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TEORIA POLÍTICA CONTEMPORÂNEA

Unidade II
Estudamos os conceitos de Estado e demais correlatos partindo da perspectiva de diversos autores.
Agora, voltando o nosso olhar para o entendimento de outros conceitos, os quais nos permitem
compreender a dinâmica da realidade contemporânea, sobretudo no que diz respeito à participação
social e ao poder das redes, também veremos aspectos afetos ao desenvolvimento capitalista e acerca
da atual configuração do Estado de influência neoliberal.

Isso porque olhar para o Estado hoje requer essencialmente voltar‑se para a totalidade de fenômenos
que condicionam a vida em sociedade, assim como trazem influências para a própria organização estatal
da atualidade. Dito isto, convidamos você para conhecer a perspectiva de Boaventura Santos acerca
da participação social e também a de Manuel Castells a respeito do poder das redes. Na sequência,
apresentaremos a você informações gerais acerca do atual estágio de desenvolvimento capitalista que
vem assentado na globalização e na tecnologia e encerraremos com a discussão sobre o Neoliberalismo.

Iniciamos com a compreensão de Boaventura Santos sobre a participação popular.

5 A PERSPECTIVA DE BOAVENTURA SANTOS SOBRE A PARTICIPAÇÃO SOCIAL


E O CONTEXTO HISTÓRICO DO BRASIL

5.1 A democracia e a participação popular de Boaventura Santos

Boaventura Santos é professor da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra e graduado


em Direito. Fez sua tese por meio da observação da vida cotidiana em favelas do Rio de Janeiro, e toda
a sua produção teórica, antes do doutorado, sempre esteve voltada para a análise crítica da sociedade.
Atualmente, além de advogado, Boaventura é sociólogo, e suas produções têm sido orientadas para
discutir a globalização, os direitos humanos e as questões afetas à democracia. Voltaremos o nosso olhar
para o entendimento de Boaventura Santos acerca da participação social.

Saiba mais

Para conhecer um pouco mais da obra desse autor, propomos a leitura


do texto:

PEREIRA, M. A.; CARVALHO, E. Boaventura de Sousa Santos: por uma


nova gramática do político e do social. Lua Nova, São Paulo, n. 73, 2008.
Disponível em: <http://www.redalyc.org/articulo.oa?id=67311189002>.
Acesso em: 19 ago. 2016.

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Iniciamos afirmando que para o autor o conceito de participação social vem diretamente influenciado
pelo conceito de democracia e a este relacionado. Assim, entender a participação popular demanda
entender a democracia. A participação popular só é possível em um regime, de fato, democrático.

Podemos então nos perguntar: o que é democracia? Poderíamos rapidamente responder: é o


governo de todos para todos. Correto? Não. Segundo Santos, em Renovar a Teoria Crítica e Reinventar
a Emancipação Social (2007), democracia não é apenas o governo de todos e para todos, mas o governo
em que todos tenham voz e todos tenham visibilidade.

No governo democrático, de acordo com o autor, temos a discussão pública, o debate de diversos
atores sociais, motivo pelo qual a democracia não pode estar restrita ao sistema de representação, mas
deve ser entendida como os múltiplos espaços que passam a ser construídos visando à participação
de toda a sociedade, a fim de discutir assuntos de interesse coletivo. Assim, a democracia, para ser
efetivada, demanda que as pessoas de uma determinada sociedade exponham suas necessidades e
construam uma nova forma de diálogo entre Estado e Sociedade Civil. A figura a seguir nos chama a
refletir sobre os processos de decisão.

Figura 9 – Participação democrática

A figura demonstra a organização do MST, que em setembro de 2016 invadiu o prédio do Ministério
do Planejamento exigindo direitos relacionados à Reforma Agrária. Nessa forma de organização temos
um modelo de participação social e, por conseguinte, de democracia.

De tal maneira, Santos nos diz que ainda não temos uma sociedade democrática. Aliás, o autor
chama a nossa atenção para o fato de que hoje a sociedade capitalista se diz democrática. Há uma
grande quantidade de Estados que diz possuir uma gestão democrática, mas, de verdade, não a têm.
Esses Estados acabam reduzindo a democracia ao voto, que nem sempre é obrigatório, e não instituem
outros espaços de participação popular. No sentido posto, o autor nos coloca que o que temos é uma
democracia liberal. Sabe o que é isso?

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Santos (2007) entende que a democracia liberal seria a democracia condicionada à liberdade viabilizada
pelo mercado, ou seja, há muitas escolhas que só estão acessíveis aos segmentos que possuem certa
situação financeira, o que os permite escolher. Assim, a democracia liberal não seria uma democracia que
chegaria e envolveria a todos, a toda população, mas somente àqueles que possuíssem poder aquisitivo
para escolha. O autor chama a nossa atenção para o fato de que essa forma de democracia luta para se
manter. Eventualmente, faz concessões no sentido de partilhar o poder, buscando assim evitar embates
da população excluída dos processos decisórios, assim, partilha algumas instâncias de poder com a
população geral, mas mantém seu controle e predomínio dos espaços mais relevantes de poder.

É bastante singular e relevante o termo usado por Santos (2007) em suas obras em que o autor nos
diz que precisamos democratizar a democracia, ou seja, nos fala que precisamos de outros espaços que
nos permitam efetivar, de fato, a participação democrática, que ainda não está plenamente constituída
em todo o mundo. Aliás, é preciso aqui destacar que Santos entendia que as análises sobre os espaços
democráticos, sobre a democracia e sobre o Estado até então estavam sustentadas em estudos realizados
na Europa, e, para ele, essas análises não seriam suficientes para explicar as singularidades presentes
na realidade latino-americana, dadas as especificidades observadas nesse contexto. É necessário ainda
ressalvar que o autor em pauta realizou inúmeras viagens pelo mundo a fim de apreender a realidade e
a cultura de outros povos.

De tal maneira, é necessário, no entanto, apontar que a luta pela ampliação dos espaços
democráticos é inerente ao gênero humano e encontra várias expressões pelo mundo. Assim, se por
um lado ainda temos em grande medida a democracia liberal instituída, também temos, por outro
lado, conforme Santos (2007), movimentos sociais de luta e embate pela mudança das relações de
poder estabelecidas socialmente.

A luta pela democracia se desenvolve ao longo da história, e essa luta não tem uma forma
hegemônica, mas vem das condições experimentadas por cada uma das realidades dos países.
Aqui, um contraponto: Santos (2007) entendia que não há como traçar uma referência única dos
movimentos de reivindicação democrática. Apenas nos diz que os movimentos sociais, em diversas
partes do globo, são preponderantes nesse aspecto, posto que questionam determinadas situações
já instituídas e viabilizam a exposição dos pontos de vista da população. Mas os movimentos pela
ampliação da democracia, assim como os movimentos sociais de reivindicação dos direitos sociais e
de demais aspectos afetos à vida humana, também são condicionados pela realidade circunscrita em
uma determinada região ou país.

O que vemos nos trabalhos de Boaventura Santos, a nosso ver, é que o autor busca fugir de
explicações genéricas e pretende evidenciar a necessidade de encontrarmos “explicações” focais sobre
fenômenos contemporâneos que envolvem a participação popular. Em tese, sabemos que essa forma
diferenciada de compreender os fenômenos sociais origina-se de mudanças processadas na ciência
e na produção de conhecimento, sobretudo a partir de meados do século XX. Agora, as formas de
analisar, compreender e conhecer o mundo são alteradas. As metanarrativas e os paradigmas globais
e amplos passam a ser substituídos por explicações assentadas no aspecto focal, localizadas em uma
determinada realidade.

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Derivando de tal perspectiva, podemos compreender que, assim como as formas de expressão popular não
possuem, segundo Santos, uma direção única e focal, também não podemos definir um caminho único do que
pode ser entendido como democracia, tampouco podemos definir um modelo geral de viabilizar a participação
popular. Tudo isso decorre de uma série de fatores, como o desenvolvimento econômico, político e social presentes
em uma determinada sociedade. Assim, há espaços e possibilidades democráticas para serem constituídos no
Brasil e que funcionariam muito bem, mas que não seriam tão efetivos no Chile, por exemplo.

No entanto, a construção democrática, segundo o autor, em grande parte dos países, passa pela constituição
e existência dos movimentos sociais. Santos nos diz que os movimentos sociais, como feminista, de igualdade
racial, de homoafetividade, de lutas da juventude, de idosos, ecológicos, enfim, todos os movimentos sociais
são atores fundamentais e importantes no processo de abertura e luta para a democratização.

Lembrete

Os movimentos sociais também são espaços de participação política e,


consequentemente, dispositivos de democratização.

Santos (2007) chama a nossa atenção para o fato de que o homem tem sua subjetividade determinada
de acordo com a realidade que vivencia. O ser humano habituado a participar e a decidir possuirá
uma subjetividade distinta daquele que não é estimulado a fazê-lo. As novas formas de democracia
fundam uma nova subjetividade no homem. No entanto, em países e em locais onde a democracia
inexiste, mesmo contemporaneamente, vemos também uma subjetividade diferente. Por exemplo, no
Brasil estamos nos acostumando à ideia de democracia para além do voto. Aqui, é livre o direito de
expressão, que tem sido potencializado na sociedade contemporânea. Se analisarmos a realidade de
outros Estados, por exemplo, a Coreia do Norte, em que há um governo extremamente ditador, veremos
que a população não tem uma perspectiva de participação tão aguçada quanto a do brasileiro. Assim,
as subjetividades acerca da participação e da democracia do brasileiro e do coreano são extremamente
distintas porque decorrem de suas experiências e de sua realidade concreta.

Como não há receita de bolo para o exercício democrático ou um mapa da mina que permita a
construção de um Estado de fato democrático e participativo, Santos (2007) nos diz que a instituição
de tal formato de gestão só é possível por meio do estímulo à emancipação social. Assim, conforme o
autor, independentemente do contexto econômico, social e político do país, é necessário e fundamental
o estímulo à emancipação social. É preciso que você esteja, de fato, atento a isto que iremos colocar,
ou seja, o conceito de emancipação social assume grande relevância e importância no conceito de
democracia e de participação popular.

Observação

O conceito de emancipação social é fundamental ao entendimento da


democracia contida na abordagem de Boaventura Santos.

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Mas em que consiste a chamada emancipação social? Santos (2007) nos diz que a emancipação social
é constituída por meio de uma série de relações emancipatórias nas quais o ser humano é estimulado,
de forma coletiva, a participar das relações de poder. O homem não nasce sabendo o que é uma relação
emancipatória, mas vai construindo esse tipo de relação que, para ter significado e sentido, precisa ser
solidificada de forma conjunta, coletiva. Como tal, faz parte do processo de humanização do gênero
humano, ou seja, tais relações só são possíveis quando o homem atinge um determinado estágio de
desenvolvimento. Nossa sociedade possui todas as condições para estabelecer relações emancipatórias,
mas estas precisam ser estimuladas entre os homens.

A emancipação social só poderá efetivar-se, no dizer de Santos (2007), se forem estabelecidas relações
emancipatórias nas quais aconteça a partilha de poder e de decisões. Portanto, não há como efetivar a
emancipação social sem as relações emancipatórias, sem as relações que efetivam a partilha do poder.

A emancipação é tão relacional como o poder contra o qual se insurge.


Não há emancipação em si, mas antes relações emancipatórias, relações
que criam um número cada vez maior de relações cada vez mais iguais. As
relações emancipatórias desenvolvem-se, portanto, no interior das relações
de poder, não como resultado automático de qualquer contradição essencial,
mas como resultados criados e criativos de contradições criadas e criativas
(SANTOS, 2007, p. 269).

Quanto às relações de poder, de acordo com Santos (2007), é necessário destacar que só se tornam
emancipatórias caso se transformem em relações de poder compartilhadas. Essas relações de poder
compartilhadas seriam possíveis por meio da ampliação de esferas públicas, espaços de debate, de
interlocução de diversos atores sociais e que também possibilitassem a decisão dos participantes. A longo
prazo, o autor compreende que a emancipação social viabilizaria a transformação das desigualdades
sociais, visando assim sua minimização. Ora, se o Estado representasse o desejo de todos, a necessidade
de todos, buscaria alcançar níveis mais elevados de igualdade e de justiça social.

