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Volume 5

M E M Ó R I A E PAT R I M Ô N I O C U LT U R A L
D E C ATA G U A S E S
Apoio:

Execução:

Patrocínio:
M E M Ó R I A E PAT R I M Ô N I O C U LT U R A L
D E C ATA G U A S E S

Vo l u m e 5
1ª EDIÇÃO – 2014

Organização e Coordenação: Paulo Henrique Alonso

Equipe de História Oral (década de 1990):

Glaucia Siqueira, Hedileuza Maria de Oliveira Valadares, Hélvia Peres


Cordeiro, João Carlos Borges Juste, José Luiz Batista, Luiz Fernando Leitão,
Maria Lucia de Miranda, Mariana Cândida Cardoso de Almeida,
Mônica Machado da Silva, Rosângela Schittini Rodrigues

Pesquisadores:

Luiz Fernando Leitão (coordenação)

Adriana Fidélis Silva, Paulo Henrique Alonso, Renatta Barbosa,


Rita de Cássia Mendes Cabral

Foto atual da capa: Rafael Aguiar

Produção de vídeo-relatos: Rafael Aguiar

Design: Alexis Azevedo, Birte Paetrow, Gustavo Baldez, Holger Melzow

Plataforma de rede e internet: David Azevedo, Gustavo Baldez

Comunicação: Beth Sanna

Ficha Catalográfica: Carla da Silva Ângelo

Gestão administrativo-financeira:
Djalma Dutra Jr, Geisiane Marinho de Lima

M533

Memória e patrimônio cultural de Cataguases: relatos coletados


na década de 1990 / Paulo Henrique Alonso (Coord.). – Cataguases / MG:
ICC, 2014.
288 p.: il. p&b. – (Memória e patrimônio cultural de Cataguases; V)

ISBN: 978-85-65550-06-2
M E M Ó R I A E PAT R I M Ô N I O C U LT U R A L
D E C ATA G U A S E S

Vo l u m e 5
A P R E S E N TA Ç Ã O

Através deste quinto volume do Memória


e Patrimônio Cultural de Cataguases, o Instituto
Cidade de Cataguases e a Fábrica do Futuro dão con-
tinuidade ao registro e à divulgação da memória e
história da cidade.
Este projeto iniciou-se no final da década de
1980, num amplo trabalho de preservação do patri-
mônio cultural, por iniciativa da Prefeitura e pela an-
tiga SPHAN/Fundação Pró-Memória, o atual IPHAN.
Naquela época foram entrevistados vários persona-
gens de Cataguases, partindo da ideia de que é pos-
sível conhecer a história da cidade ou de uma deter-
minada comunidade através do relato das histórias
pessoais e do olhar dos seus próprios atores. São his-
tórias que se juntam, algumas se encontram, outras se
contradizem, mas ao final contribuem para enrique-
cer e expor as nuances da história e da memória local.
Dessa forma, publicar essas histórias pessoais é, den-
tre muitos outros propósitos, contribuir para a preser-
vação da memória e do patrimônio cultural da cidade.
Nos anos 2011 e 2012, o Instituto Cidade de
Cataguases e a Fábrica do Futuro tiveram a oportu-
nidade de resgatar o projeto. Foram reeditados três
livros com os relatos colhidos no final da década de
1980 e, numa parceria com as Faculdades Integradas
de Cataguases, foi produzido um quarto volume com
relatos inéditos. Agora, entre 2013 e 2014, dando con-
tinuidade ao projeto, produzimos mais dois outros
volumes. Neste 5º, resgatamos vinte relatos colhidos
entre 1988 e 1992, que não foram publicados e esta-
vam arquivados no Departamento de Preservação do
Patrimônio Cultural da Prefeitura, aguardando essa
iniciativa.
Optamos pela padronização assim como nas
publicações anteriores, no entanto, não conseguimos
resgatar algumas informações. Por este motivo, al-
guns relatos constantes aqui não possuem dados co-
mo a profissão declarada e a idade dos entrevistados,
ou o nome dos entrevistadores e a data da entrevista.
Cabe ainda ressaltar que a idade registrada dos entre-
vistados é da época das entrevistas, entre 1988 e 1992.
E, seguindo metodologia das edições anteriores, os
textos privilegiam a fala própria dos entrevistados,
regendo-se mais pelas regras da comunicação oral do
que pelas normas da escrita.
Esta publicação está também disponível, em
formato PDF, para download gratuito no sítio eletrô-
nico: www.fabricadofuturo.org.br.
ÍNDICE

13

A L C I N O VA L E N T I M D E S O U Z A
(Neném Cachoeira)

21

ANTÔNIO RODRIGUES
Operário, 74 anos

35

Monsenhor
A N T Ô N I O X AV I E R R O D R I G U E S
47

A PA R E C I D A M A S S E N A C O U T I N H O
Professora de música

55

CLARISSE RAMOS
Doceira, 82 anos

63

FRANCISCO GRACIOLLI
Construtor, 91 anos

71

HILDA CONDÉ
Professora, 79 anos

79

J A I R P I N H E I R O D A S I L VA

91

JOANA RAIPP NOGUEIRA


Dona de casa, 76 anos

99

JOAQUIM LADEIRA
Operário aposentado, 73 anos
107

JOSÉ DE SOUZA LUQUINI


Operário aposentado, 68 anos

127

JOSÉ MAURICIO DE SOUZA


Operário aposentado, 70 anos

137

MADALENA SOARES ABRANCHES


Pianista, 87 anos

153

MARIA LACERDA WEBSTER


Professora, 89 anos

161

MARIA DE LOURDES CAMPOS MORONI


Operária aposentada, 70 anos

181

MICAELA DE OLIVEIRA
Dona de casa, 87 anos

201

M I L T O N C A R VA L H E I R A P E I X O T O
Farmacêutico, 66 anos
217

R A U L S I E RV I
Agricultor, 75 anos

227

RODRIGO LANNA
Industrial, 72 anos

241

W I L S O N VA L V E R D E ( C i c i n h o V a l v e r d e )
63 anos
A L C I N O VA L E N T I M D E
SOUZA
(Neném Cachoeira)

Com dezessete anos eu saí da Fábrica


(Velha). Eu entrei com nove anos mais ou menos, eu
não tenho a idade certa, mas sei que entrei pequeno
pra lá, porque papai... nós fomos uma família pobre,
não tinha nada. Papai empregou os filhos na fábrica,
porque ele já tinha trabalhado pro Peixoto Velho, aqui
na fazenda dele, no Tomé. Ele gostava muito do meu
pai, então ele passou nós todos pra fábrica, pôs todos
os filhos na fábrica. Papai (antes) trabalhava pro co-
ronel João Duarte. Ele era Presidente da Câmara, não
tinha prefeito. Quando ele embarcava pro Rio, ia lá

13
acertar o negócio de café, ele ia acertar lá venda dele
lá no Rio. Quando ele chegava – ele ficava uns quin-
ze dias – a estação ficava assim, esperando a chegada.
(Ele era um homem) Muito importante! Muito!
Na fábrica, entrando com nove anos, até eu
sair, nunca eles mandaram ninguém embora. Eu en-
trei começando no filatório. Depois do filatório eu
passei pra passador, depois eu passei pra calda, de-
pois eu passei pra ajudante de batedor, depois eu
voltei pras caldas novas outra vez, depois eu fui pra
maçaroqueira fina, depois eu peguei o banco grosso,
depois desse banco grosso eu voltei pra fina. Depois
da fina, eu estava querendo enjoar da fábrica. Com
dezessete anos eu saí da fábrica.
O Sr. Augusto Cunha me pegou pra ir pro ci-
nema com nove anos.
Então ali eu fiquei seguramente uns vinte e
oito anos. Na falta do Lózio – acho que morreu – eu
fui e entrei. Fui trabalhando ali, sem saber o que ga-
nhava, sem saber o que ganhava. O serviço de um
operário é o seguinte: tratar da cabine, do aparelho e
tratar de conservar todo o dia... O trabalho era um só,
mas tem ajudante também que corre a fita, vira a fita.
A fita passa, depois tem que virar ela direito. Pra ela
poder sair dos escritórios. (Os filmes) eram mudo até
certo tempo.

14
Humberto Mauro andou tirando os filmes
aqui em Cataguases, aqui pelas roças, pelos bairros,
as fazendas. Quer dizer que aí começou, e tiraram a
fita e experimentavam a fita lá no cinema. Arranjou
também um rapaz que era meu irmão, o Cid, pra en-
trar trabalhando como ator de cinema. Ele trabalhava
até de bandido.
Todo dia tinha filme. Só parava com os filmes
quando tinha Companhia de Teatro. Tinha teatro, vi-
nha do Rio de Janeiro, era companhia mesmo, de do-
ze pessoas, às vezes quinze. Teatro só começava às 8
horas. Nós vínhamos trabalhar, as gambiarras eram
muito altas, então nós tinha que ficar trabalhando.
Era eu, Edgar, Rui era os filhos do sr. Augusto Cunha,
quase todos. Só não estava o Augusto Cunha Filho,
porque aquele já tinha entrado para o Banco do Brasil
e já não queria fazer mais parte. De maneira que fa-
zíamos um trabalho muito perfeito. As companhias
do Rio de Janeiro gostavam de mim. Mais de uma...
diversas companhias. Vinham pra aqui, não dava ci-
nema, só teatro.
“Teatro Recreio Cataguasense”. Era assim
uma escadaria na entrada com uns seis degraus para
subir, para entrar para a sala da plateia. A sala tinha
três portas. Nós passávamos muita fita boa naqueles
tempos. Carlitos... Então eu passei muito aquilo. (Em

15
cima) tinha o Clube Comercial. Ali tinha baile todo
o sábado e domingo. Era uma sociedade, era muito
animado, muito animado mesmo.
Eu não tenho a data (da demolição) na memó-
ria não. Eu sei dizer que quando mudou o cinema
pra cá, onde hoje é a Nacional, quero dizer que nós
mudamos o cinema a noite inteira. Acabou a fita, co-
meçou. Ficamos a noite inteira passando pra lá. Ali já
tinha arrumado o barracão para nós trabalharmos lá,
enquanto demolisse o cinema.
O cinema demorou a demolir, aquilo ali era tu-
do de pau, mas bem seguro. Aquela escada que subia
pra torrinha, aquela escada que subia pros camarotes,
as frisas lá em baixo, tudo separadinho, com cinco ca-
deiras, tudo bem arrumadinho. (Na torrinha) paga-
vam menos naquela ocasião.
Joguei (futebol no Operário), não existia bem o
Flamenguinho e Operário. O primeiro foi o Atlético
Cataguasense porque o campo era ali na Cima, na-
quelas imediações. Era um terreno baldio, então
quando dava jogo contra o time mais forte da Zona
da Mata, o Ribeiro Junqueira, o campo enchia, mas
não era campo ainda, era campo aberto. A compara-
ção do time que nós tínhamos aqui em Cataguases,
sem pensar em Flamengo e Operário, era o Ribeiro
Junqueira e o Atlético. Depois a moçada pegou,

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foi formando, saindo, largando o time e acabou o
Atlético, aí que veio o Flamengo no mesmo campo.
Mas o Flamengo, não era Flamenguinho. O Operário
depois. Depois, depois que começou o Flamengo. O
Operário arranjou uma sociedade. Quando formou o
Operário, formou com pessoas todas velhas, todas já
antigas de idade, de oitenta anos pra cima, formou
e nunca acabou. Quando eu jogava nesses times de
rua, assim com nove anos, nós fazíamos time de rua.
E onde havia um largo bom pra gente fazer o time, a
praça lá em cima... a Vila, eu morei na Vila, fui criado
aqui. Formou o Operário. E a gente era criança, pe-
gava a bola atrás do gol, aquela coisa toda. E depois
surgiu o Emílio e o Cid. Aí entrou o Operário, o ti-
me era Clube novo, novo e sem experiência. Então o
Emílio como é inteligente, viu aquele joguinho de rua
e pegou a gente, pegou muitos jogadores da rua e fez
o time. Fez o time, catou na rua aqueles melhores, fez
o time, e o campo era aqui onde foi a fábrica de fósfo-
ro. Eu morava ali naquelas casas da fábrica, ali quem
vai para o Tomé. Pra encerrar eu fiquei no Operário
mais ou menos jogando até casar.
O bonde até passava só na rua da Estação, e
lá ele fazia o trajeto e tal. Aquela Avenida (Astolfo
Dutra) era, aquele corguinho era lá agarrado, ali no
INPS. E aquela linha era agarrada com o corguinho.

17
Então foi preciso tirar a linha pra lá e trazer o corgui-
nho pra cá, pra poder aterrar lá. Papai ajudou a fazer
aquela Avenida. Trabalhou com doze carroças. Doze
carroças. Papai estava cavucando a terra, e naquele
tempo fazia um cachimbo assim, na altura desta ca-
sa e metia estepe lá e botava por baixo. Aquela onda
da terra caía que ia parar longe. Papai trabalhou ali
até acabar a Avenida, até adoecer, porque caiu um
cachimbo de terra em cima dele, e aí meteram a pá
e tiraram ele debaixo da terra e o velho não prestou
pra nada mais.
Isso é o papai, ele trabalhava pra tratar de nós.
Tinha uma fábrica de toalha ali naquela proximidade,
atrás da Igreja, que vai lá pro Leonardo. Então nós ti-
vemos essa fábrica por muitos anos, mas depois aca-
bou. Tinha também uma fábrica de cerveja, na Rua
do Pomba, na Rua Major Vieira, do Sr. Gustavo Paiva.
Cataguases tinha muita coisa.
(Pedro Dutra) foi importante, foi um advo-
gado importantíssimo. De maneira que também ti-
nha lá seu contrato com o governo. Ele estava me-
tido na política. Aqueles tempos eram muito bons.
O Sr. Rogério Teixeira era o único que tinha banda
de música aqui; que tinha a Liga Operária, mas não
era bem controlada. Mas apanhamos um maestro
aqui, ele chamava Gomes. Então ele treinou a Liga

18
Operária, que tinha instrumentos, tinha tudo, tocava
e tal, mas não era uma banda como a do Sr. Rogério.
Sr. Rogério era formidável. No começo ele tinha doze
figuras, depois foi aumentando. Era uma banda mui-
to afamada.

Entrevistado por João Carlos Borges Juste e Rosangela Schittini


Rodrigues, em 1988.

19
20
ANTÔNIO RODRIGUES
OPERÁRIO

74 anos

Eu nasci no distrito - Glória, aqui


pra cima de Sereno. Mas estou registrado mesmo
aqui (Cataguases). Dia nove de junho de 1917, aliás,
é 16, porque o meu registro é de 16, eu tenho um ano
adiantado mais por causa de... pedido político, né?
Eu registrei na época (para) votar no Manoel Peixoto.
Ele pediu. Tinha dezessete anos na época e registrei
como dezoito. Eu era operário da Irmãos Peixoto.
Entrei pra lá com quinze anos. Era tecelão. Primeiro
fui ajudante de contramestre, depois passei a contra-

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mestre. Ultimamente eu estava como encarregado de
turma na tecelagem. Aposentei dia dez de maio de
1969. Eu não tinha assim contato direto com o patrão,
geralmente era com o encarregado. O mestre da te-
celagem é aquele intermediário do patrão. Nós... é
seguir as ordens dele. Os teares tinham mais veloci-
dade do que a época presente. Se bem que agora já
existem teares com mais velocidade, mas era bem ba-
rulhento esses teares (antigos).
Ultimamente me puseram como encarrega-
do de turma da tecelagem. As pessoas, quando mais
insubordinadas, a gente tinha ordem de fazer pu-
nir, tomar suspensão, suspensão pequena, três dias.
Mas... o mais é suspensão, só, chamava a atenção, de
maneira que se procedia dessa forma. Existia... eu
me lembro que um encarregado da Irmãos Peixoto
pegou na minha presença, um garoto pela “oreia” e
levou lá na fiação... por causa de uma falha dele lá.
Isso houve mesmo. Até aqui na Industrial houve es-
pancamento de um encarregado... um alemão. Eles
puseram ele daqui pra fora logo! Acho que ele bateu
numa moça ali da Vila Reis. O Pedro Dutra quis pro-
cessar ele.
A questão política é o seguinte: “não se po-
dia manifestar”. O pessoal operário... naquela época,
não podia manifestar que ia votar pra A ou B que...

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era sujeito a ser dispensado. Naquela época eles não
perdoava mesmo. Agora hoje está mais... por que eu
votava, eles “pediam” pra você votar neles, votava,
mas pressão em levar até na urna igual muitos fazen-
deiros “faziam” por aí, não. Eu votava pelo seguinte:
eu era um operário que dependia do pão na vida e
naquela época eu não tinha, assim, vocação política...
de maneira que atendia o pedido deles...
Ah, o Zé Rosa! O Zé Rosa, ele era um rapaz
assim revoltado. Ele fez um movimento por liberda-
de sindical aí, que provocou assim uma certa birra
nos patrões. Eu me lembro. É tanto que... naquela
política que revirou 1964, sofreu consequências gra-
ves da política. Ele era muito maluco, até nos últimos
momentos dele, ele não revelava as coisas. Ele fazia...
que todas as prisões que ele estava, se chegasse...
aquele personagem que... não sei se convém citar, ele
já morreu... era o Emanoel Peixoto. Era o Emanoel
Peixoto porque eu sei que nos foi dito pelo Zé Rosa
mesmo, por todas as prisões que ele estava e que ele
chegava, ele podia contar que ele ia levar chumbo. É
um controle, ele com o policiamento. (Antes de ses-
senta)... não houve greve na época que eu trabalhei
lá, não. Quando havia assim um... um fracasso e tal,
mesmo por motivos políticos, pressão política, eles
dispensava assim um operário pra... procurava ani-

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quilar a força sindical. A maioria deles, quando era
dispensado um operário da Indústria naquela época,
era difícil eles arranjar colocação, às vezes debanda-
va, ia pra fora, e outros às vezes ficavam na pior. Um
filho meu foi despedido da Irmãos Peixoto, o contra-
mestre na época era o Serafim Spíndola. Ele falou pra
mim que ia dispensar meu filho, que ele não ia levar
nada, ia pra rua sem nada.
Eu morei na Vila (Domingos Lopes) muitos
anos. Quando eu fui pra Granjaria eu já estava apo-
sentado. Toda vida morei naqueles blocos de casa
dos Peixoto. Pagava um aluguel barato. O aluguel da
Indústria toda vida foi muito barato. Ultimamente
eles passaram a cobrar 10% (dez por cento), mas
antes eles cobravam mais, mas depois com a lei do
Getúlio eles não podiam aumentar o aluguel. A gente
foi beneficiada com isso. Até 1933, eu pagava trinta
cruzeiros de aluguel. Depois eles me chamaram num
acordo lá pra eu pagar 10% (dez por cento). O que
mais me prendeu na Indústria foi isso porque... se eu
saísse da Indústria, eu podia contar com um aluguel
mais caro. Compensava por causa da casa. Eu ga-
nhava o salário e esse negócio de bonificação. Houve
uma época que eles pagaram... uma participação no
lucro, mas durou pouco. Veio em 1935(45) e eles ma-
nifestaram até em praça pública. O doutor Francisco

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prometeu aos operários a participação nos lucros.
Aí depois, com o decorrer de certos anos, relaxaram,
deixaram de pagar.
(Casas da fábrica) tem na Vila Reis, no Largo
do Rosário e tem na Gama Cerqueira. A Gama
Cerqueira é que tem um grupo maior. (Essa rua) ti-
nha antigamente o apelido de João Carroceiro, por-
que João Carroceiro era o dono daquela chácara onde
é do Etelberto Valverde hoje. E a chácara estendia pra
ali afora, de maneira que... hoje a rua João Carroceiro
é a que sobe ali no Bairro Haideê. O João Carroceiro
era um velho mulato. Ele era carroceiro aqui na pra-
ça. Tem aquele correio velho, perto dos Machado
lá, umas oito casas ou mais. Beirando a fábrica tem
o correio velho que sobe lá pro morro e tem umas
outras... acho que é dezoito ou vinte que eles fize-
ram próximo ao Senai e tem aquele correio que eles
compraram do falecido Augusto Gama, onde é que
eu moro ali. Tinha ali embaixo também depois da fá-
brica, um correio de casas que desce pra lá. Para o
lado da linha, ali também aquelas casas, um correio
de casas que vai até perto do grupo, tudo ali era do
Augusto Cunha. Ele vendeu pra poder ser sócio do
cinema. Eles venderam algumas casas, conforme eu
mesmo comprei uma dele. E outra minha filha com-
prou. Mas eles pararam. Consegui (comprar) através

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de muito esforço, até quase escondendo da família,
porque o meu salário era pequeno.
Eu vim (do Glória) com doze anos de idade.
O meu pai, ele era sitiante. Mas eu não sou registrado
como filho dele, não. Minha mãe era amasiada com
ele. De maneira que ele tinha lá um sítio que tinha
fabricação de cachaça e rapadura. Tinha um movi-
mento de café também. Vendia café pro falecido José
Reis. Vim pra aqui e entrei na indústria e comecei a
trabalhar como tecelão. Vim eu, meus irmãos e mi-
nha mãe. Cinco irmãos. De maneira que viemos para
Cataguases e (meu pai) comprou um correio de casas
ali na Vila (Domingos Lopes). Então eu passei a tra-
balhar na indústria. Eu sou pobre de estudo. O meu
pai me deixou sem estudo. Porque eu comecei no es-
tudo já tarde. E depois ele mudava pra cidade, aí eu
entrei aqui no Grupo Coronel Vieira. Estudei o pri-
meiro ano aí, quando eu tava quase na hora de passar
pro segundo, leva a gente pra roça outra vez. Aí, lá
na roça eu fiquei sem estudo. Depois volta pra cidade
outra vez, comecei meu primeiro ano, quando passei
para o segundo ano, ele torna a tirar daqui. Aquilo
me atrapalhou tudo. Depois eu completei o segun-
do ano na aula da noite, aqui no Coronel Vieira. Na
época que eu estava estudando, é que foi feito aque-
le grupo da vila: Guido Marlière. Eu passei pra lá e

26
estudei lá, mas como eu já estava com quinze anos,
a diretora começou a invocar comigo e meu pai, por
falta de sorte, ele não gostava muito de soltar dinhei-
ro... e então não comprava uniforme pra mim. A dire-
tora deixou eu preso na portaria porque eu não tinha
uniforme. Resultado: eu me aborreci com aquilo, saí,
e entrei na indústria. É o estudo que eu tenho, até o
segundo ano. Até na indústria mesmo, teve uma oca-
sião que eu fui... perdi um dia de serviço, porque eles
inventaram uns uniformes para os operários lá e eu
não pude comprar na época, eu fui barrado pelo por-
teiro. Quando (a indústria)... houve piquenique que
ela fazia fora, às vezes ela dava certos uniformes pra
nós e coisa, mas para o trabalho não me recordo que
ela oferecesse uniforme. Mas era pago pelo próprio
operário. Eu vinha muito aqui nesse cinema, que era
o cinema “Recreio” antigamente. Tinha a torrinha, a
gente vinha na torrinha, ficava mais barato, a parte
de cima do cinema. Teatro, essas coisas não. Era só
mesmo cinema, porque naquela época era 600 réis a
entrada. Era muito baratinho. Mas mesmo assim era
difícil.
Eu nuca frequentei baile, eu nunca gostei.
Mesmo carnaval, eu nunca gostei. Graças a Deus sou
religioso – espírita (frequento) o “Paz, Luz e Amor”,
espiritismo científico de Allan Kardec. Foi criado

27
pelo Jota Lacerda e Godói e acho que Pio Ventania.
O Godói, eu até fui empregado dele. Ele tinha uma
padaria aqui onde é o Saul. Agora, depois, daquele
Tavares. Pio Ventura era médico. Jota Lacerda parece
que era um empregado aí no comércio. Eu tornei-me
simpático ao espiritismo (porque) minha esposa pas-
sou mal, não sei se o caso era de nervos. Ela foi assis-
tida pelo Centro Espírita e eu acompanhando o movi-
mento... e daí eu comecei a estudar o espiritismo. De
maneira que até hoje, graças a Deus, tem me valido
muito e à minha família, porque isso orienta muito
a gente na vida. Pelo menos a gente sabe respeitar o
direito dos outros, né, de maneira que... amar o pró-
ximo como a si mesmo. Isso tudo são coisas que... é
interessante. Na época que eu iniciei existia um gru-
po de espíritas muito assíduo. Depois o povo... uns
quer muito da doutrina, outros acham que a doutrina
vai resolver o caso dele rápido. Então acaba se afas-
tando. Naquele tempo não existiam quase estudio-
sos da doutrina. De modos que ia lá pela dor. Mas
atualmente até que está muito frequentado o Centro
Espírita, porque o povo está compreendendo mais a
razão da doutrina, e que é uma coisa que ajuda mui-
to a sociedade. Os que vão lá por amor é outro caso,
né, ele fica conhecendo a doutrina, sabe porque fre-
quenta aquela doutrina. Infelizmente, aqui no Brasil,

28
essa questão religiosa... não há assim um atrito, mas
há sempre uma conversinha por trás. O nosso espi-
ritismo é científico. Não tem nada de macumba. E a
assistência social que (damos) é justamente a custa
da coleta que faz. É como diz: vive da caridade para
a caridade. De maneira que eles fazem, o que podem,
eles fazem, mas nem tudo dá.
No tempo que eu entrei para a Irmãos Peixoto,
tinha um número mais ou menos de quinhentos e
tantos operários. E lá, só na tecelagem, que era du-
zentos teares, ela tinha um número de mais ou me-
nos de duzentos operários. Só a tecelagem. Porque o
tecelão tocava no máximo três, mas era raro também.
Agora, o número mesmo mais comum era dois tea-
res para cada tecelã. E aquelas aprendizes que estava
assim de pouco, era um tear para cada uma. E hoje,
por exemplo, há a possibilidade de uma tecelã tocar
até quarenta teares, sessenta teares, conforme esses
teares novos que chegaram agora, que são os teares,
como dizem, eletrônicos. Naquela época, o tear nem
automatizado não era. A tecelã muito mal dava conta
de dois. Aquela mais violenta, é que dava conta de
três teares. Existiu até uma certa época aí uma fia-
ção deficiente, conforme existia na Irmãos Peixoto,
porque o fio era muito, era muito ruim, de maneira
que... o fio ruim estoura muito e a tecelã não conse-

29
gue produzir. E a máquina, o fio não aguentando... é
como um ditado de um encarregado de tecelagem
de Juiz de Fora, ele citou pra mim: “Que uma tecela-
gem, sem fiação, ela breca mesmo. A tecelagem para
ser boa, ela tem que ter uma boa fiação. Se não tiver
uma boa fiação, ela não anda”. A Irmãos Peixoto foi
a que custou mais a habilitar a trabalhar com um te-
cido bom. A princípio... ela era mal orientada, então,
resultado: maquinário ruim, fiação ruim, os teares até
que eram razoáveis, mas a fiação não produzia um
fio resistente. Nessas alturas a tecelagem não andava,
ninguém prestava. Então, às vezes, punha um ope-
rário de lá, na Manufatora ou na Industrial, era um
bom operário, mas lá não prestava. De maneira que
quando a Irmãos Peixoto passou pela direção do...
pessoal da Industrial, que era o Zezito e o Josué, aí o
negócio mudou de figura, porque o Scholfinha (Bob)
que eles falam, é que ele assumiu a direção da fiação
da Irmãos Peixoto. E nessas alturas eles mudaram
uma remessa de filatório para melhor e aqueles ve-
lhos que não serviam, quebraram tudo. De maneira
que aí a produção subiu.
O Serafim Spíndola era o mestre da Irmãos
Peixoto. Ele não era um técnico formado, ele estu-
dava alguma coisa com relação à indústria. Ele era
muito endurecido nos pontos de vista dele. Não acei-

30
tava sugestão de ninguém e não gostava nem que o
sujeito olha ele trabalhar. O que ele sabia era privilé-
gio dele. Não gostava de ensinar pra ninguém. Era
esquisito mesmo. Infelizmente, os encarregados anti-
gos da Irmãos Peixoto, todos eles foram mais ou me-
nos dessa teoria: não gostava de operário inteligente
na firma para não atrapalhar eles.
O Onofre Corrêa Neto ainda é operário da in-
dústria até hoje. Ele foi afastado da firma com todos
os direitos, e até hoje é constado como operário da
ativa. Não aposentou. Ele não era um mestre eficien-
te para continuação da firma, porque a firma estava
em evolução e ele mudou o tipo de padronagem para
melhor. De maneira que ele era... sei lá, ele era um
sujeito muito agarrado, não era de grande progresso.
Sei que a tecnologia dele não estava à altura da evo-
lução dos tempos.
De maneira, se não tiver pessoas que possam
preencher esse cargo, não dá. E então eles afastaram
não foi só ele. Afastaram ele, o Serafim, o Djalma e
afastaram o Mário Bagno também. Pelo que se vê, ne-
nhum deles estava satisfazendo mais as exigências
da empresa. Eu, na tecelagem era constatado mais ou
menos assim como uma segunda figura. (O Onofre)
era a primeira figura na tecelagem e o Serafim era
a primeira figura na indústria, que ele era geral. O

31
Onofre, por exemplo, era dirigente da tecelagem, o
Mário Bagno era da fiação, e o Djalma também era da
fiação.
Getúlio Vargas, a meu ver, ele foi um dos
governos que abriu campo para a indústria, porque,
pelo menos, ele abriu escolas técnicas. Meus filhos
gozaram desse... escolas de aprendizagem é meio de
educar os operários para a indústria. De maneira que
tudo isso concorreu para a melhora do operário. Mas
o progresso da indústria, a meu ver, tornou-se mais
vantajoso para o proprietário. As máquinas adqui-
ridas hoje, auto-motivadas, ocupa menos operário.
Um operário toca (hoje) muito mais máquina que na
época em que eu trabalhei. Isso é uma das coisas que
veio prejudicar o operário no sentido de colocação.
A lei naquela época era a lei do patrão. Depois
que veio a lei trabalhista. Aí que veio a briga do pa-
trão com o empregado, negócio de salário. O salário
era mínimo. Eu, por exemplo, entrei em 1932 pra in-
dústria ganhando um mil réis por dia. O horário era
sempre mais, dez horas de serviço. Depois era sem-
pre oito. O falecido doutor Fenelon Barbosa – uma
vez conversando com ele – ele falou comigo que a
lei trabalhista na França correu muito sangue. Agora,
aqui no Brasil, ela entrou com facilidade, porque na
época o Getúlio era ditador e conseguiu adaptar a lei

32
trabalhista com mais facilidade, mas se é uma épo-
ca como hoje, já seria difícil, porque é uma confusão
danada na política. Mas naquele tempo trabalhava
revezando turma, aí ficava preso doze horas na in-
dústria, porque trabalhava quatro horas de manhã e
depois trabalhava quatro à tarde. Saía de lá às seis
horas. Era das seis às seis. Tinha aquele intervalo de
quatro horas em casa, mas pouco adianta para o ope-
rário, aquele que mora longe, né? Agora eles estão
querendo endireitar nessa parte, porque eles estão
pondo horário direto. Aí é melhor.
Eu me sinto hoje um homem mais ou menos
realizado. Os filhos todos casados e cada um deles
cuida lá da sua vida. Estão com a situação mais ou
menos boa, não está ruim. De maneira que... eu me
sinto satisfeito em chegar ao ponto que eu cheguei
de... que eu não esperava, mediante as dificuldades
da vida. De maneira que a gente se sente mais ou me-
nos realizado.

Entrevistado por Glaucia Siqueira, Hedileuza Maria de Oliveira Vala-


dares, Luiz Fernando Leitão, em 29/08/1988.

33
Monsenhor
A N T Ô N I O X AV I E R
RODRIGUES

A minha vinda para Cataguases se


prende à nomeação que recebi para Vigário da nova
Paróquia que se formou em Cataguases, quando da
Paróquia de Santa Rita foi tirada a Paróquia Nossa
Senhora do Rosário.
Está no livro n°1 de provisões da Cúria de
Leopoldina, folha 69, a data de 24 de setembro de
1950. No dia 1° de outubro de 1950 foi instalada a
Paróquia, com a presença do Monsenhor Solindo, en-
tão pároco de Santa Rita, e eu fui nomeado Vigário
desta nova Paróquia. Havia uma pequena Capela.
Foi preocupação prioritária do 1° Vigário a organiza-
ção de um trabalho de assistência religiosa, surgin-

35
do de início um sério problema: local para assistên-
cia paroquial. A pequena capela da Vila Domingos
Lopes serviu de Matriz inicialmente e precariamente.
Impossível, é claro, pensar-se na construção de uma
Matriz definitiva pela falta de elementos humanos e
pecuniários para enfrentar uma construção. Em visi-
ta às capelas rurais e em busca de local para a for-
mação das comunidades paroquiais, o novo Vigário
conseguiu localizar a sede para a formação das di-
versas comunidades paroquiais, centros de cateque-
se, evangelização e administração de sacramentos. O
Bispo de Leopoldina era Dom Delfim Ribeiro Guedes,
e foi quem instituiu a nova Paróquia. A Matriz provi-
sória funcionou na antiga Capelinha existente na Vila
Domingos Lopes. Capela que foi ampliada, forman-
do a Matriz provisória de Nossa Senhora do Rosário
que é a antiga Igrejinha da Vila. Em 1955, o senhor
Bispo Diocesano, Dom Delfim Ribeiro Guedes, ele-
vou a paróquia Nossa Senhora do Rosário à qualida-
de de paróquia inamovível, sendo nomeado pároco
inamovível o mesmo vigário que foi nomeado na sua
fundação, eu, Padre Antônio. Isto se deu no dia nove
de junho de 1955.
A Matriz provisória de Nossa Senhora do
Rosário funcionou desde 1952 até 1965 e foi demoli-
da em 1986. O trabalho paroquial passou a funcionar

36
na Capela de Casamentos da nova Matriz do Rosário.
A nova Matriz foi iniciada em 1965 e foi planejada pe-
lo Doutor Aldary Henriques Toledo, arquiteto, mora-
dor no Rio de Janeiro, a quem foi pedido uma planta,
um projeto, que comportasse uma capela mortuária,
um batistério, uma capela para casamentos, depen-
dências para arquivo, expediente paroquial, biblio-
teca, um salão de projeção, escola para o ensino de
catecismo, mais a nave principal, que já está pronta
na sua arquitetura e que comporta três mil pessoas
sentadas. Explica-se a razão deste tamanho com o
aumento populacional da Vila Domingos Lopes, que
tem sido muito grande.
Essa construção está sendo realizada exclu-
sivamente com recursos populares. É uma obra do
povo, uma obra brasileira, sem subvenções, sem re-
cursos estrangeiros. O povo mensalmente contribui,
e essas contribuições são melhoradas com a realiza-
ção de três movimentos na paróquia: a festa de São
Sebastião do Rio de Janeiro, a festa do mês de maio
e a feira do Rosário no mês de outubro. Nessas três
festas há as quermesses, as barraquinhas, etc... que
reforçam o orçamento da construção. Uma obra mui-
to grande, mas necessária.
O vigor (das festas) cresce ano a ano. Nosso
mês de maio (1988) rendeu aproximadamente um

37
milhão de cruzados. Eu estou nessa paróquia há
trinta e oito anos, e no decorrer desses anos eu tenho
recebido uma cooperação maciça das pessoas, dos
cristãos, dos católicos, que estão sempre prontos, es-
pontaneamente, a fazer tudo que é necessário para
a realização das obras da paróquia. Da nossa paró-
quia saem muitos elementos que vão trabalhar na
Paróquia de Santa Rita, Paróquia São José, auxiliar
num exemplo de vida comunitária paroquial que
nós procuramos implantar aqui. Nós não queremos
trabalhar para nossa paróquia, queremos trabalhar
para o Cristo, em todas as paróquias, por isso que
os elementos daqui vão lá e com... até com o meu
apelo, a meu pedido, prestam todo serviço que po-
dem prestar nas outras paróquias também. Difícil
destacar nomes, porque aqui quase que a totalidade
é assim, de modo que fica muito difícil, uma situa-
ção delicada para mim, destacar o nome de um ou
de outro, mas todos contribuem, todos ajudam. Eu
vou ler aqui um trecho escrito no Livro de Tombo
da paróquia a respeito do ideal, do ideal que nós
queríamos atingir quando foi fundada essa paró-
quia e nós éramos somente dois vigários aqui, eu e
o Monsenhor Solindo. Diz o Livro de Tombo o se-
guinte: “As duas paróquias da cidade adotaram um
sistema comunitário para atender o povo”, de mo-

38
do que entre as duas paróquias não havia linha di-
visória para atender as procissões, principalmente
da Semana Santa, saíam da matriz do Rosário e se
encerravam na Santa Rita e vice-versa; os horários,
principalmente o de celebração Eucarística, missa,
eram organizadas em horas diferentes para melhor
atendimento; as confissões também atendidas em
horas diferentes, com participação de ambos os vi-
gários; mesmo os saldos das festas eram divididos
entre as paróquias. Estabeleceu-se, assim, um ver-
dadeiro sistema comunitário entre as paróquias pa-
ra melhor atendimento ao povo e alívio de carga de
serviço para os vigários.
A finalidade pela qual eu criei o Instituto
Juvenil Nossa Senhora do Rosário, que existe até hoje,
agora desativado, foi dar assistência principalmen-
te a meninos de rua. E eu recolhi o máximo que eu
consegui recolher numa chácara que eu comprei em
nome do Instituto Juvenil, o máximo de meninos que
eu consegui abrigar ali foi de cinquenta crianças e a
sustentação era feita por mim mesmo, não tinha con-
tribuição, não tinha nada. A paróquia é que arcava
com todas as despesas de sustentação, calçado, rou-
pa, médico, dentista, etc... até várias cirurgias fizeram
no hospital, com muita boa vontade, gratuitamente,
nos meninos.

39
Um menino que foi me entregue estava num
estado lastimável de saúde, ficou dois meses inter-
nado no hospital de graça, recebendo transfusão de
sangue e hoje ele é um homem que trabalha, foi em-
pregado até da Prefeitura. No Instituto Juvenil foram
formados, desde a meninice até os dezoito anos, vin-
te e dois homens que estão colocados hoje na socie-
dade, com os seus documentos, boa saúde, alguns até
casados e que vêm de vez em quando visitar o local
onde foram criados, a chácara do Instituto, e vêm
também à Paróquia Nossa Senhora do Rosário visi-
tar o Vigário. Moravam lá, era regime de internato.
Tudo, até professora, eu paguei do meu bolso muito
tempo, até que consegui uma sala de aula do grupo
Carmelita Guimarães, o grupo lá da Vila Reis, arran-
jei uma sala de aula que funciona no Instituto, assim
que os meninos faziam a farra do quarto ano.
Quando queriam estudar mais ainda do que
o primário, então eu encaminhava para as escolas,
onde eu arranjava uma turma para eles. (Foi desati-
vado) Por várias razões: a primeira razão, porque o
trabalho da paróquia absorveu de tal forma a minha
vida, que eu não tinha tempo de dar assistência di-
ária, como eu gostaria de dar aos meninos. Depois,
dificuldades para sustentação de quarenta e duas bo-
cas que comiam todos os dias. Ninguém me ajuda-

40
va, só tinha meus próprios recursos, e o que eu tirava
lá do cultivo da chácara... frutas, mandioca, criava
porco, galinha e com isso eu alimentava os meninos.
Mas não tinha as subvenções. Foram muito poucas.
A chácara foi comprada com a subvenção dada pelo
Ministro da Educação a pedido do deputado, senhor
Manoel Peixoto. Comprei aquela chácara por cento
e cinquenta mil cruzeiros. De modo que eu fui obri-
gado a desativar porque a Prefeitura começou a dar
assistência a menores aqui, com muito mais recursos
do que eu e eu fiquei como um pioneiro de assistên-
cia aos menores desamparados, que agora está nas
mãos da Prefeitura, em boas mãos aliás. Estão sendo
muito bem cuidados. Há mais interesse pelo menor
abandonado aqui em Cataguases, de modo que dis-
pensa ter o Instituto pra isso, por isso é que ele foi
desativado.
A Igreja é, sobretudo, a Igreja da liberdade.
Deus não nos obriga a ser bons, nem evitar o mal,
para isso ele nos deu livre arbítrio, e a pessoa segue
a religião que entende estar certa. As causas dessas
evasões (da igreja católica), que são poucas, se foram
às vezes por ignorância, na maioria das vezes por
falta de estudo da religião, às vezes por questão de
orgulho, vaidade, porque a pessoa não encontra na
religião católica um campo de evasão de sua vaidade

41
e de seu orgulho, e nós somos obrigados a coibir na-
turalmente os instintos maus para praticar o bem, e
essa é a finalidade da religião, e não acho alarmante
essa evasão não. Nós sabemos que a entrada para a
Igreja Católica se faz através do sacramento do batis-
mo, desde o momento que a pessoa é batizada entra e
começa a participar da Igreja. Muito bem. Esta entra-
da para a Igreja sobrepuja muito a evasão, quer dizer:
a Igreja dá uma resposta a esses que saem, recebendo
novos e aumentando muito as suas fileiras. Quando
a Igreja era perseguida, nos trezentos primeiros anos
de sua existência, e os cristãos eram mortos, martiri-
zados, disse um doutor da Igreja o seguinte: “que o
sangue dos mártires era semente de novos cristãos”.
Quer dizer que a Igreja tem sempre uma compen-
sação. A Igreja lamenta muito que as pessoas não
se compenetrem, não aceitem sua mensagem, mas
a Igreja não se preocupa com essas evasões, porque
elas não fazem falta, porque muitos outros entram
para a Igreja ao mesmo tempo.
A gente deveria saber o que é Teologia da
Libertação. São Paulo, na Epístola aos Gálatas, no
primeiro versículo do capítulo II, fala sobre a liberta-
ção, que o Cristo se sacrificou para que nós fôssemos
livres, livres do pecado naturalmente. Essa libertação
dada pelo cristianismo em Cristo é a libertação do

42
mal e do pecado e a adesão ao bem. Porque muitos
pensam que liberdade é direito de fazer as coisas er-
radas. Não. A liberdade é o direito que o ser huma-
no tem, o homem tem que optar por um caminho ou
por outro, o caminho do bem ou do mal, optar. Agora
essa opção do homem produz uma responsabilida-
de tremenda para ele, porque se ele escolhe o cami-
nho do bem ele vai receber recompensa. A Teologia
da Libertação tem aqui no Brasil, na pessoa do Frei
Leonardo Boff, o seu líder. Os seus livros estão aí, e
eu os tenho lido e naturalmente que todo o homem
é assim: ele tem em seus sermões exageros que já fo-
ram notados até pelo Papa, pela Santa Sé. O Cardeal
Ratizing, o cardeal da doutrina, da defesa da doutri-
na cristã, teve um encontro com Leonardo Boff em
Roma, e não criticou, ele se antepôs apenas a certos
pontos de vista de Leonardo Boff.
Antes, ele não condenou em nome da Igreja a
Teologia da Libertação, pelo contrário. Após a expo-
sição do padre Leonardo Boff, o Cardeal fez a sua, e
melhor que o padre Leonardo Boff. O Cardeal expôs
a doutrina da Igreja, e o Papa aprovou, quer dizer, a
Igreja não é contra, não pode condenar a Teologia da
Libertação. Agora, a Igreja esclarece seus pontos de
vista e condena os exageros. Por exemplo: o padre
Leonardo Boff, há pouco tempo, foi à delegacia de

43
polícia defender os flagelados que tinham ocupado
não sei o quê. Ora, o que ele tinha de fazer se reunin-
do aos presos? A obrigação dele era pregar a verdade,
pregar a libertação, não ir lá fazer Ibope, porque é o
que eu li no Jornal do Brasil, um artigo muito bem
feito sobre esse fato, e até o autor do artigo dizia o
seguinte: que o padre Leonardo Boff fez essa exibi-
ção para fazer propaganda de um livro que ia falar
sobre ele, que ia sair daí a uns dias. Tenho o artigo
até aí do Jornal do Brasil. Esses exageros é que são
condenáveis, porque são feitos em nome da Teologia
da Libertação. A Teologia da Libertação não tem na-
da com isso.
Eu agradeço muito terem me escolhido para
essa entrevista. Que esses conhecimentos de um es-
tudo de história na Faculdade, venham ser colocados
mais tarde a serviço do bem da comunidade e do
bem de todos, porque eu acho que quanto mais se
eleva o nível intelectual, mais se melhora o nível real.

