escola Primária?, por certos característicos que as reco-
mendam à leitura ou re-leitura do professorado primário e médio
brasileiro.
Da Escola Pitoresca diremos que obra singular na estante pe-
dagógica brasileira, apresenta a curiosa virtude de pelo humor e
pela leveza graciosa das observações, alcançar a profundidade de
sérios e graves problemas educacionais.
Escola Pitoresca - Havia em Almeida Júnior uma curiosa e
fina faceta de espírito, que tantos conheceram e tantos aprecia-
ram. Professor universitário, catedrático, leitor impenitente e for-
62 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRhFICO DE S . PAULO

rado de ciência, sabia porém, como poucos, diluir em observações


e expressões felizes, escritas ou orais, particularidades da vida, as-
pectos que apreendia no mundo social ou das escolas, nas viagens
e no exame de textos, nas bancas de concurso, e que incluia na
prosa cativante que era a sua, nas conferéncias e discursos de pa-
raninfo que dizia, com agrado de ouvintes paranifados, consa-
grando-se como fino observador das coisas e do homem. Um traço
do fino espírito gaulês, captado na França onde estudara, profes-
sor de francês que foi de escola normal.
Amostra maior dessa faceta de seu espírito, tivemos em Escola
Pitoresca, livro que publicou em 1934, pela Companhia Editora
Nacional. Aí se enfeixam palestras sôbre coisas escolares, não
temas pesados e áridos como soem ser assuntos de pedagogia e edu-
cação, mas páginas leves, graciosas, amenas, o mundo da escola
nos seus aspectos pitorescos e diários, como O trote escolar, A cri-
minologia escolar, O capítulo dos mestres, O paraninfo, No mundo
da lua, Os senhores Pais, O que pensam as normalistas, O profes-
sor depois que se forma, Grandezas e misérias do magistério rural.
Relendo agora Escola Pitoresca, lembra-me que, em 1934,
exercendo eventualmente a crítica pedagógica em O Legionário,
da Capital, apreciei o livro de Almeida Júnior, e vislumbrei néle
traços vivos da fina e sedutora prosa de De Amicis, ao retratar e
descrever figuras e cenas da vida escolar. Quem quer que leia,
dêsse livro, o Capítulo dos Pais verá que a prosa do mestre se em-
parelhou com a sentimentalidade expressiva do CUORE.
Citaria dois exemplos, reproduzindo-os, para que se verifique
o paralelo que esboçamos. "Franzindo o reposteiro da diretoria, o
pequeno entrou, trêmulo e comovido: - Senhor diretor, nós nos
mudamos para longe daqui, e eu tenho de sair do colégio. Mas
quero agradecer ao senhor tudo quanto. . .
Não pôde prosseguir. A emoção que o invade lhe aperta a gar-
ganta e o @queno se póe a chorar sem consôlo".
Outro: "O Avelino é a sua esperança. Por êle furta ela (a mãe)
diariamente, uns minutos do trabalho, e vem ao colégio informar-
se das coisas. Por éle, entra ela às vézes, tímida, no gabinete do
diretor, e pouco depois sai, ora radiante, carregando alegria para
a semana inteira, ora trêmula com uma lágrima no canto dos
olhos. Por êle, ainda, e por causa do receio de se tornar importuna,
chega ela, outras vêzes apenas as vizinhanças do colégio, disfar-
çando-se nas esquinas, apagando-se nos portais, para ouvir dizer o
que há e o que se murmura do seu filho. Pelo futuro dêle, acom-
panha ela, dia a dia, como um estudante zeloso, as peripécias da
vida escolar, guarda os horários das aulas mais difíceis, marca a
época das sabatinas e as datas dos exames. Assim poderá ajudar um
pouco o filhos dileto a carregar a cruz do estudo.
REVISTA DO INSTITUTO HIST6RICO E GEOGRLFICO DE S. P A U L O 63

Mas o exame prossegue. Os dorsos continuam recurvados sô-


bre as carteiras, ouve-se ainda o ranger das penas pela rugosidade
do almaço.
Chego-me a janela, olho para baixo. Lá na calçada, ao longe,
em frente ao colégio, escondendo-se por detrás do poste, percebe-se
uma mulher vestida de prêto, com um surrado chapéu a cabeça,
e olhando ansiosa para cima, para as janelas da sala de exames.
O Avelino, no entanto, com o papel ainda em branco, indife-
rente e superior, como se tivesse a certeza de que um anjo tutelar
vela por êle, pega na pena e põe-se a desenhar, sobre a carteira, a
caricatura do professor".
Bem dissera o professor Almeida Júnior, em carta com que nos
honrou agradecendo o oferecimento de nossa palestra Edmundo
De Amicis - história de uma vida, conferência pronunciada em
1946 na Escola Normal "Caetano de Campos". "Agradeço-lhe o pre-
cioso oferecimento, leitor assíduo que sou dêsse autor. Leio-o a
cada passo. Em momentos de desalento, costumo reler sempre as
páginas de I1 Romanzo d'un maestro, que ponho à sua disposição".
E a Escola Primária? - Grande trabalhador, que não conhe-
cia intervalos na sua atividade em favor da educação melhor, sõ-
bre atuar incansavelmente como professor, administrador de en-
sino e de escolas, em 1959 publicou Almeida Júnior um livro de
singular relêvo em nossa estante pedagógica. E a Escola Primária?
- Companhia Editora Nacional. Sóbre êsse livro, escrevemos, con-
sultando nossa velha admiração pelo mestre:
"Elevando-se a cátedra universitária, após fecundo magisté-
rio secundário e normal e exercício em altos cargos da administra-
ção, o professor Almeida Júnior conservou pela escola primaria
desvelado e constante cuidado. hluio ao contrário dos que, ascen-
dendo a altas esferas do ensino esquecem essa escola ou volunta-
riamente a inferiorizam no plano de suas cogitações, êsse indefeso
lidador das coisas da educação é, quiçá, no Brasil, a vôz mais elo-
quente e mais enérgica na defesa do ensino básico, elementar por
que tem lutado incansável e corajosamente, incluindo-se no rol
de seus melhores e mais constantes estudos. E, ainda hoje, decor-
ridos 50 anos de operosidade administrativa e docente, num esfór-
ço que Pinheiro Chagas consagrou como "pregação cívica elevada
a altura de um apostolado", por essa escola tem escrito, falado,
debatido e polemizado na tribuna, na imprensa, em campanhas.
associações e conselhos. . ."
Constituem capítulos dêsse livro-padrão: O Sistema Educa-
cional Brasileiro, Pela Educação do Povo, Administração e Plane-
jamento, Professôres e Escolas de Grau Médio. Vale chamar a
atenção do professorado para o item IV do 1." capitulo-Direito de
prioridade da escola primária. E vale ainda citar aqui alguns ex-
64 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRhFICO DE S. PAULO

celentes estudos sôbre Repetência ou promoção automática. O Alei-


jão do tresdobramento (terrível libelo contra o encurtamento dos
períodos escolares) e Férias em demasia.
Congresso Estadual de Ribeirão Prêto - Setembro de 1956.
&te Congresso realizado pela primeira vez, no Estado, na fecunda
administração do Ministro Paula Lima, na Secretaria da Educa-
ção, teve como Presidente da Comissão Executiva o Professor Al-
meida Júnior. Dessa Comissão participamos, como um de seus
membros, e acompanhamos, passo a passo o desenvolvimento de
seus trabalhos, desde a reunião inicial para os primeiros contatos,
até o seu encerramento. Pudemos testemunhar com verdade e mi-
núcia, o que por êsse Congresso fêz o saudoso educador, assíduo
e pontual a todos os seus trabalhos. Ressaltamos, aqui, a impor-
táncia dêsse certame, quer pela excelência das teses apresentadas
e debatidas, quer pelo choque de opiniões que nêle se desenvolveu,
com respeito a temas de alto relêvo. O que merece destaque, po-
rém, foi o admirável trabalho de condução e orientação desenvol-
vido por Almeida Júnior, impondo-se na maré das controversias
com alto senso de responsabilidade e de respeito as teses adversas
ao plenário e ao desfecho inesperado que ali se verificou. Temas
dos mais importantes se debateram como o ensino da língua pátria,
na escola primaria e o do papel dessa escola na vida do Pais, pro-
moção automática na escola elementar, ensino religioso e seus
catequistas (tese extra-temário) .
Com 46 anos de serviços prestados ao Estado e ao País, no
terreno da educação nos três graus escolares, Almeida Júnior nos
pareceu, nesse instante, espírito moço e idealista, exato e seguro
na condução dos debates e na direção de nossos trabalhos.
E em E a Escola Primária?, de sua autoria, podemos ler a in-
teressante conferência que fêz sobre Repetência ou Promoção Au-
tomática na escola primária. E em Educaçáo não é privilégio, de
Anísio Teirreira, encontra-se outra contribuição a êsse Congresso,
com a conferência do malogrado educador intitulada: A Escola Pú-
blica, Univqsal e gratuita.
A fidelidade a profissão abraçada - Ao encerrar, com a morte,
sua fecunda e longa vida de trabalhos em favor da educação, Al-
meida Júnior poderia ratificar perante a própria consciência as
palavras de 1935, já por nós citadas: ". . .considero-me feliz por ha-
ver guardado intacto até hoje o amor a uma profissão a que tenho
procurado servir com dignidade, e haver conservado ainda vivo o
fogo sagrado dos primeiros tempos".
Mestre de primeiras letras, professor de curso médio, diretor
de escolas e do ensino, Secretário da Educação, membro proemi-
nente de Conselhos e de Congressos, higienista, mestre universi-
tário, incentivador de civismo e de brasilidade, escritor de obra
REVISTA DO IKSTITUTC HIST6RICO E GEOGRAFICO DE S. PAULO 65

numerosa, representante do Brasil n a Conferência Interamerica-


n a de Lima, encarregado do recensamento escolar de 1920-1921,
membro do Conselho Consultivo da Escola de Economia e Politica,
conselheiro de várias reformas, ai temos u m a vida bela e luminosa
a favor da Pátria e a favor do homem.
Professor Emérito - por ocasião de sua aposentadoria, teve em
1957 seu nome inscrito n a Ordem do Mérito Educativo, n a classe
"Egregius", que é a mais elevada da corporação.
ale mesmo havia ponderado, ao conceituar a educação moral
e cívica no terreno da prática: "Para a juventude que estuda, o
m ~ l h o restímulo nesse sentido é o exemplo dos pró-homens do País
em atuação n a vida pública".
E que melhor roteiro de ideal poderia essa juventude encon-
trar que o dessa vida carregada de trabalhos e de merecimentos.
voltada por quase sessenta anos a serviço da infância e da moci-
dade, que foi a vida de Antônio Ferreira de Almeida Júnior?
CAP1,STRANO - DE ESTUDANTE Vi4DIO
A ORIENTADOR DE MESTRES
Brasil Bandecchi

RETRATO EM PROSA E VERSO

Sim, o que desejamos é apresentar, antes de mais nada, um


retrato do incansável trabalhador da nossa história, que abriu no-
vos rumos a compreensão dos fastos brasileiros.
Capistrano de Abreu, o sólido autor dos Capitulas de H i s t ó ~ i a
Colonial, não precisou escrever inúmeros livros para deixar obra
realmente grande. Esquisito, foi retratado em prosa e verso. Era
espírito de muitas luzes e nenhuma vaidade. Suas fotografias e
caricaturas mostram o homem simples e desprendido das coisas
materiais.
Certa vez, foi procurado por Machado de Assis, Nabuco e Lúcio
de Mendonça, que davam os primeiros passos para fundar a Aca-
demia Brasileira de Letras. Capistrano não podia ser esquecido e,
por essa razão, deveria figurar entre os futuros imortais. O his-
toriador, indiferentemente, sem se aperceber da delicadeza do ges-
to, respondeu:
- Já me basta, e não por meu gosto, fazer parte de outra
aborrecida sociedade, o gênero humano.
O que bem retrata o seu gênio irascível, porém, é impresso
Y'
que distribuiu, quando alguns amigos, desejando, em 923, home-
nageá-lo, pela passagem do seu aniversário nataIicio, pensaram
em publicar um trabalho a. seu respeito, a ser escritopor diversos
literatos. Eis o impresso:
"Segundo sou informado, trama-se para o meu próximo aniversá-
rio uma patuléia, poliantéia ou coisa pior e mais ridícula, se for
possível. Aos meus amigos previno que considero a tramoia como
profundamente inamistosa. Não poderei manter relações com quem
assim tenta desmoralizar-me. Custe o que custar."
Em carta escrita a João Lúcio de Azevedo, Capistrano revela o
que pensa de Joaquim Nabuco:
"Minhas relações com êle foram poucas. Alguns dias depois
do 15 de Novembro, pegou-me n a rua e, todo vibrante de indigna-
ção, exm-me, durante uma hora, que não podia ser republicano.
68 REVISTA DO IKSTITCTO H I S T 6 R I r O E GEOGRAFICO DE S. PAULO

O livro explica bem o seu monarquismo - Capistrano referia-se a


Minha Formação - graças a São Bergehot. Um capitulo sobre os
Estados Unidos é digno de atenção. Quanto ao abolicionismo acho
uma decepção. Quem o ler, pensa que fêz tudo: enquanto Patro-
cínio e Rui e outros batiam-se, estava n a Inglaterra. Bonito ho-
mem, ainda ficou mais apolineo quando encaneceu conservando a
tez de moço. Quando soube de sua nomeacâo para os Estados Uni-
dos, disse um pernambucano como êle: é branco, é instruido, é
bonito: é a pessoa mais própria para uma idéia falsa do Brasil; não
podia ser melhor a nomeação."
Cast,ro Rebelo, em discurso pronunciado em 22 de outubro de
1953, diz que se a obra de Capistrano não foi maior "deve-se talvez
a essa como que boemia do espírito, notada por todos os que o
conhecemos de perto; a essa relativa indolência, para que muito
devem ter concorrido uma viuvez prematura e uma disponibilidade
funcional intempestiva, e de que a rede em que dormia ou se
balouçava para ler era símbolo. Dai essa tal ou qual aversão a
qualquer forma de disciplina mental e consequente antipatia vo-
tada as inteligências de feição prussiana. Mais de uma vez lhe
ouvi esta expressão. Rsse feitio pessoal seu seria bastante a ex-
plicar porque nunca chegou a escrever essa história do Brasil
completa, integral, que todos queriam e corno êle próprio, uma vez
chegou a sonhar."
Quanto à indolência de Capistrano, em outro capítulo faremos
referência.
Jugurtha de Artiaga, no seu livro Figuras da I República,
conta que se encontrava em casa do seu parente Pandiá Calogeras,
quando a campainha deu sinal e isto fêz com que fosse a porta para
ver de quem se tratava, a pedido da espâsa do grande brasileiro,
que se ocupava dos afazeres da cozinha. Jugurtha informa que fi-
cou surprêso ao "encontrar um homem corpulento, rosto redondo,
moreno, b e b a hirsuta e encaracolada tomando-lhe quase todo o
maxilar inferior, bigodes e cabelos pretos com tonalidades brancas,
um chapéucompletamente desabado, sem fita que ajuda a compor
suas linhas, mais parecendo uma combuca do que pròpriamente
um chapéu. A camisa branca e desabotoada, colarinho aberto,
sustentado por uma gravata caida para um dos lados, paletó es-
curo, calças da mesma cor, sem respectivos frisos e esgarçadas,
cobrindo uns sapatos pretos e cambados, sem graxa e um tanto
sujos." Jugurtha mal podia imaginar que êste pobre homem, a
quem teve ímpeto de dar uma esmola, fosse Capistrano de Abreu!
Gilberto Amado, n a obra Presença na Política, narra que na
chácara de Pires Brandão, onde passava tempos, havia um poço de
banho, em que a água descia numa quelha de pedras ou telhas
embicadas e "se afrouxava toda, com prazer, na anchura daquele
poço." Diz o escritor que nunca vira água mais limpa. E depois:
REVISTA DO INSTITUTO HISrURICO E GEOGRLFICO DE S. PAULO 69

"Uma presença egregia, outro amigo de Pires Brandão que em


ocasiões anteriores passara tempos como eu na velha chácara, ali
veio duas vêzes tomar banho naquele poço que gostava. Chama-
va-se Capistrano de Abreu. Eu já o havia encontrado uma vez,
mas não lhe falava quase, nem êle me falou. Observara aquela
figura torta, aquele Ôlho de boi sonso pendido para o lado. A s cal-
ças torcidas como que tiradas de um saco de roupa suja. Cometi
nessa primeira vez que o vira, o èrro de todo brasileiro daquele
tempo: pensei, como toda a gente, que Capistrano não gostava de
água, não tomava banho. É sempre um êrro julgar. Capistrano
nao só se banhava, ali, naquele poco, como só faltava dormir
dentro daquela água - tanto tempo ficava dentro dela. Vinha
para o banho de saboneteira na mão. Ensaboava-se, esfregava-se
como para arrancar a pele; parecia querer desencardir-se. Não
lograva. Saia da água ainda mais "sujo". Confessou-me, numa das
expansões que teve, que em casa tomava as vêzes dois a três ba-
nhos por dia, e sempre com sabão."
Entretanto, a in- pressão que tinham os que o viam, era bem
outra. Simples impressão, porém.
Américo Facó o retrata neste soneto:
"Olhos semicerrados de quem poupa
a luz dos próprios olhos. . . Indolente!
Cabelos, barba de esfiapada estopa,
para trás, para os lados, para a frente.
Uns ares filosóficos de gente
a quem a vida vai de vento em popa:
Liga mais ao passado que ao presente,
e liga a vida como liga a roupa.
Calçado sem tacáo, chapéu sem aba,
pobre, com aparência de usurário,
e ao mesmo tempo de murubixaba:
Tal êste é o Capistrano, o bem amado,
velho erudito, vivo Dicionário
de História Pátria. . . mal encadernado!"
Capistrano não tinha crenca religiosa. Ou melhor, era um
agnóstico. Nilo Bruzzi em O Cofre Partido, lembra que uma filha
do historiador, Honorina, muito religiosa, entrou para um con-
vento, e que "a medida que Capistrano de Abreu ia ficando mais
velho, a falta de crença religiosa aumentava e o oposto acontecia
com Honorina de Abreu, que ficava mais crente em Deus a pro-
70 R E V I S T A DO I N S T I T Z ' T O H I S T 6 R I C O E GEOGRAFICO DE S. PAVLO

porção que ia amadurecendo o espírito. U m dia foi ser monja de


Carmelo e entrou para o convento da rua Abilio." Honoria, pro-
curando convencer o pai, escreveu-lhe o seguinte soneto:
"Foste tu, caro pai, que do seio do eterno
m e arrancaste e trouxeste a êste mundo, a esta vida.
Quando eu desabrochei, qual flor recém-nascida,
o sol que m e aqueceu foi t e u amor paterno.
T e u sangue é o m e u sangue.. . T e u trabalho superno
ganhou-me a pão com que cresci e fui nutrida.
Ah! Quanto t e custei! quanta dor! quanta lida!
Desde o calor do estio aos gelos deste inverno!
E agora dá-me a m ã o . . . É noite. V e m comigo!
V e m que eu te levarei a Jesus, t e u Amigo,
que t e espera saudoso.. . Oh! diz-me que sim!
Foste m e u pai; e eu t u a mãe serei agora;
dar-te-ei a eterna luz, de que m e deste a aurora;
dar-te-ei, por esta vida, a vida, que é sem fim!"
Nem os versos de Honorina demoveram C a ~ i s t r a n o .*
Rste agnóstico, foi, entretanto, o historiador que mais justiça
fêz aos iesuitas.
Eis, e m rápidos traços, o retrato de Capistrano de Abreu, cuja
vida e cuja obra procuraremos estudar.
NASCIMENTO E PRIMEIROS ESTUDOS

Na vila de Maranguape, n a então Provincia do Ceará, aos 23


dias de odtubro de 1853, nasceu João Capistrano de Abreu, que
seria o primeiro filho de u m a prole de 14 do casal Jerônimo Ho-
nório de m r e u - Antonia Vieira de Abreu. O pai, h o m e m tra-
balhador e correto, vivia da agricultura, enquanto a mãe se preo-
cupava com os afazeres domésticos, que n ã o deviam ser poucos, e m
meio a tantos filhos.
Jerônimo Honório, além dos trabalhos agrícolas, teve outras
ocupaçôes e, assim, e m 1875, foi nomeado major-ajudante do Co-
mando Superior do Município de Moranguape, e, e m 1888, primei-
ro suplente de Juiz Municipal e de órfãos do mesmo município.
REVISTA DO IIISTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO DE S. PAULO 71

"Não obstante a deficiência de escolas no Brasil, notadamente


após a expulsão dos jesuítas, dado o interésse do govêrno português
de manter o seu inteiro dominio sobre a colônia rica, evitando que
o Brasil tivesse conhecimento de si mesmo, problema que não de-
sapareceu de todo mesmo depois da independência em virtude da
vastidão do nosso território e outros fatores que não vêm a baila
comentar - Capistrano estudou as primeiras letras em sua pró-
pria terra natal. A princípio com o mestre-escola Luis Mendes, no
lugar denominado Ladeira Grande, pequeno povoado a dois quilô-
metros do Columunjuba, e, depois, em Fortaleza, capital da Pro-
víncia, onde frequentou durante três anos o Colégio de Educan-
dos, dirigido pelo padre Antônio Nogueira da Braveza. Esteve no
Ateneu Cearense, do qual era diretor o sr. João de Araujo Costa
Mendes, cearense inteligente, com reconhecida vocação para o ma-
gistério, e, ainda, no Seminário Episcopal do Ceará, onde se ma-
triculou a 9 de março de 1865 no mesmo ano em que ali também
se matriculava o futuro Patriarca do Juazeiro, o Rvmo. Padre Ci-
cero Ramáo Batista." (*)
João Capistrano de Abreu não era aluno dedicado ao estudo
sistemático do colégio. Talvez porque preferisse a vida livre do
campo. Talvez, porque, numa antecipação do que viria a ser, dis-
cordasse da sonolenta forma antiga de ensinar. Seja Ia como for,
no livro de matrícula do colégio, há a seguinte observação a seu
respeito:
"Em julho de 1866 foi aconselhado ao pai do referido aluno
que o retirasse por algum tempo a fim de emendar sua preguiça
e vadiação."
Nos dois primeiros anos que frequentou a escola, algumas
notas colhidas, a título elucidativo, mostram que, em 1865, seu
comportamento era sofrível, em latim medíocre, em aritmética,
bom no primeiro ano e sofrível no segundo. Português, medíocre.
Enfim, sofrível e medíocre em quase tudo, menos eul catecismo
que era bom. Saúde, também boa.
O padre Braveza se alarma, entretanto, com éstg menino que
conhecia catecismo, mas que não tinha educação cristã, e, por is-
so, escrevia ao pai de Capistrano:
"A comadre tem se descuidado muito da educação cristã do
João, que nem siquer sabe fazer o sinal da Cruz."
Note-se: em catecismo bom, porém, coisa quase incompreen-
sível, não sabia fazer o sinal da Cruz. Ou saberia e . . . rebeldemente
se recusava.. . ainda mais quando se sabe que havia um Certo
desejo de que Capistrano fosse padre.. .
O padre Chevalier, certa vez, chegou a firmar:
( Pedro Gomes oe Natos, Capistraino de A b r m i r i d a e obra da grsiide hidtsrin-
dar), A Batista Fontenelle - Editára, Fortaleza, 1952. P&C. 40.
72 REVISTA DO INSTITUTO HISTiiRICO E GEOGRAFICO DE S. PAULO

Eu tenho mêdo que êste menino não venha ainda a fazer


muito mal a Igreja.
Enganou-se redondamente. Capistrano, indiferente à religião,
nunca lhe fêz mal. Pelo contrário, o estudo da obra jesuitica no
Brasil, e estudo construtivo e profundo, muito deve a éle.
O que devia assustar o padre Chevalier era o menino de Ma-
ranguape andar, a noite, equilibrando-se sobre o muro de cemi-
tério, e, durante o dia, cantar, constante e desafiadoramente:
"Sou filho do calor, odeio o frio,
não tenho mêdo do diabo nem dos santos"
Não gostava Capistrano de estudar as matérias da escola.
Gostava de ler. Ler era sua melhor distração, se a isto se
pode chamar de distração.
Desde cedo a miopia o atacara e nunca usou óculos. E, por
essa razão, passou a vida lendo, com os livros roçando o nariz.
Quando foi ao Recife para estudar preparatórios, ao invés de
ir a escola, frequentava as livrarias. E quando deu pela coisa nem
exame, nem preparatório, nem nada.
Jerònimo Honório de Abreu concluiu que daquilo não havia
de sair nada que prestasse para o estudo. E já que não era capaz
de ir a escola, que fosse para a roça. Rsse negócio de ler, ler sem-
pre, sem matricular-se num curso regular não dava certo. O cabo
da enxada lhe daria melhor futuro, pensou o velho.
E durante dois anos, em Columinjuba, sitio de seu pai, tra-
balhou a terra duramente. Mas aquilo não lhe agradava. E trocou
Columinjuba pela Capital. Em Fortaleza, com outros jovens de-
dicados aos livros, fundou a Academia Francesa, de vida efêmera,
pois que nascida em 1874, no ano seguinte já era defunta. Nesse
período esheve os Perfas Juvenis, publicados no Maranguapenss
(1874) e depois no 1."volume dos Ensaios e Estudos (edição da So-
ciedade Capistrano de Abreu, Livraria Briguiet, Rio de Janeiro.
1931). Os Perfis Juvenis compreendem dois estudos: um sobre
Casimiro de Abreu e outro sobre Junqueira Freire. Contava, quan-
do escreveu êstes ensaios, 20 anos de idade.
Em 1875, proferiu conferências, em Fortaleza, na Escola Po-
pular do Ceará, publicadas nesse mesmo ano no jornal O Globo,
e também reunidas no 1."vol. dos citados Ensaios e Estudos.
A Escola Popular, que funcionava no período noturno, desti-
nava-se a educação de pobres e operários. Fundada por João LO-
pes, Rocha Lima e outros. "Os que tiveram ocasião de visitá-la -
lembra Capistrano - recordam-se da animação, da cordialidade,
do estímulo que ali reinavam e corriam parelhas com o desinterês-
REVISTA DO IPÍSTITUTO HIST6RICO E GEOGRil'ICO DE S. PACLO 73

se dos jovens professores." (*) Mas uma escola, ainda mais na-
quele tempo, destinada a operários e pobres, não podia ser vista
com bons olhos por aqueles atacados de miopia mental, e, por essa
razão, "quantos obstáculos não tiveram que vencer, quanta calú-
nia a esmagar, quanta prevencão a destruir."
"Grande foi a influência - continua o mestre - da Escola
Popular não só sobre as classes a que se destinava, como sobre a
sociedade cearense em geral, por intermédio de conferências ali
feitas, em que o ideal modernos era apregoado por pessoas alta-
mente convencidas de sua excelência. Maior ainda foi a influên-
cia da Escola sôbre os espíritos audazes e juvenis, que congregou,
reuniu e fecundou uns pelos outros. Era na casa de Rocha Lima
que se reuniam os membros do que chamavamos Academia Fran-
cesa. Quanta ilusão! quanta força! quanta mocidade! França Leite
advogava os direitos do comtismo puro e sustentava que o Système
de la Politique era o complemento do C o u ~ sde Philosophie. Melo
descrevia a anatomia do cérebro, com a exatidão do sábio e o estro
do poeta.. . Pompeu Filho dissertava sobre a filosofia alemã e
sobre a índia, citava Laurent e combatia Taine. Varela - o gar-
boso abnegado paladino, - enristava lanças a favor do raciona-
lismo. Araripe Júnior encobria com a máscara de Falstaff a alma
dolorida de René. Felino falava da revolução francesa com o ar-
rebatamento de Camilo Desmoulins. Lopes, ora cadente como um
raio de sol, ora lobrego como uma noite de Walpurgis, dava asas
a seu humor colossal. Por vêzes das margens do Amazonas che-
gava o eco de uma voz, doce como a poesia de suas águas sem fim,
- a de Xilderico de Faria, hoje para sempre mudo no regaço do
Oceano.
O mais moço de todos, Rocha Lima, era um dos que mais se
distinguiam. A sua inteligência plástica e compreensiva assimi-
lava as diferentes teorias de maneira admirável. A sua palavra es-
pirituosa destacava aspectos novos nas questões mai5 obstrusas.
As objeções que apresentava, as sugestões que oferecia limitavam
o campo do debate, encaminhavam muitas vêzes a coiiclusões por
todos admitidas. Além disso, o seu caráter tão lhano, como firme,
sabia afagar as suceatibilidades. e evitar choques e divergências
fatais em sociedade de tal ordem."
Era êste o grupo de Capistrano de Abreu, em Fortaleza, e au?
se dispersou, em princípios de 1875. por motivos diversos, ditados
pela própria vida.
A influência de Capistrano devia ser marcarite, pois o iremos
encontrar. durante toda sua existência, como um seguro orienta-
dor, indicando fontes e traçando diretrizes.
74 REVISTA DO INSTITUTO HISTORICO E GEOGRÁFICO DE S. PACLO

UM ENCONTRO DECISIVO

Em 1874, José de Alencar, em campanha eleitoral, esteve em


Maranguape, no Ceará, hospedando-se n a casa do coronel Joaquim
José de Sousa Sombra, velho amigo, que foi quem insistiu com o
autor de Iracema, para que escrevesse o seu primeiro romance.
Capistrano, já inverterado ledor e iniciado nas lides intelectuais,
visitou, a conselho do pai, a José de Alencar, que logo se impres-
sionou com o talento e os conhecimentos do jovem ensaista que
dava os primeiros passos.
Alencar recomendou-lhe a Corte. Sim, deveria mudar-se para
o Rio de Janeiro, onde sua inteligência encontraria terreno mais
propício.
Mário de Alencar, bem mais tarde, daria seu testemunho:
"Do Ceará, quando veio para o Rio, segundo ouvi, por con-
selhq de meu pai que lá o conheceu e logo se impressionou do seu
talento, Capistrano já era um espírito formado, independente, nu-
trido de muito saber que só esperava utilização."
Enfim, o menino preguiçoso na escola, o jovem que no Recife
não frequentara o curso preparatório, que fora reprovado no exame
vestibular, adquirira, através de ininterruptas leituras, sólida cul-
tura.
A palavra de José de Alencar valia para o coronel Jerônimo
Honório de Abreu. João Capistrano, n a Corte, teria futuro. Se ali
sòzinho havia aprendido tanto!. . . E com que solidés! Imaginem
no Rio, na Capital do Império!
E no dia 1 2 de abril de 1875, João Capistrano de Abreu, no
Guara, deixa a terra natal.
A viagem duraria 13 dias. No último dia, inicia uma carta
que só terminara no dia seguinte ao desembarque, isto é, no dia 26.
Era dirigida a Dona Ana Nunes de Melo, e dizia:
"Anteontem foi dia de festa. O céu parecia negro e obscuro
como o interior de um sepulcro. A chuva caia fina e implacável.
O mar oramsearrojava impetuoso como as labaredas de um incén-
dio, ora irrompia imenso, vário como uma floresta de montanhas.
Quase todos os passageiros sentiram-se enjoados, e até eu por
cinco minutos não resisti.
Foi éste espetáculo um dos mais belos que presenciei. De pé,
com os braços abertos, com a respiração suspensa, com o olhar fixo,
eu assistia a tódas as fases da luta, só tendo uma esperança, -
que ela durasse; só tendo um desejo, poder tomar parte naquele
combate de colossos.
Ontem o tempo melhorou. O sol que anteontem não tinha vis-
to um só momento, foi todo o dia visível. O mar serenou, e ora se-
melhava exército de serpentes a colerarern abrançando-se, ora
REVISTA DO ISSTITVTO HISTÓRICO E GEOGEAFICO DE S. PAULO 75

transformava as ondas em seios azuis, - como se, mãe sublime,


quisesse nelas amamentar toda a natureza.
Senti-me ontem muito encomodado, com um defluxo terri-
vel, dor de corpo, nos olhos e febre. A noite de tal maneira espir-
rei que deitei sangue pelos narizes. Mas perdão, passemos ao que
pode lhe interessar."
No dia 26, coiltinuava:
"Quis acabar esta, carta mesmo a bordo porém não pude fazé-
10 por incomodado. Cheguei ao Rio ontem as 10 1 / 2 da manhã.
São 4 da madrugada. Houve aqui um tal barulho - não sei se dos
meus baus que cairam, se de alguma peça que detonou, - e o
barulho espancou inteiramente o sono. Antes de lhe dizer alguma
coisa sobre o Rio, consinta que lhe diga alguma coisa sobre a
Bahia.
Estive na Bahia no dia 20, e teria sido deliciosissimo o meu
passeio senão tivesse apanhado chuva que me fêz apanhar terrí-
vel defluxo, e se tivesse visto o dr. Me10 e o P. Sombra. Com êste
quase me encontro em casa do Bisarria. Daqueles, por maiores
que fossem os meus esforces, não pude saber onde é a casa. Não
pode dizer que esteve na Bahia quem não comeu vatapá e caruru
ou montou no tal de parafuso.
Dizem comadre que a voz do povo é a voz de Deus. Eu acho
que sim. Ambos falam tanta verdade que eu não sei em qual acre-
dite mais ou antes menos. Em todo caso, o tal de parafuso bahia-
no nada tem de parafuso. Como sabe, ou deve saber, a Bahia com-
põe-se de dois bairros: um n a montanha, chamado cidade alta, -
outro no sopé, chamado cidade baixa. este tal de parafuso, má-
quina que transporta a gente de um bairro para o outro da cidade,
é como um balde sustentado por grossas correntes, e nêle podem
ir 14 ou mais pessoas que em um minuto e meio descem e sobem
uma ladeira que não tem menos de 50 braças. Quer ver com que
parece o tal de balde? É mais exatamente comparávele uma litei-
ra, porém em vez de puxada pelos lados é pela cobertura. Gostei
muito da Bahia. Não só o a r é muito fresco, como a& ruas estrei-
tas de casas muito elevadas (4 e 5 andares) dão-lhe um ar de viu-
vez e tristeza ao passo que as matas de verduras que de quando
em quando emergem comunicam-lhe uma feição de juventude P
peraltice interessantes. Há não sei qilantos anos, formava da Bahia
a idéia de uma viuva, mas agora vejo que a viuva é namoradeira,
poralvilha e que anda com muita vontade de trocar o crepe pela
grinalda. Depois, quando se anda a Capital, os edifícios dissemi-
nados nos lados do mar. - casas brancas cercadas de matas ainda
confirmam estas duas feições.
A entrada do Rio de Janeiro passa pela mais bela do mundo.
Não lhe sei dizer que não pude ve-Ia bem, mas o que vi é imenso
e magnífico. Os morros elevados, as ilhas, os edifícios, as fortalezas
76 REVISTA DO INSTITUTO IIISTBRICO E GEOGRAFICO DE S. PAULO

são realmente sublimes. E o sol? Se o nosso Ceará é a pátria da


lua, ao ver ontem o mar convertido em um imenso lago de ouro
mais brilhante que se pode ansiar, convenci-me que o Rio de Ja-
neiro é a pátria do sol. Até agora não me tenho podido arranjar.
Estive em casa de Capote e do Cons. Tristáo. Gostei mais dêsse
que daquele. Rio (ilegível). Hoje devo ver o meu primo Mariano
e José de Alencar - que não vi por ser muito distante sua morada.
Não lhe escreverei mais por êste vapor. Desculpe-me não ter até
agora respondido a sua carta de 7, - só depois que receber outra
é que fa-10-ei. Demais há tanta coisa nela que me parece obscuro!
Julgo que dora em diante poderemos manter uma correspondência.
Escrever-lhe-ei sempre; responda sempre as minhas cartas e, logo
que for a Capital mande o seu, retrato.
Adeus, cara e amada comadre. Recomendo-me a sua lembran-
ça. Queira-me bem, creia-me em (riscado) J. Cap."
Durante toda a vida, Capistrano manteria o prazer de escre-
ver cartas aos amigos. Sua correspondência, publicada, em três
volumes, pelo Instituta Nacional do Livro, em 1954-56, provam, de
sobejo, a assertiva.
PRIMEIROS EMPREGOS

Agora era procurar amigos e emprêgo. E foi à casa do comer-


ciante Paulino Nunes de Melo, parente da comadre Ana Nunes de
Melo, visitou o cônego Braveza, que, no Ceará dirigia o colégio do
qual Capistrano foi, delicadamente, convidado a sair.. .
O desembargador José Nogueira Jaguaribe recebeu-o carinho-
samente e hospedou-o durante algum tempo. Foi quem, em 1879,
arranjou-lhe emprêgo na Biblioteca Nacional.
Para manter-se, inicialmente, colaborou na Gazeta de Noticias
e, mais tarde, lecionou no Colégio Aquino (1881-1887).
As podas da Gazeta de Noticias, para a qual colaboravam es-
critores do valor de um Machado de Assis, Eça de Queiroz, Bilac,
se abriramaara Capistrano, desta maneira:
O Rio e o Brasil inteiro se enlutaram com a dolorosa notícia
da morte de José de Alencar. Ferreira de Araujo solicitara de Ma-
chado de Assis o necrologia do grande morto. Quando Machado
compareceu à redação com o seu trabalho, Ferreira de Araujo deu-
lhe para ler algumas laudas que um jovem desconhecido deixara
para ser publicado. O diretor da Gazeta não as havia lido e dei-
xou ao critério do romancista de Quincas Borba o destino que se
Ihes devia dar. Machado de Assis leu o artigo, a princípio meio in-
crédulo, como quem lê por dever de ofício. Depois transformou a
fisionomia, mostrando interêsse, e quando terminou a leitura da-
quele trabalho sobre a grande figura desaparecida, rasgou o artigo
que êle, Machado de Assis, num exemplo de superioridade e de hu-
REVISTA DO IXSTITUTO HISTbRICO E GEOGR.iFICO DE S P A U L O 77

mildade próprio dos homens realmente superiores, havia escrito


para que sòmente fôsse publicado, o de autoria do jovem desco-
nhecido, que ali fora, entregara o seu trabalho e silenciosamente
desaparecera.. .
O iá famoso Machado de Assis, o imenso Mãchado de Assis
com aquêle gesto, recomendava, sem o saber, o moço cearense ao
diretor do jornal. . .
E que recomendação!
Antes, porém, arranjara emprêgo na Livraria Garnier. Seu
trabalho era fazer o elogio dos livros lancados pela acreditada edi-
tora. Mas Capistrano resolveu fazer crítica. O primeiro livro que
lhe entregaram, mereceu uma analise justa. . . A obra não valia
caracol. . . Um que fosse. . .
Resultado, perdeu o emprêgo. O jovem independente pagava
pela firmeza do seu caráter e pela sua honestidade intelectual.

CASARTENTO

Desde moço, Capistrano fora um tipo esquisito. O retrato que


dêle, no inicio, traçamos, através de insuspeitos testemunhos, mos-
tra o homem que era. Seu desmazelo no vestir, pode-se dizer que
era inato. Sòmente pelo espirito poderia chamar a atencão de uma
jovem prendada.
E isto aconteceu.
Entre as alunas do Externato Aquino. estava a filha do almi-
rante bahiano Inácio Joaquim da Fonseca e de dona Adélia Jose-
fina de Castro Fonseca. Chamava-se Maria José de Castro Fon-
seca, moça culta, falava várias línguas, a qual não viu nêle, de ini-
cio, o homem dos seus sonhos. Mas a roupa constituía. apenas a
parte externa, notada a primeira vista, do professor, que nunca
fêz questão de ser um almofadinha. O espírito, a cu tura o t a
José acabou por ver no professor o esposo ideal.
4.
lento aos poucos iam suplantando o aspecto superficia E .Maria .-

No dia 30 de marco de 1881, em cerimónia a qfie compare-


ceram pouquissimas pessoas do intimo círculo familial, os pais da
noiva e o padre oficiante, contrairam matrimônio.
Essa união durou dez anos, pois a 31 de dezembro de 1891,
faleceu Maria José.
O casal teve os seguintes filhos: Honorina de Abreu, da qual
já falamos ao retratar Capistrano; Adriano de Abreu, bacharel, au-
tor de um romance de ficcão e costumes, Dias de Maio *; Fernando
de Abreu, bacharel, cuja morte, em 1918, durante a pidemia de
gripe, muito abalou o historiador, conforme se vê em sua corres-
pondência; Henrique de Abreu, e Matilde de Abreu Nogueira, cujo
i8 REVISTA DO ISSTITCTO HISTÓRICO E GEOGRLFICO DE S. PAL'LO

casamento com o médico Aprígio Nogueira, da família Jaguaribe,


estreitaria ainda mais os laços de amizade que o unia a èstes seus
conterrâneos, amizade que conservou até a morte, principalmente
com o Jaguaribe de São Paulo, com quem passava temporadas em
São Vicente.
Sobre a morte do seu filho Fernando, apelidado Abril por ter
nascido nesse mês, disse em carta que enviou a João Lúcio de
Azevedo:
"Com a morte de meu filho senti-me esfolado. Morreu aos
trinta e dois anos: contava cinco quando a mãe morreu e, salvo o
tempo do colégio dos jesuítas em Nova Friburgo, para onde insistiu
em i r estudar. fêz-me companhia nas casas de pensão, a que a viu-
vez me reduziu, até os vinte anos. Foi depois morar com a avó
octogenaria, mas desde 1909 nossas casas eram fronteiras, nossas
relações comuns e sob tetos diversos reatara-se a convivência
antiga.
Como inteligência nada tinha de extraordinário; de prepara-
tórios creio só ficou sabendo alguma matemática; n a Faculdade
de Direito, aonde só se matriculou aos vint,e e tantos, fêz boa figu-
ra, sem destaque. Seu talento principal era o da observação. das
cousas e das pessoas; sua psicologia penetrante nada possuía de
pessimista.
Era bom, sem pieguice; no Tesouro, onde era empregado, as
pensionistas velhas e desemaregados consideram-no u m a provi-
dência; gostava da vida; fazia tudo com alegria e nada deixava
pela metade. Casou com uma prima-irmã e não podia fazer me-
lhor escolha; de três anos e meio de consórcio não ficou desgra-
çado para êste vale de lágrimas. Nem herói. nem santo, viveu com
a simplicidade que o levou.
Ao chegar. terei de defrontar a avó e a viúva. Minha sogra.
nascida em 1827, perdeu muito da sensibilidade antiga e venceu a
crise melhor do que se esoerava. A nora é moça e forte e se recon-
ciliará com a vida. De mim direi apenas que volto reencourado." *
Esta cgrta retrata bem o homem que enfrenta a vida com
coragem. Deixa transparecer a dor que o feria profundamente.
mas mantém aauela serenidade de quem se conforma. conhecendo
êste vale de lau~imas.Na mesma carta faz esta dec1araçá.o. quando
nassou a tratar de política: "desde muitos anos limitei minhas am-
bições a morrer sem escândalo. como nasci."
Para sua filha Matilde, abria o coracão mais sentimental- .. -_
mente:
"Quando Honorina nos deixou uensei aue para mim o golpe
seria mais forte do que se tivesse sido levada pela morte. poraue
da morte ninguém escapa e ela saia por sua livre vontade. Ainda
Ori-cspoiidEaci<r, i o l . 11, ! : 5 g . 117.
EEVISTA DO INSTITUTO IIISTÓRICO E GEOGRbFICO DE S. P A U L O 79

sinto assim, mas Honorina levou sempre a vida separada da mi-


nha; Abril viveu comigo desde os cinco anos até partir para Fri-
burgo e nos últimos tempos era como se morassemos juntos. Sin-
to-me mutilado.
Que farei não sei. Para mim Cecília é a herança de Abril
e a ela subordina-se o resto da minha existência.
Consolação não quero nem preciso.
Estou aqui, só, concentrado; se vem uma carta, um amigo,
vêm irresistivelmente as lágrimas e não sinto alívio."

A MORTE D E VARNHAGEN

Varnhagem, o pai da História Pátria, morreu em 1878. Fora


o trabalhador incansável, que nos arquivos europeus, pesquisara
o quanto pudera o que ali havia sobre o passado do Brasil.
Sua História Geral do Brasil é prova indestrutível de que sua
vida foi um constante labor à serviço da pátria.
Em 1878 Capistrano contava 25 anos de idade.
Desaparecia um historiador e despontava outro. O primeiro,
um paciente arquiteto, que soube reunir material e compor o edi-
fício gigantesco da sua obra. O segundo, um interprete e um ino-
vador genial.
Os estudos de História do Brasil, podem perfeitamente ser
divididos em dois períodos - antes e depois de Capistrano de
Abreu.
Dêsse primeiro período, a obra de escritor brasileiro mais re-
presentativa, é, com plena justisa, a de Varnhagen.
Capistrano no Necroloqio de Francisco Adolfo de Vnrnha-
gen, Visconde de Pôrto Seguro, publicado no Jornal do Comércio,
de 16 e 20 de dezembro de 1878. escreveu lapidarmente:
"A Pátria traja de luto pela morte de seu historiador, - morte
irreparável, pois que a constância, o fervor e o desintessse que o
caracterizavam, dificilmente se hão de ver reunidos no mesmo in-
divíduo; morte imprevista, porque a energia. com q u a acabara a
reimpressão de sua História, o vigor com que continuava novas
emprêsas, a confianca com que arquitetava novos planos. embe-
beciam numa doce esperança de que só mais tarde nos seria rou-
bado. depois de por algum tempo gozar do descanso a que lhe dava
direito meio século de estudos e trabalhos nunca interrompidos."
E numa síntese feliz:
"Filho da nobre Província de São Paulo, iluminava-lhe a fron-
te a flama sombria de Anhanguera. O desconhecido atraia-o. Os
nroblemas não solvidos o a~aixonavam.Códices corroidos pelo tem-
po; livros que jaziam esquecidos ou extraviados: arquivos marcados
- 1 V!Orn dc Fernnndo d e A h r t w
E0 R E V I S T A D O IPÍSTITCTO I I I S T o R I C O F: GF:'iCP.nTICO DE S P A U L O

com o selo da confusão, tudo viu, tudo examinou. Pelo terreno fu-
gidio das dúvidas e das incertezas caminhava bravo e sereno, des-
temido bandeirante a busca da mina de ouro da verdade."
Compara-o a Colombo, que antes da descoberta da América foi
chamado de visionário, e após o feito passaram a julgar facílima
a sua emprêsa. "Depois que Varnhagen publicou sua História, e
apresentou a massa ciclopica de materiais que acumulara, muitos
se julgaram aptos a erguer um monumento mais considerável, e
atiraram-lhe censuras e daitribes que profundamente o pungira."
Nesse trabalho reconhece que Varnhagen tinha muitos pontos
vulneráveis e os aponta. "Mesmo assim - escreve - a obra de
Varnhagen se impõe ao nosso respeito e nossa gratidão. e mostra
u m grande progresso n a maneira de conceber a história pátria.
Já não é a concepção de Gandavo e Gabriel Soares, em que o Bra-
sil é considerado simples apêndice de Portugal, e a história um
meio de chamar a emigracão, e pedir a atenção do govêrno para
o estado pouco defensável do pais, sujeito a insultos de inimigos,
contra os quais se reclama proteção."
Enfim, Varnhagen já inovava alguma coisa. E n a sua obra
"procurou sempre e muitas vêzes conseguiu colocar-se sob o ver-
dadeiro ponto de vista nacional." Faltou-lhe conhecimento da so-
ciologia. Sem ela "não podia ver o modo porque se elabora a vida
social."
O que Varnhagen não conseguiu, foi interpretar os fatos his-
tóricos. Descreveu-os e documentou-os como ninguém, até então
Agora era preciso seguir outros métodos, outros caminhos. Era
preciso arrancar "das entranhas do passado o segrêdo angustioso
do presente", fugindo ao crasso empirismo.
Após considerações da ordem que estamos indicando, encer-
r a o necrologio. com estas palavras dirigidas aos que se dedicas-
sem ao e s a d o do nosso passado, examinando-o sob aspectos mais
profundos:
" M a s , a h ! bem pouco digno serás de tua n~issão,oh! nobre
pensador, se não sentires a gratidão inundar-te o peito, se n ã o
sentires o respeito e a veneração dominaram-te a alma, se não
ajoelhares fervoroso e recolhido ante o túmulo de um grande com-
batente, que jamais abandonou o campo - Francisco Adolfo de
Varnhagen, Visconde de Põrto Seguro."
&te necrologio mostra a diretriz que Capistrano de Abreu ini-
ciava nos estudos históricos. Diretriz segura, diretriz de quem tra-
$a novos rumos e amplia horizontes.
Em 1882, n a Gazeta de Noticias, números de 21, 22 e 23 de
novembro, Capistrano de Abreu publica três artigos sobre Var-
nhagen, cujos trabalhos, são, agora, "apreciados com mais largue-
I
REVISTA DO IXSTITCTO HISTóXICO E C E O < : R I P ' I ~ ' o3 E L. I7.\1TL<) 81

za", porém "menos medido, mas igualmente submisso ao mesmo


propósito de justeza n a crítica." *
"A história não é crônica." Ouve-se, não raro, tal afirmapio.
"É fácil dizê-lo -escreve o mestre cearense, - pelo menos é
mais fácil do que determinar com precisão onde começa uma e
onde acaba outra, ou mostrar um livro que possua exclusivamente
um dêstes caracteres.
A obra de Varnhagen, por exemplo, tem incontest5,velmentr
muito de crônica, mas abunda em páginas que revelam muita pers-
picácia, contém observações e vistas que escapariam a qualquer in-
teligência ordinária, possue, sem contestação, também o caráter
de história." **
Castro Rebelo comenta:
"A linha de separação entre os dois gêneros. - a história
e a crônica, é, de fato, ainda hoje, u m dos pontos de interêsse his-
toricgráfico menos estudados. Croce parece ter sentido a falhe
mas, rejeitada, com razão, a idéia de derivar o critério da diferenqa,
da qualidade dos fatos: gerais ou individuais; públicos ou privados;
importantes, conforme se trate de história ou de crônica, nega.
sem fundamento, a possibilidade de um critério objetivo de SE-
paração, para discriminá-las, segundo a atitude espiritual de quem
a s elabore, como se esta não tivesse por pressuposto a própria dife-
rença conceitual entre os dois gêneros, ainda que abstratainentr
considerados. Despreza; formalmente e sem motivo. o que h á dr
verdade n a opinião dos que vêem a distincão n a maneira par que
se aaresentam os fatos, para, de preferência. não se sabe se por
mero hegelianismo, ou por êsse gosto, tão seu, de complicar o que
é simples e desnortear o leitor. - que a história é história viva. a
crônica história morta; a história contemporânea. a crônica. his-
tória passada; a história. precipuamente. ato do pensamento. a crô-
nica. ato de vontade.
Capistrano. refratário por índole e educação científica a nebu-
losidades dêsse teôr, tinha u m modo muito mais terrpno de ver e
dizer as coisas. Ao reconhecer a distinção entre história e crônica,
não nos disse exatamente onde uma começa nem ande a outra
acaba, mas, como vimos, opondo no julgamento da obra de Var-
nhagen, ao muito que ela tem de crônica, o que também possui
de história, isto é, o muito que tem de pensamento. de idéia que
esclarece de modo feliz fatos antes percebidos de modo imperfeito,
indicou-nos implicitamente o caminho certo da discriminacão.
A verdade é que a história só se pôde separar conceitualmente
da crônica, n a medida em que adquiriu feição científica, e deixou
de ser, apenas, narrativa, ou, mesmo, de algum modo, crítica. Ain-
('1 E. de C B F ~ T O
Rehelo. Cnpistinwo di. Abr<ia r n S i > i t c s i H i r i ó r i c < i . T.iiY?i.in Sii.
TOSE. Rio de Jsnpiro. 1956. I I ~ C . 2%
("1 Ensaios c Estudos, r o l . I. iiir. 2nR.
n? REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRAFICO DE S. PACLO

da no século XV, embora já sensível a diferença, não havia como,


em rigor, as considerar inconfundíveis. Quando, em 1435, Dom
Duarte, de Portugal, fêz de Fernáo Lopes cronista do Reino, o en-
cargo que lhe deu foi o de poer em croil.lca as estorias dos reys.
A história esclarece o passado, mas só o esclarece de modo
satisfatório, quando conhecidos os fatos de que é expressão, atra-
vés de documentos devidamente analisados, logra fazer-lhes a sín-
tese, isto é, logra reuni-los em conjuntos totais ou parciais, segun-
do a lógica de sua ocorrência e os fatores de sua realização; com-
biná-los, segundo o vínculo de conexáo ou afinidade que haja en-
tre êles, preferido o principal ao acessório, unificá-los, em suma,
o que permitirá interpretá-los melhor e prendê-los sem fantasia a
causas imediatas ou distantes, de maior ou menor generalidade.
É o que a crõnica não faz. 12,no entanto, o que fêz Capistrano de
Abreu, com rara intuição e um preparo cultural dos mai sólidos,
com relação aos três primeiros séculos de vida brasileira." *
José Honório Rodrigues escreve:
"A história é um estudo empírico, no sentido de que não é um
aglomerado não interpretado de símbolos, sem referência à expe-
riência. Dai representar a intuição ou adivinhação de que falava
Capistrano de Abreu um papel importante, pois é nesse sentido
que se pode compreender que o mundo da experiência do histo-
riador não começa nos fatos, mas acaba com êles (M. J. Oakeshott,
Experience and its modes, Cambridge, 1933, 107). fi com sua ex-
periência do mundo, com sua ideologia, sua concepcão, suas teo-
rias que êle vai do fato objetivo à construção subjetiva, à interpre-
tação que se eleva do mundo da prova para a explicação ou com-
preensão dos motivos da queda do Império Romano ou da Inde-
pendência do Brasil. Nesse trabalho éle tenta estabelecer a inter-
conexáo processual, ou seja descobrir os fatos e mostrar suas rela-
ções, processo simultâneo. O valor do trabalho! do historiador con-
siste largamente na revelação dessas conexões. Mas a subjetivida-
de consiste em que diante de toda evidência, limpa pela critica de
qualquer suspeita, historiadores da melhor categoria intelectual e
do melhor preparo crítico metodológico e filosoófico, interpretam
diferentemente os acontecimento. Isto porque h á historiadores
desiguais, escrevendo com fins e interêsses diferentes, e compreen-
dendo os acontecimentos com as mais variadas ideologias e
teoria" **
Capistrano termina seus artigos sôbre Varnhagen, afirmando
que a sua História é inferior a História do Brasil de Southey, "co-
mo forma, como concepção, como intuição; mas é inferior sòmente
a esta."
* Obra cits<ln. n i i l s . 30172.
(") T ~ o r i n d<t. IItstÓria do B ~ a s i l . Companhia EditUra Xnrional. São Paulo, 1957,
phg. 128.
REVISTA DO IXSTITCTO HISTÓRICO E GEClGR.iFICO D E S. P A U L O 63

E enumera uma longa série de trabalhos parciais que deviam


ser realizados. "Quando todos êsses trabalhos estiverem termina-
dos; quando outros muitos se lhes tiverem reunidos; quando um
espírito superior insuflar a vida e o movimento na massa informe,
Varnhagen descerá do pedestal.
Mas até então êle será o mestre, o guia, o senhor." *
CONCURSO NO IMPERIAL COLÉGIO D. PEDRO I1

Com o casamento, a vida de Capistrano tornou-se mais aper-


tada. Precisava aumentar seus vencimentos, pois o que ganhava
não dava para o sustento do lar.
Eis que magnífica oportunidade se lhe apresenta. O Imperial
Colégio D. Pedro 11, abriu concurso para preenchimento da cate-
dra de Corografia e História do Brasil, que se vagara em 1882.
Oportunidade boa para quem já era mestre em História Pátria.
Inscreveu-se e, com éle, João Franklin da Silveira Távora. Fe-
liciano Pinheiro Bittencourt, João Maria da Gama Berquó e Eva-
risto Nunes Pires. A banca examinadora era constituida de Matoso
Maia, Moreira de Azevedo, sendo que Silvio Romero, também mem-
bro da banca, não arguiu os candidatos. O tema para todos os
concorrentes um único: O descobrimento do Brasil e o seu desen-
volvimento no século XVI.
De todas as teses, só a de Capistrano apresentava algo de novo.
Helio Viana cita trecho de um artigo de José Verissimo, publi-
cado no Jornal do Comércio, de 16 de setembro de 1907, onde se lê:
"Li todas essas teses. Com exceção da do Sr. Capistrano de
Abreu, eram bons resumos do que estava em Varnhagen e em ou-
tras obras vulgares, sem nenhuma novidade, nem de investigação,
nem de pensamento. Ao contrário dessas, e do que são aqui por
via de regra as teses de concurso, onde os estudos próprios e a ori-
ginalidade brilham geralmente pela ausência, a do sr. Abreu se
distinguia por aquelas duas raras qualidades, e se nrtò revelava
um lente - um sujeito capaz de ler uma aula, de cor ou não, a
matéria a ensinar, - mostrava claramente um prof2ssor capaz
de fazer êle mesmo a sua ciência e de transmitir aos seus discípulos
o gosto e a capacidade de o fazerem." * *
Carlos von Koseritz ou Karl von Koseritz, natural da Alema-
nha, brasileiro naturalizado, bastante culto, jornalista e escritor,
visitou o Colégio Pedro 11, exatamente quando se realizava o con-
curso. E narra:
"No dia em que visitei o Colégio realizava-se o concurso para
preenchimento da cadeira de História Nacional e o meu talentos0
( > ) Lemb1.8. aqui. um r r r s o de Dante. no C a n t a I1 do I n f e r n o . quando se dirige
D VITFII~O:
Tu d i ~ c n tu m a c ~ t v o ,t x s i ~ i n o r e .
* cniistrona, Miiiistirio da Educacão e Cultura. Serviço d e Dochiniriitnsán, 1936,
86 REVISTA DO ISSTITCTO HISTÓRICO E G E O G R i F I C O DE S. PAULO

não só no Pedro 11, mas onde se encontrasse e durante toda sua


vida, um grande professor, um mestre notável.
O PREGUIÇOSO

Seria mesmo Capistrano um preguiçoso?


Há homens que adquirem certa fama que os acompanha du-
rante a vida e após a morte. E tanto determinadas coisas são repe-
tidas que acabam adquirindo foros de verdade. Verdade monolí-
tica. Eterna, ou quase eterna.
A preguiça de Capistrano corre parelha com sua decantada
falta de asseio. A esta já nos referimos, citando páginas de insus-
peito testemunho, escritas por Gilberto Amado.
E da sua preguiça? ale mesmo dela falava constântemente.
Mas teria sido, mesmo, um preguiçoso?
Podia não gostar de escrever muito, mas isto é outra coisa.
Um preguiçoso jamais poderia aprender o que êle aprendeu,
não pela rama, superficialmente, mas profundamente, com a se-
guranca de quem sabe, e, além disso, sabia bem algumas línguas,
entre elas, latim, alemão e grego.
Assis Chateaubriand que com êle conviveu longamente e qua-
se que diariamente, em artigo publicado n'O Jornal (1927) atesta:
"A cultura de Capistrano de Abreu era alguma coisa de salo-
mônico. file sabia tudo, história, filosofia, direito, poesia, economia
política, medicina, sociologia, moral, e os seus conhecimentos de
todas essas disciplinas não eram noções amalgamadas as pressas,
adquiridas pelo prazer de aparentar idéias, mas cultura, cultura
no sentido verdadeiro da palavra, isto é, coisas aprendidas e inves-
tigadas no sentido vertical, ou melhor na sua maior profundidade.
Possuo em minha biblioteca, dadas por êle, as Instituiçôes de Georg
Puchta e as de Sohm, que foram uma e outra presentes seus, há
dez anos &trás. Uma noite, em 1917, descendo de Santa Teresa, da
casa do meu mestre e amigo Pires Brandão, o acaso levou a nossa
conversa p-ra o terreno do direito de propriedade no norte, e prin-
cipalmente acêrca do direito de superfície sôbre coqueiros, que ain-
da encontramos em certas praias do nordeste. Era um tema espe-
cializado, que eu conhecia através de uma memória de Waechter,
na qual o mestre alemão abordou o direito de superfície sôbre as
árvores, que já conheciam os romanos, e cujos vestigios se me de-
pararam no litoral nordestino. Capistrano, que não era bacharel
em direito, versou o assunto com uma erudi@o e uma penetração
que me assombraram. Descobri dentro dele um romanista. Dois ..
REVISTA DO INSTITCTO HISTORICO E CGOGR*FICO DF: S. PAULO Si

Mário de Alencar e a Domício Gama, e ambos sorriram do espanto


que eu tivera da grande enciclopédia que era Capistrano.
Um dos seus maiores prazeres espirituais era dar livro. Todo
o estudioso ama sua biblioteca, os seus livros: mas em Capistrano
de Abreu um dos seus paradoxos mais interessantes era a indife-
rença pelo livro lido. Como o guardava na memória, o envólucro
material das idéias o desinteressava. Passava-o adiante, e, se era
obra que o apaixonava, e estava escrita em alemão, por exemplo,
era frequente mandar vir a traducão francesa para presentear os
amigos do seu pequeno círculo intelectual. Nunca vi um homem
pobre, que vivia com recursos escassíssimos, dar tantos livros como
Capistrano."
Por ai se vê que Capistrano de Abreu era um estudioso per-
manente.
O que êle queria era aprender. E por isso lia, lia sem parar.
Pesquisava. Indagava, penetrava os assuntos. Fazia descobertas.
Como dissemos, êle falava da sua pouca vontade de escrever.
E isto contribuiu, e de maneira quase decisiva, para não dizermos
decisiva, para a fama que tinha e tem.
Quando Assis Chateaubriand lhe solicitou um artigo para O
Jornal (edição comemorativa do 3." centenário da morte de An-
chieta), escreveu a João Lúcio de Azevedo:
"Sinto em escrever tanta dificuldade que nada prometi." ';
E a Afonso de Taunay:
"Sinto-me incapaz de trabalho intelectual, já comecei uma
porção de vézes e não passo das primeiras linhas." * *
A Guilherme Studart:
"Como vês, trabalho não falta; sinto, porém, minguada a ca-
pacidade para trabalhar, e escrever torna-se cada vez mais difícil
e mais penoso." ***
Esta e outras manifestações do historiador criaram em torno
do seu nome a pouco boa reputação de avesso ao trabalho. Entre-
tanto leia-se sua correspondência que se encontra eni três grossos
volumes editados pelo Instituto Nacional do Livro, e toda a sua
atividade aparece de forma assombrosa.
Capistrano gostava da sua rede de cearense, porém sempre
com um livro na mão. Há os qua falam da rede e esquecem do
livro.
Escrevia pouco, mas tudo que escrevia era profundamente
pensado. Não queria, com toda a certeza, ver-se como um seu gran-
de amigo ao falecer, e que o próprio Capistrano havia de sentenciar:
C0mes~ioli&ncia, r o l . 11, 13ág. 311.
( 1 Idem. pág. 298.
('..) Idem, pág. 178.
"Deixa livros demais e nenhum bom; a facilidade com que
escrevia não o deixava meditar." *
Poucos intelectuais, no Brasil, estudaram tanto como o autor
dos Capitulos de História Colonial e bem poucos deixaram obra de
tamanho valor.
Chamar a isto de preguiça, é exaltar a preguiça.
E para completar êste capítulo ouçamos, primeiro, Humberto
de Campos:
"Capistrano d? Abreu, foi, efetivamente, a inteligência mais
aguda, e pronta; que as letras brasileiras já tiveram a seu serviço,
nos domínios da História. A verdade acudia-lhe por intuicão, por
instinto; e era servido por essas qualidades que êle mergulhava a
cara barbuda e míope nos alfarrábios seculares, buscando a reti-
ficacão precisa daquilo que adivinhara. Servia-lhe para penetrar
as selvas emaranhadas do passado a percentagem de sangue indi-
gena que lhe corria nas veias. Gle rastreava a verdade como se seu
antepassado americano perseguia o jaguar n a brenha, ouvindo as
passadas surdas através de todos os rumores da natureza. Ao
contrário dos outros historiadores, que chegam ao conhecimento
pela cultura, êle atingiu o máximo da cultura partindo da adivi-
nhacão. Quando abria um livro sabia. já, o que estava lá dentro.
Nos mares misteriosos das letras históricas, éle não navegava como
Cabra1 das antigas tradições, para descobrir por acaso, mas como
Colombo. para confirmar previsão."
E, gora, José Verissimo, ao falar dos Capitulos de História
Colonial:
"Um dos maiores historiadores que a França jamais teve, o
ilustre Fustel de Coulanges, dizia que uma hora de síntese exige
anos de análise. Antes mesmo talvez de conhecer o conceito do
niaior mestre da moderna historiografia francesa. já lhe tivera a
intuição o sr. Capistrano de Abreu.
O seu fnstinto histórico se desenvolveu e fortificou como o seu
espírito histórico se educou n a severa escola cujo discípulo foi
também, aqtes de ser um dos mestres mais autorizados, Fustel de
Coulanges, da moderna historiografia alemã.
O sr. Capistrano de Abreu é, com efeito, um dos poucos bra-
sileiros cujo cultivo espiritual não é exclusivamente francês. e que
possui cabalmente a língua e a literatura alemã. Aquela lhe foi
preciso e indispensável auxiliar nos estudos preliminares das nos-
sas oriqens históricas. Sabe-se a luz que a erudição alemã lan-
ccu sobre a geografia, a história e toda a atividade humana rela-
cionada com o descobrimento e conhecimento da América. E ao
pzsso que dos seus resultados originalmente se informava, apren-

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REVISTA DO INSTITUTO HISTURICO E GEOGRAFICO DE S. P A U L O 89

dia nela métodos seguros das investigações históricas e a seriedade


indispensável a tais estudos, com a modéstia que só dá o saber
laboriosamente feito.
Mas, por bem dêle e nosso, ainda antes de o conhecer, e de se
haver votado aos estudos históricos, em plena juventude, outras
influências nêle atuaram, que deviam dar-lhe ao talento nativo e
a espírito naturalmente inclinado para as idéias gerais, uma dire-
ção filosófica. Esta o livrou de ser um simples erudito sem pensa-
mento, como são tantos na Alemanha, agarrado a só rebusca de
fatos e esterilizado numa especialização infecunda. ( . . .) E se não
nos deu aquela História qual a imaginávamos, deu-nos nos seus
Capitulos de História Colonial a síntese mais completa, mais en-
genhosa, mais perfeita e mais exata que poderíamos desejar da
nossa evolução histórica naquele período."
ORIENTADOR DE MUITOS

Trabalhando, estudando, assim incessantemente, acumulou


cultura, sua única riqueza. Penetrava os mistérios do passado, acla-
rava-os, elucidava-os. E como não era avarento, imediatamente
colocava ao alcance de quantos se interessassem pelos assuntos cul-
turais. O trabalho era seu, os frutos de todos.
Paulo Prado depõe:
"Apesar de uma enorme colaboração em revistas e jornais efê-
meros, a obra principal de Capistrano está talvez na sua formidável
correspondência espalhada pelos mais afastados recantos do Bra-
sil, assim como pela Europa e América. Ninguém se dirigiu a êsse
mestre sem dêle receber, generosamente, informações, conselhos,
idéias, encorajamentos. Corrigia provas dos outros, anotava-as com
rude franqueza, acompanhava com interêsse e simpatia qualquer
tentativa que lhe parecesse aproveitável, promovia intercâmbio de
livros raros, investigava arquivos e bibliotecas por c m t a alheia,
era realmente - êle só - toda uma Academia, toda uma Biblio-
teca, um curso vivo de saber e erudição. Dava assim ags discipulos
a ilusão de que eram colaboradores numa obra comum." *
Vejamos, através de sua correspondência. como auxiliava,
orientava, aconselhava, quantos dêle se aproximavam.
Assis Brasil solicitou-lhe que cuidasse da impressão do livro
de sua autoria A República Federal. Nessa época estava tratando
do seu casamento. Assim mesmo:
"Caso-me; provavelmente já estarei casado quando V. receber
esta carta, parque é 5.a feira, dia 31, que se deve realizar o ato.
Circunstâncias especiais obrigaram-me a precipitá-lo, porque,
se não realizássemos esta semana, encontraríamos da parte do meu
--
) Poulisficn. Ariel, Elitorzr L t d i . . ~ i <ic
o ~ n i i e i r ~1934,
, p j ~ ~ o2 .3 4 ' 2 3
90 REVISTA DO IKSTITUTO EIISTÓRICO E GEOGRAFICO DE S. P A U L O

sogro uma resistência de que V. não poderia formar a mais ligeira


idéia. Entretanto o grande e gravíssimo momento não me impe-
diria de, mesmo esta semana, prestar a República toda a atenção
de que é digna e de que sou capaz, se não houvesse uma circuns-
tância de que não contava.
O tipo renaissance que Leuzinger possui é muito grande rela-
tivamente ao formato do livro; por isso resolvi suspender a im-
pressão até receber resposta sua." *
E note-se que êle não era um indiferente ao matrimônio, pois
na carta seguinte, dizia:
"Desculpe-me e abrace-me. Sou feliz! a minha antiga e cons-
tante aspiração realizou-se e a realidade apenas comentou e escla-
receu o ideal!" **
Para Guilherme Studart informava que tinha ordem do mi-
nistro da Fazenda para continuar a publicação de documento sobre
História do Brasil, já h á anos iniciada com Vale Cabral. E pedia
a Studart que publicasse, metódicamente, documentos relativos ao
Ceará. Entretanto, recomendava:
"Vou-lhe dizer o modo por que me parece que a emprêsa se
poderia realizar. Há documentos que não pedem mais que o tran-
sunto; por exemplo, nomeações, etc. Há outros que devem publi-
car-se integralmente, exemplo: todas as cartas mandadas para o
reino, por mais insignificantes que sejam."
E, a certa altura, um conselho:
"Nos de seu arquivo, conviria indicar a procedência, que infe-
lizmente V. calou no seu catálogo." * * *
Desta carta dirigida a Mário de Alencar:
"No dia 6, aniversário do Werneck, estarei no Rio; espero ficar
lá definitivamente depois da Semana Santa. Mesmo porque Caló-
geras precisa de mim, para ajudá-lo na revisão das provas de um
trabalho mque está empenhado." +*"'
Para Afonso de Taunay:
"Devolvo-lhe, já lidos, os artigos sobre Pedro Taques. Todos
muito intaessantes, um verdadeiro feixe de novidades.
Alguns reparos:
Para notas o meio parênteses é mais elegante. No texto, além
do meio parênteses, conviria usar de tipo menor no alto: as gua-
ritas são rebarbativas. Cuidado com as notas: tenda de levantar
e abaixar os olhos, tem-se a impressão de estar cochilando. Me-
lhor seria reunir no fim de cada capitulo, mas sem chamadas. As-
sim: para tal fato cita-se o documento. Outra seria melhor incor-
porar ao texto.
1.) Currrspondencio. i o l . I. pig. 76
(*V Idem, y&x. i&.
,'..I Idrm, ~ > á g148.
('***) Idem, pág. 211.
REVISTA DO IKSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRAFICO DE S. PAULO 91

Chamo sua atenção para o estilo: há certos hipérbatons des-


graciosos; algumas vêzes reunindo dois períodos num só o estilo
fica mais terso." *
E noutra carta:
"Mais uma vez chamo sua atenção para as parafrases e alu-
sões. Não estará V. em idade de poder ou vir ainda libertar-se dês-
te cacoete? Não tenha mêdo de fazer artigos curtos e siga o con-
selho augusto: pão, pão; queijo, queijo." * *
Procurava informar os amigos até nos mínimos detalhes:
"Por que não manda o original antes de remetê-lo para a im-
prensa? L i que nos Estados Unidos um editor pelo menos assim
procede; na correção de provas da imprensa já o autor n.o deve in-
tervir", escrevia a João Lúcio de Azevedo, em 1917. ***
Ao mesmo João Lúcio de Azevedo, informava:
"Said Ali tem terminada a Lexicologia: falta ainda a deriva-
ção e, se tomar meu conselho, a Semântica: espera no fim do pró-
ximo ano por para fora a Síntaxe." **
E no Prólogo da Lexeologia do Português Histórico, **** Said
Ali manifesta o seu agradecimento, desta forma:
"O meu colega Capistrano de Abreu, não lhe bastando pôr a
minha disposição os tesouros de sua biblioteca, auxiliou-me ainda
na penosa tarefa de rever as provas, sugerindo-me o seu saber opu-
lento proveitosos acréscimos e modificações."
A Paulo Prado:
"Pus seu artigo no correio, com algumas observações secundá-
rias. Acho-o muito dispersivo. A primeira parte deve ser desen-
volvida, posta em ordem cronológica. Convém antes de tudo for-
mar uma idéia clara do São Paulo antigo.
Foi publicada há anos, com o título de Estudos Históricos e
Econômicos a tradução francesa de uma obra de C. Bucher. Está
esgotada. Você encontrará na Europa. Com a leitura V. lucrará
certamente. São Paulo pertence ao chamado oikos, pe 'odo de eco
nomia fechada, economia doméstica, em que o p r o 8 t o r identi:
ficava-se com o consumidor e nem se compra nem se vende.
Os testamentos e inventários oferecem material Fopioso para
a reconstituição. Disseram-me que Alcântara Machado escreveu
bastante sobre êles e ia dar em volume." * * * * *
De fato, em 1943, a Livraria Editora Martins, publicava o livro
de Alcântara Machado, Vida e Morte do Bandeirante, todo êle sò-
lidamente alicerçado nos testamentos e inventários.
E ainda:
"Sobre seus planejados artigos, farei duas observações:
<*>
i*i., ,<i'.".níie
,
.- . ?M
.....
Idem, vol. 11. p i g . 189.
i***) Companhia Melhornnirntos de São Paiilo, 1921. p i g . V
i"') Conspondénna, rol. 11, oág. 425.
i***") Idem, I>&?. 429.
92 REVISTA DO IXSTITUTO I I I S T ~ R I C OE GEOGRAFICO DE S P A U L O

1.' A grandeza de São Paulo é tão pequena que não dê para um


artigo? Escrevendo-o sem se importar com a decadência, que será
estudada a parte, V. verá melhor a realidade, e não se deixará le-
var por cantigas.
2." Nada de equívocos: trata-se de São Paulo vila e município
ou de São Paulo capitania?"
Rodolfo Garcia recebia a seguinte orientação:
"A guerra holandesa poderá ser estudada sob o ponto de vista
geográfico e histórico: geográfico, traduzindo as denominações,
aproveitando Herckman e outros, a histórica, sumamente crono-
lógica. Você deve ir tratando desde já da primeira, que exige in-
vestigação para não ser banal." *
O fecundo Coelho Neto, sabendo Capistrando sempre pronto a
atender os amigos, envia-lhe êste bilhete:
"Hoje não saio. Se quiseres, vem daí animar-me. Preciso de
teu axílio forte para compor o arcabouço do meu livro futuro." **
Sabendo que Assis Chateaubriand, nosso caro e saudoso amigo,
era grande admirador de Capistrano e a ele estivera ligado por
fortes laços de amizade, numa das últimas visitas que lhe fiz, na
Casa Amarela, colhi alguns dados que divulguei em artigos publi-
cados no Diário de São Paulo.
Chateaubriand chegou ao Rio de Janeiro muito jovem mas
já professor da tradicional Faculdade de Direito do Recife, quando
na casa do mestre Pedro Lessa, que era amigo de dois tios do jovem
jornalista, conheceu o autor dos Capitulas de História Colonial. Ali
nasceu a grande amizade que ligou Capistrano a Chateaubriand, o
que nos afirmou: "Em minha vida, ninguém foi mais presente que
Capistrano, de 1915 a 1927."
Saiam quase sempre juntos, principalmente a noite.
"Capistrano jantava muito comigo, falau-nos o dr. Assis. Eu
tenho horyor a whiski, mas êle gostava. Eu o levava a um hotel
onde havia muito bom whisld. Não poucas vèzes o acompanhei até
sua casa bastante bebido. Mas nunca o vi bebedo."
Em 1925, Assis Chateaubriand dirigiu a ediçáo comemorativa
de O Jornal, do 1." centenário do nascimento de D. Pedro 11, a qual
foi secretariada por Mozart Monteiro. Capistrano indicava os que
deviam colaborar na edição e êle próprio escreveu um artigo, mas
não quis receber a importância de um conto de réis que lhe fora
destinado pelo trabalho e orientação. Tempo passado, a esposa de
Pandiá Calogeras, Dona Siloca, disse a Chateaubrinad:
- O Capistrano está precisando muito passar uma temporada
nas Aguas de São Lourenço. Mas Jone - ela chamava Pandiá em
inglês - me disse que êle está sem dinheiro para viajar. . .
I.) Idcni. pá:. 491.
( 1 I d e ~ i i . r o l . 111. p B g 167.

-
REVISTA DO INSTITCTO I I I S T 6 R I C O E G E O G R . W I C 0 DE S PACLO 93

- file tem no cofre do jornal um conto de réis, há três meses.