Partindo da instituição da emancipação social, teríamos, conforme Santos (2007), a criação de uma
nova linguagem entre a sociedade civil e o Estado. Surgiria uma nova gramática social e cultural, um
novo diálogo. Aliás, o autor tece críticas e se afasta do marxismo por entender que tal corrente não
realizou uma análise que considerasse as atuais configurações da sociedade, que teríamos agora a
possibilidade de maior diálogo entre a sociedade e o poder público.

Para dar vazão a essa nova forma de linguagem chamada gramática social e cultural, é necessária
a inovação institucional, ou seja, espaços institucionalmente constituídos que viabilizem a participação
política dos diversos segmentos na esfera pública. Sem esses espaços a participação popular permanece
apenas no diálogo e no discurso, mas não é efetivada na prática.

Esse espaço de participação é um exercício comum e coletivo que deve oferecer possibilidades iguais
de partilha do poder e de decisão entre os diversos segmentos. Quando englobar os diferentes atores
sociais, teremos a partilha do poder, dos espaços de decisão e, somente a partir de então, poderemos
construir uma sociedade mais justa.
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Essa sociedade estaria assentada na Democracia Social e nos processos de participação social.

Concluindo nossas colocações sobre esse autor, vejamos o texto a seguir.

Democracia na lupa de Boaventura de Sousa Santos

“Por que é que hoje é muito fácil um país ser democrático? Por que é que hoje somos todos
democratas”? Foi com estas interrogações provocadoras que Boaventura de Sousa Santos
iniciou a sua palestra no auditório da Rádio Moçambique, naquela tarde de quarta‑feira,
11 de julho. Uma quarta-feira “iluminada”, diga-se de passagem, pois o maior sociólogo
português tinha no mesmo dia, mas no período da manhã, ministrado uma aula magistral
na Escola de Comunicação e Artes da UEM.

As respostas às suas perguntas consubstanciaram a aula de quase uma hora atentamente


acompanhada por intelectuais, professores universitários, jornalistas, estudantes universitários e
outros cidadãos anónimos que se interessaram pelo sugestivo tema de “democratizar a democracia”.

Segundo o sociólogo, o actual contexto em que se produz e se reproduz a democracia é


muito diferente do contexto de há 10 anos. Hoje, explica, a democracia tornou-se o único
sistema legítimo e legitimado por pessoas e instituições que antes lutavam contra ela.

O actual contexto apagou a velha tensão entre a democracia e o capitalismo,


justamente porque as instituições financeiras internacionais que propagam o
capitalismo, nomeadamente o FMI (Fundo Monetário Internacional) e o Banco Mundial,
são hoje as reguladoras da democracia. “O capitalismo floresce onde há democracia”,
declarou o Professor Catedrático da Universidade de Coimbra.

Sendo a democracia um condicionalismo para o capitalismo, o seu florescimento acabou


com as políticas sociais do Estado, reduzindo a intervenção deste aos serviços mínimos. Tudo
está privatizado e a regulação da economia ficou confiada ao mercado, este por sua vez
dominado pelo grande capital internacional. Em nome de atracção de mais investimentos
privados, o Estado deixou de tributar as empresas, incluindo as multinacionais.

Resultado: não tem dinheiro e vai pedir empréstimos, o que lhe faz perder a soberania
no plano internacional. É que os empréstimos, quer a título concessional, quer a título
comercial, acarretam sempre condicionalismos. “Um Estado quando tributa as empresas é
soberano, pois tudo ocorre a nível interno”, considerou o sociólogo.

Viragem

Há bem pouco tempo, a grande discussão entre os cientistas sociais era sobre as
condições de possibilidade de uma democracia. Agora, diz ele, o debate virou e a democracia
é a condição de todo o resto. “É muito suspeito que a democracia venha hoje ser defendida
por quem não só nunca a defendeu, mas também defendeu ditaduras”.
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Com a democracia ligada ao capitalismo neoliberal, os países vivem e convivem com


duas constituições, nomeadamente a nacional, do país, e a grande constituição das
multinacionais e das instituições financeiras, o constitucionalismo global, para usar as
palavras de Boaventura de Sousa Santos.

Outra consequência apontada por ele é a grande dispersão do poder político. “Agências
nacionais e sobretudo internacionais têm um grande poder de decisão, mas não foram eleitas”.

A falta de transparência, o fraco regime de regulação das empresas multinacionais, o


neopatrimonialismo e a corrupção são outras consequências da democracia representativa,
um modelo onde os cidadãos não decidem sobre o seu próprio devir, mas delegam alguém
a decidir por eles.

Trata-se de problemas, sendo que alguns deles decorrem do facto de os mercados


políticos, dominados por convicções, e económicos, dominados por valores que se vendem
e se compram, terem-se fundido.

Essa fusão faz com que em política tudo se compre e tudo se venda. “Enquanto os dois
mercados estiverem fundidos, não há forma de a democracia ser uma anomalia, não há
forma de a corrupção ser combatida”.

Dupla legitimidade

A coexistência de várias legitimidades políticas é apontada pelo orador como um grande


risco para a democracia em África. Muitos países africanos têm partidos que convivem
com duas legitimidades, nomeadamente a revolucionária e a democrática. “O ANC, por
exemplo, tem duas legitimidades, a revolucionária (foi ele quem lutou contra o Apartheid)
e a democrática. Quando uma enfraquece recorre à outra”, explicou.

Democracia de baixa intensidade

Boaventura de Sousa Santos chama democracia de baixa intensidade àquela que não
reconhece outras formas de participação. Ou seja, ela bloqueia a cidadania através da
exclusão política e social, das imposições internacionais e da trivialização da participação.
“Os cidadãos são chamados a decidir em coisas cada vez menos importantes”, ilustrou.

Esta democracia de baixa intensidade não reconhece também as outras legitimidades,


sobretudo as tradicionais. Se na Europa as autoridades tradicionais estão no topo, os Reis e
as Rainhas, em África as autoridades tradicionais estão em baixo, os Régulos.

“Muitas vezes as formas comunitárias de resolução de conflitos são marginalizadas


em África, desperdiçando-se uma valiosa experiência de justiça”. Para ele, o que pode
parecer à luz da democracia representativa uma “fraude”, é uma forma interessante
de democracia comunitária.
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“Democratizar a democracia é não limitá-la ao voto, mas encontrar outras formas de


democracia, de participação”, apelou. O orador recordou que a democracia representativa
não é falsa, mas ela é residual, porque monocultural.

“Quando não temos um reconhecimento intercultural, temos uma democracia de baixa


intensidade. E só podemos lutar por uma democracia de alta intensidade se reconhecermos
que temos uma democracia de baixa intensidade.”

Ainda sobre a democracia, o sociólogo questionou por que razão partidos políticos
que lutam por ela não são eles mesmos democráticos a nível interno, por que muitas
ONGs que lutam pela democracia não são elas mesmas democráticas? “Alguns têm
dirigentes que nunca foram eleitos.”
Fonte: Lamarques (2012).

Exemplo de aplicação

Pensemos um pouco sobre o texto em que temos retratada a perspectiva de Boaventura Santos. Seria
possível a instituição de uma democracia de fato, tal como a idealizada pelo autor? Há possibilidade de
ser implementada uma democracia global e que envolva os segmentos sociais em sua totalidade? Reflita
sobre isso, discuta melhor esses conceitos e busque identificar na realidade presente experiências que
visem, de fato, ampliar os espaços efetivamente democráticos.

Na sequência, de maneira bem pontual, indicaremos algumas observações acerca do processo


democrático que vivenciamos em nosso país.

5.2 O Brasil e a Democracia

Behring e Boschetti (2010) nos dizem que a constituição democrática no Brasil teve seu início na
década de 1980. Na verdade, retomando brevemente a história de nosso país, veremos que nunca foram
instituídas possibilidades efetivas de participação popular. No sentido em voga, é preciso destacar que
desde o golpe militar nos anos 1930, em que tivemos a tomada de poder por parte dos militares e no
qual Getúlio Vargas foi eleito presidente, sempre tivemos em nosso país a ausência de participação da
população. A existência, no período em questão, das chamadas eleições indiretas representa um aspecto
da ausência de participação popular comum em tal formato de Estado. Couto (2010) nos coloca que
na época colonial poderiam votar apenas homens brancos e ricos, estando excluídos desse direito os
demais segmentos sociais, como mulheres, escravos e homens pobres. Na verdade, a questão de escolha
de representantes é apenas um dos aspectos da efetivação democrática, mas o interessante é saber que
mesmo esse aspecto foi impedido aos brasileiros por muitos anos.

A ausência de participação política no Brasil foi potencializada na Ditadura Militar, período que
se desenhou no país em meados da década de 1960. Nesse contexto, os presidentes que assumiram
o poder recorreram a uma série de dispositivos inibidores da participação, que foram desde a
coação, o exílio e a agressão física até casos com a morte.

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Couto (2010) nos diz que o governo, nesse período, restringiu as liberdades políticas, a liberdade de
expressão e punir severamente todos os segmentos que se contrapuseram ao poder do Estado. Associada
à intensa repressão, observamos uma precarização da vida em geral, posta pela ampliação das situações
de pobreza que afetavam os brasileiros. Em decorrência disto, em meados de 1970, observamos que
os movimentos sociais, reivindicando melhores condições de vida e também requerendo a abertura
política, passaram a ser ampliados, resultando no processo de distensão política.

A década de 1980 representa o esforço da sociedade brasileira para ampliar os processos de participação
da população. Grande parte dessa expressão é posta pelo movimento “Diretas Já”, que contou com a
participação massiva da sociedade, mas que foi orientado pela UNE e por uma série de intelectuais,
atores e músicos. Para tanto, somente em 1990 o direito ao voto direto, uma das reivindicações da
sociedade, foi alcançado, sendo eleitos nesse processo Fernando Collor e Itamar Franco.

Somente na década de 1990, conforme Behring e Boschetti, é que outras possibilidades de


participação foram sendo apresentadas à população, para além do voto. É nesse contexto que surgem
os conselhos de direitos, os conselhos gestores de políticas sociais, as experiências de orçamento
participativo, entre outros afins que buscam a partilha do poder entre Estado e sociedade civil.

Essa participação, no entanto, não está plenamente consolidada e carece ainda de uma série de
ajustes para de fato ser implementada, mas está em construção.

Na sequência, abordaremos a compreensão de Castells acerca da sociedade em redes. Siga em frente


e continue com sua aprendizagem.

6 O PODER DAS REDES: A FORTUNA CRÍTICA DE MANUEL CASTELLS

Manuel Castells é um sociólogo espanhol nomeado em 1979 como professor de Sociologia na Universidade
de Berkeley, na Califórnia. Atualmente, exerce a docência na área de Comunicação na Universidade da
Carolina do Sul. Seus estudos e pesquisas estão orientados a analisar o desenvolvimento tecnológico
e a comunicação, compreendendo o papel que estes assumem na sociedade moderna contemporânea.
Castells também teceu uma série de considerações sobre a economia capitalista globalizada e, por conta
disso, cunhou o termo mundialização. A seguir abordaremos as questões afetas ao conceito de redes e
sua potencialidade na sociedade contemporânea.

Observação

Por mundialização da economia Castells faz menção ao desenvolvimento


capitalista globalizado.

Assim, o conceito de redes descrito por Castells foi construído por uma análise que engloba também
aspectos afetos ao desenvolvimento econômico e social presentes na sociedade contemporânea. De
acordo com esse autor, temos de entender as redes como resultado de uma tendência histórica dos
processos desenvolvidos em nossa sociedade pela evolução da era da informação e da capacidade de
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organização em torno de redes. Portanto, a rede é construída na sociedade pós-moderna e só é possível


porque atualmente a sociedade experimenta um estágio de desenvolvimento tecnológico.

Mas, em linhas gerais, o que podemos entender por rede? Vejamos a imagem a seguir, que nos
fornece algumas indicações.

Figura 10 – Sociedade em rede

Na figura observamos o dispositivo de acesso à rede: o computador. Também vemos o acesso a uma
rede de amigos. Tal vinculação a uma rede só é possível porque a pessoa tem acesso ao computador e
à internet.

Por conseguinte, a rede, para existir na sociedade contemporânea, precisa da informática e também
do desenvolvimento tecnológico. Para tanto, a rede não se restringe apenas à troca de bits e pixels. A
rede cibernética possibilita que as pessoas se relacionem, em relações de amizades, de estudo ou mesmo
de comércio. As redes são estruturas abertas que se expandem para possibilitar a convivência de diversos
grupos de pessoas que partilham dos mesmos códigos de comunicação, discussão e valores.

