Você está na página 1de 256

Í

Índice

PROLOGO
CAPITULO UM
CAPITULO DOIS
CAPITULO TRES
CAPITULO QUATRO
CAPITULO CINCO
CAPITULO SEIS
CAPITULO SETE
CAPITULO OITO
CAPITULO NOVE
CAPITULO DEZ
CAPITULO ONZE
CAPITULO DOZE
CAPITULO TREZE
CAPITULO QUATORZE
CAPITULO QUINZE
CAPITULO DEZESSEIS
CAPITULO DEZESSETE
CAPITULO DEZOITO
CAPITULO DEZENOVE
CAPITULO VINTE
CAPITULO VINTE E UM
CAPITULO VINTE E DOIS
CAPITULO VINTE E TRES
CAPITULO VINTE E QUATRO
CAPITULO VINTE E CINCO
CAPITULO VINTE E SEIS
CAPITULO VINTE E SETE
CAPITULO VINTE E OITO
EPILOGO
TRADUÇÃO E FORMATAÇÃO:
BOOKSUNFLOWERS
Índice
PROLOGO
CAPITULO UM
CAPITULO DOIS
CAPITULO TRES
CAPITULO QUATRO
CAPITULO CINCO
CAPITULO SEIS
CAPITULO SETE
CAPITULO OITO
CAPITULO NOVE
CAPITULO DEZ
CAPITULO ONZE
CAPITULO DOZE
CAPITULO TREZE
CAPITULO QUATROZE
CAPITULO QUINZE
CAPITULO DEZESSEIS
CAPITULO DEZESSETE
CAPITULO DEZOITO
CAPITULO DEZENOVE
CAPITULO VINTE
CAPITULO VINTE E UM
CAPITULO VINTE E DOIS
CAPITULO VINTE E TRES
CAPITULO VINTE E QUATRO
CAPITULO VINTE E CINCO
CAPITULO VINTE E SEIS
CAPITULO VINTE E SETE
CAPITULO VINTE E OITO
EPILOGO
PROLOGO

Dez Anos Atrás


San Jose, Califórnia

Khai deveria estar chorando. Ele sabia que deveria estar chorando.
Todo mundo estava.
Mas seus olhos estavam secos.
Se eles doı́am, era devido ao incenso pesado embaçando a sala de
recepçã o da funerá ria. Ele estava triste? Ele achou que estava
triste. Mas ele deveria estar devastado. Quando seu melhor amigo
morre assim, você deveria icar destruı́do. Se fosse uma ó pera
vietnamita, suas lá grimas formariam rios e afogariam a todos.
Por que sua mente estava clara? Por que ele estava pensando na
tarefa de casa que deveria ser entregue amanhã ? Por que ele ainda
estava funcionando?
A prima dele, Sara, chorara tanto que precisou correr para o banheiro
para vomitar. Ela ainda estava lá agora - ele suspeitava - vomitando
repetidamente. Sua mã e, Dı̀ Mai, sentou-se rigidamente na primeira ila,
as palmas das mã os juntas e a cabeça inclinada. A mã e de Khai dava
tapinhas nas costas dele de vez em quando, mas ela continuava sem
responder. Como Khai, ela nã o derramou lá grimas, mas isso foi porque
ela chorou todas elas dias antes. A famı́lia estava preocupada com
ela. Ela secou até o esqueleto desde que receberam a ligaçã o.
Fileiras de monges budistas em trajes amarelos bloqueavam sua visã o
do caixã o aberto, mas isso era uma coisa boa. Embora os agentes
funerá rios tivessem feito o melhor possı́vel, o corpo parecia deformado
e errado. Esse nã o era o garoto de dezesseis anos que costumava ser
amigo de Khai e primo favorito. Aquele nã o era o Andy.
Andy se foi.
As ú nicas partes dele que sobreviveram foram as memó rias na cabeça
de Khai. Lutas com bastõ es e lutas com espadas, lutas que Khai nunca
venceu, mas se recusou a perder. Khai preferia quebrar os dois braços
do que chamar Andy de papai. Andy disse que Khai era
patologicamente teimoso. Khai insistiu que ele apenas tinha
princı́pios. Ele ainda se lembrava das longas caminhadas para casa
quando o peso do sol era mais pesado do que as mochilas cheias de
livros e as conversas que haviam ocorrido durante as caminhadas.
Mesmo agora, ele podia ouvir seu primo zombando dele. As
circunstâ ncias especı́ icas o escaparam, mas as palavras
permaneceram.
Nada chega até você. É como se seu coração fosse feito de pedra.
Ele nã o tinha entendido Andy entã o. Ele estava começando agora.
O zumbido dos câ nticos budistas encheu a sala, sı́labas baixas e
desa inadas, faladas em um idioma que ningué m entendia. Fluı́a sobre
ele e vibrava em sua cabeça, e ele nã o conseguia parar de balançar a
perna, mesmo que as pessoas lhe tivessem dado olhares. Um olhar
furtivo para o reló gio con irmou que sim, isso já durava horas. Ele
queria que o barulho parasse. Ele quase podia se imaginar rastejando
para dentro do caixã o e fechando a tampa para bloquear o som. Mas
entã o ele icaria preso em um espaço apertado com um cadá ver, e nã o
tinha certeza se isso era uma melhoria em relaçã o à situaçã o atual.
Se Andy estivesse aqui - vivo e aqui - eles escapariam juntos e
encontrariam algo para fazer, mesmo que fosse sair para chutar pedras
ao redor do estacionamento. Andy era bom assim. Ele estava sempre lá
quando você precisava dele. Exceto por agora.
O irmã o mais velho de Khai estava sentado ao lado dele, mas ele sabia
que Quan nã o iria querer sair mais cedo. Funerais existiam para
pessoas como Quan. Ele precisava do fechamento ou o que quer que as
pessoas obtivessem deles. Com sua constituiçã o intimidadora e as
novas tatuagens no pescoço e nos braços, Quan parecia um ilho da
puta, mas seus olhos estavam vermelhos. De vez em quando, ele
discretamente escovava a umidade das bochechas. Como sempre, Khai
desejou que ele pudesse ser mais como seu irmã o.
Uma tigela de metal tocou e o canto parou. O alı́vio foi instantâ neo e
vertiginoso, como se uma pressã o enorme tivesse se dissolvido
repentinamente. Os monges trabalharam com os carregadores de
fé retro para fechar o caixã o, e logo uma procissã o entrou
silenciosamente no corredor central. Como ele nã o gostava de icar em
ilas e da pressã o claustrofó bica dos corpos, Khai icou sentado quando
Quan se levantou, apertou seu ombro uma vez e se juntou ao ê xodo.
Ele viu os parentes passarem. Alguns choraram abertamente. Outros
eram mais estoicos, mas a tristeza era ó bvia até para eles. Tias, tios,
primos, parentes distantes e amigos da famı́lia se apoiavam, unidos por
uma coisa chamada tristeza. Como sempre, Khai nã o fazia parte disso.
Um grupo de mulheres mais velhas, que consistia em sua mã e, Dı̀ Mai,
e duas de suas outras tias vinham no im da linha por causa de um
câ ntico, todas juntas na idade adulta, como todo mundo dizia ser desde
quando eram jovens. Se nã o fosse pelo fato de todos usarem preto, eles
poderiam estar participando de um casamento. Diamantes e jade
pendiam de suas orelhas, gargantas e dedos, e ele podia sentir o cheiro
de maquiagem e perfume atravé s da né voa do incenso.
Ao passarem por sua ila, ele se levantou e ajeitou o paletó de
Quan. Ele tinha muito o que fazer se quisesse preencher essa coisa. E
lexõ es. Milhares de pull-ups. Ele começaria aqueles hoje à noite.
Quando olhou para cima, ele descobriu que todas as mulheres haviam
parado ao lado dele. Dı̀ Mai estendeu a mã o em direçã o à sua bochecha,
mas parou antes de tocá -lo.
Ela procurou seu rosto com olhos solenes. — Eu pensei que você s
dois eram pró ximos. Você nã o se importa que ele se foi?
Seu coraçã o pulou e começou a bater tã o rá pido que doeu. Quando ele
tentou falar, nada saiu. Sua garganta estava fechada e inchada.
— E claro que eles eram pró ximos, — sua mã e repreendeu a irmã
antes de puxá -la pelo braço. — Venha Mai, vamos lá . Eles estã o
esperando por nó s.
Com os pé s congelados no chã o, ele observou enquanto elas
desapareciam pela porta. Logicamente, ele sabia que estava no lugar,
mas ele sentiu como se estivesse caindo. Caindo, caindo, caindo.
Eu pensei que vocês dois eram próximos.
Desde que o professor do ensino fundamental insistiu que seus pais o
levassem a um psicó logo, ele sabia que era diferente. A maioria de sua
famı́lia, no entanto, desconsiderou o diagnó stico resultante, dizendo
que ele era apenas "um pouco estranho". Nã o havia autismo ou
sı́ndrome de Asperger no interior do Vietnã . Alé m disso, ele nã o teve
problemas e se saiu bem na escola. O que isso importa?
Eu pensei que vocês dois eram próximos.
As palavras nã o paravam de ecoar em sua cabeça, levando-o a uma
auto realizaçã o indesejá vel: ele era diferente, sim, mas de um jeito ruim.
Eu pensei que vocês dois eram próximos.
Andy nã o tinha sido apenas seu melhor amigo. Ele tinha sido
seu único amigo. Andy era tã o pró ximo quanto era possı́vel ser pró ximo
de Khai. Se ele nã o podia lamentar por Andy, isso signi icava que ele
nã o podia lamentar. E se ele nã o podia lamentar, o outro lado també m
tinha que ser verdade.
Ele nã o podia amar.
Andy estava certo. O coraçã o de Khai era realmente feito de pedra
metafó rica.
O conhecimento espalhou-se sobre ele como petró leo em um
derramamento de ó leo. Ele nã o gostou, mas nã o havia nada a fazer alé m
de aceitá -lo. Isso nã o era algo que você poderia mudar. Ele era o que
era.
Eu pensei que vocês dois eram próximos.
Ele era... mau.
Ele abriu as mã os, trabalhou os dedos. Suas pernas se moveram
quando ele as comandou. Os pulmõ es dele respiraram. Ele viu, ouviu,
experimentou. E isso lhe pareceu incrivelmente injusto. Nã o era isso
que ele teria escolhido. Se ele pudesse ter escolhido quem foi naquele
caixã o.
O canto começou de novo, sinalizando que o funeral estava chegando
ao im. Hora de se juntar aos outros enquanto eles se
despediam. Ningué m parecia entender que nã o era um adeus, a menos
que Andy dissesse de volta. De sua parte, Khai nã o disse nada.
CAPÍTULO UM

Dois meses atrás


Cidade de Ho Chi Minh, Vietnã

Esfregar banheiros nã o era tã o interessante assim. Mỹ tinha feito isso
tantas vezes que ela tinha uma rotina automá tica agora. Pulverize com
veneno todos os lugares. Despeje veneno dentro. Esfregue, esfregue,
esfregue, esfregue, esfregue. Limpe, limpe, limpe. Dê descarga. Feito em
menos de dois minutos. Se houvesse um concurso de limpeza de
banheiros, Mỹ seria uma das principais candidatas. Hoje nã o, no
entanto. Os barulhos na cabine ao lado continuavam distraindo-a.
Ela tinha certeza que a garota lá dentro estava chorando. Ou isso ou
malhando. Havia muita respiraçã o pesada acontecendo. Que tipo de
treino você poderia fazer em um banheiro? Joelho alto, talvez.
Um som estrangulado foi emitido, seguido por um gemido agudo, e
Mỹ soltou sua escova de banheiro. Isso foi de initivamente um
choro. Inclinando a tê mpora contra o lado da cabine, ela pigarreou e
perguntou: — Senhorita, algo está errado?
— Nã o, nada está errado. — Disse a garota, mas seus soluços icaram
mais altos antes que parassem abruptamente, substituı́dos por uma
respiraçã o pesada, mas abafada.
— Eu trabalho neste hotel. — Como zeladora/faxineira. — Se algué m
te tratou mal, eu posso ajudar. — Ela tentaria, de qualquer
maneira. Nada a irritava mais que um valentã o. Ela nã o podia se dar ao
luxo de perder esse emprego, no entanto.
— Nã o, eu estou bem. — A trava da porta sacudiu, e os sapatos
estalaram contra o chã o de má rmore.
Mỹ en iou a cabeça para fora de sua cabine a tempo de ver uma garota
bonita indo na direçã o das pias. Ela usava os mais altos e mais
assustadores saltos que Mỹ já tinha visto e um vestido colado vermelho,
que terminou logo abaixo de seu bumbum. Se você acreditasse em
qualquer coisa que a avó de Mỹ dizia, aquela garota iria engravidar no
segundo que pisasse na rua. Ela provavelmente já estava grá vida - pela
potê ncia do olhar de um homem para engravidar.
De sua parte, Mỹ tinha engravidado apenas se divertindo com um
playboy da escola, nã o precisou nem de um vestido colado e de um
salto assustador. Ela resistiu a ele no começo. A mã e e a avó tinham
deixado claro que os estudos vinham primeiro, mas ele a perseguiu até
que ela cedeu, pensando que era amor. Em vez de se casar com ela
quando ela contou a ele sobre o bebê , ele se ofereceu de má vontade
para mantê -la como sua amante secreta. Ela nã o era o tipo de garota
que ele poderia apresentar à sua famı́lia de classe alta e, surpresa, ele
estava noivo e planejava prosseguir com o casamento. Obviamente, ela
o recusou, o que fora um alı́vio e um choque para ele, aquele ilho da
é gua. Sua famı́lia, por outro lado, icara de coraçã o partido - eles
depositaram tantas esperanças nela. Mas como ela sabia que eles iriam,
eles a apoiaram e a seu bebê .
A garota de vestido vermelho lavou as mã os e enxugou as bochechas
com rı́mel antes de jogar a toalha no balcã o e sair do banheiro. As luvas
de borracha amarela de Mỹ rangeram enquanto ela as pegava. O cesto
de toalhas estava ali. Resmungando para si mesma, caminhou até as
pias, limpou o balcã o com a toalha de mã o da garota e a jogou no cesto
de toalhas. Uma rá pida inspeçã o da pia, balcã o, espelho e uma pilha de
toalhas ordenadamente enrolada con irmou que tudo estava aceitá vel, e
ela voltou ao ú ltimo banheiro.
A porta do banheiro se abriu e outra garota entrou correndo. Com
seus cabelos pretos na altura da cintura, corpo magro, pernas longas e
saltos perigosos, ela se parecia muito com a garota anterior. Apenas o
vestido dela se diferenciava por ser branco. O hotel estava tendo algum
tipo de concurso? E por que essa garota estava chorando també m?
— Senhorita, você está bem? — Mỹ perguntou enquanto dava um
passo hesitante em sua direçã o.
A garota jogou á gua no rosto.
— Estou bem. — Ela apoiou as mã os molhadas na bancada de granito,
fazendo mais bagunça para Mỹ limpar, e olhou para seu re lexo no
espelho enquanto respirava fundo.
— Eu pensei que ela ia me escolher. Eu tinha tanta certeza. Por que
fazer essa pergunta se ela nã o queria a resposta? Ela é uma mulher
sorrateira.
Mỹ desviou o olhar das gotas de á gua em cima do balcã o e focou no
rosto da menina.
— Que mulher? Escolher você para o que?
A menina passou um certo olhar sobre o uniforme do hotel de Mỹ e
revirou os olhos.
— Você nã o entenderia.
As costas de Mỹ enrijeceram e sua pele icou vermelha com o calor da
vergonha. Ela tinha recebido aquele olhar e tom de voz antes. Ela sabia
o que eles queriam dizer. Antes que ela pudesse encontrar uma
resposta adequada, a garota se foi. E esqueça o avô da menina e todos
os seus outros antepassados; outra toalha amassada estava sobre o
balcã o.
Mỹ marchou até a pia, limpou a bagunça da garota e jogou a toalha na
cesta. Bem, ela pretendia. Ela mirou errado e a toalha caiu no
chã o. Bufando de frustraçã o, ela foi buscá -la.
Assim que seus dedos enluvados se fecharam em torno da toalha, a
porta se abriu mais uma vez. Ela olhou para o cé u. Se era outra garota
mimada chorando, ela iria para outro banheiro do outro lado do hotel.
Mas nã o era. Uma mulher mais velha, cansada, caminhou até a sala do
outro lado do banheiro e sentou-se em um dos assentos estofados de
veludo. Mỹ sabia à primeira vista que a senhora era uma Việ t kiều. Foi
uma combinaçã o de coisas que a denunciou: sua genuı́na bolsa Louis
Vuitton gigante, suas roupas caras e seus pé s. Bem cuidados e
perfeitamente sem calos, esses pé s de sandá lias tinham que pertencer a
uma vietnamita no exterior. Essas pessoas dã o uma gorjeta muito boas,
apesar de tudo. O dinheiro praticamente derrama deles. Talvez hoje
seria seu dia de sorte.
Ela jogou a toalha de mã o na cesta e se aproximou da mulher.
— Senhora, posso te ajudar com alguma coisa?
A senhora acenou para ela com desdé m.
— Apenas me avise, senhora. Aproveite o seu tempo aqui. E um
banheiro muito bom. — Ela estremeceu, desejando poder pegar de
volta as ú ltimas palavras e voltou-se para os banheiros. Por que eles
tinham uma sala de estar aqui estava alé m da compreensã o dela. Claro,
era um cô modo agradá vel, mas por que relaxar onde você podia ouvir
as pessoas fazendo coisas no banheiro?
Ela terminou o trabalho, colocou o balde de material de limpeza no
chã o junto à s pias e fez uma ú ltima inspeçã o no banheiro. Uma das
toalhas de mã o havia se desenrolado parcialmente, entã o ela a sacudiu,
a enrolou novamente e colocou na pilha com as outras. Entã o ela
reposicionou a caixa de lenços de papel. Pronto. Tudo estava
apresentá vel.
Ela se inclinou para pegar o balde, mas antes que seus dedos
pudessem fechar ao redor do cabo, a senhora disse: — Por que você
reposicionou a caixa de lenços assim?
Mỹ endireitou-se, olhou para a caixa de lenços de papel e depois
inclinou a cabeça para a mulher.
— Porque é assim que o hotel gosta, senhora.
Uma expressã o pensativa cruzou o rosto dela e, depois de um
segundo, ela chamou Mỹ em sua direçã o e deu um tapinha no espaço ao
lado dela no sofá .
—Venha conversar comigo por um minuto. Me chame de Cô Nga.
Mỹ sorriu com perplexidade, mas fez o que lhe foi proposto,
sentando-se ao lado da senhora e mantendo as costas retas, as mã os
cruzadas, e seus joelhos pressionados juntos como a maior das
virgens. Sua avó teria icado orgulhosa.
Olhos a iados em um rosto pá lido por pó a avaliavam, como
Mỹ acabara de fazer com o balcã o do banheiro, e Mỹ apertou os pé s
desajeitadamente e sorriu melhor para a mulher.
Depois de ler seu crachá , a senhora disse: — Entã o, seu nome
é Trâ n Ngọ c Mỹ.
— Sim senhora.
— Você limpa os banheiros aqui? O que mais você faz?
O sorriso de Mỹ ameaçou desaparecer, e ela o manteve com esforço.
— Eu també m limpo os quartos dos hó spedes, o que é mais
banheiros, també m troco lençó is, arrumo as camas, aspiro o
quarto. Esse tipo de coisa.
Nã o era o que ela sonhava em fazer quando era mais jovem, mas
pagava, e ela se certi icava de fazer um bom trabalho.
— Ah, isso é ... Você tem sangue misturado. — Inclinando-se para
frente, a senhora apertou o queixo dela e o inclinou para cima.
— Seus olhos sã o verdes.
Mỹ prendeu a respiraçã o e tentou descobrir a opiniã o da senhora
sobre isso. As vezes era uma opiniã o boa. Na maioria das vezes nã o
era. Era muito melhor ser mestiça quando você tinha dinheiro.
A senhora franziu o cenho.
— Mas como? Nã o houve soldados americanos aqui desde a guerra.
Mỹ encolheu os ombros.
— Minha mã e diz que ele era um homem de negó cios. Eu nunca o
conheci.
No decorrer da histó ria, a mã e dela era sua governanta - e algo mais -
e o caso terminou quando o projeto de trabalho terminou e ele deixou o
paı́s. Só depois sua mã e descobriu que estava grá vida e já era tarde
demais. Ela nã o sabia como encontrá -lo. Ela nã o teve escolha a nã o ser
voltar para casa para morar com sua famı́lia. Mỹ sempre tinha pensado
que ela faria melhor do que sua mã e, mas ela tinha conseguido seguir
seus passos quase exatamente.
A senhora assentiu e apertou seu braço uma vez.
— Você acabou de se mudar para a cidade? Você nã o parece ser
daqui.
Mỹ desviou os olhos, e seu sorriso caiu. Ela cresceu com muito pouco
dinheiro, mas nã o foi até que ela chegou à cidade grande que ela
percebeu o quã o pobre ela realmente era.
— Nos mudamos há alguns meses porque consegui o emprego
aqui. E tã o fá cil perceber?
A senhora afagou a bochecha de Mỹ de um modo estranhamente
afetuoso.
— Você ainda é ingê nua como uma garota do interior. De onde você é ?
— Uma vila perto de Mỹ Tho, perto da á gua.
Um sorriso largo se estendeu sobre o rosto da mulher.
— Eu sabia que gostaria de você . Lugares fazem as pessoas. Eu cresci
lá . Meu restaurante se chama Mỹ Tho Noodles. E um restaurante muito
bom na Califó rnia. Eles falam sobre ele na TV e nas revistas. Eu acho
que você nã o teria ouvido falar por aqui, no entanto. — Ela suspirou
para si mesma antes que seus olhos se a iassem e ela perguntou: —
Quantos anos você tem?
— Vinte e Trê s.
— Você parece mais jovem que isso, — disse Cô Nga, rindo. — Mas
essa é uma boa idade.
Uma boa idade para quê? Mas Mỹ nã o perguntou. Gorjeta ou nã o, ela
estava pronta para que essa conversa terminasse. Talvez uma garota da
cidade já tivesse saı́do. Os banheiros nã o se esfregavam sozinhos.
— Você já pensou em ir para a Amé rica? — Perguntou Cô Nga.
Mỹ balançou a cabeça, mas isso era uma mentira. Quando criança, ela
fantasiava viver em um lugar onde ela nã o se destacava e talvez
conhecer seu pai de olhos verdes. Mas havia mais do que um oceano
separando Viet Nam da Amé rica e, quanto mais velha ela icava, maior a
distâ ncia.
—Você é casada? — Perguntou a senhora. — Você tem um namorado?
— Nã o, sem marido, sem namorado. — Ela alisou as mã os sobre as
coxas e agarrou os joelhos. O que essa mulher queria? Ela ouvira
histó rias de horror sobre estranhos. Esta mulher de aparê ncia doce
estava tentando enganá -la e vendê -la para prostituiçã o no Camboja?
— Nã o pareça tã o preocupada. Eu tenho boas intençõ es. Aqui, deixe-
me mostrar uma coisa. — A senhora vasculhou sua bolsa enorme da
Louis Vuitton até encontrar um arquivo de papel pardo. Entã o ela tirou
uma fotogra ia e entregou para Mỹ. — Este é o meu Diê p Khai, meu ilho
mais novo. Ele é bonito, nã o é ?
Mỹ nã o queria olhar, ela realmente nã o se importava com este homem
desconhecido que vivia no paraı́so da Califó rnia, mas ela decidiu
agradar a mulher. Ela olharia a foto e faria todos os ruı́dos
apropriados. Ela diria a Cô Nga que seu ilho parecia uma estrela de
cinema e entã o encontraria uma desculpa para sair.
Quando ela olhou para a fotogra ia, no entanto, seu corpo icou
imó vel, como o cé u antes de uma tempestade.
Ele realmente parecia como uma estrela de cinema, um homem
bonito, com o cabelo jogado pelo vento, sexy e forte, caracterı́sticas
limpas. O mais cativante de tudo, no entanto, foi a intensidade
silenciosa que emanava dele. Uma sombra de sorriso tocou seus lá bios
enquanto ele se concentrava em algo ao lado, e ela se viu inclinada na
direçã o da foto. Se ele fosse um ator, todos os perigosos papé is de heró i
seriam dele, como um guarda-costas ou um mestre de kung fu. Ele fazia
você se perguntar: o que ele estava pensando tã o intensamente? Qual
era a histó ria dele? Por que ele nã o sorria de verdade?
— Ah, entã o Mỹ aprova. Eu disse que ele era bonito, — disse Cô Nga
com um sorriso conhecedor.
Mỹ piscou como se estivesse saindo de um transe e entregou a
imagem de volta para a senhora.
— Sim, ele é . — Ele daria a uma garota de sorte ainda mais sorte um
dia, e eles viveriam uma vida longa e de sorte juntos. Ela esperava que
eles experimentassem intoxicaçã o alimentar pelo menos uma vez. Nada
com risco de vida, é claro. Apenas inconveniente - torne
isso muito inconveniente. E levemente doloroso. Vergonhoso també m.
— Ele també m é inteligente e talentoso. Ele foi para a faculdade.
Mỹ trabalhou um sorriso.
— Isso é impressionante. Eu icaria muito orgulhosa se tivesse um
ilho como ele.
A mã e dela, por outro lado, tinha uma limpadora de banheiro como
ilha. Ela empurrou a amargura para longe e lembrou-se de manter a
cabeça baixa e cuidar do pró prio negó cio. A inveja nã o lhe daria nada
alé m de misé ria. Mas ela desejava incidê ncias extras de intoxicaçã o
alimentar, de qualquer maneira. Tinha que haver alguma justiça no
mundo.
— Estou muito orgulhosa dele. — Disse Cô Nga. — Ele é o motivo de
eu estar aqui, na verdade. Para encontrar uma esposa para ele.
— Ah. — Mỹ franziu a testa. — Eu nã o sabia que os americanos
faziam isso. — Parecia terrivelmente antiquado para ela.
— Eles nã o fazem isso, e Khả i icaria bravo se soubesse. Mas tenho
que fazer alguma coisa. O irmã o mais velho dele é muito bom com as
mulheres - nã o preciso me preocupar com ele -, mas Khai tem 26 anos e
ainda nã o teve uma namorada. Quando marco encontros para ele, ele
nã o vai. Quando as meninas ligam para ele, ele desliga. No pró ximo
verã o, terã o trê s casamentos em nossa famı́lia, três, mas algum é
dele? Nã o. Como ele nã o sabe encontrar uma esposa para si mesmo,
decidi fazer isso por ele. Eu tenho entrevistado candidatas o dia
todo. Nenhuma delas se encaixa nas minhas expectativas.
O queixo dela caiu.
— Todas aquelas meninas chorando...
Cô Nga acenou com o comentá rio.
— Elas estã o chorando porque tê m vergonha de si mesmas. Elas vã o
se recuperar. Eu tinha que saber se estavam falando sé rio sobre se casar
com meu ilho. Nenhuma delas estava.
— Elas pareciam muito sé rias.
Elas nã o estavam ingindo chorar no banheiro - isso era certo.
— E você ? — Cô Nga ixou aquele olhar avaliador nela novamente.
— O que tem eu?
— Você está interessada em se casar com meu Khai?
Mỹ olhou para trá s de si antes de apontar para seu pró prio peito.
— Eu?
Cô Nga assentiu.
— Sim, você . Você chamou minha atençã o.
Os olhos dela se arregalaram. Como?
Como se pudesse ler mentes, Cô Nga disse: — Você é boa, é uma
menina trabalhadora e bonita de uma maneira incomum. Acho que
posso con iar em você com meu Khả i.
Tudo o que Mỹ podia fazer era encarar. Será que as fumaças dos
produtos quı́micos de limpeza inalmente dani icaram seu cé rebro?
— Você quer que eu me case com seu ilho? Mas nunca nos
conhecemos. Você pode gostar de mim… — Ela balançou a cabeça,
ainda incapaz de entender isso. Ela limpava banheiros para ganhar a
vida. — Mas seu ilho provavelmente nã o vai. Ele parece exigente, e eu
nã o sou...
— Oh, nã o, nã o, — interrompeu Cô Nga. — Ele nã o é exigente. Ele
é tímido. E teimoso. Ele acha que nã o quer uma famı́lia. Ele precisa de
uma garota que é mais teimosa. Você teria que fazê -lo mudar de idé ia.
— Como eu...
— Õi, sabe. Você se veste bem, cuida dele, cozinha o que ele gosta, faz
o que ele gosta...
Mỹ nã o podia deixar de fazer careta, e Cô Nga surpreendeu rindo.
— Esse é o motivo que eu gosto de você . Você nã o pode deixar de ser
você mesma. O que você acha? Eu poderia lhe dar um verã o na Amé rica
para ver se você s dois se encaixam. Se nã o, nã o há problema, você volta
para casa. No mı́nimo, você irá a todos os casamentos em famı́lia e se
divertirá e comerá um pouco. O que acha?
— Eu-eu-eu…
Ela nã o sabia o que dizer. Era demais para absorver.
— Só mais uma coisa.
O olhar de Cô Nga se suavizou, e houve uma pausa pesada antes que
ela dissesse: — Ele nã o quer ilhos. Mas estou determinada a ter
netos. Se você conseguir engravidar, sei que ele fará a coisa certa e se
casará com você , independentemente de como você s se sentem um pelo
outro. Eu até te darei dinheiro. Vinte mil dó lares americanos. Você vai
fazer isso por mim?
A respiraçã o escapou dos pulmõ es de Mỹ e sua pele icou fria. Cô Nga
queria que ela forçasse um bebê do ilho e o forçasse a se
casar. Decepçã o e futilidade a esmagaram. Por um momento, ela pensou
que essa senhora via algo especial nela, mas Cô Nga a julgará com base
em coisas que nã o podia controlar, assim como as meninas nos vestidos
minú sculos.
— As outras garotas disseram nã o, nã o disseram? Você pensou que eu
diria que sim porque... — Ela indicou o uniforme com a palma da mã o
aberta.
Cô Nga nã o disse nada, seu olhar irme.
Mỹ afastou-se do sofá , passou a recolher o balde de material de
limpeza, abriu a porta, e parou. Com os olhos voltados para a frente, ela
disse: — Minha resposta é nã o.
Ela nã o tinha dinheiro, conexõ es ou habilidades, mas ainda podia ser
tã o cabeça dura e tola quanto quisesse. Ela esperava que sua recusa
doesse. Sem olhar para trá s, ela saiu.

•••

Aquela noite, apó s a longa caminhada de uma hora para casa - que ela
fazia duas vezes por dia, todos os dias - Mỹ entrou na ponta dos pé s em
sua casa de um quarto e caiu para a seçã o de tapete de chã o onde ela
dormia à noite. Ela precisava se arrumar para dormir, mas primeiro, ela
nã o fez nada por alguns momentos. Nada. Nada era um luxo.
Seu bolso zumbiu, arruinando o seu nada. Com um suspiro frustrado,
ela pegou o telefone do bolso.
Nú mero de telefone desconhecido.
Ela pensou em nã o atender, mas algo a fez apertar o botã o de atender
e pressionar o telefone no ouvido. — Alô ?
— Mỹ, é você ?
Mỹ icou intrigada com a voz. Era um pouco familiar, mas ela nã o
conseguia identi icar. — Sim. Quem é ?
— Sou eu, Cô Nga. Nã o, nã o desligue, — a senhora acrescentou
rapidamente. — Eu peguei seu nú mero do supervisor do hotel. Eu
queria falar com você .
Os dedos dela apertaram o telefone e ela se sentou. — Eu nã o tenho
mais nada a dizer.
— Você nã o vai mudar de idé ia?
Ela resistiu à vontade de jogar o telefone na parede. — Nã o.
— Que bom. — Disse Nga.
Franzindo a testa, Mỹ baixou o telefone e olhou para ele. O que ela
quis dizer com que bom?
Ela colocou o telefone no ouvido a tempo de ouvir Cô Nga dizer: —
Foi um teste. Nã o quero que você engane meu ilho para ter um bebê ,
mas precisava saber que tipo de pessoa você é .
— Entã o, isso signi ica…?
— Isso signi ica que você é quem eu quero, Mỹ. Venha para a Amé rica
para ver meu ilho. Vou lhe dar o verã o inteiro para ganhá -lo e ir ao
casamento de seus primos. Você vai precisar de tempo. Vai ser um
pouco trabalhoso desvendá -lo, mas valerá a pena. Ele é bom. Se algué m
pode fazer isso, eu acho que é você . Se você quiser. Você quer?
A cabeça dela começou a girar. — Eu nã o sei, preciso pensar.
— Entã o pense e me ligue de volta. Mas nã o demore muito. Preciso
arranjar seu visto e passagem de aviã o. — Disse Cô Nga. — Estarei
esperando notı́cias suas. — Com isso, a ligaçã o foi desconectada.
Uma lâ mpada do outro lado da sala acendeu, iluminando o espaço
apertado e cheio de luz suave e dourada. Roupas e apetrechos de
cozinha pendiam das paredes, cobrindo cada centı́metro quadrado de
tijolos desintegrados que nã o foram preenchidos pelo velho fogã o
elé trico, geladeira minú scula e TV em miniatura onde elas costumavam
assistir sagas de kung fu e ilmes americanos piratas. O espaço central
era ocupado pelos corpos adormecidos de sua ilha Ngọ c Anh e sua
avó . A mã e dela estava entre a avó e o fogã o, a mã o no interruptor da
lâ mpada. Um ventilador soprava ar ú mido para elas na velocidade mais
rá pida.
— Quem era? — Sua mã e sussurrou.
— Uma Việ t kieu, — Mỹ disse, mal acreditando em suas pró prias
palavras. — Ela quer que eu vá para a Amé rica e case com o ilho dela.
Sua mã e se apoiou em um cotovelo e seu cabelo caiu em uma cortina
de seda por cima do ombro. A hora de dormir era a ú nica vez que ela
soltava os cabelos, e isso a fazia parecer dez anos mais jovem. — Ele é
mais velho que seu avô ? Ele parece um gambá ? O que há de errado com
ele?
Naquele momento, seu telefone tocou com uma mensagem de Cô Nga.

Para ajudá-la a pensar.

Outra vibraçã o e a fotogra ia de Khai cobriu a tela - a mesma de


antes. Ela entregou o telefone para a mã e sem palavras.
— Este é ele? — Sua mã e perguntou com os olhos arregalados.
— Seu nome é Diệ p Khả i.
Sua mã e icou olhando a foto por mais tempo, quieta, exceto pelo
suspiro suave de sua respiraçã o. Finalmente, ela devolveu o telefone. —
Você nã o tem escolha. Você tem que fazer isso.
— Mas ele nã o quer se casar. Eu devo persegui-lo e fazer ele mudar de
ideia. Nã o sei como...
— Apenas faça. Faça o que for necessá rio. E a América, Mỹ. Você tem
que fazer isso por ela. — Sua mã e esticou o braço pelo ino corpo
adormecido da vovó e puxou o cobertor ino de Ngọ c Anh até a
garganta. — Se eu tivesse a oportunidade, teria feito o mesmo por
você . Para o futuro dela. Ela nã o se encaixa aqui. E ela precisa de um
pai.
Mỹ cerrou os dentes, enquanto memó rias de infâ ncia tentavam
derramar do canto de sua mente onde ela as prendeu. Ela ainda podia
ouvir as crianças cantando a garota mista com doze bundas para ela
enquanto voltava da escola para casa. Sua infâ ncia foi difı́cil, mas a
preparou para a vida. Ela estava mais forte agora, mais resistente. — Eu
nã o tive pai.
Os olhos de sua mã e endureceram. — E veja onde isso te levou.
Mỹ olhou para sua menina. — Isso també m me deu ela. — Ela se
arrependeu de se envolver com o pai sem coraçã o da ilha, mas nunca
se arrependeu do bebê . Nem mesmo por um segundo.
Ela afastou os cabelos ú midos da testa de sua menina, e um enorme
amor se expandiu em seu coraçã o. Olhar para o rosto da ilha era como
olhar em um espelho que re letia uma é poca de vinte anos atrá s. Sua
menina parecia exatamente como Mỹ quando pequena. Elas tinham as
mesmas sobrancelhas, maçã s do rosto, nariz e tom de pele. Até o
formato de seus lá bios era o mesmo. Mas Ngọ c Anh era muito, muito
mais doce do que Mỹ já foi. Ela faria qualquer coisa por esta pequena.
Exceto desistir dela.
Depois que o pai de Ngọ c Anh se casou, sua esposa descobriu que ela
nã o podia ter ilhos, e eles se ofereceram para criar Ngọ c Anh como se
fosse deles. Novamente, Mỹ havia recusado uma oferta que todos
esperavam que ela aceitasse. Eles a chamavam de egoı́sta. Aquela
famı́lia poderia dar a Ngọ c Anh todas as coisas que ela precisava.
Mas e o amor? O amor importava, e ningué m podia amar seu bebê
como Mỹ. Ningué m. Ela sentia isso em seu coraçã o.
Mesmo assim, de tempos em tempos, ela se preocupava que tivesse
feito a escolha errada.
— Se você nã o gostar dele, — disse a mã e — você pode se divorciar
dele depois de receber seu green card e se casar com outra pessoa.
— Eu nã o posso casar com ele apenas por um green card.
Ele era uma pessoa, nã o uma pilha de papel, e se ele decidisse se
casar com ela, seria porque ela conseguiu seduzi-lo, porque ele se
importava com ela. Ela nã o podia usar algué m dessa maneira. Isso a
tornaria tã o ruim quanto o pai de Ngọ c Anh.
Sua mã e balançou a cabeça como se ela pudesse ouvir seus
pensamentos. — O que acontece se você for e nã o puder fazê -lo mudar
de ideia?
— Volto no inal do verã o.
Um som de nojo veio do fundo da garganta de sua mã e. — Nã o
acredito que você precisa pensar sobre isso. Você nã o tem nada a
perder.
Enquanto Mỹ olhava para a tela preta de seu telefone, um
pensamento lhe ocorreu. — Cô Nga disse que ele nã o quer uma
famı́lia. Eu tenho Ngọ c Anh.
A mã e dela revirou os olhos. — Que jovem quer uma famı́lia? Se ele te
amar, ele vai amar Ngọ c Anh.
— Nã o funciona assim, e você sabe disso. Se um homem sabe que
você tem um bebê , na maioria das vezes ele nã o ica interessado. — E se
ele icasse interessado, tudo que ele ia querer era sexo.
— Entã o nã o conte a ele imediatamente. Dê a ele tempo para se
apaixonar por você e conte mais tarde. — Disse a mã e.
Mỹ sacudiu a cabeça. — Isso parece errado.
— Se ele disser que te ama, mas desistir do casamento porque você
tem uma ilha, você nã o o quer mesmo. Mas essa mulher conhece o ilho
e ela escolheu você . Você tem que tentar. No mı́nimo, você tem um verã o
inteiro na Amé rica. Você sabe como você tem sorte? Você nã o quer ver a
Amé rica? Que lugar que é na Amé rica?
— Ela disse que na Califó rnia, mas acho que nã o aguento icar longe
por tanto tempo. — Mỹ passou os dedos pela bochecha macia da
ilha. Ela nunca esteve fora de casa por mais de um dia. E se Ngọ c Anh
pensasse que a tinha abandonado?
A testa de sua mã e enrugou com o pensamento, e ela se levantou para
vasculhar uma pilha de caixas mantidas no canto. Eles eram coisas
pessoais de sua mã e, e ningué m tinha permissã o para abri-
las. Crescendo, Mỹ costumava bisbilhotá -las quando ningué m estava
olhando, especialmente o fundo. Quando sua mã e abriu uma caixa
especi icamente e vasculhou seu conteú do, o coraçã o de Mỹ começou a
correr.
— E de lá que seu pai é . Aqui, olhe. — Sua mã e entregou a ela uma
foto amarelada de um homem com o braço jogado em volta dos seus
ombros. Mỹ tinha passado horas incontá veis olhando para esta foto, a
segurando perto, olhando para ele de cabeça para baixo, apertando os
olhos, qualquer coisa para con irmar que os olhos do homem eram
verdes e que ele era, na verdade, seu pai, mas nada funcionou. A foto
havia sido tirada de muito longe. Seus olhos podem ter qualquer
cor. Eles pareciam marrons, se ela estava sendo honesta consigo
mesma.
As letras em sua camisa, no entanto, eram fá ceis de ler. Dizia
claramente Cal Berkeley.
— E isso o que 'Cal' signi ica? — Ela perguntou. — Califó rnia?
A mã e dela assentiu. — Eu procurei sobre isso. E uma universidade
famosa. Talvez quando você estiver lá , você possa ir lá . Talvez... você
possa até tentar encontrá -lo.
Seu coraçã o saltou tã o forte que seus dedos formigaram. — Você
inalmente vai me dizer o nome dele? — Ela perguntou, sua voz
sussurrando ina. Tudo o que ela sabia era "Phil". Esse era o nome que
sua avó sussurrou com ó dio quando ela e Mỹ estavam
sozinhas. Aquele Phil. Senhor Phil. Phil da sua mãe.
Um sorriso amargo tocou os lá bios de sua mã e. — Ele disse que seu
nome completo era feio. Todo mundo que se referia a ele o chamava de
Phil. Eu acho que seu sobrenome começava com um L.
As esperanças de Mỹ quebraram antes de completamente
formadas. — E impossı́vel, entã o.
A expressã o de sua mã e icou determinada. — Você nã o sabe até
tentar. Talvez se eles usarem aqueles computadores caros, eles podem
fazer uma lista para você . Se você trabalhar duro, há uma chance.
Mỹ olhou para a imagem de seu pai, sentindo o anseio em seu peito
crescer mais a cada segundo. Ele morou na Califó rnia? Como ele
reagiria se abrisse a porta... e a visse? Ele a acusaria de vir pedir
dinheiro?
Ou ele icaria feliz em encontrar uma ilha que nunca soube que
tinha?
Ela abriu a foto de Khai no telefone e segurou as duas fotos lado a
lado no colo. O que Cô Nga viu nela que a fez achar que Mỹ era uma boa
combinaçã o para o ilho? O ilho dela també m veria? E ele aceitaria a
ilha dela? Seu pró prio pai aceitaria sua ilha?
De qualquer maneira, sua mã e estava certa. Ela nã o saberia até que
tentasse. Em ambas as questõ es.
Mỹ digitou uma mensagem de texto para Cô Nga e clicou em enviar.

Sim, eu quero tentar.

— Eu vou fazer isso, — ela disse à mã e. Ela tentou parecer con iante,
mas estava tremendo por dentro. Com o que ela tinha acabado de
concordar?
— Eu sabia que você faria e estou feliz. Nó s cuidaremos bem
de Ngọ c Anh enquanto você estiver fora. Agora vá dormir. Você ainda
tem que trabalhar amanhã . — A luz se apagou. Mas depois que a sala
icou escura, a mã e disse: — Você deveria saber que, com apenas um
verã o, nã o terá tempo para fazer as coisas da maneira tradicional. Você
tem que jogar para ganhar, mesmo que nã o tenha certeza de que o
quer. Desde que ele nã o seja mau, o amor pode crescer. E lembre-se,
boas meninas nã o conseguem o homem. Você precisa ser má , Mỹ.
Mỹ engoliu. Ela tinha uma boa ideia do que "má " signi icava e icou
surpresa que sua mã e se atrevesse a sugerir isso com a avó na sala.
CAPÍTULO DOIS

Dias Atuais

Quando os tê nis de corrida de Khai atingiram o concreto rachado da


entrada da garagem que levava à sua casa em Sunnyvale, que precisava
de uma reforma - e ele nunca chegou a reformar - o cronô metro do
reló gio apitou. Exatamente quinze minutos.
Isso!
Nã o havia nada tã o satisfató rio quanto incrementos perfeitos de
tempo. Exceto por atingir valores inteiros em dó lares ao abastecer no
posto de gasolina. Ou quando a conta do restaurante era um nú mero
primo ou um segmento da sequê ncia de Fibonacci ou apenas nú meros
oito. Oito era um nú mero tã o elegante. Se ele adicionasse um minuto à
sua corrida, ele poderia de inir um ponto exatamente no meio. Isso nã o
seria divertido?
Ele estava refazendo mentalmente seu trajeto diá rio quando notou a
Ducati preta estacionada ao lado de seu Porsche cheio de cocô de
pá ssaros no meio- io. Quan estava aqui, e ele veio dirigindo isso, mesmo
que a mã e deles odiasse e Khai lhe informasse de todas as estatı́sticas
de morte e danos cerebrais vá rias vezes. Dando um amplo espaço entre
ele e a motocicleta, ele correu para a porta da frente, evitou o mato
espinhoso que crescia na sombra sob o toldo e entrou.
Lá dentro, ele tirou os sapatos e, imediatamente, as meias. Afundar os
pé s descalços no carpete felpudo de sua casa dos anos 70 era divino.
Inicialmente, ele odiava - a cor verde-ervilha era ofensiva -, mas andar
nele parecia muito com um passeio no estilo das nuvens de Mary
Poppins. O cheiro era estranho, mas com o tempo melhorou. Ou isso, ou
ele assimilou os aromas de naftalina e velhinhas em sua identidade. Ele
ia icar com o carpete até a casa ser o icialmente condenada pelo
condado da cidade de Santa Clara.
Ali estava Quan, sentado no sofá de Khai com os pé s na mesa de café
de Khai, assistindo a algum programa inanceiro na CNBC enquanto
bebia a ú nica lata gelada de Coca Cola de Khai - ele podia ver a
condensaçã o pingando nas letras cursivas, como em um comercial. O
resto do refrigerante estava em temperatura ambiente, porque você só
podia colocar uma lata na geladeira de cada vez. O imó vel valioso estava
tomado pelos recipientes da Tupperware cheios da comida da mã e dele.
Ela acredita que ele morreria de fome se ela nã o o alimentasse
pessoalmente e, na sua maneira, ela nunca fez nada pela metade.
— E aı́, você chegou. Como estã o as coisas? — Quan pergunta
enquanto toma um longo gole de Coca-Cola e depois assobia quando a
bebida passa queimando por sua garganta.
— Tudo bem. — Khai estreita os olhos para o irmã o. O assobio e a
ardê ncia da Coca Cola gelada eram uma das coisas favoritas de Khai, e
agora ele teria que esperar quatro horas até que uma nova lata
estivesse pronta. — Por que você está aqui?
— Nã o sei. Mamã e me disse para vir. Aparentemente, ela está a
caminho. — Ah, merda, ele podia ver discursos sem sentido em seu
futuro pró ximo. O que seria desta vez? Dirigir até o supermercado de
San Jose para comprar laranjas com desconto? Ou importar
quantidades comerciais de extrato de algas marinhas do Japã o para
curar o câ ncer de sua tia? Nã o, tinha que ser algo pior, porque ela
precisava de ambos os ilhos envolvidos. Ele nã o conseguia imaginar o
que poderia ser.
— Eu preciso tomar um banho. — Suas roupas estavam molhadas e
pegajosas, e ele queria tirá -las.
— E melhor ser rá pido, acabei de ouvir algué m entrar na garagem. —
Quan deu uma boa olhada em Khai e suas sobrancelhas se arquearam.
— Você acabou de correr do trabalho para casa de terno?
— Sim, eu faço isso todos os dias. Esse tipo de terno é projetado para
o movimento. — Ele apontou para os punhos elá sticos nos tornozelos.
— E o tecido respira muito bem. També m é lavá vel na má quina.
Quan sorriu e tomou outro gole de sua Coca Cola roubada.
— Entã o meu irmã o está correndo pelas ruas do Vale do Silı́cio como
um Exterminador do Futuro asiá tico do mal. Eu gosto disso.
A ideia estranha fez Khai hesitar e, quando ele abriu a boca para
responder, uma voz familiar do lado de fora da casa anunciou em
vietnamita:
— Aqui, aqui, aqui, aqui, eu trouxe muita comida. Me ajudem a
carregar. — Sua mã e nunca falava inglê s, a menos que fosse necessá rio.
Basicamente, ela falava em inglê s com o inspetor de saú de de seu
restaurante.
— O quê ? — Khai perguntou em inglê s. Sinceramente, ele nã o sabia
falar vietnamita, embora entendesse bem o su iciente.
— Ainda estou com muita comida. Vou começar a alimentar os sem-
teto se você … — Sua mã e apareceu na porta com um sorriso orgulhoso
e trê s caixas de mangas — Oi, con.
Como ele nã o queria que ela quebrasse a coluna, en iou suas meias no
bolso e pegou as caixas da mã o dela. — Eu nã o como frutas, lembra?
Elas vã o estragar.
Ele estava quase voltando para o lado de fora com elas quando ela
disse: — Nã o, nã o, elas nã o sã o para você . Elas sã o para Mỹ, para que
ela nã o sinta muita falta de casa.
Ele fez uma pausa. Quem diabos era Mỹ ?
Quan se levantou. — O que está acontecendo?
— Me ajude a pegar mais frutas primeiro. — Para Khai, ela disse: —
Coloque essas na cozinha.
Khai levou as caixas para a cozinha em um estado de total
confusã o. Por que deixar essas frutas na sua casa se elas eram para
evitar que Mỹ, quem quer que ela fosse, sentisse saudades de casa? Ele
colocou as caixas em sua bancada de fó rmica e notou que eram trê s
variedades diferentes de manga. Havia grandes vermelho-esverdeadas,
amareladas mé dias e umas verdes pequenas na caixa com a inscriçã o
tailandesa. Sua mã e tinha comprado para ele algum tipo de macaco da
selva que comia frutas? Por que ela faria isso? Ela nem gostava de cã es e
gatos.
Por que Quan estava demorando tanto tempo para trazer as caixas
para dentro? Khai foi investigar e encontrou seu irmã o e sua mã e tendo
uma discussã o intensa perto do Camry velho dela. Khai e seus irmã os
haviam se juntado para comprar um SUV Lexus para o Dia das Mã es no
ano passado, mas ela insistia em dirigir esse Toyota de duas dé cadas, a
menos que fosse uma ocasiã o especial. Ele notou que nã o havia
ningué m sentado dentro do carro. Nenhuma Mỹ.
— Mã e, isso é errado. Sã o os Estados Unidos. As pessoas
nã o fazem isso — disse Quan, parecendo mais exasperado do que o
habitual com a mã e.
— Eu tive que fazer alguma coisa e você precisa me apoiar. Ele ouve
você .
Quan olhou para o cé u. — Ele me escuta porque sou sensato. Isto nã o
é .
— Você é que nem aquele seu pai fedido. Você s dois me decepcionam
quando eu preciso de você s — disse a mã e. — Eu sempre posso contar
com seu irmã o.
Quan soltou um suspiro e esfregou as mã os sobre o rosto e
movimentou a cabeça antes de pegar mais trê s caixas de frutas do
porta-malas. Quando ele viu Khai, ele parou no meio do caminho. —
Prepare-se. — Entã o ele carregou as caixas para dentro.
Bem, isso foi ameaçador. Na cabeça de Khai, o hipoté tico macaco da
selva se transformou em um gorila gigante. Essas frutas provavelmente
alimentariam essa criatura por um dia. Pelo lado positivo, ele nã o
precisaria pagar para que sua casa fosse demolida, e talvez até pudesse
registrar uma reclamaçã o na seguradora. Razão do dano: gorila em fúria
por mangas.
— Pegue a jaca e entre. Eu preciso falar com você — disse a mã e dele.
Ele ergueu a jaca espinhenta — puta merda, pesava uns 30 quilos — e
a seguiu até a cozinha, onde Quan colocou as caixas novas ao lado das
mangas e sentou-se à mesa da cozinha com sua Coca Cola. Preocupado
com a capacidade de seu balcã o, Khai cuidadosamente colocou a jaca ao
lado das outras frutas. Quando o balcã o nã o desmoronou
imediatamente, ele suspirou aliviado.
Sua mã e olhou para sua cozinha dos anos setenta com uma
careta. Aquele olhar no rosto dela era de initivamente de
insatisfaçã o. Se ele alinhasse seu antigo cartã ozinho de expressõ es
faciais com o rosto dela agora, eles combinariam perfeitamente.
— Você precisa comprar uma casa nova — disse ela — Esta é velha
demais. E você precisa mover todas aquelas má quinas de exercı́cio para
fora da sala de estar. Só solteirõ es vivem assim.
Acontece que Khai era um solteirã o, entã o ele nã o via qual era o
problema. — Esse local é conveniente para os exercı́cios, e eu gosto de
me exercitar onde posso assistir TV.
Ela abanou a mã o com os comentá rios, murmurando: — Esse garoto...
Um longo silê ncio se seguiu, interrompido apenas pelo ocasional gole
de Coca Cola — A Coca Cola de Khai, droga. Quando sua paciê ncia
esgotou, ele olhou de seu irmã o para sua mã e e disse:
— Entã o... quem é Mỹ ? — Até onde ele sabia, Mỹ signi ica bonita, mas
també m é como se diz América, em Vietnamita. De qualquer maneira,
parecia um nome estranho para um gorila, mas o que ele sabia?
A mã e dele ergueu os ombros. — Ela é a garota que você precisa
buscar no aeroporto no sá bado à noite.
— Ah, tudo bem. — Isso nã o era horrı́vel. Ele nã o gostava da ideia de
buscar algué m que nã o conhecia e mudar toda a sua agenda, mas estava
feliz por nã o precisar de uma vacina contra a raiva ou uma autorizaçã o
da FDA. — Apenas me envie o horá rio do voo. Onde eu a deixo?
— Ela icará aqui com você — disse ela.
— O que? Por quê ? — O corpo inteiro de Khai icou rı́gido com a
ideia. Era uma invasã o, clara e simples.
— Nã o ique tã o chateado — disse ela num tom de persuasã o. — Ela é
jovem e muito bonita.
Ele olhou para Quan. — Por que ela nã o pode icar com você ? Você
gosta de mulheres.
Quan engasgou no meio do gole de Coca Cola e bateu no peito com um
punho enquanto tossia.
A mã e deles apontou seu olhar insatisfeito para Quan antes de se
concentrar em Khai e se endireitar a toda a sua altura de um metro e
oitenta.
— Ela nã o pode icar com Quan porque é sua futura esposa.
— O quê ? — Ele riu um pouco. Isso tinha que ser uma piada, mas ele
nã o entendeu o humor.
— Eu escolhi ela para você quando eu fui ao Vietnã . Você vai gostar
dela. Ela é perfeita para você — ela disse.
— Eu nã o... você nã o pode... eu… — Ele balançou a cabeça. — O que?
— Sim. — Disse Quan — Essa foi minha reaçã o també m. Ela te
encomendou uma noiva do Vietnã , Khai.
A mã e deles encarou Quan.
— Por que você faz isso parecer tã o ruim? Ela nã o é uma “noiva
encomendada”. Eu a conheci pessoalmente. Era assim que eles faziam
nos velhos tempos. Se eu seguisse a tradiçã o, já teria encontrado uma
esposa para você da mesma maneira, mas você nã o precisa da minha
ajuda. Seu irmã o precisa.
Khai nem tentou mais falar. Seu cé rebro estava em curto-circuito e se
recusava a funcionar.
— Eu comprei todos os tipos de frutas para ela. — Ela moveu as
caixas no balcã o. — Lichias, rambutans...
Enquanto ela continuava a listar frutas tropicais, sua mente
inalmente o alcançou. — Mã e, não. — As palavras saı́ram com força e
volume nã o intencionais, mas era justi icá vel. Ele ignorou o instinto que
lhe dizia que estava cometendo sacrilé gio dizendo nã o à sua mã e. — Eu
nã o vou me casar, e ela nã o vai icar aqui, e você nã o pode fazer coisas
assim. — Este é o sé culo XXI, pelo amor de Deus. As pessoas nã o saı́am
mais comprando esposas para seus ilhos.
Ela apertou os lá bios e apoiou as mã os nos quadris, parecendo um
instrutor de aeró bica dos anos oitenta, em seu traje de banho rosa
choque e cabelo curto com uma permanente. — Eu já reservei o salã o
de festa para o casamento. O depó sito foi de mil dó lares.
— Mãe.
— Escolhi o dia 8 de agosto. Eu sei o quanto você gosta do nú mero
oito.
Ele passou os dedos pelos cabelos e reprimiu um rosnado. — Eu
devolvo os mil dó lares. Por favor, me dê as informaçõ es de contato do
salã o de festas para que eu possa cancelar.
— Nã o seja assim, Khai. Mantenha a mente aberta. — Ela disse. — Eu
nã o quero que você ique sozinho.
Ele soltou um suspiro incré dulo. — Eu nã o estou solitá rio. Eu gosto
de icar sozinho.
Estar solitá rio era coisa de pessoas que tinham sentimentos, o que ele
nã o tinha.
Nã o era solidã o se pudesse ser erradicada com trabalho, uma
maratona da Net lix ou um bom livro. A verdadeira solidã o icaria com
você o tempo todo. A verdadeira solidã o o machucaria sem parar.
Khai nã o estava sentindo dor. Ele nã o sentia nada na maioria das
vezes.
Foi exatamente por isso que ele se afastou dos relacionamentos
româ nticos. Se algué m gostasse dele dessa maneira, ele acabaria
desapontando-os quando nã o pudesse retribuir. Nã o seria certo.
— Mã e, eu nã o vou fazer isso, e você nã o pode me forçar.
Ela cruzou os braços.
— Eu sei que nã o posso te forçar. Eu nã o quero te forçar. Se você
honestamente nã o gostar dela, nã o deve se casar com ela. Mas estou lhe
pedindo para lhe dar uma chance. Deixe-a icar aqui durante o verã o. Se
você ainda nã o gostar dela no inal, envie-a para casa. E fá cil assim. —
Ela voltou sua atençã o para Quan. — Converse com seu irmã o.
Quan levantou as mã os enquanto um sorriso constipado se estendia
por sua boca: — Eu nã o sei de nada.
A mã e olhou para ele.
— Isso é inú til — disse Khai. — Eu nã o vou mudar de idé ia. — E ele
realmente nã o queria uma mulher estranha morando em sua casa. Sua
casa era seu santuá rio, o ú nico lugar onde ele podia escapar das
pessoas e simplesmente existir.
Quando sua famı́lia nã o estava invadindo, pelo menos.
— Você nã o pode se decidir antes de conhecê -la. Isso nã o é
justo. Alé m disso, eu preciso dela no restaurante. A nova garçonete saiu
e eu preciso de pessoas para o turno diurno. Me ajude com isso. — Ela
disse.
Khai fez uma careta para sua mã e. Ele sentia profundamente que ela o
estava manipulando – ele nã o estava completamente alheio – mas ele
nã o sabia como escapar. Alé m disso, quando ela tinha pouca ajuda, ela
fazia Khai e seus irmã os tirarem uma folga do trabalho do dia e irem
ajudar. Se ele tivesse que escolher entre atender mesas enquanto lidava
simultaneamente com a mã e o dia todo e ter uma mulher estranha em
casa...
Como se sentisse fraqueza, ela mergulhou na matança. — Tolere só
algum incô modo, faça isso por mim. Isso me fará feliz.
Merda, merda, merda. Frustraçã o se enrolava como uma bola gigante
dentro dele, icando cada vez maior e quase explodindo. Nã o havia nada
que ele pudesse dizer sobre isso, e ela sabia.
Ela era a mã e dele.
Agarrando-se ao seu ú ltimo fragmento de controle, ele disse: —
Somente se você prometer que os relacionamentos arranjados
terminam depois disso. Você nã o vai mais tentar me arranjar com a
ilha do dr. Son, a ilha do dentista, os amigos de Vy ou qualquer outra
pessoa. Você nã o vai me emboscar com convidados-surpresa quando eu
for jantar.
— E claro — sua mã e disse enquanto assentia ansiosamente. — Eu
prometo. Somente neste verã o, apenas desta vez. Se você nã o gostar
dela, eu vou parar. Eu acho que nã o consigo encontrar uma garota
melhor do que Mỹ de qualquer maneira, e… — Ela hesitou no meio da
frase, e um olhar pensativo cruzou seu rosto. — Mas você tem que
realmente tentar. Se eu nã o ver que você está se esforçando para dar
certo, eu vou precisar fazer isso de novo. Você entende Khai?
Ele estreitou os olhos. — O que signi ica 'tentar'?
— Isso signi ica que você fará o que um verdadeiro noivo faz. Você vai
levá -la para sair, apresentá -la a seus amigos e familiares, fazer coisas
juntos, coisas assim. Você a levará a todos os casamentos deste verã o.
Isso soou horrendo.
Ele nã o pô de deixar de fazer uma careta, e Quan começou a rir.
— Sabe, mã e, talvez isso tenha sido uma boa idé ia, a inal. — Disse
Quan.
— Está vendo? Você s acham que eu sou louca, mas a mamã e sabe o
que é melhor.
Isso era questioná vel, mas Khai nã o teve escolha a nã o ser dizer: —
Tudo bem. Farei todas essas coisas neste verã o se você prometer parar
com suas tentativas depois disso.
— Prometo, prometo, prometo. Estou tã o feliz que você está sendo
sensato com isso. Você vai gostar dela. Você vai ver. — ela disse,
sorrindo de orelha a orelha como se tivesse ganhado na loteria.
Khai tinha cem por cento de certeza de que ela seria a ú nica a ver
alguma coisa, mas ele manteve o pensamento para si. — Estou indo
tomar banho. — Ele se virou e marchou em direçã o ao seu quarto.
Era a cara da mã e dele criar um esquema como esse. A coisa toda era
ridı́cula. Ele nã o ia mudar de idé ia. Mỹ poderia ser a mulher mais
perfeita do mundo, e isso nã o mudaria nada. Gostar dela seria
inconsequente. Na verdade, se ele gostasse dela, esse era mais um
motivo para nã o se casar com ela.
CAPÍTULO TRÊS

Mỹ agarrou os braços do assento quando o aviã o aterrissou com um


puxã o no estô mago. Estranhos sons mecâ nicos alcançaram seus
ouvidos e as luzes voltaram a acender. Ela nã o queria voar nunca
mais. Uma vez em sua vida foi su iciente. Os alto-falantes soaram.
— Bem-vindos a San Francisco, Califó rnia. A hora local é
4:20. Obrigado por voar na Air China...
Agradecendo aos cé us e a Buda pelas aulas de inglê s no ensino mé dio,
todos os ilmes americanos piratas que ela assistiu e as liçõ es de inglê s
em á udio que estivera ouvindo sem parar enquanto limpava nos
ú ltimos dois meses. Ela entendeu a maior parte.
Califórnia. Ela inalmente conseguiu.
Isso signi icava que ela o encontraria em breve.
Ná useas a atingiram com tanta força que a pele de seu rosto formigou
e sua visã o icou embaçada. Não vomite. Não vomite. Não vomite. Nã o
era assim que ela queria passar seus primeiros momentos nos Estados
Unidos da Amé rica.
E se eles a arrastassem para algum lugar por perturbar a paz com seu
vô mito? Ou - ela olhou para a bela velhinha com um sué ter tricotado ao
lado dela – por atingir as pessoas ao seu redor? Ela poderia ir para a
cadeia por isso? Ela poderia ser deportada por isso? Talvez eles a
mandassem de volta sem deixá -la sair do aviã o.
Todos começaram a alinhar no corredor, e Mỹ saltou para pegar a
bagagem de mã o do compartimento acima de sua cabeça. Um homem
alto, com uma jaqueta de couro marrom, a empurrou suavemente para
o lado e alcançou sua mala. — Aqui, deixe-me pegar para você .
Ela abriu a boca para falar, mas nada saiu. O constrangimento trancou
as palavras em inglê s na garganta. Ela aprendeu as palavras na escola
há muito tempo e sabia ler e escrever um pouco - o su iciente para
preencher o formulá rio de desembarque e a declaraçã o alfandegá ria,
pelo menos com a ajuda da comissá ria de bordo - mas, na verdade,
conversar sempre foi um desa io. Ela enrolou os dedos em punhos
ine icazes. Como ela poderia fazê -lo parar? Tudo o que ela tinha em sua
bolsa era đØng vietnamita, e esse valor era de basicamente nada
aqui. Nã o era o su iciente para dar uma gorjeta a ele.
Ele colocou a pequena mala azul marinho no corredor e sorriu, e ela a
puxou para perto de si mesma antes que ele pudesse levá -la como
refé m. Seu sorriso diminuiu e ele se virou para a frente do
aviã o. Quando eles entraram no desembarque, ela continuou esperando
que ele a — ajudasse — mais e pedisse pagamento, mas ele nunca o fez.
Quando chegaram ao terminal, ele desapareceu na multidã o, e o
pâ nico tomou conta dela. Ele sabia o que estava fazendo. Ele poderia ter
dito a ela para onde ir, mas agora ela estava sozinha. E se ela fosse ao
lugar errado e izesse a coisa errada? Ela acabaria conseguindo uma
pesquisa de corpo inteiro e um teste de detector de mentiras.
Enquanto seguia cegamente a multidã o, ela tentou ler os sinais no
alto, mas sua mente embaralhada pelo medo nã o conseguia entender as
palavras em inglê s.
— Passaporte, por favor.
De alguma forma, ela se viu na frente de uma ila. Com o coraçã o
batendo forte, ela pegou o livrinho verde da bolsa e entregou-o
juntamente com todos os formulá rios de voo que a aeromoça havia
fornecido. Era isso. Essa era a parte que ela temia. A parte
dos documentos. E agora que tudo poderia dar errado.
O funcioná rio do aeroporto examinou os formulá rios, folheou o
passaporte e carimbou uma das pá ginas antes de devolver tudo a ela. —
Bem-vinda aos Estados Unidos, Esmeralda Tran. Aproveite sua estadia.
Ela o encarou sem entender. Ah, certo, ela era Esmeralda
Tran. Levaria tempo para se acostumar com seu novo nome - que
Ngọ c Anh havia lhe dado porque Esmeralda, de O Corcunda de Notre
Dame, da Disney, compartilhava sua coloraçã o. Ngọ c Anh també m
escolheu aquele momento para anunciar que també m queria um novo
nome. Depois de um pouco de pesquisa, elas se estabeleceram com
Jade.
A funcioná ria do aeroporto fez sinal para ela seguir em frente. — Por
favor, prossiga para a inspeçã o da bagagem. Pró ximo da ila.
Foi isso? Levava mais tempo para esfregar um vaso
sanitá rio. Abraçando o passaporte no peito com uma mã o, ela rolou a
mala na direçã o da linha de inspeçã o. Ela colocou tudo o que possuı́a na
correia transportadora e percorreu atravé s de todos os dispositivos
escaneadores que pareciam algo vindo de uma nave espacial.
Quando saiu do outro lado, ela pegou sua mala e icou parada por um
momento, observando o caos do terminal do aeroporto. Lı́nguas
estrangeiras por toda parte. Os cheiros de perfume, comida e
corpos. Lojas caras. Cores, roupas, mã os segurando malas, mã os
segurando outras mã os. Todo mundo calmo, com propó sito, a caminho
de algo. Ela desejou saber o que queria.
Tudo isso era novo demais. Até ela se sentia nova.
Novo lugar, novo nome, nova pessoa, nova vida. Talvez. Pelo verã o,
pelo menos.
Ela deveria estar animada. Hollywood e Disneylâ ndia estavam
aqui. Mas tudo que ela sentiu foi... medo. Sua casa, no entanto, nã o era
uma opçã o no momento. Ela tinha que fazer isso por sua garota.
O conselho de sua mã e ecoou em sua mente: primeiro seduza. O amor
virá.
Estava na hora de ver o homem.
Ela marchou direto para o banheiro mais pró ximo, pegou uma cabine
vazia e tirou as roupas de viagem confortá veis e vestiu um vestido rosa
apertado. Depois de trocar os sapatos baixos por um par de sapatos de
salto alto que pareciam armas, ela deixou a barraca para escovar os
dentes até que suas gengivas doessem e aplicasse a menor quantidade
de delineador, rı́mel, esse material cintilante para esconder as bolsas
cansadas sob os olhos, e batom vermelho-sangue. Pronto. Isso estava
tã o bom quanto era possı́vel.
Quando ela se olhou no espelho ao lado de todas as pias, seu re lexo
icou completamente irreconhecı́vel para Mỹ. Mas isso foi uma coisa
boa. Mỹ era uma menina ingê nua de um paı́s pobre e que nunca se
encaixava perfeitamente. Ela estava deixando para trá s aquela
menina. Ela era Esme agora.
Erguendo o queixo, ela saiu do banheiro e se juntou à multidã o. Ela
seguiu as direçõ es nos sinais no alto com determinaçã o e acompanhou
o trá fego de pedestres pelo aeroporto. Depois que ela passou pela
segurança, ela examinou as pessoas e seus rostos, procurando,
procurando, procurando...
Lá estava ele.

