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1.

Introdução

A Antropologia é uma área relativamente nova de investigação da realidade. À medida que as


discussões a respeito dos temas antropológicos foram se avolumando, e grandes intelectuais
foram registrando suas reflexões, a Antropologia foi evoluindo, deixando para trás conceitos
equivocados ou mal formulados e elaborando ideias cada vez mais abertas e flexíveis.

Os caminhos do pensamento só são interessantes e relevantes se estiverem sempre abertos a


novas formulações, a novas ideias, transformando a consciência humana numa consciência
ampliada.

No século XX, a antropologia evoluiu muito como ciência e em sua produção intelectual. Seus
instrumentos intelectuais de análise se refinaram, e as reflexões dos antropólogos sobre as
diferenças culturais e a organização dos diferentes povos, se aprofundaram. Com os trabalhos
de Franz Boas e Malinowski no campo da investigação etnográfica e com os trabalhos de Émile
Durkheim e Marcel Mauss no campo de investigação da dinâmica social no final do século XIX,
podemos dizer que a Antropologia saiu de sua infância intelectual e entrou em sua
maturidade. No século XX, assistimos ao desenvolvimento dessa disciplina de investigação da
realidade e que até hoje nos auxilia na compreensão dos significados e das práticas humanas.

2. A origem da antropologia

A humanidade sempre teve curiosidade de compreender seu próprio comportamento, suas


motivações e seus significados. No entanto, o projeto de fundar uma ciência que estudasse os
humanos, é muito recente.

As primeiras reflexões antropológicas acontecem durante as explorações europeias ao redor


da Terra. Buscando territórios que pudessem dominar e explorar comercialmente, os
renascentistas exploraram lugares desconhecidos e começaram a elaborar reflexões e
discursos sobre os habitantes que povoavam aqueles lugares.

As primeiras observações e os primeiros discursos disponíveis sobre os povos ”distantes”,


provém de duas fontes principais, que são as reações dos primeiros viajantes, formando o que
habitualmente chamamos de ”literatura de viagem”, e os relatórios dos missionários que
acompanhavam a colonização europeia.

A literatura de viagem era composta por narrativas acerca das experiências, descobertas e
reflexões de um viajante durante seu percurso exploratório. Geralmente ilustra as pessoas, os
eventos e aquilo que o autor vê ou sente, quando se encontra num país estrangeiro ou em
lugar estranho. Não é necessariamente um guia, mas um relato daquilo que experimenta ou
sente o autor-viajante, ao se encontrar diante de novos territórios e diferentes culturas. Estes
relatos dizem respeito, em primeiro lugar, à Pérsia e à Turquia, em seguida à América, à Ásia e
à África.

Os relatórios dos missionários eram dirigidos aos seus superiores e tratavam de temas
relevantes aos conquistadores, por exemplo, como tinham sido recebidos pelos moradores
locais, onde estavam alojados, o que tinham encontrado na terra, o estado de pecado e
abandono moral em que viviam os colonizadores, os primeiros contatos com os índios e o
interesse que mostravam em adotar a fé, os avanços na comunicação com estes, entre outros
assuntos.

Você sabia?

Que a questão relevante colocada na época, e que nasce desse primeiro confronto visual com
as diferenças, é sobre se aqueles que acabaram de ser “descobertos”, pertencem à
humanidade ou se são seres de outra espécie? O critério de julgamento, na época, era
religioso, e se tratava de saber se aqueles “selvagens” tinham alma. Queriam saber se eram
descendentes de Adão ou se eram seres sem o “pecado original”.

As reflexões se iniciam a partir daí, porém não há qualquer resposta em relação a essas
primeiras questões propostas pelos relatos de viajantes e missionários.

De fato, apenas no final do século XVIII é que começa a se constituir um saber científico que
analisa o homem como objeto de conhecimento, e não mais a fauna, a flora ou os elementos
externos aos humanos; apenas nessa época é que o espírito científico pensa em aplicar ao
próprio ser humano os métodos de estudo até então utilizados na área da física ou da biologia.

A Antropologia surge, então, como um esforço de interpretação científica da realidade


humana, das relações sociais e dos significados atribuídos às coisas pelos diferentes povos.