Castells (1999) indica a necessidade de compreendermos a rede também como decorrente do


atual estágio de desenvolvimento capitalista vivenciado pela sociedade. Por conseguinte, a rede não
é só possível por esse motivo, mas também é constituída como um instrumento para potencializar o
comércio, estimulando assim a extração de lucro e a ampliação de comércio.

Assim, é necessário pontuar que a partir do desenvolvimento econômico contemporâneo


o comércio passa a acontecer por meio das redes. Isso faz que as pessoas possam adquirir bens,
produtos e serviços por meio da rede de computadores, por exemplo. No entanto, passa-se a exigir
que o ser humano esteja integrado por meio das redes. Melhor dizendo, para que você pertença a
uma sociedade, você precisa usar dessa rede instituída. No sentido em voga, a rede não é apenas
um meio para o comércio, mas também se constitui como um espaço para relações de trabalho e

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até mesmo para relações afetivas. Aliás, as redes também são consideradas pelo autor como espaços
que possibilitam maior intercâmbio cultural, assim como a difusão de valores e discussões políticas
necessárias à sociedade democrática.

Mas, para avançar nesse conceito de redes, vejamos a definição de Castells (1999):

[...] redes são instrumentos para a economia capitalista baseada na inovação,


globalização e concentração descentralizada; para o trabalho, trabalhadores
e empresas voltadas para a flexibilidade e adaptabilidade; para uma cultura
de desconstrução e reconstrução contínuas; para uma política destinada
ao processamento instantâneo de novos valores e humores públicos; e para
uma organização social que vise a suplantação do espaço e invalidação
do tempo. Mas a morfologia da rede também é uma fonte de drástica
reorganização das relações de poder (CASTELLS, 1999, p. 498).

Dessa definição podemos extrair ainda outros conceitos sobre as redes, ou seja, além de se
constituírem como mecanismos fundamentais na economia capitalista globalizada, são um dispositivo
de expressão de relações de poder. Assim, a noção de rede de Castells não é restrita ao entendimento
desse dispositivo apenas como um meio para o comércio, mas compreendida como uma forma de
potencializar as possibilidades de comércio.

Ainda visando entender a relação estabelecida entre o desenvolvimento capitalista e as redes,


Castells nos coloca que a rede só é possível no mercado capitalista globalizado e por meio do
surgimento do capital financeiro. Esse mercado passa a ser estruturado de uma maneira na qual não
existem mais fronteiras que dificultem ou impeçam o comércio. O desenvolvimento tecnológico
é vital nesse processo, ao passo que facilita e até barateia a aquisição de determinados itens.
Exemplificando, hoje, facilmente podemos adquirir um produto que venha da China, e mesmo
as taxas de translado não impedem que o comércio aconteça. Aliás, é comum nesse mercado
globalizado que os valores relacionados às aquisições sejam barateados, cada vez mais, objetivando
o estímulo ao comércio.

Essa forma de mercado, de comércio, conforme Castells, visa à maior extração do lucro e depende
essencialmente do conhecimento e da tecnologia. A extração do lucro passa a ser potencializada não
apenas pela nova forma de escoar a produção, mas também em virtude do surgimento de uma nova
modalidade de acumulação capitalista, possível por meio do capital financeiro.

Mas o que seria esse capital financeiro? O capital financeiro é um produto composto por títulos,
certificados e outros documentos que representam produtos. Por exemplo, temos os bancos, que sempre
nos ligam nos horários, para nós mais inadequados, visando à venda de seguros ou de convênios. Quando
compramos um produto expresso em um serviço que não tem, em tese, uma materialidade, é diferente,
por exemplo, de um sapato ou de uma bolsa. No capital financeiro, o produto, muitas vezes, não precisa
de uma existência material. Nesses produtos podemos dizer que o capital consegue extrair praticamente
200% de lucro, posto que via de regra o único custo é com a mão de obra que vende o produto
(pensando obviamente na venda de seguros por uma instituição financeira). O capital financeiro não é
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uma forma de comércio apenas de bancos, mas também é bem comum em empresas privadas, e a venda
de itens vinculados ao capital financeiro é substancialmente elevada pelo desenvolvimento tecnológico
e pelas possibilidades trazidas pelo mercado global.

Para melhor entender o capital financeiro, observe a definição do próprio autor:

[...] tem duas características distintas fundamentais: é global e estruturado,


em grande medida em uma rede de fluxos financeiros. O capital funciona
globalmente como uma unidade em tempo real; e é percebido, investido
e acumulado principalmente na esfera de circulação, isto é, como capital
financeiro. [...] A acumulação de capital prossegue e sua realização de valor
é cada vez mais gerada nos mercados financeiros globais estabelecidos pelas
redes de informação no espaço intemporal de fluxos financeiros. A partir
dessas redes o capital é investido por todo o globo e em todos os setores
de atividade: informação, negócios de mídia, serviços avançados, produção
agrícola, saúde, educação, tecnologia, indústria antiga e nova, transporte,
comércio, turismo, cultura, gerenciamento ambiental, bens imobiliários,
práticas de guerra e de paz, religião, entretenimento e esportes. [...] Qualquer
lucro [...] é revertido para a metarrede de fluxos financeiros, na qual todo o
capital é equalizado na democracia da geração de lucros transformada em
commodities. Nesse cassino global eletrônico capitais específicos elevam-se
ou diminuem drasticamente, definindo o destino de empresas, poupanças
familiares, moedas nacionais e economias regionais. O resultado da rede é
zero: os perdedores pagam pelos ganhadores (CLS, 1995, p. 500).

A nosso ver, é uma forma de capital que potencializa ainda mais as diferenças sociais, já que somente
quem tem determinado poder aquisitivo pode participar da rede, e mais, somente quem tem condições
financeiras extremamente favoráveis pode adquirir produtos financeiros.

Mas Castells não deixa evidente a desigualdade social gerada pelas redes, ao menos não na
obra consultada. Em se tratando das relações sociais, o autor entende que temos a diminuição dos
postos de trabalho, já que agora toda a rede desenvolve o comércio e se efetiva sem a necessidade
da mão de obra convencional. Mais um exemplo? Bem, antes do desenvolvimento tecnológico,
pensando em uma livraria, quantos trabalhadores eram necessários? Pensando atualmente, podemos
comprar livros na internet e recebê-los em nossa residência. Nesse formato, em que compramos na
rede, quantos trabalhadores são necessários? Vemos que os postos de trabalho estáveis diminuem
substancialmente. Por outro lado, Castells (1999) entende que isso não representaria a possibilidade
futura de desemprego em massa.

O autor nos diz, entretanto, que essas mudanças tornam o trabalho flexível, podendo ser realizado
em qualquer local, deslocando o processo produtivo do chão da fábrica. Isso faz que o trabalho seja mais
individualizado, ou seja, para exercer um trabalho, não é mais necessário um espaço coletivo. Castells
(1999) indica-nos que isto resultou na perda de vínculos e, consequentemente, na perda da identidade
coletiva dos trabalhadores.
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Apesar de aparentemente ignorar a existência de grandes contingentes de desempregados após


a ascensão da globalização e do mercado em rede, Castells (1999) indica que temos a ampliação das
condições precárias de trabalho. Para o autor, temos a ampliação da quantidade de trabalho sem
garantias trabalhistas, ou seja, trabalho em que os direitos do trabalhador não são respeitados. Além
disso, o autor chama a nossa atenção para a ampliação, após o desenvolvimento da globalização, do
trabalho infantil.

Se por um lado as redes ampliam e fortalecem o desenvolvimento capitalista, por outro, conforme
Castells (1999), também possibilitam a transmissão de valores e da cultura, como indicamos
anteriormente. Agora, a cultura e a informação são viabilizadas por meio de hipertextos. O hipertexto
é um conteúdo escrito, mas que confere acesso a referências específicas de forma digital, essas
denominadas hiperlinks.

Para melhor demonstrar, observe a imagem institucional do site da UNIP.

Figura 11 – Site institucional da Unip

Nessa imagem, temos um hipertexto. Por exemplo, acessando o site e clicando no ensino presencial
seremos automaticamente direcionados para essa página, em que teremos à nossa disposição uma série
de outros links, com várias informações. Assim, de um site somos direcionados a outros e temos uma
gama elevada de dados via internet.

Para concluir nossas considerações, é preciso destacar que, conforme Castells (1999), as redes não
apenas transformam o comércio, mas também provocam alterações significativas em toda experiência
humana. O homem é, portanto, profundamente influenciado pela nova forma de organização em
questão, e as redes passam a delimitar todas as relações humanas.

87
Unidade II

Assim, concluímos nossos estudos sobre os conceitos de Castells (1999) e na sequência faremos uma
breve exposição dos conceitos afetos ao desenvolvimento global e tecnológico. Já indicamos no texto
supra algumas informações a respeito de tais conceitos, mas agora passaremos a oferecer informações
genéricas a respeito desse formato de organização do grande capital.

Saiba mais

Talvez uma das redes sociais mais utilizadas e conhecidas seja o


Facebook. O filme a seguir narra o surgimento dessa rede social. Vamos
conhecer essa história?

A REDE social. Dir. David Fincher. Estados Unidos: Columbia Pictures,


2010. 121 minutos.

7 CAPITALISMO GLOBAL E TECNOLÓGICO

Adentremos os conceitos de capitalismo global e tecnológico dando início ao entendimento sobre as


bases iniciais do surgimento desse novo formato de acumulação capitalista.

Dupas (1998) nos diz que as bases iniciais do que denominamos capitalismo global nos levam ao
século XV, quando tivemos o início do comércio marítimo no mundo. Para o autor, os primórdios do
capitalismo global no mundo aconteceram no século XV. Nesse período teve início o comércio marítimo
no mundo, ou seja, a partir de então alguns países se direcionaram para outros espaços, nos quais
pudessem ter acesso a bens não produzidos em sua economia local.

Durante o século XV, entretanto, não havia, por parte dos filósofos, o entendimento de mercado
globalizado. Mas, por sua natureza, entendiam‑no como uma base bastante rudimentar da globalização
econômica. Isso porque tal comércio extrapolava as fronteiras instituídas e que dificultavam a circulação
de mercadorias.

Santos (2007) nos diz que a globalização econômica, no que concerne a ampliar as possibilidades de
comércio, deu um novo salto a partir da emergência da Revolução Industrial, no século XVIII. A produção
deixa o caráter manufatureiro e passa para o industrial, e em grande quantidade. O surgimento da
energia a vapor e a introdução de novos maquinários faz que a produção seja ampliada e que seja
possível assim alcançar o lucro.

Nos anos 1980, já com a produção assentada na energia elétrica, temos a introdução das tecnologias
junto ao processo produtivo, e, posteriormente, nos anos 1990, é associada a essa tecnologia a informação.
Os processos tecnológicos de base na microeletrônica e na robótica potencializam significativamente
o processo produtivo. Mas, mesmo assim, ainda havia entraves ao comércio. A partir de então, para
facilitar o comércio, já que a produção havia sido acelerada por meio de uma série de tecnologias, as
fronteiras e os entraves começam a ser derrubados.
88
TEORIA POLÍTICA CONTEMPORÂNEA

À medida que temos o afrouxamento das fronteiras, que antes impediam ou dificultavam o comércio
entre os países, temos a globalização, ou o capitalismo global. Santos (2007) denomina esse processo
como mercado global. O capitalismo global ou o mercado global fazem menção ao livre-comércio, que
é potencializado a partir de meados dos anos 1990. O capitalismo global é construído e solidificado por
meio da possibilidade da livre‑circulação de capitais, agora livre de controle.

A tecnologia, por sua vez, está presente tanto na produção quanto no escoamento. A produção
torna-se mais ágil, veloz e com menos desperdício. As novas tecnologias têm condição de produzir mais
rápido e com mais qualidade. As formas de venda também são melhoradas substantivamente, ou seja,
fica mais fácil comprar, sobretudo pela internet, e, consequentemente, vender.

