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O Despertar de Cassandra

Cassandra, já passamos por isso. Eu vou perguntar mais uma vez, como você sabia da entrega?
A sua mente flutuava. Cassandra parecia não estar ali. Um homem andava pela sala e falava com
ela, mas suas palavras eram apenas ecos, tão distantes quanto o som de seus passos. Ela me
falou, a garota... Sara? Samantha! Ela me disse que as chaves estariam de baixo de um vaso de
plantas e que era só entrar e curtir. Sua voz ressoava em sua cabeça, estranha e atonal. Curtir?
Disse a voz grave com uma dose de raiva. Como assim curtir? Quem é Samantha? Foi ela que te
deu a dica? Vamos lá garota, estou me fudendo aqui pra te proteger, você tem que me dar
alguma informação que eu possa usar! A voz grave que ecoava em sua cabeça parecia... errada...
Ajudar? Seus olhos baixaram e encontraram suas mãos algemadas a uma mesa. não, não, não,
não. ela tremia violentamente enquanto gritava. isso está errado, errado! Os gritos se tornavam
ruidosos e estranhos, outras vozes pareciam engrossar o coro dentro de sua cabeça, ela se
levantou da cadeira e forçou as algemas até que as partiu. Um grito desesperado estourou forte
em sua cabeça, enquanto suas mãos tentavam conter o estouro de seus tímpanos.

As vozes silenciaram.

Ela sentiu náusea, como se a gravidade tivesse mudado de lugar. Aos poucos seus sentidos iam
se ajustando e um vômito verteu errado, para o lado, não para cima, encontrando um balde que
parecia teimosamente preso à parede. Ela olhou para seus pés, mas não pisavam o chão. Olhou
para o outro lado, oposto ao do balde e viu o teto, e depois de um violento choque de realidade,
percebeu-se sobre uma cama, deitada de lado. Dores violentas por todo o corpo. E náusea,
muita náusea. Pode ter levado um milhão de anos ou dois segundos, mas o que conseguiu tirar
sua atenção da dor foram batidas na porta. Uma voz masculina, melodiosa e preocupada
perguntava. San? Tá tudo bem? Mal vi você chegar... depois de uma pausa indeterminável. Vou
fazer um suco pra você. Desculpe... a voz da garota soou fraca e grave. Eu não posso contar. Se
eu contasse, você não acreditaria. Acreditaria em quê? Com a mesma violência de antes, sua
cabeça fora atirada para o lado, e ela estava novamente sentada, mas em outro tipo de banco.
Acolchoado, confortável até, mas a náusea permanecia.

Você sabe o que você fez foi errado, não sabe? A voz que falava com ela era destituída de
simpatia e era esganiçada e alterada. Era meu dever. Respondeu Cassandra com uma voz firme,
embora aguda demais. E quem te deu esse ‘dever’? a voz era sarcástica e transbordava
condescendência. O estado da Bahia. Cassandra não levantou a vista para encarar seu
interlocutor não conseguia nem sabia porquê, mas sua voz continuava firme. O estado da Bahia?
A voz esganiçada transpirava raiva agora. Já chega. Falou outra voz, uma voz feminina e séria.
Cassandra, precisamos saber como e por que você estava na sala de provas. Quem te deu
acesso? Cassandra estava estupefata. Eu tenho acesso, sempre tive, capitão. Que loucura é essa?
Agora Cassandra olhava para uma mulher de pele morena, olhar suave, mas sério. Tinha um
semblante preocupado. Sua mente acelerava. Você não é o capitão! Quem são vocês? O que
querem comigo? Sua mente girou novamente e ela estava novamente na sala de metal. Seus
braços apertavam ferozmente o pescoço de um homem fardado e ela gritava alucinadamente.
Quem são vocês?! Onde está o capitão? O homem de voz grave tentava acalmá-la aos berros.
Os olhos negros experimentados e os cabelos grisalhos logo fizeram a imagem em sua cabeça.
Capitão? E o choque correu seu corpo mandando sua mente para longe.