É só i r buscar, informou Chateaubriand.
Pouco depois, a esposa de Pandiá, comunicou ao jornalista que
Capistrano só aceitaria quinhentos mil réis. E uma noite o histo-
riador apareceu no jornal, dirigiu-se ao gerente, e solicitou que lhe
desse os "quinhentões baianos", que estavam a sua espera. . .
No dia 18 de novembro chegou a noticia do arnlisticio. Ter-
minava a primeira grande guerra. Capistrano foi buscar Chateau-
briand no "Jornal do Brasil", onde êste era redator-chefe. Saíram
para jantar e o historiador quis ir ao famoso restaurante Brama,
alemão. mas quando lá chegaram encontraram o restaurante de-
predado. . .
- Isso é obra do Nilo Pecanha. Ele mandou que praticassem
estragos para fingir que o povo está exaltado pelos aliados.. . co-
mentou Capistrano.
Chateaubriand convidou-o para irem a outro restaurante, ao
que êle respondeu:
- Não, vamos jantar na casa do Calógeras!
- Capistrano, tomou Chateaubriand, são mais de oito ho-
ras. . . Calógeras janta cêdo. . .
- Mas nós vamos puni-lo porque êle ê aliado e não pudemos
jantar no Brama. . .
Tomaram um táxi e chegaram a casa de Calógeras as nove
horas. Êle estava recolhido no primeiro andar. Dona Siloca, porém,
desceu e preparou um bom bife para ambos.
O CIVISMO DE AURELIANO LEITE
Luiz Tenório de Brito

Despontou com o adolescente e se tornou uma constante em


tóda a vida do cidadão.
Homem público por vocação, como no artista nasce o poeta
ou o pintor, Aureliano Leite exerce a função que a circunstância
lhe atribui com denódo e convicção - tendo o bem público por
norte. Lances tremendos de temeridades que arrostou, quando
na atividade política, em busca de rumos que julgava acertados
e que pontilham "PAGINAS DE UMA LONGA VIDA", ilustram o
que afirmo.
Deputado Federal por longo tempo, as iniciativas de natu-
reza cívica e nítido interesse nacional, que defendeu no de-
sempenho do mandato que recebeu do eleitorado paulista, são
numerosas e de alto merecimento. Haja vista o voto que profe-
riu, vitorioso, na questão que surgiu no parlamento, sobre aquilo
que se convenciou chamar de "língua brasileira" - trabalho de
erudição e profundidade que empolgou toda a Câmara, atraindo
para o seu derredor, face a seguranca da argumentação empre-
gada, as personalidades de maior destaque cultural, com assento
no plenário da represerilayáo política do Pais.
Indicado, sempre, para compor comissões técnicas ou não,
de responsabilidades evidentes - coube-lhe dirigir, em. nome da
Nação, os votos de boas vindas a Pátria, depois de dezessete anos
de exilio, ao ex-presidente Washington Luis. Adversários politi-
cos que haviam sido, houve-se com extraordinária degância e
superioridade no desempenho da magna incumbência.
Resíduos de mágoas porventura existentes no fundo da me-
mória do antigo oposicionista - 18 se mantiveram: não vieram
a tona tisnar a beleza do momento que se curvava a passagem
do ínclito varão.
Não deixou correr em branco o Deputado Aureliano Leite o
prestígio político de que gozava. Voltou-se-lhe o pensamento de
patriota para o litígio que há séculos se feria em trechos da linha
divisória de São Paulo e Minas.
A sua diaiética convincente, entenderam-se os governos inte-
ressados e, removidos entraves que afinal pouco representavam
96 REVISTA DO ISSTITUTO HIGTÓRICO E GEOGRAFICO DE S. PALTLO

face a magnitude do objetivo a atingir, acertaram-se definitiva-


mente os limites entre as duas grandes unidades da Federação.
Mas o civismo de Aureliano Leite não se afere apenas pelos
elementos acima enumerados. Episódios outros, de natureza pa-
triótica e em grande cópia, encontram-se a espaços no seu riquís-
simo currículo.
É bastante atentar-se para a sua vasta e preciosa bibliogra-
fia. Cada qual dos seus livros representa valiosa expressão de
interêsse publico a reclamar atenção.
Os estudos objetivamente levados a efeito sóhre o drama da
unidade do Brasil, em torno a Coroa Portuguêsa. no caso da
Aclamação de Amador Bueno, a "História da Civilização Paulis-
ta", que resume quanto de extraordinariamente há de fascinante
em pesquisas relativamente ao papel de São Paulo n a formação
do Brasil e mais recentemente "Páginas de Uma Longa Vida",
razão desta homenagem, assumem a fisionomia de verdadeiras
aulas oferecidas a quem desejar orientar-se no alto sentido de
bem servir a Pátria.
Em plena. produtiva e benemérita atividade civica, em
excessivo rigor de aplicação da auto-critica, abriu mão Aureliano
Leite, prematuramente, de qualquer ação de caráter político.
Beneficiou-se com êsse inusitado gesto de desprendimento o
Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, que o foi buscar
em hora de feliz inspiração para substituir o brilhante Dr José
Pedro Leite Cordeiro que, por motivo de moléstia, deixou a presi-
dência da Casa.
E aqui se encontra êle, o Dr. Aureliano Leite, promovendo
vigilante e progressiva administração a frente do venerando
Sodalicio.
O I1 COLOQUIO INTERNACIONAL DE
ESTUDOS LUSO-BRASILEIROS
Vinicio Stein Campos

Em 1954, ao ensejo do IV Centenário da Fundação de São


Paulo, reuniu-se nesta Capital o I1 Colóquio Internacional Luso-
Brasileiro, de que participaram, entre outros, os seguintes con-
gressistas do exterior: Howard F. Cline, Lewis Hanke, Ronald
Hilton, Carleton Spregue Smith, Robert Smith, Francis Millet
Rogers, todos dos Estados Unidos; Salvador Lopes Herrera, da
Espanha; Padre Serafim Leite, Manoel Lopes de Almeida, Manuel
Paiva Boléo, Mario Tavares Chico, Hernani Cidade, Jacinto de
Almeida Prado Coelho, Guilherme Braga da Cmz, Antonio Jorge
Dias, Victorino Nemézio, Zeferino Ferreira Paulo, Reynaldo dos
Santos e Inocêncio Galváo Telles, de Portugal.
Da Comissão Organizadora, trabalhando sob os auspicios da
Universidade de S. Paulo, fizeram parte, além do Reitor Ernesto
Leme, os professores Waldemar Ferreira, José Soares de Melo.
Percival de Oliveira e Mario de Sousa Lima e os historiadores
J. F. de Almeida Prado e Aureliano Leite; como coordenador o
Prof. Antonio Soares Amora. Designado Ernesto Leme para repre-
sentante do Brasil na ONU, o substituiu na presidência o Profes-
sor José de Me10 Morais. Deu ao colóquio inconteste relevo a
vinda a S. Paulo do chanceler português Paulo C u n h a , ~ u etomou
parte na solenissima sessão de abertura no pomposo e vasto salão
da Faculdade de Direito do Largo de S. Francisco, oferecendo e
pregando ao peito de cada membro da Comissão, em nome do
Govêrno de Portugal, a comenda da Ordem Militar de Cristo.
O elenco de historiadores e estudiosos dos assuntos versados
no importante temário do conclave, procedentes dêste Estado,
não poderia ser mais brilhante: Ernesto Leme, Antonio Soares
Amora, Alfredo Buzaid, Aureliano Leite, Manuel Nunes Dias,
Basileu Garcia, Euripedes Simóes de Paula, Mario de Souza Lima,
Ruy Rebelo Pinho, João Femando de Almeida Prado, Myrian
Ellis, Alice Pifter Canabrava, Olga Pantaleáo, L. A. da Gama e
Silva, Edgard Cerqueira Falcão, José Soares de Melo, Guelfo Os-
car Campiglia, Eduardo de Oliveira França, Oscar Barreto Filho,
Rone Amorim, Carolina Bresslau, Esdras Borges Costa, Waldemar
98 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRBFICO DE S. PAULO

Ferreira, Carlos de Assis Pereira, Nair Miranda Pirajá, Pe. Ramon


Ortiz, Odilon Nogueira de Matos, Jamil Almansur Haddad, J.
Dalmo F. Belfort de Matos, Theodoro Henrique Maurer Jr., Madre
Stela Fraga de Almeida Sampaio e outros. Da Bahia concorre-
ram Monsenhor Manuel de A. Barbosa, Carlos Eduardo da Rocha.
Helio Simões; do Rio de Janeiro - Mario A. Barata, Americo
Jacobina Lacombe, Antenor Nascentes, José Hosório Rodrigues,
Helio Viana, Serafim Silva Neto, Thiers Martins Moreira, Paul
Antoine Evin, Edson Nery da Fonseca, Celia Loureiro Goes, Joa-
quim Matoso Câmara Junior, Irene de Menezes Dória; de Per-
nambuco - Francisco Barreto Rodrigues Campelo; de Santa
Catarina - Henrique da Silva Pontes.
A simples enumeração dos participantes do certame, que
entre outros, teria o mérito de assinalar de maneira esplêndida
a passagem do IV Centenário da Cidade de São Paulo, permite
avaliar a importância dos estudos desenvolvidos nesse colóquio
e infelizmente até hoje não divulgados, pois os Anais não foram
ainda publicados, mau grado os esforços feitos nesse sentido por
vários dos participantes do notável conclave. Evidentemente que
a não publicação dos Anais do I1 Colóquio Internacional de Estu-
dos Luso-Brasileiros retira ao magno certame qualquer signifi-
cação, dando-o mesmo como inexistente, pois .as suas atividades,
conclusões, debates, pareceres, votos e moções resultaram inúteis,
uma vez que não se complementaram e se esvaziaram no silêncio
dos arquivos em que ficaram mofando.
A situação coloca mal São Paulo perante os que se desloca-
ram de seus Estados e de seus Países para trazer uma contri-
buição ao certame comemorativo, e se viram frustrados em suas
esperanças e seus esforços, pela ausência de qualquer repercussão
dessas atividades. Qual seria a causa determinante da lamentá-
vel falha do I1 Colóquio? Falta de recursos para impressão da
obra? Dificuldade de ordenação do material? O Sr. Aureliano
Leite, atua? Presidente do Instituto Histórico e Geográfico de
São Paulo, que teve atuação destacada na realização dêsse certa-
me, o ilustre Historiador está em condições de contribuir para
que o já histórico certame paulistano alcance as suas finalidades
culturais através da divulgação dos respectivos Anais, e todos
possam ter acesso a valiosissima documentação nêle reunida.
Mas, na verdade, a obrigação da publicação dos preciosos
anais do velho colóquio, ainda que bem tarde, mas mais vale tarde
do que nunca, cabe á Universidade de S. Paulo, depositária dos
originais.
Para se ter uma idéia do que teria sidc. êsse notável encontro
de historiadores e cientistas de 1954, em São Paulo, reproduzi-
mos a seguir algumas moçõeós aprovadas no referido certame e
que vão adiante integralmente transcritas:
REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRhFICO DE S. P A I J L O 99

I1 COLLOQUIUM INTERNACIONAL DE ESTUDOS


LUSO-BRASILEIROS

I1 SECÇAO - LíNGUA
(ENCERRADO A 18 DE SETEMBRO DE 1954)

MOÇOES

I - Propomos ao plenário do I1 Colloquium que se peça a


colaboração de geógrafos e historiadores, no próximo Colloquium
Luso-Brasileiro para contribuirem n o sentido de se fixarem as
normas pelas quais se regula a grafia dos toponimos ultramari-
nos e indigenas do Brasil.
a,) Theodoro Henrique Maurer Jr.
Antenor Nascentes
a,) Mano de Souza Lima, presidente
Aprovada em sessão de 17 de Setembro de 1954
I1 - Os membros participantes da Secçáo de Língua do I1
Colloquium Internacional de Estudos Luso-Brasileiros, realizado
em São Paulo, por ocasião do IV Centenário da Cidade, tendo tido
oportunidade de, uma vez mais, durante o desenrolar dos traba-
lhos observar a comunidade de sentimentos e pensamentos que,
no labor cientifico, como alhures em outros domínios, tanto apro-
xima os homens que se dedicam aos estudos de raizes prtugués-
sas, aprovam a presente moção no sentido de que veriam, com
sumo prazer, o interesse dos intelectuais luso-brasileiros em prol
de uma decidida preservação da unidade da língua comum, prin-
cipal esteio de uma cultura milenar e heróica que, no dizer de
ilustre sociólogo, se acha, hoje em dia, infelizmente ameaçada.
Sala das reuniões,
São Paulo, 18 de Setembro de 1954
a,) Silvio Elia
Serafim Silva Neto
Antenor Nascentes
Mattoso Camara
Manuel de Paiva Boléo
Mario de Souza Lima
Aprovada,
São Paulo, 17 de Setembro de 1954
a.) Mario de Souza Lima, presidente
111 - Proponho que a Comissão Organizadora do I1 ColIo-
quium Internacional de Estudos Luso-Brasileiros recomende aos
investigadores também nos seus estudos a expansão dos portu-
1W REVISTA DO INSTI'IVTO HISTORISO E GEOGRAFICO DE S. PAULO

guêses do Continente para os três arquipéIagos atlânticos (Madei-


ra, Açores, Ilhas do Cabo Verde) e daí para as Américas (do Sul
e do Norte) e as influências recíprocas que se manifestem.
a,) Francis M. Rogers
Universidade de Harvard
São Paulo
17 de Setembro de 1954
Aprovada.
São Paulo. 17 de Setembro de 1954
a.) Mario de Souza Lima, presidente.
IV - Tendo a Secçáo de Língua reconhecido a necessidade
urgente de se fazerem estudos dialetais com o verdadeiro método
científico, e levando-se em conta que i á existe, no Museu Nacio-
nal do Rio de Janeiro, um Centro de Dialetologia Brasileira, pro-
pomos que a Comissão Organizadora dêste Colloquium se empe-
nhe por consgeuir das Entidades Oficiais os meios necessários
para que o referido Centro possa, não só realizar inquéritos de
campo, mas também recorrer periòdicamente a correspondentes.
São Paulo, 17 de Setembro de 1954
a,) Manuel ?ie Paiva Boléo
Antenor Nascentes
Henrique Fontes
Mario de Souza Lima
Serafim da Silva Neto
Mattoso Camara Jr.
Aprovada
São Paulo, 17 de Setembro de 1954
a,) Mario d eSouza Lima - presidente
5" SECÇAO - ELEMENTOS DE INVESTIGACÃO
PROPOSTA DE MOÇÃO
Em sua~omunicaçãoapresentada em 15 de Setembro de 1954,
a 5." Secção do Colloquium, a Sra. Maria José Lessa propõe:
"que uma moção seja dirigida às autoridades, encare-
cendo o alto mérito de medidas praticas (verba e pessoal
competente) que permitam a organização sistemática do
material documentário existente nos grandes e peque-
nos arquivos brasileiros, e ao mesmo tempo a cópia de
preciosa documentação relativa ao Brasil na Torre do
Tombo e demais arquivos portuguêses;
- que um maior intercâmbio se promova entre as bibli-
tecas dos dois países irmãos.
RUI E DREYFUS
Fernando Whitaker da Cunha

A primeira coisa que deve ser dita sobre o livro "Rui e a


Questão Dreyfus", de Soares de Mello, é que representa a mais
séria refutação, embora setorial, a "Rui, o Homem e o Mito", de
Magalhães Junior. Em outras respostas ao estudo polêmico do
autor de "Artur Azevedo c sua Época", excelente reconstituição
histórica, faltaram novos argumentos, embasados em sólidas pes-
quisas, e mesmo autenticidade criadora.
A tese de Magalhães objetivava a desmitificacáo de Rui,
através da reabertura de um debate histórico e político, encon-
trando iniludível precursora na substanciosa conferência de Moniz
Sodré, "Rui Barbosa perante a História", na qual, entre outras
coisas, se afirmava que a palavra do admirável homem público
"pode sempre ser invocada em favor das idéias mais antagónicas,
em defesa de doutrinas opostas e das situações mais diversas".
Em verdade, por ter vivido muito, sentindo intensamente a in-
fluência das épocas, legou-nos, Rui, um pensamento, cuja inter-
pretação, constantemente, exige do estudioso um esfórço herme-
nêutico. Afirmou Anatole que "quem vive pouco, muda pouco".
Oposto foi o exemplo de Rui, sem que suas mudanças deixassem
de ser uma evolução em suas idéias, como político e como advo-
gado, qualidades das quais não se poderá jamais o subtraía e
nas quais conflitavam a admiração pelo conciso espírito saxónio
e a predestinação equatorial para o caudaloso.
"Changeant, nous contemplons un monde qui cbange", sen-
livres.
v . -
tenciou Montaime. homem aue nos ensinou a ser intelieentes e
Escreveu o insuspeito Leonidas de Rezende ("Rui, Cordilhei-
ra", pg. 13) que Rui é manancial "de onde, muito se tem extraído
e de onde há sempre a extrair", inclusive os elementos para pre-
cisar as suas dimensões reais, afastados desnecessários exageros,
quer de apologetas, como Orlando Ferreira ("Rui Barbosa e seus
Detratores"), quer de críticos extremados como Ernesto Bagdó-
cimo ("Contradições e mentiras documentadas do senador Rui
Barbosa, na campanha eleitoral de 1919").
Não há dúvida que o ensaio de Magalhães Junior atingiu a
sua finalidade precipua, pela repercussão que teve, provocando
102 REVISTA DO INSTITUTO HISTORICO E GEOGRAFICO DE S. PACLO

uma revisão vertical de Rui, apesar de algumas passagens impre.


cisas como aquela em que afirma ter o senador pela Bahia obs-
truido longamente o projeto do Código Civil, "armando em torno
dêle simples e mesquinha batalha gramatical, sem inovar uma
só letra no terreno jurídico", assertiva essa que o conhecido tra-
balho de San Tiago Dantas ("Dois Momentos de Rui Barbosa")
demonstra não ser exata.
O veemente libelo de Magalháes Junior teria que provocar
uma reação também calorosa como a de Soares de Mello, legítima
"contra spinta" criminosa, no dizer de Romagnosi. Jurista abali-
zado ("A Receptação", na qual assinala a autonomia dêsse delito,
como autoria posterior, e "O Delito Impossível", em que aborda
matéria não suficientemente estudada, na época, expondo, com
segurança, autoridade e denodo, as doutrinas, após o exame da
jurisprudência comparada sóbre o assunto, e tirando ilações de
grande valor pessoal, impregnadas de honestidade intelectual e
idealismo, razão pela qual advertia: "sentimo-nos no dever de
contribuir quanto em nós esteja, para que o nosso futuro Código
corresponda ao que de melhor se tem observado aqui e alhures
na doutrina, na Jurisprudência e na Legislação"), eminente Pro-
fessor de Direito Penal, transmitindo uma concepção heróica,
eloquente e estética da ciência jurídica, acima da rotina dos esta-
tutos repressivos, brilhante historiador de "Os Emboadas", consi-
derado o melhor relato dessa epopéia nativista, preciso analista
politico, como prova o estudo "Aspiraçóes e Interêsses Nacionais",
admirável orador pela congruéncia de principias formulados
numa palavra ardente e entusiasmada. membro da Academia
Paulista de Letras, integrante da comissão de estudantes que
convidou Rui para a ocasião em que foi pronunciada a "Oração
aos Moços", a vida de Soares de MelIo foi sempre um hino a
nobres ideais e de uma exemplar fidelidade a Rui.
A resposta a Magalhães Junior, por conseguinte, foi uma
imposição de seu caráter e de sua formação intelectiva. fazendo
surgir éste gvro barroco, no sentido que dá, ao vocábulo, o pene-
trante Jorge Luiz Borges, referindo-se a "aquele estilo que deli-
beradamente agota e quiere agotar sus possibilidades". Soares
oferece-nos uma análise minuciosa e exaustiva da obra de Maga-
lhães Junior, não raro detendo-se em meros detalhes na sua im-
piedade de censor. Todavia, em substância, a sua refutação cor-
rige, irrespondivelmente. várias afirmações de Magalhães, quan-
to a participação de Rui, no "affaire" Dreyfus, que inspirou a
Kafka, também judeu, "O Processo", e que, no fundo, foi mais
uma contenda de ordem política entre anti-semitas e anti-milita-
ritas, quando não entre monarquistas e republicanos, e na qual
se empenhou, a fundo, a inteligência francesa, como bem reflete
a obra de Proust.
REVISTA D O INSTITUTO HISTORICO E GEOGRAFICO DE S PAULO 103

Entendemos que a imprensa inglêsa, através de órgãos


representativos, foi a primeira defensora de Dreyfus e que Rui,
influenciado imediatamente por ela, redigiu a célebre "carta da
Inglaterra", articulando o magnífico arrazoado em prol do injus-
tiçado, aliás o pioneiro, no qual se agita uma indisfarçável con-
tribuição pessoal, onde se destaca o veemente libelo contra a
retroatividade penal da lei francesa. ("O espetáculo daquela viti-
ma inocente, imolada a preconceitos de classe e de raça, pondera
João Mangabeira, em "Rui O Estadista da República", pg. 84,
levanta o protesto de seu espírito jurídico, o clamor de sua cons-
ciência liberal"). Foi ele, na expressão de Raimundo de Menezes
("O Caso Dreyfus" - "Investigações". n." 18), o "primeiro advo-
gado estrangeiro que ergueu a voz para defender o desafortunado
capitão". Certo é, todavia, que o ensaio de Rui, objetivando uma
velada critica de nossa política, "encerra lancinante confronto
com a situação do Brasil", conforme adverte Luiz Viana Filho
("A Vida de Rui Barbosa", 1." ed. pg. 191).
"Conheceu a opinião da Inglaterra auscultando-a através das
gazetas londrinas, concorda Soares de Mello (pg. 71). Merecedo-
ras de crédito, representavam o sentir do país. Não as reproduziu
servilmente". Assim como Scheurer-Kestner, falecido no dia em
que Dreyfus foi agraciado, revelou ao público o nome do traidor,
o comandante de infantaria Esterhazy, o jornalista Bernard h-
zare, segundo Denise le Blond-Zola ("La Vida de Emilio Zola",
pg. 172) foi, por sua vez, o primeiro que, em um folheto, emitiu
dúvidas sobre a legalidade do processo de Dreyfus, cujos fatos
eram "relatados das maneiras mais desencontradas pelos vários
jornais franceses, ao saber das suas opiniões politicas", como
nos conta Alberto Pessoa ("A Prova Testemunhal", pg. 81), e cujo
desfecho arrancou de Eça o desabafo de que, com êle, "morreram
os últimos restos ainda teimosos de meu velho amor latino pela
França", provando Soares de Mello que se equivocara.Magalhães,
quanto a participação de Paul de Cassagnac no rumoroso caso.
Interessante, nesse, a colocação de Coppée. Magalhkes (pg. 206
da 2." ed.) assevera que êle se alinhara "nas fileiras exaltadas
dos adversários de Dreyfus". Soares (pg. 138) considera-o "anta-
gonista até certo tempo", convertido por Zola e Marcel Prévost
ao dreyfusismo. Pesquisas que fizemos nos convencem que a
posicão de poeta, que juntamente com Baudelaire, influiu, em
determinada fase de Verhaeren, na opinião de Sergio Milliet,
("Quatro Ensaios", pg. 77), não foi totalmente fixada. Coppée
conhecera Zola no Salão de Mme. Paul Mourice, passando a
frequentar sua casa em Batignoles e em Médan, tornando-se
pessoa de sua maior intimidade. Zola, desde a infância, era um
sedento de justiça, influenciado pelas ações reivindicatórias de
sua mãe sobre o canal de Aix, construído por seu pai. asses pro-
104 REVISTA DO INSTITUTO HISTÕRICO E GEOGRLFICO DE S. PAULO

cessos foram, aliás, as raízes de sua crítica social. "E1 nirío pasaba
e1 dia en e1 campo, historia Hector P. Agosti ("Emilio Zola".
pg. 12), mientras la madre correteba por 10s tribunales y bufetes
de 10s abogados perdiendo pleito trás pleito". Zola, a quem a
causa dos "dreyfusards" era simpática, foi definitivamente con-
vencido, da inocência do capitão, por Mme. Leblois, advogada e
amiga do coronel Picquart, descobridor de um documento escrito
pelo verdadeiro culpado, que fora levada ao hotel da rua de Bru-
xelas, onde o planfetário de "J'accuse" ficava em Paris, quando
vinha de Médan, por Marcel Prévost.
Zola documentou-se para a campanha como o faria se fosse
escrever um romance, passando a atuar sobre seus amigos. A
Coppée convenceu tão completamente da inocência do militar que
êle se comprometeu a se integrar na cruzada, chegando, até, a
preparar um artigo para "Le Journal", que Fernand Xau se ne-
gou a publicar. "Coppée se dejó convercer, denuncia Denise Zola
(op. cit. pg. 175), con una docilidad desconcertante. Y rehizo
su articulo en un sentido y en unos términos totalmente opues-
tos. Allí terminó la amistad que tantos anos habia durado entre
Zola y Coppée".
Como se vê o autor de "O Criminoso" várias vêzes trocou
de posição na questão Dreyfus, obedecendo a sua conversão final
a uma dinâmica existencial toda particular. Não tinha êle, como
Zola, o apetite do perigo que fazia com que êsse se desse com o
escritor anarquista Laurent Taillade, o qual interpelado sobre
Vaillant, que jogara bomba na Câmara, respondeu com o fami-
gerado "beau geste": "Que importe les victimes si le geste est
beau". Resposta idêntica teria dado êle no banquete oferecido
pela revista "La Plume" e onde se faziam presentes, também.

.
Mallarmé, Verlaine e Zola. Aliás, os anarquistas estavam com
Dreyfus, porque o processo desprestigiara a Autoridade e a
Reação.
A obra de Rui é uma "obra aberta", nos têrmos propostos
por UmberQ Eco: "o leitor do texto sabe que cada frase, cada
fgura se abre para uma multformdade de significados que éle
pode descobrir". O trato que fêz êle do processo Dreyfus lhe pos-
sibilitou, talvez, maior visão para o exame das questões sociais,
sendo preciosas as observaq5es de Ernesto Leme, em "Ruy e a
Questão Social".
O livro de Soares de Mello, eloquente peça lavrada numa
linguagem pura, refletindo um temperamento sensível e uma
inteligência poderosa e perquiridora, trazendo contribuições no-
vas para o tema, que tão vigorosamente estudou, é retrato pul-
sante de uma época e da participação nela de um homem, cuja
vida pública ensejará sempre controversias, e que tenderá a
crescer com a própria humanizaçáo.
PAULISTAS NOS SERTOES DO OURO
FERNAO DIAS PAIS
Myriam Ellis

Bandeirante e precursor de uma época que não logrará


atingir, Fernão Dias Pais destaca-se entre os homens cuja ação
pioneira, no século XVII, tornou possíveis e mais rápidas a evolu-
ção e as transformações do Brasil na última fase do periodo
colonial.
Não é bem a figura do jovem e vigoroso sertanista caçador
de índios e conquistador do Tape, ou do paulista de "maior cabe-
da1 e gente", de estimável prestígio social na comunidade paulis-
tana seiscentista, mas a do inflexível e pertinaz sexagenário, o
ruivo e agigantado Governador das esmeraldas, que penetra e se
projeta no cenário histórico brasileiro, pela trilha da sua última,
grandiosa e paradoxal aventura: a expedição das esmeraldas e
da prata, de capital importância na História da expansão geográ-
fica do Brasil colonial e do povoamento do sertão brasileiro.
Para compreendê-lo, bem como a sua atuação e a sua partici-
pação no meio em que viveu e na História do seu tempo, impres-
cindível se torna conhecer prèviamente o ambiente, a época e os
homens que o rodearam e os acontecimentos de que participou
para o cumprimento da sua missão dentro do processo histórico
pertence.
O MEIO

A TERRA - A modestíssima vila de São Paulo de Pirati-


ninga dos tempos coloniais, encravada no sertão a mais de 700
metros do nível do mar, predestinou-a a geografia a soberania
expansionista do Planalto Meridional brasileiro.
Ao inicio da colonização do Brasil, ao galgar, a altura de São
Vicente a Serra do Mar, revestida pela exuberante mata tropical
atlântica, deparou o povoador com uma região de vastos campos
cobertos de vegetação de pequeno porte, característica dos solos
pobres e pouco profundos. Eram os campos de Piratininga já fre-
quentados pelo índio e onde se estendia a planície aluviai formada
pelos Tietê, Pinheiros, Tamanduateí e respectivos afluentes. Ainda
106 REVISTA DO IKSTITL'TO HIST6RICO E GEOGRAFICO DE S. PAULO

na paisagem: colinas arredondadas e de acentuados declives des-


tacavam-se das várzeas freauentemente inundáveis. O clima tro-
pical, temperado pela altituâe, em contraste com o interior quente
e o litoral caracteristicamente tropical, favorável às endemias;
clima de aspectos locais, decorrente da situação geográfica e topo-
gráfica da região a 750 metros de altitude e sob o trópico de Capri-
córnio que permite a São Paulo ser uma área de transição para
outras de regimes climáticos diferentes. Temperaturas moderadas
sujeitas a grandes oscilações decorrentes do predomínio periódico
de diferentes massas de ar conferem ao clima paulistano um cará-
ter estimulante, pelas variações bruscas de temperatura em redu-
zidos espaços de tempo, estimulante e renovador de energias e da
eficiência humana, eliminador das grandes endemias tropicais e
favorável ao povoador europeu. Propiciou o estabelecimento do
colonizador, o desenvolvimento demográfico, a constituição física
do paulista, a sua vitalidade e eficiência de homem afeito a enfren-
tar a agressividade do sertão.
Destarte, o planalto paulista, na região vicentina, sobrepujou
o litoral, de estreita faixa costeira, de terrenos baixos de mangues
e pântanos, de solo pobre e impróprio para a grande lavoura, de
clima favorável às endemias tropicais, fatores do quase abandono
da costa pela serra acima e, portanto, do deslocamento de coloni-
zação do litoral para o planalto.
Assim, na colina que pertence ao espigão divisor das águas do
Anhangabaú e do Tamanduateí, a 25 e 30 metros do fundo dos
vales circundantes, ergueram os padres da Companhia de Jesus
o Colégio de São Paulo de Piratininga, inaugurado a 25 de Janei-
ro de 1554.
A acrópole oferecia condições de segurança e defesa contra
o índio e o colégio congregou os moradores daqueles campos em
povoado erigido a Vila de São Paulo de Piratininga seis anos
depois.
Área de convergência das linhas do relêvo e do sistema hidro-
gráfico da região e, portanto, centro de entrosamento de passa-
gens natur&s, dessa excelente posição geográfica do sítio paulis-
tano teria decorrido o estabelecimento da vila naquele local e o
seu destino pioneiro. Seguindo as linhas do relêvo, três são as
grandes passagens naturais que parcem de São Paulo e que con-
dicionaram as diretrizes da expansão:
a) passagem rumo nordeste, pelo vale do Paraíba, rota das
expedições para Minas Gerais, rio São Francisco, norte
e nordeste do Brasil;
b) passagem para o norte, por Campinas e Mogi-Mirim, em
direção a Minas Gerais e Goiás;
c) passagem em direção ao sul e sudoeste, via Sorocaba e
Itapetininga, visando as regiões meridionais do país.
REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRAFICO DE S. P A U L O 107

As duas primeiras resultam da posição da Serra da Mantiquei-


ra que penetra em São Paulo pelo norte, como uma cunha cuja
ponta é o morro do Jaraguá. De um lado e de outro situam-se.
então, a passagem da planície do Paraiba para nordeste e a passa-
gem em direção norte formada por extensa faixa de terrenos mais
ou menos planos, de configuração quase uniforme que se estendem
do nordeste do Estado (Mocóca, Casa Branca), até o sudoeste
(Itararé, Faxina), descrevendo amplo arco de circulo, cuja face
convexa passa nas proximidades de São Paulo, por Campinas e
Itu. São terrenos que, para oeste, seguem-se logo após a escarpa
da Mantiqueira, ao norte de São Paulo e para o sul sucedem-se
a topografia movimentada. da Serra de Paranapiacaba.
A passagem rumo sul é a própria continuação daquela faixa
de terrenos mais ou menos planos e de configuração quase uniforme
que continuam em direção as partes meridionais do Brasil, infle-
tindo para sudoeste na altura de Itapetininga. Foi a passagem
que facilitou as incursões dos paulistas até o vale do Paranapa-
nema e seus afluentes da mareem esquerda, onde se estabeleceram
os jesuítas em terras do alto Paraná no século XVII. Nesses terre-
nos localizam-se os campos de Sorocaba e de Itapetininga, aprovei-
tados nas comunicaçóes estabelecidas não só com a região do Pa-
raná, como de Santa Catarina e Rio Grande do Sul, percorrida
e devassada pelos bandeirantes.
Além disso, São Paulo tornou-se a escala intermediária das
comunicações entre o planalto e o litoral. O Caminho do Mar,
antiga trilha de índios, foi a principal via de passagem da Capi-
tania de São Vicente através da serra, não obstante as grandes
dificuldades ao livre trânsito.
Ainda. A presença do rio Tietê fêz do sitio de São Paul0 o
centro natural de importante sistema hidrográfico da região.
Outrora acessível pelo Tamanduatei, cortando todo o território
paulista rumo noroeste e atirando-se no rio Paraná, o Tietê esta-
beleceu comunicações fluviais para a região de Mato Grosso. Por
aí navegaram as monções cuiabanas da época da mineração do
ouro naquela região. a
Do ajuste do relêvo e da hidrografia decorreu a situação privi-
legiada de São Paulo como centro de expansão por excelência do
Planalto Meridional. Convergiam para São Paulo:
a ) o caminho do Vale do Paraíba, que conduzia ao sopé da
Mantiqueira, de onde partiam serra acima as trilhas que
levavam 5s Minas Gerais;
b) o caminho do Sul rumo as missões jesuíticas da América
espanhora e alvo dos bandeirantes paulistas apresadores
de índios;
c) os caminhos do norte; o que por Mogi-Mirim atingia as
minas de Goiás e o que, pela região de Atibaia e Bragan-
108 REVISTA DO INSTITUTO HISTORICO E GEOGRLFICO DE S. PAULO

ça ganhava o sul de Minas. Teria sido o roteiro praticado por


Fernão Dias Pais ao sertão mineiro, em busca das legendárias
esmeraldas;
d) o caminho fluvial do Tietê rumo oeste, às minas de
Cuiabá;
e) o caminho do Mar para o litoral, eixo do sistema São
Paulo-Santos.
São Paulo assentava, pois, a montante de uma estrêla de carni-
nhos num centro de circulação fluvial e, ainda, na divisória de
climas. Nos dois quadrantes que se lhe abriam em frente alarga-
vam-se matos e campos; e o n o e as trilhas dos índios seguiam
nas várias direções de leste a oeste, de norte a sul. De acordo
com as épocas do ano, podiam as Bandeiras internar-se em todos
os rumos dessa "rosa dos ventos" meio aberta. Cortar-lhes os cami-
nhos equivaleria a sufocar o pequeno e pobre, mas enérgico e
impetuoso grupo social paulista isolado do litoral pela serra e
rodeado pelo sertão, onde o homem ia buscar o "remédio para a
sua pobreza" - o índio para o trabalho e para o comércio - e
procurar tesouros naturais de pedras e metais preciosos.
---000--

A SOCIEDADE - Estabelecida a borda do sertão, voltada


para êle pelos interesses e aspirações e, vivendo dêle, respirava a
sociedade do núcleo paulistano uma atmosfera impregnada de
sertanismo.
Sociedade de reduzidas possibilidades materiais, auto-sufi-
ciente, a inexistência de compromissos do homem com o latifúndio
facilitaria a expansão do paulista.
O índio era o maior dos bens materiais. Figurava entre os
valores arrolados em inventários, nos dotes de casamentos, nos
pecúlios deixados em testamento. Era instrumento de comércio,
braço para a lavoura, mão-de-obra para o trabalho em geral,
transporte sara as cargas e guia para o sertão.
E foi elemento de miscigenação. Os mamelucos, produto de
intensa mestiçagem de um povo de guerreiros e navegantes e de
tribos nómades habituadas ao sertão como animais a sua mata,
constituíram os elementos formadores da maior parte das primei-
ras famílias paulistas, patriarcais, amestiçadas, endogâmicas,
cristãs e fornecedoras dos contingentes humanos das bandeiras.
Participar de uma daquelas expedições era índice de prestígio e
título de honra.
Sociedade de moldes democráticos nos dois primeiros séculos,
não sòmente pela sua formação com elementos da burguesia e da
plebe portuguésas na maioria, como pelos aspectos de democrati-
zação social da miscigenação euro-ameríndia, pelo regime de peque-
na propriedade, pela administração exercida por elementos do
próprio povo e pelo espírito de cooperação dos membros da comu-
nidade em assuntos de interêsse público. Tudo isto, acentuado
pelo isolamento e pela presença do sertão. . .
Quanto as influências psicológicas atuantes na expansão pau-
lista, a presença do sertão haveria de conservar e acentuar, nos
brancos, o espírito aventureiro e a audácia, nos mamelucos, que,
como os índios, eram capazes de despender grandes esforços, o
tino sertanista, a tendência ao nomadismo e a liberdade.
O sertão foi. também, poderoso fator psicológico da expansão
paulista. O sertão era o mistério, a aventura, a fortuna; era o
fascínio, o desafio, a provocação constantes a imaginação do bran-
co e do mameluco.
Nesses homens talhados física e psicològicamente para o
movimento, a imaginação contaminada pelas crenças do índio e
pelo misticismo do século XVI que contagiou o português, pela
credulidade, pelo analfabetismo e pela ganância, seria também
um fator inseparável da expansão paulista. É que o sertão alimen-
tava continuadamente aquela tendência, enraizando lendas como
as da Serra das Esmeraldas, de Sabarabuçu e dos Martírios, ver-
dadeiros mitos de fundo econômico.

A PESQUISA DE RIQUEZAS

DA CAGA AOS íNDIOS A PESQUISA DOS MINERAIS PRE-


CIOSOS - A segunda metade do século XVII na Capitania de
São Vicente assinala o esmorecimento da caça ao índio. Abando-
nada pelos missionários da Companhia de Jesus ante as investi-
das dos paulistas a extensa área a margem esquerda do rio Paraná
e parte da zona situada a leste do rio Uruguai, cessavam as grandes
expedições de ataque as missões jesuíticas da América espanhola.
Concorreram, ainda, para o enfraquecimento daquela ativida-
de, a Restauração portupuêsa (1640) que acentuaria a separação
política das colonias ibéricas na América; o fim do poderio flamen-
go no nordeste brasileiro e no Atlântico e a reconquist21 de Angola
pelos lusitanos (1648) que permitiram o restabelecimento do tráfi-
co negreiro português naquele oceano, portanto. o fornecimento do
negro para as lavouras de cana do Brasil. em detrimento do tráfi-
co ameríndio; e, ainda, a posterior decadência da aericultura e da
indústria açucareiras do nordeste brasileiro promovida pela concor-
rência antilhana de que também resultaria a redução de mão-de-
obra nas lavouras.
Destarte, perderá o apresamento do índio grande parte da sua
importância econômica e a expansão geográfica paulista tomará
novos e decisivos rumos: os da busca das riquezas minerais ocul-
tas no sertão.
110 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRAFICO DE S. PAULO

A crise do apresamento não haveria de arrefecer o ímpeto


expansionista do bandeirante. Expedições pesquisadoras de pedras
e metais preciosos substituíram as de caça ao índio que haviam
predominado na região meridional da Colônia durante toda a pri-
meira metade do seiscentismo. Podem ser enquadradas, inclusive,
na série das entradas pesquisadoras de ouro, prata e pedras promo-
vidas em vários pontos do Brasil quinhentista e das quais seriam
prolongamento.

A COSTA DO OURO E DA PRATA - A faixa litorânea que,


no Brasil Meridional, se estende de Cananéia para o Sul era
conhecida entre os navegantes portuguêses e castelhanos, nos pri-
mórdios do século XVI, como a "Costa do ouro e da prata". Trans-
mitidas por náufragos que ai viviam e marinheiros das naus que
frequentavam o Atlântico sul, repercutiam entre aquêles navegan-
tes as muitas lendas da existência da misteriosa Serra da Prata
no interior do continente - o Alto Peru - e do "Rei Branco"
rodeado de fabulosas riquezas.
Um náufrago português da armada de Juan Diaz de Solis,
Aleixo Garcia realizou, por volta de 1524, uma expedição que
partiu do litoral de Santa Catarina, em demanda ao território dos
Charcas, confirmando a existência da serra lendária e demons-
trando a possibilidade de atingi-la por via terrestre, através do
interior do continente. Embora malograsse a sua jornada, ao
regressar dos altiplanos andinos, pôde, ainda, das margens do rio
Paraguai, enviar ao litoral notícias e amostras de prata.
Teria sido o iniciador do movimento sertanista nessa costa.
As lendas da serra de Prata e a aventura de Aleixo Garcia
repercutiram profundamente em Portugal e suas primeiras conse-
quências teriam sido a expedição de Martim Afonso de Sousa e a
fundação de São Vicente, ponto da partida da colonização da
América portuguêsa
Do iitoFai meridional do Brasil partiam caminhos que se arti-
culavam com o interior e conduziriam a cobicada Serra da Prata,
razão pela qual castelhanos e portuguêses já ocupavam a costa
catarinense, Cananéia e o povoado que precedeu a vila de São
Vicente.

AS PRIMEIRAS ENTRADAS - As primeiras entradas portu-


guêsas de provas incontestáveis resultaram da expedição de Mar-
tim Afonso de Sousa. Assim que a armada colonizadora aportou
na Guanabara, em fins de Abril de 1531, quatro homens se inter-
REVISTA DO INSTITUTO HIST6RICO E GEOGRAFICO DE S. P A U L O 111

naram no sertão onde permaneceriam cêrca de dois meses. Nesse


mesmo ano, em Setembro, de Cananéia fêz partir o Capitão-mór
a malograda missão de Pero Lobo com oitenta homens, em busca
da região do ouro e da prata. Finalmente, o próprio Martim Afon-
so e seu irmão Pero Lopes de Sousa exploraram o Rio da Prata,
onde, em 1515, Juan Diaz de Solis teria encontrado sinais daquele
metal e a cujo nome ligou o do estuário.
Não tendo alcançado o almejado objetivo, Martim Afonso
velejou para o norte e fundou São Vicente, a 22 de Janeiro de
1532, justamente num dos pontos do litoral que se articulavam
com o sertão. São Vicente e a posterior Vila de São Paulo de Pira-
tininga viriam a ser, futuramente, trampolim para as riquezas
minerais do Centro-Sul brasileiro.
A malfadada expedição de Pero Lobo e a conquista do Peru,
em 1534, por Pizarro e Almagro teriam dado por terra com os
objetivos fundamentais de Martim Afonso de Sousa de atingir, no
sertão longínquo, a lendária Serra da Prata, razão pela qual have-
ria de se-lhe arrefecer o interêss pela donataria que recebera.
Daria a sua preferência às indias que não lhe desmereceriam a
ambição.
Não obstante, anos depois, sondagens na baixada litorânea
vicentina e nos rios que descem da Serra do Cubatão revelaram
algum ouro aluvional. Às notícias do precioso metal nessa região,
enviou o Governador-geral, Mem de Sá, ao interior, Brás Cubas,
Provedor da Capitania de São Vicente e Luís Martins, prático em
mineração, indicado pela Coróa Portuguêsa, a fim de procurarem
veios auriferos e examinarem o metal apurado.
Realizaram-se duas entradas. uma, em 1560, dirigida por
Brás Cubas, de roteiro discutido; outra, em fins de 1561 e inícios
de 1562, chefiada por Luís Martins, a região do Jaraguá ou a
"Caatiba", atual Bacaetava Ouro e pedras verdes teriam sido
encontradas; de reduzido interêsse económico, todavia.
Em prosseguimento a essas primeiras sondagens de ouro na
Capit,ania de São Vicente, o mameluco Afonso SardiIJla, o moço,
apurou ouro de aluvião na Serra da Mantiqueira, em Guarulhos,
no Jaraguá e em São Roque. Em 1598, promoveu uma entrada que
atingiria as proximidades das nascentes do São Francisco.
Convencido de que embora escasso seria aquêle ouro possível
indício de grandes riquezas, chegava a Capitania de São Vicente,
ao inicio do ano seguinte, o Governador geral, D. Francisco de
Sousa. E. consigo, deslocava da Bahia para o Sul da Colônia, o
aparelhamento administrativo que ali instalára para dirigir as
pesquisas metalíferas por êle iniciadas no interior brasileiro. Per-
tenciam á sua comitiva o mineiro Jaques Oalte e os engenheiros
Geraldo Beting, Bacio di Filicaia e outros.
112 REVISTA DO INSTITUTO HIST6RICO E GEOGRAFICO DE S. PAVLO

Permaneceu na Capitania de São Vicente em franca ativida-


de até 1605, quando regressou a Portugal. Durante êsse periodo,
despachou para o sertão as expedições de André de Leão e de Nico-
lau Barreto, em 1601 e 1602, respectivamente. A primeira, pelos
vales do Tietê e Paraíba alcançou e venceu a Mantiqueira e rumou
para as nascentes do S. Francisco, à procura de minas de prata.
Permaneceria nove meses no sertão, sem resultados.
A segunda - trezentos homens brancos e mamelucos, além
de índios mansos - regressou ao ponto de partida depois de dois
anos no sertão. suscitando divergências quanto à região atingida
- bacia do São Francisco, bacia do Prata, ou o Peru. Sabe-se,
entretanto, que havia sido reservada para a Coróa a terça parte
dos índios apresados.
De volta à Lletrópole, em 1606, como Governador da Reparti-
ção Sul da Colónia, obsecado pelas idéias das riquezas minerais
do Brasil, persistiu o "eldorado-maníaco" grão-senhor de Beringel
na sua operosa faina de encontrar metais nobres nos sertões brasi-
leiros, ou seja, em Sabarabucu e em Araçoiaba. Data da sua s e p n -
da administração a expediqão de Simão Alvares, o velho, em 1610,
partida de São Paulo, em direção ao sertão do rio Casca, na futura
região de Minas Gerais.
Nulos foram os seus esforços até 1611, ano em que faleceu
no isolamento e na penúria. Eficientes, todavia, no que se relacio-
navam ao conhecimento da terra e às diretrizes da expansão
paulista.
-000---

MITOS DO SERTÃO. VISA0 E BUSCA DO PERU - Indis-


cutível fascínio sobre os colonos do Brasil. desde a era quinhentis-
ta. exerceram as notícias da existência de riquezas minerais nos
sertões do continente sul-americano. A elas se refere em carta a
D. João I11 certo Filipe Guillén, castelhano, boticário que se fazia
passar por astrónomo e astrólogo em Portugal. c"
No ~ r a f i ldesde
, 1539, querendo servir ao soberano, comunicou-
lhe, em 1550, que nesse mesmo ano alguns índios dos que viviam
"junto de um gran rio" haviam chegado a Pórto Seguro com a
notícia de uma serra em seu país, que "resplandece muito" e por
isso chamada "sol da terra". Era de cor amarelada e despejava
ao rio pedras da mesma cór que seriam pedaços de ouro. E comu-
nicava haver ali esmeraldas e outras pedras finas. Dispunha-se
a busca-las. A velhice e a doença o impediram, todavia.

<i1 - Carta de 20 de Juiho de 1550. <História d a Colonização Portuguesa


no Brasilw, dingida por Carlos Malheiro Dias, vol. 111, Porto, 1924, p6g. 359.
REVISTA DO INSTITUTO HIST6RICO E GEOGRLFICO DE S. PAULO 113

Vinte anos depois perdurava intacta a fama da montanha


resplandescente do sertão. Pero de Magalhães Gandavo, o conhe-
cido cronista, por volta de 1570, no "Tratado da Terra do Brasil"
refere-se ao mesmo caso quando alude iis noticias levadas a Pórto
Seguro por certos índios, de umas pedras verdes encontradas
numa serra "mui formosa e resplandescente", a muitas léguas
para o interior. Seriam esmeraldas as amostras apresentadas.
Associou-se a Serra resplandescente o nome de "Sabarabuçu",
ou seja, do tupi, "Itaberaba" e no aumentativo "Itaberabaoçu" que
degenerou em "Taberaboçu" e "Sabarabuçu".
As descrições das montanhas reluzentas e das aedras verdes
e mais gemas brilhantes como cristal, brancas, azuis, vermelhas,
que surgem dai por diante, em várias épocas. nas Capitanias do
Centro e do Sul, oferecem, entre si. semelhanças que parecem
todas decorrentes das noticias levadas a Pórto Seguro em 1550
pelos índios do sertão, segundo a narrativa de Filipe de Guillén.
Tais descrições teriam alimentado a crenca de que o "cerro
de Potosi, para a s bandas do Peru" não ficaria a grande distância
da costa do Brasil.
Nessa opinião assentou aparentemente a fama de certa monta-
nha de prata no centro do continente, identificada aos poucos com
a Sabarabuçu e distinguida de uma serra de esmeraldas. Assim se
duplicou e multiplicou aquela misteriosa serra resplandescente
dos primeiros tempos, segundo o parecer que mais atendia a
cobiça dos colonizadores.
Ainda. A semelhanca cio célebre mito do Dourado, orig.inário
das Índias de Castela, a mágica paisagem da serra resplandes-
cente de cristal ou prata, acrescentou-se uma grande lagoa fabu-
losamente rica. Imaginação, crédula curiosidade explicáveis em
terra de recente conquista e onde tudo era surprêsa! Já em mea-
dos do século, era assinalada pelos cartógrafos, sob o nome de
"Eupana" (Mapa de Bartolomeu Velho em 1561), deformação
gráfica, sem dúvida, do "Eupana" ou "Upaua" dos naturais do
pais. Gste último nome e. de preferência, as formas dêle deriva-
das, como "Upavuçu", "Vupabuçu", "Hepabuçu" e, aiflda, "Parau-
pava" perduraram longamente. bem como a de Lago Dourado
também registrada pelos cartógrafos. Corria a fama de serem
prodigiosamente ricas as águas dessa lagoa. Diz o cronista Gan-
davo ("História da Província de Santa Cruz"): "há fala públi-
c a . . . que há uma lagoa mui grande no interior da terra, donde
procede o Rio de São Francisco.. ., dentro da qual dizem haver
muitas ilhas e nelas edificadas muitas povoações e outras ao
redor della mui grandes, onde há muito ouro, e mais quantidade,
segundo se afirma, que em nenhuma parte desta Provincia".
Essa localização da Lagoa grande, também assim chamada,
para as bandas do rio São Francisco, provavelmente o "gran rio"
114 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO DE S. PAULO

a que se refere a carta de Guillén, é a mais admitida entre escri-


tores quinhentistas e seiscentistas. Gabriel Soares de Sousa
("Tratado Descritivo do Brasil") que a procurou naquele rumo,
refere-se aos adornos de ouro usados pelo gentio que vivia nas
proximidades da "Alagoa grande afamada e desejada de desco-
brir, da qual êste rio nasce".
É significativo que tenha sido essa a direção tomada pela
maior parte das entradas de descobrimento e exploração de minas
que se realizaram antes e depois da sua.
Já em 1550, ano em que chegaram a Pórto Seguro os índios
do sertão com as primeiras notícias da Serra resplandescente,
convicto o Governador geral do Brasil, Tomé de Sousa, de que a
América portuguêsa e o Peru formavam um só todo e que pelo
São Francisco se atingiria os confins daquela região, determinou
a saída de uma galé para explorar aquêle rio a partir da foz.
Haveria de malograr-se a emprêsa capitaneada por certo Miguel
Henriques.
Não obstante o malogro de Miguel Henriques, continuariam
as entradas, geralmente de inspiracão oficial, a realizar-se quase
sempre na direção apontada por Filipe de Guillén, ou seja, para
as bandas do "gran rio", o São Francisco, e, de preferência, para
as suas cabeceiras. Ganhariam maior incremento tais expediçóes,
depois do descobrimento do manancial de Potosi, em 1545.
A esperança de fabulosas riquezas sugeridas pela vizinhança
do Peru terá sido um dos fatores dominantes da ocupação efetiva
do Brasil pela Coróa portuguêsa; talvez mais decisivo do que a
própria defesa da terra contra os estrangeiros cobiçosos. Não
teria sido simples acaso a instituição do Govêrno geral na Bahia
de Todos os Santos em 1549, quatro anos após o achado das ricas
minas de Potosi. A associacão entre as minas pretendidas e a
imaginada proximidade do Peru - muitas vêzes forçada pelos
cartógrafos da época - já é ao tempo do primeiro Governador
geral uma idéia fixa de povoadores e administradores. Acredi-
tava-se que,a Capitania de Pôrto Seguro era a melhor via de
acesso ao ouro do interior por estar na mesma latitude do Peru
e viver o gentio em paz com os colonos. Assim se explica que de
Porto Seguro - enquanto predominaram na região os índios
pacíficos - e depois, da Capitania vizinha do Espírito Santo -
com a perturbação da paz de Pôrto Seguro, pela intrusáo do
gentio Aimoré - partirão nos anos seguintes algumas das maio-
res expedições exploradoras favorecidas pelo govêrno, em busca
de riquezas minerais.
Inicialmente, as notícias transmitidas por índios e sertanis-
tas fazem crer que as riquezas do sertão consistiam principal-
mente em ouro, simbolo tradicional da opulência. Aos poucos,
porém, tomaram as buscas nova direção, sugeridas, evidente-
REVISTA DO INSTITUTO HIST6RICO E GEOGRAFICO DE S. PAULO 11.5

mente, pelo modêlo que proporcionavam as conquistas da Espa-


nha. O ofuscante prestigio de Potosi féz com que se forjasse n a
época uma idéia das riquezas do Brasil calcada em grande parte
sobre o que constava existir nas áreas mais ricas em prata do
que em ouro da América espanhola. O próprio Tomé de Sousa
tencionava fazer do Brasil um outro Peru. Passados mais de
cinqüenta anos, D. Francisco de Sousa pretenderá o mesmo.
Em resumo, o que no Brasil se procurava era o Peru e não
o Brasil, razão pela qual saíam sertão afóra dezenas de expedi-
ções custosamente financiadas pelos govêrnos em busca de prata
e de esmeraldas.
Todavia, sòmente após século e meio a dois séculos de insis-
tente procura de minerais preciosos, ao invés de prata e esmeral-
das só irão aparecer em abundância ouro e diamantes.. .
--000--

AS PRIMEIRAS ENTRADAS NAS CAPITANIAS DO CENTRO


- Depois da expedição fluvial de Miguel Henriques (1550), a
primeira jornada por via terrestre em busca da Serra resplandes-
cente foi a do castelhano Francisco Bruza de Espinoza y Megero,
em 1554. Constava já ter estado no Peru. E ser bom conhecedor
das minas daquela região. Voltou com notícias de minas de
ouro e prata e não com tesouros.
Em 1561, com autorização de Mem de Sá, partira Vasco
Rodrigues Caldas a fim de completar a jornada do castelhano.
Teria seguido o trajeto do rio Paraguassu - a menor distância
da cidade do Salvador - rumo ao São Francisco. Nessa mesma
ocasião (1560-1561) realizavam-se as expedicões de Brás Cubas
e Luis Martins na Capitania de São Vicente.
Ao malogro de Vasco Rodrigues Caldas, as expedicões seguin-
tes partiram, em geral, de Pórto Seguro. Assim Martim de Car-
valho (1567 ou 1568), Sebastião Fernandes Tourinho (1572, ou
1573), Antonio Dias Adorno (1574). Enriqueceram a geografia
mitica dos sertões ocidentais com noticias da existênfia de ouro.
de pedras esverdeadas, azuladas como turquesas, pedreiras de
esmeraldas e safiras, montanhas de finissimos cristais verdes e
vermelhos.
A destruição crescente por enfermidade e maus tratos infli-
gidos pelos moradores aos tupiniquins mansos da costa de Pôrto
Seguro favoreceram as investidas dos ferozes aimorés que não
podendo mais ser contidos nos seus matos infestaram as povua-
ções da Capitania e se apossaram das embocaduras dos rios. Con-
sequentemente interrompeu-se o movimento de penetração pelo
caminho de Pôrto Seguro ao sertáo dzs esmeraldas e da prata.
Mas, o constante objetivo das entradas não desapareceu. O
São Francisco, de preferência as cabeceiras, onde se encontrariam
116 REVISTA DO INSTITUTO HIST6RICO E GEOGRLFICO DE S. PAULO

os misteriosos tesouros do sertão continuaria a atrair os serta-


nistas. Mudaria, apenas, o p n t o de partida das expedições. Em
vez de sair de Pôrtò Seguro, Sebastião Alvares penetrou pela em-
bocadura do "grande rio" (São Francisco"). Foi sacrificado pelos
tupinambás da margem esquerda (1574). João Coelho de Sousa
percorreu parte do rio, em sentido contrário, ou seja, ao sabor
da corrente (1574) e assim o irmão Gabriel Soares de Sousa (1592).
Impedido, pelos aimorés, o caminho de Pôrto Seguro, conti-
nuariam pela Capitania do Espirito Santo as penetrações ao
Interior. Muito mais importante. pelos resultados atingidos, foi
a alternativa fornecida pelas entradas espírito-santenses que se
entrosam, perfeitamente, na série iniciada em Pôrto Seguro e
representam o seu prolongamento natural. É êsse o caminho que,
a partir de 1596 hão de seguir, rumo a Serra resplandescente,
Diogo Martins Cão, o Matante Negro, por determinacão e com o
estímulo do governador D. Francisco de Sousa, e Marcos de Aze-
redo que, em mais de uma iornada teria acertado com a Serra
das Esmeraldas, cujo itinerário só divulgou a parentes que o
guardaram como segrêdo de familia. Enviadas ao rei as pedras
que colheu, foram tidas por boas pelos lapidadores do Reino, com
a ressalva de que eram de superfície e tostadas. Se escavado o
solo mais profundamente, seriam encontradas mais claras e finas.
Até fins do século XVII. a região de Sergipe foi outro impor-
tante centro de irradiação sertanista às minas de prata. Dentre
as expedições de maior destaque, pelo tempo que permaneceu no
interior e pela área percorrida, foi a de Belchior Dias Moréia,
neto de Caramuru, que partiu em 1595. ou 1596 das margens do
rio Real e penetrou pelo Itapicuru, sertão a dentro, onde perma:
neceu cêrca de oito anos.
Extensa foi a área percorrida pelas entradas bai-anas. na
busca de pedras coradas e de prata. Ao devassarem boa parte da
costa e ao tracarem rumos de penetracão para o interior percor-
reram as regiões banhadas pelos rios São Francisco. ParaeuaCu,
Pardo. Jequitinhonha. Araçuaí. Caravelas. Mucuri e São Mateus,
atingindo aChapada Diamantina e a região de Minas Novas.
----000--

A TRANSFERnNCIA DAS PESQUISAS MINERAIS PARA 0


SUL - A situação geográfica da vila de São Paulo e suas possi-
bilidades de acesso ao interior e a maior familiaridade dos pau-
listas, os mamelucos, especialmente, com o sertão e o índio teriam
sido fatores de fuiidamciital iiiipnrtiiicia na trnnsfer6ncia do
~riricioalnicclco das i)esauisas minerais ixira a Cavitania de Sào
bicente. E, na falta de rêcursos para o financiamekto de grandes
expedições exploradoras, o próprio ouro do planalto seria uma
esperança. A possibilidade de se acharem pelo caminho de São
REVISTA DO IKSTITUTO HIST6RICO E GEOGR6FICO DE S. P A U L O 117

Paulo as mesmas riquezas que tinham sido procuradas de Pôrto


Seguro, do Espírito Santo e da Bahia ficára demonstrada, pois
Brás Cubas, como já se observou, trouxera e fizera trazer do
sertão amostras de ouro e de pedras verdes de suas próprias
terras que se estendiam até o limite da demarcação lusitana, ou
seja. até as raias do Peru.
Governador geral do Brasil e depois Capitão-~eneralde São
Vicente, Espírito Santo e Rio de Janeiro, D. Francisco de Sousa
escolheu a Capitania de São Vicente como centro das atividades
de pesquisa e sucessora da do Espírito Santo, assim como esta
sucedera, por algum tempo, a de Pôrto Seguro.
Não terá sido por simples coincidência que algumas das
grandes bandeiras formadas em São Paulo, de acordo com as
instruções de D. Francisco de Sousa dirigiram-se para as mesmas
áreas que, desde a frustrada expedição de Bruza de Espinoza
(15.54). tinham sido o estfmulo e o objetivo mais frequentes das
entradas rumo ao sertão longínquo, organizadas naquelas capi-
tanias sob a protecão das autoridades portuguêsas.
É o caso da bandeira de João Pereira de Sousa, da qual, em
1597 esgalhou-se um ramo na direção do Paraupava, a lagoa dou-
rada que seduzira Gabriel Soares de Sousa. O mesmo rumo tomou
André de Leão, em 1601 e, talvez, Nicolau Barreto. Divergem os
historiadores quanto a ésse último itinerário.
Todavia, o objetivo de D. Francisco de Sousa permanece
desinteressante e estranho aos paulistas. De preferência à prata,
ao ouro, as pedras, alvo principal das Bandeiras "dirigidas", não
tardaram os sertanistas de São Paulo a voltar-se para cabedal
mais seguro, mais imediato e mais condizente com a rústica eco-
nomia das terras do planalto paulista. Ou seja, para a riqueza
mais imediata, representada pela mão-de-obra afeita a lavoura,
fornecida pelo gentio tupiniquim, tupinaém. temiminó, carijó, ou
pelos índios domesticados das missões jesuíticas do Guairá e do
Itatim. asse foi o grande atrativo das expedicões piratininganas,
expedições que o senhor de Beringel pretendeu conveaer de caça-
doras de "peças" para todos os serviços, a caçadoras de tesouros.
A mobilizaçáo dos paulistas para a conquista de fantásticas
riquezas para a Monarquia constituiu, evidentemente, uma amea-
ça a vida livre e isenta de sujeição de quem se tinha habituado,
de longa data, a tamanha. soltura. Receiosos do descobrimento
de minas, houveram os paulistas de opor resistência, como costu-
mavam fazer, a quaisquer providências tendentes a cercear-lhes
a liberdade. E tal foi a sua constância que, em fins do século
o Governador do Rio de Janeiro, Antonio Pais de Sande assinala
o escasso interêsse dos paulistas por aquelas minas. Julgavam e
diziam, observa êle, que, descobertos os tesouros, lhes haveriam
de enviar governador e vice-rei, meter presídios na Capitania para
118 REVISTA DO INSTITUTO HIST6RICO E G E O G R i F I C O DE S. PACLO

sua maior seguranca, multiplicar ali os tributos, com o que fica-


riam expostos ao descrédito, perderiam o govêrno quase livre que
tinham de sua república, seriam mandados onde antes manda-
vam e nem lhes deixariam ir ao sertão, ou, se lá fossem, Ihes tira-
riam as peças apresadas para empregar no serviço das minas. E,
para se conservarem naquele "estado presente" e evitarem aquêle
"dano futuro" haveriam de dispor de "todas as indústrias de se
não descobrir a preciosidade daquelas minas". Profecia! Parecia
que adivinhavam o que irá acontecer nos primórdios do século
XVIII, como consequência do descobrimento do ouro em Minas
Gerais ao fim do seiscentismo, por seus filhos e netos!
Narra, ainda, o mesmo Pais de Sande que os homens que
acompanharam a Serra de Sabarabuçu o mineiro mandado por
D. Francisco de Sousa não duvidaram, no caminho de volta, em
dar cabo dêle e das cargas de pedra que trazia, tiradas da serra,
com receio que fosse encontrada a prata e, receando a escravi-
dão em que poderiam cair. Disseram em São Paulo que o mineiro
morrera na viagem e que eram falsas as informações enviadas
ao Governador sobre as riquezas de Sabarabuçu. O resultado foi
morrer D. Francisco em breves dias e" se perpetuar na suspensão
daquelas minas a tradição de as haver muito ricas.. .".
Preferiam os paulistas praticar as suas correrias de preado-
res de índios, de lucro mais imediato. E, durante alguns decê-
nios esqueceu-se, em São Paulo, dos tesouros de Sabarabuçu,
encobertos pelo sertão. . .
-
00
-
O NOVO SUBTO PESQUISADOR - Na segunda metade do
seiscentismo, o reduzido número de bandeiras apresadoras do
gentio, de que se tem noticia na Capitania de São Vicente, foi
amplamente sobrepujado pelas expedições pesquisadoras de mine-
rais preciosos, de características diversas daqueles agrupamentos
de origem particular, de objetivos guerreiros e portanto organi-
zados para a luta e constituídos de várias dezenas de brancos,
mamelucose índios. Compunham-se as expedições orsquisadoras
de contineentes humanos mais reduzidos. sem intúito agressivo
e cujo principal escõpo era o descobrimento de pedras e metais
nobres, para cuja exploração transportavam os sertanistas ins-
trumentos adequados, almocafres e batéias.
De caráter oficial e semi-oficial foram essas expediçõ-'=s -
"entradas" - estimuladas pelas cartas régias aos paulistas.
Prometia a Coroa orêmio e honrarias aqueles que descobrissem
metais preciosos.
Findo, em 1G40, em Portugal o domínio dos Filipes de Espa-
nha. com a auerra entre os dois países na Peninsula ibérica e a
proi'bição pelÕ govêrno de Madrí do lucrativo comércio português
com o Prata, deu-se a baixa da moeda portuguêsa e principal-
REVISTA DO IXSTITUTO HIST6RICO E GEOGRAFICO DE S. PAELO 119
-

mente a carestia extrema da prata vinda do Peru por Buenos


Aires, dois males com dano gravissimo para a economia do Brasil,
onde até então predominára a circulação da moeda de prata de
origem espanhola.
Na segunda metade do século, a tão grave crise econômico-
financeira somou-se a decadência da indústria açucareira do Bra-
sil decorrente da concorrência antilhana.
Também em crise nessa época o apresamento do índio pelos
paulistas, como já se observou, tomariam vulto os empreendi-
mentos de iniciativa as pesquisas de minerais preciosos.
Durante o século XVII, vários sertanistas de São Paulo per-
correram os sertões goiano e mato-grossense, entre os quais
Lourenço Castanho Taques, o velho, em 1668, que abriu o cami-
nho na região de Cataguases, Luís Castanho de Almeida, em
1671, Manuel de Campos Bicudo, em 1675. ao norte de Mato
Grosso e Bartolomeu Bueno da Silva, em 1676, na região goiana.
E, ainda mais adiante iriam, como Antônio Castanho da
Silva que faleceu no Peru, em 1622, Antônio Rapôso Tavares que
entre 1648 e 1652 internou-se pelo Paraguai, atingiu os contra-
fortes dos Andes em busca de minas e navegou o Amazonas até
Belém do Pará. Luís Pedroso de Barros, em 1656, que chegou ao
Peru, onde morreu às mãos dos índios serranos. E muitos outros
que se aventuraram em busca de riquezas minerais em ignoto e
indeterminado sertão.
Pelo vale do Paraíba e pela garganta do Embaú, na Manti-
queira, rumo a região mineira, pelos caminhos do Norte, um que,
por Mogi-Mirim atingia Goiás e outro que, pela região de Atibaia
e Bragança atingia o sul de Minas, e, pelo caminho fluvial do
Tietê, que levava ao interior mato-grossense, por essas rotas
bandeirantes que convergiam para São Paulo de Piratininga
seguiram as expedicóes pesquisadoras em busca dos lendários
tesouros do sertão. Devassaram o interior, abriram caminhos,
prepararam a descoberta do ouro em fins do século XVII e no
século seguinte em Minas Gerais. Goiás e Mato Grosso, expan-
dindo cada vez mais para oéste as terras da ~ m é r i c dlusitana.
Dentre tôdas as expedições pesquisadoras de minerais pre-
ciosos destacou-se a de Fernáo Dias Pais que partiu de São Paulo
em 1674 (21 de Julho), a procura de esmeraldas e de prata, explo-
rou durante sete anos grande área na região centro-sul do Brasil
- das cabeceiras do rio das Velhas, iumo norte, até a zona do
Sêrro Frio, onde jazia o ouro logo depois revelado pelos paulistas.
Nula quanto às riquezas que procurava, foi, todavia, importan-
tíssima pelo contacto que estabeleceu entre o período das entra-
das pesquisadoras e o descobrimento dos mananciais aunferos
algum tempo depois, prelúdio da idade do ouro no Brasil que
começará ao correr do último lustro do século XVII.
120 REVISTA DO INSTITUTO HISTORICO E GEOGRÁFICO DE S. PAULO

FERNÁO DIA PAIS

Fernáo Dias Pais e não Fernão Dias Pais Leme. Já é tempo


de se restabelecer seu verdadeiro nome. Nos papéis seiscentistas
jamais se encontra o sobrenome "Leme" anexado aos três nomes
do sertanista. "Fernáo Dias Pais" era como se assinava, compro-
vam os inventários do pai e da mãe, as Atas e o Registro Geral
da Câmara Municipal de São Paulo, os autos de questões judi-
ciais em que se envolveu, cartas régias e a correspondência com
Governadores e várias autoridades. Pedro Taques, seu sobrinho
neto e primeiro biógrafo não lhe atribuiu o sobrenome "Leme",
bem como Silva Leme, o continuador do cronista e autor da "Ge-
nealogia Paulistana". O hábito do alongamento do nome com o
sobrenome que nunca usou, decorre, certamente, do fato de que
seus descendentes adotaram os nomes de "Pais Leme" para as
respectivas famílias. Isto, a partir de seu neto, o Mestre de Campo
Pedro Dias Pais Leme, pois o filho ilustre também não se assinava
"Leme" e sim Garcia Rodrigues Pais, sendo às vêzes também
designado por Garcia Rodrigues Pais Betim, devido a um patro-
nimico de sua mãe, Maria Garcia Rodrigues Betim. Aliás, no
dizer de Pedro Taques, o pai do grande bandeirante se fazia
chamar Pedro Dias Pais Leme. É muito justo, pois, que o neto de
Fernão Dias Pais tivesse restabelecido a tradição familiar que-
brada pelo Governador das Esmeraldas e por seu filho Garcia
Rodrigues Pais. Eis o porque de se ter anexado o "Leme" aos
três apelidos legais do sertanista. Em 1746, o Guarda-mor, neto
de Fernão, Pedro Dias Pais Leme, ao escrever para D. João V
uma exposição sobre a descoberta das minas de esmeraldas, refe-
riu-se frequentemente ao avô a quem só chamou de Fernão Dias
Pais. E assim os velhos cronistas da História das Minas Gerais
e o historiador Varnhagen.

A FAMILIA - Filho de Pedro Dias Pais Leme e de Maria


Leite Furtado, paulistas, nasceu em 1608, na Vila de São Paulo,
presume-se, ou nas cercanias. O avô paterno, Fernando Dias
Pais era natural de Abrantes, em Portugal, ('1 o materno, Pas-
choal Leite Furtado era açoriano de Santa Maria. As duas avós,

(11 - Fernando Dias Pais era filho de Pedro Leme (10 casamento) e de
Isabel Pais natural de Abrantes e a ~ a f a t ado Pago. Morou durante algum
tempo com seus avós n a Madeira. Foi casado em primeiras núpcias com
Helena Teixeira, de quem teve três fiihos. Transferiu-se para S. Vicente
onde residia o pai e a í casou-se vela segunda vez com a sobrinha Lucrécia
Leme. Foi pai de Pedra Dias pais ~ e m e yFaleceu em 1605. (SILVA LEME.
I, P. 183, 442, 4 5 0 ) .
REVISTA DO INSTITUTO HIST6RICO E GEOGRAPICO DE S. PAULO 121

Lucrécia Leme e Isabel do Prado já eram paulistas, ambas vicen-


tinas, assim como a bisavó, Felipa Vicente.
Sua origem, totalmente européia, não apresenta o robusto
e enérgico "sal da terra" resultante do cruzamento euro-ame-
ricano.
Fernando Dias Pais, o avô paterno do Governador das esme-
raldas teria sido um dos muitos soldados da fortuna emigrados
da Península para a América. Juiz ordinário em São Vicente,
em 1554, foi companheiro de João Ramalho, em Santo André da
Borda do Campo e, em São Paulo gozou de prestigio social e
administrativo. Foi Juiz ordinário também nessa Vila em 1590.
Teve sítio que ía de Pinheiros ao Ipiranga. Faleceu em 1605.
Paschoal Leite Furtado emigrára das Ilhas para o Brasil, a
serviço da Coróa portuguêsa nas minas de São Vicente. Foi dos
colonos de maior prol do Brasil Seus ancestrais participaram da
tomada de Ceuta (1415), do Conselho de El-Rei D. Afonso. o Afri-
cano e foram sepultados no mosteiro da Batalha. Afazendado em
Pinheiros, faleceu em 1614. O sogro, João do Prado, famoso serta-
nista, bisavô do Governador das esmeraldas, emigrára para o
Brasil na expedição de Martim Afonso de Souza (1532). Possuiu
lavouras de cana no litoral. Morreu no sertão em 1597.
Os Leme provinham de um ramo dos Lems - argila ou
grêda (barro fino e delicado) - de Flandres, representado por
Martim Lems que, interessado no comércio, radicou-se em Portu-
gal no tempo de D. Afonso V. Outro Martim, neto do primeiro,
foi colóno na Madeira em 1483. Um bisneto dêste, Pedro Leme,
pai de Fernando Dias Pais, emigrou para São Vicente. Em 1550
já se encontrava na região com mulher e filha - Leonor Leme -
depois espósa de Brás Teves, próspero, graças a produção de açú-
car do engenho de São Jorge dos Erasmos. Faleceu em São Paulo
em 1600. Era filho de Antão Leme. natural da Madeira, fidalgo
da Casa Real e Juiz Ordinário na Vila de São Vicente em 1544.
Foi Antão Leme o tronco dos Leme em São Paulo.
Dos Leme teria vindo a prosápia nobiliárquica da família.
Notáveis sertanistas caçadores de índios, como fernão Dias
Pais e Luís Dias Leme, tios do nosso bandeirante, Pascoal Leite
Pais e Pedro Dias Leite, (irmãos), Valentim de Barros, Mateus
Leme do Prado, Domingos Leme da Silva, primos, e outros, perten-
ciam a família do Governador das esmeraldas, familia dentre as
que maior prestígio gozavam na Vila de São Paulo, quer pela
situacão financeira, como pela posição social.
Da mocidade de Fernáo Dias Pais e, quando ter-se-ia êle
iniciado no sertão, nada se sabe.
Em 1626, era o jovem almotacel eleito para serviro de Maio
a Junho daquele ano, registram as Atas da Câmara de São
Paulo.
122 REVISTA D O INSTI'TUTO HISTORICO E GEOGRÁFICO DE S. PAULO

Em 1633 perdeu o pai que deixava a nove filhos - dos quais


Fernão era o primogênito - e à mulher a fortuna de pessoa de
mediana abastança em relação à época, fortuna que incluía o
sítio de Itambaré, com "árvores de espinho e parreira, casa de
três lances com seus corredores e varandas, de tabuado e cober-
tas de telha", meia légua de terra no rio Cutia e casa modesta
na Vila de São Paulo. E mais: um cavalo velho, 19 animais
vacuns, 40 porcos. 350 alqueires de trigo, 5.400 mãos de milho e
um mandiocal. Como de costume, não se avaliavam os índios
possuídos, ou "gente forra", conforme a fórmula mistificadora
da época.
Em relação à modéstia paulistana, o aparelhamento da casa
de Pedro Dias Pais Leme arrolado em inventário fazia passar por
opulenta a sua família: seis colheres, um garfo e uma tambola-
deira de prata, três toalhas de mesa, dezoito guardanapos, quatro
toalhas de rosto, duas sobretoalhas, quatorze pratos de louça,
dois bufetes, um vestido de baeta, roupeta, ferragoulo.
Certo apêrto reinava na casa, não obstante o tom de "suntuo-
sidade" doméstica para a época: das 5.400 mãos de milho em
paiól mandou o Juiz de órfãos tirar 4.000 "por a gente não ter
outra coisa que comer".
Couberam a Fernão os "negros da terra", Gonçalo, Joana a
mulher, e uma filha de peito, Ascença, e um rapaz de 10 anos,
Urbano, um moleque de 114 anos, João, e outro, Inácio. Nada
mais.
Mil réis custaram os ofícios religiosos pela alma de Pedro
Dias. E a dívida do defunto para com o Vigário Manuel Dias,
7$100 réis.
A viúva, Maria Leite, sobreviveu 34 anos ao marido. Faleceu
em 1667. Casou muito bem as cinco filhas e o secundogênito,
Pascoal, já sertanista nessa época, teria participado das investi-
das de Manoel Prêto e Antonio Rapóso Tavares, em 1628, aos
estabelecimentos jesuíticos espanhóis da região do Guairá.
0 0 0 -

NO SERTÃO - Depois de Antonio Raposo Tavares, foi Fernão


Dias Pais o bandeirante de maior renome na História da expansão
geográfica do Brasil colonial. Nascido em 1608, coincidiu sua
adolescência com a época em que na Capitania de São Vicente
intensificava-se a caça ao índio. Era homem feito quando Antô-
nio Rapóso Tavares destruiu os grandes estabelecimentos jesuí-
ticos espanhóis de além Paraná, as reduções do Guairá, em prin-
cípios de 1629, e depois forçou os castelhanos a abandonarem Vila
Rica e Ciudad Real, deixando definitivamente as terras a Iéste do
Paraná incomoradas ao Brasil. Três anos mais tarde, Raposo e
os paulistas destniíam Santiago de Xerez, além Paraná, nas nas-
REVISTA DO INSTITVTO HISTÓRICO E GEOGRdFICO DE S. PACLO 123

centes do Aquidauana, San José, Angeles, San Pedro e San Pablo,


reduções situadas no vale do rio Pardo, em Mato Grosso, entre os
Itatins. A investida paulista, espanhóis e jesuitas retiraram-se
para o sul e para oéste.
Não se sabe exatamente quando teria Fernáo Dias Pais inicia-
do a sua carreira de sertanista. Sòmente em 1638, aos trinta anos,
é que se projeta no cenário histórico do bandeirismo paulista. a
frente de uma bandeira no sertão do Tape, onde atacou as redu-
ções jesuíticas do Ibicuí. Teria participado, nessa época, das incur-
sões apresadoras às regiões correspondentes aos atuais Estados do
Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, de que resultaram
grandes contingentes de peças ameríndias conduzidas a São Paulo
pelos paulistas.
Não seria audacioso concluir-se que Fernáo Dias Pais, em
1638-1639, foi um dos conquistadores do sertão do Tape.