No entanto, Santos (2007) nos coloca que a adesão à tecnologia resulta no desemprego de vários
contingentes populacionais. Isso porque, nos locais em que seria necessário o trabalho de vários homens,
a tecnologia os substituiu. Isso resulta em grande desemprego, subemprego e faz crescer o trabalho
precário, terceirizado e, consequentemente, sem garantia de direitos. Dupas (1998) nos diz que isso faz
aumentar também os serviços de home care, ou seja, a prestação de serviços em casa, destinados a um
público específico. Já Santos (2007) nos coloca que isso resulta na ampliação substancial de problemas
sociais, como a fome, o desemprego, a discriminação das classes sociais e o aumento generalizado e
total da miséria.

Santos (2007) acredita que devamos construir uma globalização para todos, assentada em valores
humanos e solidários e que viabilize as mesmas condições de vida a quem quer que seja. Mas, segundo
o autor, o que vemos hoje é que a globalização não é para todos. Para estar inserido em um mundo
globalizado é necessário acesso ao mínimo de desenvolvimento tecnológico, algo que, como sabemos, é
impossível para as populações vulneráveis.

Apesar disto, a consciência criada, conforme Santos (2007), é de que todos integrariam a mesma
comunidade, como se o mundo pertencesse a todos. Acredita-se que todos façam parte de um mundo
único. O autor nos diz que a esse conceito denominamos aldeia global, termo pelo qual designa esse
suposto mundo sem fronteiras e do qual todos acreditamos participarmos.

Assim, a globalização não expressa apenas eventos ligados à economia; da mesma forma, está
relacionada a novas possibilidades de perda das fronteiras também para as relações sociais. Isso posto,
concluímos nossas colocações sobre o desenvolvimento global e tecnológico do capitalismo e passaremos
a conhecer o Neoliberalismo.

8 NEOLIBERALISMO

Prezado aluno, agora chegamos ao final dos nossos estudos, ou, melhor dizendo, chegamos ao final
de nosso material de referência para estudos. A seguir, abordaremos a questão do Neoliberalismo, um
conceito que não é apenas fundamental para entendermos a constituição do Estado na década de 1970,
como também para compreendê-lo em sua atual configuração. Abordaremos o desenvolvimento desse
conceito no cenário internacional e na sequência apresentaremos o desenvolvimento do Neoliberalismo
no Brasil.
89
Unidade II

O sufixo neo, que compõe a palavra Neoliberalismo, como bem sabemos, significa “novo”. Por conseguinte,
Neoliberalismo faz menção a novo liberalismo. Assim, quando nos referimos ao Neoliberalismo estamos
nos reportando às novas bases ideológicas que foram consideradas como sustentação ao formato de
Estado, e que conduziram sua ação. Essas bases ideológicas em questão provêm da doutrina liberal.

Antes de darmos seguimento a nossas considerações acerca do Neoliberalismo, façamos uma


pequena pausa, em que apresentaremos a você algumas informações sobre a doutrina liberal.

8.1 O Liberalismo, o papel do Estado e o Welfare State

O Liberalismo teria surgido entre os séculos XVI e XVII na Europa, tendo como seus principais
defensores os filósofos David Ricardo e Adam Smith. Associaram-se a essa corrente de pensamento
também teóricos como Maquiavel, Hobbes e Rousseau.

Podemos dizer que o Liberalismo é uma corrente teórica e filosófica que entende o mercado
como instância máxima e suprema para a atenção de todas as necessidades apresentadas pelo ser
humano. Assim, cada indivíduo tem condições igualitárias de se desenvolver e deve usar todas as suas
potencialidades. As oportunidades, segundo essa corrente de pensamento, estariam abertas a todas as
pessoas. Caberia a cada um saber aproveitar as oportunidades que a vida lhe conferisse, extraindo dela
o que houvesse de melhor e assim preenchendo as suas necessidades (BEHRING; BOSCHETI, 2010).

Portanto, podemos dizer que para a corrente liberal é por meio do trabalho que o homem consegue
atender as suas necessidades. O trabalho, assim como o mercado, não demanda regulação, aliás, esses
aspectos econômicos possuiriam um desenvolvimento natural, independentemente de qualquer
intervenção de mecanismos externos. Melhor dizendo, conforme a doutrina liberal: “[...] o princípio do
trabalho como mercadoria é sua regulação pelo livre‑mercado” (BEHRING; BOSCHETTI, 2010, p. 56).
Dessa maneira, as relações econômicas seriam reguladas por uma suposta “mão invisível” do mercado.

Por analogia, podemos entender que compete apenas e tão somente a cada indivíduo atender às
suas necessidades. Se não consegue fazê-lo, é em razão da sua incapacidade e da sua incompetência.
Assim, as condições econômicas e que costumam favorecer as dificuldades de determinadas classes
sociais não eram consideradas na perspectiva liberal. As dificuldades de sobrevivência passam a ser
individualizadas, ou seja, conferidas à responsabilidade do indivíduo que não soube se desenvolver
ou não soube aproveitar todas as oportunidades que a vida lhe conferiu. Prezado aluno, pense bem,
será que esse discurso foi suprimido em nosso cotidiano? Quem nunca ouviu frases do tipo: “Fulano é
assim porque gosta de ser pobre” ou, então, “Beltrano não trabalha porque não quer”. E por aí vai. São
expressões da perspectiva liberal na individualização de problemas que têm uma raiz econômica e social.

Assim, se o mercado possui potencialidades de se regular, se cada indivíduo pode atender às


suas necessidades independentemente de qualquer situação, qual seria então o papel do Estado
para a corrente liberal? Ao Estado caberia viabilizar serviços que não fossem interessantes para
a iniciativa privada e para o mercado. Podemos citar como exemplo desses serviços a construção
de presídios, de infraestrutura mínima para o florescimento da economia capitalista e a ampla
extração do lucro.
90
TEORIA POLÍTICA CONTEMPORÂNEA

Behring e Boschetti (2010) nos dizem que era atribuída ao Estado a responsabilidade de administrar
situações de guerra, além de ser a ele atribuída a gestão de conflitos individuais, ou seja, o Estado não
deveria intervir no sentido de administrar problemas sociais, como: “[...] a defesa contra os inimigos
externos; a proteção de todo o indivíduo de ofensas dirigidas por outros indivíduos; e o provimento de
obras públicas, que não possam ser executadas pela iniciativa privada” (op. cit., 2010, p. 60).

Você pode até se perguntar: Mas e a pobreza? E os problemas sociais? A quem caberia? Caberia
a cada ser humano, a cada indivíduo que deveria garantir a sua sobrevivência e a daqueles que
lhes sejam próximos. Aliás, um dos teóricos que defendiam a doutrina liberal, Malthus, chegava
até a propor que para a vida em sociedade seguir o seu curso seria fundamental a eliminação de
alguns pobres. De forma que o Liberalismo pressupunha que o Estado não realizasse qualquer
intervenção junto à pobreza ou qualquer outro problema social. É o chamado “Estado Mínimo”,
por meio do qual se designou que o Estado faz intervenções mínimas, sobretudo junto aos
problemas sociais.

O conceito de Estado Mínimo seria, conforme Behring e Boscheti, sustentado pela crença de que
intervenções sociais, como as políticas sociais, seriam prejudiciais à sociedade porque estimulariam o
ócio da população pobre. Ou seja, não caberia ao Estado intervir em problemas sociais por meio de
políticas sociais, como a saúde gratuita, por exemplo. Em tese, o argumento liberal compreende que
essas intervenções públicas destinadas à população pobre colaborariam para que estas se tornassem
ociosas. Além disso, acreditava-se que essas intervenções seriam custosas demais e elevariam, em muito,
os gastos do Estado. Por conseguinte, políticas sociais seriam também consideradas como ações que
iriam onerar o Estado. As únicas possibilidades de intervenção estatal permitidas à doutrina liberal
seriam em caso de emergência, ou seja, as políticas sociais seriam paliativas. Por exemplo, no caso de
uma situação de calamidade pública ou na ocorrência de uma endemia, nesses casos, a ação do Estado
não só era permitida quanto era necessária.

Assim, o que vemos, em grande monta, conforme Behring e Boschetti nos dizem, é uma
potencialização do individualismo, já que o homem se vê numa luta de vida e morte para sobreviver
em um mundo cada vez mais competitivo. Além disso, é mister destacar que a doutrina liberal
entende que o indivíduo que consegue se desenvolver colabora para que a sociedade também
alcance o bem-estar. No entanto, o ser humano que não consegue se desenvolver colabora
para a ocorrência de prejuízos para a sociedade. Por conseguinte, os indivíduos que apresentam
dificuldades para atender às suas necessidades sociais seriam, digamos assim, os “responsáveis”
pelos problemas gerados na sociedade.

Os problemas sociais, segundo essa ótica, seriam individuais e naturais, inerentes à sociedade. É um
entendimento segundo o qual a pobreza existe, integra a vida dos homens e não há nada que possa
ser feito para mudar essa condição. Assim, o desenvolvimento capitalista não era considerado como
responsável pelos problemas apresentados pelos indivíduos, mas sim como algo que era integrante da
natureza daquela determinada sociedade.

Behring e Boschetti (2010), sintetizando os principais conceitos difundidos pelo Liberalismo,


indicam‑nos os seguintes aspectos:
91
Unidade II

[...] predomínio do individualismo, o bem-estar individual maximiza o


bem‑estar coletivo, predomínio da liberdade e competitividade, naturalização
da miséria, predomínio da lei da necessidade, manutenção de um Estado
Mínimo, as políticas sociais estimulam o ócio e o desperdício e por isso a
política social deve ser apenas um paliativo (op. cit., p. 62).

Foi dessa corrente teórica que o Neoliberalismo, que estudaremos na sequência, extraiu grande
parte de sua fundamentação. Para que você consiga compreender a questão que lhe apresentaremos,
é importante saber que a doutrina liberal foi hegemônica até meados dos anos 1920-30 em todo o
mundo. O que isso significa? Significa que grande parte dos Estados do mundo tinha sua forma de
gestão orientada por tais ideais.

Mas essa doutrina não foi sempre hegemônica e começou a apresentar sinais de seu esgotamento
a partir da Crise de 1929-1930. Nesse contexto, de acordo com Behring e Boschetti (2010),
vivenciamos uma grande crise capitalista de elevadíssimas proporções. Para minimizar os impactos
dessa crise, vários teóricos, filósofos e economistas passaram a elaborar pesquisas, mas nenhum
deles foi tão influente quanto John Maynard Keynes, tanto que as formulações de Keynes ficaram
conhecidas por keynesianismo.

Observação

Keynesianismo é o termo conferido ao pensamento do economista


John Maynard Keynes.

Keynes foi economista, e como tal procurava uma alternativa à crise. A análise de Keynes identificou
que o Estado deveria alterar o seu papel, ou seja, sua forma de agir, como um mero observador da
realidade. Para Keynes era necessário que o Estado interviesse na economia, oferecendo a ela todos os
meios necessários para se desenvolver. Mas, segundo esse pensador, também caberia ao Estado intervir
nos problemas sociais.

Behring e Boschetti (2010) nos colocam que essa intervenção nos problemas sociais deveria
acontecer por políticas sociais. Estas deveriam garantir a sobrevivência da população que não
conseguisse fazê-lo por meio do mercado. Ainda destacavam a necessidade de o Estado garantir
políticas sociais que viabilizassem acesso à renda para os segmentos que, por sua idade, seu estágio
de desenvolvimento ou pela situação de suas vidas, não conseguissem trabalhar. Por exemplo,
idosos, crianças ou pessoas com deficiência que fossem pobres, e que pelas suas especificidades
não conseguissem trabalho, deveriam ter acesso a transferências de renda, mas também fariam
jus às demais políticas e aos serviços sociais.

Keynes propunha ainda que caberia ao Estado a criação do pleno emprego, que seria, como
o nome sugere, a possibilidade de que todos com condições pudessem trabalhar. Além disso, o
Estado deveria desempenhar todas as intervenções que fossem necessárias para o desenvolvimento
econômico. Melhor dizendo, competia ao Estado: “[...] restabelecer o equilíbrio econômico via
92
TEORIA POLÍTICA CONTEMPORÂNEA

política fiscal, creditícia e de gastos, via investimentos ou inversões reais que atuem nos períodos
de depressão como estímulo à economia com vistas a conter a queda da taxa de lucros” (BEHRING;
BOSCHETTI, 2010, p. 85).

Dessa maneira, Keynes acreditava que o mercado seria reestimulado, que haveria novamente
consumo e que a crise capitalista seria superada. As formulações de Keynes encontraram grande assento
nos Estados, que passaram, aos poucos, a constituir Estados interventores. Esse formato de Estado,
diferente do Estado de influência liberal, ficou conhecido pela terminologia Welfare State, ou Estado de
Bem-Estar Social.