As batidas na porta a fizeram acordar novamente, como se tivera sido reanimada após uma
parada cardíaca. San? Filha? Você vai descer ou quer que deixe aqui o café? Ela sentia falta dele,
tanta falta que a dor era profunda e visceral. Ela chorou. Pai? Ela tentou, sem sucesso. Vou
descer. Foi o que conseguiu dizer, sabe-se lá quanto tempo depois. Desceu as escadas apoiada
no corrimão. Lá embaixo, a mesa do café. Sucos, bolos, frutas, seu pai, seu irmão e sua mãe.
Mãe? Falou num reflexo. Lucas? Você está tão pequeno? Todos corriam agora para cima dela,
desesperados de felicidade. Ela andou, andou! E desceu as escadas? Gente, que loucura! Ela
tentava dizer que eles estavam loucos, mas apenas gemidos e grunhidos saiam de sua boca,
eventualmente uma mamãe ou papai. Todos riram e carregaram-na até a mesa. Seu pai lhe
ofereceu o suco, agora com uma expressão de alívio e cuidado. Ainda bem que você desceu, do
jeito que chegou, achei que não fosse levantar esse ano. Ela olhou para os lados e já não viu sua
mãe ou seu irmão. Como cheguei? Ela apenas pensou. E deu um longo gole naquele lodoso caldo
amargo, azedo e doce ao mesmo tempo. segredo de família! Dizia o pai. Provavelmente eram
todas as frutas batidas no liquidificador e com hortelã e talvez até coentro e salsa. Vai saber.
Pensava ela, toda vez que ouvia a mesma resposta maluca. Pelo menos funciona. Disse
Cassandra tentando sorrir depois daquela bomba.

Eu acho que tem algo errado comigo, pai. Eu tenho visto coisas, ouvido vozes. Estado... em outros
lugares... não ousava levantar a vista, odiaria que seu pai a olhasse de qualquer forma
minimamente reprovadora. Há! Agora veja se pode. Esperneou a voz esganiçada. Vai pagar de
maluca agora é? A náusea voltou. Professor, por favor, se retire. Ma... A voz esganiçada tentou
retrucar, mas sabia que estava derrotado, fora longe demais. Fale mais sobre o que você tem
sentido, minha querida. Pediu a voz feminina, agora calma. Muito calma. Eu não sei, eu não sei
de nada, eu não sei o que eu estou fazendo aqui, não sei por que estou aqui, você está errada,
não era pra estar aqui, está tudo errado. Ela se desesperava e a mulher a sua frente entregou-
lhe um saco de papel e ordenou. Respire. A voz de comando era poderosa. Poderosa demais
para ser ignorada, mesmo se não fosse para o bem dela. Quando a respiração de Cassandra ficou
sob controle, ela continuou. Você tem visto coisas como fantasmas ou monstros? Perguntou a
diretora a uma atônita Cassandra. Não! respondeu como uma reação instintiva ao medo do
ridículo. Cassandra, isso é importante. Que tipo de coisas você anda vendo e por que eu sou
‘errada’? Cassandra não sabia o que responder, estava presa num pesadelo medonho onde era
impossível falar e mais ainda ser ouvida, em que não estava em lugar nenhum, e em todo lugar,
nada parecia correto, nada estava no lugar, nem ela nem ninguém.

Tudo está errado. Eu estou errada, você, minha mãe, meu irmão. Eu vi todos eu não era eu, mas
era. Eu não deveria estar lá, mas eu era bebê e depois... depois estava numa mesa, sendo
interrogada por um homem que eu adoro e não faço a menor ideia de quem seja, mas por quem
eu daria a vida. Eu não deveria estar lá, nem aqui... eu não sei onde eu estou... nunca... e as
lágrimas estouraram novamente, quentes e volumosas. Respire Cassandra. Feche os olhos e
respire. Ouça apenas a minha voz. A garota foi recuperando a respiração aos poucos. Me escute.
Isso é muito sério. Preciso que você se concentre e respire fundo. Isso... devagar... mais devagar...
pronto. Assim. Calmo, sereno. Sereno como um lago. Você gosta do parque de Pituaçu?
Cassandra moveu a cabeça positivamente imagine que você está no parque. Imagine que você
está andando por todos os seus lugares favoritos. Imagine que você está se divertindo horrores,
com seus amigos, ou sozinha. Como preferir. Eu gosto de dar a volta na trilha de bike. Muito
bem. Imagine a trilha, os percalços, os percursos. Os cursos d’água no caminho, as subidas as
descidas. Tudo nos mínimos detalhes. A mente de Cassandra agora vagava guiada pela paisagem
bucólica da trilha de Pituaçu, lugar onde passou muito tempo refletindo sobre a vida e as coisas.
Um lugar especial.
Agora, Cassandra. Quero que você imagine o fim desse dia. Já está na hora de ir para casa. Seus
compromissos, seus afazeres a esperam. Quando chegar em casa, você receberá a visita de um
homem, um amigo. Ele vai te ajudar. Quem é ele? Perguntou a jovem, já estabilizada. Você o
conhecerá em breve, basta que chegue em casa. Uma campainha tira Cassandra do transe e ela
está novamente na mesa da cozinha. Era meio da tarde e a narração de uma partida de futebol
ressoava pela casa. Cassandra estava de frente para uma fatia de pizza mordida. Tinha uma fome
horrorosa. Colocou um pedaço obsceno da fatia na boca e quase não mastigou. Em três
mordidas já não havia mais fatia. Pegou uma segunda e foi para a porta.

