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A PROVA DO INCESTO

JENYU PENG

INTRODUÇÃO

No inicio do “Édipo em Colônia” de Sófocles, encontramos Édipo, apesar de


velho e cego, errando em companhia de sua filha Antígona. Eles chegam então a um
lugar tabu do qual não é possível “nenhum olhar, nenhuma voz, nenhuma palavra” 1. O
incesto real parece ter sido “selado”, condenado pelo mesmo tabu. Se a civilização está
construída sobre a interdição do incesto, ela não fica menos constantemente ameaçada,
pelo ato incestuoso real e nem pelos estragos que ele causa na economia dos sistemas
simbólicos.
Entretanto as experiências das vítimas do incesto mostram que, nas sociedades
contemporâneas, o tabu do incesto parece desqualificar toda proibição através de um
desvelamento do incesto real, e isso dá ao tabu do incesto uma dupla interpretação.
Desde sempre qualificado de abominação última, o incesto está circunscrito em um
outro espaço-tempo diferente do real ou, mais exatamente, englobado em um real onde
isso nunca é reconhecível e sobre o qual “nós fomos solicitados a fechar os olhos” 2.
Isto não é um ”pré-conceito” ou uma ambição inicial com a qual eu comecei o
trabalho da tese completada em 2000, mas se encontra ainda hoje religando dois temas
da atualidade muito controversos: o incesto e a psicanálise. Há uma falta de
oportunidade para esta última, quando ela se vê ameaçada pela psicologia
comportamentalista. É necessário admitir que a Psicanálise , sob o signo do Édipo, há
muito tempo confirmou a problemática do incesto colocando-o na esfera do fantasma.
Numerosos práticos perderam as pistas disto a ponto de não saber mais distinguir o
fantasma dos traumatismos provocados por uma violência, brutal e bem real. De hábito,
tão prestigiosos em indicar os mecanismos da denegação, os psicanalistas chegaram a
legitimar o incesto e talvez até reforçá-lo.
Esta constatação severa que deveria alegrar os detratores da psicanálise lhes
forneceu um álibi suplementar para “jogar o bebê fora junto com a água do banho”.
Pareceu-me mais criterioso partir das dificuldades dos psicanalistas para levar a sério e
abraçar com força a realidade do incesto, procurando recolher o testemunho das vítimas
com um olhar psicanalítico. A aposta é dupla, o objeto de um benefício mútuo: será que
as vítimas de incesto, pela radicalidade de suas experiências, podem suscitar uma
renovação teórica e clínica na Psicanálise? Inversamente e não obstante, a constatação
da crítica, esta vêm ser reativa à psicanálise e à psicologia clínica, que se inspirou nela,
podemos ajudar as vítimas a desvelar a complexidade de seu trauma?
Os dois processos “midiáticos” na França no início do século XX, Outreau e
Angers, falsearam o olhar sobre a realidade do incesto mais do que esclareceram. Antes
de se tornar um escândalo judiciário, o processo Outreau foi, sobretudo, um escândalo
de um casal que agredia e abusava sexualmente de seus próprios filhos, e que
convidavam em seguida um jovem casal de vizinhos para participar de suas orgias onde
ocorriam as trocas tomando as crianças como objetos sexuais. Durante as instruções do
processo, acrescentaram-se à tendência manipuladora da mãe, os fantasmas delirantes
destas crianças, visivelmente portadoras de psicopatologias graves, que puderam
efetivamente enganar um Juiz de Instrução inexperiente e levaram-no a cometer um

1
Édipo em Colônia de Sofocles, v 131 – citação e tradução de F. Davoine, Guadillière Histoire e trauma
(2004)
2
Para retomar o título de uma obra de Max Milner (1991)

1
grande erro judicial, prejudicando pesadamente 14 pessoas inocentes. Os especialistas,
psicólogos mal conduzidos, não fizeram senão agravar uma questão judicial
catastrófica.
Mas no fim deste processo as vítimas do incesto foram completamente
encobertas pelas vítimas do erro judicial. Para evitar novas acusações mentirosas,
devemos nos ater a aquilo que a palavra das vítimas aponta, ou seja, de agora em diante
gastaremos mais tempo e esta será posta em dúvida.
Quanto ao processo de Angers, o mais importante foi que jamais tinha sido
organizado um assim na França, relativo a abuso sexual. Ele chegou à condenação de 39
homens e 26 mulheres por violação, agressão sexual e proxenetismo cometido contra 45
crianças com idades entre seis meses até doze anos, no momento das ocorrências. No
meio dos atos condenatórios, a maior parte foi decorrente de incesto.Na imprensa, isto
foi fortemente sublinhado, mais do que o fato de os principais acusados serem crianças
postas em curatela ou tuteladas – dizendo de outra maneira – eram pessoas conhecidas
pelo Sistema Social ou Judiciário – se bem que as repercussões deste processo tenderam
a reforçar uma opinião recorrente que dizia que as sevícias de caráter incestuoso
acontecem principalmente nas classes baixas e marginais e com pessoas que vivem “sob
a tutela social”. Ou como numerosas manchetes diziam sobre violência sexual
intrafamiliar, mencionadas em diferentes países nos relatos que nós temos recolhido,
mostram o contrário, que os agressores oriundos da precariedade material representam
somente uma parte que emerge da ponta do iceberg.
É certo que o incesto não está sempre ligado a uma forma de violência e ele
alcança realidades diferentes. A transformação de uma regra matrimonial exogâmica,
estudada na antropologia cultural do incesto, significa que houve uma união ilícita entre
pessoas que são parentes ou similares em um grau proibido por lei (a definição
apresentada pelo Novo Littré). Se olharmos o sentido jurídico do Código Civil, que
regula as relações sexuais entre membros de uma sociedade, esta definição não se refere
exclusivamente a situações onde a violência está presente. O incesto enquanto ato ilícito
é em realidade condenado por diferentes registros da lei, visando diferentes níveis de
transgressões; transgressão de uma proibição organizadora da ordem parental (registro
sociocultural), abominação, sacrilégio, (aspectos religiosos); desejo inconfessável posto
em ato (registro moral); delito ou crime contra a pessoa (registro judicial) tem sido
assim caracterizado.
Considerando as diversas realidades englobadas no mesmo termo, a definição
de incesto deve ser objeto de um recorte ateu dos fenômenos distinguindo, como sugere
Hélene Parat (2004), a violência incestuosa do fantasma incestuoso - a ligação
incestuosa da relação “incestuosa”. Mas, na mídia, os profissionais apontavam o sinal
de alarme (Cap. II). Enquanto vários dados apontados apareciam como resistência a esta
teoria, malgrado a diversidade de metodologias aplicadas e de populações pesquisadas,
sem falar da definição de “violências sexuais”, numerosas pesquisas anglo-saxônicas
convergem para assinalar a amplitude preocupante do fenômeno (Finkelhor ET AL,
1990).
Um primeiro estudo epidemiológico internacional avaliou que o incesto aparece
com uma aproximação larga afirmando que 7% a 36% das mulheres e 3% a 29% dos
homens foram vítimas de abuso sexual durante a infância e na maioria de casos,
ocorreram no seio da família (Finkelhor, 1994). Mas ele estava errado ao confiar, em
1993, quando leu a primeira pesquisa, feita com um objetivo específico, de apontar
violências incestuosas sobre as crianças. Os autores de tal livro usaram uma definição
de incesto: “Toda forma de contato ou tentativa de contato sexual entre pessoas
aparentadas mesmo que distante da linha de parentesco, e cometido antes que a vítima

2
atingisse a idade de 16 anos”. O relatório final concluiu que 17% das mulheres
interrogadas, ou seja, mais de uma em cada seis, tinham vivido um incesto. (Comitê
canadense sobre a violência cometida contra mulheres. 1993).
Para a França, ainda que obtido de modo indireto, os dados assinalam sim a
importância do fenômeno. Em 2000 foi realizada a primeira Pesquisa Nacional sobre
Violências Contra as Mulheres (ENVEF), que foi a primeira iniciativa no gênero.Esta
pesquisa revelou que a importância dessas violências tem sido largamente subestimadas
e que a maioria delas se perpetuam no espaço privado, o que explicaria o porquê delas
serem denunciadas raramente (Jaspard N, 2005 Ed. “La decuverte” Paris – Naryse
Jaspard “Sociologie des comportements sexuales - Série: Gênero, Trabalho e
Sociedade” igualité e diversité 2009).
Infelizmente, por cuidados para facilitar as rememorações dos fatos, esta
pesquisa se concentrou sobre as violências ocorridas nos últimos 12 meses e ocorridas
com mulheres entre 20 e 59 anos; residentes na França metropolitana. Quanto às
violências anteriores, elas foram identificadas, mas não foram detalhadas nem
analisadas. Aliás, segundo a pesquisa “Contexto da sexualidade na França” (CSF), que
foi realizada em 2006 por iniciativa da “Agência Nacional de Pesquisa Sobre a AIDS
(ANRS), 9,4% de mulheres e 3,4% de homens declaram ter sofrido assédios forçados
ou tentativas de relações forçadas antes de chegar aos 18 anos e 27% das mulheres de
mais de 40 anos tinham sido agredidas por seu pai, avô ou um membro da família
(Bajos ET AL, 2008).Esses dados declarados vieram completar os resultados dos
serviços de polícia e das unidades de Germanderias Francesas que apontaram, só para
ao ano de 2007, 5.455 casos de violação e 8.206 outros tipos de agressões sexuais
contra menores, ou seja, no total de 13.661 casos (Ministério do Interior, 2008).
Em uma outra pesquisa, oriunda do Serviço Nacional de Acolhida Telefônica
para a Infância em Perigo, em 54% dos casos de maus tratos sexuais (abusos), os
autores eram membros da família próxima (as pesquisas feitas nos USA apontam uma
taxa maior, de cerca de 2/3 a mais), ainda que as pesquisas feitas nos países anglo-
saxões apontem que só 10% das pessoas vítimas deste tipo de agressão recorrem à
polícia ou a uma instância do Judiciário (Julian Saint-Matin, 1995) o que é uma taxa
próxima da obtida pela ENVEF(1). Se nós relatarmos as percentagens da polícia
confirmadas pelas avaliações anglo-saxônicas, isto seria uma cifra próxima de 75.000
casos de agressões sexuais na França somente no ano de 2007.
Esses dados relatam 50.000 casos de abuso sexual, sofridos a cada ano por
mulheres adultas segundo a ENVEF (ou seja, 10 vezes mais numeroso do que a
pesquisa da polícia).
Não pudemos contestar estes dados em sua construção. Por hora, tais dados
estatísticos deveriam ao menos nos levar a questionar os enunciados que atribuem
peremptoriamente a violência incestuosa a um fantasma originário do Complexo de
Édipo tipicamente feminino. A afirmação de Paul Claude Racamier, “o incesto não é o
Édipo”, não parece ter tirado a dúvida ou deslocado os fatos provados na verdade
expressada por alguns psicanalistas contemporâneos, contra seus pacientes, vítimas de
violências incestuosas. Os relatos que os entrevistadores recolheram e estão neste livro
mostram que sua tentativa em desvelar este segredo continua a ser algo que contrasta
vivamente com uma teoria preconcebida: a do fantasma originário. Uma questão de
ética que se colocava então na escuta analítica.
A questão inicial deste livro nasceu da constatação de que nos encontros entre os
antigos analistas, as vítimas de incesto e os milhares de “psi” terminavam
freqüentemente muito mal no plano teórico, que está mais próximo da Psicanálise e
fundado pela organização libidinal do sujeito. Diante de um trauma real como fica o

3
incesto? Sobre a visão da prática psicanalítica, enquanto uma terapia capaz de é
possível acompanhar uma vítima de incesto sobre o ponto de vista de reconstrução?
Este questionamento nos leva a dois caminhos. O primeiro ao lado das antigas
vítimas, nós vamos descobrir a complexidade da vivência traumática do incesto
(Capítulo 1). O segundo conduz às origens do movimento psicanalítico para desenrolar
os pontos originais do mal entendido (capítulos 2 e 5 ).
Em geral os textos que abordam de frente o incesto podem distinguir
grosseiramente 3 tipos de incesto segundo um registro (de normal e anormal) ou
(benigno x traumático): 1 - o incesto comum (que é originário de um Édipo normal); 2 –
o incesto patológico (o agressor sexual é um Édipo perverso) ; 3 – o incesto traumático
(para a criança que sofre com a perversão do pai-mãe). As análises se concentram sobre
o primeiro tipo de incesto e suas diversas manifestações. A compreensão psicanalítica
das versões violentas de incesto tende a se focalizar sobre as fraturas narcísicas
edipianas. As violências reais do incesto cometido ficam relativamente marginais dentro
do corpo analítico, como se depois do abandono de Freud da “Teoria da Sedução”, o
incesto real tenha se tornado praticamente “acima do objetivo” para a Psicanálise.
Este desinteresse para com o incesto real pode ser talvez atribuído à evolução da
Psicanálise, que para decifrar os sintomas “hieroglíficos”, efetuaram um passo decisivo
atribuindo um status de realidade ao fantasma inconsciente: a realidade psíquica. Nós
discutiremos (no capítulo 2) esta volta teórica para o primado da Fantasia e do Édipo
como organizador da Psique e de suas conseqüências.
Os testemunhos das vítimas apresentadas neste livro foram recolhidos
,principalmente, dentro de um contexto associativo. Este objetivo ocorrido em
2002/2003 por ocasião de um estágio junto a “Associação Paris de Ajuda às Vítimas”
(PAV), que ofereceu consultas jurídicas e psicológicas para vítimas de todas a forma de
violência. Depois, em 2004/2005, eu entrei em contato via internet com a “Associação
Internacional das Vítimas do Incesto” (AIVI), que quis em seguida me autorizar a
participar dos grupos de discussão, como co-animador indulgente. Em seguida a vários
encontros com várias vítimas dentro de enquadre relativamente formal, me foi
permitido fazer entrevistas mais profundas com alguns dos clientes com um pouco mais
de intimidade, graças à confiança que eles me concederam e apesar de suas resistências
com a Psicanálise.
Além de incredulidade expressa pelos circundantes, no momento da revelação
dos fatos, uma coisa que ressoa de modo intenso desses testemunhos é a dificuldade da
vítima em se apropriar de suas próprias lembranças traumáticas. A extrema
complexidade das lembranças de vivências traumáticas oscila entre a amnésia e o
ressurgimento imprevisível, que nos conduzem a perguntar se existe uma especificidade
da memória traumática que a distinga da memória “ordinária”, por exemplo – (Cap. 3).
Uma incursão na fenomenologia “ricoueurienne” permite reabilitar a função veritativa
da memória por sua capacidade em tornar presente um passado ausente.
As vítimas são perseguidas pela questão da justiça. Ao longo de todo seu
percurso, a questão de um reconhecimento pela injustiça sofrida ressurge de maneira
lancinante. Esta questão começa freqüentemente por tentativas para obter um
reconhecimento de “si” de modo geral. É preciso, então, conter um sentimento de
alheamento para sair do adoecimento condicionado pelo incesto. Pouco a pouco, o
questionamento se refina, em função das escolhas oferecidas pelos encontros, tanto os
ocorridos sem programação, como os procurados. Enfim, no final de um longo tempo
corrido, muitas histórias convergem para uma tomada de consciência da necessidade de
ser reconhecido como vítima. Portanto, de saída, o status de “vítima” repugna a vários
deles. Negativamente conotado nas representações coletivas, o termo vítima é,

4
sobretudo, considerado como uma capitulação definitiva diante da vantagem do
agressor, de modo que certas pessoas preferem se chamar de “sobreviventes”.
Num desprazer com uma certa moda persistente em se colocar em guarda contra
a “vitimização” de nossa sociedade, a recusa em se reconhecer como vítima tornou-se
um obstáculo ao trabalho do luto. E nesses casos de incesto, a família participa do
mecanismo de denegação.
No meio das diversas vias experimentadas pelas vítimas para obter certo
reconhecimento eu me senti atraído, muito particularmente, por aquela do sistema
judiciário – mais por sua dificuldade do que por sua freqüência-. Aliás, a pesquisa
misturada aos dados da AIVI revela a força criadora desses encontros. A sustentação
recebida nesta comunidade de semelhantes é benéfica para a reconstrução. Entretanto,
por hora, são ainda as reenvidicações desejando um melhor reconhecimento social do
fenômeno que dominam.
Contrariamente aos dados que encontramos em países como Inglaterra,
Dinamarca ou Suíça, a violência incestuosa sobre menores não está inscrita como
infração específica do Código Penal Francês. Os casos reunidos aqui, de adultos
violentados em sua infância por um pai / mãe revelam, segundo a categoria judiciária
atual que, as vítimas de “agressão sexual” cometida por um ascendente ou uma pessoa
ocupando um lugar de autoridade são mais freqüentes. Mas, depois de alguns anos
houve uma divisão crescente entre os Juízes de Instruções que exigem uma
requalificação jurídica, e desta forma específica e particularmente da violência. O
debate se deu em torno da capacidade de uma criança consentir que ocorra o ato sexual,
capacidade apontada como critério invalidante de uma violação, qualificação de
violência que revela um crime e não um delito. Em julho de 2005 foi tornado público
um relatório da missão parlamentar; “É preciso especificar o incesto em uma infração
específica?” preconizando o uso do termo “agressão sexual incestuosa” para levar em
conta a característica específica de agressão sexual cometida por um parente próximo.
Conservando as antigas qualificações dos fatos, segundo a gravidade dos atos
cometidos do ponto de vista do judiciário e seguindo os impactos físicos e psíquicos do
ponto de vista das vítimas, este relatório tem ao menos o mérito de ter colocado em
causa a questão do “consentimento”. No entanto, a reconstituição dos fatos está
colocada para o Judiciário baseada em uma lógica positivista de provas.O processo
apresentou, ele mesmo, uma série de provas terríveis para vítimas, a ponto de provocar
um novo traumatismo. Sob o signo da pesquisa para o reconhecimento, nós
descrevemos no capítulo 4 o percurso do combate das antigas vítimas, que tentam
mudar a legislação a respeito disso e o olhar que a sociedade coloca sobre elas.
A clínica do traumatismo do incesto real lança dois desafios à psicanálise
contemporânea. Primeiramente, sobre o plano teórico, após o abandono da teoria da
sedução e a relevância atribuída à fantasia e a realidade psíquica, é preciso um novo
acordo de status da verdade histórica ao discurso do analisando? Dizendo de outra
maneira, até onde nós devemos negar a realidade dos fatos para não desconhecer a dor
psíquica do analisando? Em segundo lugar, sobre o plano terapêutico, a psicanálise é
capaz de intervir nos casos de traumatismos psíquicos causados por uma violência
destrutiva vinda do seu entorno? Em uma assistência terapêutica, no último capítulo,
nós perseguiremos ardorosamente os elementos rígidos nos dogmas psicanalíticos que
fazem falhar o encontro dos psicanalistas com as vítimas. Depois, em um segundo
tempo, ao inverso, nós veremos como a psicanálise, apesar de tudo, pode fornecer
ferramentas para assistir um sujeito, que sofreu muito mais do que as intempéries
edipianas: um incesto real que a destruiu.