Saiba mais

Uma proposta interessante para conhecer um pouco mais do contexto


de expansão do Welfare State é o filme aqui recomendado, elogiado por
intelectuais de esquerda, por representar, de forma concreta, a realidade
vivida no Pós-guerra.

O ESPÍRITO de 1945. Dir. Ken Loach. Reino Unido: GB Film, 2013. 94 minutos.

Na década de 1970 assistimos a uma nova grande crise capitalista que provocou mudanças no
formato de Estado Welfare State. Surgiu aí o Neoliberalismo e foi desmontando, aos poucos, o Welfare
State. Mas isso veremos no decurso deste material. Agora, deixamos você com o texto a seguir, que
discute novamente parte do que abordamos.

Solução para a crise

Quando o Estado assume, como o fez ao longo dos séculos XIX e XX, um perfil que
deixa ao mercado a responsabilidade maior pela organização da economia, trata‑se de
um modelo liberal de Estado. O Liberalismo é um tipo de conduta ideológica que dá
liberdade para o mercado e prevê um Estado mínimo, que não participa efetivamente
da regulamentação econômica. O amplo incentivo à competição entre grupos
empresariais seria o motor da economia.

Liberalismo e Primeira Guerra Mundial

No início do século XX, esta competição atingiu um nível internacional, ou seja,


ela passou a ocorrer entre países, e é considerada um dos muitos fatores que levaram
à Primeira Guerra Mundial – uma disputa ferrenha de países europeus por mercado.
Pode-se dizer que ali foi realmente o fim do século XIX – o século das grandes
transformações, dos grandes desenvolvimentos.

93
Unidade II

A economia passava por momentos difíceis quando houve a Crise de 1929. Que atitudes
deveriam ser tomadas pelo Estado? Maior intervenção na economia? Maior espaço ao
livre‑mercado? Teses liberais propunham que o Estado mais uma vez interviesse menos na
esfera econômica, mas o caminho da solução da crise não foi esse.

O Estado de Bem-Estar Social como solução para a crise

Na década que se seguiu à Crise de 1929, o modelo que passou a ser adotado foi o do
Estado de Bem-Estar Social. Nele, o Estado é quem se responsabiliza pela política econômica,
cabendo a ele as funções de proteção social dos indivíduos – educação, saúde, seguridade
social. Além dos Estados Unidos, que pensavam em saídas para a Grande Depressão, países
europeus como Noruega, Suécia e Suíça – até hoje conhecidos pelo alto nível de excelência
em quesitos socioculturais e que se encontram nos lugares mais altos no ranking mundial
de IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) – foram os primeiros a adotar o modelo do
Estado Social.

Contexto Pós‑Segunda Guerra Mundial

Se na década de 1930 o Estado de Bem-Estar Social começou a ser implementado,


foi após a Segunda Guerra Mundial que ele se fez mais presente, quando países do eixo
capitalista se organizaram pela reestruturação da economia ocidental, devastada pelos
horrores da guerra. A partir de então, o contexto era outro. Impulsionado pela ideia de
cidadania e pelas pressões dos sindicatos trabalhistas por melhores condições, o Estado
de Bem-Estar Social, também conhecido como Estado‑providência, passou a defender
o desenvolvimento econômico e social através do mercado, mas também, e sobretudo,
rompendo com a lógica liberal, passou a tomar para si a responsabilidade pela proteção
social dos cidadãos e por grandes investimentos e obras, comprometendo-se a garantir
educação pública, assistência à saúde, transporte, seguro-desemprego etc. – o bem-estar
econômico e social da população.

O propósito histórico do Estado de Bem-Estar Social foi, portanto, ressuscitar


a economia ocidental através de grandes investimentos na cidadania, o que veio a
fortalecer um público consumidor para o mercado de massa, em plena ascensão na
década de 1950. (Deve-se notar que o Estado de Bem-Estar Social foi um modelo
adotado pelos países capitalistas considerados, à época, como primeiro mundo – deste
modo, não estão incluídos os países periféricos (chamados de terceiro mundo), como,
por exemplo, as nações latino-americanas. Muitos destes países viveram ditaduras
militares naquela época, afastando-se do modelo de bem-estar social, e assumindo
posturas mais autoritárias).

Crise do Estado do Bem-Estar Social

Vigorante por muitas décadas, esse modelo de Estado entrou em crise já nos
anos 1970, quando ficou economicamente sobrecarregado. A Inglaterra (e depois
94
TEORIA POLÍTICA CONTEMPORÂNEA

outros países), no início dos anos 1980, entrou num processo de substituição deste
modelo, justificando que o aparelho estatal não tinha mais condições econômicas de
sustentá-lo. Com isso, os direitos de cidadania passaram a ser revistos. Nascia, então,
o Estado Neoliberal.

Fonte: Mello [s.d.].

Exemplo de aplicação

No texto vemos a apresentação do Estado liberal e também do Welfare State. No entanto, o


texto diz que o Welfare State ficou “sobrecarregado”, o que justificaria, em tese, a sua destituição.
É possível que o Estado não tenha mais condições econômicas para manter as políticas sociais,
ou há outros interesses envolvidos nesse desmonte do Estado de Bem-Estar Social? Melhor
dizendo, quais seriam os possíveis fatores que estimulariam essa sobrecarga do Estado e quais
medidas deveriam ser adotadas além da diminuição dos recursos destinados às políticas sociais?
Vamos pensar sobre isso?

Talvez essa indagação seja mais bem‑clareada no decurso do texto a seguir. Vamos a ele?

8.2 O Neoliberalismo no cenário internacional

Aqui, avançaremos em nossos estudos com relação ao Neoliberalismo considerando a realidade


posta no cenário internacional e também no Brasil. Assim, cabe a nós destacar que a doutrina neoliberal,
como referência para a gestão do Estado, passou a ser aceita no mundo em meados de 1970 e no Brasil
em 1990. No entanto, esse ideário surgiu em meados de 1940, mas, nesse contexto, não foi aceito, tendo
em vista que o que imperava como referência à organização estatal era o padrão proposto por Keynes,
estudado anteriormente.

Saiba mais
Para saber um pouco mais sobre o Neoliberalismo, recomendamos o texto:
VIDAL, F. B. Um marco do fundamentalismo neoliberal: Hayek e o
caminho da servidão. Observatório Social do Nordeste, dez. 2007. Disponível
em: <http://www.fundaj.gov.br/geral/observanordeste/fvidal.pdf>. Acesso
em: 23 ago. 2016.

Assim, cabe a nós dizer que o Neoliberalismo foi uma nova roupagem conferida aos ideais do
Liberalismo sob novas bases, considerando nesse contexto o atual estágio de desenvolvimento
experimentado pela sociedade.

95
Unidade II

Lembrete

Liberalismo: pressupunha a não intervenção do Estado na regulação econômica.

Assim, a obra que demarca o surgimento da doutrina neoliberal foi escrita em 1944, por Hayek, chamada
O Caminho da Servidão. Isso porque nela temos os pilares do Neoliberalismo muito bem delimitados e
construídos pelo autor. Nessa obra temos também grande ataque ao Estado, de Bem‑Estar Social, defendido
por Keynes e que vinha sendo aceito em grande parte dos Estados. Como nos diz Anderson (1995, p. 9), era
“[...] um ataque apaixonado contra qualquer limitação dos mecanismos de mercado por parte do Estado,
denunciada como uma ameaça letal à liberdade, não somente econômica, mas também política”.

Vamos apresentar a você as principais colocações acerca da obra de Hayek.

Em O Caminho da Servidão, Hayek nos diz que o Estado, além de não intervir nos problemas sociais
deveria também ser antidemocrático. O autor entende que sindicatos e partidos políticos eram nocivos
ao Estado e deveriam ser suprimidos ou então severamente controlados. Grande parte dessas colocações
de Hayek era orientado ao Movimento Comunista, pelo qual o autor nutria grande aversão, mas também
estavam relacionadas aos sindicatos. Portanto, o Neoliberalismo não se restringe, em suas bases iniciais,
à ausência de um Estado interventor, mas prima também por um Estado antidemocrático.

Cabe um contraponto em relação aos sindicatos. Hayek entendia que os sindicatos não deveriam
ser extintos, mas submetidos ao controle do Estado. Caso o poder público não adotasse essas medidas,
corria‑se um grande risco de novamente a sociedade ingressar em uma nova crise, Gerada e potencializada,
segundo o argumento neoliberal, pela adesão do Estado ao Welfare State.

Além disso, Hayek, entendia que a intervenção do Estado na economia resultava na diminuição
da concorrência necessária e natural ao desenvolvimento econômico capitalista. Por conseguinte,
a intervenção estatal passa a ser considerada como inibidora da concorrência, que é natural e
necessária para o equilíbrio do mercado.

Hayek compreendia ainda que a natureza dessa intervenção estatal, sobre o desenvolvimento
econômico, provocaria na subjetividade dos homens um efeito negativo, expresso por meio do desestímulo
do homem a competir. No sentido em voga, Hayek ainda salienta que o mesmo se aplicava à concessão
de benefícios pelo Estado para o ser humano que comprometeria sua condição de economizar dinheiro
e também de trabalhar. Para esse autor, o homem se acostumaria a sobreviver com as concessões do
Estado e, dessa forma, sua capacidade criativa e sua potencialidade para o trabalho estariam sendo
comprometidas de maneira contumaz e negativa.

Estado este que, ao transgredir o princípio da liberdade individual, teria


criado condições objetivas de desestímulo aos homens para o trabalho
produtivo, uma vez que acabavam escolhendo viver sob as benesses do
aparelho estatal do que trabalhar (COUTO, 2010, p. 69).

96
TEORIA POLÍTICA CONTEMPORÂNEA

Isso seria, no entendimento de Hayek, uma invasão do Estado à liberdade dos homens.

Mas como o autor compreenderia o caso de pessoas que estivessem em situação de pobreza? O
Caminho da Servidão não aborda especificamente essa situação, mas indica que as pessoas que estariam
desempregadas seriam necessárias ao sistema capitalista. Como assim? Você deve estar se perguntando.
Sim, é isso mesmo. Hayek entendia que era necessário que o Estado mantivesse um nível mínimo de
desigualdade e de desemprego. Seriam, segundo o autor, essas condições desfavoráveis que deveriam
impulsionar o ser humano que as experimenta a agir, buscando assim melhorar as suas condições de
vida. Uma sociedade desigual, com pessoas ricas e pobres, era considerada como positiva pelo o autor
(ANDERSON, 1995).

No sentido em voga, Hayek, derivando dessa compreensão, indicava que o Estado de Bem-Estar
Social vinha comprometendo o desenvolvimento social. Isso porque o autor entendia que esse formato
de Estado colaborava para diminuir o desemprego e as desigualdades sociais. Hayek, por conseguinte,
entendia que por conta disso o Estado de Bem-Estar Social colaboraria para a degeneração da sociedade,
motivo pelo qual suas críticas em relação ao padrão keynesiano eram tão contundentes.

Podemos pensar que muitos Estados não iriam aderir a tais recomendações, mas não foi isso que
observamos. Behring e Boschetti (2010) nos dizem que, seguindo tais ponderações, muitos Estados
passaram a estimular as questões de desemprego ou deixar de intervir nelas. Por exemplo, veremos que
na União Europeia, no período de 1974 a 1979, a taxa de desemprego equivalia a 4,4%, e no período de
1980 a 1990 subiu para 7,9%, ou seja, quase dobrou. Apesar de tais dados serem antigos, se relacionados
à atualidade, demonstram apenas o quanto se ampliou a taxa de desemprego nos Estados a partir da
adesão ao Neoliberalismo.

Nesse sentido, o Estado não deveria intervir visando o desemprego, mas manter-se neutro em relação
a essa questão e sobretudo evitar, a todo custo, as garantias visadas pelo Welfare State, como o pleno
emprego. No sentido em pauta, cabe apenas ressaltar, uma vez mais, que Hayek pressupunha que a ação
por meio das políticas sociais deveria ser suprimida, argumentando que ações de tal natureza também
seriam fatores condicionantes para estimular o ócio dos homens, mas também funcionariam como os
responsáveis pela falência do Estado.