Entrevistado por Rosângela Schittini Rodrigues, em 16/06/1988.

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46
A PA R E C I D A M A S S E N A
COUTINHO
PROFESSORA DE MÚSICA

Papai, Nestor Massena, nasceu em


Cataguases em 1897. Era descendente de francês.
Ainda muito jovem era músico, tocava dois ins-
trumentos: saxofone e clarinete. Tocou também na
banda Rogério Teixeira, seu amigo inseparável e
compadre. Tocou na orquestra que havia no Cinema
Recreio, que era mudo, antes de começar a sessão,
com Rogério Teixeira, Marieta Soares Teixeira, Aída
Ribeiro e João Ciodaro. Ele gostava muito de músi-
ca e era também compositor, compôs valsas, marchi-
nhas carnavalescas, compôs um hino a Cataguases
em homenagem ao centenário de Cataguases.

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Música e letra da autoria dele. Uma marchinha car-
navalesca, “Carnaval na Lua”, que ele cantava muito
mesmo depois de velho e diversas composições. Eu
tenho guardado.
Ele aprendeu na banda teoria, solfejos, e
o instrumento. Era a escola deles, o maestro era o
Rogério Teixeira, tocava em baile também, mamãe
conta, né. Todas as vezes quando ele estava tocando
um baile, muitas vezes as pessoas viam e falavam:
“Eu quero ouvir o sopro do Nestor”. Ele viajava mui-
to para tocar em bailes, mesmo em bandas também,
né. Ele gostava muito de inglês, falava corretamen-
te. Estudou sozinho, comprava os livros, as ilustra-
ções e admirava muito língua inglesa, só fez o curso
primário. Era fiscal de rendas do Estado, onde apo-
sentou. Mas a música continuou até mesmo ficar ve-
lhinho, né. Ele tocava todos os dias em casa, sempre
compondo também. Ele era amante da música e ele
chegou a falar comigo que não havia um assassino
músico. Pela sua sensibilidade. Sensibilidade de mú-
sico. Que a música faz bem a alma. Eu senti uma sen-
sibilidade muito grande pela música, comecei a com-
preender teoria musical com o papai. As primeiras
notas, os solfejos... e optei pelo acordeom como pri-
meiro instrumento, que estava muito em moda (na
década de 1950). Eu ia assistir uns filmes brasileiros

48
com Adelaide Chiozo e aquilo me influenciou mui-
to. Então eu passei a estudar com o senhor Carlos
Marinho Bóia. Foram as primeiras aulas. Em seguida
matriculei na Academia de Acordeon Mascarenhas,
em Ubá. Fui aluna da professora Francisca Dias Paes.
Concluí o curso no Rio de Janeiro, com o professor
Mário Mascarenhas. Eu fui convidada para abrir uma
filial em Cataguases. Em 1960. A escola contava com
o número de oitenta alunos. Lecionava também pa-
ra alunos das cidades vizinhas. Eles chegaram a for-
mar, terminar o curso, né. Vários deles. Durou mui-
tos anos. Paralelamente eu fiz curso de piano, teoria
musical e harmonia, com a saudosa Lila Gonçalves.
Concluí o curso de piano no Rio, no Conservatório
Brasileiro de Música. Eu continuei com os dois, mas
depois o acordeom... Ele caiu um pouco de moda
porque apareceu o violão, né, mas até hoje eu tenho
aluno de acordeom. Agora está voltando o acordeom,
hoje está em moda por causa do forró. O acordeom,
ele tem teclado, um teclado de piano, já a sanfona
tem só botões. O acordeom é parecido com piano por
causa do teclado.
Na minha juventude a melhor coisa foi
a natação. O esporte, eu participei pelo Colégio
Cataguases, de muitas competições internas e tam-
bém em Ubá, Rio Branco, Belo Horizonte. Fui aluna

49
do professor Moacir Barbosa. Eu estudava na Escola
Normal, mas fazia natação lá no colégio. Porque
lá era de esportes, né. Ainda não havia a Praça de
Esportes como hoje.
(Fiz o primário) no Coronel Vieira. Circê,
Luzia Fajardo, Beatriz Venâncio (minhas professoras).
Na escola Normal parei na segunda série ginasial por
causa da natação. Depois de casada voltei a estudar.
Eu treinava mil e duzentos metros. Eu ganhei muitas
medalhas. Campeã foi a Nancy Graciolli, minha pri-
ma. Campeã mineira.
(Sou) católica. Tive uma infância muito bonita,
né, dentro da religião. Participei das festas de maio
vestida de anjo... A religião era levada muito a sério.
Antes de começarem as aulas, todos os dias, a gente
tinha que rezar o terço na capela. O uniforme tinha
que ser aquela gravatinha. Saia não podia ser curta,
era o cumprimento certinho. Tudo medido.
Frequentava só carnaval, baile de carnaval,
saía nas carruagens do Operário Futebol Clube, mas
frequentava o Social. Houve um ano que eu saí de
sereia. Num carnaval maravilhoso!
(O Coutinho), por morar perto, né, mesma
rua, ele sempre passava na rua, eu lá na janela admi-
rava... aí começamos a namorar, mas aí foi pra valer
mesmo. Ele foi bancário vinte e dois anos. Começou

50
com o Comércio e Indústria, depois passou pro
Banco Nacional. Foi secretário também no Colégio
Cataguases. Gostava muito dos alunos. Chegou a
vice-diretor. Tinha paixão por aquele colégio! Faltava
pouco tempo para a aposentadoria dele...
Tenho trinta alunos (de piano). Moças, rapa-
zes, crianças desde cinco anos. Uns 20% (finalizaram
o curso). Prefiro a música clássica. É a que mais toca.
O meu compositor preferido é Chopin, pela sensibili-
dade que sinto na composição.
(Canto no) Coral Sonarte do Maestro Israel
Pinheiro, do Rio de Janeiro. Ele vem todas as se-
gundas-feiras em Cataguases, faz o ensaio na AABB.
Estamos ensaiando os Salmos de Mendelssohn para
apresentação no fim do ano na AABB, no SESI da
Tijuca no Rio e em Curitiba também. O maestro, ele é
professor no Conservatório de Música de Leopoldina.
Um grupo reuniu e passou a ir a Leopoldina toda
segunda-feira. A prefeitura patrocinava, mas foi cres-
cendo o número de componentes, então o maestro
passou a vir a Cataguases, e foi dado o nome ao coral
“Sonarte de Cataguases”.
Participo de uma palestra de Teosofia. Eu
acho um assunto muito complexo, o ocultismo. Eu
tenho lido bastante, e aos poucos vou entendendo
um pouco, pegando alguma coisa, mas é interessante.

51
Minha mãe é Graciolli, filha de Italiano. Tereza
Graciolli Massena, nascida em Cataguases. Sempre
costureira, né. Sempre acompanhando o marido.
(Foi) uma convivência muito bonita, sempre ouvindo
o papai tocando, uma família de oito irmãos, uma ca-
sa cheia. Muito alegre! Papai era um homem liberal.
Tanto ele quanto a mamãe. Não havia repressão ne-
nhuma. Eles davam uma certa liberdade, mas a gen-
te também não abusava. Eu acho que a mocidade na
minha época era melhor, havia mais romantismo. Se
bem que hoje o diálogo – entre pais e filhos- é mais
aberto, né, é muito importante.
Música e esporte eram coisas boas que fize-
ram parte da minha mocidade.

Entrevistada por Glaucia Siqueira e Mônica Machado da Silva, em


27/10/1989.

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CLARISSE RAMOS
DOCEIRA

82 anos

Os meus pais eram fazendeiros. Meu


pai era neto do professor Quaresma e eu sou bisne-
ta do professor Quaresma. Morávamos no Barão de
Camargo, lugarejo aqui perto. E tínhamos lá uma
fazenda muito grande, de café, engenho. Ainda
está em ruínas, o engenho. A família de Carvalho
foi toda criada ali. E tinha as nossas casas boas em
Cataguases. Aí a gente passava o fim de semana.
Eu fui criada pela minha avó materna. Era
muito rigorosa, exigia muito da gente. Só podíamos
sair à tarde, à noite, quando fizéssemos as nossas
tarefas. O meu avô Santos Júnior foi o fundador do
Colégio de Cataguases. Ele foi covardemente assassi-
nado pelo administrador dele. Ele tinha uma fazenda
muito grande de café ali onde é o Ginásio hoje, on-
de eu nasci, na chácara da Granjaria. Era um casarão

55
grande. Por ali é que começou a fundar o Ginásio.
Ele, o vovô, fundou aquele Ginásio para... ele tinha
muitos filhos, cada qual depois deu uma pessoa im-
portante: médico, advogado... meus tios eram todos
muito inteligentes e morávamos todos ali. Ele foi so-
gro do Antônio Amaro. E então ele começou assim
como professor; dois, o doutor Arnaldo Carneiro, de
Ubá, que era parente do Antônio Amaro, se aliam a
ele e fundam o Ginásio. O Ginásio depois tornou-se
célebre, muitos alunos de fora, grandes personagens
da história até foram formados ali, ginasial. Foi uma
coisa muito importante para a cidade a fundação da-
quele colégio. Não tínhamos um ginásio, não tínha-
mos o curso secundário aqui.
Eu fiz (o primário) no Colégio das Irmãs. Eu
sou uma das fundadoras do Colégio. O Colégio era
muito pobrezinho. As três Irmãs Carmelitas chega-
ram aqui uma verdadeira... coitadinhas, não tinham
nada, uma vida precária mesmo, sem nada!
O Antônio Amaro e o padre João Crisóstomo é
que arranjavam donativos para manter as irmãs. Uma
pessoa da comunidade dava saco de feijão, outra da-
va um saco de arroz... elas chegaram pobrezinhas.
Acabávamos o curso primário no Colégio das
Irmãs e íamos para o Colégio de Cataguases fazer o
secundário.

56
Éramos uma meia dúzia mais ou menos de
meninas. Olga Teixeira, Benedita Preta; tinha uma
Benedita Preta que era de uma inteligência! Filha
de uma lavadeira, foi minha colega. Era um crânio,
a pretinha. E todas essas meninas eram muito ale-
gres. A única diversão da nossa infância era brincar
na praça Rui Barbosa, depois que a gente estudas-
se, que fizesse as tarefas escolares, e desse conta de
todos os deveres. A gente ia pra praça à tarde, brin-
car com as amiguinhas, que era a Alaíde Barroso, a
Ercila...
A gente ia para o Colégio de bondinho, que
era longe da praça Rui Barbosa onde eu morava – ali
pregado no cinema velho – e esse bondinho era de
longa distância. Ele ficava ali, naquela rua 13 de Maio,
até chegarmos ao Colégio. A gente achava longe, pa-
gávamos um tostão para ir ao Colégio. A gente saía
de farra, de bondinho do Colégio, mas ninguém fa-
lava ainda de namorado. A gente tinha sua vida uma
com as outras, sem pensar em namoro, sem pensar
em rapazes, sem pensar em meninos. Era aquela
brincadeira. Ver o bonde afora, daqui até o ginásio. E
a gente, as meninas ficavam no Colégio das Irmãs. O
bondinho passava lá pra pegar aquela rua da Praça
de Esportes (rua Alferes Henriques de Azevedo) e ia
para o Colégio levando os meninos.

57
A gente ia ao baile, mas... a gente dançava
com tanto respeito, com tanta vigilância também pela
família, que dava gosto a gente ir a um baile antiga-
mente. Hoje não. É essa zoeira, essa farra, essa gri-
taria, ninguém entende. Às vezes, minhas netas me
chamam: “Vamos vovó, fazer companhia à gente”.
Prefiro ficar em casa do que ouvir aquela zoeira de
hoje: Deus me livre! O ambiente era outro.
Havia o cinema Recreio. Ali onde hoje é o Cine
Edgar era o Cinema Recreio. Um prédio lindo, boni-
to, cheio de colunas. Desmancharam tudo para fazer
aquele prédio de hoje. E a gente morava na esquina,
onde hoje é o Bar Elite, ali era a casa da minha avó.
Minha tia, junto com o Rogério Teixeira e
dona Marieta Teixeira é que tocavam flauta e piano
no cinema, durante os filmes mudos. Tinha o João
Ciodaro também que tocava violoncelo, o senhor
Pascoal Ciodaro, figuras antigas e muito importantes
para Cataguases. Italianos, pai e filho. Era gente mui-
to culta e dada a música. Tinha muita, muita queda
para a música.
Havia a fábrica do seu Peixoto velho, que
vem a ser avô do meu marido. “Irmãos Peixoto”, lá
em baixo na Vila. E o meu sogro, sendo cunhado de-
le, era sócio também na fábrica. Depois ele resolveu
se desligar e fundou a “Casa Peixoto”, onde é hoje

58
a Farmácia Coimbra. Era uma grande casa comer-
cial. Cataguases foi mudando. Foi fundada a fábrica...
Companhia Industrial, aquela do outro lado da pon-
te. Eram homens muito ricos, muito ricos mesmo. A
Companhia Manufatora, do senhor Rodrigo, que ca-
sou com a Emília, uma das filhas dos Peixoto.
O doutor Astolfo Dutra, ele foi presidente da
Câmara lá em Belo Horizonte. Morava numa casa
muito bonita, era a casa mais bonita que tinha aqui
na avenida, tanto que a avenida levou o nome dele.
Humberto Mauro. Foram feitos (os filmes)
quando eu era mocinha. Eva Comello, Eva é minha
amiga até hoje. Está novinha ainda. É quase da mi-
nha idade. Eu ia até tomar parte nesse filme, mas mi-
nha avó não deixou. “Não! Você não vai ser artista de
cinema não. De jeito nenhum! Não pode não!” Não
deixou.
Aí eu me casei, me casei logo, começamos a
namorar com dezoito anos, no colégio ainda. Mas na-
morisco de longe. Ele já tinha uma queda por mim e
eu por ele que só vendo! O meu marido. Assim foi
um namoro até casarmos com 20 anos. Sou mãe do
Mauro Ramos, ele é advogado. E do Maurício.
Eu fazia, dirigia barraquinhas de Santa Rita,
barraquinhas da Igreja. Eu, Nair Guimarães... Nair
Guimarães foi uma criatura formidável, vivia em

59
função da Igreja. A gente ficava até às duas horas
nas barraquinhas; íamos pra casa com tacho, pane-
la, frigideiras e fogão, tudo isso a gente levava pra
barraquinha. A praça ficava cheia, mas como vendia!
Como rendia! Cinco mil, seis mil, era um dinheirão
nesse tempo! Essa Igreja foi reconstruída, era uma
igrejinha pobre. Padre Monsenhor Solindo foi quem
reconstruiu a Igreja. Foi um santo padre que nós tive-
mos também. Nós tivemos padres muito bons.
No centenário (da cidade) eu que dirigi a par-
te de doces. A praça Rui Barbosa fez uma verdadeira
função com as barraquinhas de doces, salgados, co-
mestíveis de todo jeito. E já era fundada a APAE, por
um primo meu, Fernando de Oliveira, e esse primo
organizou a festa das barraquinhas que eu dirigi. Fiz
o bolo do centenário, era um bolo enorme. Eu tenho
as fotografias. Foi uma das festas mais importan-
tes. Vieram os cataguasenses todos que puderam vir.
Muitos amigos nossos. Ainda tive que hospedar o
pessoal todo, porque eu era uma das pessoas mais
antigas aqui em Cataguases.
Minha casa era enorme. Comprei essa casa
com dinheiro de doce de tanto trabalhar. Eu já fiz três
mil e quinhentos doces, quilos de goiabada, no mês de
fevereiro, quando era época das goiabas. Meu marido,
apesar de ter sido filho, filho de pessoas ricas, ele era

60
um pobre funcionário dos tios, os Peixoto. Ganhava
trezentos mil réis na época que nos casamos. E assim
criamos nossos filhos. Oh! Mas tudo ganho com es-
ses braços e com os da empregada que me ajuda há
quarenta anos. Quarenta e cinco anos que a Preta está
com a gente. Uma verdadeira pessoa da casa. Com oi-
tenta e dois anos não dá pra fazer panela de doce. A
empregada é quem faz agora. Eu não faço mais.
Tudo que eu fazia, ela continua fazendo. Toda
hora telefonava uma pessoa fazendo encomenda.
Os filhos não querem mais que eu trabalhe,
nem os netos. Eles falam para não forçar a cabeça.
Trabalhei demais! São três filhos, mas criei mais de
dez, pretos e brancos, que ainda me valem muito.
Criei meus filhos dentro da religião. Eles são religio-
sos também. A minha nora, Nilza Kneip, é uma das...
foi uma das construtoras da Capela do Santíssimo
Sacramento.
Tenho muita coisa a dizer, mas a gente esque-
ce demais. Tinha olhado qualquer coisa para dar me-
lhores informações. Eu teria lido qualquer coisa.

Entrevistada por João Carlos Borges Juste e Rosângela Schittini Rodrigues,


em 26/05/1988.

61
62
FRANCISCO GRACIOLLI
CONSTRUTOR

91 anos

Pai e mãe italianos. Mas nasci depois


de cinco anos que eles estavam aqui. Sou brasileiro
legítimo mesmo. Graças a Deus!
Primeiro eles moravam aqui, eu me lembro
que ele assistiu a febre... já ouviu falar na febre ama-
rela? Eu também não era nascido não. Mas eu sei que
parece que eles moravam por aqui, porque parece ele
ajudou. Meu pai ajudou?
Depois é que eu me lembro... do que eu lem-
bro de onde nós moramos foi no Pendegó. Conhece
Pendengó? Pendengó é o terreno daquele Oswaldo,

63
Oswaldo construtor, comprou... Quem chega ali na-
quele trevo que vai pra Itamarati. É, Itamarati tem
um trevo ali, não tem? Um vai pra lá, outro pra cá.
Então o mesmo trevo tem uma Grota, um trilho que
a gente vê lá, adiante, lá nos fundos. Lá que eu nasci.
Chamava Pendengó. Era de um fazendeiro.
Ah! Colônia Major Vieira. Eu conheci! Nós es-
tamos até fazendo uma ponte lá. Ali onde tem o sítio
do Dr. Walter. Morava lá uns amigos nossos. Nós ia
sempre passear lá. Era o Fiólio. Pedro Comello, vim
conhecer ele aqui. Morava lá era o tal do Ângelo,
Marcos... O Marcos, O Velho. Sabe o que ele era? Não
tem essa gente Paratella? Fernando Paratella era ca-
sado com a filha desse Marcos. Eu me lembro deles
morando lá em Pendengó. Eu era pequeno, tinha
meus seis anos mais ou menos. Fernando...ela era mi-
nha madrinha de batismo. Chamava-se Corrélia.
O negócio ali foi o seguinte: meu pai, ele era
danado pra fazer cinta assim de... mas ele era anal-
fabeto. Então eles resolveram – os dois italianos que
moravam lá no Pendengó – resolveram ir para essa
colônia. Ficaram tudo rico! Foi na ocasião em que o
café tava dando muito dinheiro. Ficaram muito rico!
Ele foi e falou: “Não. Eu não quero ir”. Porque tinha
eu, minha irmã Terezinha e aquele que morreu, o
Plínio. Seu Plínio que era ali na Vila Reis. Então, “eu

64
sou burro, mas quero que meus filhos estuda”. Então
ele veio aqui e comprou uma casa ali, casa ali acima,
que custou quinhentos mil réis a casa. Com a escritu-
ra e tudo deu quinhentos e dez.
(De Cataguases antiga) a única coisa que eu
sei é o seguinte: em vez de ser luz elétrica, era lam-
pião. Usava para acender a querosene uma escadi-
nha. Eu assisti a luz elétrica... a inauguração da luz
elétrica aqui, ali na praça ali. Acho que foi em 1908,
não é? A inauguração da luz eu me lembro direiti-
nho como se fosse hoje! Eu era pequeno. Encheu de
gente ali! Banda de Música estava ali pra... puseram
um quadro assim do lado de cá, assim. Quem fica as-
sim do lado direito. Era um quadro... tinha uma do-
ze lâmpadas ali e cobriu com um pano, na hora que
acendeu a luz, foi um lá e tirou o pano, quando acen-
deu a luz. A banda de música tocando, foguete subin-
do... foi bonita a festa mesmo!
O bondinho? (lembro-me) muito! O bondinho
quando chegava ali... ia subindo ali a Rua da Estação.
Ia fazendo aquela curva. Tinha um pessoal que saia
pra botar ele na linha porque ele saia da linha. Sabe o
que eu achava muito interessante? A rua era tudo de
chão. Então tinha aqueles casos. Lá era... nós íamos lá
pra ver... então eles pegavam aquela terrazinha assim
davam uma surrazinha e puxavam aquele barro. Era

65
puxado a cavalo. Na hora que o cavalo – pá,pá,pá – e
o cavalo tem hora que faz assim. Então fazia aqueles
pelotos e batia na parede daquele teatro. Ficava tudo
tapado de barro.
Tinha bastante movimento ali (Praça da
Estação) o movimento maior aqui era na Praça Rui
Barbosa. Mesmo assim, aos domingos, o pessoal ia
tudo ali.
Eu me lembro muito do José Schittini. Ele
até foi no meu casamento. Ali era dele (próximo) à
Caixa Econômica Federal, tudo dele que está ali. Ali
tinha uma sapataria. Trabalhava uma porção de ofi-
ciais pra ele. E tinha aqueles casos ali pra baixo, aqui
quem entra nessa rua que vai pra Rodoviária, do la-
do esquerdo ali. Agora reformou tudo.
Conheci (o coronel João Duarte). Eu me lem-
bro que ele andava a cavalo. Naquela ocasião... não
tinha carro muito aqui não. Então ele andava era a
cavalo. E era um português forte, bonitão, rosto re-
dondo, assim meio baixo. Conheci muito! Muito boa
pessoa, né?
Eu me lembro também uma vez que nós fo-
mos... eu estava aprendendo música, mas ai eu não
estava sabendo, não. A banda de música minha... A
banda de música minha... A banda de música minha...
fomos lá fazer uma recepção a ele. A varanda de lá...

66
Eu comecei a aprender, mas não puder seguir
não, tocava trombone. Era com o Dionísio, um preto
que tinha ai. Dionísio Brum. Depois passado muito
tempo, tinha um filho dele aí, Mário Brum. Já viu
aquela banda de música que fala... falava! Porque ho-
je não fala mais! A Lira do Xopotó? Então esse filho
dele, ouvi falar que tocava lá. Mário Brum.
O pessoal ouvia os mestres falar. Eu estava
aprendendo primeiras notas e eles ficava admirados
e chamava os outros pra ver a embocadura que eu ti-
nha pra tirar uma nota aguda. Ninguém tirava igual
a eu! Depois eu relaxei. Rapaz novo, né.
O (coronel) Antônio Augusto, conheci ele
muito. Da Usina. Aqueles filhos dele, tudo eu conhe-
ci. Conheci as filhas dele todas. Trabalhava bastante
gente lá.
A Fábrica (Irmãos Peixoto) era pequena.
Depois foi aumentando... Aumentando... Eu conhe-
ci ele ali. Ainda tem uma marca no lugar que era a
Fábrica. Eu conheci até o Peixoto Velho. Manoel
Peixoto Velho. Era um português assim... usava bi-
gode.
Foi no final de 1945 que eu passei a construtor.
Eu trabalhava de pedreiro. É. Trabalhava de pedreiro.
Mas o negócio é o seguinte: o serviço apertou demais
não sei se o pessoal gostava muito do meu serviço

67
e eu tinha doze, treze me esperando nervoso. Ficava
até mal, “que achava que o dinheiro dos outros era
melhor”. Falaram comigo assim. Foi indo, foi indo,
que um rapaz lá da Cia Telefônica, um engenheiro de
lá: “Não. Você tem que ser construtor! Você tem com-
petência!” Ai começou a tirar aquela papelada que
tem pra... até quem assinou pra mim, um foi aquele
doutor que tinha lá atrás da Igreja. Dr. Osmar, o ou-
tro, um que tinha na Cia Telefônica e aquele Doutor
Walter da Cia Força e Luz. Precisava assinatura de
três engenheiros. Aí tirei a carteira de construtor.
(Nessa área) só tinha uma casa que meu sogro
construiu. Meu sogro era Marcolino da Silva Rama.
Era irmão do “Seu” Rama. Da casa Rama. Ele cons-
truiu a melhor casa que tem aqui até hoje! Essa que
mora o Ivan Barroso, a Ilda... Foi a primeira casa que
ele construiu, então eu morei ali. E Cataguases... aqui
pra baixo, não tinha casa nenhuma. Era só um casa-
rão alto lá no fundo. Qualquer enchente ia lá. Pegava
e ia até o meio, podia até cobrir.
(Na Granjaria) não tinha nada não. Não tinha
quase nada. Tinha era o morro ali. Ali na avenida
Melo Viana – aquele lado esquerdo passando lá da
casa do Emanoel Peixoto – ali tinha uma casa velha.
Parecia fazenda. A casa dos Cruz. Então pra lá eles
plantavam arroz ali. Tinha um arrozal ali. Era um

68
brejo mesmo. Tinha muita água ali. Eles fizeram casa
lá assim mesmo. Depois fizeram mais alto e foi ater-
rando. Tinha pouca casa ali. Pouca mesmo.
(O progresso) foi muito rápido! Agora, de-
pois que o Dr. Tarcísio entrou pra cá foi uma coisa
fora do comum! Vou dizer, até coisa interessante:
nunca vi uma coisa assim! Foi uma coisa nunca vis-
ta em Cataguases! Não sei como esse homem podia!
Eu falei com ele outro dia “Dr. Tarcísio, não sei co-
mo que você pode tocar tanta obra!” Uma pessoa só.
Porque tem uma coisa: eu noto que prefeito aqui em
Cataguases não tem muita gente que ajuda ele bem
não, como devia de ajudar, muita coisa eles podiam
ajudar, ele não ajudam. Coitado! Ele tem vontade às
vezes, mas não aguentam.
A primeira obra, que estou lembrando aqui
agora, foi o Grupo da Vila Reis. Fui eu que fiz. Fiz o
Centro de Saúde. Fiz até de empreitada. Depois dali
diz o SOS. Aquilo ali. Fiz aquela parte toda ali. Escola
de Enfermagem foi eu que fiz também. Depois eu fiz
aquele... não sei agora fizeram outro. Parece que fize-
ram outro. O Centro Cirúrgico.
A cadeia, eu dei uma reforma nela, mas não
tem muito tempo não. Já era antiga. Desde que eu me
entendo por gente já existia aquela cadeia ali. Nós
demos foi uma reforma boa nela. Ficou até bonito.

69
Ainda ontem fui a Vista Alegre. Eu estou com
uma turma lá reformando a praça. Ontem eu fui lá.
Anteontem eu fui lá na ponte que nós tamos fazendo
pro Dr. Walter.
De vez em quando eu saio com os meninos,
mas eles não quer que eu trabalho porque eu estou
com asma. Eu estou atacado de asma.

Entrevistado por João Carlos Borges Juste e Hedileuza Maria de Oliveira


Valadares, em 05/10/1988.

70
HILDA CONDÉ
PROFESSORA

79 anos

Com a idade de cinco anos eu fui mo-


rar com a tia, que minha mãe... minha mãe era vizi-
nha dela e tinha até padaria, trabalhava muito. A tia
Chica, sem filhos, o pai dela chamou ela para morar
na fazenda – na época era Porto de Santo Antônio,
depois passaram para Astolfo Dutra em homena-
gem ao doutor Astolfo Dutra. Ela, tia Chica, falou
assim: “eu vou, mas tem que levar uma menina co-
migo”. Então pediu a mamãe que emprestasse uma
das filhas. Ela (mamãe) falou assim: “leva a Hilda
que ainda não está na escola”. Eu tinha cinco anos.

71
“Emprestada”, ela frisou bem. Mas a emprestada eu
fiquei até ela morrer, porque de lá quando eu estava
no terceiro ano, não tinha escola lá. Só era particular.
Ela me internou aqui, neste colégio (das Irmãs). 1922.
Tinha 12 anos. Chorava muito, escrevia bilhetes pelo
correio. Naquela época era correio. Não tinha ônibus,
só tinha trem. Eles recebiam lá as cartas. Ficavam
chateados até que resolveram vir para cá. Aqui eu
fiquei até mudar pra aqui. Mudou pra cá, morou
naquela casa atrás da igreja. Aí eu fiquei externa.
Terminei o primário. Fiz... tinha um ano de admissão
naquela época. Fiz admissão e o normal. Sou bem ve-
lha, né, 1909. Formei em 1927. Nós éramos dezoito
colegas. Lembro-me de todas.
Eu era escolhida para cantar no coro, eu to-
cava bandolim quando vim pra cá. Tinha vergonha
do tal bandolim, não gostava não. Eu aprendi lá em
Astolfo Dutra mesmo, era pequena. Quando eu mu-
dei pra aqui comecei a estudar violino com uma tur-
ca que tinha aqui. Não me lembro agora o nome dela.
(Formei) com dezoito anos. Aí então as ir-
mãs me ofereceram lá uma cadeira de Geografia e
História. Com dezoito anos, e elas também tinham
quatorze, quinze... tinham muito medo da discipli-
na. Só que a Madre Aparecida, que era diretora, né?
“Como é que vou fazer, as meninas são moças, não

72
vão me obedecer não”. “Pode deixar, Nossa Senhora
do Carmo vai ajudar a você dar aula”. E ela de vez
em quando passava lá pra ver se tinha desordem,
mas não tinha não.
A Praça Santa Rita era bonita. Tinha um cha-
fariz muito bonito no centro, tinha peixinho, e tinha
um coreto todo domingo tocava banda, a gente pas-
seava era aqui. Árvores e muita flor. Tinha só meio
fio em volta. Muito banco de madeira. Só pé de fer-
ro, o resto de madeira. Lá, essas moças da época, a
Vivaldina Queirós, dona Lourdes Matos, Lenira
Matos, Totolas Matos... as moças chiques da cidade,
naquela época, eram essas. Moças chiques (traziam)
modelos do Rio. Hoje ninguém passeia nem nada,
porque ficam vendo televisão, a rua fica sem movi-
mento. (As famílias) as visitavam, passeavam juntas
na praça. Tinha cinema, que era muito frequentado,
o cinema Recreio, na praça lá de baixo. Tinha “série”,
a gente acompanhava ali. Toda sexta-feira e toda se-
gunda-feira, a fita era em série. A gente ficava doida
para chegar segunda-feira, doida para chegar sexta-
feira. Agora, domingo, não tinha muita gente não. Ia
todo mundo passear na praça.
Usava assim aqueles bailes nas casas, era bom
mesmo. A Aída Nacarati, a Benedita Silva, elas eram...
tocavam piano pra gente dançar. Valsa, quadrilha...

73
aquelas valsas bonitas e usava cantar. “Agora silên-
cio, fulano vai cantar”. E cantavam. Quem tinha voz
bonita cantava. Todo aniversário. Não era só comida
não, tinham bailes mesmo. E o clube, onde tinha de
vez em quando bailes. Quando era festa assim, baile
chique no clube, aí era vestido comprido, rodado, só
de roda de carro. Muita renda, e salto alto, porque
ninguém ia à festa de salto baixo. Hoje está tudo...
faltam só andar de chinelinho. As moças de Itamarati
também eram muito chiques. Ninguém dançava com
moço que estava sem paletó. O carnaval era muito
bonito! Tinha o corso na praça, aqueles jogando ser-
pentina um no outro ficava bonito que só vendo, bo-
nito mesmo!
Casei em 1934. Nós começamos a namorar
na igreja. Mãe Josefina zangava com a gente, que ali
não é lugar de namorar. Namoramos uns dois anos.
Tocando violino, tocando flauta. Lá na igreja, nas
missas. Tinha os ensaios durante a semana, namo-
rávamos só assim. Não tinha esse negócio de andar
na rua, nem vinham na casa da gente não. Tinha bi-
lhetinhos. Eu respondia, namorava com os bilhetes e
nos dias dos ensaios da igreja. (O José Condé) era de
Piraúba. Trabalhava na Força e Luz. 35 anos. Quando
se aposentou, trabalhou na Prefeitura. Ele foi verea-
dor quatro períodos. Gostava muito de política. Esses

74
homens importantes, que vinham de Belo Horizonte,
ele que era escalado para receber, falar. Teve uma
ocasião que veio também o Antônio Carlos; o José fez
um discurso pra ele... uma festa no Horto Florestal,
um jantar muito bonito. Eu, José e a Margarida toca-
mos. Ela levou... era um harmônico, porque naquela
época não tinha esses órgãos pequenininhos. O José
tocava flauta. Nós fazíamos aquele conjunto: flauta,
piano e violino. Tocava nas festas de Normalistas.
Todos os anos a gente tocava com o senhor João
Ciodaro. Quando vai chegando assim... a época de
formatura, começava a gente a ensaiar, tinha o hi-
no próprio das Normalistas, um hino muito bonito.
Toquei muito na igreja também.
Eu tinha meninos, tive sete filhos. Todos ho-
mens. Perdi um. Mas tia Chica fazia muito gosto que
eu aproveitasse a vida. “Vai tocar, você tem de ir.
Não pensa nos meninos não, eu tomo conta pra vo-
cê”. Quer dizer, ela me incentivava e ajudava a olhar
os meninos. Se tinha curso, por exemplo, de flores:
“vai fazer, vai fazer”. Curso de doce, também, de bolo,
ela insistia pra eu ir. Ela tomava conta dos meninos,
ela me ajudou demais a criar os filhos. Senão não se-
ria possível tanto, nem trabalhar no grupo. Eu traba-
lhava à noite. (Fui diretora) 28 anos, ali na avenida.
Professor Quaresma. Esse grupo foi fundado pelo

75
doutor Pedro Dutra. O mesmo prédio que funciona-
va ali três grupos. O Astolfo Dutra, o Coronel Vieira e
o meu. O meu quase que acabou no fim, sabe, porque
puseram grupo noturno nas escolas, nos bairros, né, e
então os meninos de lá ficaram por lá, e os meus aqui,
central. Então não tinha mais analfabeto. E quando
estavam no fim mesmo, o Tarcísio (Henriques) então
fez uma Escola Municipal lá na Taquara Preta. Eu pe-
di pra funcionar lá. O último ano que eu dei diplo-
ma, deu só 12 alunos. Estava prestes a morrer mesmo.
“Na minha mão não há de acabar”. 1983 eu aposentei.
Eu acho ótimo (estudo noturno). Tem meni-
no que não conseguiu tirar diploma durante o dia,
não teve oportunidade, tinha que ajudar a família.
A frequência do meu grupo caiu muito a ponto de
ser preciso fechar, por causa disso, das classes no-
turnas que os grupos fizeram. E depois nem aquela
lei. Quem dirigisse uma escola com três turnos, tira
80% a mais. Aí então que desastraram a matricular ti-
rando meus alunos, leva para os bairros. Atrapalhou
muito a minha escola. Aí eu soube que o Tarcísio
(Henrique) tinha feito um prédio pra funcionar uma
Escola Municipal. Eu perguntei se ele cedia pra mim
à noite. Ele falou que sim, perfeitamente. Mas depois
eu saí com as professoras aos sábados e domingos e
matriculei seiscentos alunos lá, maiores e menores.

76
Eu falei com o Tarcísio: “eu precisava do grupo o dia
inteiro e à noite também”. “Vai, a senhora é quem
manda, sendo pobre...” Eu oficiei à Secretaria que ha-
via matriculado esses alunos. Aí veio a resposta que
sim. Eles logo mandaram construir um novo prédio,
mas eu já não trabalhei nele não. Você pensa que eu
aposentei do grupo pra ficar à toa? Faço salgados pra
fora, faço uma porção de coisas.

Entrevistada por Hedileuza Maria de Oliveira Valadares e Maria Lúcia


Miranda, em 17/06/1988.

77
J A I R P I N H E I R O D A S I L VA

Eu é que agradeço vocês terem se


lembrado de mim. Lembrar de mim e fazer parte...
para mim isso é uma honra: fazer parte da história de
Cataguases!
Meu pai era português naturalizado por uma
lei da República de 15 de Novembro de 1938. E os
portugueses que passaram a chegar naquela época
estavam automaticamente naturalizados. Quando eu
nasci meu pai tinha sessenta e cinco anos de idade.
Naquela época o diálogo entre pais e filhos era muito
difícil. Não é como hoje. Ele veio da cidade do Porto.
Parece que ele esteve um período no Rio Grande do
Sul e depois veio para Cataguases. Ele gostava de la-
voura e achou que o campo aqui fosse próprio para

79
o trabalho dele. A Fazenda Santa Maria foi ele que
plantou. Ele fundou. A Fazenda Santa Maria foi do
meu pai, José Pinheiro da Silva, no Glória.
A minha mãe era brasileira, Agda Nuniz da
Silva. A família é do Estado do Rio de Janeiro, ali de
Cordeiros. Fato curioso, por exemplo, é que meu pai
era casado duas vezes. E a primeira esposa do meu
pai faleceu, e meu pai se casou com a sobrinha da
primeira esposa. A primeira esposa do meu pai era
tia da minha mãe. E um meu irmão por parte de pai
se casou com a irmã da minha mãe. Então ele passou
a ser meu tio... meu irmão e meu tio porque a esposa
dele era minha tia. O respeito naquela época era tão
grande que minha mãe chamava meu pai de senhor:
“Senhor José, vem almoçar! Senhor José, vem jantar!”
Então havia aquele respeito enorme! Eu mesmo não
lembro de nenhuma briga, nenhum atrito, entre o
meu pai e minha mãe. O exemplo que o meu pai e a
minha mãe me deram, assim, de caminhos bons de
vida, acho que foi muito grande, porque havia uma
harmonia enorme entre eles.
Eu já nasci em Cataguases, na Vila Domingos
Lopes. Eu sou aquariano de dezoito de fevereiro de
1931.
Todo o segundo matrimônio nasceu em
Cataguases. O primeiro matrimônio não. Foi to-

80
do de Santa Maria (meu pai) tinha locação de imó-
veis. Casas, naquela época. Aquelas ruas ali com a
Maurício Murgel, Leopoldo Murgel, meu pai tinha
um grande número de casas ali que eram de locação.
Depois que ele se cansou da lavoura, ele já estava
com mais idade, veio para Cataguases. Desfez da fa-
zenda lá e adquiriu imóveis aqui.
(Minha infância) foi toda aquela Vila! Eu me
lembro daquela Igrejinha Nossa Senhora do Rosário.
Era uma capela muito bonita! Aquelas festas... e eu
gostava. Não sei se é porque já tinha assim um pou-
co de desejo artístico... porque tudo é uma arte, não?
Aquela arte barroca, aquelas músicas, aquele folclo-
re. Um pouco de folclore dentro dos ritos daquelas
festas. Apesar da liturgia, a parte religiosa acompa-
nhava as festividades. A gente levantava às cinco ho-
ras da manhã para aquela queima de fogos de arti-
fício no dia da padroeira! Aqueles leilões de gado...
aquilo tudo ali envolvia de uma certa forma. Eu não
sou assim um saudosista, mas eu acho, por exemplo,
que era muito mais... havia muito mais religiosidade,
havia mais sinceridade, havia mais amor. O espíri-
to religioso do povo da época era muito maior! Eu
era rapazinho, comungava, confessava com o maior
fervor. Hoje em dia é muito difícil você encontrar
um rapaz de dezoito, dezenove anos que... hoje é

81
muito difícil você ver um jovem numa igreja. O pa-
dre Antônio que me perdoe, mas eu acho que hoje é
muito diferente. Acaba a coroação, a Ave-Maria, já
vem rock em cima com uma caixa de som envolven-
do tudo.
Já se tomou uma cerveja naquelas barraqui-
nhas ali... e churrasco. A Nossa Senhora saindo e dali
a pouco você a tomar cerveja quase que ao lado. Isso
era inadmissível antigamente. Hoje já se permite.
Me lembrei daquela época do Guido Marlière.
Eu botava aquele tênis branco e ia marchando tam-
bém. Depois o Ginásio Cataguases. A gente tinha
aquele orgulho: “Ah, eu sou do Colégio Cataguases!”.
Aquele uniforme de gala, aquela coisa muito bonita.
Em 1941 eu me diplomei. Meu diploma de
primeiro grau no Guido Marlière. E ali aquelas fes-
tas! Tinha um teatro, um auditório muito bom! A
gente recebia o diploma, ia todo de branco, terninho
branco, uma coisa bonita! Tinha teatrinho... e naquela
época eu tinha uma inibição... tinha o hino do Guido
Marlière, que era um hino muito bonito, sabe? Então a
gente subia ao palco em fila, recebia o nosso diploma
e depois vinha o teatro. Era uma coisa muito bonita!
Depois fui para o colégio Cataguases. Aí já é
a fase da adolescência. Peguei o Ginásio Velho. Era
um prédio numa fazenda, eles transformaram aquela

82
fazenda em Ginásio. Professor Antônio Amaro, era
um professor maravilhoso! O ensino era muito rigo-
roso. Era o Gradim, Lyses Brandão... eles eram bons
professores. Tanto que eu devo muito ao ensino do
Colégio Cataguases. Mas era um rigor extremo! Se
numa arguição nós não respondêssemos corretamen-
te, a gente ficava até quatro horas da tarde sem almo-
ço, sem nada. Sem tomar uma água, um café! A mim
me inibiu muito. Por exemplo: o professor Gradim,
eu tinha medo dele. Ele era um bom professor, mas
ele era tão extremo, que o que ele passava no qua-
dro... eu posso dizer pra você que eu saí do Ginásio
sem dizer pra você o que é objeto direto.
Depois eu fui para o Rio de Janeiro, fiz con-
tador, depois fiz meu curso de Direito. (Antes) traba-
lhei dois anos na Casa Felipe, aqui no comércio. Mas
meu desejo era sempre o Rio de Janeiro por causa do
teatro. Então eu fui para o Rio de Janeiro. Fui para
a Escola Dramática da Prefeitura, que hoje é Martins
Pena. Lá eu cursei uns dois anos. E comecei a escrever.
Fazia meu curso de Direito e escrevia. Foi quando es-
crevi a minha primeira peça infantil. Tive sorte de ar-
ranjar um emprego na Aeronáutica. (Fiz) um concur-
so para consultor jurídico. Aí exerci minha advocacia
dentro da Aeronáutica como advogado do Ministério.
Trinta e cinco anos. Eu me aposentei em (19) 86.