EPISÓDIOS DA VIDA DE FERNAO DIAS PAIS, DE QUE SE


TEM CONHECIMENTO - O ano de 1640 situa Fernáo Dias Pais
na vila paulistana. o que afirma a documentação da Câmara
Municipal, à qual requeria, em Fevereiro, e, na qualidade de filho
e neto de povoadores, "chãos" para fazer casa para morar: dez
braças por outras tantas "de quintal". Nem quinhentos metros
quadrados, numa época em que praticamente nada valia a terra.
Mesmo assim, só lhe ontorgou a Câmara seis "de testada" e oito
"de quintal".
A 2 de JulKo assinava o "Têrmo da Notificação que se fêz
aos Padres da Companhia de Jesus", ou seja, a intimação aos
jesuitas para que se retirassem de São Paulo. Consequências da
renitente oposição daqueles padres ao apresamento dos índios,
de que resultou o violento dissídio que não cabe descrever aqui.
Posteriormente, seriam aquêles sacerdotes reintegrados na Vila,
por influência e prestígio do próprio sertanista (1653).
Além do episódio da expulsão dos jesuítas, o ano Ue 1640, ano
da Restauração da independência portuguêsa, será pródigo de
incidentes para a Capitania de São Vicente e para a Vila de
São Paulo.
No Nordeste estendiam-se os holandeses. do Ceará ao rio
de Sáo Francisco. Pareciam implantar definitivamente em solo
brasileiro o poderio neerlandês. Disso resultou, naquéie ano, a
investida de uma esquadra holandêsa a Santos, em busca de ali-
mentos. Eram onze naus. Infelizmente ainda não se encontrou
za documentação pormenorizada sóbre a luta.
Ao enumerar, mais tarde, a el-Rei D. Pedro I1 de Portugal,
os serviços prestados por seu pai, enunciará Garcia Rodrigues
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Pais o socòrro por êle levado às vilas do litoral a frente de uma


companhia de milícias que comandava e mais de cem arcos (ín-
dios armados de arcos) e muitos escravos, que colocou nas forti-
ficações e dirigiu em numerosas investidas e combates que repe-
liram o invasor da vila, do pôrto e da barra de Santos.
Nêsse mesmo ano começou o terrível dissídio entre Pires e
Camargos, respectivamente liderados por Pedro Taques, cunhado
de Fernáo Dias Pais (pelo casamento com Potência Leite, irmã
do bandeirante) e Fernão de Camargo, de alcunha "o Tigre",
vulto também proeminente nos fastos do bandeirismo.
São dessa época os primeiros lances da terrível e sangrenta
contenda que durou anos e a qual parece ligar-se, também, a
expulsão dos jesuítas, ao que se teria oposto a primeira facção,
sempre contrária aos Camargos, os mais ardentes propugnadores
do despejo dos padres.
A partir de então, agitadíssima será a vida municipal de São
Paulo. Tais assuntos, por demais complexos, escapam, todavia,
ao nosso imediato interêsse.
Fernão Dias Pais em São Paulo até fins de 1644, teria partido.
em seguida, a frente de uma bandeira, rumo a sertão ignoto.
Estava ausente em 1646 É o que comprova o seu não compare-
cimento a execução do inventário da avó, Lucrécia Leme (fale-
cida em 1645), para receber o seu quinhão de herança. Talvez
essa bandeira de Fernão fosse a mesma referida na ata da Câma-
ra Municipal de São Paulo, de 3 de Fevereiro de 1646 que reza:
" . . . porquanto a mor parte dos senhores desta vila e ainda os
de menores passes estavam de caminho para o sertáo sem nenhum
temor de Deus nem das justiças, desamparando esta capitania e
deixando-a exposta a notáveis perigos. . .".
Daí por diante, até fins de 1649, perde de vista o historiador
a figura do bandeirante. No último dia dêsse ano, ei-10 que surge.
Comparece a Câmara e assina o têrmo de aceitação da Compa-
nhia Geral do Comércio do Brasil recém-criada na Metrópole
portuguêsa,
O ano seguinte o encontrará ocupado com a reconstituiçáo
do Mosteiro de São Bento.
Teria sido, nessa época, o agente da primeira conciliação
entre as facções políticas-litigantes em São Paulo, Pires e Camar-
gos. Desolado, talvez, com a luta civil que durante anos a fio
perturbava a tranquilidade da Vila paulistana, tentou, com sua
influência o apaziguamento dos contendores, o que lhe valeu o
fortalecimento do prestígio e a investidura como chefe do exe-
cutivo municipal, eleito que foi Juiz ordinário para o ano de 1651.
Comprovam as Atas da Câmara dêsse ano a sua ação concensiosa
no cuidar do bom andamento do bem público - aprovisionamen-
to de carnes e vinhos, entradas ao sertáo, coisas relativas à almo-
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taçaria e outras mais - e conciliatória, ao tomar parte sempre


discreta e objetivamente nos negócios municipais.
Em 1653, a trégua das facções rivais, a propósito da reconci-
liacão dos paulistas com os jesuítas, aplainadas as dificuldades,
no sentido da reintegração dos religiosos na Vila e no seu Colégio
de São Paulo, partiu para o Rio de Janeiro o bandeirante, a bus-
car os padres.
Firmada, por ato solene, em maio daquele ano, a paz entre
paulistas e jesuítas, de tudo que ficou estabelecido entre as partes
litigantes, determinou-se, também, que os jesuítas não agasalha-
riam ou acoitariam, em seus mosteiros e fazendas. índios fugi-
dos, nem se imiscuiriam na questão da sua liberdade.
Ao futuro Governador das esmeraldas, mais do que a qual-
quer outra pessoa deviam os jesuítas a sua reintegracão em São
Paulo.
Teve, ainda, o grande sertanista, oportunidade de demons-
trar particular predilecão pelos beneditinos de Piratininca, ao
acudi-10s na extrema penúria em que viviam. em quatro celas, ao
lado de velho, minúsculo e paupérrimo templo. Reconstruiu-lhes,
o bandeirante, o mosteiro e a igreja. de cuia capela-mór seria o
Protetor, pelo aue. ali teria reservadas sepulturas para si e para
os seus, e doou terras em patrimônio - fazenda de São Caetano
- àquela ordem religiosa (1650).
De 1653 a 1660. tornou-se Fernão Dias Pais uma das primei-
ras, senão a primeira figura do cenário paulista durante as san-
grentas rixas de origem familiar e política - política local -
entre Pires e Camargos e que assumiram aspectos e proporções
de verdadeira guerra civil. Foi um dos chefes da facção dos
Pires, ao lado dos quais combateu outros sertanistas notáveis,
como Fernão de Camargo, o Tigre-assassino de seu cunhado Pe-
dro Taques (segundo) - José Ortiz de Camargo, Domingos Bar-
bosa Calheiros e outros.
Desnecessário será tratar aqui dêsse longo e terriyel dissídio
até hoje ainda não completamente esclarecido. Cabe. todavia,
lembrar que, durante o período colonial, forte instituição foi a
família patriarcal e forte também a sua manifesta~ãono campo
da organização politica regional. No município encontrariam as
famílias a realização da sua tendência absorvente de crescer,
aumentar o prestígio. E assim, transferiram para as Câmaras
municipais as suas afinidades decorrentes de parentesco e com-
padrio, seus antagonismos e ódios e seus interêsses económicos.
Dai ter sido o município a única fórmula política que conseguiu,
naquela época, apresentar realmente uma síntese da sociedade a
que servia. E, na Vila de São Paulo, onde o sistema municipal
alcançou a sua mais alta expressão, não se fugiu a regra.
126: REVISTA DO IXSTITUTO HISTóRICO E GEOGRÁFICO DE S. PAULO

E mais. Teria, também, cabido a culpa de boa parte dos


acontecimentos aos magistrados neles envolvidos que o govêrno
de Portugal enviava ao Brasil - ouvidores gerais, corregedores
- movidos por interêsses e perversidade e cujas decisões visa-
vam muitas vêzes a promover a discórdia para auferirem custas
e propinas dos processos.

RETORNO AO SERTÃO - Em 1661, decidiu Fernão Dias


Pais retomar ao sertão. Nesse mesmo ano promoveu jornada ao
Sul, à antiga região das missões jesuíticas do Guairá - terri-
tório hoje paranaense - onde, na Serra de Apucarana, se inter-
nou entre os índios guaianás. Seria essa a sua última expedição
de apresamento do gentio. Conquistou três tribos daquela nação
que conduziu, com os respectivos caciques, Tombú, Sondá e Gra-
vitaí, para as suas terras em São Paulo e estabeleceu-os junto ao
Tietê, nas proximidades de Parnaíba, aí formando uma aldeia
de quatro a cinco mil índios sob a sua administração.
-00--

EM SAO PAULO - Em 1664, já de volta da sua prolongada


expedição, recebeu de Afonso VI de Portugal a carta autógrafa
(21 de Setembro de 1664) que o concitava a auxiliar a entrada
de Agostinho Barbalho Bezerra ao descobrimento de esmeraldas,
entrada essa que haveria de encerrar o ciclo oficial espirito-san-
tense das incursões ao interior em demanda aquelas famosas e
supostas pedras preciosas da misteriosa Serra de Sabarabuçu.
Natural de Pemambuco, era aquêle sertanista filho de Luís
Barbalho Bezerra que se distinguira na guerra holandêsa. Além
de militar, fidalgo da Casa Real (1663), donatário da Ilha de
Santa Catarina e Correio-mór do Brasil, era administrador-geral
das minas da Repartição-sul da Colônia. Trouxera de Portugal
c a r t a s - r é g i ~dirigidas a vários bandeirantes paulistas e Capitães-
móres do Espírito Santo, de Cabo Frio e de São Vicente, pois o
encarregara el-Rei de uma jornada às legendárias esmeraldas da
fantástica Sabarabucu.
Nomeado em 1664 para levar a cabo o descobrimento das
esmeraldas, escreveu de Vitória a Fernão Dias Pais (13 de Dezem-
bro de 1665) para lhe oferecer certo "negócio de minas" que lhe
convinha examinar, devendo ir "a umas serras". E, como lhe
faltassem mantimentos, recorria ao bandeirante para que o
assistisse "com aquêle zêlo que costumava empregar no real
servico".
Em resposta, Fernão Dias Pais fêz conduzir a própria Custa
para o pôrto de Santos, de onde seriam remetidos a Vitória,
REVISTA DO IKSTITUTO HIST6RICO E GEOGRLFICO DE S. P A U W 127

nada menos de 42 arrôbas de carne de porco, 80 alqueires de feijão


e 2 cargas de biscoitos. Considerada a pobreza paulistana e as
dificuldades de transporte dos gêneros em dorso de índios, teria
sido notável para a época o donativo.
Em Maio de 1666, internou-se Barbalho Bezerra com uma
pequena tropa nas matas do rio Doce Ali se finaria de modo
ignorado, sem nada conseguir da sua mal-aventurada expedição.
Durante alguns anos continuou Fernão Dias Pais em São
Paulo, n a sua fazenda do Capão, em Pinheircs. Consideravam-no,
na Capitania, um dos homens "de maior cabedal de gente" e de
"groça fazenda", "o mais rico e poderoso de escravos". E não se
furtava a prestar auxílio a sertanistas e serviços a Coroa. Assim
quando da organização da expedicão para a campanha contra
o gentio bravo dos sertóes baianos. chegou a emprestar avultado
cabedal aos cabos da Tropa que ali iam pelejar: Estevão Ribeiro
Baião Parente e Brás Rodrigues de Arzão (1671, 1672, 1674). Isto,
sem contar a cessão de muitos dos seus índios como soldados de
recruta.
-00-

PERSPECTIVAS DE NOVA EXPEDIÇÃO - Governava o


Estado do Brasil, Afonso Furtado de Castro do Rio de Mendonça,
Visconde de Barbacena, a quem muito recomendára o príncipe
regente D. Pedro promovesse o descobrimento de prata e esme-
raldas, razão pela qual empenhou-se o novo Governador geral em
fazer reviver as antigas jornadas pesquisadoras de tesouros enco-
bertos pelo sertão. E, no meio das providências que tomou, lem-
brou-se de Fernão Dias Pais - de notório valor pessoal, serta-
nista, militar e abastado a altura da missão de achamento da
mitica e até então inatingível Sabarabuçu.
Realmente, aos oito dias do mês de Agosto de 1672, recebe-
ram os camaristas de São Paulo uma carta do Conselho Ultrama-
rino, na qual se encomendava aquele Senado, em nome de Sua
Alteza, fossem dadas noticias sobre o haver nos sertões da Capi-
tania minas de prata e ouro de fundição e esmeraldg. E, para
que as pesquisas tivessem efeito, convocou-se Fernão Dias Pais a
fim de que tomasse conhecimento da ordem do Govêrno-geral
sobre o descobrimento das minas e informasse se tinha certa a
sua existência ou se se tratava de "aventura de experiência".
Não confirmou e tão pouco negou Fernão a suspeita de minas.
Limitou-se a dizer que ia aventurar-se "pelas informações dos
antigos" e deu inicio aos preparativos para a jornada.
Não obstante as enfraquecidas forças de homem mais que
sexagenário, aceitou, com paixão e zêlo, desincumbir-se do real
serviço de retomar e rematar a expedicão de Agostinho Barbalho
Bezerra, "sem que a fazenda real lhe assistisse com coisa algu-
ma para esta tão grande, como assaz recomendada expedição",
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como afirmou. Todavia, autorizou-o o Govêrno a solicitar recur-


sos - gente e ainheiro - ao Capitão-mor, ao Provedor da Fa-
zenda e a Câmara de São Paulo.
A 30 de Outubro de 1672, lavrou-se, n a Bahia, a patente de
Fernão Dias Pais, como Governador "de toda a gente que tiver
mandado adiante para o dito descobrimento, levar consigo ou for
depois a incorporar-se com ele, assim de guerra como de outra
qualquer condição, e com êste pôsto usará da insígnia que lhe
toca, e gozará de todas honras, graças, franquezas, privilégios,
preeminências, isenções e liberdades que lhe tocam, podem e
devem tocar.. .".
De acordo com os têrmos dessa patente, a 2 de Fevereiro
de 1673, em Santos, perante o Capitão-mor de São Vicente, Agos-
tinho de Figueiredo, o bandeirante prestou juramento de "Gover-
nador de toda a gente de guerra e outra qualquer que tiver ido
ao descobrimento das minas de prata e esmeraldas".
Agostinho de Figueiredo foi dos mais solícitos Capitães-mó-
res. em tentar o descobrimento de minas na região de Parana-
guá. A êle recomendou, com a maior instância, o Governador
geral do Brasil. auxiliasse a Fernão Dias Pais suprindo-o com
mil cruzados (400$000), além dos 170$000 com que o bandeirante
socorrera Baião e Arzão para a jornada a Bahia. Todavia, de
acordo com a singular generosidade do Estado, a entrega dos mil
cruzados era "com declaração que, sendo caso que não consiga
o dito descobrimento, ficará obrigado por sua pessoa e fazenda
a satisfação dos ditos 400$000 e com recibo seu se levarão em
conta do dito Tesoureiro que os despender nos que der de seu
recebimento", o que significa que, se malograsse o empreendimen-
to, seria o sertanista obrigado a uma reposicáo. O Estado prefe-
ria associar-se a emprêsas bem sucedidas. . . !
O curioso é que os 570$000 da quota prometida pelo Govêrno
geral ao bandeirante reduziram-se a 215$000, total por êle rece-
bido, conforme a solene atestação da Câmara de São Paulo, a 6
de Dezembro de 1681, empréstimo que deveria ser devolvido "para
pagar, não lendo efeito o descobrimento das esmeraldas".
Em relação a Baiáo e a Arzão, por equidade, certamente se
usára da mesma política.
Conhecedor o Principe regente da disposição do bandeiran-
te, nele teria depositado todas as esperanças. Apressou-se a
escrever-lhe a fim de incentivá-lo a que se internasse o mais rapi-
damente no sertão. E, assim, no ano de 1674, por duas vêzes
recaiu sobre Fernão Dias Pais a "incomparável honra" do recebi-
mento de cartas autógrafas do futuro soberano, D Pedro I1 de
Portugal.
Na de 20 de Fevereiro de 1674, dizia-lhe o Regente que rece-
bera a sua carta de 12 de Agosto de 1672, em que "lhe era presente
REVISTA DO IXSTITUTO HISTÓRICO E G E O G U F I C O DE S. PAULO 129

o seu grande serviço". E mais: "Quererá Deus que por vosso meio
se efetue o descobrimento das minas para melhoramento desta
coroa e suas conquistas". E que quando tivesse efeito o que se
desejava naquele "negócio", poderia Fernão Dias Pais esperar
da "real munificência toda a mercê e acrescentamento", bem
como os seus companheiros de jornada.
Já o sertanista havia partido a chegada de tal carta, dez
meses depois, a 30 de Novembro e, reforçada por outra com bri-
lhantes promessas e nada mais.. .
-
0
-
A EXPEDIÇÃO DAS ESMERALDAS - Seis a sete mil cruza-
dos teria sido o capital despendido por Fernão Dias Pais na orga-
nização da sua jornada. Dispôs de todo o gado, do ouro e da
prata que possuía, pelo que ficou-lhe a casa em "miserável estado
de pobreza, havendo-se criado em grande largueza e opulência",
atestou o padre Domingos Dias, reitor do Colégio jesuitico de São
Paulo (18 de Novembro de 1681).
Aparelhou com o necessário e com índios alugados a sua
custa homens que não dispunham de recursos para empreitadas
sertanistas e desejavam integrar-se à sua tropa. Aos índios recru-
tados nas aldeias reais, pagou 8$000 a cada qual que se dispu-
sesse a acompanhá-lo.
A espôsa, Maria Garcia Rodrigues Betim, enfêrma, ter-lhe-ia
pedido que diratasse para mais tarde a jornada, ao que, obsecado,
lhe teria respondido, peremptório, o bandeirante que, "ainda que
a deixasse à Santa Unção" haveria de partir.
Casara-se Fernão Dias Pais já maduro em anos. Sua espôsa,
nascida em 1642, era 34 anos mais jovem do que êle.
Maria Garcia Rodrigues Betim era filha de um paulista de
prol, potentado em arcos, Garcia Rodrigues Velho e de sua mu-
lher, Maria Beting. Esta era filha daquele mineiro que o Gover-
nador D. Francisco de Sousa trouxera em sua comitiva para o
Brasil, Geraldo Beting. Por parte da mãe, Custódia Dias, Maria
Beting tinha sangue índio. Descendia de Tibiriçá.
Mais tarde, ao dar-lhe ao filho - Garcia Rodrigues Pais -
um atestado, narrou o fidalgo, tido por castelhano, D. Rodrigo
Castelo Branco - a cujo respeito oportunamente se falará -
curiosas particularidades relativas ao Governador das Esmeral-
das. A quem procurasse contrariar-lhe os planos preparatórios
da expedição "desia que estaba loco, pues gastaba 10s afios y e1
caudal de sus hijos y mujer en locuras que non habian de tener

(11 - Conforme Jaime Cortes% em e.1ntrodução e% História das Bandei-


rass, vol. 115 Lisboa, 1964, p8g. 111, D. Rodrigo de Castelo Branco era portu-
gu&s e n8o casteihano, como se tem afirmado.
150 REVISTA DO ISSTITCTO HISTÓRICO E GEOGRAFICO DE S. PAULO

fin". E de ninguém desejava auxílio "a este serbisio en cosa


alguna".
Dispós-se Fernáo Dias Pais a levar na jornada o seu ainda
jovem filho Garcia Rodrigues Pais e um bastardo, mameluco,
José Dias Pais, um primo em terceiro grau, Matias Cardoso de
Almeida, um dos grandes paulistas de valor pessoal e experiên-
cia dos sertões, como Capitão-mor ajudante Nomeado desde 13
de Março de 1673, seria êle o seu futuro sucessor.
De outra partente dêste último, passada pelo Governador-
geral, datada da Bahia a 3 de Abril de 1690, para a guerra nor-
tista aos indígenas, sabe-se que partiu antes de Fernáo Dias Pais,
com 120 escravos seus, armas e munições a sua custa, indo plan-
tar roças naquêle sertáo, onde teve vários encontros com o gentio
e uma refrega de que houve muitas baixas, conseguindo, no entan-
to, vencê-los e formar logo arraial com diversas plantas e criações
levadas de São Paulo e dali despachou mantimentos a Fernáo
Dias Pais, quando o mesmo pôs-se em marcha.
Sabe-se, ainda, que figuraram na sua expedição, em datas
diferentes, até o seu falecimento no sertáo do Sumidouro, em
Minas Gerais, os seguintes sertanistas, além dos filhos e do aju-
dante: Manuel de Borba Gato, o genro, grande figura de serta-
nista, Francisco Pais de Oliveira Horta, Francisco Dias da Silva
(ou Francisco Pires Ribeiro), Antônio Gonçalves Figueira, Antô-
nio do Prado da Cunha, José de Seixas Borges, Domingos Cardoso
Coutinho, João CarvaIho da Silva, Baltazar da Costa Veiga, Diogo
Barbosa Leme, Pedro Leme do Prado, Antônio Bicudo de Alva-
renga, Marcelino Teles, José de Castilhos, Manuel da Costa, Ma-
nuel de Góis, João Bernal, Belchior da Cunha, mameluco, e
José da Costa, amigos uns, parentes outros. E completaria a sua
tropa com o concurso de índios guaianás da sua redução, já
catequizados.
-00--

RUMO SABARABUÇU - Às vésperas de partir para a


grande jornada, da qual não regressaria, dirigiu o Governador
das Esmeraldas a Bernardo Vieira Ravasco, na Bahia, uma carta
de próprio punho e datada de São Paulo, a 20 de Julho de 1674,
na qual se lê: ". . . . minha partida que amanhã sábado vinte e
hum de julho de seiscentos e setenta e quatro com quarenta ho-
mens brancos, afora eu, e meu filho, e subditos meus brancos,
e tenho quatro tropas só de mossos meus com toda a carga de
mais importância no serro onde está o Capitam Mathias Cardoso,
esperando por my, o qual me mandou pedir gente escoteyra com
polvora e chumbo, que me foi outra vez forçoso refazer para
levar para my. Vossa Senhoria deve considerar que êste desco-
brimento he o de mayor consideração em rasam do muyto rendi-
REVISTA DO IXSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRAFICO DE S. PAULO 131

mento, e também esmeraldas, e diversa pedraria como sempre


se disse, e foy já descoberto, e avendo eu de avizar com ajuda de
Deus que o descobrissem ter todo o deserto, povoado de gente
assistente para que Sua Alteza o mande ver e examinar para que
sem gasto nem dillação, havendo muyto que comer, e bastante
criação que se faça com toda a facilidade que o ir e vir facil cousa
fora aos homens de Sam Paulo, e difficultoso ao depois e somente
se examinarem os serros, e ficará o mais por descobrir; e em
chegando farei aviso a Vossa Senhoria do que ha . . .".
Constituindo a vanguarda, enviára a sua frente, Fernãot
Dias Pais, um tróço comandado por Bartolomeu da Cunha Gago.
E, finalmente, na data aprazada, 21 de Julho de 1674, arrancou
rumo ao sertão em busca da lendária Sabarabuçu. Contava 66
anos de idade. Não era o velho paulista sonhador de riquezas
fabulosas, o "caçador de esmeraldas" que a lenda criou, mas o
organizador enérgico de uma difícil emprêsa de interêsse e âmbi-
to estatal entrosada a largo piano de incentivo as pesquisas de
minerais preciosos - a prata especialmente - não respeitante
apenas ao vago sertão de Sabarabuçu, mas extensivo às regiões
de Itabaiana, na Bahia, de Paranaguá e Iguape no litoral vicen-
tino; plano decorrente das aflitivas dificuldades financeiras atra-
vessadas pelo Reino, cónscia a Corôa de que as únicas perspecti-
vas de salvação nacional repousavam no Brasil. O que era
realidade.
Quanto ao itinerário seguido pela expedição de Femáo Dias
Pais, nada se sabe ao certo. Presume-se que tenha rumado para
as cabeceiras do rio das Velhas, pelo roteiro que penetrava na
Mantiqueira, na região da atual cidade de Atibaia, praticado
pelos sertanistas paulistas desde os primórdios do século XVII
e o preferido de Matias Cardoso de Almeida, grande conhecedor
das trilhas que de Sáo Paulo levavam ao norte brasileiro. Teria
dado preferência o imediato de Fernão Dias Pais a um caminho
que traçára por Atibaia e Sapucai e de onde já havia afugentado
o gentio bravo. Conhecia a futura região mineira, por já ter
praticado ali intenso apresamento de índios.
Se tivesse Fernão Dias Pais seguido pelo "caminho geral'f,.
ou seja, pelo vale do Paraiba e "portado" em Taubaté, para depois.
pela garganta do Embaú, atravessar a Mantiqueira e penetrar em
território das futuras Minas Gerais - como já se usava e usara
praticar - não deixariam os oficiais da Câmara do humilde vila-
rejo de Taubaté de registrar menção ao fato que, dadas as condi.
ções da época e do local teria sido memorável acontecimento.
Incompleto e precário é o conhecimento que se tem do itine-
rário do bandeirante no sertão do rio São Francisco. Para a ma-
nutenção da tropa naquêle longínquo interior e a prever o
regresso aosolo paulista, estabeleceram os sertanistas uma série
132 REVISTA DO INSTITUTO HIST6RICO E GEOGRbFiCO DE S. P A U L O

de pousos onde promoveram o plantio de roças de subsistência,


de acordo com o que narrará, num escrito datado de 1757, Pedro
Dias Pais Leme, neto do bandeirante.
São tais pousos e escalas da rota possivelmente praticada
pela bandeira no sertão mineiro: Vituruna, Paraopeba, Sumi-
douro do rio das Velhas, Roça Grande, Tucambira, Itamerendiba,
Esmeraldas, Mato das Pedrarias (ou Pedreiras) e Serra Fria (ou
Sêrro Frio). Todavia, sôbre a identificação de tais sítios preva-
lecem apenas as conjecturas.
Paraopeba, também chamado arraial de São Pedro, teria sido
um ponto marginal no rio Paraopeba e, Sumidouro, um local
próximo ao rio das Velhas, não muito distante do desaguadouro
da Lagoa Santa.
Basílio de Magalhães, o historiador mineiro da expansão
geográfica do Brasil colonial acha que a grande expedição paulis-
ta teria rumado para o norte, a partir das nascentes do rio das
Velhas, em busca da Serra de Itacambira e das cabeceiras do Ita-
marandiba, atravessaria o vale do Jequitinhonha subindo o
afluente do Araçuaí, atingindo em arremetida extrema a lagoa
de Vapabucu (ou Vupabuçú) e o Sêrro Frio. Ao se concordar
com Borges de Barros, historiador baiano, teria atingido o Gover-
nador das Esmeraldas, em 1675, a serra de Sincorá, em pleno
território da Bahia.

A BANDEIRA EM MARCHA - Indescritíveis privaçôes sofreu


a bandeira de Fernão Dias Pais durante os sete anos de peregri-
nação. Devassar os ásperos sertões centro-mineiros era emprêsa
que exigia os maiores sacrifícios.
Diz a crônica de Pedro Taques que não encontrando minas
de prata na serra de Sabarabuçu, entranhou-se ainda mais o
Governador Fernáo Dias Pais por aquelas vastas e agressivas
plagas, at& chegar à região do feroz gentío Mapaxó, nas proxi-
midades da Serra das Esmeraldas. Assentou arraial no sítio de
Itamerendiba e depois outros mais, com plantas e celeiros, para
neles recolher os frutos das sementeiras, sendo que o mais popu-
loso foi o de São João, no local denominado Sumidouro.
Nas marchas e contra-marchas através do desconhecido, a
tatear montes e vales do sertão, da Mantiqueira a serra do Espi-
nhaço e à Chapada Diamantina, gastaram-se as munições e as pro-
visões e viu, o bandeirante, tombarem numerosos companheiros,
parentes e amigos, soldados e índios. Exausto de recursos e envol-
vido pelo mais profundo desânimo da parte de seus desesperan-
gados comandados, graças a inquebrantável pertinácia ante a
adversidade e à disciplina férrea e cruel, mantinha o bandeirante
REVISTA DO INSTITUTO HISTÕRICO E GEOGRAFICO DE S. PAULO 133

em sujeição a sua bandeira. Repetia-se, no sertão, o que sucedera,


outrora, no oceano a Colombo, a Magalhães e a outros grandes
navegantes.
Apesar da angustiante situação, não retrocederiam, decla-
rava o ancião, enquanto enviava emissários a esposa em São Paulo,
para que lhe mandasse os meios necessários ao prosseguimento
daquela jornada interminável.
A essa altura, também quase exaustos estariam os recursos
da sua fortuna. Muito despendera com o apresto da jornada e
despendia, ainda, com os fornecimentos periódicos necessários a
manter a bandeira no sertão. Dizem os documentos, que perdera
ainda, o lucro de 2 a 3 mil cruzados anuais que lhe rendia a sua
lavoura. Chegou a recorrer aos capitalistas da Capitania. Ficou
a dever a Fernão Pais de Barros mais de um conto de réis, a
Gonçalo Lopes e a João Monteiro quase igual soma a cada um,
além de outras dividas menores, sem contar os fornecimentos
que por determinação do padre João Leite da Silva, seu irmão,
lhe foram remetidos muitas vézes.
A ordem a mulher era para que se despojasse de tudo que
pudesse reverter em auxilio da bandeira. E que, vendidos o ouro
e a prata da casa, não poupasse as jóias das filhas. Atendeu-o
a esposa em salvaguarda a honra, ao crédito e ao nome do mari-
do, pois sabia que jamais recorreria éle às autoridades da Colônia
ou a Coroa.
Enquanto permanecia acampado no arraial do Sumidouro
a espera do socorro material solicitado, o desespêro assaltou
parte dos sertanistas. E conspiraram contra o chefe. Ao conci-
liábulo juntou-se José Dias Pais, o filho mameluco do Governa-
dor das esmeraldas. Teriam tratamod tirar-lhe a vida e desertar.
E, registra a crônica, informado por uma velha índia guaianá que,
a espreita se inteirára, certa noite, do ocorrido, procedeu a repres-
são da conspirata e féz enforcar sumariamente em público o
próprio filho rebelde.
Anos passados em trabalhos incessantes, em pgsquisas e
sondagens, a custa dos maiores sofrimentos, Matias Cardoso de
Almeida e sua tropa acompanharam o Governador das Esmeral-
das até 1680. E, por motivos não históricamente esclarecidos
retrocederam nesse ano a Vila de São Paulo.
Com Garcia Rodrigues e Borba Gato, prosseguiu Fernão
Dias Pais a sua marcha pelos vastos sertões sem fim, até estabe-
lecer feitoria na Tucambira e outras no Itamirindiba, onde sulcou,
segundo a crônica de Pedro Taques, " . . . por diversas veredas o
mesmo sertão do reino dos Mapaxós até o lugar da alagoa Vupa-
buçu, no laborioso desvêlo de descobrir as apetecidas esmeraldas,
no sitio em que as havia extraído Marcos de Azeredo, que, reco-
lhido ao Rio de Janeiro, quis antes morrer em uma cadeia, ter
134 REVISTA DO INSTITUTO HIST6RICO E G E O G R Í F I C O DE S . P A U L O

sequestrados todos os seus bens, do que declarar o sítio onde


tinha achado as esmeraldas e a prata".
Mas, eram turmalinas, por assim dizer, desvaliosas e não as
cobiçadas esmeraldas, o que viria a descobrir o grande bandei-
rante. O aspecto das pedras e a ignorância na matéria o induzi-
riam a um provincial engano que lhe acumularia de esperanças
.os últimos dias da vida.
A deserção, após seis anos, de Matias Cardoso de Almeida,
aliás mais afeiçoado ao apresamento de índios do que as pesqui-
sas de minerais preciosos, seguiram-se as dos dois capelães da
expedição e de vários outros companheiros de jornada, desespe-
rados das riquezas do sertão.
Ao assistir a dispersão de sua bandeira, declarou Fernão Dias
Pais ser-lhe forçoso levar ao conhecimento de todos os desertares
o quanto era nefasto aquele procedimento depois de se acharem
abertas as covas de esmeraldas outrora descobertas por Marcos
de Azeredo, o que deveria cobrir as extraordinárias despesas da
jornada.
Todavia, Matias Cardoso de Almeida haveria de retornar.
Em Janeiro de 1681, foi nomeado tenente-general da leva de
Sabarabuçu para o descobrimento da prata na qual ia o adminis-
trador geral das minas da Reparticão do Sul, D. Rodrigo Castelo
Branco. Com êsse delegado régio serviria no sertão mineiro até
Agosto de 1682, quando. no Sumidouro, se desenrolaram fatos
dos quais resultou ser o referido D. Rodrigo assassinado numa
emboscada a beira da estrada para o arraial, por Manuel de Barba
Gato e sua gente.
Esperava Fernão Dias Pais a chegada a região onde operava
da expedição oficial de D Rodrigo Castelo Branco. Julgava pró-
ximo o encontro com o comissário régio das minas.
---000--

O F I N DA AVENTURA - Nas roças do Paraopeba, a que


chamou Paraupipeba, arraial de São Pedro, mandou D. Rodrigo
aviso de sua presença ao bandeirante, datado de 4 de Junho de
1681. Referia-se às cartas que lhe escrevera desde a chegada ao
Brasil, havia três anos e desejava examinar as pedras verdes.
Mas a carta de D. Rodrigo não alcancaria vivo o grande
bandeirante que, atingida a meta dos seus esforços, pouco tempo
após sobreviveria. Morreu setuagenário, em dia que não se conhe-
ce, depois de 27 de Março e antes de 26 de Junho de 1681, nas
proximidades do rio das Velhas, dizem os documentos; em paz
e convicto da missão cumprida, da descoberta das esmeraldas
ocultas pela natureza no bojo das serras e penedias alcantiladas
do sertão mineiro. No arraial do Sumidouro enfermára. vitima
REVISTA DO INSTITUTO IIIST6RICO E G E O U R i P I C O DE S. P A U L O 135

por uma epidemia de "carneiradas" - febres palustres - peste


adquirida ao regressar do reino dos pataxós, onde descobrira as
supostas pedras verdes de que também morreram homens da
expedição e a maior parte do gentío guaianá do Governador.
Morria pobre, segundo o testemunho do seu irmão, o padre
João Leite da Silva que promoveu ainda ésse ano uns autos de
inquiricão acerca das consequéncias da grande jornada esme-
raldina sobre a fortuna do Governador das esmeraldas.
Arruinara-o o financiamento da expedição e, com sua morte,
ficava na penúria a sua família, a espósa, cinco filhas solteiras e
cinco sobrinhas órfãs que dependiam do seu amparo, de que tam-
bém se socorriam duas irmãs e várias parentes pobres.
Inesgotável fora a sua caridade, extensiva também aos reli-
giosos, os beneditinos, especialmente a aos sertanistas contem-
porâneos.
A ajuda de custo que lhe mandára dar o Governador geral
não recebera integralmente. Mas preferira nada pedir. No dizer
da Câmara de São Paulo, em 1681, levava ao extremo a sua alti-
vez de vassalo: não admitia o menor favor da parte de el-Rei. E
assim morreu, exausto de recursos, consumida a sua fortuna no
emprêgo do real serviço.
Ao fechar os olhos, instou o grande sertanista ardentemente
a o filho que o sepultasse na igreja que oferecera ao patriarca
São Bento. Desejava repousar entre os monges seus amigos, o
que Garcia Rodrigues Pais jurou cumprir.
Embalsamado o corpo do Governador das esmeraldas -
ignora-se o processo - o filho e os últimos índios transportaram-
lhe os despojos através do sertão para a Vila de São Paulo.
Quando, exatamente, não se sabe. Ao subir o rio das Velhas
naufragou a canoa em que navegavam aqueles respeitáveis restos
mortais e, dias a fio, passou o filho aflito a procurá-los no fundo
das águas caudalosas. Afinal, logrou salvá-los e pôde vê-los sepul-
tados onde prèviamente determinara o pai. Ao findar o ano de
1681, jaziam enterrados na igreja de São Bento.
Em 1910, ao desentulhar-se o local da velha igrqa que seria
substituída pela atual basílica, foi encontrado sob a capela-mor
o túmulo de Fernão Dias Pais, ao lado de outra sepultura, prova-
velmente a de sua mulher. Aberto o tosco jazigo, ali estavam um
fêmur de homem agigantado, duas ou três vértebras do sacro,
fragmentos do parietal e do occipital e, aderentes, restos de ruiva
e encanecida cabeleira de fios mui finos. Ao lado, duas solas de
sapatos bem conservadas e sem saltos, pedaços de cordão como
os de São Francisco e galão de prata e, uma grande funda de
ferro guarnecida de couro, para hérnia, presa a uma cinta tam-
bém de ferro e cujo uso devia ser sobremaneira incômodo para
indivíduos menos rudes que o estoico bandeirante.
136 REVISTA DO INSTITUTO HIST6RICO E GEOGRAFICO DE S. PAULO

Inaugurado o nôvo templo, em 1922, solenes exéquias se fize-


ram pela segunda vez em intenção do sertanista, cujos despojos
ali jazem com os de sua esposa, em sepulcro no centro e sob a
nave da Basilica abacial de São Bento.

DEPOIS - Morto o grande bandeirante, pos Garcia Rodri-


gues Pais a disposicão de D. Rodrigo Castelo Branco os manti-
mentos e as criações existentes no arraial do Sumidouro e nas
demais feitorias que seu velho pai estabelecera no sertão. E, no
arraial do Paraopeba, entregou aquele delegado da Corôa as
pedras verdes que Fernáo Dias Pais mandára "tirar de um cerros
que antigamente tinham tirado os Azeredos em reinos do pata-
chós, as quais ditas esmeraldas as fizesse presente a Sua Alteza
por duas vias para que no reino se visse se tinham a dureza e
fineza e que entretanto que vinha em resposta do dito senhor
administrador mandasse tomar posse em nome de Sua Alteza
dos ditos cerros adonde se tiraram as ditas pedras para que nenhu-
ma pessoa pudesse ter direito nellas visto que elle dito have-las
manifestado nesta administração para que o dito administrador
desse conta a Sua Alteza de como elle dito as manifestava", segun-
do reza o Registro Geral da Câmara de São Paulo.
D. Rodrigo Castelo Branco, tido como prático em mineração
de ouro e prata, com experiência adquirida, segundo dizia, nas
minas do Peru, foi o homem que a Corôa associou ao plano das
pesquisas metalíferas no Brasil. Arribou a Bahia, em 1674, como
administrador das "minas de Itabaiana" (Bahia) e, três anos
depois, estendeu-se a sua autoridade as minas das Capitanias
do Sul.
Sem resultados na Bahia, depois promoveu, em 1679, sonda-
gens de metais preciosos em Iguape, Cananéia, Paranaguá, Curi-
tiba e, no ano seguinte, nos arredores da Vila de São Paulo e em
Itu.
Não ob&nte velho e doente, partiu em Março de 1681 para
o sertão de Sabarabuçu, no rumo que teria tomado o Governador
das esmeraldas, ou seja, por Atibaia e Sapucaí. Em Junho chega-
va ao arraial de São Pedro de Paraopeba e logo enviava um
emissário à Câmara de São Paulo, com um ofício e amostras das
supostas esmeraldas descobertas por Fernão Dias Pais que lhe
foram entregues por Garcia Rodrigues e destinadas ao Regente.
Eram turmalinas verdes, desconhecidas na época e, portanto,
tidas como esmeraldas. Os lapidários do Reino haveriam de
rejeitá-las.
A essa altura, o padre João Leite da Silva - sacerdote do
hábito de São Pedro - irmão de Fernáo Dias Pais, protestou,
sem resultados perante a edilidade, no sentido de que se proibisse
REVISTA DO INSTITUTO HIST6RICO E GEOGRLFICO DE S. PAULO 137

a D. Rodrigo Castelo Branco tocar no produto dos descobrimentos


do Governador das esmeraldas.
Todavia, nos últimos mêses de 1682, índios levados por D.
Rodrigo para o sertão de Sabarabuçu apareceram na Vila de São
Paulo com a noticia da sua morte. Fóra assassinado nas para-
gens do Sumidouro. O cabeça de emboscada que o colheu teria
sido Borba Gato. O motivo, certamente o mesmo do protesto do
padre Joáo Leite da Silva.
Manuel de Borba Gato, filho de Joáo de Borba e de Sebastia-
na Rodrigues, casado com Maria Leite, era genro de Fernáo Dias
Pais. Depois do assassinato de D. Rodrigo, permaneceu durante
alguns anos foragido nos sertões do rio Doce e de Paraitinga.
Seu nome também se inclue na expedicão que, sob a chefia do
padre João de Faria Fialho, andou, em 1693, a explorar ouro nas
regiões dos rios Grande e Sapucaí.
Ao início de 1700, Borba Gato apareceu em São Paulo com
amostras de ouro paliado que apresentou a Artur de Sá e Mene-
zes, Governador do Rio de Janeiro e regressou, em seguida, ao
sertão de Sabarabuçu. Diz a crônica de João Antônio Andreoni
(André Joáo Autonil) "Cultura e Opulência do Brasil" que foi
o primeiro a descobrir minas de ouro no rio das Velhas e na
Serra de Sabarabuçu.
Naquele ano foi nomeado Guarda-mor do distrito do rio das
Velhas e, em seguida (1702), Superintendente das minas de ouro
da mesma região.
Possuíu terras entre o rio Paraopeba e o das Velhas e obteve
uma sesmaria na região de Caeté. Recebeu elogiosa carta régia
pelos serviços prestados. Ocupou várias vêzes a Superintendéncia
geral das minas, os postos de Provedor de defuntos e ausentes e
Administrador de Estradas. Faleceu quase centenário em sua
fazenda do Paraopeba.
Foi um dos descobridores - talvez o precursor - do desco-
brimento do ouro das Minas Gerais. O outro seria Garcia Rodri-
gues Pais.
Após o assassinato de D. Rodrigo Castelo ~ r a n c a ,no Sumi-
douro, refugiou-se Borba Gato, com seus sequazes, no sertão do
rio das Velhas, onde descobriu ouro de aluvião em quantidades
compensadoras. Manteve até o fim do século o segrêdo daquele
achado. Contudo, a eventuais contactos com gente de São Paulo,
é possível que notícias referentes a tão importante ocorrência se
tenham propagado aquela vila e dai, outras áreas da Colônia.
Ao retomar de viagem ao Reino, com o tio padre - Joáo
Leite da Silva - onde fora reclamar junto a el-Rei as recom-
pensas devidas ao pai, o filho do Governador das esmeraldas,
Garcia Rodrigues Pais, realizou, nessa época, duas entradas ao
sêrro de Sabarabuçu, depois Minas de Cataguazes ou Serra das
138 REVISTA DO INSTITUTO HISTORICO E GEOGRAFICO DE S. PAULO

Esmeraldas, onde teria descoberto ouro, segundo uma carta-ré-


gia datada de 1697, que afirma ter sido éle "o primeiro que desco-
briu ouro de lavagem nos ribeiros que correm para a serra de
Sabarabuçu". No ano seguinte deu inicio a abertura do caminho
- Caminho Novo - que ligou as Minas Gerais a cidade do Rio
de Janeiro, daí por diante pórto também da região do ouro, situa-
ção privilegiada de que muito se haveria de beneficiar.
Nessa ocasião, o nome de "Sabarabuçu" designava um ribeiro
da área mineradora de Caeté. A designação locativa conferida
pelos mineradores a ésse ribeiro é posterior a entrada de Fernão
Dias Pais. O arraial do mesmo nome ai fundado por Manoel de
Barba Gato dará origem a atual cidade de Sabará.
A propósito, a primitiva Sabarabuçu teria correspondido,
mais ou menos, ao sítio onde se eleva a Serra da Canastra Colo-
cavam-na ora entre os rios Doce e Jequitinhonha, ora no alto
São Francisco, onde, finalmente, seria o nome aplicado a uma
serra próxima ao rio das Velhas e logo substituído pelo de Serra
da Lapa ou da Piedade.
Vupabuçu, a lagoa das esmeraldas de Marcos de Azeredo seria
a atual Lagoa P r e t a . . .
-00-

Traço de união entre as entradas pesquisadoras de minerais


preciosos e o descobrimento e exploração dos mananciais aurífe-
ros do interior do Brasil - Minas Gerais, Mato Grosso, Goiás -
não obstante nula quanto as riquezas procuradas, a expedição
de Fernão Dias Pais destaca-se na História da conquista dos
sertões brasileiros pelas suas imprevistas e notáveis consequên-
cias. Não seria exagêro afirmar que descortina o Eldorado brasi-
leiro e inaugura a idade do ouro no Brasil.
Além do beneficiamento da via de penetração para as futuras
Minas Gerais, explorou extensa área que vai das cabeceiras do
rio das Velhas até a região do Sêrro Frio (na Chapada Diaman-
tina), dezenas de léguas de terrenos posteriormente reconhecidos
como ricamknte auríferos e cujos incaicuiáveis tesouros seriam
depois revelados por outros paulistas, entre os quais os próprios
participantes da jornada esmeraldina. Constituiu poderoso estí-
mulo as diversas entradas que, a seguir, penetraram naquêles
mesmos sertões e desvendaram generosos mananciais auríferos,
entre elas, a de Antonio Rodrigues de Arzão - saída de Tauba-
té (1693) - e a de Bartolomeu Bueno de Siqueira - cunhado
de Arzáo -e Caslos Pedroso da Silveira (1694), também paulis-
tas, que revelaram as faisqueiras das regiões de Caeté e de Itave-
rava, respectivamente.
Assim, antes do raiar do setentismo, profícuas e contínuas
diligências dos paulistas localizaram, simultáneamente, depósitos
REVISTA DO INSTITUTO HISTÕRICO E GEOGRAPICO DE S. P U L O 139

auriferos aluvionais nas margens e nos leitos dos inúmeros rios


e riachos das regiões de Caeté, de Ouro Preto, de Sabará e
imediações.
Desvendados pelo caminho de São Paulo os tesouros do sertão,
tenderão a desvanecer-se as miragens da argentifera Sabarabu-
çu e da Serra das Esmeraldas, reflexos do modêlo originário das
indias de Castela e das antigas montanhas resplandescentes do
gentio. A presença do ouro sobrepujará a miragem da prata.
Destarte, durante as primeiras décadas do século XVIII se
processará o devassamento de quase todo o interior mineiro e,
a seguir, expedições pesquisadoras aos mais longínquos sertões
do oéste revelarão os mananciais auriferos de Mato Grosso (a
partir de 1718) e de Goiás (1725 em diante), novas áreas de
colonização posteriormente ocupadas e incorporadas a América
portuguêsa
Para a descoberta do ouro nas paragens goianas, por Barto-
lomeu Bueno da Silva, o segundo Anhanguéra, muito influiu
a lenda da Serra dos Martírios, serra de ouro, perdida no imenso
e vago sertão e, em cujas penedias se destacavam, por obra da
natureza, toscas formações semelhantes a coroa, lanqa e cravos
da paixão de Cristo.
Em Minas Gerais, desvendados os campos auriferos de
exploração compensadora e, ao desencadear-se a corrida do ouro
rumo aos montes e vales da Serra do Espinhaço e suas deriva-
ções, já estava aberto o caminho para o povoamento da região
que se fêz rápido e a cujos primórdios se relaciona intimamente
a expedição de Fernão Dias Pais. por intermédio de seus luga-
res-tenentes, Matias Cardoso de Almeida, Manuel de Borba Gato
e Garcia Rodrigues Pais. O primeiro promoveu o estabeleci-
mento da estrada que ligou as minas aos currais de gado do rio
São Francisco, na Bahia, para depois passar as suas campanhas
do Ceará e do Rio Grande do Norte. O segundo, o devassamento
do sertão do rio das Velhas e o terceiro, a abertura da via de
comunicacão direta e mais rápida das minas com o Rio de Janei-
ro, de grande significação histórica. Tais caminho! permitiram
e facilitaram o trânsito de homens, animais e cargas, rumo a
região já devassada do rio das Velhas e áreas vizinhas e garanti-
ram as comunicaçóes e o abastecimento de grandes contingentes
humanos abruptamente estabelecidos no sertão. Assim puderam
erguer-se as primeiras paredes de páu-a-pique, com telhados de
folhas de palmeira, sapé ou palha ,de humildes habitações e cape-
linhas formadoras dos primeiros arraiais mineiros que se alas-
traram com espantosa rapidez.
Às notícias do descobrimento do ouro no sertão brasileiro,
processou-se impetuosa e incontrolável corrida de gente de todas
as partes da Colônia e da Metrópole para o novo Eldorado. Vilas,
140 REVISTA DO INSTITUTO HIST6RICO E GEOGRhFICO DE S. PAULO

fortalezas, lavouras e currais, estabelecimentos comerciais, em-


barcações, tudo se abandonou, para enfrentar, mar, serras e flo-
restas, montes e vales, obstáculos e perigos de toda a ordem e
chegar as minas. E, em pouco tempo, brancos, negros e mulatos,
homens, mulheres, jovens e velhos acumularam-se naquêles ser-
tões, para tentar a sorte na nova terra da promissão.
O estabelecimento de correntes de comércio para o abasteci-
mento das populações recém-instaladas no sertão devido a aber-
tura de novos mercados consumidores de gêneros e escravos, deu
margem a mais desenfreada especulação em torno dos preços
das mercadorias.
Ao acúmulo de gente de proveniência vária - portuguêses,
baianos, nordestinos, fluminenses e outros - e de hordas de
aventureiros, a turbulência, desordem, anarquia e violência e a
ausência de lei, prevalecia a lei do mais forte.
Destarte, da insustentável animosidade entre paulistas des-
cobridores do ouro e adventícios - "forasteiros", "emboadas" -
que os superavam em número, eclodiu, em fins de 1708, a inevi-
tável guerra dos emboadas, que finda um ano após, cogitou a
Corôa portuguêsa de elevar a Vila de São Paulo a categoria de
cidade (o que fêz por carta régia de 11 de Julho de 1711), já tendo
criado a nova Capitania de São Paulo e Minas do Ouro, com govêr-
no separado e independente do Rio de Janeiro (carta régia de 3
de Novembro de 1709), para a acomodação dos paulistas.
Ao fim dêsses acontecimentos, tentarão êles novos rumos e
novas pesquisas, cujo êxito contribuirá para reforçar o violento
deslocamento do eixo económico do Brasil colonial do norte para
o sul da Colónia, ou seja, do açúcar para o ouro. Trata-se de
descobrimento do ouro em Cuiabá (1718) e em Goiás (1725).
Das primeiras expedições responsáveis pelo descobrimento
do ouro em Mato Grosso, cumpre citar, em primeiro lugar, a de
Antonio Pires de Campos, que, mais ou menos em 1716, marcou
o rumo até Cuiabá, a procura da Serra dos Martírios. Já esti-
vera por aqu%laparagens quando adolescente, em 1675, em com-
panhia do pai, Manuel de Campos Bicudo.
Em 1718, pelo mesmo caminho, Pascoal Moreira Cabra1 Leme
descobriu ouro no Coxipó-Mirim, dando início aos trabalhos de
mineração e inaugurando, com outros povoadores, o período das
monções, expediçóes fluviais povoadoras e comerciais que substi-
tuíram as bandeiras e as entradas naquêle setor e nas quais predo-
minaram os filhos de Itu e Sorocaba. Partiam de Araritaguaba,
Porto Feliz, navegando pelo Tietê e pela rêde de afluentes do
Paraná e do Paraguái até ao Cuiabá. A História das monçóes do
Cuiabá é de certa forma um prolongamento da História das
bandeiras paulistas em sua expansão para o Brasil Central. Re-
resentam elas, em realidade, uma das expressões nítidas daquela
REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO DE S. PAULO 141
- -

força expansiva que parece ser uma constante histórica da gente


paulista e que se revelara mais remotamente nas bandeiras. FÓrça
que depois impeliria pelos caminhos do Sul os tropeiros de gado
e que, já em nossos dias, iria determinar o avanço progressivo da
civilização do café.
A expansão paulista ao sertão goiano efetuou-se desde o
século XVII, quando a região era frequentemente trilhada pelos
apresadores de índios. A conquista e o povoamento realizaram-
se, porém, depois do descobrimento do ouro, pela expedição de
Bartolomeu Bueno da Silva, o Anhanguéra, verdadeira réplica, em
sertão goiano, do Governador das esmeraldas, no sertão mineiro.
Saiu êle, de São Paulo, em Julho de 1722, comandando 152
homens, em busca da Serra dos Martírios, onde, de acordo com a
lenda, haviam sido esculpidos pela natureza os instrumentos da
paixão de Cristo. Três anos permaneceu a expedição a vagar pelo
sertão, enfrentando toda a sorte de privações, ao cabo das quais,
em 1725, localizou o tão procurado ouro, a quatro léguas da atual
cidade de Goiás.
Como em Minas Gerais e Mato Grosso, seguiram-se novos desco-
brimentos em todo o território.
Desvendado o ouro de Minas Gerais, de Mato Grosso e de
Goiás, terminará a fase das entradas pesquisadoras de minerais
preciosos substituídas pelo povoamento pròpriamente dito daque-
las regiões, ao redor de lavras, arraiais e viIas, atraído pelos inte-
rêsses proporcionados pela mineração que descortinará uma nova
época na História do Brasil.

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«THE BARDEIRANTES - The hiçtorical rale of the Brazilian Pathfinders,.


Edited with a n Intraductian by Richasd M. Marse. Borzoi Books on
Latin Americz. New York, 1965.
AS RAIZES PAULISTAS
DE AURELIANO LEITE
Tito Livio Ferreira

Há menos de dois meses, Aureliano Leite expôs, nas livra-


rias, a sua mais recente obra "Páginas de uma longa vida", folhas
compiladas ao longo de uma fecunda existência. O livro tem
sido louvado e adquirido. Nêsse caso, há razões para isso, pelo
sal que põem tais leituras nos dias em que vivemos. Elas repou-
sam o espírito preocupado com o terrível cotidiano. Dão férias
a inteligência esmagada pelo utilitarismo agressivo. E elas fazem
bem a alma e ao coração, desanuviando-os.
"Páginas de uma longa vida" falam das revoluções de 24, de
30 e de 32. Dir-se-ia que o volume foi escrito para adoçar algu-
mas amarguras deixadas por elas, e para reviver certas coisas
algo esquecidas. Os assuntos foram tratados segundo as paixões
momentâneas vividas no drama ainda vivo. Ora, o drama é a
vida. E a verdade exposta no drama é um reflexo da vida cujo
filme colorido se desenrola diante de nossos olhos, para ser reve-
lado por nossas retinas.
Na realidade, Aureliano Leite não cuida, nesse livro, das
paixões na vida, isto é, do bem e do mal feito por elas. Quando
vivemos dias em que os espíritos mais firmes duvidam, em que
os corações mais retos se perturbam, em que as inteligências mais
lúcidas se enevoam, estas "Páginas de uma longa vida" prestam-
nos o serviço de nos dizer, numa linguagem clara e simples, que
o bem não é o mal, nem o mal o bem, e que, quaisqu8r que sejam
as provas da verdade no mundo, a melhor de todas as atitudes é
ainda, no presente ficar fiel ao passado, porque êle é a arca da
aliança do futuro. E no futuro estão sempre o presente e o passado.
Participante de três revoluções, Aureliano Leite faz ressoar
no passo acelerado e firme de "Páginas de uma longa vida", a
cadência das marchas e contra-marchas, o éco dos clarins a reboar
nas distâncias, o surdo rufar dos tambores compassados, o canho-
nheio nas quebradas e montanhas onde pipocam rajadas de me-
trabalhadoras. E às vêzes, por entre essas folhas, estalam fogos
de artifício, iluminando-as.
146 REVISTA DO INSTITUTO HISTÕRICO E GEOGRLFICO DE S. P A E L O

Em mais de uma passagem, topa-se ao longo destas páginas


com alusões, idéias, pensamentos voltados para os dias de hoje,
para o drama existencial em que estamos engajados e lutando.
Entre as paixões examinadas por Aureliano Leite, salientam-se
as enraizadas na instituição da família. Ouçamc+lo: "De minha
meninice, transcorrida em Ouro Fino, terra de altaneira serrania
onde nasci, guardo muita coisa, talvez completamente sem im-
portância para os outros, mas, para mim, parte integrante da
existência". Assim, Aureliano Leite, nascido em São Francisco
de Paula de Ouro Fino, mineiro de nascimento, vai ser paulista
de adoção, porque, acima de tudo, é brasileiro de coração aberto,
cuja ascendência lusoiberotupi mergulha raizbes profundas na
Lusitânia e na Hispânia, antigas províncias do Império de Roma.
E ali, na cochilante cidadezinha "já de si protegida pelos ares
lavados e puros, que lhe oferece a serrania azul em derredor", na
frase de Aureliano Leite, o autor de "Páginas de uma longa Vida"
fez-se menino e moco.
Da "pátria" franciscana, como diziam nossos remotíssimos
ancestrais lusorromanos, porque a pátria para os latinos era e
foi até 1793 o lar, o berço do nascimento; da "pátria" ourofinen-
se, Aureliano Leite sái, um belo dia para vir morar em São Paulo,
quando amanhecia o século em curso. E ei-10 na "pátria" de seus
antepassados, no lar de nossos maiores, levado pela mão do
imponderável, ou conduzido pela forca misteriosa da Providência
Divina.
Aureliano Leite sentia-se atraido pela força aliciante de seu
afeto, de sua ternura, de seu amor a terra onde repousava a gente
da sua gente, a gente da nossa gente, a gente que outrora dei-
xara a sua "pátria" piratininguara para criar, no tempo e no
espaço, a grande pátria brasileira. Mergulha no fundo estuante
do passado, enraiza-se no chão bemdito de Piratininga e entron-
ca-se em nossos maiores, o embevecimento de Aureliano Leite
pela nossa terra e nossa gente de Portugal e do Brasil, consti-
tuinte de uma só comunidade espiritual e consânguínia.
Vem desde Amador Bueno, o "Aclamado", autêntico lusoibe-
rotupi, numa só palavra, porque nêle vibrava, pela formação, pela
alma, pela psicologia, o vassalo português, consciente de seus
deveres de vassalagem como soldado do Rei de Portugal Filho
de Bartolomeu Bueno, sevilhano, casado com a lusatupi Maria
Pires, filha do português Salvador Pires e da lusatupi Mécia Fer-
nandes, a Mécia-Ussú, bisneta de Antonio Rodrigues, lusitano e
de Antônia Rodrigues, tupi, terneto do Ururai, o Piquerobi -
Amador Bueno entra na História Lusobrasileira como o Paulista
que não quiz ser Rei, porque era vassalo do Rei Lusitano.
Rsse gesto de fidelidade típica do vassalo, de cuja estirpe
descende Aureliano Leite, vai repercutir pelo tempo adiante. A
REVISTA DO INSTITCTO HISTÓRICO E GEOGRáFICO DE S. PAULO 141

3 de marco de 1700, o Governador da Capitania do Rio de Janeiro.


nomeia "Capitão Governador da Companhia dos Reformados a
Manoel Bueno da Fonseca", das principais famílias de São Paulo,
por ter servido a Sua Majestade "em vários postos, mostrando o
zelo de leal vassalo para dar verdadeira execução as Reais Or-
dens"; e, acrescenta o documento, "quando não bastassem êstes
serviços, esclarece Artur de Sá e Menezes, era merecedor de gran-
des cargos por ser neto de Amador Bueno, que sendo chamado
pelo Povo para Rei, obrando como ela e verdadeiro vassalo, com
evidente perigo de sua vida, exclamou dizendo que vivesse El-Rei
D. João IV, seu Rei e Senhor, que pela fidelidade que devia d~
vasa10 queria morrer nessa defesa, e respeitando em êste tão
louvável Vassalo . . . " (Anais do Arquivo Nacional. Governadores
do Rio de Janeiro. Livro 111, tit.-XI, p. 91).
Tempo adiante, na abertura da Assembléia Constituinte e
Legislativa do Império, no Rio de Janeiro, 3 de maio de 1823,
D. Pedro I reafirma: "Foi na pátria do nunca assás lembrado
Amador Bueno da Ribeira, onde pela primeira vez fui aclamado
Imperador". Sua Majestade ainda emprega a palavra pátria no
sentido latino, isto é, o lugar do nascimento do vassalo. A pátria
do vassalo não é a pátria dos cidadãos. Depois de 1793, os republi-
canos franceses declaram: a República é a pátria dos cidadãos.
E daí o conflito psicológico entre o cidadão e o vassalo.
Em sua obra "L'Ancien Régime et la Révolution" Alexis de
Tocqueville escreve: "E preciso abstermo-nos de valorizar a bai-
xera dos homens pelo grau de sua submissão ao poder. Apezar de
tudo, por submetidos que estivessem os homens do Antigo Regi-
me a vontade do Rei, havia uma espécie de obediência que lhes
era desconhecida: não sabiam o que era dobrar-se a um poder
ilegítimo ou discutido, que pouco se respeita e a miude se despre-
za, mas que se sofre pela força, porque pode ser util ou temível.
Esta forma degradante de servilismo foi-lhes estranha. O Rei
inspirava-lhes sentimentos que nenhum dos príncipes mais abso-
lutos aparecidos depois no mundo puderam fazer brgtar, e que
inclusive se tornaram a nós outros quase incompreensiveis, por-
que a Revolucão (Francesa) os arrancou de nossos corações até
a raiz. Os vasalos sentiam pelo Rei a ternura que se sente pelo
pai e às vezes o respeito que se deve a Deus. Submetendo-se as
ordens mais arbitrárias, cediam menos pela coação que ao amor
e ocorria-lhes a miude conservar sua alma bem livre na mais
extrema independência. Para êles, o maior mal da obediência
era o constrangimento, para nós outros o menor. O pior está no
sentimento servil que impele a obedecer. Não depreciemos nossos
pais, não temos êsse direito. Prouvera a Deus que pudess--mos
tomar a encontrar, com seus prejuizos e defeitos, algo de sua
grandeza".
148 RETISTA DO INSTITUTO HIST'JRICO E GEOGRAFICO DE S. PAULO

Assim, não só os vassalos, mas também os súditos, em pleno


Império, lembram Amador Bueno. Nesse caso, a Assembléia Pro-
vincial de São Paulo, em representação a D. Pedro 11, na data de
29 de janeiro de 1842, escreve: "A História não se esquece que
a um Paulista sem par, Amador Bueno da Ribeira, de quem mui-
tos têm a honra de descender, deveu a Coroa de Portugal a con-
servação desta bela Província quando pela Restauração subiu ao
trono português a dinastia de Bragança". Assinam êsse documen-
to: Martim Francisco Ribeiro de Andrada, Presidente - Dr. Ma-
noel Joaquim do Amara1 Gurgel, l." Secretário. E o vassalo, sol-
dado do Rei, jurava defender o Monarca, assim como o cidadáo
jura defender a Pátria e a Bandeira.
Aureliano Leite descende, através de gerações fieis a Monar-
quia, de Amador Bueno, o Paulista que não quiz ser Rei porque
era vasssalo do Monarca Lusitano. Nessas condições, mineiro de
nascimento, paulista de adoção, Brasileiro de nação, éle é. como
somos, lusorromano, isto é, no conceito do Professor Adriano
Moreira, proferido no I Congresso das Comunidades Prtuguésas,
em dezembro de 1964, onde Aureliano Leite e eu representamos
o Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo. Nessa ocasião,
disse o Professor Adriano Moreira: "Habitualmente pobre de todos
os bens deste mundo, mas rico de uma vontade forte, e de uma
ambição legítima, o emigrante é na sua maior plenitude, e a
partir desse momento, um verdadeiro cidadáo da tradição roma-
na, por que leva consigo a responsabilidade irrenunciavel de
transmitir ao mundo a imagem do seu povo de origem. Ninguém
lhe pode confiar ou retirar esse magistério definido pela história,
e toda a sua gente que fica na terra originária dos antepassados
será irremediavelmente julgada, pelo testemunho que o emigran-
te, abandonado a si próprio, lavrando na terra alheia para
onde se desloca. Nada o pode absolver dessa tremenda responsa-
bilidade, porque as Pátrias não se escolhem, acontecem. Nin-
guém pode repudiar o testemunho que o emigrante der do seu
povo, por ue a pertença a um povo é uma fatalidade histórica
8
que faz pa te da circunstância irrenunciavel de cada homem".
Por isso mesmo, o espírito de Amador Bueno revive em Aure-
liano Leite, há trinta anos, em 1937: Vassalo de Portugal, o pri-
meiro defende o seu Rei Lusitano, Cidadão da República Brasi-
leira, o segundo é súdito da nossa Rainha, a Língua Portuguêsa.
Por isso mesmo, em resposta a seu oponénte, exclama: "Sim, é
exato, defendi-a também do lado sentimental, nem podia ser
por menos. Mas defendi-a, também e com largos argumentos, dos
aspectos filológicos e políticos, sóbre o que silenciou o meu adver-
sário. Imperdoavel incorreção num parlamentar doublé de cien-
tista". (p. 257). Frase enérgica e incisiva temperada pelo afeto
e pelo calor da criatura de cujos lábios ouvimos as inesqueciveis
REVISTA DO INSTITUTO HISTORICO E GEOGRAFICO D E S. PAULO 149

palavras: Meu filho! Nessa língua, não noutra, aprendemos a


dizer, para o resto da vida: Pai, Mái, irmão, irmã, filho, filha,
avó, avó, tio, tia. Ao defendê-la rendemos-lhe a nossa vassala-
gem. E, para nossos irmãos portuguéses, negros da Africa e ama-
relos da Asia, a Língua Portuguésa é a língua cristã, isto é, a lin-
guagem com a qual aprendemos os ensinamentos de Cristo.
Assim, como o soldado romano semeou a Língua Latina por
todo o Ocidente, em cujo território foi falada e escrita cêrca de
doze séculos, também o Português, marinheiro, mercador, missio-
nário e mateiro, disseminou a Língua PoP-tuguésa pelo Mundo.
Cidadãos de tradicão romana, Brasileiros, Portuguêses brancos,
Portugueses negros, da África, Portuguêses amarelos da Ásia e
polinésios, nós servimos da Língua Portuguésa, servimo-nos dela,
por ser um idioma transnacional ou supranacional, na linguagem
sociológica de Gilberto Freyre. E por isso, nós, Brasileiros e Por-
tuguêses, com Aureliano Leite, o Condestavel do nosso Idioma,
podemos dizer: Nossa Pátria é a Língua Portuguêsa.
O ELEMENTO ESPANHOL NA CAPITANIA
DE SÃO VICENTE
TITO LIVIO FERREIRA

Há mil e quinhentos anos a Europa era abalada nos seus


fundamentos pela queda fragorosa do Império Romano. Desa-
gregavam-se as suas províncias do Ocidente. E os galo-romanos,
hoje franceses, os anglo-romanos, hoje inglêses, os dácio-romanos,
hoje rumenos, os iberorromanos, hoje espanhóis, os lusorromanos,
hoje portuguêses, iam constituir novas nacionalidades sem deixar
as suas raizes presas a latinidade.
Nos quinhentos anos seguintes, do século V em diante, a so-
ciedade européia adquire nova fisionomia. Carlos Magno tenta re-
constituir, com o Império dos Francos, o Império Romano. E a
sua experiência fracassa por falta de elemento humano e de base
econômica.
Em começos do século XI já estava constituida a sociedade
feudal, com o seu direito característico. Nas famílias nobres surge
o problema dos filhos não contemplados na herança paterna, per-
tencente inteiramente ao mais velho da irmandade. E os moços
começam a desertar o lar paterno, transformados em cavaleiros
da aventura.
Dois terços da cavalaria reunida nas Cruzadas se compunha
desses jovens de nobreza feudal deserdados pelo direito em vigor
no tempo. Nessas condições, dois moços cavaleiros, condes bor-
gonheses, partem do norte da França, entram na península ibé-
rica e dirigem-se a côrte de Afonso VI, rei de ~ é a o > aquem ofe-
recem os seus serviços. São os condes D. Henrique de Borgonha e
D. Raimundo de Borgonha. files vêem a contrair núpcias com duas
filhas do rei leonês. Henrique de Borgonha, casa-se com Dona
Tereza e recebe, em dote de casamento, as terras situadas na
Lusitânia, entre os rios Minho e Mondego, onde surge o condado
òe Portucale. Raimundo de Borgonha casa-se com Dona Urraca
e recebe, também, a Galiza, em dote de casamento. E Henrique
de Borgonha trata de expulsar os mouros de Coimbra para o Sul,
a fim de alargar os seus domínios.
Quando êle morre, a província de Portucale já havia adqui-
rido características próprias. Dona Tereza assume o govêrno do
152 REVISTA DO INSTITUTO HISTORICO E GEOGRLPICO DE S. PAULO

condado. Seu filho Afonso Henriques, declara guerra aos parti-


dários de sua mãe, vence-os e toma conta do govêrno. Em 1140
Afonso Henriques desmembra o condado portucalense do reino de
Leão, institui a Monarquia Portuguêsa e cria o Reino de Portu-
gal autônomo. Nem por isso, os reis portuguêses continuaram a
casar com princesas de Castela. O rei D. Diniz, da dinástia Afon-
sina, poeta e lavrador, contraiu núpcias com Dona Isabel de Ara-
gáo, a rainha Santa, canonizada em 1625, a qual jaz e se venera
em Coimbra. Esta foi a maior, embora outras infantas espnho-
las houvessem casado com reis portuguêses. Na segunda dinastia,
a Joanina, D. Duarte casou com D. Leonor, filha de Fernando I
de Aragão. E assim, na dinastia de Aviz, chegamos a D. Manoel
I, em começos do século XVI.
D. Manoel I casou primeiramente com D. Isabel, filha dos Reis
Católicos, viúva de D. Afonso, filho de D. João I1 de Portugal, de
cujo matrimônio teve um filho D. Miguel da Paz, falecido em
tenra idade. Casou depois, com a cunhada, D. Maria, de cuja união,
teve, entre outros, D. João 111, e o cardeal-rei D. Henrique. Fi-
nalmente, casou com D. Leonor, filha de Felipe I de Castela, noiva
de seu filho D. João 111. Teve descendência das três princesas de
Espanha. E esta última, por morte de D. Manoel casou com Fran-
cisco I de França.
D. João I11 casa-se com D" Catarina, filha de Felipe I de Castela.
Dêsse matrimônio teve D. Maria, casada com Felipe 11, filho de
Carlos V. O único filho de D. João 111, o príncipe, D. João casa-se
com sua prima D. Joana da Austria, filha de Carlos V e de Isabel
de Portugal. * irmã de Felipe 11. Poucos dias após o falecimen-
to do príncipe D. João, Joana da Austria dá a luz D. Sebastião,
o malogrado herdeiro do trono lusitano. Viúva, coberta de luto.
reclamada por sua pátria, Joana retira-se para a Corte de Castela.
D. Sebastião vai ser criado e educado pela avó, regente do trono,
D. Catarina da Austria. Joana da Austria, princesa de Portugal,
mãe de D. Sebastiáo, herdeiro do trono e rei de Portugal, vai subs-
tituir no trqno de Espanha, seu irmão Felipe 11, casado com D.
Maria, princesa de Portugal, sua prima. E ela falece logo após o
primeiro parto.
Joana da Austria, vai substituir seu irmão Felipe 11, no trono
de Espanha, com o título de "Gobernadora", porque o soberano
segue para Londres, onde se casa com Maria Tudor, princesa da
Inglaterra. E por êsse tempo já o rei Carlos V se retirara para o
convento donde continua a dirigir a política de Espanha e dos
países vizinhos.
No ano de 1557 falece D. João I11 de Portugal. Inácio de Loio-
la, fundador da Companhia de Jesus, morrera em meados do ano
anterior. Desapareceu o "pai e protetor da Companhia de Jesus",
na expressão de Loiola. Cêrca de vinte anos viveram perfeita-
REVISTA DO INSTITUTO HIST6RICO E GEOGmFICO DE S. PAULO 153

mente identificados na obra de expansionismo da lusocristandade


Diogo de Lainez é eleito Geral da Companhia, substituto de Loio-
la. A rainha D. Catarina assume a regência do trono de Portugal,
enquanto dura a minoridade do rei D. Sebastião. Também espa-
nhol, o jesuita D. Francisco de Borja, é o diretor espiritual de
Joana da Austria. Quando foi de seu regresso a Espanha, em Tor-
desillas, Borja e Joana encontraram-se secretamente. E a viúva e
"Gobernadora" da Coroa de Castela entra na Côrte inteiramente
coberta de luto, um véu monástico a velar-lhe o rosto, com a sin-
geleza de uma freira submissa inteiramente ao claustro.
Carlos V não perde tempo. Logo após a morte de seu cunhado
D. Joáo I11 de Portugal, providencia tudo, mergulhado nas sombras
do seu retiro monástico. Fêz sua irmã viúva Catarina da Austria,
assumir a regência de Portugal, e coloca a sua filha Joana da
Austria, viúva do príncipe D. Joáo de Portugal, pai de D. Sebas-
tião, no trono de Espanha com o titulo de "Gobernadora". Ao
mesmo tempo, cuida sem mais demora, da sucessão eventual do
trono português, caso D. Sebastião não chegasse a maioridade. E
para regularizar êsse plano manda Francisco de Borja a Lisboa,
na qualidade de Embaixador de Espanha, com a missão secreta
de tratar com a regente D. Catarina da Austria, sua irmã, para
que a sucessão viesse a cair no príncipe Carlos de Espanha. E êste
já C? considerado herdeiro presuntivo de seu primo D. Sebastião,
caso viesse a falecer sem descendência.
Joana da Austria, a "Gobernadora" do trono de Castela, fica
em lugar de seu irmão o rei Felipe 11, a gozar n a Inglaterra, as
delícias da lua de mel, é muito muita considerada na Companhia de
Jesus, como "jesuita de coração". E daí facilitar e proteger a mis-
são de Francisco de Borja, em Lisboa, junto de sua tia e sogra,
Catarina da Austria.
Nascera em Lisboa, enquanto ainda vive o príncipe D. João
de Portugal, herdeiro da Coroa Portuguêsa, a intimidade espiritual
entre Joana da Austria, e mãe do malogrado D. Sebastiáo, e o je-
suita Francisco de Borja. O amor de Joana a seu mgrido o prín-
cipe D. Joáo envolvia-se aos olhos do mundo numa reserva aus-
tera de honesta castidade. Marcel Bataillon informa: "Elle était
d'une beauté regulière, mais froide et comme maussade, si l'on juge
d'après son portrait peint par Sanchez Coelho prècisement pendant
son séjour à Lisbonne". Era de beleza regular, mas fria e
insossa, segundo parece, pelo retrato pintado por Sanchez Coe-
lho precisamente durante a sua permanência em Lisboa. Após a
morte do marido, ela não quis ver mais ninguém e cobriu-se com
um véu quase monástico, a envolver-lhe o rosto melancólido e a
alma tímida e recolhida. Nessas condições, apenas "o padre Fran-
cisco", mais tarde São Francisco de Borja, outrora duque de Gandia
e marquês de Lombay, antes de ser recebido na Companhia de
154 REVISTA D O INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRbFICO DE S. PAULO

Jesus, exerce ascendência sobre a jovem viúva Joana da Austria,


"Gobernadora" de Espanha. Esta afinidade, puramente espiritual,
nascida entre o jesuita e a princesa, aquele fiel servidor do im-
perador Carlos V e da imperatriz Isabel de Portugal, auxilia e ex-
plica o mistério hermético do seu rosto severo e velado.
Padre Francisco de Borja chegara a Lisboa em 1553. Joana
da Austria recebe-o com alegria insopitável, escolhe-o para seu
diretor espiritual e abre-lhe o íntimo de sua alma, sem temor e sem
desconfiança. Embora não vestisse mais o traje de cortezão, Fran-
cisco de Borja guarda o seu espírito de Côrte e o sentido mundano
da vida. 2le dissera quando vestira para sempre a roupeta da
Companhia de Jesus: "Nunca más a duefío servir que se me queda
morir". Vai seguir os caminhos de veludo emprestados a Santo
Inácio de Loiola por São Paulo e seguidos pelos irmãos da Compa-
nhia. E Francisco de Borja dirige com habilidade a consciência
de Joana da Austria, nos pontos mais íntimos, mais pessoais e mais
profundos.
Joana da Austria não se pertence: pertence a Monarquia Cas-
telhana. Castela precisa de seus serviços, reclama a sua presença.
Ela regressa como partira: sòzinha. O filho, o futuro D. Sebastião,
fica em Portugal, sob os cuidados da avó-regente. Em viagem, antes
de chegar a Valladolid, em Tordesilhas, conforme já foi dito, houve
uma demorada entrevista com seu diretor espiritual, o Padre Fran-
cisco. A conversa da "Gobernadora" com o jesuita prolonga-se por
dois dias. Regente do reino de Espanha, suas atenções estão aberta-
mente voltadas para a Companhia de Jesus. Por isso, mesmo, ob-
serva Marcel Bataillon é uma perfeita "jesuitisa", se é que se pode
fazer o feminino de jesuita. Jesuitisa pelo coração, como dona Leo-
nor de Mascarenhas, outra insigne protetora da Ordem, a quem um
dia Francisco de Borja chamará, ao alto de uma carta: "Misetiora
charissima hermana en Christo". (Monumenta Historica. S. J.
Francisco de Borja. 42-743).
O tempo se encarregara de realizar, mas pelo avesso, o sonho
de D. Manoel I de Portugal, quando sonhara, ao casar com três
princesas eeanholas, o plano de unir Portugal e a Espanha numa
só unidade: a Monarquia Portuguêsa. O seu pensamento não vin-
gara. Carlos V prepara com habilidade e inteligência, do fundo
silencioso do seu retiro monástico a união das duas coroas sob o
de Espanha. Para isso muito contribui a energia aveludada e en-
volvente de Francisco de Borja e o misticismo fervoroso e sincero
de Joana da Austria, mãe de D. Sebastião e "Gobernadora" da Co-
roa de Castela. Mesmo sem os encargos administrativos do Reino,
ela continua a ser uma religiosa, uma "jesuitisa" austera e gra-
ve, a interessar-se pelos negócios públicos e pela vida política.
Em 1564, Brantôme, autor de "Recuei1 des Dames", ao regres-
sar de Lisboa, passa por Madrid, visita a sua patrícia Elisabeth de
REVISTA DO IKSTITUTO HIST6RICO E GEOGRbFICO DE S. P A U L O 155

Valois, terceira espôsa de Felipe I1 de Espanha e 1 de Portugal,


viúvo pelo falecimento de Maria Tudor, quando anunciam a pre-
sença de Joana da Austria. Diz-lhe a rainha Elisabeth: - "Ides
ver uma bela e honesta princesa. Ela há-de agradar-vos. E além
de ficar muito satisfeita, perdir-vos-a notícias do rei de Portugal,
seu filho, pois o vistes em Lisboa."
Brantôme acha Joana muito bela, "muito bem vestida, com
um gorro de crepe branco à espanhola, cuja ponta lhe caia sobre
os olhos". Passado o instante de encantamento, o gentilhomem
francês responde as perguntas que lhe faz a princesa sobre o rei-
zinho D. Sebastião, nessa data com dez anos de idade. Entre ou-
tras coisas pergunta-lhe, "se seu filho era belo e com quem se pa-
recia". O interrogado responde-lhe imediatamente, que era um
dos mais belos príncipes da Cristandade, que se parecia muito
ela e era a verdadeira imagem da sua beleza. Joana da Austria
ficou toda corada e sorriu levemente. (Brantôme-Vie de dames il-
lustres françaises et étrangères. Paris. 1868. 385).
O encontro de Francisco de Borja com Joana da Austria, em
Lisboa, por volta de 1553, teve grande significação não apenas para
ela, mas para a princesa já comprometida na via da perfeição
humana. Para a jovem viúva e "Gobernadora", a amizade espiri-
tual do padre Francisco de Borja serve de inestimável apoio, du-
rante anos. E dai o escritor francês Marcel Bataillon dar-lhe o
titulo de Princesa da Reforma Católica. (Marcel Bataillon. "Etu-
des sur le Portugal au temps de l'humanisme", em "Jeanne d'Au-
triche, Princesse de Portugal." Coimbra, 1953, p. 257).
Cabe-lhe, a Joana da Austria, o título de Princesa da Reforma
Católica. A seu tio e sogro D. João I11 de Portugal, reservasse com
justiça, o de Príncipe da Reforma Católica. O Português e a Espa-
nhola, sogro e nora, tio e sobrinha, prestaram relevantes serviços a
Companhia de Jesus; aquele dá-lhe todo o amparo, defesa, modo e
meios necessários a sua subsistência, desde os primeiros instantes,
carregando-a nos braços com Inacio de Loiola; esta, por morte do
rei de Portugal do fundador da Companhia de Jeus, alia-se a Fran-
cisco de Borja, para darem aos loiolistas diferente brientação po-
lítica da até ali seguida.
Mortos Inácio de Loiola e D. João 111, quase ao mesmo tempo,
no espírito e na alma da Companhia o destino de Portugal estava
selado. D. Sebastião sobe ao trono de Portugal para desaparecer
nos areais da Africa. "Estava-se a 4 de agosto de 1578. De repente
interrompera Anchieta a lição, ficara estático e muito conturbado
dissera-lhes (aos alunos da escola - "El-rei acaba de perder-se em
África! E era exatamente o dia em que D. Sebastião e a flor da
nação portuguêsa cairam nas planícies fatais de Alencar-Quibir",
escreve Mestre Afonso Taunay. ("Sobre os últimos anos e o
processo de Anchieta". Anais do Museu Paulista-vol. VII. 504-505).
156 REVISTA DO INSTITUTO HIST6RICO E GEOGRLFICO DE S. PAULO

