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1.

Introdução

A Revolução Francesa e a Revolução Industrial foram os acontecimentos que serviram de


cenário para o surgimento da Sociologia. A Europa experimentava grandes mudanças que
transformaram a vida da população, seus valores, seu cotidiano e seu trabalho. Alguns
costumes e tradições começaram a desaparecer e a antiga organização social começou a abrir
espaço para o processo de industrialização e urbanização da sociedade europeia.

Em um prazo relativamente curto, a humanidade presenciou uma das maiores transformações


em sua história: a família patriarcal, a servidão e o trabalho manufatureiro foram
desaparecendo, dando início à indústria capitalista. Num espaço de cem anos, a Europa que
possuía fazendas, pequenas manufaturas e dispositivos mecânicos simples foram substituídos
por máquinas complexas e grandes fábricas.

Paralelamente, a Revolução Francesa promoveu ideais seculares, como a liberdade e a


igualdade, desafiando a ordem social tradicional, e muitas das explicações baseadas na religião
passaram a receber críticas e a serem superadas por interpretações racionais e lógicas da
realidade.

As mudanças provocadas pela revolução científico-tecnológica que chamamos de Revolução


Industrial, e pela Revolução Francesa, alteraram profundamente a mentalidade coletiva e a
organização social, criando novas formas de organização da vida e provocando modificações
culturais que se mantém até os dias atuais.

É nesse cenário de mudanças rápidas e abruptas que a Sociologia nasce, tentando explicar
essas transformações e produzir um conhecimento científico que permitisse uma análise
racional da realidade social.

2. Contexto histórico do surgimento da sociologia

Compreender minimamente a história do século XVIII é essencial para entendermos a


mentalidade ocidental que estava se construindo e para o surgimento da Sociologia. As
transformações intelectuais, políticas, econômicas e culturais se aceleram e apresentam
problemas inéditos aos filósofos iluministas.

Com o pensamento iluminista viralizando a mentalidade europeia, e principalmente a França,


o poder absoluto da Monarquia e da Igreja passou a ser questionado. A riqueza e a ostentação
dos nobres e do Alto Clero, antes vista com naturalidade, passou a ser vista como ofensiva em
relação à miséria experimentada pelo povo.
Impregnados dos ideais de liberdade e igualdade, representantes dos comerciantes,
empresários, trabalhadores urbanos e camponeses se uniram para formular uma nova
constituição para a França e, a partir daí, em meio a muita revolta popular e violência, iniciou-
se a Revolução Francesa.

Na Inglaterra, com o desenvolvimento tecnológico promovendo a Revolução Industrial, o


vapor e a eletricidade substituíram as fontes tradicionais de energia utilizadas até então: a
água, o vento e o músculo dos animais e dos humanos. A substituição da energia humana pela
energia motriz, das ferramentas pelas máquinas, bem como da produção doméstica pelo
sistema fabril, trouxe enormes prejuízos para as famílias que começaram a ficar
desempregadas.

Os habitantes das aldeias e das fazendas, vendo suas antigas profissões se tornarem
desnecessárias, passaram a emigrar para as minas de carvão mineral ou para as cidades onde
havia fábricas, em busca de trabalho e sustento para suas famílias.

A Revolução Industrial foi mais do que apenas a introdução da máquina no cotidiano do


trabalho humano e seus constantes aperfeiçoamentos; ela representou o triunfo da indústria
capitalista, administrada por empresários que aos poucos concentraram as máquinas, as terras
e as ferramentas sob o controle de poucos, transformando populações inteiras de camponeses
e trabalhadores independentes em grandes massas humanas aglomeradas nas cidades.

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Trabalhadores aglomerados em busca de empregos nas cidades industriais.

Disponível em: <http://www.infoescola.com/wp-content/uploads/2007/09/revolucao-


industrial.jpg>

As cidades fabris, devido a um crescimento populacional grande e rápido, não possuíam a


infraestrutura necessária para acomodar tantos novos habitantes, e as consequências da
rápida industrialização foram percebidas no aumento do alcoolismo, da criminalidade, da
violência, da prostituição; surtos de epidemias de tifo e cólera se tornaram constantes,
exterminando uma grande quantidade de pessoas. O cenário urbano da Inglaterra estava se
transformando num caos e os índices de suicídio aumentavam constantemente. O social torna-
se um problema a ser estudado.