Bem a tempo. nada mal. Disse uma voz lânguida e suave. Acontece muito. Disse Cassandra num
tom jovial. Então vamos? Perguntou o homem que já tinha uma certa idade, cabelos brancos e
vestia uma inexplicável calça de couro com uma jaqueta muito grande para seu tamanho,
também de couro e nenhuma blusa por dentro. Oi? Foi a única coisa que Cassandra conseguiu
responder. Ele pareceu pensar por uma fração de segundos. Você é Cassandra, correto? A garota
assentiu. Você esteve em diferentes momentos da sua própria vida, passado e futuro, nos últimos
o quê, dez ou doze minutos, não é? Ela tentou pensar em algo para responder, mas não
conseguiu. Você está se perguntando se enlouqueceu ou se algo está muito errado com você,
não é? Dessa vez ela conseguiu respondeu com a cabeça. Lentamente. Então vamos. Pra onde?
Eu preciso avisar meu pai, não posso sair com um bando de estranhos sem dizer nada! O
estranho homem a olhou embasbacado. Atrás dele, num ônibus anacronicamente colorido, já
estavam duas pessoas aparentemente apressadas, tão bizarramente vestidas quanto o corôa. A
gente consegue errar essas coisas? Perguntou ele aos outros passageiros do ônibus.

Agora sim. A voz do corôa soou esquisita em seus ouvidos e Cassandra quis protestar. Olhou a
sua volta e estava num ônibus, sabe-se lá em que altura da 324. Como assim? O que é isso?
Como... A menina não sabia o que perguntar exatamente. Calma garota, pega o saco de papel
aí, gente. Tome. Cassandra respirava no saco de papel, como se ouvisse as palavras da diretora
em sua mente. Se acalme neguinha, relaxe, até. Você está transitando, é normal. Aconteceu, de
um jeito ou de outro com cada um de nós. Nós somos Sahajiya. Um seleto grupo de pessoas que
consegue ver o mundo como ele realmente é. E você está vindo para o nosso lado. Nós te
ensinaremos muitas coisas, você saberá exatamente o que está acontecendo com você e porque,
mas agora, precisamos que você relaxe um pouco. Tudo o que você precisa saber é que sua vida
jamais será a mesma, tudo que você sabe e conhece como verdade está prestes a mudar, porque
ou tudo isso muda, e as pequenas viagens acontecendo dentro de sua cabeça fazem sentido ou
você acabará perdendo a cabeça, entende? A coisa mais importante que você precisa ouvir desde
já, a pedra fundamental pra que você entenda o resto todo, tudo, tudinho mesmo, pode ser
resumido no seguinte. O corôa levou um pedaço de papel até a altura do rosto de Cassandra que
instintivamente abriu a boca. Em contato com sua língua, aquele ácido sugou sua mente, como
se ela entrasse num turbilhão de cores e sentidos, onde tudo era possível ao tato e ao olfato
tanto quanto aos olhos e ouvidos. Onde o tempo era como uma espiral sem fluxo que pudesse
ser recriado sem limites, sem começo e sem fim.

Tudo é ilusão.