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Em se tratando do traumatismo do incesto, a teorização da fantasia incestuosa
oferece aos detratores da Psicanálise um pretexto fácil para qualificar de nociva aos
olhos dos pacientes que sofrem do trauma real. Suas divisões internas não as ajudam
evidentemente a formular uma resposta clara e coerente diante dos ataques que não
escondem seus objetivos: fazer da psicanálise uma disciplina e uma terapia ilegítima,
com o objetivo de afastá-la da Universidade e do Hospital. Portanto, é a Psicanálise que
nos apresenta uma regra crucial, que ordena nas relações familiares as figuras parentais
na organização psíquica dos indivíduos para que eles possam atravessar, sem muitas
dificuldades, o complexo de Édipo e se tornar um sujeito autônomo e ao mesmo tempo
afiliado. A condição de dessacralizar o dogma, o tesouro teórico e metodológico da
psicanálise pode enriquecer a compreensão da catástrofe psíquica do incesto.

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Capítulo I

As recordações traumáticas e o futuro

As recordações das vítimas foram recolhidas aqui através de uma demanda ao


mesmo tempo psicanalítica e antropológica, como se quiséssemos pretender colocar
“em forma de uma história” 3. Este a priori não tem intuito de reformular a palavra
destes ou daqueles que procuraram relatar o que foi um tempo irrepresentável, mas sim
aquilo que sua dignidade inicial não conseguiu tornar crível ou terrível por causa de
uma suspeita “a priori”. As análises conceituais paralelas aos relatos, como uma
primeira tentativa para elucidar os pontos comuns da vivência traumática do incesto,
foram além da diversidade das tragédias da vida.
A primeira dificuldade à qual são confrontadas as vítimas que testemunham aqui
é a seguinte: como relatar uma história quando as recordações oscilam e escapam em
todo momento da fala? Os sintomas, os pesadelos, os flasbacks falam no lugar do
sujeito, mas à falta de testemunhos diretos são essas recordações capazes de se tornarem
um tipo de testemunhos indiretos? Memórias incertas, identidade equivocada, vida
jamais livre da angústia permanente que condena aquele que sucumbe antes mesmo da
possibilidade de um julgamento. O paradoxo da memória traumática, ativa sua
resistência em se tornar uma verdadeira memória capaz de engendrar o relato. Esta
resistência se mostra sob um olhar contraditório; seja uma amnésia psicogênica ou uma
obstrução completa, seja uma revivescência opressora. A aventura de rememoração
ecoa então constantemente sobre os acolhimentos de um mar inconsciente.

Confusão de língua, mistura de gêneros: traços da objeção.

Identificado com a abominação ou sacrilégio, o incesto é um ato que mistura o


que não deve ser misturado. Por exemplo, na Bíblia: “Tu não serás capaz de amadurecer
um cabrito no leite de sua mãe.” (Êxodo 23,19). Esta regra alimentar exprime a aversão
por uma mistura do mesmo, a confusão com o mesmo sangue de diferentes gerações.
Para esclarecer o impacto psíquico do trauma sexual precoce, Sandor Ferenczi
apresenta o conceito “Confusão de Línguas” 4 como mortífero para o psiquismo da
criança na relação afetiva que as liga comumente: o adulto age subitamente confundindo
a linguagem de ternura, que é aquela da criança com a sua própria língua que é a da
paixão. Mas a “confusão de língua” pode se tornar outra forma de eufemismo, da
mesma maneira que foi a sedução freudiana, por não conseguir enunciar claramente a
agressão sexual ou a violação cometida contra a criança. Há um pudor suscetível de
desresponsabilizar o adulto agressor por sua ação, pelo seu ato.

O retorno das recordações

Quando tinha oito anos, Paulina voltou com seus pais à sua região de origem
durante as férias de verão. Um dia, após o almoço, um tio do lado paterno propôs que as
crianças fossem se divertir na praia. Ela estava muito feliz. A praia ensolarada estava
contornada por um mar de um azul cintilante. Vários guarda-sóis de azul e branco se
espalhavam em torno de tendas de praia, todas da mesma cor. Ela se recorda de ter se

3
C. Junin “Figuras et destin du traumatisme (1996)
4
S. Ferenczi “Confusão de línguas entre os adultos e as crianças (1933), em Psicanálise IV. Notamos que
este artigo é frequentemente citado no plural por erro, sob o título de “Confusão de Línguas” ou
“Confusão das Línguas”

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reencontrado com seu tio. Eles se encontraram juntos e sós na tenda. Antes que ela
compreendesse o que ia se passar o tio lhe amarrou a mão a uma das estacas da tenda e
penetrou com seus 2 dedos na sua vagina, lhe impôs uma felação e ejaculou em sua
boca sem tomar cuidado de limpar e no final a virou para sodomizá-la. Estes poucos
minutos de tortura duraram uma eternidade.
“Eu tinha a impressão que minha alma voava acima de meu corpo e eu me via
lá embaixo, eu via o que se passava... mas eu não via a saída. Eu tinha a sensação de
estar prisioneira e me dizia: onde é a saída, onde está a saída. É preciso que eu
encontre a saída”.
Confusão de associações, diria Ferenczi, “psicose passageira” que protegeu
Paulina de um aniquilamento total da morte psíquica. Mas a sombra da morte estará
desde então onipresente. “Naquele dia eu perdi a noção de ser viva. Eu perdi a noção
de vida. Eu fiquei como morta”.
O tio saiu da tenda como se não tivesse acontecido nada. Ela se reencontra em
seguida no terraço do café de lá com ele e seus filhos; ele lhe oferece uma tangerina.
Nada parecia como antes; as risadas das crianças, os raios de sol, o barulho do mar. Em
todo caso foi dito. A interdição da palavra é imposta na estrutura mesma da ação de
força, devido à idade e a ligação parental, que “facilitou” a violação.
Vê-se pouco claro, e não se pode entender porque chamar de uma “confusão de
línguas”. Como se segue no caso, o agressor parece acima de tudo ter premeditado seu
golpe. Trata-se somente de uma resposta deslocada em um registro passional a uma
demanda de ternura da criança. Porque todas essas estratégias de aprisionar? Porque
esse desprezo após ter utilizado a criança como uma boneca inflável? Paulina conta:
“Ele nem mesmo me limpou depois de ter ejaculado na minha boca”. A agressão sexual
sobre a criança não é somente aqui uma resposta apresentada pelo adulto a uma questão
de amor da criança, mas sim uma exploração abusiva desta questão.
O mecanismo de defesa inconsciente funcionou com uma certa eficácia; a cena
foi completamente planejada e posta em hibernação, durante 25 anos. Os sintomas não
maquiavam nada, quaisquer coisas sem jamais trair as recordações que indicavam a
causa.
Pauline se relembra de uma lavagem compulsiva de seu sexo (no bidê de sua
casa) em seguida a este acontecimento, e também da masturbação compulsiva que
provocava uma culpa terrivelmente pesada, e mais ainda porque ela recebeu uma
educação religiosa rigorosa quase ascética. Por seu pai católico e sua mãe testemunha de
Jeová, ela estava convencida que se tratava de um pecado abominável: “A masturbação
é terrível. É necessário praticamente se escaldar as mãos”! Isto a levava a por em ação
todo o dia um sistema de purificação.
“Eu me sentia suja. Era necessário lavar minhas mãos, fazer a oração duas
vezes, eu a fazia vinte vezes. Então se eu dizia um nome antes do outro, era necessário
que eu começasse tudo. Era um pouco como o Padre nosso, mas eram nomes meus,
numa ordem que eu tinha estabelecido e eu não podia seguir em outra ordem diferente
daquela que eu tinha planejado (previsto)”.
Todas as noites, antes de dormir, ela verificava se não havia nada ou ninguém
sob sua cama e se sua Bíblia estava bem sobre o oratório. Ela tinha medo do escuro. Ela
sentia desejos de violência contra as outras crianças: “minha mãe protegia as crianças.
E eu comecei a ser muito agressiva com eles. Eu tinha desejo de martirizá-los”.
Estudando da terceira para quarta série, a agorafobia começou a se agravar e
tornou-se necessário que sua mãe a acompanhasse até a escola e a buscasse todos os
dias. Ela se tornou enurética até os 19 anos. Ela tinha medo de dormir na casa de sua
melhor amiga e acabar urinando nela: “Aos 19 anos eu senti uma grande raiva (ódio)

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no dia em que eu fiz pipi no leito sobre meu marido. Então eu me disse que “devia
haver um problema”.
Durante toda sua adolescência ela se disfarçava de menino imperfeito, optando
por vestimentas masculinas e perfumes para homem, como forma de disfarçar seu medo
dos homens: “Eu tinha muito medo dos homens. Eu não imaginava, por exemplo,
abraçar um rapaz. Eu me lembro de ter abraçado um pela primeira vez aos 19 anos.
Ele era meu marido”.
Ela encontrou o homem que viria a ser seu marido na comunidade de
“Testemunhas de Jeová” na época em que Lea ainda era crente e fazia pregações de
porta em porta. Ele se mostrou um pouco violento e manipulador e ela só tomou
consciência disso um pouco mais tarde. Recém casada e fiel à sua religião ela estava,
sobretudo preocupada pelo fato que antes do casamento, ela não era mais
virgem:“Quando nós nos casamos, normalmente pensam que somos virgens, mas eu
não o era mais. Isto me perturbava verdadeiramente. Eu me dizia: isto não é possível.
Eu perguntei ao meu ginecologista. É muito estranho, eu não sangrei. De fato meu
hímem estava completamente rompido”.
De suas 4 gravidezes, ela conseguiu colocar no mundo 2 filhos e uma filha, mas
cada gravidez foi sempre mau vivida, recusando a idéia de uma vida interior nela
mesma sustentada por uma imagem do passar da criança pura para um lugar do corpo
“impuro”. Pouco tempo depois de ter percebido que ela estava menstruada pela primeira
vez, ela fez uma falsa prenhez, sendo preciso se submeter a uma curetagem para retirar
os restos de um feto.
A partir de sua segunda gravidez, a doença associada ao fato de estar grávida,
cedeu lugar a uma felicidade profunda, desde que ela sentiu que o bebê começou a se
mexer. Entretanto, ela recusava a idéia de que seu bebê devia sair pela vagina:“Quando
eu tive meus bebês disse ao médico que eu não queria tê-los normalmente. Procure
fazer com que seja uma cesariana. Eu não tinha desejo que meu bebê saísse por aquele
lugar. Eu encontrei esta solução, eu encontrei este recurso... Para mim, a vagina não
podia ser um lugar para qualquer coisa pura que pudesse entrar ou sair. Para mim,
uma criança não podia sair por um conduto entre lugares impuros. Eu tinha a
impressão que ele ficaria sujo se ele passasse”,
Tal decisão provocou uma incompreensão do pessoal médico, porque era
injustificável do ponto de vista obstétrico, e finalmente seu próprio corpo encontrou
uma solução. Para seu primeiro filho ela desenvolveu uma toxemia gravídica, que só
poderia ser solucionada com uma cesariana de urgência. No segundo filho e na filha o
parto foi feito com cesariana em conseqüência de uma hipertensão que apareceu no 8°
mês da gravidez. Ela não conseguiu jamais ter um parto “normal”. Cada vez que ela
engravidou, ela e suas crianças foram salvas por uma cesariana. Notemos que ela disse:
“entrar ou sair”. Da mesma maneira o pênis do homem e a mão que masturba são
julgados impuros. Desde que Pauline procurou um Projeto de Associação que fazia
apelo às vítimas de incesto que quisessem testemunhar 5; várias mães que tinham sido
abusadas relataram então a ela uma grande variedade de doenças gravídicas.
Cinco meses após o nascimento de seu primeiro filho, Pauline sofreu uma
depressão violenta. Ela insistiu no fato de que esta depressão “violenta” não tinha nada
a ver com os “bebês azuis”:“Não há dúvidas de que eu golpeio com navalhas. Eu tinha
5
Ela foi um membro dos mais antigos e mais ativos da “Associação Internacional de Vítimas do Incesto”
(AIVI), que acabou abandonando, afinal, em 2005. Os objetivos da Associação consistem em “lutar
contra a negação social” e fazer avançar entre outras, as disposições legislativas referentes às
incriminações contra o incesto; à saber a inserção do termo “INCESTO” como crime específico no
Código penal e a adoção de uma imprescritibilidade para o crime de Incesto. Infra, nota 1 p.24 e Capítulo
4.

9
“ganas” de me matar, ou de destruir toda a família, meu marido, meu bebê. Eu
desejava suprimir todo o mundo. Isto era horrível. São as pulsões. Eu tinha desejo de
me jogar pela janela, de jogar meu bebê pela janela. Isto era terrível. Isto me fazia
medo verdadeiramente. Eu não tinha desejo de me lavar. Para poder me lavar eu tinha
a impressão que precisava de um esforço considerável. As coisas mais banais da vida,
a máquina de lavar roupa e etc... tudo isto tornava-se como se parecesse uma
montanha enorme. Eu me disse: não é possível, eu não vou conseguir chegar, então era
possível somente tomar uma ducha!”
Pode-se perceber que ela consegue sair de uma depressão sem ser hospitalizada
com cuidados psiquiátricos. Por outro lado, pode-se requerer isso se a hospitalização
pudesse permitir a verdadeira causa desta depressão, uma vez que a paciente tinha
perdido todas as lembranças de sua agressão. Para Pauline, após vencer o medo de estar
grávida, era o desenvolvimento deste medo que provocava uma antecipação
extremamente angustiante: “Cada vez, eu me dizia, não é possível, isto não é um filho.
Isto é terrível porque... eu não queria conhecer o sexo da criança... Mas eu não queria
certamente uma menina. E de fato, eu tive uma filha e após isso se tornou muito
agradável... Através dela era um pouco de mim que eu... eu sei que isso não é bom,
mas...”
O sexo feminino estando inevitavelmente ligado à posição de uma ilha sem
defesa no meio de um mundo dominado pelo masculino, vivido e representado como
predador, não poder colocar no mundo uma filha seria significar uma vítima em
potencial a menos. Ou isto parece que, para Pauline, a chegada de sua filha lhe ofereceu
uma oportunidade de se defrontar com suas penas (medos). Ela tomou consciência da
maneira que ela mesma poderia ter sido protegida por sua própria mãe durante sua
infância. Assim, algumas vezes, é a própria criança que se trata do pai psiquicamente
destruído. Foi esta regra que ela endossou quando ela estava pequena, e que ela não
queria sobretudo deixar acontecer com suas crianças.
Além dos sintomas, outros tipos de traços mnêmicos inconscientes - as
lembranças traumáticas, propriamente ditas, levaram 25 anos para retornar à superfície.
Tudo reapareceu ao saber do falecimento de seu tio. “Quando meu pai anunciou
que ele estava morto, e que ele iria ao seu enterro na Sicilia, eu comecei a ter
pesadelos mais e mais claros. E depois comecei a ter rememorações verdadeiramente
muito detalhadas”.
Durante o verão seguinte à morte de seu tio, Pauline fez uma crise histérica após
um encontro sexual, durante o qual ela se recordou da violação sofrida. Uma paralisia
total seguida de vômitos obrigou seu ex-marido a telefonar para o SAMU. Então ela foi
transportada para a Urgência, gritando num estado inconsciente: “Porque você me fez
isso? Eu não queria a tangerina!”... Pauline não pensa que o “esquecimento” seja o
nome exato para designar a eclosão de suas recordações de violação. Isto quer dizer que
quando suas evocações foram “remontadas”, no nível consciente, elas não foram
sentidas como estranhos desconhecidos, mas foram sentidas como conhecimentos
intrusivos dos quais nós procuramos esquecer a presença até que consigamos
“esquecer” sua existência. A impressão de estranheza aliada às suas lembranças
traumáticas reside na sua familiaridade mesma: como podem estar eles lá sempre, no
mais perto de si mesmo sem que o sujeito esteja consciente disso?
As recordações “recusadas” não se limitam à cena da agressão. Pouco a pouco,
Pauline se recorda de outros episódios de sua infância, quando ela tentava encontrar
“soluções” ao evento traumático:“Eu me lembro que eu queria me matar. Eu queria me
suicidar sobre as rodas da moto. Eu me recordo exatamente do momento e do local

1
0
onde eu queria me matar sobre a moto. Isto era o período do retorno às aulas. Eu sabia
exatamente tudo.”
Parece que se exterminar, para a maioria das vítimas de abuso, mais eficaz é a
forma de erradicar os traços da sujeira.Mas esta solução se debruça sobre uma
perspectiva paradoxal quanto a questão da culpabilidade.
Um pesadelo ficou mais marcante entre aqueles que assombraram as noites de
Pauline, após a morte de seu tio:“Estávamos numa sala de teatro. Estávamos ali, eu,
meu ex-marido e meu filho, o mais jovem dos três, e então todo mundo me dizia que ele
se parecia muito comigo. Nós estávamos sobre uma espécie de estrado. Meu marido
impunha uma espécie de felação ao meu filho. Enfim isto me parecia horrível . Ele
ejaculava na sua boca – foi isto que se passou comigo e meu tio. E os olhos da criança,
ele estava como um morto-vivo... de fato foi a mim que eu vi. A criança era o símbolo
de mim. Eu dizia ao meu marido, você podia ao menos limpá-lo”.
Isto se dá através do deslocamento de identidade – ela e seu filho; seu marido e
seu tio; sua mãe ausente e ela como sua mãe( assim ela pode pela primeira vez “se
rever” na cena como criança e começar a anunciar uma acusação tímida). O papel de
mãe é muito ambíguo no sonho: uma protagonista passiva crítica, mas impotente. Ela
testemunha uma desubjetivação, chegando mesmo a uma desumanização da criança
utilizada no erotismo perverso: “Isto é pior do que ser um objeto. É como alguma coisa
de morte, um pedaço de madeira morta, à qual não se dá a menor atenção e que não
tem nenhuma significação. Todos os lados em uma só moeda e todas as utilizações
quando você tem inveja. E isto é o pesadelo. Eu não esquecerei jamais os olhos do meu
filho. De fato eram meus olhos. Eu não jamais esquecerei os olhos de meu filho. Eu
tinha verdadeiramente a impressão de que eles eram olhos de um morto. ( Ela chora ).
Não há outra palavra”.
Na realidade a mãe de Pauline era uma mãe presente, mas incapaz de entender o
sofrimento da filha, daí ausente psiquicamente. Os medos, as angústias, a enurese, os
comportamentos de automutilação, a depressão grave., tudo foi reduzido às explicações
pseudomédicas, como uma crise de “crescimento” ou então de “adolescência”. Três
anos após Pauline ter sofrido e revelado à sua família a história do abuso sexual de seu
tio, ela recebeu ainda uma carta de sua mãe lhe aconselhando perdão como a única
solução possível.
Seu pai, irmão do agressor, foi a última pessoa da família que ouviu o que
Pauline tinha vivido durante suas férias de verão:“Meu pai; a primeira coisa que disse
quando eu contei o acontecido foi: “Bom, escuta: esta história fica entre nós, ela é do
passado, acabou e não se fala mais”. E eu lhe disse: não, eu não posso, eu vivi trinta
anos de silêncio. Isto está acima de qualquer questão, eu não espero nenhum dia mais.
Isto á minha história, eu faço o que eu quiser... Ele se quebrou, meu pai. Ele chorou
também. Isto foi um horror...”
Tomando contato com um dos filhos deste tio que parecia rejeitado pelo resto de
sua fratria, Pauline revelou o abuso. Este primo não manifestou nenhuma surpresa com
o relato e ele falou com ele mesmo: “Meu pai nunca me amou”... Ele assediou minhas
primas quando eu tinha treze ou quatorze anos. Uma prima do lado de sua mãe lhe
relatou espontaneamente, também: “isto também não me surpreende porque quando eu
estava com 12 ou 13 anos ele tentou comigo. Ele passou a mão nas minhas calças,
quando ele estava me levando para andar a cavalo”.
Esta pesquisa sobre o segredo familiar se mostrou frutífera. Muitas pessoas
acabaram por admitir que elas tivessem sabido ou ouvido outras histórias as respeito de
“avanços” que este tio costumava fazer contra outras mulheres ou jovens de suas
relações, principalmente com uma de suas próprias filhas:“Todo mundo estava mais ou