83
Eu comecei... eu tenho umas vinte e poucas
peças de teatro infantil. Como autor. Autor, muito
tempo depois. Porque a inibição não me permitia.
Mas um dia faltou uma pessoa que fazia uma apre-
sentação do show; eu fui obrigado a me dirigir ao
público. A primeira peça que eu trabalhei eu fiz um
papel pequenino! Era um bem-te-vi. A peça chama-
-se “Dona Raposa é uma brasa”. Aí eu gostei, fui per-
dendo a timidez. Depois da “Dona Raposa” veio “O
Gato Playboy”, que já foi apresentada no Brasil quase
todo. Criança gosta! Eu faço um teatro assim total-
mente descontraído. É participativo – eu faço assim
uma comunicação com a criança. Eu e a criança. Às
vezes eu desço do palco e levo o teatro lá para a pla-
teia. Eu brinco com a criança, converso, troco ideias
com elas, levo-as até o palco, entende? No final eu
pergunto se elas gostaram ou não... dali é que eu tiro
assim, o resultado, o positivo e o negativo do meu
trabalho. Um adulto vê sob um ponto de vista assim,
talvez mais cenografia, alguma coisa assim. Detalhes,
não é? E a criança gosta da espontaneidade do espe-
táculo.
Eu e meu grupo fomos convidados pela TV
Globo para trabalhar no Sítio do Pica-pau Amarelo.
Eu fazia um bruxo. O papel não era grande, mas eu
contracenava com a Tereza Raquel, Paulo Silvino...

84
aqueles figurões da TV Globo. Mas eu não continuei
porque é muito difícil. A Globo, vamos dizer assim...
é uma firma que dizem que é brasileira, mas a meu
ver é mista. E lá dentro... a televisão é muito bonita
para você ver em casa, mas para você trabalhar, exis-
te assim, uma violência, uma agressividade muito
grande por causa do tempo! Ensaiam umas duas ve-
zes só. Você não pode errar. Por isso é que as novelas
repetem sempre quase os mesmos atores que são pes-
soas que já estão treinadas para aquilo.
Ah, o carnaval é o meu ponto fraco! Por
exemplo, o carnaval da minha infância, nós tínhamos
o “Lorde Clube” e as “Mimosas Camélias”. “Lorde
Clube” era do senhor João Caetano, Rafael Manna,
ali na Vila Domingos Lopes, e o “Mimosas Camélias”
que era das pessoas, comandado pelo senhor Emílio.
O “Lorde Clube” era aqui na Praça Rui Barbosa. O
“Mimosas Camélias” era ali em cima do Sindicato
Rural. (Sr. Emílio) batalhou muito por Cataguases.
E ele fazia tudo com muito gosto. E não tinha assim,
como agora, samba enredo. As músicas eram hinos:
“Oh, que noite linda / Vamos cantar / Com prazer
e alegria / Nós saudamos este povo / Neste dia de
alegria!”
Era o hino do “Lorde Clube”. Isto em 1939,
(o carnaval) era muito bonito! Era aqui na Praça Rui

85
Barbosa. Eles desfilavam aqui. Desfilava um, de-
pois desfilava o outro. “Ah! Ganhou Lorde Clube!
Ganhou Mimosas Camélias!” Mas era uma coisa as-
sim, que o povo aplaudia. Era por aplauso. Não é co-
mo agora: o jurado e tal, tal.
Em (19)74 o falecido Wellington Guedes, que
tinha apelido de Siluca, ele me convidou para vir
aqui. Foi a primeira vez que eu saí. E foi no Unidão.
No Rio de Janeiro eu nunca participei de carnaval. Eu
fui para a Vila Minalda em (19)86. É difícil você fazer
carnaval na Vila Minalda porque o povo não é mui-
to carnavalesco. Ainda há restrições de pais que não
deixam as filhas... sambar e brincar carnaval é uma
coisa limpa ali na Avenida. Aquilo é uma coisa bonita.
Eu tenho ajudado a Vila Minalda... o ano passado eu
desfilei pela Vila Minalda... o ano passado eu desfi-
lei pela Vila Reis, o Reimanso, o Reimanso, o Taquara
Preta e mais a Vila Minalda. (As fantasias) algumas eu
compro e reformo. Algumas foram criadas por mim.
Acrescento, tiro alguma coisa... mas sempre dentro do
enredo. Eu acho maravilhoso! Quando a gente passa
naquela Avenida assim, que o público aplaude a gen-
te então... porque o artista vive do aplauso. O povo
daqui sempre foi muito generoso comigo.
Na infância eu acompanhava meu pai.
Naquela época os políticos chegavam de trem ali

86
na Estação. Aquela festa! “Vai chegar o Benedito
Valadares – que foi governador não sei quanto anos
– em Cataguases!” Aí tinha aquele foguetório! Era a
época que usava chapéu. E eu acompanhava meu
pai. Eu tive o grande prazer de ver o Juscelino. Veio
aqui em Cataguases, eu fui ao comício. Eu o acho um
brasileiro sem igual. Juscelino teve muito carisma.
Eu posso usar um pequeno testemunho porque eu
sem querer, na Aeronáutica, eu fui escrivão daquela
Revolução, daquele movimento que houve contra o
Juscelino, de Aragarças e Jacaré-Acanga. Como o te-
nente na época não era datilógrafo... então o tenente
disse: “Olha, você vai datilografar e eu vou assinar”.
Então eu fiquei a par de tudo aquilo ali, daquele in-
quérito que houve, daqueles militares, e eu fiquei a
par do poder, daquela qualidade de perdão que o
Juscelino teve. Então, pra mim, o Juscelino foi um
grande homem, um grande político.
(Política) Municipal, eu tenho lembranças dos
nossos antigos prefeitos – José Esteves, que era o far-
macêutico da família... a política tinha um caráter fa-
miliar.
Eu me sinto feliz. Como não sou casado, eu
criei um rapaz, um filho. Criei um filho desde os
quatorze anos. Eu ainda ajudo ele até hoje. Eu for-
mei ele em Direito e Jornalismo. É a árvore que eu

87
plantei. Eu acho que dei a alguém uma instrução.
Até hoje as pessoas que precisam de ajuda para estu-
dar, eu ajudo.
Eu acho Cataguases sensacional! Cataguases
para mim é tudo! A amizade das famílias, dos ami-
gos, dos meus colegas de infância, do futebol – do
Palmeiras que eu jogava, do Tiro de Guerra, de tu-
do isso... do carnaval daquela época que eu assistia.
Cataguases é uma cidade culta, uma cidade que tem
a cabeça igual à do Rio de Janeiro. Mas eu quero vir
para Cataguases mesmo, porque a gente fica à vonta-
de, as pessoas são amigas, tudo muito natural.

Entrevistado por Glaucia Siqueira e Hedileuza Maria de Oliveira Vala-


dares, em 1988.

88
89
JOANA RAIPP NOGUEIRA
DONA DE CASA

76 anos

Meu pai chamava João Simões


Raipp e minha mãe Francisca Maria Raipp. Família
de Leopoldina. (Meu pai) era sírio. Quando ele fale-
ceu era muito pequena. Ele era bem mais velho que
minha mãe. Viemos de mudança (para Cataguases),
procurando melhores meios de vida. Eu devia ser
uma adolescente. Acho que foi em (19)28, (19)29,
por aí. (A cidade) não tinha o desenvolvimento, que
tem hoje. Naquela época não existia tantos colégios,

91
tantas praças... A igreja velha eu me lembro. Tenho
até uma foto dela, que dei pra minha filha. Estudei
no Coronel Vieira tenho boas lembranças. Lembro
perfeitamente das minhas duas professoras. Uma
chamava D. Nair de Almeida, era muito vaidosa, se
aprontava muito, era bonita. A outra foi Vera Lobo.
Era muito enérgica. O estudo daquele tempo reque-
ria muito. Hoje o estudo está fraco. (As colegas)... de
vez em quando eu encontro com Neli Maria, ela é da
família de um farmacêutico. Tinha uma outra, Maria
Clara, tinha... duas Rezende, que são parentes da D.
Dalila Rezende: Erotildes e Zélia. A Zélia já é fale-
cida. As brincadeiras eram tão ingênuas, simples...
brincadeiras de roda, de berlinda, de passar anel...
a gente se divertia assim. Eu só fiz o primário. Tirei
com distinção e louvor. Costumo mostrar para meus
netos.
Eu comecei a namorar muito cedo, com qua-
torze anos, e logo após que eu fiz dezesseis anos, me
casei. Não tive tempo de aproveitar a mocidade, fes-
tas, essas coisas. A minha vida foi pra ser dona de
casa. Dois anos depois, nasceu meu primeiro filho, e
aí foi esse desenrolar de vida de fraldas e mamadei-
ras, e até porque antigamente não usava mamadei-
ra, a gente amamentava a criança no peito. Era lei-
te materno mesmo. Naquela época, não sei por que,

92
quase toda mãe amamentava seus filhos. As pessoas
eram mais bem alimentadas e se dedicavam mais.
A mulher não trabalhava fora, tinha mais tempo de
dedicar aos seus filhos. Guardava (resguardado). Eu
fiquei de cama sete dias, o banho era levado no quar-
to – naquele tempo banho de bacia – a gente só comia
aquele pirão de galinha, não comia nada de tempo.
E graças a Deus até agora tive uma saúde boa. Vou
fazer setenta e sete anos. Agora, tenho esse proble-
ma: não posso frequentar lugares com muita gente
que eu começo a me sentir mal. Nem a missa mais eu
vou. Desmaiei duas vezes. Fui em médico até no Rio.
Ninguém disse o porquê.
Eu conheci (meu marido) num parque de
diversões aqui em Cataguases. O meu namoro foi
curto, e namoro daquele tempo era sentado ali na
sala. Eu não tinha pai, mamãe por ali, os irmãos...
Não tinha a liberdade que hoje tem. Meu marido
era brasileiro... Alberto de Souza Nogueira Júnior.
O Joaquim Peixoto Ramos, pai de Minalda, era
muito amigo do meu sogro, e tinha os dois que
eram sócios: O Augusto David e o José Queiroz de
Pereira. (meu marido) trabalhava com o pai na fá-
brica – “Nogueira Companhia” balas, macarrão...
Não sei como é que corria lá, como que é fabricava
as coisas, como era os negócios mesmo. Eu não sei

93
nada, porque como eu disse, naquele tempo a mu-
lher era à parte dos negócios do marido, a gente não
participava. E depois havia um fator que também
contribuiu: eu com dezesseis anos e ele com trinta,
mas modéstia a parte, meu marido era mais bonito
e atraente...
O meu sogro foi um dos primeiros sócios que
morreu. Depois disto, meu marido continuou tra-
balhando na fábrica, mas como empregado. Não sei
como correu os negócios não. Meu marido aposen-
tou, e logo depois ele faleceu. Ele era muito ciumen-
to, não admitia amizade nem convivência. Eu vivia
mesmo para os filhos. Olha, eu era tão criança que
nem me lembro se ele me tratava como uma adul-
ta ou como criança. Ele reclamava como sendo uma
autoridade, eu costumo dizer: a mulher se emanci-
pou mesmo. Eu sempre digo: se eu fosse casada com
ele nessa época de hoje, eu teria me separado, sem
dúvida nenhuma. A mulher hoje trabalha, estuda, e
depois de casada, depois que tem filho, ela tem a vi-
da dela, tem direitos. Naquele tempo não, a gente
era uma criança domada. O marido era o cabeça da
casa, o chefe, a vez dele é que tinha que ser respeita-
da. Tivesse certa ou errada. Eu enxergava (isso), mas
não tinha nada a fazer, né. Uma menina de dezesseis,
dezessete anos... Com dezoito, eu já tinha dois filhos,

94
podia pensar em... primeiro: eu não tinha condições
de deixar essas crianças pra estudar ou fazer qual-
quer coisa. Vontade a gente tinha. (Mas) naquele
tempo... o marido não aceitava em hipótese nenhu-
ma. Deixar com quem? Você é a mãe, a responsabili-
dade é sua. Não ia a lugar nenhum. Minha vida foi
criar filhos – quatro. É o que eu digo: ele já tinha fei-
to tudo na vida o que teve vontade, ele casou para se
acomodar; e eu passava pela vontade. Ele reprovava
(até) os padres. (Gênio) difícil, muito difícil. Morreu
novo, com cinquenta e um anos. Eu não saía na rua
sem ele, também saía pouco com ele. Eu costumo
dizer: só tinha coragem de sair na rua apoiada pe-
lo meu filho mais velho, de braço dado. Não tinha
coragem de sair na rua sozinha. A gente não tinha
a liberdade que tem hoje de ir a um supermercado,
escolher o que quer, ter aquele prazer de catar aqui,
ali, isso não quero, outro não quero... tudo quanto é
feito com a livre e espontânea vontade da gente, tem
outro gosto. Agora, fazer uma coisa pra satisfazer o
outro, tá sempre sentindo tolhida, tá sempre pensan-
do: “Se eu pudesse fazer aquilo, seria tão agradável”.
Eu sou muito racista. Acho que isso é herança
paterna, meu pai era racista, me lembro que minha
irmã mais velha ganhou um afilhadinho de uma la-
vadeira nossa. O meu pai não admitia que ela pegas-

95
se o afilhadinho. Racista mesmo! Eu não admito o
casamento de um preto com branco, não admito mes-
mo. Acho o fim.
Leio tudo! Gosto muito de livros de pensa-
mento positivo, minha leitura predileta. Leio jornais,
revistas... Não sou fanática em televisão. Só esta par-
te de jornal e uma novela ou duas.
Passado não é comigo. Eu acho que atualmen-
te é melhor, porque não há nada melhor que fazer o
que deseja.

Entrevistada por Glaucia Siqueira, Mariana Cândida Cardoso de Almeida


e Hélvia Peres Cordeiro, em 04/06/1991.

96
97
JOAQUIM LADEIRA
O P E R Á R I O A P O S E N TA D O

73 anos

Gosto muito de minha cidade on-


de nasci e criei. Trabalhei numa fábrica 38 anos. Sou
aposentado. Eu tenho 73 (anos), estou caminhan-
do pra 73. Comecei a trabalhar na Indústria Irmãos
Peixoto, com 15 anos, ganhando quinhentos réis por
dia, das seis às cinco da tarde. E com outra, tenho o
prazer de dizer, pra ajudar pai criar a família ainda.
Nascemos de família pobre, como pobre morremos
com toda nossa honestidade. Entrei lá como serven-
te de pedreiro e lá me formei como pintor de con-
servação de máquinas e casas de aluguel que eles

99
tinham. Era tudo serviço da fábrica. Eu trabalhava
tanto na parte interna quanto na parte externa, que
era nas casas que ele tinha. E como empregado fui
um grande pioneiro ali e um zelador de maquinários
de indústria e sistema de lixamentos e pinturas de
maquinários.
Estudei até o 4º ano. Muito mal o 4º ano. Eu
não tinha condição! O pai pobre... Não tinha tempo.
Era das seis às cinco. Chegava cinco horas com o cor-
po cansado, porque tinha que trabalhar, porque tinha
que trabalhar, porque tinha os caçambeiros deles,
que eram os encarregados, os mestres – geral, tudo
em cima da gente. Tomara chegar cinco horas a gente
ir pra casa, tomar aquele banhozinho, mudar aquela
roupa que pudesse mudar, pegar aquela janta. Nove
e meia, mais ou menos, dez horas ir pra cama dormir
pra levantar às cinco horas no outro dia pra apanhar
pão na padaria, essas coisas pra levar pra casa pra
papai comer, enquanto a coitada da mãe levantava às
quatro e meia pra fazer o café pra gente.
Aqui só tinha indústria e nada mais. O pes-
soal saía da roça pra vir pra cidade trabalhar na in-
dústria. Saía da roça pra vim acumular na cidade
em busca de dias melhores. Só existia essa outras...
através dos lucros que os trabalhadores davam na-
quela época. Depois que foram surgindo as outras

100
fábricas... a Industrial... estamparia... Saco Têxtil... foi
tudo assim, através dos lucros que os operários da-
vam... davam e dão até hoje!
Só trabalhei na Irmãos Peixoto. Era dez ho-
ras diárias. Oito horas de serviço e duas horas eles
pagavam hora extra. Aquilo ali toda vida foi salá-
rio mínimo pra nós ali. Era difícil, muito difícil ser
promovido! Eu nunca fui. Eu saí de servente de pe-
dreiro para oficial, às custas do meu sacrifício. Os
que tinham chances lá eram os contramestres, os
mestres geral da fábrica. Todos eles eram assim. Os
que tinham. Eles aumentavam muito bem o operá-
rio que eles quisessem aumentar. Eles pagavam o
que eles queriam. Depois que as leis trabalhistas fo-
ram mudando através do saudoso Getúlio. Quando
Getúlio Vargas começou a fazer aquelas leis que nos
amparavam o operário ficou numa situação mais ou
menos privilegiada. Tirando aquilo, nós tinha nada
não, não é isto? Não tinha nada! Ali era assim, até
que nós íamos apanhando novos rumos depois que
o Getúlio Vargas entrou na presidência. Não tinha
proteção nenhuma. E de empregado... eram manda-
dos embora por qualquer motivo. Naquelas épocas
tinha aquela política braba do Dr. Pedro Dutra com
o Manoel Peixoto velho, os operários eram muito
perseguidos naquela época. Está compreendendo?

101
Então era perseguido como fomos perseguidos na
Revolução de (19)64 também. Houve a intenção no
sindicato, tudo aí, houve prisões de líder de sindica-
to aqui: Zé Rosa, eu, outros mais aqui. Fui parar lá
também... Juiz de Fora, Belo Horizonte. Tive um mês
lá sem ter nada com isso. Nós corremos muito lugar
por aí. Eu era representante do Sindicato junto ao
conselho da Federação nessa época do Zé Rosa. Ih...
ih...ih... Ultimamente não cheguei a sofrer (tortura)
porque eu sou reservista de segunda classe, tá com-
preendendo? Eu sei lidar com essas autoridades. Eu,
desse ponto de vista não tinha queixa não. Fui bem
tratado porque como reservista sei dos regulamen-
tos, porque a gente que está submisso a eles tem que
cumprir o que eles quiserem.
O pessoal daquela época tinha medo de ser
sumariamente aquele meio que hoje tem. O negócio
era feio naquela época! Eles tinham uma caixa de as-
sistência médica, com médicos da indústria, mas as
receitas que eles receitavam era nós que comprava os
remédios por nossa conta. Só valia naquela época era
atestado médico O médico consultava, dava o ates-
tado porque ele já estava em condições de trabalhar,
todo mundo voltava pra trabalhar, compreende?
A (vida) do aposentado é pior que a do traba-
lhador, por causa dessa defasagem, desses descontos

102
desses INPS que fazem aqui, que é uma coisa fora de
série, pois se o salário não dando... Aposentei com 128
mil cruzados por mês. 128 mil réis naquela época. A
gente até perde a contagem do dinheiro. Tanto dinhei-
ro diferente, que a gente não compreende se é dinhei-
ro x, y, por aí afora. Não recebo salário por enquanto
não. Nem o mínimo que o governo decreta nós rece-
bemos no INPS não. Não sei o que há com esse INPS,
que ninguém chega a ganhar igual aos que estão na
ativa. Vão, se Deus ajudar que eles igualam a gente
nesse salário. O INPS desconta de todo mundo. E o
aposentado não sabe o quanto recebe ainda, tem dis-
so também. Recebe aquelas folhinhas! Todo mês tem
aquelas folhinha. Aquela folhinha... E sempre com
uma reposiçãozinha que não chega a dar o suficiente
daquilo que a gente necessita pro custo de vida.
Bom, (a situação) de fato era muito mais fá-
cil do que hoje, hoje se tornou mais difícil, porque o
custo de vida já atingiu os aluguéis de casa e aparta-
mento aqui nessa cidade. Vamos falar o que é verda-
de. Não tenho casa própria também não. Ainda vivo
de ajuda dos outros. Porque casei pela segunda vez.
Casei com a ajuda dos outros porque a primeira es-
posa que eu tinha já faleceu. E além de tudo sou por-
tador de um filho incapacitado, a manter ele com um
litro de leite por dia pra não dar úlcera.

103
(O trabalhador) é uma laranja. Uma laranja
que só tinha valor quando estava boa. Apodreceu, jo-
ga fora. É igual a uma cana. A cana é muito boa en-
quanto tá lá de pé, levou lá no engenho joga o bagaço
fora e vamos aproveitar o caldo.
A gente só entregava os destinos da gente pra
Deus e vamos fazer nossas orações, pra ver se do al-
to vem alguma bonança pra gente. Porque daqui da
terra isso tudo é passageiro, é enganador, é só tapea-
ção, nada mais. Vamos vivendo aí de qualquer jeito.
(Teria que) mudar a política do governo pra melhorar
a situação dos que estão aí vivendo.

Entrevistado por João Carlos Borges Juste e Rosângela Schittini Rodrigues,


em 1988.

104
105
JOSÉ DE SOUZA LUQUINI
O P E R Á R I O A P O S E N TA D O

68 anos

Eu estou com 68 (anos). Acho que foi


em 1926 que comecei a trabalhar. Da idade de sete
anos... deixa eu ver... Eu parei em 1967. (Trabalhei)
sessenta anos certinho.
Eu comecei trabalhando assim: meu pai tem
um engenho na roça, tem um sítio, e às duas horas
da manhã chamava a gente pra buscar cana pro en-
genho. E dali nós viemos trabalhando no... ajudando
a apartar vaca no curral como eles falam, né. Depois
passei a candieiro de boi, depois passei a entregar lei-
te na cidade.

107
(O sítio) Lalão (era) pertinho de Cataguases.
Fabricava rapadura. Lá eu fiquei até os onze anos. Aí
o papai vendeu lá. E nós mudamos pra cidade. Aí eu
entrei na aula e o sarampo me pegou, jogou um ano
e seis meses de cama. Dali eu saí e comecei a recupe-
rar. Passou muitos meses e eu só tomava leite, água e
chupava bico. Mas nada de alimentar. Mas os médi-
cos tratando e eu fui desenganado por seis médicos.
Acabou eles já morrendo. Tem só um aí, que é o Dr.
Sebastião. E eu estou hoje. Quando eu recuperei fui
vender verdura para o Antônio Alexandre. Era pai de
um tal Mané Broinha. Vocês conhecem ele. Ele é mui-
to falado aqui em Cataguases. Nós vendíamos verdu-
ra em cesta por aí. Era vinte apanhado de verdura em
duas horas.
Mas nós vendemos verdura nessas ruas de
Cataguases. Tinham poucas casa... os bairros tinham
muito poucas. Umas casas muito longe... nos bairros.
Aí eu só sei que às vezes eles compravam de mim de
pena de vê a cesta de verdura que eu carregava. Eu
trazia vinte mil réis de verdura, mas vinha mandioca,
vinha batata, vinha laranja, vinha dentro da cesta...
vinha couve, almeirão, vinha tudo. Aí era uma cesta
pesadíssima pra dar o troco e pegar o tostão. A batata
era duzentos réis o quilo. Mas tinha freguesia e pas-
sava todo dia. Ela comprava. Dentro de quatro horas

108
eu ganhava quatro mil réis por dia né. Esses quatro
mil réis, eu dava a minha mãe pra ajudar a tratar dos
filhos. Porque meu pai era pai de catorze filhos e eu
trabalhava numa Usina de cana e já ganhava cento e
trinta mil réis por mês.
Ele (meu pai) veio da roça, não sabia como é,
que coisa. Eles vieram e deram o serviço. Ele pegou
né. Mas não viu que não ia dar pra ele tratar da fa-
mília né. Aí nós viemos trabalhando assim: eu e mais
o irmão também arrumamos uma lenharia. Vendia
lenha na rua. Depois um dia meu pai me chamou
e falou assim: ó, eu acho melhor você arrumar um
emprego pra você, porque você ganha porcentagem,
mas no futuro... hoje você vende muito, mas pode
vender menos. Eu não quis concordar muito com
ele não, porque eu ganhava igual a ele, né? Mas aí o
rapaz da fábrica de macarrão, o Aníbal Salgado via
eu trabalhando e me chamou pra trabalhar com eles.
Aí eu fui trabalhar. Sabe quanto ele me pagava por
dia? Quinhentos réis por dia. Eu falei com o homem
que ia sair. Ele passou a pagar mil réis por dia. Aí eu
trabalhei um ano ganhando mil réis. Aí falei assim:
“mil réis também eu não fico não.” Pegava sete horas
da manhã até às quatro da tarde. Eu saía do servi-
ço, ia pra estação porque vinham os trens e traziam
muitos viajantes. Ali eu costumava uma pegação de

109
mala e de embrulho que eu fazia durante a tarde. Eu
ganhava dez vezes mais que na fábrica que eu tra-
balhava, mas eu sustentei o emprego pra eu cumprir
a ordem do meu pai. Que ele achou que dava certo
né? Aí quando eu estava com seis anos lá, ele passou
a ganhar dois mil e quinhentos réis por dia. Mas eu
fui... já tinha arrumado lá na Irmãos Peixoto pra ga-
nhar quatro.
(A Fábrica de Macarrão) tinha uma base de
uns treze funcionários mais ou menos. A Irmãos
Peixoto é mais antiga. A irmãos Peixoto é de 1905,
né. E a Fábrica de Macarrão eu não olhei bem a data,
mas vem depois. Funcionou bastantes anos. Eu tra-
balhei uns seis anos. Quando eu saí eles trabalharam
mais. Eu já trabalhava na indústria durante dez anos,
ela ainda estava aberta. Aí depois que ele veio à fa-
lência. Primeiro veio a falência da Fábrica Raimundo
Nogueira. (Fabricava) bala e macarrão. (Era) ali, sa-
be aonde que mora o Dr. Serafim Lourenço? Naquele
trecho ali defronte aquele açougue. Ali do lado do
Serafim Lourenço. Ali onde é o armazém hoje de ne-
gócio de construção. Era mesmo ali na fábrica.
Ah... na Irmãos Peixoto entrei lá em 19(39). Na
indústria de macarrão entrei em 1933. Eu trabalhei
seis anos lá e passei pelo 39 na indústria de tecido. Na
indústria de tecido eu trabalhei mais ou menos uns

110
vinte anos, fazendo catorze horas por dia. O salário
deles era muito pouco. Aí fazia mais quatro horas e
eles pegavam 20% sobre as horas. Aí foi tudo bem.
Quando eu estava com vinte e dois anos de serviço
lá Irmãos Peixoto, começou uma perseguição em ci-
ma de mim. Entrou uma turma de trabalhadores uma
turma de trabalhadores na indústria né. E toda pro-
dução que fazia não aparecia. Aí um dia o Manoel
Peixoto me chamou lá no escritório e perguntou por
que as minhas máquinas produziam trinta e cinco mil
jardas por dia e a dos outros produzia setenta. Que
ele via eu na frente da máquina diariamente e os
outros viviam brincando, fazendo garruchinha den-
tro da indústria e dava mais produção que eu. “Não.
Porque eu recebo a produção que a máquina dá.” Só
falei isso com ele. Não falei mais nada. Aí ele chamou
o encarregado lá e nele falar com o encarregado ele
passou todo mundo que ganhava por ponto, ganhou
por hora. Porque por ponto dava uma média nós de
três cruzeiros o rolo. Quer dizer, que eu fazia trinta e
cinco dava pra mim dez mil e quinhentos por dia na-
quela época. E eles faziam setenta dava pra eles vinte
e um cruzeiro. Aí o patrão não falou mais nada. Então
chamou o encarregado e pôs todo mundo por hora.
Dali começou a perseguição em cima de mim. Tudo
que eles pudessem fazer pra me prejudicar pra eu sair,

111
eles faziam. O Onofre Corrêa Neto era encarregado
da indústria, ele era lá na tecelagem, ele era mesmo
que dono. O que ele falasse estava falado. Todo mun-
do sob as ordens dele. Nesse meio tempo eu tinha
um filho meu trabalhando na fiação. Ele trabalhou lá
quatro anos, chamava Joaquim. A primeira vingança
que eles fizeram foi mandar o menino embora. Eles
não podiam me mandar embora porque eu tinha es-
tabilidade de casa. Aí mandaram o garoto embora. E
me cortaram. Em vez de eu fazer as quatorze horas,
me puseram fazendo oito horas por dia. Eu ganha-
va mais duzentos réis a hora, eu e mais dois compa-
nheiros – era o Pedro Anthouguia e o Sudário, dois
irmãos – puseram nós trabalhamos oito horas e tirou
o aumento que é pra vê se fazia pressão pra nós sair-
mos. Aí eu nessa época era tesoureiro do sindicato. Aí
eu cheguei no escritório e falei com o Dr. Francisco.
Aí quando eu fui pra falar com ele o Onofre entrou
na frente. Porque lá o salão é do tamanho disso aqui
mais ou menos. O Dr. Francisco estava lá batendo um
documento. Ele falou: “Ó, não recebe esse moço não
que esse moço é subversivo, é lá do sindicato.” Aí o
homem levantou e falou assim: “Some. Sai de perto
de mim, não quero ver você na aqui na minha frente
de jeito nenhum. Pode ir procurar seus direitos pra
lá.” Dr. Francisco era o dono da fábrica. Foi quando

112
Manoel Peixoto saiu pra Manufatora e ele ficou co-
mo gerente de lá. Mas eles tinham o Onofre como o
maior da fábrica. Aí eles não me mandaram embora
não. Mas começaram a me perseguir, tiraram os au-
mentos. Aí eu falei com ele: “Se você não chega meus
honorários no lugar eu vou ser obrigado a promo-
ver uma ação contra vocês.” Entrou junto comigo
os meus dois companheiros Sudário e Pedro. Eu fui
fazer um depoimento. Até na época o juiz da Junta
era o Valdir de Mattos e o José Rosa Filho. Eu sabia
que o Valdir ia votar contra, mas eu tinha certeza que
o Zé Rosa votava a favor. Porque o Zé Rosa era do
trabalho, era presidente do sindicato. Aí ele votou a
favor. Se ele não votasse, nem recorrer eu não podia.
Mas mesmo assim nós perdemos aqui em Cataguases.
Tocou para Belo Horizonte. Lá em Belo Horizonte
nós perdemos. Aí dois colegas meu fugiram da raia.
A ação continuou. Eu apelei pelo Rio, porque quando
eu toquei essa causa eu tinha certeza que eu ganha-
va. Um camarada tinha ganhado uma causa igual a
essa e ela estava arquivada no Rio. O advogado que
é do sindicato não queria tocar porque estava com
medo de perder. Aí eu fui ao Sr. Pedro Dutra. Falou
assim: “Você perde nisso de qualquer maneira. Eu
sou muito seu amigo e toco pra você não ficar meu
inimigo.” Falei assim: “Então você pode tocar porque

113
garanto que nós ganhamos.” Aí o Dr. João, advoga-
do do sindicato, resolveu a recorrer pro Rio. Aí nós
ganhamos. Depois, como diz, da causa ganha, eles
alegaram que não pagaria não. Eu ganhava mais que
os outros dois duzentos réis a hora e eles tinham que
repor, porque aí é serviço igual, salário igual, né. E
eles bateram pé que não pagavam de jeito nenhum.
Aí foi o maior aperto pra nós porque o advogado não
queria recorrer porque estava com medo de recorrer e
a indústria não pagar. Aí quando ele ficou querendo
sair fora – porque a política aqui era tão forte em cima
dele, que ele estava até com medo de mandar matar
ele. Porque a política aqui era triste. Agora endireitou,
mas na época que era Mané Peixoto e Pedro Dutra
era: “ô” mata “ô” vive – falei com o Zé Rosa, presi-
dente do sindicato: “ô Senhor requer o advogado de
Belo Horizonte”, que na época era o José Moreno. Aí
o... ele ficou com medo de deixar o outro receber a
causa que ele tinha. Fez o requerimento e mandou.
Daí a dois, três dias que nós fizemos o requerimento
chegou a ordem de pagar dentro de vinte e quatro ho-
ras. Aí eles mancaram, falaram, falaram até babá, mas
pagaram...
Aí mudou... tinha mudado a gerência da in-
dústria. O filho do Dr. Francisco pagou, porque fica-
va um papel com o sindicato, um com a indústria e

114
o outro ia pro Ministério. Eram três folhas. Naqueles
depoimentos ele viu que havia tramoia dentro do
serviço e pegou a quadrilha de pessoal estava tudo
roubando pano. Eles vendiam os retalhos pra fora.
Entregaram como retalho, mas no meio iam peças de
pano de alto valor. Um próprio parente deles com-
prava e vendia. A quadrilha era grande. Só sei que
ele... pegaram eles, puseram tudo na rua.
Na casa que eu morava tinha um quintal gran-
de e fazia horta. Antes de eu entrar em serviço eu já
tinha o meu quebra galho por fora. Tinha um tal de
Modesto aqui em Cataguases que tinha uma quitan-
da. Eu entregava a ele trinta e quarenta mil réis de
verdura. Toda manhã eu deixava pra ele revender.
Quer dizer que eu ganhava pouco na indústria mais
tinha meus vira por fora. Eu não aguentei até chegar
a aposentar, tinha que aguentar não. Tinha que sair
mesmo, pois o ordenado da fábrica toda vida foi uma
miséria mesmo.
Eu trabalhei tomando conta de uma banca de
jogo. Começava trabalhando das seis às duas. Aí das
duas horas eu saía pra casa, mas meu ordenado não
dava. Aí eu peguei uma banca, banca de jogo pra to-
mar conta. Eu pegava às seis horas da tarde. Tinha
dia que eu trabalhava até às cinco da manhã. Às cin-
co da manhã chegava, nem deitava. Ia em casa, to-

115
mava café e voltava às seis horas pro serviço. Eu... fiz
isso que estava com minha mulher... tinha sido ope-
rada de vesícula, ela tinha uma epilepsia...então eu
estava com um gasto tremendo. Aí tomava conta des-
sa banca de jogo pra poder tapar buraco.
Naquela época roleta funcionava aqui. É uma
roda. Aqui horas rodava das seis horas até enquanto
tivesse ponteiro. Às vezes rodava a noite inteira, mas
aí eu rodava aquilo, ganhava vinte por centro na por-
centagem. Quando dava dez mil eu ganhava meus
dois. A roleta tinha pano assim, todos bicho numera-
do em cima da mesa, na roda também era pintado os
bichos, vinte e cinco bichos. Aí toca a roda e eles bota
ali o dinheiro. Aonde o bicho parar, paga. Trabalhei
um ano mais ou menos ali, né. (Funcionava) na
Vila Domingos Lopes, naquele prédio do Bebeto. O
Carlos Crepalde e o Wilson Crepalde, que vieram de
Miraí, abriram essa banca. Eu trabalhava com ele...
toquei o serviço com eles e ganhava porcentagem.
Quando eu acabei de pagar tudo que eu devia já es-
tava na hora de eu começar a juntar um dinheiro. Aí
chegou um delegado novo pra aí e acabou o jogo. Aí
eu com minhas oito horas do mesmo jeito.·.
Sou pai de dez (filhos), mais só seis vivos.
Quando eles começaram a trabalhar me ajudando eu
fiquei cuidando só da horta e do serviço. Larguei o

116
jogo pra um lado e fui tocando a vida. Um dia eu es-
tava trabalhando, já era oito da manhã, eu alembrei
que eu tinha seis anos da fábrica de macarrão e esta-
va fazendo vinte e nove anos na Irmãos Peixoto. Nem
em casa eu disse nada. Fui lá no escritório, chamei o
Dr. Ângelo e conversei com ele. Falei: “o Senhor quer
me dar três mil (cruzeiros) eu vou sair agora.” Ele fa-
lou: “Não, nós não podemos fazer isso que a fábrica
está em decadência, está sujeito até fechar mesmo.”
Eu sabia que estava, que o roubo era grande. “Você
vai almoçar que nós vamos estudar o seu caso, quan-
do nós voltarmos, se der pra fazer alguma coisa pra
você nós fazemos.”
Eu fui almoçar. Quando eu voltei o Dr. Ângelo
me chamou. Falou: “ó, os três mil que você me pediu
não dá não, nós damos um mil e oitocentos cruzeiros
se você quiser. Nós não podemos pagar de uma vez
também não. Vamos pagar parcelado trezentos cru-
zeiros no mês.” Eu falei com ele: “Eu estou achando
pouco, mas eu vou fazer uma outra proposta aos se-
nhores. Se o senhor aceitar, o senhor me da seiscentos
mil agora e faz quatro promissórias de trezentos.” Aí
ele aceitou. Ele bem que estava doido pra eu sair, que
eles faziam tudo pra me tirar da seção, mas eu não
saía mesmo. Não saía porque eu sabia que iria acabar
aposentando. Aí, saí dali, eu aposentei.

117
Eu aposentei com o salário das dez horas que
eu ganhei. Aí fui, fui pra casa. A mulher nem espe-
rava. Quando eu cheguei falei: “Eu saí aposentado,
vocês não vão passar fome não...” O medo deles era
passar fome, que quem trabalha em fábrica ganha
uma miséria desgraçada. Eu saí que eu estava muito
doente, já tinha trabalhado muito tempo nesse horá-
rio sem dormir. Tinha dia que eu cochilava na frente
da máquina. Eu fui ao médico. Primeiro fez um tra-
tamento de saúde. Aí entrei na sinuca trabalhando
lá com o João Luciano. Sinuca ali perto da praça. Ali
eram onze mesas. Trabalhei lá uns dois meses. Ele es-
tava me pagando trezentos mil por mês, mas eu achei
que não estava dando, foi sair. Eu saí dali fui ven-
der picolé pra Sibéria. Picolé dá mais que a sinuca.
Eu vendia uma base de um mil e duzentos picolés
por dia a dez centavos cada um. Só ali ganhava por
dia uma média de... dava vinte e quatro cruzeiros por
dia né, que durante o mês dava setecentos e vinte. Eu
aposentei com cento e vinte e oito mil réis por mês,
que o salário da época era oitenta e quatro o salário.
Dali é que eu comecei crescer. De picolé eu passei bo-
tar caramelo dentro do carro. Botava Mirabel, botava
maçã. Só sei que dava uma média... Eu tenho arre-
pendimento de ter entrado na indústria por causa
disso. Se eu continuasse vendendo eu hoje era rico.

118
Que depois que eu aposentei já de trinta e cinco anos
de trabalho, foi que eu fiquei negociando na rua. Aí
eu pude estudar essas meninas minhas até o terceiro
científico cada uma. Falei com eles: a única coisa que
eu posso deixar pra vocês é o estudo. E estão todos
empregados. Tem uma no Banco do Brasil, tem três
na Telemig. Graças a Deus!
Quando eu entrei na indústria os companhei-
ros de serviço, se entrasse um novato lá apanhava,
compreendeu? Quando eu entrei eles me ameaçaram
me bater. Não foi encarregado não. Esse trabalhava
na mesma máquina. Só avisei eles, também não me-
xeram mais. Que eles queriam que eu acompanhasse
eles fazer a malandragem. Pro patrão ver, mandava
embora e botava outro. Eles queriam ser o dono. Eles
tinham medo do sujeito aprender a trabalhar e tomar
o lugar deles, conforme nós tomamos.
(O encarregado bater) eu não vi não, mas logo
eu entrei eu sabia. O Serafim Spíndola pegava o su-
jeito pela orelha assim, e batia. O Eudaldo também
diz que batia. Os moleques eram meio safados quan-
do entravam na fábrica. Tinha moleque que era en-
diabrado mesmo, mas não era pra eles bater, mas ele
batia. Se não obedecesse eles metiam o coro mesmo,
e pai e mãe não achava ruim não, que eles assinavam
lá um contrato. Se andasse errado podia corrigir né.