Assume o trono de Portugal o cardeal-rei D. Henrique, falecido


pouco depois sem deixar descendência. Em 1580 Felipe I1 recolhe
a herança da Monarquia Portuguêsa. O povo português atribui
êsse acontecimento ao cardeal-rei, para dizer:
Viva o cardeal D. Henrique,
no inferno muitos anos;
porque deixou Portugal
em herança aos castelhanos.
Felipe I1 de Espanha e I de Portugal, fêz-se jurar rei nas Cor-
tes de Tomar, em 1581. Prometeu respeitar os privilégios, liber-
dades e cortes próprias do povo português, ao nomear-lhe governa-
dores, prelados e funcionários portuguêses; guarnecer as suas pra-
ças apenas com tropas portuguêsas; conservar-lhe moeda, armada
e exército, administração e língua própria; cuidar das províncias
de ultramar e continentais, em suma, promulgar medidas que
garantissem a Portugal ampla autonomia, sob o regime da união
pessoal, com reconhecer aos portuguêses o direito de recusarem su-
jeição, vassalagem e obediência, sem perjúrio ou crime de incon-
fidência, isto é, de lesa-majestade ao rei que não cumprisse essas
promessas. Seus sucessores não mantiveram os compromissos as-
sumidos por Felipe I de Portugal e I1 de Espanha.
Ao se tornar rei das duas nações peninsulares, houve natural
mudança na situação política portuguêsa. Não tanto quanto su-
@e e afirmam alguns historiadores mal informados a respeito do
verdadeiro regime que regulava as duas coroas nas relações mú-
tuas. "Na verdade, escreve Jaime Cortezão, Espanha e Portugal
formaram então uma monarquia dual, cujos Estados, embora su-
jeitos ao mesmo cetro, conservavam seus estatutos, foros e privi-
légios próprios e distintos; seus quadros nacionais de adminis-
tração, mutuamente impenetráveis e suas fronteira geográficas
e psicológicas sempre vivas, quer nas metrópole, quer nas Améri-
cas." ("Jesuitas e Bandeirantes no Guirá". 73).
Nessas cbndiçóes, o Estado do Brasil continuava pronvíncia do
Império de Portugal, lusitano na sua estrutura, com a língua por-
tuguêsa falada pelos "portugueses de1 Brasil", conforme nos cha-
mavam os espanhóis do Paraguai. As autoridades nomeadas para
administrá-lo eram portuguêsas, as leis, forais, decretos, estatutos
eram nitidamente lusitanos. E assim o Estado do Brasil continua
integrado na Coroa Portuguêsa e seus povoadores, nascidos aqui,
ou em Portugal são vassalos da Coroa Portuguêsa, assim como os
povoadores da América Espanhola são espanhóis.
Tudo isto foi bem especificado e estatuído em pleno regime fi-
lipino, quando o Conselho das fndias, mais tarde Conselho Ultra-
marino, em 1608, declara o princípio de nacionalidade portuguêsa
REVISTA DO Ih-STITTFI'O HISTÕRICO E GEOGRLFICO DE S. PAULO 157

das pessoas nascidas em Goa, no Brasil ou em Angola, fixando-o:


"E se disserem que o Conselho da fndia posto que tôdas estas ma-
térias não são do Reino senão de partes e províncias separadas e
que assim, não pode nem deve preceder aos Conselhos do Reino
nem ter com êles relação alguma, como a não tem o Conselho Real
de Castela ou de França com os deste Reino (de Portugal) por ser
separado e distinto dêles, se responde que a Índia e mais terras
ultramarinas de cujo govêrno se trata neste Conselho, não são dis-
tintas nem separadas dêste Reino (de Portugal) nem ainda lhe per-
tencem por modo de união, mas são membros do mesmo Reino,
como o é o de Algarve e qualquer das províncias de Alentejo e
Entre-Douro-e-Minho, porque se governam com as mesmas leis
e magistrados e gozam dos mesmos privilégios que os do mesmo
Reino e assim tão português é o que nasce e vive em Goa ou no
Brasil ou em Angola, como o que nasce e vive em Lisboa." (Fran-
cisco Mendes da Luz "A Concepção da unidade ultramarina de
Portugal, continental e ultramarino, através de um documento
dos primórdios do século XVII.").
Nesse começo do século XVII já havia falecido, em 1598, Fe-
lipe I1 de Espanha e I de Portugal, homem que não receava a
morte nem o julgamento da posteridade. E por isso declarara ao
unir as duas coroas: Portugal para os portuguéses.
Neste período filipino aberto em 1580 e encerrado em 1640,
começam as agitações dos jesuitas em São Paulo de Piratininga.
ales haviam conseguido uma ordem do Capitão Governador da
Capitania de São Vicente, para os brasilindios aldeiados nos ar-
redores de São Paulo serem administrados pelos membros da Com-
panhia de .Jesus, do ano de 1592 em diante. E a ordem não agrada
aos piratininguaras.
Nessas condições, a Câmara Municipal de São Paulo convoca
democraticamente o povo para tratar do assunto. Vereadores e
populares vão resolver o problema. Está presente o vigário da
paróquia, padre Lourenço Dias, que dá o seu parecer contra a
pretensão dos jesuitas. O povo resolve não cumprir a ordem do
Governador da Capitania por ser contrária ao estabklecido por D.
João I11 de Portugal, quando mandou os membros da Compa-
nhia de Jesus para o Estado do Brasil, em 1549. Assinam êsse
têrmo, lavrado pelo escrivão da municipalidade, portuguêsa e es-
panhóis indistintamente. Lêem-se êstes nomes: Fernáo Dias, o
vigário Lourenço Dias Machado, João do Prado, Antonio Preto,
Lopo Dias, Diogo Fernandes, Alvaro Perez, que à frente do seu
nome escreve: "Assino jo procurador do Consejo por mi e por to-
dos los que faltan aqui fuera tirante dos do tres que concedieron
con o mas pobo, Alvaro Perez ê espanhol, como outros, cujos no-
mes aparecem logo em seguida. Alvaro Neto, Lucas Fernandes
Pinto, João Martins Barregã, Mateu Leme, Estevam Ribeiro, Gas-
158 REVISTA DO INSTITUTO HIST6RICO E GEOGRAFICO DE S . PAULO

par Nunes, Manoel Ribeiro, João Maciel, João Soares, Juan de


Santana, Mateus Gomes, Jeronimo Rodrigues, Fernando Alves,
André Fernandes, Pedro Nunes, Francisco Teixeira Cid, Paulo Ro-
drigues, Gaspar Fernandes, Francisco Pereira, Antonio Pinto, Paulo
Muniz, Afonso Sardinha, Felipe Preto, João Sobrinho, Gaspar da
Costa, Antão Fernandes, Miguel Rodrigues, Jorge Fernandes, An-
dré Fernandes, Aleixo Leme, Fernáo Munhonez, Antonio Nunes,
Baltazar Gonçalves, Jorge Teixeira, Luiz Alves, André Escudeiro,
Jorge Perez, João da Cunha, Gonçalo Gomes, João Rodrigues, João
Gonzalez, Bartolomeu Bueno, (o primeiro dos Buenos, vindo de Se-
vilha, pai de Amador Bueno) Gonçalo Madeira, Francisco Muniz,
R. Alves, Francisco Pires, Francisco Rodrigues, Antonio Camacho,
Cleinente Alvares, Sebastião Leme, Domingos Gonçalves, Pedro
Morais, Zamizer Gigante, Diogo de Lara, Domingos Agostin, André
Casado, Miguel Roldan, Domingos Gonçalves, Antonio Serrano,
Francisco da Gama, Simão Borges Cerqueira, Domingos Rodrigues,
Domingos Fernandes, Francisco Leão, Martim Rodrigues, Miguel
Garcia, Braz Esteves.
Nesta lista de nomes não se distinguem Fernandes com s ou
com z, Rodrigues com s ou z, Nunes com til ou sem til, além de
haver, como é natural, nomes cujas grafias foram mal traduzidas.
Espanhois e portuguêses ombreiam n a América Portuguêsa, como
ombrearam outrora, em prol do bem comum, quando a província
de Portucale ainda estava integrada no reino de Leão, nos tem-
pos já remotos do conde Henrique de Borgonha.
Mas quatro meses antes houvera outro ajuntamento dos ve-
readores com o povo. Nêle assinaram nomes não constantes dos
citados acima e facilmente identificáveis. Por exemplo, Jusupe de
Camargo, o chefe da família Camargo, Baltazar de Godoi, chefe
da família Godoi, descendente de godo, isto é dos suevos, povos
germanicos. Do mesmo tronco em Portugal são os godinhos, di-
minuitivo de godos. Nesta nominata aparecem Diogo Sanches,
com s; Fernáo Munhoz, João da Cunha e outros, difíceis de serem
identificados.como espanhois ou portuguéses. Está nesse caso, João
Bernal, de quem Américo de Moura, em seu ensaio "Os Povoado-
res do Camp3 de Piratininga", observa: "Tenho dúvida em filiá-10
a um tronco castelhano dêste apelido estabelecido no Paraguai".
Já ao referir-se a Bartolomeu Bueno, Américo de Moura escreve:
"Era natural de Sevilha, e filho de Francisco Ramires de Porros,
Segundo Pedro Taques, teria vindo para São Paulo em 1571. De-
claração sua, porém, feita em 1610, em pedido de sesmaria, trans-
porta para 1580 a data de sua vinda para a capitania. E em São
Paulo está documentada a sua existência desde 1585 (Atas. I, 268)
Confirmando estas observações minhas, continua Américo de Mou-
ra, que textualmente reproduz0 agora, Carvalho Franco descobriu
que o sevilhano veio para o Brasil na armada de Diogo Flores de
REVISTA DO IKSTITUTO HIST6RICO E GEOGRiiPICO DE S. PAULO 159

Valdez e desertou no porto de Santos, (Rev. Gen. Lat. 11, 76). Ca-
sou em São Paulo com Maria Pires, filha de Salvador Pires, e aqui
exerceu por muitos anos o oficio de carpinteiro, de que foi juiz
em 1587. Embora analfabeto, foi almotacel em 1591, pouco depois
de seu casamento, e, de 1615 em diante, entrou mais de uma vez n a
governança. Além de chãos n a vila, teve data no Guarepe e ses-
maria no campo de S. Miguel. Faleceu depois de 1635". E teve
imensa e ilustre descendência, com a neta de Piquerobi, com quem
se unira seu avô Antônio Rodrigues, companheiro de João Rama-
lho, o Patriarca dos Bandeirantes.
O segundo espanhol, cujo apelido atravessou também os sé-
culos, é Jusepe de Camargo, nascido em Castela, escreve Améri-
c0 de Moura, filho de Francisco de Camargo e de Gabriela Ortiz.
Na opinião do Dr. Ricardo Gumbleton Daunt, que estudou as suas
origiens, era de família sevilhana e descendia do navegante Afon-
so de Camargo. Estabeleceu-se em São Paulo em 1585, e, casou
aqui com Leonor Domingues, (morta em 1630), filha de Domingos
Luís, o Carvoeiro, e Ana Camacho. "Foi almotacel em 1592; ve-
reador em 1602 e 1603; mordomo d a Misericórdia em 1610; e juiz
ordinário em 1595 e 1612. Em 1607 teve provisão de juiz de órfãos,
porém, não assumiu o exercício, creio que por impedimento de pa-
rentesco. Foi ainda, em 1603, deputado da câmara para assistir o
registro de escravos e administrados; e, em 1611, tomador de con-
tas de finta da igreja. Ainda vivia em 1613, ano em que aparece
como procurador do sogro e arrematante de pecas em litígio no in-
ventário do cunhado Domingos Luiz, o moço. Depois disso só en-
contrei uma referência a éle, diz Arnérico de Moura, como devedor
de telhas emprestadas, no inventário de Francisco de Brito, em
1616. Mas é possível que já fosse falecido. Sua geração vem am-
plamente descrita em Silva Leme, vol. I Tit. CAMARGOS." A mu-
lher de Jusepe de Camargo era bisneta de João Ramalho o Patriar-
ca dos Bandeirantes, onde se entroncam, pelo lado materno, os
Camargos de imensa descrndência.
Dejtes espanhois, povoadores do Campo de Piratiginga' Amé-
rico de Moura identifica: André Casado, Gaspar Coqueiro, Barnabé
Contreras, André Escudeiro, Baltazar de Godoi (nascido em Al-
buquerque, Castela), Diogo de Lara (nascido em Zamora), Fran-
cisco Martins Bonilha (natural de Castela), Diogo de Onhate,
(nascido em Guspúscoa) Braz de Pilia, castelhano ou já nascido
no Paraguia, como André de Burgos, e Bartolomeu Camacho, Jor-
ge de Barros Fajardo, natural de Pontevedra, n a Galiza, Francisco
de Saavedra, Juan de Santana, Martim Rodrigues Tenório, Barto-
lomeu d e Torales, naturais de Castela, Bernardo de Quadros, nas-
cido em Sevilha. Logo depois, Arnérico de Moura escreve: "Diogo
de Quadros, suponho-o português". E a falta de dados torna impos-
160 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÃFICO DE S. PAULO

sível identificar, muitas vêzes, se o povoador é espanhol ou portu-


guês, nascido na península, ou nas Américas.
Vesperava a restauração da Monarquia Portuguêsa, em 1640,
quando estoura em São Paulo, a guerra entre os Pires e Camar-
gos, entre duas famílias importantes do vale do Tietê. A êsse res-
peito escreve Mestre Afonso de Taunay: "As peripécias dessa guer-
ra civil "dos Pires e Camargos" narradas em documentação escas-
sa, fragmentária e obscura acham-se muito mal esclarecidas e tal-
vez nunca nos venham a ser claramente conhecidas." (A. Taunay.
"História das Bandeiras Paulista", 286. Tomo 11. ed. Melhoramen-
tos). Essa luta de familias durou, com pequenos intervalos, quase
um século. Assim, tivemos, em pleno século XVII, no Estado do
Brasil, província do Império Lusitano, a "guerra das duas rosas",
ocorrida na Inglaterra, duzentos anos antes. E assim como termi-
nou a "guerra das duas rosas" também a guerra dos Pires e Ca-
margos terminou pelo casamento, de modo a unir e a entrelaçar as
duas famílias em luta.
Além deste incidente, houve ainda, por êsse tempo, o episó-
dio da aclamação de Amador Bueno, filho de Bartolomeu Bueno.
Mestre Afonso de Taunay resume assim os fatos: "É de sobra co-
nhecido o que ocorreu na vila piratiningana em dia que, segundo
Azevedo Marques deve ter sido primeiro de abril de 1641. Não que-
rendo de todo serem súditos de D. João IV, que reputavam um vas-
sal0 rebelde a seu soberano, resolveram os espanhois residentes em
S. Paulo, provocar a ascensão da região paulista do Brasil, para
anexá-la a América Espanhola. (A. Taunay. "História da Cidade
de São Paulo". ed. Melhoramentos. 27).
A seguir o mestre da bandeirologia paulista escreve: "Che-
fiavam o movimento os dois irmãos Rendon de Quevedo que se
lembraram de oferecer o trono do projetado reino paulista a seu
sogro Amador Bueno da Ribeira, êle próprio filho de espanhol e
homem de maior prol em sua república, pela inteligência e a for-
tuna, o passado de bandeirante, o casamento, os cargos ocupados".
Como se vê, o movimento é de caráter espanhol, escrevem Aze-
vedo MarqQes e Afonso Taunay. Os castelhanos consideravam
D. João VI de Portugal, o restaurador da Monarquia Lusitana,
vassalo rebelde a Felipe IV de Espanha e I11 de Portugal.
Nessas condições, ésses espanhóis, súditos de sua majestade de
Castela, resolveram aclamar Amador Bueno, filho de Bartolomeu
Bueno, espanhol de Sevilha, rei de São Paulo. Amador Bueno,
natural da vila piratininguara, era portanto, conforme a declara-
ção de nacionalidade feita em 1608 pelo Conselho da Índia, mais
tarde Conselho Ultramarino, português do Brasil, porque, por êsse
princípio, quem "nasce e vive em Goa, Angola ou Brasil, é tão
português como quem vive e nasce em Lisboa". Nisso não se en-
ganavam os espanhóis do Paraguai quando já em 1612, o governa-
REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGPJFICO DE S. P A U L O 161

dor de Buenos Aires Diego Marin Negrón, em carta a "Su Mages-


tad (Felipe 11) sobre Ia separacion de 10s gobiernos de1 Rio de la
Plata y Paraguay y excessos cometidos por 10s portugueses de San
Pablo. (Buenos Aires 8 de enero de 1612). E nesse mesmo ano, Bar-
tolomé de Torales, em carta "a1 gobernador de1 Rio de la Plata
Diego Marin Negrón" refere-se a "e1 alzamiento y huida de 10s in-
dios de la provincia de Guayra sonsacados por 10s portugueses de
la villa de San Pablo". (Guaira, 19 de diciembre de 1612) - (Anais
do Museu Paulista - vol. 1. p. 156-7 - Documentos do Arquivo
General de Indias em Sevilha).
Nessa altura, em meados do século XVII, tão pouco no século
seguinte, os documentos não mencionam a palavra brasileiro. E
paulista surgiria talvez, em fins de 1669.
Por isso mesmo, acrescenta Mestre Afonso Taunay: "Che-
fiavam o movimento os dois irmãos Rendon de Quevedo que se
lembraram de oferecer o trono do projetado reino paulista a seu
sogro Amador Bueno da Ribeira". O indicado não aceitou o pre-
sente. "Recusou o aclamado, continua Taunay, a oferta a gritar
em altos brados Viva El-Rei D. João IV, meu Rei e Senhor! E
como se visse ameaçado de desacato pelos proclamadores entusias-
tatas correu a refugiar-se no Mosteiro de S. Bento pedindo a in-
tervenção do Abade e seus monges. Desceram a praça fronteira ao
cenóbio o Prelado e sua comunidade procurando convencer os ma-
nifestantes de que deviam abandonar o intento que os congrega-
ra, tarefa em que os auxiliaram vários prestigiosos cidadãos de
boa nota. Arreprndidos, continua Taunay, resolveram os mani-
festantes aderir ao movimento restaurador de primeiro de dezem-
bro de 1640".
Amador Bueno tivera intuição do problema criado pelos es-
panhóis ao ser aclamado rei de um reino inexistente. Os espanhóis
não eram em número suficiente para constituir uma tropa neces-
sária a defesa do suposto reino. E os portuguêses, súditos como
êle, de D. João IV de Portugal, depó-10-iam imediatamente do tro-
no mal arquitetado. E seria rei posto e rei deposto.
Alexis Tocqueville, em sua obra "1'Ancien ~ é ~ i m e *o' ,"Antigo
Regime", onde estuda a sociedade francêsa antes da Revolução do
1789, procura compreender e explicar a psicologia dos homens des-
ses tempos, dos vassalos de sua majestade.
Fale por nós o autor do brilhante ensaio "De la démocratie en
Amérique", numa das suas mais belas páginas. Diz Tocqueville:
"É preciso ter muito cuidado ao avaliar a baixeza dos homens pelo
grau de sua submissão ao poder soberano. Ainda que os homens
do Antigo Regime (do regime absolutista) fossem submissos as
vontades do rei, havia uma espécie de obediência que Ihes era des-
conhecidas, êles não sabiam o que era curvar-se diante de um po-
der ilegítimo ou contestado, de que poucos nos honramos, quase
162 REVISTA DO ISSTITUTO HISTÓRICO E G E O G R j F I C O DE S. PAULO

sempre desprezamos, mas que toleramos de boa vontade porque nos


serve ou nos pode prestar serviços.
Esta forma aviltante da servidão sempre Ihes foi desconheci-
da. O rei inspirava-lhes sentimentos, como nenhum príncipe, dos
mais absolutos que hajam aparecido no mundo, jamais fizeram
nascer e que se tornaram incompreensíveis para nós, tanto a Rr-
voluçáo Francesa os extirpou de nossos corações até a raiz. Êles
tinham pelo rei, ao mesmo tempo, a ternura que se tem por um
pai e o respeito que se deve a Deus. Submetendo-se as suas ordens,
mesmo arbitrárias, éles curvavam-se mais ao amor do que ao jugo,
e acontecia-lhes frequentemente conservarem, por esta forma, a
sua alma excessivamente livre até na mais extrema dependência.
Para éls, o maior da obediência era a opressão; para nós é o me-
nor. O pior estava no sentimento servil, que obriga a obediência.
Não desprezemos nossos antepassados: não temos ésse djreito.
direito.
Queira Deus que tomemos a encontrar, nos seus preconceitos
e nos seus eros, um pouco de sua grandeza".
Essa grandeza perdida não será jamais recuperada. Por isso
mesmo, precisamos conhecê-la. Conhecê-la através de sua expe-
riência, isto é, da sua história. Nessas condições, José Ortega y
Gasset em "La rebelion de las masas" escreve: "E1 saber histórico
es una técnica de primer orden para conservar y continuar una
civilización provecta. No porque dé soluciones positivas a1 nuevo
cariz de 10s conflitos vitales-Ia vida es siempre diferente de 10
que fu&,sino porque evita cometer 10s errores ingenuos de otros
tiempos".
Assim, o gesto de Amador Bueno, ao manter-se fiel ao seu rei,
foi o do vassalo que não pratica o crime de inconfidência. E a in-
confidénciq é o crime de infedelidade ao seu soberano.
A luz do genio de Tocqueville explica-se e compreende-se o
gesto de Amador Bueno, em pleno século XVII.
"E assim foi D. João IV, continua Taunay, solenemente reco-
nhecido soberano dos paulistas, a 3 de abril de 1641, num gesto
esplêndido de solidariedade lusa do qual a unidade do Brasil
imenso viria a valer-se pelo alargamento extraordinário de sua
área".
D. João IV de Portugal foi solenemente reconhecido soberano
dos portuguéses de São Paulo, porque nos meados do século XVII
não havia paulistas, Amador Bueno ao gritar em altos brados Viva
el-rei D. João IV, meu Rei e Senhor, prestava seu juramento de fiel
vassalo ao seu soberano. A cerimônia da aclamação de sua ma-
jestade, foi feita pelo vereador mais velho Paulo do Amaral, em
sessão da Municipalidade. Três vézes arvorou o pendão das quinas
e castelos, o pendão português, "dizendo em cada uma Real! Real!
Real! por El-Rei D. João, o Quarto de Portugal! respondendo a
REVISTA DO INSTITUTO HISTORICO E GEOGR6FICO DE S. PAULO 163

cada uma destas vozes todos os circunstantes com mil vivas e jú-
bilos", presentes o governador da Capitania, os vereadores da Cã-
mara Municipal, os prelados e superiores das ordens religiosas, o
vigário de S. Paulo, grande número de sacerdotes e muitos serta-
nistas ilustres, entre outros Antônio Raposo Tavares, o rei do Ban-
deirismo, e Fernão Dias Pais, o Caçador de Esmeraldas.
Rste episódio assinala a existência de duas correntes ibéricas
em São Paulo de Piratininga. Portuguêses e espanhóis, Pires e Ca-
margos continuaram a "guerra das duas rosas". Agrava-se a si-
tuação em 1659. "Degladiavam-se as duas facções terrivelmente",
observa Taunay, para acrescentar: "Estava agora a testa dos Pi-
res, Fernão Dias Pais a enfrentar José Ortiz de Camargo. Aflito
falava Barreto (o governador Geral do Estado do Brasil, Francisco
Barreto de Menezes) em ir pessoalmente acomodar o sangrento
dissidio e incumbiu o Dr. Pedro Mustre Portugal, ouvidor-geral da
Repartição do Sul de proceder a nova tentativa de paz".
Os dois partidos estavam, ao que parece, exaustos. "Faute de
combatants", os dois grandes chefes assinam, a primeiro de ja-
neiro de 1660, solenemente o termo de deposição das armas e com-
prometem-se, "como bons vassalos de Sua Majestade e a bem da
conservação da sua República, de desistirem de quaisquer conten-
das. Deram-se as mãos em presença do Ouvidor". (Afonso de Tau-
nay. "História da Cidade de São Paulo". p. 33 ed. Melhoramentos).
E assim, 10s portugueses de San Pablo entraram em logo pe-
ríodo pacífico, para voltarem as suas emprêsas sertanistas, por se-
rem su nobreza dirigente da terra. e por serem vassalos de sua ma-
jestade portuguêsa.
Entre êsses vassalos está D. Simão de Toledo Piza. De sua as-
cendência. deixara seu aai. no cartório da vedoria de guerra da
Ilha Terceira, cidade d è ~ n ~ do r aHeroismo, nos ~ ç o r e i o
, regis-
tro de todos os documentos. Pedro Taques, o autor da "Nobiliar-
quia Paulistana", linhagista da nobreza dirigente de São Paulo,
dá-nos a sua origem: "Da ilustrissima casa dos condes de Oropeja
e duques de Alva de Tormes foi legitimo descenden$,, sem que-
bra de bastardia D. João de Toledo Piza, que nasceu na vila de Alva
de Tormes, e casou n a côrte de Madrid com D. Ana de Castelha-
nos. Dêste matrimônio nasceu: D. Simão de Toledo Piza, que, se-
guindo o real serviço, se achou no posto de capitão, militando com
D. João de Austria na célebre batalha naval de Lepanto contra o
turco no ano de 1571, em que foram metidas ao fundo duzrntas
galeras otomanas, e pereceram vinte e cinco mil turcos, e foram
postos em liberdade outros tantos escravos cristãos".
D. Simão de Toledo Piza ficou na cidade de Angra, nos Aço-
res, onde se casou com D. Gracia da Fonseca Rodovalho. Dêsse
matrimônio o casal teve quatro filhos: dois homens e duas mulhe-
res. Chamavam-se os dois homens: D. Gabriel e D. Simão, o mes*
164 REVISTA DO INSTITUTO HIST6RICO E GEOGRhFICO DE S. PAULO

mo nome paterno. Ao falecer em São Paulo de Piratininga, em


1668, D. Simão de Toledo Piza, em seu testamento se lê: "Declaro
que sou natural da Ilha Terceira, cidade de Angra, filho legítimo e
de legitimo matrimônio do sr. sargento-mór D. Simão de Toledo
Piza e da Sra. D. Gracia da Fonseca Rodovalho, cujas qualidades
não declaro, porque, sendo minha pátria tão perto, quem se im-
portar saber, procure. Idem, declaro que, vindo de Madrid despa-
chado com os alvarás, que se acham na provedoria da fazenda, por
secretos juizos do meu destino, fui preso no castelo, de onde fugi,
e vim dar a esta vila de São Paulo, onde casei e sempre cuidei em
me não dar a conhecer, consentindo que o morgado, que por morte
'de minha mãe passava a mim, o tenha desfrutado, e se ache de
posse dêle, meu primo D. Pedro de Lombreiros, cônego da Sé de
Angra, cujas cartas estão no contador com todos os mais papéis
meus e de meu pai e irmãos. Meu filho João de Toledo, habilitan-
do-se por meu filho, irá a minha pátria para tomar posse do mor-
gado, que lhe pertence, cobrar da fazenda real o que consta das
provisões que lá se acham em processo, e também a minha legítima
materna, que ficou em casas de sobrado".
Pátria e apenas o lugar do nascimento.
D. Simão de Toledo Piza casou com D. Maria Pedroso na ma-
triz de São Paulo, em 12 de fevereiro de 1640. "Foi cidadão de São
Paulo, diz Pedro Taques, onde teve sempre o primeiro voto no go-
vêrno da República". O govêrno da República era o govêmo da Câ-
mara Municipal, onde os vereadores chamavam-se republicos ou
republicanos, porque republica era a coisa pública. Embora filho
de espanhol, D. Simão de Toledo Piza, nascido nos Açores, não to-
mou parte no episódio da aclamacão de Amador Bueno. E ambos
eram portuguêses pela nacionalidade: aquele açoriano pela natu-
ralidade a êste paulistano pelo nascimento.
Desses elementos espanhois da Capitania de São Paulo, todos
pertencentes a classe dirigente, a nobreza citadina do Estado do
Brasil, província do Império Lusitano, se originaram as famílias
Camargo, Queno, Quebedo. Rendon, Toledo Piza, Fajardo, Tenório,
e tantas outras, cujos apelidos continuaram e continuam. E ao
recordá-los, verificamos como hoje êsses nomes castelhanos se en-
trelaçam unidos aos portuguêses, e formam: Pires de Camargo, ou
Camargo Pires, Silva Bueno ou Bueno de Azevedo, Correia de To-
ledo, Ferraz de Toledo, Tenório de Brito, Godoy Moreira, Godoy
Colaço, Godoy Bicudo, Godoy da Silva e tantos outros troncos bra-
sileiros.
Ao unir as coroas de Portugal e Espanha, em 1580, Felipe I1
,de Espanha e I de Portugal, dissera: Portugal para os portuguêses.
Com êles ficaram os usos, costumes, leis e língua, "o português
casta linguagem". Nessas condições, no Estado do Brasil, provín-
cia do Império Lusitano, a língua portuguesa continuou a ser es-
REVISTA DO INSTITUTO HISTóRICO E GECGRAFICO DE S. PAULO 165

crita e falada, assim como nas províncias da América Espanhola, a


língua espanhola não sofreu solução de continuidade. E daí os
dois idiomas permanecerem nas duas Américas.
Em conferência proferida no Ateneo de Madrid, por ocasião
do I11 Centenário da obra máxima de Miguel de Cervantes Saave-
dra, sobre "E1 Quijote y Ia lengua casteilana", Julio Cejador y Frau-
ca assinala: "E1 idioma de un pueblo, como producto que es de su
cerebro, de sua fantasia y de su corazon, encierra archivada toda
su historia, lleva en 10s vocablos, como en monedas conmemorati-
vas, todas sus instituiciones, sus hazafias, sus gloriosos y desgra-
ciados sucesos, en las metáforas de sus términos 10s vuelos de su
imaginación creadora, en las frases y refranes sus ideas religiosas,
morales, sociales y filosóficas, en 10s giros y construcción su genio,
carácter y sentimientos. La lengua castellana es, pues, e1 archivo,
e1 cerebro, la fantasía, e1 corazon de1 pueblo espafioi".
Desses períodos poderia dizer D. Francisco Manoel de Melo,
escritor português, clássico bi-lingue do nosso idioma e do idioma
castelhano, com estas palavras: "A locução, sobre ser bem fièl-
mente castelhana, é florida e misteriosa". Graças a Felipe I1 e a
Amador Bueno, "e1 habla" de Castela não substituiu "o português
casta linguagem". Continuaram os portuguêses do Brasil a falar
a língua portuguêsa, enquanto os espanhóis de São Paulo se ex-
pressavam em castelhano. Ambos se entendiam e continuam se
entendendo. Tempo adiante, os descendentes dos espanhóis, já
"portugueses de San Pablo", utilizavam apenas a lingua portuguê-
sa. Por isso mesmo, falo-vos na lingua de Camóes e não na de Cer-
vantes, sobre o elemento espanhol na Capitania de São Vicente,
onde a Capitania e o Estado de São Paulo mergulham fundas rai-
zes no tempo e no espaço. Na lingua de Portugal ou na língua de
Espanha nós nos entendemos. Escritores espanhóis escreveram em
português; escritores portuguêses escreveram em castelhano. José
Maria Viqueira, em "Notas sobre E1 Lusitanismo de Lope de Vega
y su comedia "E1 Brasil Restituido", refere-se à lingua portuguesa,
dizendo: "Ya sabemos también que Lope, alén de enamorado de la
lengua portuguesa, la escribió en múltiples ocasionest como para
regalarse con la dulce musicalidad de sua sonidos. Hoy podemos
afiadir algunas nuestras más a las que ya conocemos. Sin salir de
la comedia acabada de citar, nos encontramos en e1 acto primero,
escena segunda con estos versos de Don Juan:
"Y dijele en portugués:
Que fareis, menina, sola?
Respondzóme por donaire:
"Si uos tenho de dar conta,
saudades da minha terra
me fazen morrer a solas".
..........................
166 REVISTA DO IKSTITCTO HISTORICO E GEOGRAFICO DE S. P A U L O

Quejas (le dijo en su lengua)


de vuestra hermosura forman,
upes hablando en portugués
en castellano enamoran".

Se no Brasil o próprio castelhano falou e namorou em portu-


guês, nós continuamos a falar e a namorar neste idioma, como
língua comum, língua familiar, lingua do sertão e do litoral, por-
que foi a primeira que praguejou, em pleno oceano mar-oceano,
contra os ventos e as tempestades. E os descendentes dos caste-
lhanos e dos portuguêses, na terra de São Paulo de Piratininga,
unidos pelos mesmos ideais, pela mesma fé e pelo mesmo rei, di-
riam aos pósteros: Nossa pátria é a língua portuguesa.
TRÊS INTERESSANTES CARTAS
DE BÁRBARA ELIODORA
Aureliano Leite

O Dr. João Gomes Teixeira, ilustre diretor do velho e opulento


Arquivo Mineiro, mimoseou o Instituto com o fac-simile de duas
interessantes cartas de Bárbara Eliodora, datadas de 1795, dirigi-
das a seu procurador e compadre João Rodrigues de Macedo.
Mais de uma coisa chama a atencão nos preciosos autógrafos
de quase dois séculos.
A primeira, é a letra excelente, digna de um calígrafo.
A segunda, a redacão revelando a intelectual que foi a filha
querida de São João De1 Rei.
A terceira, a mostra de sua categoria social aos beleguins
perseguidores do Reino de Portugal, a senhoril dignidade que nem
o exílio e a morte do marido amado, em Ambaca, conseguiram
abater. Assinava-se Dona Barbara. Outros chamarão a isso pro-
sápia, orgulho . . . Seja o que for. Mas isso prova a personalidade
de Bárbara. Era bem uma descendente de Amador Bueno.
Finalmente, a sua assinatura, ainda, ensina a escrever corre-
tamente o seu sobrenome - Eliodora, sem o abelhudo H com que
uns poucos teimosos continuam a deformá-lo. Resta a dizer que
a sua Eliodora não é feminino de Heliodoro, mas sim uma flór, uma
tulipa, de raiz grega talvez diferente. (Ver Dicionário Universal
de La Lengua Castellana, Ciencias y Artes - "Madrid, 18701,
tomo IV).
E depois, esposa de grande humanista - Alvarenga Peixoto,
filha de um bacharel em direito por Coimbra - Dr. Silveira e
Souza, e ela própria uma intelectual, como havia de grafar errada-
mente o seu- sobrenome?
O eesto zentilissimo do Dr. Teixeira oermitiu-no?. diante das
duas interessantes missivas de Bárbara ~fiodora,repetir os nossos
velhos argumentos sóbre a exata grafia do seu sobrenome, aliás
já geralmente adotada.
O nosso ilustre confrade Luis Wanderley Torres, provecto
conhecedor da Inconfidência Mineira, ofertou-nos com outra carta
da poetisa montanhesa, a terceira aqui estampada. Nela, mais
íntima. Bárbara não se assina Dona. mas sempre Eliodora sem O
H inicial.
A nossa Revista se enriquece, estampando, também em fac-si-
mile, as três preciosas cartas.
Ei-las: -
A primeira carta:
REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRAFICO D E S. P A U L O 169

A segunda carta:
170 REVISTA DO IKSTITUTO HIST6RICO E GEOGRAFICO D E S. PAULO

A terceira carta, também dirigida a João Rodrigues de Macedo.


O DR. JOAQUIM CÂNDIDO SOARES
DE MEIRELLES (1797-1868)
(médico e conspirador político)
Carlos Henrique Liberalli

O Patrono oficial do Corpo de Saude da Marinha de Guerra


do Brasil, pelo Decreto federal n." 63.684, de 25 de novembro de
1968, é o Dr. Joaquim Candido Soares de Meirelles, nascido em
Congonhas do Sabará (hoje Vila Nova de Lima), província de
Minas Gerais, em 5 de Novembro de 1797, e falecido no Rio de
Janeiro, em 13 de julho de 1868.
Na qualidade de Cirurgião-Mor da Armada Imperial, foi ele o
1." Diretor de Saude Naval (1849-1868), tendo porém iniciado a
carreira médica no Exército, como "ajudante de cirurgia" do 1."
Batalhão de Caçadores da Córte, ainda aluno da Academia Mé-
dico-Cirúrgica ao Rio, em 1819; e, depois d a formatura, em 1823,
Cirurgião-Mor agregado ao 2." Regimento de Cavalaria-de-linha
de Minas Gerais, destacado para o Hospital Militar da Província,
em Ouro Preto.
Em Julho de 1828, após regressar de viagem de estudos a
França. onde conquistara na Faculdade de Medicina de Paris os
graus de Doutor em Medicina e Doutor em Cirurgia, pede demis-
são do serviço ativo do Exército. desgostoso por não ter sido aten-
dido com a nomeacão que pleiteava, para Inspetor dos hospitais
militares.
Dedicava-se então a atividade civill chefiando q p serviço no
Hospital da Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro e desen-
volvendo intenso trabalho social, de que resultaria em 1829 a
fundacão da Sociedade de Medicina, da qual foi o primeiro pre-
sidente; a reforma do ensino médico e criacão do ensino farma-
cêutico em 1832; e, em 1835, a transformação da sociedade mé-
dica em Academia Imperial da Medicina, por ato do govêrno re-
gencial. Depois de ter sido médico da Imperial Câmara desde
1836, de reger cadeira na Academia de Belas Artes e de exercer
varias vêzes o mandato de deputado, primeiro provincial e depois
nacional, foi nomeado, em julho de 1849, Cirurgião-Mor da Ar-
mada Imperial, com posto de Capitão de mar-e-guerra, mais tarde
promovido (1852) a Chefe de divisão graduado. No mais alto
posto médico da Marinha de Guerra, já comendador da Imperial
Ordem da Rosa, Conselheiro do Império e com Carta de Nobreza
e Fidalguia, comandou os serviços médicos da Armada durante
a Guerra do Paraguai, acompanhando D. Pedro I1 a rendição de
Uruguaiana, tendo falecido, antes do final do conflito, ainda no
exercício do cargo.
Foi portanto, Joaquim Candido Soares de Meirelies teste-
munha dos acontecimentos da política interna do Brasil, mais
salientes naquele memorável período: a revolução liberal de 1821,
o "Fico", e a Independência; a Abdicação; e a Maioridade. Qual
o papel que neles desempenhou? De simples espectador ou de
comparsa ativo? Apegado a situações e posições ou jogando-as
na luta pelos destinos da pátria? A resposta a essas indagações
ampliará nossos conhecimentos sobre seu caráter e qualidades de
cidadão.
A REVOLUÇÃO DE 1821 E O "FICO"

No início de 1821, já repercutiam no Brasil os écos da revolu-


ção liberal do ano anterior, que dera em terra com a monarquia
absoluta da Metrópole. Em 26 de fevereiro de 1821, o movimento
"pela constituição" estalava no Rio de Janeiro, com o pronun-
ciamento da tropa. Nessa ocasião, Soares de Meirelles era, havia
dois anos, Cirurgião-ajudante do 1." Batalhão de Caçadores da
Corte, tinha de idade vinte e três incompletos, era estudante da
Academia e interno ("pensionário") do Hospital Militar, onde
residia. Mais do que provável que, desde então, (pois tinha tem-
peramento vibrátil), se tivesse inflamado pelos ideais da juven-
tude civil e militar. Já era avultada a corrente nacionalista, para
a qual seria 5envindo tudo o que contribuisse para enfraquecer
o prestígio da coroa portuguesa. Mulato, Soares de Meirelles te-
ria razão a mais para pertencer a facção nativista pro-indepen-
dência. Possivelmente já se teria filiado a Maçonaria, cujas lojas,
ainda na clandestinidade, articulavam o movimento. Dela se tor-
naria, aliás, figura eminente e pronunciaria em 1838, no "Grande
Oriente" a oração do funeral maçônico de José Bonifácio, o Pa-
triarca.
Tódas as conjecturas convergem para a convicção de que,
nessa época, se filiava Soares de Meirelles ao grupo que, concor-
dando com o retorno de D. João VI a Portugal, como exigiam as
Cortes de Lisboa, pretendia que permanecesse cá D. Pedro; e não
ao grupo mais extremado, de orientação republicana, que dese-
java por barra fora toda a familia real, na esperança de que, sem
ela, mais depressa se faria a república. Por paradoxal que pare-
ça, era êste grupo extremista o maior aliado das Cortes de Lisboa,
porque desejava precisamente e, que elas pretendiam, embora
REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRAFICO DE S. PAULO 173

com finalidade diametralmente oposta. Portanto, a pedra de


toque "republicanismo" seria o tom vacilante ou dúbio com que
alguns reclamavam a permanência de Príncipe. Gonçalves Lêdo,
por exemplo. . . Pertenceriam êles a facção maçônica que alguns
historiadores (Tito Lívio Ferreira) qualificam como maçonaria
"vermelha" em contraposição ao grupo da maçonaria "azul" que
seria integrado pelos elementos que, embora anti-absolutistas e
defendendo as liberdades políticas do Reino do Brasil, guarda-
vam fidelidade ao regime monárquico. Que a êsse grupo, lide,
rado por José Bonifácio, pertenceria provávelmente o jovem Mei-
relles, não é difícil induzir da sua atitude nos acontecimentos
subsequentes.
Assim, é provável que a 26 de fevereiro de 1821, tivesse co-
mungado do entusiasmo geral que, no primeiro inebriamento da
notícia da iminente promulgacão da Constituição portuguesa pe-
las Cortes de Lisboa, forçava D. João VI, ainda no Rio, a jurá-la
por antecipação. Embora não possa haver dúvida quanto aos sen-
timentos cívicos que nutria (e a sua condição de militar não o
obrigava em absoluto a dissimulá-los. dado que a atividade polí-
tica, sem quaisquer peias, era exercida abertamente pelos milita-
res, mesmo praças), Soares de MeirelIes era certamente comedido
nas manifestações exteriores do seu nacionalismo. Prova disso
é o fato de, já num período em que ia em crescendo a dissençáo
entre as tropas da Divisão Auxiliadora de Portugal, comandada
por Jorge de Avilez, e o povo do Rio de Janeiro, o moço ajudante-
de-cirurgião, lotado embora no 1." Batalhão de Caçadores, consti-
tuido de brasileiros natos, tivesse sido transferido para o Bata-
lhão 11, de portugueses, integrante da Divisão Auxiliadora, p3r
nele haver falta de cirurgião-mor.
Isto demonstra simultâneamente a habilidade e competência
de Soares de Meirelles, e a confiança que, apesar de mestiço notó-
rio, merecia dos comandantes portugueses.
Essa condição de Joaquim Candido, por ocasião dos aconte-
cimentos do "Fico" a 9 de janeiro de 1822 e nos d' s seguintes,
f.
habilitou-o a desempenhar papel essencial, não su icientemente
posto em evidência nor nossos grandes historiadores, mesmo nor
Tobias Monteiro e Octávio Tarquinio, que o mencionam explici-
tamente
Sabemos dos seus pormenores pelo próprio depoimento de
Soares de Meirelles, publicado. em carta com data de 30 de outu-
bro de 1857, no volume "Exposição histórica da Maçonaria no
Brasil", Rio, 1858, e reproduzido, em parte, por Moreira de Azeve-
do, no trabalho sobre o "Fico", publicado na "Revista do Insti-
tuto Histórico e Geográfico Brasileiro", em 1868. ainda em vida
de Soares de Meirelles. Rsse depoimento pessoal, nunca contes-
tado ou posto em dúvida, lança luz em penumbrosos bastidores
174 REVISTA DO INSTITUTO HISTORICO E GEOGRAFICO DE S. PAULO

daqueles pródromos da Independência. Nele descreve Soares de


Meirelles o que se passou na noite de 11, após a violenta alterca-
çáo entre o tenente-coronel José Mana da Costa, reinol, e o coro-
nel brasileiro José Joaquim de Lima e Silva, no teatro São João
em que havia função, e na qual, segundo Moreira de Azevedo,
dissera José Maria: "Vocês foram nossos escravos, são e hão de
continuá-lo a sê-lu, e vou dar a prova", a que Lima e Silva retru-
cara "Veremos issso". Eis o que diz Soares de Meirelles". Eu
chegava ao teatro quando isto se passava; o comandante (do
11 de Caçadores José Maria da Costa) disse-me que o acompa-
nhasse. Entramos em casa do Coronel Joáo de Souza, com quem
falou em particular; e partimos para o quartel (que era no largo
do Moura, hoje Praça Marechal Ancora, onde está o Museu His-
tórico Nacional). Ai estando, chegaram o mesmo coronal Joáo
de Souza, os generais Carreti, Jorge de Avilez, Raposo e outros
oficiais superiores. Pôs-se logo o batalhão em armas. Depois de
alguns minutos de conferência partiu o ajudante a galope para
São Cristovam para fazer por em armas o Batalhão 3 de caça-
dores de Portugal (que, aliás, não aderiu, permanecendo neutro,
montando guarda ao Paço da Boa Vista) e outro oficial para r
quartel de Bragança e artilharia n." 4, para que esta e o n . O 15
também se puzessem em armas (respectivamente, na R. de D.
Manoel - que na época era praia ao sopé do Morro do Castelo -
e no Morro de São Bento). Como o comandante (José Maria da
Costa) no lugar em que estava não refletiu que eu era brasileiro
e não compartilhava os seus desígnios e dos seus, disse-me "Como
seus patricios não querem ser livres, havemos de lhes dar liber-
dade a força, e o príncipe, desobediente (foi outro nome de que
se serviu) agora mesmo há de ser preso, pois havemos de cercar
o teatro (onde o Príncipe assistia ao espetáculo) e o havemos de
levar pelas orelhas para bordo". ( * )
Façamos uma pausa nas declarações de Soares de Meirelles,
para um comentário. As palavras do coronel José Maria são
transcritas de modo bastante diferente por Tobias Monteiro em
"A elaboraçáo da Independência": "Seus patricios não querem
a Constituição; haveremos de reduzi-los ao antigo cativeiro etc.".
Quer nos parecer que o texto de Soares de Meirelles está mais
de acordo com o espírito que animava. em janeiro de 1822, aque-
les oficiais portugueses ardendo de entusiasmo constitucionalista
e liberal. Seria mesmo absurdo que o oficial luso se dirigisse a
um subordinado brasileiro L e cuja condição de mestiço singu-
larmente marcava - prometendo aos nacionais "voltar" a uma
servidão, que jamais existira no plano da organização politico-
administrativa do mundo português. Muito mais razoáveis se-
--
) - As expressões em itálim, entre parenteses. sáo esclarecimentos
nossos ao texto original. O mesmo para os periodos seguintes.
REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO E G E O G R j F I C O DE S. PAULO 175

riam as palavras da versão de Meirelles ,que se referiam à imposi-


ção da liberdade, através da emancipação da tutela do Principe.
para a conquista do auto-govêrno, representado em teoria pelas
Cortes, de que participavam deputados brasileiros. Demonstra-
ção dêsse estado de espírito, fora a proclamação do comandante
da Divisão Auxiliadora, no 5 de junho anterior, em que se van-
gloriava de ter rompido "as cadeias que oprimiam seus irmãos
do Brasil, restituindo-lhes o exercício dos direitos imprescnptíveis
do homem e elevando-os ao gozo de um govêrno representativo,
tal e qual o formassem as Cortes de Lisboa".
Prossigamos no depoimento de Meirelles:
"Como eu estava a paisana, pedi-lhe licença para ir a casa
fardar-me. Parti imediatamente para o teatro e fui ter ao cama-
rote do major de dia, que era José Joaquim de Almeida, major
do meu corpo (o corpo a que pertencia Meirelles era o 1."Caça-
dores nacionais, não esqueçamos; portanto o major era pessoa
não ligada à Divisão Auxiliadora). Tomando-o de parte contei-
lhe o que havia; êle conduziu-me ao camarim do príncipe e
fê-lo chamar para lhe comunicar negócio grave. O príncipe saiu
incontinente e eu lhe referi do que havia: não voltando mais ao
camarim, partiu imediatamente para São Cristovam.
A maioria dos historiógrafos refere que o Principe tivera
conhecimento do que tramava Avilez, porém não de que modo
êsse conhecimento lhe chegou. Mel10 Moraes conta o episódio
do seguinte modo:
"Nessa ocasião, se achava no saguão do teatro o então cirur-
gião ajudante alferes Joaquim Soares de Meirelles, que servia
em um dos batalhões da divisão, e fingindo tomar o partido da
dita divisáo, acompanhou o tenente-coronel José Mana, ouvindo
dele pelo caminho qual era o plano dos seus, e acabando de certi-
ficar-se bem dele, no largo do Moura, quando se reuniram os
oficiais e a divisáo se pôs em armas.
Tendo Meirelles sabido o que era suficiente retirou-se sorra-
teiramente, e foi para o teatro dar parte de tudo ao ministro da
guerra e aos interessados n a causa do Brasil, que.rodeavam o
Principe, o qual foi logo de tudo informado?l*)
Que se poderá concluir da atitude de Meirelles? 1.") Que era
partidário do "Fico"; e que portanto, não era republicano;
2.") que tinha trânsito e crédito entre os elementos ligados a
causa do Príncipe, pois bastou sua simples informacão para deci-
dir D. Pedro a agir sem mais delongas; 3.") que, embora em liga-
ção com êsses elementos, disfarçava ou mesmo ocultava suas
convicçóes, de modo a não ser tido como suspeito pelos oficiais

(*I - Alguns referem que a noticia fõra aboato, verdadeiro ou não».


(Joâo Romeiro aDe D. João VI à Independências. São Paulo, 1962, Editorial
L. 13. p. 141).
176 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRAFICO DE S. PAULO

da Divisão Auxiliadora, onde estava prestando serviços médicos,


na qualidade de aluno, hoje diríamos "interno".
Voltemos ao depoimento:
"No dia seguinte (seguinte ao da capitulação das forças de
Avilez diante da reação do Príncipe e do povo, por êle convocado
e armado, o que se deu a 12), apareci em o n." 11 (i. e., no Bata-
lhão 11 de Portugal, para continuar com seu trabalho médico,
sinal óbvio de que ninguem se apercebera da sua atuação deci-
siva na repressão ao pronunciamento) : tinham capitulado as tro-
pas portuguesas e iam para a outra banda (a Praia Grande,
Niteroi) .
Felizmente o comandante estava como na véspera (1. e. "con-
fiante em, mim, julgando-me partidário do retorno do Príncipe
a Portugal"); por isso disse-me que a capitulação era fantástica
(ficticia); que a primeira companhia de caçadores 3 que che-
gasse a Praia Grande iria ocupar Santa Cruz (uma das forta-
lezas da barra), que êles se fariam fortes, resistiriam ao Príncipe
até chegar a Divisão Auxiliadora (i. e. o grosso das tropas); e
como me ordenasse que fosse arranjar as ambulâncias (que me-
lhor prova de que não desconfiavam?) saí e fui a toda a pressa
para o campo de Sant'Ana (onde havia o quartel de tropas nacio-
nais terminado em 1818, e em cuja vasta praça, desde os aconte-
cimentos da véspera, estavam acampados cêrca de 10.000 homens
de todas as condições sociais, raças e misteres, annados ou não).
Aí chegando dirigí-me ao meu comandante (comandante do 1."
Caçadores) que estava com os marechais Lino de Morais, Geneli
e outros, e lhes disse o que havia. O Marechal Lino disse que sem
tomarem o Pico (i. e. a fortaleza do Pico sobranceira à de Santa
Crnz) não podiam tomar Santa Cruz; que 50 homens fariam
face a mil; e não deram importância ao que eu lhes dizia. "Pois,
senhores - Ihes tornei eu - no Pico há um cabo e " soldados".
E fui para o General Curado que estava a frente das forças pa-
trióticas (desde a véspera o Príncipe nomeara o veterano General
Joaquim Xavier Curado para comandante das armas); mal me
ouviu, batepdo-me no ombro, disse: "tens razão meu menino".
E mandou imediatamente um tenente com 60 homens ocupar o
Pico e reforçar Santa-Cruz. Não se tinha passado uma hora que
chegara ao Pico a força mandada, quando a companhia de caça-
dores (portugueses, lembre-se) chegava também. Reconhecendo
a força, retiro-me". ( * )
O resto não pertence mais ao nosso assunto: a 15 de feverei-
ro embarcavam definitivamente para o Reino as forças de Avilez.
O caminho estava livre para a independência completa.
(*I - Se os portugueses se houvessem. mediante a capitulação ficticia,
apoderado das fortalezas do Fica e de Santa Cruz, aguardariam tranquila-
mente a chegada da esquadra de ref8rço (que efetivamente chegou). E bem
diverso teria sido o rumo dos acontecimentos.. .
REVISTA D O INSTITUTO HIST6RICO E GEOGRAFICO DE S. PALLO 177

A ABDICAÇAO

Não pode padecer dúvida que Soares de Meirelles - que havia


demonstrado nos episódios do "Fico" a sua lealdade ao Príncipe
- logo entrou a engrossar a corrente dos desiludidos. Já nomeado
Cirurgião-Mor do Exército e mandado agregar ao 2." Regimento
de Cavalaria de Linha das Minas Gerais, com sede em Ouro Preto.
vai, como dissemos, completar estudos na França como pensio-
nista do Estado, isto é, mediante a continuação da percepção de
vencimentos; e regressando, Doutor em Medicina e Doutor em
Cirurgia, desgosta-se por não ter sido nomeado para cargo que
pleiteava. Deverá datar de 1828 o seu ressentimento, natural-
mente agravado pelas atitudes anti-liberais do imperador. Tam-
bém pertencendo a maçonaria liberal, e certamente ao "Clube dos
Amigos Unidos", donde sairia em 1830 o "Grande Oriente" do
Passeio Público, amigo de Evaristo da Veiga, talvez o maior pró-
cer liberal, vinculado psicológicamente pelo sangue mestiço ao
movimento nativista de reação a afirmação soberba da superio-
ridade do branco europeu, Soares de Meirelles confessaria mais
tarde, (quando deputado por Minas a Câmara do Império, na
sessão de 23 de junho de 1848) que se convencera que D. Pedro I
não deveria continuar no trono; e passara a apoiar os que assim
pensavam. Mas, nesse mesmo discurso, reafirmou que sempre
permanecera fiel a monarquia. A divergência política não lhe
tolheu o respeito pelo primeiro imperante, a quem chamou então
de "ilustre monarca". Pertencendo a Sociedade Defensora da Li-
berdade e da Independência Nacional" (instalada no Rio, em 10
de maio de 1831, um mês após a Abdicação) integrara-se na orien-
tação "moderada" do grupo de Evaristo da Veiga.
"Afinados e solidários deveriam marchar ao lado de Evaristo
- diz Octávio Tarquinio de Souza - um Odorico Mendes, um
Limpo de Abreu, um Soares de Meirelles". Essa simples menção
situa a altitude e a importância de Meirelles, então civil, dentro
da entidade mentora dos rumos políticos da Nação. Falava-se
nessa época na existência de uma misteriosa sociedade extre-
mista, "gregoriana" ou "haitiana", que congregaria negros e mu-
latos contra os brancos, cujo massacre preconizaria. A ela estaria
ligado, mas negou-o o famoso agitador Cypriano Barata. Dada
a condição de mulato de Soares de Meirelles, atribuiu-se-lhe per-
tencer a mesma entidade. Que fora calúnia dos seus inimigos.
êle o provou abundantemente, ainda nesse ano de 1831, median-
te série de cartas publicadas no "Republico", integralmente trans-
critas no magistral estudo biográfico de Luiz Felipe Vieira Souto
Quando deputado, veio Soares de Meirelles a tribuna da
Câmara para pulverizar os remanescentes dessa calúnia. E é
dessa defesa na já mencionada sessão de 23 de junho de 1948
178 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRAFICO DE S. P A U L O

que merece extraído o seguinte trecho, que é bem um traço defi-


nidor da sua personalidade:
"Se eu repito tantas vezes que sou mulato é não só porque
não aceito a injúria que muitos supõem inerente a êsse fato na-
tural, em que não tive parte, para o qual não podia concorrer,
como para fazer soar longe a moralidade, a filosofia, o verdadeiro
liberalismo do país em que tive a fortuna de nascer; é para que
se saiba em todo o mundo que, se na classe mais elevada do país,
a mais rica, a mais ilustrada, a que tem em suas mãos o poder
e dirige a força pública, há um ou outro Pedro Chaves (o depu-
tado Pedro Fernandes Chaves, do Rio Grande do Sul, que o ataca-
va) o resto é compsto todo de homens que só reconhecem os
talentos e as virtudes".

A MAIORIDADE

Médico de Câmara da Casa Imperial, Soares de Meirelles


tinha acesso fácil ao Paço e ao imperador-menino. Fiel a tradi-
ção monarquista e liberal, uniu-se a conspiração dos que preten-
diam antecipar a declaração da maioridade do monarca, o que
constituiria, nas palavras de Pedro Calmon, "um golpe de mestre
vibrado na Regência conservadora pela oposição liberal". Dentro
dessa corrente, Soares de Meirelles foi "um dos mais persistentes
propugnadores da maioridade de S.M. o Imperador e a essa causa
prestou serviços iguais aos maiores que então foram prestados"
disse, em oração solene no Instituto Histórico e Geográfico do
Rio de Janeiro, em presença do próprio Imperador D. Pedro 11,
o seu orador Joaquim Manoel de Macedo, na sessão de 15 de
dezembro de 1868.
Coube-lhe mesmo uma daquelas "sondagens" feitas ao impe-
rial paciente, em nome do grupo maiorista.
Depois da vitória, com a coroação do imperador, teve porém
uma desilusão. Repetiu-se mais uma vez (como no caso da cria-
ção da F a c w a d e de Medicina, obra sua, e onde nunca teve uma
cátedra) o sic vos non vobis, no Ministério da Maioridade, que
subia, teve acérrimos inimigos. E ao rebentar a revolução liberal
de 1842, em São Paulo e Minas, envolveram o seu nome, tanto
mais que o reduto dos revoltosos mineiros era a mesma Santa
Luzia do Sabará, onde vivera menino e tinha fazenda e influên-
cia. Dominado o levante, prenderam-no, logo após terminar sua
semana de plantão no Paço Imperial, e deportaram-no para Lis-
boa, com a roupa do corpo, em companhia de Limpo de Abreu,
de Salles Torres-Homem, e muitos outros.
J3 possível que tivesse manifestado simpatia para com os
rebeldes, mas não lhes dera apoio. A injustiça, corrigida com o
decreto de anistia de 14 de março de 1844, leva-10-ia, ao regressar,
REVISTA D O IXSTITUTO HIST6RIi-O E GEOGRAFICO DE S. PAULO 179

às suas antigas funções de médico do Paço, de Professor na Aca--


demia de Belas Artes, e a deputação, de 1845 a 1849.
Retornaria em 1849 a sua condição de médico militar, nas
funções de Cirurgião-Mor da Armada Imperial. Cessam então as
atividades políticas do cidadão entusiasta, vibrante de ardor cívi-
co para viçarem as virtudes de desinterêsse e sacrifício do solda-
do-médico, virtudes cujo cultivo lhe foi religião até à morte.

REFEReh7CIAS BIBLIOGRAFICAS

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Sousa. Octavio Tarquinio de - .História dos fundadores do Império da Brasil*.
3" eò., Rio de Janeiro, 1957, José Oiimpio. Vol. 11. p. 227.
Vieira Sauto. Luiz Felippe - eSoa,res de Meirelles - Contribuição p a r a a sua
biografias, Rer. Inst. Hist. Geog. Bra. (Instituto Pan-Americano de His-

.
tória e Geografia. 1932-1933. V. 111). Rio de Janeiro, 1942, Imp. Nacio-
nal, p. 545-651.
CÉLEBRE POLÊMICA ENTRE ANTONIO
PRADO E LUIZ PEREIRA BARRETO
Heliodoro Tenório da Rocha Marques

O trabalho aqui estampado pela Revista, talvez inédito, é


de lavra do Conselheiro Antonio Prado. Escrito pelo próprio pu-
nho da grande figura política monárquica e republicana, respon-
de a Luiz Pereira Barreto.
Barreto, que, além de bravo polemista, era considerado um
sábio, não se conformaria certamente com a assacadilha, embora
em tom assaz delicado com que Prado o brindou, alegando a sua
ignorância na confusão de mestiçagem com cruzamento, coisas
diferentes em zootecnia, e teria com certeza voltado a arena, se
é que o trabalho de Prado haja sido publicado.
A falta ou desconhecimento da possível réplica de Barreto
não impeae a Revista de dar a conhecer, na própria redação e
ortografia, o interessante manuscrito de Prado, existente no ar-
quivo do Dr. Aureliano Leite e que deve datar dos primordios
da Republica.
Barreto, que detestava o gado zebú, por éle chamado "mons-
tro indiano", o qual fez a riqueza do Triângulo Mineiro e Goiás,
era também inimigo da mistura do gado nacional - o caracú,
com raças européias.
Enfrentar Luiz Barreto, como aconteceu a Antonio Prado,
mostra a valentia e capacidade dêste, porque o outro nunca nin-
guém levou a parede em assunto algum. Assim foi qu8ndo terçou
armas com argentinos, a propósito de sua tese de que só o habitat
próprio a uva branca podia agasalhar o homem branco. Isso, se
verdade fosse, levou Barreto a demonstrar com a cultura da uva
branca por êle iniciada em S. Paulo, que no solo bandeirante
podia viver como em qualquer parte da Europa o homem branco.
Ficaram célebres outras polêmicas de Barreto, como a com
Eduardo Prado, a com Monsenhor Sentroul e outros mais.
Luiz Barreto, que não nascera paulista, foi durante certo
tempo um ídolo de S. Paulo. Houve quem escrevesse (Miranda
Azevedo) que o sábio rezendense devia ter uma estátua em cada
cidade do Estado.
182 REVISTA D O INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRAFICO DE S. PAULO

Mas Antonio Prado, também de certo modo, era um gigante.


Sem exagêro, foi um dos mais notáveis políticos do Brasil. Polí-
tico o foi objetivo, pragmático, nada platônico. Seu trabalho,
agora publicado, além de oferecer uma idéia do jornalista que
também foi, vale como um subsídio para a história da pecuária
em S. Paulo.
Ei-10:

"A PECUARIA E O DR. LUIS BARRETO

Verificada a adaptabilidade ao nosso meio dos reproductores


de raças européas, passo a tomar em consideração os argumen-
tos do dr. Barreto contrarios ao cruzamento desses reproducto-
res com o gado bovino nacional.
Antes de tudo, devo assignalar que o meo illustre amigo con-
f u n d i ~em sua critica duas cousas muito diversas em zootechnia
- cruzamento e mestiçagem - phantasiando um processo origi-
nal de cruzamento. ainda não classificado pela sciencia.
No cruzamento, como sabem os criadores que possuem algu-
ma noção elementar de zootechnia, os productos machos de meio-
sangue não intervem na reproducção, que é sempre feita por um
reproductor de saneue puro. Quando o meio sangue é utiIizado
como reproductor dá-se a mestiçagem. São, portanto, dous pro-
cessos muito djfferentes No cruzamento, o principio da heredi-
tariedade influe sobre o uroducto em razão direta do gráo de
ascendencia. isto é, segundo o gráo de superioridade da raca em-
pregada como reuroductora: na mesticagem, a acção se effecti-
va em razão inversa da ascendencia
No cruzamento. portanto, o sangue se auura em cada gera-
cão, até aue. na oitava, segundo uns, ou na decima, segundo ou-
tros, o producto é sangue puro. Começa-se a aperfeiçoar-se a
raça Esse systhema funda-se nas leis que presidem a conserva-
ção das eseecies vegetais e animais". Achille Denauny
É o svsthema que o nosso amixo classifica artificio da techni-
ca pastoril condenado aela zootechnia moderna!
Seria longa demais, nesta occasião, a enumeracáo das racas
que tem sido melhoradas. transformadas e creadas por esse
processo.
Essa enumeração seria longa com relação sómente às raças
ereadas por cruzamentos com o reproductor por excellencia da
raça cavallar - o puro sangue inglez.
A raça primitiva dos cavallos normandos, introduzida na
Normandia pelo Nortman, era uma raça do norte, de patas largas,
cabeça muito acarneirada, de grande porte Esta raça primitiva,
ereada com o puro sangue inglez, transformou-se na admiravel
REVISTA DO IXSTITUTO HIST6RICO E GEOGRhFICO DE S. PAULO 183

raça normanda de meio sangue, tão apropriada para a cavallaria


ligeira francesa, como para os couraceiros, com uma ramificação
de cavallos trotadores. Na criação desta raça se observou que
os melhores individuos, os mais resistentes, os mais vivos, erão os
que recebião maior dose de sangue puro. Os criadores dos trota-
dores recorrem frequentemente a intervenção do puro sangue, e
tem verificado esta necessidade porque, quando se prolongão os
cruzamentos in and in, ou por consaguinidade, os productos dimi-
nuem de velocidade e de resistencia.
A raça Percherona é também resultado do cruzamento de
uma raça indigena com reproductores arabes, introduzidos em
França no tempo dos cruzados. A nova raça desenvolveu-se em
tamanho e volume e tornou-se a raça classica de tiro pesado a
passo rapido. A origem arabe manifesta-se na cor tordilha mar-
chetada do cava110 actual. Para provar a importancia que se
deve ligar aos caracteristicos exteriores das raças constituidas,
assignalo este facto: o stud boock desta raça exige como signal
de pureza a cor tordilha; assim, os animais castanhos ou pretos
que a industria da America do Norte exige não são percherões
puros, mas productos de um novo cruzamento do percheráo puro
com eguas grandes do Norte, de cór escura.
Pelo cruzamento chegou-se a fabricar, por assim dizer, um
carneiro que tem a lã do Merino e a carne do Southdown. Esta
raça foi creada por um agricultor dos arredores de Rambouillet.
Essas modificações não terião sido obtidas sem o cruzamento.
Pela selecão, o criador nunca chegaria a fazer do Merino um ani-
mal productor de carne e de lã ao mesmo tempo.
O proprio Rachwel, o criador por excellencia do systhema da
selecção, confirmado pela criação do carneiro da raça Dishley,
foi tambem criador de uma variedade da antiga raça ingleza
black-horse, pelo cruzamento de cavallos hollandeses com eguas
do condado de Leicester, contra o cruzamento, referindo-se a uma
lei francesa que prohibe a presença de reproductores de meio
sangue nas exposições e concursos de pecuaria.
Não tenho conhècimento dessa Iei, que deve seralgum regu-
lamento sobre exposições. O que prova porem isso contra o cru-
zamento, no qual não intervem reproductores de meio sangue?
Ao dr. Barreto se affigura que o cruzamento entre nós produ-
zirá o baralhamento das racas. Pode haver maior baralhamento
do que o existente actualmente? É possivel distinguir com acerto,
n'um curral, onde estiverem algumas centenas de cabeças de
gado, qual o caracú, o franqueiro, o curraleiro ou o brucho? A
confusão é de tal ordem, as respectivas caracteristicas são tão
incertas e inspirão tanta duvida e tantos enganos na classifica-
ção dessas raças, que o meo amigo, tão conhecedor e admirador
do caracú, deixou-se illudir, na exposição de Uberaba, batendo
184 REVISTA DO INSTITUTO HISTÕRICO E GEOGRAFICO DE S. PAULO

palmas pela victoria de um caracú, visivelmente legitimo descen-


dente de gado indiano, a julgar pelo seo aspecto, segundo se
deduz da photograghia publicada no "Estado de São Paulo".
Não quisera ver o meo illustre amigo, avesso á devoções, de
joelhos e de mãos postas á entoar um hymno de pio culto á um
falso ido10 de adoração da rotina dos nossos velhos criadores.
O systhema dos cruzamentos tem sido adoptado por todos
os povos que tem querido.
O dr. Barreto, em vista destes factos, que prováo a utilidade
do cruzamento com processo para melhoramento, transformaçáo
e criação de novas raças, poderá dizer-me que tudo isso é histo-
ria antiga, e que a zootechnia moderna condemna esse artificio
de technica pastoril.
A sua observação eu responderei appelando para o resultado
do cruzamento nas Republicas do Prata. É o que póde haver de
mais moderno com relação aos effeitos do cruzamento.
Eu poderia ter duvidas sobre o resultado das experiencias de
São Martinho e de Santa Veridiana, antes de minha recente
visita a Argentina e ao Uruguay; o que observei alli convenceu-
me, porem, de não estar em caminho errado, empregando o cru-
zamento para o melhoramento ou antes transformaçáo do nosso
gado bovino.
Os resultados do cruzamento, n'aquelles paises, falão m.to
alto em favor do processo.
Na Argentina, o Durham, que é a raça conhecida como a
mais exigente de boa alimentação, por ter sido criada principal-
mente pelo emprego de uma alimentaçáo especial e intensiva, foi
o reproductor escolhido de preferencia para o cruzamento; entre-
tanto, adaptou-se perfeitamente ao novo meio; graças á elle,
como reproductor, os argentinos estão conseguindo introduzir,
nos mercados consumidores da Europa, não só a carne dos seus
frigorificos como o proprio boi vivo. Onde deo-se o cruzamento,
o gado creoglo quase que desappareceu por completo.
O que se dá no Uruguay ainda é mais concludente em favor
do cruzamento, porque alli a industria pastoril é ainda exercida
de um modo primitivo, estensivamente, nas pastagens naturais,
quasi que sem cuidados do homem, com relação a alimentação.
Estavamos em peiores condições do que esses paises para a
adaptação ao novo meio das raças aperfeiçoadas europeas e para
que o cruzamento dellas com o nosso gado nacional produza os
mesmos resultados?
É o que cumpre verificar.
Antonio Prado".
BRASIZIA EM FACE DA HISTóRIA E DA LEI
João Gualberto de Oliveira

Segundo o nosso brilhante escritor Gustavo Barroso, há bem


pouco infelizmente desaparecido dentre os vivos, o grande estadista
inglês Winston Churchill, a quem as liberdades políticas da pátria
de John Bull e dos demais continentes tanto devem, mostrou falta
de compreensão relativamente ao papel que a península ibérica
desempenhou na obra de alargamento do mundo. Tal insciência de
história por parte do preclaro ministro não é lógica, porquanto a
Grã-Bretanha, "pro domo sua", tirou da península imensos provei-
tos. Após a derrota dos holandêses, cujos barcos de guerra até então
varriam os mares, os britânicos conquistaram o domínio talasso-
crático do mundo e o mantiveram durante século até que, por sua
vez, recentemente o perderam.
Na sua "História dos Povos de Língua Inglêsa" o ex-titular de
Down Street, n." 10, de Londres, escreve naquele seu estílo franco,
rude e incisivo:
"A chegada dos espanhóis ao Nóvo Mundo e as descobertas que
nêle fizeram do metal precioso puseram-nos em conflito com os
portuguêses, desencadeando discussões sem fim, em que as argúcias
se multiplicaram. Como as duas coroas pretendessem igualmente
ser movidas pela propaganda da fé cristã nas terras pagãs e ignotas,
apelaram naturalmente para o Sumo Pontífice, uma vez que, de
acordo com a crença da época, ao mesmo deviam pertencer gracio-
samente todas as regiões descobertas. Numa série depulas, ali por
1490, o Papa Alexandre VI (Rodrigo Borgia) traçou através do
mundo uma linha de demarcação que delimitasse e dividisse os
domínios espanhol e português. Essa notável partilha facilitou e
acelerou, entre as duas coroas, a conclusão de um tratado em que
se firmou um acordo sóbre certa linha de norte a sul, passando a
370 léguas dos Açores (sic!), e, por conseguinte, os portuguêses se
julgaram com o direito de ocupar o Brasil".
O saudoso escritor cearense, simultâneamente grande estudio-
so dos fastos da nossa história, contesta, com as melhores razões,
êsse ponto de vista. Explica Gustavo Barroso que a demanda das
riquezas do Oriente, defendidas pelo que poderiamos chamar
"cortina de ferro" do Islã, determinou o movimento marítimo da
186 REVISTA DO IXSTITLTO HISTORICO E GEOGRLFICO DE S. PAL7L0

XV centúria, desencadeado para alcançá-la, libertando-se assim


o comércio europeu do monopólio exercido por Veneza em combi-
nação com Bizâncio e ao depois com Alexandria. Daí o terem os
europeus, pouco a pouco, afrontado o Atlântico, seguindo o litoral
africano, em busca de novo caminho para as Índias, e fazendo
reconhecimentos certamente secretos no mar Tenebroso, iniciado
e levado avante pelo Infante de Sagres.
Dessa ousada procura de novo caminho em busca das fabulo-
sas riquezas levantinas surgiram as grandes navegações. Os espa-
nhóis iniciaram-nas com Cristóvão Colombo, rumo a oeste, e foram
detidos pelas muralhas das Américas. Os portuguêses, ao invés,
seguiram outros rumos. Estes iiltimos, pelo sul e sudeste, com
Vasco da Gama, encontraram a rota natural. Novamente os espa-
nhóis, com Fernão de Magalhães a frente, por sudoeste, contorna-
ram o cabo que lhe tomou o nome e foram ter ao Pacífico, cruzan-
do-o. Os franceses, com Jacques Cartier, por noroeste, como já
haviam tentado as Cortes Reais, entraram por equivoco no rio São
Lourenço, julgando-o talvez um braço de mar. E, no século seguin-
te, os lusos de Davi Melgueiro e os holandêses de Barents procura-
ram um mar livre entre os gelos boreais, rumando para nordeste.
Gustavo Barroso e Tito Lívio Ferreira, dois patrícios estudio-
sos, levam mais longe as suas obesrvaçóes. Enquanto toda a faixa
marítima de Portugal, graças aos ensinamentos de Sagres, produ-
n a grandes capitães, a Espanha, que acabara de unificar-se, só
dispunha de gente adestrada em apenas duas das suas regiões, a
saber: Galícia e Andaluzia. Dêsse "handicap" contra o seu vizinho
decorreu a superioridade dos portuguêses na epopéia dos desco-
brimentos.
A rivalidade entre as duas coroas começa mais ou menos em
1345, quando o Papa Clemente V concede o senhorio das Canárias
a Dom Luís de La Cerda, e recrudesce em 1437 com os êxitos das
navegacões ordenadas pelo Infante Dom Henrique, ao longo da
África. O Papa Nicolau V outorga então a Portugal a bula de
1454, que lhg assegura direitos de navegação e conquista.
Como era natural acontecesse, a Espanha protestou contra
isso. A fim de restabelecer o "modus vivendi" entre as duas coroas,
reuniu-se em Tordesilhas uma convenção na qual Duarte Pache-
co Pereira, representante português, levou a melhor sóbre Ferrer
de Glanes, delegado espanhol. O Papa Alexandre VI, em 3 de
maio de 1493, promulgou a bula "Inter Coetera", tracando a
primeira linha de demarcação entre as partes destinadas no
mundo às duas nações peninsulares. Era um meridiano situado
cem léguas a oeste da ilha mais ocidental do arquipélago de Cabo
Verde. No dia seguinte ao da promulgação da referida bula, isto
é, em 4 de maio, baixa o Papado segunda bula. A primeira dava
a Portugal a África, a Guiné e a Mina. A segunda conferia A
REVISTA DO INSTITUTO HISTURICO E GEOGRLFICO DE S PAULO 187
~~p

Espanha as terras das indias Ocidentais descobertas e por desco-


brir. Havia pouco mais de um ano Cristóvão Colombo fundeara
nas Baamas, quase cinco anos antes de Vasco da Gama dobrar
o Cabo da Boa Esperança. Pode-se ainda acrescentar que, tendo
os espanhóis, com Hernandes Cortês, encontrado o ouro do Méxi-
co em 1519, e com Francisco Pizarro o do Peru em 1524, não
procede o que Winston Churchill escreveu sóbre o litígio de que
se originou a "linha" de Tordesilhas.
Os portuguêses porém não se conformaram com a passagem
dessa "linfia" a "cem léguas a oeste da ilha. mais ocidental do
arquipélago de Cabo Verde" e propuseram a distância de trezen-
tos e setenta, que a Espanha houve por bem aceitar e foi consigna-
da no "Tratado de Tordesilhas" de 7 de junho de 1494. Tal é,
segundo o ponto de vista dos abalizados historiadores já referidos,
o processo histórico da inclusão do Brasil, "suspeitado" ou "advi-
nhado" naqueles dias, antes de oficialmente "descoberto", na me-
tade do mundo atribuída a Portugal.
Vejamos agora porque as terras descobertas pelos lusos passa-
ram a fazer parte integrante da coroa de Portugal. O Direito
Internacional é claro e incisivo nesse ponto. Eis porque:
Como sabem os estudiosos, para "aquisição" do território há
quatro meios hábeis diferentes: a) por ocupação; b) por acessáo;
c) por convenção (convênio) e, finalmente; d) por prescricão.
A "ocupação" é direito a aquisiçáo da propriedade de coisa
move1 "ainda não apropriada, ou abandonada, pela efetivação de
sua posse. com a intenção de dono". Há ainda a chamada ocupa-
cão violenta, por forças militares, quando "um dos beligerantes
se apodera de parte considerável de território inimigo. submeten-
do-a ao seu domínio e autoridade". Essa modalidade de ocupação
é entre nós expressamente vedada pela Constituição Federal de
1946; art. 4.", "in fine".
A "acessáo" é o "modo especial de adquirir pela incorporação
da coisa acessória a coisa principal". Exemplo disso é o aluvião,
o aparecimento de ilhas ou ilhotas ao longo das costas, nas mar-
gens de rios e lagos, através do "acrescentamento natural e lento
de terrenos, por depósitos, aterros ou adjunções de terras". Outro
modo por que se pode processar a acessáo é a chamada avulsão,
que significa "a deslocação, por força natural violenta, de massa
de terra de um prédio, que se junta a de outro".
A "convenção" é o tratado que cria normas gerais. Exemplos:
a) convenção sobre o alcance da área marítima do País; b) con-
venção entre duas nações sobre o alcance da área de um canal
fluvial; c) aquisição de território ou em virtude de "tratado de
paz" ou de simples "convênio" assinado graças as relações amisto-
sas entre Estados.
188 REVISTA DO INSTITUTO HISTóRICO E GEOGRAFICO DE S. PAULO

A "prescrição" é a extinção de direitos. A aquisição de terras,


por prescrição, obedece às normas estabelecidas no Código Civil,
observando-se as condições da posse e o lapso de tempo decorrido.
Voltando a tratar da "ocupação", devemos assinalar que há
vários exemplos históricos de aquisição de áreas de terras por
ésse meio.
Na "ocupação", há sempre a idéia de coisa sem dono de que
alguém se apropria. As coisas sem dono são as que nunca foram
apropriadas (res nullius) e as que o proprietário abandona ou
renuncia (res derelictae). As coisas comuns (res comunes omnium)
são também suscetiveis de apropriação.
A "ocupação" tem sido considerada, pelos Estados, um meio
legítimo de apropriação de território, tendo sido aceito, assim,
notadamente nos tempos primitivos. De modo geral, tem-se con-
fundido a "ocupação" com a "descoberta".
Na região em que se encontra Brasília e seus arredores, há
pouco ainda sertão bruto, circundado de matas inexploradas, t0r-
nava-se indispensável a "ocupação" real e efetiva da área necessá-
ria, para que a soberania da nação se exercesse em toda a plenitude
sobre o território ocupado. E, de acordo com o Direito, cabe ao
pais estabelecer e organizar a autoridade, com encargos adminis-
trativos de caráter permanente.