Isso foi uma revolução no pensamento da época, pois mudava a maneira como a humanidade
olhava e interpretava a si mesma; essa reflexão tinha sido, até então, fruto de especulações
mitológicas, artísticas, teológicas, filosóficas, mas nunca científicas.

Com o passar do tempo, essa nova ciência do ser humano começa a tomar forma e a ganhar
maior rigor científico. Métodos de investigação passam a ser elaborados e colocados em
prática nas pesquisas empreendidas no século XVIII. François Laplantine (2003) descreve esse
processo da seguinte maneira:

“”Simultaneamente, o destaque se desloca pouco a pouco do objeto de estudo para a


atividade epistemológica, que se torna cada vez mais organizada. Os viajantes dos séculos XVI
e XVII coletavam ”curiosidades”. Espíritos curiosos reuniam coleções que iam formar os
famosos ”gabinetes de curiosidades”, ancestrais dos nossos museus contemporâneos. No
século XVIII, a questão é: como coletar? E como dominar em seguida o que foi coletado? Com
a História Geral das Viagens, do padre Prévost (1746), passa-se da coleta dos materiais para a
coleção das coletas. Não basta mais observar, é preciso processar a observação. Não basta
mais interpretar o que é observado, é preciso interpretar interpretações. E é desse
desdobramento, isto é, desse discurso, que vai justamente brotar uma atividade de
organização e elaboração. Em 1789, Chavane foi o primeiro a dar a essa atividade um nome.
Ele a chamará: a etnologia.“”

3. As primeiras viagens filosóficas

No século XVIII, inicia-se uma parceria entre viajantes e filósofos; os viajantes (entre eles,
nomes famosos como Cook, Bougainville, La Condamine) realizavam o que na época eram
chamadas de ”viagens filosóficas”, precursoras das nossas missões científicas contemporâneas.
Os filósofos (entre eles, os famosos Buffon, Voltaire, Rousseau, Diderot) “iluminavam” os
relatos dos viajantes com suas reflexões.

Mas os relatos trazidos pelos viajantes eram baseados em seus preconceitos e sua ignorância,
pois eram baseados unicamente no senso comum; e já que os viajantes não eram filósofos, e
os filósofos não eram viajantes, era preciso formar sujeitos que pensassem as questões
humanas e culturais de uma perspectiva mais ampla e científica, ou seja, de forma
sistematizada.

É assim que se constitui, na passagem do século XVIII para o XIX, a Sociedade dos
Observadores do Homem (1799-1805), um grupo de estudiosos formado pelos então
chamados ”ideólogos”, que são moralistas, filósofos, naturalistas, médicos que definem muito
claramente o que deve ser o campo da nova área de saber (o homem nos seus aspectos físicos,
psíquicos, sociais, culturais) e quais devem ser suas exigências epistemológicas.

Laplantine (2003) descreve a origem da metodologia antropológica da seguinte maneira:

As Considerações sobre os Diversos Métodos a Seguir na Observação dos Povos Selvagens, de


De Gerando (1800) são, quanto a isso, exemplares. Primeira metodologia da viagem, destinada
aos pesquisadores de uma missão nas ”Terras Austrais”, esse texto é uma crítica da
observação do selvagem, que procura orientar o olhar do observador. O cientista naturalista
deve ser ele próprio testemunha ocular do que observa, pois a nova ciência – qualificada de
“ciência do homem” ou “ciência natural” – é uma ”ciência de observação”, devendo o
observador participar da própria existência dos grupos sociais observados.

Esse projeto antropológico de investigação da humanidade consistia em ligar uma reflexão


organizada a uma observação sistemática, não apenas dos aspectos físicos dos seres humanos,
mas também de seu aspecto social e cultural; o final do século XVIII teve um papel essencial na
elaboração dos fundamentos de uma ”ciência humana”, mas a humanidade ainda não tinha
amadurecido intelectualmente a ponto de questionar-se mais profundamente sobre esses
aspectos.

Com a revolução industrial acontecendo fortemente na Inglaterra e a revolução política


explodindo na França, a sociedade europeia estava mudando radicalmente e jamais voltaria a
ser o que era. Os modos de vida europeus, suas relações sociais sofrem uma mutação sem
precedente. Um mundo está terminando, e um outro está nascendo.