119
Esse filho meu que entrou na indústria, eu tive que
assinar. Eu assino pra ele trabalhar, mas pra espancar
ele não.
Em (19)64 era tesoureiro do sindicato. Eu
não sofri (perseguição) porque eu sofri uma opera-
ção na boca. Eu que ia viajar com o Zé Rosa pra as-
sinar o livro de... presença lá em Belo Horizonte, na
Federação. Mas como eu não pude eles mandaram o
Joaquim Ladeira no meu lugar. O Joaquim Ladeira
apanhou. Escapei. Mas eles não me batiam não, mes-
mo que eu fosse eles não me batiam não. Porque eles
acompanhavam mesmo essa turminha que vivia aí
fazendo negócio de... como é que chama? De Partido
Comunista. Eu quantas vezes falei com o Zé Rosa:
“Zé Rosa, sai disso, isso no fim vai dar...” porque eles
falavam demais, o que eles falavam nem, nem o se-
nhor, se fosse rico também não aguentava. Eles fala-
vam em pegar os sujeitos, pendurar nas árvores, cor-
tar o pescoço, pintar o diabo. Quanto discurso eles
fizeram na... Casa Felipe ali desse tipo. A polícia que
era forte engrossou e mandou vim a polícia do DOPS.
No dia que eles foram nesta fazenda do Turiaçu, lá
foi uma confusão dos diabos, só você vendo o que foi.
Aqui em Cataguases, esses fazendeiros ven-
deram tudo e vieram pra indústria, compreendeu?
Ali os patrões dava-lhe o voto e pros filhos dele, pra

120
eles votar neles. Quando o fazendeiro não vendia
vinha os filhos dele pra trabalhar, os empregados lá
eram tudo obrigado a votar ali, compreendeu? Mas
arranjado por eles era mesmo que uma fazenda in-
completa em Cataguases. O que votar, o que eles
soubessem que votou contra ele, ia pro meio da rua,
ameaçado até apanhar. Tinha os capachos que tra-
balhavam, já pagou pra aquilo, pra vigiar o sujeito
onde ele ia, Mas comigo não aconteceu disso. Eu al-
moçava e jantava na casa do Pedro e era empregado
da Indústria Irmãos Peixoto. A Irmãos Peixoto nunca
me pediu voto, mas os outros eles ameaçavam. Eles
nunca me pediram voto porque meu pai toda vida
acompanhou o Pedro Dutra, e eles não arrumaram
serviço pro meu pai na indústria, porque o meu pai
era do lado do Pedro Dutra. Quando ele trabalhava
na Usina, mandaram ele embora por causa dele vo-
tar com o Dr. Pedro Dutra. Agora, o Pedro Dutra foi
um homem mas muito canalha dentro de Cataguases
- deixa falar que ele já morreu – porque o meu pai fez
tudo pra ele, ele teve coragem de dar emprego pro
meu pai na Prefeitura pra varrer rua, compreendeu?
Porque o meu pai tinha estudo, podia trabalhar na
prefeitura. Ele sofreu depois de cair da política, mas
ele mereceu cair, porque ele fez muita covardia com
os outros também que dava apoio a ele. A família do

121
meu pai era grande. Filhos, cunhado, tudo, tudo vo-
tava com ele e ele fazer um troço desse. Você acha
que é certo?
Eu, pra mim, nunca tive diversão. Eles tinham
o time de futebol da fábrica, mas eu nem acompanhei,
porque o tempo que eles iam jogar futebol eu estava
tratando da minha horta, que se eu não tratasse eu
não podia sobreviver... Meu quintal era grande... o,
eu sofri de todo o jeito. Numa época eu fiz uma horta
lá em casa, vou contar pra vocês verem, mas plantei
tomate, agrião, couve e almeirão à vontade, alface, ji-
ló, uma média de 300 pés de cada coisa no quintal.
Mas estava um mimo!
Naquele tempo vendia duzentos réis, trezen-
tos réis o molho para as quitandas poderem revender,
não é? Chegou uma mulher lá em casa e olhou, fa-
lou assim: “o Senhor vai ficar pobre de rico com essa
horta.” Mas parece que a desgraçada foi lá na hora
errada. Mas no outro dia bateu um percevejinho des-
se no pé de jiló. Tinha cento e vinte pés de jiló, mas
já dando e os outros estavam começando a dar flor
ainda. Mas não ficou um pé vivo! O senhor não acre-
dita nisso? Ela falou de manhã. De tarde estava tudo
de folha caída, mas chupou o verde do jilosal todi-
nho, acabou. Deu uma muchadeira no tomatal, caiu
tudo quanto era folha. Estava um sol quente... você

122
via o tomate todo murcho em cima... do... estaleiro.
O que me deu um bocado de dinheiro foi a couve, o
almeirão e o quiabo. Daí uns dois meses bateu uma
enchente, arrasou, acabou com tudo.
Eu tinha um bananal também, banana prata,
foi a água, acabou com tudo. Demorou tanto a descer
que não ficou nada. Aquilo me aborreceu, mas fui to-
cando a vida. Em 19(79) deu aquela enchente grande,
bateu uma enchente na indústria de meio metro. Eu
já estava aposentado. Trabalhei 29 anos na indústria e
nunca foi enchente lá. Aquela arrasou o meu quintal
mesmo. Acabou, mas acabou por completo mesmo!
Eu tinha um bananal, um goiabal que era uma bele-
za, mas não ficou nada! Aquela enchente de (19)79,
me largou sem casa, sem móvel, perdi tudo! Falei:
“agora que eu quero vê”. Os miolos na cabeça doía
tanto, tanto que eu não estava tendo plano pra mais
nada. E a minha menina trabalhava em Leopoldina
já, no Banco, ela falou: “Ó pai, o senhor não esquenta
a cabeça não, que nós vamos recuperar a nossa casa.”
Quando ela ia tirar o dinheiro na Caixa Econômica
pra nós fazermos a casa, era trezentos e sessenta mil
na época, eu falei: “não tira não, aguenta mais. Tem
um rapaz aí querendo comprar o quintal...” Fechei
com ele. Fiquei com um pedacinho só (de quintal).
Ah! Eu tenho verdura pra despesa e diariamente eu

123
costumo vender um bocado, nunca deixei lá em casa
sem horta não.
Não, eu nunca tive uma hora de lazer pra eu
passar. Hoje você vai passar sem preocupação... nun-
ca tive! Hoje sou aposentado, mas ainda tenho meus
compromissos. Agora os meninos não querem que
eu trabalhe não, me dão dinheiro pra mim andar à
toa. Sei que a vida é uma luta, mas tem que ter fé em
Deus pra você, viu? É uma luta infernal. Mas hoje eu
digo pra vocês: tem hora que o patrão banca o... o ig-
norante com o trabalhador por causa do encarregado.
Porque o Dr. Francisco, deixasse eu contar a ele o ca-
so todo, eu não precisava de tocar a causa e nem criar
caso com a indústria que eu trabalhava muitos anos.
Trabalhava com toda coisa que eles têm mandar meu
filho embora. Eu ainda ficaria satisfeito, pois ali que
eu estava ganhando meu pão. Eu não gosto de dizer
não, mas eu com toda coisa que muita gente fala dos
patrões eu não tenho nada que queixar de nenhum
deles. Tanto na fábrica de macarrão que eu trabalhei
seis anos, nem na Indústria Irmãos Peixoto. Agora
dos encarregados eu tenho, porque me pisaram o ex-
tremo, mas pelo patrão não. O Manoel Peixoto então
foi um homem excelente pra mim. Um patrão que
os outros falavam dele, eu não tenho nada a queixar
daquele homem. Porque tudo que eu fui perseguido

124
dentro da indústria com ele eu resolvia. Agora, de-
pois que entrou o Dr. Francisco eu não resolvia mais,
que o Dr. Francisco contava com aqueles capachos
dele como majoritário da indústria, não sabendo
ele que eu sabia do rolo todinho dentro da indús-
tria. Não falava pra não prejudicar ninguém. Que eu
sabia mesmo! Tudo que saía da indústria eu estava
cansado de saber. Tanto na sala de pano quanto na
parte da administração dos encarregados. O Onofre
Corrêa tinha mais de quarenta empregados que tra-
balhava pra ele por fora da indústria. Isso tudo eu
sabia. Quando fizeram o Saco-Têxtil, onde ela foi à
bem dizer à falência. Uma coisa tremenda!

Entrevistado por João Carlos Borges Juste e Rosângela Schittini Rodrigues,


s/d.

125
JOSÉ MAURICIO DE SOUZA
O P E R Á R I O A P O S E N TA D O

70 anos

Eu ajudava meu pai desde meni-


no. Foi quando começou, iniciou o Horto, 1924 por
ai afora. Entrou lá o diretor, acho que foi o primeiro
diretor do Horto: Doutor Vantol; Pedro Luiz Vantol,
sabe? Foi o primeiro. [O horto florestal] era diferen-
te. Era um saiguá. Tinha uma mata, como tem até
hoje, mata virgem, mas o resto era um saiguá. Você
sabe o que é um saiguá? Saiguá é beijaúba, moita de
cipó, uma esperteira, umas madeiras, umas coisas

127
bobas, sabe? (Animal?) não tinha nada não. Via falar
que tinha uma jiboia lá, mas nunca ninguém viu. Eu
trabalhei nessa época de pequeno com meu pai, de-
pois mais tarde com outro diretor que plantou tudo
que você está vendo lá: Virgílio Moreira, eu trabalhei
com ele. As árvores estavam deste tamanho assim, e
a gente tinha que cuidar delas, não capinar naque-
les becos, nas carreiras. Tinha que roçar baixinho, pro
mato não tomar conta das árvores. Ai nós trabalháva-
mos lá umas quatro a cinco horas diariamente. Eu vi-
nha aqui na praça Santa Rita na época de podar, ai eu
levava... lá tinha um casal de animal de carroça, pra
custeio, pra trabalhar pra eles. Eu vinha com a carro-
ça buscar muda aqui, muda não, galho, pra chegar lá
e cortar aquelas mudinhas, cortar assim e plantar na
areia. Pra poder formar muda.
[O horto] era do Estado... ainda é. Plantava-se
algodão pra fora. Eu era tão pequeno, que eu catava
algodão por peso. Apanhava pra ganhar um dinhei-
rinho. Dava acho uns 200 réis por quilo. A gente cata-
va algodão, eu não lembro para onde ia este algodão.
[Plantava-se] dentro do horto. Cá fora, onde é hoje
lote de ipê. Cada trecho é uma madeira. Lá tem um
lote, de aroeira, ipê, óleo vermelho, jatobá, tudo.
Nós moramos uns tempos lá. Puta merda!
Nunca vi dá berne assim rapaz! Na cabeça da gente,

128
aqueles bernes. Mosquito, né. Pousava e dava ber-
ne. A minha mãe que cortava o cabelo da gente. Eu
tinha muitas atividades. Eu saía de lá do Horto e ia
pro nosso sítio, ali perto do horto mesmo, pra traba-
lhar. Depois eu voltei lá do sítio e voltei a trabalhar
no Horto outra vez. Foi logo que começou a plantar o
que está plantado lá, mas com outro diretor: Virgilio
Moreira. Eu cuidava daquelas árvores, tudo que tem
lá. Naquele tempo tinha água lá, agora não tem. Era
da represa. Você já viu a represa de lá? Aquelas pe-
dras dessa barragem nós tiramos cá embaixo, onde
eu falo que tinha “carnera”, pra jogar água pro alto
do morro, ali tinha uma pedreira. Era quebrada as
pedras ali e nós transportava aquelas pedras ali, na
zorra. Zorra é um gancho de pau assim, jorrado de
tábua. Ali carregava as pedras em cima daquela zor-
ra, e cá na parte amarrava pro boi puxar. Correntes
de boi na ponta da zorra. Aqueles... como gancho de
tiradeira. A água de lá era da represa. Represa lá den-
tro do mato, lá em cima. Secou tudo ali. Agora parece
que está brotando uma aguinha lá, e muito boa até,
que vem pra lanchonete lá. Quando você for lá tomar
a água de lá, é muito boa. Mas ali era cheio, tinha pei-
xe, tinha tudo. Era até perigoso a gente cair ali. Tinha
um cipó desta grossura assim, lá em cima na salguei-
ra. Tinha um cipó bacana, mais seco, eles tinham cor-

129
tado ele embaixo, cipó imbé, conhece? Eu era doido
pra dar uma gangorrada naquele cipó. Mas eu não
tinha coragem. Aí eu falei: Hoje dá o que dé eu vou
dar uma gangorrada neste cipó. A represa tinha dimi-
nuído mucado a água, estava aquele barrinho fininho,
igual filtro, barro filtrado, sabe? E o cipó arrebentou
lá em cima. Arrebentou e eu fui certinho dentro da
represa, mas no barro. Cheguei em casa, lamiado de
barro, dos pés a cabeça: calça azul, blusinha branca,
não sabia que cor que eu era de tanto barro. O cipó
arrebentou, cipó imbé arrebentou.
Estudava aqui [no Coronel Vieira]. E não ti-
nha... a granjaria não era a granjaria. Não tinha es-
sas casas. Não tinha esse progresso que tem hoje não.
Não tinha nada. Tinha lá na granjaria umas duas ou
três casas. Alí no Simões tinha mais um pouquinho,
porque a família dele morava quase todo mundo por
ali. O [coronel] Artur Cruz. Lá em cima era o Agnelo
de Melo, na granjaria. É a direita do Hipólito era o
Simões. Aqui nessa avenida Humberto Mauro, pra
lá da linha, pra ali afora tudo nós aramos terra pra
plantar arroz. Não tinha mesmo nada não, tinha uma
porção de olaria. Antes de chegar no Fórum pro lado
debaixo, tinha umas duas olarias. Tijolo. E a usina de
açúcar funcionava também. Até no Pedro Dutra era
roça. Era mato.

130
[Estudei só até o] 4º ano. A sopapo, mas foi
até o 4º ano. Não vinha a aula. Não era longe, até que
a gente vinha bem, mas o papai precisava da gente
todo dia. Família muito grande, precisava da gente
todo dia: “Hoje você não vai não que eu preciso de
você. Hoje não vai não...”. Quando era de manhã ou-
tra vez: “Não, não vai hoje também não. Você já fa-
lhou mesmo a semana toda, acaba de falhar o resto
da semana”. Anita Carneiro era a primeira professo-
ra. Depois Eunice Taveira.
Nós tinha sítio engenho. Nós fabricávamos
rapadura quase o ano inteiro. O papai um dia man-
dou eu vender uma rapadura: “vai lá na cidade e vê
se vende essa rapadura; to precisando de dinheiro”.
Ai eu trouxe a rapadura. As casas de comércio eram
muito poucas. Era os fortes mesmo, era João Cândido,
Casa Rama; os fortes. Tem mais outros que eu não me
lembro. A Casa Rama vendia de tudo. Tinha tudo, ti-
nha mais preço. Eu acho que tinha preço. Porque eu
era menino, e depois eu largava o serviço lá em casa,
papai falava: “agora você vai na Casa Rama buscar
um litro de querosene”. Depois que anoitecia um me-
do desgraçado. Vinha de lá aqui correndo. E é longe
daqui lá. Uns cinco a seis quilômetros. É aqui que
tinha preço melhor, Casa Rama. A Nacional já exis-
tia. Mas essa não vendia de tudo. Vendia material de

131
construção: cal, cimento, ferros. Essas casas boas, não
vendia não. Ai, eu andei a cidade toda com aquela
amostra de rapadura e vendi doze caixas pra um cara
lá na vila, pra no outro dia trazer. No outro dia trouxe.
Ai o tempo mudou. Rapadura é uma coisa ingrata. O
tempo muda, ela muda também. Aí, não estava igual
a amostra. Aí, o camarada falou: “eu não quero não.
Não está igual aquela que você trouxe”. Aí, não quis,
andei mais, aí, um outro. Ninguém quis. Voltei com
tudo pra trás. Tudo! Não apurei um centavo.
Não exista [necessidade] não. [Havia] muita
fartura. Só de vez em quando e tal. Aí, a gente preci-
sava comprar um quilo de toicinho. Às vezes o por-
co não estava na época de matar. Pra comprar rou-
pa? Quando comprava roupa comprava tudo igual.
Parecia uniforme. Vinha na rua e comprava uma pe-
ça de pano de uma vez. Era pra comprar umas coisas
assim, uma roupa e tal... E daí ter o dinheiro também.
Era difícil por o dinheiro no bolso.
Era só trabalhar, e aos sábados era bailes na
roça. Era gostoso, tinha forró. São João fazia um bai-
le. Nossa! Que alegria! Chegava aquele dia, rapaz!
Aquele baile. Tinha fogueira, tinha de comer, sabe?
Bolo... Carnaval a gente vinha olhar de longe. Não
tinha dinheiro pra gastar. O dinheiro era curto. Tinha
muito trem de comer, mas dinheiro que era bom mes-

132
mo tinha pouco. Só olhar. Carnaval só olhar. Mas não
era só eu não, era todo mundo. Rapaziada da roça,
era todo mundo.
Dia 6 de dezembro de 1939 [vim pra cidade].
Aí, eu entrei na fábrica, e fiquei até agora em 1972.
Trinta e três [anos] e vinte e seis dias eu trabalhei lá na
Irmãos Peixoto. Eu fui primeiro dobrador. Dobrador
é a produção de tecidos. Dobrar aquilo tudo produzi-
do durante o dia. Depois apontador. Depois, ultima-
mente, chefe da sala de pano, expedição. Patrão não
tinha esse negócio de coisa não, com o empregado
não. Era tudo igual. A gente mesmo chegava perto
do patrão e pedia aumento, sabe? Antes do salário
mínimo. Nunca houve greve não. Nem sabia o que
era greve. [Trabalhava] de tamanco. Dia de domin-
go, a gente tinha que botar uma sola no tamanco pra
aguentar. Teve uma época que pegou dar uniforme
pra trabalhar. Aquilo era quente pra chuchu, e era
perigoso porque era uma bata. Um dia um camara-
da enrolou aquela bata numa máquina; a máquina
foi enrolando, enrolando, enrolando ele, quase ma-
ta. Acabou. Eu trabalhava muito. Eu trabalhei muito,
muitos anos. Quatorze horas. Recebia [horas extras].
Agora, depois de mensalista não recebe mais não.
No princípio, houve mesmo um pouco de
pressão [política]. Mas foi no princípio. Logo o

133
Manoel Peixoto Filho se elegeu e tal. Depois não hou-
ve mais nada disso não. Na realidade é o seguinte:
pelo que eu sei o Pedro Dutra tinha muito prestígio
junto ao Estado, ao governo estadual, porque os go-
vernadores que se elegiam eram sempre do Pedro
Dutra. Ao passo que os Peixotos sempre ganhavam
a política dentro de Cataguases, né? Era mais ou
menos isto. Agora, houve pessoas que nos disseram
que se um operário fosse visto sair da casa do Pedro
Dutra, ele era demitido no outro... Eu conversava
com ele na rua mesmo. Eu era um camarada que às
vezes trabalhava pro Manoel Peixoto. Eu era o cabo
eleitoral que mais arrumava voto pra ele, sabe? No
fim de tudo ele me dava ainda uns 200 paus. Eu pro-
duzia mesmo, eu arranjava eleitor. Fui vereador duas
vezes. Eu não ganhei não, fui suplente.
[Cataguases] cresceu demais, aumentou mui-
to... tudo cada dia tá crescendo. E antigamente, no
início, era mais difícil... tanta casa velha...tanta coisa
começava e não acabava. Mal começava um prédio
e não acabava. Mal começava um prédio e parava.
Agora não, agora pega e faz mesmo.
Eu fui atropelado aqui, quando [em] Cata-
guases existia três carros só, na porta da Igreja... cor-
re aqui, corre ali... brincadeira de menino. Na hora
ia passando um automóvel... debaixo dele. O auto-

134
móvel, era aquele automóvel alto, não deu pra ma-
chucar muito não. [O proprietário] era o Mané Rama.
Era o pai do Mauro. Dr. Mauro. Fui amigo dele toda
vida.
Algumas partes antigamente era melhor. Hoje
está muito perigoso. Antes você podia andar aí pra
todo lado.

Entrevistado por João Carlos Borges Juste e Luiz Fernando Leitão, em


1988.

135
MADALENA SOARES
ABRANCHES
P I A N I S TA

87 anos

Eu nasci em Cataguases, numa fa-


zenda do meu pai, onde agora é o Bairro Leonardo,
lá na linha... depois da caixa d’água. Foi ali que eu
nasci, no dia 8 de abril de 1903. O meu pai era fa-
zendeiro: Pedro Soares de Nazaré. E minha mãe: Rita
Teixeira de Nazaré. Papai era de Vassouras, Estado
do Rio. Ele casou-se com uma senhora de lá e foi pa-

137
ra Cataguases. Em Cataguases, ele enviuvou e casou
com uma irmã de minha mãe. Minha mãe tinha dez
ou doze anos, naquela época. Então ele acabou de
criar a minha mãe. Depois a minha tia morreu e ele
casou com minha mãe: mais velho vinte e dois anos
que ela. Tinha filho do primeiro matrimônio mais ve-
lho do que minha mãe! Minha mãe tinha vinte anos,
ele tinha quarenta e dois.
Eu me lembro que papai contava que quan-
do foi para Cataguases tinha uns casebres, umas
casinhas só. Não tinha nada mesmo, mas na época
em que ele foi, porque na época que eu nasci já tinha
muita coisa! No dia que eu fiz oito anos passaram a
escritura do nosso sítio. Morei lá muito tempo. Até
oito anos... Tive uma paixão horrorosa, apesar de ser
pequena... Aí fomos para a cidade.
Eu já freqüentava a escola... Frequentávamos
a escola da Dona Honorina Ventania, filha do Doutor
Ventania, um médico muito bom em Cataguases.
Depois inauguraram o Grupo Escolar Coronel Vieira.
Fui pra lá na inauguração do Grupo: fiz o quarto ano
primário. Era interessante. A gente vinha... a gen-
te vinha descalço, sabe, porque tinha muito barro.
Papai era danado de sovina! Então, calçava o sapato
na beira da estrada, numa casinha que tinha lá. Fiz o
curso primário: primeiro, segundo e quarto ano com

138
Dona Honorina Ventania, e o terceiro ano com Dona
Mariquinha, irmã de Levindo Coelho, que era até
chefe político de Ubá. Em cada turma trinta e pou-
cos... quarenta (alunos). O Grupo Escolar tinha no
centro um patiozinho... A gente, às vezes, jogava vô-
lei. Eu gostava muito de jogar vôlei... basquete era na
Escola Normal... Joguei muito tempo.
Quando mudamos para a cidade eu fiquei
triste. Queria ficar na roça toda vida... no tal sí-
tio que era do papai... “os Diamantes” (Sítio Porto
dos Diamantes). Onde é o bairro Leonardo. Era ali.
Justamente... (hoje) faz parte da cidade... A gente
quando vinha da escola brincava muito. Você sabe
como é a vida de criança, não é? Era uma vidinha
boa.
Aí terminou o Curso Primário, fiz o Curso
Normal. Fui professora na roça: Fazenda Santa Cruz,
Fazenda Maracatu, Ponte Nova. Fui professora ru-
ral, (ensinava) todas as matérias. Dava aula de piano
(também), desde os quinze anos que eu dava aula de
piano. Tocava piano e tinha meus alunos. Eu ensinei
para a Cida Queiroz, fui professora de uma moça
que chamava Esmeralda... da Lídia Lombarde, do
Serafim Lourenço...
Dei aula até para a Minalda Peixoto! Fui subs-
tituta, a professora dela saiu. Ela até sabia tocar mui-

139
to bem! Eu não sei porque ela me chamou para ensi-
nar... Era em casa. Os que tinham piano, eu ia na casa
deles. Alunos que não tinham piano estudavam na
minha casa.
Trabalhei na “Força e Luz” e ia dar aula de
piano depois do serviço. Para sustentar família, não
é. Quando meu pai morreu eu fiquei com dezoito
anos... Casei com vinte e quatro anos. Casei com um
viúvo que tinha três filhos... Continuei dando aula de
piano depois de casada, algum tempo. Tinha três en-
teados, não é?
Toquei muito tempo também no cinema. Eu
não era totalmente a pianista não. Substituía minha
irmã, a Marieta, minha irmã mais velha, (que) era ca-
sada com o maestro Rogério Teixeira. O cinema era
mudo, então eles passavam primeiro para fazer uma
exibição para o Rogério. E o Rogério aí punha as mú-
sicas de acordo com o filme. Se era um filme românti-
co, ele botava valsa. Se era um filme mais alegre, uma
comédia, ele botava uma mazurca, um xote, ou uma
coisa qualquer mais alegrinha. Eu decorava tudo
quanto era música pra poder ver o filme. Eu tocava
piano assim, olhando, não perdia uma partezinha do
filme! Mas era bom!
Rogério, o maestro. A minha irmã também to-
cava. Ela que era a pianista, eu era substituta. Marieta

140
era exímia pianista! Tinha o violino, que era a Olga,
sobrinha do Rogério, que tocava. O Dodô, irmão
do Rogério, tocava violoncelo. Tinha clarinete... Era
Arrequinto Costa ou Requinho um nome assim, eu
não me lembro bem do nome não... O João Ciodaro
que tocava violoncelo na orquestra, dormia, cochila-
va, quando tocava... Era uma orquestra boa. Nós to-
cávamos em bailes, casamentos, posse de presidente
da Câmara... Às vezes tocava fora de Cataguases. Em
Ubá nós tocávamos em banquetes! Constantemente
nós saíamos para tocar em casamentos fora (de
Cataguases). Casamento até da Cinira Resende!
Depois casei e acabou tudo. Não toquei mais nada,
comecei a tomar conta de filhos...
Eu tive que trabalhar por causa da minha
família: era eu, dois irmãos e minha mãe. Eu tinha
que sustentar a casa. Não era totalmente sustentar,
ajudava, não é? O meu irmão ficou com treze anos,
era muito pequeno. A minha outra irmã não tinha
um modo de dar aula, porque ela não gostava. Então
eu tomei a responsabilidade. Eu dava aula de piano,
costurava para fora e bordava. Eu botava a máquina
perto do piano e bordava ou costurava pra poder aju-
dar na despesa da casa. Depois trabalhei na “Força
e Luz”. Trabalhei no escritório com o senhor João
Kneipp, o senhor Afonso Lanna, o senhor Mourão...

141
gente boa. Trabalhei no escritório da “Força e Luz”
em Cataguases.
Mamãe tinha uma formação de fazenda, an-
tiga, né. E o papai também. De modo que nós tínha-
mos aquela disciplina! Coisa de antiguidade mesmo!
Eu, por exemplo, não frequentava praça nem nada,
porque meus pais eram muito severos! Bem que eu
gostava, mas eles não deixavam, não é? Naquela épo-
ca tinha o Clube Recreativo, era ali na Rua do Pomba,
quase defronte o Hotel Cataguases. Minhas irmãs
frequentavam lá. Eu era garota nessa época. Tinha o
Comercial, onde é atualmente o Cinema Edgard – ali
era o Cinema Recreio – naquela época... os dois clu-
bes que eu conheci foram estes.
Eu não frequentava mesmo festa não. O meu
pai era severo. Minha mãe era muito severa. Então,
a gente quase não ia. Quando ia era fugida, né.
Principalmente no Carnaval! Depois tinha o seguinte:
quando eu tocava às vezes num baile, eu tinha sem-
pre quem tocasse uma ou duas vezes para mim, pra
eu poder dançar também... Carnaval, minha filha, eu
não posso te contar nada porque não me deixavam ir
a Carnaval. Então eu não ia. Gostava de ver, não é?
Mas mesmo assim quase não via.
Uma vez fizeram um bloco (de) colombinas.
Eu sei que eu ensaiei as moças para o carnaval, pa-

142
ra o bloco delas, e não pude ir tocar no cinema – no
cinema não, no baile – porque minha mãe não dei-
xou. Não é uma ironia? Ensaiei a turma toda. Até es-
sa música... “pierrot que estás triste... foi a colombina
que me deixou...”, uma coisa assim. Aquele salamale-
que... Eles fizeram esse bloco de carnaval. Tinha mui-
tas moças de Cataguases. Eu ensaiava elas todas, mas
não ia não. Não me deixavam ir não.
Tinha o Grambery também, me lembro. As
minhas irmãs estudavam no Grambery, onde é
o Ginásio atual, o Colégio Cataguases. Ali era o
Grambery. Mister Lee era o diretor, Miss Lee... tinha
os filhos... Minhas irmãs estudaram lá. Todas toca-
vam piano.
Foi há muito tempo, né? Me lembro do
Ginásio antigo. O Ginásio tava pequeno. Eu até es-
tudava na Escola Normal. A Escola Normal era ali
na Avenida Astolfo Dutra, ali perto da Praça de
Esportes. Na esquina, do lado direito, né. Do lado
onde tem a casa do Manoel Peixoto, do Pedro Dutra,
aquelas casas daquele lado. Numa esquina ali, do
pessoal Cruz, da Conceição Cruz... Eu me lembro
que eu estava... nós tínhamos aula... antigamen-
te a gente tinha física e química no terceiro normal,
né, então eu tinha aula, duas vezes por semana, no
Ginásio. Lá em cima!

143
Eu morava ali onde é atualmente a Casa de
Saúde, por ali assim, onde é o Grupo “Flávia Dutra”,
o papai fez uma chácara ali. Nós morávamos ali. Sete
horas da manhã a gente tinha aula lá no Ginásio.
Andava aquela distância toda! A gente ia a pé! O
bonde das pernas! E não tinha a ponte nova, tinha
aquela antiga, que era uma ponte de madeira ainda.
Nem existe mais... Não tem o Colégio das Irmãs, o
Orfanato? Tinha uma ponte antiga ali, de madeira...
Eu vinha de lá de casa, atravessava tudo lá para ir
para o Ginásio. Você imagina quanto eu andava! Saía
ali onde é o Orfanato... Tinha carro de boi que passa-
va ali. Mas era gostoso, você sabe.
Ainda lembro da inauguração da ponte metá-
lica. O Grupo Escolar Coronel Vieira foi, eu fui junto
carregando bandeira. Toda importante! Me lembro...
estava bonito! Sempre que havia festa, qualquer coi-
sa, eu era escolhida para carregar bandeira. Não sei
porquê?!? O doutor Astolfo quando chegava, sempre
a gente carregava bandeira... Inauguração da herma
dele em Cataguases, ali de frente a Carcacena antiga.
Herma do Doutor Astolfo. Não tem um busto dele
lá? Nós chamávamos aquilo de herma. Não sei se
ainda chamam...
Naquela época era bom. Atualmente eu não
sei. Fui (a Cataguases) tem cinco anos. Fui visitar a

144
Dona Maria, quando o senhor Humberto morreu, o
pai do Tarcísio. Eu não tenho ido não, pra nós é difí-
cil! A gente estando aqui em Belo Horizonte é muito
mais longe que no Rio, não é. No Rio eu pegava caro-
na do meu genro, o Feliciano, casado com a Carmita
minha filha... passava uns fins de semana lá.
Me lembro da Chácara do Coronel João
Duarte... Eu gostava daquilo. Eu li no “Cataguases”
(que depois de restaurado vai funcionar o Centro de
Memória de Cataguases). Mas tem muito tempo que
eu não recebo... não estou recebendo o “Cataguases”.
Não sei se os meus sobrinhos pararam de tomar a as-
sinatura pra mim, porque eles sempre renovavam a
assinatura lá. Fala com o Tarcísio, viu, que não estou
recebendo o “Cataguases” não, para ele mandar pra
mim.
Lembro muito da Eva. Conheci a Eva peque-
na. Naquele tempo nós éramos vizinhas. Ela, o Roger,
o Senhor Pedro Comello, a Dona Ida. Naquela épo-
ca daqueles filmes que eles fizeram com o Humberto
Mauro.
Assisti “Brasa Dormida” e... não me lem-
bro do outro. Eu sei que assisti “Brasa Dormida”.
O Humberto era muito bom, muito amigo da gen-
te. A família toda... senhor Caetano... Depois saí de
Cataguases, as filhas foram casando... A vida con-

145
tinua, não é? Tinha minha casa defronte ao Serafim
Lourenço. A minha casa era ali, mas não é aquela ca-
sa que está lá. Era outra...
Quando demoliram o cinema eu fiquei numa
paixão! Um absurdo terem demolido aquele prédio do
cinema! Era uma maravilha aquilo ali! Eu me lembro
que depois o senhor Augusto (Cunha) me chamou:
- Vem cá Dona Madalena. Vem ver o cinema
que a senhora nos ajudou a construir, porque a se-
nhora tocou aqui.
- Ah, senhor Augusto, mas eu não gosto desse
cinema não. Eu gostava do nosso cinema! Do nosso
Comercial, do nosso clube em cima do cinema! Era
bonito aquilo ali. Tinha camarote, tinha frisa, tinha
torrinha... Tudo muito bom ainda. Não sei porquê fi-
zeram aquilo!
A igreja, aquela coisinha bonitinha que era a
Santa Rita! Aqueles altares antigos, aquela sacristia...
Eu me lembro bem. Eu fiz a primeira comunhão na-
quela igreja. Tinha coroação... as meninas vestidas de
anjo, vestidas de virgem... coroando... Eu tinha uma
vontade de coroar! Mas nunca coroei não...
Só sei dizer que eu tenho muita saudade,
muita saudade mesmo! Muita recordação boa, mui-
ta amizade antiga que eu deixei... Muita coisa... José
do Grupo... Lembro muito do tempo que ele era ra-

146
pazinho, quando foi inaugurado o Grupo. O senhor
José (era) muito bravo com a gente! A Augusta, mu-
lher dele, era servente também... Muito boa a Dona
Augusta! Eu gostava muito dela... Tinha um ir-
mão dele também, que trabalhava no Grupo... Não
me lembro agora. O diretor era o professor Eurico
Rabelo, e a senhora dele, Dona Honorina Ventania,
era a minha professora... Tinha a Irmã Joana D’Arc, a
Gilda, Iolanda de Paula, Elisa de Paula, Ecila Lobo, a
Ofélia – muito preparada, né, a Ofélia foi professora
de francês no Ginásio – gosto muito da Ecila. A Ecila
é uma criatura formidável! Lembro da Ecila mocinha
cantando nos teatros, em Cataguases, muito gracio-
sa. Muito graciosa mesmo! Cantava, dançava, muito
graciosa! Quando ela casou com o Doutor Eduardo
Lobo, eu até fui professora na fazenda deles, Fazenda
Santa Cruz... Ester, a Zizinha, irmã da Ecila, foi mi-
nha colega na Escola Normal. A Minalda... Eu brin-
cava com a Minalda apesar de eu ser bem mais velha,
mas morávamos em frente... Agora, eu já não tenho
aquelas amigas que eu tinha... Todas já se foram...
Eu me lembro da fábrica pequena do senhor
Manoel Inácio Peixoto, pai do Altamiro, do José...
Eu conheci todos eles. Eu fui professora de piano da
mãe da Edinéa, dei aula de piano para ela: Eponina,
muito minha amiga. Dona Dedé, tinha a Casa Rama

147
em Cataguases... Aquela rua ali, que mora a Estela
Abrita. Ali, naquela rua do Rama, como a gente tra-
tava... Tinha a Casa Felipe... Eu me lembro que era
uma fábrica pequena, muito pequena mesmo, sa-
be. Mas que deu serviço, trabalho, a muita gente
em Cataguases. Lembro do operariado passando...
Aquelas garotas passando com o tamanquinho ba-
tendo... Então nós brincávamos que era a Sinfonia do
Tamanco.
Em Cataguases tinha muito operária. Muitas,
muitas mesmo! Porque naquele tempo tinha aquela
fábrica do senhor Peixoto Velho, como nós chamá-
vamos, tinha uma fábrica de biscoitos, macarrão, do
Salgado, na Rua do Pomba... Teve uma fábrica de cer-
veja, ali onde é a casa do Doutor Francisco, do Chico
Peixoto. Era ali, uma cervejaria do senhor Paiva.
Eu me lembro assim de... remanescentes, sabe.
Porque eu não me lembro da cervejaria mesmo não.
Nós morávamos nessa casa quando viemos da fazen-
da. Nós viemos para a cidade e moramos nessa casa.
Tinha até um trenzinho que ficava tirando linha pra
carregar os barris. A gente brincava ali, na casa onde
é a casa do Chico Peixoto. Era uma casa antiga.
Na Praça Rui Barbosa tinham umas árvores
bonitas, maravilhosas! Canteiros bonitos! Tinha um
coreto: fazia retreta todos os domingos. Era banda

148
de música, vários instrumentos... O coreto boniti-
nho... antigo...
A mãe dessa (neta) que eu moro com ela...
foi na ocasião do casamento dela que inaugurou a
“ponte nova”. Quando inaugurou a “ponte nova” eu
já tinha minhas filhas todas. Eu tive cinco. Todas se
formaram na Escola Normal de Cataguases. Duas de-
las frequentaram o “Sacre Coeur” de Ubá, foram in-
ternas. Depois ficaram em Cataguases mesmo... Elas
iam a baile, frequentavam, fantasiavam, brincavam!
Agora, das cinco, duas morreram pequeninas. As ou-
tras três casaram: tenho treze netos e dezessete bisne-
tos. Uma turma grande, né. Graças a Deus!
Meu namorado era médico, não sei se ainda
tem família em Cataguases: Mendonça Costa, Doutor
Mendonça. Vocês nunca ouviram falar nele não? Foi
para Caratinga, Governador Valadares, tinha uma
Casa de Saúde lá... Acabei casando com outro com-
pletamente diferente, né. Eu me lembro que nós, no
Grupo Escolar, quando tinha aula de cartografia, ou
desenho, nós sentávamos sempre juntos! Engraçado
como deixavam, não é? Havia muita afinidade entre
nós e a família era muito amiga. Dona Anita, a mãe
dele, era muito boa. Nós continuamos com amiza-
de. Eu me casei, ele era nosso médico, sempre muito
amigo, o Mendonça. Muito bom. Eu estava sempre

149
em contato, ele era nosso médico. O meu marido não
tinha ciúme absolutamente...
Eu casei com vinte e quatro anos, mas casei
por descuido, porque eu não queria casar não. Meu
ideal era ir para o Rio de Janeiro, trabalhar no Rio
de Janeiro... Eu sempre fui independente. Eu sempre
quis ser muito independente! Nunca quis depender
não, de jeito nenhum. Depois de casada trabalhava
em casa. Continuei dando aula de piano e ajudava
meu marido no consultório. Ele era dentista. Achava
que eu devia trabalhar no consultório com ele. Então,
ajudava meu marido no consultório, na oficina, por-
que naquele tempo, ele mesmo era protético dele,
né. Ajudava a fazer essas incrustrações, serviços de
“bridge”, ponte, dentadura... Eu me lembro que a pri-
meira vez que ele fez uma dentadura com um ma-
terial novo – chamava Paladon – nós ficamos muito
emocionados! Fazia de Vulcanite... Eu ajudava, eu
era enfermeira dele, ajudava a fazer os curativos...
Mas continuei tocando piano algum tempo. Depois
deixei... Depois ele não quis mais...
(A música) era muito importante no tempo
em que eu não tinha minhas filhas tudo pequenas.
Porque eu tinha que dedicar às minhas filhas, ao
marido, de forma que não tinha mesmo jeito de con-
tinuar tocando. Deixei mesmo. Não toco não. Mas

150
também com as mãos... do jeito que eu estou... Já está
ficando tudo torto, olha aí. A gente vai ficando muito
velha. Das minhas filhas mesmo, a Carminha toca ór-
gão. Só ela estudou (música). Foi a única que quis es-
tudar... Tocava muito bem, tava até no oitavo ano do
Conservatório. Quando casou, foi para o Rio Grande
do Sul, teve que parar.
Fui casada vinte e cinco anos. Minhas filhas
se casaram, meu marido morreu, e a vida continua...
Continua nos netos...
Tenho saudade... da minha irmã Marieta, do
Rogério, dos meus sobrinhos pequenos. Eu ajudei
a criar meus sobrinhos muito tempo, até me casar.
Estava sempre com minha irmã. Eram vários sobri-
nhos muito seguidos, minha irmã teve dois partos
duplos. Não foi brincadeira não! Fico com pena, com
saudade... o trem apitando, né. Uma maravilha! A
gente só andava de trem. Eu dei aula em Miraí muito
tempo, sempre de trem... Eu tinha uma menina mui-
to levada, a mãe dessa (neta) que morou com ela, da
Estelita. Uma vez, ela foi à casa da tia dela, perto da
Chácara de Dona Catarina, no João Duarte, e tinha
um bueiro no chão, na estrada de ferro. Ela entrou
debaixo daquele bueiro pra ver como o trem passava
ali por cima! Ficou enfiada lá, escondidinha, e o trem
passou! Curiosidade, ela era muito curiosa mesmo!

151
Sumiram as minhas fotos. Eu tinha coisas bo-
as mesmo. Não sei como... negócio de mudança, né.
E depois, às vezes eu faço assim, eu falo assim:
- Eu não quero isso! E rasgo e jogo fora, por-
que fica juntando muito papel... Chega eu de velha!
Para que guardar velharia? Não vale a pena não, né?
(Eu sou a) Dona Remanescente... porque afinal, estou
aí, não é... passando meus pedaços...

Entrevistadores e data da entrevista não localizados nos arquivos originais.

152
MARIA LACERDA
WEBSTER
PROFESSORA

89 anos

Eu não sei nada, eu sou da roça.


Nascida e criada na roça! (De) 1899 até 1930... 1935,
eu posso dizer que eu era da roça... O João (Webster),
meu marido, ele com os irmãos dele foram criados
sozinhos! Porque morreu o pai, morreu a mãe, fi-
caram sozinhos! Eles foram criados assim, sabe co-
mo é que é? Quase pro mundo... sozinhos aí em
Cataguases... A Maria, a Sindoca, era a mais velha,
casada. Mas não queria saber de cuidar dos irmãos,
nem nada.

153
A Luizinha (sogra) era a mais velha, tinha uns
20 anos... O senhor Augusto Rousseau veio para cá
com a mulher Carolina e as três filhas, três filhas mo-
ças. A Luizinha era a mais velha, e as outras duas gê-
meas: Julia e Carmem. Era gente importante! Trouxe
cavalos de raça do Rio. Só andavam em cavalos de
raça! Naquele tempo não tinha condução, não. Não
tinha nada. Tudo andava era a cavalo. Mata pura!
Não tinha casa, não tinha nada ainda não. Ele veio
para cá muito antes de eu nascer... Ele era medidor
de terras, essas coisas, né?
A Luizinha Rousseau era professora do
Colégio São Diniz, na estrada que vai para Sereno.
Aquela gente toda que mora lá, eles todos conhecem
lá, onde foi o São Diniz, o colégio. Porque lá tem um
lugar... Como é que chama essa estaçãozinha de pa-
rada? Guarita, acho que é. O colégio tinha estação de
parada do trem. Tinha uma parada de trem lá, espe-
cialmente do Colégio. Estaçãozinha... Acho que ainda
existe um restinho qualquer. Tinha marca da estação
de parada de trem lá...
Morreu a diretora, dona do Colégio, que era
a Dona Carolina e as professoras do Rio que leciona-
vam lá. Foi com a febre amarela! Ela morreu, morreu
a Rosa que era uma das professoras mais importan-
tes, morreram diversas. Não sei o nome... Ela que

154
era tudo. Ela era uma mulher muito importante! O
senhor Webster era mais parado, sabe como é, não
é? Richard Webster (os ingleses são tudo parados,
observou uma neta de dona Maria Webster), eu não
sei agora como é que ele veio... Acho que ele veio
como engenheiro. Não sei, não. Tanto ele como o
doutor Augusto Rousseau, não sei com que fim eles
vieram... Mas afinal de contas eles foram sem sorte,
porque o Rousseau morreu assim deixando os filhos
abandonados, não é? A Carolina (primeira esposa de
Richard Webster) não tinha filhos. Ela era portugue-
sa, de gente muito importante! Muitos anos depois,
o senhor Webster já estava casado pela segunda vez
com a Luizinha Rousseau, o governo mandou pedir
notícias dela, informações... É, porque ela deixou de
corresponder... E ela era tudo! Ela era uma mulher
muito importante. Tanto é que a embaixada procurou
saber... Por causa da epidemia acabou (o Colégio São
Diniz). De repente eles conheceram o fracasso! Ele fi-
cou quase maluco! Ele vendeu para o João Duarte, o
João Duarte comprou o colégio, mas não para funcio-
nar! O João Duarte era compadre e amigo do senhor
Webster. Para tirar ele daquela situação embaraçosa
ele falou: “Ô compadre, eu faço, eu compro o colégio,
pra não sacrificar... E você vai dar um jeitinho de casar
com a Luizinha, que vocês são tão amigos! Ela gosta

155
tanto do senhor! Dá um jeitinho...” Ela (também) ficou
traumatizada com o que houve... O João Duarte com-
prou (e no lugar) construiu uma vila, aqui perto do
Pronto-Cordis... tem ainda duas casas lá...
Resolveram casar, e casaram. Casaram e aí eu
não sei onde é que ele foi. Eu só sei que logo depois
ele foi para a Usina Maurício... Eu sei disso porque
as minhas cunhadas me contavam. Contavam tudo...
Ia lá toda semana, estávamos sempre juntas... Então
ele foi chamado para a Usina. Hoje não existe mais
nenhum empregado antigo da Usina, do tempo dele,
não tem mais não. Não tem um retrato aí? Tem ele lá
em frente a Força e Luz. Tem ele lá! Tem ele em pé lá,
o velho Webster! A Usina Maurício estava em cons-
trução. Então ele foi chamado para trabalhar lá. Ele
era mecânico-eletricista. Ele foi trabalhar em... fazer
tudo enquanto é chave, tudo que era em cobre... as
chaves de lá, tudo. Não eram chaves não, torneiras...
torneiras. Tudo foi feito por ele a mão!
Agora, importantíssimo, é o meu pai... Porque
papai tinha muita instrução! Trabalhava no Rio antes
de casar, lá num escritório de café, morava no Rio
naquela época. Depois foi caixeiro-viajante, veio pa-
rar aqui e casou. João Pedro de Souza Lacerda – Jota
Lacerda – casou... foi morar lá nuns terrenos que ele
herdou da mãe dele. É ali onde é o mercado. Aquilo

156
era fazenda do meu avô. Então foi dividido em par-
tes iguais e tal. Meu pai casou e foi morar ali. Nasceu
quatorze filhos... Bom, meu pai... ele era um homem
de certa instrução, sabe? Trabalhava em escritório lá
no Rio. Então ele foi muito aproveitado naquele pe-
ríodo! Foi muito aproveitado porque chamava papai
para substituir todo mundo aí. Faltava juiz de direito,
papai é que tinha que substituir! Faltava juiz munici-
pal, papai é que tinha de substituir! Todo juiz que fal-
tava, por férias ou por qualquer outra coisa, papai...
Desde juiz de paz, juiz municipal, juiz de direito, to-
dos esses cargos que ele ocupava. Isso tudo!
Fora disso, outras coisas também. Nunca le-
vou um cruzeiro, ele não recebia dinheiro de graça,
dizia. A gente falava: “papai, a gente vive uma po-
breza medonha, aqui na roça. A gente precisa de um
caderno, não tem! O senhor vai trabalhar e o senhor
tem tudo na prefeitura e não traz nada?”
O que acabava mesmo era o dinheiro. Mas
tudo quanto é bom de comer tinha. Tinha! Se che-
gasse lá cinquenta pessoas para o almoço, aque-
le almoço saía pra todos! Tinha de tudo... de tudo!
Meu pai foi um homem importante como nenhum
outro! Naquelas epidemias horrorosas, papai nun-
ca perdeu um doente dessa Zona toda. Leopoldina,
Cataguases... ele não perdia um doente. Os remédios

157
vinham do Rio. Eu que ajudava... Eu, Nanando e a
Maziles pra lavar os vidros e preparar os remédios.
Precisava ver a quantidade de doentes que apare-
cia o dia inteiro! E ninguém lá em casa apanhou
doença. (Jota Lacerda introduziu a homeopatia em
Cataguases).
Seu pai (Zizico Barroso)... é, eles foram lá pra
casa... Dona Silvina, a mãe de Alayde, foram pra lá.
Eles não tinham pra onde ir. Olha, eles ficaram sem
nada! O senhor Barroso tinha uma farmácia ali on-
de é o banco (BEMGE), não é? Ali era a farmácia de-
le. Ele ficou tuberculoso, foi preciso ir para Campos
do Jordão para se tratar. Bom, deixou a farmácia por
conta de empregados e de um sobrinho de Miraí, o
Lincoln Moreira, sobrinho da dona Silvina, rapaz
novo. Roubaram tudo! Coitado do senhor Barroso!
Tuberculoso lá... sustentar aquela família enorme aí...
Quando chegou não tinha nada! Foi preciso vender
tudo, tudo. Pra ter como acabar os dias dele, com as
despesas do tratamento dele. Foi preciso vender tu-
do: piano de Climene, móveis, tudo... não é?
Eu era colega da “Layde”, quando eu queria
ficar na cidade eu ficava lá, com todo conforto. Tinha
tudo! Mas acabou que ficou sem nada. Aí foi preciso
espalhar; a Climene foi pra Miraí, pra casa do padri-
nho dela, em Miraí, o Oswaldo... os outros, eu não

158
lembro. Agora, a dona Silvina com os dois mais no-
vos, o Paulo e o outro, foram lá para casa. E ficaram
muito tempo... Ficaram lá em casa muito tempo.
Eu ainda posso dar mais, mas eu estou mui-
to cansada. Porque que eu fico aqui doente e isola-
da. Eu sou uma pessoa que toda vida gostou muito
de falar. Mas agora vocês vão aproveitar e vão ouvir
uma coisa. Tenho muita coisa para contar! É porque
eu não estou boa. Eu estava boa, boa mesmo! Todos
os dias eu vou lá na Rua do Pomba. Eu que tomei
conta deles... Fica por conta da Marly, mas a Marly
não dá conta não. Então, todo dia eu vou lá para ver
eles. Ver o quê que falta... Dia 10, eu levei um tombo
que eu vou te mostrar, aí depois desse dia...