As mudanças promovidas pela Revolução Industrial e pela Revolução Francesa produziram a


ascensão definitiva da sociedade capitalista e desenharam um novo futuro para a humanidade:
muita produção de bens e riqueza num ritmo frenético, coexistindo com um cenário
inimaginável de miséria e desvalorização da vida.
Entenda melhor esse contexto histórico assistindo à série de vídeos sobre a história da
humanidade, intitulada “A grande História”. O vídeo abaixo vai te direcionar para o episódio
específico sobre o contexto histórico da Revolução Industrial:

Alvin Toffler, futurista americano e estudioso das revoluções científico-tecnológicas da


humanidade, argumenta que na Revolução Industrial os meios de produção de riqueza se
alteraram. Na economia agrícola a forma de gerar riqueza era cultivando a terra, e os meios de
produção de riqueza eram, portanto, a terra, alguns implementos agrícolas (ferramentas de
cultivo), os insumos básicos (sementes), e o trabalho do ser humano e de animais, que fornecia
toda a energia necessária ao processo produtivo. Do ser humano se esperava que tivesse um
mínimo de conhecimento sobre técnicas de plantio e colheita, e que tivesse a força física para
trabalhar.

Em tempos de industrialização, os prédios (fábricas), equipamentos, energia para os


equipamentos, matéria prima, o trabalho do ser humano, e, naturalmente o capital (dada a
necessidade de grandes investimentos iniciais) passaram a assumir um papel essencial
enquanto meios de produção. Do ser humano passou a se esperar que pudesse entender
ordens e instruções, que fosse disciplinado e que, na maioria dos casos, tivesse força física
para trabalhar.

Para que o camponês europeu pudesse se adaptar a essas novas demandas da indústria, era
necessário treiná-lo, discipliná-lo e transformá-lo num sujeito útil para as indústrias.

Para alcançar esse objetivo, foi criada a Escola.

3. A origem da educação

Joseph Meyer, um dos mais diligentes editores do século XIX, inventou o slogan “A educação
liberta!”, e a democracia social do século XX elevou esse slogan à categoria de exigência
política, levando todos a acreditarem na educação como um grande benefício concedido às
pessoas.
Talvez você já tenha ouvido a frase “Saber é Poder!” ou “Cultura para todos!” e tenha
acreditado na transformação que a educação pode causar na vida das pessoas, ou na
importância de todas as crianças frequentarem uma escola.

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Cena do clipe Another brick in the wall, da banda Pink Floyd, que acusa o sistema educacional
de controlar as mentes das cianças.

Disponível em:
<https://67.media.tumblr.com/74f3bad51e65eed55a9a03c415753df2/tumblr_nv1hjko0ZK1qd
qzl4o1_500.gif>

O clipe do Pink Floyd é uma crítica feroz ao sistema educacional ocidental, e vale a pena
analisar a perspectiva dos autores da música e do clipe e refletir sobre nossa formação escolar.
Assista o clipe abaixo:

No entanto, Hans Magnus Enzensberger, poeta, ensaísta e escritor alemão, em sua obra
Mediocridade e Loucura (1995), argumenta que a escola foi criada pelo Estado para atender a
uma exigência dos capitalistas industriais, que precisavam de trabalhadores treinados para
operarem suas máquinas e fazerem funcionar suas indústrias.

Enzensberger diz que já em 1880 na Alemanha, o índice de analfabetismo era menor do que
1% e hoje é praticamente inexistente, mas desconfia da notícia, acreditando que ela não seja
tão boa quanto parece. Em suas próprias palavras,

Nossa alegria em relação a este triunfo mantém-se dentro de certos limites. A notícia é boa
demais para ser verdadeira. Os povos aprenderam a ler e a escrever não por vontade própria,
mas porque se viram obrigados a tanto. A emancipação deles foi, simultaneamente, uma
cassação dos seus direitos. A partir de então, o ato de aprender passou a ser controlado pelo
Estado e suas agências: a escola, o exército e a justiça.