O século XVIII espantou-se com a existência de sociedades que tinham permanecido fora dos
progressos da civilização europeia, acreditando nas vantagens desse progresso tecnológico e
considerando totalmente estranhas todas essas formas de existência que estão distantes do
entendimento e da classificação dos europeus.

No século XIX, o contexto geopolítico global é totalmente novo: é o período da conquista


colonial europeia, que rege a partilha da África entre as potências econômicas da Europa e põe
um fim às soberanias africanas. É no movimento dessa conquista que se constitui a
antropologia moderna, com o antropólogo acompanhando de perto os passos do colonizador
e os detalhes da vida dos povos colonizados.

Nessa época, a África, a Austrália, a Nova Zelândia, a Índia passam a ser povoadas por uma
grande quantidade de emigrantes europeus, que não eram mais apenas alguns missionários, e
sim administradores das diversas esferas da vida social das colônias. Uma rede de informações
se instala, e as respostas aos questionários enviados por pesquisadores das metrópoles (em
especial da Inglaterra) para os quatro cantos do mundo, constituem os materiais de reflexão
das primeiras grandes obras de antropologia que foram publicadas durante toda a segunda
metade do século XIX.

O vídeo a seguir mostra o primeiro contato de uma tribo da Papua Nova Guiné com um
homem branco em 1976. A tribo chama-se Toulambi e as reações ao ver um homem branco
são surpreendentes. Eles ficaram curiosos e passam a mão na pele e sentiram os músculos
para acreditar que é um homem igual a eles por baixo daquela pele branca.

Também para evitar que os povos nativos desses continentes se tornassem reféns de uma
captura etnocêntrica¹, e continuassem a ser explorados com justificativas oficiais, desenvolveu-
se um método científico de investigação que buscava evitar análises carregadas de interesses
políticos europeus, e que dessem ao antropólogo a liberdade que sua pesquisa necessitava.
Esse método era a Etnografia.
4. Método etnográfico

Segundo Claude Lévi-Strauss, grande antropólogo do século XX, a etnografia, a etnologia e a


antropologia constituem os três momentos de uma mesma abordagem. A etnografia é a coleta
direta, minuciosa e exaustiva dos elementos e fenômenos que observamos, realizada através
de uma convivência duradoura e contínua com os grupos sociais que se quer estudar. Esses
elementos e fenômenos a estudar podem ser recolhidos fazendo anotações, ou por gravação
sonora, fotográfica ou cinematográfica.

A etnologia consiste em um primeiro nível de reflexão, analisando os materiais colhidos,


fazendo surgir a lógica específica da sociedade ou grupo social que se estuda.

Já a Antropologia consiste num segundo nível de reflexão, construindo modelos que permitam
comparar as sociedades entre si. Como escreve Lévi-Strauss, “seu objetivo é alcançar, além da
imagem consciente e sempre diferente que os homens formam de seu devir, um inventário
das possibilidades inconscientes, que não existem em número ilimitado”.

A etnografia só começa a existir a partir do momento em que o pesquisador percebe que ele
mesmo deve efetuar as pesquisas de campo, e que esse trabalho de observação direta é parte
integrante da pesquisa, não podendo ser empreendida por profissional de nenhuma outra
área.

O antropólogo compreende então que deve deixar seu gabinete de trabalho para compartilhar
a intimidade daqueles a quem pretende estudar. Esses grupos devem ser considerados não
mais como informantes a serem questionados, e sim como mestres que o ensinam a sentir e
experimentar a cultura de seu povo.

Nessa perspectiva, o pesquisador passa não apenas a viver entre eles, mas a viver como eles, a
falar seu idioma e a pensar nesse idioma, a sentir as emoções desse grupo dentro dele mesmo.
Essas condições de estudo são radicalmente diferentes daquelas conhecidas e praticadas pelos
viajantes do século XVIII e também pelos missionários e administradores do século XIX. Eles
geralmente residiam fora da sociedade observada obtinham informações através de
tradutores e informantes.

A pesquisa de campo, como a chamamos ainda hoje, é atualmente considerada como o pilar
da pesquisa antropológica, que orientou a abordagem científica da nova geração de etnólogos
que, desde o final do século XIX e o começo do século XX, produziu inúmeras pesquisas a partir
de estadias prolongadas entre as populações do mundo inteiro.
Vejamos um pouco da biografia de dois ícones da pesquisa de campo na Antropologia.