Entrevistadores e data da entrevista não localizados nos arquivos originais.

159
MARIA DE LOURDES
CAMPOS MORONI
O P E R Á R I A A P O S E N TA D A

70 anos

Nasci na Colônia Major Vieira, em dois


de novembro de 1921. Meus pais era de Ubá. Veio pa-
ra essa fazenda e aí criou família. Eu não estou lem-
brando, mas acho que tinha várias famílias italianas
ali, vizinhos, dessa gente de Raváglia, desse Zanela,
tudo perto ali, Itamarati, aquele trechinho. Até turco
morou lá na fazenda do meu avô. Eram várias fa-
zendas, todas assim vizinhas uma da outra. A do tio
Teco, o Antenor Furtado Vieira... acho que o nome da
Fazenda é Boa Vista. Depois tinha o senhor Joventino,
senhor Onofre Furtado Vieira... várias fazendas, to-
das ali, ligadas. (Morei lá) até quatorze anos. (Os fa-
zendeiros) plantavam milho, café, feijão... o meu pai
plantava muito, a gente comprava só o sal e alguma
coisa de massa, essas coisas. Tudo era colhido lá na

161
fazenda. O meu avô fazia açúcar, mas eu não lembro
bem, nessa época eu estava muito nova ainda. Tinha
o engenho, fazia cachaça, tinha o alambique. O en-
genho era tocado a água. Mas eu acho que naquela
época, quase que eles nem vendiam nada. Não sei
se vendiam leite. A minha avó fazia muito queijo, a
minha mãe também. Rapadura vendia, porque fazia
muito. Carro de boi... o tio Teco tinha aquele carrinho
antigo, o Fordinho. Mas lá era cavalo, eu lembro que
a mamãe vinha aqui a cavalo, era cilhão que usava
naquela época. Um arreio diferente para mulher: vi-
nha sentada no cavalo, de lado. Tinha um negocinho
assim mais alto onde a gente colocava uma perna e a
outra era no estribo. E aí botava rédea no cavalo. Eu
achava bonito.
Itamarati não tinha nada naquela época. O
Posto (de Saúde) daqui é que levava remédio que a
gente tomava. Tudo era Cataguases.
Primeiro eu estudei particular, na casa da mi-
nha tia. Entrei com sete anos e tive dois professores.
Um morreu, que era de Itamarati e ia lecionar lá, o
senhor Alfredo. A casa dele era muito grande. O Luís
Rezende estudou lá, o Pedro Carneiro... eles já eram
rapazes. Tinha mais umas moças lá, só que eu não es-
tou lembrada o nome não. Eu era das menores. Meu
irmão estudou nesta escola. Não sei se (os professo-

162
res) eram formados, mas eu acho que sim. Quando
acabou aquela escola particular, tinha uma escola pú-
blica que era no terreno do meu tio, na entrada da fa-
zenda. Fiz o terceiro ano ali. Essa escola acabou, e dali
nunca mais estudei. Parei com dez anos. Aí nós saí-
mos dali e fomos para Piacatuba, acho que a quatro
léguas dali. Lá era muito ruim, muita pedra, morro...
lá nós passamos muita dificuldade. Foi de lá que eu
vim para aqui em 1936. O Ademar foi lá em casa uma
vez passear – Ademar Alves de Paiva, foi funcioná-
rio da Prefeitura e acho que trabalhou no Posto (de
Saúde) e era parente da minha mãe. Ele viu a dificul-
dade que a gente estava, então falou assim: “vamos
levar essas meninas, que essas meninas não podem
ficar aqui, isso aqui não dá para vocês, com cinco fi-
lhas”. Meu pai tinha muito medo de morrer e deixar
a gente na roça, porque a gente não ia aguentar o ser-
viço mesmo. Aí viemos para aqui, fomos para a casa
do Ademar, ficamos lá um ano, eu e uma irmã abaixo
de mim – eu era a mais velha – cinco filhas mulher.
Tinha só um irmão (que) também não gostava de roça.
Eu e minha irmã (moramos) na casa (do Ademar) um
ano: de dezesseis de dezembro de 1936 a dezesseis de
dezembro de 1937. Dali que nós começamos a traba-
lhar na fábrica e depois de um ano meu pai veio para
aqui. (O início de fábrica) foi ótimo! Porque eu acho

163
que se a gente estivesse lá (na roça) seria pior, porque
eu perdi o meu pai em vinte e seis de junho de 1938.
Ele era doente. Só eu e uma irmã que trabalhávamos
para manter a casa... (comecei a trabalhar) em quatro
de janeiro de 1937. Foi através da família do Ademar,
tinha as irmãs dele que trabalhavam lá. Então pedi-
ram lugar para nós. Naquela época era muito fácil. O
encarregado da tecelagem era o senhor Werneck. Ele
deu lugar e entremos. Entrei em 1937, me aposentei
em março de 1976. Trinta e nove anos, três meses e
uns dias. Passei do tempo de aposentar por causa da
dificuldade. Perdi meu marido, estava com uma me-
nina com dois anos e pouco. E a gente ganhava mui-
to pouco, a pensão que ele deixou também era muito
pequena, não dava. Eu tinha quatro filhos e dois en-
teados, porque meu marido era viúvo quando eu me
casei. Então... trabalhando ganhava mais do que apo-
sentada. Trabalhei na tecelagem muitos anos. Depois
adoeci, fiquei cinco anos afastada. Depois quando eu
voltei, já não podia trabalhar na tecelagem, a minha
vista não ajudava. Aí me passaram para a sala de pa-
no. Trabalhava das seis horas da manhã às três da tar-
de. A gente tinha uma hora para almoço. E tinha que
fazer o meu serviço todo em casa, deixar tudo pronto
para poder trabalhar. Eram oito horas direto. Eu tra-
balhei dez anos na sala de pano.

164
(Primeiro) fui morar ali perto da Loja Estrela,
quinta feita. Era da dona Isa Leonardo. E dali eu saí
em 1938, depois meu pai morreu. Vim para esta ca-
sa. Uma vizinha falou que tinha esta casa desocupa-
da, e que era para eu pedir ao senhor Manoel Peixoto,
que ele era muito bom, e que ele ia me dar a casa.
Aí, então, pedimos a ele, e ele deu. Nós pagávamos
quarenta mil réis de aluguel. Descontava vinte meu
e vinte de minha irmã. E nós duas é que fazíamos a
despesa para acabar de criar os irmãos. Mas eu fui
o... acho que o rojão todo foi meu, não é, porque as
outras foram casando e eu que fui o pé de boi da ca-
sa. Primeiro casou a terceira. Antes, ela... minha mãe
aumentou a idade dela para trabalhar na Irmãos
Peixoto. Ela estava com treze anos, (a fábrica) não
aceitava. Aí aumentaram, não sei como... eu não lem-
bro como fizeram isso.
O meu pai e a minha mãe não tinham ganho
nenhum. Eu falo mesmo, eu não sei... acho que a
nossa família foi criada por milagre, porque o que a
gente ganhava era muito pouco. E nós conseguimos,
graças a Deus, todos junto até casar seis filhos.
O meu marido nasceu em Abaíba, aí perto
de Leopoldina. Os pais dele vieram da Itália. Depois
eles tinham um sítio aqui perto, no São Pedro: meu
sogro morou ali... (Meu marido) trabalhou na indús-

165
tria de 1952 até 1968, ele adoeceu... morreu em 28 de
dezembro de (19)70. Quando meu marido adoeceu,
eles (os patrões) não nos desprezaram. Me deram li-
cença para eu fazer companhia a ele. Eu tenho muito
o que agradecer a eles na enfermidade dele, porque
não foi fácil não.
Os tecidos não era igual os de hoje não. (Era)
esse tipo de tecido baratinho. Mas vendiam mui-
to. Quando eu entrei tinha assim “faísca”, “garoto”,
“opala” e... ultimamente tinha “Judite”, “Lourdes”,
tinha tudo nome assim. Esse “garoto”, dizem que fa-
zia esse tecido para capa de fardo. Ele era fino, mas
antigamente acho que encapava com aqueles pacotes
de fumo. Eu trabalhei muito fazendo hora extra, acho
que bastante tempo mesmo; meu marido trabalha-
va... quando tinha um pedido de pano e que o pano
não estava pronto, então a gente tinha que preparar
aquilo tudo. Igual na sala de pano – a gente tinha
que revisar aquele pano todo para poder passar na
engomadeira, para ela aperfeiçoar, depois passar na
outra sala de pano para poder sair perfeitinho. Às
vezes a venda caía, dispensava chefe de família, co-
legas da gente, que a gente via que eram necessita-
das, precisavam trabalhar... era uma choradeira lá
dentro. Às vezes, depois de trinta anos, tinha estabi-
lidade. Ultimamente, quando eu estava trabalhando,

166
eu senti melhora (no salário). Eu tinha vontade de
trabalhar lá até completar meus quarenta anos, mas
não deu. Tem hora que eu fico assim: “eu ainda po-
dia estar trabalhando”. O meu serviço era bom. Eu
achei que necessitava sair porque a minha menina, a
mais nova, estava com três anos, e ela ficava sozinha.
Acostumei tanto com aquele serviço que... a gente
sentia falta. Era assim... tinha muita poeira, e era um
serviço de responsabilidade. O serviço que a gente
fazia de revisão, a tecelagem achava que a gente era
culpada quando ia alguma coisa lá dentro e chamava
a atenção por causa de defeito. “Ah, fulana é que está
na sala de pano! Ela! Parece que não foi a tecelã”. Aí
a gente tinha que mostrar para o encarregado, e ele
chamava o contramestre lá dentro, com a tecelã, pa-
ra mostrar o defeito. É obrigação da gente mostrar o
defeito. E eles achava assim: “ah, fulana é uma pedra
no meu sapato”. Tinha um encarregado lá, que ele
sempre falava assim: “a dona Lourdes é uma pedra
no meu sapato. A tecelã foi lá, porque ela que revisou
o pano”. Mas a gente tinha responsabilidade com o
serviço. Tinha alguns encarregados muito bons, não
eram todos não. Tinha muitos que às vezes não tra-
tava a gente conforme era necessário: uma máquina
dava defeito, você chegava perto do contramestre, ele
achava... se a gente... estava acostumada com a má-

167
quina, conhecia o defeito, sabia mais ou menos qual
era o problema da máquina, e se você fosse mostrar
para ele, ele achava ruim. É o contramestre que cuida
dos consertos. Agora tem a encarregada que, se os te-
ares dessem algum esbarro, algum defeito, eram elas
que tinham que arrumar. Quando terminava um rolo,
que colocava outro, eles (contramestres) tinham que
ir lá colocar a moenda e acertar, passar os fios, acertar
tudo, deixar tudo de acordo.
Entrei trabalhando com máquina. Depois
adoeci, fiquei cinco anos afastada, depois foi que eu
voltei, que eu fiquei com pressão alta, aí fiquei de be-
nefício. E naquela época era muito difícil a gente con-
seguir benefício pelo INPS, porque o revisor vinha de
Juiz de Fora. O doutor Jaime, uma vez, me deu licen-
ça de um ano. Eu fazia eletrocardiograma de três em
três meses, de seis em seis meses, depois passou para
um ano. Aí o revisor veio aí, cortou a minha licença,
me deu só seis meses sem receber. Aí foi aquela de-
manda: vai hoje, vou amanhã, vai hoje, vai amanhã.
Uma fala para mim: “não, você não pode trabalhar”;
outro: “não, você tem que trabalhar, se você não vol-
tar, vai perder o seu lugar”. E acabou que eu voltei.
Depois que eu voltei, não enfrentei máquina não.
Deu vaga na sala de pano, um encarregado lá, muito
bom, me passou para a sala de pano. (Quando voltei)

168
tinha muitas máquinas que já tinha mudado de lugar,
de uma seção para outra. Aumentou onde era a sala
de pano, tinha máquinas, teares e tudo. E já tinha au-
mentado bem a tecelagem, (com) duas salas de pano.
Quando eu saí, quem estava na chefia era o senhor
Zezito Peixoto. Teve uma época que teve um fracas-
sozinho, os pagamentos atrasavam... depois que o se-
nhor Zezito entrou, melhorou muito.
O tempo que o médico me dava licença, eu
recebia. Agora, esses seis meses que eu fiquei pelo
INPS, que o revisor cortou a minha licença, fiquei
sem receber. Aqui a gente consultava, fazia o exame
médico, tudo, mas vinha a revisão de Juiz de Fora.
O senhor Manoel Peixoto de vez em quan-
do visitava as casas (dos operários). Todo ano essas
eram limpas, ele vinha ver o que precisava e man-
dava fazer. Quando nós viemos para cá, era tábua,
aquelas largas. Estava tudo podre. Ele tinha Serraria,
ali no Hênio, que acho que era parente dele também.
Mandou vir madeira toda nova, colocou tudo. Às ve-
zes, ele ainda brincava com a gente assim: Oh, não
joga água não, senão vai apodrecer, não vai aturar
um ano”. Aí eu disse: “Não, senhor Manoel, agora a
gente vai encerar a casa”. Casa era reformada todo
ano, limpeza e tudo, por conta da fábrica. Era uma
perfeição, só você vendo. O senhor Altamiro Peixoto

169
também foi muito bom; o doutor Francisco também
– era meio sistemático – mas era muito bom. Hoje eu
não estou pagando aluguel, estou morando de favor,
depois que eu aposentei. Mas já me pediram a casa.
Por enquanto eu não sei ainda o que eu faço: se eu
saio... agora, pouco tempo, meu filho fez um teste lá
na Irmãos Peixoto, mandaram chamar, ele está tra-
balhando lá. Mandaram duas cartas, mas não man-
daram mais nada. Eu também fiquei quieta, porque...
fica quieta, porque você deve estar com cinquenta e
dois anos nesta casa”. No tempo do senhor Manoel,
ele vendia esta casa por cem mil réis. A gente tinha
medo de fazer dívida porque ganhava pouco. O meu
marido era medroso. Ele falou assim: “não, a gen-
te não podia fazer isso, não pode comprar, vamos
que depois as crianças vão passar falta e tal...” não
compramos. Perdemos muita oportunidade. Agora,
ultimamente, eu estava resolvida a comprar, arru-
mar financiamento para eu comprar. Mas por gosto
do senhor Manoel, do senhor Altamiro e do doutor
Francisco, esta casa era nossa há muito tempo. Muita
gente fala que eu devo pedir para eles, né, se vendem,
porque meus papéis já estavam arrumados. Depois
fecharam porque dizem que estavam vendendo ba-
rato. Pela minha idade, eu acho que não tenho mais
direito não.

170
Um cinema, assim de vez em quando, (era)
parte de divertimento. Juntava as colegas e ia passear
na praça. Aprontava e ia rodar a praça. Hoje não tem
mais isso não. Também tinha o horário certo de che-
gar em casa, nove e meia, dez da noite, estava todo
mundo em casa. Mas a gente divertia bem. De vez em
quando fazia pic-nic... a fábrica também dava. Eles
iam na Fonte Hélios, eu lembro que eu fui uma vez
em Turiaçu... a gente ia de trem, ficava lá na fazen-
da. Merenda e tudo lá por conta deles. Ia de manhã
e voltava à tarde. Era muito divertido. Eu saí naque-
le desfile de primeiro de maio e também no sete de
setembro. Acho que foi de 1945, me parece. Saímos
todas de uniforme branco, esse paninho que eu falei,
o opala branco. A indústria que deu. Saia pregueada,
blusinha esporte, tênis, meia. Ia todo mundo de boa
vontade, com muita alegria. Foi o mais bonito.
Bandas de música... tinha retreta lá na praça.
Um (maestro) era o Pierre, o outro, o Rogério Teixeira.
Bate-pau... a gente não perdia essas coisas.
Manufatora, a gente viu nascer; Industrial...
naquela época fazia desaterro para construir a
Industrial, era morro, tudo a cavar a terra e os carro-
ceiros tiravam, não tinha caminhão. Trabalho braçal.
Tirava a terra com a carroça de burro. Os homens ca-
vando. Quando tinha chácara, onde é a fábrica de pa-

171
pel Matarazzo, desmancharam aquela fazenda para
fazer a fábrica.
Era do senhor João Peixoto. Eu lembro do
tempo dele. Antes dele eu não estou lembrada. Tinha
vacas leiteiras, e depois plantou muitos legumes,
muitas verduras, ali onde era aquele eucalipto. Tinha
um japonês aí que plantou muito. Comia muita coi-
sa naquele alto de morro ali. Quiabo de metro... ele
é engraçado. Ia dando aquilo grande, que podia fa-
zer uma rodilha assim. Bonito mesmo esse quiabo de
metro. Eu não sei de onde vieram esses japoneses. Eu
sei que estiveram japoneses aí para plantar.
Aqui na Vila (Domingos Lopes) tinha pou-
cas casas. Isso aqui só tinha esse correiozinho de ca-
sa, com essas quatro casas. Isso era... era tudo linha
de ferro. Aqui passava a linha, era uma buraqueira,
uma coisa terrível. Trem, tinha às terças e sexta-feira,
passava trem de manhã, nove horas, vinha de Miraí.
E depois, às terças e sextas, ele ia, voltava meio-dia.
Quando eram quatro horas, passava ali. Aqui era tri-
ângulo. Ele vinha ali, virava ali, dali virava, ia para a
Estação. Fazia manobra. E aqui na frente tinha um bar-
racão. Na época que eu vim para aqui fazia medo. A
gente tinha medo de vir da fábrica dez horas. Debaixo
do barracão ficava muito mendigo, muita gente que
às vezes passava a noite dormindo ali, com uma fo-

172
gueirinha... Na Vila tinha pouca coisa. Não tinha essa
Matriz, (era) a capelinha. Tinha poucas nessa rua aqui
também. Quem vê ali o Bairro Haidê não tinha Bairro
Haidê, aquilo ali era brejo. Ali na casa da fazenda da
Isa Leonardo, aquela rua ia só assim: tinha uma casi-
nha no meio da rua, porque não tinha passagem para
lá. Mora o senhor Chiquinho, dentista. E tinha aquele
correiozinho de casa. Eu morava na quinta casa quan-
do meu pai morreu. Para todo lado que você anda,
Cataguases só cresceu. Ali, a Praça Guido Marlière,
era um correiozinho de casa. Não tinha carro, não ti-
nha assim bicicleta, motocicleta, isso era a coisa mais
difícil. Eu lembro que eu ia trabalhar, aprontava assim
mais cedo – bobeira de moça – (ia) passear na rua da
Estação, para lá e para cá, aquela turma de moça pas-
seando até dar a hora de entrar para a fábrica.
Meia hora antes, nós tínhamos que rodar
aquilo ali. Não tinha movimento nenhum, você anda-
va no meio da rua. Quando a fábrica chamava, apita-
va dez minutos antes, a gente entrava para trabalhar,
uma manhã muito escura, e tinha saído um rapaz
da fábrica. Houve um tiro alto de madrugada, e nin-
guém sabia o que estava acontecendo. Aí eu passei,
tinha aqueles bueiros onde descia enxurrada. Estou
vendo lá um negócio, parecia um pau com pano por
cima. Era o rapaz que estava morto ali dentro.

173
Na época que eu comecei, em 1937, trabalhan-
do, até agora, eu sei lá... vivo muito feliz hoje, acho
que meus filhos têm menos sofrimento do que eu,
daqui para frente. Apesar da crise toda, eu acho que
sim. Cataguases cresceu e melhorou muito.
A política aqui já foi brava, não era fácil não.
Na época do Pedro Dutra com a UDN. Toda vida eu
votei neles (Peixoto). Também não podia votar con-
tra eles. Eu estava ganhando meu pão ali, eu estava
necessitando deles, eu achava que meu dever era
votar com eles. O pessoal falava assim: “eu nunca
votei de cabresto não. Eu voto com eles porque eu
acho que devo votar, é meu dever votar com eles”.
Mas ninguém nunca me obrigou não. Dizem que o
Pedro Dutra ajudou (muita gente). Nunca fui contra
nenhum deles. Eu acho assim: cada um como quer.
É igual religião. A gente não pode ir contra nenhu-
ma, desde o momento que elas têm fé. Deus é um só.
Eu sempre procurei tratar todo mundo bem: eu acho
que a gente deve ser amigo de todos e inimigo de ne-
nhum. A minha vida foi assim, trabalhar e igreja. Às
vezes o meu pai falava assim: “minha filha, para que
você vai levantar cedo?” Trabalhava até dez horas,
no outro dia levantava cedinho, cinco e meia, assistia
a missa das seis e meia lá na Igreja Santa Rita, duran-
te a semana. Comungava e vinha para casa. A minha

174
primeira comunhão eu fiz na Igreja Santa Rita, eu es-
tava com dez anos, mas morava na roça. Mamãe diz
quando eu chegava na Igreja, eu não tinha vontade
de sair. Filha de Maria... às vezes chegava uma colega
e convidava: “oh, tem a reunião das Filhas de Maria,
você quer fazer parte?” “Ah, sim, vamos”.
As reuniões eram no Colégio das Irmãs.
Cedia lá uma sala só para reunião, no tempo da
Madre Aparecida. Não andava com vestido de man-
ga curta, nem roupa transparente, não podia andar
sem meias, não podia namorar... eu comecei a namo-
rar com quinze anos, mas eu não saía sozinha com
o namorado. Tinha que levar uma companhia, uma
irmã ou uma amiga. E namorava na rua, conversan-
do com um rapaz ou com o namorado, chamava a
atenção: “Oh, você estava em tal lugar assim, assim,
com o fulano, não fica bem, vê se não faz outra não”.
Tinha as conselheiras. A dona Ione Novais foi mi-
nha conselheira, muito boa, filha do doutor Abílio, a
Armênia Pereira Lima, a dona Natália Guimarães foi
presidente também da “Pia União”, a Josélia Duarte...
não aceitava casada não. Só solteira é que podia ser
(Filha de Maria). Quando casava tinha despedida, a
gente se despedia da “Pia União”. Iam todas de uni-
forme no casamento e era muito bonito. Todo primei-
ro domingo do mês tinha comunhão geral das Filhas

175
de Maria, todas de vestido branco, faixa azul. Eu me
sentia muito bem. Todo ano no carnaval a gente fa-
zia trabalhando, porque nunca que eu podia tirar
licença para fazer. Tinha pessoas que pagavam e fi-
cavam internas no Colégio: tinha refeição, dormia e
tudo. Nós que fazíamos assim externas, a gente tinha
o café da manhã. Ia em jejum, comungava, assistia à
missa, depois ia para o refeitório, tinha o café da ma-
nhã. Depois a gente vinha em casa, almoçar ali pelas
dez horas, voltava de novo. Sem conversar, só rezar.
E tinha os pregadores que vinham de fora, sempre
vinha assim um frei, um padre de fora e fazia pre-
gação. Tinha hora para tudo. Até 1955 eu me lembro
que ainda tinha. Eu casei em 1953, e ainda continuou
a “Pia União”. No meu casamento vieram muitas de
uniforme. O casamento foi na Vila, três horas da tar-
de, sete de setembro de 1953. Naquela época a gen-
te não ouvia falar em outras religiões igual a gente
ouve hoje. A gente nota assim muita separação. Eu
nunca fui contra nenhuma, eu acho que todas, desde
o momento que falou em Deus, que a pessoa está ali,
que tem fé, não sou contra ele. Mas eu nunca mudei
de religião e não tenho intenção. Estou com sessenta
anos. Desde que eu nasci, vi o exemplo que minha
avó deixou, meus pais, minhas tias, todas foram mui-
to religiosas.

176
Eu lembro que aqui em casa... na época de
minha mãe, que as meninas estavam pequenas, não
tinha emprego, o meu ordenado com o da minha ir-
mã era pouco, não dava para a manutenção da casa,
(nós) pegávamos bala para embrulhar. Vinham aque-
las latas de balas – fábrica do Nogueira – embrulhava
em casa e ganhava por quilo. Eu não lembro a quanti-
dade que eles exigiram, mas ajudava bem também. A
fábrica de pregos surgiu depois, de vassouras hoje já
tem bastante. O comércio aqui dava muito movimen-
to. A gente comprava à prestação: você comprava e
ia pagando mensalmente. Não tinha juros, não tinha
promissória, não tinha nada. Você ia lá, fazia uma fi-
cha, e eles te vendiam a quantidade que você queria
e ia pagando. Terminava aquela conta, a gente com-
prava outra. O armazém, o açougue, a padaria... eu
lembro que a gente tinha caderneta. Chegava no fim
do mês, não pagava nada a mais, só o que você gas-
tou. Em um caso assim de uma doença... “não traba-
lhei esse mês, não posso dar”, no mês seguinte dava.
Continuava do mesmo jeito. Acho que naquela época
(as pessoas) eram mais (amigas). (Hoje) a violência, a
exploração, eu acho que está demais. E é geral, não é.
Moro com o meu filho. A filha mais nova ca-
sou com o tenente Leite e está em Manaus. E tem três
aí, tem dois com namoradas. Um está comprando os

177
móveis, só está faltando a casa, esperando melhorar
o salário para poder casar. Graças a Deus eu me sin-
to (realizada). Minha família, meus irmãos. Criados,
estão todos bem, graças a Deus. Eu tenho dois entea-
dos. Uma eu tomei conta dela com seis anos de idade,
o outro com doze anos. Estão casados e a família bem.
Eu achava... eu casei com trinta e um anos, achava
que não ia ver minha família criada. Eu tinha cole-
gas que falavam: “Ih, você é coroa! Se eu ficar nes-
sa idade eu não me caso mais”. Eu falei assim: “Não
me importo se ficar solteirona não, para mim é um
prazer”. Eu não me casei para não ficar solteira não.
Eu casei porque achei que devia casar. Ele era um
viúvo honesto, muito bom, família boa. Ele queria
casar assim, com prazo de três meses. Não casamos
porque a mãe dele adoeceu. Mas eu não me importei.
Casei por amor a ele, criei minha família com mui-
to amor, muito sacrifício, mas, graças a Deus, todos
criados. A única coisa que eu queria conseguir é uma
casa para eu deixar para os meus filhos. Tinha um
medo assim de morrer e não conseguir. E ser preci-
so, às vezes, de sair daqui, eles ficarem sem ter lugar
para morar, porque o ordenado não dava para pagar
um aluguel. O meu grande sonho era (que) cada um
deles tivesse sua casa própria. Dá uma segurança
maior, porque mesmo com salário baixo, sem pagar

178
o aluguel, eles podem se manter melhor. Perdi tantas
oportunidades... na época que vim para aqui, a gente
comprava uma casa aí de três mil réis, quatro... e não
era casinha não, eram casas boas. (Mas) tinha medo
de fazer dívida, não ganhava o suficiente para com-
prar. Eu não tive estudo, meu marido não teve, mas
meus filhos, todos quatro, têm o segundo grau. Só
não fizeram o curso superior porque não dá mesmo.
Mas eu lutei, eu ganhava bolsa de estudo do sindi-
cato para eles estudarem. A primeira eu coloquei na
Escola Normal, até a segunda série. Aí a outra já es-
tava maiorzinha também, tinha que ir para o colégio.
Eu não podia pagar e tirei. Pagar para uma e a outra
não... coloquei no Antônio Amaro. O que eu não tive,
eu dei para os meus filhos. Isso para mim acho que é
tudo na vida. Tem que ter mesmo muita fé, muita fé,
muito amor, para vencer.
Muita coisa a gente... passava muita coisa que
a gente não sabia. Acho que os antigos não conversa-
vam muito. Eu acho que, para mim, antigamente era
melhor, não sei... no tempo em que a gente foi criado,
naquele ambiente, parece que havia mais respeito do
que hoje, mais oração... não sei não, para mim o anti-
go era melhor.

Entrevistada por Glaucia Siqueira e José Luiz Batista, em 03/09/1990.

179
180
MICAELA DE OLIVEIRA
DONA DE CASA

87 anos

Nasci dia 8 de maio de 1902, sou do


município de São Fidelis, Estado do Rio de Janeiro.
Meu pai era fazendeiro. Tinha uma fazenda imensa,
mais de trezentos alqueires! E tinha dois sítios. Tinha
uma grande criação: gado, porcos... Meus pais eram
espanhóis, das Ilhas Canárias. Minha mãe chamava
Joana e meu pai Ambrósio... eram primos. Vieram em
busca de fortuna... Vieram com a ambição de ficarem
ricos, né. Casaram e tiveram seis filhos: três homens
e três mulheres.
A fazenda, quando meu pai comprou do
governo, era mata virgem. Ele plantou muito café.
Na fazenda tinha tudo! Meu pai colhia muita coisa:
muito arroz, muito feijão... Era uma fartura imensa!
Minha mãe vendia ovos a trezentos réis a dúzia! Na

181
frente da fazenda tinha um açude muito grande...
Depois, do lado, tinha uma pedreira imensa, lavra-
da, sabe. Meu pai nunca foi empregado de ninguém.
Quando veio para o Brasil – ele veio antes, veio pri-
meiro, depois veio minha mãe – trabalhou... Tomava
conta de duas fazendas, aqui em Rio Branco. Então,
nós ficamos aqui em Rio Branco, os filhos tudo pe-
quenos... Depois meu pai resolveu comprar essa
fazenda no Estado do Rio e nós mudamos para lá...
Tudo mata virgem! Derrubou mata para plantar café.
Ele ia ficar riquíssimo porque naquela época, o café
só deu lucro! Mas ele morreu, coitado... O café já es-
tava lindo! Ele não chegou não... Ele infelizmente...
Ele tinha um posseiro no sítio. Estava lá como pos-
seiro há muitos anos. Esse matou meu pai! Ia casar
uma filha, mandou um mulato lá na fazenda pedir
se meu pai queria vender uma leitoa. Meu pai falou:
“- Não, eu não vendo, tem muita aí!” Então mandou
o homem escolher duas leitoas. Mas essa gente atra-
sada, sempre pensa mal... Ele foi lá conhecer meu pai
para matá-lo! O governo mandou trinta soldados...
Prenderam... Morreu na cadeia em Niterói. Meu pai
foi vingado, mas nós ficamos desamparados. Tudo
criança... minha mãe inexperiente... Meu irmão só
que era maior, tinha 18 anos... Eu tinha 14 anos... O
resto era menor...

182
Minha mãe morava aqui em Cataguases, por-
que nós viemos para estudar aqui. Morava na Rua
Alferes Henrique de Azevedo. A Climene Rezende
era nossa vizinha. Você conheceu a Climene, casada
com o Afonsinho? Quando soube, a Climene na mes-
ma hora mandou chamar o Afonsinho... passou “te-
lex” para o Rio, pra negócio de estrangeiro...
Minha mãe, coitada, teve muito prejuízo na
vida. Veio para Cataguases porque meu tio, irmão
dela, tinha padaria aqui. Ela só tinha esse irmão, o
Saturnino Cabreira, você conheceu? Ele foi dono
dessa padaria ali, aonde hoje é o Cinema Machado.
Aquela casa do lado, que hoje é farmácia, era da mi-
nha mãe. Nós morávamos ali... Depois passamos pa-
ra aquela casa ao lado da Iracema Carvalheira... Ali
eu me casei pela primeira vez...
Uma vez nós... Todos os dias meu pai fa-
zia a gente se levantar de manhã e ia tomar banho
no rio. Levava todos, só o pequenininho que não ia.
Aí, a gente estava tudo nadando vem aquela cobra!
Passamos o maior susto!
Eu, quando pequena, lá na fazenda do meu
pai, Rosa, minha irmã, estava tirando leite de uma
vaca. Uma vaca novinha, sabe. Ela soltou a vaca e
não me avisou, não. Falou: “- Micaela, solta o bezer-
ro!” Eu abri a porta, a vaca foi em cima de mim, me

183
esfregou no chão e eu fiquei sem pele nos joelhos!
Meu pai ficou tão nervoso! Deu paulada na vaca! Já
caí do cavalo! Quando criança a gente morava na fa-
zenda, era tão bom! Eu andava muito de cavalo lá
na fazenda... Os meus irmãos, os dois mais velhos,
foram levar mudança pra fazenda, sabe. Aí deu um
temporal lá pra cima e deu uma enchente, de repente.
Então meu pai falou assim: “- Vocês vão lá pra beira
do rio e grita pros meninos deixar o carro do outro
lado e soltar os bois.” Eu tinha 8 anos... Os meninos
soltaram os bois com a canga! Os bois iam morrer
afogados todos os dois. Como é que eles iam nadar,
os dois na canga? Não podia de jeito nenhum! Entrei
dentro da canoa com um bambu. Enfiei o bambu no
chão assim, enfiei no meio dos dois bois e tirei a bro-
cha. Aí joguei a canga dentro da canoa. Eu era forte
com 8 anos! Então finquei o bambu outra vez no chão
e vim pra praia. Em tempo d’eu morrer! Meu pai me
agarrou no colo chorando! Ajoelhou no chão e ficou
chorando. Ele me viu morta! Você pensa... 8 anos...
criança não tem juízo!
Meu pai era um homem muito farto! Tinha
muitos empregados! Engordava muitos porcos: de
quinze em quinze dias matava porco! Ele tinha cria-
ção, sabe, ele tinha manga de porcos. A manga é assim:
lavra o morro, depois cerca em volta e ali cria porco a

184
revelia, né. Ele sempre ia ao Rio e trazia tudo pronto...
roupa, tudo comprava, não usava costureira, não.
Andava tudo arrumadinho! Mesmo que na ci-
dade! Fomos criados assim, com certo conforto, não
é? Ele era professor formado. Ele foi delegado de po-
lícia, foi Juiz de Paz, mesmo sendo estrangeiro!
Quando criança a gente morava em fazen-
da, a gente morava em roça. Aí minha mãe arranjou
uma professora particular: dona Nair Arruda, irmã
do Azir Arruda, foi nossa professora particular, nos
deu os primeiros ensinamentos... Na fazenda onde
eu fui criada, meu pai nunca comprou quilo de nada!
Farinha de trigo ele comprava aos sacos! Comprava
batata inglesa, as caixas vinham da Inglaterra!
Vinham pro Rio, do Rio pra São Fidelis... Até peixe
– hoje fala bacalhau, naquele tempo era peixe seco –
vinha em caixa. Ele também comprava bife, que vi-
nha do Rio Grande do Sul. Vinha temperado, salgado,
não precisava colocar em geladeira. Era na salmora,
quer dizer, tirava de dentro, destampava feito um
barrilzinho... Só temperava com outros temperos...
Fui criada com muita fartura! Toda semana o meu
irmão levava uma cesta, deste tamanho assim, de
ovos... Tinha muita galinha!
No meu tempo ninguém passava fome, nem
ninguém andava nu! Todo mundo andava vestido,

185
porque os patrões eram bons, davam roupa no Natal.
Meu pai dava peças de roupa pra homem e pra mu-
lher. Nunca empregado dele fez vergonha não! Na
cidade, ninguém sabia se era patrão ou empregado!
O Natal sempre foi um Natal muito feliz aqui
em casa, graças a Deus. Desde o tempo do meu pai
até agora sempre houve reunião da família. Muito
respeito... e na roça era tanta... era tanto... Nossa
Senhora! Espanhóis que vinham do Cambuci, Pureza,
lugares lá perto. Vinham todos e passavam a noite lá
em casa... O dia e a noite de Natal comendo e beben-
do. Era o dia inteiro, a noite inteira! Era só comer e
beber! Quando eu era criança, os pais sempre davam
presentes aos filhos no Natal. Era presente de Natal,
não era Papai Noel, não! Hoje é que existe esse ne-
gócio de Papai Noel... Naquela época não tinha disso
não. Nada disso... Papai Noel nem é brasileiro!
Meu pai foi sócio desta Usina Rio Branco, do
doutor Joanir Bouchardet. O Mário Bouchardet, que
é deputado federal, é neto dele. Meu pai... Joanir
Bouchardet eram muito amigos...
Nós viemos para aqui, acho que foi em (19)14.
É, porque essa... em 1917 eu estava no Ginásio...
Escolher Campos ou Cataguases, então minha mãe
preferiu aqui porque tinha o irmão dele, né. Estudei
no Colégio das freiras, estudei no Ginásio, mas

186
não cheguei a formar, não. Só fiz o ginásio. Eu lem-
bro agora que o João Peixoto era colega meu e o
Francisquinho... O doutor Francisco tinha 8 anos, era
o menor da turma... Ele era nosso colega... já morreu,
não é?
Aquelas árvores ali nós que plantamos, no
dia 7 de setembro... Aquelas árvores que tem ali em
frente à Força e Luz... Plantando e cantando: “planta-
mos a nossa árvore...” O Ginásio era lá em cima... Era
do Antônio Amaro, uma pessoa maravilhosa! A famí-
lia toda, gente muito boa! Naquela época, a aula era
só de manhã, das sete ao meio dia. Tinha muito alu-
no... meninas e rapazes. Depois, mais tarde, passou
a internato. Fez a reforma no colégio, passou para os
Peixoto, aí que veio o internato. E veio muita gente
famosa. Muita gente famosa estudou aí no Colégio!
A minha professora lá no Ginásio era Gicelda
Samuel... uma boa moça, carinhosa... Depois ela foi
embora pro Rio. Aí nós fomos para o Colégio das frei-
ras, no tempo da Madre Bernadete, Irmã Rita... Eu me
lembro de poucas freiras... A gente lembra pouco...
Depois casei (aos) 20 anos, e tenho um filho
– mora no Rio – chama Juarez Rocha. O meu marido
chamava Aristides Rocha, do Estado do Rio também.
Esqueço o nome do lugar, é para o lado de Muriaé...
Itaperuna não é... Lage! A família é de Lage. Casei

187
a segunda vez com um viúvo: Antônio Gomes de
Oliveira. Ele era fazendeiro e usineiro lá em Astolfo
Dutra.
Ele fez testamento, deu pros filhos as fazen-
das e veio morar aqui. Morei nesta casa ao lado, ali.
Depois ele me deu esta casa e os filhos, né. Os filhos
me deram de presente esta casa. A gente vivia mui-
to bem! Eu convivia muito bem com eles. Até agora,
com os seus netos, eles me consideram... como netos,
tomam benção e tudo!
Sempre morei aqui em Cataguases. Aqui era
uma família só! Era uma beleza, uma felicidade, uma
alegria! Todo mundo era amigo. Não tinha maldade,
todo mundo era feliz. Eu sempre falo com os meus
netos, que a mocidade de hoje não é feliz: estuda, for-
ma e não tem emprego! Como é diferente hoje!
Carnaval, dois meses antes a gente ensaiava
nas casas dessa gente graúda! Na casa do Juiz de
Direito, na casa dos fazendeiros, aqueles Barros –
família Barros que morou aqui – coronel... Era uma
alegria!
Todo sábado e domingo tinha música e canto
de carnaval! Brincava, dançava a noite toda! O doutor
Cleto Toscano Barreto era Juiz de Direito daqui. Ele
que comandava tudo! Era muito enérgico, muito bra-
vo. Ele era nortista, sabe. Ele organizava tudo e levava

188
a gente. Minha mãe não deixava ir com ninguém, só
com ele e a mulher dele! Ele não deixava a gente dan-
çar assim com rapaz... Tinha que dançar da altura...
Não tinha clube, não. Naquele tempo, era no salão do
Grupo. Tinha o Clube Social, mas eu não ia lá não, mi-
nha mãe não deixava. Só ia nas festas de carnaval...
Agora, a gente ia muito ao cinema! Não é co-
mo hoje, ninguém liga para o cinema, não é. Naquele
tempo era cinema: filmes muito bons! Cada filme
lindo! Era só o (Cine Teatro) Recreio. O Recreio era
uma beleza! Passava filmes lindos! Depois, mais tar-
de, há poucos anos é que fizeram o (Cine) Machado.
Hoje tudo é “cowboy”, esses filmes de vampiros...
Naquele tempo não tinha disso não. Filmes, histórias
bonitas, a gente ficava encantado!
Humberto Mauro é do meu tempo. A senhora
dele, os filhos dele, o pai dele, eu conheci. Humberto
Mauro tinha pai ainda, quando a gente conheceu ele.
Aquele filme Brasa Dormida, na hora que estava fil-
mando, a gente foi deu uma volta assim, no jardim...
As mocinhas de 17, 18 anos... Oswaldina Queiroz,
aquelas meninas ali do Carmo... O Raul Pessoa, da
Casa Felipe, foi lá em casa e convidou. Então a gen-
te foi na Praça Rui Barbosa, de tardinha, às cinco da
tarde, todo mundo passeando... A Eva, acho que fez
parte de um filme. Não sei se ela fez outros filmes...

