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Então Escritores têm demônios

David José Gonçalves Ramos1

Resumo: A aquisição da habilidade de escrever palavras e termos em um idioma é um requisito


para a participação política no atual momento das forças produtivas, por isso a escolarização é
obrigatória no século XXI. Na década de 1970 tivemos a reflexão do Pedagogo Paulo Freire2, que
estudava os métodos de alfabetização e filosofava sobre a simplificação do ato de aprender a ler e
escrever: se as palavras geradoras e a caligrafia torta no início, na Pedagogia do Oprimido,
poderiam se assomar às teorias da Esperança do desenvolvimento da escrita como forma de
trabalho da alma, de instâncias mais profundas, ou mesmo inconscientes. Para Paulo Freire o
inferno era o analfabetismo, houve uma demonização dos escritores durante o regime militar. Seja
o Sertão Veredas o lugar de onde falamos para indicar uma abordagem do “escritor”, o sujeito com
autonomia na escrita, um ser livre para escrever qualquer coisa, dom dado quase por entidades
malignas, inclusive, a inspiração, a arte literária. Os estados mentais propícios para escrever, uma
carta, um bilhete, um livro, uma tese, o desenvolvimento gradual da habilidade política que é
escrever, oferecida pelas instituições de Educação no Brasil. Tentaremos no presente artigo tratar
da trajetória de uma criança de 13 anos que é analfabeta em 2020 no Brasil, na especificidade
deste caso escolar, teoricamente possível de acontecer e que efetivamente acontece. Deste ponto
abismal buscaremos tratar a escrita como um direito assegurado pelo Estado, e em um nível de
complexidade maior do “real falar” da inspiração durante a escrita; escrever é a autonomia do Ser
Humano, um processo mitológico está presente no que acontece durante a aquisição da escrita e
da leitura até que se com-forme o escritor autônomo e criativo. Abordaremos a ficção e a realidade
da autonomia que a escrita possibilita ao sujeito, assim como a prática de leitura (que é um
processo complementar fundamental).

Palavras-chave: Pedagogia, Literatura, Sujeitos Criativos, Antropologia da Educação

1
Mestre em Educação Tecnológica, CEFETMG, 2008.
2
Paulo Freire não era graduado em Pedagogia, o que o torna um pedagogo é tratar as relações humanas de
aprendizado e ensino de um ponto científico, partindo das Ciências Políticas.
So, Writers have demons

David José Gonçalves Ramos3

Abstract: The acquisition of the ability to write words and terms in a language is a requirement for
political participation in the current moment of the productive forces; schooling is mandatory in the
21st century. In the 1970s Paulo Freire studied literacy methods and philosophized about the
simplification of the act of learning to read and write: if the generating words and crooked
handwriting at the beginning, in the Pedagogy of the Oppressed, could be associated with theories
of Hope about the development of writing as a way of working the soul, of deeper instances, or
even unconscious. For Paulo Freire, hell was illiteracy, there was a demonization of writers during
the military regime in Brazil (1964-1985). Let “Sertão Veredas” (1947) be the place from which we
speak to indicate an approach of the “writer”, the subject with autonomy in writing, a free being to
write anything, a gift given almost by evil entities, including inspiration, literary art. The mental
states conducive to writing, a letter, a note, a book, a thesis, the gradual development of the
political skill that is writing, offered by educational institutions in Brazil. In this article, we will try to
deal with the trajectory of a 13-year-old child who is illiterate in 2020 in Brazil, in the specificity of
this school case, theoretically possible to happen and which actually happens. From this abysmal
point, we will try to treat writing as a right guaranteed by the State, and at a higher level of
complexity than the “real speaking” of inspiration during writing; writing is the autonomy of the
Human Being, a mythological process is present in what happens during the acquisition of writing
and reading until the autonomous and creative writer is trained. We will approach fiction and the
reality of autonomy that writing allows the subject, as well as the practice of reading.

Keyword: Pedagogy, Literature, Creative Subjects, Anthropology of Education

3
Master in Technological Education, CEFETMG, 2008. ID ORCID 0000-0002-3856-8924
1. Introdução

No ano de 2020 o tipo de criança mais desamparada é a iletrada, são as iletradas, ou, definindo
melhor, a criança desamparada diante das possibilidades de sobrevivência material é a criança
analfabeta. A criança que não sabe ler e escrever. Ler e escrever são duas atividades humanas
associadas, ações sistêmicas em planos paralelos da comunicabilidade, da construção e estimulação
por símbolos. Há as crianças que não aprendem a ler e a escrever, os adolescentes que não
aprendem a ler e escrever. Falaremos de demônios como entidades literárias, de profundezas
infernais, aquela que surge nitidamente no presente momento histórico que está no horizonte de
crianças que não sabem ler e escrever. A maioria das culturas mundiais são letradas em 2020,
possuem um idioma que organiza a produção industrial em todas as áreas. A produção industrial
ligou o planeta, todas as sociedades humanas, e idiomas traduzíveis, idiomas gráficos, que possam
suportar a lógica de algoritmos para programas de traduções entre os idiomas, são traduzíveis. A
popularização de algumas línguas como Inglês, Chinês, Russo, Frances, Português, entre outras,
como vernáculos, ferramentas para a alfabetização e adequação dos formatos da produção
pressupõe processos de alfabetização eficientes, que cheguem o mais cedo possível à vida de uma
pessoa; e com qualidade e aperfeiçoamento cotidiano. A obrigatoriedade do ensino escolar na
maioria dos Países Republicanos e Democráticos do Planeta impõe como necessidade humana que
a criança adquira a capacidade de ler compreensivamente e escrever autonomamente. Nas Escolas
Públicas com o IDEB (Índice de desenvolvimento educacional brasileiro. não, melhor tradução é
índice de desenvolvimento da Educação Básica (Educação “Básica” que inclui a Educação Infantil,
Ensino Fundamental e Ensino Médio, idade de 6 a 17 anos e 11 meses)). O IDEB abaixo do nível 2
significa que podem existir adolescentes analfabetos e iletrados naquela escola avaliada.

Para um adorno literário pensemos nas figuras dos demônios inspiradores dos escritores clássicos,
bons ou maus, que lhes sopravam alternativas no curso do ato de escrever; daemons como que
falavam aos ouvidos de filósofos gregos, levando-os a forma estética da arte, ou duelando pela
moral. Também no ato de ler, nos autos da inquisição na idade média os demônios agiram
instigando a curiosidade, que é parte do processo criativo da escrita.
Novas outras figuras demoníacas, em oposição a estas primeiras, são as que impedem a escrita,
entidades para as quais escrever e ler não podem ser realidade para todos, há futuros alternativos
distópicos, negativos para a consciência crítica que a leitura e a escrita poderia fazer acontecer; que
sejam possíveis os alienados; são demônios que necessitam da ignorância para a operação de
certas máquinas da industrialização e urbanização a seu favor, diremos metafisicamente, se
continuamos a olhar com vistas á Teologia do colonialismo: o diabo era uma personagem social no
Brasil Colônia. Os estados totalitários controlavam o aprendizado e o uso da escrita, e no caso
brasileiro, o mal existiu para que não exista a escrita. Mas ao mesmo tempo o mal existe para que o
escritor seja livre e autônomo: o mal é a crítica inovadora, é o que deu errado em um texto, o que
rompeu sem consciência a tradição, a norma, o estabelecido: o escritor subverte constantemente e
para que seus escritos não sejam sempre operação de santidade, ou de malignidade, mas
criatividade, desconstrução, afirmações científicas, poemas eróticos, poemas simplesmente e etc.
Houve um esvaziamento da metafísica da moralidade cristã depois do Modernismo de 1922, nas
operações de aceitar ou não aceitar os novos objetos escritos, os textos multidimensionais. No
primeiro sentido da presença de demônios no ato de escrever a distopia observada por Paulo Freire
tem uma realidade: a relação entre Opressor-Oprimido envolve o domínio da escrita e leitura nas
sociedades republicanas: escrever é para a classe dominante, não para os dominados, e isso é
diabólico. Haveria força material oculta no Modo de Produção Capitalista? O mundo é que precisa
de funcionários controlados, funcionários iletrados, condição desde o sistema colonial, ainda no
horizonte recente da cultura. Podemos encontrar adolescentes cursando ano letivo incompatível
com sua idade em Escolas espalhadas pelo território de Minas Gerais com nível IDEB entre 2 e 3
(em uma tabela internacional que mede os resultados e os recursos humanos da Educação que vai
até o 12. No Brasil convencionou-se que obter a média de IDEB 7 é um objetivo possível para um
país que recebeu centenas de anos de colonização e escravidão na recente história, com impacto
educacional em centenas de anos).