4.1. Franz Boas (1858-1942)

Franz Boas sempre foi um pesquisador que gostava de estar no campo, relacionando-se com
aqueles a quem se dispunha estudar e compreender. Com ele, a Antropologia experimentou
uma verdadeira mudança em sua prática de pesquisa.

Tendo iniciado suas pesquisas nos últimos anos do século XIX (em particular entre os Kwakiutl
e os Chinook [esquimós] da Colúmbia Britânica), utilizou métodos que hoje classificaríamos de
microssociológico. Segundo Franz Boas, no campo, tudo deve ser anotado: desde os objetos
que compõem as casas até as notas das melodias cantadas pelos Esquimós, com todo o
detalhamento possível. Para ele, tudo deveria ser objeto de uma descrição meticulosa, de uma
transcrição fiel (por exemplo, as diferentes versões de um mito, ou os diversos ingredientes
que compõem uma receita típica).

A influência de Boas na prática antropológica foi enorme, pois ele foi um dos primeiros
etnógrafos, e suas pesquisas inauguraram a preocupação com a precisão na descrição dos
fatos observados; ele também buscou conservar metodicamente o patrimônio pesquisado e
recolhido desses povos.

Franz Boas foi também, como professor, grande formador da primeira geração de
antropólogos americanos, tais como M. Mead, Kroeber, Lowie, Sapir, R. Benedict, entre
outros. Ele se torna a grande referência da antropologia americana na primeira metade do
século XX.

4.2. Bronislaw Malinovski (1884-1942)

Malinowski foi também bastante influente na cena antropológica; em 1922 publicou sua
primeira obra, Os Argonautas do Pacífico Ocidental, que permanece como um clássico da
Antropologia até os dias atuais.

Apesar de não ter sido o primeiro a viver com as populações que estudava e a recolher seus
materiais, conduzindo cientificamente uma pesquisa etnográfica, Malinowski levou essa
metodologia ao seu limite, procurando romper seu próprio contato com o mundo europeu.
Antes dele, nenhum outro pesquisador havia buscado penetrar tão profundamente no estilo
de vida e na mentalidade dos povos estudados.

Abandonando seu olhar europeu e seus dogmas culturais, seu método de aprofundamento
buscava compreender o que sentem os homens e as mulheres que pertencem a uma cultura
diferente da nossa.
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Estas imagens mostram Malinowski entre os Trobriandeses, colocando em prática seu método
de pesquisa, “observação participante”, vivendo um longo tempo entre os povos que ele
desejava compreender.

Disponível em: <http://antropolosgoderua.blogspot.com.br/2012/05/normal-0-21-false-false-


false-pt-br-x_21.html>

Diferente de Franz Boas, que procurava registrar exaustivamente as informações que recolhia,
buscando definir correlações entre o maior número possível de variáveis culturais, Malinowski
acreditava que um único costume ou elemento cultural (por exemplo, a canoa trobriandesa)
aparentemente muito simples e sem importância, poderia revelar aspectos importantes da
vida daquela sociedade.

Futuramente, a Antropologia vai se refinando e Émile Durkheim e Marcel Mauss, da “escola


francesa de sociologia”, apesar de não serem pesquisadores de campo, ajudam a desenvolver
o quadro teórico e os instrumentos que ainda faltavam à Antropologia.

A etnografia foi a prática de pesquisa que deu origem à etnologia e à própria Antropologia,
pois foi a partir de seus métodos e técnicas de pesquisa que se fundou a ciência que estuda os
seres humanos a partir de sua vivência social.

A pesquisa etnográfica não se trata apenas de coletar uma grande quantidade de informações
a respeito de certo grupo cultural, compreendendo-o apenas em suas manifestações
exteriores, mas de uma experiência de imersão total, um mergulho no universo mental de um
outro povo, vivendo seus ideais e sentindo suas angústias.

Segundo François Laplantine (2003), “o etnógrafo é aquele que deve ser capaz de viver em si
mesmo a tendência principal da cultura que estuda. Se, por exemplo, a sociedade tem
preocupações religiosas, ele próprio deve rezar com seus hóspedes. Para poder compreender
o candomblé, ”foi-me preciso mudar completamente minhas categorias lógicas”, escreve
Roger Bastide (1978)”.

Você sabia?