(...) A meta perseguida pela alfabetização da população nada teve a ver com o Iluminismo. Os
filantropos e os sacerdotes da cultura que a defendiam foram apenas cúmplices de uma
indústria capitalista, exigindo que o Estado colocasse à sua disposição trabalhadores treinados.
(...) O esforço nunca tratou de abrir um caminho para a “cultura escrita” e muito menos de
libertar as pessoas para que falassem por si mesmas. O que estava em jogo era um tipo
completamente diferente de progresso. Ele consistia em domesticar os analfabetos, acabando
com a imaginação e a teimosia deles, passando-se desde então a explorar não apenas sua
força muscular e suas habilidades, como também seus cérebros.

Aquilo a que chamamos de Educação e da qual nos orgulhamos, foi na verdade um processo
histórico de adestramento populacional para o trabalho na indústria, que desejava empregar
pessoas que fossem tecnicamente treinadas, obedientes e dóceis.

Michel Foucault (1987) constatou em suas pesquisas que nos séculos XVII e XVIII inaugura-se
na sociedade europeia o momento das disciplinas, ou seja, um momento histórico em que as
práticas de vigilância eram utilizadas como método de controle comportamental, através de
instituições como as prisões, os quartéis, as escolas, os hospitais e outras organizações,
produzindo corpos submissos por meio de uma sujeição implantada nos indivíduos que sabiam
que estavam sendo observados. Era um tipo de poder que ele chama de microfísico e que, nas
palavras do próprio Foucault “[...] se exerce continuamente através da vigilância [...]”.

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As escolas foram os locais criados para se preparar a mão de obra para o trabalho na indústria.
Até o formato das salas de aula correspondiam ao ambiente da indústria.

Disponível em:

<http://moisesprofhist.blogspot.com/2017/07/a-revolucao-industrial.html>

<http://historiacepae.blogspot.com/2013/03/a-revolucao-industrial-e-as-criancas_23.html>

A vigilância dos corpos e o controle do indivíduo no espaço e no tempo são, portanto, segundo
Foucault, estratégias utilizadas pelo poder para garantir a docilização do indivíduo e torná-lo
útil à sociedade.

A escola absorveu muito dessa metodologia de vigilância e transformou o ambiente de


aprendizado num ambiente de disciplinamento, vigilância e punição. Talvez você já tenha se
submetido ao mapa de sala, para ter o controle territorial dos alunos, ou já tenha sido
envergonhado publicamente por não se adequar aos padrões comportamentais exigidos na
escola.

Foi essa “parceira de adestramento” entre o Estado e a Indústria Capitalista que nos colocou
num banco de escola, aprendendo aquilo que a indústria (e atualmente o Mercado)
determinou que deveríamos aprender.
4. O surgimento da sociologia

Esse cenário de mudanças profundas em todas as esferas da sociedade inspirou os intelectuais


que já buscavam compreender a sociedade, a empreenderem uma investigação mais profunda
e científica.

Para isso, alguns pensadores começaram a desenvolver metodologias de pesquisa e análise da


realidade, buscando criar uma ciência que pudesse estudar a realidade social de modo racional
e sistematizado. A criação da Sociologia representa o resultado da pesquisa e da produção
científica de um conjunto de pensadores que se empenharam em compreender as novas
situações de existência que estavam acontecendo.

Os pensadores ingleses que testemunhavam estas transformações e com elas ocupavam seu
pensamento, eram antes de tudo pessoas voltadas para a ação, que tinham o objetivo de
introduzir determinadas mudanças na sociedade. Participavam ativamente dos debates das
diferentes correntes ideológicas, como os liberais, conservadores e socialistas.