1
1
menos ciente de que ele assediava sua filha, e que havia alguma coisa de bizarra com
eles. Eles lhe disseram: Você se deu conta? Todo mundo suspeitava de algo, e ninguém
disse nada, ninguém fez nada. Mesmo por sua filha, ninguém fez nada! Isto é nojento!
Ele a tratava como sua mulher! Quer dizer que, quando sua filha tinha 16 anos, ele
saia com ela e nunca com sua própria mulher. Ele a presenteava como se ela fosse sua
fêmea. Ela tinha um papel de mulher mais do que de filha... Ela não tinha tido jamais
um noivo. Desde que ela teve um namorado, ele os afastava. Ela não pôde nunca se
casar”.
Muitas histórias de incesto se cruzam ainda num único homem, que não procura
dissimular a orientação de seus desejos sexuais. Os fios de proteção são, com efeito,
estendidos pelo agressor, pelos membros da família extensa que, partilham por sua vez a
identidade da vítima e a do agressor, participam em diferentes graus, da construção de
uma rede de denegações: com o propósito de minimizar o fato, de desculpar o membro
da família, este deboche não acontece sem concessões, a imagem masculina tradicional;
“Isto é um verdadeiro “porco!, e então?.
Os meses que se seguiram à crise histérica, Pauline decidiu ir à Sicilia, lá onde
estava enterrado seu tio. “Eu quero ir cuspir sobre sua tumba”... Mesmo se ele nunca
pudesse receber esse gesto simbólico, desdém, marca a emergência de um sujeito que se
autoriza a exteriorizar a fonte do mal designando-o culpado: “Eu tinha a impressão de
ter acabado esta história com meu tio, como se isso fosse um novo nascimento. E eu
disse ao meu marido; esta á nossa última viagem em conjunto”. Dentro deste
sentimento de renascença, Pauline iniciou um longo processo de reparação e decidiu se
separa definitivamente de seu marido, de abandonar a comunidade de Testemunhas de
Jeová e de respeitar seus próprios desejos e sentimentos.

A subjetividade do objeto

A palavra “objeto” em psicanálise provoca , frequentemente, incompreensões:


como podemos tratar pessoas como objetos? Não é uma forma de “coisificar” o outro a
maneira de mulheres que são presenteadas como “objeto sexual” na publicidade ou nas
reportagens dos magazines? Ora, a noção de objeto em psicanálise, notadamente nas
perspectivas elaboradas pela Teoria das Relações Objetais Kleinianas ou Winnicotianas,
designa uma tomada de independência que escapa a tentativa de controle exercida pelo
sujeito, para afirmar sua importância enquanto ser significativo e auxiliar no
desenvolvimento psíquico do sujeito. Isto se faz através da dialética dos laços
intersubjetivos, entre dependência afetiva e confirmação da autonomia. Num certo
sentido, ver o outro como “objeto” escapando ao controle do Eu, permite reconstruir o
aspecto opaco da alteridade e restituir assim seu aspecto impenetrável. Em outros
termos, o estado subjetivo do outro é de chofre presente na noção psicanalítica de
objeto.
Intuitivamente muitas vítimas mostram uma grande resistência à idéia de serem
utilizadas como objetos sexuais. Carole foi vítima sexual de seu pai entre as idades de 3
e 6 anos; guardava restos de lembranças. Perto de trinta anos ela não se lembrava antes,
se não parcialmente, da primeira agressão:“Ele gostava de brincar comigo, mas ele era
estranho. Então ele tinha uma pulsão para comigo, para me apertar, com isso, como
um sopro, como uma coisa. Como eu senti que aquilo não era normal, eu comecei a
gritar. Eu lhe disse que eu não queria mais que ele brincasse comigo. E depois, como
ele não brincava nunca comigo, eu não compreendia porque, de repente, ele voltou a
quere brincar comigo. E depois, minha mãe não estava lá, eu fechei a porta, mas ele
deu a volta e entrou por outra porta. E então, eu não me recordo de mais nada. Eu

1
2
tenho simplesmente uma recordação de ter dito: “Eu vou contar à mamãe”. E depois
ele me disse: “Você quer que eu me mate, não é?.”
Pouco tempo após, o pai abandonou a mãe deixando Carole e seu irmão recém-
nascido com ela: “Na minha cabeça de criança, eu acreditava que tinha sido por minha
causa. Eu acreditei que minha mãe tinha mais ou menos cumprido a ameaça de que ela
tinha dito para que ele fosse embora, ou então que ela tivesse tido muita raiva, e então
ele resolveu partir. Eu acreditei que ele tinha compreendido que não podia mais ficar
lá”.
Mas muito rápida, ela compreendeu que a partida do pai não era nem uma prova
de tomada de consciência dele, nem a manifestação do amor de sua mãe, que de uma
maneira como a ursa, procura proteger seus filhos ameaçados pelo macho. Ela se deu
conta que o pai tinha partido com a melhor amiga de sua mãe. E quando Carole tentou
explicar à sua mãe o que seu pai tinha feito, sua mãe lhe “deu de ombros”. Ela revê
ainda a cena com uma viva impressão.
Portanto, as agressões tinham durado até os 10 anos, durante os fins de semana e
nas férias, quando Carole e seu irmão iam ver seu pai. Elas acabaram quando, no dia em
que seu pai veio ao quarto de Carole e descobriu com ela seu irmão mais velho na cama.
Nesta tarde ela tinha dito a seu irmão que papai vêm me incomodar à noite. O irmão
pôde compreender imediatamente o que ele queria dizer. Ela se recorda ainda, eles
dormiam todos vestidos, antecipando a surpresa do pai:“Para ele, eu não sou mesmo
nada além de objeto. Porque com um objeto se faz qualquer coisa, nenhuma ambição
para que ele seja valorizado. Mas eu, não existo mesmo para ele! Eu não sou, se não
um prolongamento do meu pai”.
Este testemunho coincide com a observação de Hélène Parat a respeito do ato
incestuoso: Neste “auto-erotismo” particular, o objeto está presente, mas não tem valor
de objeto, e se torna uma forma de “apêndice narcísico” 6. Se a agressão sexual é
frequentemente apresentada como uma morte psíquica, isto é porque sua violência
extrema reduz sua vítima ao nada.
Isto é “o porquê” que a vítima grita: “Eu não conto. Meu sofrimento não conta,
eu não sou nada”. Ou no caso do incesto, a vítima, se avaliando como nada e não tendo
valor nenhum, se sente responsável com o seu agressor, que ela chama no cotidiano de
”pai”, avô, mãe, tio, primo, irmão. Por essa marca parental ela partilha o devir, claro
macabro de preservar a ilusão de unidade familiar, sem ter segurança de ocupar um
verdadeiro lugar, se isto não está de forma negativa. O sujeito não pode estar lá se não
de modo apagado ou ocupando um lugar quase inexistente. Está aí o paradoxo
emblemático do incesto.
Em semelhança com outras vítimas, Carole teve a chance de ter um irmão que
assumiu o papel de parente protetor. Além do mais, como veremos em seguida, na falta
de recordações seguras à respeito das cenas de agressão, a memória do irmão tornou-se
a garantia da verdade desse passado, foi isto que salvou Carole da loucura, não duvidar
mais que ela podia dar crédito a sua própria memória. As dúvidas a respeito das
recordações traumáticas tinham contaminado outros aspectos de sua vida. Antiga aluna
da Escola de Belas Artes, apreciada por seus professores, Carole não pôde jamais
mostrar seus quadros em uma exposição. A falta de confiança em si, até o desprezo por
si mesmo, conduz frequentemente as vítimas de incesto e de agressões sexuais a um
sentimento ilegítimo, impedindo-os de ocupar um lugar verdadeiro. De onde vêem,
frequentemente, as dificuldades de inserção social, profissional e as desventuras das
relações afetivas.

6
H. Parat. “L’Inceste” 2004 p. 84-85

1
3
Nem sujeito, nem objeto, objeto 7

O lugar legítimo de um sujeito não pode ser assegurado quando um outro


(semelhante a mim) ou um Outro (representante da ordem simbólica) lhe concede o
status de objeto de amo. Se esta condição não está cumprida, o sujeito se sente como
recusado, num estado de reconhecimento enquanto que sua existência é tolerada sob
garantia um pouco parecida com os “sem identidade” inespulsáveis e impossíveis de
serem regularizados.
Os ensinamentos de Lacan nos permitem compreender que todo o sujeito
desejante vive no desejo do outro / Outro e que através do processo de identificação, a
criança precisa se tornar falus, objeto do suposto desejado pela mãe na sua busca de
satisfação. (Ainda poderia clarificar porque a criança escolheria o falus como objeto
detentor do poder de satisfação e não a vagina ou outros órgãos). Assim o destino do
sujeito desejante não seria outro senão o de se transformar em objeto desejado, capaz de
satisfazer o outro amado. Mas, este postulado lacaniano deve se fundir sobre uma
manutenção do equilíbrio de um duplo status de sujeito objeto, no qual a posição de
objeto de amor coincide sempre com o reconhecimento do desejo do sujeito. Ora, numa
“relação” incestuosa imposta à criança, este que é nascido tão bem enquanto sujeito
desejante, se situa como objeto desejado, não estará sentido se não como
“prolongamento” de um outro desejante sob um modo de “auto-erotismo perverso”.
A legitimidade do sujeito numa família incestuosa está ameaçada sem cessar, ele
está preso em um dilema: abandonar uma relação perversa e viver uma vida afetiva, ou
tentar um simulacro de amor com um preço de uma dominação total por seu objeto de
amor e de uma perda total de sua subjetividade. Esta apropriação despótica, esta
introjeção canibalística da criança pelo agressor que nega até mesmo seu valor de objeto
(no sentido de que o objeto é um outro diferente, separado de mim), que por
conseqüência mata o sujeito neles, o que torna o amor muito impossível. Por oposto da
situação incestuosa, na situação edipiana, a criança em questão do amor pode se
permitir se identificar, mas não sem conflitos, com seu rival imaginário que o respeita
como sujeito-objeto em processos de subjetivação, se sentindo livres para seduzirem de
modo mesmo direto e mais sublimado, seu objeto de amor que lhe confirma sua
autonomia.
Ou então, na situação incestuosa pai-criança, este encontro não terá lugar jamais.
O sujeito desubjetivado não pode construir um envelope psíquico sólido e distinto.
Permitir-lhe detectar seus próprios limites. Daí a impossibilidade de reagir contra uma
intrusão.
A história de None ilustra bem a ligação entre a desubjetivação e a deformação
do envoltório psíquico. Durante longos anos ela tinha pedaços de recordações do abuso
sexual de seu pai, entre os seus 4 e 5 anos, que não cessam de questioná-la. Aos 47 anos
voltam as cenas de penetração anal e vaginal nos banheiros, onde seu pai entrava para
ver se ela estava bem limpa, se ela estava bem asseada. Ela resolveu deixar a casa de
seus pais aos 18 anos e se casou no ano seguinte com um homem com caráter violento
que não tinha se revelado, se não, após o casamento. Aos vinte anos ela teve seu
primeiro filho, cujo parto foi tão difícil que ela teve o cóccix partido. Quando Nora
retornou à clínica para uma consulta ginecológica seu pai insistiu em acompanhá-la,
mesmo que ela tivesse recusado. Na clínica, ela viveu uma outra cena muito humilhante.
Durante o exame ginecológico que ela se submetia com as pernas abertas, seu pai veio
olhar de perto como o doutor o fazia.: “Eu estava de tal maneira humilhada, não
acreditando no que eu via, eu o detestava mas... Mas eu me aborrecia tanto por não
7
J. Kristeva, “Pouvoir de L’horreur (1980) p.9

1
4
gostar de meu pai e igualmente por não ser capaz de dizer não” 8. Sem saber que tinha
direito à palavra, nem aos pensamentos ou sentimentos, o envoltório psíquico mal
formado, contendo antes de tudo os descréditos pulsionais, produtos de muitos ecos de
investimentos narcísicos que visam reabilitar o sujeito como tal. Entretanto, a veleidade
de projetar estes de sobre o parente-agressor sob forma de ódio desencadeia
imediatamente o sentimento de culpa.

Sentimento de culpa e autodestruição

Em “Totem e Tabu” de Freud, o sentimento de culpa nos filhos do ódio


primitivo, resulta do remorso e do medo, eles são suprimidos numa revolta coletiva, a
vida do pai que monopolizava o direito de acesso às mulheres 9. O sentimento de culpa,
ligado à angústia de eventuais vinganças do espectro paternal, tinha sido apaziguado em
um mesmo movimento de sacralização do pai, de instauração de interditos e de
introdução de um pacto fraternal. Pode-se então compreender o caráter inevitável da
culpa como uma forma de assumir o resultado desastroso do ato cometido, e o rito de
expiação (é cumprido para purgar uma pena pronunciada pela comunidade) como uma
tentativa de restaurar a calma e entrar numa dimensão simbólica – o sagrado -, e como
que para abrir a possibilidade do perdão. Mas como compreender o sentimento de culpa
da ofensa que objetivamente, não quis jamais possuir nenhum poder, não tinha jamais
cometido nenhuma injustiça contra aquele que ofende ou agride? Em outros termos,
qual é a causa que procura justificar o sentimento de culpa daquele que sofre a
injustiça?
Em psicanálise, o sentimento de culpa nas vítimas é classicamente interpretado
pela noção de “identificação com o agressor” como o propôs primeiro S. Ferenczi,
diante de um agressor que tem o direito de vida e morte sobre ela, a vítima, a fim de
sobreviver, se mete na pele do agressor, tentando raciocinar como ele, sentir como ele,
para poder antecipar seus atos. Mas, paradoxalmente, nesta forma muito particular de
mecanismo de defesa a vítima assimila ou introjeta tão bem o sistema de pensamento do
agressor que ela se infringirá a violência na falta deste e irá até assimilar sua retórica, se
designando como causa de suas execrações. Entretanto este sentimento de culpa das
vítimas parece ir além de si quando se leva em conta de que a noção mesma de culpa é
frequentemente ausente no agressor incestuoso, o qual se esforça para banalizar seus
atos.
Hipóteses: o sentimento de culpa nas vítimas

O sentimento de culpa é enigmático, no que se apresenta como fenômeno paradoxal, a


saber, não se encontra a culpa lá, onde ela deveria estar, no agressor. Mas, ao contrário,
nós vamos encontrá-la naquele que sofreu a injustiça. Ela se avalia culpada de não ter
podido evitar, não ter sabido impedir o mal antes que ele se produzisse? Muito bem se
espera que ela seja incapaz de enfrentar e neutralizar os traços do mal após o ocorrido?
8
Testemunho encontrado no site “incesto.org” colocado em 24/08/2005 sob o título de “Sombrias
recordações, questionamentos”. Este site foi criado por Isabele Aubry em 2000, co-fundadora e presidente
da “Assocaition Internationale des Victimes de L’incest (AIVI), com o objetivo de criar um espaço
anônimo de livres palavras para as vítimas. Graças ao grande número de visitantes regulares o site se
tornou uma comunidade virtual de ajuda para suporte psicológico mútuo e para fornecer todas as formas
de informações prática; conselho para os processos jurídicos e psicoterapêuticos, recomendações de
leituras, etc...
Afinal, o núcleo duro com membros ativos teve a idéia de organizar encontros e criar uma
associação (AIVI). Depois de 2005 os testemunhos colocados nestes sites foram sendo transferidos para o
fórum do site AIVI.
9
Freud (1912, 1913)

1
5
Para Franz Alexander, analista americano, o sentimento de culpa é uma tensão
de angústia provocada pelo desejo inconsciente de vingança, o que ele considera como
um dos “silogismos emocionais”, o mais primitivo, como sabemos a Lei de Talião 10.
O sentimento de culpa nasce de uma reação natural induzida pela agressividade
própria do sujeito submetido a uma ameaça real ou imaginária. Este modelo primitivo
do sentimento de culpa vai fazer par com a angústia de castração. A criança se sentindo
castrada pelo acontecimento de força inigualável, com o seu pai rival, será tentado a
atacá-lo no seu eu imaginário inconsciente. Mas seu desejo será inibido novamente pela
realidade material (ele é mais forte do que eu) e pelo amor identificatório pelo pai rival
(eu vou me tornar tão forte quanto você). [Ora, como o pai é a seus olhos de criança um
ser onipotente, onisciente e onipresente, isto resultará no sentimento de culpa], um
correlato de angústia de vingança, não será apaziguada senão através de uma formação
reativa, manifestada na exigência moral da criança sábia.
Mas uma questão merece ser posta aqui; nessa seqüência moral, primitiva;
segundo Alexander, as conseqüências psíquicas dos ataques ou da inveja dos ataques, se
distinguindo segundo um grau de legitimidade? Em outros termos, se a pulsão agressiva
traduz uma tentativa de vingança contra uma injustiça sofrida anteriormente, o
sentimento de culpa existe razão para que ele exista? Logicamente não temos tendência
a pensar que uma vingança legítima, ou ao menos reconhecida como tal subjetivamente,
não devia provocar um sentimento de culpa. E, aliás, é o que Alexander apresenta como
argumento no seu artigo. Nem ao menos, parece que o inconsciente “raciocina” segundo
uma outra lógica.
A clínica das vítimas de incesto apresenta a regra seguinte: sempre acontece, no
nível inconsciente, um desejo de vingança sob forma de pulsão agressiva ou destrutiva
que procura uma via de descarga, uma instância superegóica ameaça de punição. O
aparecimento de um sentimento de culpa é então menos ligada à presença da
agressividade, mesmo justificada, quando há uma impossibilidade de justificar a
agressividade sentida. Se a origem do sentimento de culpa na vítima fica incerta, pode-
se ao menos estar de acordo com Alexander sobre sua função: “o sentimento de culpa
tem um efeito inibidor sobre a expressão da agressividade”. Isto significa que, para a
vítima se sentir culpada é uma maneira enviesada de não cometer a violência em seu
entorno. Dito de outra maneira, a agressividade interna provocada pela violência externa
se acompanha de um aumento do sentimento de culpa sob o olhar implacável de um
superego precocemente deformado.
Eu quero ressaltar aqui algumas hipóteses concernentes de eventuais origens do
sentimento de culpa que não seguem sempre pontos de vista psicanalíticos. A primeira
hipótese segue a pista da regressão, retornando a tempos históricos ou místicos de onde
nasceria a noção e de falta de culpa. Freud a situa sempre por definição à ameaça de
castração ligada às atividades masturbatórias da criança. Mas podemos imaginar outros
cenários respeitando a mesma cronologia da tomada de consciência da culpa: a criança
comete um ato pelo qual é punida quando é descoberta pelo adulto. Aqui, o caráter
furtivo do ato é ulteriormente e artificialmente designado pelo gesto punitivo do outro.
O sentimento de culpa assim provocado se liga então com a “consciência de
cometer alguma coisa de má’. A hipótese de regressão supõe que, em uma experiência
traumática extrema que coloca a vítima em uma impotência total diante da morte
iminente, seu funcionamento psíquico retorna a um modo arcaico, onde o tempo da
punição precede aquele da tomada de consciência da falta. Uma jovem toma
consciência que uma falta que lhe é imposta, gratuitamente ou com razão, após ter
sofrido uma punição dos pais. E é, aliás, ele que será julgado pelo Outro, pais todo
10
F. Alexander – “Remarks about the relation of inferiority fellings to guilt fealings (1938) p. 42