A Etnografia, que se desenvolveu através da observação e convivência com povos de culturas


muito diferentes da europeia (desde habitantes das ilhas Trobriand, na Polinésia, até tribos
amazônicas ameaçadas de extinção), nos últimos tempos tem sido muito utilizada no mundo
dos negócios. Atualmente, as empresas encontram-se em um ambiente bastante competitivo
e, nesse contexto, a pesquisa etnográfica, originada na Antropologia, passa a adquirir grande
importância na área de Marketing, por ser considerada como uma poderosa ferramenta para
conhecerconsumidor, seus hábitos, seus anseios, etc. Utilizada também para estudo das
diversas “tribos” urbanas da atualidade, caracterizadas pelos diversos grupos sociais existentes
e que possuem uma lógica própria de existência.

5. Teorias modernas sobre a cultura

O conceito de Cultura, pelo menos como utilizado atualmente, foi definido pela primeira vez
por Edward Tylor. Segundo Tylor (1996), “cultura é um todo complexo que inclui
conhecimento, valores, crenças, a arte, a moral, a lei, os costumes e todos os outros hábitos e
capacidades adquiridos pelo homem como membro da sociedade“.

Mas o que ele fez foi apenas formalizar uma ideia que vinha crescendo na mente humana;
muitos intelectuais já se interessavam por compreender nossos costumes, nossos significados,
nossos rituais sociais, mas ainda não tinham criado conceitos nem um método de estudo e
observação. Tudo isso ainda estava se formando na mente humana e a Antropologia ainda
engatinhava como disciplina científica.

Vejamos um brevíssimo desenvolvimento histórico do conceito de cultura, narrado por Roque


Laraia:

Para entender Tylor, é necessário compreender a época em que viveu e consequentemente o


seu background intelectual. O seu livro foi produzido nos anos em que a Europa sofria o
impacto da Origem das espécies, de Charles Darwin, e que a nascente antropologia foi
dominada pela estreita perspectiva do evolucionismo unilinear. A década de 60 do século XIX
foi rica em trabalhos desta orientação. Uma série de estudiosos tentou analisar, sob esse
prisma, o desenvolvimento das instituições sociais, buscando no passado as explicações para
os procedimentos sociais da atualidade.

Assim, Maine em Ancient Law (1861) procurou analisar o desenvolvimento das instituições
jurídicas; o mesmo ocorreu com Bachofen, que em Das Musterrecht desenvolveu a ideia da
promiscuidade primitiva e consequentemente da instituição do matriarcado. E em Primitive
Marriage (1865) McLennan estuda a instituição do matrimônio a partir dos casamentos por
rapto. Por detrás de cada um destes estudos predominava, então, a ideia de que a cultura
desenvolve-se de maneira uniforme, de tal forma que era de se esperar que cada sociedade
percorresse as etapas que já tinham sido percorridas pelas “sociedades mais avançadas”.
Desta maneira era fácil estabelecer uma escala evolutiva que não deixava de ser um processo
discriminatório, através do qual as diferentes sociedades humanas eram classificadas
hierarquicamente, com nítida vantagem para as culturas europeias. Etnocentrismo e ciência
marchavam então de mãos juntas.
Além dessas primeiras análises evolucionistas, ocorridas na infância teórica da Antropologia,
outras teorias passaram a ser desenvolvidas por diferentes antropólogos europeus e
americanos.

Analisando essas tentativas modernas de obter uma espécie de precisão conceitual a respeito
da Cultura, o antropólogo Roger Keesing, percebe algumas semelhanças entre as diferentes
teorias e as organiza.

Primeiro, ele analisa as teorias que consideram a Cultura como um sistema adaptativo, ou seja,
um meio que permite ao homem adaptar-se da melhor maneira ao ambiente em que vive, as
percepções semelhantes são que (LARAIA, 2000):

“”Culturas são sistemas (de padrões de comportamento socialmente transmitidos) que servem
para adaptar as comunidades humanas aos seus embasamentos biológicos. Esse modo de vida
das comunidades inclui tecnologias e modos de organização econômica, padrões de
estabelecimento, de agrupamento social e organização política, crenças e práticas religiosas, e
assim por diante.“”