Emblema criado pelo poeta paulista Guilherme de Almeida, para


assinalar e perpetnar o surgimento de Brasiiia, com a legenda
«Venturis Ventisn, ou seja: d o s Ventos Vindourosr.
REVISTA DO IKSTITUTO HIST6RICO E GEOGRAFICO DE S. PAULO 189

Foi pois dentro dêsse pressuposto que o presidente Juscelino


Kubitschek, no ano da graça de 1955, pós em prática o velho
princípio romano do "uti possi'detis", como era mister se fizesse.
Embora a terra onde se encontra a Novacap já fosse "nossa", de
forma indiscutível, em virtude do "Tratado de Madrid" de 1750
(em cuja celebração não podemos olvidar, nem deixar de enaltecer
o nome do grande santista Alexandre de Gusmáo) , nunca se havia
verificado a "posse" real e efetiva da terra, isto é, a "ocupação"
do planalto goiano.
O que até há pouco lá havia era apenas o "domínio", uma vez
que o território brasileiro fora delimitado com a construção dos
fortes "Coimbra" e "Príncipe da Beira". Como se vê, era muito,
mas ainda não tudo. Tornava-se indispensável a aplicação do "uti
possidetis de facto", a fim de evitar a hipótese de prescrição aqui-
sitiva, tal como se preconiza na lição do internacionalista Very-
kios. Demoramos para tomar efetiva uma medida que poderia
ter sido tomada há mais de dois séculos. Só lançamos mãos dela
em 1955, data do início da demarcaçzo da área do novo Distrito
Federal. entre os rios Prêto e Descoberto e entre os paralelos 15.",
30' e 16.", 3', após o transcurso de duzentos e dez anos da assinatura
do "Tratado de Madrid"!
Todavia, essa tiesmarcada delonga não pode atribuir-se a des-
conhecimento do ingente problema nacional por parte dos gover-
nantes. Sabe-se que o Barão de Lucena, estudando a magna
questão que lhe foi confiada para resolver, mostrou-se favorável
à mudança da Capital do país do litoral para o interior. O cientista
Luís Cruls, em carta de próprio punho, assim se manifestou:
" ( . . . ) Não tenho por objeto desenvolver aqui todas as vanta-
gens que indubitàvelmente hão de resultar da mudança da Capi-
tal. e os benefícios sem número para o futuro e ráoido desenvol-
vimento do oaís". Por outro lado. o mande Euclides da Cunha,
na coluna "Dia a Dia" do matutino "O Estado de S. Paulo", de
7 de maio de 1892, igualmente oonderava: "Também eu sou de
opinião que deve ser mudada do Rio de Janeiro % Capital da
República".
A Constituíção de 1891, no art. 3.". i á estabelecia a mudança.
Anos depois, ou seja, em janeiro de 1922, o governo fêz baixar
decreto determinando que no dia 7 de setembro dêsse ano, data
em quc se comemoraria centenário da nossa Independência. entre
as outras s~ilenidadesoroeramadas. fósse lancada a pedra funda-
mental da futura cidade,?embrando a velha propostâ de que "no
centro do Brasil, entre as nascentes dos rios confluentes dos rios
Paraguai e Amazonas se fundasse a Capital dêste Reino, com a
denominação de Brasília, ou qualquer outra".
Doze anos depois, na Constituição de 1934, se incluiu um
dispositivo determinando expressamente aos poderes da Repúbli-
190 REVISTA DO INSTITUTO HISTdRICO E GEOGRLPICO DE S. PAULO
-

ca medidas no sentido de que se transferisse a Capital para o


interior. E essa mesma prescrição também consta da Carta
Magna de 1946.
A propósito, o Deputado Neiva Moreira, presidente da Comis-
são de Mudança, criada na Câmara Federal, fêz judiciosas decla-
rações transcritas na imprensa diária. Para S. exa., Brasília, diante
da vastidão do nosso território, será "etapa de um processo revo-
lucionário que estamos vivendo, mas com uma característica bem
brasileira: o sacrifício é bem menor do que em outros países que
também se transferiram. ( . . . ) Ressalvado o tremendo esforço
dos primeiros anos - conclui - já hoje poderemos fazer pionei-
rismo com televisão, escolas, asfalto, colchão de molas, refrigera-
ção, hospitais, enfim, uma situação bem mais cômoda e atraente
do que a vida de muitos milhões de patrícios nossos".
A verdade é que a edificação de Brasília e a conseqüente
mudança para lá, da Capital e dos seus órgãos administrativos,
judiciários, legislativos e executivos, não representa um capricho,
uma veleidade do govêrno jusceliniano, no sentido lato da palavra,
mas o cumprimento estrito da imposição constitucional. Trata-se
paralelamente de "posse" real e efetiva da terra, em virtude do
"Tratado de Madrid" de 1750. De resto, êsse anseio remonta a
1789, quando os inconfidentes mineiros, já conspirando para liber-
tar a nossa Pátria da coroa portuguêsa, "incluiram entre suas
reivindicações o estabelecimento da sede governamental em sítio
distante do litoral, justificando-se na necessidade de afastar a
Capital do burburinho de um pórto marítimo e das populações
ambulantes das minerações do ouro, onde a terra parece que eva-
pora tumultos".
Assim, dúvida não subsiste de que, implantando Brasília,
fomos tomar posse real e efetiva de nosso território que até h á
pouco parecia - felizmente parecia - relegado ao abandono!
Certa ou errada, oportuna ou inoportuna, a construção de
Brasília é uma virtude que se lhe há de reconhecer: graças a ela
o Brasil se tgrnou o posseiro incontestável do que já era seu, de
fato e de direito, e silenciou uma vez por tódas a boca dos alieni-
genas imperialistas ou colonialistas que queriam fazer da região
depósito demográfico das sobras humanas da velha e sábia, mas
exaurida Europa!
Com a aplicação da Lei n." 3.754, expedida em 14 de abril de
1960, os brasileiros esperam fique o assunto consolidado "per
secula seculorum".

A fim de ilustrar o nosso estudo sobre a Capital do ~ Ó V O


Distrito Federal, transcrevemos a seguir "data maxima venia" a
ORAÇAO de autoria do Prof. Fernandes Soares:
REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRhFICO DE S. PAULO 191

BRASfLIA

Brasília, brasa de tenacidade,


baluarte, barreira basilar,
bandeira de bravura e de beleza!
Barra de pedra, barca de esperança,
brasão, baliza branca do Brasil!

Nave interplanetária,
pousada no oceano verde, imenso.
Transfigurada caravela lusa,
novo Pôrto Seguro de concreto,
no Oceano Pacífico da terra,
marcando novos rumos de conquista,
apontando o roteiro-integracio.

Cruz da primeira Missa,


que brota quatro séculos depois,
para o redescobrimento da Pátria

Ancora de esmeralda no Planalto,


reverberando ao Sol de Tordesilhas!

Estrêla arremessada do Cruzeiro,


flecha cadente do arco de Bartira!

Sonho de Tiradentes,
visão profética de São João Bosco,
templo de turmalinas!

Epopéia empolgante do "candango",


sertanejo gigante,
bravo, valente, valoroso, intrépido,
que jamais esmorece no combate,
na batalha titânica da terra!
.
Brasília, meu Brasil de gibão novo,
coracão no lugar, cabeca erguida,
marchando com as botas das bandeiras,
que vêm agora dos Estados todos,
de costas para o mar,
com os olhos voltados para os Andes,
condores colossais transfigurados!
Cruz de flechas na rosa das bandeiras,
rosas-dos-ventos da libertacão!
A FAMOSA MINA DO MORRO VELHO
Jacob Penteado

A poucos menos de 30 quilômetros de Belo Horizonte, situada


na encosta Leste da Serra do Curral, na cidade de Nova Lima,
antigo Arraial de Congonhas de Sabará, encontra-se a famosa
Mina de Morro Velho. Pode-se atingir o local por estrada de ferro
ou rodovia, devendo-se preferir esta, pelos deslumbrantes panora-
mas que se descortinam da serra. Nova Lima nada tem de singu-
lar, parecendo, até, uma das inúmeras cidades velhas, tão comuns
no grande estado montanhês. Não se notam grandes lavouras,
nem majestosos edifícios, que possam atestar progresso ou abun-
dáncia. Talvez devido aos seus habitantes serem todos absorvidos
pelo dragão que é a Mina, a lavoura está abandonada e os homens
válidos são atraídos pelo salário sempre mais compensador que
Ihes oferecem os inglêses da "St. John de1 Rey Mining Ltd.", pois
êsse é o nome britânico da grande mina brasileira, fundada em
Londres, em abril de 1830, tendo por mim a exploração do ouro
e outros metais, iniciando suas atividades em São João De1 Rei.
Os primeiros anos náo foram compensadores, mas, em 1834, adqui-
riram, do Capitão Lyon, ex-diretor da Cia. do Congo Sêco, a mina
do Morro Velho. As primeiras notícias a respeito desta remontam
a 1725 e sabe-se que foi explorada até 1867, quando os trabalhos
foram interrompidos em virtude de um incêndio, que lhe destruiu
o rudimentar aparelhamento, quase todo de madeira. Em 1886,
houve um desmoronamento, atribuído àç deficientes instalações,
reabrindo-se em 1892, a partir da superfície, com doihpoços verti-
cais de 690 metros cada um.
Dai para cá, tem sido feita intensiva exploracáo, com muito
mais pessoal e material adequado. A sua profundidade atual é
de 9.000 pés, a 900 metros acima do nível do mar. A sua exten-
são atinge quatro qiiilômetros. Ali, trabalham mais de 7.000
homens, que se revezam em turnos de seis horas cada um. São
extraídas 1.000 toneladas de minério bruto, por dia. Do seu inte-
rior, sai quase toda a produção de ouro do Brasil. Segundo
"Brasil-1943", editado pelo Itamarati, naquele ano, a minha con-
tribuiu com 87,3% da produção total do ouro no país, ou seja,
a bagatela de 4.986.506 quilos do precioso metal para uma produ-
ção nacional de 6.500 quilos, aproximadamente. As minas de
194 REX'ISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRAFICO DE S. PAULO

S. Bento, Caeté e Passagem, do Estado do Paraná, Minas Leão


Júnior, esta do mesmo Estado, com 80 quilos, e as de Lavras, do
Rio Grande do Sul, com 20 quilos mensais.
Com êsses dados oficiais, nada mais é preciso acrescentar
quanto a importância da mina no setor nacional.
Para quem chega a Nova Lima, a impressão é agradável.
Construída sobre colinas que rodeiam a ampla concha onde estão
situadas as grandes instalaçóes industriais, divisam-se em suas
encostas alguns elegantes e modernos bangaiôs de estilo inglês.
onde residem o's dirigentes da emprêsa. Num dos pontos mais
altos, dominando o vale, ergue-se a linda vivenda do Diretor-Geral
da Companhia, ao centro de verdejante arvoredo. Em contraste
com as demais cidades mineiras, não vimos muitas igrejas.
Na Mina, fomos recebidos gentilmente pelos catapazes inglê-
ses, que nos encaminharam aos encarregados do serviço. Além
dos capatazes, os técnicos e engenheiros são quase todos britânicos.
Enormes instala~õescobrem uma vasta área, cortada por um
córrego canalizado, cujo volume de água é controlado, para a
lavagem dos minérios.
Espêssas rêdes de linhas ferroviárias, com carrêtas para o
transporte do material e carros para o pessoal, cruzam a super-
fície em todos o sentidos.
Uma ferrovia, em plano inclinado, desce às galerias. A desci-
da ê feita em mais de uma hora, atravessando nove galerias
superpostas até atingir a espantosa profundidade de mais de dois
quilómetros e meio. É a mais profunda do mundo em atividade,
sendo apenas sobrepujada, nesse particular, por outra da Africa
do Sul, que se encontra paralisada, entretanto.
De suas entranhas são extraídas, como dissemos, cêrca de
mil toneladas de minério em bruto, o qual, depois de trabalhado,
produz, em média, de dez a quinze gramas de ouro por tonelada,
três de prata, arsênico em grande quantidade, vários minérios
sulferatados, como o mispíquel e pirrotrita, além de carbonatos
e silicatos. p ouro é obtido após um processo ainda primitivo
de trituração, e o que não foi conseguido por êsse meio o é, poste-
riormente, por outros tratamentos químicos.
O minério é conduzido diretamente da mina nos próprios
vagonetes em que foi carregado lá embaixo, para as instalaçóes,
situadas num plano inclinado, por meio de um cabo rotativo.
A descida as galerias é feita numa "gaiola", espécie de ascen-
sor de ferro e aço, com dois andares, do qual o primeiro é reser-
vado ao pessoal e o outro para conter duas carrêtas de minério
em bruto.
A nossa descida nunca mais se nos apagará da memória, mas
valeu-a pena a aventura, p ~ i sficamos conhecendo o espírito dí?
sacrificio daqueles pobres sêres'humanos que, num suicidio lento;
REVISTA DO INSTITUTO HISTõRICO E GEOGRhFICO DE S. PAULO 195

e constante, vão deixando, em cada minuto que passam ali, um


pedaço de sua existência, num trabalho dos mais penosos, nem
sempre bem recompensado. A média dos ordenados variava, em
1946, quando lá estivemos, de 18 a 25 cruzeiros, por seis horas
de serviço, visto nenhuma criatura humana poder aguentar-se
por mais tempo, naquele ambiente insalubre e infernal. O adje-
tivo infernal jamais foi tão bem empregado. . .
Os homens têm todos um aspecto desolado: magros, tristes,
cor amarelenta, de um amarelo esverdeado, talvez devido as ema-
nações do arsênico. A temperatura que arrostam é de 42 graus.
São possuídos, lá no fundo, por uma séde atroz, e a Companhia
fornece-lhes água gelada. Nem convém comentar as consequên-
cias dessa água gelada, ingerida por um indivíduo, depois de várias
horas nas entranhas da terra, sob tal temperatura.
A Companhia, repetimos, paga-lhes salários que podem ser
considerados bons, para a paupérrima região, e dá-lhes certas
vantagens, como moradia a preços módicos, assistência médica -
de que necessitam bastante - e outras regalias aos que conse-
guem radicar-se, resistindo a tudo. Entretanto, a remuneração
esvai-se como açúcar na água, dado o alto custo de vida na loca-
lidade, muito mais caro do que na próprio capital mineira. Esses
pobres diabos parecem viver eternamente sedentos e procuram
cerveja e refrigerantes, sem cessar. Considerando-se, ainda, o
preço das bebidas, em poucos dias lá se vai o ordenado.
A medida que se desce, vai aumentando a temperatura. Antes
de chegar a terceira galeria, fomos tirando os agasalhos. Aqui,
as galerias se ramificam e o ar já se vai tornando pesado, varian-
do a temperatura, gradativamente, de uma camada para outra,
ouvindo-se um som que dilacera os ouvidos: é o tubo das insta-
lações de resfriamento, aparelho indispensável para amenizar um
pouco a fornalha. De tanto em tanto, observa-se a indicação da
profundidade e da temperatura, em placas afixadas nas paredes.
Desistimos de olhar, para não supliciar mais os nervos e a imagi-
nação, pois estávamos nos avizinhando do fundo. Depgjs de 1.700
metros, não há mais elevadores, e tivemos que descer as cente-
nas de metros restantes por um plano inclinado. O ruído soturno
do cano de resfriamento continuava sempre mais torturante.
Alguém já disse que aquilo deve ser o lamento dos mortos da
mina. . .
Chegados, finalmente, ao ponto extremo, sentimos não ter
a imaginação de um Dante para descrever o espetáculo realmente
dantesco que presenciamos. Eufera infernal che mai não resta.
Os ventiladores de induçáo, com uma capacidade de mais de
3.200 metros cúbicos de a r por minuto, faziam um barulho dos
diabos. Tudo escuro, sem luz, apenas as lanternas portáteis. O
calor é tamanho que a água, em certos pontos, chega a borbu-
196 REVISTA DO INSTITUTO HIST6RICO E G E O G R i F I C O DE S. PAULO

lhar, e o minério, escaldante, vai desprendendo seus maléficos


gases. 0 s infelizes que trabalham naquela pesada atmosfera,
muitas vêzes, são vítimas de possíveis desmoronamentos. Os
olhares que nos dirigiam nada tinham de humano e arrepiava-
nos aquela estranha impressão que os dominava.
Assim, contentes em sair daquele círculo do inferno do
Alighieri, deixamos os pobres patrícios entre o espocar das minas
e o estrépito dos perfuradores de pedra e, ao chegarmos à super-
fície (que alivio!), sentimos um forte sentimento de amor a vida
e de piedade pelos que lá ficaram nas profundezas das montanhas.
Não podemos também deixar de fazer referência aos desven-
turados muares que puxam as carrêtas no fundo da mina. São
condenados a trabalhar durante três anos consecutivos, voltan-
do a superfície para o merecido descanso de um ano, quando são
recompensados com abundante alimentação, para se refazerem,
a fim de que possam, mais tarde, reiniciar seu calvário. A ascen-
são é sempre feita durante a noite, evitando-se, assim, que sofram
uma transição mais brusca das trevas para a luz, que lhes pode-
ria ser fatal; dizem que ficam como loucos de alegria, ao retorna-
rem à vida, lá fora. Nem é para menos.
A produçáo total do ouro, no Estado de Minas, é estimada,
até ao presente (24 de junho, 1946) em perto de mil toneladas.
Entretanto, Pandiá Calógeras, autoridade indiscutível no assun-
to, contradiz tais estimativas, pois, em 1921, calculou tal produ-
ção em 944 toneladas. Daí, podemos muito bem supor que a
mencionada produção já esteja bem acima das mil toneladas,
levando-se em conta, ainda, o ouro que saiu sem qualquer controle.
Esta relevante riqueza, evadida paulatinamente do Brasil,
visto que a produção e exportacão do precioso metal sòmente
em 1916 é que foi regulamentada e proibida, obrigando as minas
a venderem a produção ao Govêrno Federal, foi quase toda para
Portugal e Inglaterra, para esta, principalmente, que sempre
soube tirar o maior proveito, mercê de sua poderosa organização
e capital financeiro, que lhe permitiu constituir sociedades anô-
nimas par& explorar tais tesouros.
A indústria aurífera, em Minas Gerais, representou, quase
sempre, um monopólio. As duas companhias francesas e algu-
mas nacionais que se organizaram para tal objetivo, tiveram
existência efêmera e acabaram sendo absorvidas pelos capitalis-
tas britânicos.
Até quando continuaremos a ser um povo franciscanamente
pobre, dentro de um país fabulosamente rico?
CONFERÊNCIAS, ORAÇOES
E PALESTRAS
CIDADE LIVRE DO RIO PARDO
Honório de Sylos

O jornal "O Estado de São Paulo" divulgou, a 3-11-1970, um


magnifico ensaio de Aureliano Leite, subordinado ao titulo "O
Manifesto de 1870 e os paulistas". A 9-1-1971, em carta ao refe-
rido matutino, o sr. Fausto Pires de Oliveira bordou interessan-
tes comentários a respeito desse trabalho.
Oportuna a missiva porque pôs em foco episódio histórico
pouco sabido, do qual participaram figuras de destaque de São
Simão. Eu mesmo que não ignorava a ocorrência, fiquei conhe-
cendo dela alguns pormenores de valia: a 31-1-1888, o vereador
Manoel Dias do Prado apresentou a consideração de seus pares
um Manifesto, dirigido a Assembléia e presidente da Provincia,
"pedindo" a convocaçáo de plebiscito, para a escolha da forma de
governo. Os republicanos, em maioria na Camara Municipal,
aprovaram a mensagem inusitada, que teve, como era de prever,
larga repercussão. Presidia a Provincia o conselheiro Francisco
de Paula Rodrigues Alves, que puniu os edís com uma suspensão
de seis meses.
Em face do acontecimento, pretende o Sr. Pires de Oliveira,
para São Simão, o titulo de "Berço da Proclamação da República".
Outras cidades - escreveu - agiram posteriormente e sdmente
a 11-8-1889 é que São José do Rio Pardo se insurgiu e se declarou
"Cidade Livre".
Aqui, salto eu a liça, não só porque se trata de minha terra
natal, mas porque publiquei, em 1946, trabalho a respeito do
fato, que, presumo, conheço bem - ensaio esse Ticolhido, em
boa parte, pela "Enciclopédia dos Municípios Brasileiros", publi-
cada pelo IBGE.
Se foi belo, destemido o gesto da Edilidade da nobre cidade
de São Simão, em janeiro de 88, mais expressiva, mais enérgica,
mais significativa, mais positiva foi, sem duvida, a atitude dos
republicanos rio-pardenses. Não vejo razão, portanto, para o
distinto missivista diminuir o valor, o merecimento do episódio
de que foi protagonista principal Francisco Glicério, que consi-
derava São José sua segunda terra natal. A mensagem de São
Simão foi corajosa, romantica, porém se resumiu no manifesto,
que "pedia" (naturalmente, com o maior respeito) a realização
200 REVISTA D O INSTITUTO HISTORICO E GEOGRdFICO DE S. PAULO

de um plebiscito. Punidos os vereadores, a Câmara, embora com


maioria republicana, não foi além em sua poética rebeldia, ao
passo que, na cidade em que Euclides escreveu "Os Sertões",
houve luta e sangue. Glicério, Ananias Barbosa, proprietário do
Hotel Brasil, e outras pessoas ficaram feridos. Os republicanos
prenderam autoridades, além de praças do destacamento policial
(muitas fugiram); hastearam o pavilhão revolucionário de Julio
Ribeiro. O povo cantou a Marselhesa e proclamou a República.
O govêrno da cidade foi instalado na residência de Honório Luis
Dias, imponente sobradão (infelizmente, demolido) situado na
rua Boa Vista, hoje Marechal Deodoro.
O general Couto de Magalhães, presidente da Provincia, tendo
noticia dos acontecimentos, despachou para Sáo José, em trem
especial, o chefe de Policia, Pedro Leão Veloso, acompanhado de
uma força de 40 praças de cavalaria. Velaso (Gil Vidal, seu
pseudonimo na imprensa carioca, mais tarde) retomou a cidade,
ocupando-a militarmente. De Casa Branca, sede da comarca,
parte para a vila rebelde o juiz de Direito, dr. Alcebiades Mendon-
ca Uchóa (meu tio por afinidade), o juiz municipal dr. Delfino
Carlos Bernardino da Silva, o delegado de polícia, Francisco No-
gueira de Carvalho.
Mereceu o episódio a atenção da imprensa da Capital da
Provincia, principalmente "A Provincia de São Paulo", bem
assim da imprensa da Corte. O assunto valeu um artigo de Rui
Barbosa em "A Imprensa".
Engana-se o Sr. Oliveira ao afirmar que São José do Rio
Pardo "se declarou" cidade livre. Américo Brasiliense, presidente
do Estado, é que, pelo decreto n." 179, de 29-5-1891, a condecorou
com o título de "Cidade Livre do Rio Pardo".
Em que pese a admiração a que fazem jus as tradições repu-
blicanas de São Simão, não me parece possível comparar o episó-
dio de 31-1-88 com o de 10 e 11-8-1889.
--000--

Precedesos acontecimentos 10-11 de agosto o de 24-25 de


junho de 89, até agora esquecido. Recentemente, frequentando
a Hemeroteca "Julio Mesquita", do Instituto Histórico e Geográ-
fico de São Paulo, em boa hora criada por Aureliano Leite e
admiravelmente bem organizada pela culta professora Ana Ma-
ria de Almeida Camargo, minha confrade no Sodalício, pude con-
sultar numerosos jornais do Interior que circularam no século
passado. Nêles colhi novos e valiosos subsidios para a história dos
acontecimentos que celebrizaram a bela cidade que jaz, trãnquila,
as margens do Rio Pardo.
Sob o titulo "Disturbios em São José", noticiou a ocorrência,
a 30-6-1889, o "Oéste de São Paulo", jornal bi-semanário que se
publicava em Casa Branca, editado por M. J. Corrêa.
REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRAFICO DE S. P A U L O 201

A colônia italiana realizava um festival de caridade, sob o


patrocinio da Sociedade Italiana "XX de Setembro". Na noite
de 24 de junho, foi promovida uma passeata, precedida pela bani
da de música "Giuseppe Verdi", de Casa Branca. Os republica-
nos rio-pardenses participaram do desfile, cantando o hino revo-
lucionário de Rouget de Lisle. Ao mesmo tempo, saiam os libe-
rais de uma reunião, dirigindo-se a entidade peninsular, para
saudá-la pelo assentamento da primeira pedra de sua sede, na
rua da Imperatriz (hoje Floriano Peixoto). Uma pena a mudan-
ça de nomes nas vias públicas.. .
A banda local, acompanhando os liberais, executou o Hino
Nacional. Houve (não sei em que local) um encontro dos dois
grupos. Por essa ocasião, tomou a palavra o jornalista Candido
Prado, diretor de "O Tiradentes", jornal da cidade. Saudou os
italianos, concitando-os a trabalhar pelo advento da República.
Nesse momento, um monarquista o aparteou, ameaçando-o e, o
pior, forçando-o (é o que registra o "Oéste de São Paulo") a dar
vivas a Monarquia. A banda de Casa Branca, em resposta, exe-
cutou a Marselheza. Interveio, a essa altura, o delegado de polícia,
Capitão José Vasconcelos Bitencourt, proibindo que se tocasse êsse
hino. Os partidários do novo regime ergueram vivas a Repúbli-
ca, estabelecendo-se enorme confusão, com troca de insultos e
gritos. Só alta noite dispersou-se a multidão. No dia 25, pela
manhã, o grupo republicano, com bandeira a frente (a de Julio
Ribeiro?) acompanhou a banda "Giuseppe Verdi" a estação de
Mogiana. Foram vaiados o delegado e dr. Fortunato Moreira, can-
didato a deputado provincial (pai do meu saudoso amigo Ro-
berto Moreira, jurista, literato e parlamentar, nascido em Casa
Branca). Fortunato participára do entrever0 da vespera.
Essa, em linhas gerais, a versão de "Oéste de São Paulo".
Um pouco diferente a explicação de Candido Prado, em telegra-
ma enviado a "Provincia de São Paulo". O delegado, acompanha-
do do dr. Fortunato e capangas, teria atacado os republicanos no
referido festival. Tentaram obrigá-lo a dar vivas a Monarquia,
mas os republicanos reagiram. Alguns soldados agrediram o
chefe Ananias Barbosa, sendo repelidos pelo povo. Retiraram-se
as autoridades, dr. Fortunato e monarquistas, sendo seguidos pela
multidão ao som da Marselheza. Falaram, então, o dr. Costa Ma-
chado, " ) dr. Cavalcanti, dr. Geraldino Campista e João Gomes.
Tão graves foram os acontecimentos de 24 e 25 de junho de
1889 que o chefe de Policia, Leão Veloso, enviou para São José
("Gazeta de Campinas"), uma força de 20 praças, sob o comando
do Capitão Manoel José Branco.
(1) - José da Costa Machado e Sausa foi presidente de Minas Gerais
e deputado, pelo seu Estado, à Constituinte de 91. Foi grande fazendeiro
em Vila Costina, no município de São Jose.
202 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRAFICO DE S . PAULO

Anunciou "O Tiradentes", de 7-7-89, uma reuniao, nesse dia,


dos republicanos na casa de Honório Luis Dias.
Pelas noticias acima e pela remessa de força, fácil avaliar a
seriedade das ocorrências. Não deve passar despercebida a inter-
venção de Ananias Barbosa no conflito, molestado pelos policiais.
Tais sucessos explicam os de 10 e 11 de agosto, dando uma idéia
do clima reinante em São José no mês de junho, quando os par-
tidários do novo regime eram, parece, donos da situação. 12)
Ananias, visado pela policia em junho, teve, em agosto, seu
hotel atacado, quando ali era homenageado Francisco Glicério.
O delegado já não era o capitão José Vasconcelos Bitencourt.
Era José Honório de Araujo.
Com a agitação de 24 e 25 de junho, estava preparado o
terreno para o episódio que transformou São José em Cidade
Livre, conhecida em toda nação. Maior ainda seu renome quan-
do, no fim do século, hospedando Euclides, se transformou em
Berço de "Os Sertões". E sua fama foi crescendo pelo assíduo
culto a memória do malogrado escritor e pelo seu amor que não
cansa ao grande livro.

(2) - Interessante uma carta de GlicBrio a um seu compadre, por mim


localizada no precioso arquivo de Fkancisco Glicério Neto. que guarda com
desvêlo:

"Campinas, 24, agosto, de 1889


Compadre.
São José do Rio Pardo
Respondo a sua de ontem. Daqui até a eleição é
preciso terem aí a mais completa prudência, pois tudo
servirá de pretexto para pertubarem a eleição de nosso
colégio em que temos grande maioria. Estou convencl-
do, por outro lado, que o Capitão Branco há de garantir
perfeitamente a ordem. Creio que a nossa atitude aí
de* ser esta: a mais completa calma, a mais completa
discrição, ainda que ocultamente preparados para qual-
quer reação, ainda que só em último caso. Ananias que
não diga uma palavra. Todos risonhos, alegres e satis-
feitos afim de que a população volte já aos seus hábitos
ordinários! Mostre esta aos nossos amigos. Adeus e tra-
balhe para que a nossa votação seja a maior possivel.
Seu compadre e amigo,
(a) F. Glicério."
Quem seria esse "compadre"? Provalvelmente, Ho-
nório Luis Dias.
MONTEZUMA, NO FORO E NA VIDA
Raul Floriano

1798 a 1808, em Penedo, hoje Alagoas, então Pernambuco.


Ladeiras ensolaradas fugiam da cidade alta, edificada sôbre pedras
cavaleiras e conduziam a beira do enigmático Rio São Francisco.
Enigmático e imprevisível. Ora debruado de barrancas, solitárias
ou povoadas de belvederes, habitações coloniais construídas nos
seus corcovos; ora espraiando, amplo, vasto, fertilizando o vale
rico em bases calcáreas até sua última dobra. As vêzes, amuado
entre caatingas ressequidas, matando rebanhos a sêde, nas sêcas
periódicas, e esterilizando o solo. Noutras, as cheias, esperadas e
temidas, foram sempre a fonte nutrícia de suas terras ribeiras,
que êle fertilizava para o português, o índio e poucos negros, dan-
do-lhes mais uberdade que o Nilo ao Egito.
O rio contava contos dos espinhaços e serras de Minas Gerais
e dos chapadôes da Bahia e se entretinha, ali, em Penedo, com
linguajar rico em palavras indígenas. Mui de tempos em tempos,
suas águas volviam a disciplina do leito e deixavam, por onde
estiveram alagando, os marimbus, atoleiros de detritos de matéria
orgânica, que fertilizavam os vales ou as bolsas de terra agachada.
Entre o rio e a rocharia, que batizou o local, vivia a cidade
baixa. recebendo a luz tênue nas horas sombreadas pela penedia;
ocupando-se com os brigues e as barcaças que transitavam o rio,
sertão a dentro ou sertão afora, em busca da barra. O vento
ultrajava a cidade alta, ou estreito frio de chuva de lavar curto,
se alojava. vez que outra, na cidade baixa. <.
Penedo, 1798 a 1808. O rio e a cidade foram o pequeno mundo
de um garoto, um mulato escuro, que ali viveu, dos quatro aos
quatorze anos de idade: FRANSCISCO GOMES BRANDA0 MON-
TEZUMA.
Baiano de Salvador, nascido em 23 de março de 1794, acom-
panhou sua mãe, Narciza Tereza de Jesus Barreto, para a cidade
interiorana, enquanto seu pai, Manuel Gomes Brandão, coman-
dava brigues negreiros, que traficavam escravos entre a Bahia
e a África.
Não se sabe porque a família foi ter a antiga Vila do São
Francisco, fundada por Duarte Coelho Pereira. Talvez a viagem
204 REVISTA DO INSTITVTO HISTbRICO E GEOGRAFICO D E S. PAULO
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do brigue do pai Manuel, rio acima, até Penedo, poupasse os negros
escravos de longas caminhadas para catas e as fazendas de cria-
ção, que mmorejvam no vale imenso. E lhe ensejavam ver a
família mais a miude.
Quando meio se refez e ganhou novos modos de vida, o garoto
Montezuma, mais livre que na Capital, viveu com intensidade,
inquietude e trefeguice cada dia de sua infância, desde o ar jovem
da manhã até que os cri-cris dos grilos vinham saudar a luz incerta
do crepúsculo.
Seus domínios já se estendiam então, desde a fortificação de
traz da rocheira até beira-rio. Sua curiosidade ruminava inquieta
ante a Igreja da Corrente e a Catedral de N. S. do Rosário. Inda-
gações o torturavam ao contemplar as inscrições holandesas na
Pedra de São Pedro, a Casa de Caridade e o Oratório dos Conde-
nados. Observava tudo. Saciava a sêde na Bica das Torneiras e
vinha para as barrancas, ansiando banhar-se no Rio São Fran-
cisco, mas arreceando-se das piranhas, que o percorriam em cardu-
mes. Acovardava-se, tal qual o jacaré.
Sua existência vilareja transmudava-se, porém, e o deixava
duro de atenção, quando um vaqueiro entrava no rio e o atraves-
sava com um esqueleto de boi chifroso na cabeça, para guiar e dar
fome de andar ao gado, acovardado por incontido temor do peixe
voraz. E o mêdo transmedava-se nêle e no gado, ao ouvirem o
pio agoureiro de certos pássaros e o coaxar dos batráquios, arautos
das enchentes alagadeiras.
Que bom seria se o rio só tivesse curimatás, xixes e surubins?
Se não existissem as piranhas, que cerceavam sua disposição incon-
tida para as traquinadas? Mas, Francisco se desforrava por oca-
sião dos reisados, guerreiros, cheganças, pastoris, maracatus e
quilombos. Também as festas religiosas do Bom Jesus dos Nave-
gantes, com sua prociss80 fluvial, e de Santo Antonio, aos 13 de
junho de cada ano, enchiam as ruas de sua infância.
Penedo, sumindo na dobra do vale, até Traipu, era a janela
ufana para p)iem vinha da barra penetrar o Interior distante,
e a porta de saída dos interioranos, cansados da paz remensada
das terras rio-acima. Funcionários do Govêrno, ousados sertanis-
tas e os foragidos da lei se reuniam ali, de passagem para ou do
interior da Colónia. Cidade ativa, com toques de lendas em seu
cotidiano. Agitavam-se, ali, a confraria do crime, o companhei-
rismo dos audaciosos e o respeito mútuo dos valentões, e até os
missionários.
Não podia Francisco inadvertir a tão variada sociedade.
Jamais tirou carta de valentão. Observava, porém, a rudeza da-
queles homens e de suas vidas e fixava fatos humanos de que
jamais descuidaria até a morte. Pensava em sussurros e sua
sensibilidade deve ter-se apoderado, então, do problema da escra-
REVISTA DO INSTITUTO HISTORICO E GEOGRAFICO D E S. P A U L O 205
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Franoiseo Gê Acayaba de Montezuma

1794 - 1870
206 REVISTA DO IKSTITUTO HISTORICO E GEOGRhFICO DE S. PAULO
--
vidáo do negro e do índio e dos sofrimentos do povo colono. E
possível que o convívio com essas vidas vividas com façanha e
coragem, com sofrimento e revolta, o haja estimulado a realizar
algo, a ser um homem de arremetimentos morais, de bravura de
opinião e de coragem, em benefício do povo. Um de seus biógra-
fos escreveu, com bom senso e certinho: "Tinha impetuosidade
.
e manifestava a afetividade do homem do povo". . "Uma natu-
reza que deixava dominar em si a paixão impetuosa que se gera
no seio da multidão". Descrevia-o, assim, após haver esgaravata-
do sua vida. asse foi o homem! Sem respeito as praxes; repu-
diando o preestabelecido, se violava os direitos e dignidade hu-
mana.

EM SALVADOR
O rapazinho deixou Penedo, em 1808, e voltou a residir em
Salvador. Trazia a alma adiante e o ideal concentrado nos estu-
dos. Tinha que manter a vontade junto do corpo em cada
momento.
Sem excogitar os socavões da alma do rapaz, a injunçáo
paterna encaminhou-o, em outubro de 1808, para o Convento de
São Francisco, tentando transfugá-10 das misérias e das inquie-
tações do mundo. Ademais era loquaz, herança materna, e pode-
ria ser um grande pregador.
Não se passaram mais de seis meses e ambos, pai e filho, se
convenceram não estar êsse no rumo certo de sua vocação. Aban-
donou Francisco o Convento para dar expansão a riqueza vital da
juventude. Quis assentar praça no regimento de artilharia de
Manuel Pedro, "brasileiro que seguia a carreira das armas".
(1) FEIJ6 - Bidem, pág. 316). Opôs-se-lhe o pai com provada
energia. No fim de seu tempo, um batalhão de artilharia lhe
daria as salvas fúnebres, no cemitério do Catumbi!
Acutilado pelo relâmpago da pressa, matriculou-se n a Escola
Médico-Cirúrgica da Bahia, onde fêz os exames, três anos depois.
Estava satisfeito o pai Manuel.
EM COIMBRA

A calma iluminada do raciocínio se associara a corrente de


sua imaginacão e lhe indicava ser o direito a carreira de sua incli-
nação. Pirilampeou o bom senso familiar e ei-10 a caminho da
famosa Coimbra, onde permaneceria de 1816 a 1821.
Ia tornar-se um advogado.
Sem linhagem a atravancar-lhe a atividade e para bem apro-
veitar o tempo forasteiro, exercitou a cirurgia nos hospitais portu-
guêses e a medicina em navios que ligavam a Metrópole a Africa.
REVISTA D O INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRAFICO DE S. PAULO 207
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- Seriam navios negreiros?
- Sim, afirmou Francisco José Pinheiro Guimarães, no poema
heróico-cômico O PESADRLO, cheio de veneno. Não tão venenoso
que não o mencionasse como tendo sido o advogado da abolição
da escravatura. E foi o primeiro. ale não o disse.

NA VELHA UNIVERSIDADE

O velho casarão, povoado de móveis sérios e de tradições nem


sempre respeitadas, daria a Francisco, em 1821, o diploma de
bacharel em direito. Deu-lhe, desde logo, outras diretivas para
a vida. Estudioso e brilhante, aprendia muito com pouco esforço.
Espírito folgazão, temperamental, ia-se impetuoso para as
terras da eterna novidade, com a ironia e a mordacidade de per-
meio. Seus ímpetos provocavam-lhe tempestades n'alma e o distin-
guiam pelo mau comportamento.
Na vetusta Coimbra, descia do Alto, o paradeiro das repúbli-
cas estudantis, passava pelo Arco da Almeidina, à Rua da Calçada,
detendo-se com os colegas que liderava, no arco da Babacã, até o
largo de Sansáo. E explodiam todos na alegria esfusiante ainda
quando, além do Arco da Sé Velha, e mais adiante da Imprensa
da Universidade, entravam nas aulas e se defrontavam com detes-
tadas bulas e sebentas.
A vida ali era, aparentemente, remansosa e despreocupada.
Aparentemente, apenas. Essa tranqüilidade era assim pausa e
calma agitadas pelo pensamento e iluminadas pelo raciocinio.
Matriculado nos cursos de Direito e Filosofia, ocultava sob aquéle
ar amável de sonho, naquela figura esguia, de ar intelectual, e
olhos vivos e inquietos, um ideal inarredável: o da independência
do Brasil. ele e vários outros jovens brasileiros, inteligentes e
cultos, poliglotas e poetas "entusiasmados com a independência
da América do Norte, influenciados pela leitura dos enciclopedis-
tas", aninhavam idéias avançadas, que o Santo Ofício malvia. algu-
mas vêzes, sonhavam, todos, com a libertação de suapátria. Ex-
plicou-os, mais tarde, o grande Teófilo Braga, na História da Lite-
ratura Portuguêsa: Quando o século se apresenta exausto de
vigor moral e de talento, é da colônia que se agita na aspiração
de sua independência, que lhe vêm as seivas das naturezas
criadoras".
Era o espaço intelectual brasileiro a colaborar beneficamente
no meio cultural de Portugal.
Como a de Santo Domingo, de São Marcos, de Trujillo, e a de
Recife, a Universidade de Coimbra não escapou a critica acerba
dos estudantes Ao Manuel das Barbas, que litografava as prele-
ções dos mestres, para vendê-las, dedicaram éste epitáfio ainda em
vida:
208 REVISTA DO INSTITUTO HISTORICO E GEOGRAFICO DE S PAULO

"Litograva sebentas,
.
Mas foi feliz: nunca as leu". .
Aos professôres davam alcunhas atrozes: "Pedro Penedo da
Rocha Calhau, "Câozinho do Regaço", "Môcho", referidas em época
posterior por Alcântara Machado e outros com êste comentário:
"Ao conhecê-lo fica a gente a pensar porque a deusa tutelar de
Atenas, que, com uma esfera de granito na mão, se anichava acima
da cadeira professoral, se obst.inou, sempre, em desatender à exor-
tação famosa":
"Minerva, faz-nos a esmola,
Se o pai dos Deuses consente:
Deixa cair essa bola
Sobre a cabeça do lente".
Assim tratavam os estudantes coimbrenses aos professôres de
todos os tempos.
Muitos anos mais tarde, Montezuma relatava gostoso inciden-
t e com êle ocorrido, a Antônio Ferreira Viana Júnior (Suetônio),
que o fixou assim em seu livro "O ANTIGO REGIME (HOMENS
E COUSAS)", hoje raríssimo:
"Um dos lentes da Universidade caiu no desagrado dos
rapazes, que aproveitaram uma noite em que êle se achava
na janela de sua casa para o apedrejarem. De tal modo
o fizeram que ficou ferido com gravidade. O reitor da
Universidade, em vista de tão tremendo caso, abriu devas-
sa. Foi chamado a depor grande número de estudantes
e, apesar disso, a luz não se fazia. Brandão dizia a todos,
e, especialmente, àqueles que supunha espiões, que havia
presenciado o fato e sabia de todas as ocorrências.
Chegada aos ouvidos do Reitor esta nota, êle se alvoro-
çou e mandou chamar à presença da Congregação, cons-
tituída em Tribunal, o estudante Francisco Gomes Bran-
dão. No dia e hora marcada, Montezuma compareceu
perante tão respeitável tribunal. Tinha o aspecto de
que% ia fazer graves revelações. Depois de qualificado
e ter prestado solene juramento, o Reitor perguntou-lhe:
Que sabe relativamente ao fato criminoso praticado con-
tra o lente desta Universidade, professor F.?
Montezuma responde: - O que tenho a dizer é tão grave
e de tamanha responsabilidade que, estou certo, não serei
acreditado, e como minha resposta poderá ser tomada
como zombaria contra tão veneranda corporação, nada
direi sem que o Sr. Reitor e toda a Congregação garan-
tam que nada sofrerei pelo que tiver de dizer.
Depois de solenemente outorgada essa garantia, Monte-
zuma continuou: - Na noite e no lugar em que se deu
REVISTA DO INSTITCTO HIST6itICO E G E O G R i F I C O DE S. P A C L O 209

o crime, eu me achava de modo a poder ver o Dr. F. n a


janela gritando muito e com as duas mãos em que tinha
duas pedras, bater contra sua própria cabeça até fazer
sangue.. .
Montemma não pôde continuar, pois, apesar da garantia
dada, o Reitor e a Congregação se puseram em cólera e o
mandaram sair.
Depois de tão estranho depoimento a devassa foi encer-
rada e nunca mais se falou no caso, mesmo porque,
comentava o Visconde (de Jequitinhonha) quando recor-
dava o fato, mesmo porque "alguns lentes, inimigos do
colega, que poucos amigos contava na Congregação, aeei.
taram seu depoimento para deixar impune o crime com
o que muito magoado ficou o ofendido, a ponto de pedir
jubilação (158) ".
Está, assim, explicado porque se diplomou com excelente clas-
sificação em Merecimento Literário e obteve na Congregação, dois
votos contra seis negativos, em Procedimento e Costumes.
Em 1868, defendia no Senado o primado do direito, contra-
riando com elan um discurso de Teófilo Otoni, e recordava a velha
Universidade:
"Nós também nascemos e vivemos, Senhor Presidente,
debaixo da sirga férrea do govêrno absoluto, a vontade
do monarca era a lei, e eu ainda recebi éste princípio
quando estudei direito público na Universidade de Coim-
bra: diziam-me que o poder vinha de Deus, e o ilustrado
Dr. Fortuna, meu mestre, acrescentava:
- "Assim mandam acreditar os estatutos da Universi-
dade". (Anais do Senado, Sessão de 5-6-1868, pág. 24).
Beirava, então, os setenta e cinco anos e morreria daí a
menos de dois anos.
Contemporâneo, em Coimbra, de mocidade ilustre e futurosa
- Miguel Calmon Du Pin e Almeida, Cândido José de Araújo
Viana, Honório Hermeto Carneiro Leão, José C e s á r i ~ d eMiranda
Ribeiro, José Maria Monteiro de Barros, e tantos outros que adqui-
riram nomeada mais tarde, Montezuma foi o líder inconteste de
todos êles, o chefe da colônia brasileira, o "pontífice da troça da
cidade universitária". Temiam os calouros e os veteranos respei-
tavam o mais popular estudante de seu tempo. Sabia ser amigo,
mas também combativo, maquiavélico, zombeteiro e cáustico.
O CONSPIRADOR DA INDEPENDeNCIA
A revolução do Pôrto, de 20 de agosto de 1820, contra a corôa
portuguêsa, recebe a adesão institiva de Montezuma, que via nela
o caminho para desligar o norte do Brasil de Portugal. Passou,
210 REVISTA DO INSTITUTO HISTORICO E GEOGRAFICO DE S. PAULO

de logo, a ação: fundou em Coimbra a Keporática ou a Sociedade


dos Jardineiros, que propugnaria pela liberdade do povo, dando-lhe
ao emblema as córes verde e amarela. Levantava ardilosamente,
o povo português, para atingir, com sua ajuda, a independência da
Colônia.
Com o diploma de Bacharel em Leis, parte para a Bahia, onde
chega em setembro de 1821. Rebela-se aí contra a Junta Provi-
sória que subordinara a Bahia às Côrtes de Lisboa. Procura seu
Vice-Governador Manuel Pedro, seu mestre e conselheiro de juven-
tude, e o concita a aceitar a causa revolucionária, para tornar a
Província independente. Insiste. Argumenta num diálogo cor-
dial. Nada consegue e os dois se afastam ternamente, pedindo-lhe
Montezuma licença ''para daquele dia em diante nunca mais o
visitar e fazer ao seu govêrno a aposição que pudesse". E se abra-
çaram e "despediram-se com sensíveis demonstrações de amizade".
Estava moralmente livre para agir. Instala na Bahia a Socie-
dade dos Jardineiros e, a 1." de outubro de 1821, inicia violenta
colaboração no DIARIO CONSTITUCIONAL, da Córte Imperial.
Deu o grito de luta, que repercutiu de coração em coração e
saltou de boca em boca.
Era preciso criar, inovar, mesmo ao sabor dos acontecimentos!
O futuro do Brasil penderia da luta nas oportunidades! Renegou
seu ideal primitivo e propôs a união com Pedro I, que rompera
com as Cortes de Lisboa. Lutou pelo ideal, clara ou clandestina-
mente, presenteando a Bahia com sua grandeza patriótica. Aliciou
oficiais da guarnição, presidiu a conjura e obteve, em 3 de novem-
bro de 1821, sua repulsa aos atos da Junta. Vereador a Câmara
Municipal de Salvador, em 18 de fevereiro de 1822, levou-a a impe-
dir a posse tranqüila do Brigadeiro Inácio Luiz Madeira de Melo,
no cargo de Comandante das Armas da Província, "A carta régia
de nomeação não era título legal", argumentou Montezuma.
Choques entre tropas brasileiras e portuguêsas. Sangue. Mor-
tes Salvador em pé de guerra.
E o jornUlista a incitar os brasileiros com seus artigos panfle-
tários no periódico, que continuou a sair até 3 de abril. Madeira,
arreceando a pena do jornalista, acusou o jornal de anarquista
e incendiário e pediu a Junta processasse os redatores na Justiça.
"Não estando o representante do Ministério Público na cidade, a
Junta declarou que não tinha como o fazer. A lei era omissa no
caso, e a Justiça do Brasil, por sua vez, se declarava com assento
em 18 de julho de 1823, que eram competentes no caso as Cortes
de Lisboa. Só em Portugal estaria a solução". Resolveu Montem-
ma evitar as cóleras fomentadas pela recepção do militar e se
retirou para o Interior, sem interromper a campanha jornalística.
Seu jornal foi substituído, em 10 do mesmo mês, pelo O CONS-
REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO DE S. PAULO 211

TITUCIONAL, que os soldados de Madeira empastelaram em 2 1


de agosto. Era a violência, o argumento da tirania enfraquecida.
Do Interior baiano, Montezuma avisa ao médico Joaquim
Alves do Amara1 que os militares portuguêses queriam antecipar
a adesão ao Govêrno do Príncipe. E o concita à luta. Aquêle e
Bulcáo, rico senhor de engenho, e o Cel. Rodrigo Brandão se levan-
tam, mas fraquejam em Cachoeira de S. Francisco. Cabe a Monte-
zuma reconciliar adversários, incitar os patriotas, levantar outras
cidades do Reconcavo e organizar o govêrno da República de Ca-
choeira, da qual foi deputado eleito, por essa cidade, sendo nomea-
do secretário do Conselho e encarregado dos serviços e negócios
da Guerra em 11 de agosto de 1822.
Alçado em toda rebeldia, demandou o Rio de Janeiro para feli-
citar o Príncipe "e expôr a situação da Província sublevada", como
representante d o Govêrno local. A Guanabara deu-se-lhe as luzes
a P1 de novembro: ressoava sobre todos os lares a alegria da Inde-
pendência proclamada e de ter sido Pedro aclamado Imperador.
Em sua casa da Rua da Ajuda, Montezuma vive momentos
angustiosos com o boato espalhado pelos portuguêses do Rio de
Janeiro, de que estava foragido, por causa da vitória do partido
português da Bahia. Sem noticias dos pagos, parecia-lhe estar a
viver uma encenação, um prestígio ficticio. Por orciem imperial,
lança o MANIFESTO, desmentindo os boatos portuguêses.
E o imperador o prestigia largamente, num gesto de habilida-
de política. Recebido pela Câmara Municipal, aclamado e seguido
pelo povo, que êle representava tão integralmente, daí dirige-se ao
Paço, e é apresentado oficialmente a Sua Majestade Imperial, e a
toda a Côrte, por José Bonifácio, Ministro dos Negócios do Império.
Fala a D. Pedro I e publica seu discurso na GAZETA DO RIO, em
26 de novembro.
São dias de atividade prestigiativa, antecipação de um futuro
movimentado. Montezuma os enfrentou com rosto exímio: janta
na augusta mesa imperial, com Sua Majestade, em São Cristóvão:
do pavilhão nobre assiste a um exercício das forças de t e q a , coman-
dadas pelo Imperador: é convidado as festas da coroação.
Apesar de ter crepitante su'alma jovem, não se ilude com aque-
las manifestações todas. Com tranqüilidade fervente, percebia
não ser êle a figura principal, "mas apenas o espírito ativo que
reatara relacões entre elementos politicos". Por isso, ao receber,
em sua casa, em 1."de dezembro, a visita de Antônio Telles, cama-
reiro do Paço e mais tarde Marquês de Rezende, para felicitá-lo
por parte de S. Majestade o Imperador, por ter sido agraciado com
o título de Barão de Cachoeira, por despacfio que seria publicado
no dia da coroação, procurou, mui logo, o I\iIinistro José Bonifácio
de Andrada e Silva. Pediu-lhe fizesse saber ao Imperador que "um
tal despacho me poria em dificuldades na província da Bahia.
212 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRbFICO DE S. P A U L O

fazendo-me perder as afeições do partido liberal exaltado: ao


mesmo tempo que criaria ciúmes que poderiam entorpecer o entu-
siasmo patriótico, tão necessário na crise em que estávamos".
Não obstante discordar, o ministro transmitiu a Iitontezuma o
louvor imperial ao seu patriótico desinteresse e a sua nomeação
dignitária de oficial da Ordem do Cruzeiro. E mais, que não a
recusasse para não desacreditar-se, suspeito de republicano. Lem-
brou isso Montezuma ao Marquês de Rezende em carta de 3 de
outubro de 1854 (Rev. do Instituto Histórico e Geográfico, vol. 80,
pág. 495).
Aos 7 de dezembro foi nomeado membro da nobre Ordem dos
Cavaleiros de Santa Cruz, sociedade secreta, com o nome de apos-
tolado, criada e chefiada pelo Imperador, que presidiu a sessão
na qual foi recebido e nomeado caudel e encarregado de uma pales-
tra na Bahia.
Montezuma aceitava tudo porque era um homem do povo,
mas desconcertava conservando-se impassível. Não se envaidecia.
Junto às despedidas que levou a D. Pedro I, de volta a Bahia, que-
brou aquêle que parecia um silêncio de assentimento iiicondicional
ao Govêrno Imperial, nestas palavras:
"nem nos perturbará a demagógica ambiçáo, instabilidade
das repúblicas, nem nos definirá a bravura e prepotência
das monarquias absolutas".
E declarou que o movimento baiano objetivava
"uma prudente e bem equilibrada divisão de podêres,
guardados a inviolabilidade e mais direitos prónrios à
Majestade". (Felicitação a D. Pedro I, em nome do C0n-
selho do Govêrno Interino da Provincia da Bahia, in
GAZETA DO RIO, 26-11-1822).
Essa e outras atitudes levaram muitos de seus adversários a
considerar Montezuma um homem contraditório. Era, apenas, a
definição da idéia-força que seu espírito impulsionou até à morte:
era o jurista afirmando os direitos do homem, inalienáveis sob
qualquer rgime. Feijó Bittencourt definiu-a uma "atitude poli-
tica". Era, antes, a mostra do seu feitio humano, que o engran-
deceu em vida e o situa entre os maiores vultos da história bra-
sileira.
REGRESSO A BAHIA
Com sua gráfica plasticidade e o prelo que levou do Rio,
Montezuma regressou a Cachoeira, no início de 1823, e, a 1." de
marco, lançou seu novo jornal político - O INDEPENDENTE
COLONIAL, impresso na Tipografia Nacional.
Nacionalista teimoso, ao ponto de querer dissolver o Reino
Unido de Portugal, Brasil e Algarve, anunciou no primeiro número
de seu jornal que ia substituir seus sobrenomes portugu&ses por
REVISTA DO INSTITUTO HISThRICO E GEOGRLFICO DE S. P A U U ) 213

três outros amerindios: Francisco Brandão Gomes Montezuma


passou a Francisco Gê (povo indígena) Acayaba (bela árvore da
selva brasileira) de Montezuma (nome azteca) . Quimera aquie-
tante que se tornou uma febre da época, a que não escaparam o
Imperador, os irmãos Andradas, para uso secreto no Apostolado.
E perduraram os descendentes, os Baienses, os Oladim, os Baraúna,
os Ibiapina, os Caraí, os Araripe, os Inhambupe, e outros.
Porque invocou o direito de primo capiens e queria se apossar
do tesouro encontrado no engenho dos Teixeira Barbosa, o General
Podro Labatut, comandante dos independentes nomeado por
S.M.I., entrou em conflito com o Govêrno interino da Bahia, cujas
forças foram até a sublevaçáo. Fracassou Labatut na iniciativa
de destituir Montezuma do cargo no Govêrno. A reação popular
levou-o a assinar um pacto de respeito mútuo. Era o povo que
empolgava Montezuma, empolgado com o seu lider. Dêle se despe-
diu no número 7 de seu jornal, em 9 de abril, porque, prosseguindo
animosas as dissidências, foi Montezuma enviado ao Rio de Janei-
ro para buscar o apóio de D. Pedro I.

O CONSTITUINTE DE 1823
Viajou por terra, para fugir à vigilância das naus portuguêsas,
em 74 dias, passando pelo Rio Pardo, Tijuco, Vila do Principe,
Cocais, Sabará, Mariana, Ouro Preto, Queluz e Barbacena, e alcan-
çou o Rio, em junho de 1823. Caminhou a média de 10 léguas
por dia. Ostentava uniforme militar, como miliciano da Cachoei-
ra, ao apresentar-se ao Imperador, que, alegre, lhe concedeu baixa
da carreira das armas, prometendo-lhe pdsto nas milícias.
Eleito, pela Bahia, deputado a Assembléia Constituinte, pres-
tou juramento e tomou posse a 2 1 de julho de 1823, juntamente
com Luiz José de Carvalho e Mello, José da Costa Carvalho e Me10
e Manael Antonio Galvão, todos baianos.
Iniciava-se naqueie momento uma carreira parlamentar que
iria durar quase meio século, com interrupções: vinte e oito anos,
como legislador, em diferentes assembléias. Não er- caminho
mais acomodado para a glória. Mas era o caminho de Montezuma,
pois dava-lhe a tribuna para a manifestação de sua eloquência
esplendorosa: a palavra livre para a aposição consciente e funda-
mentada; o debate de levar longo a ironia, a mordacidade, o sar-
casmo e seus arroubos impetuosos; a cátedra, para prelecionar.
os direitos públicos, civil, criminal, internacional e administrativo;
a platéia nacional para incutir no povo os sentimentos de digni-
dade nacional, de independência e de consciência de seus direitos
e seus deveres.
"Suas grandiosas expressões", sintetizou-o, com felicidade;
Feijó Bittencourt, "foram a eloqüência e a rebelião: os dois gran-
des sopros da paixão humana" (OS FTNDADORES, 1938, pág. 315).
214 REVISTA DO IXSTITUTO HISTORICO E GEOGRAFICO DE S. P A C L O

O deputado deu o primeiro ponto no dia seguinte ao de sua


posse. Na sessão de 22 de julho de 1821, apresentou projeto de
lei regulando o tratamento a se dispensar aos empregados públi-
cos da Bahia, de acordo com suas atitudes na guerra da indepen-
dência: a 26 propõe a suspensão do pagamento das décimas às
casas da cidade da Bahia, cujos proprietários desocuparam a cida-
de para lutar pela independência, e em 29, o não pagamento dos
dízimos dos produtos da Lavoura na Província da Bahia, nos anos
de 1822 e 1823, "em conseqüência da ocupação inimiga feita pelas
pelas tropas lusitanas". E mandou restituir as importâncias já
pagas.
Justificou suas proposicóes com estas palavras: "enfim, é dever
meu advogar a causa da Bahia, como seu deputado, como um dos
representantes da nação, e porque fui testemunha ocular das cala-
midades daquela província; o projeto está submetido a considera-
ção da assembléia, ela decidirá. Entretanto, requeiro a urgência,
mas que não seja como a que teve lugar com outro projeto meu".
(ANAIS, Sessão de 29-7-1823, pág. 135). Não obstante a oposição
de Antônio Carlos, Almeida e Albuquerque e outros, venceu a
urgência. Emendou o projeto em 5-8-1823 (Anais, pág. 28).
Defendeu, sucessivamente, a liberdade de imprensa (sessão
de 2-8-1823, ANAIS, T. 4.", pág. 8 ) : o aumento de uma hora de
trabalho na Assembléia (Ibidem, pág. 21).
Divergências surgiram entre os Constituintes e o Ministério.
Montezuma assumiu atitude firme, nem aquém, nem além.
Enfrentou Pedro José da Costa Barros, na critica ao Ministro da
Guerra e chegou a beira de um duelo, por ter aquele dito que
"era ingrato à minha Pátria e o mais que então lhe veio". E não
demorou o desafio de Montezuma: a 2 de outubro de 1823:
"Declaro a Vossa Senhoria que ou 1iá de dar-me satisfa-
ção pública que conste quais foram as suas intenções, ou
bater-se comigo, para o que deve nomear, quanto antes,
o dia e a hora".
O d u e b desfez-se em desculpas.
Obtendo resposta ao "mal agourado pedido de casamento", a
7 de outubro, na Igreja da Candelária, casou-se com D." Mariana
Angélica de Toledo Marcondes, de quem teve 5 filhos. Desaveio-se,
então, com o bispo diocesano, seu amigo, ao lhe pedir dispensa de
pregões para a celebração do casamento.
De 15 de setembro ao por diante fecundou a elaboracão cons-
titucional, defendendo o federalismo sob o sistema monárquico, e
a liberdade religiosa: a criação de 4 a 6 colégios, ao invés de 2
universidades; a eliminação da Carta dos Limites territoriais do
Brasil, e o que mais.
Muito embora bradasse a todos os ventos o aprêço pelo Impe-
rador, continuou afiançando respeito a lei. Opôs-se, em 18 de
REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRAFICO DE S. P A U L O 215

outubro a concessão do titulo de Marquês do Maranhão a Lorde


Cochrane, por falta de legislação concernente e discutiu pela
imprensa (CORREIO DO RIO DE JANEIRO, de 14 a 18-X-1823)
sua atitude com Francisco Gomes da Silva, o "Chalaça", em têrmos
acres: combateu a nomeação do Marquês de Barbacena para mis-
são diplomática em Londres. Não logrou êxitos.
Talvez para premiá-lo, ou para se livrar de sua incorrigível
independência de caráter na Assembléia, D. Pedro I quis nomeá-lo
corregedor do cível. Recusou Montezuma, declarando "não ter
vocação para o cargo, considerando que a Justiça é imperfeita,
que a lei peia o juiz às vêzes e que não lhe agradava a função".
Compreendeu o Imperador que Montezuma havia de remoinhar
sempre suas diretrizes na vida, obedecendo sentimentalmente a
idéia guieira de seu destino.

A NOITE DA AGONIA

O espancamento de um boticário ilheu, dado como autor de


uma insultuosa carta anônima, por dois oficiais portuguêses,
levantou a Assembléia, em 10 de outubro, liderada pelos irmãos
Andradas e Montezuma. Foi além, instigou a tropa contra os
parlamentares. Na sessão permanente de 11 a 12 de novembro,
cita Machado de Assis aquela sua frase cáustica: "Eu disse que
o Sr. Ministro do Império, por estar ao lado de sua Majestade,
melhor conhecerá o espírito da tropa e dos senhores secretários,
escreveu "o espírito de Sua Majestade, quando não disse tal, porque
dêste não duvido eu".
O EXfLIO

Às 13 horas do dia 12, recebeu a Assembléia o decreto de sua


dissolução. Os deputados abandonaram O edifício pela porta late-
ral do Paço e, dentre êles, foram presos Montezuma, os três irmãos
Andradas, o Padre Belchior Pinheiro de Oliveira, seu parente, e seu
amigo e vizinho, antes de mudar-se para a Rua São k d r o , o advo-
gado José Joaquim Rocha. Após masmorrear na umidade dos
calabouços da Fortaleza da Lage, embarcou Montemma, com D."
Mariana Angélica, e seus companheiros da Assembléia, exilados
para a França, na velha Charrua "LUCONIA".
Comensurou Montemma a gravidade da situação, mas não
esmoreceu. Vencido. não se humilhou. Recusou até a pensão men-
sal de um conto e duzentos cruzeiros, que o govêrno Imperial ia
pagar aos exilados. Com o casamento, deixou de ser o homem
pobre, que anunciara certa vez, na Assembléia.
Desconfiados de uma trama que os deixaria em Lisboa ou nos
Açores, sujeitos a uma pouca promissora acolhida do Govêrno
216 REVISTA DO ISSTITUTO HIST6RICO E GEOGRAFICO DE S. P A U L O

Português, os exilados pressionaram o comandante a não arribada,


mas não conseguiram evitar que o navio aportasse em Vigo, pôsto
espanhol bem junto a Portugal. Sucedem-se motins a bordo;
ocorre a ameaça da corveta LIBERDADE, navio de guerra portu-
guês, ancorado ao lado do LUCONIA: indecisão das autoridades
espanholas.
Montezuma, o ímpeto racionante e o caráter veemente, toma
perigosa decisão: foge por uma janela de popa ,a nado, na profun-
didade da escuridão, deixando a bordo sua jovem esposa, de quinze
anos, grávida do primeiro filho.
Depois de peripécias angustiantes, errando pelos caminhos de
Espanha, de Vigo a La Corunha e com a idéia fixa de buscar sua
"graciosa mulher", reune-se a essa e dirigem-se ambos para San-
tander, a cuja autoridade, na Secretaria de Policia, entregou seu
passaporte. Deixemos que êle nos conte o acontecido, com sua
verve mordaz e inteligente:
- "Perguntou-se-me quando o queria eu, declarei que de
tarde, a fim de poder ir para a França. Fui buscar de tarde o
passaporte e o empregado da polícia disse-me:
"O Sr. Chefe de Polícia quer falar-lhe". Bateu-me o coração:
são pressentimentos que fazem eriçar os cabelos.. . Súbito o
chefe de policia disse-me:
"Você e sua mulher estão presos e vão para Madrid".
- Que crime cometi eu?
- "Aqui está uma ordem que acabo de receber neste instan-
te: "a todo português que ai se apresentar sem passaporte visto
pelo cônsul português, que tenha o nosso exequatur, será prêso e
remetido para Madrid".
Era para prender os portuguêses fugidos das cortes em conse-
qüência da sedição de Vila-França: assolava então Portugal
(creio que posso dizer isto sem ofender a ninguém) o despotismo
do falecido príncipe o Sr. D. Miguel). Exclamei imediatamente:
- "Isso não se entende comigo, eu sou brasileiro".
Riu-se odhefe de polícia e disse:
- "O Sr. pode crer que é brasileiro, mas para nós é portu-
guês, porque essa revolução, essa sedição que houve no Brasil,
ainda não foi reconhecida pelo govêrno espanhol, e por consequên-
cia, o Sr., para nós, é português". "Então!!
- O caso é que salvei-me pela Divina Providência! ! O Senado
não me pergunte como. Em particular poderei dizer como me
safei". (ANAIS, págs. 6213, sessão de 3-6-1968).
Chega a Orleans e recebe a cidade por menage. Tem negado
o passaporte para o Havre, é proibido de residir em departamento
maritimo, no Reno ou onde existisse residência real; foi a ordem
ministerial por influência do encarregado de negócios brasileiros,
Domingos Borges de Barros, depois Barão e Visconde da Pedra
REVISTA DO INSTITUTO HIST6RICO E GEOGRAFICO DE S. PAULO 217

Branca. Era vigiado como perigoso anarquista. Quis internar no


Colégio de Mr. Falberg, na Suissa, seu cunhado recém-chegado
do Brasil: negam-lhe passaporte. Fá-lo em Fontenay-aux-Roses,
no Colégio Morin, no pais. O tempo o levava para a incerteza e o
sofrimento: morre-lhe o cunhado, o reumatismo o entreva e êle
só póde recuperar-se com banhos sulfurosos de Enghien.
Ao discutir, no Senado, em 1868, a territorialidade ou pessoa-
lidade do crime, defendendo aquela, Montezuma relembrou essa
fase de sua vida, com êste relato:
- "O govêrno francês foi carcereiro do govêrno do Brasil a
meu respeito e a respeito de outros que foram deportados em
conseqüência da dissolução da Constituinte, em 1823; foi tão car-
cereiro que( bom é que se saiba), quando cheguei a Bayonne não
pude caminhar para diante. Eu ia para o Havre, meu passaporte
rezava isto: pedi ao prefeito que lhe pusesse visto e êle disse-me:
- "Vou consultar o Ministro do Interior". Consultou o Minis-
tro e dai a alguns dias declarou-me:
- "Que eu, querendo, residir na Franca, não poderia residir,
nem em departamentos fronteiriços de mar ou de terra nem no
Departamento de Rheno, nem em departamento onde existissm
residências reais, como se eu fosse Louve1 ou seu parente. Eu que
nesse tempo não sabia falar a língua francesa. O que aconteceu
dai? Minha mulher estava muito doente pelo desarranjo que
sofreu no mar, eu escolhi Orleans, fui para lá, estive seis meses, e
nunca o Govêrno francês me permitiu ir a Paris, senão depois de
uma luta incrível e vergonhosa com o ministro brasileiro do govêr-
no francês. Era ou não era carcereiro? Consentiu que eu viesse
..
para Paris, vim e o que seguiu-se daí? . "não consentiram, não
me deram passaporte; e sabe o Senado quando se me deu passa-
porte? Quando me resolvi pedir ao General Laffaiete, ao General
Poy e a. Benjamin Constant, com quem fiz conhecimento na casa
do célebre Julien de Paris, redator de Revue Encyclopedique. Fiz
um requerimento, levei-o ao chefe de polícia, receiou a discussão
do objeto nas câmaras e então determinou que eu p u b s e sair com
um passaporte como se dava aos franceses, fazendo primeiro justi-
ficação perante o comissário de quarteirão. Nessa justificação
foram testemunhas pessoas que ainda estão vivas: foi o Conde
Tascher de La Pegerie, tio do atual Imperador dos franceses e
Mr. de Fernssac, redator do célebre Bulletin Universel des Sciences
et de l'industrie" (ANAIS, 1868, sessão 3-6-68, pág. 63/4).
EM LONDRES
O silêncio condizente de sua já famosa oratória foi compen-
sado com estudos sérios que fêz na França. Estudou frenologia
com Gal, no Ateneu; Botânica com Desfontaines, no Jardin des
218 REVISTA DO IPÍSTITUTO HISTÕRICO E GEOGRAFICO DE S. PAULO

Plantes; Física Médica, com Pelletan. Fêz um círculo estreito de


grandes relações, tornou-se membro da Sociedade de Geografia de
Paris, da Sociedade de Ciências Morais e Políticas, da Sociedade
dos Antiquários do Norte (na Suécia) e do Instituto dos Advoga-
dos de Paris. Foi recebido cavaleiro da antiga Sociedade dos
Templários.
Em Londres, Montezuma toma posse de si mesmo. É homem
livre. Visita a Inglaterra industrial, em Birmingham e Liverpool,
percorre minas e fábricas, conhece as principais cidades da Escó-
cia e Irlanda. Frequenta o júri e as audiências.
Nascem aí seus filhos mais velhos: Arthur Leão Marcondes de
Montezuma e Leônidas Marcondes de Montezuma, que se torna-
ram, depois, oficiais da Marinha Britânica. Arthur pereceu em
um naufrágio. Leônidas sobreviveu ao pai e veio a morrer em
1895, em Sydenham, condado de Kent, Inglaterra.
Pôde, então, voltar à França, visitar a Bélgica, a Holanda,
países com intermissão de smsêgo durante o frígido inverno inglês.

O RETBRNO AO BRASIL

Durante todo o exílio silencioso de 8 anos, Montezuma foi um


esquecido de seus pares, nenhum pedido de informações, nenhum
discurso de oposição, protestando contra tão longo degrêdo.
Na sessão de 27-6-1831, Martim Francisco diria que não
houve deportação, que os indivíduos que saíram requereram seus
passaportes, foram para onde lhes conveio e "que haviam feito
isto para salvarem suas vidas, por haver-se levantado contra êles
uma revolução ou desordem". (ANAIS, pág. 193 e 196).
Não guardou rancores, porém. Em discurso proferido na
sessão de 25 de junho de 1933, na Câmara dos Deputados, disse:
- "Bem que respeite o mais que é possível os ilustres mem-
bros da comissão e que desejasse ir com as suas idéias neste
projeto de resolução, todavia, há circunstâncias na vida de um
homem quedecidem inteiramente de suas opiniões políticas para
o resto de sua vida e aquêle que foi uma vez vítima da proscrição,
como eu fui, longe de desejar proscrições, é o seu primeiro inimigo.
Non ignora mali miseris succurrere disco. Oponho-me por
conseqüência ao projeto em discussão".
Mas o povo, o seu eleitorado, o elegeu primeiro suplente para
a segunda legislatura. A 7 de abril de 1831, embarcou para o Rio
de Janeiro, sem passaporte da Legação do Brasil, no mesmo navio
em que, de volta para a Europa e o exílio, viajaria Pedro I. Na
Bahia, recebeu, ao chegar, a visita de Manuel Pedro, o Vice-Pre-
sidente, de quem havia se separado ternamente, ao regressar de
Coimbra. Era a reconciliação sempre desejada!
REVISTA DO INSTITLJTO HISTÓRICO E GEOGRLFICO DE S. PAULO 219

Assume sua cadeira no Parlamento aos 31 de maio de 1831.


E vive fase brilhante de sua longa vida parlamentar. Vigilante,
oportuno, eleva o debate, agita-se com seu espírito lúcido e ágil,
com sua formação jurídica penetrante e simplificadora.
Discutindo o projeto de aposentadoria e reforma dos empre-
gados suspeitos, combateu as heresias constitucionais, de compe-
tência processualística, fugiu ao debate e se expandiu: "Porém
tratemos da matéria, porque seus "apoiados" não me amedron-
tram de maneira nenhuma: eu tenho sangue frio para ouvir
"apoiados", a favor e contra, e continuar o meu discurso: porque
falo com o coração e digo os meus sentimentos com a mesma
liberdade". (ANAIS, 1831, pág. 252, sessão de 19-7-1831).
Talvez que sua liberdade de expressão fosse mais problema
de consciência e formação jurídica que de coração. Certa vez, êle
exclamou da Tribuna do Senado:
- "N5o tenho forças para resistir à minha consciência".
(ANAIS, pág. 38, sessão de 3-7-1868).
Por isso, "opõe-se à suspensão do pagamento da dívida exter-
na, pronunciando-se contra a continuidade do tráfico de negros
africanos, propôe a criação de um Banco Nacional, necessário
depois da absurda liquidação do joanino primeiro Banco do Brasil"
HELIO VIANNA, VULTOS DO IMPÉRIO, São Paulo, 1968, pág.
9 2 ) . Defendeu a mantença dos títulos nobiliárquicos e das ordens
henoríficas e se opôs ao banimento de Pedro I, que o havia
deportado.
Não era o Montezuma singular, crítico, estranho, contraditó-
rio: era apenas Montezuma solitário, fiel consigo mesmo. Era
Montezuma. É possível que o convívio inglês o tenha transforma-
do num anti-federalista, manifestado no planfeto A LIBERDADE
DAS REPÚBLICAS. Condená-lo por mudar de opinião seria que-
rer interromper a continuidade da evolução do bovarismo huma-
no, seria negar-lhe até o poder de evoluir, divergindo.
Em sua casa, na Rua das Violas, hoie Teófilo Otoni, recebeu
a visita do futuro Marquês de Monte Alegre, m-bro escolhido
aara a Rezência Trina, aue o convidou para ocupar a pasta da
Fazenda. Recusou e continuou a fazer oposição a Feijó. Aceitou,
mais tarde, a da Justica e Negócios Interiores.
O MINISTRO DA JUSTIÇA
Frenteia, e resolve nesta pasta, a Revolução Farroupilha, na
Província de São Pedro, no Rio Grande do Sul. Enfrenta, ainda,
eficiente oposição parlamentar dêsses gigantes que foram Bernar-
do Pereira de Vasconcelos, Honório Hermeto Carneiro Leão, Mi-
guel Calmon Du Pin e Almeida Joaquim, José Rodrigues Tórres
e Maciel Monteiro.
220 REVISTA DO INSTITUTO HISTORICO E GEOGRAFICO DE S. PAULO

Policia, porém, dentro da lei, os atos dos foragidos da luta


armada no Rio Grande do Sul. Combate com tenacidade os pira-
tas estrangeiros, MAZZINI, JOÃO GABARRENO e outros, perse-
guindo-os até outros países sul-americanos, mediante demarches
diplomáticas. Estabelece a detenção por três dias das embarca-
ções portuguêsas, para vistoriá-las e as impedir de traficarem
escravos. Trabalha ativamente, dando ordens e ditando normas
ao Juiz Desembargador Chefe de Policia, mandando apurar quei-
xas que lhe chegam, até nos domingos, dias santos e de galas,
quando, conforme o Aviso de 3 de julho de 1837, devem ser entre-
gues "na casa de minha fiesidência na Rua do Rio Comprido, n." 5"
(Avisos do Ministro da Justiça, vol. I-J-196, 1837, no Arquivo Na-
cional).
Mas, o homem e o jurista se revelam, verdadeiramente, quando
manda processar D." Umbelina, moradora ali na rua dos Arcos,
(Aviso de 8-6-837, ao Promotor Público) e todos aquêles que
maltratam escravos; quando proíbe aos Juizes de Paz que açoi-
tem escravos contra os quais não haja sentenças passadas em
julgado, cuja certidão será apresentada ao Administrador do
Calabouço (Av. de 10-6-1837, ao Chefe de Polícia): quando deter-
mina a remessa dos processos findos ao Juiz das Execuções;
quando pede ao Presidente do Supremo Tribunal de Justiça a
relação das causas que foram revistas indicando "os pontos sobre
que a experiência tem mostrado vicio ou insuficiência da legis-
lação, suas lacunas e incoerências, para o Govêrno propor ao
Corpo Legislativo a fim de se tomar a resolução que fôr conve-
niente" (Fls. 84v.). Tudo de acordo com a Lei de 18 de setembro
de 1828.