Abordando alguns aspectos da fonte da criatividade humana, desde os sujeitos criativos da


Antropologia até a autopoiese do sistema nervoso central através das imitações iniciais que um
cérebro humano mais jovem aprende a fazer com as operações que um cérebro humano mais
velho faz enquanto ensina: as fronteiras entre a literatura, a biologia, as ciências sociais, o cinema,
podem oferecer conceitos para domínios de racionalidade sobre a capacidade artística do homem;
escrever é fazer a arte, há um momento em que a pessoa passa de possuidor da alfabetização, das
técnicas de leitura e escrita da língua Portuguesa (no presente caso) para um modelador criativo de
atmosferas e personagens na condição de “escritor”. Autopoiése é a descrição do processo de
constituição linguística do cérebro humano, a escrita se torna parte do funcionamento cerebral
humano; a auto-poética, no mínimo um jogo de palavras para afirmar o fechamento individual, a
caterva hermética da mente individual, e não há a possibilidade de demônios influírem na
capacidade de escrita de um ser humano, tomadas a sério as proposições de realidade da Ciência
do século XXI. Mas e a criatividade humana? é um fator biológico, tudo isso para falar da presença
da escrita entre nós, ser criativo é estabelecer uma passagem. Desde a cultura como materialismo
das forças produtivas de uma sociedade até chegar na educação para os hábitos de consumo
sempre novos, os escritores são sujeitos criativos saídos dos processos de alfabetização, ou,
pessoas agraciadas com um dom, uma capacidade superior. Mesmo assim escritores ainda são
atormentados pelos espíritos malignos conselheiros de toda sorte de apego conceitual; Sócrates é
conhecido como filósofo da “quarta parede”, do olhar direto na plateia, que somos todos nós o seu
“futuro histórico”, para perguntar: como responder aos problemas nos diálogos da alma essencial,
como formular problemas conceituais, e como organizar conceitos para fazer funcionar a teoria?
Qual voz pessoal silenciosa pode brigar com as teorias que nós mesmos formulamos? Mas no caso,
a inspiração para escrever é uma teoria da literatura, e ainda que seja potente não pode prever
onde um novo talento da arte da escrita vai surgir.

Outra vertente de abordagem do título deste artigo é da voz poética como voz de uma entidade
metafísica criadora, um delírio pelo outro que leva ao ato de escrever uma obra, e talvez haja
mesmo necessidade da loucura para escrever. Para desenvolver a questão podemos recorrer à
biblioteca básica contemporânea em Sigmund Freud, Guimarães Rosa e Carl Sagan. E para abordar
ontologicamente o “Escritor”, a “Escritora”, a existência do Escritor, do ponto de vista
existencialista, podemos ir a tradição de filósofos em analisar a escrita, como Jean Paul Sartre e
Jacques Derrida. A inspiração é atribuída ao sopro de ideias de um ser místico, ou podemos de
outra forma constatar, como Humberto Maturana, que escrever é uma ação linguística de um
cérebro acoplado e vivo deformado pela convivência com humanos adultos, com humanos
simplesmente, uma ação narrativa simultânea à produção cerebral de tempestades luminosas de
pontos vermelhos, em uma tomografia computadorizada, mas é antes resultado de interações, a
leitura silenciosa que aprendemos na Escola, a voz dentro da cabeça, simulação da conversa com
alguém: escrever é falar, simular a pragmática dialogal da fisiologia humana, a estrutura biológica
do cérebro cria um espaço mental onde o escritor se posiciona; sempre são observações a serem
feitas inicialmente; porém, e quando surge o medo de que algo externo ao ser pensante possa
coordenar sua capacidade artística, o que dizer? De quem determinado escritor é marionete? A
pergunta da criação artística precisa ser sobre as formas materiais determinantes da condição do
escritor, ou seriam as forças invisíveis determinantes da inspiração literária? Seria muito
desconhecimento sobre o ser humano, também no campo da criação artística, não responder às
perguntas sobre a metafísica da escrita? O que seria um artista do ponto de vista do funcionamento
do cérebro? Por que estas perguntas foram por algum tempo deixadas de lado para tratar os
sistemas de avaliação e competição entre produtores de texto na escolarização básica? A
velocidade das transformações culturais explodiu o armazém de lugares ocupados por quem
escreve.

As mensagens escritas em rede social, enviadas de aparelhos telefônicos celulares, ou


computadores, ou os videogames: a comunidade de escritores se ampliou com velocidade no
século XXI, em 2020. É bom que possamos observar a gênese e imanência da escrita na
complexidade da sociedade contemporânea. Partindo da ideia deste inferno em vida que é ser um
adolescente de 13 anos que não sabe ler e escrever, a frase “Todo escritor tem um demônio que o
inspira” parece ser uma macumba, ser um feitiço: ler e escrever libertam qualquer ser humano das
amarras intelectuais. Aprender a ler e escrever é ter amarrado a si mesmo um ser perturbador,
inimigo de Deus, que vai soprar ideias, vai ficar insistindo silenciosamente com atitudes erradas, vai
provocar as más atitudes, isso parece paradoxal. A imagem de um escritor com seu demônio
pessoal, ou, uma infestação maligna de entidades ruins, cruéis, violentas, associadas à destruição e
dissolução da vida é condenável por qualquer religião monoteísta. O mal é o inimigo da luz, o mal é
a luz da morte, as entidades comprometidas com a morte, com os assassinatos, massacres, guerras,
conflitos com perdas de vidas, as entidades comprometidas com a destruição da espécie humana
também podem se tornar demônios pessoais inspiradores da arte da escrita? Isso afastou muita
gente da nobre arte de escrever. O início apenas Deus escrevia; apenas seres superiores poderiam
escrever. E os sacerdotes eram iniciados igualmente da interpretação e escrita divina. Os copistas, o
Nome da rosa. Depois, os seres humanos socializaram a arte da escrita, e finalmente na Revolução
Industrial o pertencimento ao Estado decorre da capacidade do sujeito de ler e escrever: se torna
obrigação, é obrigatório saber ler e escrever, ainda bem! São como atividades mais produtivas para
as formas sociais, Ler e Escrever são suas atividades que toda criança de 13 anos precisa dominar.
Não ser capaz de ler e escrever aos 13 anos é um desmonte da possibilidade de ser humano, no
século 2020. Que então a pessoa possa aprender a ler e escrever, obrigatoriamente, e, se
realmente for material o fato de que um demônio se associa a quem aprende a ler e a escrever, e
este demônio vai ficar insistindo perpetuamente para que o indivíduo possuído escreva coisas, use
a escrita a partir de si, escreva o mundo, mande mensagens em redes sociais, ou bilhetes, escreva
com os dedos, ou com a ponta dos dedos, ou escreva segurando com a mão inteira um objeto
como lápis, caneta, giz. Se for assim a pergunta é se vale a pena passar a vida inteira lutando contra
o demônio que vai exigir liberdade constante da alma inconscientemente naquele que aprendeu a
ler, e a escrever.