•••

Esperar do outro lado do posto de segurança foi uma experiê ncia


surreal. Khai imaginou que era assim quando as pessoas recebiam um
pedido especial da Schutzhund da Holanda. Só que este nã o era um cã o
de proteçã o treinado e certi icado. Isto era uma pessoa.
Enquanto os minutos passavam, ele icou parado, os ombros para trá s
e a coluna reta, como anos de prá tica de artes marciais o haviam
treinado. Ele nã o andava, batia os dedos dos pé s ou balançava. Ele nã o
fazia mais coisas assim. Mas ele queria.
Se essa garota realmente aparecesse, ele teria que morar com ela por
um verã o inteiro. Pior ainda, ele teria que tratá -la como sua noiva. O
que diabos ele sabia sobre isso?
Ele tirou o telefone do bolso e olhou a foto que sua mã e havia lhe
enviado. Se ela nã o tivesse assegurado a ele que já havia conhecido a
garota, ele teria pensado que este era um excelente exemplo de
Cat ish. A pessoa na fotogra ia era quase bonita demais para ser...
Algué m entrou no seu espaço pessoal. — Chào Anh.
Ele olhou para cima do telefone. E se viu encarando os mesmos olhos
verde-claros da foto. Só que ao vivo.
Era ela. — Oi — ele disse re lexivamente.
Ela sorriu e seus processos de pensamento soluçaram. Lá bios
vermelhos brilhantes, dentes brancos e retos, olhos deslumbrantes. As
pessoas a chamariam de bonita. Nã o, ela era mais do que
isso. Quente. Linda. De tirar o fô lego. Nã o que ele se importasse com
coisas como...
O olhar dele caiu acidentalmente para abaixo de seu colo e sua boca
icou seca. Puta merda. Ela era algum tipo de fantasia sexual
ambulante. Aparentemente, ele era um homem que gosta de peitos. E
de igura de ampulheta. E de pernas. Como elas pareciam tã o longas
quando ela era tã o baixa? Talvez fossem os saltos de trê s polegadas que
ela estava usando.
Quando ele percebeu o que estava fazendo, ele forçou o olhar de volta
para o rosto dela. Quando sua famı́lia ainda tinha esperanças que ele
namorasse, sua irmã o fez memorizar um conjunto de regras, já que ele
era muito bom em segui-las.

REGRAS PARA QUANDO VOCE ESTA COM UMA GAROTA:

1. Abra e feche as portas.


2. Puxe as cadeiras e empurre-as de volta.
3. Pague por tudo.
4. Carregue tudo. (Isso inclui a bolsa dela, se ela quiser. Nã o importa
o fato de ele preferir manter as mã os livres.)
5. Dê a ela seu casaco se ela parecer com frio. (Nã o, nã o importava se
ele estava com frio també m.)
6. Nã o importa como ela esteja vestida, nã o olhe para á reas
inapropriadas do corpo. *
7. *Especi icamente, peitos, bumbum e coxas. Ele poderia abrir uma
exceçã o se ela estivesse gravemente ferida.

Um calor desconfortá vel corou seu rosto e chamuscou as pontas dos


seus ouvidos. Ele acabara de ir contra a Regra Nú mero Seis. Em sua
defesa, ele nã o tinha prá tica em estar com uma mulher desse jeito.
Ela posicionou a mala na frente das pernas e respirou fundo
rapidamente, antes de sorrir novamente. —Você é Diệ p Khai. Eu sou
Esme — ela disse em vietnamita.
Essa sensaçã o surreal voltou. Isso estava realmente acontecendo. A
noiva por correspondê ncia estava se apresentando. Mas o nome dela
nã o era Mỹ ?
Por favor, não deixe que haja duas. Ele nã o sabia o que ia fazer com
uma mulher. Se sua mã e o adquirira um haré m inteiro, ele precisaria de
terapia. Depois de um segundo de bater o coraçã o, a ló gica voltou ao
seu cé rebro, e ele concluiu que ela devia ter adotado um nome
ocidental para ajudá -la nos Estados Unidos. Ele nã o tinha um haré m.
Graças a Deus.
— Apenas Khai — disse ele em inglê s, largando o sobrenome e os
tons. Sua mã e era a ú nica pessoa que o chamava de Diệ p Khai, e,
geralmente, o fazia quando ele estava em apuros.
Sua resposta foi uma inclinaçã o confusa de sua cabeça, e ele se
perguntou se ela havia entendido o que ele havia dito. Quando ela o
olhou, um vinco se formou entre as sobrancelhas. — Por que você está
vestindo preto? Preto é para funerais na Amé rica. Eu já vi isso nos
ilmes. Algué m morreu? — Ela perguntou em vietnamita novamente.
— Nã o, ningué m morreu. Eu apenas gosto de preto. — Escolher
roupas era muito mais fá cil quando era de uma só cor. Alé m disso, o
preto nã o manchava, e era socialmente versá til, apropriado para todas
as ocasiõ es, desde funçõ es de trabalho até bar mitzvah.
Enquanto ela parecia absorver essa informaçã o, ele agarrou a mala
pela alça e foi em direçã o ao estacionamento.
— Por aqui — ele disse.
A cada passo do aeroporto, palavras gritavam na cabeça de Khai.
O. Que. Sua. Mãe. Estava. Pensando.
A noiva por correspondê ncia nã o era como ele esperava - que era uma
ré plica mais jovem de sua mã e, completa com os ternos de moletom
correspondentes e o molho de pimenta sriracha e de hoisin que ela
sempre guardava na bolsa. Isso, ele poderia ter lidado. Mas essa
garota, Esme, parecia uma coelhinha da Playboy. Ela nã o tinha o cabelo
platinado da marca registrada, mas o resto dela se encaixava na
descriçã o. O que você faz com uma coelhinha da Playboy? Alé m do
sexo. Nã o que ele estivesse pensando em sexo.
Exceto, claramente, ele estava pensando em sexo. Porra. Nã o, nã o
haveria porra nenhuma. Uma parte sorrateira de seu cé rebro lembrou
que ele havia prometido fazer todas as coisas que um noivo
faria. Noivos fazem sexo...
Ele balançou a cabeça para afastar os pensamentos pornográ icos. Era
errado reduzir uma pessoa ao seu valor sexual. Ele era um ser
racional. Ele deveria ser melhor que isso. Alé m disso, ela poderia ser o
tipo de pessoa que realizava regularmente rituais de sacrifı́cios de
animais em seu quintal. Era seguro abaixar as calças em torno dessa
mulher? Isso matou os pensamentos sexuais rapidamente, e o resto de
sua viagem pelo aeroporto transcorreu sem problemas.
Depois que ele passou por um conjunto de portas de vidro
deslizantes, o ruı́do dos sapatos de Esme no piso de concreto do
estacionamento o seguiu até o carro. Ele guardou a mala no porta-
malas e se preparou para dar a volta no carro e seguir a Regra Nú mero
Um, mas Esme abriu a porta e se sentou no assento. Entã o ela fechou a
porta també m.
Por um momento, ele icou parado, olhando para o lado dela do
carro. Ela sabia que acabara de violar a etiqueta social? Ele deveria
contar a ela? E isso nã o era irô nico? Que ele conhecia as regras melhor
do que ela? Ou talvez elas nã o fossem internacionais?
Com um encolher de ombros mental, ele sentou do lado do volante,
ligou o motor e mudou a marcha para trá s.
— Espere um pouco, — disse ela. — Podemos conversar?
Ele suspirou e colocou o carro de volta na vaga. Parecia que eles
fariam mais dessa coisa onde ambos falavam seus pró prios idiomas e
nem entendiam completamente um ao outro, como quando ele e sua
mã e conversavam.
— Obrigada, Anh Khả i. — Anh signi icava irmão, mas quando eles nã o
estavam relacionados, era mais um carinho. Ele nã o achou isso
agradá vel. Mas quando ela lançou outro sorriso perturbador para ele,
ele se esqueceu de icar irritado. Logo que a funçã o cerebral dele
começou a gaguejar, ela olhou para o interior do carro dele. — Este
carro é legal.
— Obrigado. — Ele geralmente nã o gostava de coisas chamativas, mas
adorava dirigir. Seu carro era de longe a coisa mais autoindulgente que
ele possuı́a. Pena toda essa caca de pá ssaro no para-brisa.
Ela respirou fundo. — Eu sei que você nã o quer se casar comigo.
— Isso mesmo. — Ele nã o via razã o para mentir.
O silê ncio pairou no ar enquanto ela mordia o lá bio inferior, e seus
mú sculos se contraı́ram desagradavelmente.
— Você vai chorar? — Ele perguntou. — Tê m lenços no porta luvas. —
Ele deveria pegá -los para ela? Ele nã o sabia mais o que fazer. Dar um
tapinha no braço dela, talvez.
Ela balançou a cabeça antes de levantar o queixo e encontrar o olhar
dele. — Sua mã e quer que eu te faça mudar de ideia.
— Você nã o pode me fazer mudar de ideia.
— Você tem… — Ela olhou para o lado enquanto procurava por
palavras. — Uma mulher perfeita em sua mente? Como ela é ?
— Ela me deixa em paz. — Ele já tinha uma mã e, uma irmã e um
bilhã o de tias e primas para enviá -lo em incumbê ncias sem sentido,
assediá -lo sobre suas escolhas de roupas e dizer-lhe para cortar o
cabelo. Ele nã o precisava de mais mulheres em sua vida.
— Você nã o quer isso — disse ela com um movimento decisivo de
cabeça. — Eu vou ajudá -lo a ser feliz. Você verá .
Ele endureceu. — Eu nã o preciso desse tipo de ajuda. — Sua sugestã o
foi irritante de maneiras sem precedentes. Se ela passaria o verã o
empurrando-o para dançar e cantar, ele provavelmente teria algum tipo
de colapso mental é pico. A felicidade, como a dor, nã o estava em seu
baralho emocional pessoal. Mas emoçõ es menores, como irritaçã o e
frustraçã o, estavam. Ele estava sentindo esses em boa medida neste
momento.
Um olhar cé tico cruzou seu rosto. — Pessoas felizes nã o se vestem de
preto.
As roupas dele de novo. Ele apertou os dedos no volante. — Eu
discordo. — Preto era perfeitamente aceitá vel em casamentos, e esses
eram eventos felizes. Para outras pessoas, pelo menos. Ele prefere fazer
um exame de có lon. Os proctologistas apenas o torturam por alguns
segundos, enquanto os casamentos continuam por horas e horas.
Seus lá bios se a inaram e um momento tenso se estendeu antes de ela
perguntar: — Que trabalho você faz? Você gosta disso?
— E complicado de explicar, mas sim, eu gosto.
Os lá bios dela se moveram silenciosamente por um momento, e ele
estava bastante certo de que ela estava testando a sensaçã o da
palavra complicado. Mas entã o ela olhou ao redor do carro, avaliou o
terno e a camisa preta dele novamente e lhe lançou um olhar
engraçado. Os lá bios dela se curvaram levemente. — Você é um espiã o
como James Bond?
Ele piscou vá rias vezes. — Nã o.
— Um assassino?
— Nã o, eu nã o sou um assassino. — O que havia de errado com ela?
— Que pena. — Mas ela nã o parecia decepcionada, nã o com aquele
sorriso no rosto. Que coisas estranhas estavam acontecendo em seu
cé rebro?
Balançando a cabeça, ele disse: — Você é mais estranha do que eu.
Ela o confundiu ainda mais, abraçando os braços contra o peito e
rindo com o olhar baixo. Era um som bonito, musical de certa
forma. Quando ela cruzou as pernas, seus olhos foram atraı́dos
desamparados para suas coxas. A saia dela deslizou, revelando outra
polegada de pele impecá vel.
Regra número seis, regra número seis, regra número seis.
Ele desviou os olhos e olhou cegamente para o painel. — Eu era
especialista em contabilidade na escola, mas agora sou mais
especialista em impostos. Meu amigo e eu abrimos uma empresa de
software contá bil. Ele é o responsá vel pela programaçã o e eu cuido da
contabilidade, o que signi ica que preciso manter-me atualizado sobre
os princı́pios contá beis geralmente aceitos e a legislaçã o tributá ria,
conforme estabelecido na Lei Fiscal Federal. Ultimamente, adicionamos
a aná lise de preços de transferê ncia ao nosso pacote de software, por
isso tive que me familiarizar particularmente com a seçã o 482 do IRC. E
muito interessante descobrir como testar se as transaçõ es comerciais
estã o ao alcance das mã os quando você tem grandes empresas
multinacionais. As vezes, eles criam abrigos iscais em jurisdiçõ es de
baixa tributaçã o, por exemplo, nas Bahamas, entã o você precisa...
Ele se forçou a parar no meio da frase. As pessoas se entediavam
quando ele falava sobre trabalho. Ele até entediava outras pessoas de
contabilidade de tempos em tempos. Os meandros e a elegâ ncia dos
princı́pios contá beis e do direito tributá rio nã o eram para todos. Ele
nã o tinha ideia do porquê .
— Contabilidade, — disse ela lentamente, desta vez em inglê s.
— Nã o exatamente, mas eu tenho uma licença CPA. Sou certi icado
para fornecer documentaçã o tributá ria para empresas pú blicas nos
Estados Unidos.
— Eu també m.
Ele respirou surpreso. Ela era contadora? Isso foi inesperadamente
maravilhoso.
A bainha do vestido icou muito interessante para ela, e ela brincou
com um io solto, enquanto dizia em vietnamita: — No Vietnã . Aqui
nã o. Provavelmente é realmente diferente.
— Aposto que é diferente. Nã o tenho nenhuma experiê ncia com
regulamentaçã o tributá ria vietnamita. Provavelmente é fascinante. Eles
gastam suborno como um custo para fazer negó cios? O imposto é
dedutı́vel? — Seria divertido ver suborno como um item de linha em
uma demonstraçã o de resultados. Era por isso que ele gostava tanto de
contabilidade. Nã o eram apenas nú meros no papel. Se você soubesse
como olhá -los, os nú meros signi icavam algo e re letiam cultura e
valores.
Ela se abraçou como se estivesse com frio, sem dizer nada.
Ele a tinha insultado acidentalmente? Ele repetiu seus comentá rios
em sua cabeça, tentando identi icar a coisa ofensiva, mas nã o
adiantou. Depois de uma pausa embaraçosa, ele perguntou: —
Podemos ir agora? Eu nã o gosto de bate-papo assim. — E claramente,
ele era ruim nisso.
— Sim, vamos lá . Obrigado, Anh. — Afundando-se na cadeira, ela
olhou pela janela lateral.
Ele saiu do local, pagou pelo estacionamento e saiu da garagem. A
princı́pio, seus mú sculos icaram tensos em antecipaçã o a mais
perguntas sondadoras, mas quando ele saiu do aeroporto e entrou na
estrada, ela icou abençoadamente quieta. Ao contrá rio de sua mã e e
irmã , que podiam manter conversas unilaterais por horas.
Talvez ela tivesse adormecido, mas toda vez que ele olhava em sua
direçã o, ele a observava observando a paisagem ao lado da rodovia, que
consistia em pré dios de escritó rios, grama irregular e um monte
ocasional de eucalipto ou pinheiro. Nã o é uma visã o muito
glamorosa. Bem, pelo menos para ele nã o era. Ele nã o conseguia
imaginar como seria nos olhos dela.
— Av. da Universidade — disse ela do nada. Ela se endireitou na
cadeira e apertou o corpo para poder ver a saı́da pela qual ele acabara
de passar. — E onde Cal Berkeley está ?
— Nã o, é onde Stanford está .
— Oh. — Ela se virou e caiu na cadeira.
— Berkeley ica a uma hora ao norte daqui. Foi para lá que eu fui para
graduaçã o e pó s-graduaçã o.
— Sé rio? — O entusiasmo em sua voz o pegou de surpresa. Muitas
pessoas por aqui nã o icaram impressionadas, a menos que você tivesse
estudado em Stanford ou em uma escola da Ivy League.
— Sim, eles tê m um bom programa de contabilidade. — Ele
continuou dirigindo, mantendo os olhos na estrada, mas ele quase
podia sentir o peso do olhar dela em sua pele. Enviando-lhe um olhar
de soslaio, ele perguntou: — O quê ?
— Os alunos sã o pró ximos? Eles se conhecem?
— Na verdade nã o — disse ele. — E uma escola enorme. A cada ano,
eles admitem mais de dez mil estudantes de graduaçã o. Por que você
pergunta?
Ela deu de ombros e balançou a cabeça enquanto olhava pela janela.
Ele voltou sua atençã o para o trá fego do inı́cio da noite, saiu na
Avenida Mathilda e dirigiu pelas ruas ladeadas de carvalhos altos e
arborizados, complexos residenciais, pré dios de apartamentos e
shoppings.
Dez minutos depois, ele virou para a rua lateral que levava à sua casa
de dois quartos com potencial de demoliçã o. Comparado com as outras
casas reformadas e recé m-construı́das na regiã o, a dele era um pouco
desagradá vel, mas ele apostou que ningué m mais tinha o felpudo tapete
envelhecido. Ele parou ao lado de seu meio- io, deu partida no
estacionamento e desligou o motor.
— E isso aı́, — disse ele.
CAPÍTULO QUATRO

Esme ainda nã o conseguia se perdoar por mentir daquela forma. Ela
queria ser castigada pelos cé us? Por que ela fez isso?
Ela sabia o porquê . Porque ela era uma zeladora/empregada, e ele era
muito melhor. Ela queria impressioná -lo, para mostrar-lhe que ela valia
o seu tempo. Mas agora ela tinha que ingir que trabalhava com
contabilidade, quando ela nem sabia o que isso era, e continuar a
manter seu bebê em segredo. Ela era uma mentirosa e tinha vergonha
de si mesma.
Se ela fosse uma boa pessoa, confessaria agora, mas esse sentimento
de ser igual a ele era viciante demais. Nem importava que fosse falso,
ela gostava mesmo assim. Ela já estava ingindo ser algo que nã o era –
uma mulher sexy e mundana (embora nã o com muito sucesso, a julgar
por sua tentativa fracassada de lertar mais cedo no carro). Por que nã o
ir alé m e adicionar inteligente e so isticada à lista enquanto ela estava
nisso?
Quando ela morresse, os demô nios a atormentariam pela eternidade,
em vez de deixá -la reencarnar. Ou pior, eles a deixariam reencarnar,
mas ela seria um peixe-gato que vivia no buraco da casinha onde
pessoas faziam suas necessidades. Era apenas justo. E isso que ela
ganharia por desejar intoxicaçã o alimentar nas pessoas.
Khai saiu do carro e ela o seguiu. O ruı́do de seus sapatos nas pedras
era estranhamente alto para seus ouvidos, e sua cabeça girou quando
ela olhou para seus pé s. Quando foi a ú ltima vez que ela comeu? Ela
estava cansada demais para lembrar.
Massageando o queixo para acordar, ela se forçou a observar o local
ao seu redor. As casas eram tã o simples em comparaçã o com as
mansõ es que ela imaginara. E pequenas - de apenas um andar, a
maioria delas. O ar. Ela encheu seus pulmõ es. Que cheiro era esse?
Depois de um momento, ela percebeu que era a falta de cheiro. Ela
nã o podia sentir o cheiro de lixo e frutas podres. Uma né voa causada
pelo escapamento dos carros nã o escureceu o pô r do sol para um tom
ferrugem cor de tamarindo. Esfregou os olhos cansados e admirou um
cé u pintado em tons brilhantes de damasco e jacinto.
Que diferença um oceano de distâ ncia faz.
A saudade de casa a atingiu entã o, e ela quase esqueceu a
poluiçã o. Algo familiar seria bom enquanto ela estava lá , em uma rua
desconhecida, em uma cidade desconhecida, em um mundo distante de
todos que ela amava. Que horas eram no Vietnã ? Será que Ngọc Anh -
nã o, será que Jade estava dormindo agora? Ela sentia falta da mã e? Sua
mã e sentia sua falta.
Se estivesse em casa, deitaria-se ao lado dela, beijaria suas mã ozinhas
e pressionaria suas testas como sempre fazia antes de dormir.
Ela tropeçou e teria caı́do se nã o fosse a caixa de correio,
e Khai lançou olhar de desaprovaçã o para os sapatos que ela usava
depois que ele puxou a mala para fora do porta-malas.
— E melhor andar descalça do que usá -los.
— Mas eles sã o tã o ú teis. E como ter um sapato e uma faca. — Ela
tirou os dois sapatos e fez um movimento de punhalada com um deles.
Ele a considerou por um momento sé rio, sem rir, nem mesmo sorrir, e
ela apertou os lá bios e olhou para os dedos dos pé s nus. Lá estava ela,
falhando em lertar novamente. Em sua defesa, fazia muito tempo que
ela nã o saı́a com um homem e tinha esquecido como.
Enquanto olhava para os dedos pouco atraentes - odiava as mã os e os
pé s infelizes que herdara do pai de olhos verdes; nã o havia nada
elegante ou atraente neles - e ela notou as ervas assustadoras que
sufocavam o quintal de Khai.
— E se eu pisar nos espinhos? — Ela lhe enviou um sorriso que
esperava parecer sexy. — Você vai me carregar?
Ele trouxe a mala para a porta da frente sem olhar para ela.
— Fique no concreto, e você icará bem.
Pulando atrá s dele, ela disse: — Eu posso limpar o quintal para
você . Eu sou boa nisso.
Ele pegou as chaves do bolso e abriu a porta.
— Eu gosto dele do jeito que é .
Ela olhou por cima do ombro para o quintal novamente para se
certi icar de que nã o tinha imaginado tudo e, nã o, ainda era uma selva
de espinhos, trepadeiras emaranhadas e arbustos secos.
Ele estava errado mais cedo quando disse que Esme era a estranha
entre os dois. Ele venceu a competiçã o sem sequer tentar. Ele era
facilmente a pessoa mais estranha que ela já conhecera. Ela ainda nã o o
conhecia bem, mas percebeu sua estranheza imediatamente. Ele nã o
olhou nos olhos dela quando falou, ele usava tudo preto, ele gostava
desse terreno baldio e disse as coisas mais estranhas. Isso lhe deu
esperança.
Estranho era bom. Estranho era uma oportunidade.
Alé m disso, ela també m era estranha. Apenas nã o tã o estranha
quanto ele.
— Você é muito... mente aberta — ela disse.
Ele olhou para ela como se a achasse louca e ela se chutou
mentalmente.
— Por que você estaciona na rua quando tem isso? — Ela apontou
para a garagem dele. A julgar pelo tamanho da porta, ele poderia fazer
caber dois carros lá . Nã o fazia sentido que ele estacionasse seu belo
carro na rua. A menos que ele tivesse trê s carros, que ela duvidava que
ele pudesse pagar com base no estado de seu quintal e casa.
Em vez de responder à pergunta dela, ele abriu a porta e eles
entraram. Ela se perguntou se ele nã o a ouvira ou se a ignorara
propositalmente, mas deixou passar. O interior de sua casa era mais
estranho que o exterior, com um tapete grosso que parecia mais grama
do que seu gramado, equipamentos de giná stica por toda a sala e
mó veis e persianas de uma é poca diferente. Depois de colocar os
sapatos no chã o, ela seguiu Khai por um corredor estreito, e as ibras
macias do tapete acariciavam seus pé s descalços a cada passo.
Ele colocou a mala em um pequeno quarto que continha uma mesa,
um sofá e um armá rio. Quando ela notou o papel de parede antigo, seus
olhos arderam com lá grimas nã o derramadas. Ursos de pelú cia, bolas
de praia, bonecas, sapatilhas de balé e blocos de construçã o. Este
costumava ser um quarto de criança. Ela tocou com as pontas dos
dedos nas sapatilhas de balé . Jade adoraria isso.
— Este é o seu quarto, — disse ele — você terá que se contentar com
o sofá .
— E ó timo. Obrigada, Anh Khai. — Ela nunca dormiu em algo tã o bom
quanto um sofá em toda sua vida. Ela nunca teve um sofá . Mas ela nã o
mencionou nada disso. Ela era a Esme so isticada da Contabilidade
agora. Esme, da Contabilidade, provavelmente tinha um belo
apartamento com dois ou trê s sofá s e nunca dormiria numa esteira de
palha sobre um chã o de terra batida.
A garota solitá ria do interior olhou para o grande sofá vazio e sentiu
saudades de casa novamente. Ela queria o tapete de palha, o chã o de
terra, a casa de um quarto e os corpos adormecidos de sua ilhinha, avó
e mã e. Ela estava exausta, mas nã o sabia como iria dormir sozinha.
— O celular na mesa é para você . — Ele apontou para a mesa antes de
se virar para sair.
— Espere um pouco, para mim? — Ela correu para a mesa e esticou a
mã o em direçã o ao celular prateado brilhante, mas enrolou os dedos
em punho antes de fazer contato. Seria uma pena sujar o celular chique
com as pontas dos seus dedos.
— Minha mã e disse que você precisava de um novo chip, mas um
celular novo é mais fá cil. Se você nã o gostar, provavelmente posso
trocá -lo pelo modelo mais atual.
Mas isso custaria ainda mais. — E novo. — Ela diz.
Ele en iou a mã o no bolso. — Sim. — Ele diz como se fosse a coisa
mais normal do mundo.
— Você pode devolvê -lo?
Ele franziu a testa enquanto inclinava a cabeça para o lado.
— Acho que nã o. Você realmente nã o gostou?
Ela torce as mã os.
— Nã o, eu gostei, mas...
— Entã o nã o é um problema. Apenas use.
Uma onda de calor ansioso tomou conta de seu rosto, mas ela se
obrigou a dizer: — Eu pago de volta assim que estiver trabalhando. —
Ela esperava conseguir o su iciente para pagar por isso. Em casa, ela
teria que economizar por quase um ano para pagar por algo tã o bom.
— Você nã o precisa.
Ela levantou o queixo.
— Eu preciso sim.
Era importante que ele soubesse que ela nã o estava se casando com
ele por seu dinheiro. Isso nunca tinha sido sobre dinheiro para
ela. Na verdade, ela gostava que ele não tivesse tanto dinheiro quanto
seus vizinhos. Eles eram uma combinaçã o melhor assim. Ela nã o
precisava de um homem rico. Ela só precisava de algué m que era dela. E
de Jade.
Ele apenas deu de ombros.
— Fique à vontade. Eu vou esquentar o jantar. Saia quando estiver
com fome.
Os ombros dela caı́ram. Ele nã o entendeu que ela queria ganhar as
coisas sozinha.
— Vou ligar para casa primeiro, ok?
— Sim, vá em frente.
Assim que ele saiu da sala, ela cuidadosamente fechou a porta, retirou
o cabo do carregador branco da tomada e sentou-se no sofá , olhando
para seu inacreditá vel telefone novo. Ela nã o havia esperado por
isso. Foi o melhor presente que ele poderia ter lhe dado, absolutamente
melhor. E ele nem gostava dela.
Ele era estranho, sem tato e muito possivelmente um assassino, mas
quando ela olhou para as açõ es dele, tudo o que viu foi bondade. Cô Nga
estava certa. Khai era bom material. Um material muito, muito bom.
Ela memorizou como discar internacionalmente dos Estados Unidos
antes de sair e discou o nú mero do celular da mã e. A mã e dela atendeu
no primeiro toque.
— Oi, Má .
— Já , já , me conte tudo.
— Primeiro, como está Ngọ c Anh? Posso falar com ela?
— Ela está bem, animada por ter um pai em breve. Fale um pouco
comigo. Como estã o as coisas? Você gosta dele? — Sua mã e perguntou.
— Sim, eu gosto dele.
Um Hmmmmm satisfeito soou na linha. — Isso é bom. E a casa dele? E
legal?
— Eu gosto, — disse Esme — o quarto em que estou hospedada tem
um papel de parede bonito. Se Ngọ c Anh visse, ela gostaria. Há um sofá
para mim.
— Você nã o está dormindo com ele?
Ela revirou os olhos.
— Nã o, Má , eu nã o estou dormindo com ele. Você se lembra? Ele nã o
quer uma esposa.
— Isso nã o signi ica que ele quer dormir sozinho.
— Acabei de sair do aviã o. — Ela lembrou a mã e. Ela precisava de
tempo para trabalhar seus poderes sedutores nele. Se ela ainda tivesse
esses poderes. Ela esteve trabalhando tanto que nã o teve tempo para
namorar. Ou quis. Apenas a memó ria dos rostos de sua mã e e avó
quando descobriram sua gravidez foi su iciente para fazer qualquer
homem parecer desinteressante.
— Oh, isso mesmo, foi um voo longo — disse a mã e. Apó s um
momento de silê ncio, sua mã e continuou. — Você pode soltar uma das
pernas do sofá e dizer que está quebrada?
— Porque eu faria isso?
— Para que você possa dormir com ele, minha ilha.
Esme puxou o telefone e olhou para ele. Quem era essa mulher com
quem estava falando? A voz soava como a da mã e dela, mas nã o as
palavras.
— Nã o posso fazer isso. E errado.
— Tudo bem, esqueça que eu disse isso — sua mã e resmungou. —
Aqui, fale com sua garota.
— Má. — A vozinha fez o coraçã o de Esme derreter e se partir. Ela
deveria estar lá , nã o aqui do outro lado do mundo, perseguindo um
homem.
— Oi, minha garota. Eu sinto muito a sua falta. O que você tem feito
desde que eu saı́?
— Eu peguei um peixe grande na lagoa ontem. Bisavó o matou
batendo-o contra uma á rvore, e depois disso, nó s o comemos no
jantar. Meu peixe estava bom.
Esme cobriu os olhos com uma mã o. Matou batendo contra uma
árvore... Esme da Contabilidade icaria chocada com essa conversa. Nã o
apenas ela nã o teria uma ilha de cinco anos fora do casamento, mas
sua ilha nã o pegaria seu pró prio jantar. Certamente nã o haveria
matança ou ningué m batendo qualquer coisa contra uma á rvore.
Mas pelo menos a ilha dela estava feliz. Era pecaminoso tirar uma
vida, até mesmo a vida de um peixe, mas Esme alegremente sacri icaria
um cardume inteiro de trutas para distrair Jade de sentir falta demais
da mã e. Ela levantou os pé s e apoiou a cabeça pesada no braço do sofá
enquanto Jade divagava sobre peixes, vermes e grilos. Quando suas
pá lpebras se fecharam, ela quase sentiu o sol do Vietnã na pele, quase
sentiu sua bebê nos seus braços. Ela adormeceu com um sorriso nos
lá bios.
CAPÍTULO QUINTO

Algo molhado pingou no rosto de Khai. E de novo. Como gotas de


chuva. Exceto que ele estava na cama. O teto estava vazando? A casa
dele estava desmoronando?
Ele abriu os olhos e quase gritou.
Esme estava ao lado de sua cama, pingando e vestindo apenas uma
toalha.
— Eu acho que quebrei seu chuveiro. Tem á gua para todo lado. — Ela
aproximou a toalha do peito.
Ele se sentou, esfregou a mã o no rosto e se preparou para sair da
cama. — Deixe-me ver. Provavelmente é apenas a con igura… — merda.
Ele puxou as cobertas sobre a virilha. Ele estava ostentando uma
ereçã o matinal do tipo mega-monstro. Ela nã o precisava ver isso. A
maneira como ele estava montando uma barraca em sua boxer era
grotesca, e ela provavelmente a confundiria como uma reaçã o
a ela. Quando nã o era.
Na maioria dos dias, ele acordava assim, e nã o era como se estivesse
sofrendo de um vı́cio por pornô fora de controle ou algo assim. Era
apenas uma resposta bioló gica natural aos nı́veis matinais de
testosterona. Uma que ele poderia ter vivido sem. Suas manhã s seriam
muito mais e icientes se ele nã o tivesse que se masturbar no chuveiro
todos os dias.
Quando ele a pegou olhando para seu peito nu e seus abdominais, no
entanto, ele parou de pensar em e iciê ncia e nı́veis hormonais
inconvenientes. Ela mordeu o lá bio inferior, e ele jurou que sentiu os
dentes dela no pró prio lá bio. Seus mú sculos do estô mago se contraı́ram
e seus sentidos se aguçaram. Ela era bonita, mesmo sem maquiagem,
saudá vel, mais real. As gotas de á gua em sua pele lisa se destacavam em
perfeita clareza, chamando por ele. Algo lhe disse que elas teriam um
sabor melhor do que a á gua comum. Ele nã o tinha pensado que era
possı́vel, mas ele endureceu ainda mais.
Porra.
Fazendo o possı́vel para proteger seu tesã o do inferno, levantou-se da
cama e arrastou-se para o banheiro - o ú nico quarto renovado em sua
casa. Entã o ele icou na frente do chuveiro e observou com admiraçã o
as luzes brilhando nas cores do arco-ı́ris e a á gua jorrando dos bocais
escondidos no teto e nas laterais. Como ela fez isso? Ele nã o sabia que
havia um modo de lavagem de carros.
— O chuveiro está quebrado? Pagarei para consertar — disse Esme.
— Nã o, acho que você apenas apertou os botõ es errados. — Muitos
deles. Talvez todos eles de uma vez. Ou talvez fosse como em um
videogame onde você tinha que apertar os botõ es em uma certa
ordem. Ela acidentalmente encontrou a combinaçã o secreta que nã o foi
divulgada no manual.
Nã o havia nenhuma outra forma. Ele tinha que entrar.
Ele respirou fundo e marchou para dentro de cueca. Agua morna o
ensopou de todas as direçõ es, encharcando seus cabelos e
massageando seus mú sculos. Teria sido bom se nã o fossem as luzes
piscando, sua roupa agora molhada e sua audiê ncia. Quando chegou ao
painel de controle, apertou o botã o de liga/desliga. As luzes pararam de
mudar de cor e o dilú vio foi interrompido. A á gua residual escorria dos
bocais e atingia o chã o com gotejamentos ı́ntimos.
Ele jogou o cabelo para trá s e disse: — Venha aqui, e eu vou lhe
mostrar como ligá -lo.
Abaixando a cabeça e abraçando a toalha no peito, ela icou ao lado
dele.
— Você pressiona o botã o de ligar primeiro, aqui. Isso també m o
desliga. E eu costumo usar o modo chuva, que está aqui. Apenas dois
botõ es. Assim, viu? Ele apertou os botõ es e a á gua escorreu sobre eles
em um aguaceiro suave. — Consegue?
Ela assentiu. — Você consertou?
— Nã o estava quebrado.
Seus ombros caı́ram quando ela soltou um suspiro aliviado e sorriu
para ele. Quando a á gua escorreu em seus olhos, ela passou a mã o pelo
rosto, mas nã o adiantou. Eles estavam de pé no chuveiro com a á gua
ligada. A cada segundo, sua toalha icava mais encharcada. Ela deveria
removê -la.
Mas entã o ela estaria nua. Com ele. Cercado por á gua e vapor e
paredes de pedra embaçada.
Esse estranho estado de consciê ncia aumentada retornou, mais forte
desta vez. O rugido da á gua derramou mais alto, e ele sentiu cada gota
de á gua se dissolvendo contra sua pele como um pequeno
beijo. Imagens dele tirando a toalha molhada dela brilharam em sua
mente, mas o corpo dela permaneceu embaçado do peito até as
coxas. Ele nã o sabia como imaginá -la lá . Mas ele queria. Nã o, ele nã o
queria. Sim ele queria. Nã o, ele realmente nã o queria. Ele nã o precisava
daquela imagem divagando em torno de sua cabeça pervertida.
— Nó s somos inteligentes, hein? — Ela disse com um sorriso. —
Estamos limpando roupas, toalhas e corpos ao mesmo
tempo. Economiza á gua.
— Nã o tenho certeza de que estamos icando mais limpos.
Ela abaixou a cabeça e limpou a á gua dos olhos. — Estou apenas
brincando.
— Você está falando sé rio? — Ele perguntou.
Ela levantou um ombro elegante e apontou um sorriso indefeso
para ele. — Eu só quero que você seja você mesmo comigo.
— Eu sou. — Ele nã o era? Ele certamente nã o estava ingindo
ser outra pessoa, mas se ele olhasse as coisas objetivamente, era isso
que as pessoas ao seu redor normalmente queriam - que ele agisse de
maneira diferente, mais apropriada, mais intuitiva, mais atenciosa,
menos excê ntrica, menos… ele mesmo. Ela realmente nã o se importava
com ele como ele era?
O sorriso dela se alargou, e tudo o que ele pô de fazer foi olhar. Mulher
estranha, incompreensı́vel e bonita. Ela dizia as coisas mais engraçadas
e sorria o tempo todo. Seus dedos coçavam para tocar aquele sorriso, e
ele se afastou por autopreservaçã o.
— Vou deixar você tomar banho. Sinta-se livre para usar a outra
toalha ali.
Ele fugiu. A pró xima coisa que ele soube foi que estava em frente ao
seu armá rio, pingando á gua no tapete enquanto olhava
inexpressivamente para as roupas pretas penduradas nas
prateleiras. Seu coraçã o bateu como se ele tivesse tomado cinco latas de
Red Bull, e seu pau fez coisas obscenas na frente de sua boxer molhada.
Foi preciso um esforço consciente para recordar que dia era hoje e o
horá rio correspondente, mas depois a frustraçã o bombeou por seu
corpo. Ela arruinou tudo com o iasco do chuveiro. Ele nã o podia nem
escovar os dentes com ela lá dentro. Nã o sem olhar, o que,
honestamente falando, ele provavelmente apreciaria demais - ele bateu
a testa na porta do armá rio. Droga, ele tinha que parar com isso.
Determinado a acertar o resto do dia, vestiu as roupas de giná stica,
amarrou os cadarços dos sapatos de treino, pegou uma escova de
dentes e pasta de dente sobressalentes do armá rio de roupas de cama e
foi à cozinha escovar os dentes na pia, comer uma barra de proteı́nas e
beber um copo de á gua. Era domingo de manhã , e isso signi icava
tempo de treino para a parte superior do corpo. Se ele se afastasse de
sua rotina de exercı́cios, começaria a perder peso muito rá pido e nã o
gostaria disso. Isso o lembrou demais de quando era mais jovem,
desajeitado e extremamente estranho. Ele ainda pode ser estranho de
vez em quando, mas nã o desajeitado. Ele treinou seus mú sculos com
horas e horas de prá tica.
Como sempre, ele entrou em sua sala e ocupou o lugar na má quina
adequada. Enquanto ele fazia levantamentos acima da cabeça de 125
libras, ele estava ciente de Esme entrando na cozinha, servindo-se de
um pedaço de fruta que sua mã e havia fornecido e pegando um copo de
á gua, que ela esqueceu no balcã o, mas ele continuou concentrado e
trabalhou e icientemente atravé s de cinco sé ries de cinco repetiçõ es.
No momento em que terminou com os bı́ceps, ele havia perdido o
controle do paradeiro de Esme, mas estava tudo bem. Ela era adulta. Ela
nã o precisava ser supervisionada. Ele começou suas repetiçõ es de
barra, sempre cinco sé ries de dez.
Um, dois, três…
Ele costumava odiar barra, mas agora que ele icou bom com isso, ele
gostava dela. Ele tinha o tempo da respiraçã o e o puxar dos braços
perfeitamente sincronizados.
Quatro, cinco, seis…
Se ele tentasse, provavelmente seria capaz de fazer um nú mero
ridı́culo deles antes que seu corpo doesse, especialmente se ele nã o
tivesse o peso de cinco quilos preso à cintura.
Sete, oito, nove...
Um movimento fora da janela chamou sua atençã o, e ele congelou
com os pé s pendurados acima do chã o. Esme estava em seu quintal,
cabelos em um rabo de cavalo, vestindo calças folgadas de estampa
loral - aquelas eram calças Hammer? - e uma camiseta branca sem
nenhum maldito sutiã por baixo. Seus seios balançavam gratuitamente
enquanto ela cortava uma á rvore com... uma das facas de cozinha
japonesas dele.
Seus pé s atingiram o tapete com um baque forte, e ele estava
vagamente consciente de como tinha sorte por nã o ter se machucado
com o peso pendurado entre as pernas. Ainda assim, ele nã o conseguia
desviar os olhos da janela.
Oh inferno, era o cutelo. Ela estava cortando uma á rvore com um
cutelo. Ele duvidava que o trabalho com madeira fosse um dos usos
pretendidos pela faca, mas, como esperado da maioria dos produtos
criados por engenheiros japoneses, a faca excedia as expectativas. E ele
podia ver seus mamilos escuros atravé s da blusa transparente.
Ele nã o poderia ser a ú nica pessoa que consideraria isso
absolutamente desconcertante. Era excitante e fascinante, mas
assustador, já que ela estava armada, e també m um pouco frustrante
porque ela estava readaptando com tanta força os seus inos utensı́lios.
Ele marchou para a janela, abriu-a e perguntou: — Por que você está
cortando a á rvore? — Com um cutelo.
Ela puxou o cutelo do estreito tronco da á rvore e sorriu para ele como
se tudo isso fosse perfeitamente normal. — Estou limpando um pouco.
Seus lá bios trabalharam sem emitir nenhum som antes de inalmente
dizer: — Você nã o precisa.
— Estou melhorando o quintal. Você verá .
Mas ele nã o se importava com o que o quintal parecia. Nã o, isso nã o
estava certo. Ele se importava um pouco. Apenas o su iciente para que
ele obtivesse um prazer perverso de irritar seus vizinhos com seu
exterior e gramado em ruı́nas. Ele estava prestes a começar a consertar
as coisas, mas a velha senhora do outro lado da rua, Ruthie, havia lhe
enviado esta carta, ameaçando levá -lo ao tribunal civil se ele nã o izesse
sua casa se encaixar melhor com o bairro.
Ele faria quase qualquer coisa se algué m pedisse com educaçã o –
exemplo sua situaçã o atual, em que uma mulher com uma faca estava
coabitando com ele – mas se o ameaçassem... Ele e Ruthie estavam
travando uma batalha silenciosa, e ele iria esmagá -la. Nã o importava
que ela tivesse cem anos de idade.
Esme deu ao caule mais uma pancada só lida, e o tronco se partiu em
dois. O topo frondoso da á rvore caiu no chã o e ela segurou o cutelo com
orgulho, dizendo: — Eu sou boa com facas.
Ele se afastou da janela lentamente.
Em que nú mero ele estava? Ele nã o tinha ideia, entã o ele começou de
volta no começo.
Um, dois, três...
Esme pousou a faca e se inclinou para transportar a á rvore caı́da, e
suas calças esticaram sobre sua bunda da maneira mais sedutora. Nã o
deveria ser sexy. Ele estava absolutamente certo de que eram calças
Hammer agora. Mas seu pê nis nã o se importava. Ele endureceu e
pressionou contra seu short de treino.
Ele balançou a cabeça e se esforçou para se concentrar. Mente fora do
pê nis. Mente fora do pê nis. Ele poderia fazer isso. Regra nú mero seis,
caramba.
Quatro, cinco, seis...
A á rvore deve ter se agarrado a alguma coisa porque ela começou a
puxá -la, e sua bunda perfeita tremia nas calças Hammer como em um
videoclipe da Beyonce. Khai a encarou, apanhado impotente na
excitaçã o mais confusa de sua vida.
Quando a á rvore se soltou, ela cambaleou alguns passos para trá s e a
arrastou para o outro lado do quintal. Ela encontrou uma pá de algum
lugar - ele nã o sabia onde; ele nã o sabia que possuı́a uma pá - e voltou a
jogá -la na terra, na base do tronco recé m-cortado. Seus seios saltaram e
o suor brilhava em seu rosto avermelhado antes que ela o limpasse com
as costas do braço.
Ocorreu-lhe que talvez ele devesse estar ajudando em vez de observá -
la como pornogra ia de paisagista. Você nã o deveria deixar as mulheres
fazerem qualquer tipo de trabalho manual. Ele també m pode
acrescentar isso à s Regras. Mas ele já havia dito que ela nã o precisava
fazer isso. Se as mã os dela desejavam cultivar o solo do Vale do Silı́cio,
que direito ele tinha para roubar sua alegria? Alé m disso, ele era
iloso icamente contrá rio, com sua briga com Ruthie e tudo.
Ele desviou os olhos e voltou à s suas lexõ es. Foco. Mente fora do
pê nis.
Um, dois, três...
Ela se inclinou, fazendo as calças esticarem sobre a bunda novamente,
e um gemido retumbou em seu peito. Depois de tirar uma pedra da
terra e jogá -la de lado, ela voltou a trabalhar com pá .
Um, dois, três…

•••

C om cada incada da pá na terra seca, a determinaçã o de Esme


cresceu. Ela acordou esta manhã com seu novo telefone colado no rosto
e um cobertor sobre ela. Ele a cobriu enquanto dormia. Era uma coisa
pequena a se fazer, mas a sala estava fria. E se ela tivesse icado
doente? Foi um sinal. Ele nã o era perfeito de forma alguma, mas era
perfeito para ela. E para Jade. Ela faria o possı́vel para se casar com ele.
Seu nome, Khai, signi icava vitória, mas a maneira como ele disse o
nome, liso e sem sotaque, signi icava abrir. Era exatamente o que ela
precisava fazer. Ele estava fechado e ela teria que o abrir. Na experiê ncia
dela, quando você queria abrir alguma coisa, você limpa primeiro, para
poder ver com o que está lidando e depois trabalha muito. Esme nã o
era ó tima em muitas coisas, mas era boa em limpar e trabalhar
duro. Ela poderia fazer isso. Talvez ela tivesse sido feita para isso.
Ela começaria ajeitando o quintal de Khai. Entã o ela iria para a casa
dele. Por ú ltimo, a vida dele. Ele disse que nã o estava descontente com
nada, mas isso era mentira, se ela alguma vez tivesse ouvido uma. Por
algum motivo, ele construiu um muro grosso em torno de si. Ela ia
derrubá -lo como derrubou a á rvore e entraria no coraçã o dele.
Com isso em mente, ela limpou o quintal até o sol estar alto no
cé u. Entã o ela entrou para almoçar com ele e seduzi-lo sutilmente, ou
nã o tã o sutilmente.
Mas ele se foi.
Ele a abandonou sozinha nesta casa sem uma palavra.
CAPÍTULO SEIS

Quando o alarme de Khai tocou na manhã seguinte, ele o desligou,


sentou-se e encarou seu quarto com os olhos turvos. Ele passou o
domingo no escritó rio para escapar dela, mas entã o ela invadiu seus
sonhos. Ele teve sorte se conseguiu dormir umas trê s horas. Fantasias o
atormentaram a noite toda. Sexuais. Apresentando um certo par de
calças Hammer.
Ele estava o icialmente enlouquecendo, e olhe para essa ereçã o
monstruosa. Seu pau estava tã o duro que estava levantando o edredom
pesado por conta pró pria. Ele precisava cuidar disso, mas como fazer
isso com outra pessoa do outro lado da porta? E se ela entrasse no meio
da atividade? Nenhuma das fechaduras funcionava nesta casa. Isso
nunca tinha sido um problema até agora.
Andando com o pau apontando para a frente como a agulha de uma
bú ssola, ele foi ao banheiro, acendeu a luz e abriu a gaveta da pia onde
guardava a escova e a pasta de dente. Nã o estavam lá . Ele puxou a
gaveta totalmente, mas elas nã o rolaram dos fundos. Ele sabia que as
colocara de volta ontem à noite. Ele sempre colocava de volta.
Ele estava tendo alucinaçõ es? Ele estava no meio de um pesadelo? Ou
alguma pessoa realmente estranha roubou seus produtos de higiene
bucal? Por que algué m-
Sua escova e sua pasta de dente haviam sido colocadas no balcã o ao
lado torneira e perto de um copo da cozinha. Que diabos?
Esme deve ter feito isso.
Ele pegou a escova de dentes, apertou a pasta de dente e a en iou na
boca. Enquanto ele escovava, ele olhou ao redor do banheiro. Ela deve
ter se levantado ao amanhecer, porque havia novos detalhes por toda
parte. Nã o estava assim ontem à noite. Sua caixa de lenços de papel
havia sido girada para que os lados nã o icassem mais paralelos à s
paredes e o tecido que saı́a da caixa era dobrado em um triâ ngulo
arrumado. As toalhas penduradas nas prateleiras foram reorganizadas,
de modo que foram dobradas em trios com uma toalha de mã o e um
pano menor em cima. Era bonito, mas como isso era prá tico? Mal se
impedindo de rosnar, ele virou a caixa de lenços de papel de volta ao
que era antes, os lados paralelos à s paredes.
No chuveiro, ele acidentalmente condicionou o cabelo antes de lavá -
lo, porque ela trocou a localizaçã o das embalagens, e ele teve que
condicionar o cabelo pela segunda vez, o que era extremamente
desagradá vel. Ao sair, ele pegou sua toalha de banho e acabou
espalhando as menores pelo chã o. Ele se inclinou para pegá -las e bateu
a cabeça no toalheiro ao levantar.
Quando inalmente conseguiu se vestir e sair do quarto, ele estava
bagunçado, irritado e, possivelmente, sofrendo de uma concussã o. Ele
entrou na cozinha e o cheiro o envolveu
imediatamente. Pungente. Frutos do mar. Tã o forte que o
assustou. Esme estava no fogã o, jogando molho de peixe em uma panela
fervente de sopa enquanto limpava distraidamente um derramamento
no fogã o com uma toalha molhada.
Por um momento atordoado, ele esqueceu tudo sobre a fumaça do
molho de peixe queimado. Ela estava vestindo uma camiseta - e nada
mais. Uau, essas pernas...
Ela sorriu para ele por cima do ombro.
— Oi, Anh Khai.
Sua alegria o tirou de seu estado atordoado, e o forte cheiro de molho
de peixe desceu sobre ele mais uma vez. Tã o potente. Sim, tudo parecia
bom, mas quem queria cheirar isso o dia todo? E o nome dele, ela
continuava dizendo dessa maneira.
Ela lhe lançou um olhar intrigado quando ele abriu todas as janelas e
a porta de vidro deslizante do quintal e ligou o exaustor sobre o fogã o
també m.
— O cheiro está exalando — explicou ele.
— Que cheiro?
Ele piscou uma vez, duas vezes. Ela nã o percebeu? Estava em todo
lugar. Ele imaginou que estava sendo absorvido pela tinta nas paredes
neste exato momento.
— O molho de peixe? — Ele apontou para a garrafa alta na mã o dela
com uma lula no ró tulo.
— Oh! — Ela colocou no balcã o e limpou as mã os desajeitadamente
no pano de prato molhado. Depois de um momento tenso, ela passou
por ele para abrir o armá rio ao lado dele. — Eu já iz café .
Ela se esticou na ponta dos pé s para pegar a caneca da prateleira do
meio, e a barra de sua camisa subiu, revelando as bochechas
perfeitamente redondas de sua bunda e sua calcinha branca.
Seu pau se pressionou contra o zı́per da calça, lembrando-o de que ele
havia pulado uma parte importante de sua rotina matinal por dois dias
seguidos agora. Apó s o incidente de paisagismo ontem, estranhamente,
fazia sentido que Esme pudesse causar uma concussã o, um cheiro
avassalador e bolas azuis ao mesmo tempo. O decote largo da blusa dela
deslizou para o lado e revelou um dos seus ombros graciosos, e ele
respirou profundamente, o ar carregado de molho de peixe. Azuis e
icando roxas.
Ela pegou uma caneca, serviu café e a estendeu, sorrindo para ele por
cima da borda, os olhos verdes brilhando. Cabelos castanhos escuros e
despenteados coroavam seu rosto em forma de coraçã o.
— Para você .
Ele aceitou a caneca e tomou um gole.
— Bom? — Ela perguntou.
Ele assentiu, mas na verdade nã o fazia ideia de como era o sabor. Seus
sentidos estavam sobrecarregados. Pelo molho de peixe em chamas. E
por ela. Espuma do mar, ele decidiu. Nã o o sabor do café , mas o tom dos
olhos dela. Espuma do mar verde.
O sorriso dela aumentou, mas depois de um momento ela icou
confusa e colocou o cabelo atrá s da orelha.
— Por que você está olhando assim para mim?
— Como assim?
— Assim, por bastante tempo — disse ela.
— Oh. — Ele desviou o olhar e tomou outro gole de café para se dar
algo para fazer. Ele ainda nã o sentia o gosto. — Eu esqueço que à s vezes
as pessoas icam desconfortá veis. — Ele nã o tinha o senso, que a
maioria das pessoas possuı́a, que lhes dizia quando o contato visual era
su iciente; portanto, se ele nã o estava prestando atençã o, poderia
facilmente ser muito tempo - ou quase nada. Ele limpou a garganta. —
Vou tentar melhorar.
Parecia que ela ia dizer alguma coisa, mas girou e se ocupou
colocando sopa em uma tigela de macarrã o grosso de arroz, que a mã e
dele havia feito à mã o - bánh canh - com cebolinha, cebola frita,
camarã o e tiras inas de porco. Quando terminou, levou a tigela para a
mesa da cozinha e colocou-a ao lado de um prato de manga fatiada e
outras frutas sortidas. Puxando uma cadeira, ela disse:
— Para você .
Ele se aproximou da mesa e olhou para a comida.
— Eu nã o como frutas. — E era um dia de trabalho. A rotina era:
barra de proteı́nas, beber um copo de á gua, correr para o trabalho,
tomar banho no vestiá rio, trocar de roupa e estar em seu escritó rio em
menos de uma hora. Mas hoje ele teria que levar Esme ao restaurante
primeiro, e agora havia toda essa comida que algué m tinha que
comer. Ainda por cima, ele realmente odiava ter algué m esperando por
ele.
Droga.
Ele teria que lidar com isso por mais trê s meses. Trê s meses inteiros
dela em sua vida, dobrando seu lenço de papel e causando bolas azuis,
confusã o, concussõ es e... frutas.
— Frutas sã o boas para você . — Ela insistiu.
— Eu tomo um multivitamı́nico.
— Uma fruta é melhor do que uma vitamina.
Ele balançou a cabeça e sentou-se quando tudo o que ele queria era
sair correndo e começar o dia. Ele deveria ganhar um prê mio por
demonstrar essa quantidade de autocontrole. Uma santidade. Melhor
ainda, um capuz de cavaleiro.
Sir Khai, CPA.
Ela pegou a cadeira em frente a ele e colocou um copo de á gua sobre a
mesa, embora houvesse outro em cima do balcã o, mas em vez de se
sentar de maneira regular, ela dobrou uma perna embaixo de si mesma
e abraçou a outra no peito, esperando.
— Você nã o vai comer? — Ele perguntou.
— Eu já comi.
Entã o... ela só iria vê -lo comer? E as pessoas chamavam ele
de estranho.
Ele comeu uma colher cheia de macarrã o no ponto certo e sopa
saborosa. Estava mais salgado do que o normal, pois ela acrescentara
mais molho de peixe, mas estava bom. Ele nã o tinha o há bito de tomar
sopa no café da manhã . Quando ele olhou para ela, ela apertou os lá bios
e apontou para uma das fatias de manga.
Porra, inferno. Ele nã o tinha dois anos de idade. Por que isso estava
acontecendo com ele? Soltando um suspiro, ele pegou a manga e deu
uma grande mordida.
A extrema acidez explodiu em sua boca, e ele se encolheu quando um
tremor percorreu seu corpo. Bla-bleh-gahhh.
Ela começou a rir e ele a encarou horrorizado.
Como isso foi engraçado? Ele nã o parava de tremer enquanto lutava
para engolir a boca cheia de á cido cı́trico puro. Merda, seus olhos
estavam lacrimejando.
Ela estudou suas feiçõ es e disse:
— Desculpe. Está um pouco azedo.
Porra, sim, está azedo.
Sem dizer uma palavra, ele tomou um gole de sua caneca de café ,
estremeceu novamente e tomou outro gole de café . Ugh.
Essa era a vida dele agora. A vida dele era um inferno.
— Desculpe, eu gosto de azedo — disse ela com uma careta de
desculpas. — E bom com sal e pimenta.
Ele estendeu sua fatia de manga pela metade.
— Você gosta disso?
Ela o arrancou dos dedos dele e a mordeu com total desconsideraçã o
pela transferê ncia de germes. Ela nã o se importava com bacté rias ou
doenças? Ela poderia muito bem tê -lo beijado - um pensamento
completamente perturbador. Sorrindo com iapos de manga presos
entre os dentes brancos, ela disse:
— Deliciosa.
Ele piscou e terminou seu macarrã o e sopa. Com esse nı́vel de
tolerâ ncia a á cidos, seu interior provavelmente era corrosivo o
su iciente para digerir um ilhote de foca inteiro. A natureza à s vezes
era aterrorizante.
Ela o ajudou a comer o resto da sua fruta. De jeito nenhum ele a
tocaria novamente. Depois que eles limparam, ela correu para o quarto
e voltou trinta segundos depois, vestindo uma camiseta branca e calça
preta, cabelos presos em um rabo de cavalo.
Depois de passar pela escola para adultos e entrar no estacionamento
em frente ao restaurante de sua mã e, ele absteve-se de bater os dedos
no volante enquanto Esme pegava suas coisas, soltava o cinto de
segurança e lentamente saı́a do carro. Assim que ela fechou a porta, ele
colocou a marcha à ré . Finalmente, ele poderia ir.
Mas ela deu a volta para o lado dele e fez um gesto para ele abrir a
janela, o que ele fez, mesmo que nã o quisesse. O que agora, o que agora,
o que agora?
Encontrando os olhos dele, ela disse: — Obrigada por me trazer. E
sobre icar olhando... — Seus lá bios se curvaram num sorriso quase
tı́mido. — Você pode me olhar o tempo que quiser. Eu nã o me
importo. Tchau, Anh Khai.
Ela se virou e caminhou em direçã o à porta da frente do restaurante,
seu rabo de cavalo balançando a cada passo. Ele estava livre, mas
deixou o carro parado lá . Ele ainda tinha dormido pouco, ainda
completamente fora de rotina e irritado como o inferno, sua cabeça
ainda doı́a e suas bolas ainda estavam azuis.
Mas algo dentro dele afrouxou, e ele nã o se importava tanto com o
jeito que ela dizia seu nome agora. Ele esperou até a porta do
restaurante fechar atrá s dela antes de ir embora.

•••

— Aqui, aqui — disse Cô Nga no segundo em que Esme entrou pela
porta, acenando da cabine onde ela estava enchendo os pimenteiros. —
Venha sentar e me conte tudo.
Esme deslizou para dentro da cabine de couro vermelho e lançou um
rá pido olhar ao redor do restaurante, contemplando as paredes
alaranjadas, as cabines vermelhas, as mesas pretas, o grande tanque de
peixes na traseira e os aromas familiares de
comida. Surpreendentemente, alé m dos estandes, o restaurante nã o era
tã o diferente daquele que você encontraria no Vietnã . Ela sentiu como
se tivesse voltado para casa.
Aqui, o cheiro de molho de peixe era bem-vindo. Ela levou uma mecha
de cabelo ao nariz e inalou, mas nã o detectou nada. Ela se lavou na
noite passada. Ela estava limpa. Mas um constrangimento
desconfortá vel permaneceu quando ela se lembrou da maneira como
ele abriu todas as janelas e a porta para dissipar um cheiro que ela nã o
notou.
Cô Nga ergueu os olhos do pimenteiro. — Como vã o as coisas?
Esme deu de ombros e sorriu.
— E muito cedo para dizer.
— Ele está sendo difı́cil? — Perguntou Cô Nga. — Eu preciso falar
com ele? Ele prometeu tratá -la como uma noiva.
Esme balançou a cabeça rapidamente. — Nã o, ele tem sido
bom. Comemos juntos esta manhã e... — Ela pensou em dizer a Cô Nga
que seu ilho a abandonara em sua casa o dia todo ontem, mas ela nã o
tinha coragem.
Cô Nga levantou as sobrancelhas. — E o que mais?
— Nada mais. — Esme pegou o grande recipiente de pimenta de Cô
Nga e continuou enchendo os pimenteiros de onde ela havia parado.
Depois de um tempo, Cô Nga disse: — Existe um segredo para lidar
com meu Khai.
— Um segredo?
— Ele nã o fala muito e é muito inteligente, entã o as pessoas pensam
que ele é complicado, mas, na verdade, ele é simples. Se você quer algo
dele, tudo o que você precisa fazer é contar a ele.
— Apenas contar a ele? — Esme nã o conseguiu esconder o ceticismo
de sua voz.
— Sim, apenas diga a ele. Se ele estiver quieto demais, diga a ele que
você quer que ele fale com você . Se você está entediada em casa, diga a
ele que deseja ir a algum lugar com ele. Nunca assuma que ele sabe o
que você quer. Porque ele nã o sabe. Você precisa contar a ele, mas,
quando o izer, nove em cada dez vezes, ele ouvirá . Ele nã o parece ser
assim na maioria das vezes, mas se preocupa com as pessoas. Até com
você .
Esme considerou a expressã o sé ria no rosto da mulher. Cô Nga
acreditava no que estava dizendo. — Eu... sim, Cô .
Cô Nga sorriu e apertou o braço de Esme. — Agora, deixe-me mostrar
o lugar a você , para que você possa trabalhar.