O MINISTRO DOS NEGÓCIOS ESTRANGEIROS


Acumula a da Justiça com a pasta dos Negócios Estrangeiros.
Sua reconhecida argúcia, seu prestígio pessoal perante a nação
e suas habilidade e inteligência lhe permitem solucionar duas
sérias q u e s t s internacionais que preocupavam já o Gabinete
anterior: a questão religiosa "alavanca de oposição", e as rela-
ções do Brasil com o Uruguai, importantíssimas para o bom êxito
na luta do Govêrno contra os Farrapos.
Na primeira, Montezuma ofereceu ao Núncio Apostólico,
Monsenhor Fabiano, "um projeto de concordata, aventando a
elevação da diocese do Rio de Janeiro a arcebispado, nomeando
arcebispo outro que não seria o nome antes eleito, o qual se con-
firmaria bispo in partibus".
Exultou o Núncio e se abriu:
..
- Assim se encarava a questão. não mesquinhamente
.
como o havia sido.. certo que (a solução) conviria a S.S. porque
REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGR6FICO DE S. PAULO 221

dêste modo, não só ficavam satisfeitos os seus escrúpulos de cons-


ciência, como, também, a dignidade da coroa imperial". (Cfr.
FEIJÓ BITTENCOURT - Os Fundadores, Imp. Nacional, 1838,
pág. 338).
Numa carta pessoal a Oribe, com quem tinha rela~ões,Monte-
zuma logra que êsse envie Villademoros. como encarregado de
negócios do Uruguai, ao Rio de Janeiro. E reatou as relações com
o país vizinho.
Deixou a pasta em 18 de setembro de 1837.

MINISTRO PLENIPOTENCIHRIO NA INGLATERRA

Após luta pertinaz no Parlamento pela Maioridade, em favor


de José Bonifácio, o tutor do príncipe destituído, Francisco Gê
Acavaba de Montezuma aceita a nomeacão em 5 de dezembro
de 1840 e assume, em Londres, o pósto de enviado extraordinário
e ministro plenipotenciário do Brasil na Inglaterra.
O ministro em Londres se fêz prestigiando junto de Lord
Palmerston, Primeiro Ministro e de outras personalidades, inclu-
sive o Príncipe Consorte. e encaminhou com extrema habilidade
as questões do pagamento da divida pública do Brasil, dos novos
tratados comerciais, da questão de fronteiras com a Guiana, da
repressão ao tráfico de africanos para o Brasil, além de outras.
É matéria que exigiria uma conferência ou um estudo delongado.
Desentendeu-se Montezuma com seu ministro. Aureliano de
Sousa e Oliveira Coutinho, depois Visconde de Sepetiba, e em 24
de aposto de 1841 entregava o pósto a José Marques Lisboa, nomea-
do desde 1." de junho.

O PLANFLETÁRIO
Sua combatividade consciente, que perdurou até os setenta
e cinco anos de idade, fêz de Montezuma um planfetário perigoso
Com útil vivéncia européia, p s r g o s anos, e h é p o c a s diver-
sas; tendo convivido e se aproximado de numerosos homens de
repercussão mundial; senhor de imensa cultura jurídica desde o
direito romano até os mais modernos e coetâneos tratadistas de
direito, desde Cujácio até Vatel; advogado, habituado ao cros-exa-
mination, no debate oral ou na sustentagão escrita de teses, Fran-
cisco Gê Acayaba de Montezuma trouxe para os seus folhetos
vigor e profundidade excepcionais. Diluia-os, porém, numa lingua-
gem flexível e cristalina.
Por isso, o jornalista Montezuma se transformaria no perigoso
panfletário, quando escrevia e distribuis seus folhetos, desde 1832.
Publicou-os em 1832, 1833, 1834 e em 1868.
222 REVISTA DO INSTITUTO HIST6RICO E GEOGRAFICO DE S PAULO

Em 1832, publicou a A OPOSIÇÃO de 1831 a 1832, ou OS


CRIMES DA ADMINISTRAÇAO ATUAL, impresso n a Tipografia
do DIARIO e assinado por "Um Brasileiro Amante de Sua Pátria".
Defendeu o respeito da Constituição; ridicularizou o parecer da
Comissão da Câmara que se propôs a dar agradecimentos pela
abertura da Assembléia Geral. Citou Martens - Law of Nations
- e Vatel, Becaria e Talleyrand, além de Machiavel; levantou-se
contra Bernardo Pereira de Vasconcellos e o Visconde de Congo-
nhas. Chamou o Ministro d a Justiça de Macho da Administração;
elogiou o Júri, popular e o de imprensa.
Cresceu e altissoou, porém, quando criticou a facilidade de
requisição de forças e generalizou o debate. Suas diatribes, vêm
até nós do fundo do tempo, com u m frescor de véspera:

"O melhor Cidadão será sempre o soldado o mais bravo,


mas não para atacar a Lei; não para ofender e pisar aos
pés os direitos de seus concidadãos; não para manchar
com o fratricidio o solo ainda virgem, de nossa cara Pátria,
não, finalmente, para forjar os ferros que devem manie-
t a r a liberdade. As armas que a Constituição nos dá são
as armas da Lei; seria o maior dos sacrilégios empregá-
las para apoiar a sua desobediência". (pág. 89)
Também defendeu com veemência os Juizes:
"O Poder Judicial, apesar de ser, como o Executivo, uma
Deleeacão d a N a ~ ã o e, por isso um poder soberano, e inde-
I i r ~ ~ ~ i i . ifoi
i t r .~teiiitrnienteiiiciiosc~l);ido.r iiivndidas siias
:itribi~ici~rs.
~~ ~
J i rei>rerii<lriidoI, 'l'i.il)iciial Sici~reiiio.r iidi-
cularizando mesmi essa independência do poder Judicial
(Artigo constitucional), sem o qual é impossível ser livre
o Cidadão Brasileiro". (Ibidem, págs. 80/81). . . . . . . .

-
Era a campanha sem tréguas que fêz a Feijó, n a Regência.
OS PASQUINS

Um espiri6assim, com essa fibra de lutador, servido por um


talent hors ligiie, n a definicão do biógrafo de Sisson, teria que
angariar adversários aos magotes. Foi a pequena imprensa, atra-
vés da qual se escondiam adversários que não o defrontariam.
quem o invectivou em campo aberto. Surgem, então, n a liça: O
CABRITO, que o alinha entre os restauradores conhecidos; o
BURRO MAGRO insulta-o como o corsário Acayaba; para o INDÍ-
GENA DO BRASIL era o eunuco do serralho da Boavista. Para o
PEDRO I1 êle éra o Montezurra (Hélio Viana - VULTOS DO
IMPÉRIO, pág. 95).
Montezuma se defendia, também em dois pasquins: o IPIRAN-
GA (1831-1832 e o CATÁO (1833-1833).
REVISTA DO IKSTITUTO HrST6XICO E GEOGRLFICO DE S. PAULO 223

Do desembaraço da luta surgiram acusaçóes que alguns


historiadores repetem, mas que a. História permite desmontar.

O INSTITUTO E A ORDEM DOS ADVOGADOS

Regressando da Missão em Londres, já entre os esmaltes


verdes das folhas de sua chácara do Rio Comprido, Montezuma
recusa-se a formar entre os liberais. Éle era um apartidário. Pri-
meiro acabou a briga com Aureliano Coutinho, o Ministro dos
Estrangeiros, pelas colunas do JORNAL DO COMÉRCIO. No arti-
go publicado a 8 de novembro de 1842, criticou-o por ter divulgado
levianamente correspondência oficial secreta e reservada. Estava
satisfeito.
Voltou-se, então, e de corpo inteiro, para a advocacia, de que
jamais se afastou. Voltava para aquêle campo de asilo, de que
falava Dupiu, um lugar de liberdade, onde, no fim das revoluções
vem refugiar-se uma multidão de feridos de todos os partidos"
(in Discurso no Instituto, passando o cargo ao Dr. Francisco Inácio
Carvalho Moreira, em 23-2-1851, pág. 19).
Advogado com elan, no cível e no crime, com a superioridade
que desfrutava, e que levou Carvalho Moreira a classificá-lo "bri-
lhante luzeiro da nossa Tribuna e um dos ilustres decanos de nosso
Fôro" (Ibidem. pág. 16).
Tinha seu escritório na Rua Sete de Setembro (então Rua.
do Cano), n." 177.
Montezuma comungava do entusiasmo do Conselheiro Fran-
cisco Alberto Teixeira Aragáo, ministro do Supremo Tribunal de
J u s t i ~ a ,q u e fizera publicar em seu periódico GAZETA DOS TRI-
BUNAIS, n." 35, de 16-5-1843, os Estatutos da Asociacão dos Advo-
gados de Lisboa, tudo para chegar a criação de uma Ordem dos
Advogados nos moldes da de Parisl "de tão fecundos resultados".
No dia 21 de agósto, na Rua dos Dardonos, 66, residência do
Conselheiro Aragão, reuniram-se vinte e seis advoqados para eleger
a primeira administração p r o v i s ó m a m ele
% Montezuma.
para presidente e o Dr. Josino do Nascimento Silva, ra secretá-
rio. Foram escolhidos os demais membros. Em 7 de setembro, no
salão nobre do Externato do Colégio Pedro 11, por permissão do
Imperador, instalou-se solenemente o Instituto da Ordem dos
Advogados Brasileiros, com a presença dos Ministros de Estado.
Corpo Diplomático, Corpo Legislativo e magistrados. Conferiu-se
ao Conselheiro Aragão o título de Presidente Honorário em home-
nagem aos relevantes servicos prestados (GAZETA DOS TRIBU-
NAIS n" 50, de 22-8-1843).
O grande Sá Vianna fêz êsse comentário da solenidade: "O
discurso inaugural recitado pelo Presidente efetivo Conselheiro
Montezuma é uma das mais belas e completas apologias da nobi-
224 REVISTA DO INSTITUTO HISTORICO E GEOGRAFICO DE S. PAULO

líssima profissão de advogado" (in Cinqüenta Anos de Existência.


Imp. Nacional, 1894, pág. 19).
"Desde então - é ainda a palavra de Sá Vianna - o que
mais notável se oferece à crônica do Instituto é o modo pelo aual
"pari passu" o desenvolvimento da legislação pátria, ora estudan-
do-a, ora indicando as reformas a fazer, e com tamanha profun-
deza de vistas, que, com o correr dos tempos, elas se operavam
nos têrmos exatamente previstos e indicados". (Ibidem, pág. 21).
A idéia fixa de Montezuma, ao dedicar-se, também sem
tréguas, a concretização do Instituto, foi exposta com elegância e
síntese por Carvalho Moreira, ao assumir a sua presidência em
23 de fevereiro de 1851, com o afastamento daquele, por ter sido
nomeado Conselheiro de Estado. Sua transcrição dará maior
autenticidade ao pensamento do homem. na época: "fêz (Monte-
zuma) reaparecer a idéia da associação dos advogados, sobre uma
base mais vasta e mais vantajosa aos interrêsses da jurisprudên-
cia e do Estado. Não era, a seus olhos, o que se devera fundar,
uma simples associação para fins de lucros adventícios, e resolu-
ção de consultas forenses; era, na frase do célebre procurador
geral, o ilustre Dupin. moralizar a palavra escrita pelos intérpre-
tes da lei; era banir do FÔro a detestável traaaca; era disciplinar
a milícia dos tribunais: era reer.per do imérito abatimento, em
que haviam caído, os foros e prerrogativas da nobre classe dos
advogados; era prover a jndigênda da família dos nossos colegas
desgraçados, era finalmente organizar a Ordem dos Advogados,
criando um Instituto nesta Côrte e suas filiais das Províncias".
(Ibidem, pág. 17/18),
Ao término do primeiro ano de existência do Instituto, o
Govêrno Imperial, numa demonstração de apreço, concedeu aos
seus membros o uso de veste talar e o assento dentro dos cancelos
dos Tribunais (Dec. n." 393, de 23 de novembro de 1844)á
Na sessão de transmissão da presidência, que exerceu por oito
anos, ao Dr. Francisco Inácio Carvalho Moreira. depois Barão de
Penedo. F r a n p d G ê A c m e Montezuma foi eleito Presidente
Honorário. Associação dos Advogados de Lisboa conferiu-lhe o
titulo de Sócio Correspondente.
Montezuma deixou a presidência dêste Instituto, sentindo
seus colegas desabotoarem em estima e borbulhando em entusias-
mo por sua nomeação para Conselheiro de Estado interino. efeti-
vado mais tarde, em 20 de ayôsto de 1859, Conselheiro Ordinário,
tomando assento na Seção de Fazenda.
Era a reparação para o homem público, que jamais se encar-
neirou a partidos e cujo desprestígio momentâneo o levara a
disputar e assumir uma cadeira de deputado na Assembléia Provin-
cial do Estado do Rio de Janeiro, em junho de 1850. O aprêço de
S.M.I., conferia-lhe o título de homem de notável saber, para, mais
REVISTA DO INSTITVTO HISTõRICO E GEOGRAFICO DE S. PAVLO 225

tarde, em 12 de julho de 1854, agraciá-lo com o de nobreza, Visconde


de Jequitinhonha (com grandeza).
Tendo seu nome na lista tríplice, eleito pela Bahia, para o
Senado, em 1851, foi, na terceira vez, escolhido pelo Imperador, na
vaga do Visconde de Macaé.
Era o gigante reconduzido a sua arena, o orador espetacular
reposto em sua tribuna. Durante quase dezenove anos, até 6 meses
antes de sua morte, freqüentou a tribuna do Senado, a princípio.
até 1864, com sua causticidade, sua ironia mordaz, mas também
com uma experiência acumulada, com a cultura dilatada e, acima
de tudo, com os mesmos patriotismo e honestidade inatos. Não o
abateram o ânimo as doenças, várias, as dores morais, na perda dos
entes queridos, chefe de família amantíssimo que era.
O Barão de Rio Branco escreveu, certa vez, que Montezuma
"foi um dos precursores da propaganda abolicionista" e o "primeiro
orador parlamentar que, em nosso país, atacou de frente os impor-
tadores de escravos africanos" (Efemérides Brasileiras).
Essa foi sua preocupação constante como deputado e senador
do Império, tendo apresentado numerosos projetos nesse sentido.
Cuidou até da fixação do salário mínimo dos escravos libertos,
quando continuavam trabalhando para os seus ex-senhores.
E porque essas idéias efluiram da capela levantada na sua
vida interior, libertou em vida suas escravas fiéis. Helena e Maria
Lucrécia, que, ao ensejo de sua morte, foram entregues a Miseri-
córdia, tão logo foram registradas suas cartas de alforria.
Nos seus derradeiros anos de vida parlamentar, atuante e
enérgico, perdeu muito de sua tonalidade polêmica, menos porque
era um outono a sucumbir, mais porque aquietava-se na sua cran-
deza moral e descansava para morrer tranqüilo. Não obstante,
publicou um panfleto - Resposta A Fala do Trono - criticando
os debates das sessões do Senado de 23 de outubro e 3 de julho
de 1868.
Ainda exerceu, em 1866, a presidência do 9anco do Brasil,
onde se sentiu à vontade, e n m m o de-rou ser em
finanças.
O HOMEM
Meus Colegas,
Ouvistes desfilar ante vós paisagens da vida de um homem
genial e trabalhador, que representa para nós, advogados, a excel-
situde do patrono. Pelo muito que soube advogar. Pelo amor aue
devotou a dignidade da profissão. Pelo que pensou fazer e féz
pelo apuramento de seu exercício.
Eu Ihes rogo: acompanhai-me, reflexionando sobre o homem
Montezuma, sendo, sentindo, sofrendo e morrendo, já um pouco
longe do leito aconchegante de seu saber.
226 REVISTA DO INSTITUTO HISTORICO E GEOGRhFICO DE S. PAULO

Dificil seria retratar-lhes o menino trêfego de Penedo, traqui-


nas e curioso, nascido não se sabe ao certo, se em Salvador ou em
Cachoeira. Seu berço não lhe traçava amplos caminhos na vida.
'Êle os locou, escolhendo os meios mais difíceis. Ou não escolhendo
meios nenhuns. Com suas autenticidades e temperamentalidades
singulares.
De sua primeira mulher, D." Mariana Angélica de Toledo
Marcondes de Montezuma, teve cinco filhos: os dois mencionados,
Leónidas e Arthur, mais Harmódio, Mariana Angélica e Narcisa.
Sua mulher faleceu em data não conhecida. Faleceram, antes
dêle, Arthur, Harmódio e Narcisa: Arthur Leão Marcondes de
Montezuma, em naufrágio, como tenente da Marinha Britânica;
o Dr. Harmódio de Toledo Marcondes de Montezuma entrou para
a carreira diplomática em 1853 e veio a falecer em La Habana,
em abril de 1865, no exercício da Encarregatura- de Negócios
- Inte-
rino, na Venezuela.
Em carta de 6 de maio de 1865, ao Presidente do Senado,
participou o Visconde de Jequitinhonha essa morte, excusou-se
por não comparecer a leitura da Fala do Trono e resignou-se:
"Espero da Divina Clemência que fortificará a minh'alma para
resistir ao golpe profundo com que acabo de ser visitado, e então
comparecerei ao Senado".
Harmódio não deixou descendentes conhecidos.
De Narcisa não se tem notícias.
Mariana Angélica desposou o Dr. Júlio Henrique Mel10 e
Alvim, irmão do Barão de Iguatemi, mais tarde embaixador do
Brasil no México (1890), no Chile (1897) e em Portugal (1898).
Consta ter deixado uma filha, Henriqueta, que se casou em
Portugal.
Leónidas perdeu uma vista e, depois outra, em missão na
África do Sul. Reformou-se como tenente da Marinha Britânica.
Viveu no Brasil com o pai, durante alguns anos, dando-lhe sérias
p r e o c u p a ç õ e ~relat,- 11 em carta ,de 14 de dezembro de 1855
ao Conselhe arvalho More iajou depois para a Inglaterra.
onde, em Sydenham, no Condado de Kent, desposou D. Louizz
Davis de Montezuma, que lhe deu 6 filhas mulheres e um homem
que sempre viveram naquele país. Leónidas sobreviveu ao pai 25
anos, pois faleceu em 1898.
Montezuma casou-se pela segunda vez com uma senhora da
família Marcolino, de quem se divorciou, depois, indo ela residir
na Rua da Praia, em Niterói, sem jamais esquecê-lo.
Em sua bela casa do Rio Comprido, hoje Aristides Lobo, 39,
viveu Montezuma os derraseiros anos de sua vida, em companhia
de uma filha na década de 1850, pois a menciona em cartas
a amigos. Depois, até o fim, assistido por uma governanta, D."
Emília Oberlander.
REVISTA DO INSTITL'TO HIST6RICO E GEOGRAFICO DE S. P A U L O 22'7

Sofreu moléstias diversas, desde a cólera-morbus bisada, até


uma rebelde oftalmia, passando pela erisipela de pé e de uma
perna e os antrazes, buscando sempre a assistência de seus médi-
cos amigos, Dr. Bompani e o Visconde de Itaúna. Muitas vêzes
ia buscar lenitivo nas clínicas européias.
Mas, as moléstias jamais o abateram: basta ler o seu retrato,
saído da pena de Machado de Assis, o repórter:
"Um dia vi ali aparecer um homem alto, suiças e bigodes
brancos e compridos, Era um dos remanescentes da Cons-
tituinte, nada menos que Montezuma, que voltava da
Europa. Foi-me impossível reconhecer naquela cara bar-
bada a cara rapada que eu conhecia da litografia Sisson;
pessoalmente nunca o vira. Era, muito mais que Olinda,
um tipo de velhice robusta. Ao meu espírito de rapaz
afigurava-se que êle trazia ainda os rumores e os gestos
da assemóléia de 1823". (O Velho Senado, em PÁGINAS
ESCOLHIDAS, pág. 162).
Estudava e trabalhava incansavelmente em sua seleta biblio-
teca de 4.250 volumes, só saindo dela. para tomar o coupê ou a
vitória para ir ao Senado, ou visitar um amigo. Fugia, as vézes,
para sua casa do Alto da Boa Vista, onde se isolava totalmente,
"mas gozando um bom clima, tomando meus banhos de capacival
deitando-me cedo, e sòmente saindo dêste retiro e pacifico modo
de vida, para satisfazer meus devêres de Conselheiro d'Estadol'
(Carta ao Barão de Penedo de 7 de dezembro de 1868).
Em 26 de maio de 1869 compareceu pela última vez ao Senado.
Sentiu-se mais sèriamente enfêrmo. Era a agravação violenta da
tísica pulmonar que, de h á muito, o minava. Acorreu a um tabe-
lião e redigiu seu testamento, nomeando o Conselheiro Antônio
Ferreira Viana seu testamenteiro. Procurou lenitivo na medicina
indígena: não o encontrou. Embarcou para a Europa, passou por
Berlim, buscou outro Tabelião e fêz outro testamento, anulando
o anterior. Continuou a vilegiatura curativa eur -éia. Em Marse-
lha, no dia 11 de janeiro de u-1 a s&, na Rua
Paradis, 75, o Vice-Cônsul do Brasil, Antônio Pinto Costa Lavrava
e lhe entregou seu testamento, que ésse cerrou, coseu e remeteu
para o Brasil. Foi o último que fêz. E viajou às pressas, de volta.
A MORTE
Madrugada de quinze de fevereiro. Antedia ameaçando calor
causticante com o sol a pino. Nas matas do Morro de São Carlos
e nas colinas vizinhas, os sabiás saudavam o amanhecer com
suas fugas adagiosas e distanciantes. A vaquinha da chácara
muge, reclama a ordenha para a alimentação da novilha.
A última escuridão refugia-se atrás dos serros. Montemma
agoniza. O empregado José atrelou o cavalo ao coupê e foi buscar;
228 REVISTA D O INSTITUTO HISTORICO E GEOGRbFICO DE S. PAULO

em sua residência, o Conselheiro Antonio Ferreira Viana, o amigo


de todas as horas, o amigo para depois da morte, o testamenteiro,
enfim. Desesperam-se Helena e Lucrécia, as escravas já alforria-
das. o cozinheiro Sezinando e sua dedicada e antiga governanta,
D." Emília Oberlander. Penalizam-se os amigos mais próximos que
acorreram cedo, a Rua do Rio Comprido, número 5.
11ontezuma volve os olhos para a imagem de S. Francisco de
Paula, o santo de sua devocão. Não beberia mais o leite matina!.
A tísica pulmonar o abate e êle expira as cinco horas e trinta
minutos da manhã. Sucumbiu o gigante enigmático e respeitável;
o velho, venerando e temido parlamentar; o culto e erudito conse-
lheiro de Estado: o homem que, em mais de sessenta anos de
lutas dramáticas. conservou-se cem anos jovem e penetrou o futuro
com toques de legenda. Voltava para as origens da vida o orador
fogoso e altivo, que soube envelhecer, buscando a eloqüência dz.
humildade. Era o fim de uma longa e romanesca vida.
Ostentando seu fardão de Conselheiro, meias de séda preta,
saoatos de verniz e luvas de pelicas, seu corpo foi encomendado
pelo padre da Capela Imperial. Às dez horas e meia de uma escal-
dante manhã de verão, escoltado pela brigada de batalhões de
cacadores sob o comando do Tenente-Coronel Joaquim da Rocha
Leão. o féretro busca o cemitério do Catumbi, o campo-santo de
sua Ordem. no Rio, os Mínimos de São Francisco de Paula. Ultra-
passa a pórtico e enquanto seu corpo baixa a terra, na campa 208
da Quadra 4, as brigadas de fuzileiros e artilheiros, aue o espera-
ram à Dorta do cemitério. dão as salvas fúnebres. E repousa ao
lado de homens ilustres do Império, amigos e adversários, todos
igualados no pulverem reverteris.
Na sessão do Senado de 29 de abril de 1833, jovem ainda, o
Deputado Montezuma declarou:
- "Sou pobre, pouco posso perder".
Viveu o hoif O amanhã cravando no futuro o Ólho fulgurante
e iluminou/. a r n i n h o m a da advocacia brasileira, senão
os de nossa história.
Morreu rico e nos legou uma fortuna inestimável!
Hoje sua figura passeia entre nós, nos raros momentos em que
a invocamos, para uma valorização de zenites morais.

Meus Colegas,
Nesta busca do homem que empreendi para vos definir Fran-
cisco Gê Acayaba de Montezumal cheguei até a fria lousa de seu
'túmulo, abandonado com dizeres quase apagados, pela ação de
tempo. Ninguém o visita há muitos anos; seus descendentes dire-
REVISTA DO INSTITCTO HISTÓRICO E GEOGRaFICO DE S P A U L O 229

tos vivem em Portugal ou no Condado de Kent, na Inglaterra.


Mandei lavar o mármore, com ácido, pintar as paredes e busquei
no florista vizinho uma rosa de minha Barbacena, que depositei
sobre a campa. Teve o mesmo gesto uma pessoa amiga, que não
o conhecia, enternecida pela homenagem.
E me perguntei:
- Não temos nós, os sócios do Instituto dos Advogados e
membros da Ordem dos Advogados em todo o Brasil o dever de
aditar às nossas comemoraçóes anuais uma reminiscência ou uma
romaria obrigatória ao seu túmulo, onde êle descansou de sonhar
e realizar? De cuidar dêsse como o de um ente querido?
Não simbolizaria o gesto material e carinhoso nosso aprêço
a êsse valor moral, tão grandioso que se impôe como nosso
patrono?
Não significará êle que, cultuando. assim, sua memória, esta-
mos dispostos a seguir seus exemplos no rigor e na dedicação com
que exerceu a tão nobre e tão perigosa profissão da advocacia, a
que também dedicamos nossas vidas?
Sei que me dareis o assentimento do silêncio. Mas, se vos
entusiasmardes, fazei estrugir os aplausos de cassa concordância
com esta indicação, aprovando-a, fora das normas estatutárias,
porque a gratidão e o amor não se sujeitam a regras!
(Palestra no Instituto dos
Advogados)
IN MEMORIAM
Oração proferida no dia 17 de outubro de 1970 reverencian-
dos sócios falecidos em 1970.

Alfredo Gomes

Duplo sentido e um só objetivo apresenta a disposição esta-


tutária que reserva a derradeira sessão, na segunda quinzena de
outubro, para rememorar a fundação do Sodalício a 1."de novem-
bro de 1894 e cultuar a memória dos desaparecidos no ano social.
Em ambas as evocações, estão presentes aquêles que tiveram
o merecimento da louvável iniciativa de idealizar e providenciar
pràticamente a criação do Instituto Histórico e Geográfico de
São Paulo e os que, decorrido o tempo, também deram de si o
máximo de energia, do talento e da operosidade para a conti-
nuação da entidade que perseguia e persegue a precípua finali-
dade de "promover o estudo e o desenvolvimento da História e
Geografia do Brasil e, principalmente, do Estado de São Paulo
e, bem assim, ocupar-se de questões e assuntos literários, cientí-
ficas e artísticos e industriais, que possam interessar o pais sob
qualquer ponto-de-vista".
O objetivo que soma ao preito da saudade o da gratidão, é
trazer ao convívio dos que se reunem em assembléia, rica de
significação e alcance, figuras visíveis ao nosso entendimento
pelo que pensaram e realizaram.
Das origens emergem os pioneiros Antônio de Toledo Piza,
Domingos Nogueira Jaguarib w" .e-t Bourroul,
integrantes da comissão com m
p
i- de c vidar perso-
nalidades da mais alta projeção para a assembléia que se efetuou
ao meio-dia do referido 1."de novembro de 1894, em uma sala da
Faculdade de Direito de São Paulo, no Largo de São Francisco,
presidida, por proposta de Jaguaribe, pelo Dr. Cesario Mota Ju-
nior, igualmente, o primeiro presidente da Diretoria interina, da
qual foi Presidente honorário o Dr. Prudente José de Morais
Barros.
A Diretoria em aprêço, eleita por aclamação, teve, ainda,
como vice-presidente Domingos Jaguaribe, secretário, Antónío de
Toledo Piza, e membros" Esteváo Leão Bourroul, Carlos Reis e
o Cônego José Valois de Castro.
232 REVISTA DO ISSTITUTO HISTORICO E GEOGRAFICO DE S. PAULO

Compareceram a reunião para a instalaçáo do Instituto e


foram considerados primeiros 60 sócios, os adiante enumerados
em ordem alfabética dos prenomes:
1 - Dr. Alfredo Moreira de Barros Oliveira Lima
: - Antonio Augusto da Fonseca
T - Dr. Antônio Dino d a Costa Bueno
4 - Dr. Antônio Evaristo Bacelar
5 - Dr. Antônio Francisco de Paula Souza
f - Antonio Moreira d a Silva
'i- Dr. António de Toledo Piza
8 - Dr. Argemiro Antônio d a Silveira
9 - Artur Goulart
10 - Dr. Augusto de Siqueira Cardozo
11 - Dr. Benedito Estelita Alvares
12 - Dr. Bento Bueno
13 - Dr. Bernardino José ds Campos
14 - Dr. Carlos Daniel Rath
15 - Dr. Carlos Reis
16 - Dr. Cesário Nazareno de Azevedo Mota Magalhães Mota
Junior
17 - Dr. Cincinato Braga
18 - D r Clementino de Souza e Castro
19 - Dr. Constante Afonso Coelho
20 - Dr. Domingos José Nogueira Jaguaribe
21 - Dr. Estevão Leão Bourroul
22 - Dr. Eugênio Alberto Franco

-
23 - Eugênio Holender
24 - Dr. Fergo ó Connor de Camargo Dauntre
25 - Dr. Francisco Ferreira Ramos
26 - Francisco Inácio Xavier de Assis Moura
27 - - Dr. Francisco de Paula Ramos de Azevedo
28 - Dr. Gabriel Osôrio de Almeida
29 - Dr. Gustav- Koenigswald
30 -~ e n r ~ w
31 - Dr. Hermann von Ihering
37 - Dr. Horace M. Lane

33 - Dr. José Gabriel de Toledo Piza


34 - Dr. José Machado de Oliveira
35 - Dr. José de Sá Rocha
36 - Dr. José Valois de castro
37 - Dr. José Vicente de Azevedo
38 - Jules Martin
39 - Lafayette de Toledo
40 - Dr. Luiz de Toledo Piza e Almeida
41 - Dr. Manuel Antônio Duarte de Azevedo
42 - Manuel Augusto Galvão
REVISTA DO INSTITUTO HIST6RICO E GEOGRÁFICO DE S. P A U L O 233

43 - Dr. Manuel Ferreira Garcia Redondo


44 - Manuel Marcelino de Souza Franco
45 - Dr. Manuel de Morais Barros
46 - Dr. Manuel Pessoa de Siqueira Campos
47 - Dr. O ~ i l l eA. Derby
48 - Dr. Paulo Egídio de Oliveira Carvalho
49 - Dr. Pedro Augusto Gomes Cardim
50 - Dr. Pedro Vicente de Azevedo
51 - Dr. Prudente José de Morais Barros
52 - Dr. Raimundo Furtado Filho
53 - Dr. Severino de Freitas Prestes
54 - Trancredo do Amara1
55 - Dr. Teodoro Sampaio
56 - Teófilo Barbosa
57 - Tomaz Galhardo
58 - Tiburtino Mondin Pestana
59 - Tristão Araripe
60 - Dr. Viriato Brandão

A êsses sessenta que a Revista do Instituto, em seu volume I


(1895) registra às páginas 160 e 161 com omissão na numerata
(passa do n." 32 para o 42), foram acrescidos na condição de
fundadores os srs. Alberto Lofgren, Dr. Joaquim Floriano de Go-
dói, Dr. Hipólito de Camargo, Dr. José Estácio C. de Sá e Bene-
vides, Dr. Rodolfo Pereira, Dr. Augusto Cesário de Barros Cruz e
Dr. José Maria do Vale (7, na sessão de 9 de dezembro de 1894);
Drs. Alexandre Florindo Coelho, Padre Joaquim Soares de Olivei-
ra Alvim, Dr. Martinho Prado Júnior, Dr. Manuel Ferraz de Cam-
pos Sales, Dr. João Nepomuceno Nogueira da Mota, Dr. Cândido
Nazareno Nogueira da Mota, Dr. Manuel Pereira Guimarães e
Gabriel Prestes (8, na sessão de 16 de dezembro de 1894); Dr.
Francisco de Paula Rodrigues Alves, Augusto César Barjona, Lin-
dorf Ernesto Pereira de Vasconcelos, Henrique Afonso de Araujo
Macedo, Dr. Antônio Joaquim Ribas, Dr. José Cardoso de Almeida,
Desembargador Aureliano de-ve-utinho, Dr.
Alfredo Rocha e Emmanuel Vanorden (9, na sessao de 23 de
dezembro de 1894) ; Drs. Vicente Liberalino de Albuquerque, José
Alves Cerqueira César, Júlio César Ferreira de Mesquita, Brtur
César Guimarães, Augusto Fomm, José Ferreira de Garcia Re-
dondo, Eduardo Carlos Pereira, Gabriel de Toledo Piza e Almeida,
Luís de Anhaia Melo, Jorge Tibiriçá, João Álvares Rubião Júnior,
Antônio da Silva Prado, Francisco Glicério, Alfredo Ellis, Jaime
Serva, Horácio de Carvalho, José Ferraz de Almeida Júnior, Bráu-
lio Gomes, Augusto César de Miranda Azevedo, José André do
Sacramento Macuco, Cesário Gabriel de Freitas, Joaquim de
Toledo Piza e Almeida, João Cândido Martins, Fortunato Martins
de Camargo, Manuel Alves de Sousa Sá Viana, José Francisco
234 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRAFICO DE S. PAULO

Soares Romeu, Virgilio de Rezende, Francisco Martiniano da


Costa Carvalho, Carlos de Campos, Carlos Botelho, Antônio Carlos
Ribeiro de Andrada Machado e Silva e Jacob Itapura de Miranda
(32, na sessão de 30 de dezembro de 1894) ; Drs. Teodoro Dias de
Carvalho, Antônio Francisco de Araujo Cintra, Joáo de Arruda
Leite Penteado, José Batista Pereira, Luis Antônio de Sousa Fer-
raz, Alexandre Riedel, José Luís de Almeida Nogueira, Wenceslau
de Queiroz, José Maria Lisboa, Matias Valadáo, Martim Francisco
Ribeiro de Andrada Sobrinho, Ernesto de Morais Cohn, Antônio
Pereira Prestes e Oscar Horta (14, na sessão de 25 de janeiro de
1895). Com os últimos catorze incluídos na sessão de 25 de janei-
ro de 1895 encerrou-se a categoria de sócios fundadores, totalizan-
do desde a histórica sessão de 1." de novembro de 1894, 130 inte-
grantes do corpo social. Somados os nove omitidos na relação
publicada no volume n." 1 da Revista (1895), ou sejam Inácio
Wallace de Gama Cochrane, Joáo Nogueira Jaguaribe, Joáo Pedro
da Veiga Filho, Joáo Pereira Monteiro, Joáo Ribeiro de Moura
Escobar, Joaquim de Toledo Piza (Capitão), Joaquim Nogueira de
Almeida Pedroso, José Alves Guimarães Júnior e José Eduardo de
Macedo Soares, têm-se os nomes dos 139 fundadores divulgados na
publicação "Jubileu Social" que o Instituto Histórico e Geográfico
de São Paulo lançou em 1944 para celebrar o quinquagésimo ani-
versário de sua fundação, no mesmo ano em que surgiu a Escola
Politécnica, instalou-se o Museu Paulista e inaugurou-se o antigo
Ginásio do Estado, hoje Colégio Estadual de São Paulo.
0
--

Revive o Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo as


imagens dos pioneiros e idealizadores - imagens presentes na
galeria de seus homens representativos fixadas em retratos cari-
nhosamente expostos aos nossos olhos, imagens reproduzidas tan-
tas vêzes nas publicações comemorativas, imagens descritas em
e.
tantos remêmoros que ganham maiores dimensões com o trans-
curso dos ancc --o ternar gratidão, louvar pala-
vras e atos e m o r á v ~ c i a t i v a imorredouras.
s
Como êles, os nossos mortos, os nossos queridos mortos que
nesta hora significativa, ressurgem atendendo a convocação da
saudade e do afeto. Aparecem, como os do passado, para recebe-
rem consagração e testemunho de gratidão.
Mais do que ecos da vida, erguem-se a luz da aurora que
espanca as trevas da noite do silêncio e do repouso eternos, e aban-
donam o campo da esperança, da paz e do amor divino, para um
novo dia - êste dia -, alumiando o Sodalicio com a claridade,
reflexo brilhante do prêmio conquistado pelos justos e bons, pelos
que dignificaram a terrena existência com o vigor do talento e
a nobreza do caráter.
REVISTA DO IKSTITUTO HIST6RICO E GEOGRAFICO DE S. P A U L O 235

É certo que as presenças imateriais de queridas sombras


emocionam-nosl comovem-nos porque a condição humana con-
'

traria a conformação com o estatuto da morte.


Nem os santos deixaram de chorar os que dêles se aparta-
ram e a êles estavam ligados, mesmo conscientes de que nada
mais somos do que pó reversível, mesmo aceitando o meteorismo
fugaz da vida, mesmo até convictos de que a terra não passa de
imenso sepulcro em que todos têm lugar reservado a morte.
mesmo robustecidos na crença da vida eterna e na fé de que a
justica está na eternidade.
Santo Agostinho lamenta, com fundos gemidos, a morte de
sua santa mãe Mônica; Gregório de Nissa chora morte de Pla-
cila, Pulquéria e Meleza, e Gregório de Nazianza, o trespasse do
irmão Cesário e da irmã Gorgona; São Bernardo não poupa
lágrimas à morte de seu irmão Gerardo e nos funerais do monge
Hubert; Santo Ambrósio, com sua irmá Marcelina, pranteia a
morte do irmão Sátiro. Os que umedeciam os olhos e se afligiam
eram felizes no Senhor e sofriam por quem morria no Senhor.
Na verdade, se a morte é concessão a perpetuidade, não deixa
de ser despojamento, nem, tampouco, deixa de ser adeus pela
destruição da vida material. Mas a morte, também, é mensa-
geira do Criador. e volta-se sempre para o céu. E só o eterno é
superior ao nada.
E os nossos mortos são eternos porque no rio do tempo que
sulca as lindes do Paraíso. nem êles beberam, em suas águas, o
esquecimento. nem nós, na terra, renunciamos ao culto da lem-
brança. Ao contrário, intensificamos e estreitamos os elos da
cadeia do amor como irmãos confortados pelos exemplos e lições
marcantes.
Outrora, há muitos anos, confiava-se a guarda das necró-
poles a homens de probidade e virtude aue. a horas avancadas,
velandn os mortos, ao percorrer as alamedas silentes com lanter-
na de frouxa luz, pregavam de distância a distância: "Orai pelos
mortos".
É o que, igualmente, de e f A n e s t a evoca-
cão, elevando os coracóes ao alto diante da amarga verdade da
perda de tantos e tão preciosos companheiros, de tantos e tão
queridos irmãos: fratres enim sumus. E perdas prematuras por-
que, embora seja preciso morrer, todas as mortes são prematuras.
-000-
Dezenove confrades abriram claros físicos, roubados pela
morte ao convívio social. Dezenove mortos ilustres que a incan-
sável e terrífica ceifadora tornou objeto de lembrança e saudade.
Três sacerdotes, dos quais um antístite, Principe da Igreja
um Monsenhor e um jesuita notável historiador de sua Compa-
nhia e, por conseguinte, do nosso passado. O primeiro e o segun-
236 REVISTA DO IKSTITUTO HIST6RICO E GEOGRhFICO DE S. PAULO

do pertencentes a categoria dos sócios honorários, e o último,


correspondente estrangeiro:
Dom Paulo de Tarso Campos,
Monsenhor João Deusdedit de Araújo, e
Padre Serafim Leite
Sete outros, também, da categoria de Honorários:
José Ayres Neto,
Aloysio de Carvalho Filho,
Pascual Nufiez Arca,
Acácio de Villalva,
David Antunes,
João Domingos Sampaio e
Jeronymo Barbosa Monteiro
Um Benfeitor:
André Nunes Junior
Um Correspondente Nacional:
Plinio Gomes Barbosa,
Um smérito: Plínio de Barros Monteiro
Três Titulares, todos êles acadêmicos:
Francisco Pati,
Paulo Nogueira Filho e
Ibrahim Nobre
Finalmente, três vinculados á Diretoria, dos quais um, o seu
Presidente de Honra, pertencente a categoria de sócio Grande
Benemérito; o segundo, da mesma categoria, e seu 1." Secretá-
rio, e o derradeiro, sócio Titular e 3." Vice-presidente:
Ernesto de Souza Campos,
Luís Tenório de Brito e
Carlos HF -ri ue Robertson Liberalli.
pd‘---
Dezenov roemmentes consoc s que se incorporaram defi-
nitivamente a galeria das grandes personalidades do Sodalicio
honrando-o e engrandecendo-o pela cultura e operosidade.
--
000--

DOM PAULO DE TARSO CAMPOS

Faleceu Arcebispo de Campinas, cuja diocese e arquidiocese


governou cêrca de trinta anos, e com cinquenta de sacerdócio.
Oriundo de Jau, ordenou-se no Seminário de São Paulo, mas
aperfeiçoou estudos, na Bélgica, na Universidade de Louvain.
Senhor de vasta cultura teológica e geral, votou-se ao magistério
REVISTA DO INSTITUTO HISTÕRICO E GEOGRAFICO DE S. PAULO 237

prelecionando diversas disciplinas no Seminário Central de São


Paulo. Após haver exercido o vicariato de Santa Cecilia foi sa-
grado Bispo por Dom Duarte Leopoldo e Silva, sendo notável,
ainda a atuacão comÓ Diretor Espiritual do Seminário Central
de São Paulo e Reitor da Pontificia Universidade Católica de São
Paulo. Não se demorou nas funções episcopais na vizinha cidade
de Santos, pois logo passou a Diocese campinense, continuando
admirado pelas excelsas virtudes de sacerdote e pastor. Santos
honrou-o com a presidência do Instituto Histórico e Geográfico
local. Dentre suas numerosas obras referem-se "Antigos Vigá-
rios do Litoral de São Paulo", "Fragmentos Históricos da Diocese
de Campinas.
Dotado de grande sensibilidade espiritual, semeou a Verdade
do Evangelho e deu exemplo de caridade, fortalecendo-se com a
imensa cultura que lhe serviu de instrumento para conduzir os
homens a "verdade na fé, a virtude na graça e a paz na redenção".
MONSENHOR JOAO DEUSDEDIT DE ARAÚJO
Também esteve ligado a Dom Duarte Leopoldo e Silva, o
virtuoso Arcebispo paulista e primoroso escritor. Após a ordena-
ção sacerdotal, o Padre João Deusdedit de Araújo foi secretário
particular de D. Duarte, passando a cooperar na Cúria Metropo-
litana. Coadjutor das paróquias da Consolação e de Santa Ifigê-
nia, vigário de Jarinu, e da paróquia de Santo Antônio, na Barra
Funda, de onde foi transferido para a de São Geraldo, nas Perdi-
zes, aí permanecendo desde 1929 até sua morte, devendo-lhe os
paroquianos a construção da bela matriz.
Era o mais antigo membro do Sodalício dentre os que desa-
pareceram, pois a aprovação de seu nome datava de 20 de julho
de 1916, tendo mesmo integrado. em comuanhia do Senador Luís
Piza, Ten. Cel. Pedro Dias de Campos, Cel. João Lellis Vieira e
Afonso A. de Freitas, a Comissão por êste último proposta na
sessão de 5 de outubro de
o local do paradeiro dos r
Feijó. A fotografia tirada pelas nove horas do dia 20 de junho
de 1918 na Ordem Terceira Franciscana. onde se encontrou o
esquife de chumbo com os despojos do Regente, pôsto o sarcófago
em posição vertical antes de ser aberto, aoresenta fundo negro
da parede formado pela capa de hábito do Padre Deudedit de
Arauio.
Na sessão de 4 de junho de 1944 o Instituto homenageou
o Padre Deusdedit pela merecida nomeação, por Sua Santidade
o Papa Pio XII, para monsenhor, camareiro secreto e protonotá-
rio apostólico "ad instar partipantium"". No dia seguinte, 5, inau-
gurava-se a estátua de D. Duarte. sendo orador Monsenhor Deus-
dedit. Muitos e valiosos trabalhos deixou o amado vigário da
238 REVISTA DO INSTITUTO HIST6RICO E GEOGRiFICO DE S. PAULO

Paróquia de São Geraldo. O próprio Sodalício, já em 1916, atra-


vés de sua Comissão de Literatura, manifestava-se elogiosamen-
te, sobre alguns dêles.
Foi, indiscutivelmente, ilustre sacerdote, fidelissimo cumpri-
dor dos preceitos evangélicos, bom, bonissimo, dedicado a sua
paróquia e aos paroquianos que, com amor, retribuiram-lhe o
amor, o amor de um justo, realmente, de um bem-aventurado.

PADRE SERAFIM LEITE

Na sessão de 5 de junho de 1934, o Mestre Afonso de E.


Taunay exaltou os altos méritos do Mestre Serafim Leite, o gran-
de e notável pesquisador, historiador que, pelo vulto e valor dos
trabalhos só pode ser colocado junto a Taunay e a poucos, pou-
quíssimos outros no mundo contemporâneo. Nesse dia, Serafim
Leite, em memorável sessão, proferia a conferência "Revelações
sóbre a fundação de São Paulo", comunicando ao Sodalício os
têrmos da carta de Nóbrega, datada do último de agosto de 1553,
"estando no sertão desta Capitania de São Vicente". Logo depois.
divulgava-a, por solicitação de Taunay, no "Jornal do Comércio",
do Rio de Janeiro, a 17 de junho, e na "Revista do Arquivo Mu-
nicipal de São Paulo" (Ano I, julho de 1934, vol. 11). Tive a
honra e o prazer de incorporá-la ao modesto estudo publicado na
Revista do Instituto (volume LII, 1956, pp. 125 a 168). A 20 de
outubro de 1949 - vinte e um anos são decorridos -, o Soda-
lício registrava, por iniciativa de seu presidente perpétuo, o Dr.
José Torres de Oliveira, em sessão em que funcionei como 2."
secretário, voto de louvor a Serafim Leite por haver ultimado
sua "História da Companhia de Jesus no Brasil", "verdadeiro
monumento de cultura e história". Revelou Torres de Oliveira
haver Afrânio Peixoto financiado os 1." e 2." volumes, "e só depois
do 3." é que o Govêrno Brasileiro tomou a si o encargo de finan-
e-se, nesta hora, o conceito, então
classificando de "Soberbo
trabalho", a obra do Padre Serafim Leite.
Desempenhou-se o eminente sacerdote de incumbência que
imortalizaram seu nome como a História da Companhia de Jesus
no Brasil, a publicacâo das "Cartas dos primeiros Jesuitas do
Brasil" que integram a "Monumenta Historica Societatis Iesu"
e abrem a série brasileira sob o título específico de "Monumen-
ta Brasiliae", além de incontáveis estudos menores pertinentes
aos primórdios de nossa Terra e nossa Gente, particularmente,
relacionados com as atividades dos jesuitas, com a fundacão da
cidade paulopolitana e com o Padre Manuel da Nóbrega, erguen-
do, sem dúvida, à memória dêste o mais belo e autorizado mo-
numento de admiração e gratidão. Assim, o Sodalício, na vés-
REVISTA DO INSTITCTO HISTORICO E GEOGRAFICO DE S. PAULO 235

pera da data centenária da morte de Nóbrega, volta sua saudade


e seu agradecimento ao Padre Serafim Leite, honrando-lhe a me-
mória com acentuado fervor e n50 menor reconhecimento.
DR. JOSR AYRES NETO
Pertencia ao quadro social desde 5 de maio de 1936, herdan-
do o nome do pai e do avô. Nasceu na Córte - o Município
Neutro, depois Rio de Janeiro, hoje sede e sítio do Estado da
Guanabara, iniciou os estudos com a avó paterna, completando-
os em Santos, dando promissora notícia de seu precoce talento ao
participar, na escola de Aprígio de Macedo, do regosijo resultante
da Lei Aurea ,ao ler, pùblicamente, a 13 de maio, o trabalho inspi-
rado por esta expressão: "Entre o coração e a lágrima brilha
um raio de luz da Liberdade". Conheceu São Paulo na radiosa
meninice, ao frequentar a chácara do avô materno, José Marques
Cantinho, no Marco da Meia Légua, por onde hoje passa a rua
Catumbi. Féz o curso médio como aluno interno do Colégio Ivai,
na Ladeira de Pórto Geral, e o superior na Faculdade de Medi-
cina, no Rio de Janeiro, diplomando-se, também, no curso de
Farmácia. Dedicado a cirurgia, e, com preferência para a obstetrí-
cia e ginecologia, alcançou notável renome como médico.
Livre Docente da Faculdade de Medicina do Araçá e Chefe
da 2." Enfermaria de Mulheres da Santa Casa, José Ayres Neto
foi bem o significativo traço da comunhão fraternal entre as
instituições, embora quase toda a sua vida médica transcorresse
no palmilhar diuturno dos pavilhões da Santa Casa, a alma ma-
ter do ensino médico paulista, ali deixando a mais bela lembran-
ça de ímpar dedicação.
O grande discípulo e, na verdade, herdeiro de Arnaldo Vieira
de Carvalho que tanta consideração consagrava a Ayres Neto.
Além da formosa e peregrina cultura que rivalizava com a práti-
ca do exercício médico, ligou-se à história
sofrendo, padecendo e vibran
liano Leite e outros insignes paulistas nato
Vêmo-10, no campo de operações, em 1932, nas raizes do
Morro Verde, na Vila Queimada, a socorrer, em companhia de
Carlos de Morais Barros, o jovem Francisco F. Cobra extenuado
pela corrida em que, repetindo Feidipides, após a batalha de Ma-
ratona, esgota-se para dar a notícia do triunfo do Morro Verde
sôbre os ditatoriais do Morro da Pedreira. Vêmo-10, ainda, unin-
do-se aos filhos que se batiam, na mesma região, por amor a São
Paulo, em defesa da dignidade paulista e pela volta do Pais ao
regime constitucional e a ordem democrática.
Vémo-10, também, já em começos de 1940, reunido a paulis-
tas que pretendiam comemorar o I Centenário de Antonio Prado
240 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRAFICO DE S. PAULO

e acabaram acusados de tramarem nova conspiração, sendo com


êles prêso e remetido para o Rio de Janeiro, recolhido ao Regi-
mento de Cavalaria Divisionária da Avenida Pedro Ivo. IZ certo
que, nesta ocasião, Aureliano Leite permaneceu por mais tempo
à sombra por causa, possivelmente, de maior periculosidade . . .
José Agres Neto, o paulista de coração que honrou o Insti-
tuto, São Paulo e o Brasil com a sua cultura, e a Humanidade,
através da Medicina, com a devoção aos seus princípios de fra-
terna solidariedade no ofício de curar e purificar os homens,
recebe saudosa homenagem.
DR. ALOYSIO DE CARVALHO FILHO
Ingressou o ilustre Mestre baiano no Instituto Histórico e
Geográfico de São Paulo aos 12 de maio de 1956, já precedido
da notória fama com que se aureolara no exercício da cátedra
na Faculdade de Direito da cidade do Salvador e em posições que
conquistara mercê da vasta cultura geral e especiaIizada.
Adjunto de Promotor, Promotor Público, Sub-Procurador e
Procurador Geral do Estado, Aloysio de Carvalho notabilizou-se
ainda, nas lides políticas, como Deputado Federal e Senador da
República.
Filho de um poeta, Aloísio de Carvalho, que se ocultava sob
o pitoresco pseudônimo de Lulu Parola, Aloísio Filho como cons-
tituinte de 1934, enquant,~seus pares assinavam emendas ou as
propunham ao texto constitucional em debate, r-gistrando as
denominacóes de família como Soares Filho, Souto Filho, Len-
gruber Filho, preferia Aloísio Filho. Exerceu o mandato compe-
netrado de seus deveres políticos e concorreu com as luzes de sua
especialização para a feitura da Constituição Federal de 16 de
julho de 1934, visto ser professor de Direito Constitucional.
Além de numerosos pareceres e pronunciamentos na quali-
dade de culto pp ' - m * - + ~ rdeixou obras, sobretudo, na área jurí-
dica, m e r e c d l e v a d o e j u i c e i t o .
Tal era. em síntese, o estofo intelectual do eminente jurista
e homem público que a Baía e o Brasil pranteiam. e o Instituto
em gesto solidário, evoca e homenageia sua memória.
PASCUAL NUS'EZ ARCA
Espanhol de bêrço, optou por nossa Pátria naturalizando-se,
embora jamais esquecesse a terra de origem, servindo, porém,
ambas com seu talento e cultura. Com acentuada vocação para
a diplomacia, exerceu funções consulares na Representação da
República Espanhola, foi tradutor no Ministério das Relações
Exteriores do Brasil, ao tempo de Félix Pacheco e Otávio Man-
REVISTA DO INSTITUTO HISTÕRICO E GEOGRaFICO DE S PAULO 241

gabeira e fêz cobertura jornalística das Conferências Interame-


ricanas realizadas em Bogotá, Quito, Nova Iorque, Montevi-
déu, etc.
Ingressou no quadro social aos 26 de novembro de 1960, aos
sessenta e dois anos de idade com bagagem respeitável, graças,
principalmente, á atividade jornalística em que se salientou so-
bremaneira, quer na imprensa do País quer na do Exterior, sendo
mais numerosos os artigos publicados nos periódicos de Santos,
cidade em que fixou domicílio. Conferencista, proferiu várias
palestras, inclusive nos Institutos Históricos da Baía e de Santos,
merecendo destaque as que tiveram por tema a presença da
Espanha na expansão geográfica do Brasil.
Quando da Exposição Histórica de São Paulo, e não a Expo-
sição da História de São Paulo que se pretendia realizar por
ocasião da comemoração oficial do IV Centenário da Cidade,
levada a têrmo na calota do Ibirapuera, Nufies Arca lavrou seu
protesto porque Jaime Cortesão não põs na citada exposição os
três reis Filipes, assinalando assim a grave omissão num histo-
riador, como, aliás, bem salientou Aureliano Leite nas objeções
então levantadas.
Dos livros, mencionem-se: "Brasil Restiuído - Os três Fili-
pes que foram Reis do Brasil"; "A Trágica Vida de Alvarez
Nufinez Cabeza de Vaca - Descobridor das Cataratas do Igua-
çu" e o ensaio histórico: "Galícia, Espiritu y Corazón".
À memória do operoso e culto jornalista e ilustre confrade.
estas palavras de sentida reverência como homenagem do Insti-
tuto Histórico e Geográfico de São Paulo.
ENG." ACACIO DE VILLALVA,

No mesmo dia 26 de novembro de 1960 em que o jornalista


Nufiez Arca foi admitido no Sodalicio, em sessão extraordinária,
também o Engenheiro Acácio Villalva teve-lhe franqueada suas
portas e, entre ambos, medeo- %tro meses na
ocorrência do falecimento.
Filho da terra dos bons ares - Botucatu -, passou a viver
em São Paulo, repartindo os últimos anos de sua vida com o
município vizinho de São Bernardo do Campo. Homem bom,
simples, lhano, alegre, amigo, dinâmico, tornou-se profundamen-
te estimado de todos que com êle conviveram e o ouviram sempre
numa prosa jamais desacompanhada de semblante prazenteiro ou
de afável sorriso.
Homem público com incursóes pela política. Por duas vêzes
Sub-Prefeito com jurisdição em Santo Amaro, suplente de Depu-
tado Estadual, Presidente do Conselho Estadual de Turismo e
membro de outras entidades estaduais.
242 REVISTA DO INSTITUTO HISTORICO E GEOGRdFICO DE S PAULO

Desempenhou-se cabalmente de missão oficial em visita ao


norte do Pais, colhendo subsídios para oportunos e interessantes
estudos. Projetou e construiu monumentos de fundo histórico e
feição didática como os erigidos em São Roque: "Três Séculos
de Existência"; em Campos do Jordão: "Marco das 4 Nações";
em Caraguatatuba: "4." Centenário"; em Ubatuba: "Balisa de-
marcadoria do trópico de Capricórnio e homenagem a Anchie-
ta", e em Cunha: "Ao herói civil Paulo Virgínio".
Somam-se em seus trabalhos os interêsses culturais e os
cívicos. É a nota característica de seu espírito, de que deixou
testemunhos, mesmo nas últimas produções divulgadas na Re-
vista do Ateneu Paulista de História, do qual era ilustre consó-
cio, tendo, inclusive prelecionado no Curso de História de São
Paulo que tive a honra de promover sua inicial organização e
primeiras séries de conferência, hoje, confiado à proficiente dire-
ção do Dr. Álvaro do Amaral, distinto e operoso confrade.
Era seu desejo, e neste sentido apresentou propostas a êste
Sodalício, ao Instituto Genealógico Brasileiro e ao Ateneu Paulis-
t a de História, que se restaurasse o "Monumento do Padre José"
na região da Borda do Campo e se procedesse a "localização exata
dos chãos que serviram de berço a fundação da vila de Santo
André da Borda do Campo".
Assim foi Acácio de Villalva, assim êle permanecerá em
nosso saudoso convívio: o homem bom glorificando e engrande-
cendo a história do passado paulista.
DAVID ANTUNES

Exageradamt'nte modesto, David Antunes não recebeu em


vida a consagraçáo a que fazia jus peIo seu talento literário.
Ocultou-se, durante muitos anos, sob estranho e pouco atraente
pseudónimo, ou, na linguagem corrente um tanto abastardada,
"nada promocio "" ''Tavo José". Esclareça-se bem: o pseudó-
nimo. de r d b l i c a s . tic-plexo para o homem tran-
quilo e humilde. Iago não é senão a forma divergente do hebrai-
co Iakov, o vernaculizado Jacó significando "o que suplanta", o
que segura o calcanhar. E Jacó foi o patriarca, filho de Isaac.
José, igualmente provindo do hebreu Iodezef, o que ajunta, ou,
preferivelmente, o que Deus ajunta Nome do protetor da famí-
lia cristã. Ignoro se David Antunes pretendeu simbòlicamente
ajuntar a Velha e a Nova Lei para atingir a altitude da unidade,
tal como o Antigo e o Novo Testamento formam a unidade da
palavra de Deus através do tempo. O certo é que poucos ligavam
o nome de Davi Antunes ao de seu pseudónimo. E só nas edições
finais de seus livros, já próximo aos últimos anos, é que neles
aparece o verdadeiro nome do Autor.
REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRAFICO DE S. PAULO 243

David Antunes era de Santa Branca, porém acabou radican-


do-se em Campinas, após haver peregrinado por outras cida-
des como Jau e Piracicaba removido face a condição de fun-
cionário do Banco do Brasil. Das cidades jornadeadas a que mais
impressionou sua sensibilidade foi Piracicaba, a antiga Vila Nova
da Constituição, assim chamada aos 31 de outubro de 1821 "em
atenção e para perpetuar a memória da Constituição Portuguê-
sa" dêsse ano, em lugar do nome de Vila Joanina que os mora-
dores já haviam proposto em 1816 "por derivação do Augusto
Nome de sua Majestade (D. João VI e em sua perpétua memó-
ria"), embora, desde os primórdios se houvesse chamado fregue-
sia de Piracicaba sòmente restituído pela Lei Provincial n." 21 de
13 de abril de 1877, mantendo a palavra tupi composta de pira
= peixe e cicaba, fim, lugar onde acaba a fartura de peixe.
Inspirado pela bela e amável cidade
em que
"Pedras domando aqui. além, por toda a parte,
corre o Piracicaba - o raptor de ninféas - e
entra a ponte, a dançar ein túrbidas coréas, quais
bárbaros rompendo as portas de um baluarte".
(J. Pinto de Almeida Ferraz, "Ventarolas")

David Antunes escreveu o romance "Piracicaba", delicioso

-
relicário, onde avultam costumes e figuras locais.
Outros livros notáveis assinalam a excelente produção lite-
rária de David Antunes como "Incenso e Pólvora", "Caminhos
Perdidos", "Gente moca", "Bagunça", "Briguela", "Obsessão",
"Lagoa Verde" (novela), "A Face Trágica da Aarte" (ensaio), "O
Pastor e as Cabras", etc.
I
David Antunes está a reclamar biógrafo apaz de realcar
seu engenho e arte do que, nestas breves referências, ficou páli-
da amostra em homenagem a saudosa memória do consócio que
honrou o nosso ~odalici'o.
DR. JOÂO DOMINGUES SABIPAIO

Rioclarense, vocacionado piracicabano, Bacharel em Ciên-


cias Jurídicas e Sociais aos vinte anos de idade, no ano imediato
ingressou na carreira de Delegado, nela se demorando pouco
logo foi nomeado Juiz de Paz e Casamento, em Piracicaba, aí
iniciando-se nas lides forenses e jornalisticas. Foi advogado e
jornalista até nonagenário. Só a morte podia interromper a ati-
vidade do excepcional lidador. Fêz brilhante carreira política
como legislador em tódas as esferas: Deputado e Senador ao
Congresso Estadual, Deputado Federal, Vereador. É conhecido
o gesto que ficou nos anais da Câmara Municipal de São Paulo:
244 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓP.IC0 E GEOGRAFICO DE S P A U L O

podendo ser eleito presidente da edilidade pelo próprio voto, deli-


beradamente não sufragou seu nome. Durante vinte e dois anos,
exerceu mandatos politicos, ganhando as culminâncias de Presi-
dente da Comissão Diretora do Partido Republicano e Diretor de
seu órgão de imprensa: o "Correio Paulistano". Convivi com
João Domingues Sampaio tanto no Partido, de que fui Secretário
Geral e Vice-presidente da Comissáo Coordenadora da Política da
Capital e Membro da Comissão Extra-Parlamentar que assesso-
rou a Bancada Republicana na Assembléia Constituinte Estadual
em 1947, e no jornal como redator-colaborador, responsável com
Francisco Pati. Pelágio L ~ b oe outros por artigos e tópicos na
4.a página, inclusive revezando-nos nos rodapés fechando a refe-
rida 4." página.
Nenhum candidato ao quadro social foi admitido com a
idade atingida com extraordinária lucidez pelo longevo Dr. João
Sampaio que ingressou no Sodalício aos 91 anos. Acolhido como
símbolo vivo do passado paulista, ouvímo-10 com respeitosa unção
ao tomar posse e indicar seu patrono e sempre amigo Dr. Altino
Arantes e ao confessar que nunca tivera tempo para escrever
um livro, mas fizera semear árvores as centenas de milhares e
como o bandeirante violador de sertões plantara cidades as deze-
nas em várias zonas dos Estados de São Paulo e do Paraná.
Todavia, se reunidos fossem seus esbocos biográficos de Pru-
dente de Morais, de quem foi genro, ~odrigues~l;es, Washington
Luís com o aual se identificava fisicamente no seu inconfundí-
vel cavanhaque, Joaquim Murtinho, Júlio de Mesquita. Adolfo
Gordo e Herculano de Freitas, dispersas em poliantéias várias ou
em folhetos; se coligidos fossem seus numerosissimos discursos
e pareceres que nriquecem os Anais das Casas Legilativas a que
4
pertenceu, entã ter-se-iam algumas dezenas de livros de alto
valor cultural e de interêsse para o conhecimento histórico da
fase republicana.
Há traco dr ?rosa e civicamente pitoresco que uniu o nosso
e o venerando político, ora
to Constitucionalista de 1932.
Quando Aureliano Leite na Sala da Capela onde a êle, como aos
seus quase cinquenta companheiros, destinaram camas "sujas
encarrilhadas contra outras", deixou a prisão, herdou-lhe o leito
que adquirira para substituir a cama estreita e curta, o Dr. João
Sampaio.
Relembro, ainda, a sessão de posse a 3 de agosto de 1968,
quando de pé, o auditório ovacionou comovido o ilustre ancião
que veio honrar o Sodalício e que, neste momento, tem relem-
brada, também, sua memória para receber esta homenagem mo-
tivada pelo merecimento do venerando vulto da história repu-
blicana paulista.
REVISTA DO INSTITUTO HIST6RICO E GEOGRAFICO DE S. P A U L O 245

JERONYMO MONTEIRO

Jornalista e apaixonado pela literatura de ficção, Jeronymo


Barbosa Monteiro era muito conhecido pela colaboração diária
nas "Folhas", tendo-se popularizado na secção "Panorama", um
mosaico cultural-recreativo, assemelhando-se a sinteticissimo al-
manaque em que prima o pitoresco.
Rsse trabalho persistente, heróico, revestiu-se, e continua
com iguais características, do cunho de difusão cultural propi-
ciada pela natureza das informações ou conhecimentos.
Eleito a 21 de março dêste ano social, faleceu em junho sem
chegar a tomar posse. Lamentável, o passamento inesperado
désse veterano profissional da imprensa paulistana que conquis-
tara justo renome como autorizado e festejado escritor em diver-
sas áreas, tendo seus trabalhos inscritos entre os pioneiros da
literatura policial e da ficção cientifica no Brasil, e, de modo
especial na literatura infanto-juvenil, um dos campos de sua
eleição, marcados por contribuições notáveis, divulgando cultura
sob forma amena e romanceada. De seus 30 livros e ensaios,
menciono, a título de exemplificação da vida laboriosa do inte-
lectual: "A Cidade Perdida "- história baseada na pré-história
brasileira; "Corumbi, o menino selvagem", história de uma via-
gem pelo Amazonas e Xingu; "Fuga para parte alguma", roman-
ce de antecipacão baseado no desenvolvimento anormal das for-
migas"; "Os Visitantes do Espaço", "Tangentes da Realidade".
Ao escritor, dotado de tanta curiosidade cultural e tão fertil
imaginação, desaparecido em plena faina, a homenagem que
lhe seria tribütada em vida, ora transformada em reverência a
sua saudosa memória.

DR. ANDRÉ NUNES JÚNIOR


I
Homem de emprêsa, dinâmico. r-"-- ' - -.ietou-se o Dr.
André Nunes Júnior como polí-egando-se a r à Câma-
ra Municipal de São Paulo e presidente da mesma, ocasião em que
se interessou pelo Instituto Histórico, então por iniciativa de Er-
nesta de Souza Campos, visando a construção e conclusão do
prédio para o ano do IV Centenário da Cidade a fim de abrigar
o Congresso de História arrolado entre as comemorações previstas.
Na condição de vereador procurou contribuir para o anda-
mento da construção do novo edifício-sede, merecendo o reconhe-
cimento do Sodalício testemunhado na eleição para a categoria
de sócio benfeitor e a aprovação pelo plenário, na sessão de 15 de
setembro de 1951 de voto congratulatório pela apresentação a
Câmara Municipal de São Paulo por parte do prestante edil de
projeto de lei concedendo a quantia de Cr$ 2.500.000,OO (dois
246 REVISTA DO ITSTITCTO HISTORICO E GEOGRAFICO DE S. PAULO

milhões e quinhentos cruzeiros antigos) para auxiliar o término


das obras.
Não só pela gratidão, como pelo valor pessoal do cidadão
culto e político diligente, André Nunes Junior mereceu a atenção
do Sodalicio e teve seu desaparecimento chorado pela população
paulistana e paulista que, realmente, perdeu o homem realizador
dotado do verdadeiro espírito público. Também, mui reconhecido
o Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo presta a memó-
ria de André Nunes Junior sua sentida homenagem.
PROF. PLÍNIO GOMES BARBOSA

O Dr. Plínio Gomes Barbosa teve sua proposta apresentada


em sessão de 5 de agosto de 1931 e aprovada, um mês depois
num mesmo dia 5, quando foi aceito na categoria de sócio cor-
respondente. Entretanto, só a 20 de maio de 1933 tomou posse,
introduzido no salão de atos pela comissão composta dos sócios
Drs. Mata Cardim. Paula Assis e Dácio Pires Correia. Saudou-o
o Presidente Dr. José Torres de Oliveira que salientou os dotes
de inteligência e a capacidade de trabalho do recipiendário, "fa-
zendo votos para que tais qualidades fossem postas a serviço do
Instituto e continuasse a desempenhar brilhantemente a tarefa
que se há impósto". Em resposta, o Dr. Plínio agradeceu as home-
nagens tributadas, "prometendo tudo fazer para corresponder a
confiança que haviam depositado na sua pessoa".
O que foi promessa, tornou-se realidade, nos trinta e sete

+
anos em que integrou o quadro social. Advogado de nomeada nos
auditórios da Capital, professor de humanidades, jornalista, dei-
xou de seu tale ,o e de sua operosidade numerosos estudos divul-
gados principal nte no jornal "O Estado de São Paulo" versan-
do, sobretudo, qdestóes jurídicas e sociais.
Honrou o S3dalicio por quase quatro décadas, tornando-se
digno de jiist~ '- w r méritns intelectuais que exorna-
vam sua p m o m i v a m o remi.inoro de seus tra-
balhos n ã saudosa evocação-de sua memória.
DR. PLÍNIO DE BARROS MONTEIRQ
Embora eleito a 2 1 de junho de 1935, o Dr. Plínio de Barros
Monteiro, tomou posse dois anos após, na sessão de 6 de outubro
de 1937, introduzido no recinto pela comissão de que participa-
vam Plínio Airosa, Salvador de Moya e Sérgio Milliet, sendo sau-
,dado pelo Presidente Dr. José Torres de Oliveira que exaltou a
personalidade do novo membro proferindo êste, magnífico dis-
curso terminando por dizer que se achava "sentado a nossa mesa
como o mais humilde dos nossos comensais, a fim de, conosco,
REVISTA DO IKSTITUTO HIST6RICO E GEOCR6FICO DE S. PAULO 247

comungar nobilitantes ideais que sempre serviram de bandeira


a esta casa de nobres tradições".
Comungou idéias e ideais. Assíduo as sessões e frequente
nas páginas da Revista onde se encontram valiosos trabalhos
como os referentes a "Maioridade de Dom Pedro de Alcântara"
e a "Origem dos povos ameríndios.
Ocupou vêzes várias a tribuna do Sodalício para proferir
conferência, e, aqui, exemplifico com a dissertação sobre Eucli-
des da Cunha, ou peças oratórias eloquentemente elaboradas
como a "Saudação ao Prof. Antônio Piccarolo". Foi designado
para honrosas comissões. Destaco, entre outras, a que estudou a
questão da Mudança da Capital da República, em companhia de
Tomás Oscar Marcondes de Sousa e José Pedro Leite Cordeiro,
atendendo a solicitação da Federação das Associações Rurais do
Estado de São Paulo e do Dr. Jerônimo Coimbra Bueno. Recor-
do-me muito bem dos trabalhos desta douta Comissão que deba-
teu amplamente o assunto, sendo os resultados publicados no
volume LI1 da Revista (1956) acompanhados, também, de meu
voto vencido, longamente justificado às páginas 243 a 264, no
que estava acompanhado pelo eminente Prof. Francisco Prestes
Maia, então ex-Prefeito da Capital.
Estudioso, o Dr. Plínio de Barros Monteiro impôs-se pela
privilegiada cultura à admiração dos que o ouviram e o aplaudi-
ram. muitos ainda entre nós lamentando sua definitiva ausên-
cia física, relembrada contudo na imagem deixada pela sua inte-
ligência e por seu constante labor, agora objeto do nosso preito
de sentida saudade.

e
FRANCISCO PATI

Do Amparo, onde iniciou os primeiros est os. Vocacionado


para o magistério, Formado, aos 17 anos, pe a Escola Normal
Secundária da Praca da República, passou a .ubstituto efetivo
no Grupo Escolar "Osvaldo
das do Salto Grande do Para
do-se na Capital exerceu o magistério secundário paralelizando-o
com o jornalismo em que foi Mestre, grande Mestre. Em março
de 1919 matriculou-se na Faculdade de Direito do Largo de São
Francisco diplomando-se a 19 de dezembro de 1923.
Acadêmico de Direito integrou comissão promotora da erecção
do monumento a Olavo Bilac, na esplanada da Avenida Paulista,
dentro do programa comemorativo do 1." Centenário da Indepen-
dência do Brasil em São Paulo. e lhe foi deferida a excepcional
honra de entregar a estátua à Cidade. Presente o Dr. Washington
Luís, presidente do Estado proferiu memorável discurso em que
exaltou a significação do Poeta "como o produto da filtração de
248 RWISTA DO INSTITUTO HISTdRICO E GEOGRAFICO DE S. P A U L O

muitos séculos", a "síntese de todas as perfeições, o homem-pro-


Seta de Carlyle, o homem-deus de Ruskin", concluindo-o com es-
tas palavras: "a mocidade acadêmica, por iniciativa de quem se
alevanta agora êsse monumento, entrega-o a população de São
Paulo, nas mãos de seu governador, não para servir de enfeite,
como obra de arte que é, senão para que se saiba e em qualquer
tempo se proclama que a sua gratidão procurou refletir o alto
merecimento do Poeta".
E Francisco Pati, com a vibrante peça oratória, teve seu
acesso inicial aos Anais do Sodalício. A Revista do Instituto es-
tampou-o no volume XXII consagrado a passagem do Centená-
rio da Independência. Entretanto, mais tarde, sòmente quarenta
e cinco anos decorridos, na sessão de 15 de maio de 1965, Fran-
cisco Pati foi admitido na categoria de sócio Titular.
Ingressou aureolado pela fama: o jornalista insigne, de quem
guardo as melhores lembranças como companheiro em o "Cor-
reio Paulistano"; o festejado poeta de Canção Nupcial e Casa
Paulista; o orador elegante, o erudito e estilista escritor de va-
riada e vasta bibliografia que lhe valeu a láurea de imortal na
Academia Paulista de Letras, notabilíssimo tradutor de Piran-
dello e Dante, o emérito servidor público, enfim o homem e o
cidadão de "lúcida inteligência definidora" que, como bem assi-
nalou Agripino Grieco, possuia "agilidade, justeza e plenitude".
Assim ficou para nós, desta Casa a personalidade de Pati
pranteada e evocada nesta homenagem a sua memória.

PAULO NOGUEIRA FILHO

F
1932. Julho. ~ntardecia. O velho gaãinete de ciências de
tradicional Escola Normal da Praça da República, então Instituto
Pedagúgico "Caet no de Campos", transformado em auditório
para os alunos de improvisado Curso de Emergência para Forma-

i1 que possuia no espaço as


fronteiras da dignidade bandeirante e no tempo as tradições
gloriosas de uma autonomia sempre respeitada e defendida num
Brasil sob a égide democrática jungida ao respeito a Lei.
Ia em curso a Revolucáo, precedida dos acontecimentos de
22 e 23 de maio e da fundacão, a 24, da sociedade secreta M.M.D.C.
em memória de Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo que tom-
baram na mesmíssima Praça da República, e de cuja constitui-
ção inicial fizera parte Paulo Nogueira Filho.
A aula dada por um oficial da Fôrça Pública ia em meio
quando outro oficial adentrando o anfiteatro comunicou que o
Comando Geral das Forças Constitucionalistas precisava de qua-
REVISTA DO INSTITCTO HISTORICO E GEOGFAFICO DE S. PAULO 249

tro voluntários para missão reservada no Setor Sul. Adianta-


ram-se Breno Ferraz do Amaral, Paulo Nogueira Filho e quem,
neste momento, ocupa a tribuna. Tinha eu 19 anos de idade.
Assim conheci Paulo Nogueira Filho. Também, logo o perdi
de vista. Passou a desincumbir-se de seus sérios encargos no Sul
do País e fora das lindes nacionais. Paulo Nogueira, 33 anos in-
completos.
Depois, sempre o mesmo paulista, o mesmo grande paulista
que viria ser o maior historiador de epopéia constitucionalista
com os volumes da valiosa "Guerra Cívica"; sempre o idealista,
o grande idealista de "Ideais e lutas de um burguês progressis-
ta", o burguês progressista como realçou Ernesto de Moraes
Leme, nosso eminente Vice-presidente em saudacão ecadêmica;
o "burguês progressista, nascido na abundância e que vive piedo-
samente o drama dos pequeninos"; o idealista que legou a Cons-
tituinte os notáveis discursos sob a epígrafe "Autêntico regime
de cooperação social no Brasil"; o político sempre político por
ser visceralmente patriota que por amor a São Paulo e a ordem
constitucional sofreu exílios; o escritor, sempre vocacionadamen-
te historiador, desde o verdor dos dezessete anos quando profe-
riu, neste Sodalicio sob os auspícios do Grêmio Literário Álvares
de Azevedo, a 1." de agosto de 1916, conferência sôbre "O Clube
Repúblicano de Campinas"; o industrial que em 1922 ao elabo-
rar o Regulamento Interno da Companhia de Sêda Santa Bran-
ca, "estabeleceu a participação dos operários na produção e nos
lucros da empresa, assim como salário mínimo, o qual, mesmo
quando não atingido, na execução das tarefas, serviria, contudo,
de base para o pagamento mensal"; o de esplendo-
rosos princípios para solução dos
dos em "Autogestão", tão bem
Ernesto Leme, a quem
pretendeu levar a curul governamental do Estrr 3 na 2." Conven-
ção Estadual da União ~emo- ciona , - 7 , aliás saiu

eleito Almeida Prado, por haver declinado da indzação nosso


eminente consócio Dr. Ernesto Leme.
Paulo Nogueira Filho chegou ao Instituto, como sócio Titular,
aos 16 de março de 1966 e a Academia Paulista de Letras aos 18
de setembro de 1968. Inesperadamente, faleceu no ano seguinte
lagos após encerrar-se o ano social correspondente ao milésimo
em curso, ficando presentes seu exemplo de idealista, patriota,
de homem de ação, de cultura e inteligência, lutando por um
mundo melhor e servindo diligente e eficientemente sua gloriosa
terra natal. Com a saudade imensa de Paulo Nogueira Filho
rende o Sodalício preito de homenagem a memória do incansá-
vel lidador.
IBRAHIM NOBRE

Quando êle foi grande?


Desde que nasceu na "rua direita da Sé para o Chá"
e foi sempre a grata evocação do velho São Paulo.
Exemplo na vida pública.
Lição de caráter.
Espelho de virtude.
Guardião da Justiça.
Prègador da caridade.
Gigante na oratória.
Vertical moral e fisicamente.
Luzeiro de civismo.
Hierático.
Verbo.
Ação.
Amigo dedicado.
Pai extremoso.
Coração amplo,
denominador comum da generosidade.
Esposo mergulhado na saudade, na perpétua lembrança
da querida e indeslembrável companheira
para a qual voltou feliz
ao se fazer silêncio, silêncio, silêncio.