Que se estabeleça uma diferença e uma tensão então: entre a capacidade de escrever, e a luta para
evitar os conselhos do mal. Os conselhos malignos virão, constantemente, eles se renovam como a
energia libidinal se renova: a cada refeição as reservas de potência para agir se disponibilizam, e
quando estamos saciados os humanos criam símbolos, simbolizam. Quando a escrita é adquirida o
sujeito busca escrever o máximo de tempo possível. E é nesse uso da escrita que o escritor
pressente e vê manifestado diante dele o demônio que sopra inspirações. Podemos imaginar as
páginas do final do caderno, de adolescentes e crianças de Escola pública, podemos fazer uma
pesquisa sobre as últimas páginas do caderno que é onde a pessoa faz desenhos, rabiscos, anota
telefones, faz poesias de amor, passa o tempo. As primeiras ideias literárias começam em erros
gramáticos, o lapso, e então a armadilha; a pessoa que se alfabetiza de fato, que exerce a
autonomia e correção ortográfica básica para o padrão cultural do uso dos símbolos, sente a
presença de outra voz íntima, de uma outra persona, de um fantasma que surge quando se
escreve, quando se digita. Um cociente fantasmático. A maior parte do que se escreve acontece na
digitação, digitando com a ponta dos dedos a sensação de liberdade, de domínio, da inexistência de
fronteiras da imaginação: é possível escreve qualquer coisa. Mas o adolescente de 13 anos,
imaginado aqui como possível de existir, em alguma periferia de qualquer cidade, ou zona rural,
mesmo razoavelmente industrializada, do mundo, este adolescente analfabeto é o sujeito zero, é o
indivíduo 0 (zero), o ponto de partida, o ponto inicial, o ponto zero, como o ponto zero da
detonação de uma bomba nuclear dos conceitos sobre aprendizado, sobre ensino, sobre função da
escrita. Seu caderno tem poucas palavras escritas. Ele tem uma pasta e material escolar, no 6 ano
de escolaridade são quase uma dezena de disciplinas, de campos de conhecimento, e o adolescente
analfabeto leva e traz os cadernos em branco, puros, purificados, inocentes. As pessoas que
escreveram as plantas para a produção da bomba atômica em 1944, a bomba quando era apenas
uma reunião de muitas fórmulas matemáticas, o grupo de engenheiros que escreveu as fórmulas
matemáticas, e todo recurso didático para a manufatura das poderosas armas de destruição em
massa, todos ali sabiam escrever. Escrever matemática. Eles escreveram como se pode fazer uma
arma como uma bomba. A bomba atômica antes de existir como objeto existiu como escrita. Que
tipo de inspiração os engenheiros que escreveram as plantas da bomba atômica tiveram? Alguém
inclinou a atenção de um escritor para ir buscar o número correto em algum lugar mental? Como
sabiam que todas aquelas operações matemáticas quando referidas diretamente a objetos e ações
realmente iriam gerar a bomba atômica que destruiu uma imensa área e matou 120 mil pessoas em
duas detonações em 1945? Foi pelo acumulo escrito da produção de conhecimento, que circula
historicamente de universidades, bibliotecas, escolas. Observados de longe uma comunidade de
engenheiros atômicos, físicos nucleares, químicos da radiação nuclear são escritores, escrevem
palavras sobre papéis, usam lápis, usam teclado, escrevem fórmulas, puxam a setinha, apontam
notas de rodapés com pormenores, rascunham, mandam memorandos, mandam bilhetes, pedem
correções, consultam vocabulário. As razões da inspiração para a Escrita do cientista devem ser
definidas, defendidas, difundidas pelos cientistas?

O adolescente de 13 anos que não sabe ler e escrever explode em significados, e vemos a barreira
de suas camadas sociais voando e se tornando poeira no calor da tempestade interna de fogo
criativo que a energia atômica libera: Quem são os pais do adolescente analfabeto? Qual é sua cor
de pele, sua cultura, quais foram as escolas que ele frequentou, quem foram seus diretores, quem
foram seus professores, quem deixou o adolescente de 13 anos chegar até essa idade sem o
domínio da escrita? Quem deixou de lutar contra o mal que atingiu essa pessoa? Mas a questão do
analfabetismo não é deixar (ou não deixar) o analfabetismo acontecer. Como o demônio pessoal da
escrita vai se apossar do analfabeto? Como lhe dará medievalmente capacidade de leitura
compreensiva e autonomia de escrever o que quiser escrever, de ser livre, um indivíduo livre para
pôr no papel suas idéias? É preciso que todos sejam escritores, mesmo os cegos, e como então
elevar a habilidade da pessoa através da alfabetização e estímulo constante à criação literária pela
escrita? Aos 14 anos de idade no sistema de ensino do Brasil a pessoa ingressa em um nível de
ensino científico mais complexo, o Ensino Médio, composto em geral de 11 disciplinas, onze áreas
de conhecimento com historiografias próprias e cada uma delas e com rico acervo de textos, como
a Geografia, a Física, a Educação Física, a Matemática, etc. Se por alguma razão o adolescente
chegou aos 13 anos sem saber ler e escrever uma “palavra”, isso em 2020 no Brasil é indicio e
resultado de um problema social grave. Um inferno está acontecendo na vida de alguém para que
fique sem alfabetização efetiva em 2020 (e aqui como analogia alegórica do sofrimento, tanto da
pessoa analfabeta quanto do escritor que não existe). Vamos a seguir apresentar mais alguns
elementos à nossa digressão sobre o título deste presente artigo, e até aqui a perspectiva é utilizar
o sentido metafórico para a narrativa sobre a inspiração do escritor, partindo do seu inconsciente
analógico que é o analfabetismo. O inconsciente do escritor é seu próprio analfabetismo. Pode
ocorrer que o aprendizado da escrita acione dimensões inconscientes de nossa existência e forme
laços psicossociais mais estáveis, forme placas fisiológicas comportamentais funcionais para
atitudes éticas, ocorra alguma metamorfose no material básico de que o ser humano é feito; que a
escrita sirva para proveito ético, e por isso é preciso que todos sejam alfabetizados. Pode ocorrer
que a gente perceba que há realmente um tesão pela escrita, uma pulsão, um impulso, um desejo
poderoso por escrever e isso explique tudo. Há o argumento da Escrita psicografada, em que o
mundo dos mortos encontra um canal para comunicar sua existência. Na Psicografia a entidade
espiritual se utiliza da estrutura muscular, sistema nervoso, psicomotricidade do médium e há a
produção do texto, as razões para se tornar escritor são inspiradas, assumidas, como também o
fenômeno da mediunidade em que um corpo incorpora a experiência fantasmática de almas
racionais e inteligentes, agindo na escrita, na produção do texto dos mortos para os vivos. Em geral
as psicografias espíritas são para apresentar textos de evangelização, educação, perspectivas
pedagógicas para uma vida ética. Como um Anjo atormentaria uma pessoa para que ela se tornasse
uma Escritora? Uma série de fenômenos culturais associados à escrita estão na determinação da
identidade do Escritor.
2. Freud e a análise do Pacto escrito