“”Mudança cultural é primariamente um processo de adaptação equivalente à seleção


natural“. ”O homem é um animal e, como todos animais, deve manter uma relação adaptativa
com o meio circundante para sobreviver. Embora ele consiga esta adaptação através da
cultura, o processo é dirigido pelas mesmas regras de seleção natural que governam a
adaptação biológica.“”

“”A tecnologia, a economia de subsistência e os elementos da organização social diretamente


ligada à produção, constituem o domínio mais adaptativo da cultura. É neste domínio que
usualmente começam as mudanças adaptativas que depois se ramificam.“”

“”Os componentes ideológicos dos sistemas culturais podem ter consequências adaptativas no
controle da população, da subsistência, da manutenção do ecossistema, etc.“”

Importantes antropólogos como Marshall Sahlins, Marvin Harris e Leslie White defenderam
essa perspectiva teórica, e contribuíram para o entendimento de diversos aspectos da vida
humana em sociedade e as adaptações práticas que a humanidade precisou desenvolver para
sobreviver ou as estratégias de convivência que precisou criar.

Em segundo lugar, Roger Keesing refere-se às teorias idealistas da cultura, e as subdivide em


três diferentes abordagens (LARAIA, 2000):

A primeira delas é a dos que consideram cultura como sistema cognitivo. Os antropólogos que
defendem essa perspectiva teórica acreditam que a Cultura é um sistema de conhecimento:
“consiste em tudo aquilo que alguém tem de conhecer ou acreditar para operar de maneira
aceitável dentro de sua sociedade.”
A cultura, nesse caso, é vista como um sistema de classificação desenvolvido pelos próprios
membros da sociedade, que vai se modificando à medida que novas classificações vão
surgindo. Para essa investigação, é importante a análise da linguagem, pois os significados
também são criados através da linguagem. Ward H. Goodenough foi um antropólogo que
defendeu essa perspectiva teórica.

A segunda abordagem é aquela que considera a Cultura como um sistema estrutural, ou seja,
define cultura como um sistema simbólico que é uma criação acumulativa da mente humana.
Nesse caso, o trabalho da Antropologia tem sido o de desvendar, na arquitetura dos
elementos culturais como mito, música, expressões artísticas e linguagem, os princípios da
mentalidade que provocam essas expressões culturais.

Segundo Claude Levi-Strauss, famoso antropólogo que desenvolveu essa perspectiva, existe
uma unidade psíquica na humanidade que faz com que o pensamento humano esteja
submetido a regras inconscientes, ou seja, um conjunto de princípios dados pela própria
estrutura da realidade, e que as diferentes culturas teriam apenas o trabalho de classificar
esses princípios.

Ou seja, baseados na lógica da própria realidade, os homens dão diferentes significados para
as mesmas coisas.

Por exemplo, uma tempestade pode ser interpretada como um fenômeno natural por nossa
sociedade que acredita na ciência da meteorologia; mas também pode ser interpretada como
a fúria dos deuses, ou a ira de Deus, como fazem alguns grupos humanos. A tempestade é a
mesma, mas os significados dados a ela diferem bastante.

A terceira perspectiva teórica é a que considera a cultura como sistema simbólico. Esta posição
foi desenvolvida principalmente por Clifford Geertz.

Geertz defende a ideia de que a Cultura é formada pelos significados contidos num conjunto
de símbolos compartilhados. Ele define símbolo como qualquer ato, objeto, acontecimento ou
relação que representa um significado. Compreender o homem e a cultura é interpretar essa
teia de significados.

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Cena de uma “briga de galos” em Bali, na Indonésia. Esse traço cultural dos balineses foi
intensamente estudado por Clifford Geertz; seu livro “A interpretação das culturas” é um
clássico da Antropologia, que expõe as concepções geertzianas sobre o que é cultura, o papel
que desempenha na vida social e como deve ser adequadamente estudada, em uma tentativa
de esclarecimento sistemático do próprio conceito cultural em suas relações com o
comportamento real de indivíduos e grupos.

Disponível em: <https://anthromama.com/2012/02/22/geertz-cockfight-interpretism-


materialism/>

Seu conceito é essencialmente semiótico, pois fundamenta-se no compartilhamento das


ideias, essa “teia de significados” amarrada coletivamente e que orienta as escolhas dos
indivíduos no seu cotidiano. Assim, a cultura não deve ser considerada como um padrão de
comportamentos concretos, mas como um conjunto de mecanismos de controle, planos,
receitas, regras, instruções com o objetivo de governar o comportamento dos indivíduos.

