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LICEU LITERÁRIO PORTUGUÊS

Curso de Especialização em Língua Portuguesa


Alunos: Karine Sant’ Anna de Andrade/ Marcelo Alves da Silva
Disciplina: Semântica do Português
Professor: André Conforte

ATIVIDADE DE SEMÂNTICA LEXICAL – PRIMEIRA AVALIAÇÃO


QUESTÃO ÚNICA: Comente os textos abaixo apresentados com base nas noções de polissemia,
homonímia (homófona, homógrafa e perfeita), sinonímia, antonímia e paronímia. Algumas questões podem
envolver mais de um aspecto semântico, e essa possível ocorrência deverá ser notada e comentada.

TEXTO 1 –

COMENTÁRIO:
KARINE: O registro contido na faixa em volta do melão contém a palavra “maduro”, a qual, em relação à
afirmação da legenda acima, passa a encerrar um tipo de aspecto semântico, a polissemia, por constar,
segundo Beauclair em seu Polissemia e Homonímia: uma visão sincrônica, a relação de sentido entre seus
diferentes significados no dado contexto. Essa relação de sentido ocorre a partir do momento em que o
enunciador associa a ideia de a fruta estar pronta para comer, de terem esperado seu tempo certo para atingir
o ponto máximo de desenvolvimento e ser colhida, à ideia referente ao amadurecimento humano, quando
este, com uma larga bagagem de experiências e, junto a ela, a sabedoria, sente-se pronto para a vida.

MARCELO: O texto acima aciona a plurissignificação da palavra “maduro” nos seguintes termos: o
enunciado “espero um dia poder usar essa faixa na testa igual esse melão” refere-se à frase presente no texto
não-verbal, a faixa com os dizeres “estou maduro” que envolve o melão. A referência a esta frase sugere ao
interpretante a compreensão palavra “maduro” como adjetivo com o sentido de “qualidade de uma pessoa

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cuja idade sinaliza acúmulo de experiências e estabilidade emocional”. Se considerarmos apenas o ambiente
semiótico do texto não-verbal, o adjetivo “maduro” significa “fruto em boas condições para ser comido”.
Uma vez que étimo desse item lexical possui como base de significação a ideia de “estar pronto para
colheita”, estamos diante de um caso de ambiguidade lexical por polissemia: “(...) quando os possíveis
sentidos da palavra ambígua têm alguma relação entre si” (CANÇADO, 2008, p.63).

TEXTO 2 –

COMENTÁRIO:
KARINE: O registro no respaldar do assento de ônibus abarca dois aspectos semânticos, a homonímia
perfeita e a sinonímia, juntamente com o fenômeno linguístico resultante, a ambiguidade de natureza
semântica. Sendo assim, o termo “trago” tanto pode ser a forma conjugada do verbo “tragar”, em razão da
relação sinonímica com uma categoria gramatical similar “fumar” na oração subordinada adjetiva, quanto
pode ser a forma conjugada do verbo “trazer’, em razão da relação sintático-semântica com o adjunto
adverbial de lugar “no peito”. A possibilidade de aplicação dos dois verbos sem relação de sentido na frase,
o que causa a homonímia perfeita ainda de acordo com Beauclair, e a associação de sinonímia entre “fumo”
e “trago” suscitam ao leitor mais de uma interpretação, ou seja, uma ambiguidade no discurso.

MARCELO: Em "Eu que nem fumo te trago no peito", vemos o item lexical "trago" como um único
significante disponível para significados distintos e não relacionados: o interpretante, neste caso, pode
perfeitamente entender que "trago" se trata da P1 do presente do indicativo do verbo "tragar", cujo sentido é
"inalar a fumaça, seja de um cigarro seja de um charuto", como também compreendê-lo como a P1 do
presente do indicativo do verbo “trazer”, cujo sentido é “ter consciência de um sentimento por alguém”. Os
dois sentidos são reforçados, respectivamente, pela presença da forma verbal “fumo” e pela locução
adverbial “no peito”. O item lexical “trago”, pois, é um caso de homonímia perfeita. O segundo sentido da
forma “trago” é auxiliado, numa relação sintático-semântica, pela polissemia do item lexical “peito”, parte
interior da anatomia humana e, por contiguidade, parte moral e emocional do ser humano – um caso de
metonimismo (Cf. HENRIQUES, 2011, p.67).

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TEXTO 3 –

COMENTÁRIO:
KARINE: Na semiótica da charge, por meio da expressão do personagem e de sua estampa da calça, é
possível verificar a ocorrência do fenômeno de paronímia, aspecto semântico que, conforme as afirmações
de André Valente, corresponde ao emprego de significantes parecidos, tanto na pronúncia quando na escrita,
mas com significados diversos. No caso em questão, há paronímia entre a prática milenar indiana chamada
yoga e mestre Yoda, famoso personagem da saga cinematográfica de George Lucas, Star Wars.