Eles não desejavam apenas compreender o cenário social ou produzir conhecimento sobre as
novas condições de vida, mas procuravam orientar-se para a ação transformadora, tanto para
manter, como para reformar ou modificar radicalmente a sociedade de seu tempo. Isso
significa que os precursores da Sociologia eram militantes políticos, indivíduos que
participavam e se envolviam profundamente com os problemas de suas sociedades, buscando
modificá-las.

Todas as transformações que ocorreram desde o século XVIII trouxeram consigo problemas
para a vida em comunidade, daí surge a Sociologia e seus pesquisadores para esclarecerem as
mudanças ocorridas no meio social, juntamente com os processos que interligam os indivíduos
em grupos, associações e instituições. O termo Sociologia foi criado por Auguste Comte em
1838, e pretendia unificar a Psicologia, a Economia e a História, levando em consideração que
todos esses assuntos giram em torno do ser humano e seu comportamento. Mas os
fundamentos sociológicos só foram institucionalizados com Karl Marx, Émile Durkheim e Max
Weber, pensadores que se tornam base para a fundação da Sociologia como ciência.

Durkheim afirmou que desde quando “a tempestade revolucionária passou, constituiu-se


como que por encanto a noção de ciência social”, ou seja, desde os primeiros impactos das
Revoluções Francesa e Industrial, o ritmo e o nível das mudanças ocorridas, colocaram a
sociedade como “um problema” a ser investigado.

A tarefa que esses pensadores se propuseram foi a de compreender racionalmente a nova


ordem social que estava sendo estabelecida pelos capitalistas, buscando encontrar soluções
para o estado de “desorganização” existente.
Inspirados pelo pensamento conservador da época, alguns intelectuais e particularmente os
positivistas¹ estavam interessados na preservação da nova ordem econômica e política que
estava sendo implantada. Preocupados com a ordem, a estabilidade e a coesão social,
enfatizaram a importância da autoridade, da hierarquia, da tradição e dos valores morais para
a conservação da vida social. O principal representante dessa visão foi o francês Auguste
Comte.

Mas para restabelecer a “ordem e a paz”, para encontrar um estado de equilíbrio nessa nova
sociedade, seria necessário, segundo eles, conhecer as leis que regem os fatos sociais,
instituindo uma ciência da sociedade.

No entanto, além dos conservadores, que buscavam a estabilidade e a manutenção da nova


sociedade capitalista, havia os revolucionários, que viam o sistema capitalista como uma nova
roupagem para a escravidão humana, e

por isso buscavam compreender suas fraquezas e suas brechas, para poder derrubá-lo.

Assim percebemos que a Sociologia surge como algo mais do que mera reflexão sobre a
moderna sociedade. Suas explicações tinham intenções práticas, objetivando interferir no
rumo desta civilização, tanto para manter como para alterar os fundamentos da sociedade que
a impulsionaram e a tornaram possível.

4.1. Os Fundadores da Ciência da Sociedade

Durkheim e o método

Durkheim é considerado por muitos historiadores como o verdadeiro fundador da Sociologia


como ciência independente das outras ciências sociais. Buscou estabelecer regras
metodológicas claras para a prática da Sociologia e em 1895 lançou seu famoso livro As regras
do método sociológico, indicando como deveria ser a abordagem dos problemas sociais,
estabelecendo regras de análise dos fenômenos.

Baseado na metodologia desenvolvida em seu livro, Durkheim publica dois anos mais tarde O
Suicídio, fruto de uma pesquisa sobre as reais causas dos suicídios; ele constatou que o suicídio
é mais do que um simples ato individual de desespero, e é fortemente influenciado por fatores
sociais. Com isso, demonstrou a influência de fatores sociais na vida dos indivíduos e a
importância de estudá-los para compreender a dinâmica da vida social.
Durkheim chamou o suicídio que ocorre em ambientes de baixa regulação social de “suicídio
anômico”. Ele ocorre quando as regras que governam o comportamento dos indivíduos são
definidas de maneira vaga, tornando seu cotidiano muito imprevisível.