Em linhas gerais, a argumentação de Hayek em contraposição ao Welfare State pode estar assim
sistematizada, sob os seguintes aspectos:

1) [...] o Estado Social é despótico porque, além de impedir a economia


de funcionar, nega aos usuários dos serviços sociais oportunidades de
escolhas e autonomia de decisão;

2) [...] o Estado Social, comparado ao mercado, é ineficiente e ineficaz na


administração de recursos;

3) [...] o Estado Social é paternalista e, por isso, moralmente condenável


porque incentiva a ociosidade e a dependência, ao mesmo tempo que,
97
Unidade II

com a sua carga de regulamentações, desestimula o capitalista de


investir;

4) [...] o Estado Social é perdulário porque gasta vultosos recursos para


obter modestos resultados;

5) [...] que o Estado Social é corrupto (PEREIRA, 2001, p. 37).

Além de impedir a economia de funcionar, ser ineficiente, ser paternalista e estimulador do ócio,
é perdulário e também corrupto. O Estado de Bem-Estar Social passa a ser comparado a tudo o que é
ruim em uma sociedade. Um dos aspectos citados anteriormente sobre a suposta ineficiência estatal
será retomado ao final.

Anderson (1995) nos diz que Hayek, além de propor a ausência da democratização, a instituição
de um Estado quase Absolutista e de recomendar a ausência do Estado na regulação econômica,
ainda defendia ser fundamental e necessário que o Estado instituísse um novo formato de cobrança
de impostos. Para Hayek, os impostos dos ricos deveriam ser menores do que os dos pobres. Para esse
teórico, aqueles segmentos que colaboravam mais com a economia deveriam pagar taxas menores
ao Estado, ao passo que aqueles que, no dizer de Hayek, não colaboravam com a economia deveriam
pagar taxas mais elevadas.

Aluno, como você compreende essa proposta neoliberal? Isso é justo? Melhor dizendo, a quem servem
esses ideais, à classe burguesa ou à classe que vive do trabalho? Vamos pensar um pouco sobre isso.

Observação

Por reversão da nacionalização buscamos designar o processo de


privatizações potencializado pelo Neoliberalismo.

Mas o grande corolário do ideal neoliberal é a reversão das nacionalizações. Conforme muito bem nos diz
Anderson (1995), corresponde à privatização das empresas públicas para a iniciativa privada. Aqui é necessário
que façamos um pequeno contraponto: anteriormente o parque industriário de grande parte dos países era
nacional, ou seja, pertencia ao Estado ou eram empresas nacionais. Assim, empresas criadas pelo Estado,
administradas por ele e lucráveis passam a ser vendidas a preços módicos para a iniciativa privada, que passa
a lucrar em grande escala. Você pode pensar: como isso é possível? O ideal neoliberal promove conjuntamente
uma satanização do Estado, visto que tudo o que é público passa a ser visto como de má qualidade, como
ruim. O Estado passa a ser considerado como o responsável por tudo de “ruim” que existe na sociedade.

Por um lado, a satanização do Estado: o Estado é tido como o diabo, responsável


por todas as desgraças e infortúnios que afetam a sociedade capitalista. Por
outro lado, a exaltação e a santificação do mercado e da iniciativa privada,
vista como a esfera da eficiência, da probidade e da austeridade, justificando
a política das privatizações (IAMAMOTO, 2001, p. 35).
98
TEORIA POLÍTICA CONTEMPORÂNEA

Já o mercado, como no dizer de Iamamoto, passa a ser associado a tudo o que é bom e ágil,
ou seja, representa a perfeição. No argumento de Hayek que tem grande aceitação pelos Estados,
as empresas públicas deveriam ser transferidas para a iniciativa privada, na qual seriam mais
bem‑administradas.

Apenas visando sistematizar os conceitos que discutimos até o presente momento, cabe a nós destacar
que o Neoliberalismo surgiu no mundo em meados de 1940. Nesse contexto, a doutrina neoliberal não foi
aceita como referência para a organização do Estado, visto que havia grande influência do keynesianismo.
Nos anos 1970, em decorrência de vivenciarmos grande crise capitalista, o Neoliberalismo foi assumido
como uma referência para o formato de gestão estatal e tem sido hegemônico na organização dos
Estados desde então.

Ainda observamos que a doutrina neoliberal compreendia que a intervenção estatal na economia e
também junto aos problemas individuais era extremamente prejudicial. No âmbito da economia, vimos que o
Neoliberalismo entendia que o controle do Estado provocava a ausência de competição, comprometendo
assim a extração do lucro. Já no que diz respeito ao indivíduo, Hayek indicava que o homem se
acostumaria a ter suas necessidades contempladas pelo Estado, estimulando assim o ócio. Portanto, para
o Neoliberalismo o Estado não deveria intervir por meio das políticas sociais, dos serviços públicos, tão
comuns no formato de governo proposto pelo Estado de Bem-Estar Social. O Neoliberalismo propunha
que esse formato de ação do Estado fosse suprimido, posto que, segundo o autor, caso isso não fosse
feito, poderíamos vivenciar uma crise capitalista ainda mais agressiva do que a que já fora vivenciada.
Na argumentação neoliberal, a crise era tida como responsabilidade do Estado neoliberal.

Vimos ainda que Kayek propunha a manutenção de uma taxa mínima de desemprego e desigualdade,
e também que o autor defendia que os pobres custeassem impostos de maior valor do que os ricos e
que estariam em condição de produzir. Observamos que temos uma grande privatização das empresas
nacionais lucráveis e um correspondente comprometimento da imagem construída do Estado, que,
agora, passa a ser considerado como sinônimo de tudo o que é ruim.

No entanto, devemos dizer que não há um formato único de implementação do Neoliberalismo.


Antes, cada Estado foi constituindo formatos e padrões neoliberais dependendo de suas condições
econômicas, políticas e sociais. Para tanto, é importante notar que as experiências que mais se
aproximaram do que era proposto por Kayek foram as do governo Thatcher, na extinta União Soviética,
e as de Reagan, nos Estados Unidos. Também tivemos, conforme Anderson (1995), a experiência chilena,
de Pinochet, instituída antes do grande desenvolvimento do Neoliberalismo na década de 1970. Na
sequência, abordaremos os aspectos relevantes em relação ao desenvolvimento do Neoliberalismo
no Brasil. Mas cabe a nós dizer que todos os Estados, até o final dos anos 1990, tinham aderido ao
Neoliberalismo como referência para seu formato de organização.

99
Unidade II

Saiba mais

Para saber um pouco mais sobre os assuntos aqui abordados


recomendamos os vídeos:

A VERDADE da crise. Dir. Charles Ferguson. Estados Unidos: Columbia,


2010. 106 minutos.

Esse primeiro documentário discute a questão da crise econômica,


explicando os reais motivadores para a ocorrência desta. O segundo, por
outro lado, monstra um pouco do governo chileno de Pinochet.

A BATALHA do Chile. Dir. Patricio Guzmán. Chile: Patricio Guzmán, 1975.


80 minutos.

Para encerrar nossas considerações, desejamos indicar que apesar de Hayek ter sido considerado o
principal representante da corrente neoliberal no mundo, não foi o único. Na verdade, já em meados
da década de 1940, após a publicação da obra O Caminho da Servidão, Hayek reuniu um grupo de
pensadores que possuíam a mesma perspectiva sobre o Estado que ele.

A primeira reunião desse grupo aconteceu em 1947, quando Hayek organizou uma reunião na
pequena estação de Mont Pèlerin, na Suíça, convocando para tal um grupo seleto de teóricos, entre
eles: “[...] Milton Friedman, Karl Popper, Lionel Robbins, Ludwing Von Mises, Walter Eupken, Walter
Lipman, Michael Polanui, Salbador de Madariaga [...]” (ANDERSON, 1995, p. 10). Destes, os que mais se
destacaram, além de Hayek, foram Friedman e Popper.

Partindo dessa reunião inicial foi criada a Sociedade de Mont Pèlerin, que funcionava como uma organização
contrária ao Welfare State. Essa sociedade funcionava, segundo Anderson, como uma espécie de “[...]
franco‑maçonaria neoliberal”, ou seja, uma sociedade, com poucos membros e que combatia, com
veemência, o Estado de Bem-Estar Social. Essa organização chegou até a realizar reuniões e eventos de
grande porte a cada dois anos. Mas a adesão ao Neoliberalismo só aconteceu mesmo nos anos 1970, por
motivos que já foram aqui sumariados.

Ao final desse processo, Anderson (1995) chama a nossa atenção questionando se as propostas neoliberais
teriam de fato alcançado os objetivos aos quais se propuseram. Buscando responder a tal indagação, nos indica
que no final da década de 1980, em que grande parte dos países já tinha aderido ao Neoliberalismo, foi possível
constatar a queda da taxa de inflação de 8,8% para 5,2% e o aumento da taxa de lucro em 4,2%. Também
se constatou que houve uma derrota do movimento sindical na Europa e uma ampliação do desemprego.
Segundo o autor, no final dos anos 1980, tivemos uma ampliação de 8% no desemprego e uma queda de
20% nos salários, inclusive nos mais altos. No entanto, todas essas medidas, conforme Anderson (1995), não
se mostraram suficientes para a ampliação da taxa de crescimento e extração da mais‑valia. Por conseguinte,
o crescimento econômico idealizado pelo argumento neoliberal não foi plenamente contemplado.
100
TEORIA POLÍTICA CONTEMPORÂNEA

Mas a pergunta que, com toda certeza, não quer calar é: e no Brasil, tivemos Neoliberalismo, tivemos
Liberalismo, tivemos Bem-Estar Social? Vamos na sequência apresentar a você tais informações.

8.2.1 Brasil e Neoliberalismo

Agora passamos ao nosso último subitem, em que indicaremos como esse formato de Estado se
desenvolveu nas condições brasileiras.

De uma forma sintética, podemos dizer que no Brasil, desde o regime colonial, não tivemos um
Estado interventor, um Estado de Welfare State tal como foi proposto por Keynes. Antes, analisando
nosso formato de regulação econômica e social, Couto nos diz que tivemos um Estado mais afinado
com os princípios liberais.

No entanto, no contexto da década de 1980, em decorrência do elevado número de pressões sociais, além
da crise econômica e política que se desenhava no Brasil, tivemos a Constituição de 1988, que determinou
a intervenção do Estado por meio das políticas sociais, sobretudo por um sistema de Seguridade Social
advindo das políticas sociais de saúde, Assistência Social e Previdência Social. Como vemos, a Previdência
Social permanece condicionada à contribuição de seus colaboradores, ao passo que a Saúde, antes
contributiva, passa a ser universal, assim como a Assistência Social, que agora assume o caráter de Política
Social. Nesse sentido, também é ampliada a responsabilidade do Estado para garantir a educação pública
desde o Educação Infantil. Vemos que o Estado brasileiro passa a ser responsabilizado por desenvolver
serviços públicos destinados à população e também uma similaridade com o que Keynes propunha. No
entanto, as intervenções não estavam orientadas ao pleno emprego, tampouco à consolidação de um
sistema que viabilizasse renda para ampliar o consumo e reaquecesse o mercado.

Couto (2010), no entanto, chama a nossa atenção para o fato de que a promulgação da Constituição
de 1988 não garantiu de imediato a instituição de serviços sociais para atender a população. No sentido
em voga, destaca que a Saúde passou a ser pública, de fato, porém, de qualidade precária e sem a estrutura
necessária à execução das ações. A Assistência Social permaneceu organizada pela Legião Brasileira da
Assistência (LBA), instituição criada por Getúlio Vargas em 1942 e que atendia um público reduzido,
somente por meio da concessão de benefícios pontuais, como cestas básicas, roupas, medicamentos
etc. Além disso, a autora nos coloca que durante o Governo Sarney, já sob a vigência da Constituição de
1988, foi criado apenas o Programa do Leite, em que era concedido leite para instituições assistenciais.
No âmbito educacional, também observamos poucas ações visando à qualificação da escola pública nos
termos garantidos pela Constituição.