Freud analisa um caso de possessão demoníaca em 1923, os registros de um Pintor alemão do final
do século XVII que fez um pacto escrito com o diabo. O sujeito escreveu duas vias desse contrato de
troca da alma por algum benefício: uma com tinta feita de seu sangue e outro feito com tinta preta.
Os pactos escritos para obter um contrato com forças ocultas foram elementos de análise de Freud,
que descarta a possessão demoníaca do Pintor (esse pintor era “escritor” também, pressupondo-se
que os dois pactos, um escrito em sangue, o outro em tinta preta foram escritos e assinados por
ele, e entregues à entidade demoníaca). Os dois documentos foram recuperados depois de longo
trabalho de exorcismo feito por uma comunidade monástica do interior da Alemanha, em 1690: o
diabo contrariado devolveu os dois contratos rasgados em pedaços. Freud aborda a história deste
pintor que vendeu sua alma ao demônio se referindo à existência formal da entidade demoníaca
como um sintoma decorrente de arranjos emocionais para sobrevier ao trauma da morte do pai
biológico do Pintor, o que representou seu empobrecimento econômico. Seu pai morreu e o pai era
sua única fonte de renda, a miséria, segundo Freud, foi a situação encontrada para ser a superfície
da necessidade do pacto: o pintor (que obviamente sabia escrever) redigiu as duas cartas com um
ano de diferença: o texto em tinta preta escrito em 1678 e o escrito com sangue em 1679. A
Pedagogia praticada na Europa medieval associava o pecado ao habito de ler e escrever coisas
proibidas, ou ler alguma coisa desautorizada, ou escrever sobre culturas heréticas, era preciso que
livros excomungados fossem evitados, mesmo a possessão demoníaca poderia advir da leitura de
um livro profano. Você escreve algo proibido, ou lê algo proibido e pronto, está pactuado com o
Capiroto. Os arquivos deste caso do século XVI foram estudados por Freud, estiveram guardados
em uma Biblioteca universitária de um mosteiro medieval na Alemanha. Essa escritura fantástica,
esse feito épico de um texto escrito poder transferir a alma, conjurar as energias inteligentes e
maléficas da natureza, da criação divina no futuro é o objetivo confessável do escritor; falar com
pessoas em tempos futuros, ou fazer acordos, as palavras escritas saltam para o futuro quando
preservadas. Escrever com sangue é um ato super-fantástico e antropocêntrico: uma relação direta
entre a vida do escritor e seu escrito. O pacto da escrita, neste caso analítico de Freud, se deu para
conjurar um substituto ao pai: o pintor escreveu um pacto onde ele cedia sua alma e seu corpo por
nove anos para ser servidor do mal. O delírio que o objeto escrito justifica, endossa, possibilita, as
certezas da fé que podem ser produzidas pela leitura de um livro religioso. O caso de possessão
demoníaca do Pintor estava em uma biblioteca no interior da Alemanha, biblioteca de um
mosteiro. A história ficou registrada pelos próprios monges no ano de 1722, em uma historiografia
publicada dos fatos importantes da vida monástica da época. Freud encontrou esta história nos
primeiros anos da década de 1910. O texto escrito fica historificado, escrever no sentido universal é
uma ação para o futuro, assim como um pacto, um documento. Ou não. Talvez escrever deva ser
uma atitude transitória, algo para se ter o máximo de objetividade possível. O poder que um texto
escrito pode ter para o controle do destino de um ser humano é uma das lições que podemos
colocar em nossa filosofia. A ação do escritor, a produção das palavras, a atitude gráfica é também
uma reação à inexistência do pai, à quebra das referências amorosas, a pessoa escreve quando
sofre; na sociedade contemporânea onde uma assinatura bancária movimenta uma série de
processos produtivos a escrita é a atitude gráfica de comprometimento, muitos textos mesmo
escritos com tinta preta são resultado do corte na carne. Escrever é um ato dolorido, mas escrever
é também um impulso ao absurdo prazeroso, às várias realidades que coabitam a forma física. A
escrita é adquirida para que com ela, através dela, o sujeito escritor possa fazer contratos com o
Estado. A criança aprende a escrever para poder funcionar como célula geradora de sentido.
Assinar contrato de trabalho, assinar ficha de escola, assinar o cartão de crédito, assinar o divórcio,
assinar a lei. Parte importante da escrita é a escrita da assinatura. Produzir o texto digital, a senha,
o código, a resposta por e-mail, o comentário na rede social, são as demandas para essa
“assinatura”. A internet é um mundo que convida o escritor a participar da dinâmica educacional da
vida, do trabalho, do lazer, do comércio, da educação, da saúde, etc.

3. Guimarães Rosa e as dúvidas sobre o capiroto

O grande Sertão Veredas, de 1956, é um livro que tem como subtítulo “O diabo na rua no meio do
redemoinho”. Como escritor, como personagem auto-referida, a voz poética se pergunta no grande
sertão sobre a existência do demônio. Ao longo deste livro Guimarães Rosa filosofa sobre a
existência da maldade, do maldoso, do tinhoso da nhanva. A causa invisível-visível da maldade
existe? É uma personalidade? A descrição de conflitos armados entre fazendeiros no século XIX é o
pano de fundo do Grandes Sertão Veredas, e o mal é a agressão de um fazendeiro contra outro
fazendeiro, e a mobilização miliciana e criminosa para as eleições, metaforadas na personagem
Hermógenes, o Capiroto, o grande vilão do livro. Neste livro os eventos ocorrem em data imprecisa,
mas com toda carga do colonialismo e ruptura para o império do. A vida no sertão de Minas Gerais
no século XIX ainda era colonial. A personagem principal do romance é um homem transsexual
adulto, Diadorim, em pleno presente de formatação da alma brasileira minimamente reconhecida
por nós como contemporânea: diz assim Guimarães Rosa

“(...) Rumamos daí então para bem longe reato: juramento, o Peixe-Crú,
Terra-Branca e Capela, a Capelinha-do-Chumbo. Só um letreiro achei. Este
papel, que eu trouxe --- o batistério. Da matriz de Itacambira, onde tem
tantos mortos enterrados. Lá ela foi levada à pia. Lá registrada, assim. Em um
11 de Setembro da éra de 1800 e tantos... O senhor lê. De Maria Deodorina
da Fé Bettancourt Marins --- que nasceu para o dever de guerrear e nunca ter
medo, e mais para muito amar, sem gozo de amor... Reze o senhor para essa
minha alma. O senhor acha que a vida é tristonha?4

Rosa nos apresenta neste trecho uma narrativa sobre um documento, o documento de batismo,
que no período colonial era produzido pela Igreja Católica. Para a igreja católica da época
interessavam os escritores que soubessem latim, o diabo estava no mundo e podia ser combatido
com latim, no Brasil em 1800, e buscavam universalizar este fato no controle inclusive do que
poderia ser escrito, traduzido, aprendido, queriam calar as bocas do inferno como as de Gregório
de Matos (1636-1696). Diadorim morre nas cinco últimas páginas do livro Grande Sertão Veredas,
e, seus companheiros procuram pelas cidades próximas, pelas referências que tinham da sua
cidade natal chegando a Itacambira, região norte do Estado de Minas Gerais, e conseguiram na
secretaria paroquial da Igreja de Santo Antônio, matriz, uma cópia do documento de batismo da
heroína transexual. O Registro da pessoa morta, a escritura da sepultura, a forma de um sujeito não
desaparecer por completo da memória pública, assim como o enterro dos mortos é característica
humana; a última coisa que some é o nome escrito. Esse mundo agrícola do grande sertão veredas,
da indústria mineradora multinacional, das grandes fazendas de café, o rebanho bovino que crescia
como negócio bilionário, e, para organizar tudo isso: o diabo