Na situação oposta, ou seja, em ambientes de alta regulação social, tendem a ocorrer suicídios
que Durkheim denominou “suicídio fatalista”. Ele decorre de uma regulação ou normatização
excessiva da vida social e que deixa pouco espaço para que os indivíduos manifestem suas
paixões e necessidades, ou seja, sua individualidade.

Já em contextos de baixa integração social, isto é, em contextos nos quais a frequência e


intensidade das interações sociais são baixas, ocorre o “suicídio egoísta”. O suicídio egoísta
decorre de uma falta de integração do indivíduo à sociedade devido a laços sociais fracos com
outros indivíduos.

Por fim, o “suicídio altruísta” ocorre quando existe um grau muito alto de integração social, de
forma que as ações individuais dizem respeito aos interesses do grupo.

Karl Marx e a revolta dos explorados

Enquanto o objetivo do positivismo foi a preservação da nova sociedade capitalista, Karl Marx
fará a crítica radical a esse tipo de ordem social, expondo suas falhas e contradições.

Enxergando a exploração do ser humano na base do sistema capitalista, Marx e Engels se


dedicam a estudar e expor todas as falhas desse novo sistema.

Karl Marx argumentou que os proprietários de indústrias estavam ansiosos por melhorar a
maneira como o trabalho estava organizado e por adotar novas ferramentas, máquinas e
métodos de produção. Tais inovações lhes possibilitariam produzir mais eficientemente, obter
mais lucros e eliminar concorrentes ineficientes do mercado.

No entanto, o impulso para o lucro também faz com que os capitalistas concentrem os
trabalhadores em estabelecimentos cada vez maiores, mantenham os salários o mais baixo
que puderem e invistam o mínimo possível na melhoria das condições de trabalho.

Para que isso seja possível, Karl Marx argumenta que os capitalistas industriais produziam uma
ideologia, ou seja, uma ilusão, uma falsa consciência, uma concepção idealizada da realidade
para que os trabalhadores acreditassem e permanecessem dominados.
A ideologia é considerada um instrumento de repressão que age através do convencimento,
alienando a consciência humana. A ideologia é a produção de uma certa “compreensão da
realidade” para ocultar ou disfarçar a dominação das classes privilegiadas.

Segundo Karl Marx, a própria sobrevivência dos trabalhadores era determinada pelos patrões,
que ele chamava de capitalistas, ou seja, os detentores do capital. Os capitalistas industriais
passaram a se articular com o Estado e a produzir legislação favorável à sua acumulação de
capital.

Assim, Marx argumentou: uma classe de trabalhadores pobres, cada vez maior, opõe-se a uma
classe cada vez menor de proprietários dos meios de produção.

Daí se origina o que Marx chama de Luta de Classes, e estabelece a centralidade do conflito
como motor das relações sociais.

Max Weber e o desenvolvimento da sociologia

Max Weber é considerado um dos mais importantes pensadores do começo do século XX, pois
deu inúmeras contribuições à Sociologia, formulando conceitos e desenvolvendo tipologias de
análise científica.

Entre os estudos mais relevantes, estudou a Burocracia, os sistemas de estratificação social e a


questão da autoridade.

Talvez um dos conceitos mais centrais na teoria weberiana seja o de “ação social”, que,
segundo o autor, deveria ser o principal objeto de estudo da Sociologia. Weber estudava
aspectos mais cotidianos da vida dos indivíduos justamente por acreditar que o grande
motivador da ação na vida das pessoas eram as ideias, as crenças e os valores, sendo também
os principais catalizadores das mudanças sociais, e não apenas a estrutura das instituições ou a
situação econômica do sujeito.

Ele acreditava que os indivíduos tinham liberdade para agir e mudar a sua realidade. A ação
social seria, portanto, qualquer ação que possuísse um sentido e uma finalidade determinados
por seu autor. Em outras palavras, uma ação social constitui-se como ação a partir da intenção
de seu autor em relação à resposta que deseja de seu interlocutor.