1
6
poderosos aos seus olhos, ao menos durante um tempo, quando os critérios morais lhe
serão transmitidos par construir seu superego antes de ser ajustado, submetido à
influência de outras figuras ideais ou idealizadas. Este modo de funcionamento evoca
uma lógica de causalidade na crença primitiva que, diante de catástrofes naturais, que se
deve procurar em si mesmo a origem das punições divinas. Uma forma de dedução a
“posteriori” visa tornar o acontecimento compreensível.
Esta hipótese de uma regressão cognitiva religa em uma certa medida a idéia
proposta por Freud de uma formação de masoquismo secundário como um retorno
regressivo ao masoquismo primário, processo que nós chamamos provisoriamente uma
“Regressão Pulsional”. A noção freudiana de masoquismo primário se apóia sobre a
determinação corporal e pulsional do sujeito em sua interação com o mundo. Em “O
problema econômico do masoquismo” 11 ele afirma que o masoquismo originário
erógeno será um “componente da libido” e guardará sempre a sensação de ser objeto
próprio do indivíduo 12.
A audácia de Freud o leva a pressupor que, em todo indivíduo, após um combate
parcialmente bem sucedido da pulsão de vida contra a pulsão de morte, um resíduo de
pulsão de morte sem poder descarregar para o exterior ela se volta contra o Eu. E este
resíduo de tendência masoquista, mais ou menos poderoso variando de acordo com os
indivíduos, poderá ser revelado em circunstâncias propícias e atacar o próprio sujeito
como um sujeito externo. Para Freud, o masoquismo secundário e inseparável do
sentimento de culpa inconsciente que o reenvia sempre à vida infantil, de onde Freud
cita como exemplo principal a experiência da masturbação. Eu prefiro sublinhar o
“masoquismo mortífero” 13 marcado por uma violência sexual sofrida durante a
infância.
Em “Luto e melancolia” 14 Freud “desenha” um sujeito melancólico que,
recusando, passo a passo, em perder definitivamente seu objeto, assimila-o, se
identificando com ele, o “homem do objeto” que tombou sobre ele. Comparando a
noção de “identificação com o agressor” esta identificação com o objeto perdido
procura uma explicação mais pertinente para compreender o sentimento de culpa e os
comportamentos autodestrutivos da vítima do incesto: diante da perda insustentável do
objeto de amor, o Eu se deforma a fim de evitar o aprofundamento psíquico que gerara a
tomada de consciência desta perda. Assimilar os traços do objeto é assim uma forma de
guardar no imaginário, ao invés de sofrer.
Além disso, prisioneiro de uma relação de encarceramento, não é raro que a
vítima introjete a palavra do agressor e ache que ela mesma “fez algo para isso
acontecer”. Esta maneira de introjeção alimenta uma imagem do Eu negativo que é
quase sistemático nas vítimas que sofreram um ou vários abusos sexuais na infância,
isto provoca ataques virulentos contra o interior do sujeito. Se nós associarmos o
mecanismo de assimilação do objeto do modo melancólico, que torna o luto impossível,
com esta forma invertida da pulsão destrutiva contra si mesmo, compreende-se melhor
então como uma assimilação do objeto, inicialmente auto conservadora pode se
transformar em um mecanismo de auto destruição. Isto então pode mesmo se transmutar
em uma fascinação dolorosa, que se transforma em uma forma de prazer mórbido e
desestruturante, caminhando para um masoquismo mortífero.
Do mesmo modo, minha segunda hipótese propõe que pelo fato de se sentir
culpado o inscreve em um movimento de auto conservação no qual o sujeito procura se

11
S. Freud (1924) - em “Neurose, psicose e perversão” p. 287 - 297
12
Freud – p. 292
13
B. Rosemberox, Masochismo mortífero et masochismo gardien de La vie (1991)
14
S. Freud (1915), in Metapsichologie – p. 145 - 171

1
7
apegar em um ponto de apoio paradoxal para evitar a alienação completa do Eu. O
sentimento de culpa corresponderá aqui a um esforço para recobrir um sentimento de
controle situando a responsabilidade em si mesmo. Este raciocínio encontra eco no
conceito Winnicottiano de “angústia defensiva”, ligada ao temor da desestruturação; é
necessário evitar a desestruturação redutora que, de fato já se produziu no passado.
Segundo uma forma particularmente torturante, o sentimento 15 de culpa será vital para
poder suspender a via “dissipante” e retardar assim o acontecimento da morte. Mas se
desenvolve então uma atitude mórbida, na qual a vítima espera sempre a chegada da
próxima violência: o “golpe de misericórdia” que ainda não se produziu, mas ele não se
retardará, e é conveniente ficar vigilante. Dito de outra maneira, graças à manutenção do
estado de angústia, o sentimento de culpa permite transformar a passividade - vivida no
momento da agressão e ficar em surdina – uma espécie de ação interna.
A 3ª hipótese é talvez a mais misteriosa: o sentimento de culpa estará sujeito a
uma contaminação do retorno do mal. Sempre ligada à imagem proposta por Freud na
qual “a sombra do objeto cai sobre o sujeito”, mas ao mesmo tempo está ligada a uma
reação instintiva de auto conservação através da manutenção deste objeto interno que é
o sentimento de culpa, o choque exercido pelo mal encarnado em uma visão do homem
“marcado” na psique e aí deixou traços indeléveis. O sujeito vê através deste olhar
aterrador o homem demônio, aquele que é capaz de fazer, ele também enquanto um
animal humano. Tal como a mãe podendo despertar na criança o Eros, o desejo sexual,
pela mamada e os cuidados corporais 16, o mal revelado na vítima, o Tanatus, a pulsão
de morte e de destruição. A vítima interioriza esta pulsão, como em último esforço para
se aproximar da dimensão humana, para não se deixar balançar para outro lado da
fronteira; desordem, monstruosidade, loucura.
Com efeito, o trauma psíquico provocado pelas violências humanas mostra os
limites de nosso instinto auto protetor. Porque a psique assimila um modo de pensar
manifestamente prejudicial para o sujeito, sobretudo quando ele vem daquilo que lhe faz
tanto mal? Este modo de pensar, que traduz por autocrítica tão encarniçada
freqüentemente não justificada, não visaria despertar uma raiva contra o agressor? Este
círculo vicioso, que consiste em se infligir mais mal para justificar o ódio, não é
finalmente um modo indireto de julgar o mal absoluto que representa o agressor? Ora,
fazendo isso, a vítima liga imprudentemente seu destino ao do agressor. O
superinvestimento sobre o objeto agressor reforça mais ainda a ligação estabelecida pelo
sujeito em um desejo de reparação ou de acordo entre as duas partes. Para sair desta
fuga, antes de mais nada emocionante, é necessário que a vítima chegue a se convencer
que ela pode viver sem o agressor. E isto é sem dúvida a parte mais difícil.

Culpabilidade identificadora e pulsão autodestrutiva

Na adolescência o sentimento de culpa atinge seu ápice em conseqüência das


alterações biológicas anunciadoras da sexualidade genital propriamente dita, que para as
vítimas, pertencem unicamente ao agressor e foi associada à monstruosidade. O
raciocínio “eu sou mau, logo eu me puno” tornando-se sistemático de tal modo que isso
merece ser nomeado automatismo psíquico. O par “sentimento de culpa / desejo de
autopunição” reforça essa ligação à medida que o desenvolvimento afetivo da vítima,
que não encontrou socorro no seu meio circundante, cresce no imaginário da criança,
esta vítima coloca o outro parente na mesma situação que ela, aquela que sofreu a

15
D. Winnicott – “La viante de l’effondrement et outres situations cliniques (1971)
16
S. Freud. Três ensaios sobre a sexualidade infantil (1905) p.105 Aleitamento

1
8
violência, e apesar disso se identificou com o agressor, por amor, por medo, ou ainda
por dependência.
Carole, que eu evoquei brevemente a sua história anteriormente, teve sua
primeira crise de anorexia aos 14 anos, quando ela ficou apaixonada por um rapaz.
“Como se eu não tivesse o direito...” disse ela. Este direito a escolher um outro objeto
de amor que não seja o pai que foi implicitamente suprimido com o ato incestuoso, tu és
minha e tu me pertencerás para sempre: “Eu me tornei anoréxica como que para me
punir por estar tendo desejo de existir”.
A recusa a se alimentar é freqüentemente comparada a uma percepção
deformada da imagem de si mesmo que leva o sujeito a frear o desenvolvimento
expansivo de seu corpo. Mas, no caso de Carola, parar de absorver aquilo que nutre
(símbolo de amor parental), é uma tentativa mais radical de consumir este corpo dado
pelos pais, acabar com sua existência sentida como um feito ilegítimo. Como Carole
disse: “quando se tem desejos, forçosamente nós existimos... Eu tinha a impressão que
meu pai me dizia que, não me interessa que você exista não me interessa que você
fale... Eu não existia se não quando ele decidia que eu podia existir”.
Retornemos por uns instantes sobre a 3ª hipótese formulada anteriormente. O
sentimento de culpa da vítima (“eu sou má”, e sua tendência a autodestruição (“eu me
puno”) ela já está engrenada quando sua própria pulsão de morte entrou em ressonância
com a pulsão destrutiva do agressor. Mas este magma de culpa é então ampliado por um
segundo conflito pulsional interno desta vez, entra a sexualidade infantil e a sexualidade
adulta. Tudo se passa “como se”, de agora em diante, a vítima estariá habitada e
consumida pelo interior por esta sexualidade que tinha transformado o adulto em
monstro. Uma outra vítima anônima escreve: “há um monstro aqui dentro de mim. E
este monstro é meu pai. Ainda que meu pai não esteja mais lá eu continuo com aquilo
que não consegue acabar...” No momento em que ela escrevia este testemunho, esta
mulher veio a ser hospitalizada por ter tentado se suicidar, pouco após a morte de seu
pai.
Todos os sintomas observados nas vítimas de agressão sexual, durante sua
infância, na adolescência ou na idade adulta torna-os autores da autodestruição. No
início, eles aparentemente reagem com sinais de alarme tendo como objetivo advertir ao
meio circundante ao invés do uso da palavra, que foi interditada pelo agressor: prestem
atenção em mim, eu tenho problemas, mas eu não posso dizer, porque eu vivo sob
ameaça ou porque eu não encontro um meio de desenredar do sentimento de culpa de
vítima. Mais do que um compromisso entre as pulsões contraditórias do supereu e do id,
aqui, os sintomas, os componentes autodestrutivos são como gritos desesperados.
A violência incestuosa condena toda expressão da sexualidade da criança
primeiramente, depois a do adulto que ele desvenda.
A pujança sexual fica bem marcada pela perversidade e pela culpa, que ele quer
melhor e bem interditar para se purificar, ou ainda banalizá-la ao extremo para excedê-
la. Certas vítimas interditam toda sua vida sexual, outras se dão a uma sexualidade
“desregrada”, se servindo dos homens como lenços descartáveis. Mas essas duas
tendências não são mutuamente excludentes, estando todas as duas impulsionadas por
uma estratégia para se desfazer da culpa. É possível que elas surjam em alternância nos
diversos períodos de vida. Na primeira versão, por querer se livrar de sentimentos de
culpa, o sujeito fica aprisionado em uma forma de obsessão de inocência, uma vontade
patógena de se purificar sem cessar, de onde os rituais de purificação chamados de
“transtornos obsessivos compulsivos” (TOC) no DSM 17.
17
Iniciais do Diagnóstico e Manual Estatístico das Desordens Mentais”, um manual escrito e publicado
pela “Associação Americana de Psiquiatria” (APA), que aponta as categorias de doenças mentais e os

1
9
Na segunda versão, une-se vida sexual (vitas sexualis) posta em prática em um
espírito de rebelião, como uma tentativa para superar o sentimento de culpa pela
demolição de todas as regras. Algumas vítimas retomam a lógica que lhe reserva o
agressor e tratam seu próprio corpo como um objeto sem alma, aquilo que é revelado de
modo inquestionável pela taxa de revelação de antigas vítimas de agressão sexual nos
casos de prostitutas 18. Em paralelo à autodestruição escancarada se desenvolve
igualmente um “eu não estou nem aí”, um modo de vida “anarquista”.
Nas tentativas de suicídio ou nas automutilações, muito freqüentes nos casos de
vítimas, deixam-se descobrir um esforço para separar do não eu, ou o do Eu “culpado”,
a parte do Eu tomado como objeto representado pela imagem de um corpo sujo, e o
verdadeiro Eu, ou o Eu inocente, tornando-se o executor da punição ou da purificação.
A vítima do incesto fica bloqueada no lugar onde o incidente traumático se produziu,
tentando eternamente organizar o caos ou de reparar o irreparável. (“Isto não
acontecerá, vive-se com isso”, diz com ênfase Pauline). Ela fica lá a limpar o sangue de
sua própria morte.

O Supereu, Instância Punitiva

Do ponto de vista tópico, a instância que dirige a pulsão de agressão contra o eu


tomado como objeto é claramente o supereu. A propósito do desenvolvimento desta
instância inconsciente, Freud explica: “Como por uma espécie de precipitado do longo
período da infância que ele “atravessou” e durante o qual ele dependeu de seus pais, o
indivíduo no caminho da evolução vais formar no seu Eu uma instância particular pelo
qual se prolonga a influência parental. Esta instância é o Supereu” 19.
Qual a influência parental que um agressor incestuoso pode ter dado à sua
criança agredida? Vários testemunhos das vítimas convergem por mostrar que o ato
imoral do pai agressor se acompanha muito freqüentemente de uma atitude
extremamente moralista, que vai até exercer sobre as crianças punições absurdas e
arbitrárias (como, por exemplo, o pai de Linda Cutting, pastor, que infligia
regularmente chicotadas nos seus três filhos 20. O que forma de supereu foi então
instaurado no agressor para lhe permitir uma clivagem funcional tão perfeita, a
coabitação de atos tão contraditórios? Pode-se constatar, por exemplo, que no agressor a
tensão entre Id e o Supereu se descarrega em atos de punição ou de agressão contra a
criança. Isto torna-se um suplício do “seu” Eu para o agressor, que não se pode tomar
por objeto de punição. Isto nos leva a constatar a impossibilidade no agressor de
conceber a alteridade nele mesmo. E é, provavelmente, este déficit na sua relação
consigo mesmo como outro que o crescimento fatalmente exerce a pulsão destrutiva
sobre um outro, para o exterior então.
É muito freqüente encontrar nas vítimas de incesto um supereu rígido e cruel.
Mas é uma reprodução do Supereu do pai que parece mais uma reduplicação de um eu
“parado” que não conhece limites? A tendência autodestrutiva das vítimas mostra que a
herança psíquica do Supereu tirânico e a confusão de limites se manifestam o mais

critérios de sintomas para os diagnósticos. Ela está hoje em sua 4ª versão e é usada mundialmente pelos
psiquiatras e cada vez mais pelos psicólogos clínicos.
18
Um estudo transnacional mostra que, entre 69% e 95% das prostitutas terem vivido antes de sua
maioridade, uma ou mais agressões sexuais, na maior parte cometidas por membros da própria família, c/
M. Farley et all “Prostituição e traficando...” (2003). Este estudo foi feito após entrevistas com 854
prostitutas em 9 países que tem contexto socioculturais muito diferentes. África do Sul, Alemanha,
Canadá, Colômbia, Estados Unidos, México, Tailândia, Turquia e Zâmbia.
19
Freud “Abrégé de Psychanalyse” (1938) p.5
20
Nós retornaremso a esta história (infra p.31)

2
0
freqüente sob forma de introjeção pulsional na qual o eu “destruído” sofre ao se afirmar
como sujeito. E por um curto-circuito entre se afirmar, agredir, se tornar sujeito,
significaria para a vítima se tornar agressora. Assim, por uma ironia trágica a vítima não
consegue chegar a se tornar ela mesma agressora para exteriorizar a pulsão agressiva
contra o outro, se cliva designando uma parte do eu como objeto de descarga pulsional.
Seu status de sujeito tende a se reduzir a um violento autoflagelo, contrário a um sujeito
autônomo, sem ser esmagado pelo objeto assimilado, capaz de entrar em uma
verdadeira relação com outrem.
Esta dificuldade em se tornar sujeito está fundamentalmente ligada à confusão e
à fragilização dos limites do envoltório psíquico. Ora, se a vítima divide com o agressor
o mesmo problema de limites, nela a natureza deste problema se situa no oposto.
Contrariamente ao agressor, para quem os limites não existem – a tal ponto que a
agressão torna-se mesmo, um modo de provar “além dos limites” – no lado da vítima, a
confusão se apresenta na maior parte dos casos como um colapso permanente durante o
qual os limites, espremendo para o interior e roendo o espaço do psiquismo, o que dá
um sentimento de fechamento oprimente, exacerbado pelo olhar dos outros. Esta
fragilização da estrutura psíquica explica talvez a freqüência da agorafobia e a
claustrofobia nas vítimas.
Para aqueles que viveram agressões abomináveis desde a mais tenra idade, a
estrutura psíquica está construída por sua vez como um anteparo protetor e um enclave
organizado contra o poder oprimente do exterior sob o qual a criança se choca
permanentemente. Desta maneira, todo ato que procura fazer mal para se sentir existir,
as diversas formas de comportamentos autodestrutivos (automutilação, tentativas de
suicídio, anorexia ou bulimia) podem ser interpretados como “dificuldades com limites”
em uma tentativa para fazer explodir os muros psíquicos.