•••

No momento em que o agitado almoço acabou, ela estava lutando


contra as lá grimas. Ela nã o se importava em levantar pesos ou icar de
pé - ela era tã o forte quanto um bú falo-asiá tico - mas tinha esquecido
que ser garçonete exigia conversar. Muitas vezes, em inglê s. Isso foi
outra coisa que ela teve que fazer, alé m de ser um bú falo-asiá tico. As
pessoas tinham lançado olhares impacientes enquanto ela se esforçava
para falar, um cliente gritou com ela, outro zombou abertamente, e ela
queria se trancar no banheiro e se esconder pelo resto da semana.
Ela empilhou pratos sujos na pia. Limpou, limpou e limpou a
mesa. Foi para a pró xima. Tentou esvaziar a mente e se concentrar no
trabalho.
Até que ela se lembrou de que tinha se confundido com o pedido
dessa mesa. Ela correu para o supermercado no inal da rua para
comprar uvas, apenas para saber que eles disseram crepes, que
era bánh xèo. Que erro embaraçoso. Quem pediria uvas em um bom
restaurante como este? Ela deveria ter usado a cabeça. Os olhos dela
lacrimejaram e ela piscou furiosamente.
Não chore.
Quando o ú ltimo cliente saı́sse, ela comeria essas uvas e riria de tudo
isso.
Louça suja na pia. Limpe, limpe, limpe a mesa. Prossiga para-
Crash! Ela esqueceu de olhar para onde estava indo, e seu quadril
derrubou uma cadeira. Com sua pé ssima sorte, as coisas do ú ltimo
cliente estavam nela, e agora os papé is estavam espalhados por todo o
chã o.
— Desculpe, desculpe! — Disse ela rapidamente e se ajoelhou. Mas
uma vez que ela estava lá , pequena, a tarefa parecia esmagadora. Havia
papé is por todo o lado, embaixo de mesas e cadeiras. Uma folha estava
do outro lado do restaurante. Foi demais. Seu quadril latejava e sua
cabeça doı́a, e ela queria gritar, mas nã o conseguia respirar.
— Chega, nã o se preocupe com eles — disse uma voz em vietnamita
culta.
Antes que ela percebesse, os papé is estavam todos reunidos e ela
estava sentada à mesa, uma vaga lembrança em sua mente de mã os
irmes que a guiaram até o assento e uma xı́cara de chá nas mã os.
— Beba devagar — disse a cliente, sentando-se em frente a ela e
olhando-a com olhos gentis.
Esme tomou um gole, achando o chá de jasmim morno, granulado e
amargo, como eram os restos da jarra. Ainda ajudou a acalmá -la, no
entanto. Ela bateu no rosto com as costas da mã o, esperando sentir a
umidade das lá grimas, mas nã o havia nada alé m de sua pró pria pele
quente. A senhora a pegou antes que ela desabasse.
— Como regularmente aqui e nunca vi você antes de
hoje. Provavelmente é o seu primeiro dia. — disse a cliente. Pelo jeito
dela, ela tinha vinte anos ou mais do que Esme. Com o cachecol leve em
volta do pescoço, os ó culos de sol na cabeça e o vestido de verã o da
moda, a senhora exalava so isticaçã o, embora talvez nã o riqueza.
Esme assentiu, sentindo-se entorpecida.
— Você acabou de atravessar, nã o foi?
Nã o havia necessidade de esclarecer o que ela havia atravessado ou
onde estava antes. Esme simplesmente assentiu novamente. Com a
forma como a hora do almoço tinha passado, tinha que ser
dolorosamente ó bvio que ela era nova no paı́s.
A senhora estendeu a mã o sobre a mesa e apertou a mã o de Esme.
— Fica melhor com o tempo. Eu era muito parecida com você quando
cheguei.
Esme quase disse a ela que só estava garantida por um verã o, mas
pensou melhor. Ela nã o queria explicar as coisas e mudar a gentileza
dessa mulher para julgamento. E que tipo de impressã o ela estava
causando, sentando e tomando chá quando estava no trabalho? Ela se
levantou e, enquanto continuava limpando as mesas de onde havia
parado antes, disse: — Obrigada, Cô . Sinto muito pelos papé is.
— Meu nome é Quyen, mas me chame de Senhorita Q. E assim que
meus alunos me chamam.
— Você é professora?
A Senhorita Q mostrou os papé is que reunira do chã o.
— Isso mesmo. Este é o dever de casa dos meus alunos. — Entã o seu
rosto se iluminou e ela disse: — Você poderia participar da minha
aula. Eu ensino inglê s à noite. A turma de verã o acabou de começar.
Esme respirou surpresa, e sua toalha congelou na metade do caminho
para o rosto. Sua primeira reaçã o foi excitaçã o. Ela adoraria ir à escola
novamente, e seria tã o bom nã o ter vergonha quando falasse com os
clientes e...
Nã o, ela disse a si mesma com irmeza. As noites nã o eram para a
escola. Elas eram para seduzir Khai. Alé m disso, era melhor economizar
o dinheiro para Jade. Foi para isso que ela veio, a inal. Para Jade (e para
arrumar um pai para ela). Nã o para Esme. Ela nã o podia justi icar o
gasto se era apenas para se fazer feliz.
— Eu nã o preciso disso — disse ela inalmente. — Eu posso me virar.
Um sorriso educado tocou os lá bios da Srta. Q antes de colocar uma
nota de dez dó lares sobre a mesa, arrumar suas coisas e levantar.
— Adeus entã o. Se você mudar de ideia, a escola para adultos ica do
outro lado da rua. — Ela apontou pela janela para o pré dio branco e
pequeno do outro lado da rua movimentada e saiu.
Quase melancolicamente, Esme observou-a atravessar a rua sem usar
a faixa de pedestres. Ela nã o notou a folha perdida do outro lado da sala
até que a mulher desapareceu na escola.
Esme foi pegar o papel e o encontrou preenchido com um texto
escrito à mã o por uma pessoa chamada Angelika K. Ela começou a ler e
continuou lendo, e icou lá como uma está tua até terminar a coisa
toda. Entã o ela olhou pela janela para a escola.
Angelika K. estava indo para a escola para bene iciar algué m? Ou ela
estava indo só porque queria?
CAPÍTULO SETE

P ela semana seguinte, houve uma nova rotina seguida por Khai. De
manhã , tomavam café da manhã . Khai comeu tudo o que Esme o deu, e
ela se alegrou com frutas tropicais. Eles foram trabalhar e ele a pegou
por volta das seis da noite. Essa era a hora mais movimentada do
restaurante, mas a mã e dele insistiu que ela tinha tudo sob
controle. Khai suspeitava que ela só queria que ele e Esme jantassem
juntos.
Nã o era um romance à luz de velas ou algo assim, entã o ele nã o sabia
por que sua mã e se incomodava. Na maioria das vezes, aqueciam os
recipientes da geladeira e comiam como catadores. Outras vezes, Esme
cozinhava, e ele tinha que ligar o exaustor e abrir todas as janelas para
desabafar o cheiro. Enquanto eles comiam, Esme fez comentá rios
estranhos sobre trabalho, eventos atuais e quaisquer coisas aleató rias
que estavam acontecendo em sua cabeça, e ele tentou ignorá -la, quase
sem sucesso. Depois do jantar, ele se exercitou e assistiu TV em volume
baixo enquanto trabalhava em seu laptop. Ela usou o tempo para
atormentá -lo de maneiras novas e criativas.
Na terça-feira, Khai encontrou suas meias arrumadas e empilhadas na
gaveta como charutos. Na quarta-feira, ela colocou pop vietnamita no
má ximo em seu telefone, enquanto separava os alimentos da despensa
por cor, tornando impossı́vel para ele se concentrar na TV ou qualquer
coisa, na verdade. Na quinta-feira, ela limpou os rodapé s, vestindo
aquela camiseta grande demais, sem sutiã e um par de cuecas dele. Elas
eram suas cuecas, pelo amor de Deus, nã o shorts, e elas nem se
encaixavam nela. Elas caı́ram de sua cintura tantas vezes que poderia
muito bem ter andado de calcinha.
Quando sexta-feira chegou, ele estava tendo fantasias de embarcá -la
no pró ximo aviã o de volta ao Vietnã . Ele nã o conseguia encontrar nada
em sua casa, ele nã o estava dormindo e estava tã o sexualmente
frustrado que seus molares doı́am. Ele consideraria seriamente
suborná -la para sair se nã o fosse por sua mã e e suas ameaças. De jeito
nenhum ele faria isso uma segunda vez.
No inal da noite de sexta-feira, ele estava na cama, olhando para o
teto escuro e imaginando Esme acenando alegremente para ele do
meio- io do aeroporto enquanto ele se afastava, quando a porta do
banheiro, que ligava os quartos, se abriu. O brilho suave da luz noturna
do banheiro se espalhou pelo quarto dele, lançando uma luz fraca no
rosto cheio de lá grimas de Esme quando ela tropeçou no pé da cama
dele.
Ele se sentou e tirou os cabelos do rosto. — Você está bem? O que...
Ela rastejou pela cama e foi direto para o colo dele. Os braços dela
envolveram o pescoço dele, e ela tremeu enquanto o segurava com
força. Respirando rá pido e irregularmente, ela pressionou o rosto
molhado no pescoço dele.
Ele se manteve tã o rı́gido quanto um manequim. Que diabos ele
fez? Ele tinha uma mulher chorando agarrada a ele como um polvo. Ele
nã o pô de deixar de lembrar que o polvo de ané is azuis era um dos
animais mais venenosos que existia.
Não perturbe o polvo.
Depois de pigarrear, ele perguntou: — O que há de errado? O que
aconteceu?
Ela o abraçou com mais força, como se estivesse tentando rastejar
direto para dentro dele. Ele estava tã o acostumado a manter as pessoas
afastadas que mal sabia o que fazer com algué m tã o
pró ximo. Felizmente, esse tipo de toque irme era aceitá vel - ele gostava
de propriocepçã o e pressã o profunda. Mas a umidade quente
encharcou sua pele nua, perturbando-o. Lá grimas, nã o neurotoxina
mortal, ele lembrou a si mesmo.
— Eles a tiraram de mim — disse ela contra o peito dele. Ele nã o
sabia por que assumiu que era ela. Os pronomes nã o eram do gê nero
em vietnamita, entã o ela poderia muito bem estar falando dele. Nã o
havia uma boa razã o para que ele nã o gostasse de Esme chorando por
um homem. Seu tremor piorou quando um soluço saiu de sua garganta.
— Quem levou quem?
— O pai dela e a esposa dele.
Ok, isso nã o fazia sentido. Ele tinha noventa e nove ponto nove por
cento de certeza de que ela teve um pesadelo. Fazia muito tempo desde
que ele teve pesadelos - embora inconvenientes, fantasias sexuais nã o
se quali icam como pesadelos - mas quando costumava ter, apenas uma
coisa o fazia se sentir melhor. Ele fechou os braços em volta dela e a
abraçou.
Um suspiro irregular aqueceu seu peito, e ela caiu contra ele com um
murmú rio. Quase instantaneamente, seu tremor desapareceu. Um tipo
incomum de satisfaçã o se espalhou por ele, melhor do que divisõ es
perfeitas de tempo ou quantias inteiras em dó lares no posto de
gasolina.
Ele tirou a tristeza dela. Ele geralmente fazia exatamente o oposto nas
pessoas.
Por longos minutos, ele continuou abraçando-a, pensando que ela
precisava de tempo para a calma permanecer. Mas talvez ele gostasse
de abraçá -la també m. Lá , na escuridã o pró xima do quarto, era aceitá vel
admitir para si mesmo que ela era macia e cheirava bem, como o sabã o
dele, mas feminino, macio, sem molho de peixe. Ele gostou do peso do
corpo dela no dele. Ela era melhor que trê s cobertores pesados. Ele
poderia ter apoiado a bochecha na testa dela.
Sua respiraçã o se igualou e suas fungadas icaram cada vez mais
distantes até que parassem completamente. Ela se mexeu um pouco no
colo dele, e ele percebeu que estava excitado, loucamente e de maneira
constrangedora. Merda. Se ela se mexesse mais, perceberia com certeza.
— Você terminou? — Ele perguntou.
Ela se afastou e saiu do colo dele, felizmente nã o percebendo sua
ereçã o furiosa, e ele esfregou o peito onde suas lá grimas secaram.
Um longo silê ncio se seguiu. Ela começou a falar vá rias vezes, mas se
conteve. Finalmente, ela sussurrou: — Posso dormir aqui esta
noite? Em casa, durmo com Má e Ngoai e... nã o vou tocar em você ,
prometo. A menos que você queira... — Os olhos dela brilharam
misteriosamente enquanto ela o olhava.
A menos que ele quisesse o que? Espera, ela quis dizer sexo? Nã o, ele
nã o queria sexo. Na verdade, ele queria. Seu corpo estava entusiasmado
com a ideia. Mas mente fora do pê nis e tudo isso. O sexo estava
embaraçado com relacionamentos româ nticos em sua mente, e porque
ele nã o era adequado para relacionamentos, fazia sentido evitar o
sexo. Alé m disso, tocar era complicado para ele. Abraços estavam bem,
mas qualquer outra coisa provavelmente seria um problema. Já era
ruim o su iciente ele ter que dar instruçõ es ao seu cabeleireiro sobre
como fazer o corte. Ele nã o queria fazer isso com uma mulher antes do
ato.
Ele olhou para a metade vazia de sua cama grande. Os cobertores
estavam completamente intactos, intocados. E ele gostava deles dessa
maneira. Ele sempre sentia uma certa realizaçã o quando acordava de
manhã e nã o precisava ajeitar o outro lado da cama.
Esfregando o cotovelo, ela se afastou dele. Em voz baixa, ela disse: —
Desculpe, eu vou...
Ele puxou os cobertores para baixo. — Você pode dormir aqui, eu
acho.
Droga, o que ele estava fazendo? Ele nã o a queria compartilhando sua
cama. Mas ela parecia que ia começar a chorar novamente. Ela nã o
deveria estar triste. Esme estava sempre feliz, sempre sorrindo.
Ela cobriu a boca. — Sé rio?
Ele afastou os cabelos da testa. Essa foi uma ideia horrı́vel. Ele já
sabia. — Eu posso roncar.
— Minha avó ronca como uma motocicleta. Isso nã o me incomoda —
ela disse com um grande sorriso.
Lá estava. O sorriso dela. Era importante de alguma forma. Seus
mú sculos relaxaram de uma tensã o que ele nem havia percebido.
Ela se arrastou para debaixo das cobertas e jogou a cabeça no
travesseiro, deitada de lado, de modo que o encarou. Ele se esticou de
costas e olhou para o teto. Eles estavam a uma boa distâ ncia, mas seu
coraçã o ameaçava entrar em parada cardı́aca de qualquer maneira.
Isso foi estranho. Ele tinha feito festas de pijamas com as primas. Isso
nã o era nada disso. Ele nã o estava atraı́do por suas primas. Suas primas
nã o cortavam á rvores com cutelos de carne, usavam sua cueca ou
queriam se casar com ele. Suas primas nã o corriam para ele quando
tinham pesadelos.
Só Esme.
— Obrigada, Anh Khả i. — Disse ela.
Ele puxou os cobertores até o pescoço. — De nada. Tente dormir um
pouco. O casamento da minha prima Sara é amanhã . — Ele franziu a
testa quando percebeu que nunca a mencionara. — Você nã o precisa ir
se nã o quiser, mas eu tenho. Você quer?
— Sua mã e me contou sobre isso. Eu quero ir. — A voz dela vibrou
com emoçã o, e ele quase suspirou. Pelo menos um deles ia se divertir.
— Está bem entã o. Boa noite, Esme.
— Durma bem, Anh Khai.
Por vá rios momentos, ele percebeu que ela o observava. Ele quase
podia sentir os raios de felicidade brilhando sobre ela e saltando contra
o lado do rosto, mas nã o demorou muito para que ela adormecesse. Ela
nã o ronca e nã o ocupa muito espaço. Mas a mera presença dela o
deixou em estado de alarme.
Havia uma mulher em sua cama, sua vida estava completamente fora
de ordem, e havia um casamento amanhã .
Naquela noite, ele nã o dormiu nada.
CAPÍTULO OITO

N a noite seguinte, enquanto Esme e Khai esperavam a cerimô nia


começar no salã o de baile incrustado de ouro do hotel, a ú ltima coisa
que ela esperava que ele dissesse era: — Tê m alguma coisa faltando
nesse casamento.
Ela observou os altos arranjos lorais, lustres de cristal e o ambiente
de palá cio francê s e balançou a cabeça. — Faltando o que?
— Eu pensei que você saberia.
— Eu?
— Eu nã o consigo entender. — Ele limpou a garganta e puxou o
colarinho como se a gravata estivesse muito apertada.
Ela examinou os arredores novamente, mas nada ó bvio se
destacou. Claro, ela nã o tinha ideia do que esperar de um casamento
americano. Ela mal conhecia os casamentos vietnamitas, já que,
pessoalmente, havia pulado essa parte do processo de fabricaçã o de um
bebê . Dizia muito sobre eles o fato de que ele podia pensar em alguma
coisa faltando quando para ela, era o mais perfeito possı́vel.
Uma lautista começou a tocar, e uma menina com lores e tranças
jogou pé talas de rosa no chã o enquanto ela caminhava pelo corredor
entre ilas e mais ilas de homens de terno e mulheres de áo dai e
vestidos coquetel. A noiva usava um vestido de ilme que parecia feito
de nuvens. Ela pegou o braço do pai e caminhou até o altar do
casamento, onde o noivo esperava, observando-a como se ela fosse
tudo.
A garganta de Esme deu um nó e, embora ela tentasse ignorá -lo, seu
desejo cresceu tanto que seu peito doı́a. Ela nã o precisava de mú sica ao
vivo ou um lugar tã o bonito ou um vestido tã o bonito, mas o resto...
No decorrer da cerimô nia, ela se viu assistindo Khai com mais
frequê ncia do que a noiva e o noivo. Ele se concentrou nos votos do
casal com sua intensidade habitual, e ela queria alcançar e traçar as
linhas fortes de seu rosto, qualquer coisa para se sentir mais perto
dele. Eles estavam lado a lado, mas pareciam tã o distantes.
Ele seria dela algum dia? Ele a segurou na noite passada, e ela
desfrutou de sua primeira boa noite de sono desde que
chegou. Nenhum pesadelo sobre o pai playboy de Jade e sua esposa
herdeira pegando Jade ou a culpa de que ela tinha sido egoı́sta ao
manter sua ilha. Ela disse a si mesma repetidamente, que nã o tinha
feito isso apenas por si mesma. Ela tinha feito isso principalmente por
Jade. Porque o amor dela pela ilha era forte o su iciente para fazer a
diferença. Esse amor a trouxe aqui, nã o foi?
Talvez outro tipo de amor pudesse crescer entre ela e Khai. Se ele se
abrisse para ela. Ela sentiu como se estivesse a ponto de alcançá -lo, tã o
perto. Talvez isso aconteça hoje à noite. Talvez quando eles dançarem.
O casal se beijou e a multidã o aplaudiu. Todos se levantaram quando
Sara e seu novo marido passaram, sorrisos enormes em seus rostos. As
câ meras dispararam, as telas dos telefones brilhavam e os balõ es
lutuavam no ar. Um locutor disse que era hora de ir para o salã o de
festas onde aconteceria a recepçã o, e Esme reuniu coragem e passou a
mã o no braço de Khai. Seu corpo icou tenso quando ele olhou para os
dedos dela na manga do casaco. Ela prendeu a respiraçã o, terrivelmente
consciente de quã o despretensiosa sua mã o parecia nele. Aquelas
unhas curtas e dedos deselegantes. Sua mã e tinha boas mã os e muitas
vezes lamentava que Esme nã o as tivesse herdado. Ela disse que Esme
tinha mã os de motorista de caminhã o.
Comentá rios tolos passaram por sua mente, coisas que ela poderia
dizer para fazê -lo sorrir, mas ela nã o disse. Ela estava ansiosa demais
para ser engraçada. No inal, ele nã o relaxou, mas també m nã o a
afastou. Isso era bom, né ?
— Bem, isso nã o é fofo? — Perguntou uma voz feminina em tom seco.
Uma mulher bonita com franja reta, batom em tom natural e um
vestido de coquetel preto severo se aproximou deles, e Khai se afastou
para abraçá -la.
— Oi, irmã ozinho.
— Ei, você .
A mulher afastou um iapo invisı́vel dos ombros de seu traje e o
inspecionou como uma gata fazia com seus ilhotes.
— Você precisa cortar o cabelo.
— Está tudo bem. — Mas Khai afastou o cabelo do rosto de qualquer
maneira.
Estava na ponta da lı́ngua de Esme se oferecer para cortar o cabelo
dele, mas ela engoliu suas palavras. Essas pessoas nã o eram do tipo que
cortavam o pró prio cabelo. A julgar por este lugar e suas roupas de
grife, eles provavelmente iriam a salõ es so isticados, onde receberiam
chá e uma massagem no pescoço.
Os lá bios de Vy se a inaram.
— Está icando bagunçado. A menos que você esteja deixando
crescer. Isso pode icar bem em você .
— Eu vou cuidar disso — disse ele.
Ela tocou a lapela do paletó dele.
— Este é o que eu escolhi para você ?
— Sim.
— Provavelmente é por isso que gostei tanto. — Apaziguada, a
mulher inalmente desviou o olhar de Khai e se concentrou em
Esme. — Entã o aqui está ela.
Esme sorriu timidamente, sem saber o que esperar.
— Oi, Chy Vy.
Vy apertou a mã o dela e retribuiu o sorriso com a mesma hesitaçã o.
— Você é Mỹ. — Seus olhos varreram o minú sculo vestido verde de
Esme e toda a pele exposta, e sua expressã o icou cuidadosamente em
branco.
Esme tentou puxar a barra da saia sem que as pessoas
percebessem. Ela deveria ter usado outra coisa, algo que seria aprovado
pela vovó e que nã o tivesse lantejoulas e glitter baratos, mas nã o sabia
que nã o era aceitá vel até ver todos os vestidos conservadores.
— Eu mudei para Esme quando cheguei aqui.
— Ah, isso é legal — disse Vy em vietnamita lento e desajeitado, o que
sugeria que ela nã o falava com frequê ncia, mas estava tentando para o
bem de Esme.
— E o ilme da Disney favorito da minha f… é o meu ilme favorito —
ela emendou rapidamente, e entã o mordeu o lá bio. Agora que ela havia
explicado isso em voz alta, nã o parecia uma maneira muito elegante de
escolher um nome. Ela precisava ser elegante, como Vy, como Khai,
como todas essas pessoas. — Eu sou uma contadora. Lá no Vietnã .
Um sorriso genuı́no se estendeu sobre a boca de Vy enquanto ela
olhava para o irmã o.
— Eu nã o sabia disso. Que perfeito. — Ela apertou o braço
de Khai como se ele tivesse muita sorte.
O coraçã o mentiroso de Esme torceu e bateu mais rá pido. Os cé us
precisavam derrubá -la agora, porque ela era uma pessoa horrı́vel. Pelo
menos ela tinha uma ideia aproximada do que era contabilidade
agora. Ela andava furtivamente lendo os livros dele já que
supostamente ela era uma especialista, mas, na maioria das vezes,
acabava perdida dentro dos dicioná rios.
— Aqui, aqui, aqui, aqui. A menina preciosa está aqui. — Disse uma
voz familiar.
Quando Cô Nga a envolveu em um abraço apertado, o estô mago de
Esme se amarrou em um grande nó . Será que a mã e de Khai tinha
ouvido Esme mentindo? A mulher tinha vergonha dela agora? Cé u,
terra, demô nios e deuses, por que ela era uma mentirosa tã o
grande? Ela nã o era essa pessoa.
— Olá, Cô Nga. — Disse Esme.
Cô Nga pegou o vestido verde de Esme e sorriu em aprovaçã o, sem se
importar que fosse meio vulgar.
— Você é linda demais. Você gostou da cerimô nia? Você está se
divertindo, preciosa?
— Sim, foi tudo bonito como um sonho, e...
— Você está a chamando assim agora? — Interrompeu Vy —Você
sabe que tem uma ilha, certo?
Cô Nga se afastou de Esme e esfregou o braço de Vy. Ela queria que
fosse reconfortante, mas foi exatamente assim que ela descascou as
cenouras do restaurante.
— Você é minha menina preciosa també m.
Um sorriso apertado que era quase uma careta se estendeu sobre a
boca de Vy.
— Ahn? O que é isso? — Cô Nga acenou com as duas mã os no espaço
entre Esme e Khai — Por que você s dois estã o tã o distantes? Isso nã o
parece um casal de noivos.
Khai revirou os olhos e deu um passo para perto de Esme. — Melhor?
Cô Nga apertou mais as mã os e ele deu outro passo. — Filho, coloque
seu braço ao redor dela.
Ele soltou um suspiro assediado e passou um braço em volta dos
ombros de Esme, puxando-a para perto. Esme sabia que era errado - ele
foi forçado a fazer isso - mas ela gostava dele segurando-a desta
maneira, aqui, entre todas essas pessoas. Isso os fazia parecer um casal
e a ajudou a sentir menos como se estivesse invadindo.
Algué m no meio do salã o chamou Cô Nga, e ela deu um tapinha na
bochecha de Esme.
— Você s se divirtam hoje à noite, viu? Me avise se você precisar de
alguma coisa.
Assim que sua mã e saiu, Khai tirou o braço dos ombros de Esme, e
eles seguiram a multidã o para um segundo salã o de baile ainda mais
dourado que o primeiro. Buquê s enormes com ornamentos dourados
pairavam sobre as mesas em cima de altos vasos dourados. Até as taças
de champanhe estavam cheias de ouro.
Esme, Khai e sua irmã sentaram em uma mesa redonda para dez
pessoas, ao lado de vá rios de seus primos. Apresentaçõ es e
cumprimentos foram feitos. Angie, Sophie, Evie, Janie, Maddie. Eles
reclamaram que seu irmã o, Michael, estaria ausente hoje à noite porque
sua noiva nã o gostava de grandes festas, e ele foi "manipulado". A
primeira vista, Esme reconheceu que eles eram miscigenados como ela
- algo sobre eles soava familiar - mas em vez de sentir como se
pertencesse, ela se sentiu ainda mais deslocada. Eles possuı́am um ar
americano que Esme nã o possuı́a. Eles també m tinham mã os
bonitas. Esme sentou em suas mã os para escondê -las. Nã o seria bom se
Khai també m tivesse mã os feias? Se fosse assim, eles seriam um casal
ideal. Quando ela deu uma espiada nas mã os dele, no entanto, ela as
encontrou enroladas em torno de um livro. Ele estava lendo. Em um
casamento.
E usando ó culos de leitura de aro preto.
Os ó culos izeram com que parecesse mais inteligente e intenso,
absolutamente irresistı́vel. Eles estavam no bolso dele? E de onde esse
livro veio? Era algo sexy como contabilidade ou matemá tica?
Ela inclinou a cabeça para ver a capa. Ela nã o conseguiu entender o
tı́tulo, mas tinha certeza de que viu uma nave espacial e uma criatura de
pele verde com chifres. Nã o havia como se relacionar com o
trabalho. Ele estava ignorando todos, inclusive ela, neste casamento
caro. Para que ele pudesse ler um romance sobre coisas demonı́acas
alienı́genas.
A confusã o dela deve ter estado escrita por todo seu rosto, porque a
irmã de Khai enviou a Esme um olhar de desculpas.
— Ele sempre faz algo desse tipo em casamentos, — disse Vy — ele os
odeia, mas minha mã e o faz vir. Ele preferiria ir a um seminá rio sobre
impostos.
Como má gica, ele ergueu os olhos do livro.
— E os seminá rios iscais?
Vy riu e descansou o queixo nas mã os.
— Você s dois deveriam falar sobre impostos. Você s dois sã o
contadores, a inal. E uma combinaçã o dos cé us.
Esme forçou seus lá bios em um sorriso.
— Conte-me sobre seu trabalho.
Ele fechou o livro com o dedo dentro para manter a pá gina,
parecendo incrivelmente inteligente e lindo com aqueles ó culos.
— Ainda estou trabalhando no projeto de preços de
transferê ncia. Você conhece esse tipo de trabalho?
Ela assentiu com entusiasmo, embora nã o tivesse ideia do que ele
estava falando.
— Claro. — Sem dú vida, ela seria um bagre de privada em sua
pró xima vida. Ela teria que procurar preços de transferência amanhã .
— Estou tendo problemas para automatizar o processo para garantir
que as transaçõ es entre as subsidiá rias estejam ao comprimento de um
braço. E um desa io porque nã o há duas subsidiá rias iguais. Sempre há
fatores individuais a serem considerados — disse ele.
— O comprimento de um braço? Esse é um ditado estranho. E tã o
solitá rio.
Ele riu - ela o fez rir - e o som era profundo, rico e bonito. Ela queria
ouvi-lo rir mais. Muito mais.
— Isso é engraçado. Sã o empresas, nã o pessoas.
— As empresas tê m pessoas.
— As empresas nã o tê m sentimentos.
— Se as empresas tê m pessoas, e as pessoas tê m sentimentos, entã o
as empresas tê m sentimentos.
— Certamente, o preço de transferê ncia nã o tem nada a ver com
sentimentos — disse Vy, enquanto lhe lançava um olhar cé tico, e o rosto
de Esme se aqueceu de vergonha.
Mas Khả i a surpreendeu dizendo:
— Mas eu gosto do seu raciocı́nio. Nã o posso discutir com a
propriedade transitiva. — Entã o ele sorriu e ela percebeu que era o
primeiro sorriso de verdade que tinha visto nele. Os cantos dos olhos
dele enrugaram e covinhas se formaram em ambos os lados do
rosto. Muito bonito. Seu olhar era direto e continuou por muito tempo,
mas ela nã o se importou. Naquele momento, ele pertencia a ela. Bem,
ele pertencia à Esme contadora. A Esme real nã o era inteligente.
— Nã o há deduçã o de impostos por suborno no Vietnã . —
Acrescentou ela, lembrando que ele se interessou por isso no primeiro
dia juntos. Isso era outra coisa que ela procurara, mas depois que
entendeu, icou com raiva de todo o conceito. — Eu odeio suborno.
Ele inclinou a cabeça para o lado.
— Isso é surpreendente para mim. Em muitos paı́ses, isso é apenas
parte dos negó cios.
— E as pessoas que nã o podem pagar subornos? Nã o há negó cio para
eles. — Era assim que os ricos continuavam ricos e os pobres
continuavam pobres, a menos que trapaceassem, roubassem, tivessem
uma sorte incrı́vel ou... casassem.
— Você está certa. — Khai olhou para ela de uma forma diferente e
isso a fez aquecer. Esse olhar era de respeito. Pela Esme contadora ou a
pessoa por trá s das mentiras?
Ela procurou em sua mente por mais coisas que poderia dizer para
fazê -lo continuar olhando para ela dessa maneira, mas ele mexeu
novamente no colarinho como se estivesse sufocando, tomou um gole
de á gua gelada e limpou a garganta, agora distraı́do.
— Há algo faltando neste casamento.
Ela apontou para a cadeira vazia ao lado dela.
— Esta pessoa está faltando.
— Esse é o assento de Quan. Ele me disse que nã o poderia vir. Nã o é
isso. — Mas ele icou olhando a cadeira vazia por um bom minuto, sem
dizer nada. Algo estava errado. Ela sabia pela maneira como ele
folheava repetidamente as pá ginas do livro com o polegar no
canto. Fliiip. Fliiip. Fliiip. Ela nunca o viu se mexer assim.
O que poderia estar faltando neste casamento perfeito?
Os garçons serviam salada seguida de uma entrada que consistia em
um pedaço de carne ensanguentada e uma cauda de lagosta. Onde
estava a deliciosa cabeça de lagosta e todas as pernas borrachudas? Ela
estava apunhalando a carne de lagosta com o garfo e arrancando a
concha com a colher - as pessoas agiam como se fossem morrer se
tocassem a comida com os dedos - quando a noiva, o noivo e toda a
festa de casamento se aproximavam de sua mesa. Todos se levantaram
para brindar o novo casal, e Khai apertou uma taça de champanhe nas
mã os.
Vy e todos os primos ergueram as taças.
— Parabé ns, Derrick e Sara.
Beberam champanhe e izeram um sonoro “awwwn” quando o casal
se beijou. Enquanto as bolhas doces borbulhavam na lı́ngua de Esme,
ela olhou para Khai por cima da borda do copo. Ele havia trocado a taça
de champanhe pelo livro e estava folheando as pá ginas
novamente. Fliiip. Fliiip. Fliiip.
Ele ainda achava que algo estava faltando?
Sara, a noiva, se separou do marido e se aproximou de Khai. Ela tinha
mudado para um dài Aó de casamento vermelho com dragõ es e fê nix
douradas bordados, mas Esme gostou mais do vestido de casamento
branco com suas saias ondulantes. Se ela se casasse, usaria seu vestido
de noiva o tempo todo, mesmo para dançar. Esqueça a tradiçã o.
— Obrigada por ter vindo. Sei que você nã o gosta de casamentos —
disse Sara.
Khai continuou virando as pá ginas de seu livro.
— Sem problemas.
Sara sorriu ironicamente.
— Lembro que quando ı́amos a casamentos quando é ramos
pequenos, você e Andy costumavam se esconder no banheiro durante a
dança para jogarem videogame.
Seus dedos congelaram no livro, e ele icou estranhamente imó vel.
— E isso. E o Andy.
Sara respirou fundo.
— O que você quer dizer?
— Fiquei imaginando a noite toda o que há de errado com este
casamento. — Disse Khai — E o Andy. Ele deveria estar aqui.
Depois de um segundo de descrença, o rosto de sua prima entrou em
colapso e lá grimas grossas escorreram pelo seu rosto, arruinando sua
maquiagem cuidadosamente aplicada.
— Por que você ... o que eu posso... como eu posso...
Ela cobriu a boca e fugiu da sala. O noivo olhou para Khai por um
longo momento como se houvesse coisas que ele queria dizer, mas no
inal, ele correu atrá s de sua esposa sem dizer uma palavra. Todas as
pessoas da mesa se entreolharam, atordoadas, sem palavras.
— Encontre-me quando estiver pronta para ir. — Khai bateu seu livro
contra sua coxa uma vez e se virou para sair.
Esme deu um passo em sua direçã o. — Eu vou com...
— Nã o, ique. Dance, divirta-se. Eu estarei lá fora. — Ele acenou em
direçã o à saı́da, tirou o cabelo dos olhos e saiu.
Está tica, ela olhou enquanto ele passava entre as mesas redondas e
saia do salã o de baile. Quando a porta se fechou atrá s dele, ela afundou
em seu assento, que agora estava entre duas cadeiras vazias.
O que acabara de acontecer? Por que ele estava saindo? Quem era
Andy? Ele era o ex-namorado de Sara, algué m que Khai preferia ao
noivo? Ela queria perguntar aos outros à mesa, mas eles conversavam
entre si em voz baixa, evitando seus olhares questionadores.
Como ele esperava que ela aproveitasse o casamento sozinha? Ela
deveria dançar com algum homem aleató rio? Talvez com aquele cara de
meia idade na mesa ao lado com trê s cervejas, uma jaqueta de couro
vermelha e cachos na altura dos ombros? Ela apertou a mã o na
testa. Ela nã o queria dançar com o Michael Jackson asiá tico. Ela só
queria dançar com Khai.
Ela se afastou da mesa.
— Eu vou encontrá -lo.
Vy balançou a cabeça.
— Ele pode nã o querer…
Esme nã o ouviu o resto do que sua irmã disse. Ela correu atrá s
de Khai, mas procurou e procurou e nã o o encontrou em lugar
algum. Ele nã o estava no saguã o opulento do hotel, nas salas de estar ou
mesmo na á rea do manobrista. Ele estava lendo em um banheiro em
algum lugar enquanto ela o procurava até que seus pé s latejassem? Ela
estava prestes a bater na porta do banheiro masculino, mas uma placa
na porta pró xima chamou sua atençã o.
Ela leu Camarim de Kieu-Ly. Talvez ele estivesse lá ? Quando ela
percebeu que a porta estava destrancada, entrou.
O espaço lá dentro parecia uma zona de guerra, com engradados de
Coca-Cola, sacos gigantes de batatas fritas e sapatos por todo o
chã o. Montes de roupas ocupavam todo o espaço do pequeno
sofá . Nenhum Khai à vista.
Ela espiou por uma porta aberta na parede oposta e percorreu os
destroços para veri icar o que havia do outro lado.
E perdeu o fô lego.
O vestido da noiva pendia do varã o da cortina acima de uma janela
alta. O tecido branco e ino captou a luz suave da maneira certa. Antes
que Esme soubesse o que estava fazendo, ela estava atravessando o
vestiá rio e passando as pontas dos dedos pelas saias frias. Ela duvidava
que alguma vez usasse algo tã o bom, nem mesmo em seu pró prio
casamento, se alguma vez se casasse. Ela ouvira pessoas sussurrando
que era um vestido da Vera Wang e custava dez mil dólares.
Mas enquanto ela estava na sala vazia, ocorreu-lhe que talvez
ela pudesse usar um vestido como este. E ela nã o precisava se casar
para fazer isso. Ela poderia usar este vestido. Agora mesmo. Ela podia
fazer isso rapidamente, só para saber como era e continuar procurando
pelo Khai. Ningué m tinha que saber.
Ela abriu o zı́per do vestido verde e o deixou cair antes de pisar fora
do vestido, suspirando quando seus pé s doloridos se achataram contra
o tapete. Ela nã o usava sutiã por baixo do vestido e arrepios enrugaram
seus seios nus. Vestindo nada alé m da calcinha, ela estendeu a mã o para
o cabide do vestido. Ela levantou na ponta dos pé s e esticou o mais alto
que pô de. Alto, mais alto, mas as pontas dos dedos nã o conseguiam
alcançar.
No momento em que ela estava se preparando para saltar, a porta da
outra sala se abriu.
Não.
Era a noiva? Ela ia trocar de vestido novamente?
Ela icou parada e prendeu a respiraçã o. Passos calculados eram
dados. Quem era?
Houve o barulho de uma lata de refrigerante sendo aberta, e os
passos se aproximaram.
Não, não, não, não.
Ela nã o podia ser pega de calcinha assim. Abraçando os seios, ela
olhou ao redor em pâ nico. Nã o havia saı́da, apenas um armá rio. Sem
pensar mais, ela correu para o armá rio e se fechou dentro.
A porta era do tipo fachada e, olhando atravé s das minis venezianas,
ela tinha uma boa visã o da porta. Passo, passo, passo, passo. Os passos
pareciam pesados, masculinos. Era o noivo? Zelador do hotel? Qual era
a coisa mais embaraçosa que poderia acontecer? Conhecendo sua
pé ssima sorte, ela deveria esperar isso.
Khai entrou na sala.
Ela pressionou a testa na porta do armá rio em derrota. Claro que era
ele. Ele examinou a sala e sentou-se em uma poltrona vazia na frente do
armá rio. Depois de tomar um gole de sua Coca-Cola, ele a colocou no
chã o aos seus pé s e continuou lendo o livro com a nave espacial e a
coisa de demô nio alienı́gena na capa.
Ela quase gemeu de frustraçã o. Ela nã o podia continuar se
escondendo no armá rio esperando que ele terminasse de ler quando
ele estava lendo esperando por ela. Ela teria que sair e se
explicar. Como ela poderia explicar isso sem que ele risse?
Ele pegou a lata de Coca-Cola, mas enquanto a levava à boca, seu olhar
percebeu algo. Seguindo sua linha de visã o, ela viu seu vestido e sapatos
descartados. Ele os reconheceu?
Oh nã o, ele estava tirando conclusõ es?
Nã o era nada disso. Ela teria que sair e se explicar. Ela apertou as
palmas das mã os na porta do armá rio, preparando-se para abri-la,
mas Khả i se levantou.
Ele inclinou a cabeça para o lado como se estivesse ouvindo alguma
coisa.
Foi quando ela ouviu.
Passos tropeçando na sala ao lado. Eles se aproximavam. E mais
perto. Um barulho alto soou, como se algué m tivesse se batido contra a
parede. Um gemido.
Khai se afastou da porta. Ele contemplou a janela antes que seu olhar
travasse no armá rio.
Outro baque na parede. Os passos icaram mais altos. Outro gemido.
Em trê s passos largos, ele atravessou a sala e abriu a porta do
armá rio. Seu queixo caiu quando a viu, mas nã o houve tempo para
surpresa. Ele se trancou no armá rio com ela quando um casal tropeçou
pela porta.
CAPÍTULO NOVE

Nua.
Esse era o ú nico pensamento que o cé rebro de Khai era capaz de
produzir.
Nua.
Ele olhou para ela por menos de um segundo antes de fechá -los no
armá rio, mas foi o su iciente para ver quase tudo. Ombros nus, seios
cheios que ameaçavam transbordar a prisã o de seus braços, cintura
ina, quadris exuberantes e calcinha de algodã o branco com um
pequeno laço no meio.
Deletar, deletar, deletar. Ele fechou os olhos com força enquanto
tentava apagar a imagem de sua mente. Mas isso fez os sons do outro
lado da porta do armá rio icarem mais altos.
Respiraçã o pesada. Sons de beijos molhados. Mã os arrastando
tecido. O zzzzip das calças sendo desabotoadas. Oh merda, eles estavam
fazendo o que ele pensava que estavam fazendo?
Ele olhou atravé s das ripas e viu o casal entrelaçado no chã o. Ele nã o
reconheceu a mulher, mas seus cabelos loiros a marcaram como amiga
da famı́lia. Com seus cachinhos estilo anos 80 e jaqueta de couro
vermelha, o homem nã o podia ser confundido como ningué m alé m de
seu primo Van. Talvez ele estivesse perseguindo seu quarto casamento
agora. Khai nã o tinha ideia de como aquele look funcionava tã o bem
para seu primo.
Os dois gemeram simultaneamente antes de seus corpos começarem
a se contorcer ritmicamente.
Droga.
Khai se afastou das ripas, mas entã o estava olhando para Esme
novamente. A luz derramou em listras atraentes sobre sua pele macia,
delineando o comprimento do pescoço, a curva madura do peito e...
Regra número seis.
Ele cobriu os olhos com uma mã o e desejou estar em qualquer outro
lugar do mundo. Ele já teve o su iciente para pensar sobre Andy, fazer
as pessoas chorarem e desejar Esme.
A Antá rtica seria uma boa mudança de ritmo. Picos de montanhas
glaciais, extensõ es á ridas de neve intocada, vazio, calma, a pequenez do
homem -
— Oh. Wow. Wow — a mulher gritou. — Wowieeeee!
O foco de Khai quebrou e ele afastou a mã o dos
olhos. Wowie? Sé rio? O que diabos Van estava fazendo lá fora?
Um som sufocado atraiu sua atençã o antes que ele pudesse espionar
o casal novamente, e ele encontrou os ombros de Esme tremendo
enquanto ela ria na palma da mã o. Ele supô s que era meio engraçado,
mas ele nunca ria junto com ela. Ela afastou um braço do peito e ele
jurou que quase podia ver um dos mamilos dela. Ele nã o tinha certeza
com todas as sombras, mas havia uma parte mais escura...
Inferno. Ele estava no inferno.
Ele olhou para a parede, tentando ao má ximo nã o responder ao pornô
ao vivo, tanto fora quanto dentro do armá rio. Era impossı́vel. Os gritos
da mulher icavam mais altos. Esme faz esses sons? Ele esperava que ela
nã o dissesse wowie. Mas outra coisa. Como talvez... o nome dele. Seu
corpo inteiro endureceu com o pensamento, e sua pele icou
ultrassensı́vel. Seu pulso acelerou. Ele tentou colocar mais espaço entre
eles, mas a lateral do armá rio o deixou com pouco espaço. Nã o havia
escapató ria.
Quanto tempo isso poderia durar? Van e sua mulher estavam
tentando estabelecer algum tipo de recorde mundial?
Eventualmente, os barulhos chegaram a uma crescente horrı́vel e
depois se acalmaram. Van se levantou bê bado e ajudou a parceira a se
levantar. Eles ajeitaram as roupas com uma conversa desconfortá vel e
desapareceram. Khai esperou uma contagem de sessenta antes de abrir
a porta do armá rio e sair. Ele respirou fundo e o ar cheirava a - nã o, ele
nã o ia pensar em como cheirava o ar. Um arrepio involuntá rio o
percorreu.
Esme o seguiu para fora do armá rio, as bochechas avermelhadas em
um fantá stico brilho de lagosta e foi buscar seu vestido verde e sapatos
- ele pensou que eles pareciam familiares. De costas para ele, ela vestiu
o vestido e puxou-o para cima. As costas de uma mulher nã o eram uma
das partes restritas do corpo mencionadas nas notas de rodapé das
Regras, entã o ele se deixou olhar. Mas ainda parecia uma quebra das
regras. A curva na base da sua coluna vertebral era uma das coisas mais
elegantes que ele já vira.
— Me ajuda? — Ela perguntou, olhando para ele por cima do ombro.
Seus pé s o levaram até ela por conta pró pria. Quando seu coraçã o
bateu forte nos ouvidos, ele se atrapalhou com o zı́per e puxou-o pela
linha graciosa das costas dela, cobrindo sua pele perfeita. Quando ele
terminou, ela se virou e seus olhos se encontraram.
— Eu queria usar o vestido de noiva — ela sussurrou. — Mas eu nã o
consegui alcançá -lo.
Ele olhou para o vestido de noiva pendurado na haste da cortina. Sim,
ela era de initivamente muito pequena para isso. — Você quer que eu o
pegue para você ?
Um sorriso apareceu em seu rosto, um daqueles sorrisos de tirar o
fô lego, que deixavam seus olhos mais verdes. Ele causou aquele
sorriso. O conhecimento enviou calor derretendo atravé s dele, melhor
do que um grande sué ter fresco da secadora.
— Por que você está sorrindo? — Ele perguntou.
O sorriso dela aumentou. — Você nã o riu.
— Por que eu deveria?
Ela levantou um ombro. — Onde você foi? Eu procurei em todos os
lugares por você .
— Eu dei um passeio lá fora. Para limpar minha cabeça. Eu nã o sou...
bom com pessoas. — E o salã o de banquetes e o hotel pareceram
sufocantes. Depois que ele percebeu o que estava faltando, começou a
notar todos os lugares onde Andy deveria estar. Tomando uma bebida
no bar, em pé com os padrinhos, ao lado de Khai...
— Eu també m nã o sou boa com as pessoas — disse ela.
Isso foi uma revelaçã o para Khai, e quando ele a olhou, suas
imperfeiçõ es se destacaram pela primeira vez. Uma das sobrancelhas
dela era mais arqueada do que a outra. O nariz dela nã o era tã o reto
quanto ele pensara. Lá , no lado esquerdo do pescoço, uma pequena
marca de nascença. Ela nã o era uma imagem com photoshop em uma
revista. Ela era uma pessoa real, com falhas. Estranhamente, isso a
deixou mais bonita. Ela també m era esperta à sua maneira estranha,
com uma sensaçã o de justiça que ressoava na dele. Ela nã o era nada do
que ele pensara no começo.
Ela deu um passo em sua direçã o e, quando mordeu o lá bio inferior,
os olhos dele acompanharam o movimento, hipnotizados pela maneira
como seus dentes brancos arranhavam a pele vermelha. E se ele se
inclinasse e a beijasse?
Ela deixaria? Como seria unir suas bocas? Sentir aqueles lá bios
vermelhos contra os dele? Para aprofundar e reivindicar-
Algo roçou levemente contra sua mã o.
Frio. Inesperado. Errado.
— O que diab… — Ele se afastou no re lexo, muito rá pido e
violentamente, e ela se assustou e se afastou dele com os olhos
arregalados.
— Desculpe. — Ela disse enquanto abraçava a mã o no peito. Ela o
tocou, talvez para dar as mã os, e ele a assustou. Ele odiava assustar
pessoas.
Explicaçõ es estavam empilhadas na sua lı́ngua, mas ele nã o sabia por
onde começar. Ele nem sabia se deveria se incomodar. Qual era o
objetivo? Depois desse verã o, eles nunca mais se veriam.
A impressã o do toque dela permaneceu em sua pele, brilhante e
desagradá vel, e ele sabia por experiê ncia pró pria que a sensaçã o nã o
desapareceria por mais um dia. Toques leves faziam isso, e foi pior
quando as pessoas o pegaram de surpresa. Como ela tinha. Se ela o
avisasse, e se o tocasse da maneira certa, talvez... Ele balançou a cabeça
em seus pensamentos. Nã o tinha talvez.
O incidente de hoje com Sara con irmou que ele nã o era destinado a
relacionamentos. Como esse era o caso, ele nã o podia incentivar o
toque. E se - ele nã o sabia - eles explorassem essa atraçã o entre eles, e
ela se apaixonasse por ele? Seria terrivelmente irresponsá vel da parte
dele, nã o? Ele nunca poderia amá -la de volta. Ele apenas a
machucaria. E ele nunca quis fazer isso. Ela deveria ser feliz.
Quando ele esfregou a mã o contra a perna da calça, em um esforço
para atenuar a sensaçã o, ela assistiu o movimento com um aperto nos
lá bios.
— Se você quer comer bolo e dançar, eu nã o me importo de esperar
por você aqui. — Mas ele nã o iria se juntar a ela. Ele terminou com
aquela sala de banquetes. E talvez fosse covarde, mas ele nã o queria
mais ver Sara chorando.
— Nã o, nã o, vamos lá . — Ela deu um sorriso para ele e caminhou
e icientemente da sala.
Enquanto caminhavam pelos corredores luxuosos do hotel, Khai
estava muito consciente de que ela nã o descansou a mã o na dobra do
braço dele. Ela mantinha uma distâ ncia saudá vel entre eles, e ele nã o
conseguia decidir se estava decepcionado ou aliviado. Ele
honestamente nã o tinha gostado antes, mas gostava disso ainda menos.
O chã o tremia com um ritmo baixo quando eles passaram pelas
portas do salã o de banquetes onde a recepçã o estava ocorrendo. A
dança começou. Isso signi icava que o jantar terminara, o bolo de
casamento cheio de frutas havia sido comido, os discursos falados e o
casamento estava basicamente pronto.
Andy tinha perdido tudo.
Ele deveria estar aqui. Ele provavelmente teria sido um padrinho de
casamento. Se nã o, ele de initivamente teria sido um planejador. Ele
teria sentado ao lado de Khai durante a cerimô nia e recepçã o. Ele daria
um discurso que envergonharia Sara e faria todo mundo rir. Agora, ele
estaria lá dançando porque era o casamento de Sara e ele era esse tipo
de irmã o.
O fato de ele não estar lá dançando fazia peso nos ombros, pulmõ es e
pé s de Khai. Ele puxou a gola novamente porque estava estrangulando-
o. Pelo menos ele sabia o que estava errado agora. Era o senso de
ordem dele. As coisas nã o estavam no seu devido lugar.
Era muito importante para ele ter as coisas em seu devido lugar.

•••

Quando eles voltaram para a casa de Khai, ele estacionou no meio- io


novamente. Esme se perguntou por que ele nã o gostava de usar sua
garagem, mas ela nã o queria perguntar a ele. Ela nã o conseguia
esquecer a maneira como ele limpou o toque da mã o dele.
Por que ele agiu como se estivesse enojado?
Ele tinha aquele olhar em seus olhos, aquele que os homens tinham
quando queriam te beijar. Ela conhecia aquele olhar. Ou ela pensou que
conhecia. Naquele momento, tudo o que ela queria era que ele a
beijasse. Ela nã o parou para pensar em casamento, cartõ es verdes e em
encontrar um pai para seu bebê . Ela estava muito hipnotizada pela
intensidade do olhar dele e pela atraçã o que sempre a atraı́a para
ele. Ela queria sentir os lá bios dele nos dela, estar perto dele, conhecê -
lo.
Mas ele a afastou.
Enquanto tomava banho e se arrumava para dormir, seus olhos
arderam com lá grimas algumas vezes, mas ela nã o chorou. Ela tinha
sido rejeitada antes. Isto nã o era novo. Isso signi icava que ela precisava
se esforçar mais. Ela poderia fazer isso. Ela certamente nã o iria desistir.
Determinada, ela vestiu sua camiseta favorita, atravessou o banheiro
e abriu a porta como se fosse sua. Ele se apoiou em um cotovelo e
franziu a testa para ela enquanto tirava o cabelo comprido dos olhos. Os
cobertores deslizaram, revelando seu peito de inido e parte de seu
estô mago musculoso. Homem lindo.
Antes que ele pudesse inventar uma desculpa para mandá -la embora,
ela corajosamente acomodou na metade vazia da cama dele e se esticou
de lado, encarando-o. Sua camisa cooperou expondo seu ombro e uma
boa quantidade de decote. Ele olhou. Ela o viu olhar. E desde que ela
chamou sua atençã o, ela estendeu a mã o e juntou os cabelos acima da
cabeça, longe do pescoço. O movimento fez com que o decote da blusa
se movesse ainda mais baixo, escandalosamente baixo. O ar frio tocou
uma boa quantidade de seu peito, e ela nã o se cobriu, embora seu
coraçã o batesse forte.
O pomo de Adã o de Khai balançou quando engoliu em seco antes de
ele se deitar e virar as costas para ela, e ela reprimiu um sorriso
satisfeito. Ele nã o estava imune. Ele nã o queria, mas ele gostou do que
viu.
Na penumbra fornecida pela luz noturna do banheiro, ela julgou que a
distâ ncia entre eles era quase exatamente o comprimento de um
braço. Ele trabalhou o dia todo, mantendo as empresas a essa distâ ncia
e, em casa, manteve os dois a essa distâ ncia. Se ela trabalhasse nisso,
descobriria como diminuı́-la.
CAPÍTULO DEZ

Khai acordou no domingo com a luz do sol entrando pelas janelas e o


insistente piar de pá ssaros tagarelas - provavelmente eram os mesmos
que regularmente cagavam em seu carro. Ele tinha certeza de que
icaria acordado a noite toda novamente, mas enquanto estava deitado
amaldiçoando Esme e a resposta de seu corpo a ela, ele cochilou e
dormiu até tarde da manhã .
Ele devia estar morto de cansaço, porque nã o tinha notado quando
ela levantou. O lado dela da cama estava vazio, mas os cobertores
estavam completamente enrugados. Quando ele estendeu a mã o, eles
estavam frios ao toque. Ela havia saı́do há algum tempo. Ele esperava
que ela nã o estivesse passando as suas cuecas ou aparando o gramado
com a tesoura do escritó rio.
Em vez de ir procurá -la e controlar os danos, ele puxou o travesseiro
para perto e enterrou o rosto nele. Cheirava à roupa limpa, xampu... e
ela. O cheiro era fraco, mas ele reconheceu. Macio e doce, gentil. Ela
passou a noite aqui, na sua cama, no seu espaço, com ele, e deixou parte
de si mesma para trá s. Ele se deixou preencher com seu perfume, e
mais uma e ú ltima inspirada antes de icar com nojo de si mesmo e sair
da cama. E daı́ se ela cheirava bem? Ela ainda o deixava louco.
Uma vez que ele seguiu sua rotina matinal regular, ele foi para a
cozinha, esperando encontrá -la coberta de jaca, cozinhando ou virando
a geladeira de cabeça para baixo. Mas ela nã o estava lá .
Ele abriu a porta de vidro deslizante conectada à sua cozinha e entrou
no quintal pela primeira vez desde que se mudou. Nada alé m de grama
morta e terra onde aquela á rvore costumava estar. Nem mesmo as
raı́zes permaneceram, e todas as ervas daninhas se foram. Ele teve que
admitir que ela fez um bom trabalho.
Onde ela estava? Ela nã o trabalhava aos domingos, entã o sua mã e nã o
poderia ter ido buscá -la - nã o que ela fosse fazer isso quando pode ligar
e fazê -lo dirigir.
Esme... o deixou?
Ele estava esperando por isso a semana toda, mas agora que isso
pode ter acontecido, ele nã o está tã o feliz quanto imaginara. Mas por
que ela iria querer icar depois da noite passada? Ele fez sua prima
chorar em seu pró prio casamento, e entã o assustou Esme quando ela
tentou segurar sua mã o. Ele demonstrou claramente por que deveria
estar sozinho.
Um suspiro pesado soprou de seus pulmõ es, e ele voltou para dentro
e veri icou o quarto dela. Ela nã o estava lá , mas sua mala estava. Seu
estô mago relaxou e ele se amaldiçoou de todas as maneiras que
sabia. Por que diabos ele estava aliviado por ela ainda nã o ter ido
embora?
Merda, ele deve estar se acostumando com ela. Ele nã o queria se
acostumar com ela.
Ele en iou os pé s nos sapatos e saiu para a varanda da frente para
procurá -la. Fazia calor e sol, mas era cedo demais para estar
ú mido. Aqueles pá ssaros estavam piando, provavelmente rindo porque
haviam deixado algo novo para ele no para-brisa. O gramado foi apenas
parcialmente limpo, mas já era uma grande melhoria. Ele fez uma
careta. Ruthie devia estar em ê xtase.
Begô nias cor de rosa e pê ssego brotavam de arbustos limpos no
gramado bem cuidado do outro lado da rua. Ruthie as entregava aos
vizinhos algumas vezes. Ele a viu fazer isso. Nada para ele, mas tudo
bem. Ele nã o queria suas malditas begô nias.
Nenhuma Esme à vista. Ele desceu da varanda para ver se ela estava
escondida entre a casa dele e a do vizinho, e foi quando ele viu.
A porta da garagem estava aberta.
Uma sensaçã o doentia surgiu atravé s dele, encurtando sua respiraçã o
e fazendo suas palmas suarem. Por que a porta da garagem estava
aberta?
Ele correu para o espaço vazio e mofado, e a realidade o atingiu como
um soco no estô mago.
Nã o estava lá .
E Esme també m nã o.
Quando ele fez as contas, uma horrı́vel certeza tomou conta dele.
Esme ia morrer.

•••
Esme amou o supermercado asiá tico 99 Ranch. Era como se eles
tivessem recolhido um pouco de casa e plantado do outro lado do
oceano. Os trabalhadores eram todos chineses, mas os alimentos eram
familiares. Ela conhecia esse cheiro de peixe. Ela estava animada para
comer o doce de tamarindo picante que tinha encontrado no corredor
da saı́da. Na caixa registradora, o processo foi rá pido e indolor. Ela
entregou ao caixa uma nota de vinte, e ele deu-lhe o troco sem dizer
uma ú nica coisa. Nenhuma traduçã o necessá ria. Todo mundo pertencia
a esse lugar.
Ela carregou suas sacolas plá sticas para fora e admirou a motocicleta
azul estacionada perto das portas da frente da loja. Ela gritou de alegria
quando a encontrou hoje cedo. Durante toda a semana passada, ela
passou por aquela porta na cozinha de Khai sem veri icar o que havia
do outro lado. Ela estava muito ocupada limpando e planejando
maneiras de entrar no coraçã o e nas calças de Khai.
Esta manhã , ela girou a maçaneta da porta por acidente quando a
confundiu com a porta da despensa e percebeu que estava
destrancada. Depois de abri-la, ela acendeu a luz e descobriu uma
garagem espaçosa, vazia de qualquer coisa, exceto algo coberto por
lona no meio. Pelo tamanho e formato, suspeitava que fosse uma
motocicleta e, quando levantou a lona, nã o se decepcionou.
Transporte. Como ela nã o gostava de pedir carona à s pessoas sempre
que queria ir a algum lugar, ela icava em casa, mas nã o gostava de icar
presa e abandonada sempre que Khai precisava ir a algum lugar sem
ela. Havia um sistema de ô nibus local, mas isso era intimidador e
provavelmente lento com as diferentes rotas e conexõ es de ô nibus. Uma
motocicleta, por outro lado, poderia levá -la aonde ela quisesse
diretamente.
Nã o importava que estivesse um pouco arranhada e machucada,
quando ela girou as chaves convenientemente na igniçã o, ela começou a
funcionar. Ela se apressou para pegar sua bolsa e fechar a porta, e entã o
saiu enquanto possibilidades surgiam em sua mente, maneiras de
surpreender Khai e torná -lo viciado nela. A primeira coisa que lhe
ocorreu foi comida. Ela poderia fazer algo fresco e nutritivo como sopa
de bexiga natató ria.
Sentindo-se esperançosa e cautelosamente feliz, ela colocou a bolsa e
os mantimentos recé m-comprados - incluindo as bexigas de natató rias
de vinte peixes - na parte de trá s da motocicleta, puxou o capacete e
saiu. Havia algo de especial no ar enquanto ela dirigia para casa. As
casas e lojas pareciam mais bonitas e a grama mais verde.
Quando ela virou para a Central Expressway e seguiu para o oeste,
altos pinheiros abraçavam os dois lados da rua e ocupavam a á rea
central, que separava o trá fego em faixas de entrada e saı́da. Engraçado
como as á rvores eram tã o altas, mas elas a faziam se sentir maior - por
dentro, onde contava. Ela sorriu enquanto passava esquina apó s
esquina. Ela logo chegaria em casa e depois faria o café da manhã
de Khai. Depois disso, ela terminaria de limpar o jardim da
frente. Agora que ela tinha uma motocicleta, podia ir à loja e comprar
coisas como sementes de grama e lores frescas. Ela poderia deixar o
quintal dele muito legal.
Quando a esquina da casa de Khai se aproximou, ela ligou o pisca-
alerta direito, mas antes que pudesse mudar de faixa, um carro
prateado vindo da outra direçã o derrapou. Pneus guincharam e fumaça
subiu do asfalto. Parecia assustadoramente o carro de Khai, e quando a
porta se abriu, um homem disparou e nã o poderia ser ningué m alé m do
pró prio Khai.
Sobre o rugido do motor da motocicleta, ela o ouviu gritar:
— Pare. Saia. Saia agora!
Seu coraçã o pulou na garganta e sua boca icou seca. Foi a polı́cia? Em
que tipo de problema ela poderia estar? Ela diminuiu a velocidade e
parou ao lado das linhas da rua, como ele havia feito.
Ele correu em sua direçã o.
— Saia da moto. Depressa.
Assim que ele chegou perto o su iciente para ela registrar o terror em
seu rosto geralmente calmo, ela começou a tremer. Tinha que haver
algo errado com a motocicleta. Ela ia explodir?
Ela arrumou o suporte com um pé trê mulo, mas antes de conseguir
sustentar a bicicleta, Khai agarrou-a pelos braços e a levantou do
assento. A motocicleta caiu ao seu lado, enviando suas coisas por todo o
asfalto e grama irregular.
Seu cabelo estava arrepiado com mechas selvagens e seu rosto era
uma má scara de fú ria. Ela nunca imaginou que ele poderia icar tã o
bravo. Sem parar para respirar, ele disse:
— Por que você andou de moto? Por que você andou nela? Eu nunca
disse que você podia andar de moto.
Seu tremor piorou a ponto de nã o poder se mover.
— Desculpe. Eu acabei de sair...
Ele a conduziu pela grama em direçã o ao carro.
— Vamos lá .
— Mas eu comprei comida. Caiu tudo no chã o. E a moto. Algué m vai
roubar. Eu levo de volta...
— Fique. Longe. Da. Moto — ele rosnou.
Uma vez que ela entrou no carro, ele puxou o cinto de segurança
sobre ela e o a ivelou, dando um puxã o forte para se certi icar de que
estava apertado.
Ela se encolheu quando ele bateu a porta, e depois que ele marchou e
se jogou em seu assento, ela pigarreou e disse: — Minha bolsa. Meu
dinheiro. Está ali, e eu preciso...
Ele saiu do carro e atravessou a rua para se agachar ao lado da
motocicleta, mas em vez de soltar a bolsa dela da moto, ele apertou um
punho na testa e permaneceu assim por vá rios momentos. Os carros
passavam rá pido. Um diminuiu a velocidade e depois acelerou. Outro
motorista abaixou a janela e perguntou se precisá vamos de ajuda.
Khai balançou a cabeça e gritou em tom lacô nico:
— Nã o, obrigado.
A medida que o carro se afastava, ele estendeu a mã o, girou a chave
fora da igniçã o da motocicleta, e guardou no bolso. Entã o ele pegou sua
bolsa e voltou para o carro.
O caminho de volta para sua casa levou dois minutos. Esme sabia
porque ela passou o tempo todo olhando para o reló gio e esperando ele
falar, mas ele nã o falou. A garagem estava vazia, mas ele estacionou no
meio- io como de costume.
Ela o seguiu até a porta da frente, sem saber o que dizer ou o que
fazer. Quando ele abriu a porta, ela entrou e tirou os sapatos, esperando
que ele izesse o mesmo, mas ele se virou sem dizer uma palavra e
começou a andar pela rua. Para pegar a motocicleta, ela percebeu.
— Você quer que eu vá com você ? — Ela perguntou.
Sem resposta. Ele simplesmente continuou andando, ombros retos e
costas retas, parecendo um assassino em sua ú ltima missã o.
Ela observou até que ele desapareceu na esquina e depois fechou a
porta e cedeu contra ela. Seu batimento cardı́aco diminuiu
gradualmente, mas seu rosto permaneceu quente com uma mistura
intensa de vergonha e confusã o.
Ela nã o deveria ter pegado a motocicleta sem perguntar. Mas ele era
tã o tranquilo com o resto de suas coisas que ela nã o tinha pensado que
era uma grande coisa.
Por que foi uma grande coisa para ele? Por que ele a manteve na
garagem sem usá -la? Havia espaço su iciente para a motocicleta e o
carro. Por que ele estacionava do lado de fora?
Por que ele estava tã o bravo?
Nã o importava o que fosse, ela tinha que compensá -lo e poderia
começar a fazer isso imediatamente. Ela entrou na garagem, pegou a
escada que tinha visto antes e a levou para a varanda da frente. Havia
tantas folhas entupindo a sarjeta que ela temia que caı́ssem e
atingissem algué m na cabeça. També m era feio. Depois de posicionar a
escada o mais está vel possı́vel, ela subiu e jogou um punhado de folhas
no chã o. Ela havia limpado uma boa parte da sarjeta
quando Khai chegou caminhando com a motocicleta pela entrada da
garagem, a devolveu ao seu lugar e caminhou em sua direçã o.
Suas sacolas plá sticas de mantimentos estavam penduradas nos
dedos dele, mas ele as deixou cair no chã o enquanto se aproximava e
agarrava a escada, olhando para ela com uma profunda carranca no
rosto.
— O que você está fazendo?
Ela jogou outro punhado de folhas para baixo.
— Há muitas folhas aqui.
— Desça — disse ele com irmeza. — Nã o é seguro.
— Mas eu nã o terminei. Espere um pouco...
— Agora, Esme. — As palavras saı́ram nı́tidas, mais altas do que ela
esperava, e seu pé escorregou na escada.
Ela se agitou impotente por um segundo de parar o coraçã o, mas
conseguiu segurar a sarjeta para nã o cair. Com o rosto pressionado no
metal sujo, ela sussurrou graças ao cé u e a Buda. Aquela queda teria
quebrado sua bunda.
— Por favor. Desça agora. — Ele disse em tom monó tono.
No instante em que seus pé s tocaram o chã o, ele virou a escada de
lado e a levou de volta para a garagem.
Ela jogou as mã os para o alto e o seguiu.
— Por que você está fazendo isso? Ainda nã o terminei. — Ela ainda
tinha grande parte da sarjeta para limpar e odiava deixar algo
inacabado. Sem pensar, ela agarrou o ombro dele e disse: — Anh Khai,
coloque de volta...
Ele se virou instantaneamente e passou um braço sobre o peito para
poder esfregar o ombro que ela tocou.
— Você tem que parar com isso.
— Eu vou terminar mais tarde, entã o, mas...
— Ningué m vai terminar nada. Você . Precisa. Parar. Com. Isso. Você .
Entende? Você . Precisa. Parar.
O lá bio inferior dela tremeu com a pronú ncia lenta e exagerada.
— Você nã o precisa falar assim. Eu entendo você .
Ele fez um som frustrado.
— Você nã o entende. Você tem reorganizado minhas coisas de
maneira ridı́cula, cortando á rvores com um cutelo, tocando aquela
motocicleta, me tocando. Tudo isso tem que parar. Nã o posso viver
assim.
Quando o signi icado das palavras fez sentido os ombros de Esme
caı́ram.
— Ridı́cula? — Ela repetiu em inglê s. Isso nã o parecia bom.
Ele passou as duas mã os pelos cabelos.
— Sim.
Ela olhou para o gramado meio limpo e limpou as mã os sujas nas
calças enquanto seu coraçã o se encolhia e seu rosto
queimava. Ridícula. Se ela fosse mais elegante, saberia o que isso
signi icava. Agora que ela pensava nisso, provavelmente nã o era muito
elegante para ela fazer o trabalho no quintal ou limpar a casa dele ou
qualquer uma dessas coisas. Esme da Contabilidade provavelmente
contrataria pessoas para fazer esse trabalho. Mas a verdadeira Esme,
a camponesa Mỹ que sempre cheirava a molho de peixe, só queria ser
ú til. Ela nã o tinha pensado em como pareceria.
Ela estava envergonhando ele e ela mesma todo esse tempo?
— Eu vou parar. — Ela se fez dizer.
— Sé rio? — Ele perguntou, soando tã o esperançoso que fez seu
orgulho doer ainda mais.
Ela assentiu. — Eu prometo que vou parar agora. — Ela teria
apertado sua mã o, mas ele incluiu tocá -lo na lista de coisas que tinham
que parar. Ela enxugou as palmas das mã os na calça novamente, mas
algo lhe disse que o que mais o enojava nã o era algo que ela pudesse
lavar.
CAPÍTULO ONZE

DICIONARIO PORTUGUÊS
Ridículo: que provoca riso, escárnio ou zombaria.

DICIONÁRIO VIETNAMITA
Absurdo: đáng cười

Ridı́cula é a bunda peluda de um macaco. Ela mostraria a ele quã o


ridı́cula ela nã o era.
Na segunda-feira, Esme começou a tratar as interaçõ es com os
clientes no restaurante como uma prá tica de linguagem. Ela tinha que
melhorar, entã o se esforçou para conversar com os clientes, embora se
sentisse como um bú falo-d‘á gua saindo dos campos. Ela perguntou
sobre o dia dos clientes; ela brincou com seus ilhos fofos, que a
lembravam de Jade; ela recomendou novos pratos. Parecia antinatural e
estranho no começo, mas, alé m da mulher fedida que revirava os olhos
para ela e zombava dela pelas costas, os clientes nã o pareciam se
importar muito. Depois de um tempo, foi meio divertido.
Quando ela estava limpando as mesas apó s a hora do almoço, ela
descobriu que sua prá tica a havia feito ganhar gorjetas maiores. Isso
signi ica que as pessoas gostavam quando ela falava com elas? Isso a fez
rir um pouco. Talvez ela fosse um encantador bú falo-d'á gua.
— Você melhorou rapidamente. — Disse uma voz familiar em inglê s.
Esme se virou e viu a senhorita Q sentada em sua mesa regular,
mastigando distraidamente rolinhos de ovo embrulhados em alface
enquanto ela corrigia mais deveres de casa.
Ela quase respondeu em vietnamita, mas nã o respondeu. Esme nã o
estava tentando se casar com a Srta. Q. Ela poderia muito bem praticar
com ela.
— Obrigada. — Disse ela.
Sem levantar os olhos de seus papé is, a srta. Q. disse: — Pensei que a
veria na minha aula na semana passada.
— Eu nã o preciso de aula. — Algumas pessoas tinham que se virar
sem.
A senhorita Q balançou a cabeça e continuou a marcar o papel, sua
caneta vermelha rabiscando rapidamente. — Você iria melhorar com
aulas.
Esme mordeu o lá bio em frustraçã o. Ela sabia que faria melhor se
tivesse aulas. Ela adorava a escola e os professores e gostava de
levantar a mã o o tempo todo. A escola sempre foi algo em que ela se
destacou. Até que ela saiu cedo e decepcionou a todos.
— Eu preciso economizar dinheiro — disse ela. — Para minha famı́lia.
A senhorita Q olhou para cima, deu a Esme um olhar impaciente e
pegou um pan leto na bolsa. — Nã o é caro. Aqui, olhe. — Enquanto
Esme se debruçava sobre os preços, que eram surpreendentemente
acessı́veis, a Srta. Q continuou: — A parte difı́cil para as pessoas é
encontrar tempo. Você tem tempo?
— Nã o, eu preciso...— Sua voz secou antes que ela pudesse dizer que
precisava passar um tempo com Khả i. A verdade era que ele
nã o queria passar tempo com ela. Ele deixou isso muito claro.
Uma seçã o do folheto listou as aulas oferecidas na escola e uma delas
se destacou: Contabilidade. Uma estranha sensaçã o de zumbido se
espalhou por suas veias. Ela bateu na listagem da turma. — Posso fazer
esta?
A senhorita Q largou a caneta vermelha e leu as palavras indicadas
com um sorriso crescente. — Você quer ser contadora? Eu acho que
você seria uma ó tima contadora.
Esme franziu a testa com isso, nã o acreditando nisso por um
segundo. De fato, a sugestã o a deixou quase com raiva. Segurando o
folheto, ela perguntou: — Eu posso icar com isso?
— Claro, eu trouxe para você . — Disse a senhorita Q.
— Obrigada. — Esme dobrou-o ao meio, en iou-o no bolso do avental
e voltou ao trabalho.
A mesinha tremeu quando ela a limpou, e ela teve que relaxar antes
que todos os condimentos caı́ssem no chã o. A senhorita Q fez parecer
que Esme poderia realmente ser uma contadora um dia, quando ela
sabia que nã o havia como. Nã o era gentil colocar sonhos assim na
cabeça de algué m.
O melhor que Esme poderia esperar era ser “quase” uma contadora.
Mas, felizmente, para ela, isso talvez fosse o su iciente para conquistar
Khả i.
•••

N as duas semanas que se seguiram, Esme colocou a casa de Khai de


volta ao que era anteriormente e começou a pegar o ô nibus para
casa. Ele assumiu que ela pegou o turno da noite no restaurante. Ele
deveria ter icado feliz em ter suas noites para si mesmo de novo - sua
casa nã o cheirava mais a molho de peixe da comida e sua medicaçã o de
comida -, mas o jantar nã o era o mesmo sem a conversa estranha e a
alegria dela. Se ele estava sendo honesto, suas noites agora eram
ruins. A casa parecia vazia e, mesmo sem o seu pop vietnamita, ele nã o
conseguia se concentrar no trabalho ou na TV. Ele icava checando o
tempo enquanto esperava que ela passasse pela porta.
Ela ainda dividia a cama com ele, mas manteve as costas para ele e
equilibrou-se no limite, o mais longe possı́vel dele. As vezes, ele temia
que ela caı́sse. Outras vezes, ele esperava que ela caı́sse. Entã o ele teria
uma desculpa para dizer a ela para se aproximar.
Hoje, eram quase dez e meia da noite e ela ainda nã o tinha voltado
para casa. Ela normalmente já estava de volta a essa altura e seu
estô mago revirava. Ele pensou em ligar ou mandar uma mensagem
para ela, mas essas eram as funçõ es do telefone que ele detestava.
Independentemente disso, quando deu 10:45, ele nã o aguentou
mais. Ele entrou em seus contatos e rolou para o nú mero de telefone de
Esme T. Seu polegar estava pairando sobre o botã o de chamada quando
seu telefone vibrou com uma chamada recebida.
De Esme T.
Ele aceitou a ligaçã o imediatamente e levou o telefone ao ouvido. —
Oi.
— Oh, oi, sou eu. Esme. Mas você sabe disso, hã ? Diz isso no seu
telefone. — Ela disse com uma risada.
Ele balançou sua cabeça. Por que ela estava falando tã o rá pido? —
Sim, eu sei que é você .
— Desculpe se eu acordei você . Nã o estou em um encontro. — Ela riu
e pigarreou. — Só liguei para dizer que vou me atrasar. Certo, tchau
tchau.
Entã o ela desligou.
Foi isso? Sem explicaçã o, sem nada? E por que ela mencionou
encontros? Ele nunca a imaginou com outro homem, mas com certeza
estava agora. O pensamento irritou ele pra caramba.
Cerrando os dentes, ele a chamou de volta. O telefone tocou e tocou e
tocou. Sé rio? Ela tinha acabado de falar com ele. Como é que ela...
— Olá ? — Ela disse sobre o ruı́do de fundo. Muitas pessoas falaram
ao mesmo tempo, e era um bebê chorando?
— Onde você está ?
— Eu vou te ligar de volta. Eles acabaram de chamar meu nome.
— Espere, onde você está?
— No mé dico. Eu falo com você depois. Eu tenho que...
Seu peito se apertou, tirando o fô lego dele. — Qual
mé dico? Onde? Por quê ?
— A clı́nica perto do supermercado asiá tico, mas eu estou bem. Eu
apenas machuquei, eu tenho que ir. Tchau. — Pela segunda vez naquela
noite, ela desligou.
Ela machucou o que? Ela pró pria? Algué m? Ele correu para a porta e
pulou em seu carro.

