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Gabriel Lima de Oliveira 084380

Unicamp- Instituto de Filosofia e Ciências Humanas


Departamento de Antropologia
HZ467 B Antropologia e estudo do parentesco
Prof° Ricardo Cavalcanti-Schiel

KUPER, Adam. Cultura a visão dos antropólogos. Bauru: EDUSC, 2002. p. 161 – 205

O capítulo acerca de Schneider inicia com uma sintética biografia salientando seu
caráter rebelde, sua entrada nos estudos sociais, a inclinação parsoniana, seu percurso
acadêmico e sua ida a campo nas ilhas Yap, seus principais conflitos e sua posição à respeito
dos estudos de parentesco, ponto central na análise de Kuper. Se nas palavras de Kuper:
“Schneider organizou o mais subversivo dos programas culturalistas, a desconstrução (avant la
lettre) da arca da aliança antropológica, o parentesco” (p.172), o autor também tece árduas
críticas à seriedade científica do trabalho do mesmo.

O texto constantemente reafirma que o campo do parentesco era um quanto árido para
Schneider (chegando inclusive a tecer hipóteses psicológicas para explicar tal contragosto). Sua
entrada nesse campo foi como relator do parentesco das ilhas Yap, mas o reconhecimento deste
se deu graças à reestruturação do departamento de antropologia de Chicago, que juntamente
com Geertz e Fallers trouxeram um novo projeto para antropologia, não mais baseado na velha
guarda da antropologia social e na antiga divisão de campos (antropologia cultural, antropologia
física, arqueologia e linguistica), mas centralizando a antropologia como ciência da cultura.

Sua reputação é finalmente afirmada com a publicação de um estudo a respeito do


parentesco dos Estados Unidos (cabe destacar que como material etnográfico Schneider utilizou
foram cidadãos brancos, de classe média de Chicago) em uma abordagem culturalista radical,
opondo-se a análise social/biológica. Dentro de American Kinship destaco a posição de símbolo
dominante do parentesco americano ocupado pelo ato sexual, fazendo deste um sinal de amor,
tido enquanto símbolo. O resultado é a consanguinidade e o amor a eles. Em suma, esse sistema
de parentesco se estrutura a partir da noção de amor, “uma solidariedade difusa e duradoura”.
Vinculando o ato sexual com o amor, ou seja, percebendo o ato como símbolo,
consequentemente o sexo, nessa análise, não é uma ação do campo da biologia, mas sim é
marcado pela cultura.

Outra crítica que merece destaque é a respeito da consanguinidade no sistema de


parentesco, um dos pilares do parentesco para a antropologia social. O que Schneider faz é
novamente uma investida culturalista neste: consanguinidade não é suficiente para que alguém
se torne parente. Assim o parentesco não é entendido como o domínio de parentes genealógicos,
mas aqueles que através de certo código de conduta são considerados parentes, sendo a cultura o
fator decisivo. Se Lévi-Strauss afirmou que o sistema de parentesco é baseado em uma oposição
universal entre natureza e cultura, Schneider argumenta que essa própria distinção é um artifício
da cultura ocidental.

Se Schneider tentou expor uma visão nativa do parentesco em American Kinship,


tornando a biologia apenas um conjunto cultural das ideias americanas, fazendo com que
família, sexo, consanguinidade (conceitos fundamentais da antropologia social) apenas símbolos
culturais, o desenvolvimento dessas ideias seguiu em Critique of the Study of Kinship.

Nessa obra, Schneider coloca toda a teoria do parentesco como uma imposição dos
modelos ocidentais, sendo que para o autor muitas outras sociedades não possuem sistemas de
parentesco. Schneider ataca a teoria do parentesco por ela se basear em um único principio
biológico universal, naturalizando assim a genealogia. Ao analisar o parentesco como um
sistema de signos arbitrários, não há necessidade para haver conceitos como sexo, mãe, pai,
irmãos da mãe, primos cruzados, etc. O material que Schneider utiliza foi o seu relatório acerca
dos iapeses, criticando sua primeira descrição em que esse sistema seria de dupla descendência.
A nova análise mostra, por exemplo, que o coito para os iapeses não tem uma função na
reprodução; que embora uma mulher gere uma criança não é necessariamente a mãe e que o pai
não gerava um filho; além disso, coloca que com a adoção fazia com que a criança fosse tratada
como um filho biológico. Schneider expõe que sua primeira análise foi fruto de seu
etnocentrismo que naturalizou o parentesco, que esse na verdade não existe, nas palavras dele:
“Despojado de suas bases biológicas, o parentesco não é nada” (Schneider, apud Kuper, p.192).

Na mesma época foram feitas outras críticas ao sistema de parentesco da antropologia


social, como em Leach que vemos “a estrutura de parentesco é apenas uma forma de falar sobre
relações de propriedades que também podem ser referidas de outras formas” (Leach, apud
Kuper, p.192).

Schneider foi acusado de depreciar e inclinar os aspectos etnográficos em favor de seu


ponto de vista segunda a crítica, essa que mostrou que outros estudos diziam o contrário sobre o
parentesco Yap e não foram levados em conta, assim como a obra Kinship in Bali de Geertz,
onde o autor coloca o parentesco de um ponto de vista cultural. Mas mesmo assim a posição de
Schneider ao apontar o alicerce biológico da teoria antropológica do parentesco desconstruiu as
bases do parentesco.