Duplo Recalcamento

No caso do trauma incestuoso, não se trata somente de um recalcamento clássico


no qual o recalque será sobre o desejo sexual de ordem auto-erótica ou de ordem
edipiana. Há um recalcamento que visa de uma só vez a sexualidade do sujeito, aquela
do parente agressor (pai/mãe) e o encontro mortífero dos dois.
Admite-se que o recalcamento se associa ao sentimento de culpa – este último
como causa ou conseqüência do primeiro – a razão desse duplo recalcamento; sobretudo
culpado por ter conhecido uma sexualidade a qual ele não devia pretender; culpado em
seguida por ter usurpado o lugar do outro parente, companheiro legítimo do agressor. O
primeiro sentimento de culpa originário do sexual, da mesma ordem do “pecado
original”, referente ao valor trivial de “transgressão”, consumação do “fruto proibido”;
o segundo revela o matricídio ou o parricídio, no sentido do deslocamento do lugar filial
por quem ocupar o lugar do outro parente traído pelo incesto. O mecanismo de
recalcamento permite à vítima se arranjar com a sexualidade e a filiação, todas as duas
convergindo enfim em uma problemática da identidade sexualizada.
Este recalcamento faz eco à injunção do pai agressor que interdita a percepção, o
pensamento, a recordação e a interpretação dos acontecimentos traumáticos. “Você não
viu nada, não sentiu nada, e você não se recorda de nada” Isto não é uma interdição – no
sentido original da palavra; um dito entre dois ou vários outros – que coloca limites para
que a criança possa construir seu envelope psíquico protetor, mas sim uma interdição
que ultrapassa as fronteiras do território parental a um extremo, até emparedar o espaço
psíquico da criança.

2
1
Finalidade do recalcamento: fuga do desprazer

Antes do “Além do princípio do prazer” de 1920, os argumentos freudianos


sobre a causa do recalcamento se inscreviam sempre em contrapor ao princípio do
prazer, constituindo então com o princípio da realidade um dos dois princípios
fundamentais do funcionamento psíquico. Pois, acompanhando esta idéia, o princípio de
realidade se muda em uma forma derivada do princípio do prazer, do qual o exemplo
emblemático é o complexo da castração: a criança se priva de se masturbar para evitar a
ameaça real ou imaginária da castração.
Em reflexões sobre o despertar do mecanismo de recalcamento Freud afirma que
é o desprazer provocado pelo retorno de uma idéia à superfície da consciência que
necessitará de recalcamento para descartar os sentimentos desagradáveis que surgem
disso. Freud estimava durante longo tempo que, se as recordações das atividades
sexuais correm riscos de evocar o desprazer, é devido ao pudor e a moralidade que se
constituem em “forças recalcadoras” de onde encontramos:
“Lá onde o pudor tem força (como nos indivíduos machos), lá onde a moralidade
está ausente (como nas classes sociais mais baixas da sociedade), lá onde o desprazer
se encontra enfraquecido pelas condições da existência (como no campo), o
recalcamento não se produz por ele, daí nenhuma excitação sexual infantil
desencadeia o recalcamento e nem por conseqüência a neurose” 21.
Aqui, Freud tem o mau gosto de escolher a moralidade como indicador de
prazer/desprazer e de medir o sentido de moralidade segundo a diferença de classes
sociais. Considerando os fatores sociais como determinante do prazer ou desprazer
induzido pelo ato sexual e como condições para escapar ou facilitar o desenvolvimento
das neuroses, Freud fornece a seu conjunto de falsas idéias estereotipadas sem que se
saiba por que, e que estão ativas ainda hoje em uma certa medida; os homens de classe
mais baixa nas zonas rurais estão mais dispostos a satisfazer sem entraves sua
sexualidade, assim como a cometer agressões sexuais; e quando isto chega às crianças
deste meio, as conseqüências são menos graves, porque “nenhuma excitação sexual
infantil acarreta o recalcamento e nem em conseqüência a neurose”.
Ora, o testemunho que se encontra em certas obras do domínio psicoterápico, em
autobiografias escritas pelas próprias vítimas, assim como os relatos dos
“sobreviventes” do incesto que eu pude recolher, estão no oposto desta construção
fantasmática das vítimas, cultural ou socialmente longe, que seriam diferentes de nós.
Um pensamento defensivo que permite construir um Eu ou um Nós, com fronteiras
flutuantes e se afastar psiquicamente das situações malditas. Nesse sentido, o
estereótipo serve não só para evitar uma ambigüidade perturbadora para o sujeito, mas
isso nos preserva também de um sentimento de segurança para uma separação categorial
de um Eu compassivo e de outro sofredor.
Se se segue voluntariamente Freud, sobre seus dois princípios fundamentais do
aparelho psíquico, seria mais prudente levar em conta as fontes múltiplas e
diversificadas de prazer e desprazer em cada sujeito, que não são determinadas por estes
ou aqueles fatores sociais ou mesmo culturais. Depois de Ferenczi, a origem do
recalcamento de uma agressão sexual se situa sobretudo em um sentimento doloroso de
despedaçamento do sujeito, no não reconhecimento do Eu enquanto um sujeito-objeto
capaz de amar e ser amado.
21
xxxxxxxxx

2
2
O impacto deste desprezo alienante vai bem mais além das fronteiras sociais e
culturais. A emancipação do espírito não impede ao inconsciente de obedecer às leis dos
mecanismos de defesa, mas ela legitimará a luta quando o sujeito do recalque se atrelar
a um trabalho reflexivo e rememorativo para amortecer uma tomada de consciência.

Um passado duplamente recalcado

Coloquemos por um instante entre parênteses a questão dos motivos


inconscientes do recalcamento, eu me inclino a pensar que as vítimas do incesto estão
constrangidas por um contexto específico que é o de superar um duplo recalcamento do
passado; o primeiro revela um complexo de édipo “normal”, enquanto que o segundo é
um recalcamento “vital” da morte psíquica de um édipo nascendo.
No primeiro, trata-se de recalcar o nascimento da sexualidade própria do sujeito;
no segundo, o objeto do recalcamento é a sexualidade do pai (ou dos pais) apresentada
de modo perverso. Como este recalcamento impede a possibilidade de uma
representação, o sentimento de culpa do sujeito se transforma em um sentimento
flutuante que afoga o Eu. Isto pode se tornar um distúrbio da identidade sexual; uma
idéia fixa da sexualidade pesadamente carregada de culpa; das relações paradoxais
mantidas com o pai agressor assim como com o outro parente que é percebida como sua
cúmplice; uma personalidade de fachada (falso self) que pretende que tudo é normal,
salvo ela; um desapego isolante, de si e do mundo exterior; um olhar para o interior
dado à interdição de perceber, de sentir e de interpretar.
De novo, nós fazemos um apelo ao exemplo de Carole para oferecer alguma luz
sobre a causa do duplo recalcamento. Carole, cuja anorexia foi um dado da interdição
inconsciente de todas as relações amorosas, não tinha chegado jamais a falar com sua
mãe das agressões sexuais cometidas por seu pai. Com a morte de sua mãe, pode ser
enfim aliviado o peso da culpa ligada à suposição da sedução que ela achava ter
exercido sobre seu pai.
“Eu penso que é aliás por isso (o fato de que ela está morta) que eu pude sair. Eu
não sei se ela estivesse viva eu poderia dizer-lhe. Porque, dentro da minha cabeça de
pequena filha, eu tinha mesmo a impressão de ter provocado meu pai... Eu tinha a
impressão de ter querido o meu pai e de ter tido. Isto era minha falta de fato, eu tinha
seduzido o marido de minha mãe... Eu tinha ainda a impressão de estar em falta por
obrigação com minha mãe... Eu me recordo que meu pai tinha, aliás, me feito
compreender que era erro meu, e que era eu quem fantasiava”.
Desejando o amor dos dois, pai e mãe, a criança não pode se julgar “inocente”
da passagem ao ato incestuosa que ela tinha querido na sua posição edipiana. Ela se
coloca como culpada, de ser a causa do ato e de “ter tido” o pai desejado. Mas
paradoxalmente, nesta empreitada, a criança perde tudo; seu pai, sua mãe, seu desejo e
seu lugar de criança. Além do mais, ela se sente culpada por esta desestruturação
familiar; acriança “se vê” como tendo se colocado como rival de outro parente. O
trauma do incesto se desenvolve em torno dos conflitos inconscientes extremamente
violentos, causado pelo duplo recalcamento que exige um forte investimento de energia
psíquica.
A vítima está confrontada com um duplo desafio; encontrar uma saída realizável
para o complexo de édipo, e fazer o luto de um Édipo abortado no enfrentamento com a
perversidade incestuosa.

Amnésia e denegação, mecanismos de autoproteção

2
3
Segundo o Freud Darwiniano, os mecanismos inconscientes de defesa fazem
parte dos reflexos instintivos com vista à segurança da vida psíquica. Nesta perspectiva,
a amnésia ou a denegação das vítimas do incesto, assim como em seu agressor ou em
sua família é antes de tudo uma última estratégia para evitar o desmoronamento do
mundo psíquico. Recalcamento ou clivagem? Os dois, talvez. Porque na experiência
traumática do incesto de cada vítima existem elementos que foram rejeitados após terem
sido percebidos e compreendidos, mesmo se o foram parcialmente, e elementos que
ficaram na obscuridade, descartados muito depressa sob um estado de choque, antes
mesmo de serem percebidos.
Os fatores como idade, circunstâncias nas quais as vítimas se encontravam no
momento da agressão, etc. podem modificar sensivelmente as capacidades cognitivas.
Eu retornarei mais em detalhes sobre este ponto no capítulo quatro, onde eu tentarei
tratar do papel da memória na experiência traumática. Por hora eu me contentarei em
apresentar alguns testemunhos de vítimas quanto a suas experiências de esquecimento
ou de denegação.

Esquecer, sintoma e sobrevivência

Para poucas das vítimas de incesto, a amnésia é não somente um compromisso


entre o Eu e o id, ela é também não só um recurso para a sua sobrevivência psíquica,
permitindo que ela cresça apesar do horror das agressões. Pessoas que viveram várias
agressões sexuais na sua infância relatam frequentemente um período mais ou menos
longo de amnésia afetando os episódios traumáticos. A vítima poderia quase continuar a
viver próximo do seu agressor, talvez até manter uma relação íntima com ele sem se
aperceber de nada. É o caso particularmente emblemático de Linda Cutting 22,
mencionado brevemente mais ao alto. Entre cinco anos e seis anos, ela sofreu várias
repetições de agressões sexuais de seu pai, um pastor muito apreciado por seus
paroquianos. A partir da idade de 6 anos ela consagrou a maior parte do seu tempo ao
piano, como para se esconder na música, procurando uma proteção na repetição
incansável do gesto coreográfico e na memorização das partituras para não deixar de
lado a rememoração das “cenas da infância”, que aos antípodas da Graça
Schumannianas, não eram se não cenas de violações brutais e regulares. As recordações
traumáticas não surgiram senão após os vinte anos, em cena, durante um concerto,
quando ela já tinha se tornado uma pianista profissional, que veio a se coroar como
“estrela do ano” nos Estados Unidos. Assim que começou as primeiras notas do
concerto número um de Shostakovich que sua memória traumática foi revelada pelos
ruídos de passos de um espectador retardatário, ressonando no fundo da sala.
Completamente assustada, ela precisou se interromper, e foi incapaz de retornar, como
se sua memória musical tivesse sido roubada por um furacão. Certas características
frenéticas do concerto constituía talvez em um envelope musical propício em um
flashback. Sempre é uma carreira de jovem pianista que foi quebrada no nascimento. E
foram necessários em seguida 13 anos para se reconciliar essas duas memórias,
traumática e musical, a fim de sair da história do incesto e de uma depressão grave que
lhe levou a cortar a vida 23. Esta história se refere à de Pauline, quando as lembranças da
violação forma ocultadas por mais de 20 anos, para reaparecer subitamente quando da
morte do tio agressor. Da mesma maneira, Carole viu “flashes” muito claros 18 anos
após as cenas traumáticas assim que ela apresentou o conhecimento ao seu marido.

22
L.K. Cutting (1998) descreveu este processo de rememoração e de cura em uma autobiografia sobre a
qual eu me baseei como caso clínico para minha memória de DEA, Universidade de Paris VII, 2001
23
xxxx

2
4
Eis um outro exemplo, de testemunho posterior, encontrado em um site da
internet sobre incesto: incest.org. Uma mulher de 40 anos, sob um pseudônimo de
“stainless actio” 24 escreveu com emoção que, oito dias antes, as recordações de
agressões sexuais que um tio tinha lhe feito sofrer entre seis e oito anos tinha aparecido
quando ela viu numa das propagandas da campanha do AIVI para sensibilizar a opinião
pública.
Durante mais de 30 anos ela apresentava diagnósticos de psiquiatra em cima de
seus sintomas, como “alterações maníaco-depressivas”, acompanhadas de fobias, que
lhe atacava o olhar, o que se manifestava em purificações compulsivas: “uma forma de
precisar expiar eu não sei direito o que, uma necessidade maldita de limpar, sempre
tudo que eu tinha tocado, tudo que estava ao meu redor. Sujo, eu sou porca. Isto é
seguro e certo. Mas eu não sabia por quê.” Ela estava convencida que ela provinha de
uma mancha contaminante. Era preciso limpar constantemente para se preservar e ser
salva. Antes desta revelação ela guardava estranhos brinquedos de recordação de sua
infância. Ela estava hospitalizada durante um tempo mas ninguém lhe havia explicado
porque tinham levado ela para aí. Ela se recordava somente disto: “As enfermeiras me
lavavam as entre pernas me interditando o levantar e de ir tomar banho, sem que eu
pudesse participar de nada de maneira nenhuma. Os pais não lhe falaram jamais sobre
essa hospitalização e tinham obsessivamente evitado suas questões: “Portanto, há umas
sensações que retomam como flashes, sonhos que por vezes eu acreditava me tornar
louca. “Me disseram que eu fabulava, os pesadelos recorrentes, fiéis, me
acompanhavam toda vida”.
O visual da l’AIVI intitulado “uma verdadeira língua do papai” 25 apresentando
uma verdadeira língua em uma embalagem de jogos infantis, restabeleceu na época, que
eu vivia ainda um tio paternal adorado e temido: “Ele me oferecia, sobre o olhar e o
pescoço, grandes golpes de língua, me afogando nos seus braços... o desgosto me
dominava, e eu me sentia como se houvesse um ontem que eu jamais tivesse esquecido
completamente” 26. Quanto às vitimas que não esqueceram tudo totalmente, mas que
não conservam senão vagas lembranças, elas ousam muito raramente se confrontar com
o agressor que elas julgam amar e agüentar.

A denegação da vítima

Quando não há a amnésia psíquica, notadamente no caso das vítimas mais velhas
na ocasião em que ocorreu a agressão, um mecanismo de denegação se produz e se
põem em ação segundo um plano para ocasionar uma proteção psíquica. Anna é hoje
uma advogada de cerca de trinta anos, foi vítima de incesto paterno. Ela revelou na
primeira vez que participou de um grupo de palavras, uma história pessoal, que tinha
começado por um desejo que nós podemos qualificar de edipiano e que se transformara
em pesadelos sem saída, se alongando em uma réplica da sua consciência:“Eu tinha
sempre vontade de fazer as coisas porque ele (o pai) era muito orgulhoso de mim... Por
volta da idade de onze ou doze anos nós estávamos no lugar de férias habituais. Nós
nadávamos juntos, e eu estava muito contente de nadar com ele, de lhe mostrar os
progressos que eu tinha feito. Nós estávamos dentro d’água e ele me disse: “Eu estou

24
Stainless quer dizer inoxidável, mas também quer dizer imaculado, aquilo que não é anódino.
25
Xxxx
26
Testemunho colocado em site sobre incesto: incest.org em 06/03/2005 chamado “Amnésia pouco a
pouco revelada”.

2
5
apaixonado por você”. Eu de imediato compreendi que um pai não podia dizer aquilo,
que não era normal que ele dissesse isto, eu ri e eu passei para outra coisa” 27.
Quando a família chegou a casa após as férias, as primeiras apalpadelas tiveram
lugar na ausência da mãe e de seu pequeno irmão. Em seguida, começaram outras
formas de agressão sexual e a violação que perdurou:“Quando minha mãe viajou para
fazer os cursos com meu irmão, para mim surgiu o pânico a bordo. Eu o entendia, ele
se assegurava que o ferrolho da porta de entrada estivesse bem fechado, e eu ouvia
seus passos em direção ao meu quarto... Eu me lembro bem o que eu senti naquele
momento. Não se está mais lá, nós estamos paralisadas... E eu, o que eu fiz após a
terapia breve que eu estava seguindo... após uma felação... não importa quem, em
cinco minutos que se seguiram, eu me joguei no trabalho. Dissertação, exercícios de
matérias... eu me sentia no fundo, lá neste lugar e era como se não tivesse acontecido
nada.”
Ela percebeu, então, que era preciso que nada do que teve lugar impedisse
que ela pudesse continuar a partilhar o mesmo teto que o agressor (ele aprovava
sistematicamente as recusas colocadas pelas violências morais mais ou menos
ligeiras), em seguida os estudos, vivendo uma vida de criança, depois de
adolescente, e em chamar este homem de papai e, sobretudo, para não fazer
destruir a família. “Se eu não queria recorrer à DASS, e se eu queria um futuro
melhor, era preciso que eu guardasse o silêncio... Se então eu tomava sobre mim o
futuro, alguma coisa melhor me aconteceria”. Isso não impediu que ela vivesse duas
crises de depressão. Tendo se tornado advogada, ela não pensa em impetrar uma queixa.
Ela deixo,então, de maneira consciente, escoar os limites de prescrição 28.
Uma outra vítima anônima testemunha em um outro grupo terapêutico em 2003:
“Eu encontrei meios para fugir, para não me recordar; automutilação, bebidas,
agitação... e eu não via nada de estranho nisso”. Ela foi abusada por seu avô desde a
idade de onze anos. Por longo tempo, somente alguns meses. “E depois eu sofri de
modo permanente durante vários anos”.
Durante 24 anos, mais exatamente, ela entrou em uma psicoterapia onde
aprendeu que seu avô era um abusador. Isto ela reviveu , dizendo que não sabia que era
vítima de agressões sexuais, malgrado o fato que ela não tinha jamais esquecido os atos
cometidos por seu avô.
A denegação testemunhal mantém uma suspensão do pensamento que permite
ao sujeito evitar o confronto com o real mas interrompe, bloqueando no mesmo
momento todos os processos de simbolização. Frederica, uma jovem mulher que tem
hoje 30 anos, sofreu entre 5 anos e 15 anos os assaltos de seu meio irmão mais velho e
“adorado”. Aos quinze anos ela viveu mesmo como casal durante três meses com ele,
sob a força da droga, e constrangida ao mesmo tempo para se prostituir. A angústia
deste cerco do seu irmão a levou quase ao suicídio e ela finalmente decidiu largar o
inferno. Após ter retornado à casa de sua mãe, ela pediu para ir para um internato: “eu
me disse que era mais forte do que tudo isso... E eu ia provar a todo mundo que eu
podia construir um caminho que fosse bom, como todo mundo” 29.
Nesse caminho para chegar ao grupo terapêutico, Frederica fez uma crise de
“agorafobia”. Ela estava literalmente por terra, no início do grupo. Quando ela pôde se