“(...) pedras, horrorosas, venenosas --- que estragam mortal a água, se estão
jazendo em fundo de poço; o diabo dentro delas dorme: são o demo. Se

4
ROSA, João Guimarães. Grande Sertão Veredas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006. Pág.604.
sabe? E o demo --- que é só assim o significado dum azougue maligno --- tem
ordem de seguir o caminho dele, tem licença para campear?! (...) ele está
misturado em tudo. Que o que gasta, vai gastando o diabo dentro da gente,
aos pouquinhos, é o razoável sofrer. E a alegria de amor --- (...) tem gente,
neste aborrecido mundo, que matam só pra ver alguém fazer careta (...): vem
o pão, vem a mão, vem o são, vem o cão.5

Outro personagem deste importante romance, um ex-professor que decide se tornar um criminoso
e se une a grupos de pistoleiros e assaltantes pelo interior de Minas, Riobaldo, que largou o
magistério para se alugar como criminoso de fazendeiro. Um homem de leitura e escrita que
abandona o caminho do ensino-aprendizagem para encontrar o diabo perdido no meio da violência
sistêmica das crises coloniais, quando o controle é perdido. No século XIX cidades com 100 mil
habitantes, como Ouro Preto na região central de Minas possuíam quase 90% da população
analfabeta, e poucos professores. O sopro de inspiração para a escrita não estava sendo conduzido
por nenhuma grande força criativa, ou melhor, a escrita como meio para a emancipação intelectual
das pessoas não era uma proposição feita para todos, a educação não era um “direito” em Minas
Gerais no século XIX, era um privilégio para a manutenção da própria colonização, que é um tipo de
produção de poder social através da exploração permanente de enormes camadas da sociedade.
Tempos recentes da colonização, em termos da escrita os processos são pensados na unidade de
gerações: o letramento de uma família levava muitas gerações para acontecer entre as classes mais
populares da sociedade mineira mesmo no século XX. Se outros processos cognitivos como a
memorização para acompanhar as missas em latim, ou contratar uma pessoa que sabia ler e
escrever para redigir uma carta. O mal é impedir a estrutura que ensine a todos os membros da
sociedade a leitura e a escrita do idioma oficial daquele grupo? O mal é que o instante de
inspiração e tesão da escrita, o momento do “pacto”, este momento não acontecerá para quase
todos. Muitos jamais poderão sequer fazer o mal através de um bilhete, ou de uma mensagem
abusiva, ou um romance difamatório, ou críticas políticas. As várias formas de fazer o mal através
da escrita estarão distantes, mas as boas também, estiveram distantes de quase toda a população
brasileira nos séculos XIX e XX. O Bem era não haver jornais populares que informassem as
condições injustas nas fazendas, os roubos das verbas públicas pelos coronéis, não ser possível

5
Idem. Págs.11-12.
escrever para que as massas se organizem e produzam alternativas conceituais que favoreçam
organizações populares, de sobrevivência ao colonialismo, pelo menos, naquele momento, o bem
era o analfabetismo. A alta taxa de analfabetos representa o baixo numero de escritores em uma
comunidade humana, e consequentemente, pouca variação e renovação: no caso do sertanejo, o
ser humano que vive e trabalha nas fazendas, na mineração no meio do cerrado frio, que ocupa os
postos elementares do funcionalismo público. Uma época em que para ser um policial militar
bastava a 4 série completa. Há um estagio de limitada produção de escritores e escritos, e
entendendo que a força adaptativa na natureza e na cultura é a quantidade de variações
comportamentais para enfrentar situações adversas impostas pela real imprevisibilidade da
realidade, e que é mais possível gerar mais escritores em um grupo altamente alfabetizado: a
variedade de genes do material genético humano armazena respostas orgânicas satisfatórias que
em geral são chamadas de vacinas: uma quantidade grande de leitores e escritores em uma cidade,
uma sociedade, um grupo humano representa um sangue rico repleto de anti-corpos e estratégias
para criação constantes de alternativas no acoplamento à realidade do planeta terra. Abandonar o
cargo de professor, e passar a se dedicar ao jagunçado é uma forma de apagar um anti-corpo, um
corpo dotado de escritura, um corpo capaz de deixar um rastro de cultura em sua passagem. Um
abandono do demônio da inspiração, do deleite e devaneio do ato de escrever, para a adesão ao
demônio da sociedade colonial de corpos obedientes e iletrados, iletrados e obedientes. Um
inferno ou outro.