No entanto, foi a partir dos anos 1990 que observamos a chegada do Neoliberalismo ao País, pelo
governo de Fernando Collor. Mas antes de seguirmos por esse caminho, vamos retomar o contexto da
eleição de Collor? Segundo Couto (2010), Collor, em sua campanha presidencial, dizia que iria realizar
muitas mudanças, entre as quais iria viabilizar uma “caça aos marajás”, dando a ideia de que iria
perseguir possíveis políticos corruptos acostumados a viver sob os benefícios do Estado brasileiro. Collor
se dizia ainda “amigo dos pobres” e dos “descamisados”, transmitindo assim uma imagem de que estaria
defendendo os segmentos sociais mais vulneráveis do País. Sua campanha presidencial e também o fato
de pertencer à classe burguesa deram a Collor a presidência.
101
Unidade II

Mas, ao assumir a presidência, Collor mudou rapidamente o discurso. Entendia que o Estado estava
ingovernável e que os gastos desse órgão eram extremamente elevados. Como alternativa, indicava o
corte de recursos destinados às áreas básicas de saúde, assistência social e educação, as quais tinham
sido recém-conquistadas pela população brasileira e expostas por meio da Constituição de 1988.

Couto (2010) ainda nos coloca que Collor e todos aqueles que estavam a ele vinculados propunham
a chamada reforma fiscal, por meio da qual se pretendia recuperar a chamada governabilidade.
Assim, é preciso indicar que Collor não desenvolveu intervenções sociais visando garantir o disposto
na Constituição de 1988 e apenas manteve serviços mínimos. A situação política foi complicada em
decorrência da grande quantidade de denúncias de corrupção que envolveram o seu governo e que
resultaram em sua saída do poder. A mudança política conduziu ao poder o vice-presidente, Itamar
Franco, que, por sua vez, manteve a postura do antecessor diante da ausência de ação estatal em prol
das políticas sociais e também dos segmentos mais vulneráveis do País.

Antes de abordarmos os demais presidentes, a fim de demonstrarmos apenas que o Neoliberalismo


constituiu referência para a intervenção pelo Estado brasileiro, gostaríamos de fazer um pequeno adendo.
O que motivaria o Estado brasileiro a promover tal reforma embasado nos princípios neoliberais? Seria
apenas uma identificação ou haveria algo mais oculto? Se você disse que há algo oculto, acertou. O que
foi preponderante nesse processo foi o chamado Consenso de Washington.

Couto (2010) nos diz que o Consenso de Washington foi um documento elaborado após uma reunião
ocorrida em Washington em 1988 com os principais representantes dos países de maior poder econômico
e representantes financeiros como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial.

O documento‑síntese, denominado Consenso de Washington, propunha que os países


subdesenvolvidos, para alcançarem o desenvolvimento, restringissem seus gastos na área social. Essa
restrição passa a ser imposta aos países como uma condição para que o país possa, futuramente, receber
recursos do FMI. Melhor dizendo, o país que não reduzisse os gastos na área social poderia, futuramente,
ter um empréstimo negado pelo FMI. Assim, a adesão ao Consenso de Washington resultou na
desestruturação dos sistemas de proteção social que acabavam de ser organizados pela Constituição em
1988. Como tais, essas ações, que deveriam competir exclusivamente ao Estado, agora são transferidas
para a sociedade civil, que passa a ser convidada a gerir os problemas sociais gerados e potencializados
a escalas cada vez maiores pelo desenvolvimento capitalista.

No ano de 1995 tivemos no Brasil a total adesão aos princípios de Hayek, ao Neoliberalismo em sua
totalidade, e nesse contexto a presidência já estava sendo assumida por Fernando Henrique Cardoso. A
partir do governo de FHC, instituiu-se no País um discurso que estava orientado para a necessidade de
realizar “reformas” no Estado, para que o Brasil se tornasse governável. Foi esse processo denominado
por muitos teóricos e também no meio político com a terminologia “contrarreforma”.

Essa reforma incidiu sobre os seguintes aspectos: a privatização das empresas públicas rentáveis, o
desmonte do parque industriário nacional e a abertura do País ao capital estrangeiro, a valorização do
serviço voluntário e sobretudo o corte nos gastos sociais, nos gastos para a manutenção do sistema de
Seguridade Social, que fora conquistado no País na década de 1980 por meio da Constituição de 1988, e
102
TEORIA POLÍTICA CONTEMPORÂNEA

também a adoção de um sistema gerencial pautado em políticas de ajuste fiscal, em vez do que se dizia
um sistema burocrático até então adotado pelo Estado. Bresser Pereira, que respondia na época pelo
Ministério da Administração e da Reforma do Estado, ficou encarregado de conferir concreticidade à
reforma conforme os aspectos indicados, e o fez, com presteza. No entanto, nos dois anos da gestão de
Fernando Henrique, a única reforma inconclusa teria sido a da Previdência Social, encerrada durante o
Governo Lula e já submetida a novas adequações durante o Governo Dilma-Temer. Essa reforma apenas
indica tentativas do Estado brasileiro de ampliar o tempo de contribuição dos trabalhadores e diminuir
os recursos do Estado para a manutenção desse sistema.

Para que as mudanças em questão fossem colocadas em curso, sobretudo as vinculadas à privatização,
também no Brasil foi conferido ao Estado o papel de algo ruim. Assim, tudo o que é público é associado
a algo ruim, e também no Brasil vemos que o mercado passa a ser considerado o que há de melhor em
nossa sociedade.

Além das privatizações, observamos que durante o governo de Fernando Henrique Cardoso também
tivemos a redução de gastos na área social, que vem vinculada à consolidação de ações pautadas
pela organização da sociedade civil. Como o Estado diminui os gastos sociais, passa a chamar a
sociedade para intervir nos problemas sociais. Por isso, nesse período, observamos no Brasil a expansão
das organizações não governamentais, essas instituições destinadas a atender problemas sociais não
contemplados pela ação do poder público. Assim, “[...] as políticas sociais universais, não contratualistas
e constitutivas de direito de cidadania, são acusadas pelos neoliberais de propiciarem o esvaziamento
de fundos públicos” (BEHRING, 2010, p. 188), e, por conta disso, as ações universais são substituídas por
intervenções residuais e pontuais.

Behring e Boschetti (2010) nos colocam ainda que algumas políticas sociais, como a Previdência
Social e a saúde, passam a ser privatizadas. Temos a elevação dos planos privados de Previdência
Social e também de saúde, posto que o serviço privado nessas áreas passa a ser lucrativo para o
mercado capitalista.

Na gestão das políticas sociais, as autoras salientam que temos a partir do governo Fernando
Henrique Cardoso a estimulação dos processos de descentralização político-administrativa por meio
da qual os Estados e Municípios são responsabilizados pelo Governo Federal para gerir os problemas
sociais. No entanto, há a transferência de responsabilidades, que não é plenamente acompanhada pela
transferência de recursos necessários para as ações.

Vemos assim que essa referência neoliberal tem sido a base para as ações do Estado brasileiro,
posto que ainda não temos um Estado forte, de fato, na efetivação dos direitos sociais. Além disso,
as privatizações ainda seguem a passos largos, e, ultimamente, temos observado, nas diversas regiões
do País, as rodovias sendo privatizadas e podendo servir como referência para o entendimento dessa
prática contemporânea do Estado. Enfim, o que desejamos salientar é que o Neoliberalismo não deve ser
percebido como uma forma de gestão estatal superada em nossa sociedade, antes, deve ser considerado
um dispositivo que será usado pelo Estado sempre que necessário. Mas, quando isso é necessário?
Behring e Boschetti (2010) nos dizem que há essa necessidade para que o Estado possa destinar recursos
das áreas sociais para as necessidades do capital. Assim, vemos que o Estado brasileiro assume o formato
103
Unidade II

neoliberal quando nos referimos aos serviços e às políticas sociais, porém, não é neoliberal quando é
necessário o socorro a bancos e empresas capitalistas privadas que encontrem dificuldades na extração
do lucro.

Quando pensamos em Neoliberalismo precisamos ter todas essas questões em mente e como
referência. À guisa de conclusão, deixamos para a sua análise o texto que segue.

Neoliberalismo aprofunda exclusão de “intocáveis”

Mumbai - A organização do Fórum Social Mundial 2004 decidiu não realizar uma
marcha de abertura na edição deste ano, que começa nesta sexta-feira (16). O que poderá
ser visto nas avenidas que dão acesso ao Nesco Grounds, local onde se realizarão os eventos,
na data inaugural do encontro, será uma multidão de dalit - denominação local dada aos
“intocáveis”, excluídos do sistema de castas da sociedade na Índia. “É a primeira vez que
o tema dos dalit será tratado com destaque em uma instância de nível global como o
FSM. Participaremos com 30 mil pessoas no Fórum”, afirma o coordenador da Conferência
Nacional de Organizações Dalit (National Conference of Dalit Organisations), Ashok Bharti.
Segundo ele, dez marchas vindas dos quatro cantos da Índia que se reuniram em três grandes
grupos de milhares de dalit devem chegar simultaneamente ao centro de atividades do FSM
2004. “A grande avenida aqui em frente vai parar para a passagem das marchas”, promete
Bharti, ciente do impacto que a ação deve causar no trânsito caótico de toda a Mumbai.

Em entrevista à Agência Carta Maior, o representante de cerca de 200 movimentos


organizados de dalit espalhados por toda a Índia conta como é ser um “intocável”, como
podem ser identificados e qual será a tônica da participação no Fórum Social Mundial
do grupo imenso que representa um quarto da população indiana, ou seja, cerca de 250
milhões de pessoas. Cartazes colados nos muros das fábricas desativadas que acolherão o
Fórum indicam o nome, o local e a data do principal evento organizado pelos movimentos
em prol dos dalit na programação do FSM 2004: Fórum Mundial da Dignidade (World Dignity
Forum), Hall 1 (onde ocorrerá a conferência de abertura), no próximo dia 19 de janeiro.

Agência Carta Maior - O que é ser um dalit na Índia?

Ashok Bharti - Como introdução, gostaria de lembrar que também temos problemas
de racismo na Índia. Quem tem a pele mais escura sofre um certo tipo de preconceito.
Sobre o sistema de castas, existem basicamente cinco divisões: três castas são consideradas
superiores e uma, inferior. A quinta parte é formada por uma grande parcela da população
que está do lado de fora dessa divisão social. Esse grupo é constituído de dalit, também
chamados [nas línguas ocidentais] de “intocáveis”. Esse nome vem do fato de que um simples
toque de qualquer representante de qualquer casta em um dalit requer um banho formal
ou uma cerimônia religiosa para que seja consumada a “despoluição” do não dalit. A nossa
situação, hoje, mesmo depois de alguns avanços, é bem pior que a discriminação dos negros
que lutaram sob o comando de Martin Luther King.

104
TEORIA POLÍTICA CONTEMPORÂNEA

CM - Para um estrangeiro, não é simples identificar um dalit. Existe alguma forma de


distinguir um “intocável” de um indiano das outras castas?

Bharti - Uma das identificações visuais de um dalit, que em Mumbai se concentram em


conglomerados humanos parecidos com favelas chamados de “villages”, são os colares e as
pulseiras negras feitas de pequenas miçangas. E se um dalit ou uma dalit estiver vestindo
uma roupa considerada de qualidade “superior”, ou uma joia mais valiosa que o ornamento
negro nos pescoços, pode ter seus pertences confiscados por qualquer um.

CM - Qual será o enfoque das discussões dos movimentos de dalit neste Fórum
Social Mundial?

Bharti - Os dalit estão completamente integrados ao processo do Fórum Social Mundial


2004. A nossa organização (National Conference of Dalit Organisations) faz uma reunião
a cada dois anos e define uma agenda. No encontro do ano passado, definimos a nossa
participação no Fórum Social Mundial.

Serão dois os grandes temas que nós buscaremos trazer ao Fórum Social Mundial.
O primeiro deles é que os dalit são as maiores vítimas das políticas neoliberais que vêm
sendo praticadas na Índia. Para se ter uma ideia, 95% trabalham no setor informal, o que
significa menores salários. Todos os membros têm que trabalhar para que uma família de
dalit sobreviva. Com a onda da privatização, proteções fundamentais à dignidade humana
como a educação e o acesso à água passaram a ter um caráter privado.

Um exemplo claro disso é que o governo parou de construir escolas depois do acordo
do governo indiano com o Fundo Monetário Internacional (FMI), em 1992. Antes, havia um
crescimento, ainda que bastante vagaroso, do número de escolas. Mas o poder público
simplesmente acabou com o sonho de vários dalits de que um dia haveria educação para todos.