5. Principais teorias sociológicas


5.1 Funcionalismo

O sociólogo norte-americano Talcott Parsons (1902-1979) foi um dos pensadores


funcionalistas mais importantes, depois de Émile Durkheim. Uma de suas principais
contribuições foi a de identificar como as várias instituições sociais devem operar a fim de
assegurar o funcionamento regular da sociedade.

Os funcionalistas acreditam que o equilíbrio social depende de cada instituição cumprir sua
função na sociedade. Nessa perspectiva, cada indivíduo e cada instituição contribuem para o
funcionamento harmonioso da sociedade.

Para Parsons, a sociedade encontra-se bem integrada e em equilíbrio quando as famílias


educam bem as novas gerações, quando os militares defendem satisfatoriamente a sociedade
das ameaças externas, quando as escolas ensinam às crianças as habilidades e os valores que
elas precisam para funcionar como adultos produtivos, quando as religiões criam um código
moral compartilhado entre as pessoas e quando o governo transforma os impostos pagos
pelos cidadãos em benefícios para toda a sociedade, tais como educação, segurança e saúde.

VOCÊ SABIA

O olhar funcionalista parecia se adequar perfeitamente às necessidades de compreensão e


legitimação de uma sociedade que necessitava de uma padronização intensa, já que as
indústrias e suas linhas de montagem haviam se espalhado por todo o globo terrestre.

Os funcionalistas enfatizam que o comportamento humano é governado por padrões estáveis


de relações sociais; também argumentam que as estruturas sociais mantêm ou enfraquecem o
equilíbrio social. É por essa razão que os funcionalistas são, às vezes, chamados de
“funcionalistas estruturais”: eles analisam como as partes da sociedade (as estruturas) se
encaixam umas às outras e como cada parte contribui para a estabilidade do todo (sua
função).

Ainda de acordo com a perspectiva funcionalista, as estruturas sociais baseiam-se,


principalmente, em valores compartilhados, pois são estes valores que mantêm as pessoas
unidas, são essas crenças que as aproximam. Sugerem que o restabelecimento do equilíbrio
social é a melhor solução para os problemas da sociedade. Durkheim escreveu que a
estabilidade social poderia ser restaurada na Europa do fim do século XIX (que sofria com as
desgraças da Revolução Industrial) por meio da criação de novas associações de patrões e
empregados que poderiam, por sua vez, diminuir as expectativas dos trabalhadores em
relação ao que poderiam esperar da vida. Para Durkheim, se as pessoas desejassem menos,
então a solidariedade social aumentaria e haveria menos greves e taxas de suicídio menores.
O Funcionalismo representou, portanto, uma resposta conservadora para o mal-estar
generalizado na França do fim do século XIX, e foi assim considerado porque não contempla a
diversidade e não analisa as contradições existentes na realidade, mas busca uma
padronização dos seres humanos para a manutenção de uma certa ordem.

5.2 Teoria Do Conflito

Outra tradição teórica da sociologia enfatiza a centralidade do conflito na vida social. A teoria
do conflito teve origem na obra do pensador social alemão Karl Marx. Membro da geração
imediatamente anterior à de Durkheim, Karl Marx observou a pobreza e o descontentamento
produzidos pela Revolução Industrial e desenvolveu um argumento generalizado acerca da
maneira como as sociedades se desenvolvem.

A teoria de Marx era radicalmente diferente da de Durkheim: em vez de enfatizar a


importância do equilíbrio social, o cerne de suas ideias é a luta de classes, isto é, os conflitos
entre as classes no sentido de resistir e superar a oposição de outras classes.

A teoria do conflito concentra sua atenção no estudo das grandes estruturas macrossociais,
tais como “relações de classe” ou padrões de dominação, submissão e luta entre indivíduos de
posições sociais altas e baixas. Para os teóricos do conflito, os ricos lutam para permanecer
ricos e, para isso, exploram injustamente a mão-de-obra da grande maioria de trabalhadores,
dando-lhes baixos salários e más condições de trabalho. Os pobres lutam para manter um
padrão de vida que beira à mera sobrevivência e lutam por seus interesses, gerando uma
relação conflituosa com seus patrões

A teoria do conflito enfatiza como os membros de grupos privilegiados tentam manter suas
vantagens, enquanto grupos subordinados lutam para aumentar as suas. Desse ponto de vista,
as condições sociais em um dado período de tempo são a expressão de uma luta de poder
contínua entre grupos privilegiados e grupos subordinados. Nessa perspectiva, a eliminação
dos privilégios diminuirá o grau de conflito e aumentará o bem-estar humano total.