•••

Esme cruzou os braços contra o peito enquanto uma mulher fazia sons
calmantes para um bebê chorã o e caminhava para frente e para trá s
atravé s da sala de espera. O rosto do bebê estava vermelho e choroso
por vá rios minutos de choro intenso, e isso fez os braços de Esme
doerem para segurar sua pró pria garota. Jade nunca icou tã o doente,
felizmente, mas Esme icou. Lembrou-se de quando a febre e a dor
estavam em seu pior estado, disse a Jade para manter distâ ncia, para
nã o icar doente també m, e Jade caiu no choro.
— Nã o chore. — Esme disse.
— Nã o estou chorando porque estou com medo de icar doente — a
garota respondeu. — Estou chorando porque te amo.
A saudade de Esme por sua ilha tornou-se insuportá vel, e ela se
ofereceria para segurar o bebê dessa estranha se seu tornozelo nã o
estivesse inchado duas vezes mais que seu tamanho normal e apoiado
entre um travesseiro e com uma bolsa de gelo por cima.
Quando Khả i marchou pela porta da sala de espera, todo o seu corpo
icou rı́gido. Ver um fantasma teria feito mais sentido para ela. O que ele
estava fazendo aqui? Por que ele veio? Quando ele atravessou a sala e se
agachou na frente dela, franzindo o cenho, ela nã o tinha ideia do que
pensar. Ele ia gritar com ela?
— O que aconteceu? — Ele perguntou. — O mé dico já viu você ? O que
eles disseram?
— Eu dei mal jeito na escada. O mé dico acha que está torcido. Ele está
esperando o raio-x.
Ele ergueu a bolsa de gelo do tornozelo inchado dela e sua carranca
se aprofundou. — Você consegue mexer o pé ? — Quando ela o mexeu,
ele disse: — Para cima e para baixo? Para os lados?
Uma porta se abriu e uma enfermeira gritou: — Esmeralda Tran.
Esme levantou-se e preparou-se para mancar para a sala de exames
como antes, mas antes que seu pé machucado pudesse tocar o chã o, a
terra girou. Ela se viu aninhada nos braços de Khai como uma heroı́na
em um ilme, e seus mú sculos icaram tensos.
— Você nã o precisa me carregar. Eu posso andar. Eu sou pesada.
Ele revirou os olhos e seguiu a enfermeira pelos corredores. — Você
nã o é pesada. Você é uma humana pequenina.
— Eu nã o sou 'pequenina'. — Mas ela nã o podia colocar muita
indignaçã o nas palavras. Seu aperto sobre ela estava seguro, e ele nã o
estava respirando pesado. Ele a fez se sentir segura. E pequenina. Ela
adorou. Em casa, sua mã e e avó sempre pediam que ela pegasse as
coisas da prateleira superior ou carregasse os pacotes pesados, porque
ela era muito maior do que elas.
Khai nã o achava que ela era muito grande.
— Você pode colocá -la lá . — A enfermeira indicou a cama de exame
coberta de papel. Ao sair da sala, a enfermeira disse: — Otimo
namorado que você tem. O mé dico chegará em breve.
Namorado. A enfermeira se foi antes que qualquer um deles pudesse
corrigi-la, e uma vez que Khả i a colocou no chã o, ela ixou sua atençã o
na imagem de ossos e mú sculos na parede. — Obrigada por… — Ela
acenou para o tornozelo, que ele cuidadosamente posicionou na cama
de exame.
Ele deu de ombros e sentou-se em uma cadeira contra a parede. —
Você nã o deve andar por um tempo.
— Nã o é ruim. — Agora. Mas havia doı́do terrivelmente antes. Ela
pensou que estava quebrado e entrou em pâ nico. Ela claramente falhou
com Khả i. Se ela nã o pudesse trabalhar, Cô Nga a enviaria de volta para
o Vietnã mais cedo? Ela nã o podia ir para casa ainda. Ela ainda
precisava procurar pelo pai. Esfregando o braço desconfortavelmente,
ela perguntou: — Por que você veio?
Ele deu a ela um olhar engraçado. — Você está machucada.
As coisas entraram em colapso em seu coraçã o, e ela desviou os olhos
dele e olhou para as mã os no colo. Ele veio... para icar com ela?
Que conceito estranho.
Enquanto crescia, era esperado que ela se cuidasse. A mã e e a avó
estavam sempre ocupadas trabalhando, e se ela estava magoada ou
doente, era melhor cerrar os dentes e lidar com isso sozinha. Esse era
ainda mais o caso agora que ela tinha Jade. Quando ele mexeu na bolsa
de gelo e a reposicionou contra o tornozelo, ela se sentiu mais cuidada
do que nunca.
— Eu estou bem. — Disse ela.
— Espero que sim.
Uma batida soou na porta e o mé dico entrou - o mesmo de antes. Ele
era extremamente bonito, com feiçõ es escuras, altura acima da mé dia e
um nome indiano que ela nã o sabia pronunciar. Navneet Alguma
Coisa. Ele segurava um raio X preto nas mã os.
— Boas notı́cias, Esmeralda. Sem fratura. Se você mantê -lo
compactado, elevado e gelado, deve estar melhor em poucas semanas.
O corpo de Esme relaxou de alı́vio. — Otimo. Obrigada.
— O prazer é meu. — O mé dico deu um sorriso de dentes brancos
para ela quando pegou um cartã o de visita do bolso e o entregou a
ela. — Nã o é sé rio o su iciente para precisar de outro exame, mas se
você quiser se encontrar depois do expediente um dia desses, icaria
feliz em dar outra olhada.
Esme aceitou o cartã o de visita e virou para ver outro nú mero de
telefone rabiscado na parte de trá s. Quando o olhar dela saltou de volta
para o rosto dele, ele piscou para ela.
Khai levantou-se entã o, e olhos do mé dico se arregalaram quando ele
percebeu a altura de Khai, suas roupas escuras, e o olhar intenso que a
fez pensar de assassinos a guarda-costas.
— Eu sinto muito. Eu nã o notei você aqui. — Disse o mé dico.
— O que você quis dizer com 'depois do expediente'? —
Khả i perguntou com seriedade.
O mé dico engoliu em seco. — Signi ica... o que ela quiser que
signi ique. — Ele se encaminhou para a porta. — Nosso atendimento
ica por aqui. Vou mandar a enfermeira vir para enrolar o tornozelo. —
Com um ú ltimo sorriso, ele saiu.
Khai fez uma careta para a porta fechada e pegou o rolo de tecido que
mé dico havia deixado para trá s. — Eu posso fazer isso. Eu sei como.
Entã o ele a chocou, levantando a perna e enrolando o pano em torno
do tornozelo e do arco do pé . Seu aperto era irme, mas ele nã o a
machucou. Os dedos quentes dele eram gentis contra sua pele gelada da
panturrilha, do calcanhar e da ponta do pé , provocando arrepios na
perna.
Quando ela recuperou o fô lego, ele olhou para ela. — Está muito
apertado?
Ela estava muito distraı́da para falar. Ele estava tocando seu pé feio, e
ele nã o estava se afastando ou limpando as palmas das mã os nas
calças. Em vez disso, ele a segurou como se ela fosse preciosa. Era uma
sensaçã o inebriante ter sua linda mente focada inteiramente nela,
mesmo que fosse apenas no tornozelo.
Atrasada, ela respondeu: — Nã o, nã o está muito apertado.
Ele voltou sua atençã o para o tornozelo dela, e as bordas do cartã o de
visita pressionaram a pele de Esme enquanto ela apertava os dedos. Ela
queria tocar seu rosto, as linhas pensativas de seu per il, sua testa, sua
mandı́bula, a ponte a iada de seu nariz, seus lá bios tã o beijá veis...
— Isso deve servir. — Disse ele, e quando ele afastou as mã os, ela viu
que ele tinha enrolado seu tornozelo ordenadamente e segurado a
ponta com um fecho de metal. — Se você começar a perder a
sensibilidade nos dedos dos pé s, avise-me, e eu vou afrouxar.
— Ok, obrigada, Anh.
— Pronta para ir?
Ela assentiu e deixou as pernas caı́rem sobre a beira da cama, com a
intençã o de icar de pé , mas, novamente, ele a pegou nos braços e a
levou para fora do quarto.
— Eu posso andar. — Ela sussurrou.
— E melhor se você nã o andar. Nã o me importo de carregar você .
Depois disso, ela nã o protestou. Ela també m nã o se importava que ele
a carregasse. Ningué m a segurava assim desde que ela era
criança. Enquanto eles andavam pela clı́nica, no entanto, ela apertou as
mã os e manteve os braços tensos. Ela nã o conseguia esquecer como ele
respondera cada vez que o tocara no passado. Ela nã o queria estragar
isso. Ou surpreendê -lo e ele deixá -la cair.
Depois de colocá -la na recepçã o brevemente para pagar sua visita -
ela nã o sabia quanto custava, porque ele entregou o cartã o de cré dito à
recepcionista antes que ela pudesse mostrar a conta a Esme - ela foi
levada para fora e a ivelada ao carro dele. Sonolenta, ela viu as luzes
piscarem enquanto ele voltava para sua casa.
Ele quebrou o silê ncio, perguntando: — Em que escada você estava
quando caiu? Nã o há nenhuma no restaurante da minha mã e.
Com a pergunta dele, a adrenalina aumentou, e o suor frio enevoou
sua pele. — As escadas do outro lado da rua.
Por favor, não pergunte mais.
— A da escola para adultos?
Ela tentou afundar na cadeira e passou as pontas dos dedos pelo
corrimã o da porta. — Eu gosto do seu carro. De que tipo é ?
— E um Porsche 911 Turbo S.
— Por-sha — ela repetiu. — Esse é um nome bonito.
Ele deu de ombros e disse: — Acho que sim.
Os mú sculos dela relaxaram. Ela conseguiu distraı́-lo.
Mas quando ele estacionou em frente à sua casa, ele nã o saiu do carro
imediatamente. — O que você estava fazendo na escola de adultos?
Ela se contorceu no banco e moveu as pernas. Suas roupas icaram
ú midas sob os braços e os cabelos grudados no pescoço. Todos os seus
esforços seriam inú teis se ele descobrisse sobre eles.
— Você estava...
Antes que ele pudesse completar a pergunta, ela abriu a porta e
saiu. Ela mancava um quarto do caminho até a entrada da garagem
quando o carro apitou e ele apareceu atrá s dela.
— Você realmente nã o deveria estar andando ainda — disse ele. —
Deixe-me carregá -la.
Ela nã o precisava disso. O tornozelo dela já estava muito melhor. Mas
ela assentiu de qualquer maneira.
Ele lhe deu as chaves e a pegou como se ela fosse uma - humana
pequenina. Depois que ela abriu a porta da frente para ele, ele a
carregou para dentro, e ela se divertiu com a proximidade dele. Se ela
se inclinasse um pouco para frente, poderia beijá -lo. Isso
provavelmente o assustaria, no entanto.
Sem beijos. Sem toque.
No entanto, as pontas dos dedos dela coçavam para acariciar sua
mandı́bula levemente raspada e as cordas fortes do pescoço. Como
seria passar os dedos pelos cabelos dele? Os ios eram mais grossos e
escuros do que os dela, e algumas das mechas desiguais caı́am sob o
queixo dele. Ela se deteve antes de tocar as pontas.
— Você precisa de um corte de cabelo.
Ele lhe lançou um olhar irô nico. — Eu sei.
— Eu posso fazer isso. Eu sei como. Eu costumava cortar o cabelo dos
meus primos. Eu sou boa nisso. — Ela disse, mas depois prendeu a
respiraçã o. Cortar o cabelo em casa era muito desagradá vel para
ele? Talvez ela nã o devesse ter oferecido.
Ele parou no corredor e a considerou. — Você cortaria meu cabelo
para mim?
— Claro.
— Você tem que fazer de uma certa maneira.
— Me mostre uma imagem. Se eu ver, eu consigo.
Parecia que ele queria dizer mais, mas ele a carregou para o quarto
dela. Depois de colocá -la no sofá , ele perguntou: — Você pode cortar
meu cabelo amanhã de manhã ? Por favor?
Ela mordeu o lá bio, mas isso nã o impediu o sorriso largo de se
espalhar pelo rosto. — Ficarei feliz em cortá -lo.
Ele assentiu. — OK. Obrigado.
— Como é que você gosta? Você tem uma foto?
Ele passou a mã o pelo cabelo. — Vou deixar o estilo para você . Eu só
quero mais curto.
— Eu posso escolher?
— Sim, claro. — Ele sorriu levemente enquanto en iava as mã os nos
bolsos e passeava sem rumo pela sala, parando na mesa. Um olhar
pensativo cruzou seu rosto, e ele pegou algo da superfı́cie da mesa. A
fotogra ia do pai dela. — Quem sã o essas pessoas?
Ela se concentrou no tornozelo machucado e mexeu os dedos
algumas vezes. — Minha mã e e meu pai.
As sobrancelhas dele se arquearam quando ele olhou para ela. — Ele
foi para Berkeley.
Ela respirou e soltou. — Acho que sim, mas nã o tenho certeza. Eu
nunca o conheci.
— Oh. — Khả i virou a foto para inspecionar as costas, mas ela sabia
que nã o havia nada escrito lá .
— Você acha que se formos lá , eles podem me ajudar a encontrá -lo?
— Para Berkeley? — Ele perguntou.
Ela assentiu.
Ele encolheu os ombros. — E possı́vel.
A esperança loresceu em seu peito. — Podemos ir... amanhã ? Depois
do corte de cabelo?
Ele hesitou um segundo antes de dizer: — Sim, tudo bem. Nó s
podemos ir.
Ela icou de pé , tã o feliz que queria abraçá -lo, mas apertou as mã os
em punhos e sorriu. — Obrigada, Anh Khả i.
Um sorriso estranho tocou sua boca. — Sim, claro. — Ele caminhou
em direçã o ao banheiro que ligava os quartos, mas parou com a mã o na
maçaneta da porta. — Lembre-se de retirar a bandagem quando tomar
banho. Vou enrolá -lo novamente quando você estiver pronta para
dormir.
— OK.
Quando ele saiu, ela levou um momento para admirar a bandagem do
tornozelo. Tinha sido perfeitamente enfaixado, nem muito apertado,
nem muito solto, com laços espaçados uniformemente. Entã o era assim
que Khả i cuidava de algué m.
Um sonho dele cuidando de Jade passou por sua mente. Se ele
quisesse, ele poderia ser tã o bom com sua ilhinha.
Mas Esme nã o tinha con iança que isso estava em jogo. Isso
nã o signi icava nada. Ela nã o deveria deixar isso ir à sua cabeça. Ele era
apenas uma boa pessoa. Ela estava trabalhando nisso, mas ainda era...
ela mesma. Surpreendentemente, a experiê ncia de sua vida anterior
como Mỹ seria ú til amanhã .
Ela pegou o telefone e vasculhou as fotogra ias de estrelas de cinema
e mú sicos até que imagens de homens bonitos estavam grudadas nas
costas de suas pá lpebras. Amanhã , ela daria a Khả i o melhor corte de
cabelo de sua vida.
CAPÍTULO DOZE

Na manhã seguinte, Esme estava com tudo preparado. Havia uma


cadeira no meio da cozinha, uma tesoura a iada no balcã o e a vassoura
e a pá de lixo estavam prontas para a limpeza de depois. A ú nica coisa
que faltava era Khai. Ela juntou as mã os e respirou fundo vá rias
vezes. Nã o havia necessidade de icar nervosa. Ela já tinha feito muitos
cortes de cabelo. Ela ia fazer um bom trabalho.
Mas e se ele nã o gostasse? E se ele icasse bravo porque ela
"arruinara" o cabelo dele?
O chuveiro foi desligado e, pouco depois, Khai entrou na cozinha
vestindo calçã o preto e camiseta preta com amor estampado em letras
brancas. As mangas estavam apertadas ao redor dos mú sculos duros de
seus braços, e ela se obrigou a olhar para os cabelos dele antes de se
distrair completamente. Fresco do chuveiro, era a umidade ideal para
um corte de cabelo.
Ele considerou os pé s dela. — Dó i icar de pé ? Podemos fazer isso
outra hora.
Ela sorriu. Ele nã o pareceu notar tanto seus sentimentos feridos, mas
um tornozelo machucado chamou sua atençã o. — Nã o, já está bem
melhor. Aqui. — Ela apertou as costas da cadeira. — Anh Khả i, sente-se.
Ele obedeceu e apertou os joelhos, pronto.
Agindo como uma pro issional, o que ela nã o era, ela pegou a tesoura,
mas Khai disse: — Eu preciso que você faça isso de uma certa maneira.
— Você quer ver o penteado que eu escolhi para você ? Eu posso te
mostrar...
Ele balançou sua cabeça. — Nã o é isso. Eu con io no seu
gosto. Talvez... — Ele passou as mã os para cima e para baixo nas coxas
algumas vezes. Ele estava nervoso? — Talvez seja melhor abaixar a
tesoura por enquanto.
Ela largou a tesoura. Otimo, ele estava com medo de que ela
estragasse tudo. Ela nã o achava que iria. Ela escolheu algo clá ssico e
so isticado. Pelo menos, ela achava que era.
Focando na parede, ele disse: — Sou autista e tenho problemas
sensoriais. Existe um jeito certo para me tocar, especialmente meu
rosto e cabelo. — Ele voltou sua atençã o para o rosto dela. —
Provavelmente é melhor se eu te mostrar. Você pode me dar uma de
suas mã os?
Ele estendeu a palma da mã o e Esme se aproximou dele. Ela nã o sabia
o que "autista" ou "questõ es sensoriais" signi icavam, mas entendeu
que ele estava con iando nela com algo importante - ele
pró prio. Prendendo a respiraçã o, ela lentamente esticou a mã o. Mais
perto. Mais perto. Até que eles se tocaram.
Ela mordeu o lá bio, esperando que ele se afastasse ou izesse uma
careta. Os dedos quentes dele se fecharam em torno dela e apertaram, e
o calor a envolveu quando ela exalou.
Eles estavam de mã os dadas.
Ele limpou a garganta. — Os toques suaves me incomodam, e é pior
quando nã o sei que está vindo. Entã o, quando você cortar meu cabelo,
eu apreciaria se você mantivesse seu toque irme. Assim. — Ele juntou a
mã o dela nas suas e pressionou a palma da mã o no meio do peito,
mantendo as mã os sobre as dela.
Ele parecia calmo na superfı́cie, irme, competente, como sempre
fazia, mas seu coraçã o batia loucamente sob a palma da mã o
dela. Ele estava nervoso. Mas nã o pela razã o que ela pensou.
— Todas as outras vezes em que eu… — ela sussurrou.
Seu peito levantou numa inspiraçã o profunda. — Muito suave, e você
me pegou de surpresa.
— Eu nã o sabia… — Ela pensava que era seu toque. Ela nunca
imaginou que era o toque de qualquer um. — Como é quando as pessoas
tocam em você com muita leveza?
A testa dele enrugou. — E demais pra mim. Quase dó i, mas a dor real
é preferı́vel. E difı́cil de descrever.
— Se eu precisar tocar em você , devo avisar primeiro? — Ela
perguntou.
— Sim, é melhor me avisar se nã o estou esperando.
Ela puxou um pouco o pró prio braço. — Posso tocar seu rosto?
Ele balançou a cabeça e deixou as mã os caı́rem das dela, mas sua
garganta balançou ao engolir em seco.
Ela levantou os dedos em direçã o à mandı́bula dele, mas parou antes
de fazer contato. — Você pode me ajudar? — Ela nã o queria fazer
errado.
Seus lá bios se curvaram com o começo de um sorriso, e ele levou a
mã o dela ao rosto enquanto pressionava a bochecha na palma da
mã o. — Você nã o precisa icar tã o preocupada. Eu sei o que está
acontecendo agora. Se trabalharmos juntos, posso controlar minhas
reaçõ es.
— Isso é ruim? — Ela perguntou, com medo de mover um ú nico dedo.
— Nã o, está bom. Para o meu cabelo, é melhor manter uma boa
tensã o nos ios enquanto os corta. Eu nã o me importo se você
puxar. Nã o dó i. Mas nenhum toque suave. Por favor.
— Sem toques suaves. — Ela estendeu a outra mã o na direçã o dele,
enrolou os dedos enquanto hesitava e os en iou nos cabelos ú midos,
pressionando as pontas dos dedos com irmeza no couro cabeludo. —
Tudo bem?
Quando suas pá lpebras caı́ram de prazer e ele assentiu, ela icou mais
corajosa. Ela empurrou a outra mã o da mandı́bula dele até a tê mpora e
na linha do cabelo.
— Como é isso? — Ela sussurrou.
— Bom. — A palavra ecoou nele, profunda, quase grave.
Os cabelos dele eram grossos e frios entre seus dedos, macios como
seda, e antes que ela percebesse o que estava fazendo, ela estava
massageando o couro cabeludo com movimentos lentos e irmes. E ele
estava deixando. Seus olhos se fecharam e ele se inclinou para o toque
dela como se estivesse absorvendo. Sua respiraçã o veio lenta, fá cil. Se
ela pressionasse a palma da mã o sobre o coraçã o dele agora, apostaria
que o batimento cardı́aco dele havia acalmado. Ela fez isso.
Ela puxou os ios como costumava fazer durante o corte. — Como é
isso?
Ele franziu a testa, mas seus olhos nã o se abriram. — Mais.
— Assim? — Ela puxou com mais força.
— Mais.
Ela mordeu o lá bio e puxou com mais força ainda, com medo de
machucá -lo. — Isso?
Um longo suspiro saiu dele. — Assim é melhor.
Ela balançou a cabeça enquanto sorria para si mesma. Ele era um
quebra-cabeça que ela nunca seria capaz de resolver se nã o tivesse
mostrado a ela como. Esses eram os melhores tipos de quebra-cabeças,
nã o eram? Os que ningué m mais poderia descobrir?
— Vou cortar agora. — Disse ela.
Ele abriu os olhos e focou nela. — Tudo bem.
Ela ouviu as palavras dele, reconheceu-as como permissã o para
seguir em frente, mas naquele momento ela nã o conseguiu puxar as
mã os para trá s. Ela queria estar mais perto dele, nã o mais longe. Sua
massagem trouxe cor à s suas bochechas e um tom sonolento nos olhos
escuros e escuros. Seus lá bios nunca pareceram tã o beijá veis. A
necessidade de beijá -lo transformou-se em um desejo selvagem,
instando-a a engatinhar até o colo dele, pressionar seu corpo contra o
dele e tomar, tomar, tomar.
Ela se afastou antes que ela pudesse fazer algo que ela se
arrependeria e levou um momento para reunir seus pensamentos. Isso
era um corte de cabelo. Só isso. As palavras dele ecoaram em sua
cabeça, um lembrete.
Você. Precisa. Parar. Você entendeu? Você. Precisa. Parar. Pare.
Se ele quisesse mais, ele teria que dar o primeiro passo. Ela nã o
conseguiu.
A frieza da tesoura a aterrou, e sua mente icou mais nı́tida como a de
um cirurgiã o quando pegava um bisturi. Todas as coisas consideradas,
Khai tinha sido muito tolerante com ela, e ele a levaria para procurar
seu pai hoje. Isso era uma coisa boa a se fazer em troca, e ela queria
fazer bem.
Movendo-se para icar atrá s dele, ela disse: — Estou começando.
— OK.
Mas, como antes, ela teve di iculdade em dar o primeiro passo. Ele
nã o podia vê -la daqui. E se ela o surpreendesse e estragasse tudo antes
de começar?
Ela segurou a mã o esquerda perto orelha dele. — Você pode colocar
minha mã o no seu cabelo?
Ele olhou para ela por cima do ombro, deu-lhe um sorriso confuso e
pressionou a mã o no cabelo dele antes de olhar para frente novamente.
Seus movimentos foram hesitantes no começo, mas ela ganhou
con iança com cada trecho da tesoura. Ela juntou os cabelos dele entre
os dedos, tomando o cuidado de manter a tensã o irme, cortou e alisou
os dedos sobre o couro cabeludo antes de juntar mais
cabelos. Repetidamente, ela fazia isso e, em pouco tempo, a natureza
rı́tmica disso a relaxou tanto quanto ele.
Ela aparou as costas e os lados e acabou na frente dele. Com um
ú ltimo corte da tesoura, cabelos escuros lutuaram para o chã o da
cozinha. Ela deu um passo para trá s para avaliar seu trabalho,
ampliando seu foco para absorver mais do que apenas os cabelos dele,
e a transformaçã o a fez ofegar. Ele já era bonito antes. Isso estava
demais.
O corte de cabelo curto abriu seu rosto, mostrando suas fortes
caracterı́sticas ao má ximo. As meninas iriam se jogar nele. Começando
com ela, se ela nã o tivesse cuidado.
— Como está ? — Ele perguntou.
Certi icando-se de manter seus toques irmes, ela puxou os ios para
ver se os comprimentos eram iguais nos dois lados. — Está bem. —
Tocando a tesoura na mandı́bula, ela deixou um sorriso esgueirar-se
nos lá bios. — Eu estou bem.
Ele tirou o celular do bolso, destrancou e entregou a ela. — Tire uma
foto para Vy, por favor. Ela é a polı́cia do cabelo.
Esme tirou fotos de vá rios â ngulos diferentes, mas antes de devolver
o telefone para ele, ela enviou seu favorito para si mesma. — Ela vai
gostar.
Ele coçou o pescoço, onde pequenos pelos grudavam em sua pele
enquanto enviava a mesma foto para sua irmã . — Veremos.
Ela pegou a vassoura e a pá de lixo e varreu metade do cabelo no chã o
quando o telefone tocou. Rindo, ele mostrou as mensagens de texto em
sua tela.

Finalmente!

Quem cortou? Dê 50% de gorjeta!

Meu irmãozinho é um gostosão!!!

— Acho que ela aprova. — Disse ele.


Esme sorriu. — Eu disse que ela iria gostar.
— Obrigado. — Ele devolveu o sorriso dela, e foi um dos
raros sorrisos reais que enrugou os olhos, fez covinhas nas bochechas e
revelou até dentes brancos.
Cé u e terra, ela queria provar aquele sorriso. E cada uma dessas
covinhas. O puro desejo percorreu seu corpo com correntes elé tricas,
fazendo os pelos inos de sua pele se arrepiarem, e ela quase balançou
na direçã o dele. Se ela fosse melhor sendo a Esme Contadora, ele a
desejaria de volta?
O sorriso dele diminuiu. — O que foi? Algo está errado?
Sem ter tempo para pensar, ela respondeu: — Eu quero beijar você .
Quando ela ouviu as palavras caı́rem de sua boca, um rubor furioso
aqueceu suas bochechas, e ela se virou e se ocupou em esvaziar a pá de
lixo no lixo. Por que ela disse isso? Por quê?
Ele se aproximou dela. — Esme...
Ela passou por ele e varreu o resto dos cabelos no chã o.
— Desculpe. Esqueça que eu disse isso. — Ela jogou tudo no lixo
novamente e correu para devolver a vassoura ao armá rio. — Quando
você quer ir para Cal Berkeley?
Esfregando a parte de trá s do pescoço, ele disse: — Podemos ir
depois que eu comer alguma coisa e tomar banho novamente, eu acho.
— Ok, eu vou me arrumar. — Ela mancou em direçã o ao corredor.
— Espere, você nã o está com fome?
Nã o para comida.
— Nã o, obrigada Anh.
— Eu vou buscá -la quando for a hora de ir, entã o. — Disse ele
enquanto passava as mã os pelos cabelos recé m-cortados.
— Nã o tenha pressa.
Ela só icaria em seu quarto, tentando nã o pensar nele.
CAPÍTULO TREZE

Enquanto Khả i dirigia em direçã o a Berkeley, ele nã o conseguiu tirar a


con issã o da cabeça dele.
Ela queria beijá-lo.
Ele queria beijá -la de volta.
Mas ele nã o podia.
Você beija uma mulher se quisesse namorar com ela e ter um
relacionamento, se quisesse amar e ser amado em troca,
se pudesse amar. Se você beija uma mulher quando nã o consegue
cumprir o resto, você é um idiota. Era melhor se masturbar no chuveiro.
Ele desejou que isso fosse uma opçã o. Desde que Esme entrou em sua
vida, ele estava em constante estado de excitaçã o, e nã o havia alı́vio -
exceto pelo que aconteceu por acidente durante o sono. Até o momento,
ele teve que acordar quatro vezes no meio da noite e trocar de
cueca. Foi embaraçoso pra caralho. Como ter doze anos de novo. E seus
sonhos sempre a envolviam. Sempre. Metade do tempo, eles
envolveram suas calças Hammer també m.
Fazia um tempo desde que ele tinha visto aquelas calças em
particular. Atualmente, ela usava um jeans azul que parecia ter sido
pintado em suas pernas. Ele nã o se importava com o jeans, mas nã o se
importaria de passar as mã os pelas coxas dela. Para algué m que nã o
gostava de tocar, ele passava muito tempo fantasiando sobre isso.
Quando chegaram ao campus, ele estacionou o mais pró ximo possı́vel
do escritó rio do cartó rio e eles caminharam juntos pela estrada. Mais
precisamente, ele andou. Ela mancou.
— O mé dico deveria ter lhe dado muletas. — Em vez de seu nú mero
de telefone. Bastardo oportunista. — Como você está se sentindo? Você
precisa de ajuda?
— Nã o é tã o ruim. — O sorriso que ela deu para ele era mais
ensolarado do que a camisa amarela de mangas compridas que ela
usava. Uma das mangas tinha um texto laranja na lateral que dizia Em
yêu anh yêu em. Seu vietnamita escrito era horrı́vel, mas ele sabia o
su iciente para traduzir isso como Garota ama menino ama garota. Era
um bom conceito. O cı́rculo do amor e tudo isso. Pena que ele nunca
poderia completar esse cı́rculo.
— Me avise se você quiser descansar. Eu també m posso carregá -la
até lá .
Ela colocou o cabelo atrá s da orelha. — Se você izer isso, as pessoas
vã o pensar que você é meu namorado.
Ele olhou para os estudantes andando pelo campus e deu de ombros.
— Por que isso importa?
— Nesse caso, eu me machuquei muito. Leve-me todo o caminho. —
Ela disse enquanto sorria e mancava exageradamente.
Ele a conhecia bem o su iciente agora para saber quando ela estava
brincando com ele, mas ele a pegou de qualquer maneira. Ela riu e
passou os braços em volta dele, sorrindo para ele enquanto seus olhos
brilhavam à luz do sol. Naquele momento, Khả i decidiu que o verde era
a sua cor favorita, mas tinha que ser esse tom especı́ ico de verde da
espuma do mar.
De repente, ela icou constrangida e suas mã os se fecharam em
punhos. — Eu posso andar.
— Estamos quase lá . — Ele acenou com a cabeça em direçã o ao
grande edifı́cio branco com seus quatro pilares enormes e o Sproul
Hall gravado sobre o conjunto central de portas duplas. — O escritó rio
do escrivã o está lá . Eles devem ter um banco de dados de todos os
alunos que estudaram aqui. Mas nã o sei se eles vã o nos dar as
informaçõ es que você quer.
Olhando para o pré dio, ela assentiu. — Ele subiu essas mesmas
escadas.
Ela mexeu as pernas e ele a colocou no chã o. Ela apontou um sorriso
distraı́do para ele antes de subir mancando as escadas para o
pré dio. Quando eles chegaram lá dentro, ela olhou em volta com olhos
vagantes e lá bios abertos.
Ele en iou as mã os nos bolsos e deu-lhe espaço para explorar. Ele
realmente nã o entendia o fascı́nio dela. Era apenas um pré dio, e nã o era
como se o pai dela tivesse deixado parte de si mesmo aqui. Bem, se ele
tivesse, isso seria desagradá vel.
Nã o havia uma ila no escrivã o, entã o eles caminharam diretamente
para o balcã o.
— Oi, como posso ajudá -lo? — O cara perguntou atravé s de sua
enorme barba alaranjada.
Esme abraçou a bolsa no peito, molhou os lá bios e olhou rapidamente
para Khả i antes de dizer em inglê s ensaiado: — Meu pai estudou aqui
há muito tempo. O nome dele é Phil. Você pode encontrá -lo para mim,
por favor?
Entã o ela podia falar inglê s. Ela simplesmente escolheu nã o falar. Com
ele. O cara olhou para os dois por cima dos ó culos de aro roxo de
plá stico. — Você está falando sé rio?
Esme assentiu.
— Você nã o sabe o sobrenome dele? — O homem perguntou.
Ela engoliu em seco, balançou a cabeça e respondeu em inglê s
novamente: — Tudo o que sei é Phil.
Khả i virou lentamente a cabeça para poder analisá -la. Ela só sabia o
primeiro nome do pai. Isso foi surpreendente e... triste. Isso diminuiu
suas chances de encontrá -lo dramaticamente.
— Provavelmente existem milhares de Phils aqui. Eu sou um Phil. — O
cara bateu no crachá onde dizia Philip Philipson.
Khả i arqueou as sobrancelhas. O cara era cerca de duzentos por cento
Phil, mas sua idade e cor estavam todas erradas. — Ela tem uma foto.
Ela correu para tirá -lo da bolsa e entregou-o. — Vinte e quatro anos
atrá s. — Ela tentou sorrir, mas seus lá bios mal se curvaram antes de
limpar a garganta.
Philip Philipson ofereceu a Esme um sorriso de desculpas. — Quero
totalmente ajudá -la, mas nã o tenho permissã o para fornecer essas
informaçõ es. Eu sinto muito.
— Mas ele estudava aqui. — Ela insistiu.
— Eu sinto muito mesmo. Talvez você deva contratar um
investigador particular. — Disse Philip.
Ela abraçou a foto no peito enquanto seus olhos brilhavam, e Khả i
queria atravessar o balcã o e forçar Phil a se desculpar. Antes que ele
pudesse agir, Esme se afastou do balcã o e mancou da sala.
Ele seguiu atrá s quando ela saiu correndo do pré dio, desceu os
degraus e mancou pela praça para sentar-se junto à fonte de á gua
redonda. Ela deu um suspiro profundo apó s suspiro profundo, mas
tanto quanto ele podia dizer, ela nã o estava chorando. Ela poderia
muito bem ter estado, no entanto. Ele nã o via como isso poderia ser
diferente do que ela já estava fazendo.
Um sentimento familiar de ine icá cia tomou conta dele. Ele nunca
sabia o que fazer quando as pessoas eram emocionais assim, mas ele
queria fazer alguma coisa.
Por falta de ideias melhores, ele se sentou ao lado dela e disse: —
Meus pais se divorciaram quando eu era pequeno. Eu conheço meu pai,
mas nunca o vemos.
Ela se virou para olhá -lo. — Por que nã o? — Voltando ao vietnamita
novamente. O que isso signi icava?
— Ele está ocupado com sua nova famı́lia e mora em Santa Ana. Ele é
contador. Como eu. Ou talvez eu seja como ele. Nã o sei. — Ele esfregou
o pescoço. — Talvez... seja melhor você nã o conhecer seu pai. Você pode
imaginar que ele é melhor que o meu.
— Isso é verdade. — Um pequeno sorriso tocou seus lá bios, mas
desapareceu rapidamente. — Mas eu só ... eu só queria saber, e se eu
icar sem vê -lo, terei perdido a viagem aqui e... — Ela passou uma
manga sobre os olhos e tentou respirar mais fundo, mas depois seu
rosto desabou e seus ombros tremeram.
Porra, ela estava chorando de verdade agora. Algo parecido com
pâ nico tomou conta dele. Ela nã o podia chorar. Ela deveria estar feliz
pelos dois porque ele nã o sabia como.
Ele segurou uma das mã os dela. Dar as mã os era bom, certo? Mas
entã o ela se inclinou contra ele, e logo ele a estava abraçando enquanto
ela enterrava o rosto no pescoço dele. O ar saiu de seus pulmõ es. Ela
estava nos braços dele, virando-se para ele, con iando nele, exatamente
como na ocasiã o em que teve o pesadelo.
Foi aterrorizante. Foi maravilhoso.
Ele nã o sabia o que fazer alé m de abraçá -la com mais
força. Estudantes atravessaram a praça. Pá ssaros cantaram nas á rvores,
e uma brisa suave soprou. A luz do sol estava quente em seu rosto. Ela
chegou mais perto, e o peso do seu corpo pressionou nele. Ele sentiu a
impressã o de lá bios no seu pescoço.
Isso conta como um beijo?
Ela virou o rosto para o lado e olhou para ele atravé s dos cı́lios
ú midos, e ele afastou a umidade residual em sua bochecha com o
polegar. Tã o suave, tã o bonita. Ele afastou mechas de cabelo molhadas
das suas tê mporas e os lá bios dela se separaram.
Em um instante, tudo mudou. O vento tornou-se aveludado, e o som
era o barulho de seu coraçã o e a corrente de seu sangue. Cores
brilhavam e dançavam. O verde de seus olhos, o amarelo de sua blusa, o
azul do cé u de verã o, tudo centrado em torno do rosa de sua boca.
Ele nã o percebeu o que estava fazendo até ver as pontas dos dedos
alisarem seu lá bio inferior. Que visã o ver sua pele bronzeada contra seu
rosto pá lido. Seus olhos icaram luminosos e sonhadores, e quando ele
passou a ponta dos dedos sobre seu lá bio novamente, sua boca se abriu
mais. Ele se viu inclinando-se para ela, querendo, querendo, mas
conseguiu parar antes de quebrar todas as suas regras.
— Você pode me beijar — disse ela, sua voz meio sussurro, meio
rouca. — Quando quiser, você pode me beijar.
Garota ama garoto ama garota repetia em sua cabeça. Ele nã o podia
amá -la, nã o poderia lhe fazer promessas. Ele deveria icar longe dela.
Com os olhos ixos nos dele, ela continuou: — Você pode me beijar... e
me tocar... e nã o se casar comigo. Eu só quero estar com você . Antes de
ir.
Suas palavras enviaram reaçõ es con litantes atravé s dele. Seu
estô mago se arrepiou com a ideia de ela ir embora, mas
simultaneamente a tensã o drenou de seus mú sculos. Ela deu permissã o
e deixou claro que nã o tinha expectativas. Beijá -la nã o estava ligado a
namoro ou relacionamento, casamento ou amor. Ele poderia apenas
beijá -la porque ele queria.
Ele poderia beijá-la.
Sua pele icou quente e ele sabia que isso iria acontecer. Ele estava
indo beijar Esme. Agora era inevitá vel.
Ele passou as costas dos dedos pela bochecha dela e uma respiraçã o
trê mula saiu num suspiro entre os lá bios dela. Ele tinha que prová -los,
tinha que conhecê -los.
Agora.
Segurando sua mandı́bula na mã o, ele se inclinou na direçã o dela.
— Esmeralda, é você . — Uma voz alta interrompeu com um forte
sotaque russo.

•••

Ah nã o, essa voz era familiar.


Esme se afastou de Khả i com um sobressalto e seu coraçã o caiu
quando seus medos foram con irmados. Era ela. — Oi, Angelika.
Khả i olhou dela para a alta russa loira e Esme começou a suar frio. Ele
descobriria que ela era uma grande mentirosa e depois a desprezaria
mais.
— Eu nã o sabia que você tinha namorado. — Disse Angelika.
Khả i nã o corrigiu Angelika. Talvez isso signi icasse alguma coisa, mas
Esme nã o teve tempo para pensar sobre isso. Eles precisavam ir
embora imediatamente. Talvez se eles fossem rá pidos, Khả i nã o
descobriria.
Ela icou de pé . — Nó s precisamos ir. Até mais tarde, Angelika. — Ela
queria agarrar Khả i pelo braço e arrastá -lo atrá s dela, mas tinha medo
de tocá -lo da maneira errada. Apó s um momento de hesitaçã o, ela
mancou sozinha, esperando que ele a seguisse. Felizmente, ele fez.
Mas, em vez de deixá -los partir em paz, Angelika os seguiu. — Estou
pensando em me candidatar aqui se for aprovada no GED. Mas eu nã o
sei se vou passar. Se você izer o teste, você passará . — Para Khả i, ela
disse: — Esmeralda é muito inteligente. Ela tira A em todos seus testes
em sala de aula.
O coraçã o de Esme pulou e começou a bater tã o rá pido que sua visã o
icou turva. Tarde demais.
— Você está tendo aulas? — Ele perguntou. — Na escola para adultos
em frente ao restaurante da minha mã e?
Ela assentiu enquanto olhava para o chã o, desejando poder derreter
nas fendas entre os tijolos. Agora ele sabia que ela nã o era Esme da
Contabilidade. Ela era Esme que nem tinha se formado no ensino
mé dio.
Angelika deu um passo desconfortá vel para trá s. — Eu, hum, eu te
vejo mais tarde. Tenha um bom im de semana. Muito prazer em
conhecê -lo.
Esme acenou, e Khả i deu seu sorriso habitual para Angelika antes de
se concentrar em Esme novamente.
Quando ele abriu a boca para falar, Esme se apressou a dizer: — Nó s
terminamos agora. Nó s devemos ir.
Enquanto ela mancava de volta por onde eles vieram, ela se distraiu,
absorvendo o má ximo de campus possı́vel. Seu pai havia andado sobre
os mesmos tijolos, respirado o mesmo ar, visto aquelas mesmas
á rvores. Provavelmente era o mais pró ximo que ela chegaria dele.
Khả i a alcançou com passos fá ceis de suas pernas longas e sem
ferimentos. — Devemos seguir pelo outro caminho.
— O carro é por aqui. — Ela apontou para o estacionamento.
— Há outro lugar que devemos tentar.
Ela fez uma pausa. — Outro lugar?
— O pré dio dos ex-alunos. Eles podem ser mais ú teis. Eu
provavelmente deveria ter te levado lá primeiro. Você precisa de ajuda
para chegar lá ? Nã o é longe. E logo ali. — Ele apontou na direçã o
oposta, em direçã o a um conjunto de edifı́cios mais modernos cercados
por á rvores antigas.
— Eu andarei. Vamos lá .
Esme mancou o mais rá pido que pô de atravé s do trá fego de
estudantes, esperando que se eles se movessem rapidamente, eles nã o
pudessem falar. Mas isso nã o impediu Khai de perguntar: — Que aulas
você está tendo?
Ela abraçou os braços sobre o peito, embora nã o estivesse com frio.
— Inglê s, estudos sociais e contabilidade.
— Isso nã o é muito? Trê s aulas?
— E? — Ela nã o tinha nada para comparar. Tudo o que sabia era que
passava muito tempo estudando quando achava que as pessoas nã o
podiam vê -la.
— Eu acho que sim. — Ele passou a mã o nos cabelos, mas quando
sua mã o encontrou as mechas mais curtas, ele esfregou seu pescoço. —
Eu nunca fui muito bom nessas aulas - alé m de contabilidade, é
claro. Eu sou melhor com nú meros.
Ela teve que sorrir com isso. — Eu també m. — Eles eram os mesmos,
independentemente do idioma que você estava falando.
Ele sorriu de volta para ela antes de se concentrar no topo das
á rvores que passavam. — Se você precisar de ajuda, eu posso tentar
ajudar. Eu nã o me importo.
Ela viu os pé s pisarem desigualmente no chã o, entã o tinha algo para
olhar alé m dele. Passo-arrasta, passo-arrasta, passo-arrasta. Quando
inalmente criou coragem, obrigou-se a dizer: — Sinto muito. Por
mentir. Eu nã o sou contadora. Eu... — Ela inalou. — ...limpo lugares. —
Ela exalou, e seu interior encolheu. — Lá em casa. Eu nã o terminei a
escola. Precisá vamos de dinheiro, porque Ngoi era muito fraca para o
trabalho, entã o eu comecei a limpar, e, em seguida, eu... — Ela mordeu o
lá bio antes que ela mencionasse ter um bebê .
Quando ela olhou para ele, ela o encontrou observando o caminho à
frente com uma pequena carranca. — Você nã o precisava mentir para
mim.
Ela estremeceu e olhou para os pé s. Passo-arrasta, passo-arrasta,
passo-arrasta. — Eu queria que você gostasse de mim. — Nã o era uma
pergunta, mas ela prendeu a respiraçã o enquanto esperava que ele
respondesse.
Foi quando ele parou em frente a um modesto pré dio de um andar
composto de vidro e tijolo vermelho. — E aqui.
Na á rea da recepçã o, uma mulher de cabelos grisalhos curtos e um
terninho os cumprimentou. — Bem-vindos ao Alumni House. Como
posso ajudá -los?
Esme molhou os lá bios e tirou a fotogra ia da bolsa enquanto lutava
para colocar seus pensamentos em inglê s. — Estou procurando um
homem. Este homem. Vinte e quatro anos atrá s...
— Eu sinto muito. Somos especializados em eventos de ex-
alunos aqui. Você precisará falar com outra pessoa se estiver
procurando por um ex-aluno especı́ ico. Você tentou o cartó rio? —
Perguntou a senhora.
— Está vamos lá . — Disse Khả i.
— Entendo. — A senhora franziu a testa e, depois de um momento,
correu para sua mesa, encontrou um cartã o de visita em uma das
gavetas e entregou a Esme. — Essa mulher é responsá vel pela
Associaçã o de Antigos Alunos. Tente ligar para ela. Nã o sei se ela
poderá ajudá -la, mas se algué m puder, será ela.
Esme tentou sorrir, mas seus lá bios se recusaram a cooperar. —
Obrigada.
Ambos estavam calados enquanto faziam a curta caminhada de volta
para o carro. Algué m colocara um pedaço de papel amarelo embaixo de
um dos limpadores de para-brisa, e Khả i o pegou e leu. Ela pegou as
palavras Bilhete de Estacionamento no papel antes que ele o colocasse
no bolso e, claro como o dia, bem na frente do carro, havia uma grande
placa dizendo: Proibido Estacionar.
Ele intencionalmente conseguiu uma multa e ela sabia que ele havia
feito por ela. Por causa do tornozelo. Era uma coisa pequena, mas ela
nã o conhecia mais ningué m que teria feito algo assim por
ela. Apenas Khả i.
Ele saiu do estacionamento, atravessou o campus e entrou na estrada
principal, e ela o viu entrar e sair do trâ nsito da tarde como um
motorista de fuga apó s um assalto a banco, rá pido, mas em perfeito
controle. As mã os dele pareciam fortes e capazes no volante e na
mudança de marchas, e ela lembrou que ele a tocara antes. O rosto, os
lá bios, a mandı́bula.
Ele iria querer tocá -la novamente agora que sabia que ela era uma
contadora falsa? Ele iria querer tocá -la se descobrisse que ela tinha um
bebê ?
— Me dê esse cartã o quando chegarmos em casa, ok? — Ele disse
inesperadamente. — Eu quero ligar para essa mulher na Alumni
Association.
As palavras dele estavam tã o fora de sintonia com os pensamentos
dela que demorou um momento para entender o que ele queria dizer.
— Você vai ligá -la para mim?
De olhos na estrada, ele respondeu: — Sim. Avisarei se ela me der
alguma informaçã o ú til.
Um peso do qual ela nã o estava ciente saiu de seus ombros e a
gratidã o cresceu dentro dela. Para algué m que muitas vezes nã o tinha
tato, ele podia ser incrivelmente atencioso quando importava. Ela
pegou o cartã o da bolsa e o colocou no console central. — Obrigada,
Anh.
Ele assentiu e se concentrou em dirigir.
Quando eles chegaram na sua casa, ele estacionou o carro, mas nã o
desligou a igniçã o. Seus dedos hesitaram sobre a ivela do cinto de
segurança.
— Suas aulas sã o à noite, certo? — Ele perguntou.
Ela se contorceu no assento. — Está certo.
— Você quer que eu a busque de agora em diante, para nã o precisar
pegar o ô nibus?
— Você nã o se importa?
— Eu nã o me importo. — Ele respondeu.
— Entã o, obrigada, Anh.
Ele acenou com a cabeça uma vez e saiu do carro, e ela a seguiu
enquanto ele subia a garagem e destrancava a porta da frente de sua
casa. Ela pensou que ele poderia beijá -la entã o, mas ele apenas manteve
a porta aberta para ela. Em vez de passar direto, ela parou na frente
dele, convidando-o a continuar o que havia sido interrompido
anteriormente. A expectativa aumentou, e seus pulmõ es seguraram o
ar. Até o coraçã o dela parou de bater.
Me beija. Me beija.
O olhar dele caiu na boca dela, e seus lá bios formigaram como se ele
os tivesse tocado. Sim, ele estava indo...
Ele deu um passo para trá s, desviou o olhar dela e disse: — Vou fazer
algumas coisas no escritó rio. Vejo você mais tarde esta noite.
Seu peito afundou, e ela o viu pegar sua bolsa de computador e voltar
para o carro. Ele tinha sentido vontade de beijá -la. Antes de icar
sabendo. Mas agora nã o mais.
Ele fez todas essas coisas - aparecer no consultó rio mé dico,
carregando-a, o corte de cabelo - com Esme da Contabilidade. Ele nã o
estava interessado na verdadeira Esme.
CAPÍTULO QUATORZE

Na semana seguinte, Khai ingiu que o quase-beijo nunca aconteceu. A


amiga russa de Esme o salvou de cometer um erro grave em um
momento de mau julgamento.
Esme pode ser capaz de lidar com um relacionamento fı́sico sem
efeitos adversos, mas ele nã o achava que poderia. Ela já era uma mú sica
que tocava numa repetiçã o sem im em sua cabeça. Se ele começasse a
ter relaçõ es sexuais com ela, essa coisa iria se degenerar em vı́cio puro,
e que porra aconteceria quando ela fosse embora no inal do verã o? Se
ele nã o queria descobrir, ele tinha que manter distâ ncia.
Ele fez um excelente trabalho até sexta-feira à noite e a hora de
participar do segundo casamento do verã o chegou. Ele bateu na porta
dela, e ela a abriu com um sorriso hesitante.
Por um longo momento, ele simplesmente olhou para ela. Ela nã o
parecia com ela mesma. O vestido dela era preto. Ela nã o achava que era
uma cor infeliz? Ele pairava suavemente sobre seu corpo, escondendo
todas as á reas interessantes, e merda, olhe para todo aquele
brilho. Seus ouvidos, garganta e mã os estavam cegos. Tinha que ter
mais de cem dó lares em zircô nia cú bica lá , de jeito nenhum aqueles
eram diamantes de verdade.
Mesmo assim, ela estava linda. Sua maquiagem era sutil, exceto pelo
delineador preto que chamava a atençã o para os olhos verdes e o batom
vermelho.
Deus, aqueles lá bios. Pintados assim, eram su icientes para deixá -lo
tonto. Desde que quase a beijara, ele via a boca dela toda vez que
fechava os olhos. Sua imaginaçã o havia feito coisas indizı́veis à quela
boca na semana passada.
Ele limpou a garganta. — Pronta para ir?
Ela aprumou os ombros e levantou o queixo. — Estou pronta.
Eles saı́ram de casa e se amontoaram no carro dele. Assim que ele
entrou na 101S em direçã o a San Jose, ele quebrou o silê ncio dizendo:
— Liguei para a Associaçã o Alumni de Berkeley. Eles me deram uma
lista de todos os Phils que participaram de Berkeley durante os dez
anos antes de você nascer.
Ela gritou e cobriu a boca enquanto dançava na cadeira. Seus
movimentos izeram a barra solta da saia deslizar para cima, e puta
merda. A Regra Nú mero Seis pode muito bem nã o existir mais. Nã o
havia como ele segui-la quando se tratava de Esme. Ele queria tocá -la
tanto que suas mã os se curvaram ao redor do volante em um aperto
mortal. Ele quase podia ver seus dedos alisando aquelas coxas nuas e
deslizando sob a saia do vestido.
O zı́per de suas calças icou desconfortavelmente apertado,
distraindo-o de seus pensamentos pornográ icos. Porra, ele estava
ostentando uma ereçã o em seu maldito carro. Se ele passasse por uma
lombada, provavelmente quebraria o pau ao meio. Ele precisava pensar
no deserto, no Artico, na Declaraçã o Nú mero 157 da Financial
Accounting Standards Board, em qualquer outra coisa.
— Quantos nomes estã o na lista? — Ela perguntou.
Certo. A lista. — Quase mil.
— Oh. — Ela franziu a testa em pensamento, inconscientemente
passando as mã os para cima e para baixo nas coxas de uma maneira
que nã o fez nada para ajudar sua condiçã o atual.
— Um dos amigos de Quan está me ajudando a classi icar a lista. Ele
diz que é fá cil de fazer com o software adequado — a irmou. — Vou
precisar de uma có pia dessa foto que você tem.
— Vai custar muito? — Ela perguntou hesitante.
— Nã o. Ele está fazendo um favor a Quan.
— Isso é ó timo. — Ela olhou para ele com um sorriso. — Vou dar a
você quando chegarmos em casa hoje à noite. Você pode agradecer ao
seu irmã o por mim?
— Você pode dizer a ele. Ele vai estar no casamento.
— Oh, tudo bem, eu direi a ele. — Ela passou a mã o pelos cabelos e
alisou a saia sobre as coxas. — Estou nervosa agora. — Disse ela com
uma pequena risada.
— Nervosa por conhecer Quan?
Ela abaixou a cabeça. — Ele é seu irmã o mais velho. Quero que ele
goste de mim.
Khai deu de ombros. — Ele vai. Ele gosta de todo mundo. — E todo
mundo gostava de Quan de volta. Ele tinha um tipo ú nico de
carisma. Ao contrá rio de Khai, que era sempre o errado, fazendo as
pessoas chorarem de um lado para o outro.
— Espero que sim. — Ela nã o parecia totalmente convencida, mas
Khai sabia que nã o precisava se preocupar.
Depois de meia hora de carro até San Jose, ele estacionou em frente a
um grande restaurante de dois andares chamado Seafood Plaza. Um
caranguejo gigante de neon e caracteres chineses piscavam acima do
telhado. Era o restaurante favorito de sua mã e e ele esteve aqui
inú meras vezes ao longo dos anos.
— E isso aı́ — disse ele. — A cerimô nia e a recepçã o serã o aqui. —
Para algumas pessoas, nada dizia felizes para sempre melhor que
lagosta em molho de cebolinha e gengibre.
Esme olhou para o pré dio por alguns momentos antes de perguntar:
— A comida é boa?
Khai deu de ombros. — Se você gosta de comida chinesa e á gua-viva.
— Eles tê m água-viva? — Ela perguntou com ê nfase extra na ú ltima
palavra.
Ele arqueou as sobrancelhas. — Agua-viva é aquela criatura oceâ nica
que queima você . Muitos tentá culos. — Ele meneou os dedos para
imitá -los. — Textura estranha. Elas nã o tê m gosto de nada.
Ela cruzou os braços sobre o peito. — Eu sei o que sã o á guas-vivas e
elas nã o tê m gosto de nada.
Ele lentamente entendeu. — Você está animada. Sobre á guas-vivas.
— E bom.
— Você nã o estava tã o empolgada com o San Francisco Fairmont. —
Se você seguisse o preço e a exclusividade do local, a maioria das
pessoas icaria muito mais impressionada com o Fairmont. Khai nã o
pô de deixar de achar o entusiasmo de Esme pelo Seafood Plaza
divertido e cativante.
Ela levantou um ombro, mas sorriu. — Gosto de boa comida.
— Vamos entrar entã o. Eu acho que você icará satisfeita.
Ao atravessarem o estacionamento, os cheiros cinzentos de graxa e
idade os receberam. Sim, ele conhecia este lugar, mas era diferente com
Esme ao seu lado. Tudo estava diferente com Esme. Ela nã o precisava
que ele abrisse e fechasse portas para ela, nã o queria que ele pagasse
por tudo ou carregasse as coisas dela, nã o se importava se ele a
encarava o dia todo...
Ela pegou o braço dele, mas parou antes de tocá -lo. — Você nã o gosta
disso. — A cabeça dela inclinou enquanto ela pensava, e entã o um
sorriso se estendeu sobre os lá bios. Ela pulou alguns passos à frente
dele e descansou a mã o na parte inferior das costas. — Os homens
colocam a mã o aqui algumas vezes. Quando estã o andando ou em pé . Se
você izer isso, as garotas nã o agarrarã o seu braço.
Estava na ponta da lı́ngua dele dizer que ele nã o se importava que ela
agarrasse seu braço – nã o mais –, mas ele conteve as palavras. Eles
precisavam de mais distâ ncia, nã o menos.
— Tente. Talvez você goste mais. — Observando-o por cima do
ombro, ela icou parada e esperou.
Isso era ridı́culo, mas ele fez o que ela pediu de qualquer
maneira. Entã o ele desejou que nã o tivesse. Ver a mã o grande dele nas
costas dela fez coisas para ele. A espinha dela tinha uma curvatura
muito elegante, nesse local especi icamente, e uma parte elementar
dele vibrou quando ele a tocou.
Dele.
Ela sorriu para ele por um segundo antes de continuar em direçã o ao
restaurante. Com a mã o lá , ele estava dolorosamente consciente da
maneira como seus quadris balançavam quando ela caminhava. Por que
isso era tã o sexy?
Eles passaram por enormes aquá rios na entrada da frente, que
abrigavam peixes com aparê ncia melancó lica, lagostas e caranguejos e
entraram em uma á rea de estar no té rreo do restaurante. Todas as
cadeiras estavam vazias, e uma an itriã com uma caneta esferográ ica
azul no cabelo ordenou que subissem uma das duas escadas em espiral
até o segundo andar.
Enquanto subiam as escadas, encontravam a tarefa da mesa e
caminhavam pelo labirinto de mesas redondas, manter a mã o nas
costas dela tornou-se uma segunda natureza para Khai. O calor da pele
dela atravessou o tecido do vestido e aqueceu a palma da sua mã o.
Quando chegaram à mesa, Khai avistou uma cabeça raspada e um
conjunto de ombros familiares. Quan se virou, sorriu e se levantou para
dar um abraço monstruoso em Khai.
— Olhe para você . — Quan passou a mã o pelo cabelo recé m-cortado
de Khai. — Otimo corte de cabelo.
— Obrigado. — Khai empurrou a mã o de seu irmã o e deu um passo
para trá s.
— Entã o aqui está ela. — Disse Quan.
Khai suprimiu o desejo estranho de envolver o braço em volta da
cintura de Esme. Em vez de puxá -la para perto como ele queria, ele deu
um passo para longe dela. — Esme, este é meu irmã o, Quan. Quan,
Esme.
Quan observou a distâ ncia entre Khai e Esme com uma expressã o
pensativa no rosto.
Esme esfregou o cotovelo antes de sorrir para ele. — Olá , Anh Quan.
Quando o rosto de seu irmã o abriu em um largo sorriso, Khai nã o
conseguiu relaxar como deveria. Em vez disso, seus mú sculos icaram
tensos e ele observou a reaçã o de Esme, tentando interpretá -la. Ele nã o
sabia o que estava procurando, o que queria, mas algo importante
dependia desse momento.
Esme estendeu a mã o para Quan apertar, mas ele lhe deu um olhar
engraçado. — Sé rio? Um aperto de mã o? — Ele a puxou para um
abraço, e ela riu enquanto o abraçava de volta.
Khai sabia que esses dois iriam se dar bem, mas a visã o provocou
uma agitaçã o á cida no seu estô mago. Com o terno sob medida e as
tatuagens espreitando por cima do colarinho, Quan tinha essa imagem
de ex-tra icante, e Esme fornecia o contraponto suave perfeito a toda
aquela maldade. Eles pareciam bem juntos.
Esme sentou no assento entre Quan e Khai, mas ela se virou para
Quan. Em inglê s cuidadoso, ela disse: — Obrigada por ajudar com meu
pai.
— Sem problemas. Fico feliz em ajudar. — Disse Quan, sendo seu eu
genuinamente gentil. — Entã o me fale sobre as coisas aqui até
agora. Como estã o as coisas e o trabalho? Você está gostando?
A sensaçã o á cida no estô mago de Khai piorou quando Esme sorriu e
contou a Quan tudo sobre sua estadia até agora, falando inglê s como ela
nunca fez com Khai e compartilhando coisas que Khai nã o sabia. Ele
nunca perguntou a ela sobre o dia dela. Nã o era assim que a dinâ mica
deles funcionava. Ele tentava ignorá -la, e ela o forçava numa
conversa. Mas agora ele desejava ter pensado em perguntar sobre
ela. Os fatos sobre Esme entraram em um lugar especial em sua mente,
para nunca serem esquecidos, e o incomodou perceber o quã o pouco
ele realmente sabia.
O garçom aproximou-se da mesa e pô s uma travessa gigante no
meio. Continha trê s tipos de carnes frias e salada de algas, e havia a
á gua-viva. Parecia macarrã o de arroz ou cebola refogada, mas grudava
nos dentes da maneira mais desconcertante.
Esme mal conseguia se conter enquanto esperava sua vez de encher o
prato, e entã o comeu com um entusiasmo que fez Quan sorrir. Quando
ela corou, Quan sorriu ainda mais.
— Com fome? — Quan perguntou.
— Isso é gostoso. — Disse ela enquanto limpava a boca com um
guardanapo, consciente de si mesma.
Quan riu. — Eu aposto que deve ser divertido sair com você . —
Voltando a atençã o para Khai, ele perguntou: — Você a levou para
aquele restaurante de macarrã o em San Mateo?
Um gosto amargo encheu a boca de Khai quando ele balançou a
cabeça. Ele nã o tinha pensado em levá -la para sair. Entre a comida de
sua mã e e a de Esme, havia muito para comer. Ele nunca viu um motivo
para sair. Até agora.
— Ah, bem, você deveria ir lá — disse Quan. — Tudo é bom lá . Seria
divertido ver o quanto ela pode comer.
— Muito. — Esme disse com uma risada, e seus olhos verdes
brilhavam mais do que todas as suas zircô nias cú bicas juntas. Ela
parecia feliz. Quan a estava fazendo feliz.
O DJ começou a tocar “Lá Vem a Noiva”. O noivo – um primo distante
que ele nã o conhecia bem – e sua noiva andaram de braços dados entre
as mesas e atravessaram a pista de dança até o palco, onde trocaram
votos inteiramente em vietnamita. Depois disso, seus pais izeram
discursos e a atençã o de Khai vagou. Ele ouvira inú meras variaçõ es
desses tipos de discursos. Tão feliz pela união dessas duas famílias,
ansioso por um futuro brilhante, tão orgulhoso da minha ilha etc. Esme,
no entanto, prestava atençã o em cada palavra.
Ela sorriu, mas Khai percebeu sua tristeza, uma visã o incomum para
ele. Os olhos dela perderam o brilho e, quando o pai da noiva abraçou a
ilha, ela enxugou uma lá grima da bochecha. Ele estava quase pegando a
mã o dela quando ela a moveu para cobrir a boca, sufocando uma
risada. Quan sussurrou algo em seu ouvido, e ela riu mais e balançou a
cabeça para ele, como se fossem velhos amigos.
Khai exalou baixinho e olhou para a pró pria mã o. Nã o lhe ocorreu
fazê -la rir. Ele nem sabia como. Ainda bem que havia pessoas como
Quan neste mundo.
Quando os discursos terminaram, as entradas chegaram à mesa em
rá pida sucessã o: pato à Pequim, peixe cozido no vapor, os pratos
habituais do casamento. A lagosta com molho de gengibre e cebolinha
veio, e Esme amarrou o cabelo para trá s e mergulhou, abrindo uma
garra e comendo a carne macia por dentro. Engraçado como ela era
bonita, mesmo quando estava sendo carnı́vora.
Quando ela o pegou olhando para ela, olhou para a lagosta intocada
no prato dele e perguntou: — Quer que eu quebre para você ? Eu sou
boa nisso.
— Nã o, obrigado, eu posso fazer isso. — Ele a queria focada em seu
pró prio jantar. Ele gostava de vê -la apreciar a comida.
— O que? Como você pode recusar isso? — Quan perguntou. Para
Esme, ele disse: — Você pode quebrar a minha.
Suprimindo um sorriso, ela colocou um pedaço de carne de lagosta no
prato de Quan, e Khai teve um desejo horrı́vel de arrebatar a comida do
prato do irmã o e devorá -la. Nã o fazia sentido, e ele pegou seu copo de
á gua e deu um grande gole. Um sabor loral o deixou carrancudo. O que
é isso?
Quando afastou o copo dos lá bios, encontrou batom vermelho na
borda. Ele acidentalmente usou o copo de Esme. Transferência de
germes. Ele nã o era excessivamente germofó bico, mas com todas as
novas bacté rias, sem dú vida, fervilhando em sua boca, ele poderia
muito bem tê -la beijado.
Exceto que ele nunca a beijou. Nem uma vez.
Ele nã o conhecia a suavidade de seus lá bios ou o gosto de sua
boca. Ao beber da xı́cara, ele conseguiu todo o custo sem nenhum
benefı́cio. Isso di icilmente parecia justo. O escopo de sua visã o
estreitou-se nos lá bios dela. Cheios, vermelhos e molhados, eles o
chamavam.
Quando ela chupou as pontas dos dedos, Khai sentiu a atraçã o
profundamente dentro de si. A respiraçã o escapou de seus pulmõ es
quando seu corpo endureceu em uma corrida vertiginosa.
Ele bebeu o resto da á gua dela e se afastou da mesa. — Vou tomar
uma bebida. — Talvez o á lcool matasse as bacté rias e limpasse sua
mente.
Esme acenou dedos atrevidos para ele quando ele escapou para o bar
para pedir algo forte.
Nã o foi uma grande fuga, no entanto. Quan o seguiu até lá e descansou
um grande braço no balcã o do bar, parecendo relaxado e perigoso ao
mesmo tempo.
— Como você está ? — Quan perguntou.
Khai nã o tinha ideia de como articular seu estado atual, entã o deu sua
resposta usual: — Tudo bem.
— Você perdeu o treino de kendo no im de semana passado.
Isso era meio que uma grande coisa. Khai nunca perdia os treinos –
nem mesmo quando estava doente – mas Esme o havia pedido para
levá -la a Berkeley. E se ela pedisse, ele sabia que daria a ela qualquer
coisa. Se pudesse.
— Desculpe, eu estava ocupado. — Disse ele.
Quan riu enquanto esfregava a cabeça raspada. — Conte-me sobre
isso. Estou tã o ocupado com essa merda de CEO que quase nã o tenho
tempo para nada. E por isso que eu nã o veri iquei você até agora. Ela
nã o é quem eu esperava que mamã e escolhesse para você , mas ela é
ó tima. Estou surpreso que você nã o goste dela.
Khai quase começou a corrigir seu irmã o e dizer que gostava sim dela,
mas ele franziu a testa para sua bebida em vez disso. Se ele dissesse que
gostava dela, Quan provavelmente começaria a tentar juntar os dois. Ele
nã o queria isso. Já era difı́cil o su iciente icar longe dela como estava.
— O que você nã o gosta nela? — Quan perguntou. — Ela é divertida e
gostosa pra caralho.
Ele nã o conseguiu responder a essa pergunta. Nã o havia nada sobre
Esme que ele mudaria. Nada. — Só nã o estou interessado.
Enquanto ele dizia as palavras, no entanto, elas pareciam
desconfortá veis como uma mentira. O relacionamento deles nem era
fı́sico, e ele já estava meio viciado nela. Ele precisava mantê -los
separados. Pelo bem deles.
Ele tirou a brochura do bolso interno do casaco e folheou as pá ginas
com o polegar uma vez antes de achar a pá gina onde parou.
— Você está brincando comigo — disse Quan, lançando um olhar de
nojo para o livro. — Você vai ler com ela sentada lá ?
— Sim. — Esse era o plano. Casamentos eram ruins o su iciente por
conta pró pria, mas assistir Esme e Quan interagindo como melhores
amigos era ainda pior. Ele nã o se incomodou em analisar o porquê .
— Você nã o pode tentar ser legal com ela? E ó bvio que casamentos
sã o difı́ceis para ela. Ela cresceu sem pai, e deve ser ruim ver a noiva
com o pai.
Khai franziu a testa. Ele nã o tinha feito essa conexã o antes. Por causa
do seu coraçã o de pedra. Mas agora que ele entendeu o motivo da
tristeza de Esme, ele jurou que examinaria a lista de Phils, um por um,
se fosse necessá rio, e entã o enviaria o pai dela para ela embrulhado em
um laço vermelho como um Lexus no dia das mã es. Quanto a ser gentil
com ela, ele lembrou a fraqueza de seu irmã o por ó rfã os – cã es, gatos,
pequenos bullys da escola, o que você quiser. — Ela vai icar bem com
você lá .
— Você está ... entregando sua garota para mim? Você icaria bem
comigo e com ela estando juntos?
Khai levou um momento para compreender o que seu irmã o estava
dizendo, mas seus mú sculos se lexionaram involuntariamente. Nã o, ele
nã o estava bem com isso. Ele nã o queria Esme para si, mas també m nã o
a queria com mais ningué m. Ele sempre os imaginava separados, mas
solteiros.
— Porque eu estou interessado — continuou Quan. — Só esses olhos
já fariam isso, mas o resto dela… — Quan fez um formato de ampulheta
com as mã os. — Jesus.
Ouvir o irmã o falar sobre Esme dessa maneira era pior do que ouvir
algué m mastigar com a boca aberta, e o desejo desconhecido aumentou
para dar um soco no nariz de Quan. Quando Khai notou que ele tinha
fechado as mã os, ele abriu os dedos, horrorizado. Ele afastou seus
pensamentos violentos e se forçou a ser racional. Quando ele pensou
nas necessidades de Esme, e nã o nas suas, uma coisa icou muito clara.
Quan era perfeito para ela.
Seu irmã o poderia dar a Esme coisas que Khai nã o poderia. Quan
poderia fazê -la feliz e entendê -la, e o mais importante, Quan poderia
amá -la. Khai queria isso para ela. Ela merecia isso.
— Eu estou bem com isso — ele se ouviu dizer. Depois de pigarrear,
se obrigou a esclarecer: — Eu estou bem com você s dois juntos.
Suor frio escorreu pela testa de Khai quando o enjoo nadou em seu
estô mago, e ele tomou um gole de sua bebida. Ele nã o conseguia se
lembrar do que era, mas tinha um gosto forte. Ele desejou que fosse
mais forte. — Eu vou ler lá embaixo. Deixe ela saber, está bem?
Quan o considerou por um momento, seu olhar nivelado e pesado. —
Sim, eu vou deixá -la saber.
Khai inclinou o copo na direçã o de Quan e fugiu do salã o, sentindo
como se estivesse deixando algo inestimá vel para trá s.
CAPÍTULO QUINZE

Quando Khai saiu da sala de banquete com uma bebida e um livro em


suas mã os, a lagosta na boca de Esme virou giz. Era a melhor lagosta
que ela já havia comido, a mistura ideal de salgada e doce equilibrada
com a frescura do gengibre, mas ela nã o estava mais com fome. Ele a
estava abandonando. Novamente. Ela engoliu em seco antes de limpar
as mã os e recostar-se na cadeira.
Quan sentou-se ao lado dela enquanto os garçons limpavam a mesa
dos pratos e colocavam fatias fofas de bolo na frente de todos. Ela
pegou o garfo e considerou sua fatia de diferentes â ngulos, tentando
reunir o entusiasmo para comer.
— O que você está procurando? — Quan perguntou.
— E bonito demais para comer. — As lores de geada pareciam ter
sido pintadas com um aeró grafo. Rosas, hibiscos, lores de ló tus,
sementes, todas as cores. Normalmente, ela icaria animada em colocá -
los na boca, mas nã o agora.
Quan riu e empurrou o prato na direçã o dela. — Eu já destruı́ o
meu. Você pode compartilhar comigo.
A oferta dele trouxe um sorriso ao rosto dela, apesar do mau
humor. Ele era uma das pessoas mais legais que ela já conhecera, e ela
estava indescritivelmente feliz por ele estar sentado ao lado dela. —
Desperdiçar comida é ruim. Vou comer. — Ela perfurou a superfı́cie
perfeita do bolo com os dentes do garfo.
Quando ela deu a primeira mordida no bolo de baunilha arejado,
glacê levemente doce e morangos, Quan se inclinou na direçã o dela e
perguntou: — Como estã o as coisas entre você e meu irmã o?
O bolo icou pesado na sua lı́ngua. Quando ela tentou lavá -la
novamente com á gua, encontrou o copo vazio e teve que roubar
de Khai. — Bem.
— Sé rio.
Ela cutucou o bolo com a ponta do garfo e levantou um ombro, sem
dizer nada.
— A dança começa em breve — disse ele. — Quer dançar comigo?
Os olhos dela saltaram para o rosto dele. — Você quer
dançar? Comigo?
— Sim, eu quero dançar com você . — Seus lá bios se curvaram em um
sorriso, transformando seu rosto de severo e perigoso para
descontroladamente bonito. Ah, esse homem.
— Eu, hum...— Ela largou o garfo, sentindo que isso era
importante. Pareceria ruim se... Por quê?
— Eu nã o ligo para o que as pessoas pensam. E apenas uma dança,
Esme. — Ele disse com um sorriso descuidado.
Mas nã o era apenas uma dança. Era mais do que isso. Ela estava nisso
por casamento, e as pessoas seriam crué is se a vissem mudando entre
irmã os. Cô Nga icaria desapontada. Quan tinha que saber disso. A nã o
ser que…
Ele estava interessado em casar com ela? Nã o, ele acabou de conhecê -
la. Ele nã o poderia já querer se casar com ela.
Certo?
Ela começou a esfregar o rosto, mas o cheiro de lagosta a fez parar. —
Eu preciso lavar minhas mã os. Eu já volto. — Ela disse antes de se
afastar da mesa.
No banheiro, ela pegou a cabine dos fundos. Era engraçado, mas os
banheiros a acalmavam. Provavelmente porque pareciam familiares, ela
havia limpado tantos. Mas ela nã o podia icar aqui a noite toda. Ela
tinha uma decisã o a tomar.
— Você sabe que ela está atrá s dele por dinheiro e Green Card —
disse uma mulher em uma das outras cabines.
— Claro que sim. — Respondeu uma segunda mulher.
Esme soltou um suspiro. Elas tinham que estar falando sobre ela e
Khai. Ela sabia que esse tipo de conversa aconteceria. Era
surpreendente que ela nã o tivesse ouvido falarem até agora.
— Para ser sincera, se ele nã o fosse da famı́lia, eu estaria atrá s dele
pelo dinheiro. — Disse a primeira mulher, rindo.
— Bem, eu també m, na verdade. — Ambas as mulheres riram ao
mesmo tempo.
Elas estavam falando sobre Khai? Elas izeram parecer que ele era um
bilioná rio, quando Esme tinha certeza de que ele nã o era rico. Ela supô s
que era perfeitamente possı́vel que essas duas mulheres estivessem em
situaçã o pior do que ele. Uma velha casa batida era melhor do que
nenhuma casa.
— Você a viu toda para cima de Quan? — A primeira mulher
perguntou.
— Sim, se nã o funcionar com um irmã o, tente o pró ximo.
Esme fez uma careta. Sem dú vida, eles estavam falando sobre ela, mas
ela nã o estava lertando com Quan. Ela estava? De initivamente nã o de
propó sito. Ele era atraente, entretanto, e engraçado, atencioso e
gentil. Se ela nunca tivesse conhecido Khai, aproveitaria a chance de
dançar com ele.
Mas ela conheceu Khai.
Os banheiros ecoaram, os saltos bateram contra o chã o de ladrilhos e
a á gua correu enquanto as mulheres lavavam as mã os.
— Ele é bonito, no entanto. — Disse a segunda mulher.
— Ele també m é um idiota.
— Ok, eu concordo. Eu sei que ele é ... você sabe, mas ouvi dizer que
ele reclamou com Sara sobre o casamento dela. Bem ali à mesa no dia
do casamento dela...
A tolerâ ncia de Esme com suas conversas secretas terminou quando
um fogo acendeu dentro dela. Ela agarrou a porta da cabine e saiu. —
Ele nã o é um idiota. Ele é doce.
Tudo bem se elas pensassem o pior dela - ela nã o se importava -,
mas Khai era da famı́lia. Em vez de espalhar boatos e condená -lo, elas
deveriam ter se esforçado mais para entendê -lo.
Uma das mulheres corou e correu para a porta, mas a outra lançou
um olhar cortante para Esme. — Você nã o tem o direito de menosprezar
ningué m.
Esme levantou o queixo, mas ela nã o disse nada quando as mulheres
saı́ram do banheiro. O que ela poderia dizer? Elas haviam julgado Esme
e Khai sem conhecer suas histó rias inteiras. Khả i nã o era mal. Ele era
incompreendido. Quanto a Esme, ela nã o era uma interesseira. Suas
razõ es para perseguir Khả i nã o tinham nada a ver com dinheiro. Pena
que ela nã o podia contar a ningué m sobre elas sem estragar tudo.
Ela terminou de lavar as mã os e olhou no espelho, e seus ombros
caı́ram. Nã o importava o quanto tentasse, algo nela sempre estava
errado. Ela procurou na bolsa até encontrar o batom e aplicou um
vermelho fresco nos lá bios, mas isso nã o resolveu o problema. Ela ainda
nã o era Esme da Contabilidade, a que Khả i queria.
Mas Quan a queria - talvez - e ele parecia gostar dela como ela era,
sem uma certi icaçã o contá bil e o GED. Ao contrá rio de Khả i, ele queria
dançar com ela. Pode nã o ser uma grande coisa para Quan, mas era
para ela. O homem irradiava apelo sexual. Seus corpos se tocariam. Ele
teria os braços em volta dela. Eles se moveriam juntos. E ela
responderia a ele. Como ela nã o responderia? Ela era humana e faminta
de carinho.
Se ela fosse esperta, trocaria para o irmã o que era uma aposta
melhor. De onde ela estava agora, esse irmã o parecia ser Quan, mas
quando se tratava de assuntos do coraçã o, ela nunca fora boa em ouvir
a razã o. A verdadeira questã o era: quem seu coraçã o queria?