4. O mundo infestado de demônios

Carl Sagan, no livro “O Mundo Assombrado pelos Demônios: A Ciência Vista Como Uma Vela No
Escuro”, de 1995, descreve o hiper-realismo que os medos e temores do mundo pós-II guerra
mundial, depois da bomba atômica, em 1945. O inferno seria um lugar onde leitores e escritores
são iludidos por fantasias coletivas tão poderosas que onda de misticismo, descrença, hoolismos,
sincretismos e relativização do conhecimento científico. O imaginário mobilizado pela cultura das
formas espaciais uma a escrita como base, entretanto uma imagem vale mais do que 1000 palavras.
Mil palavras reunidas com sentido lógico ocupam meia página, digitadas, ou, um pouco mais,
escritas a mão. Seitas fundamentalistas também são a causa da alienação ao ato de escrever.
Porém em termos quantitativos a digitação humana diariamente bate recordes de produção: a cada
dia mais palavras são digitadas por dia, em todas as partes do planeta, evento planetário que é a
internet. A quantidade de palavras, de textos, escrita na internet é imensa, e as redes sociais
estabelecem redes de comunicação entre as pessoas com a troca de mensagem escrita. As pessoas
estão digitando mais a cada dia, e digitando mais estão escrevendo mais, estendendo e expandindo
o universo da quantidade de palavras no mundo. O armazenamento de dados dos grandes centros
eletrônicos de segurança dos projetos arquiva constantemente tudo que é escrito pelo ser humano
nas redes da internet, no universo digital. Neste livro parece que Carl Sagan está dizendo: as
pessoas estão lendo pouco e lendo mal os livros de ciência; o conhecimento científico abriga muitas
mitologias alienantes e alienadoras; são temas abordados, são saber como é o funcionamento da
tomada onde se liga o eletrodoméstico, estar mal informado sobre uma série de assuntos. Mas qual
o problema? Escrever segurando um lápis, ou uma caneta mobiliza muitas habilidades, gera
objetos, os manuscritos, os desenhos, as redações, as anotações. Como frequentar uma aula sem
levar o caderno? E seria essa passagem da escrita manual para a digitalidade a causa de uma onda
de ignorância e alienação que Carl Sagan acompanhava desde a bomba atômica, após tudo isso,
com os eventos de 11 de setembro de 2001, e a pandemia do coronavirus, o COVID19 e 2020,
eventos históricos que repercutiram mundialmente, simultaneamente, como os fatos sociais e
linguísticos agora são. No caso da pandemia de covid19 em 2020, ler e escrever são estruturas
estratégicas para buscar informações corretas para se manter vivo. Tudo que não podia ser falado
sobre o ato de escrever, ou como a escrita e a leitura são adequadas para comportamentos
humanos, mesmo nas quarentenas como os que a espécie humana teve que adotar para sobreviver
a mortandade em massa: o isolamento social salvou emocionalmente o ser humano pela escrita:
comunicar e criar pelo texto digitado principalmente. A força política da pandemia de coronavirus
continuou a exposição do conflito da sociedade contra o conhecimento científico. Uma notícia
falsa, um falso conhecimento, produzido e multiplicado, e tudo mais. Se um indivíduo adulto e
produtivo nos EUA acredita mais em entidades místicas do que nos pressupostos científicos isso é
um fato aceitável pois o conflito entre os campos da ciência e da religião ainda possuem uma
tensão do indefinido. Escrever os assuntos da ciência é o mais significativo neste conflito, a escrita
que recorda a função da ciência. O inconsciente descrito por Freud como figura inexpressiva e
absolutamente intensa, no início da forma de comunicar as demandas, as fomes, as necessidades
do corpo na forma da comida, na forma do sono, na forma dos sonhos, na forma das atitudes
sintomáticas. Não seria para todos o dom de escrever bem, de escrever bons textos, bons textos
em ciência, bons textos em filosofia, em teologia, sobre o amor. A maioria dos que aprendem a
escrever não se tornam escritores efetivos, nem leitores efetivos, mas como escritores menos
ainda. Não sendo um privilégio de todos então está determinando a individuação? A forma singular
com que um corpo humano adquire a capacidade de escrever e de ler precisa ser resultado de uma
mimese, de um cérebro imitando outro cérebro (uma imagem recorrente). É um tipo de
coordenação de conduta, de esquema comportamental estabelecido entre o professor que ensina
o ato de escrever e de ler, e o ser humano que aprende a escrever, a ler o que escreveu, de
escrever para os outros e de ler o que os outros escrevem. Antes do lugar da arte, no lugar da
comunicação objetiva, os saberes sobre matemática, geografia, geometria sólida, química orgânica,
programa de computador, tudo escrito, tudo transformado em palavras, em livros e bibliotecas: a
escolarização básica apresentada nas BNCCs (bases nacionais comuns curriculares, oficializadas no
atual estágio em 2019 e que supervisiona toda a educação executada nas escolas públicas e
particulares do Brasil), essa escolarização básica considera a autonomia no\do ato de escrever um
direito: sobretudo escrever ciência. Mas em que momento, em que instante o diabo da escrita vai
se tornar um desejo e um sintoma da relação que se pode criar entre o sujeito e a palavra, a
imaginação, o ensino. Saber escrever cientificamente é favorável à profissão de Professor: o
escritor que vai escrever sobre ciência para as pessoas. Que tipo de inspiração tem o professor ao
colocar no quadro a matéria? É um alto nível de desenvolvimento da escrita? Tem algo diabólico
envolvido na subversão que a escrita pode causar? Como é a gênese da inspiração, do impulso, da
inclinação em escrever livremente na folha em branco, na tela em branco, gerar os símbolos na
ordem da comunicação de sentido. Porém, além desse serviço público que é oferecido aos cidadãos
com o ensino da escrita e da leitura, escrever é singularizar, é o encontro do “traço”, da
pessoalidade gráfica, existe uma ontologia de alguns meses onde a criança de 4 anos começa um
processo formal de aprendizado do recurso semântico, da fabricação de símbolos, da utilização de
objeto fálico como o lápis e a caneta para traduzir, para dar vida, para assinar, para produzir livros.
A função básica que se espera da aquisição da escrita apresentada pela BNCC de 2019 é a produção
cultural, a produção do indivíduo sobre sua cultura, sua sobrevivência, seu espaço e trabalho, sua
sociedade e, o Estado, que precisa do sujeito funcionando. Esse diabo da inspiração poderia fazer o
sujeito tomar tempo de produção social da mercadoria para a produção pessoal das palavras. Foco
das funções da Escrita, o resultado do processo de escolarização é o indivíduo capaz de se
posicionar favoravelmente ao capitalismo, no ato de produzir, ao humanismo no momento de
comunicar, e no cientificismo (ou cientificidade) na hora de produzir conhecimento válido (inclusive
eticamente).

O importante será tratar a performance para o ensino da escrita da ciência. São várias as ciências
apresentadas pela escola, para cada uma dela há um caderno, e o aluno precisa registrar as aulas,
escrever, praticar a escrita, e, se supõe durante o processo de aprendizado daquele conteúdo este
aluno possa escrever sobre a matéria, saiba escrever os conceitos. Como na matemática o número
é o próprio conceito a escrita da matemática é uma das escrituras mais valorizadas. Uma pessoa
pode deixar atrás de si um rastro de ótimos registros matemáticos como resultado do uso da
escrita matemática autônoma e criativa, inspirada. Os espaços obrigatórios para o aprendizado da
escrita e da leitura são espaços do conhecimento científico legitimado pelo Estado no ato de
investimento das Universidades Públicas como produtoras do conhecimento científico, produtora e
irradiadora, pois estaria valendo o que Habermas nos ensinou sobre a relação da Democracia com o
nível alfabético do cidadão comum, mediano, normal, padrão, adestrado, domesticado,
funcionalizado. A escrita leva o corpo a receber as dobras violentas dos vários papeis que ela cria. O
aluno de 13 anos, que segue série após série sem conseguir ler e escrever acaba recebendo um
codinome de difícil. Seus problemas cognitivos podem estar se agravando, ou, não foram tratados
na idade correta por uma junta interdisciplinar de uma equipe pedagógica. Qual é o teatro
educativo que precisa ser desempenhado no cotidiano da sala de aula para obter efeito de uma
alfabetização tardia? Se as pessoas escrevessem sobre o aborto, pudessem escrever, fazer
narrativas informativas umas para as outras, colher ensinamentos nos vários campos em disputa
como a Religião, o Parlamento, a Escola, os debates amplos que exigem esclarecimento mínimo da
população que escolhe através do voto, em plebiscitos e eleições a figura representante de sua
existência social, então ler e escrever sobre o assunto é uma maneira de se preparar para o debate
sim. E que debate seria esse? O assombro de Carl Sagan era pelas estruturas mitológicas que são
recurso para a crença ou explicação dos fenômenos que precisam ser explicados para existirem.
Que tipo de inspiração um escritor precisa ter na década de 1990? Quais foram naquele tempo os
recursos para a produção de cartas, cadernos, apostilas, toda superfície que pode ser escrita,
quadros e paredes. O professor escreve muito no quadro, ele escreve muitas palavras, e forma
novos escritores. Um professor forma escritores, sensibiliza, desperta. O professor é uma espécie
de oraculo, um avaliador da letra do aluno, os professores acreditam que a letra é uma
característica individual, analisando a letra de uma pessoa podemos falar muitas coisas sobre ela.
Isso pode ser um mito. Um analfabeto em 1990 se diferencia de um analfabeto em 2020. 30 anos
de complexificação e solicitações continuam a surgir para que o escritor se forme, e há de se optar
pela popularização da escrita, resultado da digitação, mas também de texto escrito a mão, no
exercício da psicomotricidade, que cada vez mais escritores possam se assumir. Que cada vez mais
leitores possam se assumir compulsivos pelos livros; escreve-los, lê-los. O demônio que seduz para
a criatividade e profanação do padrão estabelecido não pode operar se a habilidade da escrita não
está desenvolvida. Soprar inspiração literária para quem não pode escrever? Na presente analogia
um conflito mitológico, pois externo ao indivíduo está o demônio, que é o próprio sistema, que
necessita da ignorância cognitiva do indivíduo para evitar conflitos sobre os direitos. O Estado
capitalista industrial exige seus membros alfabetizados, mas para haver a competitividade
suficiente nem todos podem ser alfabetizados. O número de indivíduos influenciados pela
autonomia para escrever e se assumir como escritor é menor.