Outra preocupação nossa é reforçar o caráter “social” do Fórum Social Mundial. Estive
no último Fórum Social Mundial de Porto Alegre, no Brasil, e tenho conhecimento que a
maioria da população brasileira é negra ou parda. No entanto, a participação de brasileiros
pertencentes a esses grupos era bastante pequena comparada à dos brancos. Nossa intenção
aqui no Fórum da Índia é, com a participação de 30 mil dalits (intocáveis) que virão de
todas as regiões do país, dar prioridade absoluta ao caráter social do encontro para nos
diferenciarmos claramente do Fórum Econômico de Davos (na Suíça).

CM - Quais dados concretos podem evidenciar melhor essa constatação de que a política
com base no neoliberalismo atinge preponderantemente os “intocáveis”?

Bharti - Fizemos um estudo e notamos que os empregos para dalit dentro do setor
público foram reduzidos em 10% nos cinco primeiros anos de política neoliberal na Índia.
Percebemos também que o número de empregados públicos não dalit de todo o país caiu
3% de 1992 a 1997. No mesmo período, esse mesmo índice para os “intocáveis” foi de 5,8%.
105
Unidade II

E segundo números oficiais, os gastos governamentais com bem-estar social para a


população não dalit vêm aumentando muito mais do que o mesmo gasto voltado para os
dalit. Somos os primeiros a ter a dignidade perdida. O ônus da adoção de políticas neoliberais
recai preponderantemente sobre nós.

CM - O senhor citou aspectos relacionados à educação em uma de suas respostas. Como


o senhor avalia essa relação entre o ensino e os dalit?

Bharti - Existem basicamente três problemas centrais a serem superados na questão da


educação. Primeiro, qualquer referência à cultura e à história dos dalit está fora de todos
os currículos escolares, desde os cursos básicos até a educação superior. Não há também
cursos de pós-graduação sobre nós, os dalit. Ou seja, quem formula as políticas públicas da
educação na Índia ignora cabalmente a existência dos dalit.

Segundo, não existe uma atmosfera propícia para a educação das crianças dalit. Elas
são obrigadas a estudar a subjugação. Por exemplo: a vida e o papel cívico de praticar
genocídios contra a população dalit.

Para completar, os cursos de formação de professores não preveem o tratamento especial


de crianças “intocáveis”. Sabemos de histórias como a de uma garota que foi punida com
agressões no rosto e perdeu a visão por “conduta inadequada” para uma dalit em uma
escola comum da Índia. O que nós defendemos é que se o problema for ignorado, não
haverá modos de resolvê-lo.

Fonte: Hashiami (2004).

Exemplo de aplicação

No texto, temos os principais pontos destacados em nossos estudos em relação ao Neoliberalismo.


Isso posto, cabe a nós a pergunta: podemos falar em pós-Neoliberalismo? Quais seriam os principais
comportamentos e pensamentos relacionados a essa tendência pós-neoliberal? Em que medida o
pós‑Neoliberalismo influencia a forma de gestão hoje adotada pelo Estado?

Resumo

Iniciamos nossa unidade discutindo o conceito de participação


popular, derivando para tanto do entendimento de Boaventura
Santos, no qual vimos que o conceito em questão é entendido pelo
sociólogo português de forma vinculada à noção de democracia.
Por oportuno, vimos que o autor entende que não há participação
popular possível se não houver uma sociedade democrática. Há
inúmeras possibilidades de participação democrática, para além de
106
TEORIA POLÍTICA CONTEMPORÂNEA

voto e de representação, mas cada uma dessas possibilidades deriva


da realidade observada em determinados países. Ou seja, as condições
econômicas, sociais e políticas presentes em um determinado país
definem as possibilidades de participação e democracia construídas
nesses locais. Da mesma forma, vimos que não há uma história
linear de desenvolvimento das experiências democráticas a ser
seguida, visto que cada local possui especificidades que demarcam
o desenvolvimento ou não de práticas democráticas.

Entre uma série de considerações por nós realizada com base na produção
teórica de Boaventura Santos, vimos ainda o conceito de emancipação,
este fundamental na análise do autor sobre a participação popular. No
sentido em questão, vimos que o autor entende que a democracia e a
participação popular só se tornam de fato efetivas se acompanhadas por
processos de emancipação, em que os atores sociais sejam empoderados
nos processos decisórios. Por isso, observamos ainda que o autor destaca
a relevância dos movimentos sociais de luta e resistência no estímulo a
práticas democráticas.

Após a abordagem de Boaventura Santos, passamos ao conceito de


rede, formulado por Castells. Este autor entendia que vivemos a sociedade
em rede, segundo a qual as redes tecnológicas têm sido dispositivos para
estimular o comércio e para firmar e estabelecer relações sociais entre os
homens. Partindo desse conceito, passamos ao entendimento do conceito
de capitalismo global e tecnológico. Observamos que o capitalismo,
atualmente, é organizado para o mercado global, o que resulta, por um
lado, no empobrecimento e no desemprego de grande parte da população.
Para o capital o mercado global é determinante para a manutenção das
taxas de lucros, mas os prejuízos para o gênero humano são enormes.

Concluímos com nossos estudos a respeito do Neoliberalismo.


Para isso, retomamos a doutrina inicial e que conferiu sustentação ao
Neoliberalismo, a doutrina liberal. Vimos assim que o Liberalismo propunha,
já nos séculos XVI e XVII, que o Estado não realizasse intervenções ou
ações em prol dos problemas sociais. Nesse sentido, observamos que havia
teóricos, Adam Smith, por exemplo, que entendiam que cada ser humano
deveria ser responsável por seu próprio desenvolvimento. Essa corrente
teórico‑filosófica foi responsável pela instituição de Estados liberais em
várias partes do mundo.

Para que sua compreensão e entendimento fossem ampliadas no que


diz respeito ao formato adotado pelo Estado, abordamos ainda o Estado
de Bem-Estar ou Welfare State, que, como vimos, peculiarizou‑se pela
intervenção do Estado junto aos problemas sociais e também no sentido
107
Unidade II

da regulação econômica. Observamos que o Estado de Bem-Estar Social


possuía referências bem distintas do Estado de influência liberal. Por
fim, concluímos nossos estudos com as colocações acerca do Estado
Neoliberal, que vigora ainda atualmente e que, conforme estudado, tem
sua especificidade delimitada pela ausência de intervenção do Estado,
sobretudo nos problemas sociais.

Dessa maneira, acreditamos que tenha sido possível a você conhecer


uma série de conceitos sobre o Estado e esperamos assim ter colaborado
para o desenvolvimento de sua consciência crítica em relação a esse ente.

Exercícios

Questão 1. (Enade 2008, adaptada) O Movimento Zapatista no México, assim como o MST no
Brasil, tem articulado suas lutas internas contra a desigualdade e a exclusão social em relação à
terra, à cultura e à política, com uma contestação mais ampla contra a nova ordem econômica
global. Manuel Castells, entre os teóricos dos movimentos sociais, define três tipos de identidade
coletiva: legitimadora; de resistência; e de projeto. A cada um desses tipos correspondem três tipos
societários: sociedade civil; comunas ou comunidades de resistência; e sujeitos ou ator social coletivo
da transformação social. Considerando-se esse assunto e a tipologia de Manuel Castells, é correto
concluir que os movimentos citados atuam:

I - com demandas específicas em relação à terra, de resistência às desigualdades, e com um projeto


de mudança.

II - em um registro político marcado pela violência, distinto dos tipos identitários mencionados.

III - como um partido político que só visa ao poder.

Estão certos apenas os itens:

A) I e II.

B) I.

C) II e III.

D) II.

E) III.

Resposta correta: alternativa B.

108
TEORIA POLÍTICA CONTEMPORÂNEA

Análise das afirmativas

I) Afirmativa correta.

Justificativa: tanto o Movimento Zapatista quanto o MST têm um projeto de tornar a distribuição da
terra mais justa, tornando a propriedade e o uso acessíveis a todos.

II) Afirmativa incorreta.

Justificativa: os dois grupos não têm suas atuações marcadas por um contexto de violência,
necessariamente. O MST, embora entre em conflito com forças policiais e com a lei, não se pauta
pela violência como forma de atuação, tampouco age em um ambiente no qual a violência é
traço dominante.

III) Afirmativa incorreta.

Justificativa: a identidade legitimadora, no contexto de uma sociedade civil organizada nos


termos de Castells, é constituída por atores ou agentes introduzidos pelos que estão no poder de
forma que corrobore e fortaleça as relações de dominação. Esse não é o caso do MST, tampouco do
Movimento Zapatista.

Questão 2. (Enade 2014) Boaventura de Souza Santos, sociólogo português, evidenciou três
diferentes globalizações presentes no mundo atual: a hegemônica, a contra-hegemônica e a
político-religiosa. Para ele, o contato entre essas globalizações causa grandes questões acerca
da garantia universal dos Direitos Humanos. São exemplos da guerra entre as formas diferentes
e quase incomunicáveis de se pensar a dignidade humana o atentado ao World Trade Center,
na cidade de Nova Iorque, em 11 de setembro de 2001, e a resposta ofensiva norte-americana a
alguns países do Oriente Médio. Outro exemplo mais atual foi a intensificação do conflito entre
Israel e Palestina, em julho de 2014. Na força geradora desses grandes conflitos, está a divergência
de pensamento sobre o conceito de dignidade humana entre os diferentes povos, sendo a religião
peça fundamental para a discussão.

Com base no pensamento de Boaventura a respeito das questões geradas na zona de contato entre
as globalizações rivais, avalie as afirmações a seguir.

I - Há turbulência política, cultural e ideológica que repercute nos Direitos Humanos na zona de
contato entre as três globalizações.

II - Por ser universalmente aceito o conceito de dignidade humana, não existem grandes barreiras
para a implantação dos princípios da Declaração Universal dos Direitos Humanos.

III - Os princípios preconizados pela Declaração Universal dos Direitos Humanos não são capazes de
resolver as injustiças que se manifestam no contato entre as diferentes globalizações.

109
Unidade II

É correto o que se afirma em:

A) I, apenas.

B) II, apenas.

C) I e III, apenas.

D) II e III, apenas.

E) I, II e III.

Resolução desta questão na plataforma.

110
FIGURAS E ILUSTRAÇÕES

Figura 2

SER HUMANO controlado por agente externo. Grupo UNIP-Objetivo.

Figura 3

SANTANA, S. P. Getúlio Vargas, do homem ao mito político: a desconstrução de uma imagem


(1930‑1945). 2010. Dissertação (Mestrado em História) – Pontifícia Universidade Católica, São Paulo,
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111
Figura 9

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Figura 10

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Figura 11

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MEMÓRIAS do Cárcere. Dir. Nelson Pereira dos Santos. Brasil: Embrafilme, 1987. 197 minutos.

O ESPÍRITO de 1945. Dir. Ken Loach. Reino Unido: GB Film, 2013. 94 minutos.

PRA FRENTE, Brasil. Dir. Roberto Farias. Brasil: Embrafilme, 1982. 105 minutos.

UMA NOITE de crime. Dir. James DeMonaco. Estados Unidos: Universal, 2013. 88 minutos.

UMA NOITE de crime 2: anarquia. Dir. James DeMonaco. Estados Unidos: Universal, 2014. 104 minutos.

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Exercícios

Unidade I – Questão 1: INSTITUTO NACIONAL DE ESTUDOS E PESQUISAS EDUCACIONAIS ANÍSIO TEIXEIRA


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Unidade I – Questão 2: INSTITUTO NACIONAL DE ESTUDOS E PESQUISAS EDUCACIONAIS ANÍSIO TEIXEIRA


(INEP). Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) 2013: 1º dia. Disponível em: < http://download.inep.gov.
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Unidade II – Questão 1: INSTITUTO NACIONAL DE ESTUDOS E PESQUISAS EDUCACIONAIS ANÍSIO


TEIXEIRA (INEP). Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (ENADE) 2008: Cîências Sociais.
Questão 25. Disponível em: <http://download.inep.gov.br/download/Enade2008_RNP/CIENCIAS_
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Unidade II – Questão 2: INSTITUTO NACIONAL DE ESTUDOS E PESQUISAS EDUCACIONAIS ANÍSIO


TEIXEIRA (INEP). Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (ENADE) 2014: Cîências Sociais.
Questão 27. Disponível em: <http://download.inep.gov.br/educacao_superior/enade/provas/2014/07_
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116
117
118
119
120
Informações:
www.sepi.unip.br ou 0800 010 9000

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