27
Testemunho de Anna, em terapia de grupo na AIVI (resumo em “GP” para o seguinte, “Quais os tipos
de sinais após o incesto?” 27/11/2004
28
Ela escreverá mais tarde, em um livro com seu pseudônimo de Anna Gramm – “Le dèni de La mouche
à mile”, (não foi publicado); “Eu deixei isso prescrever por amor aos meus, por amor às minhas crianças,
mas eu precisava escrever essas pequenas páginas.”
29
Testemunho de Frederica: “Viver em casal após o incesto” 22/01/05

2
6
refazer, ela disse, falando de usas relações amorosas da juventude: “Eu era a
encarnação da prostituta. Quer dizer que eu roubava, eu consumia, eu descartava”.
Todavia, ela se casou com um homem que a soube ter como par e não soube
mandá-la embora no final de 15 dias como costumava acontecer habitualmente. Não
podendo mais ter filhos, eles adotaram dois filhos e uma filha. Mas ela acha que não,
que isso não passou de um “mis en cène” (fingimento):“Eu era uma espécie de morta
viva que tinha toda a aparência de uma vivente com toda a construção de “eu faço tudo
para ser feliz”. Eu era uma gorducha valorizada. Eu tinha uma família, um marido
extraordinário e crianças maravilhosas. Tudo ia muito bem, mas eu tinha um
sentimento de que eu tinha construído um teatro. E depois eu estava no fundo de uma
sala no escuro. Eu via todo este pequeno mundo vivo. E nada podia me tocar. Era
alguma coisa muito confortável. Onde não se era nem feliz, nem infeliz. Então é muito
agradável. Até um dia, onde nós nos damos conta que nós estamos em risco de passar
ao lado da nossa vida que nós não tínhamos jamais vivido”.
O falso self funcionou muito bem, até que surgisse uma crise que obrigou
Frederica a conduzir seu filho mais velho a um “psi”. No fim de 6 meses de terapia, o
psicólogo compreendeu que o problema não era o filho, mas sim a mãe. Esta pôde
reconhecer e ter provado uma doença profunda diante de uma tão perfeita afeição que
seu filho mais velho mostrava para com sua pequena irmã. Ela iniciou uma psicoterapia
para ela: “Era preciso que eu salvasse meu filho. Era a única motivação para que eu,
de todas as maneiras, fizesse uma boa ação, uma vez que eu estava morta, o caminho
era através de mim. Eu não tinha nada a dizer”. Ela relata com uma tonalidade irônica
como ela pôde enfrentar a realidade do incesto vivido após 4 meses de escrita íntima e
de pesquisa pela internet, e em seguida falar com sua “psi”:“Eu me tinha dito que, após
o dicionário, isto era incesto, mas que este nome não me dizia respeito. Então eu
procurei na internet, e então, havia um site! Então eu olhei várias vezes quando eu lia
um testemunho, eu me dizia: “mas isso é abominável! “Eu mesmo, não pode ser isso!”
E depois, eu volto para a psicóloga dizendo: “Não, eu não sou isso” E depois, ela
dizia; “neste caso, o que é isto?” Ah, merda! É isto! Então temos que retornar aí. e isto
durou 8 meses. No final de oito meses eu acabei por me inscrever na Associação” 30.
Mesmo no espírito das vítimas, elas mesmas, o incesto fica sempre “um crime
dos outros” (H. Parat). Além da evitação de um desmoronamento psíquico, para criar
uma aparência “normal”, “como os outros”, a denegação da vítima é um produto de um
isolamento radical criado por uma situação dolorosa não compartilhável, impedindo a
vítima de compreender sua vivência com os conceitos correntes. Encontra-se em todas
as vítimas de incesto uma lenta tomada de consciência que começa por um sentimento
de estar só e de ter vivido uma experiência inexpressível. Depois vem um período de
“descascar” e chegar a um acordo entre o vivido e o termo que deve nomear o vivido tal
como é definido culturalmente e socialmente.

A denegação social

Eis as primeiras reações mais freqüentes que as vítimas de incesto recebem do


seu entorno. “Porque você não disse isso antes?”, “Você está certa de que isso não é um
sonho?” “Eu conheço bem seu pai, isto me deixa espantada”, “Deixe de se fazer de
30
http//incest.org

2
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interessante”, “Eu acredito nisso, mas isso deve ficar entre nós”, “Você quer mesmo
mandar seu tio para prisão?”, na polícia: “Você tem provas disso?” e de um psicanalista:
“Isto é normal, uma criança tem fantasmas incestuosos com sua mãe”, às vezes: “Você
tem direito de deitar com seu pai”. Por vezes: “é um silêncio lúgubre, a indiferença,
uma ruptura de uma relação amigável ou amorosa”.
Encontrar uma orelha sensível e compreensiva é encontrar engajamento em um
percurso de combatente. Ora a reação daqueles em quem a vítima confia e que ela
recorre pedindo socorro, quando ele faz isso, é decisiva para sua reconstrução. A pessoa
de confiança escolhida por uma jovem vítima é na maioria dos casos a melhor amiga da
escola. A mãe não aparece se não em segunda opção. Algumas vezes são as professoras
ou então outros elementos da família que tem o ar compreensivo e susceptível de ser a
escuta. E no caso em que o pai ou o avô, ou o companheiro da mãe (padrasto) a criança
frequentemente guarda o silêncio para proteger a mãe ou o casal, tendo sempre a
impressão que a mãe sabe o ocorrido, o que é verdade em certos casos.
Aliás, a denegação não acontece unicamente com pessoas comuns, pouco
esclarecidas sobre a realidade do incesto. Os profissionais podem igualmente utilizar
isso para se proteger. Em um enquadre terapêutico, ou em processos jurídicos, os “psis”
(psicólogos, psiquiatras e psicanalistas), os trabalhadores sociais, os agentes sociais, os
agentes de polícia, os juízes ou membros das instituições, podem ser completamente
despreparados para dizer as palavras certas e difíceis de entender. Acolher todas as
partes é uma tarefa difícil e delicada, que oscila entre muita empatia e muita
neutralidade, e muita desconfiança ou muito de credulidade. Aliás, todos os
interventores em que a sociedade confia esta tarefa não estão sempre prontos ou
preparados, ou formados para isso. A vítima vem procurar a ajuda junto a qualquer um
que seja sensível a este saber, assim como recebedor da demanda. Mas frequentemente
a decepção é forte.
Sob o plano da economia psicológica da escuta, quando a representação de uma
sexualidade ”normal” adulta, comportando fantasias vertiginosas, entra em colisão com
uma sexualidade perversa, isto provoca, além do desgosto e da rejeição, uma fascinação
ligada ao desmoronamento que ameaça as fronteiras entre o normal e o “perverso”.
Diante deste real, aquele que escuta resiste por vezes com sofrimento a esta
sedução, à tentação de balançar do outro lado do limiar, onde a fantasia sadomasoquista
se confundiria com a perversidade e empurra o imaginário para passagem ao ato. Nossa
compaixão para com a vítima torna-se incerta quando nós percebemos em nós mesmos
alguma ressonância a esta perversidade vivamente condenada em praça pública. Mas a
potência na erotização da violência não é possível a não ser com aqueles que a
conheceram e que imaginam que o agressor não faz senão colocar a sua fantasia na
passagem ao ato. Como nos pacientes histéricos examinados sob o olhar qualquer pouco
erotizado do público do século XIX, os relatos das agressões sexuais suscitam uma
erotização no imaginário daqueles que escutam ou lêem. Perdão por infligir um eventual
retorno sobre vocês leitores deste livro, aliás, mas há um obstáculo importante a
atravessar, tanto no enquadre judicial quanto no enquadre psicoterapêutico ou analítico.
Além da dúvida que poderia haver naquele que se coloca numa posição de
escuta, uma outra forma de denegação consiste em não concordar com nenhuma
importância do vivido da vítima, mesmo se o interlocutor reconhece implicitamente a
realidade, isto algumas vezes em nome de evitar a vitimização. Contrariamente à
experiência de Frederica, cuja psicóloga tentou clarificar e nomear seu vivido 31 ou
aquela de Carole que desde sua primeira psicoterapia era menos inspirada.
31
Sem dúvida, graças a este trabalho terapêutico Frederica não tem mais necessidade de um falso self
hoje em dia e nem se esconder, e pode se realizar em seu papel social como coordenadora.

2
8
No momento em que Carole pensou em ter seus filhos, imagens chocantes foram
evocadas de maneira impulsiva. Para esclarecer as dúvidas quanto Às suas lembranças,
ela pensou em avaliar a validade junto a um “psi”:“Como eu, eu não queria acreditar
que era verdade, eu lhes dizia”, “Tudo bem, eu tenho estas lembranças, mas eu não sei
se isso é válido”. “Eu não sei se isso é verdadeiro ou se fui eu que inventei, ou se eu
sou louca”... Minha psicoterapeuta me disse; “Ah, bom! Mas aconteceu... e então? O
Que pode ser feito? É o passado”... Ela estava completamente na denegação 32.
Após os testemunhos destas antigas vítimas, uma reação típica dos anteriores aos
anos 1990: que seja verdadeiro ou falso isto não tem importância, porque isto é do
passado e é preciso se resguardar para o futuro. Infelizmente, como as vítimas não
fazem sempre distinção entre um psiquiatra, um psicólogo ou um psicanalista, é difícil
saber de qual tipo de “psi” estão falando. Mas podemos saber, deduzir que este não
devia ser um prático familiarizado com uma prática psicanalítica, porque mesmo se ele
pudesse não querer resolver sobre a questão; se há uma realidade ou se é fantasia, um
analista não dirá certamente nenhuma palavra visando minimizar o passado.

O aparecimento das recordações

A duração da amnésia é imprevisível e o reaparecimento das recordações é


imprevisível. Entretanto, nas explicações retroativas das vítimas, a intrusão de
recordações chega invariavelmente em uma virada da vida, onde um acontecimento
marca uma ruptura ou uma mudança. Após os testemunhos das vítimas de incesto que
eu pude recolher, onde a grande maioria é de mulheres, as recordações traumáticas por
longo tempo recalcadas ressurgiram mais frequentemente em torno de suas primeiras
relações sexuais ou quando elas viveram suas primeiras relações amorosas, quando do
nascimento do primeiro filho, notadamente quando se tratava de uma menina, ou na
morte de seus agressores.
No entanto, para algumas vítimas de agressão sexual, a causa do retorno da
memória fica pouco clara. Como anunciou Freud, a recordação detém mais poder
traumatogênico do que o acontecimento em si. Em todas as vítimas de incesto, quer elas
tenham tido a experiência de esquecer, as recordações do acontecimento traumático
continuam exercendo, muitos anos depois, um impacto violento, quem sabe mortífero, e
ameaçam constantemente a aparência de “normalidade” que estas tentam dar as suas
vidas. O sentimento de ódio, e de mácula, submerge o sujeito em cada vez que as
lembranças invadem a consciência, a tal ponto que, frequentemente, a única solução que
ele pode imaginar é de suprimi-los de uma vez por todas colocando fim em sua própria
existência.
O que será que pode significar o aparecimento das recordações dolorosas que o
psiquismo tinha mais ou menos tido sucesso em descartar? Freud propôs logo no
começo que o trauma psíquico é instalado após o acontecimento por um segundo
incidente com uma aparência anódina, mas que continha nele os elementos que
permitem associação com o acontecimento original.
De fato, assim que a vítima nos relata as circunstâncias nas quais o
deslocamento mnemônico se produziu, e a colocação que intriga contém já as
explicações que ela se dá para compreender este surgimento do acontecimento
esquecido; e por isto mesmo a explicação pessoal a vítima faz logo eco, em seu sentido,
com o que a teoria freudiana diz sobre “após o golpe”.Ou, a colocação da relação entre
32
Fala de Carole, 19/11/2004

2
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os dois acontecimentos exige um "depois do golpe” ao “após o golpe” porque é a vítima
que nos explica: “Eu não estava recordada, a não ser quando...” A ligação que a
vítima faz entre os sintomas e as lembranças das agressões tomam um significado
incontestável aos seus olhos. Efetivamente este momento representa frequentemente um
momento decisivo na história da vítima que, tendo vivido uma experiência incestuosa,
procura resguardar diante ou lá sem sair.

Sair do Esquecimento, Transformação do Sintoma

Como o recalcamento participa da fabricação dos sintomas, não é espantoso que


estes sintomas evoluam à medida que o recalcamento se desfaça. Se a vítima, sofrendo
sem saber, de um trauma sexual enfrenta e permanece com suas tendências à
autodestruição, quando a causa de seu sofrimento é enfim revelada, ela afunda
frequentemente, em uma depressão ainda mais grave, chegando ao imobilismo psíquico:
“Eu estava no fundo de um abismo onde nenhum raio de luz pode penetrar”. Os
sintomas não desapareceram, mas se transformaram em “De profundis” (nas
profundezas) como se os significados anexados aos sintomas, mesmo aqueles mais
enigmáticos viessem agravar o sofrimento. Em lugar de liberar o sujeito, a descoberta
de uma memória ocultada, viesse a anular todos os esforços para construir uma via
“boa” para a “tomada de consciência”, na idade adulta, da violência vivida na infância e
ela mesma vivida como violência dentro do limite do suportável. Eis o testemunho de
Magali, uma mulher de 28 anos quando ela decidiu falar pela primeira vez: 33
“No espaço de alguns meses, minha vida balançou. Minha memória me jogou
um vilão astucioso; ela me jogou há 20 anos atrás e fez emergir cenas das quais eu
tinha sonhado não mais me recordava (...). Isto foi um real sismo”.
Ela sofreu, entre os 6 a 10 anos, o abuso de seu avô, que lhe fazia crer que
“todos os pais agiam da mesma maneira”. “Quando eu procurava resistir ele me dizia
que eu era perversa e que eu lhe provocava pena. Após tudo, ele dizia que isso era para
o meu bem..”. Após a ameaça de seu avô, que lhe dizia que ia colocá-la em uma
instituição especializada, longe de sua mãe e de seu irmão, assim que a checagem de
uma tentativa de esclarecimento, ela tinha decidido não somente se tratar, mas também
esquecer:
“Não senão aos dez anos que eu consegui ter certeza de que tudo isso não
passava de mentira. Mais tarde, no campo, uma prima me relatou, ela relatou uma
violação que ela tinha sofrido de um vizinho, e com as filhas presentes, e apavoradas,
eram unânimes: um homem não tinha direito de fazer isso com as crianças. Eu refleti
sobre isso durante vários dias e me decidi ir à frente e relatar quando minha mãe
estava forrando seu leito. Ela reagiu violentamente dizendo que esta garota era uma
mentirosa, que os homens não se conduziam dessa maneira e que ela não era digna de
que eu me interessasse por ela. Eis aí, está dito tudo; sem saber, minha mãe veio me
dar o golpe final”.
Durante os anos seguintes ela tinha mesmo esquecido esta cena quando a reação
de sua mãe a forçou esquecer. Bem mais tarde, com a idade de 20 anos, o “frisson”
provocado pela falta de um jovem homem por quem ela estava apaixonada pela
primeira vez, desenvolveu uma brusca evocação dos fatos.

33
Testemunho de Magali postado no site incest.org em 12/07/2002

3
0
Com o reaparecimento das cenas de violação, acompanhadas de pesadelos incessantes,
seus males outrora incompreensíveis “enurese noturna, bulimia, agressividade,
infecções urinárias de repetição, dores de cabeça... a lista é longa” tomaram, de repente,
um sentido novo.
Nos meses que se seguiram sua aparência mudou tanto quanto seu estado
psíquico; ela engordou 17 quilos em 18 meses, sofrendo com “uma angústia que a
colocava em permanente ameaça a todo momento o medo de destruir seu equilíbrio
precário, por causa de um ruído, um cheiro, um gesto”. Alguns meses mais tarde, sob
pressão de questões insistentes desta amiga ao mesmo tempo preocupada e confusa
diante de reações incompreensíveis de Magali, ela foi tomada por uma pulsão
imperativa de “vomitar” seu segredo:“Eu fui vítima de abuso sexual quando eu era
criança. Estas palavras surgiram como um vômito, um “prato estragado”, sem que eu
pudesse impedir, e que se tornou um efeito imediato sobre mim; eu estava me sentindo
leve e a náusea persistente subitamente desapareceu”.
Após esse “vomitado” da verdade escondida, ela não teve mais necessidade de
vomitar o alimento. Esta história ficou, entretanto, difícil de digerir, em se deixar
apropriar. “os dias que se seguiram forma caóticos, eu oscilava entre o desejo de crer
que tudo isto não era senão uma invenção do meu espírito torto e um sentimento de
enfim existir. Eu me descobri pouco a pouco”. Que seria este “Eu” que o sujeito ignora,
e que até onde e que está a ponto de emergir, deixando entrever a possibilidade de uma
existência autêntica?
Antes de reaparecer das lembranças, nós podemos observar uma forma de
clivagem que reflete um caráter autopunitivo dos sintomas. Tudo se passa como se um
“Supereu” punisse a parte clivada do Eu que guardava o segredo do mal, não
distinguindo o autor da vítima, como se a pulsão destrutiva introjetada (assimilada), e
em seguida revelada pela vítima, encontrasse uma satisfação em se irritar contra os
objetos internos, de onde o sujeito mesmo. Este mecanismo autopunitivo vai sem
dúvida ampliara muito bem o sentimento de culpa (em razão da descarga de violência
cuja origem é a ruína do sujeito) que o sentimento de impotência diante de um mundo
exterior sempre mais ameaçador e um mundo interior mais e mais indomável. Pode-se
mesmo dizer que é o sentimento de culpa que vai salvar o sujeito de seu sentimento de
impotência. Este encontra uma saída nas crises de histeria, uma forma de controlar o
interior de si para resolver os conflitos insolúveis no mundo real, e a fim de evitar o
confronto.
As crises de histeria de Magali se manifestavam cada vez que ela se encontrava
próximo de homens. Nesses momentos, os intestinos se contorciam, a nuca se contraia e
o coração disparava; quanto à razão, ela escapava completamente; se misturavam
completamente a inveja de criar, de fazer mal ou de me fazer mal, ou de fugir. E isto
mesmo quando o outro se mostrava amoroso e inofensivo: “Quando sua mão direita
pousava sobre meu joelho, eu sentia aquilo como agressão, como uma declaração de
guerra 34. O outro se tornava sistematicamente um agressor, um tirano; as significações
dos gestos estão fixadas no registro da violação e o estado de impotência da criança
sobrevive na impotência da mulher para construir uma relação equilibrada. O agressor
estando morto, a vingança direta não é mais possível, é necessário procurar um meio.
Magali redigiu uma carta ao Procurador Geral da República para testemunhar com
palavras de adulta os detalhes “da perversão de certos homens e a dificuldade de viver e
crescer com isso”. Os sintomas evoluem ao mesmo tempo em que a capacidade de se
apropriar da história do incesto. E reconhecer a existência desta história é o único meio

34
Testemunho de Magali

3
1
de se tornar viva:“E, quebrando o segredo por escrito, eu quero crer que minha vida
vai poder começar”.