189
Todo mundo passeava no Jardim da Praça
Rui Barbosa... A gente morava perto, ficava só das
seis às oito. Às oito ia pra dentro de casa. Minha mãe
não deixava, não tinha ordem... Cataguases era tão
diferente de hoje! Cataguases era uma paz! As ruas
são as mesmas de hoje... As ruas são as mesmas, só
melhorou aqui, a Avenida. Este prefeito fez muita
coisa boa. O Tarcísio melhorou muito, asfaltou ali o
Meia Pataca, fez um grande melhoramento. No meu
tempo só não era assim toda calçada. Eles calçaram...
No meu tempo, aqui onde é esta casa do pa-
deiro, ali era uma lixeira... Eram seis casas, aqui, foi
meu marido que fez... Essa aqui era do Afonso Lanna
e aquela da esquina é do Cardoso. Existia. Aquela ao
lado, que é da Maria Amélia, também existia. Só não
existia essa casa que demoliram agora. Aqui pra cima
não tinha casa não. Eu me lembro quando o Manoel
Peixoto fez aquela casa ali. O Manoel e o Pedro Dutra
eram muito amigos. Cada um fez a sua casa, fizeram
na mesma ocasião. Hoje, a casa do Pedro Dutra é da
minha sobrinha Isabel. E a do Emanoel Peixoto é da
neta dele, senhora do Emanoel. As outras casas não
tinha não...
Depois da casa do Manoel Peixoto era o
Colégio Normal, numa Chácara ali. Minha irmã es-
tudava lá. Esse antigo Colégio Normal era do gover-

190
no. Ali, onde é a casa dos Cruz. Aquilo tudo ali era o
Colégio, só de moças. E era muito frequentado. Eu
não estudei lá...
O Colégio das Freiras não era aquela casa
bonita que é hoje não. Era menor. Melhoraram, né?
Aquele Colégio, no meu tempo, tinha capela... As
freiras fundaram esse colégio que está aí... A Igreja de
Cataguases era muito bonita. Era linda! Tinha uma
torre, uma coisa linda! Meu marido pediu para não
demolir, mas demoliram, né? Quiseram transformar.
A Igreja foi transformada. Não sei se era pequena ou
se queriam modernizar, fazer coisa moderna. Não
entendo... No princípio eu achei tão feia! Agora não,
hoje eu gosto da Igreja, acho tão ampla, tão boa! Essa
agora é melhor, não é? Eu gosto.
Naquela época as festas da igreja... festas mui-
to religiosas, né. Tinha Semana Santa, procissões...
Muito bonito. Era muito bonito o mês de Maria.
Tinha coroação todo dia. Tinha muita moça que era
“filha de Maria”... Mas eu nunca fiz parte de congre-
gação, essas coisas. Nem “filha de Maria” minha mãe
não deixava! Era uma coisa linda aqui em Cataguases,
muito respeitada, muito frequentada. Muito boni-
to mesmo! Era bonito. O povo era muito religioso.
Muito respeito, não é. Muito diferente de hoje... Não
tinha outra igreja não. Essa Igreja Metodista foi cons-

191
truída muito mais tarde. O Centro Espírita existia,
mas não era frequentado como é hoje não.
Agora, o meu marido foi um homem muito
generoso, não é? O Monsenhor Solindo fez um pe-
dido... meu marido deu dez contos. Naquele tempo
era dinheiro. Meu marido foi o primeiro que deu! O
doutor Edson Resende e o doutor Sicarini, dois mé-
dicos formados, chegaram a Cataguases. Eles foram
nas casas desses capitalistas todos, desses coronéis,
que eram ricos, e pediram pra ajudar a comprar ma-
terial para fazer operação na Casa de Saúde. O dou-
tor Resende falou assim: “-Nós somos formados, mas
somos o mesmo que o alfaiate sem linha e sem agu-
lha e sem tesoura.” Todos eles negaram. O Oliveira
– ainda casado com outra mulher – falou: “- Que dia
vocês querem comprar? Então domingo vamos para
o Rio. Vocês arranjam um chofer, que eu dou meu
carro, e vou com vocês.” Levou os dois médicos, pa-
gou as despesas do hotel para eles e, no dia seguinte,
foram a uma casa alemã. Esqueci o nome agora. Eles
escolheram uma mesa grande de bronze, aquela me-
sa que opera no hospital. E uma cristaleira cheia de
tudo quanto é material para operação. Tudo alemão!
O doutor Edson ficou tão grato! Ficou muito amigo
dele, era mesmo que filho do Oliveira. Ele adorava o
Oliveira como se fosse pai dele!

192
O Oliveira era casado com uma tia do dou-
tor Geraldo Silveira. Ele tinha um filho, Domingos
Gomes de Oliveira, que morreu agora há pouco
tempo. E duas filhas: Aninha, casada com Augusto
Póvoa, e Maria, casada com Zé Cabral...
O doutor Edson começou a fazer operações,
começou a ter êxito. Depois, quando passou um ano
ele chegou aqui e falou... “- Oliveira, eu estou passan-
do uma situação ruim. De vez em quando sou cha-
mado para ir à roça. Tenho que pagar taxi, e quando
chego lá cobrar o quê? Você podia me arranjar um di-
nheiro para eu comprar um automóvel.” O Oliveira
na mesma hora preencheu o cheque. Era quinze con-
tos uma baratinha naquele tempo – chamava barati-
nha o automóvel – preencheu o cheque e deu a ele:
“ - Mas Oliveira, você está me dando cheque? E se eu
não te pagar depois?” “- Tu já és um documento! Tu
és um médico? Tu és um documento!”
O doutor Edson passou um ano trabalhando
pra juntar o dinheiro. Ele trouxe um pacote de di-
nheiro assim... os quinze contos separados, e os juros,
né. Ele chamava o Oliveira de Português – o Oliveira
contava isso com uma graça – ele falou assim: “- Ô
Português, vim pagar você hoje!” “- Pagar o quê?” “-
Já esqueceu que você me emprestou quinze contos
pra eu comprar uma baratinha? Esse aqui é o dinhei-

193
ro e aqui são os juros.” Aí o Oliveira falou: “- Esses
juros você guarda.”
Lá na praça que vai para a Rodoviária, lá em-
baixo, ali tinha uma Casinha de Saúde, mas eu não co-
nheci, não. Diversas moças – uma era Baião, não sei o
quê Baião, a outra eu não me lembro mais, Oswaldina
Queiroz, eu, Rosa, minha irmã – fizemos um negócio
na rua pra pedir... Então ganhamos tudo que tinha na
Casa de Saúde até pouco tempo. Ganhamos sala de
jantar, sala de visita. Meu marido deu vinte e cinco
camas, aquelas camas pra pobre. Ele deu e arranjou
com os portugueses de Cataguases. Tinha muitos
portugueses em Cataguases. Cada um deu uma ca-
ma, só sei que encheu. Naquele tempo tinha o João
Duarte Ferreira, que era presidente da Câmara e o
doutor Cleto Toscano, esse Juiz de Direito, convidou
um escritor para vir a Cataguases. Quer dizer, este es-
critor veio a Cataguases, fez uma festa lá no hospital.
Lá, tem retrato do meu marido, na Sala de Honra!
As freiras vieram aqui em casa. Elas estavam
com vinte e cinco meninas sem calçado, e precisando
aterrar um pedaço... Ele mandou aterrar tudo e ainda
deu um piano. O piano que tem lá no Orfanato foi ele
que deu!
O Oliveira veio com 14 anos, veio sozinho,
porque no estrangeiro, naquele tempo, era difícil!

194
Não tinha parente aqui. Não, tinha um primo, o
Póvoa, lá de Sobral Pinto.
Trabalhou na Estrada de Ferro muito tempo.
Trabalhou na picareta daqui a Ubá. Depois ele foi pa-
ra Astolfo Dutra, e mais tarde comprou... ele foi ne-
gociante. Depois quebrou... Depois arranjou dinhei-
ro emprestado e comprou três fazendas do governo.
Naquele tempo uma fazenda era três contos, cinco
contos... Muita terra! Comprou as três fazendas, Céu,
Purgatório e Inferno. Ele botou o nome de Paraíso e
Boa Sorte nas fazendas. Estava casado e já tinha dois
filhinhos. Foi melhorando a vida dele... Veio o Arthur
Bernardes, o café subiu... Era tudo café ali. Agora já
não tem mais, não.
O filho, que já estava moço, quis botar uma
usina de açúcar, pôs a usina de açúcar. Depois vende-
ram pra filha do Mário Bouchardet. Trabalhou muito.
Trabalhou muito mesmo! Trabalho dele! Sorte dele é
que, no tempo do Arthur Bernardes, o café foi a cin-
quenta a arroba. Era uma fortuna! Depois era cana.
Tinha engenho de cana, álcool...
O Oliveira foi o fundador do asilo, abrigo
dos pobres, dos velhos. Ele foi fundador... Ele, João
Peixoto, Pedro Cabral e um que era espírita, es-
queço o nome dele. Era tão bonitinho o asilo! Todo
branquinho, todo de azulejo, aqui onde vai para

195
Leopoldina... era ali, numa ocasião, perto da Usina
Diesel (*Informação de Carmelita). Depois, quando o
Emanoel foi ser o provedor do Hospital, achou me-
lhor passar pra lá. Foi bom porque ali tem médico,
tem tudo, né.
Eu tenho certeza que a minha missão aqui
na Terra era ser enfermeira. Eu tratei do meu mari-
do, que teve quinze anos doente, com neurose cere-
bral. Eu tive tanta paciência! O filho dele me adorava!
Ele falava que eu não fui mulher, não; fui mãe. Tinha
muito carinho com ele. Quando ele morreu, o doutor
Hugo me convidou para ser chefe das enfermeiras,
na Casa de Saúde. Mas eu não quis, porque estava
tão fraca! Emagreci muito: estava como eu estou ho-
je, magra. Eu era gorda, forte, né. Ele esteve quinze
anos doente, e cinco muito mal! Ele era tratado pelo
doutor Hugo, doutor Edson, doutor Jaime: três médi-
cos. Lá em Juiz de Fora fizeram tudo quanto é exame
possível: fundo de olho, eletrocardiograma, exame
de sangue, exame de urina, exame de fezes... Fizeram
tudo, logo que ele adoeceu. Fomos para Juiz de Fora...
lá eu fiquei no hotel e eles foram para o laboratório.
Quem conduziu era médico especialista. Quando
chegou à tardinha eles chegaram no hotel e meu en-
teado falou: “- Dona Micaela, a senhora é que trata
do papai, que olha ele... Vem um médico aqui pra

196
dizer os resultados dos exames. A senhora tem que
conversar com o médico.” Quando chegou as dez ho-
ras da noite, eu estava lá no quarto com eu marido
doente, o doutor Ribeiro de Sá chegou lá no hotel. Aí
ele falou: “- Olha, a senhora vai dar esse remédio a
ele, e se ele não melhorar eu vou receitar outro.” “- O
senhor faz o favor de ler a receita pra mim.” Quando
leu, a receita era a mesma do doutor Hugo! Falei: “-
Doutor, eu não aceito esta receita não! Porque isso eu
tenho aqui, do doutor Hugo. Meu enteado achou que
estava tratando errado! Agora, ficou o dia todo nes-
se sacrifício, fez tudo quanto é exame, para receitar
a mesma coisa?! Não aceito!” Fiquei brava, então ele
ficou muito sem graça, e o doutor Hugo continuou
tratando dele. Um dia o doutor Hugo chegou aqui e
falou assim:
_ Dona Micaela, eu tive um pressentimento. Eu
vou tirar sangue do senhor Oliveira. Ele já tinha sido
desenganado em Juiz de Fora. O médico falou que ia
morrer. Então o doutor Hugo trouxe um enfermeiro
da Casa de Saúde. O sangue dele estava escuro, mas
escuro mesmo! Quando chegou meio dia ele falou:
_ Dona Micaela, graças a Deus, o Oliveira está
salvo!
Você acredita que ele sarou da neurose, ficou
perfeitamente bom: conversando, dormia bem, pas-

197
seava, tomava banho sozinho. Ficou assim até morrer.
Ele viveu 91 anos! Ele estava com ureia no sangue.
Em tempo dele ficar louco! E os médicos em Juiz de
Fora não... Acho que eles não examinaram direito!
Acho que eles tapeiam, recebe o dinheiro e pronto!
Meu marido tinha dez casas em Cataguases.
Tinha essas seis aqui, tinha duas ali e outras lá na Rua
do Pomba. Construía para alugar. Alugava a casa
por trinta contos, naquele tempo. O construtor, o pai
dessa menina que trabalha na Prefeitura, Margarida
Cordeiro... que fez a ponte metálica... Esta casa aqui
foi modificada agora, mas a da vizinha, tá igual como
era. Só pra fazer a casa ficou em trinta e dois contos.
Naquele tempo trinta e dois contos tinha valor! Não
é como hoje, que você pega mil cruzeiros, vai na rua
e não compra nada!
A Fazenda Paraíso, que foi do meu marido,
ficou em seis contos. Ele só comprou vidro, prego, ci-
mento, cal, fechadura, essas coisas. O resto tudo foi
de lá mesmo. Ele sempre falava isso porque viveu
muita transformação, né? Hoje, você sai pra comprar
pão, amanhã ele é mais caro!
Eu estou no fim da minha vida. Estou triste
de ver tanta pobreza! Tanta miséria! Faz pena ver es-
sa gente da roça! Agora, depois de viúva, eu morei
na roça quatro anos. Faz pena ver! Eu mandava botar

198
costureira dentro de casa, fazia camisa e “short” pa-
ra todos. Mas fazia meia dúzia pra cada um, sabe. A
gente ajudou muito. Meu filho, que é industrial no
Rio – está muito bem de vida, sabe – mandava muita
roupa, retalho. Nossos empregados lá na roça vivia
tudo arrumadinho. Meu filho ajudou muito porque
ele é muito caridoso, sabe.
Política... eu sou muito simpática ao Mário
Covas. Eu acho ele um homem muito inteligente! Ele
fala com muita clareza! Eu tenho fé nele. Vamos ver
se Deus ajuda, os santos todos, que ele governa esse
Brasil! Mário Covas: o Brasil vai pra frente! Ontem,
a Regina Duarte fez uma propaganda linda, vo-
cê viu? Ela falou do Mário Covas. Achei tão bonito!
Hoje, quem falou foi aquele que fez o papel de Sassá
Mutema, aquele do chapéu... Falou sobre o Mário
Covas! Eu espero que vocês também me acompa-
nhem... Vote no Mário Covas!

Entrevistadores e data da entrevista não localizados nos arquivos originais.

199
M I L T O N C A R VA L H E I R A
PEIXOTO
FA R M A C Ê U T I C O

66 anos

Nasci no Estado do Rio, em Itaperuna,


em 1922. Quando vim pra cá, em (19)24, (19)25, já ti-
nha 3 anos de idade... justamente seis décadas.
A minha professora foi a dona Sindoga, do-
na Margarida, que faleceu recentemente. O primá-
rio eu fiz no “Coronel Vieira”. Depois passei para o
Ginásio Municipal de Cataguases, era no “Antônio
Amaro”, lá fiz o ginasial. Depois eu parti para o Rio
de Janeiro e fiz o primeiro e o segundo ano médico,
na Faculdade da Praia Vermelha, Faculdade do Rio
de Janeiro, Faculdade Federal do Brasil. No segun-
do ano de medicina, meu pai faleceu e eu era filho
único, vim para Cataguases. Formei em Farmácia em
Juiz de Fora e continuei com farmácia até me aposen-

201
tar. Eu me formei em bioquímica também, farmácia e
bioquímica. A história da minha educação é essa.
Quando eu comecei como farmacêutico era
muito curioso, sabe. Cataguases tinha três médicos:
doutor Cardoso, doutor Edson, doutor Sicarini, não
dava vazão para a população. Então os farmacêuticos
eram uma espécie de médicos. Éramos nós quatro; eu,
José Esteves, Jaci Lopes, Malaquini... Éramos nós qua-
tro. A gente atendia também como se fôssemos mé-
dicos. A gente era até chamado nas casas de família
para tratar de um sarampo de uma criança, de uma
diarreia, de uma gastroenterite, de uma faringite, de
uma amigdalite, coisas banais. A gente chegava lá, a
gente medicava, dava injeção, examinava, punha o
termômetro, medicava... já levava o remédio e a con-
sulta. Não tinha remédio preparado. Era tudo na far-
mácia, tudo manipulado: poções, supositórios, cápsu-
las, comprimidos. Não existia o comércio de drogas
que existe hoje, não. A gente tinha de trabalhar com a
cabeça: conhecer química, conhecer bioquímica, fazer
essas fórmulas de acordo com o receituário médico.
Eu ia de bicicleta. Chegava lá, quando então o
negócio piorava, que não tinha jeito, a gente manda-
va chamar o doutor, chamava o médico. Ele chegava
lá e desempatava o negócio. Hoje, não existe farmá-
cia, não existe ciência nenhuma. A farmácia antiga-

202
mente foi uma profissão muito social, muito gratifi-
cante. A gente ajudava a população sem cobrar nada,
porque não se podia cobrar nada. Não era médico,
você não tinha esse direito perante as leis. A gente
só ia pelo favor de vender o remédio, pelo favor de
ser útil, com intenção de vender o remédio. Depois
que a farmácia tomou esse rumo comercial, os foras-
teiros, os aventureiros começaram a abrir farmácia.
Hoje é um comércio como outro qualquer. Hoje, em
Cataguases, temos vinte farmácias, mas formados
tem uns dois ou três só. Eu sou farmacêutico forma-
do e sou responsável técnico por farmácias aqui em
Cataguases e em Juiz de Fora. Empresto meu nome
e minha qualidade de diplomado para eles poderem
dirigir o estabelecimento, com um responsável técni-
co. Então eu dou assistência duas vezes por semana,
três vezes por semana, aqui e em Juiz de Fora.
Logo depois do período revolucionário, acho
que foi essa coisa... mais acidente, sabe. O Ministério
da Educação decidiu ter no Brasil, em Minas Gerais,
a educação moral e cívica. Havia muita coisa errada
antigamente que foi consertada hoje. Houve mudan-
ças, mas para melhor. Eu acho que o ensino atual-
mente no Brasil é muito eficiente, muito bom, muito
puro, muito certo. Vem acertando bem mesmo. Tanto
que o nosso índice de analfabetismo tem caído muito.

203
Parece que atualmente o nosso índice de analfabetis-
mo não chega a dez, a vinte por cento... Anos atrás
era quarenta por cento. Em 1966, quando eu era pre-
feito, era quarenta por cento! Depois de 1964, o go-
verno achou que o Brasil precisava ter um pouquinho
de educação moral e cívica para evitar de acontecer o
que aconteceu. Aquela degringolada, aquelas greves,
aquela coisa toda! Naquela ocasião eu era prefeito.
Então acharam que eu estava em condições de exer-
cer educação moral e cívica e me convidaram. Logo
depois eu caí na minha área que era bioquímica – far-
mácia, bioquímica, área de ciências... química, física.
Então eu fiz em Juiz de Fora o famoso curso (CADES)
e me aprimorei em ciências, física e química. Gostava
de lecionar. Participei do Colégio Cataguases como
professor, durante longas décadas, até me aposentar.
Fui vereador durante dezesseis anos, depois
fui prefeito duas gestões: 1967 a 1971, a primeira e
depois 1977 a 1983. Eu não fui atraído, eu fui levado,
fui empurrado, entendeu? Como vereador, atendi a
um apelo dos meus amigos. Meu partido inicial foi
a UDN – União Democrática Nacional. Depois fui
seguindo de acordo com os meus líderes. Eu fui se-
guindo vários partidos. Passei para a ARENA e de-
pois para o PDS. Atualmente estou no PFL, mas se-
guindo a mesma linha.

204
Mudei apenas porque meus líderes funda-
ram outros partidos. Meus líderes: Aureliano Chaves,
Marcos Maciel, Francelino Pereira... líderes políticos
brasileiros. Aqui em Cataguases, a liderança foi sem-
pre do... o líder político era o doutor Pedro Dutra
Nicácio Neto, doutor Edson Resende e o senhor
Manoel Inácio Peixoto. O Edson Resende e o Pedro
Dutra era do PSD e o Manoel Peixoto era da UDN,
que era o meu partido na ocasião.
Na década de quarenta a cinquenta a políti-
ca era muito quente, em Cataguases. Houve ataques
à Rádio Cataguases: um tiro, que partiu de qual-
quer atirador, atingiu e matou um soldado. A Rádio
Cataguases pertencia ao Pedro Dutra, PSD. Houve
um sururu muito grande quando o doutor Edson
Resende quis tomar o hospital das mãos da família
Peixoto! Houve um sururu danado: houve tiros, fa-
cada, correria... Houve um atentado a Pedro Dutra,
também. Um atentado no meio da rua. Foi uma farsa
que tentaram, para acusar o Manoel Inácio Peixoto
como mandante do crime e tudo mais.
Não havia ideologia não, muito atrasada a
política naquela ocasião. O curral eleitoral era que
mandava na eleição. Votava morto, analfabeto, resi-
dentes na terra e fora do país votavam também. Era
uma coisa horrorosa! Era o senhor coronel, o dono do

205
eleitorado, o dono do curral... Depois mais tarde apa-
receram os jovens: o doutor Antônio Cardoso, senhor
Sodré Lana, Nelson Batista, Felicíssimo Gonçalves
Vieira... Eu fiz parte do segundo bloco, ao lado do
doutor Cardosinho, do doutor Hugo Lanna. A pri-
meira vez que eu fui candidato, em 1966, eram três:
eu, junto com o doutor Lídio; Amauri Mauad era
candidato do PDS e o René Cerqueira, candidato do
PMDB. Venci por uma larga margem de votos! Agora,
recentemente, na última eleição, em 1977/78 eram
três candidatos: eu, doutor Ângelo Rocha e o atual
prefeito, doutor Tarcísio Henriques. Todos eram pe-
la ARENA, todos três. Também venci por larga mar-
gem de votos! Agora, que nós voltamos à democracia,
com o nosso Presidente Figueiredo, que abriu o go-
verno democrático e continuou nas mãos do Sarney...
Foram cumpridas todas as etapas democráticas.
Quando eu fui vereador não ganhava nada,
era de graça. Devia ser! Vereança é um cargo que de-
via ser de graça! Servir o povo. Como prefeito tam-
bém, devia ser de graça! São cargos eletivos, mas são
cargos de serviço público. Mas hoje não, hoje tudo é
pago! Não há mais aquele interesse de amor à terra.
Hoje é tudo amor profissional, amor financeiro.
A gente ficava muito gratificado, porque a
gente vê com muito carinho, que o povo que elege

206
a gente é um povo que gosta da gente. É uma situ-
ação de muita honra, de muita satisfação! Quando
eu fui prefeito pela primeira vez, correu tudo muito
bem. No dia da abertura dos votos eu venci... em seis
mil eleitores que tinha em Cataguases, me parece, eu
venci com mil e quinhentos de diferença. Uma coisa
fabulosa! Eu fui carregado pelas ruas da cidade pelos
meus eleitores. Isso traz muito sentimento de gratifi-
cação, de satisfação pra gente.
Eu fiz uma gestão melhor na primeira vez. A
prefeitura tinha recursos, não houve enchentes... Na
segunda vez eu fui muito infeliz. A prefeitura não ti-
nha recurso nenhum, por causa do período revolu-
cionário. Foram seis anos de mandato e seis enchen-
tes pavorosas! Eu não fazia mais nada do que cuidar
de meus flagelados. Inclusive, a enchente de 1979 foi
a maior enchente de toda a história de Cataguases!
A água subiu até a Praça Sandoval de Azevedo!
Felizmente, fiz uma administração razoável e deixei
a prefeitura sem débito. Foi uma grande vantagem.
Apesar de todas as dificuldades deixei sem débito!
Não fiz uma administração boa, mas fiz razoável.
Eu nunca fiz obras monumentais, não. Mas
sempre me dediquei muito aos pobres. Eu fiz proje-
tos, eu dei de graça o loteamento “Ana Carrara”. Dei
para oitenta pessoas vítimas de enchentes, que perde-

207
ram suas casas na enchente. Depois eu consegui tam-
bém, durante as enchentes, realizar esse loteamento
“Taquara Preta”. Realizei também muita gente que
não tinha moradia e conseguiu sua moradia. Isso gra-
tifica a gente. Foi tudo muito gratificante para mim!
Eu me recordo muito bem que, quando pre-
feito, eu compareci à cidade de Tiradentes para
entregar uma escritura da fundação da cidade de
Tiradentes, que foi encontrada aqui em Cataguases,
numa escavação feita pelo prefeito Ângelo Rocha.
Foi feita uma escavação na avenida Astolfo Dutra e
descobriram essa escritura de Tiradentes. Então mar-
caram uma solenidade... o prefeito de Tiradentes, a
Câmara Municipal e o Patrimônio Histórico, as pes-
soas da cidade... Marcaram a cerimônia, em que par-
ticipei da entrega solene da memória, da escritura de
fundação da cidade de Tiradentes.
A respeito da memória de Cataguases, eu
acho o seguinte, o que está fazendo hoje deveria ter
sido feito ontem. Já estamos atrasados em matéria de
preservação da nossa memória! Há, realmente, uma
destruição indiscriminadamente de tudo o que nos
fale de nosso passado. Eu acho que um povo sem tra-
dição, sem memória, é um povo sem alma.
Cataguases, por exemplo, é uma cidade que
já teve muita história em matéria de passado, tradi-

208
ção do passado, memória, recordação, não é? Mas
vem sendo destruído de uma maneira atroz, de uma
maneira diabólica. Você pode ver... destruíram uma
igreja matriz de estilo gótico e fizeram esse monstro
aí, essa matriz moderna!
No tempo que foi feita a matriz, há trinta,
quarenta anos atrás, não existia em Minas Gerais, no
Brasil, esse sentimento de conservação do patrimônio
histórico. Não existia... Ouro Preto já estava semides-
truída, Mariana, São João Del Rei... Eles jogaram abai-
xo o que era velho, o que era antigo, para fazer uns
monstros modernos... Nós importamos essa idéia de
preservação da nossa história, isso é coisa nova. Há
vinte, trinta anos atrás, não havia esse sentimento, não
havia essa ideia de preservação da memória, da tradi-
ção de uma cidade, de um estado. Hoje é que temos is-
so. Depois que aconteceu é que abrimos nossos olhos!
Depois da destruição do Cineteatro Recreio,
que era uma coisa primorosa!... Destruir-se o Cine
Recreio, naquela ocasião, foi um sucesso! Queriam
um país moderno, bonito! Depois quando abriu-se
os olhos é que viram que tinham destruído o patri-
mônio histórico da cidade de Cataguases! O Cine
Recreio era um cineteatro mesmo!
Naquele tempo, Cataguases tinha, além das
Escolas Educadoras como a Escola Normal, o Colégio

209
(Cataguases). Havia, paralelamente, educação artís-
tica para o jovem cataguasense. Era muito comum
que Cataguases apresentasse, encenasse peças...
Eu me recordo de uma peça que foi encenada em
Cataguases, de Juraci Camargo – “Deus lhe pague”, e
eu tomei parte. Eu fui um dos componentes da peça
e o treinador, vamos dizer, o treinador... o diretor era
Francisco Inácio Peixoto.
Atores e atrizes eram escolhidos na socie-
dade de Cataguases: Milton Peixoto, Hugo Lanna,
Aida Schetini, a Laurinha Kneip... Estas cenas eram
sempre realizadas, a gente representava sempre em
benefício de alguma coisa em Cataguases. Muitos
artistas de fora tinha guarida no Teatro Recreio,
que tinha um palco maravilhoso! Eles traziam os
cenários e as suas peças teatrais. Lembro da Alda
Garrido, famosa bailarina, representando aqui. Além
do teatro, que funcionava no Cine Recreio, funcio-
nava também o cinema, e serviu também de palco
para o entretenimento da juventude, durante as fes-
tas natalinas, durante as noitadas de São João. (Em)
Cataguases, por exemplo, não existia televisão, não
existia ainda no Brasil, então o cinema era um deri-
vativo para Cataguases. Em cima do Social se reali-
zavam bailes tradicionais. A fina flor de Cataguases
lá se manifestava, fina flor! Toda noite a gente ia

210
pra lá, reunia, tinha jogos de dama, pingue-pongue,
dança, bate-papo.
O Clube do Remo foi inaugurado pelo presi-
dente Antônio Carlos, em 1928. Foi inaugurado com
finalidade esportiva, era só remo... barcos. A gente re-
mava no Rio Pomba. Depois passou o atletismo, bas-
quete, vôlei, natação. Depois teve um período de dez
anos de “vegetação”, parou o Clube do Remo! Mais
tarde começou o primeiro salão dançante, isso foi em
1940, 1941... passou a ter dança também. Hoje é um
clube de respeito!
O hospital de Cataguases tem sido melhora-
do sensivelmente desde a sua fundação, pelo doutor
Norberto Custódio Ferreira, o pioneiro, o coronel
Duarte, o doutor Ventania, doutor Edson, que funda-
ram o hospital. No tempo que não existia bem essa
medicina moderna, nos primórdios dessa medicina,
ele ocupava um espaço de destaque nessa região to-
da! E continua aperfeiçoando, melhorando... nunca
perdeu esse destaque. O hospital de Cataguases hoje
é um nosocômio que nos orgulha, porque ele aten-
de não só a Cataguases, mas à região das cercanias
de Cataguases, dado o seu valor científico, valor de
bom atendimento, valor de classe médica competen-
te, aparelhagem ultramoderna! Hoje é um dos mais
modernos de Minas Gerais.

211
Quando prefeito, em 1966... 1967 fui eu que
coloquei televisão em Cataguases. A gente assistia
era cinema. O cinema era muito frequentado, inclu-
sive tinha dois cinemas em Cataguases, dois ou três...
Então, iniciou em 1967, e depois vários prefeitos de-
ram assistência e continuou aperfeiçoando cada vez
mais. E hoje Cataguases tem uma das melhores TV
dessa região! Então chamei uma equipe de técnicos
e colocaram a primeira TV. Televisão em Cataguases
via Leopoldina. Surgiu o primeiro aparelho em 1966...
Com a TV acabou-se aquilo que faz falta pa-
ra a cidade: o entrelaçamento das famílias, as visitas,
o “tête-à-tête” nos bancos dos jardins, as conversas
à tarde. A cidade ficou mais desumana... O cinema
que a gente ia, não só para assistir o filme, mas pa-
ra bater papo depois do cinema, na praça, no jardim.
Havia esse entrelaçamento de amizade social. Com
a TV acabou tudo isso. Você se fecha em sua casa,
entre quatro paredes e liga a TV. A vizinha também,
ninguém fica na rua. Ninguém mais senta nas por-
tas, não sai para conversar... Ficou desumana. Perdeu
aquele calor humano tão necessário à nossa vida...
Deveria ser as duas coisas juntas: ter progresso e con-
tinuar a ter esse entrelaçamento social, que sempre
existiu. Faz muita falta a convivência, faz muita fal-
ta... Hoje não se conversa mais, não se visita mais...

212
Antigamente era muito comum isso. Havia festinhas
em casa de família. O conjunto tocava e a gente dan-
çava na sala. Antigamente tinha muito disso: baile
nas casas de família. Todo sábado, todo sábado ha-
via... Ia muito ao teatro. Cataguases tinha teatro qua-
se todo mês: ou de amadores ou vinha de fora. Tinha
muito teatro em Cataguases!
As mudanças em Cataguases têm sido radi-
cais. Cataguases prosperou muito. A evolução da ci-
dade... ela quase duplicou de tamanho, com novos
bairros, novas ruas e avenidas. Em dez anos ela qua-
druplicou!
Cataguases, quando eu fui prefeito em 1966,
tinha perto de doze a quinze mil habitantes, hoje es-
tá com setenta mil habitantes! As ruas eram todas de
barro, de areia, de terra... foi tudo calçado e arbori-
zado. O novo aspecto urbano e físico da cidade foi
uma modificação da água para o vinho. Cataguases,
com a administração de vários prefeitos, tem tido um
progresso extraordinário, como poucas cidades mi-
neiras têm tido! Desenvolvimento físico, comercial,
industrial e social: Cataguases se destaca na Zona da
Mata como pioneira da indústria, pioneira no comér-
cio, pioneira nas portas artísticas, literárias... É hoje
uma cidade respeitada no Estado de Minas Gerais in-
teiro por sua atuação na parte literária, na parte das

213
letras. Duas, três vezes por ano tem lançamento de
livro em Cataguases! Apesar de ser uma cidade de
porte médio, fisicamente, é de porte alto no conceito
do progresso e do desenvolvimento.
São os pioneiros de Cataguases, os nossos an-
cestrais, que deixaram exemplos relevantes de traba-
lho, de progresso! O Manoel Inácio Peixoto, que fun-
dou a primeira indústria em Cataguases; o Coronel
João Duarte, que foi o maior produtor de café dessa
região, e outros mais que passaram por Cataguases e
deixaram a semente plantada. E os filhos deles, então,
regaram as sementes, cultivaram e hoje produzem o
progresso de Cataguases. Tudo que tem início bom
tem um bom fim. Cataguases continua com a tradi-
ção de ser uma cidade muito religiosa. E continua
com aquele sentimento de religiosidade, que sempre
existiu nas décadas passadas e continua viva nessa
própria época em que vivemos. Em todas as Igrejas...
protestante, adventista, católica... se comemora con-
dignamente todas essas festas religiosas. E isto é mui-
to importante!

Entrevistadores e data da entrevista não localizados nos arquivos originais.

214
215
R A U L S I E RV I
A G R I C U LT O R

75 anos

Minha mocidade foi sempre traba-


lhando. Eu levantava e ia trabalhar. Trabalhava o dia
inteiro. De noite ia direto dormir, de manhã levanta-
va cedo e trabalhava. Eu era acostumado a ficar dois,
três meses sem vim aqui na rua – tão pertinho! Não
vinha não. Só trabalhando. Eu trabalhava porque
meu pai teve derrame, não podia trabalhar.
Tive que sair do ginásio pra ajudar meu pai.
Era um colégio muito ruim lá no alto do morro. Tinha
que tirar leite de madrugada pra vim ainda pra aula.
Não tinha condução. Vinha a pé lá do Meca até aqui,
e, às dez horas tinha que voltar pra almoçar, pra vol-
tar meio-dia outra vez. Era dois turnos. Ficou pesado,

217
não aquentei não. Então eu fiquei na roça uns tempos,
depois vim pra rua. Ali perto da Prefeitura abri uma
vendinha, fiquei ali negociando. Tinha um botequim,
um armazém. Eu e o meu irmão Carlos Siervi. Mas
depois eu tive que voltar pra roça. Essa é a manca-
da maior que eu dei na minha vida. Trabalhei trinta
anos na roça. Ajudei a criar o resto da família. Eles
vieram pra rua porque o papai não podia mais fi-
car na roça. Então eu fiquei sozinho trabalhando lá.
Produzia cana, milho, feijão e gado. Tudo pra vender.
Não compensou. O feijão não valia nada, duzentos
réis o quilo. Jogava feijão pra porco. Ninguém com-
prava. Todo mundo tinha. O alimento tinha muito né,
porque plantava um pedacinho de terra dava muito
feijão. Agora, não tinha dinheiro, o dinheiro era di-
fícil. Era muito difícil arrumar um conto de réis. Só
milionário mesmo.
Eu nasci em Tocantins, em 1915. Vim com
doze anos (para Cataguases). Eu vim pra cá tava no
quarto ano, aí eu voltei lá e acabei de tirar o quarto
ano, quarta série. Aí depois eu entrei no Ginásio, fi-
quei só três anos. Mamãe era brasileira, papai era da
Itália – Nicolau Siervi. Veio pra cá porque lá ele tava
passando fome, tava muito ruim lá a situação. Então
vieram pra o Brasil, uma porção. Direto pra Tocantins,
porque a emigração foi quase toda pra lá, né, os com-

218
panheiros dele. O lugar era muito atrasado, muito
atrasado, nem grupo tinha. O pai dele comprou um
sítio e pôs um botequim, uma vendinha pra ele.
Depois (meu pai) vem pra Cataguases. A oca-
sião que entrou Artur Bernardes. Ele tava com... acho
que duzentos mil réis, que era muito dinheiro. Aí
comprou a fazenda aqui, Fazenda Bom Sucesso, onde
hoje é o Meca. Era tudo mato. Não tinha casa nenhu-
ma. A Vila Minalda era mato. (A fazenda) ia do Meca
até lá na Casa Branca. A divisa dava naquela cerca
da Casa Branca, pra cá, até no Antônio Randolfo. Era
cento e vinte alqueires de terra. (Papai) produzia café.
Veio pra Cataguases porque a minha irmã, a mulher
do Carlos Carvalho, chamou ele pra cá. Se ela não
chamasse, ele não ia tirar o dinheiro do Neca Teixeira.
(Meu pai) ia vendendo o café e o dinheiro ficava de-
positado com o Neca. Mais aí o Neca ficou querendo
quebrar, aí minha irmã telefonou. Ia procurar uma fa-
zenda pra ele aqui, pra ele tirar o dinheiro. Meu pai
tirou o dinheiro pra comprar a fazenda, e aí não tinha
mais o dinheiro todo, tinha a metade. Levou prejuí-
zo. Comprou a fazenda do Capitão Ismael, que tinha
comprado do Carlos Louro. (Papai) plantou muito
café. Aqui em Cataguases vendia pro João Tartara, ali
perto da estação. Ele tinha um depósito ali, onde hoje
é o Dino. Comprava café de todo mundo.

219
Meu pai tinha uns vinte empregados. Cada
um tinha a sua casinha. Ele dava o quintal pra plan-
tar e eles trabalhavam pro papai. Quando o papai
não tinha serviço, trabalhavam pra eles, quintalzinho
deles. Empregado naquele tempo era uma coisa me-
donha. Não tinha renda nem lucro nenhum. Ficava
lá... se o sujeito fosse bem empregado, continuava;
se fosse ruim, mandava embora. E tinha que ir em-
bora mesmo, não tinha lei pra segurar o empregado,
não tinha lei pra pagar nada. Hoje o empregado tem
a segurança. (Papai) dava uma terrinha pra plantar
e sustentava eles também. Precisava de mantimento,
ele sustentava. Matava e repartia dois capados por
semana pra eles. Naquele tempo... sei lá, eu acho que
naquele tempo era muito melhor. Ele tinha muito ga-
do, mas não dava leite quase nenhum, porque não ti-
nha trato. Ficava lá pro pasto. Só tirava leite e soltava
pra lá. (O leite) era vendido na rua e na cooperativa.
Na roça tinha muita festa. Todo sábado tinha
baile. O pessoal era muito animado naquele tempo.
E não tinha esse negócio de briga não. Hoje é até um
perigo ter festa. Os vizinhos ia, todo mundo ia. Mês
de Junho, dia de São João, de Santo Antônio. Pra
baixo um pouco (da sede da Fazenda) tinha um en-
genho, um salão grande. Cá embaixo, onde o Plínio
Guilherme tinha um engenho, era ali que era o salão.

220
Naquele tempo tinha sanfona. Dançava quadrilha,
dançava calango, valsa...
Meu pai voltou pra passear na (Itália) pra visi-
tar os irmãos dele. O dinheiro que ele ganhou no café,
em Tocantins, deu pra ele ir na Itália e comprar a fa-
zenda. Com duzentos mil réis deu pra ele fazer tudo
isso. Nessa época do café muita gente quebrou. Muita
gente quebrou porque achou que o café não ia abaixar
mais, ia só subir. Então, danaram a comprar uma por-
ção de coisa, comprar tudo, terreno, sabendo que o
café ia... pagar com o café. Aí o café deu aquela baixa,
do Artur Bernardes, o pessoal ficou tudo doido.
Lá (na fazenda) fiquei quarenta anos. Meu
pai, antes de morrer, repartiu a fazenda toda. Doze
irmãos. Sete mulheres e cinco homens. Fui operado
duas vezes de estômago, não podia trabalhar, não
podia pagar empregado, como é que eu ia ficar lá?
Meus meninos pequenos... falei: “ah, o quê que eu
vou ficar fazendo aqui?” Aí eu tive que vender. Três
irmãos estão lá ainda. Eu sou o mais velho.
Vila Minalda... quando (meu pai) vendeu (a
fazenda) já tinha “muncado” de casa. Quer dizer, não
tinha muita não, mas tinha “muncado”. Agora, quan-
do nós viemos para aqui, não tinha casa nenhuma
não. Só tinha ali um correio de casa, ali no Capitão
Marcos, tinha ali umas dez casinhas, e tinha uma

221
chácara do Mazinho, até lá em casa, não tinha duas
casas. Era tudo limpo. Só tinha pasto e o rio. A estra-
da passava cá embaixo na beira do rio, depois fize-
ram pra cima.
Hoje a lavoura está uma coisa medonha! Por
que? Porque fica lá na roça, ganha pouquinho, e na
rua ganha mais. Vai procurar onde ganha mais nas
fábricas. Ah, não aguentei ficar na roça mais não. O
meu irmão tá. Só tem ele e a mulher dele. Não tem
empregado, não pode pagar.
Ah, o movimento aqui era... melhorou mui-
to, né! Aqui pro lado do Ibraim não tinha bairro
nenhum. Tudo era roça. Isso aqui tudo era fazenda.
E comprei muito gado aqui, ó: Geraldo Ferras, do
Ibraim Mendonça, do Veríssimo Mendonça. Isso aqui
era tudo fazenda deles, o Coronel, não tinha casa não.
Granjaria... Granjaria era um brejo que Deus me li-
vre! Ali pra baixo do Ginásio, tudo brejo pra ali afora,
não tinha casa nenhuma. Cataguases cresceu, cresceu
demais!
Ah! (Prefeito) eu acho o Dr. Edson Resende foi
um administrador muito bom. O comércio aqui não
era bom não. Não tinha tanta fiscalização igual tem
hoje. Entrava com o comércio lá, negociava o ano in-
teiro, a coisa era um preço só. Não tinha esse negó-
cio de hoje é um preço, amanhã é outro, depois é ou-

222
tro. Negócio de fiscal em cima, não tinha nada disso.
Você abria lá o seu botequim, pagava aquele imposto
só, pronto. O ano inteiro. Só pagava aquele. Abriu
fábrica, o pessoal vieram, foram largando a lavoura
e vieram pra fábrica. Depois o Getúlio Vargas botou
uma lei apertada pra roça e favorecendo o comércio.
Aí foram largando a lavoura, ia tudo pro comércio.
Ah, eu gostava (de política). Toda vida nós
votamos no Pedro Dutra. Quando nós mudamos pra
aqui, ele ajudou muito o papai. Então o papai... tinha
lá uns empregados, então ele votava pro Pedro Dutra.
Dia da eleição, enchia um caminhão de empregados,
vinha tudo votar no Pedro Dutra, de boa vontade. Eu
andava atrás de comício. Não fazia campanha não.
Só votava.
O Tiro de Guerra aqui era o seguinte: cê tinha
que comprar a farda e ainda pagava por mês. Não ti-
nha igual a hoje não. Ah, era pesado! Nossa Senhora!
Era um ano e dois meses mais ou menos. (A sede)
era atrás da Igreja Santa Rita. Ali tinha uma casinha
velha, depois do Sindicato. Não tinha todo ano não.
Era de três em três anos que vinha Tiro de Guerra
pra aí. Então, havia lá sessenta, setenta, pronto, aca-
bava. Daí a dois, três anos, tornava a voltar o Tiro de
Guerra. Agora eles quer acabar, porque tá indo pouca
gente, né?