.
Culto, i? 'oli~ente,estudioso: sua Terra, seu Mundo, sua

Afeicões: Instituto, Academia


1932... 1932. . . 1932
"Clarim! clareira^! Clarão"
O povo ouve Ibrahim: responde sim, com dignidade
São Paulo, aviltado, nunca!
O Tribuno de 22 e 23 de maio, o Tribuno de uma
Jornada que não terá fim.
Exílio. Nostalgia. Poesia no coração de Ibrahim.
Ibrahim . . . São Paulo: comunhão de amor, unidade de
sentimento.
REVISTA DO INSTITUTO HIST6RICO E GEOGRÁFICO DE S. P A U L O 251

Ibrahim: A Fé: espiritualmente conformado.


Desejo de Paz. A Paz anseiada pelo espírito tranquilo.
Ibrahim . . . A Poesia.

A mensagem final:
"Quando eu fór silêncio minha Terra,
quando a Paz me acolher no Teu Seio,
ai, então, mais próximo de Ti,
Tu ouvirás, no fremir do meu pó,
Teu coração".

Quando Ibrahim foi grande?


Sempre, sempre, sempre.
Eterno com São Paulo,
eternamente para São Paulo!

PROF. DR. ERNESTO DE SOUZA CAMPOS

Abriu-se o milésimo em curso com rude golpe que atingiu


o Sodalicio e o Silogeu paulistas: o falecimento do Prof. Dr.
Ernesto de Souza Campos, figura exponencial da Cultura e da
Ciência, fecundo pesquisador, de labor infatigável em diferen-
tes campos de atividade.
Poucos terão vivido intensamente com operosidade marcante
e incomum. Foi impressionante a dinâmica característica de sua
personalidade. Lastreado por formação rigorosa e cuidada, dedi-
cado ao estudo e ao trabalho, investigador de laboratório, perqui-
ridor de arquivos, assíduo frequentador de bibliotecas, especia-
lista num gabinete técnico e especialista num4gabinete cientifi-
co, Ernesto de Souza Campos foi imensurável. ,Deixou obra múl-
tipla que paraleliza com a profunda e extensa soma de conheci-
A.
mentos de que foi dotado um dos maiores e ais eruditos polí-
grafos brasileiros.
Caráter nobilíssimo, ínteprãipbro, finissi convivência,
simplíssimo no trato que rivalizava com a co=áo brilhante,
amena e, ao mesmo tempo, rica de conteúdo. Amava a Ciência,
a Literatura, a História e as Artes Plásticas. A casa em que resi-
diu refletiu seus interêsses maiores e dignos.
Nessa casa da rua Bela Cintra viveu-se o seu mundo de
preocupacóes e de tievotamento às coisas da inteligência. Anfi-
trião e Mestre, pontificava sereno. objetivo e conciliador nas in-
deslembráveis reuniões do PEN Clube de São Paulo. a que fui
levado, por suas mãos. como cooperador e, depois titular, na vaga
deixada por Edward Camilo.
Engenheiro e médico, planejador e realizador, imortalizou-
se em monumentos de capacidade e operosidade. Bastaria, entre
252 REVISTA DO INSTITUTO HIST6RICO E GEOGRáFICO DE S. PAULO

numerosos exemplos que lhe granjearam nomeada nacional e


internacional, lembrar o planejamento do Centro Médico do Ara-
cá, o planejamento e execução da Cidade Universitária até outu-
bro de 1954, e a construção da sede atual dêste Instituto Histó-
rico e Geográfico de São Paulo, quando presidente efetivo, do
qual mereceu com suma justiça e absoluta justeza, a nímia prova
de reconhecimento ao ser eleito, sob aplausos gerais, Presidente
de Honra.
Os filhos e mais membros da família ergueram merecido
monumento a memória do excelso patriarca ao saudarem os
cinquenta anos de trabalho realizador, publicando em volume
os resultados da assombrosa atividade e as referências a ela per-
tinentes. Comemorou seu grande meio século feliz, felicíssimo,
ao lado de sua incentivadora, desvelada e amantissima esposa
D. Celestina Erito de Souza Campos, e, ainda, vivo e dileto filho
que lhe seguia as pegadas João Ernesto de Souza Campos de
quem tive a honra de haver sido seu professor na Faculdade de
Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo.
Convivi muito próximo, muito intimamente com a veneran-
da e respeita6ilíssima figura: juntos umedecemos os olhos por
mais de uma vez diante de problemas que provocaram impactos
em seu bondoso e sofrido coração. Lembro-me, quando lhe faltou
o filho querido. "Minha vida acabou", disse-me êle com lágrimas.
Mas, os amigos cercaram-no com muito carinho e souberam fa-
zê-lo superar o transe doloroso. Destaco três a quem êle muito
estimou: Eurico Branco Ribeiro, Aureliano Leite e Ernesto de
Moraes Leme. A Ernesto, considerava um verdadeiro irmão. Er-
nesto de Moraes Leme prefaciou-lhe a bela e monumental "His-
Paulo" e recebeu-o na Academia
itorioso que firmou reputação e

sa olória ficou, a licão e a elória


de ~ r n e i t o-d Pamnos fiei-a expressão latina que Srigiu
em lema: \
"Nec momentum sine linea".
E, aqui no Sodalício, nenhum dia se passará sem que reve-
renciemos sua memória sempre presente nesta Casa.
CEL. LUÍS TEN6RIO DE BRITO

Servidor emérito do Sodalício. Teve a assinalar, na vida do


Instituto, sua permanente, ininterrupta, constante dedicação no
cargo de 1." Secretário, assessorando diligente e proficientemente
a Presidência. Era rigoroso e impecável no cumprimento das
tarefas que lhe cabiam no âmbito da Diretoria em que se inte-
grou por cêrca de duas décadas.
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Ingressou, homem realizado, alcançando a categoria de Gran-


de Benemérito. Filho do Estado de Pernambuco transferiu-se
para São Paulo, fazendo completa e gloriosa carreira na Força
Pública galgando-lhe o supremo posto hierárquico. Honrou a
Jornada Constitucionalista de 32, legando o exemplo de oficial
competente, bravo e esclarecido comandante. Foi ajudante de
ordens de três presidentes, Washington Luís, Carlos de Campos
e Júlio Prestes. Graças ao prestígio conquistado pelos seus dotes
de administrador e de operosidade exerceu por vários anos a
Presidência da Cruz Azul, instituição de beneficência destinada
a oferecer assistência médica e hospitalar aos membros da glo-
riosa Corporação Paulista
Militou, com êxito, na política, tendo sido eleito Vereador a
Câmara Municipal de São Paulo e Prefeito de Itapecerica da
Serra, onde se realçou pela eficiência e probidade.
Apreciava excursionar pelo pais, realizando viagens de longa
extensão como uma delas conhecida por "Caravana Comandan-
te Tenório de Brito", por êle chefiada e que se dirigiu ao Nor-
deste. revestida de cunho social e cultural, como ficou documen-
tado pelas publicações de Tito Lívio Ferreira e Fausto Ribeiro
de Barros. dela participantes, e pronunciamento do ilustre orador
do Sodalicio, depois seu Presidente, Dr. José Pedro Leite Cordei-
ro. Mais recentemente, foi a Amazónia.
Consagrava particular atenção ao estudo de vultos e fatos
do nosso passado, legando a historiografia oportunos e interes-
santes trabalhos, principalmente como memoralista dos mais au-
torizados. Uma de suas obras no gênero intitula-se precisamente
"Memórias de um Ajudante de Ordens", prefaciada por Tito Lívio
Ferreira.
A Revista do Sodalício é o melhor e o m a , x testemunho de
seu labor contínuo. E testemunho honroso.
Quando, entre nós, celebrou seus : recebeu
magníficas demonstrações de aprêço de seus con des, notabi-
lizando-se as orações do ilustre Cel Arrisson de Sousa Ferraz
que lhe sintentizou a biografia, do eminente Ministro Romeu
Ferraz em bela saudação, e do ilustre consócio Prof. Vinício
Stein de Campos, também externando a afeição do Sodalício e
a gratidão de São Paulo pelos serviços prestados.
Foi dêste quilate o companheiro que desertou fisicamente
das duas instituições a que se dedicou: o Instituto Histórico e
Geográfico de São Paulo e a Ordem Nacional dos Bandeirantes.
Esta evocação soma, agora, ao preito de reconhecimento já pro-
clamado, o da saudade dos que o estimaram e admiraram.
254 REVISTA DO IKSTITUTO HIST6RICO E GEOGRAFICO DE S. PAULO
-

PROF. DR. CARLOS HENRIQUE ROBERTSON LIBERALLI


As vésperas do encerramento do ano social, o Instituto Histó-
rico e Geográfico de São Paulo foi dolorosamente surpreendido
com o falecimento de um dos mais expressivos valores: o agrada-
bilissimo, culto e inteligente Prof. Dr. Carlos Henrique Robertson
Liberalli. Que companheiro notável ! Que formoso espírito! Que
personalidade de escol!
Admirado e festejado, Liberalli era aplaudido, era querido.
Brilhante expositor, esplêndido conferencista, excelente argumen-
tador, eloquente na sua oratória tranquila e convincente. Domi-
nava o vernáculo com segurança e profundidade. Tinha o estofo
literário que tantas vêzes me fêz lembrar Martins Teixeira da
minha adolescência quando perlustrava as páginas de um com-
pêndio de Química, redigido com brilho literário.
Professor e cientista. Homem e cidadão. A cátedra, a tribu-
na e o laboratório eram domínios reajs de quem possuia inesti-
máveis predicados culturais. Um talento, grande talento. E ativo.
E dinâmico. E realizador. Operoso, pródigamente operoso. Subs-
tancialmente operoso.
Esta Casa ouvia-o religiosamente e honrava-lhe a sabedoria.
Elegante no porte e no trato. Tinha personalidade, grande
e característica personalidade.
A Revista do Sodalício, as poliantéias do Sodalício, e tantas
publicações de cultura geral e especializada documentam a valio-
sa e primorosa produção intelectual, literária e científica, de
Carlos Henrique Robertson Liberalli. São incontáveis, todas de
alto merecimento. Esplêndidas contribuições. Qualquer recen-
são, ora feita, seca incompleta e não daria a dimensão da obra
de Liberalli.
$i ,.
Sua carreira niversitaria
'
.
tem o brilho da trajetória de um
astro fulgurante t-ue deixa no presente luz para o futuro.
Livre D y o r Catedrático da Universidade de
são Paulo p ou relevantes, r e ~ t i s s i m o sserviços a causa da
Cultura e da Educação.
Privei da amizade de Liberalli aqui no Sodalício e no Conse-
lho Estadual de Educação, onde se projetou, igualmente, n a con-
sideração de seus pares, firmando-se e afirmando-se pelas cre-
denciais sobejamente conhecidas.
Membro do Conselho Universitário e representante do Go-
vêrno do Estado na Coordenação Regional do Projeto Rondon,
merecera a indicação para compor a Comissão oficial encarre-
gada de elaborar o Programa de Educação Moral e Civica. Sen-
tiu-se eufórico pela oportunidade oferecida de poder, mais uma
vez, e sempre, ser Útil à juventude, a mocidade, que estimava e
REVISTA DO INSTITUTO HIST6RICO E GEOGRAFICO DE S. PAULO 255

queria ver no caminho do bem, na sociedade para o bem da


sociedade.
Seu inesperado desaparecimento, na verdade, foi sensível
perda para a Ciência, para as Letras e para História, para a
Cultura, enfim.
Um dos estabelecimentos de ensino do Estado já lhe honra
a memória que o Instituto homenageia reverentemente cheio de
gratidão e profundamente emocionado. Se sua vida foi um
exemplo de amor ao estudo e de trabalho realizador, seu espi-
rito, sempre evocado, prosseguirá como estímulo e fórça para
não descrer que os homens valem pelo pensamento e ação e se
perpetuam n a gratidão nos vivo spelo que legaram em idéias
e obras!

Cumprida a missão. Oremos. Sursum corda. Corações ao


alto. Unâmo-nos na mesma comunhão de sentimento para hon-
rar nossos mortos. Êles são dignos de nossa saudade e de nossa
veneração.
Êles são dignos e nós Ihes seremos reconhecidos.
Êles nos continuarão a governar, orientando-nos com os
exemplo se lições sempre presentes.
Honrêmo-los, para maior glória deles, para maior conforto
nosso.
Que fique entre nós a imperecível memória dos nossos mor-
tos, dos nossos queridos mortos.
FUNDAÇÃO DE SÃO PAULO
Alfredo Gomes

No fiel cumprimento de inspirado dispositivo estatutário


reune-se, neste 25 de janeiro de 1970, o Instituto Histórico e Geo-
gráfico de São Paulo, para, em Sessão Magna, rememorar o faus-
toso episódio da chegada, há quatrocentos e dezesseis anos, do
grupo jesuítico que celebrou a primeira missa "numa casa pobre-
zinha e muito pequena no dia da Conversão de São Paulo e, por
isso, como escreve Anchieta na Quadrimestre de maio a setem-
bro de 1554, dedicamos ao mesmo (ao Apóstolo dos Gentios) esta
nossa Casa".
Haviam subido os abnegados milicianos da Companhia de
Jesus em atendimento a sábia determinação do Superior Padre
Manuel da Nóbrega que decidira mudar os meninos do Colégio de
São Vicente para Piratininga, ampliando os servicos da catequese
em povoação nova, instalando-os em casa feita para os padres
pelos fndios, tendo à frente seu próprio Chefe, o Principal Mar-
tim Afonso Tibiriçá.
Esta foi a Casa-Colégio, onde desde janeiro - é ainda An-
chieta quem informa -, se acharam mais de vinte, entre os da
Companhia e filhos dos gentios vocacionados para a religião,
uma casa "feita de barro e paus, e coberta de p m a , de 14 passos
de comprimento e 10 de largura", "ao mesmo te-' po escola, enfer-
maria, dormitório, refeitório, cozinha e despensg' que, apesar de
humilde e acanhada não deixava no cora -n r' Dadres e Irmãos
"saudades das casas amplas que os N o s s h em outras
partes". E haveriam éles de apegando-se a santificada terra de
Piratininga, sentir saudades, se lhes eram oferecidas esperança,
coragem e esplêndidos frutos, se a Divina Providência presidia
a venturosa continuidade da modesta semente da futura Metró-
pole industrial da América Latina?
Esta, ao que procura provar Serafim Leite, recentemente
desaparecido do mundo dos vivos, não se confunde com a cabana,
choupana ou rústico abrigo no qual ou junto ao qual realizou-se a
solenidade dos cinquenta catecúmenos, feitos por Nóbrega, em
quem, segundo suas palavras, tinha "boa esperança de que serão
bons cristãos e que merecerão o Batismo". Isto, no dia 29 de
agosto de 1553, na lembrança da degolação de São João, quando
258 REVISTA DO IKSTITUTO HISTORICO E GEOGRÁFICO DE S. PAULO

Nóbrega se encontrou "em uma aldeia onde se ajuntam nova-


mente e apartam os que se convertem" e "onde tenho pôsto dois
irmãos para doutriná-los". Não há exagêro, pois, em se admitir
a relação entre a comemoração e uma justa homenagem ao
régulo João Ramalho, por cuja situação Nóbrega vivamente se
interessava na carta do último de agosto de 1553 que relata tão
importante acontecimento.
Coexistiam, acentua Serafim Leite, "na casa de São Paulo
de Piratininga em 15%:
1 - A catequese dos Índios, feita pelos Jesuítas em
geral;
2 - A Escola de Meninos (ler, escrever e cantar), de
que era Mestre o Ir. Antônio Rodrigues;
3 - A Classe de Latim para os da Companhia ou pro-
váveis candidatos a ela, de que era Mestre o Ir.'
José de Anchieta".
Pouco tempo antes, cumprindo ordens de Nóbrega, já fixado
na Casa de São Vicente, o Padre Leonardo Nunes viera ao Cam-
po, a umas "14 ou 15 léguas" de que houvera noticia de "alguma
gente derramada e passava-se o ano sem ouvirem missa e sem
se confessarem e andavam em uma vida de selvagens". Rela-
ta-o o tenaz jesuíta em carta de novembro (?) de 1550. E conse-
gue impor certa disciplina espiritual a gente de João Ramalho,
embora censure a conduta do Patriarca, concordando com o "Vi-
gário da terra" que excomungara o famoso régulo pela sua vida
irregular, amancebado com várias índias das quais se destaca
Bartira ou Isabel.
eração do velho Caiubi e ter-se-á com o
de Paiva o conjunto das principais figu-
tiram o nascimento do modestíssimo burgo
inga que estava em todos e todos esta-
/
vam nele, o si1-
efêmero e q
pequeno povoado que não mais seria o
gnorado fundamento martim afonsino de cêrca
de vinte e um anos antes, segundo o "Diário de Navegação" de
Pero Lopes de Sousa, e nota de Eugênio de Castro, no mesmo
sítio, "9 leguas dentro pelo sartam, a borda de um Rio que se
chama Piratininga".
A semente germinaria, vingaria, cresceria forte, vigorosa,
morena, mameluca, fecundada pelo intrepido lusitano, acarinha-
da no regaço tisnado das Bartiras, de cujos seios firmes sorveria
o leite da liberdade que a tornaria múltipla, permanente, eterna.
Cresceria rumo ao futuro veloz e seguramente porque suas ori-
gens abençoadas pelo semeador Nóbrega, santificadas pelo Após-
tolo que a batizara - o Apóstolo dos Gentios -, e pelo Apóstolo que
a ela se consagraria com todo o amor - o Apóstolo das Selvas.
REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO E REOGRAFICO DE S. P A U L O 25%

Este, Anchieta, merecera a graça de antever a esplêndida


trajetória em certa tarde, rodeado de seus queridos curumis da
Escola de Meninos do Irmão António Rodrigues.
Não é difícil reconstituir a cena, num largo vóo da imagi-
nação:
A tarde morria docemente na suave colina que se quebrava
para as bandas do Tamanduateí e se alongava para as do Ahan-
gabau, estirando-se entre a taba de Tibiriçá e a planura oposta
de mata rala e batida, estreitando-se no quadrilátero em que se
erguia a domuncula mater, onde se situava a Domum jesuitica.
Do tuguriolum, a elementaríssima escola, vinham vozes
frescas, cantando a Salve-Rainha que encerrava a lição da tarde.
Não tardaram a aparecer o Irmão Antônio Rodrigues satisfeito
com os resultados da classe heterogêna que estivera a soletrar,
a garatujar, e, com mais gósto, a cantar. A alegria estampava-
se-lhe no rosto amorenado pelo Sol, no seu andar sertanejo. Com
êle, acompanhando-o, os iporangetê kunumí - os lindos meni-
nos, todos dirigindo-se ao Irmão Anchieta que, sentado, sobre um
tronco caído, olhos postos no céu, parecia empolgado, tão absorto
estava, por uma visão de seu Jesus virtuoso, e de sua bondosa
mãe, Maria. Os lábios entreabertos traduziam a constante súpli-
ca do fervoroso devoto:

Jandé rausubaretê
Tupansy! Maria,
Jabaetê paí lesu
Ama-nos muito,
Mãe de Deus, Maria,
Excelso pai Jesus.
Rodearam-no Antonio Rodrigues e os menino.. sem que fizes-
sem o menor ruído.
A natureza respeitava aquêle momento.Â%Samcostumeira
do cair da tarde abstivera-se de acariciar amorosamente as árvo-
res da clareira tão belamente ornamentada pelas tenras e leves
aleluias de foliolos oblíquos, ovais, acuminados, com algumas pu-
bescências ao redor; por dois velhos e altos angelins, que, desgar-
rados da Serra do Mar, vicejavam dominando a colina com a
ramagem enriquecida pelas múltiplas folhas, voltada com sauda-
de para os lados do Sul; por frondosos araticuns, de copa larga
e arredondada, tão úteis aos selvícolas que Ihes aproveitavam a
fruta e a forte fibra; por cedros de grande talhe com as derra-
deiras flores pedunculadas a par de eretos e elegantes jequitibás
de porte altivo, alguns com ramos pubescentes, por serem jovens,
erguendo-se com a majestade de rei da floresta, indicando terra
260 REVISTA DO INSTITUTO HISTORICO E GEOGRLFICO DE S P A U L O

de boa qualidade e propiciando aos selvícolas madeira para a


construção de pirogas. Muitos os ipês, de talhe pequeno, médio
ou grande, de casca enrugada ou lisa, de folhas digitadas ou pe-
cioladas. Manacás com flores roxo-escuras, roxo-claras quase
brancas, enfeitavam os barrancos da colina, alegrando seus
lugares obumbrados e palmeiras emprestavam graça ao outeiro,
embelezando a paisagem. Nenhum falfalhar de folhagem naquele
momento.
Os próprios pássaros quedaram-se silentes. Um "joão de
barro" curioso pôs-se a espiar Anchieta da janela de sua bizarra
e sólida habitação encastelada na juntura de dois altos ramos do
solitário iacarandá do campo, enquanto um bem-te-vi suspendeu
o estribilho com que denuncia os marotos de toda a má sorte.
Em outras árvores, aos grupos cessaram a conversa - naqueles
tempos só havia mesmo conversa - araras, papagaios, maita-
cas, periquitos e tuins, e outro grupo folgazão de hábeis dança-
rinos acolheu a ordem do tangará-chefe, ficando todos com as
cabecinhas escarlates voltadas para baixo a olhar o jovem je-
suita que contemplava o céu. Nem mesmo saltitantes ticos-ticos
que andavam aos casais continuaram a silabar sêcamente o tic . . .
tic, do nome onomatopáico e divertidos tisios prosseguiram no
malabarismo dos saltos verticais nos pequenos galhos em que
haviam pousado.
Eis que um silvo zuniu rompendo a quietude da natureza.
Pouco além do lugar em que estava Anchieta rodeado dos cum-
mis, um índio entesara o arco e frechara o ar buscando vistosa
e imprudente arara. Anchieta acompanhou a seta veloz que ga-
nhava o espaço, subindo, subindo, parecendo-lhe que, ao contrá-
rio do natural, umentava, crescia, encorpava, alcançava di-
mensões consid S. Não mais a frecha implumada arrojada
a altura para a prêsa. Anchieta abaixou os olhos deten-
do-os na caban casa, a Casa dos Padres, e alevantando-os
viu a d e n s ee massa , em que se transformara a alada
seta. Mod se, definindo novos contornos.
Anchieta estremecendo, suspirou longamente. Erguendo-se,
assustados, o Irmão Antônio Rodrigues e os meninos acocorados,
perguntaram-lhe, com aquelas palavras grafadas três séculos de-
pois por Fagundes Varela reconstituindo a Visão do jovem
jesuita:
"Oh! santo Mestre!
Que tendes?
Anchieta responde, sorrindo:
Nada. 13 cedo!
É cedo ainda".
E Varela completa a descrição.
REVISTA DO INSTITUTO H I S T ~ R I C O E GEOGRAFICO DE S. P A U L O 261

"Depois, volvendo os olhos As campinas,


belas campinas que prezava tanto,
assim continuou: - Não tarda o dia
que êstes amplos sertões, êstes desertos
se cobrirão de granjas e de herdades,
de férteis plantações. Um povo livre
será senhor das terras planturosas,
onde pobres romeiros, levantamos
nossas precárias, miseráveis tendas.
Oh! meus amigos!

Não ouvis um rumor festivo e Iêdo


no perpassar dos zéfiros suaves
que sopram do Ocidente? Nos vapores,
que o sol tinge de púrpura brilhante,
não vêdes o painel de um novo mundo,
coberto, não de aldeias belicosas,
porém de vastos templos e castelos,
ginásios e arsenais, belas estátuas,
e aquedutos cobertos?. . . Salve! ó gênios
que afastais as cortinas do futuro!"

Por ocasião do IV Centenário de São Paulo e instalação do


Congresso Mariano, o Sumo Pontífice Pio XII, a certa altura de
sua Rádio Mensagem, salientou:
"Neste continuo florescer de devoção m a i a n a não podia
deixar de assinalar-se a cidade de São tbaulo, que tem
por fundador o apostólico Manuel da ~ R b r e ~ primeiro
a,
panegirista da Virgem Medianeira, de &e conserva ex-
plícita lembrança a história (cfr. Se afi- Leite S. J., na
Revista da Universidade Católica d b r b u m " , L.
VIII, 1951, pag. 258), e entre os imediatos colaborado-
res na fundação venera a Anchieta, o inspirador cantor
De Beata Virgine Dei Matre Maria".

Oportuno, oportunissimo, lembrar palavras de Sua Santida-


de, na circunstância em que se abre e se comemora o Ano de
Nóbrega, nascido a 18 de outubro de 1517 e falecido no mesmo
dia e mês do ano de 1570, após cinquenta e três anos de vida
terrena, sempre sob a tutela do grande Evangelista São Lucas.
Curioso, assinalar a ambiência espiritual envolvente do burgo
piratiningano através de datas relacionadas com os vultos vin-
culados às suas origens e primórdios, postas em breve evidência
262 REVISTA DO INSTITUTO HIST6RICO E G E O G R I F I C O DE S. PAULO
- - --

na conformidade da sequéncia cronológica correspondente aos


meses:
a 25 de janeiro de 1554, dedicação da Casa dos Padres a
Paulo, do que resultou denominar a habitação, o Colégio
e o povoado, assinalando-se a efeméride comemorativa
da Conversão de Saulo e o início do núcleo que se con-
verteria numa das maiores cidades do mundo atual;
a 19 de março de 1534, nascia José de Anchieta, nesta data
devocionária do chefe da Sagrada Família, o primeiro,
o ilustre descendente de Davi, patrono da Família e da
vida doméstica, protótipo do trabalhador, modélo em
sua oficina, vaticinando a trilha do esforçado e operoso
jesuita e da amada e dileta aldeia para a qual tanto
concorreu, a aldeia que seria imenso lar e vasta oficina
de continuo e próspero labor;
a 9 de junho de 1597, Anchieta, em meio a consternação dos
que o assistiam, morre santamente em Reritiba, dia em
que os mártires irmãos Primo e Feliciano merecem a
auréola celestial pelo edificante exemplo de fidelidade e
confianca em Cristo como seus excepcionais paladinos,
reafirmando-se e confirmando-se, igualmente, a vocação
espiritual do burgo fiel as suas origens, as suas tradi-
ções, aos seus trabalhos pela grandeza e felicidade de
uma Pátria que assombraria o mundo;
a 30 de junho de 1554, faleceu num naufrágio, o famoso
Abarebebê, o Padre Leonardo Nunes, da confiança de
Nóbreg que retomava ã Europa para dar noticias e
conta que se passava no Brasil, entregando a alma
ao C r i t o r no dia consagrado pela Igreja ao mesmissi-
mo Sa o da cidade de Tarso, agora lembrado por haver
sofrido qeu martírio no ano de 67. Mais uma vez, um
j e s . do Colégio de São Vicente e o pri-
m ro a lornadear pelo Campo de Piratininga, onde en-
controu João Ramalho, em Santo André, e que, provavel-
mente, terá indicado ao Superior o local dos fundamen-
tos da Aldeia piratiningana;
a 29 de agosto de 1553, Nóbrega que desde muito antes
tinha os olhos postos no Campo, distante doze léguas de
São Vicente, visando juntar, numa, três povoações, para
"melhor aprenderem a doutrina cristã", levou a térmo
seu intento "no melhor lugar que se podia escolher", isto
no dia da Degolação de São João Batista, o Precursor que
a lasciva Salomé, por injunçáo da escandalosa Hero-
díades, levou ao martírio, Nóbrega solenizou a lembrança
REVISTA DO INSTITUTO HISTúRICO E GEOGRÁPICO DE S. PAULO 263

do sacrifício com o ressoar festivo da dligente inicia-


ção de aspirantes ao batismo, o sacramento de que se
fizera arauto o filho de Zacarias e Isabel, assinalando a
preparação da Aldeia para o seu batismo e ingresso nos
mistérios da formação moral e intelectual a que se
acresceu, com o decorrer dos tempos, o progresso ma-
terial;
a 18 de outubro de 1570, após despedir-se de seus Irmãos
em Cristo e de outras pessoas amigas, dizendo-lhes
adeus, Nóbrega confirmava o sentido da resposta a per-
gunta dos que lhe indagavam para onde ia, na preocupa-
ção açodada das mencionadas despedidas, "ia para o
céu". E foi no dia de São Lucas Evangelista, mais um
Apóstolo a somar interésse na proteção do burgo pira-
tiningano que se desenvolveria na ambiéncia saudável
do cristianismo;
a 21 de dezembro de 1584, também no Espírito Santo, mas
em Vitória, aliviou-se do sudário corpóreo, o modesto
Padre Manuel de Paiva, parente de João Ramalho, no
dia de um outro Apóstolo, dotado de bom coração, que

-
passou a História por ser desconfiado e precavido, Tomé
que, alguns, sem profundidade apologética, erigem em
Patróno d a Pesquisa Cientifica, num lamentável e
crasso êrro, tomando o humilímo pescador do lago de
Genesaré, na Galiléia, como um precursor da cartesiana
dúvida metódica. . . Assim como Cristo propicioli a
Tomé que, na aparição, lhe pusesse a mão sobre Seu
coração, assim, Tomé acompanha, no céu. as palpita-
ções do ciclópico e dinâmico coracão & cidade que pulsa
Amor, Prosperidade e Paz.
Se se atentar, pois, para as datas de nascipento e morte de
Leonardo Nunes, Nóbrega, Anchieta e Manuel le Paiva, associa-
das as das solenidades dos catecúmenos, a de 1553,
e da dedicação da Casa-Colégio, a 25 de janeiro de 54, a magni-
fica. e querida cidade de São Paulo, posta sob o nume tutelar de
Apóstolo dos Gentios tem a preservar-lhe os gloriosos e imortais
destinos, além dos prestigiosos oragos, João Batista e Paulo, mais
São Lucas Evangelista, São José, os mártires Primo e Feliciano e
São Tomé. Com tal proteção, valorizada, ainda, pela devoção de
Nóbrega e Anchieta a Virgem Maria, e prestante consagração de
serviços ao doce e meigo Jesus, o burgo Piratiningano nasceu e
cresceu abençoado.
Êste é o ano de Nóbrega. Não ficará esquecido o "último
Comendador de Sanfins do Minho", o grande varão apostólico,
santo, igualmente pelas benemerências dispensadas a São Paulo
264 REVISTA DO INSTITUTO HISTQRICO E GEOGRbFICO DE S. PAULO

e ao Brasil, o antigo Procurador dos Pobres da Companhia de


Jesus, o peregrinador de Salamanca e de Santiago de Compos-
tela, o pregador da Beira e do Minho, o exercitador dos ministé-
rios espirituais como diretor de almas, o jurista meticuloso que
analisou proficientemente o processo da anexação de bens ecle-
siásticos ao Colégio de Coimbra, o chefe da Primeira Missão jesuí-
tica na América e no Brasil, o fundador da Província do Brasil,
o estadista que, levando diante de si a bandeira de Cristo, fundou
e consolidou cidades, e apazigou belicosos ânimos de rudes sel-
vagens, orientado a catequese e agindo pessoalmente, com bra-
vura, inteligência, compreensão e fé, o Primeiro Provincial da
Missão do Brasil, nomeado por Santo Inácio em 1553, o Chefe e
Condutor de Homens, o escritor que brindou a literatura brasi-
leira com o esplêndido "Diálogo sobre a Conversão do Gentio",
de saboroso e apreciado estilo.
Não ficará olvidado, como lamentavelmente, ocorreu no
tricentenário de sua morte, aquêle que, no dizer de Capistrano
de Abreu, iniciou obra sem exemplo na história e se fêz o pri-
meiro e maior elo da unidade do Brasil nascente, o Brasil Lusi-
tano balbuciante, indefeso, aquéle Nóbrega que, num ato de peni-
tência, levou o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, a votar
proposta no sentido de a Prefeitura do Distrito Federal (Rio de
Janeiro) erguer "expressivo monumento", num movimento inspi-
rado por Vale Cabral, Capristrano, Joaquim Nabuco e outros, e
culminoso com a glorificação de Nóbrega na sessão de 26 de
maio de 1928, porque, entre muitos argumentos da justificativa,
era preciso homenagear-se
aquêle "que é considerado, no sentir unânime dos histo-
mais perfeita síntese dos sentimentos de fé,
bravura e abnegação, com que foram arga-
as alicerces da Capital do País";
ita humilde que, segundo Teodoro Sampaio,
superou oróprio Governador Tomé de Sousa, na sua
a t u m o r a ;
aquêle que "suplicava a El-Rei mandasse ao Brasil ho-
mens que quisessem bem a terra e aqui ficassem para
sempre";
aquêle pioneiro, devassador do vale do Tietê, "o inicia-
dor, o chefe, o guia dessa obra quase sobre-humana que
foi a edificação moral e social do Brasil".
Assim proclamaram Eugênio Vilhena de Morais, Afonso Celso,
Ramiz Galvão, Max Fleiuss, Agenor de Roure, Calógeras, Solidó-
nio Leite, Alfredo Valadão, Miguel Calmon du Pin, Afrânio Pei-
xoto, Eugênio Teixeira de Castro, Edgard Roquette-Pinto, Hélio
Lobo, Delgado de Carvalho, etc.
REVISTA DO IKSTITUTO HISTÕRICO E G E O G U F I C O DE S. P A U L O 265

E quantio renovado por Vilhena de Morais, o voto de 1928,


foi êste plena e entusiasticamente confirmado no IV Congresso
de História Nacional de 21 a 28 de abril de 1949, recebendo a
moção, reproduzindo os dizeres da anterior (de 1928) os nomes
dos Presidentes e membros da Direção de numerosos Institutos
Históricos, a começar pelo Brasileiro, e dos congressistas que dela
tiveram conhecimento, mencionando-se, aqui, para não alongar
a relação, entre os de São Paulo, José Carlos de Macedo Soares,
Ernesto de Sousa Campos, José Pedro Leite Cordeiro e Olga Pan-
taleão, não a subscrevendo Taunay por não estar presente.
Dois monumentos foram erigidos a memória de imperecivel
de Nóbrega: Serafim Leite, há pouco desaparecido, e ao qual se
presta sentida reverência de saudade e aprêço, na "História da
Companhia de Jesus no Brasil" e Afonso de Taunay na valiosa
publicação comemorativa do Quarto Centenário da Fundação de
Santo André da Borda do Campo, intitulada "João Ramalho e
Santo André da Borda do Campo.
Já está constituída, sob a presidência do eminente historia-
dor Aureliano Leite, presidente do Sodalício, a Comissão Executi-
va para as comemorações do IV Centenário da Morte do Padre
Manuel da Nóbrega, como também se encontra em curso, sob a
direção do mesmo ilustre Presidente, a Poliantéia alusiva. E,
ainda, fundou-se há dias, a Associação Padre Manuel da Nóbre-
ga com o mesmo objetivo, retomando a bandeira desfraldada por
Tito Lívio Ferreira que significativamente fixou, em bela inspi-
ração, o êxtase de Nóbrega no cimo do
"verde engaste,
onde a estrêla dos filhos de Loiola
fulge, acesa, no topo da restinga".
"Padre Manuel da Nóbrega entrepara
um momento no alto da colina "J
alonga o olhar pela paisagem clara
e sua alma toda se ilumina". 1
este milésimo será o do ciclo nobreguense em que se farão
ouvir vozes autorizadas ou se lerão páginas documentadas ver-
sando aspectos fundamentais da vida e obra do Fundador e Pri-
meiro Provincial da Província do Brasil, retratando-o física, moral
e religiosamente, salientando suas emprêsas, sua preocupação
pelo bem público, sua cultura e seus trabalhos literários, suas
particularidades, sua atuação em São Paulo, na cidade de São
Sebastião, no Brasil, enfim, seu espírito apostólico e sua voca-
ção bandeirante.
Não mais haverá a palavra de Taunay nem a de Sousa Cam-
pos que já deixaram testemunho sobre Nóbrega, mas estarão
266 REVISTA DO IKSTITCTO HIST6RICO E GEOGRÁFICO DE S. PAULO

presentes, por certo, Aureliano Leite, Leite Cordeiro, Tito Lívio


Ferreira, Veiga dos Santos, Me10 Pimenta e outros.
Louve-se, pois Nóbrega, o "Parens Provinciae Brasiliae", o
"Primeiro Apóstolo do Brasil", na qualificação dada por Simão de
Vasconcelos, ou o "Pai de todas as cristandades do Brasil", con-
forme o jesuita e escritor Padre Antônio Franco, no resgate de
uma divida que perdurou um século.
Tenha-se, porém, em mente a interrogação de Joaquim Na-
brega:
-
buco auando reclamava a alorificacão do Padre Manuel da Nó-
"Antes de tudo, como separar Anchieta de Nóbrega?"
Ela se faz necessária, sobretudo, nesta ocasião em que se
comemora oficialmente o aniversário da cidade e se evocam as
grandes figuras do notável acontecimento. Unindo-as fortale-
ce-se o sentido exato da afirmação de Capistrano:
"Quanto mais estudo Anchieta, mais admiro Nóbrega".
Unindo-as, ter-se-á a justa proporcão da contribuição imortal
oferecida pelo Santo Anchieta, pela audaz Leonardo Nunes, pelo
povoador João Ramalho, pelo Principal Tibiriçá e pelo Superior
da Casa de Piratininga Manuel de Paiva.
Unindo-as, por-se-á em evidência a imensurável gratidão do
nosso presente e do nosso futuro, do presente e do futuro de São
Paulo, que é, na verdade histórica, o presente e o futuro do
Brasil:
Faca-se a união pela voz dos poetas:
Nóbrega
no alto da colina
alonga o olhar
e sua aJpa toda se ilumina
Paiva
na Iium.$de capela pequenina,
a missa oadroeira celebrara
w i o Ferreira)
Apóstolo das selvas! Anchieta! . . .
.....................................................
Tua sublime glória, teu renome,
Xavier do Brasil!
Não há rio, colina, vale ou prado
em todo o vasto solo brasileiro,
que não saiba teu nome!
.....................................................
Tu que serás em breve, sobre o altar,
um sublimado santo!
(José de Sousa Lima Júnior)
REVISTA DO INSTITUTO IIISTúRICO E GEOGEÁFICO DE S. PAULO 267

. . .João Ramalho sorrindo


.....................................................
vai do cacique inquirindo
.....................................................
- Dizem que há muita prata,
muito ouro e muito diamante
.....................................................
- Não meu caro João Ramalho;
.....................................................
há os olhos muito belos
de Bartira esbelta e airosa,
que tem formosos cabelos,
pensativo almo semblante,
que são lindos setestrelos
.....................................................
(Lindolfo Xavier)
Para concluir a saudação a feliz aniversariante
"menina e moça"
"de figura morena de mameluca"
"de nobre durabilidade"
que "vem dos miisculos firmes e tismados de Bartira,
esticados pelo arco livre e forte do Planalto. . ."
(Guilherme de Almeida)
ali da "colina,
na taba guerreira de Tibiriçá"
fêz crescer "dia a dia a aldeia menina,
Bartira do campo cheirando a bonina,
sob a guarda eterna do azul Jaraguá"
e se tornou
a "cidade, a noiva do mundo,
.....................................................
São Paulo, gigante, crescido num
como outro no mundo não há. . . " \
(Oliveira Ribeiro Neto)

Apenas como o Poeta, como Guilherme de Almeida, há-de se


proceder a oferenda:
"Que poderei eu dar?. . .
- Apenas êste meu
sagrado orgulho de ser sempre, e unicamente teu,
minha Santa Cidade de São Paulo!"
(Oração oficial proferida a 25 de janeiro de 1970, na Sessão
Magna realizada pelo Instituto Histórico e Geográfico de São
Paulo).
TENENTE-CORONEL D. JOSÉ DE MIRALLES
SUA ((HISTÓRIA MILITAR DO BRASIL»
Coronel José Hipolito Trigueirinho

O Vice-Rei do Brasil, Dom Vasco Fernandes Cesar de Mene-


zes, mais tarde Conde de Sabugosa, reuniu em seu palácio, em
São Salvador da Bahía de Todos os Santos, aos 7 de março de
1.724, sete ilustres personalidades dedicadas às letras; e, com
o seu aplauso, fundou a primeira academía literária do paiz, de
que se tem notícia, a qualrecebeu a estranhavel denominação de
"ACADEMIA DOS ESQUECIDOS".
Inspirára-se o culto Vice-Rei no exémplo da Európa, onde
estavam em móda as associações de amantes das letras, como
vinha ocorrendo na Itália, Espanha, Portugal, e França, as quais
recebiam, não se sabe porque, os nómes mais esdrúxulos.
Decidiram os oito beletristas que seus estudos teriam' por
inspiração a História do Brasil, que seria versada sob quatro
aspéctos: o natural, o militar, e eclesiástico e o político.
Suas atividades abrangeram dezoito conferências, todas rea-
lizadas na sede da Academia, que outra não era senão o Palácio
do Governo, sendo que a última foi a 4 de fevereiro de 1.725.
A ACADEMÍA DOS ESQUECIDOS caiu, se ,undo profetizasse
talvêz seu próprio nóme, no esquecimento, on e meses após sua
louvavel fundação.
B !f

Em maio de 1.758, isto é, trinta e três anos decorridos, Dom


José I, Rei de Portugal, nomeou ao Dr. José Mascarenhas Pache-
co Pereira Coelho de Mello, que exercéra elevadas funções na
metrópole, para o cargo de Conselheiro do Governo do Estado do
Brasil, com dupla missão: a primeira, de criar, na Bahia, dois
Tribunais - o do Conselho de Estado e Guerra e o da Mesa
da Consciência; e, a segunda, de perseguir os jesuítas, que ha-
viam caído em desgraça.
Era tão ilustre Conselheiro graduado pelas Universidades de
Salamanca, Valladolid e Coimbra e fora Juiz da Bulla da Cruzada.
Pisando o só10 da Bahia em agosto daquêle ano - 1.758 -
o Conselheiro Mascarenhas, ao saber da extinta ACADEMÍA DOS
270 REVISTA DO INSTITUTO HIST6RICO E GEOGRAFICO DE S. P A U L O

ESQUECIDOS e do quilate de seus membros, reúniu em sua casa


três dos antigos acadêmicos: o Pádre Antonio de Oliveira, o Dr.
Antonio Rodrigues Nogueira e o Sargento-Mór Antonio Gomes
Ferrão Castello Branco, todos de afamada erudição, sendo ainda
êste ultimo Fidalgo da Casa Real.
Com a colaboração dessas três notáveis figuras, a idéia do Con-
selheiro Mascarenhas de criar uma associação literária e de his-
tória foi entusiásticamente acolhida; como também que ela se
denominaria ACADEMIA BRASÍLICA DOS RENASCIDOS, de vêz
que a consideravam renascida da antiga e dissolvida ACADEMIA
DOS ESQUECIDOS.
Identificadas outras já conhecidas pessoas pelos seus pendo-
res literários, foram elas convidadas para uma reunião, que se
realizou na residência do Conselheiro Mascarenhas, aos 19 de
maio de 1.759, presentes 39 convocados.
Decidiu-se então fundar a ACADEMIA BRASÍLICA DOS RE-
NASCIDOS, que se compoz de 40 membros numerários e 53 supra-
numerários (correspondentes) ; Academia que tomou por símbolo
uma phenix fitando o sól, sobreposta a legenda "multiplicabo
dies" (ou "multiplicarei os dias"), seguida de várias aves da Eu-
ropa e da América, com as seguintes palavras de Claudiáno: "Con-
veniunt áquiloe cunctóeque ex orbe volucres. Ut sólis commiten-
tur avem" (ou "Reunem-se as águias, que esvoaçam o mundo
todo. Para que acompanhem a ave do sól"); que, por selo, ado-
tou a mesma prenix em chamas, com o dístico "Ut vivam" (ou
"Para que eu viva"), envolta em uma circunferência com o título
"ACADEMíA BRASÍLICA DOS RENASCIDOS"; e que elegeu por
Patrôno E1 Rei de Portugal, Dom José I e por Padroeira a Ima-
culada Conceição.

t
Procedeu-se

2
Inácio de Sá e
querque; Se
da a eleição dos dirigentes, com o resultado
seguinte: Preside te, o Conselheiro Mascarenhas; Censores, os
Drs. João Borges e Barros e João Ferreira Bittencourt e Sá, Frei
reth e Dr. José Pires de Carvalho e Albu-
io o Sargento-Mór Castello Branco; e Vice-
Secretário, Bernardino Marques de Almeida e Arnizau.
Recebeu o Presidente a delegação de organizar o Estatúto
com a maior brevidade, para ser apreciado e votado.
Em sessão de fins de maio, foi o Estatuto aprovado e eleitos
os acadêmicos numerários.
Para ter-se idéia do alto valor literário dos escolhidos, vale
nominar, entre todos ilustres, os seguintes: Rev. Dr. Antonio
Gonsalves Pereira, teólogo, desembargador da relação eclesiástica
da metrópole, examinador de filósofos na Companhia de Jesús;
Rev. Antonio de Oliveira, mestre em artes, teólogo, examinador
de teosofía, com poderes para fazer crismas, concedidos pelo Pon-
tífice Benedito XIV; Frei Antonio de Santa Maria Jaboatão, pre-
REVISTA DO INSTITUTO HIST6RICO E GEOGRAFICO DE S. PACLO 271

gador e cronista mór da Província de Santo Antonio do Brasil;


Capitão Bernardo José Jordão, engenheiro; Dr. Francisco Xavier
d'Araújo Lassos, mestre em artes, teólogo, bacharel por Coim-
bra, vereador em São Salvador e provedor da Santa Casa; Dr.
João Ferreira Bittencourt, juiz do cível e do crime em São Sal-
vador; Capitão José Antonio Caldas, engenheiro e membro da
Escóla de Instrução Militar da Bahia; Dr. José Félix de Morais,
medico de Sua Majestade; Dr. José Pires de Carvalho e Albu-
querque, Fidalgo da Casa Real, formado em Coimbra, Cavaleiro
da órdem de Crísto, ouvidor e provedor da comarca de Alemquer
e Secretário de Estado e Guerra do Brasil; Dr. José Luiz de Cha-
ves, físico-mór, que servíra na India; Coronel Rodrigo de Argólo
Vargas Cirne de Menezes, de um dos Regimentos de Cavalaria
daquéla Capital; e, para não ser mais alongado, Dr. Cláudio
Manoel da Costa, bacharel por Coimbra, poéta e, mais tarde, in-
confidente de Ouro Preto.
Foi ainda fixada a data de 6 de junho próximo, para a insta-
lação da Academía.
Nesse dia, às quinze horas, na capéla-mór do templo dos
Carmelitas Descalços, o Provincial e Mestre da órdem, Padre
José dos Reis, erguendo a imágem da Imaculada Conceição, pa-
droeira do sodalício, disse as palavras do juramento estatutário,
repetidas pelos acadêmicos, sob religioso silêncio da seletissima
assistência governamental e social, que lotava completamente o
recinto, faustósamente ornamentado de veludos com franjas de
ouro e prata e de ricas cortínas adamascadas.
Falaram vários acadêmicos, cuja erudicão despertou admi-
ração e louvores; e a cerimônia delongou-se por quátro horas.
Na Academía Brasílica dos Renascidos os rabalhos podiam

1
ser versados em um dos cinco idiomas seguintes português, cas-
telhano, francês, italiano e latim; e tinham po principal objetí-
vo escrever a "HISTÓRIA UNIVERSAL DA A ÉRICA PORTU-
GUSA".
Entre inúmeros trabalhos em prósa e v e r s h n s brilhan-
tes e mesmo engenhósos, destacam os pesquizadores dois: o
"CULTO MÉTRICO", do acadêmico José Pires de Carvalho e Ai-
buquerque, que chegou a ser impresso; e a "HISTÓRIA MILITAR
DO BRAZIL", do acadêmico Tenente Coronel Dom José de Miral-
les, que sobreviveu manuscrita.
Esta óbra está transcrita no Volume XXII dos Anais da
Bibliotéca Nacional, do qual foram tirados duzentos exempla-
res, dois dos quais tivémos a fortuna de localizar e exhumar das
cinzas do esquecimento: o primeiro, na Bibliotéca Municipal de
São Paulo, quando alvitramos fosse passado para a seção de li-
vros raros, dado o seu excepcional valor histórico; e, o segundo,
na Biblioteca Nacional. do Rio de Janeiro.
272 REVISTA DO INSTITUTO HIST6RICO E GEOGRLFICO DE S. PAULO

Neste passo, releva observar que essa óbra não é conhecida


em Portugal.
No anseio de determinar a editora e o ano de sua vinda a
lume, correspondemo-nos com o Arquívo Histórico Ultramarino,
de Lisbóa, solicitando informes; e do seu ilustre e prestante Di-
retor, Sr. Alberto Iria, a quem devemos valiosos trabalhos reali-
zados por ocasião do IV Congresso de História Nacional do Brasil,
realizado no Rio de Janeiro, recebemos, em resposta, idêntica
indagação, com o ponto de vista pessoal de que "não me parece
que tenha sido publicada. Onde encontrou V. Excia. a refe-
rência?".
Afirma, porém, que do Tenente Coronel Dom José de Miral-
les "apenas se encontram, nêste Arquívo, os dois documentos
abaixo indicados: a) carta do Tenente Coronel Dom José de Mi-
ralles para o Conde de Oeiras, em que lhe pede para se interessar
pelo requerimento que dirigíra ao Rei, Dom José I, solicitando
a mercê da patente de Coronel Honorário. Nela se refere a His-
tória Militar do Brasil, que diz ter começado a escrever; datada
da Bahia, aos 20 de julho de 1.761; b) oficio do Governador
interino do Brasil para o Conde de Oeiras, relativo à licença su-
periormente concedida a Dom José de Miralles, para consultar
os livros da Vedoria e dêles extrair os elementos que desejasse,
para a História Militar do Estado do Brasil, que estava elaboran-
do; escrita da Bahia, aos 26 de setembro de 1.761".
Não obstante seus elevados intuitos, a proteção del'Rei Dom
José I, a invocação da padroeira Imaculada Concei~ãoe a folha
de serviços valiósos preitados a Corôa pelo seu ~reskiente,Conse-
lheiro Mascarenhas. a "ACADEMLA BRASÍLICA DOS RENASCI-
DOS'não teve existência senão por onze meses.

1
Julgando o overno mais conveniente dissolve-la, "para não
propagar idéias ue pudessem ser contrárias ao interesse do Es-
tado", foi ela e inta, após realizar sua ultima sessão aos 16 de
abril de 1.760; seu ilustre Presidente, Conselheiro José Masca-
renhas Pach reira Coelho de Mello, "preso incomunicável
em profun p' cárcere, por fórma tal que sua própria familia o
considerava morto", segundo afirma o Dr. Augusto Vitorino Al-
ves Sacramento Blake em seu "Dicionário Bibliográfico Brasi-
leiro".
Pelas datas da dissolução da Academía e das duas cartas
referidas, conclui-se, a evidência, que Miralles prosseguiu no pre-
páro de sua óbra, não obstante tivesse dela se incumbido por
solicitação do já extinto e douto sodalício.
A "HISTÓRIA MILITAR DO BRAZIL" é um volume de duzen-
tas e treze páginas, em cuja sub-capa vem o Autor oferece-la "a
E1 Rei Fidelissimo Dom José I, Nosso Senhor"; e encerra 20 qua-
dros sinóticos e relações várias, referêntes a cada unidade mili-
REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRAFICO DE S. P A C L O 273

tar existente, ao armamento distribuído, às casas do trem (depó-


sitos de armamento, munição e viaturas) e seus estóques, e aos
vencimentos e vantagens pagos pelo Reino.
Entre os estipêndiados pela Fazenda Real figúra Santo Anto-
nio, que, como Capitão, vencia, além do salário do posto, mais
uma gratificação para o chamado "Pão de Santo Antonio".
Na parte dedicada a arte militar, Miralles revela grande
cultura profissional para a sua época, quando esplana doutrina
e principios de guerra universalmente imutáveis; mas, referin-
do-se a tática das unidades no campo de batalha, observa: "pois
parece, sem dúvida, que a arte militar é a mais nóbre de todas
as que praticam os homens, por ter mostrado sempre a expe-
riência que os maiores Príncipes não julgaram indigno de sua
Soberania aprenderem-na debaixo das órdens dos grandes Gene-
rais; e como ainda que na Arte Militar haja fundamentos que
não mudam e regras certas que são comuns a todas as nações,
podem haver diversos métodos de praticar essas mesmas regras:
dêstes escreverei só na presente História, por terem sido vários
os métodos que neste Império e nas mais Capitanías do Estado
do Brazil se tem, até o presente. praticado".
Confirmava Miralles, soldado experimentado, que estivbra a
serviço de Castella, de Portugal e do Brasil pelo tempo aproxi-
mado de sessenta anos, durante os quais "servira com lealdade,
constância e algum acerto", segundo suas próprias palavras ditas
perante o Governo Geral e autoridades militares da Bahia; con-
firmava êle, diziamos, aquela verdade que o Poéta-Soldado já
proclamára na sua inolvidável odisséia:
"A disciplina militar prestante
Não se aprende, Senhor, na fantazia,
Sonhando, imaginando ou estudando,
Senão vendo, tratando e pelejando".
I
Quanto à História, faz ameúdadas citações, sobresaindo pelo
seu numero as extraídas das seguintes ó b r a ~ . "rlIÁLOG0 DE
VÁRIA HISTORIA", de Pedro de Maris; ''cR~N- BRASIL",
do Padre Simão de Vasconcellos; "AMÉRICA PORTUGUÊSA", de
Sebastião da Rocha Pitta, que, por sinal, era Coronel Comandan-
te de um dos Regimentos na cidade do Salvador; "GUERRA
BRASÍLICA", de Francisco de Brito Freire; "RESTAURAÇÃO DA
CIDADE DO SALVADOR". de Dom Thomáz Tamayo de Vargas,
cronista", de1 Rei Fellipe IV, da Hespanha; "EPANAFORA TRA-
GICA", de Dom Francisco Manoel; um manuscrito, do Padre Va-
lentim Mendes; "HISTóRIA INDIARUM", de Mapheo; "HISTO-
RIA SOCIETATIS", de Orlandino; "HISTORIA GERAL DA COM-
PANHIA DE JESUS", do Padre Sachin; "EPÍTOME DA HISTO-
RIA PORTUGU&SA", de Manoel de Faria e Souza; e "HISTORIA
DA COMPANHIA DE JESÚS", do Padre Cordára.
274 REVISTA DO INSTITUTO HISTORICO E GEOGRAFICO DE S. PAULO

Ilustra-a com 9 documentos trocados entre os Governadores


do Brasil e de Buenos Ayres, os quais fazem muita luz sobre as
complicações havidas no Rio da Prata nos primeiros dias de sua
fundação; com breves notas históricas referentes ao período admi-
nistrativo de 46 Governadores Gerais e 4 Vice-Reis, os quais
enuméra desde Francisco Pereira Coutinho, o primeiro donatá-
rio da Bahia, em 1525, até Dom Antonio de Almeida Soares,
Marquêz do Lavradio, em 1.760, compreendendo o largo período
de 235 anos; e ainda eriquece-a com 31 cópias de provisões, por-
tarias, ordens, informações e pareceres, todas referentes às ativi-
dades militares, de 1.625, até 1.762.
A "HISTÓRIA MILITAR DO BRASIL", do Tenente Coronel
Dom José de Miralles, ilustre valenciâno, que se notabilizou pelas
lutas que travou nos campos de batalha, em defesa dos seus Reis
e da ~ é ' eCivilização Cristãs, com ser uma óbra de erudição e
doutrinamento militar, é preciósa fonte para estudo comparado
de tática militar; tanto mais que, expondo os métodos de com-
bate empregados pelos nossos valórosos compatrícios primévos,
que derrotaram os então cl&ssicos holandêses, francêses e hespa-
nhóis, estão esses métodos, hoje, em evidência, embóra sobremodo
enriquecidos pela variedade e potência das armas modernas, que
a avançada técnologia guerreira tem criado e aperfeiçoado.
Idêntica apreciação sobre a "HISTÓRIA MILITAR DO BRA-
SIL" referida faz o ilustre General Francisco de Paula Cidade
em seu volumoso tomo "SÍNTESE DE TRES SÉCULOS DE LITE-
RATURA MILITAR BRASILEIRA", primeira e d i ~ á ode , 1.959, em
cuja página 66 registra: "Numa apreciação de conjunto, esse
livro mal escrito vale pelas informações interessantes que registra.
É o repositório de uma documentação que hoje não mais páde
ser consultada
rificar a falta
T original, por ter desaparecido Permite-nos ve-
e fazia a unidade de governo, evidênciada tal
deficiência pela ausência de reflexos dos acontecimentos milita-
res de
luta """3
com o
nia na vicia das outras. Pode-se dizer que a
andêses ao norte não interessava à opinião e aos
governantes do Rio de Janeiro, que só esporadicamente presta-
ram seu concurso a restauração da Bahia; as lutas no sul, envol-
vendo a bacia platína, só foram comentadas com atraso e muito
por alto, não obstante a importância que tiveram para o governo
do Rio de Janeiro, na administração de Gomes Freire de Andra-
da, um contemporâneo do autor".
O único repáro ao trabalho de Miralles, expresso nas palavras
"esse livro mal escrito", tem inteira procedência; pois, escrito no
período setecentista, sua ortografía e mesmo redação exigem um
esforço abnegado do leitor, para que possa entende-lo.
Observa ainda o General Cidade certa ausência de método
na exposição dos fatos históricos; mas, o próprio critico a justi-
REVISTA DO INSTITUTO HIST6RICO E G E O G R a F I C O DE S P A L X O 275

fica, quando escreve: "permite-nos verificar a falta que fazia a


unidade de governo, evidênciada tal deficiência pela ausência d e
reflexos dos acontecimentos militares de uma capitania na vida
das outras"; como também a falta de dados que eram pedidos
ao sul e ao norte por Miralles, os quais não vinham senão muito
tarde e incompletamente, o que tumultuava o seu trabalho.
As próprias cartas ha pouco citadas, dirigidas ao Conde de
Oeiras, na metrópole, comprovam essa assertiva.
Afirmam alguns dos autores consultados, que o manuscrito
da referida óbra desapareceu. Um déles registrou que seguia o
trabalho para a Europa, onde seria editado, quando naufragou o
navio que o portava, desaparecendo assim tão precioso ma-
nuscrito.
Em carta de maio do corrente ano, dirigimo-nos ao Diretor
da Bibliotéca Nacional, do Rio de Janeiro, solicitando infórmes
fieis sobre o paradeiro desse incunábulo.
Já em julho, em resposta, o Chefe da Divisão de Publicacóes
e Divulgação, Sr. Wilson de Almeida Lousada, informou-nos que
"o manuscrito da HISTORIA MILITAR DO BRAZIL, de Dom José
Miralles, publicado no volume 22 dos Anais dêste órgão, encon-
tra-se na Seção de Manuscritos desta Biblioteca".
Está, pois, desfeita a lenda do desaparecimento dos originais
de tão valiósa e histórica obra.

Ao retirar a "HISTÓRIA MILLITAR DO BRAZIL", do Tenen-


te Coronel Dom José de Miralles, a primeira, no gênero, escrita
que se conhece, das cinzas do esquecimento, rendemos ao seu
valoroso e esforçado Autor a homenagem de faze-la lembrada e
ouvida néste Templo da História, para que, mariuseada por civís
e militares, possa ser admirada e aproveitada cor)io fonte preciósa
de ensinamentos e móstra dos sacrificios e do v>lor guerreiro de
nossa gente, que soube alongar e resguardar e -rra, pela ação
bandeirante, à custa de "sangue, suor e l á g r h a herança
recebida da epopéia sagrina que, nos mares, abriu aos póvos os
caminhos do mundo.
São Paulo, 5 de setembro de 1.970, na Semana da Pátria.
FONTES DE CONSULTA:

1 - HISTORIA MILLITAR DO BRAZIL. do Ten. Cel. Dom José de


Miralles. Anais d a Bibliotéca Nacional, Vol. XXII.
2 - A ACADEMIA BRASíLICA DOS ESQL-ECIDOS, do Cônego Dr. J. C.
Fernandes Pinheiro. Revista do Instituto Histórica e Geográfico da Brasil.
D Trimestre de 1.868.
3 - A ACADEMIA BRASILICA DOS RENASCIDOS, de Alberto Fre-
derieo de Morais LamBgo. Edição D'Art Gaudio. Páris. 1.923.
276 REVISTA DO INSTITUTO HISTÕRICO E GEOGRAFICO DE S. PAULO

4 - DICIONARIO BIBLIOGRAFICO BRASILEIRO, do Dr. Augusto Vi-


torino Aives Sacramento Biake. 59 Vol.
5 - ARQUfVO HISTõRICO ULTRAMARINO, de Lisboa.
6 - CRõNICA GERAL DO BRASIL. de Mello Morais. 2" Vol.
7 - EFEMERIDES NACIONAIS. de Teixeira de Mello.
8 - SfNTESE DE TRES SECULOS DE LITERATURA MILITAR BRA-
SILEIRA. do General Francisco de Paula Cidade. Ia Edição. 1.959.
9 - CATÃLOGO DOS MANUSCRITOS, do Instituto Histórica e Geográ-
fico Brasileiro.
1 0 - CATALOGO DOS iNCUNABULOS, da Bibliotéca Nacional do Rio
d e Janeiro. 1.957.
11 - BIBLIOTECA NACIONAL. Rio de Janeiro. Infórme referente ZL
existencia do manuscrito da obra de Mirailes.
(Conferência na Instituto Histórico e GeogrBfico
de Sáo Paulo)
DISCURSOS DE POSSE
DISCURSO DE POSSE
Paulo E. D'Alessandro

Pindamonhangabense de coração, por nascido em outra cida-


de (em outro Estado mesmo), escolhi para meu patrono neste
cenáculo um outro pindamonhangabense também nascido fora
daquela terra simpática e boa: o inesquecível historiador e jorna-
lista José Ataíde Marcondes, de quem apresento agora um esboço
de biografia.
Na praça-coração-da-cidade, Praça do Monsenhor Marcondes,
um monumento testemunha a gratidão do povo da "Princesa do
Norte" à inolvidável personalidade de José Ataíde Marcondes. Na
placa de bronze ali colocada se lê: "José Ataíde Marcondes. 1."
centenário de nascimento. Neste granito perpetuamos a nossa
homenagem ao teu valor. "O Povo de Pindamonhangaba". Nessa
placa serão em breve colocadas as datas do nascimento e da passa-
gem da sua primeira centúria, omitidas quando da inauguracão
do busto: 11 de outubro de 1863 e 11 de outubro de 1963. E tam-
bém a data do falecimento: 13 de setembro de 1924, e a da sua
inauguração: 29 de dezembro de 1963.
Pindamonhangaba erigiu a seu grande filho de adoção mo-
numento singelo na aparência, mas cuja miniatura está no ema-
ranhado da cordoalha tendinosa do coração de todos os pindamo-
nhangabenses. Lá foi ereto como gratidão a um outro monumen-
to, muito mais valioso, muito mais trabalhoso, de uma grandeza
sem par. Mais durável que o bronze: Aere perennius, como dizia
o venusino, da própria produção poética. as mumento e o
5
livro de José Ataíde Marcondes denominado Pin monhangaba
através de dois e meio séculos - 1672-1922.
Dessa obra afirmou um dos maiores pindamonhangabenses
de todos os tempos, o Barão Homem de Melo: "Meu prezado ami-
go Sr. Ataíde Marcondes. Que monumento conseguiu erguer à
nossa terra! E quanta paciência, quanto amor pátrio, para revi-
ver tanta tradição apagada, ressuscitar tantos documentos sepul-
tados, reconstruindo assim o honrosíssimo passado de nossa
terra".
I2 do Conde de Afonso Celso, presidente perpétuo do Insti-
tuto Histórico e Geográfico Brasileiro, esta apreciação, em carta:
280 REVISTA DO INSTITUTO HIST6RICO E GEOGRLFICO DE S. PAULO
- - - - -- -

"Muito agradeço ao meu distinto confrade Sr. Ataíde Marcondes


o exemplar com que me obsequiou de seu excelente trabalho -
Pindamonhangaba. Revela êsse trabalho paciente investigação,
lucidez crítica, método na exposição e entranhado amor a terra
natal. Deleitou-me e instruiu-me percorrer-lhe as páginas bem
feitas intelectual e materialmente".
Neste sodalício magnífico da intelectualidade paulista, reper-
cutiu auspiciosamente o trabalho de Ataíde Marcondes, de estudo
e difusão das belezas, do civismo, das tradições do povo e da terra
de sua esposa e de seus filhos. É o que nos afirma o seguinte
"Parecer do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo. Foi-
nos presente um exemplar nitidamente impresso da interessante
monografia intitulada Pindamonhangaba - Apontamentos His-
tóricos, Geográficos, Genealógicos, Biográficos e Cronológicos.
O seu autor, nosso confrade, Sr. Ataíde Marcondes, com uma ope-
rosidade rara, especialmente em meios acanhados, onde não
existindo incentivos ao trabalho intelectual, também lhes faltam
os elementos de cansulta dos grandes centros intelectuais, conse-
guiu fazer um trabalho consciencioso e o mais completo possível,
a respeito daquela formosa cidade, abrangendo um largo período
de mais de dois séculos. O livro em questão, impresso em tipo
miudo, com 325 páginas, divide-se em duas partes: na primeira,
como o próprio subtítulo indica, o autor estuda largamente a
história, a geografia da cidade, bem como presta homenagem aos
seus filhos ilustres, publicando suas genealogias e biografias. A
segunda é preenchida com a Cronologia ou Efemérides Pindamo-
nhangabenses. O Sr. Ataíde Marcondes para escrever a sua obra
esmerou-se na procura dos dados precisos em fontes insuspeitas e
criteriosas, examinando os Arquivos de São Paulo, Taubaté e
Pindamonhangaba, bem como consultando autores de reconheci-
da competência em História e Geografia, tais como Porto Seguro,
Machado de Oliveira, Pedro Taques, Homem de Me10 etc. O livro
é organizado em forma de dicionário, facilitando muito as con-
sultas e tambérr ilustrado com 148 clichês das vistas da cidade,
edifícios i m d e s e retratos de seus filhos que mais se têm
distinguido nas diversas zonas do trabalho e do sabor. Essa mo-
nografia sôbre Pindamonhangaba é, pois, um belo tentamen,
digno de ser imitado por outras cidades, a fim de elucidar-se boa
parte da história de São Paulo, através de suas fases como ColÔ-
nia, Província e Estado. E assim sendo, entendemos que o traba-
lho do Sr. Ataíde Marcondes tem mérito bastante para ser bem
recebido pelo Instituto. Sala das Sessões do Instituto Histórico
e Geográfico de São Paulo, 25 de outubro de 1907. (aa.) Luiz
Gonzaga da Silva Leme, João B. de Moraes, Leôncio Gurgel".
REVISTA DO INSTITUTO HIST6RICO E GEOGRAFICO DE S. P A U L O 281

Mas, quem foi êsse, no dizer de Almeida Nogueira, "o maior


dos pindamonhangabenses nascidos em outro berço?" Sim; quem
foi Ataíde Marcondes? Perguntemos à ilustrada presidente da
Academia Pindamonhangabense de Letras, romancista, contista
e historiadora Hilda César Marcondes da Silva. E ela nos dirá:
"O mais pindamonhangabense dos pindamonhangabenses. O gi-
gante que se transformou em rouxinol, cantando para conquis-
tar o coração amoroso da sua Princesa do Norte". ( I )
José Ataide Marcondes nasceu em Taubaté, nesse admirável
Vale-do-Paraiba, uma das mais belas regiões do Brasil, de povo
tão disciplinado e bom, de tão grandes tradiçóes cívico-religiosas.
Foram seus pais o prof. Luiz Leme Marcondes do Prado e d. Ma-
riana Marcondes do Prado. Neto por parte materna de d. Doro-
téia Rosa Marcondes, natural de Pindamonhangaba. Aqui já
estamos a ver uma ligação de sangue com aquela que foi ao depois
sua terra de adoção. Estudou as primeiras letras com o pai e dos
lábios e exemplos da mãe aprendeu a ser bondoso, honesto e tra-
balhador. Tinha 13 anos, quando foi para Pindamonhangaba,
precisamente a 28 de janeiro de 1877. Lá se empregou em farmá-
cias e como era dedicado as letras, por esforço próprio, aprovei-
tava as horas de ócio, para entregar-se aos estudos de línguas e
matemática, com o prof. Júlio César de Oliveira e Costa, diretor
do afamado Externato Costa. 2 de lembrar-se que ainda nos estu-
dos preliminares foi aluno do notável filólogo Júlio Ribeiro, que
ao tempo exercia o cargo de professor público em Taubaté.
Ataide Marcondes foi desde logo, e por concurso, professor
do magistério primário e farmacêutico prático estabelecido. De-
pois, representante de drogaria, a viajar por vários Estados, vol-
tando em seguida ao cargo de professor público. Mais tarde, ei-10
bibliotecário da Escola de Farmácia e Odontologia de Pindamo-
nhangaba, cargo desempenhado com toda a competência e em
que se mostrou de admirável produtividade. Assim foi que trans-
formou completamente a biblioteca, aumentando consideravel-
mente o número de livros e mudando-lhe inteir qte,para me-
lhor, o aspecto.
Como homem público, demonstrou sempre nos cargos que
ocupou sentimentos nobres, patriotismo, amor às causas gran-
diosas e á Justiça. Nunca se interessou pelos bens fungíveis da
vida; essa a razão de ter sido historiador, já que Eduardo Prado
dizia: ( 2 ) "Quem trata do passado é desinteressado e só o desinte-
rêsse enobrece, eleva e dignifica as aspirações do homem".
..
(1) - Hilda César Marcondes da Silva, *Era uma v e z . . .n, «Tribuna do
Nortes, 11-1,:-1963.
( 2 ) - Coelho de Sousa, aJulio de Castilho e sua Bpoca (IV)»,Jornal do
Commercio, R.J., GB, 20-4-1968.
282 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRAFICO DE S. PAULO

Exerceu em sua terra adotiva diversos cargos públicos. Foi


intendente municipal, autoridade policial, membro do Conselho
Municipal de Instrução Pública e vereador. É um coração de filha
que fala, r " mas fala verdade: "Patriota, liberal, abolicionista,
lutou denodadamente pelas causas de nossa Pátria, sempre com
intimorato civismo, amor a Deus e a Liberdade, tendo por divisa
Pro Patria Semper. (&se lema, aliás, está inscrito no brazáo de
Pindamonhangaba, defluente de projeto de Ataíde Marcondes,
modificado por João Pedro Cardoso e aprovado pela Câmara Mu-
nicipal). Enérgico em seus atos, tanto como homem público
como em diversos aspectos de sua vida, foi uma alma grande,
coração generoso onde nunca se aninhou o ódio. As vêzes, impe-
tuoso, mas nunca rancoroso; sabia a todos perdoar e sobretudo
extremamente sincero, durante toda a sua existência".
Como político, Ataíde Marcondes foi sempre um liberal de
idéias avançadas. Combateu ao lado dos que apoiavam o fe-
deralismo; desfraldou francamente o estandarte da abolição, pe-
lejando com ardor contra a escravidão. Chegou a ser presa por
um delegado capitão-do-mato; solto, p r é m , foi alvo de calorosa
manifestacão, sendo carregado nos braços do povo. Festejou a
aurora redentora do 13 de maio de 1888, cantando em belos ale-
xandrinos a vitória de seus ideais abolicionistas e humanitários:
"E a Humanidade inteira - o ódio, a maldição
E um grito de terror, - lançava a escravidão.
E veio o grande dia! A luz da sã verdade
Caiu a escravidão. - Surgiu a Liberdade!"

Antes, cantara:
"Basta, ó Povo, de tanta crueldade,
Basta, ó Povo, de tanta ignomínia,
Basta, 6 Povo, de tanta ignorância!
- Libertemos os míseros cativos!"
"Aliás, arc)
Lei-Aurea de 13 de maio que noutras plagas caiu
como um raio, não encontrou no município de Pindamonhanga-
ba um só escravo: ó povo bravo! Sim, na vigência ainda da escra-
vidão, antes da abolição, a Câmara Municipal e os fazendeiros,
num dos gestos pioneiros, a 25 de fevereiro de 1888, em sessão
solene e que há de ficar perene, libertaram todos os seus 2.600
cativos, assim redivivos!" c6)
( 3 ) - Maria. Beatriz, #Retrato inesquecivels, Tribuna do Norte, . . . . . .
11-10-1963.
( 4 ) - Aiaide Marcondes, apindamonhangabaa, 2' ed., 1922. pág. 402.
( 5 ) - Paulo E. D'Ales-dro, nFundagáo, autonomia e grandeza de Pùi-
damonhangabas, 7 dias, 10-7-1958.
REVISTA DO IXSTITUTO HIST6RICO E GEOGRnFICO DE S PAULO 283

Resolvido a alistar-se nas fileiras republicanas, cujas idéias


estavam ligadas a seus sentimentos democráticos, Ataíde Marcon-
des compareceu a uma reunião política, para fundação do Clube
Republicano. Mas, o que desejava a maioria dos presentes, fazen-
deiros escravocratas era protestar contra o ato da Princesa Isabel
que sancionando a Lei Redentora, ocasionara-lhes grandes pre-
juizos Alguns oradores chegaram a atacar violentamente a
Princesa. defendida então em belo improviso pelo abolicionista
Álvaro Pestana Júnior. Ataíde apoiou o orador, lançou o seu pro-
testo e ambos se retiraram da reunião, continuando a propaganda
republicana pela imprensa, desligados do Clube, cuja diretoria
passou a ser inteiramente composta de monarquistas desgostosos
da Dinastia que estivera ao lado da raça oprimida. E que já
começara a cumprir-se a profecia de Cotegipe, a que se reporta
Calógeras: 16' "A Princesa Isabel, muito eufórica com a reper-
cussão nacional do seu ato redentor, afirmou Cotegipe: "Vossa
Alteza redimiu uma raça, mas perdeu o trono". "Palavras pro-
féticas".
Proclamada a República, Ataíde Marcondes foi nomeado
membro do Conselho Municipal de Intendéncia, que substituiu a
Câmara Municipal, funcionando até dezembro de 1891.
Pindamonhangaba foi a primeira cidade do Estado de São
Paulo que, fiel a suas tradições e pela voz patriótica de Ataíde
Marcondes, se manifestou contra o ato do Marechal Deodoro,
quando do golpe de Estado de 3 de novembro de 1891. Pelos aza-
res da política, vencedora a Revolta de 23 de novembro daquele
ano, com a queda de Deodoro, Ataíde também caiu, com a demis-
são da Intendência de Pindamonhangaba. Na realidade, tendo
sido demitido pelo vice-presidente em exercícoi, Dr. Cerqueira
César, substituto do Dr. Arnérico Brasiliense, o Dr. Francisco Mar-
condes Romeiro, presidente da Intendéncia pindamonhanga-
bense, os intendentes, entre os quais Ataíde Marcondes, que sa-
biam qual o fim que os esperava, pediram demissão, em enérgico
telegrama.
Mais tarde, Ataíde seria vereador operoso, hepresentar a
Câmara Municipal nas festividades do cinquentenário da Con-
venção de Itu.
Liberal, abolicionista, republicano, mas sobretudo patriota.
foi a sua trajetória política cheia de rastros luminosos. Civilista,
ao lado de Rui Barbosa, sua voz vibrou enérgica nos comícios
de 1909 e 1910. Foi o 1." secretário da Liga anti-intervencionista.
Em 1917, quando o Brasil entrou na 1." grande guerra, sua
lira patriótica esplendeu, estimulada pelo civismo da mocidade
da Escola de Farmácia. Uma de suas poesias marciais, é o hino.

(6) - Pandiá Cálogeras, <rForma~áohistbrica do Brasib, pág. 382.


284 REVISTA DO INSTITUTO HISTORICO E GEOGRAFICO DE S. PAULO

Pátria

"Às armas, soldados - valentes, marchai


Com ânimo e fórça - denodo e valor.
A Pátria ofendida com ânsia vingai.
Erguei-a bem alto - com ânsia e fervor!
Ao som das trombetas, ao troar da metralha
Na luta gigante travada na guerra,
Vencei, patriotas! Na grande batalha
Calcai o inimigo - vingai nossa terra!
O nome sagrado do nosso Brasil
No céu turquesino formoso fulgura.
Por isso, soldados, com ânsia febril
Por êle lutai, com toda a bravura!

Se um dia na luta cairdes vencidos,


Tombardes na luta sem vida, sem glória,
Lembrai-vos, soldados, ficai convencidos:
- Morrer pela Pátria também é vitória!
o Brasileiros
A Pátria erguei!
Fiéis guerreiros
Lutai, vencei!"

Para comemorar brilhantemente o 1." centenário da Inde-


pendência Nacional - sabendo-se que no Grito do Ipiranga esti-
veram presentes muitos e ilustres pindamonhangabenses que
compunham a Guarda de Honra do Príncipe Dom Pedro - Ataí-
de Marcondes, d~ ar com o presidente da Câmara de então, o
ainda vivo e d Dr. Raul Moreira Marcondes, conseguiu os
meios pecuniários para levantar o artístico obelisco que se desta-
ca na Praça do Monsenhor Marcondes, originário de desenho seu,
ligeiramente modificado pelo escultor.
Entre os que compunham a Guarda de Honra do Príncipe
Regente, Ataide citou dois nomes que ainda não figuravam em
nenhuma obra histórica.
"No Ipiranga, ao proclamar-se a Independência, em lugar de
preeminência, mais que expectadora, co-autora do magno acon-
tecimento, com embevecimento, está a Guarda de Honra, com-
posta quase na sua totalidade por homens de Pindamonhangaba
que se lembravam com tristeza de que nesta terra de tanta bele-
za foram sacrificados Tiradentes e muitos patriotas veementes,
REVISTA DO INSTITUTO HISTÕRICO E GEOGRAFICO DE S. PAULO 285

e que, a 7 de setembro de 1822, na colina histórica, pictórica,


saudaram jubilosos, fervorosos, o brado fremente do Príncipe
Regente". ('I
- Do historiador já falei de início, ao relembrar o seu livro
Pindamonhangaba, com duas edições, em que vem a história dos
acontecimentos mais brilhantes que se desenrolaram em nossa
terra: fundação, emancipação, progresso, famílias e homens mais
notáveis. Pindamonhangaba, de Ataíde Marcondes - afirma-o
o diretor da "Tribuna do Norte", j0rnalista de muitos méritos,
Mário Jacinto da Silva - tem sido de alguns anos para cá a obra
em que nossos historiadores, nossos historiógrafos, se louvam
para suas pesqujsas e consultas. nas controvérsias quanto ao
nosso passado político e social. Seu autor, o grande rebuscador
dos fatos da nossa história. imortalizou-se perante a pente pinda.
monhangabense, através não só daquela sua obra de fôlego, como
pelos seus inestimáveis serviços prestados ao município, a cole-
tividade. Seu livro tem sido o verdadeiro vade-mecum dos atuais
estudiosos da nossa história, do nosso passado de glórias e de
ricas tradições". G s )
Em seu livro tão justamente louvado por todos, demonstrou
Ataíde Marcondes ser grande rememorador de eventos e pesqui-
sador de documentos históricos. Assim foi que descobriu e ex-
traiu do livro de Ordens Reais, do Arquivo da Câmara Municipal
de São Paulo, sob número 93 (1700 a 1725) a famosa Carta Ré-
gia de D. Catarina que recriou a Vila de Nossa Senhora do Bom
Sucesso, na Capitania de Conceição. D. Catarina, rainha da
Inglaterra e infanta de Portugal, substituta de seu irmão, el-rei
D. Pedi-o 11, gravemente enfêrmo, com sua real clemência fez
mercê de relevar do castigo que mereciam os rebeldes pindamo-
nhangabense, pelo "grande" crime de elevar sua freguesia a vila,
sem ordem régia. D. Catarina, satisfazendo as aspirações dos nos-
sos maiores, "os principais da freguesia", de novo criou, para con-
tento geral, a dita vila. (Dessa carta-régia, com carimbo postal
comemorativo do ducentésimo quinquagési ~niversário da
=-e
emancipação de Pindamonhangaba, tenho a satis ao de passar
uma cópia às sábias mãos de V. Excia., Sr. Presidente, para os
arquivos de nosso Instituto. Igualmente, e com o mesmo carim-
bo, entrego a V. Excia., para os arquivos ou museu do Instituto,
cópia em cores do brazão de Pindamonhangaba, idealizado, como
já disse, pelo meu ilustrado patrono) .
- A atividade jornalística foi uma das constantes da provei-
tosa vida de Ataíde Marcondes. A respeito, afirma um dos seus
biógrafos: "Jornalista intimorato, nos seus artigos, quer de fran-

( 7 ) - Paulo E. D'Alessandro. «op. e loc. cit.».