Essa teoria analisa as contradições que são inerentes à existência humana e que, em um
sistema desigual por excelência, essas contradições assumem um caráter significativo para
compreensão da realidade social e sua transformação.

5.3 Interacionismo

Como vimos anteriormente, Max Weber foi um dos mais importantes sociólogos,
influenciando profundamente o desenvolvimento da sociologia no mundo todo. Em muitas de
suas obras, Weber enfatizou a importância de se compreender os motivos e significados que as
pessoas atribuem às coisas para entender mais claramente o significado de suas ações.
Para Weber, compreender o significado que as pessoas davam para suas ações e as
motivações que as levavam a praticá-las, era de extrema importância para compreender a
sociedade.

A ideia de que significados e motivos individuais devem ser levados em consideração em


qualquer análise sociológica que se pretenda completa, foi uma das contribuições de Weber à
teoria sociológica clássica.

Sua ênfase em significados subjetivos encontrou solo fértil nos Estados Unidos no final do
século XIX e início do século XX porque suas ideias ressoaram no profundo individualismo da
cultura norte-americana.

Os americanos foram culturalmente educados a acreditarem que o talento e a iniciativa


individual tornavam possível que as pessoas conseguissem praticamente qualquer coisa
naquela terra de oportunidades. Neste caso, o talento e a iniciativa individual são muito
valorizados como fatores de transformação social.

Assim, teorias interacionistas concentram suas análises na comunicação interpessoal,


produzida em ambientes microssociais, nos significados subjetivos criados em pequenos
ambientes. Assim, enfatiza que a vida social só é possível na medida em que as pessoas,
individualmente, atribuem significado às coisas. Uma explicação adequada do comportamento
social requer a compreensão dos significados subjetivos que as pessoas associam às suas
circunstâncias sociais. Não podemos supor que as pessoas pensem de maneira idêntica;
sabemos que temos nossas particularidades, que de alguma maneira somos seres únicos, e por
isso as interpretações individuais e microssociais fazem parte do comportamento social.

Assim, o Interacionismo insiste no fato de que as pessoas ajudam a criar circunstâncias sociais
e não simplesmente reagem a elas. Erving Goffman, por exemplo, analisou as diversas
maneiras como as pessoas se apresentavam umas às outras na vida cotidiana, de forma a
aparecerem da melhor maneira possível. Goffman comparava a interação social a uma peça
cuidadosamente encenada, completa, com um palco, um cenário, papéis definidos e diversos
adereços. Nessa peça, a idade, o gênero, a raça e outras características de uma pessoa podem
ajudar a determinar/padronizar suas ações, mas também existe muito espaço para a
criatividade individual.

5.4 Construtivismo Social

Uma variante do Interacionismo que tem se tornado particularmente popular nos últimos anos
é o construtivismo social. Os construtivistas sociais argumentam que quando as pessoas
interagem, elas quase sempre pressupõem que as coisas são, natural ou biologicamente, o que
deveriam ser, ou seja, não se questionam sobre a origem e a natureza dos fatos. No entanto,
características aparentemente naturais ou inatas da vida são muitas vezes sustentadas por
processos sociais que variam histórica e culturalmente.

As pessoas, de maneira geral, são tão bem sucedidas em construir realidades sociais de
aparência natural em suas interações na vida cotidiana, que não notam os materiais?
Utilizados no processo dessa construção. Em resumo, estudar os indivíduos em meio à
multidão nos ajuda a perceber além da imagem oficial, além dos estereótipos, aprofundando
nossa compreensão de como a sociedade funciona e complementando com as informações
adquiridas a partir da análise de grandes estruturas.