5. O niilismo, o existencialismo e São João da Cruz

O aluno está no sexto ano do ensino fundamental. Aos 13 anos ele deveria estar no nono ano. Está
distante dos outros adolescentes, e em sala de aula convive com outros estudantes de idade entre
10-12 anos, aparentemente uma distância temporal pequena. Porém este aluno que estamos
apresentando neste estudo não sabe ler. O processo de limitação pessoal, pouca qualidade do
ensino oferecido, problemas existenciais e familiares. Não saber ler aos 13 anos é um fato comum
no tempo anterior ao século XX, é uma experiência medieval. O mal está em todas as direções, a
escrita científica carrega o mal: os demônios que estiveram presentes no momento em que os
engenheiros nucleares estavam escrevendo as plantas da bomba atômica, isso poderia ver João da
Cruz (1542-1591). Homens que escrevem coisas, outros homens que traduzem e fabricam essas
coisas, uma imagem dos instantes em que uma mercadoria é escrita, do momento em que parte da
ideia do projetor até o trabalho de decodificação e materialização. Deixamos de ver o mundo sob o
aspecto dos deuses, e por essa razão ficaram invisíveis para os olhos as entidades que estão
envolvidas na escrita da planta da bomba atômica naqueles luxuosos prédios erguidos no deserto
para o Projeto Manhattan em 1940. João da Cruz, depois tornado santo, era um escritor que tentou
domar a demoníaca liberdade que a escrita proporciona, no sentido figurado e no sentido
perceptível para ele, de aprisionamento contínuo da inspiração demoníaca mesmo, e para nós na
figura da inspiração noturna e sorumbática que acontece junto à criatividade da produção escrita. A
visão medieval de João estabelece um caminho da alma para a palavra escrita, e que seja, porque
não, este caminho seja mântrico, com cânticos religiosos, a alma está no ponto onde a escrita
começa. Perguntado sobre a escrita da bomba atômica, como João se posicionaria diferente do
monoteísmo? Era inimaginável para ele no século XVI que a escrita pudesse representar de fato
objetos tão poderosos como um míssil atômico. Ou não, na verdade para um medievo a escrita
realmente está relacionada com coisas terríveis, e coisas maravilhosas também, como a poesia, a
salvação da alma, a escrita de Deus. Se as plantas de uma bomba causaram alguma crise de
consciência nos engenheiros e físicos nucleares envolvidos em 1940, que tipo de fantasmas poderia
assombrar a escrita desses tecnólogos e cientistas? Quais as tentações possíveis no ato de escrever
a ciência? Quem assopra nos ouvidos de um cientista enquanto ele escreve ciência?

5.1. Há um imaginário de que todo escritor é um sujeito atormentado. Mas se por


um lado o grande mal é não saber ler e escrever, por outro lado mal tão grande
quanto é o controle ideológico do que é escrito. Essas duas forças opera no mesmo
sentido: se a escrita é vida, vida humana, impedir a escrita, a escritura, o escrito, é se
posicionar contra a vida, contra a adaptação da natureza humana, sua evolução
biológica. O estabelecimento da escrita possibilitou o conhecimento das regras
coletivas mínimas para a produção, circulação e consumo de trilhões de mercadorias
diferentes. Todo escritor é um sujeito atormentado, possui demônios contra os quais
luta?

5.2. O sofrimento mental experimentado por muitos escritores famosos, o momento


doloroso de produzir um texto, a angustia e o silêncio do método correto,
inexprimível, as regras de correção ortográfica, gramatical, o campo da pertinência,
etc, são apresentados como características do escritor. Na academia, a escrita
acadêmica é um local de vigia constante, pois são vias onde o conhecimento
científico transita, conhecimento para escrever plantas de bombas atômicas,
fórmulas de medicamentos fundamentais, algoritmos para programas de
computador, ou notícias. A escrita na contemporaneidade é resultado mais do
teclado do que do lápis, o escritor vive a angustia de ter para si os vários meios para
a produção de seu texto, e também como apresenta-lo aos outros seres humanos,
nos locais onde há leitores. Para alguns os demônios dos escritores são os próprios
leitores, que exercem ação demoníaca abrindo a demanda. Na sociedade industrial a
indústria da produção de livros, da comercialização virtual de livros está voltada para
vários mercados, há ainda o hábito de se ler livros.

5.3. Educar a motricidade de uma criança, de um adolescente, de um adulto, para


que ele seja capaz de escrever um texto legível, palavras que possam ser lidas, que
acionem esquemas mentais preestabelecidos nos exercícios sinápticos e neuronais
do leitor, o desafio das sociedades é continuar alfabetizando e letrando gerações e
gerações de seres humanos. Toda criança ao nascer retorna o vazio existencial que
um adulto vai preencher, gradualmente. Se tornar um escritor, ter consciência de
que escreve para uma turba de demônios, sempre, a representação do mal como o
espaço que o outro ocupa, como expressa Sartre dizendo que “o inferno são os
outros”. A infernalidade e seus agentes operando no sentido filosófico da figuração
da luta pela sobrevivência: lutamos para sobreviver impondo nosso sentido do
mundo através de nossa escritura.

5.4. O niilismo da escrita é um lugar de satisfação para espíritos que não querem
chegar à conclusão óbvia de que a sociedade não pode fazer com que cada ser
humano que a compõe seja um escritor. Nem obrigando o sujeito, os sujeitos, seria
possível fazer com que todos que ingressaram no sistema escolar se tornem
escritores, e leitores contínuos, constantes, cotidianamente. É desesperador que a
escrita seja realizada em algumas áreas da vida, do ponto de vista de projeções
otimistas sobre o uso do conhecimento escolar. A BNCC tem certo otimismo quanto
a aquisição da escrita e da leitura. Infernal é mesmo o desespero, o desestímulo à
éticas que estão em torno da aquisição da escrita como um direito humano. Na
imagem que o título “Então Escritores tem demônios” provoca, figurando demônios
como “coachs” ou “instrutores”, a intenção é provocar o caráter libertador,
afrontador, libertino, descarado, transgressor, pornográfico, hediondo que a escrita
pode ter. O Escritor é uma figura cultural que precisa haver em quantidade para que
várias formas de apoio à sobrevivência humana, como o humanismo, a medicina,
estruturas culturais onde escrever é manter a vida, e o niilismo, a desistência do
acordo racional implícito e oculto durante o processo de escolarização onde a escrita
e a leitura foram adquiridas. Niilismo é assumir que o garoto de 13 anos analfabeto
de nossa crônica, personagem fictícia, mas possível matematicamente de existir, por
razões ontológicas e fisiológicas pode estar sim incapacitado de se tornar um
escritor, por razões mentais, de ordem psíquica, psicomotora, neuropedagógicas.
Esgotando a análise do caso, constatando que não há recurso pedagógico possível
para alfabetizar o adolescente de 13 anos, de forma que ele jamais será escritor,
jamais produzira algo escrito, ou, em tom menos desesperado, o adolescente de 13
anos AINDA não está alfabetizado, mas possuímos recursos metodológicos
solidificados nas ciências pedagógicas para oferecer procedimentos escolares
adequados ao caso. Se isso por possível, a pós-utopia é que, de posse da habilidade
de ler e escrever, que indiscrições, intimidades, observações, intuições,
conhecimentos esse sujeito vai escrever? Que tipo de escrita tem um adolescente
“normal” de 13 anos. Ele já é um escritor? Ele já está em luta contra o demônio da
inspiração? --- já pode se descrever como autoridade sobre a própria liberdade de
criação do texto, científico ou ficcional?