•••

Khai nã o conseguia se concentrar em seu livro. Nã o havia sentido em


tentar mais. Ele fechou o livro e andou pelo andar de baixo do
restaurante, passando o polegar pelo canto do livro e folheando as
pá ginas. Fliiip. Fliiip. Fliiip.
Ele nã o andou mais. Ele nã o fazia mais essas coisas inquietas. Exceto,
claramente, ele fazia.
A an itriã e toda a equipe estavam ocupadas no andar de cima com o
casamento, e seus passos eram altos no tapete vermelho. A dança
começaria em breve.
Khai nã o dançava. Mas Quan sim. Ele suspeitava que Esme també m.
As palavras de Quan anteriormente se repetiam na cabeça de
Khai: Estou interessado. Só aqueles olhos fariam isso, mas o resto dela...
O pré dio roncou com um baixo lento, e a pele de Khai icou fria e
entorpecida. Começou. Primeiro, era a dança da noiva com o pai. Mas
depois disso...
Esme. Com Quan. Corpos juntos. Movendo-se devagar.
Ele ia icar enjoado. Sua pele doı́a. Cada respiraçã o doı́a. Seu interior
estava se abrindo. Por que diabos ele queria esmagar tudo em pedaços?
Quan ia colocar as mã os nas costas de Esme, o lugar que Khai havia
reivindicado hoje, tocar seus quadris, braços e mã os. E ela iria deixá -
lo. Ela ia tocá -lo de volta.
Como ela deveria. Quan era o homem melhor.
Khai percebeu que poderia sair. Quan cuidaria dela e a levaria para
casa. Talvez depois de passar um tempo com Quan, ela quisesse
arrumar suas coisas e trocar de irmã o e casa. Isso funcionaria muito
bem para Khai. Ele nã o poderia formar um vı́cio em larga escala por ela
se ela se fosse.
Apertando a mandı́bula, marchou para as portas da frente do
restaurante e pressionou as mã os na maçaneta de metal. Mas seus
braços se recusaram a empurrar.
E se ela nã o quisesse dançar? E se ela quisesse ir para casa
agora? Nã o fazia sentido Quan levá -la quando Khai estava indo para
lá . Isso seria ine iciente.
Ele se virou, planejando ir até lá e enfrentar a mú sica por tempo
su iciente para garantir a si mesmo que ela estava feliz e dizer que ele
estava indo para casa.
Mas lá estava ela, no pé da escada, com a mã o apoiada no parapeito.
Tã o linda. E aqui. Ela veio encontrá -lo novamente. Ningué m nunca
procurou por ele. Todos sabiam que ele queria icar sozinho. Só que
nem sempre foi assim. As vezes, ele estava sozinho por há bito. As vezes,
era necessá rio um esforço para se distrair do crescente vazio interior.
— Você está indo embora? — Ela perguntou em voz baixa.
— Eu ia te contar. — Ele ouviu as palavras como se a distâ ncia, como
se algué m as tivesse falado. — Se você quer dançar, você deve icar.
— Você quer que eu dance? — Ela nã o disse as palavras, mas elas
pairaram no ar entre eles: sem você.
Ele engoliu um nó na garganta. — Se isso te deixar feliz.
Ela deu um passo em sua direçã o. — E se eu quiser dançar com você ?
— Eu nã o danço.
— Você pode tentar? — Ela deu outro passo em sua direçã o. — Por
mim?
Seu peito apertou. — Eu nã o posso. — Ele nunca dançou em sua
vida. Ele seria terrı́vel nisso e a machucaria e se humilharia. Sem
mencionar a mú sica alta. Ele nã o podia funcionar com aqueles decibé is
estridentes. Outra razã o pela qual Quan era o homem melhor. — Se
você quer icar, eu sei que Quan icará feliz em levá -la para casa.
— Você quer que eu... e ele... dancemos? — Suas sobrancelhas se
uniram. — Eu entendi certo?
— Se você quiser. — E era verdade. Se era isso que ela queria, ele
queria que ela o tivesse, mesmo que isso izesse parecer que seu peito
estava sendo pisoteado.
Vá rios momentos se passaram antes que ela dissesse: — Eu entendo.
— Entã o ela sorriu, mas as lá grimas escorreram por seu rosto. Ela as
afastou, respirou fundo e sorriu mais antes de se virar.
Ele a fez chorar.
— Esme…
Ela o ignorou e voltou para as escadas. Ela estava indo encontrar
Quan. Ela seria perfeitamente feliz.
Sem ele.
Algo dentro dele estalou, e a parte racional de sua mente piscou. Uma
parte estrangeira dele assumiu o controle. Sua pele icou com
quente. Sangue rugiu em seus ouvidos. Ele estava ciente de seus pé s o
levando atravé s da sala, viu a mã o dele envolvendo o braço dela,
puxando para que ela o encarasse.
Aquelas lágrimas.
Elas o quebraram. Ele afastou a soluçã o salina com os polegares.
— Eu estou bem — ela sussurrou. — Nã o se preocupe. Eu...
Ele atacou sua boca, pressionando seus lá bios nos dela quando a
sensaçã o dela chocou atravé s de seu
sistema. Suave. Seda. Doce. Esme. Quando ele percebeu que ela icou
rı́gida, ele começou a se afastar horrorizado. O que ele tinha pensado?
Ela amoleceu contra ele, beijando-o de volta, e foi isso. Seus
pensamentos queimaram. Algo mais surgiu das cinzas, algo que ele
manteve acorrentado por tanto tempo que era tudo ferocidade e fome
animal. Ele acariciou sua lı́ngua sobre os lá bios dela, e quando ela
suspirou e separou os lá bios, uma vitó ria selvagem varreu por ele. Ele
reivindicou seus lá bios, reivindicou sua boca, reivindicou o calor lı́quido
que tinha gosto de baunilha, morangos e mulher.

•••

Esme estava derretida abaixo da intensidade do beijo de Khai. Ela


nunca tinha sido beijada assim, como se ele fosse morrer se
parasse. Seus movimentos foram hesitantes no inı́cio, como se ele
estivesse testando-a, mas ele ganhou con iança rapidamente. Cada
pressã o dolorida de seus lá bios, cada movimento dominante de sua
lı́ngua a enfraquecia ainda mais.
Seus joelhos ameaçavam dobrar, mas ela tinha medo de se ancorar
contra ele. Se ele parasse, ela choraria. Ela precisava de mais, muito
mais. Ela nã o conseguia respirar com sua necessidade.
Ela o beijou de volta com mais força, e ele gemeu contra a boca dela e
passou as mã os pelas suas costas, omoplatas e pela espinha. Mais
baixo. Ele a apertou atrá s e seus mú sculos internos se apertaram.
Ele a puxou para perto e revirou os quadris, pressionando sua dureza
contra ela. Ela ofegou quando uma emoçã o elé trica disparou direto
para seu nú cleo, e ela arqueou contra ele, agarrando-se à s lapelas do
seu casaco. Era isso ou cair.
Mais perto, ela precisava dele mais perto. Ela tentou derreter nele,
esfregou seu corpo contra o dele, mas nã o foi su iciente. Suas mã os
doı́am para tocar e explorar, conhecê -lo. Ela resistiu ao desejo e agarrou
suas lapelas com mais força quando ele beijou sua mandı́bula, beliscou
seu ló bulo da orelha e chupou seu pescoço. Arrepios ondulavam sobre
sua pele.
A sala girou em um redemoinho vertiginoso, deixando os dois em um
mundo pró prio. Tudo o que sabia era a segurança do abraço dele, o
calor da boca e o cheiro dele - sabã o, loçã o pó s-barba, homem. Eles
precisavam de uma cama, uma parede, uma mesa, qualquer coisa. Ela o
queria agora, e ele estava tã o pronto.
— Eles colocam muito ó leo na sopa — disse uma voz alta e
familiar. — Mas o peixe era... — oh meu pai.
Sua mã e e vá rias tias os encaravam do meio da escada.
Esme e Khả i se separaram de uma vez. Corando furiosamente, ela
passou as mã os trê mulas sobre o vestido enquanto as damas
terminavam de descer as escadas.
— Chào, Cô Nga — disse ela antes de inclinar a cabeça na direçã o das
tias. Ela apertou as coxas, nã o acostumada a estar excitada em uma sala
cheia de pessoas.
Khai passou a mã o pelo cabelo. — Oi, mã e, Dı̀ Anh, Dı̀ Mai, Dı̀ Tuyt. —
Desviando os olhos, ele chupou o lá bio inferior inchado na boca. Oh cé u,
o batom dela estava sobre ele todo.
— Anh Khả i, deixe-me... eu... — Ela levantou a mã o na direçã o do
rosto dele. Quando ela hesitou em tocá -lo, ele levou a mã o à mandı́bula.
— O que é isso? — Ele perguntou.
— Meu batom. — Ela escovou o polegar sobre uma mancha no canto
da boca avermelhada, mas nã o saiu. — Oh nã o, Khai.
Em vez de icar chateado como ela esperava, ele sorriu, mostrando
aquelas covinhas para ela, e o calor inundou seu coraçã o.
Ele nã o se importava de ser pego beijando-a.
— Jovens, hã ? — Comentou uma de suas tias, e as outras deram
risadinhas em suas mã os como estudantes.
— Essas duas crianças. — Cô Nga tentou parecer severa, mas nã o
conseguiu esconder um sorriso no rosto. — Vã o logo para casa. As
pessoas vã o vê -los. — Ela vasculhou sua bolsa de tamanho G até
encontrar um lenço de papel e entregou a Esme. Entã o ela arrastou as
tias para fora.
Assim que as portas se fecharam, Esme levantou o lenço de papel em
direçã o à boca de Khai, mas ele se esquivou e a beijou novamente, uma
lenta e completa pressã o de lá bios nos lá bios. O lenço de papel se
amontoou na mã o dela, esquecido, quando ele en iou os dedos nos
cabelos dela e inclinou sua cabeça para trá s para que ele pudesse beijá -
la mais profundamente.
Algué m pigarreou.
Mas desta vez, quando Esme tentou se afastar, os braços de Khai a
envolveram e a abraçaram. Ela olhou por cima do ombro e encontrou
Quan observando-os com os braços cruzados e um grande sorriso no
rosto.
— Os idosos estã o começando a sair — disse Quan. — Você s podem
querer... levar isso para outro lugar. Você sabe, para nã o lhes dar
ataques cardı́acos.
Khai olhou de seu irmã o para Esme e afrouxou o controle sobre ela
um pouco. — Você quer ir comigo... ou icar?
— Eu quero ir com você . — Ela sussurrou.
Aquele sorriso lindo se espalhou por seu rosto novamente. — Vamos
entã o.
Eles se separaram e Esme colocou o cabelo atrá s da orelha, sem saber
como agir ao redor de Quan agora. Mas ele nã o parecia zangado ou
insultado. Se alguma coisa, ele parecia satisfeito. Ele havia orquestrado
isso de alguma maneira?
Quan deu a Khả i uma daquelas coisas de aperto de mã o americano -
um abraço de um só braço e tapas nas costas. — Ligue para mim se
precisar de alguma coisa. Tenham uma boa noite, você s dois.
Ele piscou para Esme e subiu as escadas, e ela acenou para ele sem
jeito. Khai abriu a mã o que seu irmã o havia agarrado mais cedo e um
embrulho quadrado brilhante estava em sua palma.
O calor explodiu nas bochechas de Esme, mas ela nã o pô de deixar de
sorrir. Quan era o melhor irmã o de todos os tempos.
Khả i mudou o embrulho para que ele o segurasse entre o dedo
indicador e mé dio e a considerou com um olhar irme. — Terei a chance
de usar isso hoje à noite?
Ela mordeu o lá bio quando a antecipaçã o sem fô lego borbulhou em
suas veias. Depois de pegar o livro que ele deixou cair no chã o mais
cedo, ela olhou para ele por cima do ombro e disse: — Espero que sim.
CAPÍTULO DEZESSEIS

Khai voltou para casa em estado de loucura. Seu batimento cardı́aco


estava tã o fora de controle que era um milagre que ele nã o tivesse se
envolvido em dez acidentes de carro. O preservativo em seu bolso
queimava contra sua coxa.
Ele ia fazer sexo com Esme.
Sexo.
Com Esme.
Mesmo em meio à loucura, ele reconheceu o fato de que nã o deveria
fazê -lo. Ele deveria icar longe dela. Garota ama garoto ama garota. E se
ela se apaixonasse por ele? Ele nã o podia...
Nã o, ele disse a si mesmo com irmeza. Ele podia. Ela a irmou
claramente que nã o esperava nada, e ele con iava que ela conhecia sua
pró pria mente. Quanto a si e ao seu medo do vı́cio, ele conseguiria. Ele
tinha ido longe demais para parar agora. Ele queria muito isso. Alé m
disso, pessoas adultas faziam isso o tempo todo. Seu irmão fazia isso o
tempo todo, como evidenciado por seu suprimento con iá vel de
pro ilá ticos.
Depois de Khai estacionar do lado de fora de sua casa, eles
caminharam juntos até a porta da frente. Eles izeram isso inú meras
vezes, mas tudo parecia diferente esta noite, surreal de alguma forma. O
ar cheirava mais doce, mesmo que o jasmim sempre desabrochasse á
noite. Como é que ele nunca ouviu o chilrear dos grilos assim ou notou
as estrelas enquanto elas piscavam atravé s do dossel das á rvores?
Quando ele destrancou a porta, Esme abraçou seu livro de bolso no
peito, observando-o por baixo dos cı́lios. Ela umedeceu os lá bios, e o
desejo de beijá -la atingiu com tanta força que seus mú sculos do
estô mago lexionaram. Ele tentou regular sua respiraçã o, tentou
acalmar a corrente sanguı́nea, tentou restaurar seu estado funcional
habitual, mas depois lembrou que podia beijá -la.
A qualquer momento. Quando. Ele. Quisesse.
Ele a prendeu contra a porta e reivindicou seus lá bios, gemendo
quando ela suavizou e retornou seu beijo. Ele sempre esperava que ela
o rejeitasse, mas ela nunca o fazia. Era uma coisa inebriante, sua
aceitaçã o. O que mais ela deixaria ele fazer?
Com um ú ltimo beijo de despedida na boca dela, ele arrastou os
lá bios pelo pescoço dela. Ele nã o pretendia, mas deixou uma marca lá . A
profunda satisfaçã o de um homem das cavernas se desenrolou dentro
dele, e ele nã o questionou. Ele beijou o local em saudaçã o. Quando ela
inclinou a cabeça para o lado, oferecendo-se a ele em silê ncio, ele cedeu
a instintos que nã o entendia e raspou os dentes em sua pele
sensı́vel. Sua respiraçã o icou sem fô lego, e ele viu os cabelos de seus
braços arrepiarem. Ele fez isso.
Tã o suave, tã o sensı́vel a ele, apenas para ele. Por agora.
Prendendo a respiraçã o, ele fez o que ansiava fazer a uma
eternidade. Ele segurou seus seios cheios nas mã os. E ela deixou. Seus
polegares registraram os pontos duros de seus mamilos atravé s do
vestido, e ele a acariciou, exalando trê mulo quando seus olhos icaram
turvos e ela mordeu o lá bio inferior. Ele tinha noventa por cento de
certeza de que ela gostava disso.
Do que mais ela gostava? Ele poderia fazê -la se sentir tã o bem quanto
ele se sentia agora? Ele estava determinado a tentar. Ele precisava
agradá -la. Ele precisava disso mais do que qualquer coisa.
Sua boca encontrou a dela novamente, e sua mente icou confusa. Ela
dominou seus sentidos, tornou impossı́vel pensar. Havia apenas o gosto
de morango, a seda de sua pele, as curvas enchendo as palmas das suas
mã os e a suavidade que pressionava contra ele toda vez que seus
quadris balançavam contra ela.
Entre beijos, ela sussurrou: — Cama. Khai. Agora.
Cama.
Sexo.
Esme.
Seu corpo endureceu a ponto de dor, e ele soltou os lá bios dela e
pressionou a testa na dela, dando-se um momento para esfriar e
reaprender a usar o cé rebro. As pessoas diziam que ele era esperto. Ele
deveria ser capaz de descobrir como levá -los para a cama. Era uma
tarefa mundana regular. Nã o deveria parecer tã o impossı́vel. Divida-o
em etapas.
Ele destrancou a porta, dando-se um ponto extra quando se lembrou
de colocar as chaves no bolso, abriu a porta e depois a pegou.
Ela riu quando ele a levou para dentro da casa. — Eu posso andar. Eu
estou melhor.
— Eu gosto de segurar você .
Os olhos dela encontraram os dele. Os lá bios dela nã o se curvaram,
mas ele sentiu como se ela estivesse sorrindo. Ela icou em silê ncio o
resto do caminho até o quarto dele. Depois que ele a colocou no centro
da cama, ela se sentou, colocou o livro na mesa de cabeceira e tirou os
sapatos de salto alto dos pé s, deixando-os cair no tapete felpudo. O
colar e outras joias foram retirados em seguida. Entã o ela dobrou as
pernas embaixo de si e o observou com olhos aquecidos.
Depois de um momento, ele percebeu que ela estava esperando. Por
ele.
Ele tirou os sapatos – algo que nunca havia feito em seu quarto
porque o fazia na porta da frente. Ele provavelmente deixou um rastro
de sujeira da rua em sua casa. Antes que isso pudesse perturbá -lo
demais, ele balançou a cabeça, tirou o paletó e sentou na cama. Sem
querer, ele colocou um braço entre eles, a uma distâ ncia segura.
Ela considerou o espaço vazio por um segundo antes de olhá -lo nos
olhos, agarrar o vestido e puxá -lo sobre a cabeça, obliterando-o
completamente.
Em uma fraçã o de segundo, ela rede iniu a perfeiçã o para ele. Seus
padrõ es estavam alinhados à s proporçõ es e medidas exatas
dela. Ningué m mais poderia se comparar a ela.
Linda mulher, belos seios esculpidos e mamilos escuros, belas
coxas. Ela usava a mesma calcinha de algodã o branco da noite do
primeiro casamento. Ele percebeu pelo pequeno laço na cintura. Ou
isso, ou ela tinha vá rias iguais. As mulheres compravam roupas ı́ntimas
em pacotes de seis como os homens? A imagem de seis calcinhas
brancas com seis pequenos laços brancos brilhou em sua mente.
Aquele pequeno arco o fascinou. Ele queria tocá -la. E as pernas, a
pele, ela inteira. Seus seios, de initivamente seus seios.
— Sua vez. — O tom rouco da voz dela tinha uma qualidade quase
tá til, e os cabelos do corpo dele se arrepiaram.
Sua boca estava muito seca para formar palavras, entã o ele
assentiu. Ele sentiu como se estivesse tremendo, mas suas mã os
estavam irmes quando ele abriu a gravata e desatou os botõ es da
camisa. Era o olhar em seu rosto, a maneira como ela assistia todos os
movimentos. Para ele, seu corpo era apenas... seu corpo, essa coisa em
que ele vivia. Ver-se atravé s dos olhos dela era uma nova experiê ncia.
Quando ele tirou a camisa, os lá bios dela se separaram numa rá pida
inspiraçã o. Quando ele tirou a calça, deixando-o apenas com a cueca, o
olhar dela percorreu-o. A pele dele esquentava em todo lugar que ela
olhava, o peito, os braços, a barriga, as pernas.
Ela passou a mã o pelo cabelo comprido e mordeu a ponta do dedo, e o
ar soprou de seus pulmõ es. Incapaz de resistir por mais tempo, ele
icou de joelhos e se aproximou cada vez mais. Metade de um braço. Um
quarto. Seus corpos pressionados juntos, pele contra pele pela primeira
vez.
Ele já se engal inhou com homens. Foram toques irmes e
aceitá veis. Ele sabia como era ter algué m contra ele - dois planos
combinados, machucados e punidos, um deslize e ele acabava
enforcado.
Isso nã o era nada disso. Esme nã o cheirava a meias de giná stica e
suor de homem, e suas curvas se encaixavam nas cavidades dele,
macias contra duras, lisas contra á speras, o dé bito perfeito em seu
cré dito. Mal fazia sentido quando ela era muito menor do que ele. Ele
poderia dominá -la em dois segundos. Mas ele nunca quis fazer isso.
Seu há lito quente aqueceu seu pescoço, e ele inclinou a cabeça para
trá s para poder ver seu rosto. Olhos verdes sonolentos olhavam para
ele, e seus lá bios vermelhos entreabertos queimavam quaisquer restos
de resistê ncia que ele pudesse ter. Ele pegou sua boca, acariciou sua
lı́ngua profundamente, e ela o beijou de volta ferozmente.
Ele nã o conseguia se aproximar o su iciente, nã o conseguia respirar,
nã o conseguia pensar. Ele a tocou em todos os lugares enquanto
mapeava o corpo dela em sua mente. As curvas maduras de sua bunda,
o deslizamento suave de suas costas, seus seios. Ele gemeu quando seus
mamilos rı́gidos roçaram contra o centro de suas mã os. Eles pareciam
estar implorando por sua boca, e antes que ele percebesse, ele estava
chupando uma ponta endurecida em sua boca, rolando-a contra a
lı́ngua, esmagando-a na cama, perdido nela. As pernas dela se abriram
para dar espaço aos quadris dele, e ele estremeceu quando se balançou
contra ela. Atrito, seu cheiro, os sons murmurantes que ela fazia, cé u
puro.
— Agora, Khai.
Ele nã o entendeu as palavras. Ele nã o conseguia parar de se esfregar
contra ela.
— Khai — disse ela em um suspiro. — Agora.
Ele se afastou e o mamilo saltou de sua boca, ú mido, brilhante. A
visã o era tã o eró tica que ele teve que desviar o olhar antes que pudesse
reunir seus pensamentos. — O que agora? — Ele perguntou com uma
voz irreconhecı́vel de lixa.
Seus lá bios se abriram, mas as palavras nã o vieram. Seu peito arfava
com respiraçõ es rá pidas, fazendo seus seios se moverem de uma
maneira muito atraente e, ao lado do corpo, suas mã os abriam e
fechavam, abriam e fechavam, como se ela estivesse procurando algo
que nã o estava lá .
Finalmente, ela disse: — Camisinha.
Tudo se encaixou.
Ele desceu da cama e pegou o preservativo solitá rio do bolso da
calça. Observando-a, ele abaixou a boxer para que seu pê nis
saltasse. Quando seus olhos escureceram e a ponta da lı́ngua lambeu o
lá bio superior, uma onda de luxú ria quase o derrubou de joelhos. Ele
puxou sua boxer até os pé s e saiu delas antes de se deitar na cama ao
lado dela.
O papel enrugou quando ele o abriu, e ele rolou o lá tex lubri icado por
seu comprimento hipersensı́vel. Quando terminou, ele deixou as mã os
caı́rem para os lados.
Estava na hora, mas ele mal sabia para onde levar as coisas a
seguir. Ele sempre pensou que haveria uma voz interior dizendo o que
fazer. Os seres humanos estavam acasalando há milhares de anos. Veio
a eles naturalmente, instintivamente. Mas tudo o que Khai ouvia era sua
pró pria respiraçã o. Ele ia estragar tudo.
Com os olhos ixos nos dele, ela mordeu o lá bio inferior e tirou a
calcinha com uma elevaçã o sutil dos quadris. Ela manteve as pernas
pressionadas, mas a nuvem de cachos entre as coxas chamou sua
atençã o. Ele engoliu em seco. Ela estava nua, gloriosamente nua.
— Venha aqui. — Disse ela.
Seu corpo obedeceu por si mesmo, entrando entre os joelhos dela e
cobrindo-a, alinhando-os da maneira certa. A atraçã o de seus lá bios era
demais, e ele a beijou com um toque de desespero. Quando ele rolou os
quadris, seu pê nis deslizou sobre ela, e a ponta se alojou dentro
dela. Apenas a pontinha. Ele icou quente em toda parte, suas costas, a
base do crâ nio, o couro cabeludo.
Isso estava acontecendo. Ele e Esme. Juntos.
Ele a beijou mais profundamente enquanto empurrava
lentamente. Cada centı́metro o mudou, o quebrou e o recompô s
novamente, até que ele inalmente se sentiu dentro dela
completamente, e ela jogou a cabeça para trá s e gemeu.
Por um momento, ele icou sobrecarregado demais para se mover. Ele
a agradou. Ele nunca sonhou que seria tã o fá cil satisfazer uma
mulher. Ele afastou os cabelos do rosto dela, beijou seus lá bios,
inundados de ternura e sensaçõ es novas. Nã o havia nada como estar
dentro de Esme. Ela era apertada, ajustando-o como se fossem feitos
um para o outro, quente, macio.
Quando seus quadris se ergueram, empurrando-o ainda mais, o
prazer chiou atravé s dele, e aqueles instintos que ele pensou que nã o
tinha vieram a vida. Ele se afastou e empurrou de volta contra ela com
um gemido á spero, saindo, entrando, mais rá pido. Puta merda, sexo era
bom. Sexo era fantástico, dez mil vezes melhor do que se masturbar no
chuveiro, um milhã o de vezes, um bilhã o.
E ele sabia que era porque ele estava com Esme. Ela fazia tudo ser
diferente. Ele estava tã o feliz que ela foi sua primeira.

•••

Esme agarrou os cobertores com suas mã os enquanto ela lutava contra
a necessidade de tocar Khai. Seu rosto estava desenhado como se
estivesse com dor. Ela queria acalmá -lo, e entã o ela queria acariciá -lo
todo. Ele era magnı́ ico, todo poderoso, cheio de mú sculos e linhas
duras.
Era bom, tã o bom, e mesmo que ele nã o a tivesse tocado onde ela
precisava, ela estava dolorosamente perto. Ela arqueou as costas e se
contorceu contra ele, tentando encontrar o â ngulo perfeito, mas seus
movimentos apenas o in lamaram.
Seus impulsos aumentaram de velocidade e icaram mais rasos, e sua
boca se abriu quando ele empurrou bruscamente e trancou os quadris
juntos por vá rios batimentos cardı́acos. Pulmõ es arfando, ele a
beijou. Entã o ele saiu de dentro dela, saiu da cama e desapareceu no
banheiro.
Ela caiu na cama, incré dula. Foi isso? Certamente, ele tinha que voltar
logo. Seu sexo doı́a para ele voltar e terminar o que havia começado.
O chuveiro começou.
Ela se sentou e olhou para a porta do banheiro enquanto sua pele
esfriava. Ele realmente tinha ido embora. Ele se divertiu e agora estava
se lavando dela. Nã o fazia nem um minuto que ele terminou. Os lá bios
dela ainda estavam molhados dos beijos dele.
As lá grimas ameaçaram cair, mas ela as sufocou de volta. Ela nã o
sabia quanto tempo icou ali, olhando para a porta do banheiro. Podem
ter passado horas ou segundos, mas entã o inalmente ela pulou da
cama dele, juntou suas coisas e as jogou no chã o do seu quarto. Depois
de se sentar no sofá , ela abraçou a si mesma com força. Ela queria estar
com ele, e agora ela havia conseguido. Sua curiosidade foi satisfeita. Ela
disse a ele que nã o esperava nada, e foi isso que ele lhe deu. Nada.
Dor e raiva a atravessaram. Ela se concentrou na raiva.
Quando o chuveiro foi desligado, ela marchou para o banheiro. Ele
olhou para ela enquanto se enrolava na toalha. Depois de um segundo
constrangedor, ele levantou a toalha da coxa e secou o cabelo, expondo
seu belo corpo nu. Mú sculo de inido em seus braços que se enrolavam
quando ele esfregava a cabeça, ombros largos, barriga
irme, aquela parte dele, pernas fortes. Tudo perfeito para os olhos dela,
mas nã o para ela. Ele abriu um sorriso para ela, do tipo com covinhas,
mas o sorriso desapareceu quando ela o encarou com dureza.
Ela entrou no chuveiro e apertou os botõ es com agressividade. O que
havia de errado com ela que o sorriso dele ainda a derretia? Ela nã o
tinha nenhum respeito pró prio. Quando ela esfregou entre as pernas,
sua carne sensı́vel palpitava com a necessidade. Ele a beijou e a tocou
até que ela estivesse louca por ele e depois a abandonou. De novo.
Ele sempre a deixaria. Porque ela nã o era o que ele queria. Ela sabia
disso, mas se jogou nele de qualquer maneira.
Garota estú pida.
Quando a á gua a inundou e o calor afundou em sua pele, ela jurou que
tudo acabava aqui. Sem mais. Sem mais esperanças secretas, sem mais
seduçã o, sem mais se importar com ele. Ela cansou. Ela nã o era rica,
elegante ou inteligente, mas nã o era algo que você pudesse usar uma
vez e jogar fora. Ela tinha valor. Você nã o podia vê -lo nas roupas que ela
usava ou nas abreviaçõ es do nome ou ouvir na maneira que falava,
mas sentia isso, mesmo que nã o entendesse completamente de onde
vinha. Batia dentro de seu peito, grande, forte e brilhante. Ela merecia
mais que isso.
Fortalecida pela força de sua convicçã o, ela desligou a á gua, puxou
uma toalha nova para o peito e saiu do chuveiro.
Khai parou no meio de escovar os dentes e se virou para olhá -la,
deixando seu olhar percorrer sua pele nua. Era impossı́vel nã o notar
que ele estava duro novamente, e seu corpo traiçoeiro aqueceu em
resposta. Corpo estú pido.
Ela passou por ele e se trancou no quarto sem dizer uma palavra. Se
ela tentasse falar, ela choraria ou gritaria com ele. Depois de vestir
outra calcinha branca e vestir suas roupas de dormir, ela sacudiu os
cobertores e fez a cama no sofá . Sem mais compartilhamento de cama.
Quando ela empurrou as pernas para debaixo das cobertas, uma
batida soou em sua porta, e Khai entrou no quarto, vestindo um novo
par de boxers.
Ele esfregou o pescoço enquanto reparava nos cobertores no sofá . —
Você nã o vai dormir... no meu quarto? Como de costume?
— O sofá está bom.
Sua testa se enrugou, mas depois de um tempo, ele assentiu. — Tudo
bem entã o. Boa noite. — Piscando um sorriso para ela, ele fechou a
porta e seus passos retrocederam quando ele voltou para o quarto.
Ela socou o travesseiro antes de puxá -lo para baixo da bochecha e
abraçá -lo ao lado do corpo, como se fosse uma pessoa. Ela nã o
precisava dormir com ele. A raiva dela a acompanharia.
CAPÍTULO DEZESSETE

A primeira coisa que Khai viu na manhã seguinte foi a outra metade
vazia de sua cama. Sem Esme, nem mesmo uma ruga nos
cobertores. Era normal nã o querer a presença de algué m depois de
fazer sexo com ela? Ele nã o entendeu, especialmente quando ela tinha
pesadelos quando dormia sozinha, mas ele nã o sabia o que fazer alé m
de deixá -la em paz.
Ele sentou-se, pô s os pé s no chã o e passou os dedos pelos cabelos
curtos. Ele apagou - um ó timo sexo provavelmente fazia isso - mas tudo
parecia errado hoje. As paredes eram muito cinza, o quarto muito sujo,
sua cama muito grande. Até seu tapete parecia feio demais em torno de
seus pé s descalços, e sua suavidade nã o era su iciente para compensar
sua aparê ncia.
Esperando que a rotina resolvesse as coisas, ele realizou as tarefas
regulares da manhã de domingo. Ele se aprontou, engoliu uma barra de
proteı́na e levantou pesos, mas Esme nunca saiu do quarto. Ele sabia
por que a observava o tempo todo.
Depois de tomar banho, ele a encontrou sentada no sofá lendo um
livro com um desenho animado sendo exibido na TV. Ele pegou seu
laptop e se juntou a ela no sofá , pensando em trabalhar enquanto ela
estudava, mas assim que ele se sentou, ela se levantou e desapareceu
em seu quarto.
Que diabos estava acontecendo? Ela estava cansada dele agora que
eles izeram sexo? Ele nã o estava cansado dela. Na verdade, ele a queria
mais, nã o menos. Franzindo a testa, ele deixou o computador no sofá e
foi atrá s dela. Do lado de fora da porta, ele respirou fundo, abriu as
mã os para esticá -las e bateu.
A porta se abriu imediatamente depois disso, e Esme o encarou. Ela
usava sua camisa amarela escrita Em yêu anh yêu e shorts na altura
dos joelhos e tinha o cabelo em um rabo de cavalo desleixado com um
lá pis na orelha. Ela era tã o bonita que fez seu peito doer.
— Você está brava comigo? — Ele perguntou.
Seus lá bios a inaram quando ela olhou para ele.
— Por que você está agindo dessa maneira? — Ele a queria de volta
ao jeito que ela costumava ser.
Ela levantou o queixo, parecendo teimosa e o desejo perverso de
beijá -la aumentou. Ele quase agiu, mas parecia prová vel que ela o
mordesse. Exceto que seus olhos icaram vidrados e sua respiraçã o
acelerou. — Eu faço o que eu quero.
— Está com fome? Eu posso...
— Nã o, obrigada. — Ela fechou a porta na cara dele.
Ele olhou para a porta por um bom minuto. O que diabos estava
acontecendo? Ele... tinha feito algo errado? Ele nã o conseguia pensar
em nada. Houve o sexo, o que foi incrı́vel, e depois ele tomou banho
imediatamente, para nã o a sujar de suor. Isso exigiu um esforço
monumental desde que ele sentiu como se algué m tivesse atirado nele
com um calmante de hipopó tamo. O que aconteceu? Ele desejou
entender as pessoas.
Mas ele conhecia algué m que sabia. Porque ele era um humano ideal.
Ele pegou as chaves e saiu da casa. Foram necessá rios 45 minutos
para chegar ao bairro de Quan em Sã o Francisco e mais 15 minutos
para encontrar estacionamento na rua. Quando ele inalmente tocou a
campainha do lado de fora do pré dio do condomı́nio, nã o houve
resposta.
Ele tentou de novo.
Nada ainda.
Mais uma vez com sentimento.
Mais nada.
Resmungando consigo mesmo, pegou o telefone do bolso e discou
para o irmã o.
Quan atendeu no primeiro toque. — Eaaaaiii? — Ele perguntou, sua
voz grossa de sono.
— Estou do lado de fora do seu pré dio.
— Uau, o que? Algo está errado? Espere, eu estou indo. Espere um
segundo. — Uma voz feminina mais suave murmurou algo ao fundo, e
ele disse: — E meu irmã o. Volto já . — A chamada foi desconectada.
Khai chutou um pedaço de terra no concreto enquanto
esperava. Parecia que ele nã o era o ú nico que teve uma noite
agitada. Mas ele nã o achava que o encontro de Quan iria ignorá -lo e
evitá -lo o dia todo.
A porta da frente se abriu, revelando Quan em nada alé m de
tatuagens e um velho par de jeans. — Ei.
Por um momento, Khai icou tã o distraı́do com as tatuagens de Quan
que se esqueceu do porquê de ter vindo. — Quando você conseguiu
essas novas? Você tem planos para esse espaço vazio?
Quan coçou a caligra ia em redemoinho no lado direito, que
combinava com a arte de estilo japonê s à esquerda. — Vou deixar em
branco. Muita coisa boa e tudo.
— Você nã o acha que já passou da linha 'muita coisa'? — Khai
perguntou.
— Cale a boca. Minha bunda ainda está nua. Entre.
Khai entrou no pré dio e eles subiram o elevador juntos.
— Entã o, o que é isso? — Quan perguntou enquanto os nú meros no
mostrador digital aumentavam. — Você nunca me visita.
Khai esticou os dedos novamente antes de relaxá -los. — Eu iz sexo
ontem à noite. Com Esme.
Um sorriso gigante se estendeu sobre a boca de seu irmã o. — Sua
primeira vez, certo?
Khai assentiu secamente. Ele nunca disse a ningué m que era virgem,
mas é claro que Quan, com toda a sua excelente intuiçã o pessoal, sabia.
— Bom trabalho, irmã ozinho. — Quan estendeu a mã o e Khai bateu
com a sua por puro há bito. Entã o ele se sentiu ridı́culo.
— Você nã o se importa? Eu sei que você disse que estava interessado
e eu...
— Nã o, eu nã o me importo — disse Quan com uma pequena risada.
— Você é meu irmã o. Eu sempre vou pensar em você primeiro. Alé m
disso, eu gosto dela para você . Estou feliz que você tenha feito isso.
Khai encheu seu peito com um grande suspiro, aliviado por nã o ter
arruinado nada com seu irmã o por sua indecisã o, mas també m
estranhamente orgulhoso por Esme o ter escolhido em vez de Quan. Se
Khai fosse uma mulher, ele escolheria Quan, sem competitividade. —
Ela está agindo de forma estranha agora, e eu nã o sei o que fazer.
— Você quer dizer que ela está icando pegajosa e você quer que ela
pare? Isso acontece algumas vezes. Você tem que decepcioná -las
suavemente. O que eu faço é ...
— Nã o, nã o é isso. — Ele nã o se importaria que fosse pegajosa. Isso
seria melhor do que o que estava acontecendo agora. — Acho que ela
está brava comigo, mas nã o consigo descobrir o que há de errado. Ela
nã o vai me contar.
As sobrancelhas de Quan se ergueram. — Quando ela começou a agir
de maneira estranha?
— Eu acho... — Ele olhou para o lado enquanto procurava em suas
memó rias. — Acho que depois que nó s-, depois do sexo.
As sobrancelhas de Quan se ergueram ainda mais antes de sua
expressã o icar em branco. — Talvez seja isso entã o. Ela, você sabe, ela
gostou?
— Sim, essa parte foi fá cil.
— Sé rio... — disse Quan em tom seco. — Sua primeira vez fora do
portã o.
— Sim.
Quan lançou um olhar cé tico a Khai. — O que você é , o rei Midas dos
orgasmos? Eu tenho aperfeiçoado meu ofı́cio desde a oitava sé rie, e à s
vezes ainda nã o sei o que estou fazendo lá em baixo. As mulheres sã o
complicadas.
— Que complicaçã o? E sexo. Você junta os corpos, e a merda
acontece. E como o canal da natureza. — Ele se saiu mal na frente
emocional, mas acertou essa parte, caramba.
— Tenho certeza de que descobrimos o problema. — Disse Quan.
Khai en iou as mã os nos bolsos. — Diga-me, entã o. — Ele tinha
noventa e nove por cento de certeza de que Quan estava errado.
— Como você sabe que ela gozou?
O elevador apitou e, enquanto desciam um corredor estreito em
direçã o à casa de Quan, Khai pigarreou. — Ela fez sons. Aqueles tipos de
sons. — Sons muito bons.
— Mais alguma coisa? — Quan parou na porta e girou a chave na
fechadura.
— O que mais há ?
— Oh, pelo amor de Deus, entre e sente-se. — Quan abriu a porta do
seu apartamento de solteiro.
Khai entrou com cuidado, meio convencido de que encontraria
esperma nas paredes, mas era na maior parte
arrumado. De initivamente nã o havia esperma. Que ele podia ver. Se
você analisasse os sofá s de couro preto de perto, quem sabia o que você
encontraria. Ele nã o tirou os sapatos antes de seguir Quan até a
cozinha.
— Sente-se. Preciso melhorar minha ressaca. — Quan icou andando
pela cozinha moderna, quebrando os ovos no liquidi icador e
acrescentando suco de laranja. Depois de misturar a mistura com a
espuma, ele a derramou em um velho copo gigante de Slurpee e se
juntou a Khai na mesa da cozinha. — Quer um pouco? — Ele estendeu
para Khai.
Khai fez uma careta. — Nã o, obrigado. Você nã o tem Advil?
— Nã o, acabou. — Quan bebeu metade de sua mistura, largou a
xı́cara e limpou a boca com as costas da mã o. — Ok, de volta ao
sexo. Meu palpite é que ela nã o teve um orgasmo.
— Quais sã o os sintomas do orgasmo?
Quan caiu na gargalhada e bebeu mais da cura para a ressaca laranja.
— Só você falaria sobre orgasmo como se fosse uma doença.
Khai tamborilou com os dedos sobre a mesa. — Você pode continuar
com isso logo?
— Ok, ok, ok. — Quan respirou fundo antes de rir, balançar a cabeça e
coçar a nuca da manhã em sua mandı́bula. — Primeiro, ela - espere, nã o
seria incrı́vel se Michael estivesse aqui? Ele é um pro issional nessa
merda. Já sei, vamos ligar para ele.
— O que? Nã o. Você nã o pode me dizer?
Quan acenou com os dedos em direçã o aos bolsos de Khai. — Pegue o
telefone e ligue para ele. Ele pode concordar com o que eu digo, para
que você pare de olhar para mim como se eu estivesse colando as
respostas de algué m numa prova.
— Você liga para ele.
— Ele nã o atende se eu ligar para ele. E domingo e nem oito ainda. Se
você ligar para ele, ele pensará que é uma emergê ncia. Você nunca liga
para ningué m.
Revirando os olhos, Khai pegou o telefone, discou para o primo e
apertou o botã o do alto-falante. Nã o havia nenhuma maneira de ele
estar falando sozinho.
Michael atendeu no quarto toque. — Ei, Khai, como está indo?
Khai segurou o telefone em direçã o ao irmã o e Quan disse: —
Michael, precisamos da sua experiê ncia. E sobre orgasmos.
— Que diabos? Você está brincando comigo? — Um som frustrado
estalou atravé s do alto-falante. — Eu vou voltar a dormir.
— Nã o estamos brincando. — Disse Khai rapidamente.
Houve uma longa pausa antes de Michael dizer: — O que você queria
saber?
Khai respirou fundo antes de perguntar: — Como você sabe quando
uma mulher está tendo um orgasmo? Quais sã o os sinais simbó licos?
— Uau, tudo bem. Orgasmos. Hum… — Ele limpou a garganta. —
Existem muitos sinais, mas nem toda mulher é a mesma. Geralmente,
ela vai... — Ele limpou a garganta novamente. — Por que isso é tã o
difı́cil? — Ele riu um pouco.
— Tudo bem, já que você tem nove anos de idade, eu vou começar —
disse Quan. — Os sons sã o realmente enganosos. Na metade do tempo
em que você tem uma mulher barulhenta, ela é mais falsa e quer que o
sexo termine porque nã o está gostando. E melhor observar o corpo
dela. Quando uma mulher está prestes a gozar, ela ica tensa e seus
quadris se erguem. Sua pele cora. E quando o orgasmo atinge, ela
convulsiona forte e rá pido. Todo o seu corpo pode tremer. Se você
prestar atençã o, sentirá isso em seu pê nis, dedos ou lı́ngua, o que quer
que esteja usando. E foda demais.
Apó s outra longa pausa, Michael con irmou: — O que ele disse.
Um sentimento desconfortá vel percorreu a pele de Khai enquanto ele
olhava para o telefone e depois para o rosto de seu irmã o. — Nã o sei se
ela fez tudo isso. Fiquei distraı́do com a sensaçã o.
— Você estava dentro dela? — Quan perguntou.
— Bem, sim. E assim que você faz sexo. — Disse Khai. Eles ensinaram
isso na aula de saú de da quinta sé rie.
Quan lhe lançou um olhar impaciente. — Você tocou seu clitó ris?
— O que é isso?
— Oh inferno. — Disse Michael.
Quan bateu a palma da mã o na testa. — Seu clitó ris. E onde você a
estimula para fazê -la gozar.
— Onde ica?
Quan esfregou as duas mã os no rosto enquanto Michael repetia: —
Oh, inferno.
— O quê ? — Khai perguntou. — Eles nã o falam sobre o 'clitó ris' na
aula de saú de da escola. — Nem parecia real. Pelo que ele sabia, era
uma lenda urbana, como o Chupacu ou Roswell.
— Eles realmente deveriam. — Disse Michael, parecendo dolorido.
— Por que eles nã o ensinam?
Michael e Quan icaram em silê ncio.
— Entã o, talvez ela nã o tenha gozado. Isso é motivo su iciente para
ela icar brava comigo? — Ele perguntou.
— De quem é isso que estamos falando? — Michael perguntou.
— Esme. — Disse Khai.
— Oh. — Disse Michael.
— Quem mais seria? — Perguntou Quan. — No inal, você a
abraçou? Elas precisam de alguns minutos disso.
— Por quê ?
— Que merda, Quan? — Michael disse. — Você deveria tê -lo
preparado melhor.
— Me preparado para o quê ? — Khai perguntou.
Quan passou a mã o sobre a cabeça. — Merda.
— Eu estava todo suado e tinha medo que o preservativo vazasse e a
engravidasse. Eu tomei um banho. Isso parecia apropriado. Nã o foi?
Quan continuou esfregando a cabeça. — Bem, merda.
— Por que você continua dizendo isso? — Khai perguntou.
Quan soltou as mã os da cabeça e concentrou um olhar irme em Khai.
— Imagine que você é uma garota e, falando sé rio, nã o ria, você deixa
um cara tocar em você , mas quando as coisas começam a parecer muito
boas, ele para. E entã o você está dizendo a si mesmo que está tudo bem,
você está feliz por ele ter se divertido, mas ele deixa você
imediatamente e se limpa de você , deixando você sozinho em sua
cama. Como você se sentiria?
— Sexualmente frustrado?
Quan olhou para o teto. — Sim, e usado e triste e como uma
merda. Elas icam mais sensı́veis depois do sexo, e você precisa garantir
que elas se sintam bem.
— Eu concordo com isso. — Disse Michael.
Khai soltou um suspiro pesado e derrotado. Quando se tratava de
mulheres, o que Michael disse era tã o bom quanto ouro. Khai tinha
estragado tudo. Por causa de de iciê ncias no currı́culo de saú de da
quinta sé rie e o coraçã o de pedra.
— O que eu faço agora? — Ele perguntou, completamente perdido.
Michael e Quan falaram ao mesmo tempo.
— Peça desculpas.
— Diga que sente muito.
— Você pode dar um exemplo do que eu deveria dizer? — Ele
perguntou. Um roteiro seria melhor. Ele poderia memorizar e repetir
para ela.
— Nã o diga nada, Michael. — Para Khai, Quan disse: — E melhor que
você invente algo por conta pró pria. Será genuı́no assim. Mas primeiro,
tenho alguns livros para você .
— Que livros? — Michael perguntou.
— Livros de sexo. O que? Sim, eu leio. Surpreendente, eu sei. — Quan
balançou a cabeça para o telefone. — Eu acho que você pode voltar a
dormir ou transar com sua mulher agora. Tenho algumas coisas para
conversar com Khai.
— Quais livros? Eu tenho... — Houve um sussurro feminino quase
inaudı́vel, seguido por algo que foi claramente um beijo. — Eu falo com
você s mais tarde. Ligue-me se precisar de alguma coisa.
A tela do telefone de Khai icou preta e Quan se levantou. — Eu volto
já . Eles estã o no meu quarto.
Khai viu o irmã o andar pelo corredor. Nã o demorou muito para Quan
voltar com uma pilha de livros debaixo do braço.
— Sé rio? Sexo para idiotas? — Khai perguntou. — Você leu isso?
— E uma boa visã o geral. Mas eu gosto mais deste. — Quan colocou
os livros sobre a mesa e moveu Ela vem primeiro para o topo. — Nã o
leve tudo aqui como regras rı́gidas. Sã o apenas sugestõ es. Nã o concordo
com tudo, mas é um bom lugar para começar.
Khai pegou o livro, mas hesitou com a mã o a centı́metros de distâ ncia.
— Esses livros sã o seguros para tocar?
— Sim, seu idiota, eles sã o seguros para tocar. Pre iro bater uma com
pornogra ia, nã o com livros de instruçõ es. Pode icar. Eu já terminei
com eles.
— Ok, obrigado. — Khai pegou Ela vem Primeiro e folheou, erguendo
as sobrancelhas para as ilustraçõ es. Ele nã o tinha feito isso.
Mas ele queria.
— Existem vı́deos em que eles demonstram coisas com frutas no
YouTube. Você deveria vê -los. Mas eu os guardaria para mais
tarde. Você precisa ler rapidamente esse livro e depois pedir desculpas
o mais rá pido possı́vel.
Khai juntou todos os livros. — Certo, entendi. Obrigado novamente.
O canto da boca de Quan se levantou. — A qualquer hora, Khai. Eu
deveria ter preparado você mais cedo, mas...
— Eu nã o teria ouvido. Eu nã o estava pronto. — Ele provavelmente
nunca estaria pronto se nã o fosse por Esme. — Eu estou agora.
Quan olhou para ele por um bom momento antes de dizer: —
Cuidado, ok? Você s dois sã o adultos e podem tomar suas pró prias
decisõ es e coisas assim, mas apenas... tenha cuidado. Com você e com
ela. Eu realmente gosto dela pra você e...
— Quan, — algué m chamou do outro lado do condomı́nio. — Estou
icando com frio.
Quan bateu palmas e as esfregou como se tudo estivesse resolvido. —
Acho que terminamos aqui. Sinta-se livre para me ligar se você tiver
dú vidas. Mas nã o antes das dez, no mı́nimo. Boa sorte. Ah, e talvez você
queira comprar uma caixa de preservativos a caminho de casa. Eu daria
um pouco do meu, mas só tenho mais dois.
Khai foi para a porta. — Entendi. — Isso parecia realmente otimista,
considerando onde as coisas estavam com ele e Esme agora, mas era
melhor estar preparado.
Ao sair, ouviu Quan dizer: — Nã o se esqueça de se desculpar. Primeiro
com palavras. Depois com a sua lı́ngua.
CAPÍTULO DEZOITO

Esme tentou o seu melhor para se concentrar nos estudos, mas os


pensamentos sobre Khai estavam se intrometendo na histó ria dos
Estados Unidos. Por que ele parecia tã o confuso? Ele tratou todas suas
mulheres desse jeito? Ela deveria estar agradecida por ele ter dormido
com ela e implorado por mais?
Ela bufou. Nã o nesta vida. Nem mesmo em sua pró xima vida, quando
ela seria um peixe-gato.
Depois de ler a mesma pá gina trê s vezes, ela fechou o livro. Ela nã o
iria tentar impressioná -lo mais. Ela nã o sabia por que continuava
estudando. Nã o era como se qualquer uma dessas informaçõ es a
ajudasse a limpar banheiros melhor.
Uma onda de saudade de casa a atingiu. Ela veri icou a hora, mas era
muito cedo para ligar para casa. Quando ela nã o podia falar com a
famı́lia, a melhor coisa era frutas. Frutas e lar estavam conectados em
sua mente. Tudo o que Cô Nga havia comprado havia desaparecido há
muito tempo, entã o ela invadiu a despensa. Fresco era melhor, mas
enlatados eram melhor que nada. Ela abriu uma grande lata de lichias,
as derramou em uma tigela com gelo e as levou para a sala de estar,
onde colocou o Corcunda de Notre Dame na Net lix.
Ela estava sentada de pernas cruzadas no tapete em frente à TV,
en iando lichias na boca com uma colher de sopa, quando Khai entrou
pela porta da frente. Ele olhou para ela por um segundo rá pido antes de
se concentrar em tirar os sapatos com uma sobrancelha franzida. Ele
usava ó culos de leitura e parecia especialmente um contador/assassino
em sua camiseta e calça pretas. Mente bonita, corpo bonito.
Este homem a beijou como se estivesse se afogando na noite passada.
E entã o ele a descartou assim que terminou com ela.
Uma lichia se alojou em sua garganta, e ela a forçou a engolir. Ela
pegou sua tigela de lichia pela metade e se preparou para correr.
— Nã o, nã o vá . — Khả i deu um passo em sua direçã o e sacolas
plá sticas balançaram ao seu lado. — Por favor. Eu queria falar com você .
Ela pensou em correr de qualquer maneira, mas o pedido em seus
olhos a manteve imó vel. Ela cutucou uma lichia lutuante com a colher
enquanto esperava que ele dissesse o que ele precisava. Ela nã o tinha
ideia do que esperar. Ele nunca foi previsı́vel.
Em vez de falar imediatamente, ele atravessou a sala e sentou-se
sobre os calcanhares na frente dela. Os sacos de plá stico farfalharam
quando ele os pousou. — Eu comprei isso para você .
As distintas cascas vermelhas e espinhosas dos rambutans eram
visı́veis do topo de uma das sacolas, e ela ofegou e as puxou para
perto. — Para mim? Onde você as comprou? — Nã o estavam à venda no
supermercado normal, a uma curta distâ ncia da sua casa.
Ele sorriu levemente. — Eu tive que dirigir um pouco, mas os
encontrei em San Jose.
— O dia todo? — Ela perguntou.
— Nã o, nã o o dia todo. — Ele abaixou a cabeça e riu um pouco. Era
sua imaginaçã o ou as bochechas dele icaram avermelhadas? — Eu li
um pouco. — Ele tirou os ó culos e os colocou na mesa de café .
— Obrigada. — Disse ela, mais emocionada do que gostaria de
admitir, mas depois notou a caixa dentro da segunda sacola plá stica. Ela
sabia que tipo de caixa era essa.
Os olhos dela se voltaram. Se ele pensava que ela iria fazer sexo com
ele novamente depois da noite passada, ele tinha algumas coisas para
aprender. Essas frutas a acompanhariam ao quarto, e ela esperava que
ele tivesse formigas por toda a casa. Ela secretamente as alimentaria e
atrairia para o quarto dele, entã o ele seria mordido enquanto dormia.
Assim que ela levantou a tigela e a bolsa e desdobrou as pernas para
poder se levantar, ele olhou diretamente para ela e disse: — Sinto
muito.
As palavras foram tã o inesperadas que ela nã o sabia o que fazer. Ela
olhou para ele sem pestanejar.
— Estraguei a noite passada. Eu nã o percebi, eu nã o sabia… — Ele fez
um som frustrado e olhou para os joelhos. — Eu juro que pratiquei isso,
mas nã o está saindo bem. — Seus olhos encontraram os dela
novamente, determinados agora. — A noite passada foi a minha
primeira vez.
Ela balançou a cabeça, sem entender.
— Minha primeira vez. Com uma mulher. Com qualquer um.
— Você nunca...? — Ela disse antes de sua garganta secar.
— Eu sei que nã o é uma boa desculpa. Eu deveria ter me preparado
com antecedê ncia para ter certeza de que seria bom para você , mas... —
Sua expressã o suavizou. — Estou feliz que foi você .
Ela nã o sabia como responder. Ela nunca sonhou que seria a primeira
pessoa de algué m, e ser a primeira desse homem signi icava algo.
— Suponho que seja uma coisa egoı́sta de se dizer, considerando que
você nã o gostou, mas... — disse ele, fazendo uma careta. — Você me
dará outra chance? Me deixa te compensar?
Ela abriu os lá bios para falar, mas nada saiu.
— Ou eu estraguei tudo de vez? — Quando ela ainda nã o conseguiu
responder, seu peito desceu. Seus lá bios se curvaram num quase-
sorriso, sem covinhas, e ele desviou os olhos e icou de joelhos. — Eu
vou para o escritó rio. Eu vou ver…
— Se eu lhe der outra chance, o que você fará ? — Ela perguntou.
Os olhos dele procuraram os dela antes que caı́ssem nos seus lá bios e
escurecessem. — Mais beijos. Muito mais beijos.
— E depois?
— Mais toques.
Ela estremeceu quando o olhar dele percorreu seu corpo. — Quem
toca? Só você ?
A testa dele enrugou. — Você pode me tocar, se quiser.
— Qualquer lugar?
Ele estava no meio de um aceno de cabeça quando disse: — Exceto
por um lugar.
— Seu rosto.
— Ha, nã o. Você pode me tocar lá . Você já tocou.
— Entã o, onde? — Ela perguntou.
Uma expressã o pensativa cruzou seu rosto. — Nã o é importante, a
menos que você decida me dar outra chance. Você quer?
Ela mordeu o interior do lá bio antes de dizer: — Talvez.
— Como posso ajudá -la a decidir?
Ela colocou as frutas de lado e icou de joelhos para que estivessem
quase ao nı́vel dos olhos. — Beije-me como da primeira vez.
Por um momento suspenso, ele icou completamente imó vel. Entã o os
braços dele a envolveram, puxando-a para perto, as mã os inclinando a
cabeça para trá s. Seus lá bios se esmagaram, e ela ofegou quando o calor
a atravessou. Ele suavizou o aperto imediatamente, como se tivesse
medo de machucá -la, e os beijos icaram lentos, entorpecentes.
Ela pegou um punhado de sua camisa enquanto lutava para nã o tocá -
lo, e ele se afastou, dizendo: — Desculpe, eu...
— Mais.
Ele a beijou como se ela fosse seu mundo inteiro, e se ela já nã o
estivesse ajoelhada, ela teria caı́do no chã o. Agarrando a camisa dele,
ela retornou cada pressã o dolorosa dos lá bios, cada golpe de lı́ngua.
Eles se beijaram até se forçarem um contra o outro no chã o, lá bios
inchados e sem fô lego, e entã o se beijaram mais, cada um perdido no
outro. Quando a mã o dele deslizou por baixo da cintura da calça, no
entanto, ela saiu do transe e seu corpo inteiro icou tenso. Ela
interrompeu o beijo quando uma onda de pâ nico inexplicá vel esfriou
sua pele.
— O que foi? — Ele perguntou. Suas bochechas estavam coradas, mas
seus olhos a observavam com confusã o e preocupaçã o. — Você mudou
de idé ia?
Ela balançou a cabeça rapidamente. Ela queria isso, ele. Mas esse era
o problema. Ela o queria desde o inı́cio, se abriu para ele vá rias vezes, e
no que isso a levou?
— Estou com medo. — Ela sussurrou.
Seu rosto enrugou com algo que parecia dor. — De mim?
Ela balançou a cabeça novamente. — Nã o, eu estou com medo que
você me afaste novamente quando eu te tocar errado, com medo que
você me deixe novamente. — Contra a vontade dela, seus olhos
lacrimejaram e lá grimas caı́ram. Ela desviou o rosto dele e golpeou os
olhos com as costas de uma manga, agora constrangida. Até para seus
pró prios ouvidos, ela parecia paté tica.
Ele segurou sua bochecha e gentilmente a incentivou a olhá -lo. — Eu
nã o vou. — disse ele com uma voz á spera. — Pelo menos, vou tentar.
Ela assentiu e tentou sorrir em resposta, mas pareceu estranho. —
“Vou tentar” nã o parece muito convincente.
Ele a surpreendeu juntando as mã os com os punhos cerrados e beijou
os nó s dos seus dedos. — Você fez isso ontem també m. — Ele abriu os
dedos rı́gidos e, quando viu os sulcos profundos que as unhas haviam
deixado nas palmas das mã os, suas sobrancelhas se uniram. — Nã o faça
mais isso.
Apó s uma breve hesitaçã o, sentou-se nos calcanhares e tirou a
camisa, revelando grandes extensõ es de pele macia esticada sobre os
mú sculos esculpidos.
— O lugar que estou pedindo para você nã o tocar é … — Ele respirou,
ergueu os ombros e disse: — Meu umbigo.
Ela nã o pô de evitar, um sorriso se espalhou por sua boca e uma risada
ameaçou escapar. — Seu umbigo?
— Sim, meu umbigo. Eu sei que parece engraçado.
— Um pouco. — Ela tentou evitar o sorriso, mas isso só a fez sorrir
ainda mais.
— E sé rio — disse ele com um olhar nivelado. — Eu nã o suporto ser
tocado lá . Se você tentar, eu poderia machucá -la acidentalmente. Nã o
posso controlar minhas reaçõ es quando se trata desse lugar. Eu nem
gosto de pensar nisso.
— Eu nã o vou tocar em você lá . Eu prometo. Mas… — Ela se
aproximou dele. — Eu posso tocar em qualquer outro lugar?
Ele assentiu uma vez. — Sim, desde que...
— Nenhum toque leve, eu sei.
Ela esticou a mã o em direçã o ao peito dele, e ele icou parado, sem
fazer nenhum movimento para detê -la. Antes de fazer contato, ela se
deteve, fez uma pausa para o ritmo do coraçã o se acalmar e tirou a
camisa, como ele havia feito. Como sempre, ela nã o usava sutiã – ela os
odiava – e ele a consumiu com o olhar, fazendo-a se sentir a mulher
mais desejada do mundo. Ela juntou os corpos do peito aos joelhos,
apoiou a bochecha contra o ombro dele e cuidadosamente o
abraçou. Prendendo a respiraçã o, ela pressionou as palmas das mã os
irmemente contra os mú sculos duros de suas costas, mesmo sabendo
que ele nã o podia ver.
Seu coraçã o batia tã o forte que ela podia sentir seu esterno tremendo
a cada batida. Esta foi a primeira vez que ela se atreveu a abraçá -lo
desde que ela se arrastou para a cama dele apó s aquele pesadelo. Se ele
fosse afastá -la, agora era a hora.
Ele nã o a afastou. Ele beijou o topo da cabeça dela e a abraçou em
troca, e apó s alguns momentos, Esme relaxou contra ele enquanto a dor
lentamente se esvaı́a dela.
Eventualmente, ela se atreveu a deixar suas mã os vagarem. Ela
explorou os ombros fortes dele, os mú sculos dos bı́ceps e tudo, desde as
almofadas musculares entre as omoplatas até os sulcos duplos nas
costas, e ele a deixou; ele con iava nela.
Talvez ela tenha beijado o pescoço dele. E a mandı́bula dele. O queixo
dele. Quando ele se virou para ela, seus lá bios se encontraram e a
sensaçã o a atravessou. O beijo começou suave, mas rapidamente se
transformou em algo intenso enquanto eles tentavam se aproximar um
do outro. Ela mal podia respirar e nã o se importou.
Ela corajosamente o acariciou atravé s de suas calças, amando o jeito
que ele gemeu e a beijou com mais força. E entã o estava
acontecendo. Mã os famintas desabotoaram botõ es, zı́peres foram
abaixados, tecidos empurrados para baixo. Ela o tocou lá pela primeira
vez, amando o quã o deliciosamente diferente ele era de si mesma, e ele
a tocou em troca. As pontas dos dedos procuraram por cachos ú midos e
dobras ú midas e se estabeleceram ali, ali, ali. Ela rasgou a caixa que ele
comprou com dedos trê mulos e extraiu um pacote de papel alumı́nio.
— Nada de sexo oral? — Ele perguntou. — Os livros que li
recomendavam muito... e eu queria tentar.
Levou alguns segundos para descobrir do que ele estava falando, e
entã o seu rubor icou tã o quente que ela sentiu o calor saindo do corpo
em ondas. Isso nã o era algo que ela já conhecera, e sua avó certamente
nã o aprovaria. O pensamento dele a beijando entre suas coxas era
ultrajante.
E intrigante.
— Mais tarde. — Disse ela e pediu que ele se apressasse. Depois que
ele rolou o preservativo em seu comprimento, ela o puxou para o chã o
com ela. Seus corpos se alinharam da maneira perfeita, e ele pressionou
sua bochecha na dela como se estivesse saboreando estar perto dela.
— Por favor, nã o me deixe fazer você chorar — ele sussurrou em seu
ouvido. — Se algo estiver errado, diga-me para que eu possa
consertar. Por favor.
Seu coraçã o apertou e ela o abraçou com força. — Eu vou te dizer.
Ele engoliu uma vez antes de mudar os quadris, e eles se juntaram
com respiraçõ es quebradas e um longo suspiro. Cheia dele, ela nã o
pô de deixar de arquear, tentando se aproximar, até que ele alcançou
entre eles e a tocou. Ela apertou-o com força enquanto o calor brilhava
para fora do local onde as pontas dos dedos acariciavam.
— Me mostre como deixar bom para você també m — disse ele,
olhando diretamente para ela, sem nenhum traço de vergonha no
rosto. — Porque eu preciso que você se sinta da maneira que sinto
agora.
No começo, ela congelou com uma mistura de vergonha e inibiçã o,
mas depois colocou a mã o sobre a de Khai e mostrou-lhe como lhe dar
prazer. Ela sempre pensou que era ruim para uma mulher participar
ativamente na cama, mas as percepçõ es nã o importavam quando eram
apenas os dois. Ela seria o que ele precisasse.
Quando ele começou a mover os quadris enquanto a acariciava com
os dedos, ela nã o conseguia parar os sons que escapavam de sua
garganta. Acariciada por dentro e por fora, estimada, amada. Ela o
abraçou, abraçando-o de todas as formas possı́veis, enquanto seus
corpos encontravam um ritmo.
Ele estava aqui. Ele era dela. Ele nã o estava indo a lugar algum.
Beijos por toda parte, nos lá bios, na garganta, no ombro. Tê mpora
com tê mpora, respiraçõ es ı́ntimas pesadas, sussurros em seu ouvido,
respostas.
Assim?
Assim e isso e isso.
Os quadris dela subiram bruscamente do chã o, pressionando o mais
perto possı́vel dele, alto, alto, alto. Cabeça jogada para trá s. Muito, muito
bom, muito bom. Um gemido trê mulo. Fortes convulsõ es, repetidas
vezes.
E você?
Tudo que eu preciso é você.
O nome dela, o nome dela, o nome dela, o nome dela.
Pura quietude.
Em sua mente e em seu coraçã o.
Calorosa. Contente. A salvo em seus braços. Ele seguro nos dela. Ela o
abraçou com mais força. Ele era maior e mais forte, mas ela o protegeria
com tudo o que tinha.
CAPÍTULO DEZENOVE