Essas análises se multiplicaram na Europa, justamente no momento histórico em que as


diferenças culturais se tornaram relevantes para o pensamento científico europeu; os povos
nativos, antes brutalmente dominados e colonizados pelos europeus, passaram a se organizar
mo Estados, a interagir economicamente e a se adaptar a uma nova realidade política que se
configurava ao redor do mundo, gerando a necessidade de compreender a natureza dessas
mudanças.

6. A atualidade da antropologia

A antropologia, mesmo mantendo pontos de articulação e confronto com a filosofia, a


sociologia, a psicologia e a história, torna-se um campo de investigação cada vez mais
especializado, avançando dentro de sua própria prática científica, e desenvolvendo métodos
próprios de análise dos seres humanos.

Uma questão importante para a Antropologia, como disciplina científica, é que ela não deve
ser caracterizada pelo “objeto” empírico que estuda. Na verdade, a única coisa passível de
definir uma disciplina científica é a especificidade da abordagem utilizada.

Assim, o que define a Antropologia como ciência não é aquilo que ela estuda (consumo, arte,
religião, tecnologia, padrões comportamentais, etc.), nem o período histórico ou área
geográfica que estuda, mas a abordagem que transforma esse campo, essa área, esse período
histórico em objeto científico. Não é o objeto que ela observa, mas a maneira como observa.

Assim, por exemplo:

Um fotógrafo não se torna um artista por causa daquilo que ele fotografa; ele fotografa aquilo
que todos os outros também fotografam com suas câmeras, celulares, etc.; o que o transforma
num artista, num grande fotógrafo, é a maneira diferenciada como ele capta aquelas imagens,
o olhar diferenciado que transforma uma simples imagem numa obra de arte.

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Lee Jeffries é um fotógrafo que captura imagens de moradores de rua, e ao contrário da


atitude comum das pessoas da cidade, de ignorá-los e desviar o olhar, Jeffries consegue
transmitir a força e a intensidade dessas pessoas marginalizadas, transformando seu olhar
numa percepção artística.

Disponível em: <https://www.instagram.com/lee_jeffries/>

Nessa perspectiva, a CULTURA passou a ser talvez o principal objeto de estudo da


Antropologia, já que ela é a teia de significados que conecta os indivíduos num grupo humano,
definindo suas visões de mundo, suas classificações morais, seus padrões de beleza e muitos
outros aspectos da vida.

A CULTURA é a lente a partir da qual os indivíduos olham para a realidade, emitindo juízos de
valor e classificando todas as esferas da vida.

Uma boa sugestão de filme é o documentário biográfico do famoso fotógrafo brasileiro


Sebastião Salgado, intitulado Sal da Terra. Dirigido pelo grande cineasta Wim Wenders e o filho
de Sebastião Salgado, Juliano Ribeiro Salgado, as cenas do documentário foram captadas no
Brasil, na França e na Itália e lançado em 2014.

7. Conclusão

Espero que essa brevíssima viagem pela história da Antropologia tenha te ajudado a
compreender um pouco sobre a origem e o desenvolvimento desse campo de investigação do
ser humano.

Se você gosta de viajar e conhecer lugares diferentes, experimentar culturas diferentes e


conhecer pessoas diferentes, a Antropologia pode ajudá-lo a compreender certos aspectos
culturais que farão sua experiência turística ser mais rica e interessante, mas principalmente
sua experiência humana, pois permite que compreenda as diferenças culturais e que perceba
os diferentes apenas como diferentes, sem hierarquizações excludentes.

A Antropologia é atualmente utilizada em diversas áreas da investigação social, como as


empresas de pesquisa de tendência, as agências de publicidade, as empresas de jornalismo e
outras. Onde houver curiosidade de entender o comportamento humano, a Antropologia
servirá de auxílio a essa compreensão.

8. Notas Complementares

¹Etnocentrismo é um conceito antropológico que ocorre quando um determinado indivíduo ou


grupo de pessoas, que não têm os mesmos hábitos e caráter social, discrimina outro, julgando-
se melhor ou pior, seja por causa de sua condição social, pelos diferentes hábitos ou manias,
por sua forma de se vestir, ou seja, pela sua cultura.

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