5.5. Uma proposição que a imagem de João da Cruz e seu poema “Noite Escura da
alma”, onde ele afirma que Deus está sim nas trevas, Deus habita as trevas, as trevas
da alma, o espaço intimo, oculto, às vezes intraduzível, mesmo material que temos
contato nos sonhos mais vívidos, nos lugares sem palavras, locais onde podemos
estar no ato da escrita. O escritor de poemas de amor a Deus vê o desenvolvimento
intelectual da alma no ato da escrita. A linguagem poética, a linguagem científica, a
linguagem religiosa, matemática, todos os vários campos do saber abertos, e os
conteúdos da humanização são de direito do cidadão, o Estado aponta para a
liberdade de expressão como uma forma de preservação da diversidade e
potencializadora da criatividade. Como convidar a alma a ir às trevas do ato de
escrever, no ponto entre a página em branco e o impulso inicial do trabalho de
escrever?

5.6. O existencialismo encontra para conflitos sempre o niilismo, desde o surgimento


da política do sujeito cartesiano até a relação entre o materialismo dialético e a
psicanálise, a náusea é a existência dos sujeitos críticos diante dos acordos com a
realidade, dos tipos de acordos que são feitos na sociedade industrial. Nos vários
bares que funcionam no Edifício Maleta, no centro de Belo Horizonte é possível
encontrar vários escritores com seus cadernos e canetas, solitários bebendo,
bebendo e escrevendo pela madrugada, ao amanhecer, no horário do almoço,
sujeitos se resolvendo pelas narrativas. Esta é uma das imagens da existência em
resolução, em processamento, um indivíduo escrevendo é o mesmo que um
programa de computador estar fazendo um loading: num exemplo cibernético. O
niilismo diz: não vale a pena escrever.

5.7. A figura de um invisível dragão do mal pousado invisível no ombro de um


homem ou de uma mulher soprando-lhes palavras e frases inteiras para serem
escritas é uma imagem medieval. Os escritores naturalistas brasileiros no século XIX
buscavam bares abolicionistas, abafados de nicotina e tuberculose, sem perceber.
Quando um escritor morre é um conjunto de leitores que desaparece. Um escritor é
uma personagem socializadora, apesar de seu sofrimento pessoal, ou, e para
justifica-lo. O niilista trabalha para exterminar a inspiração.

6. A autopoiese para a criação artística

O objetivo da Alfabetização é gerar Escritores, pessoas escriturárias de suas almas e do seu papel
social. A autora de “Quarto de Despejo” (1959), Carolina de Jesus, viveu a infernalidade da condição
de exploração no trabalho (doméstica), exploração racial estabelecida pela colonização tardia no
Brasil, nas poucas oportunidades que a urbanidade industrial ofereceu para que meninas negras
pudessem se tornar escritoras. Escrevia, se tornou escritora. Mulher escritora é uma questão.
Negro escritor é outra questão. Mulher negra, empregada doméstica, superou o demoníaco
monstro social da desigualdade racial. Que sopro de inspiração ela recebia em seus ouvidos, o que
ela se punha a escutar para se inspirar ao trabalho de produção da palavra? No contexto de
Carolina de Jesus a superação do analfabetismo de uma considerável quantidade de brasileiros
passou a ser objeto de estudos, na luta contra a desigualdade social decorrente dele, na crítica da
concentração de capital cultural. A concentração de renda que os grupos ultra-alfabetizados
realizam, as classes culturais que monopolizam áreas do conhecimento, da escrita, do próprio valor
e autoridade da escrita, de acordo com o nível profissional, como essas classes levam seus
membros ao melhor momento como escritores? Para cada obra prima há milhões de tentativas que
não se tornam realidade, escritores medíocres, como uma inseminação em que um
espermatozoide chega na frente dos bilhões de irmãos ejaculados ao mesmo tempo, seria a
produção de escritores e de obras semelhantes às condições da inseminação natural, o descarte
dos derrotados? Uma seleção natural é o que estabelece o escritor?

7. Comentários finais

O inferno de onde partimos é a pressão pela existência de analfabetos nos anos coloniais do Brasil,
a trajetória das leis educacionais desde as primeiras na Constituição brasileira de 1832 até as BNCC
de 2019; os conflitos sociais da elitização dos processos de aprendizagem e pratica a escrita. O
purgatório onde pretendemos chegar é o estado de compulsão, tesão, fissura, tentação,
sublimação, catarse, comunicação presentes no ato de escrever, livre e autonomamente, que um
certo número de pessoas consegue. Dante Alighieri (1304) apresenta a forma pedagógica do
inferno, no livro ele descreve na terceira pessoa, uma jornada sua com o escritor Virgílio (20 a.C.):

“(...) Dante, perdido numa selva escura, erra nela toda a noite. Saindo ao amanhecer,
começa a subir por uma colina, quando lhe atravessam a passagem uma pantera, um
leão e uma loba, que o repelem para a selva. Aparece-lhe então a imagem de Virgílio,
que o reanima e se oferece a tirá-lo de lá, fazendo-o passar pelo Inferno e pelo
Purgatório.”6 (canto 1)

Dante é um escritor criativo que produz no século XIV a imagem de Virgílio, um poeta romano que
viveu próximo ao início do primeiro milênio cristão, sofredor, angustiado, derrotado, rodeado por
demônios, ele reúne coragem e leva Dante pelos caminhos sinistros da casa dos mortos eternos. No
livro Inferno Dante faz uma historiografia da cultura italiana de sua época, inicia a imagem trágica
do escritor atormentado pelos demônios e pela angustia presente, dias duros durante o exílio,
imagem do pensador atormentado, o relato do sofrimento compartilhado com o destino de
sofrimento de toda sociedade humana como alma do escritor, criando uma ótima literatura com

6
. https://pt.wikisource.org/wiki/A_Divina_Comédia/Inferno/I (05\2020)
eventos, dramas, personagens, e ao mesmo tempo superando a destruição de sua carreira política
após ter sido exilado de Florença (1301-1320). Escrever foi um tormento para Dante, mas a
produção da obra escrita, o agir como escritor, escrever sobre os movimentos mais íntimos da vida
e da morte, para isso mesmo existe a escrita, o levou a entrar na cultura globalizada centenas de
anos depois de sua morte pela profundidade da imagem do tormento que é aprender. Nos
momentos mais terríveis que a espécie humana enfrenta ela o faz com o compromisso com a
escrita, o hábito de ler, o hábito de escrever, e escrevendo encontrar funcionalidade do trabalho
produtivo, a autonomia, o ato criativo da escrita, sair do inferno como Dante, seu papel
pedagógico, sua centralidade em uma série de estados cognitivos libertários.

8. Referências

--- ALIGHIERI, Dante. O Inferno (1304).

--- DERRIDA, Jacques. Papel máquina (2001) e Gramatologia (1967).

--- FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido (1968).

--- FREUD, Sigmund. Uma neurose demoníaca do século XVII (1923).

--- ROSA, Guimarães. ROSA, João Guimarães. Grande Sertão Veredas (1946).

--- SAGAN, Carl. O Mundo Assombrado pelos Demônios: A Ciência Vista Como Uma Vela No Escuro.
(1995).