MARCELO: A preposição "de", num primeiro momento, é a causa da ambiguidade do papel semântico do
adjunto adnominal “de Yoga”. Repare-se que, na charge, a figura representada pela professora de Yoga usa
a preposição "de" em "A calça de Yoga" com o seguinte sentido: estilo/tipo de vestimenta destinada a esta
atividade específica. Em lugar oposto à professora, o suposto aluno da atividade de Yoga está vestido com
uma calça cuja estampa representa o personagem denominado mestre Yoda, da saga cinematográfica Star
Wars. Neste momento, verifica-se, pois, que a preposição “de” foi compreendida, no sintagma “A calça de
Yoga”, com o sentido de “temática de determinado objeto”. Soma-se a esse fenômeno a paronímia, isto é,
“a aproximação fono-ortográfica entre os vocábulos com sentidos diferentes” (HENRIQUES, 2011, p.85),
nos itens lexicais “Yoga” (conjunto de práticas físicas originárias da Índia) e “Yoda”.

TEXTO 4 –

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COMENTÁRIO:
KARINE: Mais uma vez pode-se constatar o aspecto semântico de homonímia perfeita entre as formas
conjugadas dos verbos somar e sumir, que não têm nenhuma relação de sentido, quando ocorre a ordem
materna expressa pelo verbo “somar” conjugado no modo imperativo “some” e, em razão dos efeitos
semióticos contidos na charge, que se traduzem na vestimenta de mágico e na fumaça inesperada, quando
ocorre o sumiço do menino, dando a entender que o verbo pode ter significado de desaparecer, dissipar.
MARCELO: Nesta imagem, o enunciado “Aqui, david! primeiro multiplique e depois some" comporta um
caso de homonímia perfeita, isto é, a presença de um único significante para dois significados distintos
entre si. A linguagem semiótica combinada com o enunciado sugere, a princípio, que a mulher autora da
frase ensina ao menino duas operações matemáticas: a multiplicação e a adição. O item lexical “some”
poderá, pois, ser compreendido como uma forma verbal, a P3 do imperativo afirmativo do verbo “somar”,
que faz parte do campo semântico da última operação matemática mencionada. Considerando, ainda, a
linguagem semiótica - na parte superior da imagem, a vestimenta de mágico “desenhada” no menino; na
parte inferior da imagem, representação da fumaça no lugar onde outrora estava o menino -, o item lexical
“some” poderá ser compreendido como outra forma verbal, a P2 do imperativo afirmativo do verbo “sumir”.
Culturalmente, em shows de mágica, truques que envolvem desaparecimento do mágico/ilusionista no palco
são seguidos por um efeito especial: a presença de fumaça.

TEXTO 5 –

COMENTÁRIO:
KARINE: O humor presente na charge consolida-se por meio da junção de três aspectos semânticos:
polissemia, homonímia homógrafa e antonímia. Embora sua forma adjetiva não esteja propriamente
aplicada, o verbo soltar abrange significado divergente daquele incluso no adjetivo “solta”, que se liga ao
substantivo língua. Enquanto um remete ao ato simples de libertar as madeixas do cabelo, o outro remete ao
sentido de falar sem filtro, falar sem medir o peso de suas palavras e respectivas consequências. No tocante à
homonímia homógrafa ocorre na forma conjugada do verbo soltar “solta” e no adjetivo “solta”, ou seja,
palavras com grafias iguais, mas com pronúncias diferentes. Já a antonímia sucede-se quando há a relação
de inversão de sentido, isto é, de acordo com Beauclair em “A antonímia”, ações distintas pela direção e
pelos resultados que acarretam, entre solto e preso.
MARCELO:

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REFERÊNCIAS:

AZEREDO, José Carlos de. “Polissemia e Homonímia”. In.: Gramática Houaiss da Língua Portuguesa. São
Paulo: Publifolha, 2010, pp.412-416.
BEAUCLAIR, Marcelo Gomes. “Palavra e Sentido – processos semânticos”. In.: Semântica discursiva em
textos não-literários: a expressividade da palavra e da não palavra. Tese de Doutorado. Rio de Janeiro.
Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 2006, p.12-82.
CANÇADO, Márcia. “Ambiguidade e vagueza”. In.: Manual de Semântica: noções básicas e exercícios.
Belo Horizonte: EdUFMG, 2008, pp.57-71.
HENRIQUES, Cláudio Cezar. “Léxico em foco”. In.: Léxico e Semântica: estudos produtivos sobre
palavras e significação. Rio de Janeiro: Elsevier, 2011, pp.73-97.
LYON, John. “Significados del léxico”. In.: Semántica linguística: una introducción. Barcelona: Paidós,
1997, p.73-102.
VALENTE, André. “Linguagem e Significação”. In.: A linguagem nossa de cada dia. Petrópolis: Vozes,
1997, pp.187-212.

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