Khai acordou do sono mais profundo de sua vida e piscou, colocando o


quarto em foco. Quando ele viu o quã o claro estava, ele olhou para o
reló gio: 10:23. Sé rio? Ele nunca dormia até tã o tarde. Ele tentou se
sentar, mas um peso quente o manteve deitado. Ele levantou as mã os
para a massa e encontrou cabelos longos e sedosos e pele macia.
Esme.
Memó rias inundaram sua mente. Beijando ela. Tocando nela. Sendo
tocado por ela. Estando dentro dela. Observando-a desmoronar.
Enquanto estava ali, olhando para o teto texturizado, ele reconheceu
que deveria estar pirando - seu horá rio de domingo foi destruı́do e
havia uma mulher em sua cama, dormindo nele como um bicho-
preguiça em uma á rvore. Mas o peso dela era calmante, ele dormira oito
horas inteiras e, pela primeira vez em muito tempo, nã o tinha bolas
roxas. Ele se sentiu... bem.
Ele analisou a estranha sensaçã o de bem-estar, nã o con iando. Foi
devido à ocitocina e endor inas liberadas durante a relaçã o sexual? Ele
era viciado em sexo agora... ou era pior do que isso? Ele era viciado em
Esme? Ele deveria se livrar dela antes que fosse tarde demais?
O pensamento de perdê -la fez seu estô mago cair e seu corpo
endurecer em rejeiçã o, e ele afastou os cabelos da bochecha dela e
beijou o topo de sua cabeça, precisando se assegurar de que ainda
estava aqui.
Bem, isso explicava tudo.
Khai Diệ p, CPA, viciado em Esme.
Ele estava surpreendentemente bem com isso. Era difı́cil icar
chateado quando ele a tinha nos braços. Mas chegaria o dia em que ela
teria que ir, e ele nã o sabia o que seria necessá rio para se reajustar à
vida sem ela. Por enquanto, no entanto, ele nã o precisava pensar
nisso. O verã o estava apenas na metade.
O telefone tocou e ele atendeu instantaneamente, agradecido pela
distraçã o. Um e-mail do amigo de Quan sobre a lista de Phils. Antes que
ele pudesse abri-lo, Esme se mexeu.
— Oh, eu estou em cima de você — disse ela. — Eu dormi aqui a noite
toda?
— Acho que sim.
— Desculpe. — Ela se afastou. Ele estava prestes a manifestar um
protesto, mas icou preocupado com o cabelo dela. Parecia que ela o
tinha penteado de baixo para cima, aplicado spray de cabelo de cabeça
para baixo, ou ambos. Ela alisou as mechas extra volumosas e
conscientemente dobrou uma ú nica mecha mansa atrá s da orelha. —
Você sente dor em algum lugar? Por eu dormir em você ?
Ela bateu as mã os no peito dele como se estivesse procurando por
algo - ele nã o sabia o quê , sinais de sangramento interno ou ossos
quebrados, talvez - e ele cobriu as mã os dela. Se ela o tocasse muito
mais, eles fariam sexo com bafos matinais, e ele nã o tinha certeza de
como isso funcionava.
— Estou bem. Você é do tamanho perfeito para mim. — Ele disse.
Ela sorriu. — Você acha que eu sou bonita e do tamanho perfeito.
Isso era ó bvio, entã o ele mudou de assunto. — Acabei de receber uma
lista reduzida do amigo de Quan. — Ele se sentou e acessou o e-mail. —
Parece que ele reduziu a lista para... nove. Existem nomes completos,
informaçõ es sobre atendimento, nú meros de telefone e as fotos dos
seus antigos IDs de estudante. Quer ver?
— Sim, eu quero. — Ela pegou o telefone e imediatamente se
aconchegou ao lado dele, puxando os cobertores sobre os seios - uma
vergonha. Alheio à sua decepçã o, ela lançou-lhe um olhar animado
antes de digitalizar as fotogra ias. Quando ela chegou ao nú mero oito,
ela agarrou o braço distante de Khai e o envolveu ao redor dela para
que ele a estivesse abraçando e ele sorriu.
Ele gostou disso, o aconchego, os sorrisos dela, o fato de que ela o
ajudou a estar lá por ela. Ele nã o sabia que ela precisava ser abraçada, e
era imensamente libertador que, em vez de icar brava com ele ou
triste, ela se comunicasse e lhe mostrasse o que fazer.
— E ele — ela sussurrou. — Nú mero oito.
Khai considerou a fotogra ia com ceticismo. O homem tinha olhos
verdes, mas todos pareciam mais ou menos o mesmo para ele. Como ela
se decidiu por este? — A julgar pelo seu có digo de á rea 650, ele é local.
Ela cobriu a boca. — E muito cedo para ligar agora?
— Nã o é cedo. Já passa das dez.
Seus olhos se arregalaram e ela olhou pela janela como se estivesse
percebendo a hora do dia. — Ficamos acordados até tarde, hein?
— Nó s icamos. — Enquanto as lembranças da noite passada
passavam por sua cabeça, ele deixou seus olhos percorrerem o per il
dela, sua mandı́bula ina e a linha graciosa de seu pescoço. Ele limpou a
garganta e tocou as pontas dos dedos nas pequenas manchas roxas em
sua pele. — Eu, hum, posso ter deixado marcas em você .
Merda, elas eram permanentes? Ele nã o as tinha feito de propó sito,
embora tivesse que admitir que achava a visã o altamente
satisfató ria. Aparentemente, ele era como um cachorro e sentia a
necessidade de marcar seu territó rio - nã o com xixi, no entanto.
Ela pressionou a mã o no pescoço e sorriu quando suas bochechas
loresceram de cor. — Elas vã o sair.
Ele assentiu, aliviado e decepcionado ao mesmo tempo.
Depois de examinar as outras fotogra ias novamente, ela voltou ao
nú mero oito. O dedo dela pairava sobre o nú mero do telefone enquanto
ela respirava fundo, depois pressionou e apertou o botã o do alto-
falante. Ela mordeu o lá bio inferior quando o telefone tocou uma, duas,
trê s vezes.
Quatro vezes, cinco, seis...
Sete, oito, nove…
— Oi, você ligou para Phil Jackson. Provavelmente estou ocupado na
sala de cirurgia. Deixe uma mensagem e eu retornarei quando puder.
Quando o correio de voz começou a gravar, ela apertou o botã o
Encerrar, e Khai a olhou confuso.
— Você nã o quer deixar um recado? — Ele perguntou.
Ela balançou a cabeça rapidamente. Por um longo tempo, ela
continuou mordendo o lá bio enquanto olhava para a fotogra ia na
tela. — Você acha... ele é mé dico?
— Talvez. Nó s podemos checar. — Ele pegou o telefone dela e
pesquisou “Phil Jackson MD”. Com certeza, havia um Phil Jackson em
Palo Alto especializado em cirurgia cardiovascular e torá cica.
Esme pegou o telefone dele e deu um zoom na foto do homem. Ele
parecia bonito o su iciente com seus distintos cabelos brancos, ó culos e
sorriso fá cil, como se Papai Noel malhasse e se barbeasse.
— Ele é mé dico. — Esme sussurrou, mas ela nã o parecia feliz com
isso. A testa dela enrugou e ela continuou torturando o lá bio inferior.
— Isso é um problema?
Ela passou a mã o pelos cabelos e levantou um ombro. — Um homem
assim... para a ilha dele... eu nã o sou… — Ela desistiu e olhou pela
janela.
— Você nã o acha que ele vai gostar de você ?
Os olhos dela procuraram os dele. — Você acha que ele vai?
— Claro que ele vai. — Como algué m poderia nã o gostar dela?
Ela o surpreendeu, abraçando-o com um abraço e enterrando o rosto
no pescoço dele. Depois de um momento chocado, ele a abraçou e
apoiou a bochecha na dela. Ela estava triste? Ela estava feliz? Ela estava
chorando? Ele nã o tinha ideia alguma, entã o ele a abraçou e esperou.
Mas enquanto esperava, ele nã o pô de deixar de notar que tinha uma
Esme muito nua montando seus quadris muito nus. Seus seios estavam
inchados contra o peito dele e seu sexo estava ali. Levou um dé cimo de
segundo para seu corpo responder da maneira esperada, e ele
estremeceu. Isso nã o lhe pareceu o caminho certo para reagir quando
você tinha uma mulher emocional em seus braços. Ele estava desejando
que sua ereçã o fosse embora, quando ela se encostou nela, enrijeceu em
realizaçã o e deliberadamente esfregou-se sobre o comprimento dele
enquanto mordia sua orelha.
— De novo? — Ela sussurrou.
Só havia uma maneira possı́vel de responder a essa pergunta. A inal,
parecia que eles iriam fazer sexo com há lito matinal.
CAPÍTULO VINTE

O mê s que se seguiu foi o melhor mê s da vida de Esme. Agora que ela
havia pegado o jeito, as gorjetas do trabalho como garçonete lhe
serviam muito bem, e ela economizou o su iciente para consertar a casa
da avó ou comprar algo melhor. Suas notas na escola continuaram
altas. Ela poderia até nã o se tornar Esme da Contabilidade, mas estava
chegando perto.
E melhor de tudo, o tempo que ela passou com Khai foi como um
sonho. As coisas se tornaram fá ceis entre eles. Ela sabia ligar o exaustor
quando cozinhava com molho de peixe, e ele aprendeu a beijá -la todas
as manhã s quando ela saı́a para o trabalho e abraçá -la todas as noites
quando ele a pegava da aula. Ele ainda nã o falava muito, a menos que
ela izesse perguntas especı́ icas, mas estava tudo bem. Ela falava o
su iciente pelos dois, e ele era um bom ouvinte. Ela fez um comentá rio
aleató rio sobre querer andar de barco um dia, e ele a surpreendeu hoje,
levando-a para um brunch de domingo na á gua na Baı́a de Sã o
Francisco. Foi adorá vel. O primeiro encontro deles.
Agora eles estavam sentados no sofá em casa. Ela estava estudando
muito, e o trabalho dele era aparentemente interminá vel. Ela destacou
algumas pá ginas do livro antes de fazer a má escolha de olhar para
ele. Ele estava usando seus ó culos de leitura novamente, vestido de
preto, como sempre, e meditando sobre a tela do computador como se
estivesse planejando um ataque de atirador de elite. Uma espiada no
computador, no entanto, revelou planilhas em vez de projetos de
batalha.
Era sexy de qualquer maneira. E ela nã o podia impedir-se de deixar a
liçã o de lado e se aconchegar ao lado dele. Ele nã o pareceu notar a
princı́pio, e ela beijou as linhas fortes em seu pescoço e mandı́bula.
— Khai, — ela sussurrou. — E se...
Seus lá bios encontraram os dela, e o resto das palavras nã o
importava. Como sempre, ele a beijou com toda a atençã o e intensidade,
e nã o demorou muito para que ela substituı́sse o computador e
ocupasse o espaço em seu colo – o plano dela desde o inı́cio.
Eles bateram nos ó culos e ele os agarrou como se fosse removê -los.
— Nã o — ela disse rapidamente e os reposicionou para ele. — Eu
gosto deles.
Ele lhe lançou um olhar confuso. — Meus ó culos de leitura? Você quer
que eu os use... agora?
Ela mordeu o lá bio enquanto sorria. — Eles sã o sexys.
— Oculos de leitura? — Ele balançou a cabeça enquanto ria, mas os
manteve. — O que mais é sexy?
— Você . Nu. — Ela agarrou a barra da camisa e puxou para cima, mas
seu telefone tocou e tocou.
Era a mú sica bonitinha que tocava toda vez que ela recebia uma
ligaçã o do celular da mã e. Ela escolheu porque pensou que Jade iria
gostar.
Khai pegou sua bolsa, que ela tinha deixado em seu lado do sofá , e os
pensamentos dispararam atravé s de sua mente mais rá pido do que um
relâ mpago: Ele sabia onde ela guardava seu telefone. Ele ia pegar para
ela. Ele ia ver a foto de Esme e Jade na tela. Ele ia saber.
Ela mergulhou para sua bolsa, mas em vez de interceptá -lo, ela caiu
do sofá e quase bateu a cabeça na mesa de café .
— Você está bem? — Mã os fortes a puxaram na vertical e alisaram
sua cabeça apenas para ter certeza.
O telefone dela continuou tocando. — Estou bem. Eu apenas – a
pessoa ligando – talvez seja Phil Jackson. — Ela estremeceu. Nã o era
Phil Jackson.
Khai pegou sua bolsa e, quando ele começou a abrir o bolso externo
onde ela guardava o telefone, ela o pegou das mã os dele.
— Eu atendo. — Disse ela com uma voz muito aguda, mas quando
inalmente recuperou o telefone, ele parou de tocar.
A culpa mordiscou sua barriga. A julgar pelo nú mero de toques,
provavelmente tinha sido Jade.
— Você vai ligar de volta? — Khai perguntou, olhando para o telefone
dela com curiosidade.
Ela mordeu o lá bio. — Hum, talvez mais tarde. Eu…
O telefone começa a tocar novamente. O mesmo toque. Sua boca icou
seca e o suor escorria pela testa. Ela apertou o telefone no peito.
Ela deveria contar a ele. Agora mesmo. As coisas estavam indo
bem. Talvez ele aceitasse as notı́cias rapidamente.
— E minha mã e. — Ela se ouviu dizer atravé s do bater do coraçã o.
— Você deveria atender. Eu nã o me importo.
Mas será que…?
E se fosse muito cedo? E se ela estragasse tudo?
— Vou conversar na outra sala, para que você possa trabalhar —
disse ela, perdendo toda a coragem no ú ltimo segundo. Ela correu para
o quarto, fechou a porta e correu para atender o telefone. — Olá ?
— Má. — A voz inconfundı́vel de criança de Jade veio do outro lado, e
a culpa de Esme piorou. Que tipo de mã e mantinha seu ilho em
segredo? Ela nã o tinha vergonha de sua ilha, mas ter um ilho tã o
jovem nã o parecia bom. Ela já tinha tantas desvantagens. Como ela
poderia adicionar outra?
— Oi, minha garota.
— Eu te liguei porque sinto sua falta. — Disse Jade.
A garganta de Esme doı́a e seus olhos arderam. — També m sinto sua
falta.
— Isso é tudo que eu queria dizer. Ngoai disse para nã o desperdiçar
os minutos de telefone. Ah, e se eles tiverem brinquedos de cavalos aı́,
você pode me dar um, se quiser. Eu te amo muito. Tchau.
Depois que a ligaçã o foi desligada, um som meio riso e meio soluço
tossiu de seus lá bios, e ela escondeu o rosto nas mã os. Ela tinha que
dizer a Khai.
Em breve.
Mas ainda nã o.

•••

Na segunda-feira, Esme estava sentada em uma cabine apó s o pique


do almoço deliberando entre duas lojas de brinquedos em seu telefone
– uma era quarenta e cinco minutos a pé e a outra era uma caminhada
de meia hora de distâ ncia seguida por meia hora de ô nibus –, quando
Cô Nga marchou das cozinhas.
— Ei, o que você está fazendo sozinha aqui? — Perguntou Cô Nga.
Esme se esforçou para desligar o telefone e escondeu-o embaixo da
coxa antes de cobrir com um sorriso. — Almoço. — Ela desejou ter
contado à Cô Nga sobre Jade no começo.
Cô Nga olhou o prato de rolinhos de ovo sobre a mesa.
— Rolinhos de ovo de novo? Cinco dias seguidos. Você vai entupir seu
coraçã o até a morte.
Esme encolheu os ombros desconfortavelmente. O entupimento do
coraçã o era o ponto principal, embora ela esperasse que isso nã o a
matasse. Se ela conseguisse controlar o colesterol alto e a dor no peito,
poderia encontrar Phil Jackson como paciente. Isso era muito melhor
do que ligar e desligar quando a ligaçã o ia para o correio de voz.
— Bem, você ainda é jovem. Você deve comer as coisas ruins
enquanto pode — disse Cô Nga enquanto deslizava no assento do lado
oposto da mesa. — Fale comigo. Como você s estã o? Você parece feliz
para mim.
Um sorriso se espalhou impotente pelos lá bios de Esme. — Eu nunca
fui tã o feliz na minha vida. Espero fazer Anh Khai…
Os sinos tocaram na porta, e Khai entrou, parecendo que ele estava
prestes a roubar o lugar com todas as suas roupas pretas furtivas. Seu
coraçã o pulou de vertigem e ela correu para ele. Ele fechou os braços
em volta dela imediatamente.
— Por que você está aqui? — Ela perguntou. — Está com fome? Com
sede? Eu posso conseguir algo para você .
Sua resposta foi um beijo que fez o sangue dela icar quente e
grosso. — Tivemos uma reuniã o externa hoje e terminou cedo. Eu nã o
preciso de nada.
— Você vem ver sua mulher, mas nã o sua mã e. Eu vejo como é . —
disse Cô Nga.
Havia uma agressividade em sua voz, e Esme e Khai se
encolheram. Era verdade. Khai nã o gostava de visitar sua mã e porque
ela sempre lhe enviava em missõ es. Ele veio apenas por Esme.
Sabendo que nã o deveria tocá -lo de surpresa, ela agarrou a manga
dele e correu os dedos até a palma da mã o, e ele segurou a mã o dela
com força.
A mã e dele suspirou. — Essas duas crianças... aqui, aqui, sentem-se.
— Ela acenou para a cabine, e depois que eles se sentaram, ela apontou
para o prato de comida de Esme. — Ela está comendo isso a semana
toda. Você tem algo a me dizer?
Khai olhou para os rolinhos de ovo que estavam acompanhados de
uma salada verde e um pequeno copo de molho de peixe com um olhar
vazio. — Ela gosta dos seus rolinhos de ovo? Eles sã o os melhores da
cidade.
— Eles sã o os melhores de toda a Califó rnia — corrigiu Cô Nga antes
de voltar sua atençã o para Esme. — E assim que as mulheres comem
quando estã o grá vidas. Eu tenho um neto a caminho?
A mandı́bula de Esme caiu quando mã e e ilho se viraram para
encará -la. Khai parecia que estava prestes a sofrer o ataque cardı́aco
que Esme estava desejando para si. — Nã o, eu nã o estou grá vida, eu
juro.
— Você tem certeza? — Perguntou Cô Nga com os olhos
estreitados. — Você está cansada o tempo todo.
— Tenho certeza — disse ela. Ela estava cansada porque icou
acordada a noite toda estudando. E se divertindo com Khai.
Khai soltou um suspiro aliviado, mas uma mistura desconfortá vel de
emoçõ es invadiu a barriga de Esme. Ela nã o estava grá vida, mas
existia um bebê .
Diga a eles agora, uma voz comandada dentro de sua cabeça. Agora
era a hora perfeita.
— Nã o pretendo pressioná -lo, mas o verã o está quase no im — disse
Cô Nga, concentrando-se em Khai e pacientemente cruzando as mã os
sobre a mesa. — E hora de você s começarem a pensar no futuro.
O coraçã o de Esme girou em seu peito enquanto ela observava os
mú sculos da mandı́bula de Khai se tencionarem.
O que ele estava pensando? Ele nã o queria que ela fosse embora. Nã o
depois desse mê s perfeito juntos. Mas ele a queria o su iciente para
casar com ela?
— Ainda tenho o salã o reservado para o dia 8 de agosto. Se ela nã o se
casar com você , ela vai embora em 9 de agosto. O que será ? Um
casamento ou uma viagem ao aeroporto? Conte-me sua decisã o no
casamento de seu primo Michael neste im de semana, entã o terei
tempo para organizar as coisas — disse Cô Nga. — Vou deixar você s
dois conversarem, ha? Talvez seja bom darem um passeio. Está bom lá
fora, e nã o há clientes no momento. — Sua mã e deslizou para fora da
cabine e desapareceu pelas portas duplas que davam para as cozinhas.
Antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, Esme se levantou,
desamarrou o avental verde escuro da cintura e pegou o telefone. — Eu
quero ir lá fora. — Principalmente, ela queria atrasar essa conversa. Ela
estava aterrorizada com o que ele diria.
Khai a seguiu para fora do restaurante escuro e para o sol, e ela
segurou o telefone no peito enquanto caminhava cegamente pela
calçada que ladeava a rua movimentada. O ar cheirava a exaustã o e
concreto, quase como em casa. Ela voltaria em breve?
Ela odiava isso. Ela nã o queria que sua vida – e a da ilha –
dependessem tanto das escolhas de outra pessoa. Pela milé sima vez
desde que ela veio aqui, ela desejou ser realmente Esme da
Contabilidade, aquela mulher elegante que nã o precisava de ningué m e
nã o tinha nada a temer.
— Por que você está andando tã o rá pido? — Ele perguntou.
Ela diminuiu a velocidade e lançou-lhe um olhar de desculpas. —
Desculpe, Anh.
Ele en iou as mã os nos bolsos enquanto caminhava, os olhos no
trá fego que passava. — Nó s deverı́amos estar falando sobre o futuro.
— Nó s nã o precisamos. — Ela nã o estava pronta para esta
conversa. Ela apertou mais o telefone, mas isso nã o impediu que suas
mã os tremessem.
Depois de um segundo, ela percebeu que era o telefone dela. Algué m
estava ligando para ela. Ela olhou para a tela.
Doutor pai.
O pâ nico a chocou, fazendo as palmas das mã os formigarem e o rosto
icar frio. — Meu pai. — Ela estendeu o telefone para Khai.
Ele balançou a cabeça e arregalou os olhos. — Por que você está
dando para mim? Atenda. Depressa, antes que ele desligue.
Ela alcançou um dedo em direçã o ao botã o de resposta, mas nã o
conseguiu se decidir. — E se ele estiver com raiva de mim por ligar
demais? E se ele achar que eu sou uma golpista? Ele dirá que tudo que
eu quero é um green card e seu dinheiro. E verdade, quero uma vida
diferente, mas també m...
Khai pegou o telefone dela e apertou o botã o, seguido pelo botã o do
alto-falante. Entã o ele estendeu o telefone para ela falar.
Ela cobriu a boca. Ela nã o conseguia falar. Ela nã o conseguia nem se
mexer. Cé u e terra, o que ela fez agora? Ela poderia desligar? Ela queria
desligar.
— Olá ? — Disse uma voz profunda, gentil e agradá vel. O pai dela. —
Eu perdi algumas chamadas deste nú mero. E sobre o pacote do qual
perdi a entrega? Eu realmente gostaria de colocar minhas mã os nele. O
nome é Phil Jackson.
Khai olhou dela para o telefone e de volta, dizendo calmamente para
ela falar.
— Olá ? — Seu pai perguntou novamente. — Este é o serviço de
correio?
De alguma forma, ela encontrou sua voz e disse em seu melhor inglê s:
— Oi-oi. Eu nã o sou o serviço de correio.
— Ah, tudo bem. Entã o... por que você está me ligando?
— Eu, hum, eu acho… — Ela engoliu um profundo suspiro de ar. —
Meu nome é Esmeralda, e acho que você é meu pai.
Houve uma longa pausa antes que ele dissesse: — Uau. Deixe-me
sentar. — Outra longa pausa. Ela o imaginou atravessando seu
escritó rio no hospital e sentado à sua mesa. — OK. Conte-me
tudo. Comece do começo, com sua mã e.
— Tran Thú y Linh. Você a conheceu há vinte e quatro anos, durante
uma viagem de negó cios, mas foi embora antes que…
— Espere, espere, espere um segundo. Onde foi essa viagem de
negó cios?
Um sentimento desconfortá vel a estremeceu. — Vietnã .
Ele limpou a garganta. — Sinto-me mal ao dizer isso, mas nunca
estive lá . Eu acho que... — Ele pigarreou novamente. — Você ligou a
pessoa errada.
O coraçã o dela caiu. O estô mago dela caiu. Tudo caiu e suas
esperanças se despedaçaram na calçada de concreto. — Oh.
— Tenho certeza de que você é absolutamente adorá vel, e agora que o
choque passou um pouco, adoraria ter outra ilha. Mas eu nã o sou seu
pai. Sinto muito, como era seu nome mesmo?
— Esmeralda. — Ela respondeu.
— Sinto muito, Esmeralda — disse ele, soando como se estivesse
dando má s notı́cias a um paciente em uma longa ila de pacientes. —
Posso ajudar de alguma maneira?
— Nã o, obrigada. Espere, sim. Ele foi para Cal Berkeley. Assim como
você . Você conhece um Phil que foi ao Vietnã vinte e quatro anos atrá s?
— Oh, Deus. — O homem – Phil – soltou um longo suspiro. —
Eu... talvez? Mas o nome dele nã o é Phil, é Gleaves. Entã o nã o. Sinto
muito, Evange-Esmer-Esmeralda.
— Obrigada... Phil. Por seu tempo. — Ela disse.
— Sem problemas. Boa sorte. Adeus.
A linha icou inoperante, e ela icou congelada, observando os carros
passarem e os semá foros mudarem de cor. Verde, amarelo, vermelho,
de volta ao verde.
Khai a envolveu em um abraço apertado, e ela desabou. Ela cobriu o
rosto contra o peito dele, encharcando sua camisa com as lá grimas, mas
ele nã o reclamou. Ele continuou segurando-a pelo que pareciam eras.
Quando ela inalmente se acalmou e se afastou, ele afastou os cabelos
molhados de seu rosto. Ele nã o precisava dizer nada. Ela viu tudo em
seus olhos dolorosamente tristes, e isso a confortou mais do que as
palavras poderiam ter.
— Eu pensei que era ele. — Sua voz saiu muito mais baixa do que ela
esperava.
— Por quê ?
— Eu tive um pressentimento. — Ela colocou a mã o sobre o intestino.
— Sentimentos podem ser muito imprecisos. Para obter todos os
fatos, eu recomendo revisar a lista novamente e ligar para cada um
deles — disse ele. — Eu posso ajudar se você quiser.
Com o quanto ele odiava telefonemas, isso parecia uma coisa enorme
a oferecer, e ela o beijou enquanto seu coraçã o transbordava. — Eu ligo
para eles. Obrigada. — Um carro entrou no estacionamento e
estacionou ao lado do Porsche de Khai – um cliente. — Eu deveria
voltar. Podemos conversar sobre essa outra coisa... depois.
Ele assentiu. — OK.
Eles voltaram ao restaurante de mã os dadas e, apó s um rá pido abraço
e beijo, ela escapou para dentro. Mais tarde chegaria muito cedo, mas
ela estava feliz por nã o ser agora.

•••

Khai voltou para o carro e entrou, mas nã o ligou o motor. Ele nã o
conseguia parar de pensar no que ela havia dito.
Ele dirá que tudo que eu quero é um green card e seu dinheiro. É
verdade, eu quero uma vida diferente, mas…
Era chocante ele nã o ter pensado nisso antes. Esse era o objetivo
principal de toda a viagem: uma vida diferente. Nã o um relacionamento
româ ntico. Isso fazia todo o sentido para ele. Se ele estivesse no lugar
dela, ele teria feito a mesma coisa, exceto que nã o teria se concentrado
tanto em um candidato a casamento – ele. Ele teria feito muito mais
encontros para aumentar suas chances de sucesso. Por que ela nã o fez
isso? Talvez porque ela pensou que encontraria o pai e ganharia
cidadania dessa maneira?
Essa era a melhor opçã o. Se ela encontrasse o pai, receberia
automaticamente a cidadania e nã o precisaria se casar com ningué m
para isso. O processo provavelmente també m seria acelerado. Mas se
ela nã o conseguisse encontrar o pai...
Ele pegou o telefone e pesquisou no Google "Cidadania dos Estados
Unidos por meio de casamento". Segundo os resultados da pesquisa, o
governo concedia green cards trê s anos apó s o casamento a um cidadã o
americano.
Khai era americano.
Se isso era tudo o que ela precisava – e parecia que era – ele poderia
se casar com ela. Ele poderia ter essa relaçã o por mais de um verã o. Sua
cabeça girou quando ele imaginou. Ele e ela, juntos, sexo e TV e
compartilhando uma cama e seus sorrisos e risadas, sem im.
Nã o, isso nã o parecia certo. Isso seria tirar vantagem dela. Um green
card nã o valia a pena de prisã o perpé tua, mas eram necessá rios trê s
anos.
Três anos com Esme.
A força de seu desejo cresceu tã o intensa que sua pele icou
quente. Comparado à s trê s semanas miserá veis que ele tinha restante,
trê s anos eram uma quantidade de tempo luxuosa. Ele poderia dar a
seu vı́cio por Esme três anos inteiros de ré dea livre e depois libertá -la
para encontrar o amor. Vantajoso para as duas partes.
Mas apenas se ela nã o encontrasse o pai. Com sua mã e querendo uma
resposta neste sá bado, Esme estava icando sem tempo.
Estava decidido. Se Esme nã o localizasse seu pai esta semana, Khai
iria propor um casamento.
CAPÍTULO VINTE E UM

No sá bado à noite, Esme estava puxando seu vestido preto por cima
da cabeça quando seu telefone tocou com uma ligaçã o. Ela terminou de
tirar o vestido e correu para pegar o telefone.
Nú mero desconhecido.
Ela apertou o botã o de falar. — Olá ?
— Olá , aqui é Phil Turner. Recebi sua mensagem — disse um
homem. — E sobre o que?
Ela respirou fundo, para que seus nervos tivessem tempo para se
acalmar e repetir linhas que se tornaram familiares na semana passada,
enquanto ela examinava sua lista de Phils, uma por uma: — Olá , meu
nome é Esmeralda. Você já esteve no Vietnam?
— Sim, claro que estive. Se isso é fé rias grá tis ou algo assim, eu nã o
estou...
— Estou procurando algué m que esteve lá vinte e quatro anos atrá s.
— Disse ela.
— Oh. Sim... — Houve um assobio prolongado, como se ele estivesse
procurando em suas memó rias. — Nã o. Minha primeira vez foi em
Hanó i no inı́cio de 2000.
Ela suspirou enquanto a decepçã o pesava nela. Isso signi icava que
restava apenas um Phil, e nã o havia garantia de que ele era o Unico e
Verdadeiro Phil. Se ele també m nã o tivesse estado no Vietnam, ela
estaria no mesmo lugar onde tinha começado.
— Você nã o é a pessoa certa — disse ela. — Obrigada por ligar de
volta.
— Claro, sem problemas. Boa sorte. Espero que você o
encontre. Tchau.
Ele desligou e Esme cuidadosamente colocou o telefone na mesa. O
ú ltimo Phil da lista foi um Schumacher, ou Shoo-mock-er,
como Khai pronunciou. Ela tentou o sobrenome - Esmeralda
Schumacher - e franziu a testa. Isso levaria algum tempo para se
acostumar, embora ela gostasse do signi icado: sapateiro. Havia muitos
pé s neste mundo.
Isso a lembrou que ela precisava usar sapatos de tortura a noite toda
novamente. Ela colocou os sapatos ofensivos, pegou um punhado de
joias baratas e se olhou no espelho de chã o, dentro do banheiro. Ela
segurou o colar brilhante até a garganta, mas decidiu nã o o
colocar. Depois que ela terminou de colocar os brincos, uma pulseira e
maquiagem, uma nova mulher olhou para ela do espelho.
Ela acertou dessa vez. Ela parecia elegante como a irmã de Khai, e isso
lhe deu um impulso de con iança muito necessá rio.
Esta noite era a noite. Ela ia contar a ele sobre Jade, e se ele nã o
parecesse completamente oprimido, ela iria propor.
Apenas o pensamento fez suas mã os tremerem, e ela correu para a
pia para o caso de vomitar. Enquanto respirava com
ná usea, Khai entrou no banheiro, parecendo um guarda-costas do
serviço secreto em seu smoking preto.
— Eu nã o suporto essas coisas. — Ele torceu as pontas da gravata,
enrolou-as e soltou as mã os, exasperado.
— Eu sei como dar nó . — Feliz pela distraçã o, ela desfez a bagunça
que ele fez e amarrou a gravata borboleta com calma. — Tudo feito.
— Obrigado. — Ele disse enquanto balançava os braços e respirava
como se estivesse se preparando para a batalha.
Ela sorriu e passou as mã os pelas lapelas dele, satisfeita com a
aparê ncia dele no terno bem ajustado. — De nada… nã o está aqui. —
Ela pressionou as palmas das mã os na á rea onde ela pensava que os
bolsos internos do casaco estavam.
A testa dele enrugou. — O que nã o está ?
— O livro que você sempre leva.
Ele olhou para o rosto dela. — Você está me dizendo para levar um?
— Nã o — ela disse rapidamente. — Bem, se você quiser. — Ela
encolheu os ombros. Preferia que ele falasse com ela, especialmente
hoje à noite, quando ela estava tã o nervosa, mas se ele realmente
odiava tanto casamentos, ela nã o queria torturá -lo.
Ele sorriu. — Venha, entã o. Temos uma hora de viagem para Santa
Cruz e nã o quero me atrasar.
Ela o seguiu para fora de casa e desceu a calçada até o meio- io, onde
ele estacionou o carro. Em vez de entrar imediatamente, Khai fez
uma careta para as manchas brancas que decoravam o teto e o para-
brisa.
— Isso é estatisticamente imprová vel. Nã o é como eu estacionasse
debaixo de uma á rvore. — Ele disse.
Os lá bios de Esme queriam sorrir, e ela os manteve retos com
esforço. — Os pá ssaros estã o dizendo para você estacionar na
garagem. Há espaço lá . Apenas mova a motocicleta para o lado.
Entã o ela mordeu o interior do lá bio. As coisas icaram tã o fá ceis
entre eles que ela esqueceu que esse era um assunto delicado. Seu
estô mago icou tenso enquanto o observava, sem saber como ele
reagiria. Ele icaria bravo como no dia em que ela foi para o mercado?
Apó s uma breve pausa, ele disse: — Nã o gosto de estacionar na
garagem.
— Por quê ?
Ele piscou, e seu rosto se enrugou em pensamentos. — Por quê ?
— Qual o motivo? — Ela perguntou, porque nã o fazia sentido para
ela.
— Porque a moto está lá . — Disse ele em uma voz cortada antes de
abrir a porta do passageiro para ela.
Esme entrou no carro e viu quando ele fechou a porta, deu a volta
para o outro lado e sentou-se em seu assento. Ele ligou o carro e parou
na rua como se a conversa estivesse terminada. Mas nã o estava.
— Se você nã o gosta da motocicleta, por que você ...
— Eu nã o disse que nã o gosto. — Disse ele.
Ela exalou um suspiro, ainda mais confusa agora. — Entã o por que...
Ele olhou para ela por um segundo rá pido antes de voltar sua atençã o
para a estrada, mudar de marcha e passar por um conversı́vel. — E
assim que eu gosto das coisas. E como você e ... por que você enrola
meias daquele jeito?
Ela olhou para baixo e girou a pulseira brilhante em seu pulso. —
Você icava me ignorando. Eu iz isso para fazer você pensar em mim.
— Entã o você nã o enrola a sua dessa maneira?
— Nã o. — Ela disse com uma risada.
Ele inclinou a cabeça para o lado. — Funcionou.
Ela sorriu. — Eu sei.
Mesmo que ele nã o tenha se virado para olhá -la, seus lá bios se
curvaram enquanto continuava dirigindo, e um silê ncio confortá vel se
seguiu. Ela observou os pré dios de escritó rios que passavam,
impressionada com o exterior brilhante e os gramados bem cuidados.
— Esse é o meu. — Khả i apontou para um pré dio que tinha paredes
de vidro azul e grandes letras brancas no topo que diziam DMSoft.
Ela se endireitou na cadeira e a inspecionou com interesse. — Em
qual andar ica seu escritó rio?
— O topo. Eu compartilho com outras pessoas.
— Como um chefe. — Disse ela com um sorriso provocador,
imaginando-o amontoado em um pequeno armá rio enquanto as
pessoas importantes tinham todas as janelas.
Ele apontou um sorriso engraçado para ela. — Algo parecido.
— Muitos Phils sã o chefes. Um deles pensava que eu era funcioná ria
dele. — Disse ela por falta de algo melhor para dizer.
Uma quietude incomum tomou conta de Khả i antes de perguntar: —
Você recebeu notı́cias dos dois ú ltimos?
— Um deles.
— Foi um nã o?
Ela apertou os lá bios e assentiu. — Pareço uma Schumacher?
Ele a considerou pensativamente antes de focar na estrada
novamente. — Possivelmente.
— Talvez estas sejam boas para calçados — disse ela, estendendo as
mã os e fazendo uma careta para elas. —Tã o feias.
— O que você quer dizer?
Ela deu um sorriso desconfortá vel para ele e cruzou os braços para
esconder as mã os, mas ele estendeu a palma da mã o.
— Deixe-me ver. — disse ele.
— Você está dirigindo.
Ele puxou o braço dela até que ela cedeu. Em vez de inspecionar a
mã o dela, no entanto, ele levou o punho à boca e beijou os nó s dos
dedos. — Eu nã o me importo com o que essas mã os fazem, desde que
sejam suas.
Era bobo - ele nã o era poeta -, mas suas palavras izeram seus olhos
arderem com lá grimas. Quando ele colocou a mã o de volta no câ mbio,
ela descansou a dela em cima da dele. Nã o era uma mã o bonita,
mas era pequena em comparaçã o com a dele. As pessoas pensavam que
formavam um casal bonito?
Ela relaxou contra o assento e o observou dirigir pelo resto do
caminho, reconhecendo a emoçã o que explodia em seu coraçã o. Ela a
estava assustando, icando maior a cada dia, e nã o havia como negar
agora. Quando você se sentia assim sobre algué m, nã o escondia
segredos dela. Nã o importava quã o assustada ela estava, ela iria dizer
tudo a ele hoje à noite.

•••

Comparecer a um casamento em um smoking e pé s descalços foi a


primeira vez para Khai. Ele nã o conseguia se livrar da sensaçã o de que
estava esquecendo alguma coisa - seus sapatos - mas Esme parecia
encantada. Ela en iou os dedos dos pé s na areia como uma criança,
enquanto caminhavam de mã os dadas pela praia em direçã o à s cadeiras
dobrá veis brancas e ao altar do casamento dispostos diante da á gua. Ela
usava o mesmo vestido preto sem forma novamente, mas ainda era tã o
bonita que mexeu no cé rebro dele. Foi o sorriso dela. Ela estava
feliz. Tudo estava certo no mundo.
— Apenas vinte pessoas? — Ela perguntou.
Houve uma breve pausa quando ele mudou seu foco de sua beleza
para suas palavras. — Sim, eles queriam algo pequeno. Stella nã o gosta
de multidõ es. — Assim como ele. — Você gosta de grandes casamentos?
— Ele daria a Esme um casamento enorme, se ela quisesse, mas algo
assim era mais o estilo dele. Com menos areia.
— Pequeno ou grande, tudo é bom. — Esme levantou os ombros de
uma maneira indiferente, mas entã o seus olhos brilharam quando ela
disse: — As lores, o vestido e o bolo sã o a parte divertida.
Ele assentiu e imediatamente anotou esses itens numa lista
mental. Se ela concordasse em se casar com ele, ele iria exagerar em
lores, vestidos e bolos. Caminhõ es de lores. Vestido de noiva de alta
costura. Dez bolos, cem, se dependesse dele. Contanto que ela dissesse
sim. Droga, seu estô mago estava todo amarrado.
— Elas nã o precisam ser assim — acrescentou ela com um sorriso. —
Essas parecem caras. — Ela apontou para os buquê s gigantes de rosas
brancas, orquı́deas e lı́rios que decoravam os arredores da á rea de
estar. — Seu primo gastou muito dinheiro com isso.
Ele examinou as lores e coisas. — Eu acho.
— Eu mesma posso arranjar lores. Eu sei como. — Mas entã o ela
mordeu o lá bio e afastou os cabelos longos do rosto. — Eu també m
posso fazer meu vestido. Nã o sei como fazer bolo, mas posso aprender.
— Os olhos verdes dela encontraram os dele, parecendo vulnerá veis. —
Eu posso fazer tudo de um jeito muito bonito, mas nã o caro.
Ele nã o sabia o que dizer sobre isso. Ela nã o precisava fazer tudo
sozinha, a menos que quisesse. Ele nã o se importava se o casamento era
caro. Nã o era como se ele planejasse se casar repetidamente. Apenas
uma vez era o su iciente. Ele nunca iria querer ningué m alé m de
Esme. Seu vı́cio era muito especı́ ico.
— Aqui, aqui, menina preciosa e meu ilho. — Disse sua mã e, vindo
em sua direçã o em um vestido preto com lores azuis brilhantes na
frente. Sem a altura adicional dos sapatos, as calças de seda branca que
acompanhavam seu vestido arrastavam-se na areia, e ela as puxou com
impaciê ncia. — Eu nunca pensei que iria a um casamento sem
sapatos. E uma experiê ncia diferente. Você s dois tê m novidades para
mim?
A mã o de Esme apertou a dele, e ela olhou para ele por um segundo
antes de desviar os olhos. — Ainda nã o, Cô Nga. Ainda precisamos
conversar.
— Eu estava pensando que depois do jantar seria um bom momento.
— Disse ele a Esme.
Esme assentiu e deu um pequeno sorriso para ele. — Isso soa bem.
Sua mã e considerou as mã os unidas, pensativa. — Faça o que você
precisa, mas antes de sair do casamento, você s dois precisam conversar
comigo.
— Nó s vamos, senhorita Nga. — Disse Esme.
Sua mã e assentiu, apaziguada. — Aproveite o casamento, ha? — Com
isso, ela foi conversar com a irmã , tias e primos.
Khai e Esme estavam vagando em direçã o aos assentos quando
Michael apareceu, apertou a mã o de Khai e deu-lhe um abraço de
lado. Ele parecia ter saı́do de uma pista em seu smoking de trê s peças,
mesmo sem sapatos.
— Que bom que você s conseguiram vir. — Disse Michael. Ele sorriu,
mas seus movimentos eram bruscos e agitados, sua respiraçã o
tensa. Ele tinha que estar nervoso. Como Khai estava. Exceto que a
mulher de Michael já havia dito que sim. O que havia para ele icar
nervoso?
— Você está bem? — Khai perguntou.
— Sim, eu estou ó timo. Eu te disse que estou feliz que você conseguiu
vir? Porque eu estou. Stella realmente gosta de você . — O olhar de
Michael pousou em Esme, e seus lá bios se curvaram em um sorriso
torto. — Você deve ser Esme. Estou feliz por inalmente conhecê -la. —
Ele apertou a mã o de Esme e ela sorriu de volta com uma expressã o
atordoada.
Otimo, ela estava caindo no feitiço de Michael, mesmo que ele
estivesse se casando em uma hora. Maldito Michael e sua maldita boa
aparê ncia.
— Prazer em conhecer você. Stella é uma mulher de sorte. — Disse
esme, sorrindo sua fantá stica magia-de-Esme para ele e falando inglê s
para todos, menos Khai.
Michael tentou sorrir, mas ele se transformou em um trago de ar
quando ele sacudiu as mã os e endireitou os ombros. — Obrigado por
dizer isso. Eu nunca estive tã o nervoso. Estou tã o caı́do por ela, se ela
nã o aparecer, eu vou... — Suas palavras sumiram quando ele se
concentrou em um grupo de silhuetas ao longe, e seu rosto icou
apaixonado. Ele apertou o ombro de Khai sem olhar para ele. —
Sentem-se. Está começando.
Todo mundo correu para sentar, e a conversa se acalmou. Esme
praticamente vibrou de emoçã o. — Stella é realmente bonita? Seu
primo é tã o... — Um olhar sonhador tomou conta de seu rosto, e Khai
tinha certeza de que diria lindo. O que ela disse foi pior. — Ele é
tã o apaixonado.
Amor. As entranhas de Khai se amarraram em um grande nó , e ele se
lembrou à força de que estava fazendo a coisa certa. Ela queria um
Green Card. Ele poderia conseguir um para ela. Esse casamento
bene iciaria os dois - por trê s anos.
Um violã o começou a tocar um cover de uma mú sica pop, e Khai
assistiu a cerimô nia com muita atençã o. Se tudo desse certo, ele estaria
fazendo isso em breve. Os padrinhos e damas do casamento
caminharam pelo corredor em pares compostos pelas irmã s de Michael,
Quan e um monte de amigos de Michael. Stella apareceu em um vestido
branco transparente, que Michael tinha que ter desenhado. Quando o
pai lhe deu um sorriso choroso, ela sorriu de volta e beijou a tê mpora
dele antes de pegar o braço dele e seguir em direçã o ao altar, onde
Michael esperava, observando-a com aquele olhar apaixonado
multiplicado por mil. Seus olhos estavam até avermelhados como se
estivesse à beira das lá grimas. Quando Stella atravessou a areia, seu
olhar nunca vacilou dele. O que Michael sentiu por ela, ela retribuiu
totalmente.
Garota ama garoto ama garota.
Enquanto os dois amantes trocavam votos e se beijavam, o sol
mergulhou no horizonte e o cé u brilhou sobre o oceano. Foi uma cena
má gica. A câ mera piscou vá rias vezes, uma dú zia de celulares brilhava,
nenhum bebê chorava. As pessoas na plateia enxugaram as lá grimas,
incluindo Esme, e Khai se sentia um impostor na vida.
Até que Esme apertou sua mã o para chamar sua atençã o, deu um
beijo surpresa nos lá bios e depois sorriu para ele. Se eles nã o
estivessem em pú blico, ele a teria puxado para perto e a beijado até que
ela derretesse. Ele sabia como fazer isso agora. Por assim dizer, ele
simplesmente a devorou com os olhos, desejando-a com toda a força de
seu vı́cio descontrolado, mas, a julgar pela maneira como suas pupilas
se dilataram, ela nã o se importou.
Ele estava se inclinando na direçã o dela para beijá -la, apesar de tudo,
quando todos se levantaram para assistir enquanto Michael e Stella
passavam. Os funcioná rios do hotel nas proximidades os levaram a um
jardim para uma hora de coquetel descontraı́da. Ele e Esme
compartilharam um sexo na praia, enquanto todos comiam aperitivos e
conversavam. Ela nã o tinha absolutamente nenhuma tolerâ ncia ao
á lcool e, depois de apenas alguns goles, estava inclinando-se para ele e
dando a ele o olhar que a experiê ncia lhe ensinara que signi icava me
leve para a cama e faça coisas +18 comigo. Aquele olhar era uma das
melhores coisas do mundo inteiro.
Ele estava determinado a tê -la pelos pró ximos trê s anos.
Depois dos coqueté is, a festa foi para uma á rea de estar ao ar livre,
embaixo de uma barraca composta por vigas de madeira, tecido branco
semitransparente e luzes douradas de Natal. Enquanto o jantar asiá tico
e os discursos prosseguiam, ele ensaiou sua proposta em sua cabeça. A
ló gica era só lida e com certeza a atraı́a. Ela ia dizer sim. Nã o faria
sentido nã o aceitar.
Quando todo mundo estava terminando o bolo e o sorvete de menta
com chocolate, Khai agarrou a mã o de Esme. — Caminha comigo?
Ela comeu uma ú ltima mordida do bolo, puxou os dentes do garfo
entre os lá bios deliciosos e colocou o utensı́lio no prato. — Ok.
Eles deixaram a barraca e caminharam pela praia em um ritmo
confortá vel, com as mã os apertadas e os pé s afundando na areia. A lua
estava quase cheia e lançava uma luz prateada sobre a á gua, e o ar
cheirava a sal, mar e algas. Quando estavam a uma distâ ncia adequada,
ele diminuiu a velocidade.
Já era tempo. Porra, ele estava tremendo por dentro. Ele nunca
convidou uma garota para sair. Ele nunca quis. E agora ele estava
propondo.
— Você ouviu? — Esme perguntou.
— O que?
— A mú sica.
Ele atentou os ouvidos e depois ouviu. Tensõ es de violã o suaves
luı́am na brisa, vindas da tenda. Ele o reconheceu como o - Clair de
Lune - de Debussy. — Eles estã o dançando.
Ela sorriu, passou os braços em volta do pescoço dele e começou a
balançar para frente e para trá s. — Nó s també m.
— Você está . Nã o sei como.
— Você apenas se move assim. — Disse ela com uma risada.
Ele se sentia claramente absurdo, mas seguiu em frente e se mexeu
com ela. E entã o, de alguma forma, ele parou de se sentir absurdo. Eram
apenas os dois aqui, apenas a lua, apenas o oceano e a areia e a mú sica
e dois coraçõ es batendo.
E ela estava sorrindo.
Ele esmagou os lá bios com aquele sorriso, roubando-o, e quando sua
lı́ngua entrou em sua boca, o gosto de frutas, baunilha e champanhe fez
sua cabeça girar. Ele nunca mais comeria bolo e nã o pensaria nela,
nunca beberia champanhe e nã o pensaria nela. Todo sucesso de sua
vida teria gosto de Esme. Ele nã o pô de deixar de passar as mã os pelo
corpo dela, tentando encontrar um caminho para todos os seus lugares
favoritos, mas esse vestido de merda tornava quase impossı́vel.
Quando ele fez um som frustrado, ela riu, beijou-o uma ú ltima vez e
se afastou, limpando o batom na boca. — Nó s precisamos conversar.
— Você está certa. — Ele respirou fundo para limpar o desejo de sua
mente e juntou as mã os dela nas dele. Quanto mais cedo ele
propusesse, mais cedo ele terminaria e mais perto estaria de se casar
com ela.
— Esme...
— Ahn Khai...
Ele hesitou, surpreso pelo tremor das mã os dela. Ao contrá rio dele,
ela realmente tremia quando estava nervosa, e ele passou os polegares
sobre os nó s dos dedos, esperando acalmá -la. — Você pode ir primeiro,
se quiser.
Levantando o queixo, ela disse: — Ok, eu primeiro.
Ela lambeu os lá bios e ajustou as mã os para poder segurá -lo
enquanto ele a segurava. Vá rias vezes, ela começou a falar, mas parou
antes que qualquer palavra saı́sse.
— Você quer que eu vá primeiro, entã o? — Ele perguntou.
— Nã o, eu posso. — Ela respirou fundo e mordeu o lá bio inferior
antes de dizer: — Quando cheguei aqui, eu tinha motivos para me casar
com você . Muitas razõ es. E eu cheguei perto de você por esses
motivos. Mas entã o... — Os olhos dela encontraram os dele. — Entã o eu
te conheci. — Os dedos dela apertaram os dele. — E cheguei perto
porque queria estar perto. Muitas vezes esqueço minhas razõ es. Porque
eu estou feliz. Contigo. Você me faz feliz.
O peito de Khai encheu, e seu coraçã o disparou, e ele nã o pô de deixar
de sorrir. Havia um nú mero in inito de razõ es para existir nesta terra,
mas essa parecia a mais importante de todas - fazer Esme feliz.
— Estou feliz. — Disse ele.
— Talvez seja muito rá pido, talvez nã o seja inteligente, mas… — Ela
sorriu lentamente, os olhos macios e lı́quidos à luz da lua e disse em
inglê s claro: — Eu te amo.
Seus pulmõ es pararam de respirar. Seu coraçã o parou de bater.
Esme o amava.
Calor borbulhou sobre ele em ondas avassaladoras. O que ele fez que
ela o amava? Ele faria isso um milhã o de vezes mais. Ele levou suas
mã os à boca e deu um beijo nos nó s dos dedos. Ele nã o conseguia falar,
nã o tinha ideia do que dizer.
Mais linda do que a lua, as estrelas e a á gua brilhante atrá s dela, um
sorriso provocante curvou-se sobre sua boca, e ela perguntou: — Você
me ama? Talvez só um pouquinho?
Ele icou frio.
Nã o essa pergunta. Por que ela fez essa pergunta?
Ele poderia dar a ela todas as coisas que ela quisesse, um Green Card,
diamantes de verdade, seu corpo, mas amor?
Coraçõ es de pedra nã o amavam.
Ele nã o queria responder à pergunta. Tudo nele se rebelava contra
isso.
Mas ele se fez admitir a verdade. — Nã o.
Ela piscou e balançou a cabeça antes de sorrir novamente. — Você me
ama mais do que um pouco.
— Nã o, Esme. — Ele deu um passo para atrá s e a soltou. — Sinto
muito... mas eu nã o te amo muito ou pouco. Eu nã o te amo de jeito
nenhum.
Não consigo.
Seu rosto icou frouxo, os olhos arregalados, lacrimejantes. — De jeito
nenhum? — Ela sussurrou.
— Eu nã o te amo. — Todo o seu ser machucou como se estivesse
implodindo. — Eu nunca vou.
— Isso nã o é engraçado. — Disse ela.
— Eu nã o estou brincando. Estou falando sé rio.
Ela nã o disse uma ú nica palavra. Ela apenas o encarou quando
lá grimas gordas caı́ram por seu rosto. Ele queria pegar suas palavras de
volta. Ele queria apagar a tristeza dela. Ele faria quase qualquer coisa
para fazê -la sorrir novamente.
Mas ele nã o podia mentir sobre isso. Ela fez a pergunta e merecia
saber a resposta.

•••

Eu não te amo. Eu nunca vou.


O coraçã o de Esme se partiu, e os pedaços irregulares a apunhalaram
por dentro. Ao mesmo tempo, a vergonha a banhou, uma vergonha
pesada e sufocante. Ela sabia por que ele nã o podia amá -la. Ela poderia
ir para a escola, trocar de roupa e mudar seu discurso, mas nunca
poderia mudar de onde tinha vindo. O fundo do fundo. Tã o pobre que
nã o podia dar ao luxo de terminar o ensino mé dio, tã o diferente que
mesmo outras pessoas pobres olhavam torto para ela, de tã o baixo que
nã o podia escalar e ser livre, nã o no Vietnam. Com tudo o que ele fez
por ela, ela pensou que ele via alé m das coisas que ela nã o podia mudar
e a valorizava por quem ela era por dentro. Mas ele nã o via. De acordo
com suas palavras, ele nunca faria isso.
Afastando-se dele, ela disse: — Desculpe incomodá -lo. Eu vou
embora.
Ele balançou a cabeça, sua expressã o focada ainda ilegı́vel. —Você nã o
me incomoda.
Uma risada à beira histé rica escapou de seus lá bios. — Eu nã o
entendo. — Ela se virou para correr, mas ele a deteve com um aperto
irme no braço.
— Ainda nã o terminamos.
Ela respirou fundo e se preparou para o pior, quase com medo de
olhá -lo por medo do que ele diria.
— Nó s deverı́amos nos casar.
O corpo dela caiu em confusã o. — O que?
— Eu nã o me importaria que você icasse comigo por tempo
su iciente para conseguir seus papé is de naturalizaçã o. Depois disso,
poderı́amos ter um divó rcio rá pido. Isso daria certo para nó s dois, eu
acho. — Ele disse com um forte aperto nos lá bios. Talvez ele quisesse
que fosse um sorriso.
Ela balançou a cabeça. Ela ouvira as palavras dele, mas elas nã o
faziam sentido. — Por que casar comigo se você nã o me ama?
— Eu me acostumei a você estar em minha casa e na minha cama e-
A mençã o de sua cama, um calor intenso inundou seu rosto, e ela
abaixou a cabeça. O sexo. Ele queria mais sexo. Claro que ele queria. Ele
era virgem antes disso, e eles eram muito bons juntos. Mas ela nã o
podia fazer isso quando ela estava fazendo amor e ele apenas fazendo
sexo.
— Nã o. — Ela afastou a mã o do braço dela e deu um passo para
trá s. — Eu nã o posso casar com você .
Sua testa enrugou quando ele franziu a testa. — Eu nã o entendo o
porquê .
— Porque vai doer muito. — Porque ela o amava. Se fosse apenas um
acordo frio entre estranhos, talvez ela pudesse ter feito. Esse casamento
poderia fazer muito por Jade. Mas nã o se isso destruı́sse sua mã e
primeiro.
Khai nã o era a soluçã o. Ela tinha que continuar procurando e
encontrar outro caminho.
Ele olhou para o chã o. — Eu sinto muito.
Novas lá grimas quentes caı́ram em seu rosto. Ela també m estava
arrependida.
— Esme, nã o chore. Eu-
Sem uma palavra, ela se virou e tropeçou na areia de volta para a
recepçã o do casamento. Ela tinha que sair daqui e, para fazer isso,
precisava de seu telefone e dinheiro. Ela invadiu a tenda româ ntica e
segurou os braços perto do corpo enquanto passava correndo pelos
casais balançando lentamente na á rea de dança arenosa, sentindo-se
como um invasor.
Lá estava sua bolsa, pendurada no canto da cadeira. Ela passou a
batida por cima do ombro e fez o possı́vel para evitar o contato visual
com algué m.
— Você está bem, Esme? — Vy perguntou. Ela parou no meio da
mistura de açú car em uma xı́cara de chá . Seu cabelo era perfeito, sua
maquiagem perfeita, seu vestido preto perfeito, porque ela nascera
nisso.
Esme forçou um sorriso brilhante e assentiu. Khai entrou do outro
lado da tenda, examinando a multidã o com uma careta como se
estivesse procurando alguma coisa. O olhar dele ixou nela. Ela nã o
conseguia ouvir o que ele dizia, mas sabia que era o nome dela.
Ele caminhou em sua direçã o e o pâ nico a atravessou. Ela teve que
fugir. Todas essas pessoas pensaram que ela estava perseguindo Khai
por interesse. Ela nã o queria estar lá quando souberem que
Khai concordava com eles.
Ela correu para longe da mesa. E bateu em algo irme. Olhando para
cima, ela viu o rosto de Quan.
— Ei, indo a algum lugar com pressa? — Ele perguntou com sua
caracterı́stica alegria.
— Desculpe, eu- — Ela olhou por cima do ombro e
encontrou Khai vindo em sua direçã o com uma marcha
determinada. Não. — Por favor, me deixe ir. Por favor?
— O que está acontecendo? Você s dois estã o brigando? — Quan
perguntou.
Sua visã o icou embaçada quando ela balançou a cabeça. —
Nã o estou brigando. — Khai estava chegando mais perto. Ela contornou
Quan e se apressou. Quando ela saiu, viu Quan parar Khai, falando com
ele com um olhar preocupado no rosto.
Ela correu por uma longa faixa de areia, sentindo os grã os á speros
esfregarem os pé s descalços e, inalmente, encontrou o asfalto. Ela nã o
sabia para onde estava indo, mas estava longe e isso era bom o
su iciente por enquanto.
O telefone tocou e tocou, mas ela o ignorou e continuou correndo à s
cegas, dele e dessa vergonha horrı́vel. Quando ela nã o aguentou mais o
toque, ela parou, pegou o telefone na bolsa e desligou.
Enquanto ela estava lá , pulmõ es ardendo, boca seca, pé s
possivelmente sangrando, ela percebeu que nã o tinha ideia de onde
estava. De alguma forma, ela terminou em uma rua tranquila, ladeada
por pequenas casas de praia e palmeiras altas.
Nã o havia Khai, nem Cô Nga, nem Mã e, nem Avó , nem Jade, nem
ningué m. Apenas Esme.
E ela nã o tinha para onde ir. Havia um grande mundo por toda parte,
e nada disso era dela.
Para onde você ia quando nã o tinha para onde ir?