5.5 Feminismos

Poucas mulheres tiveram destaque na história inicial da sociologia. As obrigações colocadas


sobre elas pela família do século XIX e a falta de oportunidades na sociedade como um todo
impediram que a maioria das mulheres tivesse formação superior e contribuísse de maneira
efetiva para a sociologia. As mulheres que deixaram sua marca na sociologia em seus
primórdios, normalmente tinham biografias pouco comuns.

Algumas dessas mulheres excepcionais trouxeram à tona questões de gênero ignoradas por
Marx, Durkheim, Weber e outros sociólogos clássicos. O reconhecimento das contribuições
sociológicas de mulheres pioneiras tem aumentado nos últimos anos porque a preocupação
com questões de gênero tem se tornado parte substancial da sociologia contemporânea.

Harriet Martineau (1802-1876) foi a primeira socióloga, sendo uma defensora importante dos
direitos das mulheres de votar, de ter acesso à educação superior e da igualdade de gênero na
família.

Apesar da agitação inicial, o pensamento feminista teve pouco impacto na sociologia, até que
em meados de 1960 o surgimento do movimento feminista moderno chamou a atenção para
muitas das desigualdades que ainda existiam entre homens e mulheres. Em virtude da grande
influência que a teoria feminista vem exercendo sobre a Sociologia desde então, é possível
considerá-la como a quarta grande tradição teórica da sociologia nos dias de hoje.

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Movimentos feministas em diferentes épocas, defendendo diferentes pautas.

Disponível em:
<https://3.bp.blogspot.com/-
Fuq4nfmGj8E/Vz93WfhNsNI/AAAAAAAABhU/nYMtCMzurp89M45yCFzs9VYulhKI9rFEACLcB/s1
600/she%2527s-beatufiu.jpg>

<http://www.folhadevilhena.com.br/rdn/wp-content/uploads/2015/02/marcha-das-
vadias.jpg>

As teorias feministas se concentram nos diversos aspectos do patriarcalismo, isto é, o sistema


de dominação masculina na sociedade. O patriarcalismo, conforme argumentam as feministas,
é tão ou mais importante do que as desigualdades de classe na determinação das
oportunidades que uma pessoa tem na vida.

As teorias feministas sustentam que a dominação masculina e a subordinação feminina não


são determinadas biologicamente, mas decorrem de estruturas de poder e de convenções
sociais.

Também examinam como o patriarcalismo funciona nos níveis micro e macrossociais, isto é,
examinam como a dominação masculina acontece nas grandes estruturas, tais como igrejas,
empresas, política e na própria cultura de um país, mas também nas pequenas estruturas,
como nas famílias e nos círculos íntimos.

A teoria feminista argumenta que os padrões existentes de desigualdade de gênero podem e


devem ser mudados para o benefício de todos os membros da sociedade. As principais fontes
de desigualdade de gênero incluem as maneiras como meninos e meninas são educados, que
resulta em barreiras em relação a oportunidades iguais de educação, trabalho remunerado e
política, assim como uma divisão desigual de responsabilidades domésticas entre homens e
mulheres.

6. Conclusão

Espero que você tenha compreendido um pouco melhor os impactos das Revoluções Industrial
e Francesa na dinâmica das sociedades europeias e posteriormente nas sociedades ao redor
do mundo.

Foram esses impactos que promoveram a criação de instituições como a indústria, a escola, o
Estado e o próprio sistema capitalista, que determina muitos aspectos em nossas vidas
individuais e nos mergulham numa realidade que pouco compreendemos e que, por isso,
tendemos a naturalizar.

Utilize a reflexão sociológica para te ajudar a refinar sua percepção da realidade e das relações
humanas, que são muito mais complexas do que imaginamos. Apenas um mergulho no estudo
e na pesquisa de campo pode nos dar a noção da rede complexa de relações e de interesses
que compõem o mundo ao nosso redor.
Somos o tempo todo estimulados(as) por essas forças, influenciados(as) por seus apelos, e os
próximos tópicos nos ajudarão a compreender melhor o jogo que estamos jogando.

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