223
Eu sou católico. Frequento sempre. A Igreja...
tudo é bom. Já fui até sacristão. Lembro do Padre
Modesto, Padre Chiquinho, Padre Cota... Quando
nós mudamos pra aqui tinha o Padre Rosa, depois
que veio o outro padre, o Padre Solindo. Ah, o Padre
Solindo... Aquela Igreja que tem aí, ele que... o ser-
viço é dele, né. Ele que construiu ela. Agora, depois
dele tem o Padre Antônio. Também é muito bom. Ah,
a Igreja antiga eu acho que era mais bonita. A cons-
trução de hoje é melhor, mas a antiga era mais bonita.
Eu casei em (19)49. Tenho três filhos: Nicolau,
Vera Lúcia e Antônio Carlos. Os meninos criaram lá
na roça. Depois que cresceram um pouquinho, vie-
mos embora pra rua. Abri uma vendinha aí, um bar-
zinho.
Ah, os amigos! Têm muitos. O doutor Walter
foi meu colega no Ginásio. O Milton Peixoto, João
Guimarães... foram tudo colegas, eles iam muito lá
em casa também. O Silvio da Nacional, nós fomos
criados quase juntos, o Joaquim, pai do Dr. Célio, o
Atheniense...

Entrevistado por Glaucia Siqueira e José Luiz Batista, em 29/09/1990.

224
225
RODRIGO LANNA
INDUSTRIAL

72 anos

Eu nasci quase no século passado, em


1917: tinha só dezessete anos esse século! Mas espe-
ro chegar no fim desse século. Eu sou mineiro, sou
da cidade de Rio Casca... Eu vim para Cataguases
há quarenta e cinco anos. A diferença é tão grande
que, quando eu vim para Cataguases, eu me lembro,
que para ir ao Rio eu ia de automóvel. Quando eu
chegava ao Rio tinha vergonha de entrar no hotel...
Ficava coberto de poeira dos pés à cabeça! Eu tinha
que entrar pelo elevador dos fundos... Antes eu pas-
sava no posto, pegava um moço lá, pegava um moço
lá e mandava “soprar” as malas para tirar a poeira e
“soprava” a gente também! Usava guarda-pó...

227
Vocês estão falando sobre o passado de
Cataguases... A “Astolfo Dutra” chamava Avenida
Cataguases. A Praça do Comércio é a (praça) Rui
Barbosa... Vila Domingos Lopes... Rua Monsenhor
Araújo... Hoje não sei qual é. A casa mais bonita
que tem em Cataguases é o prédio da Prefeitura! A
Matriz de Cataguases... O maior crime que se fez em
Cataguases! Por que não fizeram a Igreja em outro
lugar e conservava essa?
Eu vim para aqui e montamos essa indústria
aqui em Cataguases. Começamos a trabalhar jun-
to com meu sogro (Manuel Peixoto) que era indus-
trial. Então nós fizemos uma sociedade, fizemos a
Manufatora e começamos aqui em 1943. Nós não fi-
zemos o prédio. Nós alugamos um terreno ali atrás
da Estação, onde hoje fica uma fábrica de carpete,
ou coisa assim, e ali nós começamos a Manufatora.
Fizemos... trabalhamos lá uns tempos e depois com-
pramos o terreno aqui e fizemos a construção da fá-
brica aqui. Nós compramos umas máquinas velhas
no Rio. Foi durante a guerra... Não tinha máquinas.
Então nós compramos máquinas velhas no Rio e
trouxemos e montamos aqui. Já eram usadas, ingle-
sas, tinham... Vinte anos. Hoje tem nacional, alemã,
tem inglesa... de várias procedências. Temos até mui-
tas máquinas nacionais, nacionais e boas. No período

228
da guerra não se podia importar nada. Então foi se
criando a mentalidade de fabricar as coisas no Brasil.
Isso foi muito útil! Hoje tem muitas fábricas de má-
quinas no Brasil.
Toda a minha vida de industrial é feita da
Manufatora. Vai fazer 45 anos! No mesmo ano em
que fundamos começamos a funcionar. Existia a
Irmãos Peixoto e a Companhia Industrial de Tecidos...
Só essas em Cataguases. Eu fazia fios e vendia para
São Paulo. Depois de uns três... quatro anos comecei
a fazer tecidos, aí vendia no Brasil todo. Hoje eu ven-
do no Brasil todo: do Ceará ao Rio Grande do Sul. Já
exportei, mas não estava sendo econômico. Exportei
para a Alemanha e para os Estados Unidos... Isso de-
ve ter uns quinze anos.
Aqui em Cataguases, o empresário... Ele não é
dono de fábrica, ele é industrial. Porque um “dono de
fábrica” só compra uma fábrica e vai viver no Rio, na
cidade grande e deixa a fábrica correndo, entregue a
subordinados. O industrial mesmo é aquele que vive
dentro da fábrica. É o que aconteceu aqui. Todo o in-
dustrial de Cataguases vivia dentro da fábrica. Então
a gente sente muito mais os problemas da fábrica e
passa a amar muito mais a fábrica. Também começa a
investir todo o lucro da fábrica, da empresa, na pró-
pria fábrica.

229
Todos nós, todos os industriais daqui, de ma-
nhã está na fábrica e passa o dia todo na fábrica. Isso
é muito importante. A pessoa se identificar dentro do
trabalho dela, dentro da empresa, passa a viver com
mais profundidade os assuntos da fábrica.
Nós começamos aqui a indústria com trinta
operários. Hoje temos mil! A fábrica também foi cres-
cendo, crescendo, crescendo e sobretudo se moderni-
zando. Porque fábrica que não moderniza certamente
ela acaba tendo que fechar. E a gente aqui no Brasil
tem muita dificuldade para modernizar uma indús-
tria. Os empréstimos aqui, o prazo máximo que a
gente consegue são cinco anos... e nossos juros aqui
são uns juros absurdos!
A indústria têxtil, ela é cíclica. Ela tem geral-
mente uns anos bons e uns anos ruins... então sempre
viveu nesse período: um período ruim e um bom. O
período bom nós aproveitávamos e trabalhávamos
e no período ruim a gente trabalhava mais! E aí au-
mentava a produção. Quando entrava no período
ruim... é aqui que nós produzimos pouco, o nosso
custo fica muito elevado e aí fica muito elevado e aí
fica difícil vender o nosso produto.
Houve depois da guerra, que foi um período
maior, assim... de movimento industrial... Se bem que
não tenhamos sido beneficiados com isso, porque

230
nós estávamos iniciando a nossa vida industrial... As
outras fábricas, quando elas cresceram – a Industrial,
a Irmãos Peixoto foi justamente nesse período. Agora
nós não, porque nós estávamos no início da ativida-
de. Teve um período ruim, que foi o período depois
da revolução, em (19)64. Esse foi um período difícil
de acomodação. E agora (1988) eu considero o pior
período que já tivemos.
Existe uma impossibilidade de ampliar a in-
dústria, da indústria capitalizar para desenvolver,
porque a indústria é, antes de tudo, um bem social.
Porque a indústria não é do diretor, não é minha, não
é do meu filho, não é de ninguém! A indústria fica
aí, as gerações vão passando e a indústria está aí tra-
balhando, dando trabalho para os operários e todo
mundo vivendo em torno dela! Não só diretamente
que somos nós que trabalhamos – mas como indire-
tamente, porque quase tudo gira em torno da indús-
tria ou em torno da agricultura. Porque são as duas
únicas duas fontes que geram riquezas. As outras
fontes giram em torno daquilo que se produz.
Nós aqui da indústria e da agricultura somos
os únicos que vamos buscar dinheiro lá fora para
a nossa cidade. A indústria vende pra fora e traz o
dinheiro de fora pra cidade. Nós somos um grande
responsável, também, no pagamento de impostos.

231
Então, sem a indústria e sem agricultura não pode
haver progresso. A medicina, as profissões liberais
têm que viver em função da indústria e da agricul-
tura... Aqui a agricultura é pequena, pobre e rudi-
mentar... Eu acho que tem que haver uma convivên-
cia muito estreita, porque a agricultura depende da
indústria. Porque é a indústria que vai industrializar
a agricultura. O café... Ganhou-se muito dinheiro, os
fazendeiros ganharam dinheiro demais!
Em São Paulo, o grande desenvolvimento de
São Paulo, quando vem o período do café. Então, os
fazendeiros, ganhando muito dinheiro no café come-
çaram a desenvolver outras atividades no setor da
indústria.
Vieram muitos estrangeiros para as fazendas
aqui (no Brasil) e começaram a recorrer a isso: ver as
faltas que tinha no Brasil e desenvolver a indústria. O
grande desenvolvimento da indústria em São Paulo
se deve à agricultura. Mas hoje, o povo da roça, da
zona rural foge para a cidade... Para os arraiais, os
distritos assim melhores, porque sente falta desse
convívio com a luz elétrica... A televisão, um clubezi-
nho, um barzinho para beber a sua cerveja, bater um
papinho e tal. Sente falta disso... Então procura sair
pra cidade ou pros centros mais urbanizados... Não
tem condições mais de prender o colono lá... Eles es-

232
tão pondo condução, transporte para levar o homem
ao campo, condução fácil pra levar o homem da fa-
zenda pra trabalhar.
Eu ingressei na carreira política... eu não fui
bem político, não, eu fui prefeito. Porque nunca tive
tendência política, não aceitaria nenhum cargo que
não fosse aqui em Cataguases. Fui prefeito porque
eu poderia trabalhar na minha indústria. E o pesso-
al da cidade, os amigos, reuniram e vieram aqui, por
várias vezes: “Aceita. Nossa situação é difícil! Podia
colaborar com a cidade!” E eu achei que eu pode-
ria ajudar a fazer alguma coisa para a cidade. Então
eu aceitei. Assim como aceitei ser diretor do Clube
Social, diretor da Cooperativa dos Operários... Eu
passei por varias funções dessas. Eu fui prefeito por
duas vezes, pela UDN e pela ARENA.
Na época da revolução (1964) eu era prefeito.
Eu acho que primeira (gestão) eu tive uma adminis-
tração assim... Que apareceu mais... por circunstân-
cias...Algumas coisas na cidade tinham que ser aten-
didas com mais urgência, no meu modo de pensar.
E já na segunda eu atendi mais o serviço de base.
Aquele serviço que nenhum prefeito gosta de fazer,
que não aparece!
Eu trabalhei mais em rede de esgoto, rede de
águas pluviais... esse serviço assim mais de estrada

233
pra zona rural. Eu tive sempre muita preocupação
em fazer o trabalho da zona rural. Eu acho que a zo-
na rural, ela precisa de muita assistência. Pra ver se
gente consegue fixar mais o homem no campo. Está
havendo um êxodo tão grande do homem do campo
para a cidade, que precisa que o governo tome uma
medida muito séria nesse sentido.
Uma coisa que tem também prejudicado muito
a zona rural são essas leis trabalhistas muito avan-
çadas. Porque o homem do campo, ele não tem uma
cultura e não tem uma assistência: ele não tem con-
tador, ele não tem advogado para ficar orientando...
Então, o que acontece? Começa a ver essas leis traba-
lhistas, que são muito severas no campo, ele desani-
ma: “Eu vou ficar aqui, botar empregado aqui... esse
empregado fica uns anos, daqui a pouco entra com
a lei trabalhista e acabo perdendo tudo e tal.” E real-
mente ele desanima, porque ele não é preparado para
isso. Nem o operário do campo é preparado e muito
menos o patrão!
O Getúlio Vargas fez umas leis muito bem
feitas. Começou essas leis trabalhistas, que são uma
necessidade. Mas se o governo não aplicar essas...
Como agora pela constituinte nova, a preocupação
em fazer leis trabalhistas na Constituinte agora... Seis
horas de trabalho...

234
Eu sinto aqui pelos operários da fábrica. Todos
eles vivem pedindo para fazer hora extra, porque
eles precisam de mais horas de trabalho pra ganhar
mais dinheiro. Eles falam assim: “O que adianta eu
ficar à toa em casa, se eu não estou ganhando dinhei-
ro, se não tem comida na panela que dá pra eu co-
mer? Eu prefiro trabalhar mais.”.
Agora, aqui (no Brasil) nós trabalhamos pou-
co e ganhamos pouco e ganhamos pouco. Eu prefiro
trabalhar mais e ganhar mais um pouquinho. Porque
na Alemanha, na Suíça, nesses lugares que andei, o
operário tem uma produção fantástica! Não é que ele
trabalhe mais do que o nosso não. Só que tem que ele
tem outros elementos pra trabalhar que nós aqui não
temos. Nós vivemos angustiados vendo angustiado o
operário! Nós empresários, vivemos a mesma angús-
tia porque eu tenho que remodelar minha fábrica! Eu
não posso ficar com a minha fábrica parada porque
senão eu tenho que procurar o ferro e fechar tudo e
amanhã eu não tenho nada aqui!
O Brasil é um país que tem que ser um país
agrícola. O nosso potencial com a agricultura é tão
grande que nós não podemos descuidar da agricul-
tura. Nós temos que alimentar muito bem a nós bra-
sileiros e a muitos países aí fora. Terras como nós te-
mos é muito difícil de encontrar! E clima como nós

235
temos também! Nós podemos trabalhar aqui na agri-
cultura quase doze meses por ano. Por isso nós temos
que fixar o homem no campo. O Brasil está devendo,
cheio de dívidas, gasta mais e quer trabalhar menos!
O operário aqui não. Ele trabalhou as oito horas, saiu
daqui, acabou! Então se ele trabalhar mais, se todos
nós trabalharmos mais, nós íamos ter mais produção!
Quando você deve o que você faz? Você faz mais eco-
nomia e trabalha mais pra pagar a sua dívida!
De um modo geral, tem exceções, o operário
se sente satisfeito, gosta da fábrica. Ele é atendido
com todo... A gente atende, qualquer operário fa-
la comigo... Agora, conforme o assunto ele vai no
Departamento Pessoal e fala. Eu não atendo o operá-
rio porque não é possível. Se não eu ficaria o dia todo
conversando com o operário e não podia trabalhar.
Agora, se ele acha que tem que falar comigo, pode vir
cá e falar comigo. Castigo não tem não. Dentro da fá-
brica ninguém tem essa mentalidade. Principalmente
os dirigentes nunca tiveram essa mentalidade! Se
houvesse uma coisa dessa chamaria atenção. Agora,
o que pode ter havido também é isso, às vezes algum
empregado... A pessoa agride ele agride também.
Uma coisa assim, isolada. O encarregado tem que ter
a sua autoridade, senão vira bagunça na fábrica. Se
eu chego aqui dentro da fábrica e tem lá aquele pes-

236
soal brincando, conversando, eu não chamo a aten-
ção do operário. Eu chamo a atenção do encarregado,
ele que é responsável!
Greve só houve o ano passado (1987) na Com-
panhia Industrial. O homem é um eterno incomple-
tável! Ele está sempre mal satisfeito. Você procura o
operário, ele está mal satisfeito... Você como profes-
sora está mal satisfeita, você procura um médico ele
está mal satisfeito, queixando... Vai para um advoga-
do, ele pode estar ganhando dinheiro, mas está mal
satisfeito, queixando... Mas a greve em si, aqui o que
houve... aliás, um mal entendido. Às vezes o modo
de encaminhar assunto... Você faz uma reivindicação.
A reivindicação muitas vezes não pode ser atendida
no momento. Pode ser que até pra futuro próximo
seja atendida. Às vezes no momento não pode. Então
a pessoa fica insatisfeita e aí aparece... Porque quem
faz greve, só dois, três por cento que fomenta a gre-
ve! Sessenta por cento não está nem querendo saber
de greve! Outros trinta e tantos acompanham! Então
tem uma liderança que faz greve. Hoje em dia quem
fomenta greve não é operário. É mais o homem pú-
blico, o político. E mais aqueles que querem levar
vantagem, insuflando praticamente... O medo deles,
porque não é tanto do operário que parte isso não.
Naquela época eu conversei com os operários sobre

237
isso: “Não, não! Nós não temos nada que nos queixar
não! Nós estamos satisfeitos com o salário, porque
ninguém está! Nós estamos achando que estamos ga-
nhando pouco. Não quer dizer que a fábrica possa
pagar. Também não sabemos que se a fábrica pode
pagar mais, mas que está pouco está!” E o de todo
mundo está pouco! Quem está ganhando bem hoje?
Só virando marajá... mas são poucos também!
Durante as campanhas, no ardor da campanha
(política), pode sair – eu não digo pela direção da fá-
brica – pode sair até pelos próprios operários, encar-
regados, médicos... pode sair essa pressão. Não, não é
pressão não. Não havia assim... O pessoal da fábrica
não fazia essa pressão. Agora, eu não digo também
que não tenha havido porque isso é natural. Trabalho
político aqui dentro, isso já houve. Isso aí não está...
A função dele é outra! Ele não pode sair da máqui-
na dele, a pessoa não pode abandonar uma máqui-
na... Uma máquina sozinha é um perigo! Máquina é
máquina, se ela der um defeito pode trazer um pre-
juízo muito grande. O operário tem que ficar na sua
máquina! De um modo geral são insuflados, porque
muita gente fica insuflando dentro da indústria. Não
tem nada a ver com o operário.
Eu espero ter transmitido aqui o meu pensa-
mento. Nós precisamos levantar firme nesse espírito

238
em Cataguases, porque a gente tem que deixar algu-
ma coisa. Porque nós aqui nos preocupamos muito
pouco com o passado. A gente tem que saber esse
passado porque esse passado é importante pras ge-
rações. Mesmo que seja um passado simples, mas é
importante para as gerações futuras saberem o que
foi feito. Enfim, a verdade é essa: o que nós temos
hoje nós devemos aos nossos antepassados. Uma ci-
dade às vezes é um pouquinho... Se reclama muito,
exige: “Ah! Não sei o que... as pessoas são antigas e
tal...” Mas o que elas têm, sem dúvida, são coisas dos
antigos. Nós estamos deixando para as gerações o
patrimônio que deixaram para nós.

Entrevistado por Glaucia Siqueira, Hedileuza Maria de Oliveira Vala-


dares e Mariana Cândida Cardoso de Almeida, s/d.

239
W I L S O N VA L V E R D E
( C i c i n h o Va l v e r d e )

63 anos

(Somos muitos irmãos) Somos... so-


mos quatro mulheres e nove homens.
A minha infância... eu sou dos mais, eu sou o
penúltimo...
Meu pai era sitiante. Ele veio pr’aqui... ele
morou em diversos lugares aqui em Cataguases,
já morou aqui na Rua do Pomba, ali onde está a
Industrial, ali, agora tem um muro lá; ali também foi
uma casa que pertenceu a ele. Depois ele comprou
esse terreno lá, foi o último lugar onde ele ficou. Dali
ele não saiu mais não. Ficou até quando ele fale-
ceu, 1956. Mas foi 1950 por aí... a desapropriação é...
Dr. Pedro aqui... quis fazer o instituto Flávia Dutra,
até houve uma briga muito grande nessa época do

241
Doutor com os Peixoto. Doutor Pedro queria co-
locar o nome da esposa dele, Dona Flávia Dutra, e
os Peixoto não quiseram deixar, então ia lá escrevia
Grupo Flávia Dutra, aí o João Peixoto mandava des-
manchar e botava Grupo Nísio Batista, ficou aquela
pendenga, não é, até que um dia o Doutor requisitou
a polícia, o Manoel Teixeira é que era o delegado. Foi
para lá com um pintor e passou a vigiar o muro e
não deixou ninguém desmanchar, está lá até hoje, o
Grupo Flávia Dutra.
É, pra fazer... é, o Flávia Dutra e desapro-
priaram... lá na frente tinha uns proprietários, mas o
terreno ficava muito pequeno para os trabalhadores,
precisava de um pátio, então tiveram que desapro-
priar, até foi uma quantia irrisória, sabe.
Não. Teve com esse nome, né? (Nísio Batista).
João Peixoto é que mandava desmanchar o Flávia
Dutra e colocava, mas depois o Governo oficializou
como Flávia Dutra. Enquanto o governo não oficiali-
zou não sossegou aquilo lá. Ficou vigiado pela polí-
cia dia e noite, ficou o nome de Flávia Dutra, depois
o governo oficializou, aí encerrou a questão.
A minha infância é... começou na... eu sou de
(19)29. Em 1940 é... que a gente começa arribar, não é.
Certo, aí eu já estava com onze anos, já tinha
feito... escola e até foi que aconteceu um fato engraça-

242
do: eu estudava no Grupo Coronel Vieira aqui e nes-
sa época em Cataguases existia os escoteiros, Cabo
Hélio da polícia é que comandava os escoteiros e ele
tinha um time de futebol, tudo menino de onze anos,
doze anos, mas um timaço de bola, bom mesmo! E eu
era inveterado em bola, então aconteceu uma coisa,
quando nós estávamos terminando o quarto ano aqui,
eu estava participando dos escoteiros, sabe, veio um
inspetor escolar aqui. Hoje até é mais fácil, antiga-
mente era muito difícil de uma autoridade dessas
visitar a cidade, sabe? Então ele veio aqui e visitou
o quarto ano e falou que o primeiro aluno de quarto
ano ia ganhar o curso ginasial gratuito. A gente pa-
gava; o ensino não era gratuito não. Até que aqui em
Cataguases, pouca gente estudou naquele ginásio ali,
sabe, muito pouca gente; custava caro, o pessoal não
podia pagar. E dava ali no Colégio Nossa Senhora do
Carmo uma bolsa de estudo para quem ganhasse. A
menina que ganhasse o primeiro lugar. E eu ganhei
o primeiro lugar e uma moça que estudava aqui ga-
nhou o primeiro lugar. Você acredita que por causa
de bola eu não fui? Eu não aceitei a bolsa de estudos,
sô! Eu não aceitei. Que o Cabo Hélio... esse time de-
le era muito afamado aqui em Cataguases, então ele
fazia excursão constante, quase todo domingo, nós
treinávamos dia de semana com ele, então quer dizer,

243
a gente ficava mais empolgado com as bolas que com
os estudos.
Os [meus] pais deram de cima, mas não te-
ve jeito não, sabe. Nessa época eu estava com uns
doze anos, estava aquele meninote já desenvolvido,
né. Eu até... se a mamãe naquela época me desse
uma surra, daquela boa mesmo, por eu não ter ido,
porque isso depois custou caro, porque quando eu
acordei que eu precisava estudar, eu já estava com
meus dezoito anos, e o que fez eu estudar foi uma
namorada.
Fiquei. Parei, né. Depois, com uns quinze
anos mais ou menos eu aprendi a escrever à máqui-
na de datilografia e o Aladim tinha ali embaixo, ali,
o Armazém Indaiá, até uma firma enorme, uma das
maiores firmas de Cataguases, vendedores de cerve-
ja Brahma, Antarctica, Guaraná. Lá dentro tinha vin-
te tonéis de vinte mil litros cada um de aguardente
e tinha dez de álcool. Nós exportávamos aquilo lá.
Nós exportávamos aguardente para essa região toda
aí, Rio de Janeiro, São Paulo... comprava aguarden-
te aqui da Usina Santa Teresa, comprava e guardava,
ficava parado no Aladim. É onde está aquela loja do
Cabral, lá embaixo na Vila.
Aquilo ali era tudo do Aladim, só de lá que é
agora, o de cá foi vendido pro Cabral, aquilo lá é dele

244
ainda, tem uma porção de loja ali, né, daí ele foi para
Juiz de Fora.
Eu fui trabalhar, sabe, e foi nessa época que
eu conheci uma menina, namorei essa menina e por
causa dela eu destampei a estudar tudo, eu fiz curso
de eletricidade, fiz curso de contabilidade, estudei in-
glês. Querendo arribar na vida para poder casar com
ela, e não casei.
Casei com outra, mas a outra demorou. Fui
casar com trinta anos de idade. Naquela época eu es-
tava com dezoito anos, mas eu era muito sensato, sa-
be, porque eu percebi, eu lia tanto, eu gostava muito
de ler filosofia e eu lembro o que um filósofo disse
que o lar... que a miséria entra pela porta da frente e
o amor sai pela porta dos fundos, pois é, por causa
disso, eu decidi não casar com ela não. Preferi não ter
ela como esposa do que perder depois, né, deixei ela
cuidar da vida dela e fui cuidar da minha, não é.
(Ela) Era da fábrica ali... eu tinha mandado
ela desmanchar um namoro, ela foi embora para São
Paulo, muito bonita, na época era uma das moças
mais bonitas de Cataguases. Todos os homens, toda
rapaziada ficava de olho nela, sabe, era muito more-
ninha, da cor de jambo, muito bonita, ela foi embo-
ra para São Paulo, lá ela casou, é milionária atual-
mente. Ela mora na zona mais chique de São Paulo.

245
De vez em quando eu converso com ela no telefone.
Muito rica.
Ah!!! Eu desastrei a estudar, porque eu ti-
nha esperança de um dia ir atrás dela, sabe, um dia
equilibrar na vida, e eu lembro que em 1947, eu já
me dediquei à política, sabe, eu entrei na época que
Dr. Pedro... era aqui ó, onde está o Zé Resende aqui
agora, ali era o escritório do Dr. Pedro Dutra, e nes-
sa época, já comecei a participar da vida política de
Cataguases.
Em 1947 votei a primeira vez, General Dutra,
Presidente da República, tinha havido eleição para
prefeito, mas nessa eu não era eleitor não, eleitor era
só com dezoito anos nessa época; aí eu completei de-
zoito anos, requeri o título, e eu desde essa época em
diante, eu passei a... engrenei na política com o Dr.
Pedro Dutra.
Foi através da minha vida, da minha partici-
pação constante e permanente, foi em 1947... estamos
em 1992, são 45 anos desempenhado nisso.
Em 1955 eu fundei aqui em Cataguases o
Partido Socialista Brasileiro, está aí até hoje, e eu pas-
sei a ser presidente dele, mas sempre entrosado, por-
que os partidos fortes em Cataguases eram a UDN
dos Peixoto e o PSD do Dr. Pedro. Nós éramos aque-
la coisinha pequenininha, nós tínhamos que agarrar

246
de um lado né, agarrar na canoa de alguém, né, e
nós ficávamos ligados com o Dr. Pedro Dutra, isso
foi até 1965 quando ele morreu. Aí em 1964 houve
a revolução, eu fui preso, porque nós comandamos
aqui em Cataguases – aliás eu estava na cabeça dis-
so aí, sabe – estava comandando o movimento aqui
em Cataguases, mais ligado às reformas de base
pregada pelo Leonel Brizola. Brizola veio pregando
aquilo, e nós... eu achei aquilo muito importante:
reforma agrária, reforma bancária, uma reforma ur-
bana. Ele pregava, dava uma explicação detalhada
sobre aquilo e então nós engrenamos naquilo, sa-
be, nessa participação com o Brizola. Mas aconte-
ceu que o Jânio Quadros ganhou a eleição em 1960
e aconteceu um fenômeno em Cataguases: foi uma
das poucas cidades do Brasil que o Lotti, adversá-
rio do Jânio Quadros, ganhou a eleição, ganhou dos
Peixoto aqui em Cataguases. Mas o Jânio Quadros re-
nunciou sete meses depois, não quiseram dar posse
ao João Goulart, até criaram o Parlamentarismo, que
estão querendo votar agora de novo e deram posse
ao Tancredo Neves como primeiro-ministro. Então,
partiu o poder ao meio: João Goulart ficava com de-
terminado setor de poder e o Tancredo Neves com o
principal, mas durou pouco; veio o plebiscito e aca-
bou com o parlamentarismo no país.

247
João Goulart assumiu o poder todo e sua pos-
se desencadeou no país uma luta titânica pelas re-
formas de base, muito violenta mesmo; pensamento
comunista por um lado, foi surgindo líderes de toda
maneira, lutando por essas reformas de base. Mas
a reação se organizou, dirigida pelo Carlos Lacerda,
e depuseram Goulart. Então, no dia 31 de março,
quando estourou a revolução, cinco horas da manhã,
eu estava preso.
Fiquei preso três meses.
Foi muita gente preso, né, aqui em Cataguases.
Eu cheguei a... eu estava, eu percebi que o João
Goulart não ia reagir, então eu estava preparando
pra sair fora; tem até aquele morro lá em cima de ca-
sa, a gente sobe, atravessa, sai lá na estrada. Então
eu estava preparando para isso, para dar o fora, e aí
apareceu minha irmã lá em casa, ela tomava conta
do Hotel Cataguases, a Lídia, ela apareceu lá em ca-
sa mais ou menos às quatro horas da manhã e eu saí
com eles; foi quando nós fomos cair nas garras da po-
lícia. E eles, como já estavam me procurando mesmo,
né, cinco horas da manhã eu estava preso. Fiquei três
meses.
Aqui Dr. Pedro soube que eu estava preso e
impetrou um habeas corpus, e o Dr. José Ferreira dos
Santos, você conheceu ele?

248
Lembra dele, né. Ele era juiz aqui. Então o
doutor José Ferreira dos Santos começou aquela
pendenga com o delegado, que eu estava preso; o
delegado falava que eu não estava... aí o doutor José
Ferreira dos Santos concedeu o habeas corpus, o dele-
gado não cumpriu não. Quando chegou às oito horas
da noite eles desligaram as luzes em Cataguases e aí
o Rubens estava preso, o Rubens Policarpo, dono da
Ortec, essa Ortec que até quebrou, era contabilidade,
algemaram nós dois e jogaram dentro de uma Kombi,
nos levou para Juiz de Fora, por causa do habeas cor-
pus. A revolução não estava consumada ainda em to-
do o Brasil. Estava no Rio Grande do Sul ainda. Então
eles sumiram comigo mais o Rubens. Nós fomos lá
para Juiz de Fora, para a cadeia; depois fomos lá para
o exército. Aí nós ficamos oito dias, depois nós fomos
encaminhados lá para o DOPS, do DOPS nós fomos
lá para Neves, quinto andar das Neves, ficamos no-
venta dias presos lá, incomunicável.
Eu, Rubens Policarpo, Nanto Siqueira. O
Elmo Siqueira participou ligeiramente, não tinha par-
ticipação ostensiva não, apoiava, mas não participa-
va não. O Zé Rosa, aliás é a história mais triste de
tudo, sabe.
O Zé Rosa era presidente do Sindicato dos
Tecelões, os têxteis. Eles mandavam as pessoas em-

249
bora das fábricas e não pagavam indenização. E o
Zé Rosa, como presidente do Sindicato contratou
o doutor Manoel das Neves como advogado e co-
meçou a tocar demanda em cima das fábricas de
Cataguases e ganharam as demandas todas. Eles to-
maram um ódio do Zé Rosa por causa disso, uma
coisa terrível!
Então o Zé Rosa foi o único que sofreu vio-
lência física; ele apanhou muito. Eu lembro, quando
estava preso na... quando eu cheguei nas Neves, eu
subi até a escada do quinto andar, logo do lado di-
reito desta cela, fui colocado nela. Então toda noite,
mais ou menos uma hora da manhã eu levantava e
estava chegando aquela remessa de preso. Mais ou
menos lá no quinto dia chegou o Zé Rosa. A hora que
eu bati os olhos no Zé Rosa eu falei: Nossa mataram
ele! Estava um cadáver! Verdadeiro cadáver, magro...
você olhava para ele assim, estava completamente
estraçalhado... estraçalhado... é, tem uma história lá,
mas isso não convém gravar não...
É. Nós já estávamos preso lá na Colônia
Magalhães Pinto, porque na das (Neves) ficou tão
cheio. Eu estava sozinho quando cheguei. Mais ou
menos no oitavo dia, tinha dezenove comigo dentro
de uma cela igual a essa aqui. Então nós dormíamos...
só tinha uma cama, eu era o primeiro, eu dormia na

250
cama, os outros dormiam sentados ali, ó, igualzinho
a um chiqueiro de porcos, então tinha que ficar um
pouco de gente das Neves, mandaram um pouco pa-
ra a Colônia Magalhães Pinto. Dezesseis quilômetros
depois das Neves, no meio de um mato lá, numa roça.
Apareceu um ônibus e foram enchendo aquele ôni-
bus, foi levando pra lá, sei que foram uns quatrocen-
tos pra lá. Esse Gilson, estou esquecendo do Gilson,
até faleceu agora, Gilson Chagas, ele ficou preso co-
migo lá... na cela, na Colônia Magalhães Pinto. SAPS,
é. Ele faleceu agora. (Gilson)
É, ele ficou muito doente, ele estava aqui em
Angra dos Reis, trabalhando na época em Angra dos
Reis, depois ele ficou muito doente, ficou ruim.
Mas aconteceu que não fomos pra Colônia
Magalhães Pinto, você verifica, 400 pessoas... e não
tinha água, na Colônia Magalhães Pinto. Então fica-
mos nós, você imagina, lá ficou dois dentro de cada
cela, eu e o Gilson estávamos dentro duma cela mais
ou menos igual a essa (sala) aqui. Tinha a privada,
ali ó, nós tínhamos que almoçar dentro daquela ce-
la, usar aquela privada, ficamos ali mais de dez dias,
fazendo isso, sem água, quer dizer, começou feder,
então, aquele cheiro, aquela catinga horrorosa, nós
era obrigado a alimentar ali dentro, eu lembro que
foi... eu chamei o guarda, sabe, porque os guardas

251
eram proibidos de conversar conosco, falei com o
guarda, ele estava passando assim, vigiando nós, eu
falei: “ô guarda! Fala para o tenente, que eu sou ele-
tricista, vou lá ligo aquela bomba, agorinha mesmo
está cheio d’água isso aqui; ele foi”. Ele falou com o
tenente: “Ó, tem um eletricista aí, pra ligar a bomba
e tal...”. O tenente mandou falar comigo que eu era
subversivo, que eu queria era botar fogo na Colônia
Magalhães Pinto. E nós continuamos sem água. Mais
ou menos lá pelo décimo dia é que o eletricista de
Belo Horizonte apareceu lá, nós estávamos muito
barbudos mesmo, barba grande! Eles deram uma
gilete azul para quatro fazer barba, uma dificuldade
fazer uma barba daquele tamanho com uma gilete
daquelas. Mas aí o que aconteceu lá nas Neves... que
até aí nós estávamos sendo tratado com um “carran-
quismo” danado, o guarda não podia conversar co-
nosco, preso incomunicável, aí aconteceu um acon-
tecimento engraçado, o Juscelino Kubitscheck desce
de avião em Belo Horizonte, o exército foi prender
ele. Quando ele foi preso... porque ele é padrinho
da polícia de Minas Gerais. Quando eles prenderam
Juscelino, lá na polícia, eles ficaram envenenados
com aquilo, muito envenenados com aquilo e chega-
ram um ponto ali que eles ofereceram a nós, se nós
queria ajudar eles a libertar o Juscelino, e nós aceita-

252
mos. Aceitamos e nos prontificamos a participar com
a polícia militar na libertação do JK.
Aí aconteceu que naquele entrosamento, du-
raram uns quatro dias, eles resolveram libertar o JK.
Mas desse dia em diante o tenente deu uma ordem lá,
que as portas fossem abertas às seis horas da manhã
e que nós ficássemos no pátio; só às dez horas da noi-
te nós entrávamos e as portas eram fechadas. Aí nós
saíamos para o pátio, os parentes começaram a vir
nos visitar, nós saíamos lá de dentro, e andava quase
um quilômetro com nossos parentes, não ia embora
porque não queria, não fugiu por que não quis, é que
daquele dia ali melhorou muita coisa para os prisio-
neiros políticos naquela época, adquiriu uma...
E daí pra cá, é, completou mais ou menos uns
três meses de prisão, estávamos retornando, passa-
mos no DOPS, fizemos depoimento no DOPS, depois
viemos aqui pra Cataguases e aqui... mas aí nós res-
pondemos cinco anos de processo no exército, e eu
estava muito bem de vida nessa época, quebrei.
O Emanoel Peixoto era o chefe do gado, o
chefe da UDN em Cataguases. Ele também juntou
o Galba, o Rodrigo Lanna e o Zé Pinto, eles é que
comandaram ali no dia. Os quatro estavam coman-
dando da cadeia, o delegado era novo, não mandava
nada, o doutor Geraldo. Os quatro é que estavam as-

253
sumindo o comando da delegacia, e foi prendendo
um por um e, às cinco horas, quando eu cheguei lá
na cadeia o Galba estava sentado naquela mesa do
delegado, numa cadeira grande, que era a cadeira do
delegado; estava com os dois pés em cima da mesa,
lendo o Jornal do Brasil, cinco horas da manhã. Até
aconteceu um fato: eu cheguei assim em frente dele,
ele abaixou o jornal, olhou e falou assim: “É chato, né,
Cicinho”. Falei: “É, é muito chato mesmo”. Aí o guar-
da me levou lá para dentro da cela, mas foi um dia
só que eu fiquei aqui, por causa do habeas corpus do
doutor Dutra.
Fomos sim, fomos sim, aqui! O nosso... eu
não tenho comprovação, mas o nosso principal de-
nunciador foi o Galba.
Aí eu vim pra aqui, eu tinha loja ali, a
“Eletroluz Ltda”. Loja de materiais elétricos, e no pe-
ríodo de 1959 a 1964 a Força e Luz tinha começado
com essas colocações de caixinhas e nós ganhamos
muito dinheiro; as casas de material elétrico. Eu tinha
– a “Eletroluz” – tinha a “Fênix”, tinha a loja do João
Prata e tinha a do senhor Arlindo lá embaixo. Nós to-
dos ganhamos muito dinheiro nessa época. Eu estava
muito bem, aí eu abarrotei aquela loja ali, peguei to-
do o dinheiro que ganhei e enchi de mercadoria, sa-
be, não tinha essa inflação que tem hoje não, né; mas

254
durante esses cinco anos do processo no exército eu
quebrei, porque na época quem tinha dinheiro para
gastar era eu e o Rubens.
O Rubens era dono da Ortec e eu, o dono da
loja ali. De quinze em quinze dias, mais ou menos,
nós éramos intimado a comparecer no exército. E os
gastos éramos eu e o Rubens que fazíamos, do Rio
de Janeiro/Juiz de Fora, o advogado vinha do Rio de
Janeiro...
É, nós todos íamos para lá. Isso durou cinco
anos, depois de cinco anos é que nós fomos absol-
vidos. Foi aí que nós fundamos o MDB. Em 1968 eu
ainda estava respondendo ao processo, mas surgiu o
MDB, então eu participava da fundação dele, só não
entrei nele, nessa época que eu estava respondendo
processo. Nós fundamos ele aqui. Quando foi em
1970, eu fui absolvido. Em 1972 eu já candidatei a ve-
reador e fui eleito. Em 1973 inauguramos essa casa
aqui (Câmara Municipal). Ocupei a primeira cadei-
ra ali. O Ângelo Rocha tinha comprado isso aqui do
Banco do Brasil e já tinha sido prefeito dois anos, né.
Ele comprou isso aqui e passou a escritura: lá em-
baixo pela Prefeitura e aqui em cima para Câmara
Municipal de Cataguases.
(Fui vereador) Uma vez: 1972, 1973, 1974,
1975, 1976. Quando foi em 1976 eu candidatei a vi-

255
ce-prefeito com o Renê. Aí a Lídia, minha mulher,
candidatou a vereadora. Ela veio para o meu lugar,
mas nós perdemos a eleição para prefeito. A ARENA
ganhou a partida, não é, o poderio econômico de to-
do o tamanho. Deu liberdade à existência de outros
partidos, então tinha que ter, tinha que começar com
partidos, então incluiu o partido da frente do MDB,
Partido do Movimento Democrático Brasileiro, que é
esse PMDB que está aí hoje.
Só MDB. Aquilo não era partido, era um mo-
vimento contra essa revolução que está aí. Aliás, esse
movimento revolucionário foi muito grande, contra
essa revolução foi enorme. Doutor Tancredo Neves
dando uma força, foi uma luta titânica contra a revo-
lução de 1964. Ela veio caindo paulatinamente.
A reforma de base começou mais ou menos
no ano de 1960, mais ou menos por aí, 59/60. Então
aqui em Cataguases foi fundado pela primeira vez o
Sindicato dos Trabalhadores Rurais, nós fundamos
aqui em Cataguases. Até vinha aquelas mulheres,
aquelas crianças com aqueles menininhos no braço,
nós fazíamos umas passeata: isso assustou os Peixoto
de uma maneira tal que, até na época, uma das acu-
sações que foram feitas contra nós é que nós íamos
nos apossar da Fazenda Turiaçu e distribuir ela para
os trabalhadores rurais da região. Isso consta no nos-

256
so processo lá. Mas depois isso até... foi uma bestei-
rada deles, né, que a reforma agrária não ia fazer isso
em Cataguases só; tinha que ser reforma agrária no
país todo, aqui em Cataguases só não adianta.
É, aqui não tem, latifúndio está encravado em
Minas Gerais, mas não é aqui em Cataguases, que é
uma cidade mais industrializada, não tem latifúndio.
Aqui em Minas Gerais está concentrado gente com
400, 500 mil alqueires de terra, parados na mão dele,
terra improdutiva não tem nenhuma finalidade so-
cial. Mas a luta foi travada em torno da reforma agrá-
ria, em torno da reforma bancária e a reforma urbana.
O Brizola considera até hoje, ele acha um absurdo
que as pessoas sejam donas de um grande número de
imóveis e cobram aluguéis extorsivos às pessoas pa-
ra morar dentro de uma cidade. Ele achava, ele tinha
vontade, ele pregava uma reforma urbana, e o plano
dele era que o país acabasse com os aluguéis de casa.
Hoje tem uma organização montada, em todo lugar,
montada em torno dos aluguéis de casa, e também
ficou um problema muito sério porque, de qualquer
maneira, é aquela briga de inquilino contra proprie-
tário. Num tá satisfeito com o aluguel e quer botar o
inquilino para fora, inquilino não tem para onde ir...
fica essa coisa aí... e o governo... ele pregava, ele tinha
vontade de acabar com esse problema.