•••

Khai vagou pela praia pelo que pareceram horas, mas nã o conseguiu
encontrar Esme. Ela desapareceu na noite.
Ele tentou ligar para ela novamente, mas foi direto para o correio de
voz.
Uma sensaçã o horrı́vel tomou conta de sua pele. O ar estava fresco,
mas ele nã o conseguia parar de suar. Ele soltou a gravata borboleta,
puxou os cabelos e arrancou o casaco. Ele quase o jogou nas ondas, mas
lembrou-se da caixa de veludo dentro do bolso do casaco. Isso
pertencia a Esme. Bem, uma vez que ele tivesse a oportunidade de dar a
ela.
Como ela poderia simplesmente sair assim?
Quan correu em sua direçã o do outro lado da praia. — Nã o consegui
encontrá -la lá em baixo. Você a viu em algum lugar?
Que pergunta frustrante. Se ele a visse, ele nã o estaria aqui
sozinho. — Nã o.
Quan esfregou sua cabeça raspada. — O que diabos aconteceu entre
você s dois? Por que ela fugiu?
Khai chutou a areia. — Sugeri que nos casá ssemos.
Mesmo na escuridã o, Khai podia ver os olhos de seu irmã o se
arregalarem. — Uau, tudo bem. Estou surpreso que ela nã o estava feliz
com isso. Eu pensei que ela estava realmente apaixonada por você .
O aperto de Khai em seu paletó apertado apertou tanto que o tecido
chiou. — Ela está . Bem, ela estava. Ela me disse que está apaixonada por
mim esta noite. — Ele ainda mal acreditava.
Quan lançou-lhe um olhar ponderado. — E?
Khai ignorou a pergunta e começou a caminhar em direçã o à
rua. Talvez ela estivesse sentada em um banco ali, esperando por
ele. Talvez ela tivesse superado sua raiva momentâ nea, pensado sobre
as coisas e queria mudar sua resposta.
— E aı́, Khai? — Quan insistiu, dando um passo para o lado dele.
Ele en iou a jaqueta debaixo do braço e en iou as mã os nos bolsos. —
Eu disse a verdade.
— Que é …?
Ele andou mais rá pido, deixando a areia para a calçada, e olhou para a
rua Santa Cruz no inal da noite. Havia um banco ao lado de uma
iluminaçã o solitá ria, mas estava vazio. Ele olhou para o estacionamento
onde estava o carro. Sem sinais de vida.
Ela nã o estava em lugar algum.
Quan agarrou seu braço com um aperto irme. — Khai, o que você
disse a ela? Por que ela estava chorando?
Ele tentou engolir. Nã o deu certo na primeira tentativa, nem na
segunda, mas ele lembrou como na terceira tentativa. — Eu disse a ela
que nã o a amo de volta.
— Isso é besteira — explodiu Quan. — Que porra é essa?
— Eu disse porque é verdade. — Disse ele.
— Você é louco de amor por ela. Apenas olhe para você . — Disse
Quan, acenando com as mã os para Khai como se fosse ó bvio.
— Eu. Nã o. Sou. — Khai disse.
— Que porra que você nã o é . Você é um cara do tipo tudo ou nada,
entã o sabı́amos que a primeira garota a chamar sua atençã o seria a
ú nica. Esme é sua 'ú nica', Khai.
— Eu nã o tenho uma 'ú nica'. Eu nã o tenho relacionamentos. — Ele
caminhou pela calçada por um quarteirã o, olhando ao redor. Onde ela
estava?
Merda, ela estava segura? Nã o parecia uma á rea sombria, mas nã o
havia nenhum tipo de garantia. A adrenalina disparou e seu coraçã o
bateu contra as costelas quando ele pegou o telefone e tentou o nú mero
dela novamente.
Direto para o correio de voz novamente.
Droga.
— Por que ela nã o atende? — Ele murmurou, mais para si mesmo do
que qualquer um.
Quan respondeu assim mesmo. — Ela nã o quer falar com você . Você
nã o diz a uma garota que nã o a ama e depois pede que ela se case com
você . Nã o sei o que você estava pensando.
Khai en iou o telefone de volta no bolso, impaciente. — Ela precisa de
um Green Card. Eu posso dar a ela. E simples assim. Eu até disse a ela
que estaria disposto a me divorciar assim que tudo fosse o icial. Ela
deveria ter icado feliz. Ela nã o deveria ter dito nã o e fugir.
Em vez de falar imediatamente, Quan exalou e passou a mã o no rosto
enquanto balançava a cabeça. — Meeeerdaaaa.
Pelo menos eles estavam de acordo sobre alguma coisa. Esta situaçã o
era exatamente uma merda.
— Por que você está disposto a fazer tudo isso por ela, se nã o gosta
de relacionamentos? — Quan perguntou com os olhos estreitos.
Khai desviou o olhar do irmã o e deu de ombros. — Estou acostumado
com ela, e está sendo bom morar juntos. Por que nã o?
Quan jogou as mã os para o ar. — Otimas razõ es para o
matrimô nio. Eu vou voltar para o casamento. Se você souber dela, me
avise.
Quando Quan voltou para a tenda de casamento, Khai voltou para o
carro e entrou. Os saltos altos dela estavam do lado do passageiro em
â ngulos desiguais, e ele procurou o interior do carro em emoçã o. Até
que ele lembrou que ela os havia deixado aqui antes de entrar.
Ele dirigia sem rumo, procurando nas ruas, calçadas, bancos e
fachadas de lojas uma mulher com um vestido preto folgado e sem
sapatos. Ele nã o a viu em lugar nenhum.
Quando ele parou na frente do mesmo semá foro pela quarta vez, ele
reconheceu que era hora de desistir. Ela tinha o telefone e a bolsa e
sabia como cuidar de si mesma. Se ela nã o queria ser encontrada, nã o
fazia sentido procurar. Mesmo assim, ele icaria perto apenas por
precauçã o.
Ele estacionou o carro em uma vaga aleató ria na praia, acionou o freio
e desligou o motor. Entã o ele se sentou e esperou, tamborilando com os
dedos no volante enquanto olhava para o cé u escuro.
CAPÍTULO VINTE E DOIS

A luz direta se acumulava em cima das pá lpebras de Esme, e ela


estremeceu e esfregou o rosto, espalhando pequenas garrafas do
minibar no chã o. A TV ainda estava ligada e o teto do quarto do hotel
nã o parava de girar
Ou talvez fosse ela quem estava girando.
Ela se levantou e a bile subiu pela garganta quando a sala se
inclinou. Ah não. Ela entrou em pâ nico e correu para o banheiro, e seus
joelhos atingiram o azulejo frio no momento em que vomitou no
banheiro.
Repetidas vezes, até que parecia que seus olhos estavam
explodindo. Quando inalmente parou, ela enxaguou a boca e olhou
confusa para o rosto no espelho. Ela vomitou tanto que deixou
pequenos pontos vermelhos nas bochechas superiores e ao redor dos
olhos. Alé m disso, seu cabelo estava uma bagunça emaranhada, ela
ainda usava o vestido preto de ontem e cheirava horrivelmente. Se a
mã e e a avó pudessem vê -la agora, icariam muito decepcionadas.
Elas diriam para ela voltar para Khai, onde era seguro, agradecer pelo
pedido e assinar a certidã o de casamento antes que ele mudasse de
ideia. Jade precisava dele.
Mas um amor unilateral destruiria Esme, para nã o mencionar um
exemplo horrı́vel para a ilha seguir. Esme não iria voltar.
Ela encontrou o telefone, localizou o nú mero de telefone de Phil
Schumacher e ligou para ele novamente. Tocou vá rias vezes antes de
desconectar sem ir para o correio de voz. Entã o ela ligou novamente. No
meio do primeiro toque, uma gravaçã o tocou. "A pessoa que você está
tentando alcançar nã o está disponı́vel."
O que isso signi icava?
Ela tentou de novo. E, novamente, na metade do primeiro toque, a
mensagem chegou: "A pessoa que você está tentando alcançar nã o está
disponı́vel".
Ele deve ter bloqueado o nú mero dela. Ele pode ser o pai dela, e ele a
bloqueou. Isso fez seu estô mago cair e seu orgulho doer, mas ela disse a
si mesma que estava tudo bem.
Ela nã o precisava dele.
Ela nã o precisava de ningué m.
Talvez ela ainda estivesse bê bada das bebidas do minibar, e talvez
estivesse sendo excessivamente emocional, mas enquanto estava
naquele quarto barato de motel sozinha, verdadeiramente sozinha,
jurou que ia fazer as coisas sozinha daqui em diante. Ela nã o era boa o
su iciente para Khai ou esse misterioso Phil Schumacher, mas era boa o
su iciente para si mesma.
Ela nã o precisava de um homem para nada. Ela só precisava de suas
pró prias mã os. Enquanto ela lavava os cabelos e limpava a areia do
casamento dos pé s no chuveiro de plá stico, um fogo se acendeu em seu
coraçã o. Ela nã o sabia como, mas ia provar seu valor. Ela mostraria a
todos.
Ela passou o dia montando uma nova vida independente. Ela pegou
um ô nibus para Milpitas e vasculhou a á rea do restaurante de Cô Nga,
encontrou um lugar que oferecia contratos de aluguel de um mê s e
assinou o contrato, e foi comprar coisas de apartamento e roupas
novas. Ela preferiria andar nua do que pedir Khai por suas coisas. Ele
podia icar com elas.
Naquela noite, enquanto dormia em um saco de dormir no chã o de
seu apartamento vazio, ela sonhou que o pai de Jade a levava embora, e
ela chorou acordada e encolheu-se contra a parede, ouvindo o rangido
do pré dio e os carros passando lá fora. Como sempre, seu medo
gradualmente se transformou em culpa. Se ela tivesse dado Jade a seu
pai e sua esposa, agora Jade teria uma famı́lia completa com uma mã e e
um pai, sem mencionar uma casa e empregados caros. Porque ela não
tinha desistido de Jade, sua garota estava presa em uma cabana de um
quarto, enquanto sua mã e levava uma vida separada do outro lado do
oceano. Uma mã e melhor teria entregado seu bebê ? Era egoı́sta manter
Jade? O amor era su iciente?
A ferocidade tomou conta dela. O amor teria que ser su iciente. Era
realmente tudo o que ela tinha.
Quando o cé u clareou, ela desistiu de dormir e pesquisou vistos de
trabalho em seu telefone. Tinha que haver oportunidades para algué m
como ela em um lugar como este. Ela era muito boa em suportar
di iculdades. Mas ela leu site apó s site, e todos disseram a mesma coisa:
ela precisava ter um diploma universitá rio, doze anos de experiê ncia
pro issional ou uma mistura impressionante dos dois. Ela tinha
experiê ncia pro issional, mas algo lhe dizia que a limpeza do banheiro
nã o era o tipo de especializaçã o que eles estavam falando.
Ela ainda estava lutando para aceitar essa informaçã o quando entrou
no restaurante de Cô Nga mais tarde naquela manhã .
— Oh, a menina preciosa chegou. — Cô Nga correu para ela e a
abraçou com força. — Você me deixou tã o preocupada. Por que você
saiu sem contar nada a ningué m, ha? Todo mundo estava morrendo de
medo por você .
Ligeiramente em choque, Esme abraçou Cô Nga de volta. — Sinto
muito. — Ela nã o pensou que algué m se importaria com ela depois que
ela recusou a proposta de Khai. Ela se afastou, forçou um sorriso e abriu
os braços. — Você pode ver que estou bem.
— Khai procurou em todos os lugares por você . Ele disse que ligou
para você vá rias vezes. Por que você nã o respondeu? — Perguntou Cô
Nga.
Ela se concentrou em colocar sua bolsa no lugar de costume perto da
caixa registradora e manter a respiraçã o calma. Essa era a ú nica
maneira de impedir-se de desmoronar. — Eu nã o tinha nada a dizer
para ele.
Cô Nga descartou as palavras de Esme com um aceno de mã o. —
Como você s vã o resolver as coisas se nã o falam sobre as coisas? Diga a
ele o que há de errado, e ele vai consertar. E fá cil.
O coraçã o de Esme bateu forte, mas, felizmente, ela chorou o
su iciente nos ú ltimos dois dias para que seus olhos icassem secos
agora. — Nã o há nada para consertar. Nó s nã o nos encaixamos, Cô .
Sua certeza deve ter sido escrita por toda parte, porque Cô Nga olhou
para ela e seu rosto icou frouxo. — Você tem certeza?
Esme assentiu.
— Onde você esteve? E seguro? Você precisa de dinheiro? — Cô Nga
perguntou, dando um tapinha na bochecha de Esme e apertando os
braços como se precisasse se assegurar de que Esme estava realmente
lá .
— Eu tenho tudo o que preciso, obrigada. Eu vou icar naquele pré dio
da rua, aquele que aluga quartos mensalmente. E bom. — Disse Esme
com um sorriso brilhante. Comparado com a casa dela em casa, era
luxuoso. Nã o era difı́cil ser melhor do que a casa dela, no entanto.
— Você está aqui.
Ela virou-se e encontrou Khai em pé na porta do restaurante. Ele
usava seu uniforme regular de agente secreto, de terno e camisa pretos,
mas parecia diferente do habitual. Ele parecia cansado. Mas ainda tã o
bonito, ele fez ela sentir uma pontada aguda no peito.
Desesperada por uma distraçã o, ela pegou a bandeja de pacotes de
açú car da prateleira e começou a adicionar o nú mero apropriado de
pacotes à s caixinhas nos estandes. — Oi, Khai.
— Você nã o atendeu nenhuma das minhas ligaçõ es. — Disse ele
enquanto entrava.
— Desculpe. — Ela poderia fazer isso. Ela ia manter a
compostura. Trê s pacotes brancos de açú car comum. Dois pacotes
marrons de açú car mascavo. Trê s pacotes amarelos de...
Ele a puxou para seus braços e a abraçou com força. — Eu estava
preocupado com você .
Por um longo tempo, ele simplesmente a abraçou, e ela o
deixou. Havia razõ es pelas quais ela nã o deveria, mas no momento, ela
nã o conseguia se lembrar delas. Ele encaixava tã o bem nela, cheirava
tã o bem, e o ego solitá rio dele o absorveu. Algo desconhecido formigou
contra sua bochecha, e ela passou os dedos sobre o rosto dele e se
inclinou para ter uma visã o melhor. O que foi isso?
— Você nã o fez a barba.
Ele a beijou, e a sensaçã o a iada luiu direto para o coraçã o
dela. Assim que ela suavizou contra ele, ele aprofundou o beijo,
tomando sua boca com a dolorida pressã o de seus lá bios que a deixou
tonta. Era impossı́vel nã o responder quando ele a beijava assim, como
se estivesse preocupado com ela, como se estivesse apaixonado por ela.
A mã e dele tossiu ruidosamente. Esme quebrou o beijo e tentou dar
um passo para trá s, mas os braços de Khai a apertaram.
— Onde você esteve? — Ele perguntou.
— Eu consegui um apartamento por perto.
Ele icou imó vel. — Você está ... se mudando?
Ela hesitou por um segundo antes de assentir.
— Nã o vejo por que você nã o pode icar comigo. Como antes. Nã o
precisamos… — Ele soltou um suspiro frustrado, olhou pela janela da
frente e fez uma careta. — Este nã o é o melhor bairro.
Seu desdé m pela á rea fez seus mú sculos enrijecerem. — Está tudo
bem. — As pessoas nã o eram tã o ricas aqui, mas isso nã o signi icava
que eram ruins. Eles eram muito parecidos com ela, para ser
honesto. Ela empurrou contra o peito dele, e ele relutantemente a
soltou.
— Realmente nã o está bem. As estatı́sticas de crimes no meu bairro
sã o mais baixas. Você deveria voltar.
Ela balançou a cabeça. — Eu nã o posso.
Ele passou a mã o pelos cabelos e deu um meio passo em sua direçã o.
— Você estava bem na minha casa até recentemente. Por que nã o
pode...
— Você me ama? — Ela perguntou suavemente, dando a ele a chance
de mudar tudo.
Ele apertou a mandı́bula com força e apertou as mã os dela. — Eu
posso mantê -la segura, e eu posso carregá -la quando você estiver
machucada, e eu posso… — Seu olhar caiu na boca dela. — Eu posso te
beijar como se fosse a primeira vez cada vez. Eu posso... eu posso... —
Sua expressã o foi determinada. — Eu posso trabalhar com você no
gramado. Eu posso até fazer isso pro issionalmente. Eu posso arrumar
a casa para você . Se você quiser. Qualquer tipo de casamento que você
quiser, eu posso...
— Khai — disse ela com irmeza. — Você me ama?
Seus olhos se fecharam e a agonia vazou dele. — Nã o, eu nã o amo.
Ela piscou para conter as lá grimas, afastou as mã os dele e continuou a
empacotar as caixas de açú car. Trê s pacotes rosa. Trê s pacotes
azuis. Ela nã o ia desmoronar. Ela nã o ia desmoronar. — Você deveria
ir. Você vai se atrasar para o trabalho.
Ele respirou fundo, de forma desigual. — Adeus entã o.
Ela forçou um sorriso. — Tenha um bom dia.
Ele se inclinou para frente como se tivesse toda a intençã o de beijá -la
e, por um momento, ela o deixaria. Ela quase podia sentir a suavidade
dos lá bios dele nos dela, quase prová -lo. Ela virou o rosto para o lado no
ú ltimo segundo e, depois de hesitar brevemente, ele se afastou.
— Tchau, mã e. — Ele acenou para Cô Nga.
E entã o ele se foi.
Os ombros de Esme caı́ram, e ela observou o Porsche prateado dele
acelerar do estacionamento atravé s dos olhos borrados. A tristeza
cresceu e se arrastou, e ela icou vagamente espantada por conseguir
icar de pé . Olha como ela era forte. Ela poderia lidar com isso. Ele era
apenas outro homem.
Cô Nga veio e sentou-se na cabine, parecendo chocada e derrotada. —
Eu nã o entendo quando ele age assim. Ele quer você , eu posso
dizer. Está claro como o dia. Por que ele disse aquilo? Eu nã o sei.
Sem dizer nada, Esme se concentrou nos pacotes de açú car. Ela en iou
um ú ltimo pacote na caixa preta, colocou-a contra a parede ao lado do
molho sriracha, hoisin e chili e passou para o estande seguinte. Quando
ela pegou os pacotes de açú car branco, no entanto, gotas molhadas
espirraram no papel. Ela o enxugou na blusa e pegou um novo pacote,
mas també m o molhou.
— Aqui, aqui, aqui. — Cô Nga a abraçou. — Aqui, aqui, menina
preciosa.
Seu controle quebrou, e soluços fortes a assaltaram. Ela nã o era tã o
forte, a inal. — Sinto muito — disse Esme. — Eu nã o sou mais sua
'garota preciosa'. Eu tentei. Mas entã o eu me apaixonei por ele, e nã o
posso estar com ele quando é assim. Eu vou quebrar.
Todos mereciam amar e ser amados de volta. Todos. Até ela.
Cô Nga esfregou as costas de Esme como se estivesse cortando
cenouras. — Aqui, aqui, você sempre será minha garota
preciosa. Sempre.
Esme a abraçou com mais força antes de passar a manga pelo
rosto. — Eu gostaria de ter você como minha sogra.
Cô Nga deu um tapinha em sua bochecha, observando-a com olhos
tristes e sá bios. Entã o, ela tirou o telefone do avental e segurou-o o mais
longe possı́vel, apertando os olhos para a tela, selecionou um nú mero
de telefone para ligar e colocou no viva-voz.
Depois de uma sé rie de toques, Quan atendeu, perguntando em um
tom distraı́do: — Oi, mã e, como vai?
— Você precisa conversar com seu irmã o. — Disse ela.
— Isso tem algo a ver com Esme… Mỹ ? Você já a encontrou?
Cô Nga assentiu rapidamente, embora Quan nã o pudesse ver. — Sim,
sim, ela está aqui.
— Oh, bom, isso é ó timo. Eu vou... — Vozes de fundo o
interromperam, e houve sons abafados como se ele tivesse coberto o
telefone para falar com algué m do seu lado. — Sim, eu tenho que ir. Eu
ligo para ele hoje à noite.
— Nã o essa noite. Agora — insistiu Cô Nga. — E se ele nã o atender,
você precisa ir vê -lo.
— Eu nã o posso. Estou em Nova York, defendendo a pró xima etapa do
fundo...
Cô Nga falou por cima da voz do ilho: — Venha para casa. Isso
é importante. Ele é seu ú nico irmã o e precisa de sua ajuda.
Quan soltou um suspiro lento. — As vezes, ele nã o quer minha ajuda.
— Você tem que tentar. Ele é sua responsabilidade. Seja melhor que o
seu pai fedido.
Houve um longo silê ncio no telefone antes de Quan dizer: — Eu cuido
disso. Eu realmente tenho que ir. Tchau mã e.
A linha caiu e Cô Nga murmurou para si mesma e colocou o telefone
de volta no avental.
Esme pegou um punhado de pacotes de açú car, mas hesitou antes de
colocá -los na caixa. — Nã o sei o que Anh Quan pode fazer, Cô Nga. Ele
parece ocupado. — Esse drama entre Esme e Khai nã o parecia ser
prioridade.
Cô Nga acenou com o comentá rio de Esme. — Você tem que ser dura
com Quan assim. Eu sei, sou mã e dele. Mas ele faz as coisas quando eu o
empurro. Você verá .
— Ele parece se sair bem sozinho. Ele é um CEO, nã o é ? Isso é uma
conquista. — Esme nã o podia imaginar fazer algo assim.
— Parece bom, mas é uma empresa pequena. Nada como Khai. —
Disse Cô Nga de maneira desdenhosa.
Mais uma vez, Esme teve a impressã o de que nã o estavam falando
sobre o mesmo Khai. Por que as pessoas faziam parecer que ele era
mega-bem-sucedido quando nã o era? Ela balançou a cabeça e começou
a trabalhar. Isso nã o importava.
Ela tinha que cuidar de seus pró prios assuntos. Faltavam trê s
semanas para ela sair e o reló gio estava correndo.
Neste paı́s de pessoas capacitadas, justiça e equidade, as
oportunidades estavam lá para todos. Casamento e nascimento nã o
poderiam ser as ú nicas maneiras de pertencer aqui. Ela nã o acreditava
nisso.
Tinha que haver algo que ela pudesse fazer para ganhar seu lugar
aqui, alguma maneira de provar a si mesma. Ela tinha que continuar
procurando.

•••

Khai sentou-se em frente à sua mesa no escritó rio, e honestamente


nã o se lembrava de dirigir até aqui, entrar no pré dio ou subir o
elevador. Ele fez tudo no piloto automá tico.
Ele estava muito ocupado se ajustando ao conhecimento de que Esme
estava segura e ilesa. O dia anterior havia passado em um borrã o
branco. Embora a ló gica lhe dissesse que ela provavelmente estava bem,
cená rios horrı́veis possuı́am sua mente sem parar, e ele estava um
desastre, sem dormir, sem comer, assistindo as notı́cias caso ela
aparecesse em uma maca em uma ambulâ ncia.
Agora que ele sabia que ela estava bem, ele inalmente relaxou e se
permitiu contemplar o fato de que ela nã o estava apenas se recusando a
se casar com ele, mas també m indo embora mais cedo. De volta ao
restaurante, ele fez o melhor que ele conseguiu para ela icar com ele. E
ela o recusou - como deveria.
Apenas olhe para ele agora. Ele pensou que sentiria uma falta terrı́vel
quando Esme o deixasse para sempre, mas ele estava se chocando com
o quã o bem ele estava. Tudo estava perfeitamente, perversamente,
anticlimaticamente bem. Ele nã o estava triste, bravo ou deprimido. Ele
nã o sentia... nada.
Quando ele ligou o computador e observou a tela ganhar vida, tarefas
mundanas de trabalho alinhadas ordenadamente em sua cabeça - e-
mails, projetos, coisas importantes. Ele era como uma má quina do
caralho. De volta, online, pronto para produçã o.
Quando ele abriu seu primeiro e-mail, no entanto, foram necessá rias
trê s tentativas para que seus dedos frios pudessem digitar “Oi, Sidd”
corretamente (que seria Sidd Mathur, o M da DMSoft) e, mesmo assim,
ele nã o tinha certeza de que soletrou "Oi" corretamente. Era apenas
um O e um i? Nã o pareciam caracteres su icientes para um conceito tã o
importante.
Seja como for, ele conseguiria. As pessoas diziam que ele era
esperto. Tudo o que ele precisava fazer era se concentrar. Ele era bom
em se concentrar, bom demais à s vezes. Quando ele inalmente
terminou o e-mail, checou o reló gio e icou chocado ao ver que passara
duas horas inteiras em um curto pará grafo de texto.
Ele suspirou e levantou a mã o em direçã o à testa para massagear - e
acidentalmente se cutucou nos olhos. Merda. Agora que ele estava
prestando atençã o, sua cabeça latejava, seu rosto doı́a e seus membros
pareciam como se tivessem sido tirados de outra pessoa e colados
nele. Ele provavelmente estava icando doente. Fazia um tempo desde a
ú ltima vez, entã o ele pegou algo horrı́vel. Parando para pensar sobre
isso, ele nã o tinha tomado uma vacina contra a gripe há anos.
Ele abriu a gaveta da mesa, pegou o pequeno frasco de ibuprofeno
que guardava lá , abriu a tampa e sacudiu algumas pı́lulas na palma da
mã o. Pelo menos, era assim que ele imaginava em sua mente. O que
realmente aconteceu foi que ele espalhou pı́lulas sobre ele, sua mesa e o
chã o.
Quando ele foi limpar a bagunça, os comprimidos trituraram sob seus
pé s e joelhos e escapuliram entre seus dedos. No momento em que
recolocou a maioria das pı́lulas de volta ao frasco e acidentalmente
pulverizou o resto, bateu com o cotovelo na cadeira e bateu com a
cabeça na mesa.
Ele entrou no corredor, pretendendo ir à cozinha buscar á gua, e
percebeu que o escritó rio estava estranhamente vazio. Era como
trabalhar no Natal.
Foi quando ele lembrou que hoje eles tinham uma coisa de gincana de
equipes em toda a empresa. Poooooooorraaa. Seu só cio ia lhe dar
bronca por ser antissocial novamente. Quando o telefone começou a
tocar, ele o tirou do bolso e atendeu sem veri icar quem era.
— Sou eu. Como você está ? — Perguntou uma voz familiar
que não pertencia ao seu só cio.
— Olá Quan. Está tudo... — ele olhou para as pı́lulas espalhadas pelo
chã o de seu escritó rio e, ao ver isso, notou que um de seus cadarços
estava desamarrado. — Está tudo bem. Por que você está ligando?
— Mamã e diz que preciso voltar de Nova York para vê -lo, porque é
uma emergê ncia. Está bem?
— Nã o há emergê ncia.
— Como está Esme? — Quan perguntou em um tom neutro.
— Bem.
Quan icou quieto e esperou.
Quando Khai nã o aguentou mais, ele disse: — Ela nã o vai voltar. Ela
encontrou um apartamento perto do restaurante que ela gosta mais do
que a minha casa.
— Como você está com isso?
— Bem. Eu estou apenas... bem. — E ele desejou nã o estar. Se ele
pudesse lidar com algum tipo de agitaçã o emocional dramá tica e provar
que estava com o coraçã o partido pela perda dela - e, portanto,
apaixonado -, ele poderia icar com ela.
Mas nã o. Ele estava bem.
— Quer que eu volte para casa mais cedo? — Quan perguntou. — Nó s
podemos fazer alguma merda. Nã o sei, pegar garotas numa convençã o
iscal ou algo assim.
— Nã o, obrigado. — Ele nã o queria fazer nada que envolvesse
mulheres por muito tempo, e o pensamento de “pegar garotas” piorou
sua dor de cabeça, mesmo que isso signi icasse que ele tinha que ir a
uma convençã o iscal.
— Tem certeza?
— Sim.
— Tudo bem entã o, mas se você precisar de alguma coisa, pode me
ligar sempre. Se eu nã o atender, eu ligo para você o mais rá pido
possı́vel. — Disse Quan.
— Você nã o precisa me dizer isso. Eu já sei. — Quan era a coisa mais
con iá vel na vida de Khai.
— Apenas lembrando você . Ok, eu vou deixar você ir agora. Tchau
irmã ozinho.
— Tchau.
Assim que a ligaçã o acabou, ele olhou ao redor do escritó rio vago, deu
um passo e quase terminou de bruços no chã o. Suspirando, ele se
ajoelhou e agarrou os cadarços, mas tentou vá rias vezes e as coisas nã o
amarraram. O que diabos havia de errado com ele? Ele tinha que estar
gripado. Farto de todo o processo, ele tirou os sapatos e os carregou
enquanto saia do pré dio e voltava para casa. De jeito nenhum ele ia
dirigir ou ir para uma coisa de formaçã o de equipes desse jeito.
A caminhada era longa, quente e esquisita, sem sapatos, e ele tinha
certeza de que as pessoas desaceleravam quando passavam por
ele. Hoje, ele nã o se sentia como um Exterminador do Futuro, pelo
menos nã o um em boas condiçõ es. Quando chegou à sua casa, estava
suado, desidratado e precisando muito de um banho, mas depois que a
porta se abriu, ele icou lá , incapaz de entrar.
Seu corpo inteiro resistiu a entrar. Sua cabeça girou, seu coraçã o
bateu forte e seu estô mago revirou. A casa estava muito escura e o ar
mofado o fez querer vomitar. Nã o fazia sentido. Ele esteve lá esta
manhã . Mas ele estava muito focado em possı́veis catá strofes
acontecendo com Esme para notar qualquer outra coisa.
Ele se sentou nos degraus de concreto do lado de fora e limpou o suor
do rosto ú mido. Essa gripe realmente era pé ssima. Ele
estava exausto. Ele podia dormir e dormir por muito tempo. Mas ele
tinha que tomar banho e arejar a casa primeiro. Aquele peso mofado,
qualquer que fosse, tinha que desaparecer. Talvez uma das frutas de
Esme estivesse apodrecendo no lixo e houvesse esporos de mofo
lutuando por toda parte.
Rangendo os dentes, levantou-se, entrou e jogou os sapatos no chã o,
sem se importar onde eles cairiam. Ele nã o conseguia respirar. O ar
estava denso e opressivo, tudo errado.
Esporos de mofo, esporos de mofo.
Ele marchou para a cozinha e arrancou o lixo do armá rio. Vazio. Que
diabos? Ele vasculhou a cozinha em busca de outros locais onde as
frutas poderiam estar se deteriorando. Nenhum.
Todas as superfı́cies estavam impecá veis. A ú nica coisa fora de lugar
era um copo de á gua meio cheio no balcã o. Esme. O calor picou sua pele
fria em uma onda doentia. Ele nã o percebeu que estava pegando o copo
até ver sua mã o se aproximar, e ele se conteve antes de fazer
contato. Fechando os dedos em punho, ele se afastou. Ele nã o queria
colocar o copo dela na má quina de lavar louça, como sempre fazia. Ele
queria... bem ali.
Este ar sufocante. Ele correu pela casa, abrindo todas as janelas e
portas, mas nã o ajudou. Sua ná usea icou tã o forte que ele passou
alguns minutos curvado sobre o vaso, mas nã o vomitou. Cama, ele
deveria ir para a cama, mas nã o quando estava suado assim.
De alguma forma, ele tomou banho sem se machucar no processo e
vestiu um sué ter ao avesso para manter as costuras afastadas da pele e
do short de giná stica - ele queria camadas, muitas camadas e estava
ansioso por seus cobertores pesados. Mas quando chegou a hora de
dormir, seus membros travaram, e ele nã o conseguiu.
Era o icial agora. Esme nunca mais iria dormir nessa cama.
Nã o haveria mais Esme nua acolhendo-o perto, ele dentro de seu
corpo, ela gemendo seu nome enquanto se agarrava a ele. Nã o haveria
mais o peso de Esme sobre ele como um bicho-preguiça em uma á rvore,
quente, macia e perfeita. Esme nã o sorriria mais à noite, de manhã e
toda vez que ele olhasse para ela.
Ele puxou o edredom da cama e o levou para a sala, onde enrolou o
cobertor em volta de si e desabou no sofá . Porra, eles izeram sexo
neste sofá . No tapete felpudo verde també m. Em toda parte. E havia
outra de suas xı́caras meio cheias na mesa de café . Ele nã o podia
escapar dela - ele nem sabia se queria - e sua cabeça parecia que ia
explodir.
Ele cobriu o rosto com o cobertor. E respirou o perfume de Esme. A
princı́pio, ele esperava que sua ná usea piorasse, mas seus mú sculos
relaxaram. Cé u, doce cé u. Se ele fechasse os olhos, ele quase podia
imaginar que ela estava aqui, passando os braços em volta dele, e o
sono o arrastou para um lugar onde ele nã o sentia mais dor.
Obrigado, cobertor do caralho. Ele nunca ia lavá -lo novamente.

•••

Khai acordou em intervalos irregulares durante toda a noite e no dia


seguinte: 00:34, 03:45, 06:07, 11:22, e, em seguida, 14:09. Essa ú ltima
vez o incomodou com sua falta de ló gica, e ele estava carrancudo
olhando para o celular quando Quan entrou pela porta da frente
destrancada em jeans e uma camiseta preta velha.
Quan observou os sapatos espalhados pelo chã o, as janelas abertas e
a forma de Khai no cobertor e perguntou: — O que está
acontecendo? Você queimou uma pizza no forno ou algo assim? Por que
você está desabafando o lugar?
Khai sentou-se, mas o sangue escorreu de sua cabeça pelo movimento
repentino, e ele caiu contra as costas do sofá . — O ar cheirava estranho.
— Você está bem?
Ele esfregou as tê mporas doloridas. —Você nã o deveria estar em
Nova York defendendo seu inanciamento?
Quan tirou os sapatos e atravessou a sala para pressionar a mã o na
testa de Khai. — Fiz as coisas importantes ontem e remarquei o
resto. Estava preocupado com você com a separaçã o e o aniversá rio da
morte de Andy chegando.
Khai afastou a mã o do irmã o. — E essa gripe que está
circulando. Volte para Nova York. Estou bem.
Merda, aniversário de morte. Um suor frio estourou sobre ele, fazendo
sua pele formigar quando seus batimentos cardı́acos icaram
errá ticos. Ele propositalmente bloqueou aquilo de sua mente porque
odiava esse tipo de coisa, e esse era o grande, o aniversá rio de dez
anos. Haveria uma cerimô nia, mais câ nticos de monge e gê iseres de
lá grimas. Sua cabeça latejava à beira da explosã o.
— Nã o há gripe por aı́. E verã o. — Quan franziu a testa e colocou a
mã o na testa de Khai. — Você nã o tem febre.
— Está nos está gios pré -febre, entã o. — Khai murmurou as palavras
porque o som doı́a agora.
Quan sentou-se na mesa de café e procurou em seu rosto como um
astró logo lendo as estrelas. Quando ele mudou de posiçã o para icar
mais confortá vel, o copo de á gua entrou em seu caminho. Ele pegou,
mas Khai o deteve.
— Não.
Quan piscou e perguntou: — Por que nã o?
— Eu gosto dele aı́.
Quan olhou para o copo de á gua antes de ixar os olhos em Khai com
um olhar de entendimento. — Puta merda, é dela, nã o é ? Você sabe o
quã o fofo isso é ? — Esfregando a mandı́bula, ele acrescentou: — Talvez
um pouco emocionalmente instá vel també m. Você nã o está sendo
assustador, está ? Como perseguir com binó culos e ligar para ela à noite
para ter certeza de que está dormindo sozinha?
— O que? Nã o. — Mas com quem diabos ela estaria dormindo? Se
Quan pensou em outro homem, isso era perturbador o su iciente para
justi icar uma longa contemplaçã o.
— Eu nã o estava sugerindo nada — acrescentou Quan. — Nã o faça
isso.
— Nã o estou sendo assustador. — Disse Khai, exasperado.
Quan assentiu, e depois de um momento empolgado, ele pegou o
telefone do bolso e levantou-o como se estivesse tirando uma foto.
— O que você está fazendo? — Perguntou Khai.
— Enviando uma foto da sua barba pra Vy. Você parece um pouco com
Godfrey Gao agora.
Khai revirou os olhos e coçou o rosto. Quanto tempo se passou desde
que ele se barbeou? Ele nã o conseguia se lembrar. Os ú ltimos dias
foram uma confusã o e caos em sua mente.
— Eu nã o estou brincando. Olhe para você . — Disse Quan, segurando
o celular com a foto de Khai. Para Khai, ele parecia menos uma estrela
de cinema e mais um viciado em drogas, mas o que ele sabia?
Nesse momento, as caixas de mensagens de Vy apareceram na tela.
Oh mama.
Diga a ele para icar com a barba.
Rawr.
Khai fez uma careta e esfregou a nuca. — Nã o tenho certeza se eu
gosto da minha irmã fazendo rawr pra mim.
Quan riu antes de sua expressã o icar sé ria. — Somente Esme pode,
certo?
Khai pensou nisso por alguns segundos antes de assentir uma
vez. Atraçã o, sexo, luxú ria e desejo orbitando em torno de um ponto
focal para ele. O ponto focal foi Esme.
— Eu estive pensando sobre o que você disse no casamento de
Michael, sobre como você nã o estava apaixonado, e eu nã o sei. Talvez
você nã o esteja, mas isso… — Quan apontou para as janelas abertas, a
xı́cara acumulando poeira sobre a mesa e a forma de Khai no sofá antes
de descansar os cotovelos nos joelhos e inclinar-se para ele. — Você
está triste, Khai.
Ele franziu o cenho para o irmã o. Que besteira foi essa? — Eu nã o
estou triste. Estou gripado.
Quan esticou a cabeça de um lado para o outro até o pescoço estalar
audivelmente. — Você sabe que já icou assim antes, certo? E um
padrã o previsı́vel para você .
— Sim, eu já tive gripe antes.
— Estou falando de icar de coraçã o partido. — Disse Quan, seus
olhos examinando os de Khai de uma maneira desconfortá vel.
O corpo de Khai icou rı́gido. — Eu nã o estou. Eu...
— Você se lembra quando mamã e e papai se separaram quando
é ramos pequenos? — Quan perguntou em voz baixa.
— Um pouco. Eles estavam juntos, e entã o um dia eles nã o
estavam. Tudo bem. — Ele deu de ombros.
— Exceto que você nã o estava bem. Você parou de falar e icou tã o
desajeitado que teve que icar em casa longe da escola por duas
semanas. — Um sorriso irô nico curvou a boca de Quan. — Eu lembro
porque nã o havia ningué m para cuidar de você , entã o eu tive que icar
em casa també m. Fiz miojo no micro-ondas para a gente, e você icou
chateado porque nã o havia ovo escalfado como quando mamã e o
cozinha.
— Nã o me lembro de nada disso. — E o que ele lembrava era neutro
e incolor, plano. Ele foi instruı́do a dar um ú ltimo abraço em seu pai
antes de deixar a cidade para sempre. Lembrou-se de abraçar uma
pessoa que costumava ser tudo e sentir... nada.
— Talvez você fosse muito jovem. Que tal... depois do funeral de
Andy. Lembra daquilo?
Uma sensaçã o irritada arranhou as costas de Khai, e ele chutou o
cobertor, de repente precisando icar livre. Ele queria escovar os dentes
e tomar banho, fechar todas as janelas e talvez colocar a xı́cara na
má quina de lavar louça. Espere, nã o, ele nã o estava pronto para guardar
a xı́cara ainda. — Sim, eu me lembro. Eu estava bem. — Muito bem. —
Podemos apenas nã o falar sobre isso?
— Por quê ?
— Nã o faz sentido. Eu nã o estava com o coraçã o partido na é poca, e
nã o estou agora. — Os coraçõ es de pedra nã o se partem. Eles sã o muito
duros. — Eu sou como um Exterminador do Futuro com programaçã o
ló gica e sem sentimentos. — Ele esticou os lá bios em um sorriso
plá stico.
Quan revirou os olhos. — Que merda. Você vai dizer que nã o ama
nada? Eu sei que você me ama.
Khai inclinou a cabeça para o lado. Ele nunca tinha pensado nisso
antes.
— Nã o há literalmente nada que você possa dizer para me fazer
acreditar que nã o — disse Quan com absoluta con iança. —
Continue. Experimenta.
— Eu quase nunca faço coisas com você , e nã o temos muitos
interesses semelhantes e...
— E você nunca esquece meu aniversá rio e sempre compartilha sua
comida comigo, mesmo quando é a sua favorita, e eu sei que sempre
que preciso de algo, posso contar com você , nã o importa o quê . —
Concluiu Quan.
— Bem... sim. — Essas eram regras só lidas no universo de Khai.
— Isso é amor de irmã o. Só nã o dizemos isso porque somos durõ es e
toda essa merda, mas sim, eu també m te amo. — Quan deu um soco no
ombro dele. — E por que diabos você está vestindo um sué ter no inal
de julho?
Khai esfregou o ombro. — Eu te disse. Estou gripado.
— Você nã o está com gripe. E assim que você se sente quando seu
coraçã o se parte. E como se doesse muito para o seu cé rebro processar
e, em seguida, seu corpo se desligasse també m. Você estava exatamente
assim depois do Andy. Até a meia.
Khai olhou para os pé s e icou surpreso ao ver que ele usava apenas
uma meia. — Talvez tenha saı́do no meu sono. — Ele cavou atravé s do
cobertor, mas nã o estava lá .
— Ou você esqueceu. Depois da morte do Andy, você icou tã o fora de
si que todos nó s tı́nhamos medo de você acidentalmente se matar
andando na frente de um ô nibus ou esquecendo de comer.
Khai balançou a cabeça e coçou a barba. — Isso nã o soa como eu.
Quan riu. — Nã o, nã o mesmo. E por isso que está vamos todos tã o
preocupados, e desde entã o você pareceu meio desligado. Você pareceu
mais feliz nesses ú ltimos dois meses do que em muito tempo, para ser
sincero.
Khai rangeu os dentes. Ele nã o tinha sido feliz. Ele estava chapado de
Esme. Havia uma diferença, embora, no momento, sua mente nã o
estivesse su icientemente clara para descobrir o que era. Frustrado, ele
tirou sua meia e a jogou no chã o. Pronto, agora ele estava
simé trico. Mas uma meia solitá ria estava no chã o, completamente fora
do lugar.
Quan considerou Khai por vá rios segundos antes de dizer: — Você
está pronto para o aniversá rio de morte no pró ximo im de
semana? Falar sobre ele pode ajudar. Você nunca fala.
Khai ixou sua atençã o na meia no chã o. — Eu falei. No casamento de
Sara.
Quan lançou uma expiraçã o pesada. — Sim, eu ouvi sobre isso. Eu
deveria ter estado lá com você .
— Nã o é sua culpa que eu magoei as pessoas. — Disse Khai.
— També m nã o é sua.
Khai balançou a cabeça com a ló gica insensı́vel do irmã o e focou na
meia novamente. Ele deveria pegá -la, encontrar o par e colocá -las na
lavanderia juntas. Era claramente irritante imaginar suas meias
viajando pela casa separadamente. Elas foram projetadas para icar
juntas.
Ao contrá rio de Khai. Ele foi feito para ser uma meia solitá ria. As
meias solitá rias també m tinham um lugar neste mundo. Nem todo
mundo tinha dois pé s.
— Quando foi a ú ltima vez que você comeu? — Quan perguntou.
Khai levantou um ombro. Ele nã o conseguia se lembrar. — Está tudo
bem. Eu nã o estou com fome.
— Bem, eu estou. Você vai comer comigo. — Quan levantou-se e
entrou na cozinha. A geladeira se abriu, os pratos izeram barulho, os
talheres tilintaram e o micro-ondas zumbiu e apitou. Logo, eles estavam
comendo juntos no sofá enquanto Quan passava pelos canais de TV até
encontrar um programa onde sı́mbolos grossos rolavam na parte
inferior da tela.
Khai nã o tinha escovado os dentes, tomado banho ou barbeado, e
tinha quase certeza de que era um psicopata, mas sentado ali com
Quan, as coisas pareciam melhores. Comer com o irmã o e assistir TV
enquanto estava doente parecia familiar, e lembranças confusas
surgiram em sua mente.
Talvez ele realmente estivesse na mesma posiçã o de antes, mas,
quanto ao resto, as coisas de coraçã o partido, ele nã o conseguia
acreditar.
CAPÍTULO VINTE E TRÊS

No inı́cio da semana seguinte, quando Angelika foi fazer a prova GED,


Esme foi també m. Ela nã o precisava de um GED e nã o tinha ningué m
para impressionar, e um diploma do ensino mé dio nã o ajudaria em seu
trabalho, mas o custo nã o tinha sido alto e ela já havia estudado
muito. Ela disse a si mesma que faria isso para dar um exemplo para
Jade.
Mas lá no fundo, ela sabia que també m estava fazendo isso por si
mesma.
Inconscientemente, ela estava estudando para isso o tempo todo.
Normalmente, ela nã o podia fazer as coisas porque a oportunidade
nã o estava lá , e a preocupaçã o persistia de que talvez ela nã o pudesse
porque simplesmente nã o era boa o su iciente. Talvez todas as pessoas
ricas fossem ricas porque mereciam. Talvez ela fosse pobre porque ela
també m merecia. Mas agora a oportunidade estava aqui, e ela queria
ver.
O que acontecia quando você dava a algué m uma oportunidade?
Mais tarde naquela semana, ela ainda nã o havia descoberto como
resolver seu problema de visto, e o fogo determinado em seu coraçã o
havia se acumulado. Quando ela recebeu seu resultado na caixa de
entrada de e-mail, ela abriu com resignaçã o.
O conteú do arrepiou os cabelos de sua cabeça. Ela checou o nome trê s
vezes para se certi icar de que nã o haviam cometido um erro e enviado
à pessoa errada, mas nã o, o nome era inconfundivelmente Esmeralda
Tran.
Em todas as categorias, dizia: APROVADA NO GED. Pronta para a
Universidade + Créditos. Ela alcançou pontuaçõ es perfeitas em todos os
aspectos.
Isso signi icava que ela era inteligente?
Ela conseguiu. A prova estava aqui no celular dela. Seu coraçã o
explodiu de orgulho - de si mesma, para variar. Bem, ela nã o
era muito inteligente. Apenas um pouco inteligente. A maioria das
pessoas se formou no ensino mé dio aqui. Mas isso era mais do que ela
jamais ousara sonhar. Essa garota do interior tinha um diploma do
ensino mé dio.
Isso foi importante. Isso signi icava algo grande. Mas sua mente
estava muito ocupada com essa felicidade explosiva para entender
tudo.
Seu telefone tocou algumas vezes e, quando ela olhou para a tela, viu
que havia recebido mensagens de texto de Angelika.

Eu passei!

Estamos comemorando na loja de chá gelado perto da escola.

Venha!!!!!!!

Por que nã o? Ela queria compartilhar suas notı́cias, mas era a hora
errada de ligar para casa e conversar com Khai estava fora de questã o.
Ela deu uma resposta rá pida, veri icou a ortogra ia duas vezes e a
enviou.
Parabé ns! Vejo você lá . :)
Depois que terminou de fechar o restaurante, ela desamarrou o
avental da cintura, guardou-o e acenou um adeus a Cô Nga. Levou trê s
minutos para atravessar a rua e caminhar até a loja de chá s, e quando
ela entrou, a umidade a envolveu como um cobertor. Pequenas TVs de
tela plana foram montadas nas paredes perto de diferentes grupos de
mesas. Uma delas reproduzia uma novela de Taiwan. Outra um jogo de
futebol. A do pequeno grupo de colegas de Esme passava uma partida
de golfe.
Esme acenou para todos, pediu e pagou um chá preto simples com
leite e pé rolas de tapioca, e se sentou ao lado de Angelika. O espaço à
sua frente foi ocupado pela senhorita Q, que usava jeans, uma camisa
descontraı́da e, é claro, um cachecol. Elegante como sempre.
— Eu sabia que você passaria — disse a senhorita Q com um sorriso
largo.
— E claro que ela passou. — Angelika sacudiu a mã o como se fosse
uma conclusã o ó bvia, e Esme sorriu.
— Eu passei, obrigada. Parabé ns a você també m. Parabé ns a todos.
Os outros assentos à mesa estavam ocupados por trê s colegas
da classe masculina, Juan, Javier e John, e eles a parabenizaram antes
de se levantarem.
— Temos que ir, mas icamos felizes em vê -las — disse Juan. — Hora
da faculdade agora, hein?
Ela piscou em choque. A ideia nunca lhe ocorreu. — Talvez. — Ela
sorriu em excitaçã o inesperada antes que a realidade a alcançasse, e o
sorriso caiu de seus lá bios enquanto ela acenava para os homens. —
Tchau.
— Por que essa cara? — Miss Q perguntou uma vez que os caras
deixaram a loja.
— Eu nã o posso ir para a faculdade.
— Por quê ? — Miss Q e Angelika perguntaram ao mesmo tempo.
Esme se encolheu. — Porque eu tenho que voltar para o Vietnã em 9
de agosto. — E nã o havia como ela se dar ao luxo de ir para a faculdade
em casa. Elas precisavam muito de sua renda, e isso nem levava em
consideraçã o os subornos que ela precisaria pagar para mudar sua
papelada e ser aceita em qualquer lugar que fosse bom.
— Que tipo de visto você tem? — Perguntou Miss Q.
Esme olhou para os dedos feios na mesa. — Visto de turista.
— Eu també m. — Angelika cobriu a mã o de Esme com a sua e
apertou. Algo brilhante chamou a atençã o de Esme, mas Angelika
afastou a mã o antes que Esme pudesse dar uma olhada mais de perto.
— Existem outros tipos de vistos, você sabe — a senhorita Q
apontou. — Se você for aceita por uma faculdade ou universidade aqui,
eles concederã o um visto de estudante. Eles até permitem que você
traga sua famı́lia aqui pela duraçã o. Depois de se formar, você pode
tentar um visto de trabalho.
O ar saiu dos pulmõ es de Esme. — Eu poderia ser aceita em uma
faculdade ou universidade aqui?
Sua pontuaçã o no GED brilhou na sua mente. APROVADA NO GED
Pronta para a faculdade + créditos.
— Claro que você poderia. Sua pontuaçã o foi boa? — Miss Q
perguntou.
Ela assentiu, tentando manter o sorriso fora do rosto e falhou, e
mostrou à senhorita Q sua transcriçã o em seu telefone. — Obrigada por
me ensinar.
Ela ganhou cada uma dessas pontuaçõ es sozinha. Elas eram dela.
E talvez elas fossem a chave para pertencer aqui.
A senhorita Q sorriu e continuou sorrindo e seus olhos brilhavam
com lá grimas nã o derramadas. — O prazer é meu.
Excitaçã o borbulhou no sangue de Esme como champanhe logo
depois que estouram a rolha. Se o que Miss Q estava dizendo fosse
verdade, ela realmente poderia se tornar uma contadora de verdade. Ou
talvez outra coisa. Ela poderia ser qualquer coisa. Ela poderia ser
so isticada e educada algum dia e erguer o queixo - mesmo na frente
de Khai.
Exceto que havia um problema. — Quanto custa a faculdade? — Ela
perguntou, hesitante.
— Isso depende da escola. De dez mil dó lares por ano a cinquenta mil
para estudantes de graduaçã o, mas existem programas de empré stimos
e bolsas de estudos. — Disse Sra. Q.
A tensã o roubou os mú sculos de Esme. Dez mil dó lares americanos
foram mais do que ela ganhou em toda a sua vida. Se um emprego aqui
nã o fosse garantido, ela nã o sabia se ousaria fazer um empré stimo
como esse uma vez, e muito menos quatro vezes. Mas se ela pudesse
continuar trabalhando na Cô Nga, provavelmente conseguiria. Seria
apertado, mas isso nã o seria novidade.
Ela estava mentalmente fazendo as contas, descobrindo quantos
turnos ela poderia fazer e subtraindo os custos de aluguel, alimentaçã o
e aula, quando a Srta. Q acrescentou: — No seu caso, você precisaria
obter uma bolsa de estudos porque nã o pode trabalhar com um visto de
estudante, mas conheço escolas pró ximas que as oferecem, mesmo para
estudantes internacionais. Com suas pontuaçõ es no GED e sua
experiê ncia pessoal, você tem uma chance, Esme. Vou entrar em
contato com as pessoas que conheço e ver se elas a consideram um caso
especial.
Os lá bios de Esme se moveram sem emitir som. Ela entendeu o
signi icado individual das palavras ditas, mas icou chocada demais
para interpretar a mensagem geral. Ela conhecia o fracasso e a
di iculdade para ganhar o que queria. Generosidade dessa magnitude
nã o fazia sentido para ela.
— Mantenha os olhos abertos para o meu e-mail, ok? Pode vir
qualquer dia. Se eu enviar uma inscriçã o, preencha-a e envie-a
imediatamente. Vou ligar para meus amigos agora. Adeus, para você s
duas. — A srta. Q saiu da loja de chá como se estivesse em uma missã o,
indo tã o rá pido que Esme nem teve tempo de agradecê -la.
A srta. Q realmente poderia ajudar Esme a conseguir uma bolsa? Isso
seria... incrı́vel. Tudo. Ela percebeu que era sua ú ltima opçã o.
A experiê ncia disse-lhe para segurar seu entusiasmo, mas a srta. Q
acreditou nela, e ela realmente passou no GED com notas perfeitas. Se
ela pudesse fazer isso, pense em todas as outras coisas que ela poderia
fazer se tivesse a chance. Isso era real. Isso poderia realmente
acontecer. E sua esperança cresceu fora de controle.
Originalmente, ela se imaginara casando com Khai e continuando a
vida como garçonete. Isso seria ó timo, nã o seria? Ela daria a Jade um
futuro maravilhoso assim, e estaria com Khai. Talvez eles izessem mais
bebê s.
Mas agora, um novo sonho se formou em seu coraçã o, um que ela
nunca ousou encorajar, mas desejava com intensidade
ofegante: fazer algo pelo qual ela era apaixonada, mudar esse mundo
para melhor, ser mais. Ela nem sabia no que era boa, mas se pudesse
explorar e aprender...
Um dos trabalhadores da loja entregou a Esme seu chá com leite, e ela
agradeceu e sugou o chá açucarado e as pé rolas em sua boca atravé s do
canudo grande. A TV piscou para um close de um jogador de golfe e o
logotipo da DMSoft em seu chapé u parecia familiar.
Depois de um segundo, ela lembrou que era onde Khai trabalhava. No
andar de cima, em um armá rio. Tinha que ser uma grande empresa se
eles patrocinavam torneios de golfe. Bom para Khai. Talvez se ele
trabalhasse duro, eles o promovessem, e um dia ele poderia refazer seu
quintal.
— O que aconteceu com o seu namorado? — Angelika perguntou,
quebrando o silê ncio.
As mã os de Esme se apertaram ao redor de seu chá com leite. — Nã o
é mais meu namorado. Nunca foi meu namorado. — Eles apenas eram...
colegas de casa que dormiam juntos.
Agora que ela se fora, esperava que ele estivesse subindo pelas
paredes em frustraçã o sexual. Ela esperava que ele pensasse nela
enquanto desse prazer a si mesmo. Porque ele estaria fazendo muito
disso a partir de agora.
A menos que ele conhecesse outra pessoa.
Sua fú ria in lamou quando ela imaginou Khai com outra mulher,
beijando-a do jeito que Esme gostava, acariciando-a do jeito que Esme
precisava, deixando-a tocá -lo da maneira que só Esme já fez. Ele
con iaria em outra mulher com seu corpo agora que Esme o havia -
iniciado-? Ela supô s que deveria se sentir orgulhosa se fosse esse o
caso, mas isso apenas a fez querer arranhar o rosto dessa mulher
imaginá ria como um gato bravo da selva.
Ela balançou a cabeça para afastar os pensamentos violentos e
encontrou Angelika observando-a com triste entendimento.
— Ele era um bom partido — disse Angelika. — Meu noivo, ele tem
sessenta anos. E é centrado o tempo todo em negó cios. — Ela olhou
para o anel de noivado deslumbrante. Foi isso o que Esme havia notado
anteriormente. Angelika icou noiva sem dizer nada. — Os ilhos dele
me odeiam. Eles sã o mais velhos do que eu.
— Com o tempo, eles verã o. — Disse Esme.
Angelika olhou para a mã o esquerda, apertou-a com um punho e
largou-a abaixo da mesa. — Eu acho que nã o. Eles continuam me
dizendo para voltar para a Rú ssia e estã o convencendo-o a fazer
vasectomia - você sabe, para que ele nã o possa ter mais ilhos? Receio
que isso acabe em divó rcio. Ou que simplesmente nã o aconteça.
— Por que eles...
— Para proteger o dinheiro quando ele morrer — disse Angelika
amargamente. — Concordei em assinar um contrato antes do
casamento, por isso, se nos divorciarmos, nã o recebo nada. Mas isso
nã o é su iciente para eles. Eu sempre quis uma famı́lia.
— Ele... te ama? — Esme perguntou.
Um sorriso suave se espalhou pelos lá bios de Angelika. — Sim, ele
ama. E eu amo ele.
Esme apertou o braço da amiga. — Entã o você s dois icarã o bem. —
Ao contrá rio de Esme e Khai.
Angelika sorriu antes de sua expressã o icar pensativa. — Uma bolsa
de estudos parece boa, mas você já pensou em namorar outras pessoas?
Esme balançou a cabeça.
Angelika lançou-lhe um olhar impaciente. — E só namoro, Esmeralda.
— Namoro tem beijos e toques e… — Ela nã o conseguia dizer sexo. O
pensamento de estar com outro homem tã o cedo fez sua pele
arrepiar. Uma mulher diferente estaria namorando todos os homens
desesperados que pudesse encontrar - ela tinha que pensar em Jade,
a inal - mas Esme nã o conseguia fazer isso. Ela provavelmente era
ingê nua por pensar assim, mas se ela se casasse, tinha que ser
um casamento de verdade. Ela nã o tinha coragem de tirar vantagem de
algué m ou machucá -lo. Isso signi icava que ela tinha que se apaixonar
primeiro. — Nã o estou pronta.
Os lá bios de Angelika a inaram, mas ela inalmente assentiu. —
Espero que você consiga essa bolsa. Eu nã o quero que você vá
embora. Você é minha ú nica amiga aqui.
Esme disse a si mesma para se preparar para a decepçã o. Mas seu
coraçã o nã o quis ouvir. Ela tinha esse sonho agora, e nunca quis tanto,
tanto. Ela apertou a mã o de Angelika e sua amiga apertou de volta.
— Eu també m — disse Esme. — Eu també m.
CAPÍTULO VINTE E QUATRO

Khai já havia feito isso antes. Ele poderia fazer isso hoje. Ele já havia
quase superado sua gripe. Sem os sapatos, pé s de meias na madeira, a
neblina do incenso, o pesado perfume loral que emanava dos
numerosos buquê s brancos, e ali, no lado oposto da sala principal, um
altar com uma grande está tua dourada de Buda em cima de um buquê
de lor de ló tus.
Ele passou pela famı́lia e amigos vestidos principalmente com roupas
cinza, sentados de pernas cruzadas nos tapetes no chã o e se aproximou
do altar. Um dos monges lá em cima lhe entregou um graveto de
incenso, e Khai o aceitou sem jeito. Ele nã o sabia o que diabos fazer com
isso. Sua mã e estava acostumada com essas tradiçõ es, nã o ele. Ele
afundou aquele incenso na tigela gigante de arroz com os outros
incensos e observou a fotogra ia em frente à está tua. Andy ao lado de
sua moto Honda azul.
Andy exibia o mesmo sorriso espertinho que brilhava toda vez que
dava uma resposta espertinha. Ele sempre tinha uma resposta para
tudo, sempre. As vezes, ele até pensava no que dizer com antecedê ncia,
para estar pronto quando a ocasiã o chegasse. Nã o como Khai, que
congelava quando as pessoas o provocavam ou nem mesmo percebia
que ele estava sendo provocado.
Ele tocou a ponta dos dedos na foto, e a frieza do vidro o
surpreendendo. Ele nã o costumava gastar tempo contemplando
questõ es ilosó icas sobre a vida e a humanidade, mas agora, enquanto
observava a igura de seu primo em papel e resina, imaginou o que fazia
de uma pessoa uma pessoa. Era algo mı́stico como uma alma? Algo
cientı́ ico como conexõ es neurais no cé rebro? Ou algo mais simples
como a capacidade de fazer algué m sentir sua falta dez anos depois de
sua morte?
Ele reconheceu o vazio sem graça dentro dele como falta de
algué m. Ele sentia falta de Andy. E ele sentia falta de Esme. Mas isso nã o
era o mesmo que estar com o coraçã o partido. Quan estava errado
sobre isso.
Quando ela entrou no pagode e colocou os sapatos na porta da frente
com todos os outros pares, seu corpo inteiro congelou.
Esme.
Ela usava o mesmo vestido preto sem forma de antes, e por um
momento confuso, parecia que ela tinha saı́do direto do casamento de
Michael até aqui. Mas duas semanas se passaram. Logicamente, Khai
sabia disso.
Os olhos dela encontraram os dele. Sua expressã o era tensa no
começo, mas depois de um momento, seus lá bios se curvaram um
pouco. Nã o era o sorriso habitual que mexia com o cé rebro dele, mas
ainda era um sorriso. Sentiu aquela sensaçã o aguda de agulhas picando
sua pele da cabeça aos pé s, e ele puxou o ar para os pulmõ es com
esforço.
Ela andou descalça ao redor de todas as pessoas nos tapetes e parou
ao lado dele, pró xima da está tua e da foto de Andy. — Vim para ajudar
com a comida depois. — Disse ela em tom baixo.
O monge entregou-lhe uma vara de incenso, e ela inclinou a cabeça e
agradeceu antes de pressionar o incenso entre as palmas das mã os e se
curvar à está tua da maneira que Khai deveria ter feito. Depois de en iar
o incenso na tigela de arroz, ela considerou a fotogra ia de Andy, tocou a
motocicleta e olhou para Khai com uma expressã o ilegı́vel no rosto.
— Era dele? — Ela perguntou.
Ele nã o achava que podia falar, entã o assentiu. A motocicleta tinha
sido a posse mais valiosa de Andy, e Dı̀ Mai a entregou a Khai, dizendo
que Andy gostaria que ele a tivesse. A mã e dele icou zangada no
começo, mas como Khai nã o a dirigia, ela esqueceu.
Na maioria das vezes, Khai també m se esquecia, e era isso que ele
preferia. Ele automaticamente empurrou a motocicleta e as memó rias
que a acompanhavam para o fundo de sua mente e se concentrou em
Esme. Sua pele estava mais pá lida que o normal, e ela havia perdido
peso, mas ainda era inconfundivelmente Esme. Ningué m mais tinha
olhos com aquele tom especı́ ico de verde. Tão lindo. A necessidade de
segurá -la tornou-se uma dor visceral nos mú sculos e ossos dele, mas
ela se afastou antes que ele pudesse agir.
Ela andou pela á rea de estar e sentou-se na beira, afastada de
todos. Sua mã e acenou para ele de onde ela estava sentada com Dı̀ Mai,
Sara, Quan, Vy, Michael e outros membros da famı́lia, mas ele passou
por eles e sentou-se ao lado de Esme.
— Por que você ... você deveria se sentar com a famı́lia. — Disse Esme
com uma carranca profunda.
Uma tigela de metal tocou, sinalizando que a cerimô nia estava
começando, e ele icou agradecido. Ele nã o sabia como se explicar. Ele
só precisava estar ao lado dela.
Um homem magro de ó culos, com tú nicas douradas e contas de
rosá rio budista lançou um discurso sobre perda e tempo curando todas
as feridas, e Khai se desligou das palavras. Ele nã o conseguia
respirar. Era como se algué m o tivesse apertando num abraço
invisı́vel. Ele puxou a gola da camisa, mas nã o usava gravata e os botõ es
superiores nã o estavam presos. Ele nã o deveria se sentir assim.
As câ meras piscavam de vez em quando, e os cinegra istas ilmavam o
discurso enquanto a multidã o ouvia com muita atençã o. Sua tia
convidou um monge famoso do sul da Califó rnia para o pagode, e foi
uma grande honra tê -lo falando sobre Andy. Khai, no entanto, desejou
que ele parasse. Toda vez que ouvia o nome de seu primo, essa
sensaçã o sufocante piorava.
Era como o casamento de Sara, exceto que seus olhos estavam
ardendo e sua pele formigando, como sangue voltando depois que a
circulaçã o foi cortada. Que porra estava acontecendo?
A tigela de metal tocou novamente, e inú meras vozes desa inadas
cantaram palavras incompreensı́veis. Incenso, canto, rostos sombrios,
Andy. Ele já havia experimentado tudo isso antes, mas desta vez foi
diferente. Ele teve tempo de absorver e processar. Muito tempo.
E agora as barreiras em sua mente caı́ram, inundando-o em
confusã o. O vazio dentro dele se expandiu. A sensaçã o de
saudade cresceu até dominá -lo. As memó rias de Andy inundaram sua
cabeça, uma infâ ncia juntos, a escola juntos, e aquela noite, quando ele
esperou e esperou Andy aparecer. E ele nunca apareceu. A garganta de
Khai deu um nó , seus pulmõ es doeram, sua pele icou vermelha.
Uma pequena mã o pressionou a manga da sua jaqueta e viajou pelo
braço para descansar sobre os nó s dos seus dedos. Ele apertou a mã o
de Esme com força, e ela olhou para ele como se ela entendesse. Mas
como ela poderia, quando ele mesmo nã o entendia?
— Vamos lá — ela sussurrou. — Vamos lá para fora.
Ele levantou-se, distraindo-se da frase do orador das celebridades, e
sua mã e apontou uma carranca desaprovadora para ele. Esme ignorou
todos e puxou sua mã o até que ele a seguiu até o lago de carpas do
pagode.
— Sente-se, Khai, você está mal. — Ela o direcionou para um banco de
pedra com vista para a á gua. Ele se sentou e ela afastou os cabelos da
testa pegajosa com dedos frios e macios. — Você precisa de á gua.
Quando ela tentou se afastar, ele passou os braços em volta da cintura
dela e a abraçou. — Nã o vá .
— Tudo bem. — Disse ela, e o puxou para que ele descansasse a
bochecha contra o seu peito. Os dedos dela alisaram seus cabelos e ao
longo de sua mandı́bula desalinhada.
Ele a respirou. Ela cheirava um pouco diferente do que costumava,
como se tivesse trocado o amaciante para a roupa, mas ele encontrou o
perfume feminino reconfortante por baixo de tudo. O cheiro dela. O
perfume de mulher, pele limpa e Esme.
As cinzas do incenso desapareceram lentamente de seus sentidos, e
ele deixou tudo escapar, exceto ela. O mal-estar retrocedeu. Ele podia
respirar novamente. As pessoas começaram a passar, algumas no inı́cio,
mas gradualmente mais. Ainda assim, ele nã o a deixou ir. Ele precisava
de seu toque, seu cheiro, as batidas constantes de seu coraçã o, ela.
— My — disse sua mã e, fazendo Esme endurecer contra ele. — Venha
me ajudar com... oh, nã o importa. Vou pedir a Quan que me ajude. — Os
passos de sua mã e rapidamente se afastaram.
Esme passou os dedos pelos seus cabelos antes de perguntar: —
Temos rolinhos de ovo aqui. Quer um pouco?
— Nã o estou com fome. — Seria algo catastró ico ir para longe dela
agora. Ele era como um animal ferido que encontrara uma tré gua da
dor de seus ferimentos. — A menos que você os queira?
Ela riu um pouco. — Nã o, eu já comi demais. — Ela passou os dedos
pela bochecha á spera de Khai.
Ele havia pensado que nunca teria isso novamente, entã o ele deixou
suas pá lpebras fecharem quando absorvia seu toque. Ela era melhor
que a luz do sol e o ar fresco.
O tempo passou, ele nã o sabia quanto, e sua mã e voltou e disse: —
Você s dois deveriam ir. Khai, leve a My até em casa para mim, ha?
— Cô , eu posso ajudar a limpar. — Esme se afastou dele, e ele
reprimiu um protesto. Ele queria agarrá -la pelos braços e envolvê -la de
volta como um cachecol. — Tê m muitos contê ineres e…
— Nã o, nã o, nã o, está tudo resolvido. As pessoas estã o saindo
agora. Vá para casa — sua mã e disse, acenando com desdé m para
eles. — Você vai levá -la, ha, Khai?
A boca de Esme se abriu como se ela quisesse falar, e ele rapidamente
disse: — Sim, eu vou.
— Bom, bom. — Sua mã e saiu apressada.
Ele se levantou do banco e respirou fundo. Sua cabeça pulsava, mas
ele nã o se sentia tã o bem há dias. — Vamos entã o.
— Você está melhor? Podemos esperar. — Ela disse.
— Sim, eu estou melhor. — Um pouco dolorido e machucado por
dentro, mas melhor. Praticamente do jeito que ele se sentia enquanto
estava doente por dias e sua febre inalmente cedeu. Exceto que ele
nunca teve febre.
Enquanto caminhavam para o carro, ele estava intensamente
consciente da distâ ncia respeitosa entre eles. Ela manteve os dedos
entrelaçados, e os ombros estavam tensos enquanto ela se concentrava
no caminho à frente. Apenas duas semanas atrá s, eles teriam dado as
mã os. Apenas duas semanas atrá s, ela estava apaixonada por ele.
Duas semanas eram su icientes para se desapaixonar por algué m?
Isso fazia dele um bastardo ganancioso, mas ele queria o amor dela.
Ele queria ser o “ú nico” dela, o destinatá rio de seus sorrisos, a razão de
seus sorrisos, sua droga. Ela era a dele.
Depois de tudo isso, icou claro que ele nã o estava gripado. Ele estava
passando por uma abstinê ncia, e era muito pior do que ele havia
imaginado originalmente. Ele tinha que encontrar uma maneira de
fazê -la icar.
Eles entraram no carro dele, e ele ligou a igniçã o e apoiou os dedos no
volante. — Onde você mora agora?
Ela olhou para as mã os irmemente entrelaçadas. — O pré dio que
aluga kitnets por mê s lá perto do restaurante.
Seu intestino torceu, e uma sensaçã o desagradá vel derramou sobre
sua pele. — Aquela nã o é uma parte muito boa da cidade.
— E boa o su iciente para mim.
Não era não.
Cerrando os dentes, ele deixou o pagode em San Jose e seguiu para a
casa dela pela 880N. Ele acelerou atravé s de um territó rio plano com
pré dios de escritó rios e armazé ns monó tonos e parou em um pequeno
complexo de apartamentos cinza escondido atrá s de um shopping em
ruı́nas. No caminho do carro para o apartamento dela, seus sapatos
trituraram vidro quebrado de uma garrafa de cerveja quebrada e eles
passaram por um carrinho de compras perdido de lado.
Ele apertou o botã o de trava do seu chaveiro, só por precauçã o, e
examinou a á rea em busca de garotos entediados que poderiam estar
interessados em pegar o carro ou cortar os pneus. Felizmente,
nenhum. Sua casa nã o era ó tima, mas pelo menos ele nã o precisava se
preocupar com vandalismo.
Quando ela parou em frente a uma porta no té rreo do pré dio, o
descontentamento dele aumentou. Não é seguro. Seria tã o difı́cil para
algué m invadir. Ela tinha muito cará ter, mas isso nã o era su iciente para
protegê -la contra algué m maior, mais forte e possivelmente armado. As
mã os dele começaram a suar com a ideia de um idiota invadir uma das
janelas dela e entrar para...
— Você quer entrar? — Ela perguntou, olhando por cima do ombro
para ele de dentro da porta aberta. — Você nã o parece bem.
Com seu aceno silencioso, ela abriu a porta e o deixou entrar. Era um
apartamento simples com carpete marrom, um saco de dormir no chã o
com uma pilha de livros ao lado, um armá rio quase vazio e uma
pequena cozinha de linó leo.
Ela o deixou por isso.
Ele odiava tudo sobre isso.
— Com sede? — Sem esperar que ele respondesse, ela correu para a
cozinha, encheu um copo descartá vel da torneira e trouxe para ele.
Ele bebeu a á gua, fazendo uma careta com o gosto, e devolveu o copo
para ela. Ela andou em direçã o à cozinha, claramente planejando jogar
o copo no lixo ou algo assim, e ele aproveitou a oportunidade para
segurá -la em seus braços, pressionando-a perto, o peito contra o
dele. Ela ofegou, e o copo de plá stico caiu esquecido no tapete feio.
— Casa comigo. — Ele disse.
Ela respirou fundo e seus olhos verdes procuraram o rosto dele. —
Por quê ?
Ele balançou sua cabeça. Ele nã o sabia como dizer isso. Parecia
demais. Ao mesmo tempo, nã o parecia su iciente. — Senti sua falta. —
Tanto que seu corpo havia quebrado. — Eu preciso saber que você está
segura e feliz. E eu quero você perto. Comigo.
As mã os dela se fecharam contra o peito dele, como izeram quando
ela estava lutando contra tocá -lo, e ele as cobriu com as dele e esfregou
seus dedos até que se desenrolassem.
— Volte comigo e case comigo.
— Khai… — Ela mordeu o lá bio.
Agindo por instinto e desespero, ele inclinou a cabeça e a beijou. Ela
amoleceu contra ele como sempre e pressionou-se mais perto, e seu
corpo endureceu em uma corrida eufó rica. A ideia selvagem passou por
sua mente de que se ele a beijasse e a tocasse direito, ele poderia
confundir seus sentidos a ponto de ela dizer sim por acidente. E porra,
ele a levaria a isso.
— Case comigo.