(8) - Mário Jacinto da Silva, «Ataíde Marcondes» ,7 dias, 6-10-1963
286 REVISTA DO INSTITUTO HIST6RICO E GEOGRAFICO DE S. PAULO

co combate às idéias retrógradas, quer em favor das classes opri-


midas, a sua pena foi sempre molhada na tinta do patriotismo e
da verdade". (Ilustração Paulista). Conta-nos D. Hilda César
Marcondes da Silva, já citada, que "tais eram as suas atividades
como escritor e jornalista que seu tinteiro era de tamanho inco-
mum. Usava-o bem grande, para que seu tempo não fosse desper-
diçado no abastecimento de tinta". il) (Não estávamos ainda na
época das canetas-tinteiro, das esferográficas, das máquinas-de-
escrever).
Em inúmeros jornais e revistas, colaborou Ataíde Marcondes,
em Pindamonhangaba, nesta Capital e no Rio de Janeiro. Onde,
porém, por mais tempo exerceu o jornalismo foi na veneranda
"Tribuna do Norte", lá da nossa terra. Naquela folha, já aparece
como colaborador em 1886; em 1902, adquiriu por compra a s
oficinas do jornal, o mais antigo a se publicar ininterruptamente
no interior do Estado; de 1915 a 1919, é pela segunda vez dire-
tor e ao falecer, em 1924, estava pela terceira vez na direção da-
quele hebdomadário, fundado, em 1882, por João Marcondes de
Moura Romeiro e João Fernando de Moura Rangel, - como órgão
do Partido Liberal.
- Cultor da arte poética, publicou Ataíde Marcondes, em
1900, seu primeiro livro de versos, dando-lhe o título de "Ama-
rantos". Amaranto é a flor do outono, símbolo da imortalidade,
entre os antigos. São versos de suave e doce lirismo No soneto
inicial "Fitando o mar", o poeta, longe da mulher amada e dis-
tanciado da sua terra, demonstra a saudade e a nostalgia que a
dominavam:
"Oh! se eu tivesse as asas de albatroz
Para transpor do mar a imensidade,
Sem temer rijos ventos, tempestade,
Um grande temporal, medonho, atroz!

fzt;pu m vôo audaz, veloz,


desta dor a crueldade:
- Dor imensa de indómita saudade;
Mas se eu tivesse as asas de albatroz.
O mar! ó mar bravio, vasto, infindo,
Que não sentes a dor que estou sintindo,
Leva-me, ó mar, a tua profundeza!
Assim verás que dentro de minh'alma
Se agita, como tu, bravo, sem calma,
Outro mar de nostálgica tristeza!"
( 9 ) - Hilda G s a r 3larcondes da Silra, «Loc. e op. cit.».
REVISTA DO IKSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO DE S. P A U L O 287

- Em 1910, publicou seu segundo livro de versos, intitulado


"Sonatas". Há nêle poesias de delicado lirismo, verdadeiros cro-
mos poéticos, como éste sonetilho, dedicado à noiva:

Idílio

"Vem ver, ó Gabriela


De pressa, vem voando,
Vem ver, desta janela
Dois pombos arrulhando.

Os dois estão.. . cantando


Com voz doce e singela,
E ambos se beijando! . . .
- Vem vê-los, Gabriela!

Partiram! Oh! sentimento!


Não vieste no momento
Que se beijavam tanto!

Se os visses, t u terias
Inveja e me darias
Tambem um beijo santo' . . ."
Em seus versos, externou, por vêzes muitas, o seu amor a
Pindamonhanba, como nestas quadras:
"6 Pinda dos meus amores
- Mimosa ninfa adorada!
Tu tens os fulvos fulgores
De uma noite enluarada.

No céu azul que te enfeita


- Cúpula imensa a fulgir,
Corre o luar que te espreita,
Cantarolando, a sorrir!

Que céu tão belo e azul,


- Tênue manto de escumilha,
Onde o Cruzeiro do Sul
Fulgentemente rebrilha!

Foi aqui que eu tanto amei


Como ninguem soube amar.
Cancóes de amor eu cantei
Nas noites d'alvo luar".
288 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRAFICO DE S. PAULO

- Nos tercetos seguintes, revelou o poeta toda a sua afei-


ção, todo o seu carinho por nossa terra, externando um desejo
(alfim, satisfeito) :
"Foi aqui que eu, em toda a plenitude,
Passei cantando a minha juventude
E gozando dos amores - o conforto.

Dá-me por isso, em teu regaço amigo,


O meu último leito, o meu jazigo,
- Recebe-me também depois de morto!"

O estro poétjco de Ataíde Marcondes tinha instantes entu-


siásticos, como já vimos na poesia-hino "Pátria", cantada pela
Linha de Tiro.
- Lírico por excelência, não poderia deixar de amar a divi-
na arte da Música. Na mocidade, executava com muita perícia
sua flauta de treze chaves e o saxofone. Mas, no que mais se
esmerou foi no estudo teórico da Música, da sua história. do seu
progressivo desenvolvimento. Compilou um importante trabalho
a que deu o título de "Música e Musicistas". I2 obra histórica,
biográfica, bibliográfica, contendo voc&bulos e frases musicais,
com exemplos no texto; nomes de instrumentos antigos e moder-
nos, com as respectivas fotografias; história da Música de diver-
sos países; biografias de notáveis musicistas. cantores. pianistas,
violinistas etc.. com alguns retratos; títulos de óaeras. éwcas de
suas representações; com parte cronológica desde o ano 37 da
era cristã até 1922. Incluem-se nesta obra, também, hinos de
diversos países. canções populares, música imitativa; mas, infe-
lizmente não foi publicada, pois, ao falecer inesperadamente o
autor, estava ainda a se ultimar. Oscar Guanabarino, notável
crítico musical e diretor da revista "Música". publicada no Rio
de Janeiro. ao ter ciência da elaboração do trabalho do ilustre
musicógrafo A e Marcondes, fez-lhe honrosas referências.
2 .
No teatro, incursionou também com grande êxito o meu
ilustre aatrono. Sua revista de acontecimentos locais. denomi-
nada "Pinda em pancas", feita de parceria com Francisco Braga
Júnior e Traiano de Almeida, foi por cinco vêzes representada
pelo Grupo Dramático Infantil, em fevereiro e junho de 1900.
Para essa revista, Ataíde compoz e compilou quarenta números
musicais, todos orquestrados pelo maestro João António Romáo,
monagenário ainda vivo e forte. (Terra de Iongejos a nossa Pin-
damonhangaba! )
- Ataíde Marcondes, com sua personalidade oniparente e
marcante, enche umais de quarenta anos da vida Pindamonhan-
gabense. Em todas as reuniões havidas para cuidar do bem do
REVISTA DO IKSTITUTO HIST6RICO E GEOGRAFICO DE S. P A U L O 289
-

próximo ou para tratar do progresso de sua terra adotiva, já está


a sua presenca efetiva, atuante, entusiástica.
Na reunião do dia 9 de fevereiro de 1913, na Câmara Muni-
cipal, para tratar-se da fundação da Escola de Farmácia e Odon-
tologia de Pindamonhangaba, entre as pessoas gradas que com-
pareceram, está, como o mais animado, o mais otimista, Ataíde
Marcondes, que foi convidado para secretariar a sessão.
A Santa Casa de Misericórdia, pobre como as suas congéne-
res, precisava de oficial-de-farmácia, para manipulação das fór-
mulas receitadas pelos esculápios, mas nada podia pagar ao técni-
co-farmacêutico. Apareceu, então, à frente dos que queriam tra-
balhar gratuitamente a pró dos deserdados da fortuna e da saúde
o incansável Ataíde Marcondes.
Pindamonhangaba precisava de casa de ensino, pois perdiam-
se muitos talentos jovens que não podiam estudar fora. Ataíde
e sua esposa, D. Gabriela, fundam, em 1906, o Colégio Gabriela
Ataíde.
Não havia na cidade uma associação destinada a difundir o
gósto pelas belas-letras. Por iniciativa do Dr. A. Câmara Leal se
funda e Arcádia Rui Barbosa e lá está como secretário o prof.
Ataíde Marcondes. A diretoria toma posse a 7 de setembro de
1918, sendo o discurso inaugural proferido pelo dr. José' Augusto
César Salgado, uma das glórias vivas de Pindamonhangaba e or-
namento intelectual desta casa.
Homem múltiplo, polímate, historiador, jornalista, poeta,
musicólogo, teatrólogo, farmacéutico, político, legislador munici-
pal, autoridade policial, e, sobretudo, patriota, Ataíde sempre
recebeu do povo de Pindamonhangaba as maiores provas de afeto,
as mais justas e quentes homenagens. Assim foi que, a 10 de
julho de 1912, a população carregou-o em cadeirinhas pelas mas,
aclamando-o delirantemente. A 11 de dezembro de 1922, reali-
zou-se no Eden Cinema grande sessão cívica em sua homenagem,
afirmando um dos oradores, com razão, ser Ataíde o Herôdoto
pindamonhangabense. Foi-lhe. então. entregue busto, feito
de bronze pelo escultor Agostinho Odísio.
No dia 29 de dezembro de 1963, a Câmara Municipal de Pin-
damonhangaba, se reuniu em sessão solene comemorativa do
centenário de nascimento de José Ataíde Marcondes. Foi convi-
dado para orador oficial da solenidade o emérito professor pinda-
monhangabense, ilustre educador e sociólogo, dr. Antenor Romano
Barreto, membro dos mais destacados dêste Instituto. O confe-
rencista, muito aplaudido, "discorreu sóbre a personalidade ful-
gurante de Ataíde Marcondes. falando da sua participação desta-
cada na vida política, jomalística, cultural e administrativa de
Pindamonhangaba. participação significativa e profícua em bene-
ficio da nossa coletividade, da projeção da nossa gente no consen-
290 REVISTA DO INSTITUTO HISTORICO E GEOGRAFICO DE S. P A U L O

9
so geral, da elevação do nome de nossa terra nos meios educa-
cionais e culturais de São Paulo. Terminando, o orador ressaltou
o espírito público e as virtudes cívicas dêsse paladino das boas
causas do povo, dizendo da benemerência, da utilidade, da vida
de Ataíde Marcondes para o município e para a gente de Pinda-
monhangaba".
Nessa sessão solene, prestou-se cálida homenagem a d. Ga-
briela Ataíde Marcondes, na palavra acatada do vereador dr.
Arlindo Paim, que realçou mui justamente os seus dotes de edu-
cadora eficiente, culta e incansável.
O prof. José Ataíde Marcondes foi sócio correspondente dêste
Instituto. sócio da Sociedade de Geografia do Rio de Janeiro, da
Associação Brasileira de Imprensa e do Instituto Histórico e Geo-
gráfico da Bahia.
José Ataíde Marcondes casou-se em primeiras núpcias com
d. Maria José Marcondes, de quem houve os seguinte sfilhos:
- Maria José,
- Otacílio,
- José Ataíde, e
- Maria Cecília, já falecidos, e
- Julieta Ataíde Marcondes Cunha, viuva do sr. Antonio
Carlos Cunha e residente nesta Capital.
Em segunda$ nupcias, Ataíde Marcondes consorciou-se, no
dia 15 de fevereiro de 1900, com d. Gabriela Monteiro, de cujo
matrimônio houve os seguintes filhos:
- Maria Laura Ataíde Marcondes;
- Dr. Hamilton Ataíde Marcondes, já falecido e que foi casa-
do com d. Teresa Marcondes;
- Maria Beatriz Ataíde Marcondes Bottiglieri, casado com o
dr. Vicente Bottiglieri;
- Lincoln Ataíde Marcondes, falecido;
- Dr João Evangelista Ataíde Marcondes, casado com d.
Mônica Ataíde Marcondes;
Mariaa ora Ataíde Marcondes;
- Prof. aria Madalena Ataíde Marcondes Gândara Mar-
tins, casada com o dr. João Gândara Martins;
- Capitão Ulisses Paulo de Ataíde Marcondes, casado com
d. Nair Salomé de Ataíde Marcondes; e
- Dr. José Ricardo de Ataíde Marcondes, casado com d. Ma-
ria Aparecida Queiroz de Ataíde Marcondes
Seu falecimento, imprevisto, caiu como um raio no seio da
população local. Havia trabalhado até seu último dia de vida, na
biblioteca da Escola de Farmácia e Odontologia, a catalogar li-

(10) - Ata da 8" SessSw Solene da Cãmara Illunicipal de Pindamonhan-


gaba, comemorativa do centenário de nascimento de JosB Ataide Marcon-
des, 29-12-1963
P.EVISTA DO INSTITUTO HISTORICO E GEOGR.IBIC0 DE S P A C L O 291

vros e revistas, com dedicação e cuidados próprios dêle, e estivera


ainda na redação da "Tribuna do Norte", a redigir sueltos tão
apreciados pelos leitores. A notícia de sua morte, diz um comen-
tador da época, foi um acúleo a se cravar na alma dos habitantes
de Pindamonhangaba, todos amigos e admiradores do grande
morto. Seu ataúde foi carregado por colegas do magistério públi-
co e, a beira da sepultura, vários oradores exalçaram as suas qua-
lidades, em nome da Câmara Municipal, do Grêmio Barão Homem
de Melo, da "Tribuna do Norte" e do Clube Literário. A sepul-
tura cobriu-se de inúmeras coroas e ramilhetes de flores. A sua
aspiração, externada em poesia, realizou-se: lá está inumado no
Cemitério Municipal de Pindamonhangaba.
A nossa terra foi sempre a pupila dos olhos de Ataíde Mar-
condes. No prefácio de seu grande livro Pindamonhangab,a 1."
edição, escreveu: "Se as páginas que vão ser lidas mereceram os
aplausos das gerações vindouras, sejam êles dados em turbilhão
para a opulenta cidade de Pindarnonhangaba, berço perfumado
de meus doces amores e terra querida de meus filhos, onde eu
passei cantando a minha juventude e embalei-me sorrindo nos
sonhos encantados de minha saudosa mocidade".
Um de seus muitos biógrafos afirmou: "Sua terra natal é
Taubaté, mas êle viveu em Pindarnonhangaba, de corpo e alma.
desde os afastados tempos de 1877, que quase tóda a gente o
supõe pindamonhangabense de nascimento. Mas os homens, a
meu ver, nascem na terra que amam e para a qual vivem, ofere-
cendo-lhe o contingente grandioso da sua mocidade" "''
Ataíde Marcondes foi pindamonhangabense por escolha pró,
pria e como tanto amou a sua e nossa Pindarnonhangaba, se vivo
fosse e ante o admirável surto atual de desenvolvimento, havia
de exclamar: "Salve Pindarnonhangaba, excelsa princesa, a ca-
minhar sempre com firmeza, no rumo da eterna grandeza! Ouço
a sinfonia estrídula dos apitos, das sirenes, do progresso os gritos
Cegam-me as luzes da civilização, deslumbram-me as cores em pro-
fusão. Anúncios luminosos, núncios majestosos '0 teu real pro-
gresso, terra do bom sucesso! 6 terra minha, d e b n c e s a passa-
rás a rainha! Com a graça de Deus, eis os votos meus!"
Calar-se-ia a voz de Ataide Marcondes. E eu a terminar digo:
bem haja a sua gloriosa memória!

(11) - Joviano Homem de Melo, «Prof. Ataide Marcondes,, Tribuna drr


Norte, 11-6-1923.
DISCURSO DE POSSE
Rudolf Robert Hinner

Henrique Boiteux nasceu a 17 de setembro de 1862 na e n t ã s


vila de São Sebastião de Tijucas, em Santa Catarina, filho de
Henrique Carlos Boiteux, brasileiro da segunda geração e Maria
Carolina Jacques, ambos de descendência franco-suiça.
O pai, Coronel Henrique Carlos Boiteux, era um pioneiro,
colonizador e comerciante, uma personalidade, que marchava com
a civilização. Estabeleceu-se em Tijucas, mais tarde em Nova
Trento, onde exerceu os cargos de Superintendente Municipal e
de Delegado Literário, sem percepção de qualquer provento.
Do matrimônio com Dona Maria Carolina nasceram os filhos
Hypolito, Henrique o futuro almirante, José Artur, que também
chegou ao alto posto de almirante, Maria Luiza, Etelvina, Eulalia
e Lucas Alexandre.
As primeiras letras foram ensinadas a Henrique Boiteux pelo
Prof. Felix Vaes, um belga, ex-oficial do exercito belga, que era
o primeiro professor secundário que Tijucas possuiu. Vaes era
também pintor e cenógrafo de destaque.
No Ateneu Provincial da cidade de Nossa Senhora de Destêr-
ro, atual Florianópolis, Boiteux "foi um estudante brilhante, sem
desmerecer jamais", como o pronunciou um dos seus contempo-
râneos, o Dr. Teófilo Nolasco de Almeida. Terminados os estudos
no Destêrro, o jovem Boiteux rumou para a Capital do Império,
ávido de novos conhecimentos. L
Em 1879, solicita pela primeira vez ingresso no Colégio Naval,
aconselhado pelo então Capitão de Mar e Guerra João Mendes
Salgado. Voltou a se apresentar outra vez no ano seguinte e
conseguiu matricula naquele estabelecimento em 1880.
De 1867 a 1882, a Escola de Marinha encontrava-se a bordo
de um navio de guerra, a fragata "Constituição". A escola foi,
em 1871, transformada em "Externato de Marinha", e em 1876,
em Colégio Naval. Em 1882, esteve a escola instalada no edificio
do Arsenal da Marinha no Rio de Janeiro, onde hoje funciona
a Imprensa Naval, e no coméço de 1883, reunidos o Colégio Naval
e a Escola de Marinha sob o titulo definitivo de "Escola Naval",
foi esta instalada na Ilha das Enxadas, onde permaneceu a t é
294 REVISTA DO INSTITUTO HIST6RICO E GEOGRÁFICO DE S. P A U L O

1938. - Neste percurso, nas diversas sedes ocupadas, grandes


alterações se fizeram nos métodos de ensino, no curriculo escolar,
n a prioridade das matérias.
A Escola Naval, porém, era e continua a ser uma instituição
exemplar, que merece respeito e gratidão.
A segunda vez Henrique Boiteux veio apresentado pelo Capi-
tão-Tenente João Justino de Proença, então capitão dos Portos
de Santa Catarina. Agora se abriram as portas do instituto que
foi dirigido pelo Almirante Francisco Cordeiro Torres e Alvim,
um dos mais nobres filhos de Santa Catarina.
Concluído o curso da Academia de Marinha em 1883, Boiteux
era o segundo colocado dentre uma turma de dez e recebeu, como
recompensa de seus esforços, uma espada de honra, em cujo
punho estava gravada a seguinte inscrição: "Prêmio Barão de
Iguatemy" - Rste prêmio fora instituído pelo já contra-almiran-
te Forster Vidal, diretor da Escola Naval, em memória daquele
preclaro oficial.
Terminando o curso, Boiteux já trazia em si a semente de
grande lutador pelos assuntos da Marinha e da Pátria, aos quais
tanto se dedicava. - Como Guarda-Marinha, Boiteux pertenceu
ao grupo das "Dez Perolas". A turma de 1883 foi chamada as
"Dez Perolas" porque, de 42 alunos no primeiro ano, 18 persisti-
ram 110 segundo, e somente 10 foram os que concluiram o curso
d a Academia.
Agora chegou a vez de conhecer e aprender o serviço a bordo
de um vaso de guerra. A primeira viagem de instrução começou
em 20 de dezembro de 1883, a bordo da "Niteroi", cujo itinerário
foi a Ilha de Trinidade, Abrólhos e Santa Catarina. Na viagem
de volta o navio tocou em Santos e chegou ao Rio de Janeiro em
20 de Fevereiro de 1884.
Na "Niteroi" evidenciou-se Henrique Boiteux um amante
da navegação e ganhou a amizade do imediato, então Capitão-
Tenente Joaqui Marques Batista de Leão. No futuro, Henrique
Boiteaux e 2 ques de Leão, passaram juntos durante anos de
vida maritima, de triunfos e de horas tristes, como no naufrágio
do cruzador mixto "Almirante Barroso".
Em sucessivas viagens, foi gradativamente promovido. Em
1888, éle já era segundo-tenente e tomou parte n a viagem de cir-
cumnavegação do globo do cruzador "Almirante Barroso". Sobre
essa viagem ele escreve: "Tendo o govêrno deliberado, que seria
de circumnavegação a próxima viagem da turma de guardas-ma-
rinhas, proporcionando assim ao principe Dom Augusto Leopoldo,
recém promovido a 2.'' tenente, a oportunidade de conhecer o
m u n d o . . ." - O comando do cruzador mixto foi entregue ao Ca-
pitão de Mar e Guerra Custódio José de Mello, que teve como
imediato o Capitão-Tenente Joaquim Batista de Leão.
REVISTA DO IRSTITUTO HISTÓRICO E GEOGR*FICO DE S. P A U L O 295

O cruzador largava o Rio no dia 27 de Outubro de 1888, par-


tindo para Montevideu - Buenos Aires, Punta Arenas e depois
de uma difícil travessia pelo estreito de Magalhães, chegou a Val-
paraiso. A viagem de Valparaiso a Sidney, na Australia, levou
73 dias.
Em Sidney, Boiteux estuda a técnica e prática das Linhas de
Tiro do Estado. -Em Julho de 1889, o navio chega em Yokohama,
rumando depois para Nagasaki, Shangai e Hongkong. Aqui êle
anota no seu diário: "Aqui digo, que não existindo no Japão ou-
tro carvão senão o do país. o de Takashima, sabido inferior ao
nosso, em o dito combustível foram atestadas as nossas carvoei-
ras e com êle fomos a Hongkong. -No entanto até hoje conti-
nuamos a ser tributários dos ingleses e americanos do carvão de
pedra.. ."
De Hongkong a viagem seguiu para Singapura - Batavia
- Sumatra. Em Sumatra êle anota em seu diário: "Foi neste
porto que tivemos conhecimento de haver sido proclamada a
republica em nosso país. - Para nossa honra, embora estivesse
a bordo como oficial um principe da casa reinante, havendo al-
guns oficiais reconhecidamente adeptos da forma republicana,
sendo que a maioria era de cor monarquica, não houve a menor
manifestação da parte da guarnicão. fi preceito regulamentar a
bordo não ser permitida a menor discussão sobre política e sobre
religião, e ninguem disso tratava, porque o imediato como pre-
sidente da praça d'armas cortava qualquer infracáo.
Via Colombo - Bombay - Aden - Suez - Port Said, o
navio chega a Alexandria, donde ruma para Cairo - Napolis.
Em Napolis recebe o novo pendão da República em 15 de Abril
de 1890 que está sendo içado solenemente. A volta definitiva se
realiza via Toulon - Barcelona - Gibraltar - Salvador. Em 27
de Julho de 1890, depois de 22 meses de viagem, o cruzador "Al-
mirante Barroso" ancorou novamente no pôrto do Rio de Janeiro.
No jornal "A Nota", de 2 de Outubro de 19"Z Boiteux publi-
cou uma anedota muito engraçada sobre a v i s i t h Duquesa de
Montpensier a bordo do cruzador, em companhia de comitiva
espanhola que não quis acreditar, que a oficialidade e maioria
dos marujos do navio brasileiro era de cor branca, como êles mes-
mos. A bela duquesa, filha de um grande aristocrata, sports-
man, veleiro e dono de um iate famoso, encantou os oficiais
brasileiros, especialmente com seus conhecimentos náuticos e
maritimos.
Das grandes viagens resultava uma profunda veneracão do
jovem tenente Henrique Boiteux para com seu comandante, o
Capitão de Mar e Guerra, Joaquim Baptista de Leão, condensada
posteriormente no nono volume da obra "Os nossos Almirantes"
296 REVISTA DO ISSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRAFICO DE S. PAULO

e no discurso ao inaugurar-se o mausoleu do Almirante Baptista


de Leão, muitos anos depois.
Nos primeiros anos da República, marcados pela revolução
federalista, achamos o jovem Boiteux ao lado do governador, Dr.
Lauro Severiano Mueller. Em meio destas lutas, notamos que
Henrique Boiteux estava lançando veementes protestos contra
a Junta Governativa instalada na Cidade de Destêrro, no jornal
"Republica" (N." 627, de 9-1-1892).
Como resultado dêstes apelos, Floriano Peixoto enviará um
emissário, na pessoa do tenente Manuel Joaquim Machado, e
após uns meses de administração faz eleger os novos membros do
Congresso Federal.
Enquanto Boiteux voltou ao serviço de bordo do cruzador
"Almirante Barroso", ferveu em terra catarinense a sangrenta
revolução federalista. - Muito mais tarde, Henrique Boiteux
retratou os contemporâneos dessa época: Lauro Severiano
Mueller, Felipe Schmidt e Vida1 Ramos, em suas obras biográ-
ficas.
A segunda viagem ao redor do mundo pelo cruzador misto
"Almirante Barroso", começou em 7 de Abril de 1892 no Rio e
levou a tripulação para os Estados Unidos, Inglaterra, Lisboa e
o Mediterrâneo. Em 3 de Janeiro de 1893, o navio é exposto a
um forte Mistral, perto de Toulon, e sofre consideráveis danos.
Em 21 de Maio, o cruzador naufragou em consequência de
um maremoto, a vista da costa árabe, perto do farol As-Raffi.
Faleceu neste desastre o maquinista Tancredo Alves, mas a tri-
pulação consegue se salvar. O comandante e os oficiais realizam
verdadeiros milagres em bravura e organização para o salvamen-
to e o transporte da tripulação até a costa e pela sobrevivência
no deserto da Arábia, onde custou a receber socorro. Os infelizes
náufragos são salvos pelo cruzador inglês "Dolphin", sob o co-
mando do Capitão de fragata Craddock, e voltam via Suez -
Alexandria para Marseille e de lá pelo paquete "Bearn" para o
Brasil.
No Rio, o/ nobre e ilustre comandante Marques de Leão foi
submetido a Conselho de Guerra, onde ficou provado que não
houve imperícia, mas a fortuna do mar que causou a perda do
cruzador.
O almirante Boiteux, muito mais tarde, em 1929 - publi-
cou a História do Naufrágio na Imprensa Naval do Rio e fêz o
elogio do seu comanãante numa publicação particular, na qual
ele dedica muitos capítulos a Marques de Leão.
Boiteux, como 2." Tenente, depois de proclamada a República,
foi eleito deputado à Constituinte de Santa Catarina. E m 1891 êle
figura entre os nomes daqueles que assinaram a 1." Constituição
Republicana Catarinense. - Já em 189213, não se amoldan-
REVISTA DO INSTITCTO HISTÓRICO E GEOGRdFICO DE S. PACLO 297

do a certos processos políticos, resignou o cargo &e 2." secretário


que exercia e dedicou-se exclusivamente a sua carreira marítima.
Embarcado no couraçado Aquidaban, ao rebentar o revolta
da Armada, em consequência do rompimento entre CustOdio de
Mel10 e Floriano Peixoto, colocou-se ao lado da legalidade (1893).
Foi nomeado Ajudante @Ordens do Ministério da Marinha. Par-
tou para o Alto Uruguai a assumir o cargo de 2." comandante do
couraçado Bahia. Em Montevideu embarcou no cruzador Itaipú,
seguindo nêle para Bahia e Pernambuco, onde assumiu o coman-
do do torpedeiro Silva Jardim e, na Bahia, o do Sabino Videira.
Neste navio foi o primeiro a entrar na baia do Rio de Janeiro,
ainda em poder dos revolucionários. Terminada, em Março de
1894, a Revolta da Armada, Boiteux voltou a Bahia para em-
barcar no brigue Pirajá. Chamado ao Rio, embarcou no coura-
çado Aquidaban, seguindo para a Europa. De volta, foi nomea-
do Instrutor na Escola prática de Artilharia, Torpedos e Eletri-
cidade. Seguiu para a Inglaterra a fim de embarcar no cruzador
Amazonas. Foi para Paris para construir o "Escafandro fotográ-
fico", uma câmara fotográfica submersível de sua invenção e em
seguida foi a Carlsruhe, Capital do então Grão Ducado de Ba-
den, que fêz parte do Império Alemão, para receber munição
bélica adquirida pelo govêrno do Brasil. Chegado ao Rio, pas-
sou ao comando interino do cruzador Tupi e em seguida exerceu
o cargo de Imediato da Escola Naval. Embarcou no navio escola '
Benjamin Constant, como Instrutor dos Guardas Marinha, indo
até a Ilha da Trindade, onde foi instalado um marco de posse.
De volta foi nomeado Ajudante da Repartição hydrographica.
Nomeado Capitão dos portos do Paraná e do Serviço de pratica-
gem de Paranaguá, ali reformou o prédio da capitania e do bali-
zamento do porto, levantou um farol na Ilha do Mel e inspecio-
nou e regularizou a navegação dos Rios Negro e Iguaçu. Levan-
tou a planta da Bahia de Guaratuba e nela inaugurou a nave-
gação a vapor. Terminada essa comissão, foi n k a d o Diretor
da Biblioteca, Museu e Arquivo da Marinha, conjuntamente como
diretor da "Revista Marítima". Neste perido organizou o "Catá-
logo Geral da Biblioteca da Marinha", e fez a tradução do Cádigo
Internacional de Sinais". Voltou a ser Instrutor da Artilharia
dos Guardas-Marinha; a imediato do cruzador Benjamin Cons-
tant, a imediato da Escola Naval; Assistente do Chefe do Estado
Maior d9Armada. Seguiu para a Europa como Secretário da CO-
missão Naval. De volta, assumiu pela 2." vez o cargo de Diretor
da Biblioteca da Marinha. Comandou os cruzadores Benjamin
Constant e Timbira em viagens e exercícios, Foi designado para
2." comandante do couraçado Rio de Janeiro, em construção na
Inglaterra. De volta, foi nomeado Presidente da Comissão de
298 REVISTA DO INSTITUTO XIST6RICO E GEOGRAFICO DE S. PAULO

organização de um projeto de regulamento para as Escolas de


Aprendizes e Grumetes.
Chefiou a Comissão do levantamento da planta dos Terre-
nos da Escola Naval, na Ilha Grande Tendo rebentado uma
revolução no Paraguai, seguiu para Assunção, com instruções
confidenciais, a frente de uma Divisão naval
De volta, comandou o couraçado Minas Gerais. Voltou pela
terceira vez á diretoria da Biblioteca da Marinha. Comandou
em seguida o iate presidencial José Bonifácio. Como subchefe do
Estado Maior da Armada, foi promovido a Contra Almirante, pos-
teriormente nomeado Diretor da Escola Naval e depois Diretor
do Pessoal da Armada, inspecionando todos os estabelecimentos
navais desde o Amazonas até Mato Grosso. De volta, foi nomea-
do Inspetor de Máquinas.
Resumindo-se as missões navais, Boiteux esteve nos Esta-
dos Unidos, Uruguai, Holanda, Dinamarca, Suécia, Belgica, In-
glaterra, França, Alemanha, Paraguai, Argentina, Chile, Itália,
Egito e outros países. file era um poliglota de grande mérito e
conhecedor perfeito de 13 línguas. O português e francês eram
as linguas que dominava desde a infância
Em 1921 reforniou-se no alto posto de Almirante.
Nos seguinfes 24 anos de sua vida dedicou-se aos estudos
histórico-geográficos, viagens e invenções náuticas. Já septuage-
nário, êle viajou à Suécia e Noruéga e de lá escreveu para os
jornais brasileiros, fazendo sugestões sobre coisas que observava
e que poderiam ser proveitosas para o Brasil ("A Pátria" de
16-7-1931 "Visões da Noruéga"). Além do Escafandro fotográfico
inventou uma "Regoa criptografica" para a transmissão de men-
ságeis codificadas.
Doou ao Hospital de Caridade do Senhor Bom Jesus dos
Passos, em Florianópolis, um Pavilhão para tuberculosos que tem
o nome de sua esposa Josephine Vincent Boiteux. com a qual
se casou em 1889 e enviuvou em 1927. A confortável casa em que
o casal. no Ri de Janeiro, viveu feliz e que representava as
economias d dmuitos. anos de labuta, êle vendeu para, com seu
preço, em piedosa homenagem a morta querida, construir o refe-
rido Pavilhão. Além disto, mandou construir uma Escola Mista
em o povoado de Boiteuxburgo, no município de Tijucas, que
também leva o nome da querida esposa.
Seu nome figura em ruas da Capital Catarinense e em Gua-
ratuba; num clube náutico de Pôrto União e num Grupo Escolar
de Araguarí.
A bibliografia de Henrique Boiteux é copiosa. Os principais
trabalhos são os seguintes:
Publicacões de caráter técnico e maritimo:
"Descrição e uso de um Escafandro fotográfico".
REVISTA DO INSTITÇTO HISTÓRICO E GEOGRAFICO DE S. P A C L O 299

"Descrição e uso de uma Regoa criptográfica" (Este aparelho


foi. posteriormente adotado pela Marinha, porém a construção
da regoa foi feita por proprio custo do inventor).
"Instruções náuticas para a entrada da baía de Guaratnba".
E as duas obras inéditas:
"Manual do Marinheiro artilheiro" e "Evoluções de Artilha-
ria de desembarque".
Além daqueles, achamos ainda os seguintes artigos: "O canal
de junção da Laguna a Porto Alegre", "A Estação Naval de Léste",
"Construção Naval em Santa Catarina" e "Roteiro das Guyanas
(compilação) ".
Traduziu para o português os dois volumes publicados em
inglês do "Código internacional de Sinais" e editou uma coleção
intitulada "Festas, tradicões e liturgias maritimas". "Éfemerides
Navais", uma série de 24 quadros murais, coloridos, em que, dia
a dia, através dos meses do ano, são enumerados os mais notá-
veis encontros navais. Estes quadros adornam a sala de confe-
rências da Academia Catarinense de Letras.
No campo economico se destacam:
"Causa do atrazo do Brasil", um estudo economico-político,
baseando-se as causas do subdesenvolvimento na falta da explo-
ração da hulha e do petroleo nacional como fontes de energia
(no inicio do século).
"Madeiras de construção do Estado de Santa Catarina" (2
cadernos).
Este tema é hoje de altissima importancia e nos informa não
somente das essencias florestais existentes em Santa Catarina,
mas também dos resultados que o Autor teve com as mudas de
diversas espécies que êle plantou no Rio de Janeiro e em Flo-
rianópolis.
O lado mais forte de Boiteux, o historiador, se mostra nas
muitas biografias, que fazem a parte mais i -?rtante de sua
obra. As biografias abrangem personalidades\ da .Marinha, do
Exército, da Politica e de pessoas de destaque de Santa Catarina.
"Os nossos Almirantes'' abrange nove volumes e 109 biogra-
fias. Esta obra enciclopédica revela sólidos elementos para quem
quizer conhecer a vida dos seus biografados e os feitos e episó-
dios em que tomaram parte. O prefácio, escrito por Schutzen-
berger em 1934, revela o seguinte:
"Os governos que se descuidam de preparar os meios de
defesa e de repressão ao nivel dos perigos exteriores e
interiores que os possam ameaçar, perecem. Uma nacão
que perde suas virtudes militares, fica a mercê dos seus
inimigos".
300 REVISTA DO INSTITUTO HISTbRICO E GEOGRAFICO DE S. P A U L O

1." vol.: Salvador Corrêa de Sá e Benevides


Rodrigues Antonio de Moraes e Lamare
Lord Cochrane (Marquês do Maranhão)
Rodrigo José Ferreira Lobo
Luiz da Cunha Moreira (Visconde do Cabo Frio)
Theodoro Alexandre de Beaorepaire
João Pascoe Greenfell
2." vol.: Rodrigo Pinto Guedes (Barão do Rio da Prata)
Miguel José de Oliveira Pinto
Manoel Antonio Farinha (Conde de Souzel)
Diogo Jorge de Brito
Braz Cardoso Barreto Pimentel
José Maria de Almeida
Paulo José d a Silva Gama (Barão de Bagé)
Francisco Antonio de Silva Pacheco
Tristão Pio dos Santos
David Jewett
Joáo Taylor
Jacintho Roque de Senna Pereira

3." vol.: James Norton,


Joáo Antonio de Oliveira Bottas,
Joaquim Raymundo de Moraes Lamare,
João Baptista Lourenço e Silva,
Frederico Mariath,
Francisco Rodrigues de Lima Pinto,
José Thomas Rodrigues,
Desidério Manoel da Costa,
Joaquim José Pires,
Fernando José de Mello,
Manoel de Siqueira Campello.
Francisco de Assis Cabra1 e Teive,
Miguel de Souza Mel10 e Alvim,
José d a c i o Maia,
Pedro Antonio Nunes,
Faustino José Schultz,
José Pereira Pinto,
Antonio Joaquim do Couto,
José Bernardino Gonzaga,
Felis Joaquim dos Santos Cassão,
Augusto Wencesláo da Silva Lisboa,
Francisco Maria Telles,
Francisco Bibiano de Castro,
Jorge Broom,
José Joaquim Raposo,
Joaquim Martins
REVISTA DO IKSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRLFICO DE S. P A U L O 301

4." vol.: Joaquim Marques Lisboa (Marquês de Tamandaré)


Guilherme Parker,
Pedro Ferreira de Oliveira,
Augusto João Manoel Leverger (Baráo de Melgaço)
Bartholomeu Hayden,
Victor Antonio da Silva Beltrão,
Manoel Francisco da Costa Pereira,
5." vol.: Francisco Manoel Barroso da Silva (Baráo do Amazonas)
Joaquim José Ignacio (Visconde de Inhaúma)
Elysário Antonio dos Santos (Barão de Angra)
Pedro da Cunha
6."vol.: Jesuino Lamego Costa (Barão da Laguna)
Francisco Cordeiro Torres e Alvim (Barão de Iguatemy)
José Marques Guimarães
Miguel Antonio Pestana,
José Pinto da Luz,
João Justino de Proença,
Julio Machado de Oliveira,
Fritz Mueller,
7." vol.:

8." vol.:

9." vol.:

(Imprensa Naval, Rio de Janeiro, 1915)

"O ALMIRANTE TAMANDAR*

Nessa derradeira obra, publicada às pressas, com descuidada


impressão e claudicante revisão, por entre abundantes documen-
tos, cartas, citações e proveitosos detalhes, ressalta bem retratada
e focalizada a inolvidável personalidade do Almirante Joaquim
Marques Lisboa, através de sua longa e movimentada vida, forte
caráter, enbrgicas atitudes, singulares episódios, apropriadas
ações, heróicos feitos, sinceras opiniões e abnegadas renúncias,
que juntamente o caracterizam como um símbolo de homem,
marinheiro e patriota. Esta obra constitui um verdadeiro manan-
302 REVISTA DO INSTITUTO HISTóRICO E GEOGRaFICO DE S PAULO

cial de autênticos e esclarecidos elementos, para quem está pes-


quisando sobre o Almirante Tamandaré. Pedro Calmon, com sua
linguagem plástica e flexível, escreve: "(A Marinha Antiga), Boi-
teux, de bem a conhecer, exaltou-se nos nove tomos de "Os nos-
sos Almirantes", em "Santa Catarina na Marinha", em "Taman-
daré", o seu último volume, quadro, em corpo inteiro, de Nelson
patrício, farto de erudição, banhado de fulgurante entusiasmo,
talhado com as medidas certas de uma biografia verídica e ro-
mântica, abundante e definitiva, de glorificação e culto. - A
propósito désse ultimo livro podemos dizer que Tamandaré não
está só. Aparece-nos de grande uniforme, o óculo de Patagones
na mão que nunca tremeu, hirto e sombrio na ponte de comando
da nau - capitânea que rompe a marcha, atrás dele, fumegando
o estridor das máquinas, rumo de um horizonte de fogo, toda a
frota do Império, a de Monte Santiago, a de Toneleros, a de
Riachuelo. . . É a armada nacional, (Do elogio das sócios fale-
cidos, pelo Prof. Pedro Calmon, em Novembro de 1945).
Outras biografias de personagens navais:
"O Almirante Roberto Mac-Duall e a invasão de Santa Ca-
tarina"
"O chefe de esquadra José M. Dantas Pereira".
"James Norton, Chefe da 2." Divisão", traços biográficos
(Revista Marítima Brasileira, XXVI, n." 3, Setembro de 1906,
pgs. 285 a 301)
Norton distinguiu-se na campanha cisplatina, em combates
de Montevideu, Lara-Quilmes e Santiago. O biografado, em 16 de
Junho de 1828, comandava a ação dos navios brasileiros contra o
corsário "General Brandzen", que, tendo encalhado junto ao For-
tim de Punta Lara, cuja proteção buscára, foi não obstante, tenaz-
mente castigado e incendiado pelos brasileiros. Neste combate o
capitão de mar e guerra Norton perdeu o braço direito.
"Lord Cochrane", traços biográficos
(RevistMarítima Brasileira, XXV, n." 9, Março de 1906,
pgs. 933 e 948).
Biografia do Primeiro Almirante do Império do Brasil e orga-
nizador da Armada Nacional e Imperial. Escolhido por José Bo-
nifácio. Sob o comando de Alexander Thomas Cochrane, a esqua-
dra participou com sucesso nos conflitos na Cisplatina (1821), na
Bahia (1823), comandou a perseguição da esquadra lusitana
(1823), as operações no Maranhão (1823) e Pará (182314). No-
meado Marquês do Maranhão, em 1825, Cochrane pede sua de-
missão e volta para a Inglaterra.
"Santa Catarina na Marinha" (Off. Graphica da Liga Mari-
tima Brasileira, Avda. Rio Branco, 180, Rio de Janeiro) 27 Bio-
grafias de Catarinenses ligados á Marinha.
REVISTA DO IPÍSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRAFICO DE S. PAULO 303

Uma obra com sentido histórico definido e expressivo, acres-


cido de oportuna crítica, a fim de melhor correlacionar os fatos
com os homens que neles tomaram parte, os ambientes onde ocor-
reram e as épocas em que se realizaram, fazendo assim uma his-
tória mais fundamentada e construtiva. Mas, foi o seu extrema-
do espírito regionalista, que o deixou colhêr das fontes da histó-
ria da Provincia e do Estado de Santa Catarina, onde a maior
parte dos biografados nasceu, serviu e atuou.
I -- O Capitão de Mar e Guerra, João Nepomuceno de
Menezes,
I1 - O Capitão Tenente, Francisco Pereira Machado,
I11 - O Almirante Jesuino Lamego Costa (Barão de La-
guna),
I V - O Capitão-Tenente José Lamego Costa,
V - O Capitão de Mar e Guerra, Manoel de Oliveira Paes,
VI - O Capitão-Tenente Trajano Augusto de Carvalho
(Construtor Naval),
VI1 - O Almirante Francisco Cordeiro Torres e Alvim (Ba-
rão de Iguatemy) ,
VI11 - O Almirante José Marques Guimarães,
IX - O Primeiro-Tenente Alvaro Augusto de Carvalho,
X - O Coronel de Engenheiros, Joáo de Souza Mello e
Alvim,
XI - O Primeiro Tenente, Miguel de Souza Mello e Alvim,
XII - O Capitão de Mar e Guerra, José Maximiliano de
Mello e Alvim,
XIII - O Capitão Tenente Emilio Augusto de Mello e Alvim
(Engenheiro de Machina) ,
XIV - O Primeiro Tenente José Ignacio da Silveira,
XV - O Capitão Tenente Hyppolito de Simas Bittencourt
XVI - O Sepundo Tenente honorario José Francisco Alves
serp<
XVII - O Segundo Tenente Damasco Pinto de Araujo Corrêa,
XVIII - O Segundo Tenente Domingos Moreira da Silva,
XIX - O Segundo Tenente Antonio José da Silva,
XX -- O Segundo Tenente João da Silva Fernandes,
XXI - O Piloto Francisco de Salles Cardoso,
XXII - O Almirante José Pinto da Luz
XXIII - O Segundo Tenente José de Jesus
XXIV - O Piloto José Poluxeno da Silva,
XXV - O Segundo Tenente Luiz Antonio de Andrade Costa
XXVI - O Cawitão de Mar e Guerra Quintino Francisco da
costa:
XXVII - O Capitáo de Corveta João Velloso de Oliveira.
rr

?,n4 REVISTA D O INSTITUTO HIST6RIC'O E GEOGRAFICO DE S. PAULO

Algumas compreensivas biografias de personagens marítimas


foram publicadas na "Revista Maritima Brasileira":
"O Capítão Tenente Francisco Pereira Machado, "Vol. XXXII,
N." 2, Ago. 1912, páginas 3391347.
"O Capitão Tenente José Lamego Costa, "Vol. XXXII, N." 4,
out. 1912, Páginas 7371752.
"O 2." Tenente honorário José Francisco Alves Serpa", Vol.
XXXIII, N." 5, Nov. 1913, pgs. 6611679.
"O 2." Tenente António José da Silva", Vol. XXXIII, N.'6, Dez.
1913, páginas 873 a 890.
"O Almirante José Pinto da Luz", Revista Maritima Bras. Vol.
XXXIII, N." 7, Jan. 1914, pág. 1.039 a 1.067.
"O 2." Tenente José de Jesus", Vol. XXXIII, N." 8, Fev. 1914,
pg. 1.259185.
"O Capitão de Mar e Guerra Quintino Francisco da Costa",
Vol. XXXIII, N." 9, março de 1914, pgs. 1.493/1.516.
"O Capitão de Corveta João Veloso de Oliveira", Vol. XXXIII,
N." 12, Junho de 1914, pgs. 2.075/2.081.
Biografados foram também "O Chefe de Divisáo João Anto-
nio Alves Nogueira" e "O Capitão de Mas e Gúerra Henrique An-
tonio Batista", em obras separadas.
Em 1942, o Almirante Henrique Boiteux mandou editar pela
Biblioteca Militar a obra "Santa Catarina no Exército".
Dedicando acendrado amor a terra natal, destacam-se da sua
bagagem bibliográfica os trabalhos consagrados a homens e coi-
sas de Santa Catarina. E, dêstes, são dignos de nota os em que
o autor põe em relêvo o valor e o patriotismo de seu Estado, que
tantos filhos tem dado às forças de terra e mar. Os dois volumes
de "Santa Catarina no Exército" oferecem-nos biografias das se-
guintes personalidades catarinenses:
- Brigadp'ro Manoel Coelho Rodrigues,
- i('
Tene te General Lourenço Maria Caetano da Silva,
- Brigadeiro Carlos Resin Filho,
- Brigadeiro Joáo de Souza Fagundes,
- Brigadeiro José Maria da Gama Lobo Coelho d'Eça (Ba-
rão de Saicá),
- Marechal Francisco Carlos da Luz,
- Marechal Júlio Anacleto Falcão da Frota,
- Coronel Antonio Pedro da Silva,
- Marechal de Campo Manoel de Almeida da Gama
Lobo Coelho d'Eça (Barão de Batoví),
- Coronel Manoel José Machado da Costa Jr.,
REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRaFICO DE S P A U L O 305

- Brigadeiro Jacinto Machado Bittencourt,


- Marechal de Campo Guilherme Xavier de Souza,
- Brigadeiro Joaquim Caetano da Silva,
- Marechal Antônio Falcão da Frota,
- Tenente General José Francisco Coelho,
- General de Divisão Luiz dos Reis Falcão,
- Marechal Joáo Pedro Xavier da Câmara,
- Marechal Luiz Barbedo,
-- Marechal Roberto Trompowsky Leitão de Almeida,
- Brigadeiro Jerônimo Francisco Coelho,
- Coronel Joáo de Souza Me10 e Alvim,
-- General de Brigada Pedro Maria Trompowsky Taulois
- Coronel e Senador José da Silva Mafra,
- General de Brigada Joaquim Lourenço da Silva Ramos,
- Coronel Fernando Machado de Souza,
-- General de Divisão e Senador Felipe Schmidt,
- Coronel Arnoldo da Silveira Hautz,
- General de Divisão Lauro Severiano Mueller (Senador),
- Coronel Antonio da Silva Lopes,
- General de Brigada Tito Lúcio de Oliveira Ramos,
- Coronel Lebon Regis,
- Marechal Carlos Augusto de Campos,
- Coronel Trogilio Sant'Ana de Oliveira,
- General de Brigada João Cândido Dumiense Ferreira,
- Coronel Francisco Pinto Bandeira,
- Brigadeiro Duarte de Aleluia Pires.
- Coronel Luiz Gomes Caldeira de Andrade,
- Brigadeiro Joaquim da Gama Lobo Coelho d'Eça,
- Marechal Polidoro da Fonseca ~ u i n t a n i l h b ~ o r d ã (Vis-
o
conde de Santa Tereza)

Como mostra êste magnífico trabalho, a reflexão de um ter-


ritório pequeno em extensão, embora grande no patriotismo dos
seus filhos, é um rico repositório de exemplos de civismo de ho-
mens que souberam amar a Mãe Pátria e honrar a terra que os
viu nascer.
"Anita Garibaldi" (A heroina brasileira), 1 volume, (2 edi-
cões) .
Nesta obra, Boiteux trata e descreve os feitos de Garibaldi e
O singular amor de Anita. Rle deixou provada a qualidade de
306 REVISTA DO INSTITUTO HISThRICO E GEOGRÁFICO DE S. PAULO

Anita, de esposa legitima de Giuseppe Garibaldi, publicando o


têrmo de casamento realizado em Montevidéu.
Outro trabalho intitulado "Anita Garibaldi" foi publicado
na "Revista Catarinense", 11, 1912/1913, pgs. 321 a 324, 353 a 364.
O Autor ainda publicou uma série de reminiscências, biogra-
fias, contribuições históricas e etnológicas, etc. nos seguintes
periódicos:
"Revista Catarinense",
"Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro",
"Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Santa
Catarina",
"Revista Marítima Brasileira".
Sabemos também que Henrique Boiteux iniciou-se no jorna-
lismo ilhéu, escrevendo em "O Caixeiro" e "Regeneração" sob o
pseudónimo "H. PONS". Talvez éle sentiu-se como pons, pontis,
a ponte entre o continente e a ilha, a ponte entre os homens do
seu tempo.
Assim achamos:
"João Heriques", Biografia, Revista Catarinense I, 191111912,
página 81/83.
"Abrilada em Santa Catarina", Revista Catarinense I, . . . . . .
1911/1912, páginas 1291134.
"Sociedades de Tiro - Os Pinto Bandeiras", Revista Catari-
nense I, 1911'1912, páginas 194 a 197, 226 a 229.
"Ruinas em Santa Catarina e Paraná", Revista Catarinense
I, 1911;1912, páginas 260 a 264.
"Os Tangarás", Revista Catarinense, 1911!1912, pag. 274/275.
"Francisco Xavier Cardoso Caldeira", Revistacatarinense, I,
1911!12, páginas 330 a 332 e 11, 1912'1913, páginas 33 a 36.
"O 2." Tenente José de Jesus", Revista Catarinense I, . . . . . .
1911l1912, p w a s 360/362.
"O Naufrágio do cruzador "Almirante Barroso" a 21 de maio
de 1893, Revista Maritima Brasileira, N." 84/1." sem., pgs. 903
(escrito quando Almirante). Descrição fiel e magist,ral do nau-
frágio e da salvação.
"O Conselheiro Manoel José de Souza Franca", (nasceu na
vila de Laguna em 1780 e faleceu no Rio de Janeiro em 18481,
Revista do Instituto Histórico e Geographico, Vol. 190, Rio de
Janeiro, 1-3/1946.
"O Capitão Tenente José Lamego Costa", Revista Catarinen-
se 11, 1912!1913, páginas 245/246. Revista Marítima Brasileira,
XXXII, N." 4, de outubro de 1912, páginas 737 a 752. - Biogra-
fia do heróico comandante do brigue "Rio da Prata", que se
REVISTA D O I'JSTITVTO HISTóRICO E GEOGRAFICO DE S. P A C L O 337

defendeu gloriosamente contra 200 corsários chefiados por Cé-


sar Fournier numa batalha a noroeste da Ilha de Goriti. Perderam
os corsários 120 homens e os brasileiros 6 mortos e 12 feridos.
"David José Martins", Revista Catarinense, 11, 1912; 1913,
pgs. 129/130.
"Victorino Condá e Very", Revista Catarinense, 11, 1912 /1913,
pgs. 97 a 99, páginas 139/142.
"Mestre Valentim e a arte catarinense", Revista do Instituto
Histórico e Geográfico de Santa Catarina, VII11918, pgs. 98 a
104. - Trata-se das obras do famoso escultor mineiro, Valentim
da Fonseca e Silva, e sua influencia na arte catarinense.
"A República Catarinense", relata os intrépidos feitos dos
farroupilhas em sola catarinense, e os destinos da República Ca-
tarinense que durante a Guerra dos Farrapos foi proclamada em
Laguna - a "Cidade Juliana", e contém uma série de biogra-
fias. (Imprensa Naval, 1927).
O desenvolvimento da "República Catarinense" (1835-1840)
é minuciosamente analizado e os capítulos do livro dedicados aos
respectivos presidentes:
Feliciano Nunes Pires,
José Mariano de Albuquerqiie Cavalcanti,
Francisco Luiz do Livramento,
José Joaquim Machado de Oliveira,
Francisco José Soares de Souza Andréa,
Antero José Ferreira de Brito.
"Republica Catarinense", Elementos para sua História. Re-
vista Catarinense, 111 1912:1913, pgs. 311 a 312, - 11, 1914, pgs.
24 a 25, 51 a 54, 74 a 77, 115 a 119, 147 a 151, 171 a 174, 206 a 208.
268 a 270, 335 a 3 3 9 . Não achei nenhuma palavra mais bela,
do que de Walter Piazza sóbre Henrique Boiteux: "A sua obra
histórico-literária é um verdadeiro Templo a Clio, em cuja facha-
da lê-se esta frase \
"A GLÓRIA CATARINENSE".
"Santa Catarina nas Belas Artes", em que é figura central
o desterrense Sebastião Vieira Fernandes, seu companheiro na
aula de desenho de Manoel Francisco das Oliveiras, discipulo de
Vitor Meirelles.
"Santa Catarina no Parlamento", descreve os feitos do Padre
Lourenço Rodrigues de Andrade, Rev. do Instituto Histórico e
Geográfico de Santa Catarina, V, 1916, pgs. 20-25.
"Santa Catarina na Igreja", uma obra que apareceu em forma
de artigos publicados no "Jornal do Comércio'' do Rio de Janeiro,
- Contém as biografias do Irmão Joaquim Francisco do Livra-
308 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRXFICO DE S. PAULO

mento, que é para êle "O São Francisco Brasiliense", de Dom


Jacintho Vera, que foi Bispo de Montevideu e que morreu em
odor de Santidade e do Padre Mestre João de Santa Bárbara,
que ensinou e trabalhou n a Provincia do Rio Grande do Sul.
"Dom Jacintho Vera", Primeiro Bispo de Montevidéu, tam-
bém é alvo de um artigo publicado n a "Revista Catarinense", I,
1911 '1912, pgs. 354/357.
"LMonsenhor Duarte Mendes de Sampaio", biografia, "Revista
Catarinense", 11, 1914, pgs. 55-56.
"Episbdio Histórico", Revista Catarinense, 111, 1914, 321-324.
"História Catarinense - Episódios", Revista Catarinense, 11,
1912 '1913, pgs. 80-83.
"São Francisco do Sul em 1504", Revista Catarinense, 11,
1912i1913, páginas 19-20, pgs. 43-45, 73-75, 110-112.
Deve-lhe São Francisco do Sul a iniciativa de demonstrar
que foi para baía de Babitonga que, em 1504, aportou o navegador
francês Binot Paulmier de Gonneville e mais o povo tupí-guara-
ní, que ocupava o extensíssimo litoral de Santa Cruz, que se
prolonga por uns 8 mil quilometros, desde a foz do Oyapoc até o
Mampituba, constituída de povos de índole generosa, n o sentido
humanista, muito mais adiantados em virtudes e sentimentos
do que os povos europeus, que lhes vieram disputar a posse do
édem terrenal, em que habitávam, mantendo a distância, para
lá da Cordilheira Marítima, tribos mais atrasadas e ferozes, como
a dos Aimorés, e em geral tódas as de origem Tapuia.
"A Marinha n a Campanha contra Rosas".
"Memória sobre a Marinha de Guerra dos Farrapos".
"A Marinha n a Guerra dos Farrapos - Expedição a Santa
Catarina - Anita Garibaldi" - temas tratados n a "Revista do
Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro" (Anais do Congresso
de História", 1914. Vol. V., pg. 139 et sequ.), LXVIII, 2.":609.
"Os Corsários n a Luta de 1825-28".
Nesta o l d , um dos seus melhores trabalhos, pode-se bem
apreciar a desleal e bravia luta dos veleiros platinas, em ação
de Corso, aprisionando, saqueando e metendo a pique navios bra-
sileiros em águas nacionais, desde a costa do Rio Grande do
Sul até a do Piauí, nas lutas contra a Cisplatina.
"Corsários n a Costa Catarinense", Revista do Instituto His-
tórico e Geográfico de Santa Catarina, Vol. IV - 1915, pgs.
39-42, Vol. VI - 1917, pgs. 168-172, Vol. VI1 - 1918/1, pgs. 23-27,
Vol. VI1 - 1918'2, pgs. 170-175, Vol. VI1 - 1918j3, 296-303.
"Os Barrigas Verdes (memória histórica)" n o Jornal do Co-
mércio" do Rio de Janeiro. Com este tema, Boiteux erigiu u m
monumento em memória dos heróicos e sofredores soldados do
velho Regimento de Linha de Santa Catarina.
REVISTA DO IKSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRAFICO DE S. P A U L O 309

Mereceram-lhe atenção os Municípios de Tijucas-Grande e de


Porto Belo, sobre os quais elaborou um estudo coreográfico.
"Notas Geográficas para a Navegação da Lagoa Mirim", Re-
vista Marítima Brasileira, N." 661 1." sem. pg. 1.521 (escrito quan-
do Capitão de Mar e Guerra) 1915.
"Os Municípios e a Marinha"? Revista Marítima Brasileira,
XXVI, N." 1 de Julho de 1906, pags. 11\13.
Termo significativo de Posse (acerca da chegada na Ilha da
Trindade) Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro,
LXII, 2.", p. 243.
"Naufrágio do Paquete à vela "Jaguaripe", Rev. Catarinense,
111, 1914, pgs. 301-302.
Segundo Congresso Brasileiro de Geografia, Revista Mariti-
ma Brasileira, XXX, N." 4, Outubro de 1910, pgs. 721-723 (escrito
quando Capitão de Corveta).
"As Termas do Cubatão", Revista Catarinense, 11, 1912/1913,
pgs. 161-166 e 111, 191'4, pg. 250.
"Fontes Termais do Uruguai e do Chapecó", Revista Catari-
nense, 11, 191211913, pgs. 245-246.
"Visões da Noruéga", Revista "A Pátria" de 16-7-1931.
Na Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Santa Ca-
tarina, l." semestre de 1944, vol. XII, relata a história do "Falans-
tério de Saí", a fundação de uma colonia industrial planejada e
realizada por um grupo de franceses. O trabalho condensa valio-
sa e interessante documentação relativa ao empreendimento que
o Dr. J. B. Mure tentara levar a efeito, em 1841, no município
de São Francisco, inspirado pela filosofia de Fourier. - O Fa-
lanstério do Saí, embora terminado sem sucesso em 1848, era o
protótipo das atuais Cooperativas Agrícolas e Industriais e lem-
bra a organização dos Kibbutzim no Israel. Henrique Boiteux
soube tratar o assunto com a elevação que caracteriza as suas
produções literarias, na convicção de que visa a história, muito
mais do que a estabelecer datas, lugares e nomes c o b o rigorismo
das investigações sérias, fixar nos acontecimentos a marcha pro-
gressiva do e s ~ í r i t ohumano. as conseauências da ~ r á t i c a .as cir-
cunstâncias dê utilidade social para - q-;e Dossa servir à educação.
"Cultura do Linho em Santa Cataritia, Revista Catarinense,
-
111. 1914. DES. 353-354.
"O Cavalo "brasileiro", Revista Catarinense, 111, 1914, pgs.
153-154.
"O tiro de torpedo a grande distância", Revista Marítima
Brasileira, XXXIV, n." 4, outubro de 19114, pgs. 659-675.
A cultura histórica do Almirante Henrique Boiteux era conhe-
cida e apreciada em todo o país. Ele era credenciado sócio do
egrégio Instituto Histórico Geográfico de Santa Catarina, do vene-
rável Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, onde foi admiti-
do em 1905, e dos institutos congêneres de São Paulo, Ceará, Per-
nambuco, Sergipe, Bahia, Espírito Santo, Ouro Preto e Paraná.
Além disto fazia parte da Academia de Historia Nacional do Rio
de Janeiro, da Academia Catarinense de Letras, da Sociedade
Geográfica do Rio de Janeiro, do Instituto Técnico Naval, do
Instituto Militar de Geografia e do Instituto de História Militar.
Pela manhã do dia 29 de Abril de 1945, o Almirante Boiteux
fora encontrado morto no leito, na sua posição normal de dormir.
Tinha morrido súbito e sem sofrimento. Suas fortes ligações
ancestrais e culturais a França fizeram-no sofrer espiritualmente
com a ocupação alemã dêste país. Membros da família acreditam,
que ele se emocionava tanto com o fim da Segunda Guerra Mun-
dial e com a capitulacão alemã eminente nesses dias, que final-
mente sofreu um enfarte cardíaco.
Apagou-se a chama de uma vida e de um gênio universal,
que ardia intensamente pela Pátria Brasileira, a terra catarinen-
se, pelo nobre ofício naval, pelas Artes, Letras e ciência, pela
cultura e verdade, seguindo o lema que consta do seu ex-libris:

QUE EXHIBI, NUTRE

Estou profundamente grato às seguintes personagens, que


me ajudaram a juntar o material dêste modesto estudo:
Prof. Dr. Pedro Calmon, Presidente do Instituto Histórico e Geo-
gráfico Brasileiro.
Dr. Aureliano Leite, Presidente do Instituto Histórico Geográfico
de São Paulo.
Prof. Dr. Walter Piazza, Presidente do Instituto Histórico Geo-
gráfico
- de Santa Catarina.
Almirante &shington Pery de Almeida, Vice-presidente da So-
ciedade Brasileira de Geografia e Membro do Club Naval do
Rio de Janeiro.
Snr. Adolfo Bernardo Schneider, Presidente da Academia Joinvi-
lense de Letras.
PRELIMINARES DA REVOLUÇÃO DE 32
MISSA0 NO RIO GRANDE DO SUL -
Aureliano Leite

O meu livro Subsidias para a História da Civilização Paulista


estampa, em 8 de março de 1932, a seguinte informação: "Voam
para o Rio Grande do Sul, como delegados da Frente Única Pau-
lista, Abelardo Vergueiro Cesar e Aureliano Leite. Vão estabelecer
com os gauchos o plano do movimento revolucionário. Voltam
dali dez dias depois, trazendo o compron~issodas figuras políticas
centrais daquele Estado".
No cumprimento dessa missão, tivemos o cuidado de anotar
em um diário, hora a hora, o resumo de nossas conversaçóes com
os próceres daquele Estado. Lembro que a nossa ida ao Rio Grande
foi provocada pelos seus representantes que haviam abandonado
as posições no govêrno de Vargas: Lindolfo Color, Batista Luzar-
do, Mauricio Cardoso, João Neves, Barros Cassal.
Conservei êsse diário, manuscrito, ora por Abelardo, ora por
mim, sem jamais dar-lhe publicidade, resistindo ao desejo de meu
saudoso companheiro que, mais de uma vez, se mostrou favorável
a sua divulgação.
Desaparecido Abelardo, menos como valor histórico do que
como homenagem ao querido morto, vou dar-lhe publicidade.
Quero fazê-lo respeitando-lhe inteiramente a redação, que
conserva o sabor próprio daqueles tempos inesquecíveis. Guardo o
curioso original em meu arquivo e ponho-o à d i s p o ~ ã ode quem
quer que o deseje ver:
Ei-10:
"Março, 6 (domingo). Fala Abelardo: A tarde, Aureliano,
Julinho Mesquita, Joaquim (S. Vidal) passaram pela minha casa
e comunicam-me que, pela Frente única Paulista, devo ir com o
primeiro para Pôrto Alegre, têrça-feira, dia 8, de avião. Respon-
do-lhes que com a maior satisfação cumprirei a ordem. A 7 de
março, encontro-me com o Aureliano as 19,112 horas, na casa do
dr. Morato. Juntos, vamos a casa do dr. Altino. Deixo Aureliano
no "Diário Nacional", onde devo procurá-lo a 1 hora, a fim de
juntos partirmos para Santos. Passo no "Estado". Vou buscar
314 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO DE S. P A U L O

minha mala em casa. Ã l e 20 seguimos para Santos. Parque


Balneário.
Março, 8. Partimos de hidro-avião, as 8 e 45. Quando entra-
mos neste, noto, entre alguns passageiros que sabiam de nosso
embarque, Luís Aranha e Barros Cassal. Não encontramos nem
Eurico de Sousa Leão, nem o tenente Gasipo, anunciados, que
vinham do Rio. Em Paranaguá, almoçamos. Ouvi um dos passa-
geiros dizer para outro, falando de nós: "São os representantes
da Frente Única Paulista". Contei o que ouvi e já havia percebido
ao Aureliano. São Francisco, lindas praias solitárias. Florianópo-
lis. Descida forcada na Lagoa de Itapeva. Pôrto Alegre. No desem-
barque, Fernando Caldas e mais dois jornalistas que sabiam da
nossa chegada e para quê. Falamos aos jornalistas que viemos,
eu, para assuntos de Bolsa, Aureliano, para serviço profissional.
No Hotel Schmidt: visitam-nos Pilla, Luzardo, Gabriel Moacyr,
Caldas. Troca imediata de informações e impressões.
Março, 9. -Passamos o primeiro telegrama a x. Pouco saímos
a rua. Não conversamos quase com ninguém, a não ser com Color,
a noite. Abelardo ocupa-se da Bolsa. Aureliano passeia. Passamos
segundo telegrama para x.
Março, 10. - Das 9 ao meio-dia e meia hora, com Lusardo,
no Grande Hotel. Chega Mauricio. Entra João Neves. Fala expon-
do três hipóteses. Há contradicão aparente e propositada que mais
tarde submeto a Aureliano. Entra Barros Cassal. Fala com fir-
meza. João Neves o acompanha. Almoçamos. Às 1'4horas, com
Flores, no Palácio. Flores, de temperamento voluvel, nesse dia,
está vibrante. Pilla está presente. Flores, após afirmar repetida-
mente seu amor a São Paulo, terra em que trabalhara para estu-
dar, quis que soubéssemos como procedeu para com São Paulo,
quando da entrada no seu território, em 1930, à frente da coluna
que comandava. "Parou em Osasco e só entrou na Capital no dia
em que um dever de amizade a. um vencido exigiu a sua visita.
Despiu a farda, e lá foi cumprir o dever. Daí a um dia, Getúlio,
de S. Paulo, r gou-lhe
. que de Osasco partisse imediatamente com
&
a sua tropa ra o Rio. Obedeceu, não sem redarguir-lhe: "Queres
tu que eu vá limpar a estrada? Pois lá vou. Eu fui". Só então
atravessou a Capital. Aliás, se não fôsse para o Rio, é bem possí-
vel aue a Junta aos Generais não tivesse entregue o govêrno.
Depois, Flores mudou a conversa para o objetivo da nossa visita.
Fêz declarações positivas a respeito da atitude do Rio Grande.
Estava com São Paulo. Uma semana antes estivera pronto
para arrancar contra a ditadura. O movimento fora frustraao,
mas não estava fora de cogitação. Tinha o plano de renunciar a
interventoria para ser aclamado governador e assumir a chefia
dos gauchos para a investida fulminante contra Getúlio. Deixa-
mos Flores e encontramos com João Neves e Color. Lembram a
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ação do Rio Grande a favor de São Paulo. No Pacto de Cambu-


quira, na Conferência de Cachoeira, etc. Às 15 horas, na compa-
nhia de Pilla, vamos a Borges Medeiros. Aureliano põe bem o
caso de São Paulo. Ouviu-nos com atenção. Ia meditar. Visitas
a nós Aureliano janta com Color, Abelardo com dr. Ismael Tor-
res. Color queixa-se do histerismo nosso (de São Paulo). Aure-
liano reage - não confundir desgosto e altivez com histerismo.
Ponto de vista de Color é o mesmo de João Neves. Pela noite visi-
tamos Ptolomeu, interventor de Santa Catarina, libertador, sobri-
nho de Assis. Pilla entrevista-se com João Alberto. Carta de Artur
Bernardes a Borges. Aureliano escreve a seu filho Fernando, man-
dando recado para dr. Morato. Abelardo escreve para Altino, via
escritório.
Março, 11. - Concedemos entrevista a imprensa, inevitável,
para que se não atribuam outros intuitos e outras palavras a nós,
como separatismo, reacionarismo, etc. Visita de delegacão do Par-
tido Libertador. Repetimos-lhe o que já haviamos dito Aure-
liano passeia. Abelardo ocupa-se de Bolsa e visitas. Aureliano
almoça com Femando Caldas e Gabriel Moacyr. De tarde, encon-
tramos com Pilla, no "Estado do Rio Grande". A noite, ambos
com Cassal. Continuamos sempre reservados. Carta de Osvaldo
a mãe, vista por Abelardo na visita a ela, declara que estará no
último caso com os gauchos.
Março, 12. - Telegrama a Abelardo do dr. Altino: "Pedimos
guardar máxima reserva entrevistas, declaração imprensa, a fim
evitar aqui explorações adversários e desgostos amigos todos ansio-
sos seu regresso para orientação nossa. Cordiais saudações" De-
mos resposta imediata - Abelardo a Altino, Aureliano a Morato.
"Agimos sempre com máxima reserva. Não atacamos ninguém. Só
falamos em Constituição, autonomia, federação, nacionalismo, que
é o supremo pensamento nosso e do Exército". Altino silenciou.
Morato respondeu: "Teleprama Altino mal compreendido. Nossas
instruções inalteráveis. SolidarieXade absoluta. Sua entrevista
hoje exprime fielmente nosso pensamento. Akyços. ,Morato".
Entendimento com dr. Benjamin Luz sobre Fren e unica Para-
naense, com aproveitamento de Artur Santos e Flavio Guimarães,
hóspedes aqui. com quem já conversáramos, ontem. pessoalmente.
Linda tarde de sábado. A rua da Praia. como de costume, cheia
de p3líticos: Pilla. Firpo, Neves, Schneider. Gabino Fonseca. Eaitá-
cio Pessoa Sobrinho, Gonçalves Viana. Walter Jobim, Caldas, Moa-
cyr, Lucidio Ramos. Color, Ptolomeu. Fala-se na chegada de Assis
Brasil, à noite, vindo da Argentina. Fala-se muito e dolorosamente
na sua provável defecção. Uns entendem que o que falta a Assis
é ambiente. Chegado, êle se modificará.
Na rua, com relação ao Rio Grande, circula a frase que Aure-
liano lançou n o encontro com Borges Medeiros: "Hoje, o R. G. é a
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Meca do Brasil e o Sr. Pilla e os demais, os apóstolos da República".


Voltamos ao Hotel Schmidt para jantar e encontramos o telegra-
ma já referido do dr. Morato, dando-nos o seu apoio integral. Tele-
grafamos a Fernando Leite, nosso intermediário em São Paulo,
dando notícia do ultimatum que a Frente Gaucha vai dirigir a
Vargas, dentro do qual pleiteamos um item especial para o caso
de São Paulo, sem conseguir. Assis Brasil chegou por terra, às 10
horas. Recepção fria e pequena. Procuramo-lo, logo depois, no
modesto Cidade Hotel. Meio ferino, pergunta-nos se representava-
mos a Frente única ou uma Frente Única? Há forte esperança de
as coisas melhorarem. Avistamo-nos com o tenente Gasipo. Ani-
mou-nos com o resultado de S. Paulo. Telegrafamos a Julinho
Mesquita, dando impressão de Assis Brasil. Color traz para o nosso
e seu Hotel, dentro de um Nietzçche ("Assim falou Zaratustra"),
os apontamentos para a redação do pretendido ultimatum a Vargas,
que iria decidir dos destinos do Brasil. Conversa-se sobre a candi-
datura de Borges à Presidência da República e Pilla para o Rio
Grande. João Neves para a pasta da Justiça. Assis e Borges há
30 anos que não se falam. Sinval, secretário do Interior, casado
com filha adotiva de Borges, aproximou-os com uma visita especial
em nome de Borges.
Março, 13 .- Vemos no Diário de Notícias um telegrama de
S . Paulo que diz da curiosidade em saber ao certo ao que viemos.
pois há queixas de nossa reserva. Gasipo visita-nos. Pôs-nos ao
corrente de tudo. Fala de Pilla, o grande brasileiro, da simplici-
dade com que traduz as coisas mais difíceis, da serenidade nas
suas convicções intransigentes. Fala da reunião em casa de Silvio
Campos, com Altino, Ataliba e Eurico de Souza Leão. Vimos a
carta que Isidoro mandou a Pilla. Manifesta-se totalmente confian-
te no preparo de São Paulo para a luta. Não é exata a prisão de
João Alberto (que conta coisas sobre São Paulo) por Flores. Borges
e demais políticos encontram-se e confabulam. Visita-nos Firpo.
Afirma que Assis estava sem ambiente. Chegado está com a Frente
a Frente Única Paulista, via Fernan-
Corridas. Joquei Clube. Poucas
damas. Procissão de Nossa Senhora e Senhor dos Passos. Lindas
imagens. Bandas militares. Massa de povo. Pequena percenta-
gem de prêtos. Falamos com um filho de Ptolomeu. Médico, inte-
ligente, todo pela nossa causa.
João Alberto e sua idiosincrasia pelo partido Democrático
vieram com sua amante e um secretário (A. Neiva Telles). Pre-
texta a viagem, visitando a sogra e deixando a esposa no Rio.
Conspira francamente contra São Paulo e, para disfarçar, fala
em acordo. São mais ou menos seis os itens do acordo. Insistimos
junto de Pilla, Luzardo, Color e J. Neves, por um item especial que
resolva o caso de São Paulo, o qual, agora mais que nunca, não
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está resolvido com Pedro de Toledo. O próprio Borges concorda


conosco. Mas êles acham que o caso de São Paulo será contido,
devido a outros casos estaduais, num item genérico. Desde cedo,
estão reunidos num conclave os políticos gauchos. Voltamos a
meia-noite do Grande Hotel. Firpo e Luzardo disseram-nos que
Assis está firme e quer o rompimento pura e simplesmente com
Vargas. Mauricio muito amável. Desculpou-se com Abelardo do
mau juízo com que julgara certos membros da Frente Única Pau-
lista, e a versão de que é inimigo de São Paulo, que, por sinal,
Firpo confirma. Falei-lhe da bela procissão da tarde. file redar-
gue: "A mais bela será a do encontro amanhã". Não compreendo-
mos. Êle explica: "O encontro de Assis e Borges". No caminho
para o nosso hotel, d. Paula Moacyr entregou-nos o seu álbum de
autografos para que escrevessemos alguma coisa da Revolução de
1930. Abelardo recusa, pois fora legalista. Um jornalista conta-nos
alguma coisa da família Vargas e da vida dos chefes gauchos.
Irmão mais velho de Getulio, Protasio ê um dos assassinos do estu-
dante ituano Almeida Prado. Os irmãos trouxeram mais tarde,
para São Borja, de Ouro Prêtol o jovem médico Benjamin Torres.
Ao cabo de certo tempo, o médico 6 morto por um assalariado a
mando de um dos Vargas. Família de ricos estancieiros, de que o
chefe. general M a ~ u e Vargas.
l lutou na campanha contra o caudi-
lho Gumercindo Saraiva. Pilla, solteirão, puritano, médico, tem
conhecimentos de Direito Constitucional. Vargas foi o alquimista
de depuração de Assis na luta presidencial com Borges. Borges
é um valente. A chegada do general Setembrino, que veio para
depô-lo, deu prova pessoal de valentia em tiroteios sérios.
Borges traça ou inspira as notas políticas da Federação.
"Antonio Chimango", poema satírico de Ramiro Barcelos, contra
Borges, foi-nos presenteado por um libertador. Contam-nos ainda
pormenores da Revolução de 1930 em Pôrt,o Alegre. Osvaldo, Flo-
res e filhos dêstes entraram no Quartel General debaixo de u m
chuveiro de balas. O coronel Franco Ferreira, que atirou contra
Osvaldo, foi por êste poupado. Na Revolução de % Osvaldo fora
ferido, quando avançava para uma metralhadora, contra Alcides
Etchegoyen. Conversa sobre Getúlio. Aureliano lembra que,
quando êle e outros foram buscá-lo no Rio para i r a São Paulo
ler a sua plataforma política, teve antes um entendimento de três
horas com Washington Luiz. a quem chegou a prometer não obede-
cer a combinação. Um gaucho lembrou que êie escangalhou com
as finanças de seu Estado. Entretanto foi êle quem uniu os liber-
tadores e borgistas. Alguém referiu-se ao fato de êle mandar a
São Paulo e Ri