257
Promover uma reforma bancária, para que os
bancos deixassem de ser agiotas e tivessem uma fina-
lidade social mais elevada; aliás isso é uma coisa que
precisa mesmo, porque hoje você arranja um cheque
especial no banco e paga juros de 43% por mês, não
dá para aguentar. Os juros. Hoje está impossível de
adquirir qualquer coisa, você tem uma vontade de
fazer, de mexer com uma construção de casa, com-
prar um videocassete, um televisor, mas à vista é im-
possível; a prazo, um juro eleva a um preço tal que
você não consegue comprar.
(O Sindicato Rural) Ele durou pouco, porque
logo veio a revolução de 1964 e ele foi fechado, tran-
cado. A polícia esteve lá e trancou, não deixou fun-
cionar e foi todo mundo deposto do Sindicato Rural
de Cataguases. Na época aqui não foi só o Sindicato
Rural não, todos os Sindicatos ficaram sob interven-
ção militar. Nossa atuação era geral, não era só o
meio rural. Rural foi a última coisa que nós fizemos.
Nós trabalhamos mais com os têxteis, que é o maior
sindicato de Cataguases, era o dos empregados das
indústrias têxteis.
O (presidente do sindicato) da época era o Zé
Rosa, se elegeu e foi reeleito para o cargo e tinha mui-
to prestígio com os têxteis. Então foi ali em local ideal
para a atuação política. Fazia muitas reuniões, deba-

258
tes, procurando esclarecer, dar luz à verdade concreta
que existe no Brasil. Nosso povo enxerga muito pou-
co, é cego ainda. Mas naquela época, você pensa bem,
naquela época, na década de 1950...
Começou a melhorar muito mesmo, muita
coisa. Nós começamos a esclarecer, mostrar, esclare-
cer essa luta que o Zé Rosa pregou aqui. O pessoal
era mandado embora das fábricas mas tinha medo
de dar procuração aos advogados para defender os
direitos dele. Ah, porque se der... depois eles como
donos das fábricas... sai de uma e depois não entra
na outra. E aí começou aquela coisa, mas por final
começou a haver algum esclarecimento, o negócio
alastrou, porque antigamente o pessoal não queria
pagar – aliás não era o INSS – era o IAPI – eles não
queria pagar IAPI, tinha os empregados lá dentro
sem contrato na carteira e sem pagar IAPI. Então
quando ele era mandado embora surgia a “inhaca”,
que o doutor Pedro arrumou essa coisa de justiça do
trabalho, o doutor Pedro que arrumou ela, daquela
época para cá. O Zé Rosa contratou o doutor Manoel
das Neves como advogado do Sindicato e começou
essa demanda. Até que o doutor João Resende que
também era advogado do Sindicato, trabalhava no
Banco do Brasil. Morreu de desgosto, que na época
mandaram prender ele também; então ele fugiu para

259
Santana, ficou muito aborrecido com aquilo, já tinha
uma lesão no coração, ele veio a falecer, morreu de
desgosto. (Morreu) novo! Era marido da Terezinha
Marinho, filha do Dirceu Marinho.
Eu, em 1947, tava na rua e conheci o Galba.
Então eu lembro que o Galba me presenteou com um
livro “Manifesto Comunista” escrito pelo Karl Marx.
Depois que eu li aquele livro, adquiri uma luz na mi-
nha vida, uma luz política, passei a enxergar as coisas,
tudo completamente diferente, e foi dali que eu mu-
dei mesmo. Até que o Galba... eu lancei ele candidato
a prefeito em 1957. Só que ele ia ser prefeito em 1958
contra o João Peixoto. Mas quem lançou ele fui eu,
que o doutor Pedro Dutra não queria ele não. Eu era
presidente do Partido Socialista, então fiz um boletim
e lancei o Galba candidato a prefeito de Cataguases.
Com aquele lançamento o negócio alastrou, e o Pedro
Dutra acabou aderindo também e ele foi candidato
do PSD e contra o João Peixoto em 1958. Mas a leitu-
ra, você pode ficar sabendo de uma coisa, eu sou vi-
ciado em leitura até hoje. Adquiri um vício de leitura
que eu não consigo abandonar, quando passo sem ler,
parece que está faltando alguma coisa.
O PCB não tinha filiação não, porque era per-
seguido, então eles evitavam de... o nosso contato era
mais de encontros, não tinha nada escrito não. Em

260
Cataguases já foi feito até escolas do PCB. Naquela
época era o Partido Comunista Brasileiro, não tinha
o Partido Comunista do Brasil não. Mas Cataguases
chegou a um ponto que nós montamos escolas em
pontos diferentes para fugir da polícia e tinha uma
grande quantidade de pessoas que participavam des-
tas escolas. Mas vinha um professor de fora e mar-
cava o dia, ele vinha e dava, depois marcava umas
aulas pros alunos e ia embora, depois voltava. E co-
meçou uma preparação grande aqui em Cataguases
de comuna.
Ah, a doutrina marxista pura, pura! “Marxista
leninista”. Era tudo ali, mostrava... o professor na
época é que mostrava para nós essa exploração que
existe da propriedade, do poder econômico, em ci-
ma de quem trabalha; e quem é dono procura dimi-
nuir o ganho do trabalhador para poder ver se dá
mais lucro, é a chamada “mais valia”, é o lucro. Hoje
o lucro é extorsivo, não está mais aquele lucro con-
trolado, é avançando desbragadamente e o salário lá
embaixo. Quer dizer, eles colocam um presidente da
República feito o Collor, pra conter salários. A fun-
ção do Collor é só essa, né; quer dizer, os banquei-
ros cada vez mais ricos e gente rica não tem proble-
mas, o problema está concentrado em cima de quem
trabalha.

261
O programa do PMDB é muito evoluído; não
é a programação ideal, porque nós estamos vivendo
aqui no Brasil um sistema capitalista de produção.
Produção capitalista é o sistema do proprietário e
do trabalhador, uma pequena parte. A posse das in-
dústrias, da terra, da lavoura... o resto do trabalha-
dor, empregado, vai viver de salário. Agora, mesmo
dentro disso, o PMDB propõe a reforma agrária no
programa dele. O PMDB acha que a reforma agrária
é a base principal para você começar a solucionar o
problema do Brasil. Você sabe, da terra é que vem
tudo, se a terra ficar improdutiva, concentrada na
minha mão, por exemplo, sem eu produzir nada de
bom para a sociedade, quer dizer, eu estou trabalhan-
do contra essa sociedade. E o PMDB propõe assim:
que deva fazer a reforma agrária, dividir isso aí em
lotes pequenos, uma parcela de acordo que dê téc-
nicos para examinar. Por exemplo, esse terreno aqui
vai produzir cebola, este aqui produz alho, este aqui
produz feijão, produz milho. Agora, esse pessoal que
produz tem que ter terra, assistência técnica e gover-
namental; depois de produzir o governo compra este
produto e faz a revenda para o mercado da cidade,
mas ele não pode, de forma alguma, passar por cima
da margem de lucro que o governo limitar para eles.
Esse é que é o plano do PMDB, é difícil de executar,

262
depende de uma série de coisas, porque quem se ele-
ge a deputado federal no Brasil e a senador são os
proprietários, eles é que tem dinheiro para movimen-
tar uma campanha eleitoral, pobre não tem. Eu posso
ter boa intenção, você pode ter boa intenção, mas nós
não temos dinheiro para amanhã fazer uma campa-
nha acirrada e conseguir voto para ser deputado, en-
tão eles se elegem; chega lá, eles é que traçam o des-
tino do país. Quase não conseguem fazer reuniões,
reúnem às terças e às quartas-feiras só, não vota nada
nem quinta nem sexta. Esse congresso parado... fize-
ram a Constituição de 1988, e até hoje não votaram as
leis suplementares, já são cinco anos que o congresso
age assim premeditadamente para não dar essa opor-
tunidade à população de exigir seus direitos. Eles fa-
lam que não está regulamentado, está na constituição,
mas não está regulamentado, então não adianta você
reclamar que não tem regulamentação.
Eu? José Luiz, eu sou ateu, sabe, não é para
desafiar a crença de ninguém não, eu respeito; até
minha mulher é espírita. Eu sou ateu, ela tem muita
liberdade, vai lá para o centro espírita dela, prega o
espiritismo dela, mas eu, até hoje José Luiz, vou dizer
para você sinceramente, ainda não me convenci da
existência de Deus não. Eu já li muito sobre a filoso-
fia dos ateus e a filosofia dos cristãos, mas eles che-

263
gam a um ponto inexplicável porque os cristãos, aliás
os Deístas ou Teístas, eles afirmam que se tudo existe
é porque alguém fez, então é aí que chega o ateu e
pergunta: “quem fez? se tudo existe é porque alguém
fez, quem fez isso?” aí cai num ponto morto. Ele nas-
ceu onde? Veio de onde? Qual sua origem? Por exem-
plo, você verifica, você não encontra um cientista que
acredita em Deus, todo cientista é ateu, existe a maté-
ria que é organizada... Você conhece algum?
Professam, eles podem professar mais so-
cialmente, sabe, mas assim mentalmente, não é não.
Socialmente você vê pessoas que frequentam a igreja,
judeus, mercenários, só pensam na riqueza própria e
ficam frequentando igreja, sabe, mas não é porque é
igreja não, é medo, eles têm medo de Deus, medo do
dedo de Deus, não creio que eles vão ali com a cren-
ça naquela... porque na verdade, se você for explicar
mesmo o porquê de Deus... porque os cientistas ale-
gam que existe a matéria organizada que é formada
por célula, né, que é uma matéria organizada, de on-
de deu a nós o nosso raciocínio, a vida, essa vida que
nós temos. Existe a matéria formada de moléculas,
ferro e outras matérias, tudo bem, não tem raciocí-
nio, são matérias que não tem organização. Eu acei-
tei mais a explicação da ciência do que dos Deístas,
porque você verifica que existe um comércio muito

264
grande atrás das religiões. Esse cara que é dono da
Record, um pastor... Pobres, pobres. Hoje são gran-
des fortunas desse país.
Existem religiosos sérios, gente séria existe,
mas uma grande parte faz disso aí um mercado, um
comércio; quer dizer cada pessoa tem fé, vai ali, chega
ali, cata um “mucadinho” de cada um, daqui a “mu-
cadinho” está com o bolso cheio no final, não quer di-
zer que eu tenha... não quer dizer que não existe não,
eu não sou dono da verdade não, por enquanto eu
estou nessa fase aí, mas pode surgir amanhã alguma
coisa que me esclareça, eu não consegui até hoje.
Ah! Eu esqueci de colocar um detalhe aqui.
Em 1964, quando eu fui preso, eu tinha uma biblio-
teca. Gastei muito com livro, muito dinheiro, aliás eu
fazia questão: todo mês eu comprava alguma coisa;
eu montei uma biblioteca, tinha até “O Capital” em
português. No dia que eu fui preso, a Iolanda ficou
tão assustada que ela juntou com as minhas irmãs e
queimou tudo.
Tudo! Estava aquela ameaça, que eles iam
visitar a casa da gente e se encontrasse ia prender,
prender o pessoal também de casa; tudo que é boato
rolou, picaram assim ó, jogaram dentro de uma ba-
cia, jogaram gasolina e puseram fogo. Eu não consi-
go montar outra igual, já comprei alguma coisa, mas

265
não consigo montar outra igual, também naquela
época era muito diferente, mas hoje não se consegue
mais não, eu tinha livros formidáveis. Faria tudo de
novo. Se eu retornar hoje ao passado, vai começar tu-
do de novo.
A única coisa que eu pude fazer de concreto
foi lutar com esse meu grupo muito pequenininho,
procurando mostrar à população que nós somos uns
explorados pela classe dominante. É isso que nós fize-
mos, eu fui preso por causa disso, porque eu adquiri
uma capacidade maior de esclarecer, de pegar em um
microfone em um sindicato, eu era mais exacerbado,
mais corajoso, mais audacioso. O Emanoel ficou com
muita raiva de mim por causa disso, sabe, eu fiz ele
gastar muito dinheiro. Em 1963, surgiu um padre, pa-
dre Alípio, começou a fazer conferência no Brasil to-
do sobre reforma agrária, reforma bancária, reforma
urbana, reforma tributária. Eu fui ao Rio de Janeiro
atrás dele e dei duro até conversar com ele, consegui
marcar uma visita aqui em Cataguases para o dia 7
de setembro. Bom, nós seguramos até quando pude-
mos a vinda do padre Alípio em Cataguases. Quando
o Emanoel soube, o Emanoel chamou o time do
Vasco da Gama, o “primeiro” time do Vasco da Gama,
pagou o Vasco para vir em Cataguases jogar às sete
e meia da noite, portão aberto, para poder prejudi-

266
car o nosso comício. Mas nós... eu ainda apliquei um
plano em cima do Emanoel, que ele fez isso... Então
nós fizemos o seguinte: organizamos o comício lá. O
Zé Pinto pegou a Escola de Samba da Manufatora,
tinha a Escola de Samba da Manufatora, no dia, na
hora do comício, ele falou que ia sair com a Escola de
Samba, que ia parar batendo caixa no meio do comí-
cio, José Luiz, e aconteceu o maior desastre da histó-
ria de Cataguases naquele dia. Sabe o quê que nós fi-
zemos? Nós entramos em contato com os ferroviários
em Além Paraíba e convidamos eles para o comício
aqui. Leopoldina, Além Paraíba, Muriaé, Ubá, tinha
gente de todo lado nesse comício. Falamos com eles
que o Zé Pinto ia avacalhar. Sabe o que eles fizeram?
Arranjaram um monte de ferroviário, desses caras
que trabalham na construção, na conservação de li-
nha, né, botaram eles dentro do trem de ferro e man-
daram pra aqui, eles iam cortar o Zé Pinto e o pessoal
da Escola de Samba tudo no “pau”, mas deu uma sor-
te sabe, a polícia percebeu que o negócio estava mui-
to inflamado, então no dia o delegado mandou a po-
lícia ir para lá, para falar com o chefe da Escola e fez
ele desviar para a avenida. Ela não entrou no meio do
comício, não, ela ia entrar no “pau”. E eu ainda mos-
trei o Zé Pinto, para eles: a gente vai pegar aquele ali,
ó, é ele que é o chefe do negócio. Eles iam cortar o Zé

267
Pinto no “pau” aquele dia. Então eles foram embora
para lá. Mas o padre Alípio chegou aqui, eu falei as-
sim ó: nós vamos fazer o comício, vai começar às sete
e meia. Estava marcado, eu falei com o padre Alípio:
“Você vai ficar na casa da mulher do João Delveaux”.
Muito católica, pediu para levar o padre Alípio para
a casa dela, aí eu levei o padre pra lá. “O senhor fica
aí, na hora certa eu venho te buscar”. Peguei um cara
e enfiei dentro do campo do Operário, quando faltar
dez minutos para o jogo acabar eu ia mandar bus-
car o padre. Ele veio. Quando o padre Alípio chegou
lá, o pessoal que veio do campo parou em frente ao
comício, ficou assim ó, lotou, e aí ele pregou e mos-
trou ao povo o porquê da reforma agrária, o porquê
da reforma tributária, o porquê da reforma bancária.
Foi um comício daqui, ó! O Emanoel, naquela época,
pagou quatrocentos mil cruzeiros ao Vasco da Gama
para vir jogar em Cataguases. O primeiro time. Ele
tinha uma raiva de mim danada. Então, quando che-
gou em 1964, o primeiro que ele pegou fui eu, mas
ele agiu de modo certo, não agiu errado não, franca-
mente! Ele está morto, não tenho um pingo de raiva
dele, acho que ele agiu certíssimo, porque política é
isso: quem tem o poder na mão quer continuar tendo
poder, manter aquela situação privilegiada dele, não
está errado não.

268
Agora, eu me senti na obrigação de lutar con-
tra aquela situação privilegiada dele, como luto até
hoje. Não vou aturar privilégio de ninguém. A gente
precisa acabar com isso, afinal você veio ao mundo
para viver. Botar você também... igual aconteceu esse
caso lá de Barraginha... você vê que coisa horrorosa!
Coitadas daquelas famílias, morando naqueles bar-
rancos, em cima de um terreno oco, correndo água
por debaixo, afundou de repente, matou criança, gen-
te velha, aquela coisa... tudo de repente. Por causa de
quê? Os miseráveis que fazem a riqueza daquela fá-
brica moram ali, são tragados, e a fábrica continuou;
eles arranjam outros operários. Até hoje você está
vendo o que está acontecendo no Brasil: uma doen-
ça como o cólera, a hepatite, peste bubônica e outras;
são doenças que vêm de micróbios na água. Falta de
higiene. Aquele pessoal fica lá... esgoto escorrendo
no meio da rua, passando detrito de toda espécie, as
necessidades fisiológicas eles fazem lá, e isso cai lá e
correndo, vai juntando mosquito, rato, barata – isso
vai gerando essa doença que está ameaçando o Brasil.
Aqui em Cataguases, até 1938 mais ou menos,
tinha ali a fábrica, a Indústria Irmãos Peixoto, peque-
nininha. Mas quando chegou 1938 estava um clima
de guerra na Europa. A Alemanha atacou a Polônia,
a Tchecoslováquia... e aí onde está a Companhia

269
Industrial Cataguases, aquele terreno pertencia ao co-
ronel Antônio Augusto de Souza. Então, a Prefeitura
comprou aquilo tudo e doou para o José Peixoto, pa-
ra montar aquela indústria ali. Aliás, o José Peixoto
era um dos industriais mais elevados que existia na-
quela época. Nunca vi até hoje, o José Peixoto mon-
tou aquela indústria ali e... mas ele não queria que
os empregados dele fossem empregados miseráveis
não. Ele fazia aquelas casinhas lá no Bairro Jardim,
que são umas casinhas, na época, muito perfeitinhas,
muito bonitinhas. Tudo com muita higiene, com água,
luz, esgoto. Muito bem feito! Muito bem feito aquilo
ali. E a evolução de Cataguases foi por causa da guer-
ra. Essa guerra de 39-45: porque o Brasil começou
a vender tudo para a Europa, tecido... e a indústria
embalou aí, embalaram no Brasil todo. Tivemos que
vender tudo para a guerra. E lá foi só consumindo, e
os países como o Brasil produzindo e vendendo para
lá. E houve um desenvolvimento muito grande aqui
em Cataguases. Quando o José Peixoto montou aque-
la indústria ali, por exemplo, Cataguases era muito
pequenininho. E mudou muita gente aqui da região
para Cataguases. Chegava duas, três, quatro moças
na fábrica. Ganhando salário mínimo cada uma ou
mais. Quem ia tecer o pano até ganhava mais. Quer
dizer, criou um nível de vida muito elevado na Cia.

270
Industrial Cataguases. E o comércio também acom-
panhou, porque essa gente toda podia comprar.
Então o comércio desenvolveu. E a cidade foi se ele-
vando, foi subindo, foi subindo... então chegamos ho-
je aonde nós estamos. Aliás, eu estou em desacordo
com o IBGE. Não acho que em Cataguases são 58 mil
habitantes, não.
Porque se você analisar uma cidade com 36
mil eleitores... 58 mil habitantes... tinha que ter no mí-
nimo 72 mil, não é. Agora, metade do número de elei-
tor. A gente tira criança e coisa, quem está chegando
aos dezesseis anos, quer dizer ao menos a metade...
em Cataguases foi uma luta esse negócio do IBGE aí.
Até o meu menino participou. Entendeu? Deu um du-
ro pra danar! Porque eles reuniram, combinaram de
fazer direito e não entregar por causa do salário.
É. Os que passaram no concurso. “Você vai
escolher: você vai fazer e entregar ou você fala que
não vai fazer para botar outro em seu lugar. Você vai
fazer todas”. Vila Tereza, Bairro Jardim... mas não fi-
zeram não, tocaram isso para o pau. Chega na casa,
não tem ninguém... o pessoal não atende, tem medo
do Imposto de Renda... ficou muita gente sem fazer
aquele negócio.
Isso aí é o seguinte: o Francisco Peixoto, ele
tinha uma ideia esquisita. Esquerdista. Não quer di-

271
zer que seja assim ideia comunista não. Era de uma
ideia bem à esquerda. Ele não gostava da direita, não.
Homem de direito, rico, intelectual, gostava mui-
to de ler muitas obras de Karl Marx, Lênin, muitas
obras. E ele fez amizade com Niemeyer. Niemeyer é
um comunista preparado mesmo. E na época, o dou-
tor Francisco conseguiu que ele viesse aqui. Até fez
aqueles murais lá no Ginásio que foi vendido para
São Paulo, não é, depois essa obra da igreja, fize-
ram aquela pintura lá na praça José Inácio Peixoto.
Não tem aí esse engenheiro que construiu o Hotel
Cataguases... o Niemeyer. Como é que chama esse
engenheiro que construiu Brasília?
Esses caras tinham muita ligação com
Francisco Peixoto. Eles vieram aqui e andaram fa-
zendo umas coisas para Cataguases. A construção do
Ginásio, da igreja, do Hotel Cataguases, Niemeyer é
comunista do papo amarelo mesmo.
Aqui? Ah, gostaram muito! Todo mundo
aplaudiu. Os Peixoto tinham um domínio total sobre
a cidade: econômica e politicamente. Dominavam o
reduto porque eles davam emprego à maioria das
famílias de Cataguases. Naquela época o nível de
vida da população era muito elevado. Hoje você vê,
o salário mínimo em janeiro, você bota 25 por mês
da inflação, janeiro, fevereiro, março. Setenta e cin-

272
co por cento já perdemos. Não era assim, era muito
diferente: tinha uma certa estabilidade na economia.
Aqui tinha um lago na Praça Rui Barbosa. Os rapa-
zes andavam da direita para esquerda e as moças da
esquerda para a direita. Você não era capaz de contar
dentro da Praça Rui Barbosa quem era filho da eli-
te e quem era operário de uma fábrica aí. E naque-
la época as moças usavam três, quatro anáguas por
baixo daquele vestidão largo. Vestidos caros! Hoje o
modo de vestir das mulheres mudou muito. Hoje a
moça usa uma minissaia curtinha. Elas andavam de
brincos, muito bem arrumadas. Você chegava naque-
la praça ali, você não sabia quem era operária, quem
era da elite. Você não conseguia separar. Era igual.
Elas só não frequentavam o Clube Social, ali era da
elite. Onde era a da classe preta – eu dancei muito
com elas, aliás, aprendi a dançar com elas – era ali
atrás da Estação, tinha o salão do Emílio. Então, as
empregadas domésticas pretinhas... dia de sábado
a gente saía da casa da namorada... e eu aprendi a
dançar com elas, dançam bem! E ensinaram a gente
a dançar de um jeito tal que em pouco tempo sabia
dançar de tudo. Só tango que eu não sabia. Naquele
tempo usava bolero, fox... tinha também ali em fren-
te à Indústria Irmãos Peixoto, o Lord Club. Tem uma
música do Lord Club que eu sei ela de cor até hoje.

273
(O Lord Club) era do Rafael Manna... eu dan-
cei muito no Lord Club, era mais das operárias das
fábricas, as branquinhas. Existia uma separação. Até
em frente à casa do Geraldo Silveira tinha uma “pra-
ça do urubu”, botaram o nome. O Paulo Santos fez
uma música “praça do urubu”, as pretinhas senta-
vam ali, passeavam da casa do Geraldo Silveira até a
farmácia do Renê. Aí tinha o Bar Elite do lado. Uma
outra classezinha mais um pouquinho acima passea-
va no meio da rua. E a outra passeava na Praça Rui
Barbosa.
É, faziam esse trecho aí. Mas o Lord Club
tinha uma disputa com o Emílio. Depois sur-
giu o Flamenguinho, surgiu o Manufatora, veio o
Operário... depois eles acabaram. Agora, o Lord Club
foi famoso aqui em Cataguases.
O Remo surgiu depois. O Remo, a princípio,
o pessoal ia para o Remo ali sem o salão. A princípio
ali era do coronel Antônio Augusto de Souza. Então,
ele doou aquilo ali para o Clube do Remo. Do Clube
do Remo para cá, aquela volta lá embaixo, vem até
aqui no Hospital, ele fez a doação daquilo para a
Prefeitura, para ela construir áreas de lazer. Não é es-
se nome que ele dava para aquela área não, é área de
lazer. Mas acontece que eles deram, que a Prefeitura
doou do Sindicato até na ponte. Da ponte para cá, vo-

274
cê vê que não tem casa, vem até... mas ali, o Rodrigo
Lanna, doou aquilo ali para diversas famílias na épo-
ca construir casas. Agora está povoado, porque não
tinha casa nenhuma atrás do Hospital, ali tinha um
bananal, eu roubei muita banana.
A gente ia ali, cortava banana no meio daque-
le bananal, enfiava no meio da canavieira lá, a gente
chegava em casa pintadinho... que delícia, viu, aque-
la praça. Depois, com o correr do tempo ficou aquele
lugar ali para fazer uma praça pequenininha. Quem
deu mais espaço foi o Tarcísio. Ele plantou umas ár-
vores bonitas ali na beira do rio, até lá embaixo. E lá
embaixo é que começam as casas, faz a volta, até lá
no final do Hospital.
Para o Sindicato. Até na ponte. Uma parte fi-
cou para a Industrial e a outra parte ele deu para o
Sindicato, até na ponte. Para o Sindicato da Força e
Luz. Aí os eletricistas construíram aquele prédio lá.
Ali não tinha nada não. No Clube do Remo, a prin-
cípio, o pessoal ia pr’ali; tinha uns barcos com uma
porção de remos, eles iam ali remar. Por isso botaram
o nome de Clube do Remo.
O Social, ali existia o cinema. É. Ali tinha o
cinema. Não era o Cine Edgard. Era Cine Teatro
Recreio. O Edgard, pai do Netinho tomava conta de-
le. Ali embaixo eram umas cadeiras, depois vinham

275
os camarotes e em cima tinham as torrinhas. Custava
menos valor. Depois passou o cinema para onde está
a Nacional, para construir lá e aí construiu aqui em
cima e colocou o nome dele de Cine Edgard. Em ho-
menagem ao Edgard. Trocou o nome de Cine Teatro
Recreio para Cine Edgard. Agora me lembrei do Cine
Brasil.
Passaram uns filmes aqui em Cataguases,
passavam a semana inteira. “O Ébrio”, de Vicente
Celestino. Quando passou “O Ébrio” aqui, filas a se-
mana inteira para assistir. E vou dizer para você uma
coisa, todo mundo chorava dentro do cinema. Saía
todo mundo chorando. Muito bonito o filme, viu?
Você não tem a gravação, não? Eu tenho a gravação
guardada aí, de “O Ébrio”. Aqui passou também...
aquela novela “O Direito de Nascer”. Uma nove-
la quilométrica! Ficou anos a fio na Rádio Nacional.
Depois fizeram um filme. Deu filas quilométricas em
Cataguases também. Assisti ao filme. Uma história
também muito triste! A gente nota que o pessoal anti-
gamente tinha mais sentimento. Parece que diminuiu
isso, não diminuiu?
A gente está notando hoje, sabe; antigamente
nós, os homens, tínhamos mais respeito pelas namo-
radas. Nós gostávamos dela e tinha uma verdadeira
adoração por ela. Nós tratávamos... quer dizer, tudo

276
para agradar. Levava flor, bombom para ela, bala, pi-
poca, sempre procurávamos agradar. A gente nota
que hoje os rapazes estão tratando essas mulheres
com uma igualdade de condição... mulher não é igual
ao homem não, nunca foi. O homem... nós somos as-
sim... eu acho que o homem é mais animalesco, a mu-
lher é mais sentimento. A gente nota que estão tratan-
do estas mulheres de uma maneira... não tem aquele
romantismo não, aliás, eu sou da época de ouro.
Minha época era a época do romantismo, era
a década de 1950. Aí é que pegou o romantismo. Os
rapazes namoravam... mas tinham uma coisa diferen-
te, não é o que se assiste hoje não. Hoje nós estamos
assistindo... os casamentos não duram mais de seis
meses, muito difícil passar dos seis meses. Agora está
durando seis meses. Porque o tipo de casamento que
está havendo não tem aquele romantismo. A gente
não vê isso hoje. Francamente, acabou mesmo!
Existe um machismo muito grande por aí,
porque o homem, “muncado”, se julga proprietário
da mulher, que pode bater nela, qualquer coisinha
usa termos ofensivos contra ela, quer matar. Estamos
vendo este programa “Aqui e Agora”. O sujeito ma-
ta, não mata, assim sem mais nem menos a esposa,
destrói uma família, porque ele desconfia da mulher
ou... eu sei, José Luiz, eu sou muito liberal sabe, mui-

277
to liberal. Eu acho assim: se amanhã não dá certo um
casal, acho que devia ter a hombridade entre dois e
do mesmo jeito que casaram, separaram. “Fulano, a
sua filosofia é diferente da minha. Não existe compa-
tibilidade entre nós dois”. E separava e acabou, sa-
be, acabou aí. Agora não, então porque eu casei com
ela... bate, ameaça matar... isso nunca vai dar certo.
Não aceito um negócio desse não. Acho muito vio-
lento. Acho que uma mulher deve viver com o ho-
mem porque ela quer viver. Se não quer, como vou
forçar ela a viver comigo? Como é que pode uma coi-
sa destas?
Eu em 1972, eu me candidatei a vereador. Eu
já era um dos fundadores do MDB e assumi o parti-
do. Vinte anos. Secretariando... houve uma conven-
ção agora no dia 15 e eu fui eleito como secretário.
Nessa vida política nossa, você imagina aqui ó... nós,
de 1947 a 1982, o partido que eu pertenci aqui em
Cataguases foi sempre massacrado pelos Peixoto.
Perdia. Foi 45 anos de poder que eles tiveram nes-
sa cidade aqui, permanente, constante. Mas depois
da Revolução de 1964 aí empenhamos novamente
nessa luta contra esse estado de coisa. E já notamos
que o povo de Cataguases, que mais ou menos na
época de 1970, nós já começamos a notar que estava
havendo um espírito de liberdade muito grande da

278
população cataguasense. E naquela época o Tarcísio
tinha sido eleito vice-prefeito do Ângelo Rocha. Que
o Ângelo Rocha candidatou a prefeito pela ARENA
e nós não lançamos candidato não. Como não po-
dia haver coligação, o Tarcísio, que era candidato,
filiou-se à ARENA para poder concorrer junto com
ele. Quer dizer, ficou um prefeito da ARENA e um
vice-prefeito do MDB. Isso foi em 1970. E daí para
cá começou a haver uma evolução na coisa. Quando
foi em 1972, com muita dificuldade nós consegui-
mos arranjar 13 candidatos a vereadores aqui em
Cataguases. Eu era um dos 13. Só 13 tiveram cora-
gem de concorrer a vereador pelo MDB. Quando foi
em 1973, foi inaugurada a Câmara. Eu assumi o car-
go de vereador e daí pra cá vimos desempenhando
uma luta. Eu, Cunha Neto, Renê (Cerqueira), Toledo,
Tarcísio empenhamos uma luta acirrada aqui, com
pouco recurso que nós temos aqui em Cataguases.
Quando chegou agora em 1981, eu falei com o
Tarcísio: “Ó Tarcísio, para o MDB ganhar a eleição
aqui em Cataguases nós estamos dependendo de
uma coisa: de uma pessoa que tenha uma certa posi-
ção social, porque o povo não gosta de votar em nin-
guém que é igual a ele”. Gosta? Não gosta. É como
mulher, também não gosta de votar em mulher. Na
Câmara Municipal tem 15 vereadores, não tem uma

279
mulher representando as mulheres entre os vereado-
res. E teve muita candidata!
Mas muitas se candidataram. Naturalmente
não gostam de votar. Mulher não vota em mulher.
Elas mesmas são inimigas de si próprias. Acham
que mulher, o lugar dela é na cozinha, arrumar a ca-
sa. Pensamento errado. Quem lançou o Tarcísio pa-
ra prefeito fui eu. Bem, mas o Tarcísio ficou aquele
negócio: aceita não aceita... aí demos de cima dele,
juntou eu, Toledo, Silvério, Renê. O Elmo, na épo-
ca, também deu de cima do Tarcísio. Aí ele aceitou.
Não tinha esperança de ganhar não. Ganhou e vocês
assistiram aqui, ele teve a melhor administração de-
pois do Ângelo Rocha que foi em 1970, uma admi-
nistração que foi muito boa também. Excelente, ine-
gável! Mas quem fez a melhor administração aqui
em Cataguases foi o Tarcísio. Ele fez uma verdadeira
revolução aqui em Cataguases. O presidente deste
período durou seis anos, de 1982 a 1988. Fez uma
revolução porque, nós aqui, durante as campanhas
eleitorais, eu lembro, participei de todas elas. Na Vila
Reis era aquela... quando chovia era barro, e quan-
do tinha sol era poeira. A Vila Reis abandonada, sem
esgoto, sem água potável. Igual a ela tinha muitos
outros lugares. Pouso Alegre... se uma pessoa adoe-
cesse lá você não conseguia chegar a tempo: era puro

280
barro na época da chuva, aquele lamaçal tremendo.
E o Tarcísio procurou fazer essas realizações mais
com a periferia. Hoje você vai a qualquer ponto de
Cataguases e existe calçamento ou então asfalto.
O Paulo Schelb não é politizado igual ao
Tarcísio não, ele realiza muito, mas não tem aque-
le jogo de cintura. Não é politizado, não é político.
Porque o político nunca fala não com ninguém. Ele
fez... o pessoal do Paraíso adora ele. Tomé, eles ado-
ram o Paulo Schelb. Outro dia nós estávamos lá con-
versando com eles. Mas aqui no Centro, a gente nota
que tem uma certa represália. Eu acho que o prefeito
não tem a obrigação só de calçar rua, ou fazer a rede
de esgoto ou resolver algum problema na cidade. Ele
tem que oferecer segurança à população. Nós esta-
mos notando aqui em Cataguases que existe uma fa-
lha muito grande nessa questão de segurança. E tam-
bém existe em Cataguases pessoas que burlam a lei
acintosamente, desrespeitando o direito dos outros.
Eu acho assim: o meu direito termina onde começa
o seu. Se eu passar por cima do seu, quer dizer, eu
estou desrespeitando você. Você quer ver uma coisa.
Eu vou só dar um exemplo. Aqui em Cataguases, não
é só em Cataguases não, existe o Código Penal, você
sabe, o Código Penal proíbe qualquer tipo de baru-
lho que perturbe o sossego e a tranquilidade do cida-

281
dão. O estado de Minas Gerais tem uma lei, a 7.302,
que proíbe taxativamente, até fixa o número – ses-
senta decibéis – é um rádio de pilha, televisor. É o
máximo que você pode usar, quer dizer, é o suportá-
vel pelo ouvido humano. Olha o fim de semana. Você
assiste aquele troço... não tem uma empresa aqui
em Cataguases para divulgar que uma pessoa mor-
reu, como tinha antigamente, você sabe por que não
tem? Porque a lei proibiu. Mas então o trenzinho da
alegria, liga esses alto-falantes dele com esse som co-
nhecido, sai fazendo barulho no meio da rua, pertur-
bando tudo e todos. E a polícia de Cataguases assiste
a isso calada. Você verifica: uma pessoa que mora na
Praça Rui Barbosa é obrigada a tolerar 50.000 watts
de som em uma festinha que eles fazem na praça.
Pois é. Errado. Eu acho que o prefeito se quer
fazer festa... que é assim. Se você quer ver futebol, vo-
cê vai ao campo do Operário ou do Flamengo. Você
quer rezar você vai à Igreja. Se você quer ir ao cinema,
você vai ao cinema. Agora, obrigar você, porque você
mora em determinado lugar, aguentar 50 mil watts
de som no seu ouvido. Isso é um absurdo. É tanto...
eu vou até fazer agora um adendo político. Eu vou
me candidatar a vereador esse ano. Se eu colocar ou-
tra vez minha cadeira nessa casa, vou declarar guerra
a essa gente. Não vou entrar aqui para assistir isso

282
calado não, porque eu combati isso aí no Correio
da Cidade anos a fio, mas infelizmente você fala no
Correio da Cidade, entra no ouvido da polícia e sai
no outro. Porque o prefeito cria a contramão aqui na
Coronel Vieira, mas ele não vem cá falar com você
que é proibido entrar na Coronel Vieira não, quem
tem que olhar isso é a polícia, mas ela não olha nada.
Agora, você pode ficar sabendo de uma coisa: se eu
digo que estou preparado, não é só conversa não, eu
me preparei, já sei como agir na área estadual, sei co-
mo agir na área política. E se amanhã eu ocupar uma
cadeira dessa aqui eu vou exigir que o tenente cum-
pra o Código Nacional de Trânsito em Cataguases;
pedestre em Cataguases não tem vez.
Sinal luminoso. Ou botar sinal luminoso ou
então o prefeito tem que botar quebra-mola, porque
você manter um povo subordinado a meia dúzia de
motoristas inescrupulosos é um absurdo. Você che-
ga aqui, o Código do Sinal de Trânsito diz assim: o
pedestre tem privilégio. Se você atravessar uma rua
aqui, o carro tem que parar para você. Você não assis-
te isso em lugar nenhum. Outra coisa também. Você
vai ali perto da Cobal está lá um ponto de estaciona-
mento de ônibus, grande... os carros vão e encostam
tudo ali e o ônibus encosta no meio da rua. Aí vêm
aquelas mulheres lá de dentro da Cobal, tal e coisa,

283
o carro está saindo aqui, elas não sabem se pegam o
ônibus ou se ficam na frente do carro. Por causa de
quê? Quer dizer... porque a polícia tolera um abuso
dos motoristas que querem encostar um carro em um
local proibido. Eu acho que nós não podemos tolerar
isso. Já falei isso em reuniões do PMDB, já falei, mas
infelizmente eu não exercendo o cargo; mas se eu
exercer, você pode ficar sabendo: vou declarar guer-
ra! Comigo eles podem ficar sabendo de uma coisa:
não vou ficar só no discurso não, aciono mesmo juri-
dicamente. Aí vou chamar o tenente e falar com ele:
“Você vai fazer isso. Você é tenente e eu sou vereador.
Você é uma autoridade, eu também sou. Eu sou um
representante do povo de Cataguases. Você é uma
autoridade policial. Você vai fazer isso”. Você quer
ver uma coisa? É proibido pelo Código de Postura
Nacional chiqueiros de porcos em Cataguases. O
pessoal vem aqui reclamar. Você vai em um Posto de
Saúde e eles falam que não é com eles. Você vai na
prefeitura e eles falam que não é com eles.
Com quem? Então nós vamos descobrir. Aí
eu aciono os dois lá no Poder Judiciário. O juiz vai
dar uma ordem para acabar com chiqueiro e por-
co, porque além de dar a catinga... eu morei ali no
prédio do João Salgado, lá na Vila Tereza, o vizinho
tinha um chiqueiro de porco. Nunca vi um chiquei-

284
ro com tanta catinga na minha vida. Eu falei com o
Tarcísio: Ô Tarcísio, aquele cara está com um chi-
queiro de porco lá e eu não vou tolerar isso não. Aí
o Tarcísio falou: “Deixa que eu vou conversar com
ele”. Quando foi a terceira vez eu fiz uma queixa na
polícia. Ah, aí voou chiqueiro de porco para tudo
quanto é lado. Não adianta. Eu faço e quero que os
outros façam para mim também; eu acho que para
ocupar uma cadeira na Câmara Municipal a pessoa
tem que exercer sua função. Essa função tem um
poder incalculável, é grande demais! Vereador é tão
poderoso que a Câmara tem que dar posse ao pre-
feito; ele aprova as leis da cidade. Vê o poder que é
isso aí! Ele tem poderes não só para exigir da polícia
não. É do prefeito, é do juiz, todo mundo tem que
cumprir a lei.
Lá na praça eu falei com o Paulo Schelb. O pa-
dre foi lá... o Schelb falou: “O Cicinho está requeren-
do um mandado de segurança”, o padre veio aqui;
vieram dois padres conversar comigo. “Não estou
brigando não. Vou te mostrar. Está vendo essa lei
aqui, é a lei 7.302, a lei do silêncio. Leia este artigo”.
“Ah, de fato é proibido”. “Então estou defendendo o
meu direito. Você quer passar por cima da lei para
defender interesse financeiro de vocês. Eu não vou
abrir mão disso não”. Aí, saíram, mas sorrateiramen-

285
te fizeram a festa. Mas essa foi a última. Foi. Agora
está lá no Beira Rio. Porque tem que ser perto da mi-
nha casa?
Se o prefeito quer pagar arranja um local, um
local longe da residência, controla o volume do som.
Mas não é só isso não. Quando acaba a festa começa
a bagunça: vem os embriagados, junto com as pros-
titutas, os maconheiros, aí começa uma bagunça da-
nada até de madrugada. Isso aí atrai essa gente. Eles
montaram um barzinho no meio da Praça José Inácio
Peixoto, o barzinho ficava até três ou quatro horas
da manhã atendendo o pessoal. Aí o Humberto to-
ca violão e canta, liga aquele troço lá... quer dizer, a
vizinhança tem que aguentar. O pessoal não respei-
ta nada, essa gente precisa lembrar: “o direito deles
termina onde começa o seu”, mas eles querem fazer
prevalecer a vontade mesquinha deles em cima do
sossego público. É igual o pessoal da avenida aqui:
se eles resolverem reclamar contra o carnaval, não
vai ter carnaval na avenida não. Já alertei a eles. Se
amanhã eu exercer o cargo de vereador, eu assumo o
comando para vocês, mas por enquanto não sou na-
da. Simplesmente eu sou um funcionário municipal.
Vocês são obrigados a aturar isso perto da casa de vo-
cês. Você imagina, o pessoal urina na rua, evacua na
rua, ali na avenida...

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Na Praça Rui Barbosa. A dona Iracema ali,
coitada! Reclamação constante, o pessoal levan-
ta no outro dia de manhã jogando água, lavando.
Realmente é um abuso. Elas estão correndo mui-
to risco com a aglomeração de gente, cólera, AIDS.
Negócio igual àquele cara maldoso lá de São Paulo.
Agulha que ele, com AIDS, usa, sai com aquilo na
mão, bota o líquido dentro dela, entra no meio dos
outros, dá uma agulhadinha. Pronto. Passando AIDS
para os outros. Hoje está havendo um risco muito
grande. Ah, hoje tanta gente, tanta doença contagio-
sa está aí circulando pelo Brasil afora. AIDS, dengue,
cólera... Cataguases está contando com uma coisa, sa-
be, José Luiz, que muito pouca gente no Brasil conta
com isso, que é a água tratada que nós temos. Essa
água nossa você pode até beber dela na torneira que
não faz mal nenhum. Pura, muito boa! Uma beleza,
viu?!. É difícil a gente ver uma água igual a nossa. É
até difícil ouvir falar nesse negócio de cólera aqui,
hepatite... pode ter onde tiver, que aqui é muito raro
ter um negócio assim.

Entrevistado por Glaucia Siqueira e José Luiz Batista, em 1992.

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