•••

O beijo de Khai. O toque de Khai. As mã os dele varrendo o corpo dela,


exigentes, possessivas, fazendo-a derreter. Ela tentou icar longe dele,
mas sua intensa tristeza durante o aniversá rio de morte a
preocupou. Ela nã o sabia como estar lá para ele, mas isso, ela sabia
exatamente o que fazer com isso. Ele precisava, entã o ela deu.
Ele disse de novo. — Case comigo.
Provavelmente era uma ilusã o, mas ela ouviu eu te amo nas palavras
dele. Cada pedido a seduzia mais. O tecido frio de seu saco de dormir
encontrou suas costas, e ele a cobriu com seu corpo. Uma palma á spera
deslizou sob o vestido, subiu pela coxa e a envolveu entre as
pernas. Dedos conhecidos a acariciaram, e ela encharcou o tecido de
sua calcinha.
— Case-se comigo. — Ele sussurrou contra os lá bios dela.
— Khai...
Antes que ela pudesse terminar de falar, ele empurrou o vestido para
cima dos seios e deleitou-se, provocando um forte choque de prazer dos
mamilos diretamente ali entre as coxas dela. A mã o dele deslizou na
calcinha dela, e as pontas dos dedos escorregadias a esfregaram ali,
tirando sua capacidade de pensar. O que ela estava prestes a dizer? Ela
nã o conseguia se lembrar. Ela estava perdida no desejo - dela e dele. Ele
nunca esteve tã o fora de controle, tã o desesperado.
Ele beijou o corpo dela com lambidas famintas, pequenos beliscõ es e
mordidas, e arrepios tremeram sobre ela com cada espetada da barba
dele em sua caixa torá cica, sua barriga, seus quadris. Isso era novo, mas
ela gostou. Ele arrancou a calcinha dela com impaciê ncia e fechou a
boca em seu sexo, e ela apertou com força.
Sua proposta repetida ecoou em sua cabeça. Ele veio para ela em seu
momento de necessidade e a deixou entrar. Ele a amava, ela sentiu, e o
conhecimento desse fato a impulsionou direto para a borda com um
gemido assustado.
Ele olhou para ela surpreso. — Eu só te lambi uma vez.
— Khai. — Ela choramingou, passando os dedos nos cabelos dele e o
direcionando de volta para onde ela o queria. Ele nã o podia parar, ainda
nã o. Se ele parasse, ela...
Um sorriso largo se estendeu sobre seus lá bios antes que ele a
chupasse de volta em sua boca, e as convulsõ es a rasgaram. Ela
balançou contra o rosto dele, repetidas vezes, até que os tremores
secundá rios se afastaram, e entã o ele a estava aproximando e
pressionando beijos na tê mpora, na bochecha e na mandı́bula.
— Casa comigo — ele disse com uma voz grave.
Ela ouviu de novo. Eu te amo.
Ele procurou os lá bios dela e acariciou sua lı́ngua profundamente
enquanto segurava seus quadris e a pressionava contra sua dureza. —
Diga sim.
Seu corpo amoleceu em prontidã o. Sim, ela o queria. Sim, ela o
amava. Sim, ela queria se casar com ele. Ela apertou a generosa
protuberâ ncia entre as pernas dele e exigiu: — Diga que me ama. — Ela
tinha que ouvi-lo dizer isso. Ela merecia ouvir.
Ele apertou os quadris contra a mã o dela quando um som rouco
escapou de sua garganta.
Ela abriu o zı́per, capturou seu comprimento irme na palma da mã o e
beijou sua boca inchada suavemente. — Diga uma vez. Apenas uma vez.
Uma vez é o su iciente.
Seus pulmõ es sopraram quando ele olhou profundamente em seus
olhos. — Senti sua falta.
Ela o acariciou, passando a mã o na base do sexo dele e de volta na
ponta.
— E?
Ele engoliu em seco. — Eu quero você .
Ela colocou uma perna em volta do quadril dele e tocou a cabeça de
seu sexo nas dobras molhadas. Isso o faria dizer isso. — E?
Ele estremeceu e seus olhos icaram escuros. — Eu preciso de você .
— E? — Sua garganta inchou quando a decepçã o ameaçou. Diga,
apenas diga. Por que ele nã o dizia?
O arrependimento varreu seu rosto, e ela se afastou dele e sentou-se,
puxando o vestido para baixo para cobrir sua nudez. Ele nã o a deixou
entrar, a inal. Ela estava fazendo amor com ele novamente quando era
apenas sexo para ele, e isso a fazia se sentir horrı́vel, barata e
pequena. Ela queria fugir, mas este era o apartamento dela. Ela pagou
por este lugar com seu pró prio dinheiro suado.
— Você deveria ir. — Disse ela, orgulhosa que as palavras saı́ram
equilibradas.
Rosnando o nome dela, ele se levantou e passou os dedos pelos
cabelos em frustraçã o. Sua excitaçã o se destacava orgulhosa e ansiosa, e
a visã o era su iciente para fazer seu sexo doer de desejo.
Ela abraçou os braços com força contra o peito e se afastou dele. —
Por favor, feche a porta atrá s de você .
Houve uma longa pausa antes que um som alto fechasse o silê ncio. Ela
ouviu os pé s pisarem no tapete, ouviu-o se abaixar para calçar os
sapatos e entã o a porta rangeu quando se abriu e fechou.
Quando o motor do carro roncou, ela trancou a porta, entrou no
banheiro e ligou a á gua quente do chuveiro. Foi a vez dela de se lavar
dele e deixá -lo insatisfeito. Ela se recusou a chorar. Se ele nã o a amasse,
algué m amaria. Ela nã o iria se contentar com um amor unilateral. Nã o
nesta vida. Nunca.
Depois de esfregar a pele até um vermelho vivo, ela saiu do chuveiro,
vestiu-se e veri icou seu e-mail. Lá estava. Um e-mail da Srta. Q. Uma
faculdade comunitá ria local estava considerando ela. Isso parecia
perfeito. Ela juntou suas coisas e foi à biblioteca da escola, para poder
preencher a solicitaçã o e enviá -la o mais rá pido possı́vel.
Ela nã o podia ter Khai, mas nã o precisava dele. Ela iria ganhar o seu
caminho sozinha, e isso era um bilhã o de vezes melhor.
CAPÍTULO VINTE E CINCO

Ele deveria ter mentido.


Khai mentalmente se chutou no caminho para casa. Eu, amo,
e você eram apenas palavras, e nã o era como se ele nunca tivesse
mentido antes. Ele disse à tia Dı̀ Anh que gostava do suco de aloe vera
que ela fazia. Ele nã o gostava. Ele nem tinha certeza de que era
comestı́vel. Era viscoso e lhe dava cã ibras todas as vezes.
Se ele mentisse, ele poderia ter Esme por trê s anos. Ele precisava
daqueles trê s anos. Desesperadamente. Ele jurou que nã o a manteria
permanentemente. Ele nã o faria isso com ela. Apenas trê s anos. Ele
deveria praticar dizendo as palavras, virar o carro e mentir para ela
imediatamente. Nã o era tarde demais.
— Eu. — Ele pigarreou e tentou a segunda palavra, mas nã o
saiu. Depois de dirigir por mais um tempo, ele apertou a alavanca de
câ mbio com mais força e disse: — Amo, caramba. Amo, amo, amo.
Porra, seu coraçã o estava batendo forte, e o suor se destacava em sua
pele, e ele se sentia absolutamente absurdo. Nã o daria certo se ele
tivesse que dizer as palavras com cinco minutos de diferença.
Ele se forçou a dizer: — Eu amo. Eu amo. Eu amo. Eu amo.
Alarmes soaram em sua cabeça. Mentira. O suor escorria pelo lá bio
superior e escorria pelo pescoço, e faı́scas azuis lutuavam sobre seu
campo de visã o.
Certo, ele tinha que parar ou sofreria um acidente de carro. Ele
praticaria mais tarde.
Quando chegou em casa, no entanto, a Ducati preta de Quan estava
estacionada no ponto habitual de Khai no meio– io. E a garagem estava
aberta.
Mas. Que. Porra.
Ele guinchou na entrada da garagem, acionou o freio de emergê ncia e
girou a chave na igniçã o antes de saltar do carro.
— O que você está fazendo? — Ele perguntou enquanto marchava em
direçã o à garagem, onde Quan estava ao lado da motocicleta de
Andy. Ele jogou a lona e colocou o capacete preto no banco.
— Está na hora de você se livrar dessa moto barata. — Disse Quan,
dando–lhe um olhar irme.
Khai apertou as mã os enquanto seus mú sculos icavam rı́gidos. —
Nã o.
— Você está pronto agora.
— Nã o.
— Ok, entã o monte. — Disse Quan.
— Nã o. — Khai caminhou até a bicicleta e pegou a chave na igniçã o.
Antes que ele pudesse arranca–la, Quan agarrou seu pulso com força
e encontrou seu olhar. — Eu sei por que você a está afastando, embora a
ame.
—Eu. Nã o. A. Amo. — Ele disse entre dentes.
O queixo de Quan caiu. — Como você pode dizer isso? Você
estava lá hoje. Foi você quem a segurou como se estivesse
desmoronando, e ela foi quem o manteve inteiro. Ela era exatamente o
que você precisava. Porque você a ama, e ela te ama de volta, seu merda.
Ele repetiu: — Eu. Nã o....
— Você ama — disse Quan. — Mas você tem coisas estranhas
acontecendo na sua cabeça. Você se sente responsá vel por Andy ou algo
assim? Culpado? Você tem medo de perde–la, entã o você a afasta? O que
é isso? Descubra hoje porque ela vai embora em uma semana e você vai
se arrepender para sempre.
Khai balançou a cabeça quando seu cé rebro soluçou. Isso nã o estava
certo. Isso nã o fazia sentido. Aquele nã o era ele.
E foda–se, restava apenas uma semana.
— Por que você nã o anda na bosta da moto? — Quan perguntou.
Khai olhou para a parede. — Você tem 5,5 vezes mais chances de
sofrer um acidente fatal em uma motocicleta do que em um carro.
— Essa ainda é apenas uma chance de 0,07%. Temos uma chance
maior de morrer pela comida da mamã e.
Khai piscou. — Você se lembra do nú mero exato?
Quan revirou os olhos e jogou as mã os no ar. — Sim, eu sei ler e
lembro de alguma merda. Na verdade, sou meio inteligente.
— Andar de moto nã o é inteligente.
Quan lançou um olhar aguçado para ele. — As vezes, as coisas que as
pessoas fazem e acreditam nã o fazem sentido. Eu me sinto mais vivo
quando posso morrer. E você , está convencido de que nã o tem
sentimentos, e a coisa responsá vel a fazer é evitar as pessoas.
— E assim que as coisas sã o. — Disse Khai.
— Nã o, é besteira. Para onde Andy estava indo quando foi atingido
por aquele trailer?
Khai olhou para os arranhõ es profundos na motocicleta. Aqueles
haviam acontecido na noite do acidente. — Ele estava vindo me ver.
— Por quê ?
Khai inclinou a cabeça quando seu peito se esvaziou e cedeu para
dentro. — Porque eu pedi para ele. Eu queria sair.
Merda, esse sentimento horrı́vel era culpa. Ele tinha um nome para
isso agora.
— E você , nos ú ltimos dez anos, convidou algué m para visitá -lo? —
Perguntou Quan.
Khai balançou a cabeça. — Mas é porque eu nã o preciso de pessoas
por perto. Eu nã o ico solitá rio.
— O cara que convidou Andy porque nã o queria icar sozinho nã o ica
solitá rio? — Quan perguntou. — Como está indo a gripe para
você ? Você já teve febre?
Khai encarou o irmã o insubordinadamente. Ele nã o queria falar sobre
a febre que nunca teve.
Quan arqueou uma sobrancelha. — Entã o você vai contar a ela agora?
— Contar a ela o que?
— Que você é embaraçosamente apaixonado por ela, é isso. — Disse
Quan em um tom exasperado.
— Quantas vezes tenho que lhe dizer que não estou apaixonado por
ela?
Quan esfregou a cabeça por um momento antes de respirar fundo e
considerar Khai com renovada paciê ncia. — Como você sabe?
Khai piscou. — Como sei que nã o estou apaixonado?
— Sim, como você sabe que nã o está apaixonado?
— Eu sei porque nã o posso amar. — Ele já havia repassado isso e nã o
gostava de se repetir.
— Entã o, tipo, você nunca pensa nela? — Quan perguntou.
— Nã o, eu penso.
— E você nã o se importa com ela? Tipo, se ela estiver triste, você nã o
dá a mı́nima?
— Nã o, eu me importo. — Disse Khai.
— E você nã o levaria um tiro por ela? — Quan perguntou.
— Nã o, eu levaria. Mas você també m. E a coisa certa a fazer.
— Você nã o gosta de estar com ela mais do que com as outras
pessoas? Você poderia trocá -la por outra pessoa sem arrependimentos?
Khai fez uma careta para o irmã o, nã o gostando de como ele estava
manipulando as perguntas. — Nã o, eu gosto muito de estar com ela e
nã o a trocaria por mais ningué m.
Quan lançou–lhe um olhar inexpressivo. — Aposto que o sexo é uma
merda.
— Nã o é da sua conta como é . — Memó rias de menos de uma hora
atrá s tocaram em sua mente, Esme vindo contra sua boca, gemendo seu
nome, esfregando o pau dele sobre seu sexo molhado. — Mas nã o é uma
merda.
— Bastardo de sorte. — Quan murmurou. — Espero que você
perceba quando diz todas essas coisas sobre algué m, isso signi ica que
você está completamente apaixonado pela pessoa.
Khai se afastou da motocicleta, abandonando as chaves de Quan. —
Eu realmente nã o estou. — Amor e vı́cio sã o coisas diferentes.
— Oh, vamos lá , Khai — Quan explodiu.
— Estou indo tomar um banho. Depois de decidir o que está fazendo
com a motocicleta, feche a garagem.
Ele escapou para sua casa pela entrada da garagem. Uma vez dentro,
ele tirou os sapatos, levou–os para a porta da frente e sentou–se no
sofá , apoiando os cotovelos nos joelhos e enterrando o rosto nas palmas
das mã os. Atravé s das fortes batidas do coraçã o, ele ouviu a porta da
garagem se fechar e a Ducati de Quan rugir à vida. O som alto do motor
retrocedeu e desapareceu completamente.
Sozinho de novo.
Ele nã o estava solitá rio, no entanto. Ele gostava disso.
Gostava nã o era a palavra certa. Ele estava acostumado a isso. Bem,
ele costumava estar. Até Esme aparecer.

•••
Na segunda–feira, Esme recebeu um e–mail da srta. Q dizendo que o
colé gio da comunidade tinha recebido seus resultados dos testes, e sua
aplicaçã o estava sendo analisada rapidamente por sua recomendaçã o.
Isso estava realmente acontecendo. Ela tinha uma chance de obter
uma educaçã o universitá ria e mudar sua vida para sempre. Tudo por
seus pró prios mé ritos. A esperança cresceu para proporçõ es
gigantescas, e esse sonho de ser algué m a possuı́a. Ela queria isso para
si e para seu bebê . Quã o maravilhoso seria mostrar a Jade do que ela
era capaz, dando exemplo.
Os dias seguintes passaram em uma né voa ansiosa, onde ela alternava
entre extrema con iança e profundo desespero. Ela encontrou as
informaçõ es de contato de um advogado de imigraçã o que poderia –
esperava – ajudá -la a trazer Jade e sua famı́lia aqui durante a duraçã o
de seus estudos, mas ela nã o ligou para ele. Só ligaria se tivesse a bolsa
de estudos.
Na quarta–feira, seu celular tocou no bolso de seu avental enquanto
ela estava pegando um pedido, e ela sabia que era um e–mail. Ela estava
ocupada demais para checar, mas o e–mail estava pesado no fundo de
sua mente enquanto ela trabalhava durante a correria da hora do
almoço. Enquanto ela dirigia os pedidos de volta para a cozinha, seu
sangue zumbia de emoçã o. Era uma bolsa de estudos completa, e ela
estava a caminho de ser Esme da Contabilidade de verdade e cuidar de
sua famı́lia sozinha. Enquanto ela carregava bandejas de comida para as
mesas, seu coraçã o caiu. Era uma rejeiçã o, e ela estava indo para casa
com pouco para mostrar pelo seu tempo aqui.
Ida e volta. Ida e volta.
Quando o ú ltimo cliente saiu, en iando uma gorjeta fantá stica de vinte
dó lares debaixo do copo de á gua vazio antes de piscar para ela, ela
estava nervosa. Em vez de puxar o telefone imediatamente, ela recolheu
os pratos das mesas e as limpou.
Com cada golpe de toalha molhada na mesa, ela se preparava para as
pró ximas notı́cias. Se fossem boas, ela ligaria para a mã e
imediatamente, agradeceria a Srta. Q e agendaria uma consulta com o
advogado de imigraçã o. Se fossem ruins, estava tudo bem. Havia bons
aspectos em sua vida em casa, e ela manteria os olhos abertos para
outras oportunidades.
Mas “Esmeralda Tran, estudante universitá ria” nã o tinha um toque
legal? Ela seria uma boa estudante universitá ria. Ela estudaria como
estudou esse verã o. Ela mereceria cada dó lar da bolsa estudantil e, mais
tarde, faria algo de si mesma.
Quando a ú ltima mesa estava limpa, ela tirou o telefone do avental,
sentou-se em sua cabine usual e digitou sua senha no telefone com
dedos trê mulos. Sua caixa de entrada continha um novo e-mail do
colé gio da comunidade com o tı́tulo de assunto — Em relaçã o a seu
pedido de bolsa de estudos. — A pré -visualizaçã o do texto dizia: —
Prezada Sra. Tran, seu pedido foi revisado exaustivamente por...
Isso era bom ou nã o? Poderia ir de qualquer maneira a partir daı́.
Seu coraçã o disparou, o sangue correu para sua cabeça e sua boca
icou seca. Ela estava com medo de abrir e ler mais. Talvez ela devia...
excluir o e-mail. Ela estaria no controle de seu fracasso, em vez dessas
pessoas que nã o a conheciam. Eles a julgavam com base em alguns
resultados dos testes e em alguns ensaios que ela escrevera em uma
tarde. Isso nã o era o su iciente para medir o valor de uma pessoa.
Ela limpou essa bobagem da cabeça e se repreendeu por ser uma
covarde. Ela tinha que olhar. Isso poderia ser tudo para ela, sua famı́lia e
sua garota. Depois de respirar fundo e enviar uma oraçã o ao cé u, Buda
e Jesus també m, abriu o e-mail.

Cara Srta. Tran,

Sua inscrição foi cuidadosamente revisada pela equipe da Faculdade


Comunitária de Santa Clara.

Nossa bolsa internacional de estudantes se vê numa concorrência


extremamente alta a cada ano e, como tal, só pode ser concedida aos
alunos mais exemplares com potencial acadêmico comprovado.

Embora parabenizemos o seu desempenho no exame GED, após uma


análise cuidadosa da sua inscrição, lamentamos informar que não
podemos oferecer esta bolsa de estudos. Desejamos–lhe boa sorte em
seus futuros empreendimentos.

Respeitosamente,
Faculdade Comunitária de Santa Clara
Ela respirou fundo. E continuou respirando fundo. Os olhos dela
embaçaram e o rosto queimava, e os pulmõ es ameaçavam
estourar. Quando ela expirou, ela perdeu mais do que o ar. Ela exalou
seus sonhos e suas esperanças, e seu corpo caiu sobre si mesmo.
Gotas caı́ram sobre a mesa recé m-lavada e ela as deixou cair. Ela foi
avaliada, considerada de pouco ou nenhum valor e descartada. Isso
continuava acontecendo com ela. De novo e de novo e de novo. E ela
estava tã o cansada agora. Tã o cansada.
Como você mudava sua vida quando estava presa assim? A histó ria
dela nã o a de inia. Suas origens nã o a de iniam. Pelo menos nã o
deveriam. Ela poderia ser mais, se tivesse uma chance.
Mas as pessoas nã o viam quem ela era por dentro. Eles nã o sabiam. E
ela nã o tinha como mostrá -los sem uma oportunidade.
Os sinos na porta tocaram e ela olhou para cima a tempo de ver Quan
caminhar até a mesa. Ele usava uma jaqueta de moto por cima de uma
camiseta de grife e jeans e dominava o restaurante com seu corpo
grande e grande presença.
Ele olhou para ela e seu rosto se enrugou de preocupaçã o. — Oh
inferno, o que há de errado? — Ele olhou para a cozinha. — Foi minha
mã e? Ela gritou com você ? Eu falo com ela. — Ele se dirigiu para lá e ela
se apressou a passar um braço sobre o rosto.
— Nã o, nã o, nã o foi Cô . — Ela respirou irregularmente e se
levantou. Empurrando um sorriso nos lá bios, ela perguntou: — Quer
alguma coisa? Agua? Café ? Coca Cola?
— Nã o, eu estou bem. Você deveria sentar. Você parece... — Ele
balançou a cabeça sem terminar, conduziu-a de volta para a cabine e
sentou-se em frente a ela. — O que aconteceu? — Quando ela nã o
respondeu imediatamente, ele perguntou: — Algo com Khai? Eu meio
que pensei que você s dois voltariam a se ver esta semana. Eu tive uma
conversa com ele.
Ela colocou um sorriso experiente nos lá bios e balançou a cabeça. —
Nã o, nã o estamos juntos. — Ela tocou as bordas de seu telefone com
mais precisã o -telefone de Khai, ela iria dar-lhe de volta antes de sair.
— Ele nã o ligou para você ou algo assim? — Quan perguntou.
Ela a inou os lá bios. — Nã o. — Ela teria atendido se ele tivesse? Ela
sabia que ele nã o iria lhe dizer o que queria ouvir, mas també m nã o
pô de deixar de se preocupar com ele. A cerimô nia no domingo o abalou
de uma maneira que ela nunca tinha visto antes. — Como ele está ?
Quan esticou a cabeça de um lado para o outro e esfregou a parte de
trá s do pescoço tatuado. — Essa é a grande questã o, nã o é ? Ningué m
sabe. Acho que ele nã o sabe.
Ela nã o sabia o que dizer sobre isso, entã o olhou para o telefone.
— Por que as lá grimas? — Ele perguntou, soando tã o gentil que ela
quase começou a chorar novamente.
— Algumas notı́cias. Eu sabia que eram ruins, mas tinha esperança de
qualquer maneira, e entã o... — Ela encolheu os ombros.
— Notı́cias sobre o que?
— Bolsa de estudos, para ir para a faculdade aqui. Eu nã o consegui. —
Ela tentou o má ximo que pô de para manter seu tom leve e uniforme,
mas sua voz tremeu no inal de qualquer maneira.
— Esse era o seu plano? Conseguir uma bolsa e visto de estudante? —
Ele perguntou.
Ela assentiu com a cabeça e colou um sorriso determinado no rosto,
preparando-se para o caso de ele rir dela como as pessoas da faculdade
comunitá ria provavelmente tinham.
— Khai ama você , você sabe. — Disse Quan.
Ela icou rı́gida como se um raio a tivesse atingido, e seu coraçã o
pulou uma batida, duas batidas. — Ele te disse isso?
— Nã o — ele disse com uma torçã o dos lá bios. — Ele nã o me disse
isso. Bem, nã o com palavras. Mas eu sei. Você sabe que ele é autista,
certo?
Aquela palavra. Ela se lembrava de ter ouvido antes. — Sim, ele me
disse.
Ele procurou o rosto dela. — Você sabe o que isso signi ica?
Ela mexeu no telefone desconfortavelmente. Para ser sincera, ela nã o
tinha pensado muito nisso. — Eu pensei que talvez -o toque. Existe uma
maneira de fazer isso.
— Isso faz parte, mas há mais. A mente dele é diferente – nã o, nã o é
uma doença. A maneira como ele pensa e també m a maneira como
processa emoçõ es nã o é como a maioria das pessoas. — Isso a fez
parar. Sim, ele era diferente, mas suas diferenças nã o eram obstá culos
insuperá veis. Pelo menos, ela nã o sentia que eram. Para ela, Khai era
apenas Khai, e ela o aceitou do jeito que ele era.
A coisa que ela ainda nã o tinha sido capaz de aceitar era o fato de que
ele nã o a amava, que ele nã o aceitou ela.
Como se ele pudesse ler sua mente, Quan disse: — Khai ama você . Ele
apenas nã o descobriu ainda.
Ela teve di iculdade em acreditar nisso. O amor nã o era
complicado. Você sentia ou nã o. Nã o havia nada para - descobrir -.
O olhar de Quan se tornou penetrante e ele perguntou: — Você quer
descobrir de uma vez por todas se ele a ama? Eu sei como.
Seu orgulho disse a ela para dizer nã o, ela tinha lhe dado chances
su icientes. Mas seu coraçã o tinha que saber. Sentindo-se vulnerá vel,
ela disse: — Sim, como?
Ele a olhou diretamente nos olhos e disse: — Se nã o der certo, você
acabará casada comigo. Disposta a jogar?
CAPÍTULO VINTE E SEIS

Khai olhou para o Convite Eletrônico em seu celular, aturdido. Ele tinha
que estar sonhando – nã o, nã o sonhando, tendo um pesadelo. Isso nã o
poderia ser real.

VOCE ESTA SENDO CORDIALMENTE CONVIDADO AO

Casamento de Esmeralda e Quan


Sábado, 8 de agosto
11:00 – 15:00
San Francisco, CA

POR FAVOR CONFIRMAR ATE 7 DE AGOSTO

Quem diabos enviava seus convites na mesma semana do


casamento? Ningué m, isso sim. Ele ainda estava na cama, abraçando o
travesseiro de Esme, porque cheirava a ela. O perfume estava
desaparecendo, e ele nã o sabia o que faria quando desaparecesse
completamente. Começar a abraçar a roupa suja que ela deixou para
trá s, talvez.
Seu telefone tocou enquanto ele olhava para o convite.
Quan.
Ele apertou o botã o de falar imediatamente. — Acabei de receber seu
convite.
Quan riu, o ilho da puta.
— Nã o é engraçado. — Disse Khai, mas seu alı́vio foi quase
estonteante. Era apenas uma piada.
— Nã o era para ser — disse Quan. — Nó s realmente vamos nos casar
no sá bado.
As palavras de seu irmã o atingiram Khai como um soco no estô mago,
e ele afundou no sofá . O copo de Esme na mesa de café chamou sua
atençã o. Havia apenas uma pequena quantidade de á gua
dentro. Provavelmente secaria na mesma é poca em que ela se casaria
com o seu irmã o traidor.
— Você vai mesmo se casar? — Ele perguntou.
— Esse é o plano, sim.
— Com Esme. — Sua Esme.
— E isso ou vê -la ir embora no domingo — disse Quan. — Isto é
principalmente para conseguir um green card para ela, mas eu
realmente gosto dela. Estou vendo isso como um perı́odo de
teste. Quem sabe, talvez dê certo, e vamos tentar.
Aquela sensaçã o de soco piorou e Khai agarrou a borda do sofá com a
mã o livre e apertou até que os nó s dos dedos icaram brancos.
— A menos que você faça isso. — Acrescentou Quan.
— Eu já pedi a ela.
— Você sabe o que tem que fazer se quiser que ela diga sim.
— Eu. Nã o. A. Amo. — Ele resmungou. Por que as pessoas
continuavam insistindo com isso? Nã o era como se ele gostasse de dizer
que nã o a amava. Ele queria amá -la. Ele simplesmente... nã o amava.
— Você já se livrou da moto? — Quan perguntou em um tom casual.
Os mú sculos de Khai se apertaram até os vasos sanguı́neos em seu
braço incharem. — Nã o.
— Talvez você deva fazer isso. — Khai abriu a boca para discutir, mas
antes que ele pudesse falar, Quan disse: — Eu tenho que ir, mas você
vem no sá bado, certo?
— Sim. — Disse Khai.
— Otimo. Vejo você entã o.
A linha se desconectou e a gravidade na sala o puxou ainda mais para
baixo.
Nã o era apenas uma dança ou uma noite. Isso era casamento. Esme ia
se casar com Quan. Ela estaria dividindo seu apartamento com ele,
talvez até sua cama por causa dos pesadelos, sorrindo para ele todos os
dias, preenchendo seu silê ncio, lendo seus livros de contabilidade.
Ela se apaixonaria por Quan. Se ela pô de se apaixonar por Khai,
ela de initivamente se apaixonaria por Quan. E Quan a amaria de
volta. Quan seria excelente para ela.
Porra, ele nã o queria que seu irmã o fosse excelente para Esme.
Ele pressionou as palmas das mã os nos orifı́cios dos olhos até que
doessem, entã o deixou as mã os caı́rem, mas entã o ele estava olhando
para o copo dela novamente. Restava apenas um milı́metro ou dois de
á gua e, quando secasse, a probabilidade de ela vir enchê -lo era
basicamente zero.
O que ele deveria fazer? Ele nã o podia deixá -la ir e nã o podia se casar
com ela. Mas ele també m nã o podia deixá -la se casar com
Quan. Nenhuma das opçõ es disponı́veis era aceitá vel.
Ele apertou a mandı́bula e se levantou. Isso signi icava que ele tinha
que encontrar outra opçã o. E ele sabia exatamente qual.

•••

Amanhã seria o grande dia, e Khai nã o tinha ligado ou tentado ver
Esme sequer uma vez.
Se ele estava disposto a deixá -la se casar com seu irmã o, ele nã o devia
estar com ciú mes.
Quan estava errado.
No momento em que ela pensou nele, Quan entrou no
restaurante. Seu peito se contraiu quando viu a grande capa de terno
jogada por cima do ombro dele.
Ela podia adivinhar o que era aquilo, e isso fez suas palmas suarem.
Ele colocou sobre a mesa e apontou um sorriso torto para ela. — Vy
pediu isso emprestado para você .
Esme limpou as mã os no avental. Depois de olhar para ele para
con irmar que estava tudo bem, ela pegou o zı́per e puxou-o para baixo.
Pedaços acolchoados de pano saı́am da capa e ela ofegou e cobriu a
boca. Era o vestido de Vera Wang de dez mil dó lares de Sara.
Quan riu com a reaçã o dela. — Acontece que reservar locais de
casamento de ú ltima hora é muito louco. Você meio que tem que pegar
o que pode conseguir, e o que eu consegui foi o City Hall de Sã o
Francisco – o casal que a reservou teve um rompimento maciço e
cancelou ontem. Você vai querer se vestir bem.
— E um bom lugar?
— Sim, muito bom. — Disse Quan com outra risada.
Ela afastou as mã os do vestido e limpou as palmas das mã os sobre o
avental novamente. Ela sabia que ele mencionara se casar com ela se
Khai nã o descobrisse seus sentimentos, mas nã o podia ter sido
sincero. Por que ele iria querer casar com ela? Ele nã o sabia nada sobre
ela.
Enrugando seus lá bios, ela fechou a bolsa novamente. — Você deve
cancelar o casamento e devolvê -lo à Sara. Anh Khai nã o me ligou. Nã o
desperdice seu dinheiro.
― Nã o posso. Eu já paguei pela prefeitura, e sua famı́lia está a
caminho, lembra? — Seus olhos brilhavam quando ele mostrou um
sorriso inteligente para ela, distraindo-a da faı́sca de alegria
desesperada que surgiu quando ela pensou em ver sua garota depois de
tanto tempo. — Alé m disso, se você parecer feliz porque eu estou
mimando você , ele icará ainda mais ciumento.
— Mais? — Um gosto ruim encheu sua boca. Ficou claro que ele nã o
estava com ciú mes nenhum.
Quan se aproximou e inclinou a cabeça enquanto a olhava. — Ele é
morre de ciú mes de você . Você sabe disso, certo?
Ela olhou para ele sem responder.
— Eu fui sincero quando disse que me casaria com você — disse
Quan. — Seria apenas uma coisa temporá ria, de qualquer maneira. Eu
farei o meu trabalho, e você fará o seu. Quartos separados. Podemos nos
divorciar quando chegar a hora.
— Mas… —Ela balançou a cabeça em confusã o. — Por que me ajudar?
Um sorriso triste se estendeu sobre seus lá bios. — Porque eu sou o
irmã o mais velho dele, e eu preciso fazer as coisas funcionarem. —
Entã o seu sorriso se aqueceu e alcançou seus olhos. — E eu gosto de
você e quero ver você conseguir. E uma coisa pequena para eu fazer,
mas signi ica muito para você , certo?
A respiraçã o escapou dela, e tudo o que ela pô de dizer foi: — Sim.
— Era tudo para ela.
Ele empurrou o vestido de volta para ela. — Realmente, nã o é um
grande problema para mim, e minha mã e adora ter você ajudando no
restaurante. Nã o vejo nenhuma desvantagem nisso.
Tensã o acumulada dentro. Ela tinha que contar para ele. Ele merecia
saber. Ela olhou para a bolsa, sem saber se deveria puxá -la para mais
perto ou afastá -la. Dependia de como ele reagisse ao que ela ia dizer.
— Eu tenho uma garotinha. Jade. Ela está em casa. No Vietnã . Khai… —
Ela mordeu o lá bio e passou o dedo pelo zı́per. — Ele nã o sabe sobre
ela.
Quando um longo momento de silê ncio passou, ela espiou e
encontrou Quan sorrindo para ela. Ela nã o viu julgamento nos olhos
dele. — Eu gosto de crianças.
— Você gosta? — Ela disse, respirando fundo.
— Claro.
— S-Será que Khai gosta?
Ele pensou por um segundo antes de dizer: — Eu acho que ele
gostaria da sua criança.
— Você ainda quer se casar? — Ela se fez perguntar. O suor embaçava
sua pele, mas ela continuou: — Quero que ela venha morar comigo,
conosco. E a minha má e ngoai.
— Sim — ele disse com uma risada. — Vamos fazer isso. Quanto mais
melhor, certo? Na verdade, nã o importa muito para mim. Eu mal ico em
casa.
Sua garganta engasgou e ela limpou a umidade dos olhos com as
costas do braço enquanto seu corpo enfraquecia de alı́vio. — Entã o
estou feliz e grata por me casar com você . Mas nã o precisamos de um
bom casamento. — Honestamente, ela queria um casamento barato. Ela
devia a Quan pelo resto da vida e nã o queria adicionar um casamento
caro à sua conta.
Ele balançou a cabeça para ela. — Eu posso ver que você está se
preocupando. Nã o se preocupe.
— Mas...
— Está tudo muito bem, Esme. — E desta vez, havia uma ponta dura
em seu tom e expressã o.
Ela assentiu. — Ok, nã o vou me preocupar. — Mas isso era mentira.
Casar com Quan era a soluçã o para todos os seus problemas. Depois
que se casasse com ele, ela poderia se inscrever nas escolas como
residente legal e trabalhar para pagar sua mensalidade. Ela nã o
precisaria de uma bolsa para seguir seu novo sonho.
Mas uma grande parte dela ainda esperava que Khai interviesse, e
temia que ele nã o o izesse. Seu futuro, mesmo que empoderado, nã o
era perfeito, a menos que ele estivesse nele. E nã o como seu cunhado.
CAPÍTULO VINTE E SETE

Hoje era o grande dia.


Khai fez tudo humanamente possı́vel para encontrar uma maneira de
sair dessa bagunça. Ele gastou dinheiro, puxou cordas, encontrou pistas
encorajadoras – se ele comprasse um cavalo de corrida, ele poderia
dizer que Esme era uma treinadora de cavalos e obter um visto especial
para ela dessa maneira – mas ele precisava de mais tempo. Ele estava
sem tempo.
O casamento é em uma hora.
Ele vestiu o smoking e estava pronto para ir, mas nã o conseguiu
entrar no carro. Aquela velha cançã o de recreio continuava girando em
sua cabeça. Esme e Quan sentados em uma árvore, B–E–I–J–A–N–D–O…
Ele perderia a cabeça se visse Esme e Quan se beijando. Ela
era sua para beijar, sua para ter e segurar, sua para...
Dele para quê ?
Ele nã o suportava olhar para o copo agora vazio na mesa de café e
fugiu. Ele nã o tinha um destino em mente, mas é claro, ele acabou lá .
Na garagem.
Ele apertou o interruptor da garagem e, quando a luz preencheu o
espaço escuro, ele avançou em direçã o à motocicleta. Partı́culas de
poeira brilhavam à luz do sol como vaga–lumes, e ele respirou o velho
mofo e o cheiro de gasolina no concreto nos pulmõ es. Por um momento,
ele fechou os olhos, deixando o cheiro leva-lo de volta a um tempo
diferente.
Ele arrancou a lona da motocicleta e passou os dedos sobre uma das
alças pretas. Textura irregular, as ranhuras que os dedos seguravam na
borracha, fria e sem vida. Sempre foi assim. Sempre
decepcionante. Assim como quando ele a empurrou para casa depois
que Esme a usou para ir ao mercado.
Ele passou as pontas dos dedos pelos arranhõ es profundos do
lado. Ele meio que esperava encontrar sangue lá , mas seus dedos nã o
encontraram nada alé m de metal duro. Contra as probabilidades, isso
era tudo o que a motocicleta tinha para mostrar sua colisã o com um
trailer de quatro toneladas. Andy nã o teve tanta sorte.
Ele tinha sido aquele 0,07 em 100 que acabou em um acidente fatal
de moto. Por causa de Khai.
Khai pediu para ele vir. Talvez pediu nã o fosse a palavra certa. Ele
disse algo do tipo: “Venha. Vamos fazer alguma coisa.”
Houve resmungos sobre a liçã o de casa da escola de verã o, e Khai
disse a ele para trazê -la e eles fariam juntos. Na verdade Khai faria o
dever de casa de Andy por ele, mas Khai nã o se importava desde que
Andy estivesse lá .
— Vejo você em breve. — Dissera Andy.
O trajeto da casa dos pais de Andy em Santa Clara até a casa da mã e
de Khai no Leste Palo Alto levava cerca de vinte e cinco minutos se você
pegasse a Via Expressa Central, e Andy sempre pegava. Ele dizia que as
á rvores o faziam sentir-se um durã o.
Mas vinte e cinco minutos se passaram. Trinta. Quarenta. Uma hora. E
ainda nada de Andy. Khai andava de um lado para o outro, preocupado
e impaciente, bravo, e folheara as pá ginas de todos os livros que
conseguira encontrar até os cantos estarem permanentemente virados
para cima como pistas de skate. Quando o telefone tocou horas depois,
um conhecimento incompreensı́vel o havia reivindicado. Ele nã o tinha
atendido. Ele icou parado, enraizado no chã o quando sua mã e atendeu
o telefone. Quando ela empalideceu e afundou no balcã o, con irmando
sua suspeita.
— Andy está morto.
A cabeça de Khai icou quieta e calma como cristal. Sem sentimentos,
sem dor, sem mais preocupaçõ es doentias, apenas pura ló gica. Naquele
momento, um padrã o havia surgido. Dois pontos formam uma linha e
você pode extrapolar a inclinaçã o e a direçã o a partir daı́. Seu pai havia
deixado a famı́lia para uma nova. Andy morreu.
Coisas ruins aconteciam quando ele se importava com as
pessoas. Mas ele realmente se importava com elas? Nã o se você
comparasse o aparente nı́vel de afeiçã o dele com os de outras pessoas.
Ele estava puxando o capacete da motocicleta sobre a cabeça e
montando antes de perceber o que estava fazendo. Uma volta da chave
na igniçã o. O barulho ensurdecedor do motor.
Ele saiu da garagem e acelerou pela rua.
Ele nã o planejava, mas suas mã os o guiaram para a Via expressa
central. Para os altos pinheiros. Luz do sol em um cé u sem nuvens. A
pressã o do vento em seu corpo. Quantas vezes Andy experimentou
isso? Centenas talvez. Antes de tudo mudar, Khai planejava comprar
uma moto para que eles pudessem fazer isso juntos. De certa forma,
eles estavam fazendo isso juntos agora. O motor abafou a batida de seu
coraçã o, mas ele sentiu por dentro. Ele sentiu tudo. Exuberâ ncia, medo,
emoçã o, tristeza. Me sinto mais vivo quando posso morrer.
Ele chegou ao local onde trê s faixas se fundiam em duas, e um calor
sufocante tomou conta dele. Seus pulmõ es doı́am, seus mú sculos
pesavam, seus olhos ardiam. Ele derrapou a moto para o lado esquerdo
e tropeçou para longe, chutando pedras e detritos até que ele pudesse
se segurar contra um pinheiro.
Este era o lugar. Andy morreu aqui. Mas nã o havia mais ita isolante,
nem entalhes profundos na estrada, nada disso. Sol, chuva e dez anos
corroeram o local do acidente, por isso parecia qualquer lugar. Assim
como o tempo havia entorpecido suas emoçõ es a ponto de seu cé rebro
poder processá -las. Nã o era nada demais.
Mas era muito. Era o aniversá rio da morte novamente. Mas agora nã o
havia Esme, e ele estava sozinho com essa tristeza. A tristeza o arrastou
e esmagou, engolindo-o. Ele arrancou o capacete para poder respirar,
mas o ar quente o sufocou. Ele passou a mã o nos cabelos e esfregou o
rosto.
E quando ele abaixou a mã o, seus dedos estavam molhados. Por um
segundo, ele pensou que era sangue, mas o luido brilhante que
brilhava à luz do dia eram...
Lá grimas.
Nã o por causa da poeira nos olhos, frustraçã o ou dor fı́sica. Essas
foram lá grimas de tristeza por Andy. Com dez anos de atraso.
Ele balançou a cabeça para si mesmo. Isso levava o conceito de
“reaçã o atrasada” a um extremo. Mas ele era um tipo extremo de
pessoa.
A inal, seu coraçã o nã o era de pedra. Simplesmente nã o era como
todos os outros. Mesmo sem as lá grimas, ele saberia. Ele reconheceu
que estava se iludindo há um tempo. Quan estava certo.
Era mais fá cil manter as pessoas à distâ ncia quando era para o
pró prio bem delas, e nã o para o dele. Dessa forma, ele chegava a ser um
heró i em vez de um covarde.
Mas agora, ele nã o se importava se era um heró i ou um covarde. Tudo
o que ele queria era ser de Esme.
Quando ele olhou para o reló gio, ele icou desanimado ao ver que era
10:22. Ele estava perdendo tempo com um episó dio emocional – ele,
emocional – e o casamento começaria em trinta e oito minutos. Ele se
atrasaria, principalmente porque era impossı́vel encontrar
estacionamento em San Francisco.
Para um carro.
Uma motocicleta, no entanto...
Ele passou a manga do rosto, vestiu o capacete, acelerou o motor e
explodiu nas ruas. Via expressa central W, 85N, 101N. Ele nunca tinha
pilotado uma motocicleta na rodovia, e isso era aterrorizante e
emocionante. Nã o havia camadas entre ele e os carros acelerando a
setenta, oitenta e noventa milhas por hora.
Mais vivo quando você pode morrer, de fato. Ele teria tentado 160
quilô metros por hora só por diversã o, mas nã o queria se esforçar
voluntariamente para chegar aos 0,07%.
Quando alcançou o longo trecho da viagem, enfrentou mentalmente o
problema em questã o: ele tinha um casamento para interromper.
E havia apenas uma coisa que faria Esme mudar de ideia. Só uma
coisa que ela queria ouvir.
Trê s pequenas palavras.
E a ú ltima vez que tentou dizê -las, quase se envolveu em um acidente
de carro. Ele poderia muito bem praticar agora, pois estava morando no
limite.
— Eu… — Ele tentou dizer a pró xima palavra, mas sua mente e corpo
resistiram teimosamente. Foi difı́cil desfazer dez anos de treinamento
em um perı́odo tã o curto de tempo. Ele forçou a palavra. — Amo.
Seu coraçã o pulou e começou a correr tã o rá pido quanto a
motocicleta.
— Eu. Amo. — Ele respirou fundo e seguiu em frente com
determinaçã o. — Eu amo. Eu amo. Eu amo. Amo, amo, amo. — O vento
roubou a maior parte do som, mas ele ainda se sentia ridı́culo falando
sozinho.
Até ele adicionar a ú ltima palavra.
— Esme. — Tudo suavizou dentro dele. — Eu amo Esme.
Isso foi bom. Isso parecia certo.
Ele esperava que nã o fosse tarde demais.
CAPÍTULO VINTE E OITO

O ponteiro dos minutos no reló gio marcava o seis. 10:30 e ainda nada
de Khai.
Esme abraçou as mã os sobre o estô mago e olhou para seu re lexo
novamente. A noiva no espelho parecia so isticada e bonita – um
vestido da Vera Wang de dez mil dó lares faria isso com qualquer uma –
e pá lida como a morte.
Khai nã o iria parar o casamento. Ela teria que se casar com o irmã o
dele.
Ela disse a si mesma mil vezes que ele nã o viria, e ainda assim, a
realidade ainda a esmagava como uma montanha. Lá grimas ameaçaram
derramar e estragar sua maquiagem, e ela rapidamente as limpou. Ela
disse a si mesma para ser feliz. Qualquer outra garota do Vietnã diria
que isso foi um sonho tornado realidade. Marido bonito, vestido de
grife, no City Hall, buquê s de lores extravagantes, toneladas de
convidados e, alé m de tudo isso, ela e sua famı́lia poderiam icar. Eles
teriam aquela nova vida brilhante que di icilmente ousariam
esperar. Ela poderia seguir seus sonhos e ser um modelo adequado
para sua ilha.
Mas era o marido bonito errado. Quan era ó timo, mas ele nã o
era Khai. Ele nã o se apressou em vê -la no consultó rio mé dico ou a
carregou para o carro depois. Ele nã o a beijou como se ela fosse
tudo. Ele nã o reservou seus melhores sorrisos apenas para ela.
Sem Khai, esse casamento parecia uma farsa, mas ela iria continuar
com isso de qualquer maneira. Ela contou tudo a Quan, desvendou seus
segredos e falhas, e ele ainda queria que ela tivesse essa
oportunidade. O governo nã o se importava com ela, nem as escolas,
nem as organizaçõ es de bolsas de estudo, mas essa pessoa sim, e à s
vezes uma pessoa podia fazer um mundo de diferença. Ela faria tudo ao
seu alcance para garantir que ele nã o se arrependesse de ajudá -la. Ela
faria a diferença neste mundo.
Ela aprumou os ombros e ergueu o queixo, sentindo a determinaçã o
queimar profundamente. Ela nã o era impressionante de nenhuma
maneira que você pudesse ver ou medir, mas ela tinha esse
fogo. Ela sentia isso. Esse era o valor dela. Ela lutaria por seus entes
queridos. E ela lutaria por si mesma. Porque ela importava. O fogo
dentro dela importava. Poderia alcançar e realizar. As pessoas podiam
menosprezá -la, mas ela estava caminhando com a maior integridade
possı́vel, com opçõ es limitadas. A mulher no espelho usava um vestido
de noiva e salto alto, mas seus olhos brilhavam com a con iança e o
impulso de um guerreiro.
Se isso nã o era elegante, ela nã o sabia o que era.
— Má.
Esme se afastou do espelho quando um pequeno corpo se lançou
sobre ela. Braços em volta da cintura, e seu coraçã o explodiu com
incandescê ncia. Ela levantou a garota e a abraçou com força, apertando
as bochechas como sempre fazia, e esse enorme amor loresceu dentro
dela. Cheiro de bebê , pele macia, corpo pequeno – bem, nã o tã o
pequeno agora.
— Aqui está a minha garota.
O rostinho aconchegou-se perto, e por cima do ombro de sua garota,
Esme viu sua mã e e avó entrarem no quarto.
Elas tinham acabado de chegar do Vietnã no dia anterior e deviam
estar cansadas e sofrendo com o fuso-horá rio, mas as duas vestiram
suas roupas mais extravagantes e estavam sorrindo de orelha a orelha
com entusiasmo. A mã e dela estava até usando maquiagem. Esme
nunca a tinha visto tã o bonita e, de repente, icou feliz por Quan ter
decidido ter um casamento tã o extravagante. Os casamentos eram tanto
para as famı́lias quanto para os noivos, talvez mais.
— Solte sua mã e. Você vai estragar o vestido dela. — Disse a mã e
enquanto pedia a Jade que descesse. Entã o ela abraçou Esme com força,
e Esme nã o pô de deixar de sentir o cheiro suave de molho de peixe nas
roupas e cabelos de sua mã e e sorrir. Esme tinha que estar meio
americanizada agora se conseguiu detectar esse perfume. Ela nã o se
importava, no entanto.
Sua mã e se afastou e suspirou com orgulho maternal enquanto olhava
para Esme em seu vestido. — Garota, você está sublimemente bonita.
— Realmente linda. — Sua avó a abraçou brevemente, uma
demonstraçã o extraordiná ria de afeto, já que as geraçõ es mais antigas
geralmente nã o se abraçavam, e Esme sentiu o cheiro de mais molho de
peixe. Em vez de se preocupar em sair do quarto, ela respirou
profundamente. Isso a lembrou de casa. Ela era uma garota do interior,
a inal. Suas origens nã o a de iniam, mas faziam parte dela. Ela se
recusava a ter vergonha delas.
— Má parece uma fada. — Jade disse com reverê ncia antes de sua
testa se enrugar. — Câ u Quan vai ser meu pai depois disto?
Esme suspirou e roçou os dedos sobre a bochecha macia da garota. —
Eu nã o sei. Talvez. Mas nã o tenha muitas esperanças, ok? Câ u Quan está
apenas se casando comigo para nos ajudar. Nã o é um casamento de
verdade. Você entende?
A expressã o de Jade icou solene. — Entendo.
— Este lugar é bom demais para nã o ser um casamento de verdade —
insistiu a mã e, olhando para os elegantes mó veis e molduras da
coroa. — Tã o limpo, tã o grande, ar condicionado. Ele tem boas
intençõ es, My.
Esme nã o tinha energia para explicar, entã o ela suspirou e levantou os
ombros. As quatro se acomodaram nos sofá s, Jade bem ao lado de sua
mã e, e acompanharam as fofocas de casa enquanto os minutos
passavam no reló gio.
Esme icava mais ansiosa a cada segundo que passava até inalmente
abraçar Jade e fechar os olhos, distraı́da demais para se concentrar nas
conversas.
Uma batida soou, e Quan abriu a porta, entrou e fechou a porta atrá s
de si. Ele acenou para sua avó e sua mã e e piscou para Jade antes de se
concentrar em Esme, parecendo perigosamente bonito em seu terno e
tatuagens. Talvez ele també m parecesse um pouco atordoado. Esme
nunca pareceu tã o impressionante, e ela sabia disso.
Recuperando-se, ele disse: — Está na hora. — Ele encolheu os ombros
para ajustar o paletó . — Ele nã o está aqui, entã o vamos fazer isso.
— Você tem certeza? — Esme perguntou.
— Absoluta. Você tem?
Esme se levantou, arrumou a saia, respirou fundo e assentiu.
— Sim. Obrigada. Por tudo.
Seus olhos encontraram os dela e enrugaram nas bordas enquanto ele
sorria. — Claro. — Ele abriu a porta e levou Esme e sua famı́lia para o
corredor, onde um homem mais velho de terno esperava com um
elaborado buquê de rosas brancas nas mã os. — Esse é meu tio. Ele vai
levá -la até o corredor.
O homem sorriu e inclinou a cabeça para todos, murmurando
cumprimentos educados.
— Nã o, eu vou acompanhá -la — disse a mã e antes de agarrar a mã o
de Esme e apertar. — Sou mã e e pai dela desde que ela era pequena. Eu
deveria fazer isso.
Quan sorriu surpreso. — Está bem entã o. Bá c informará quando for a
hora de entrar. Vejo você lá . — Ele acenou para ela uma vez e conduziu
sua avó e Jade para o local da cerimô nia, deixando Esme e sua mã e lá no
corredor com o tio.
Ela respirou fundo e deu um sorriso tenso para a mã e e o tio de Quan
enquanto lutava contra uma crescente sensaçã o de pâ nico. Ela estava
fazendo a coisa certa; ela sabia disso. Mas seu coraçã o nã o se
importava. Ele queria o que queria, e isso nã o era Quan ou um
casamento falso. Seu coraçã o queria Khai, para sempre.
Passos altos ecoaram pelo corredor de má rmore e, por um segundo,
suas esperanças aumentaram. Talvez ele tivesse vindo depois de tudo.
Mas os passos desapareceram antes que algué m aparecesse, e as
esperanças de Esme despencaram novamente.
Um violoncelo começou a tocar em algum lugar distante, e o tio de
Quan disse: — Por aqui.
Ele entregou o buquê a Esme, e suas mã os icaram dormentes. Um
alto silê ncio encheu sua cabeça.
Já era tempo.
Sua mã e abraçou-a, sorriu com incentivo e a guiou a seguir o tio de
Quan. O edifı́cio ecoou quando sapatos de salto alto clicaram sobre o
má rmore, clique-clique, clique-clique, clique-clique. Eles entraram na
rotunda, onde a cerimô nia aconteceria no pé da maior escada que ela já
vira. Um teto abobadado cor de mar im arqueava acima com
intrincadas obras de arte de anjos – ou talvez pessoas nuas. De
qualquer maneira, eles deviam estar com frio.
Fileiras e ileiras de convidados, lores, violoncelista, um noivo bonito
esperando por ela no altar. Deveria tê -la feito feliz. Isso nã o aconteceu.
Ela apertou o buquê com mais força, ergueu o queixo e se preparou
para andar pelo corredor central entre os convidados sentados.
— Senhor, você nã o pode entrar aqui. Há um casamento
acontecendo. Senhor...
Uma comoçã o atrá s dela a fez girar enquanto seu coraçã o cantava
com antecipaçã o.
Mas nã o era Khai.
Era um homem mais velho, um homem de aparê ncia familiar, mesmo
tendo certeza de que nunca o conhecera antes.
Altura mé dia, um pouco de barriga, calças cá qui, uma camisa de botã o
azul claro e um casaco esportivo azul marinho. Cabelo curto que era
mais sal do que pimenta. E olhos que poderiam ter qualquer cor a essa
distâ ncia. Se ela estava sendo honesta, eles pareciam marrons.
Seu coraçã o parou de bater.
Ele tinha mã os de motorista de caminhã o?
— E você ? — Ele perguntou, mas nã o estava olhando para Esme. —
Linh?
A mã e de Esme ofegou e cobriu a boca.
O homem deu um passo à frente, seus movimentos lentos como se
estivesse em transe. — Recebi o correio de voz mais estranho
ontem. Algué m procurando um Phil que conheceu uma Linh no Vietnã
vinte e quatro anos atrá s. Ele disse que a ilha de Phil se casaria hoje no
City Hall de Sã o Francisco e que ela precisava do pai.
Ele procurou o rosto de Esme antes de se concentrar no lado dela
novamente, e sua mã e agarrou o braço de Esme como se fosse a ú nica
coisa que a mantinha na posiçã o vertical.
— Nã o sabia ao certo. Eu pensei que as chances eram baixas. Eu vim
de qualquer maneira — disse o homem quando se aproximou, ainda a
dois metros de distâ ncia, um metro, e o tom verde-claro de seus olhos
tirou o ar de Esme. — Peguei o primeiro voo vindo da cidade de Nova
York.
— Você mora em Nova York? — Sua mã e perguntou, usando o ú nico
inglê s que Esme já a ouviu falar.
— Sozinho, moro sozinho em Nova York. — Ele pigarreou antes de
continuar. — Voltei. Por você . Eu procurei por você em todos os
lugares. Você nã o estava em lugar nenhum. Mas agora, acho que sei o
porquê . Ela é — seu olhar voltou para Esme — minha?
Sua mã e empurrou Esme até que ela se aproximou dele, e Esme disse:
— Schumacher? Esse é o seu nome? Phil Schumacher?
Rugas confusas escureceram sua testa. — Phil Schuma... nã o, eu nã o
sou um Schumacher. Meu nome é Gleaves. Gleaves Philander. Eu fui Phil
até me tornar Gleaves — ele disse com um sorriso de desculpas antes
que seus olhos se arregalassem de horror. — E por isso que você nã o
conseguiu me encontrar? Tudo que você sabia era Phil. Você estava
procurando um Philip.
— Querem adiar o casamento e conversar sobre isso em algum lugar
em particular? — Quan perguntou enquanto caminhava pelo corredor
em direçã o ao seu pequeno grupo.
Antes que algué m pudesse responder, houve outra comoçã o atrá s
deles.
— Senhor, há um casamento...
— Estou aqui para o casamento. — Disse uma voz familiar, e
Khai invadiu a sala, parecendo desordenado, com os cabelos em todas
as direçõ es e o peito ondulando como se ele tivesse corrido até aqui. Ele
deu uma olhada em Esme e seus olhos icaram sonhadores.
— Você está atrasado. — Disse Quan.
Sem desviar os olhos de Esme, Khai disse: — Peguei trâ nsito, mas me
ajudou o fato de vir de moto até aqui. Eu dei a volta nos carros parados.
— Já estava na hora. — Disse Quan.
Mas Khai nã o notou seu irmã o. Ele estava olhando para Esme como
costumava fazer, com total atençã o. — Me desculpe, estou atrasado –
em andar de moto e vir aqui.
Ela balançou a cabeça. Depois de ver a foto do primo dele ao lado da
motocicleta, tudo se encaixou. — Nã o precisa se desculpar. Eu entendo.
Khai engoliu em seco e deu um passo na direçã o dela, esticou os
dedos para fora, relaxou-os, os estendeu novamente. — O casamento já
acabou? Havia algo que eu precisava dizer.
— Nã o, nã o acabou. — As mã os de Esme tremiam, entã o ela as
apertou em seu buquê . Ele estava aqui. Ele veio. Ele tinha algo
importante a dizer.
Sua esperança cresceu tanto que ela nã o sabia como seu corpo a
segurava.
Seus ombros caı́ram de alı́vio antes que ele notasse o outro
perturbador de casamentos ao lado dele. — Quem é você ?
O homem – muito possivelmente o pai dela – procurou por palavras
por um momento antes de dizer: — Sou Gleaves.
Khai assentiu como se tudo estivesse perfeitamente normal. — Você
deve ser o Phil certo, entã o. Que bom que você conseguiu.
— Você foi quem deixou a mensagem de voz. — Disse Gleaves.
— Você nunca me ligou de volta.
— Eu pulei no pró ximo aviã o que vi.
— Isso é bom… — O que Khai teria dito a seguir foi interrompido
quando Jade correu pelo corredor e agarrou as saias de Esme.
— Ele é o Câ u Khai. — Disse Jade.
O queixo de Khai caiu, e ele olhou para Jade. — Uma mini Esme.
O coraçã o de Esme bateu forte quando ela olhou de Khai para Gleaves
e de volta. Os dois homens pareciam estupefatos. — O nome dela é
Jade. Ela é minha.
Jade se aconchegou mais perto.
Os olhos de Khai encontraram os dela. — Você nunca me contou.
— Cô Nga disse que você nã o queria uma famı́lia, e eu estava com
medo, e... — Ela mordeu o lá bio. Ela nã o tinha mais argumentos do que
isso.
O que ele veio aqui para dizer? Essa notı́cia mudava as coisas?
Ela levantou o queixo. Se ele pensava que ela era impetuosa por ter
uma bebê tã o nova, ele nã o a merecia e nem a Jade.
Ele a surpreendeu agachando-se, observando Jade, e estendendo a
mã o como se fossem conhecidos reunidos para negó cios.
Jade olhou para Esme por um segundo antes de se aproximar
de Khai. Depois de olhar para ele por um longo tempo, ela apertou a
mã o dele como uma pequena adulta.
Nem disseram uma ú nica palavra, mas Esme teve a sensaçã o de que
eles se entendiam perfeitamente.
Quando Khai se endireitou, ele olhou em volta, olhando Gleaves, Jade,
Quan e, inalmente, a mã e de Esme. Inclinando a cabeça para ela, ele
disse: — Chào, Cô .
A mã e dela estreitou os olhos para ele. — Que coisa importante você
tem a dizer? Temos muitas pessoas aqui esperando o inı́cio do
casamento.
Naquele momento, Esme icou terrivelmente consciente da atençã o
focada neles, centenas de olhos curiosos. — Má , vamos a algum lugar
privado. Ele pode dizer isso lá e...
— Nã o, aqui, onde todos podem ver. — sua mã e exigiu com uma voz
de aço, enfrentando-o apesar da gigantesca lacuna em seus nı́veis de
riqueza e educaçã o. — Minha ilha foi boa com você e você partiu o
coraçã o dela. O que você tem a dizer?
Ele se encolheu e deixou o olhar percorrer a multidã o, e Esme sabia
que ele odiava a atençã o deles tanto quanto ela. Eventualmente, no
entanto, ele se concentrou nela novamente, deu um passo à frente e
falou.
— Anh yêu em.
Ela respirou silenciosamente e cobriu a boca, chocada demais para
falar, para fazer qualquer coisa. Mesmo nos seus sonhos mais loucos,
ele dizia a ela que a amava em inglê s.
Ele deu outro passo em sua direçã o, e outro, até que estavam a um
mero braço de distâ ncia. Olhando para ela como se ela fosse tudo, ele
disse: — Eu amo você . Eu disse a mim mesmo que nã o. Porque tinha
medo de perder algué m de novo e duvidava de mim mesmo, e queria
apenas o melhor para você . Mas o sentimento icou grande demais para
negar. Meu coraçã o funciona de uma maneira diferente, mas é seu. Você
é a ú nica pra mim.
Ele apontou para Gleaves e Quan, e os dois homens se endireitaram.
— Você tem opçõ es agora. Você nã o precisa se casar se nã o
quiser. Agora que encontramos seu pai, sua papelada será fá cil – bem
mais fá cil. Mas se você quiser se casar… — Ele respirou fundo e caiu
sobre um joelho. — Case comigo. E nã o apenas por trê s anos, mas para
sempre. — Ele bateu nos bolsos e fez uma careta. — Esqueci seu anel,
mas juro que comprei um. E legal. Você provavelmente pode cortar
janelas com ele se… — Ele limpou a garganta e olhou para ela com
suavidade. —Você quer se casar comigo? Se você ainda me amar?
Seu coraçã o se encheu e encheu e encheu até seus olhos embaçarem
com lá grimas. — Eu vou sempre amar você .
— Isso é um sim? — Ele perguntou.
Ela entregou o buquê para sua mã e e o levantou. — Eu nã o preciso,
mas sim, vou me casar com você .
Seu maior sorriso se estendeu por seu rosto, com covinhas e, diante
de todos os convidados do casamento, ele a puxou para perto e a beijou
como se fosse a primeira vez. Lá bios contra lá bios, coraçõ es derretendo
juntos, nenhuma distâ ncia entre eles, nem mesmo o comprimento de
um braço.
EPILOGO

Quatro anos depois

O sol caiu sobre Khai enquanto ele se sentava nas arquibancadas do


está dio ao ar livre da Universidade de Stanford, esperando enquanto
estudantes em vestidos e chapé us quadrados marchavam pelo palco,
bem abaixo. Jade estava animada uma hora atrá s, mas agora ela se
ocupava lendo um livro de capı́tulos com algum tipo de guerreira
má gica na capa. De vez em quando, a mã e de Khai pegava fatias de Pê ra
asiá tica descascada da bolsa e as entregava a ela, e Jade distraidamente
as engoliu enquanto seus olhos examinavam as palavras na pá gina do
livro.
— My Ngọ c Tran, summa cum laude. — O locutor chamou.
Khai e toda a sua famı́lia saltaram de pé e aplaudiram. Durante o
processo de naturalizaçã o, ela escolheu usar o nome vietnamita em
todos os documentos o iciais. Ele era o ú nico que a chamava de Esme
agora, e ele gostava disso.
Esme acenou para eles do palco, e quando ela soprou um beijo na
direçã o deles, Khai sabia que era apenas para ele. Jade nã o gostava mais
de beijos - ele sentia um pouco de falta se estivesse sendo honesto -
mas ela era mais interessante para conversar agora.
Depois que todos os nomes dos alunos foram chamados, eles foram se
encontrar com Esme em um local previamente combinado no
campus. No segundo em que os viu, ela se separou de seus amigos e
correu para abraçá -lo e beijá -lo.
— Eu terminei. — Disse ela, sorrindo de uma maneira que ainda
mexia em seu cé rebro mesmo depois de quatro anos com ela.
— Na verdade nã o — disse ele. — Você ainda tem aproximadamente
seis anos antes de obter seu doutorado em inanças internacionais. —
Pelo jeito que ela falava, ela queria resolver os grandes problemas deste
mundo, e todos eles giravam em torno do dinheiro.
Ela deu um soco brincalhã o no ombro dele. — Terminei por
enquanto.
— E quando você inalmente vai se casar com ele? — Perguntou o
pai. — Depois da pó s-graduaçã o?
Sua mã e apertou o braço do marido recé m-casado. — Nã o a
pressione. Escola primeiro, casamento depois.
Gleaves fez um som sombrio, mas ele assentiu.
A mã e de Khai, no entanto, entrou no assunto e disse: — Por que nã o
há pressã o? Ela fez um bebê tã o bonito. E um desperdı́cio nã o fazer
mais.
Todos os trê s avó s assentiram e murmuraram em concordâ ncia, e
Jade revirou os olhos. — Eu també m sou legal, trabalhadora e muitas
outras coisas.
Esme foi abraçar sua garota. — Sim, você é . Você deixa mamã e
orgulhosa.
— Estou orgulhosa de você, mamã e. — Jade disse, ganhando um
sorriso choroso de sua mã e.
Enquanto Khai observava mã e e ilha, ele reconheceu que ele estava
orgulhoso. Quatro anos atrá s, ele pensou que tinha muitas mulheres em
sua vida para ter espaço para outra, mas ele estava errado. Ele tinha
espaço su iciente para mais duas, e seu coraçã o, ele descobriu, estava
muito longe de ser feito de pedra.
Ele passou os braços em volta delas e beijou a tê mpora de Esme. —
Estou orgulhoso de você s duas. — Esme sorriu e perguntou a Jade: — O
que você acha? Você está pronta para a mamã e se casar com Câ u Khai?
Jade dançou no lugar. — Sé rio? Este Verã o? O drive-thru de
casamento em Las Vegas?
Khai riu. — Você parece mais animada que sua mã e.
— Entã o você pode me adotar e você será o icialmente meu pai. —
Disse Jade.
O peito de Khai inchou, e nem uma vez ele disse a si mesmo que era
um lash de calor ou um problema de saú de. Ele sabia exatamente o que
era.
Quando ele olhou para Esme, seus olhos verdes se suavizaram e ela
passou os dedos sobre o queixo dele. — Olhe esse sorriso e essas
covinhas. Você deve nos amar muito.
— Mais do que muito. Tem certeza de que deseja casar neste
verã o? Eu posso esperar o tempo que você quiser.
Ele já havia colocado Esme e Jade em seu testamento, embora elas
nã o soubessem - sobre o testamento em si ou todo o dinheiro que
herdariam dele porque ele nã o tinha ideia do que fazer com ele. Aquilo
nã o era importante.
O que importava era que elas estariam bem se algo acontecesse com
ele. Nã o que elas precisassem dele. Esme era uma força a ser
reconhecida.
— Estou pronta — disse Esme. Entã o seus lá bios se curvaram. — E eu
quero ver Elvis.
Ele riu. — Ningué m em Las Vegas é o verdadeiro Elvis.
Olhos brilhando, ela disse: — Eu sei. Mas talvez eles se sintam como
Elvis por dentro. Essa é a parte importante.
Ele juntou suas testas enquanto ria novamente. — Você é
de initivamente mais estranha do que eu.
— De jeito nenhum.
Ele sorriu.
Ela sorriu de volta. — Em yêu anh.
Sem hesitar, ele respondeu: — Anh yêu em.
As palavras os envolveram, juntando-os.
Em yêu anh yêu em.
Garota ama garoto ama garota.

O FIM

Você também pode gostar