Uma memória para reconstruir, uma identidade a se reencontrar

O retorno das recordações traumáticas é intrusivo e ameaçador porque ele é


vivido como um “corpo estranho” 35 ao interior do Eu. Há estranheza nas recordações
traumáticas e por isso o sujeito hesita em assumir a propriedade, compromete a
integridade de sua própria identidade. É um Eu no qual o sujeito não se reconhece mais.
Ele deve, pouco a pouco, se convencer com o fato de que ele realmente viveu aquelas
coisas impensáveis. Na fala das vítimas de violências extremas, algumas reaparecem
frequentemente: “É bizarro, eu tenho a impressão de relatar alguma coisa que
aconteceu com outra pessoa”. “Eu tinha a impressão de estar em um filme, de ter a
sensação de que não era eu que contava minha história, que vivia tudo isso. Eu tinha a
impressão de estar no exterior de meu corpo” 36. O choque do após golpe vem da recusa
em assimilar uma história o máximo abjeto.
A vítima se surpreende mesmo de ter sobrevivido. Para melhor ilustrar como
este aspecto irreal pode se estender a todo o período ligado a vivência traumática,
notadamente quando o contexto não apresenta nenhum indício para marcar o
acontecimento extraordinário da vida ordinária, nós recorremos à história de Nina. Seu
relato ilustra uma identidade incerta, senão desvalorizado de um sujeito desprovido de
sua memória da infância.
Com 35 anos no momento desta entrevista, Nina diz que não tem recordações
dos dez primeiros anos de sua vida. Muitas fotos da infância lhe servem de substituto
mesmo se eles não evocam nenhum sentimento e nenhuma recordação de sentimento.
Sua memória começa de uma maneira muito precisa, como se um véu negro se
levantasse, uma tarde onde, quando ela tinha dez anos, seu pai veio ao seu quarto, que
ela dividia com sua irmã mais nova, e ele disse: “Boa noite, amanhã eu não estarei
mais aqui e vocês não me verão mais”. E então, se recorde Nina, eu estou infeliz, eu
estava muito ligada a ele. Eu adorava meu pai. Este pai descrito por Nina como uma
babá, tranqüilo, com uma voz pequena e muito doce”.
A razão “oficial” para partida do pai era a infidelidade da mãe que havia dez
anos estava ausente de casa.
Um ano se passou sem que o pai desse sinal de vida. Até que um dia sua mãe
pediu a Nina e a Jeane que se preparassem para irem passar as férias de verão nas
Antilhas, onde ele tinha se instalado com uma mulher jovem de vinte anos: “madrasta ,
feiticeira37” que maltrata as irmãs durante as férias. Dois meses mais tarde, Nina e sua
irmã retornam á França com 20kg a mais e cada uma com tiques nervosos que tinham
desfigurado a aparência de Nina completamente, a ponto de no aeroporto a mãe não ter
conseguido reconhece-la.Na casa do pai, nas Antilhas, a madrasta tinha lhes dito numa
manhã: “ontem à tarde , eu falei com seu pai e ele me disse que vocês tinham mãos que
35
Relato da Nina
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Relato da Nina
37
Não é inútil sublinhar uma coincidência significativa quanto á idade desta madrasta.Desde seu primeiro
encontro com o pai de Nina, ela tinha 11 anos, exatamente a idade da mãe de Nina quando seu pai ficou
apaixonado por sua mãe. Foi também assim com Nina, quando ela reviu o pai, após sua partida da casa da
família. A tendência pedofílica deste pai se tornou mais clara, em seguida.

3
2
gostavam de fazer amor”. Esta frase não fez sentido para ela, senão muitos anos mais
tarde, quando apareceram as primeiras recordações do dia em que ela viu seu pai lhe
acariciar na banheira, quando tinha apenas dois anos, no momento este que ela teve
seu primeiro relacionamento afetivo com um amigo. Aos poucos e na medida que
outros recordações ressurgiram, sempre durante os encontros sexuais.
Ela evocou “nas noturnas durante as quais seu pai deitava no seu leito e
introduzia carícias e palavras de amor”. Ela ficava acabrunhada com essas
imagens:“Filha maldosa” Eu tinha verdadeiramente este sentimento de ter
pensamentos salgados , desconectados.Uma culpa muito forte de ter inventado
isso.Então, eu me disse que eu estava louca porque isso não podia ser verdade.Como é
que eu poderia imaginar uma coisa parecida?”
E por isso, essas idéias loucas que ela não ousou dividir nunca, nem com sua
mãe, nem com sua irmã” quase como gema”, nem com sua avó querida, “quase como
mãe”, ela desvelava a cada novo pequeno amigo, justamente após ter tido a primeira
relação sexual com eles. Mas, longe de se surpreenderem, esses jovens amigos “não
tinham nenhuma reação, nem ficavam horrorizados, nem nada.Porque eles viam meu
pai.Eles diziam bom dia. Eles lhe apertavam a mão.Aparentemente, isto não lhes
causava nada além disso. Eu me dizia: não é grave”, o que queria dizer não somente
que não era grave mas que podia ser que isto fosse freqüente, finalmente. Houve
tentativas freqüentes de confrontações indiretas por uma pessoa interposta, mas elas
evocaram todas, esta cumplicidade masculina tendo, parece um caráter de banalização
da relação de força/dissimetria entre os dois sexos.
Aos dezessete anos, Nina começa um primeiro ensaio de psicoterapia em razão
de uma fobia de ratos e de banheiros. Até o nosso encontro, ela havia consultado vários
psicólogos e psicanalistas.Nenhum tinha conseguido dar sentido a estas fobias ou se
proposto a interpretar satisfatoriamente os pesadelos recorrentes que a atormentavam
durante trinta anos:“ Este pesadelos tinham 2 ou 3 formas, mas sempre com um mesmo
tema.Eu estou e uma adega.Grandes ratos negros se agitavam em torno de mim, um
por um , eles começam a entrar na minha boca, enfiando na minha goela e há sempre
uma cauda que se agita.Nese momento, eu me assusto e me levanto.É por isso que eu
digo que eu tive fobia de ratos durante trinta anos.Verdadeiramente, eu era fóbica e
super-fóbica.”
Este pesadelo ficou incompreensível, até que outras cenas parecidas com “fotos
instânteneas” vieram á sua memória; no banheiro, seu pai lhe impunha umas felações;
em uma outra evocação, mais aterradora ainda, quando ela era tirada de seu leito á noite
por seu pai, após uma festa particularmente arrojada.Ela sentiu o cheiro de álcool.Ela
viu sua irmã Jeanne que fechava os olhos enrugados contra o muro.Antes de exigir, ele
mesmo, seu pai obrigou a ela fazer felação á dois homens que ela conhecia, seu
padrinho e o marido de sua madrinha:“Até o dia em que tive esses flashes de felação,
quando eu me disse que os ratos representavam a felação.Eu me decidi escrever e
relatar meus pesadelos. Eu associei os dois, o que eles representavam e desde aí, os
ratos desapareceram de minhas noites e eu não precisei nunca mais fazer aqueles
pesadelos”
Sua auto-análise escrita a liberou de pesadelos. Isto foi o início de uma tomada
de consciência de poder ter sofrido um incesto. Até então, ela nunca tinha podido falar
do incesto com seus diferentes terapeutas, simplesmente porque o termo nunca tinha
atravessado seu espírito. O flash mais recente foi o de uma cena no banheiro: seu pai a
sodomizava lhe dizendo que ele lhe colocava um supositório para que ela fosse ao
banheiro bem. Ela pensa, então, ter encontrado a chave do enigma da fobia de banheiros
que tinha transformado sua vida em um calvário:

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3
“Esta fobia me desestruturava o interior. Ela me adoeceu me lançando em um mundo
sem prazer , onde as simples necessidades fisiológicas de todos os seres humanos me
apareceram como vergonhosos ao ponto de que não era uma questão de aceitar ou de
constranger.Eu me desimpliquei deste meu corpo culpado e da sua negritude de suas
intenções.Eu me decidi de não mais fazer sair aquilo que entrava pela força para o
interior de mim.E eu inconscientemente intimei meu corpo para não funcionar
normalmente. O medo dos banheiros enterrou minha vida social.Eu me condenei à
solidão por necessidade.
Eu iniciei um processo de evitação que me privava de toda vida amorosa, de
férias em família, de fins de semanas com meus amigos. Eu fiz , então, um luto de uma
vida aberta. Eu me reneguei na minha natureza profunda. Eu mentia para a minha
família e meus amigos para justificar minha falta de aceite a cada convite que me
faziam. Era impossível confessar meu passado, falar sobre minha fobia ou preferia,
então, passar como uma anti-social ou uma pessoa definitivamente indisponível. Eu era
incapaz de dizer; eu não irei a sua casa, eu não vou por causa de inveja , mas porque
eu não posso.Porque se eu for, eu acabarei em um hospital como todas as vezes que eu
sai de minha casa depois que era muito pequena. Eu fiz uma crise de apendicite ou uma
oclusão intestinal, porque eu tinha medo de ir ao banheiro. Cada vez que fiz isso, eu
senti suores frios que eu não consegui controlar.Meus mais básicos instintos naturais
foram bloqueados à ponto de que eu não podia sentir nada e que, ter inveja ou não ter
inveja, era então impossível. Urinar ou defecar.
Todos os meus músculos estavam retesados. Meu coração batia intensamente.
Eu tinha a impressão que ia morrer e a minha única astúcia que eu encontrei num dia
foi de lacerar as mãos com minhas unhas ara rejeitar um reflexo natural para todo
mundo. Mas, não para mim.Isto me afastou do mundo. Esta história minha com os
banheiros.”
Para confirmar a realidade dessas recordações que reapareceram ela, no entanto,
tentou se confessar, sem dar os detalhes com sua irmã Jeanne que dormia no mesmo
quarto que ela durante toda sua infância e que, em conseqüência, poderia ser testemunha
de alguma coisa. No primeiro tempo, mesmo se ela não rejeitava nada de sua parte, a
reação de sua irmã foi decepcionante porque ela não tinha nada mais significativo de
recordações.Ela se dirigiu para sua mãe, que teve uma resposta desarmante: “ Foi algo
que me escapou? Ele, respondeu ela quando ela lhe confiou parte de suas dúvidas
sobre o caráter incestuoso de seu pai.Nina se decidiu então a escrever a seu pai para
lhe explicar porque ela não queria mais revê-lo, na esperança de assim inocentemente
obter as confirmações. Mas ele negou os fatos e se inocentou de tal acusação, dizendo
que ela estava louca e que tais acusações eram mentirosas.
Isto causou uma dupla dor. Esta carta, um apelo de socorro me salvou da
demência , mas me desestruturou um pouco mais.Eu tive a impressão de ter enviado
uma bomba cujo estouro me lacerou com uma tal violência que eu regredi tanto que o
testemunho espontâneo que eu esperava liberador se perdeu.
Meu pai negou tudo em bloco, sua mulher sustentou a mentira, a família de meu
pai ficou ultrajada com tal afronta.Meus irmãos estavam em estado de choque, não
sabendo de que lugar se posicionar e minha mãe se obstinava em uma denegação
próxima do absurdo.Eu estava definitivamente só com minha verdade que ninguém
queria entender.Eu pensei: quebrei um tabu, mas isto era tão feroz que a paisagem se
fechou em torno de mim.Eu me tornei enpestiada, aquela me ameaçava o equilíbrio
familiar, aquela que os colocava todos em perigo e a armadilha se fechou sobre

3
4
mim.Maluca eu acreditava que era, maluca eu estava porque todos estavam contra
mim.”

Jeanne, que revelou um grande buraco negro quanto ao período referido,


continua a ver seu pai que casou novamente com uma 3ª mulher.Pouco tempo após, ela
tomou a iniciativa de ir se confrontar com ele no lugar de sua irmã mais nova, lhe
pedindo para se justificar sobre todos os pontos que Nina mencionava na carta.No início
o pai respondeu: “Ela enlouqueceu Nina. Mas, em seguida, durante 4 horas de
confrontações, ele variou entre um discurso contraditório e acabou por admitir; se ela
diz que é verdade, então é verdade.Mas eu não me recordo. Depois ele se repete:
“Escute-me: a sodomia não é minha preferência.Mas efetivamente, é verdade que o
padrinho de Nina sodomiza e faz mal as meninas.” Estranha reação de um pai que não
se indigna em nenhum momento com o fato de que seus amigos tenham violentado sua
filha querida e ou talvez “muito amada.
“O que me perturba de fato é que....efetivamente, eu me lembro que era meu pai
que se ocupava de mim, era ele que me dava banho, que se me acompanhava a noite
quando eu estava etc. Ele me era completamente idealizado. Eu devia sempre estar
bonita,pura,perfeita. Ele dizia sempre que eu era como ele, que eu era seu dublê, que
eu era sua filha preferida. Mais, eu tinha uma espécie de carga sobre mim, era preciso
lhe agradar. Minha mãe se ocupava de minha irmã. Ficava quase como subentendido
que eu era como meu pai e minha irmã como minha mãe. Eu creio que expor esta razão
que era complicado eu associar meu pai com um agressor. Porque ao mesmo tempo,
ele transbordava de amor de modo maldoso e perverso. Após meus 10 anos com uma
consciência de adulto, eu o vi como ele era. Mas dentro das minhas recordações de
infância...mesmo a cena dentro do banheiro não era tão traumática para mim. Isso era
normal. E isto que é perturbador. Tudo era feito relativamente com doçura. Então eu
não sentia que não o queria. E eu penso mesmo que eu não teria podido falar ou dizer
que ele fazia alguma coisa, porque para mim, nada tinha acontecido. Não havia choque
traumático. Coisas desencadeavam as recordações, como se eu forçasse meu
inconsciente a eliminar as imagens de autos sobre o que tinha vivido.”
Por que isto era um preço, era então um motivo subjacente.O preço que o pai
não tinha pago, seria pago por outros homens, encarado como repetição simulada das
violações da infância .
Pode-se ver uma razão para a vítima se colocar em situação perigosa a fim de
reviver uma experiência vivida parcialmente. Mas, a que preço? Estas situações podem
substituir a falta de reconhecimento procurado? E então dando, pela primeira vez um
valor a seu corpo, o dinheiro recebido reduziu a “uma venda e acentuou o
destroçamento”. Há um engodo de autonomia neste recurso utilizado para o
reconhecimento de status da vítima ,simbolizado pelo preço que ela foi incapaz de se
sujeitar a uma repetição sem fim de violência. Mas a “experimentação” não pode durar,
malgrado uma insuportável ambiguidade identitária que seguiu até que alterou o
sentimento de existir. Hoje em dia ainda, a cada vez que a filha de Nina a chama de
mamãe, ela tem a impressão que sua filha se refere a uma outra pessoa.
Que existência pode ter um sujeito cuja memória parece condenada a sobreviver
em uma suave e eterna perseguição? Após os testemunhos apresentados aqui, fazendo
com que ela se reconhecesse como vítima teremos uma ancoragem de saúde. A etiqueta
de vítima que algumas pessoas procuram deliberadamente evitar por medo de ser
identificado como passivos, impotentes ou um nada, poderia talvez ser com efeito uma
forma de salvar o sujeito da loucura ou do suicídio.

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5
Ruptura e renovação da filiação

Segundo Pierre Legendre38, o incesto é “ como um atentado contra a ordem de


filiação”. A vítima está presa em um dilema: ou fica ligado a uma “filiação portadora da
morte”39 ou se exclui da filiação intrínseca à vida. Mas as duas vias se misturaram na
direção do mesmo destino: a morte psíquica. Falta esclarecer se a filiação é um
elemento sine qua non para a vida. Pode ser que a resposta seja negativa sobre o plano
fisiológico, sob condição que o sujeito não seja totalmente desprovido de contato
humano e isto é menos certo no plano psíquico. A única restrição depende da
capacidade do sujeito para redefinir a filiação em um nível que lhe permita superar as
regras familiares, para se colocar em uma filiação muito mais larga, aquela da
comunidade dos seres humanos. A ssim ele poderia se reconhecer como um ser humano
de uma parte inteira.

Confusão de papéis e falta de limites

O incesto é não somente um assassinato psíquico por causa de seu efeito


alienante que reduz o sujeito à um objeto animado, mas ele é também uma ruptura da
filiação. Desqualificando o papel de parente e designando a criança para um não lugar.
O adulto “incestuoso40” torna a criança psicologicamente órfã mesmo se esta se submeta
tão bem à imagem parental má e aí procura normalizar a relação perversa para se
adaptar ao desejo narcísico do agressor e para preservar o amor. Na realidade é a criança
que toma o cargo o parente agressor e se torna seu “mais velho”, talvez seu psiquiatra,
como ressalta Ferenczi.
Isabelle Aubry, fundadora da AIVI, foi vítima de incesto em suas
ocasiões:primeiro por seu pai biológico, dos 6 aos 13 anos e depois por seu avô, dos 14
aos 16 anos. Uma instrução judiciária foi posto em curso contra o primeiro(pai) por
agressões sexuais contra a menor e proxenitismo grave41. Durante o primeiro período,
não houve nem ameaça, nem agressões físicas nem surpresas. Tudo parecia “normal”:
seu pai começava beijando sua boca e a se masturbar contra ela e acabava por colocar
38
P.Legendre, Le Dossier occidental de la parenté(1988), p.130,citado por Laure
Razon em “O enigma do Incesto”(1996), p.42..
39
Ibid p. 43.Para este autor, o psicótico deve sofre o mesmo dilema.
40
Termo empregado pelos terapeutas familiares do Centro de Buttes-Chaumont,
que combina as palavras incesto e assassinato para designar o carater
peculiarmente assassino dos abusos sexuais intrafamiliares. Cf. F. Gruyer, M.Fadier-
Nisse, P. Sabourin, “La violence impensable, incesto e maus tratos.(1991, p. 105)
41
O nome de Isabelle é o único que não foi modificado nesta obra. Uma razão
principal é que seu pai foi condenado pela justiça, fato este que faz com que não
seja necessário nos precavermos contra processos de calúnia e difamação.Uma
outra razão, mais signficativa é que Isabelle insiste, ela mesma, que seja utilizado o
nome do pai,o nome de seu agressor durante todos os eventos associativos contra
o incesto.Em compensação, na sua vida privada ela utiliza um outro nome que ela
mesma escolheu quando atingiu a maturidade.Aqui eu estou utilizando seu nome
público.A história de Isabelle já apareceu em seu primeiro livro “La première fois j
´avais six ans”. Seu testemunho apresentado aqui foram tirados principalmente de
falas em “grupos de encontro”, organizados pela AIVI durante os anos de 2004 e
2005

3
6
seu pênis na sua boca e depois na sua vagina para “fazer amor” com ela. Ela acreditava
que isto devia ser normal porque ele era seu pai. No fim e à medida que se repetiam
seus atos, Isabelle começou a apresentar sinais de raiva contra sua mãe; problemas
respiratórios sem causa fisiológica, roubos, fugas, tabagismo a partir dos 8 anos,
anorexia, bulimia(dos 9 aos 23 anos), automutilações,toxicomania, “toneladas” de
tentativas de suicídios...
Entretanto, tudo isso era ignorado por uma mãe absorvida por seus próprios
problemas. Pior, esta contribuía largamente para eliminar os limites e confundir as
regras: “meus pais tinham relações sexuais diante de mim. Duas vezes, eles me pediram,
quando faziam sexo no quintal, para que eu ficar de guarda para ver se alguma pessoa
chegava”.
Além disso, este pai tinha o hábito de relatar à sua filha todas as aventuras
sexuais. Entre 12 e 13 anos, após a separação dos pais, ela ficou sozinha com seu pai:
“ Eu fazia tudo na casa. Aos 12 anos, eu dava os recados, preparava a comida e fazia
as contas. E à noite, eu “trepava” com meu pai. Eu assumi o papel de sua mulher”.
Durante quase 2 anos, além de ocupar o lugar de “dona de casa”, seu pai a
trocava com mulheres de outros homens antes de prostituí-la. Aos 13 anos, uma cena de
amor na televisão fez ela se perguntar. Ela se diz: “mas essas pessoas são adultas e eu,
sou uma menina”. Uma primeira confidência com a vizinha tinha deslanchado muito
rápido um procedimento judicial que durou um ano. No fim, seu pai foi condenado a 6
anos de prisão diante de um tribunal correcional.
Durante anos de instrução, Isabelle retornou para casa da sua mãe, e á então, foi
o seu avô materno que “retomou” o abuso. Quando sua mãe percebeu que Isabelle
estava sendo abusada por este, acabou por levar sua filha à clìnica para fazê-la abortar.
Esgotada por um procedimento judicial alucinante, por causa dos numerosos cinismos
emitidos contra a vítima, Isabelle não conseguiu coragem para se engajar em uma
segunda luta. Diz: “Eu revi meu pai após sair da prisão. O mais duro da reconstrução
foi fazer o luto dos meus pais. E eu me dizia frequentemente que preferiria ser órfã.Ao
menos eu não teria mais ilusões”.
Seu pai se sentia sempre “vítima” diante das contestações do julgamento, da
humilhação e da condenação carcerária que sua filha lhe fez sofrer: “Você fazer isso
com seu pai!”
Entretanto, foi a mãe que tinha insistido para que ela desse queixa: “Eu não
tinha dito nada. Tudo o que eu esperava daquele momento era poder fugir do meu
pai”.
Aparentemente, o julgamento e a pena pronunciada pela Instância Jurídica do
Estado, 3º Supremo, não tinha contribuído em nada para uma tomada de consciência,
por parte do pai, do criminoso nos seus atos. Ele interpretou esta condenação como uma
vingança elaborada por sua filha e sua ex mulher (isto não é totalmente falso no que
concerne à esta última).”Foi sempre ele a vítima e eu a culpada”.
Para Isabelle, fazer o luto de seus pais consistia em sentir e se dizer que ela
nunca teve pais. A desilusão consiste em enterrar o desejo de se inserir em uma filiação
que ela nunca tinha conhecido lugar. Era neste sentido que ela desejava compreender a
cumplicidade quase inevitável da criança para com o parente agressor. “Cúmplice”, um
termo soturnamente culpabilizante aos ouvidos das vítimas, como se elas tivessem
cavado sua própria tumba. Mas, para a psicanálise que se esforça por devolver ao sujeito
o status de sujeito autônomo, o termo é um modo de tornar palpável um paradoxo
insolúvel.
Mesmo sob o ângulo de uma psicoterapia familiar sistêmica, na medida em que
a criança participe do mecanismo de segredo para preservar a integridade da família que

3
7
lhe parece a única proteção possível contra o mundo exterior ou meno mal; assim
Magali reduz esta localização a um “foyer” especializado, uma ameaça brandida pelo
avô agressor; Anna reduzida a ter confiança à DASS. A criança se rende à
“cumplicidade”, apesar de adulto de tudo. A cumplicidade é sobretudo mais forte
quando a família goza de uma boa imagem no seu meio social. Ora, a falta de uma
resistência aberta ao sistema incestuoso não quer dizer participar no ato sexual em
partes iguais com o agressor.
Sobre o terreno deslizante de uma família desprovida de sentido, dentro dela
uma tirania afetiva impera. A criança se torna uma espécie de “boneco de
engonço”vivo, sendo importante, então, intervir para oferecer uma nova filiação. Nos
melhores casos, as vítimas de incesto encontram no seu entorno pais substitutos, que
lhes permite construir uma nova base mais segura para a relação objetal.Mas, mais
frequentemente, a vítima se encontra em um isolamento extremo, seja porque ela goza
de uma rejeição familiar, seja porque ousou denunciar os fatos. Muitas das vítimas de
incesto sofrem assim uma dupla condenação: por uma lado, a agressão sexual e por
outro, a atitude de negação de seus familiares e o primado do valor familiar.

Filiação Condenada?

“Minha família paterna é incestuosa do primeiro ao último homem...”. É bem


conhecido que um agressor faz, frequentemente várias vítimas, mas o que é menos
conhecido é que uma vítima pode ter vários agressores do seio de uma mesma família.
É fato que no seio de uma família alargada, existe frequentemente várias histórias de
agressões incestuosas paralelas ou cruzadas.
O pai de Carole violentou suas filhas nascidas de suas sucessivas esposas. Ele
mesmo assim como seu irmão mais velho, foram vítimas de sua mãe. Carole casou-se
sem saber com um homem cuja mãe tinha sido vítima de seu irmão mais velho e foi
chamada de maluca durante todo a vida pelos outros membros da família. Isto foi o que
foi dito a Carole e é frequentemente destino reservado, aliás, às vítimas que ousam
denunciar a desordem escondida numa ordem aparente.
Durante o processo de “Outreau”, ssim como no processo de Angers foram
revelados pela primeira vez numerosas histórias de abusos sexuais incestuosos
cometidos durante a infância dos agressores. Em Outreau, a principal acusado(com sua
mulher e um outro casal que foram acusados desde a prisão) Tierry Delay tinha sido
vítima de seu pai desde os 8 anos. A mãe deste último foi interrogada pelos magistrados
durante a instrução.
Mas disso ela não tinha falado nem para a família nem aos outros: “De toda
maneira, não se fala mau de um morto. Ele não está mais vivo para se defender”,
explicou a mãe. O pai se enforcou em casa num dia do verão de 1999. A mãe retoma:
“Eles são assim na sua família.Outros fizeram o mesmo antes dele”.
Na maioria dos casos, a reprodução transgeracional das agressões sexuais ficam
bem escondidas. “Todo mundo sabe, mas ninguém fala sobre isso”. Isso se torna uma
regra familiar implícita. E é justamente esta não verbalização, esta recusa de tomada de
consciência que engendra os ciclos representativos da perversão. Certos profissionais
nomeiam estas famílias que reproduzem o incesto de geração em geração de “famílias
submetidas à transação incestuosa”.O incesto aí se transmite como uma herança sub-
cultural.Na origem deste ciclo encontramos um mau, uma espécie de “pecado original”,

3
8
difícil de situar.Por vezes, mesmo se a reprodução incestuosa se dá graças a uma vítima
suficientemente consciente para conseguir sair do círculo dos atos perversos, o
sentimento de transmitir alguma coisa de mal, permanece muito forte.
A filiação é, então, percebida por certas vítimas como portador de um mau
transmissível de geração para geração. O incesto evoca, na vítima, assim como na
representação coletiva, uma mancha resultante de uma mistura do mesmo sangue por
um ato “impuro” que se perpetuará totalmente na linhagem e se manifestará sob
diversas formas. Isto nos dá a ocasião de constatar que um ato não acontece jamais sem
uma conseqüência, que o corpo reage através das significações estabelecidas e nascentes
em sua interação com o outro. O corpo se constrói com o conteúdo psíquico, e ao
contrário também. Quando os traços físicos desaparecem, são os traços psíquicos que
continuam a “trabalhar”, por sua vez sobre o corpo biológico e sobre o corpo psíquico.
Quando a relação incestuosa produz ou não, descendentes, a mancha do incesto
se “torna transmissível” a partir do momento onde a contaminação simbólica penetra a
representação do biológico. Como se desta ligação incestuosa, o moi-vítima violado
pelo pai, decaído no simbólico, produzisse um moi-monstro deficiente,fruto de uma
transgressão perversa que vem se inscrever na cadeia(no sentido de corpo físico).
A vítima se considera , então, como herdeira de uma déficit “genético” ligado à
perversão incestuosa, que se manifestará por anomalias nos seus descendentes. Por
exemplo, “Anna”, já referida anteriormente: “Eu tenho duas crianças, duas filhas que
tem 6 e 7 anos, dois pequenos lobos adoráveis, mas sem chance, isto eu pensanva,que
era um conjunto de circunstâncias más, meu filho mais filho foi diagnosticado como
autista...Para mim, isto era genético,isso vinha de mim.E porque? Ele era meu filho, e
era eu, eu a filha de meu pai, um menos que nada, e a cadeia genética do meu lado era
podre. Eu o sentia assim42”.Nós vemos aqui como um desastre sobre o plano simbólico(
o incesto na infância) gera na vítima todo um sistema de crenças,no caso de Anna, um
esquema explicativo do ponto de vista biológico(os genes podres) tendo por substrato
real uma crise psicopatológica( o autismo de seu filho). A vítima fica assim convencida
que a criança foi tomada pelo incesto através dela. Que tenha havido ou não uma
gravidez real, tudo se passa como se o ato incestuoso tivesse inseminado um monstro
físico para o qual o aborto parece impossível. No caso de Anna, uma criança fantasma
originário do incesto foi posto no mundo sob forma de autismo. Como o espectro de um
feto abortado errante nos limbos, este indesejável feto psiquico perseguindo a vítima e
se apoderando de todas as ocasiões para se encarnar nas peripécias fortuitas.

A Filiação posta à prova pela acusação

Na maioria dos casos, as conseqüências do desenvolvimento do incesto são


isolamento da vítima, a rejeição da família, ou a formação de um grupo que sustenta o
autor da agressão para contrariar a fala da vítima, frequentemente minoritária.
Uma outra, a indiferença. A vítima se encontra só, diante do contra-ataque da
família. Aqueles que crêem na palavra da vítima e manifestam seu apoio, se vêem
atingidos pelo mesmo ostracismo, e isto, independentemente do fato de que o incesto
seja reconhecido tacitamente no seio da família, ou até mesmo pela justiça. Nós
observamos, então, um reforço do isolamento da vítima e, eventualmente, uma
42
GP, de 27 de novembro de 2004

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9
formação de dois campos muito assimétricos no seio da família ampla: um campo para
a vítima frequentemente minoritária versus um apoio para o agressor, frequentemente
majoritário. No seio do primeiro.....

Conclusão

Como de todos e de cada um, as vítimas do incesto tiveram desejo em poder


atravessar normalmente o édipo em todas as suas facetas: a rivalidade, a identificação e
a ambivalência conflitante sob o olhar de seus dois pais, a angústia de castração e sua
superação pela sublimação. Entretanto, a violência incestuosa os condenou a se esquivar
de um combate permanente com os traumatismos destruidores.A rememoração e a
simbolização do real ficou a longo tempo, sem seu nome marcado às etapas cruciais a
superar.
O limiar mais difícil consiste em desligar os sentimentos de raiva, de sujeira e
de culpa vividos de maneira falsa. É preciso perceber a autodestruição que se instalou
para absorver a pulsão de morte do agressor, dissimulada pela vítima.

4
0
Apontando a realidade psíquica como o único “lócus” onde reaparecem as cenas
traumáticas, a psicanálise desvia a questão da origem externa ou interna do
traumatismo, a saber, a verdade dos acontecimentos relatados. Esta escolha
epistemológica é compreensível na medida em que a formação do traumatismo e suas
vicissitudes causam um efeito numa dialética , entre os de dentro e os de fora.Não existe
mais acréscimo, correlação direta e certezas entre os acontecimentos psíquicos e os
acontecimentos factuais.
Contudo, devemos nos contentar em descrever os sintomas que testemunham o
“ter ligação com” as “ efrações estendidas” do envelope psíquico e jogar para o infinito
a questão de causa? Isto seria impensável,me parece, para uma psicanálise que pretende
esclarecer o funcionamento inconsciente do sujeito, subjacente aos sintomas para poder
formular uma etiologia e oferecer uma cura.
A neurose traumática, a identificação com o agressor, a clivagem do Eu, a
denegação, tantas chaves oferecidas pela psicanálise para conhecer a experiência
traumática. Mas, na teorização do traumatismo psíquico, falta até o presente, uma noção
que permita elucidar os traumas causados pela violência parental surgida no interior
mesmo da organização edipiana.
Para levar em conta de um lado o desejo edipiano do sujeito-criança e do outro a
pulsão de morte do pai-agressor, verdadeiro assassino da filiação, eu criei, então, a
noção de “édipo incestuoso”. Se o pai pode utilizar sem obstáculos o corpo de uma
criança para saciar seus fantasmas masturbatórios, isto acontece porque a criança o ama.
É então, a presença de um amor edipiano na criança que facilita o incesto e camufla o
aspecto violento do ato.
Negando a subjetividade da criança, o “incestuoso” mata o édipo nascente e destrói sua
capacidade de amar e ser amado.
Mareado pela traição de um ou dos dois pais, a memória do incesto não ameaça somente
a vítima, mas também a todos os membros da família. A denegação coletiva e a rejeição
familiar tornam-se consubstancial ao traumatismo do incesto. O amor e a solidariedade
estarão pervertidos pela lei do silêncio.
Apesar dos avanços das neurociências, a causa de longos períodos de amnésia,
após o ressurgimento aparentemente aleatórios das recordações traumáticas, fica
obscura. Paradoxalmente, sem uma psicanálise inscrita no desejo do sujeito, a versão
auto-protetora ou defensiva da amnésia e da denegação seria incompreensível.De agora
em diante, no lugar de uma desorganização devido ao excesso de stress, o sintoma se
compreende como uma forma de memória traumática que procura se exprimir. Assim, o
analista ou o terapeuta deve se esforçar por abordar e escutar o sintoma e não mais
eliminá-lo do inconsciente do sujeito, subjacentes aos sintomas para formular uma
etiologia e produzir uma escuta.
A amnésia das vítimas que tinham esquecido a agressão, mostra uma
temporalidade múltipla da rememoração e da evolução dos sintomas. O que pode
parecer surpreendente a primeira vista é que o retorno das lembranças não aliviam,
necessariamente, o aspecto enigmático dos sintomas.E elas podem mesmo agrava-los.
Isto sugere um estado de “orfandade” das recordações, que refletem o abandono
psíquico no qual o sujeito se encontra.
Para que as recordações ressurjam e ascendam à status de memória, é necessário
que o sujeito reclame como sua propriedade. O trabalho da memória implica , então,
que um sujeito recitante entre em uma dialética narrativa, a fim de reinserir este “tempo
perdido” no fluxo da história pessoal, familiar e coletiva.Esta pesquisa memorial não
tem como objeto uma restituição completa do passado, mas o engendramento de um
novo sujeito.Só ele pode assumir esta memória oscilante entre o sentido e o não sentido.

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1
Mesmo se não há uma organização coletiva prévia do crime, a violência do
incesto, em si comparável à outras formas de agressão sexual pode ser considerada
como uma violência de “massa”, não somente pela amplitude provável dos fenômenos,
mas também por uma participação consciente da coletividade..Fundamentalmente, trata-
se aqui de um trauma resultante de múltiplas negações: negação da vítima enquanto
sujeito autônomo, sujeito de direito e de desejo, negação da vítima enquanto objeto de
amor, objeto de respeito, negação dos limites psíquicos e corporais, negação da filiação,
negação do sofrimento, de seu valor, de seu status de vítima, de sua memória e da
verdade.
Enquanto reina este “negacionismo” da experiência traumática, a neutralidade ao
olhar da realidade dos eventos não pode ser bem vinda e o analista não pode evitar a
questão da verdade do lado da vítima. Mas, a impossibilidade para o analista de intervir
o sobre o anterior traumático o coloca em uma posição desconfortável. Ele poderá
contornar a injunção simplista de ver ou não ver a ocorrência do incesto, oferecendo
uma forma de reconhecimento ao sujeito.
A vítima do incesto, isolado por sua vivência traumática incomparável, deve
efetuar uma travessia odisséica antes de reencontrar a comunidade dos
humanos.Sofrendo o risco de fazer um elogio da vítima e de promover uma vez mais a
teoria da “resiliência43” que se propagou na França.Depois de alguns anos , nós não
podemos senão admirar a coragem e a perseverança das vítimas, que se esforçam em ter
sucesso, malgrado a incompreensão dos outros.Estes fatos atingem , aliás, por vezes, a
crueldade. Enquanto a vítima prossegue no combate, ela ainda faz a prova de resistência
em humanidade, ainda que ela pudesse deixar uma compreensão de mundo
extremamente pessimista, até mesmo cínica.
Entretanto, a vítima encontra criatividade precisamente neste nicho obscuro,
onde ela trava seu combate. Nesse sentido, a psicanálise, conhecedora íntima da tensão
permanente entre Eros e Thanatus é , talvez, o melhor lugar para compreender os efeitos
paradoxais dos conflitos que assombram o sujeito. Eis porque , para além de uma
leitura excessivamente rígida da teoria edipiana, uma aliança entre a psicanálise e a
vítima de incesto pode se tornar fértil. Superando um mal entendido mútuo, e
reconciliando o saber experto e os saberes da experiência, o sobrevivente pode recorrer
à psicanálise em suas diferentes facetas dos avatares edipianos, mais além de uma
formalização normativa. De seu lado, a psicanálise pode oferecer um caminho ao
sobrevivente, não para um melhor conhecimento de si, mas para uma melhor maneira de
estar consigo mesmo.
Através de uma escuta psicanalítica que concede ao mesmo tempo um
reconhecimento ao mal sofrido e um “perdão” no sentido proposto por Julia Kristeva, a
saber uma palavra que oferece possibilidades de recomeçar, o sujeito-sobrevivente
descobrirá as fronteiras do território, onde ele pode entender seus justos poderes, fazer
respeitar seus limites e doar sua afeição que ele acreditava estar destruída pelo incesto.
O sentimento de sua autonomia aparecerá pouco a pouco, e o ajudará a se
desligar do poder tirânico do agressor.
Como estipulou Freud(1896) em a “A etiologia da histeria”, o objetivo da
psicoterapia é transformar as lembranças traumáticas para que elas sejam “destituídas de
poder” sobre a vítima.
O analista deve ter em questão que deve retornar o sobrevivente a partir de lá
quando ocorreu a agressão incestuosa que o destruí, de escuta sua desorganização e seu
sentimento de impotência.Ele o pode fazer sair de seu lugar sinistro, tornar-se, fazer ele
se tornar muito familiar, para levá-lo para um depois que ele nem imagina ainda.
43
B. Cyrilvuik I. C. Seron(2003)

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