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Assunto: Metodologia & Método

Metodologia. [do gr. metodos, 'metodo', + -log (o) + ia.] S. f.. 1. A arte de dirigir o espírito na
investigação da verdade. 2. Filos. Estudo dos métodos e especialmente dos métodos da ciência.
Método. [do gr. metodos, 'caminho para chegar a um fim'.] S. m. 1. Caminho pelo qual se atinge
um objetivo. 2. Programa que regula previamente uma série de operações que se devem realizar,
apontando erros evitáveis em vista de um resultado determinado (esperado). 4. Modo de proceder;
maneira de agir; meio.

No sentido literal, metodologia é a ciência integrada dos métodos. O método, é o caminho


racional do espírito para descobrir a verdade ou resolver um problema.
A metodologia é o estudo da melhor maneira de, num determinado estado de conhecimentos,
abordar determinados problemas. Ela não procura soluções, mas contribui na escolha das maneiras
de encontrá-las, integrando os conhecimentos adquiridos sobre os métodos em vigor nas diferentes
disciplinas científicas ou filosóficas.
A metodologia conduz toda a elaboração do método que será empregado na resolução de um
determinado problema. Ela engloba, antes de tudo, a lógica - conjunto de regras que rege o
funcionamento do pensamento - e seus dois prolongamentos em direção ao mundo interior e ao
mundo exterior, a saber - a intuição e a experimentação.
A lógica, arte da vagar com segurança, segundo uns, de racionar com exatidão, segundo
outros, representa um esforço do espírito por organizar os conhecimentos e os adaptar à realidade.
A lógica clássica antiga foi profundamente renovada pela lógica moderna, que fez uma ponte entre
o racional e o irracional.
A intuição é uma noção de difícil explicação. Ela permite um conhecimento institivo,
imediato, sem raciocínio prévio. A intuição se traduz seguidamente por uma convicção forte, sem
razões formuláveis.
A experimentação é indispensável para combinar as teorias, para construir a ciência sobre a
qual se implnatam os métodos no sentido clássicio do termo, na preparação e na organização do
trabalho. Aliada à experimentação está a observação.
Em metodologia, o primeiro problema que se coloca, é o de saber se os métodos estão todos
sob o mesmo plano, num mesmo nível de abstração e complexidade. Caso contrário, faz-se
necessário hierarquizar: partir do método com "M" maiúsculo, passar pelos métodos e os
submétodos para chegar aos processos mais elementares, que não deverão levar mais o nome de
métodos, mas sim de receitas, truques etc.
Num nível mais elevado, os métodos se aproximam, antes de tudo, de uma posição de
princípio, de uma atitude geral do espírito diante dos problemas. '
Os verdadeiros métodos evoluem porque os problemas evoluem eternamente. Aquilo que pode
ser considerado um método em um determinado momento da vida, da história da humanidade, de
uma determinada civilização ou cultura, pode cair no hábito e num outro momento não mais ser
considerado como tal. O método de medir, por exemplo, antes reservado a alguns iniciados, caiu na
prática corrente e não e'mais considerado um método.
Um método é relativo a uma determinada categoria de problemas. Cada problema é
acompanhado de dados específicos que o distingue de qulquer outro problema desta ou de outra
categoria. Quando um método é utilizado na resolução de um determinado problema, ele não deve
ser considerado uma luz exterior que clareia uma única rota a seguir, mas deve ser encarado como
uma luz exterior que aponta para diferentes caminhos, deixando o campo livre à intuição, à
iniciativa, à liberdade. Assim sendo, o método não é, por si só, um meio garantido de não haver
erros.
O método fornece, simplesmente, o máximo de oportunidades, de chances, de sucesso em
uma determinada operação. Ele é a antítese do hábito, da repetição, do garantido.
O método está estreitamente relacionado coom a pessoa que o utiliza e é dependente da sua
personalidade.
Qualquer trabalho realizado pelo homem tem por detrás um método, que ajuda a resolver os
problemas e alcançar um objetivo desejado. Quando, diante de um determinado problema, tem-se a
necessidade de uma estruturação, de uma reflexão anterior à ação prática, esta-se diante de uma
metodologia, que guirá todo o processo, que influirá sobre a postura de alguém que sabe o que
procura.

O Empreendimento Metodológico na Ciência


O empreendimento metodológico, na ciência, não é redutível a uma reflexão a posteriori sobre
os resultados da pesquisa científica. Por um lado, ele tende a analisar os procedimentos lógicos de
validação e a propor critérios de epistemológicos de demarcação para as práticas científicas e, por
outro lado, a examinar o próprio processo de produção dos objetos científicos.
A metodologia é a lógica dos procedimentos científicos em sua gênese e em seu
desenvolvimento e não se reduz, portanto, a uma metrologia ou tecnologia de medida dos fatos
científicos. Para ser fiel a suas promessas, uma metodologia deve abordar as ciências sob o ângulo
do produto delas - como resultado em forma de conhecimento científico e como gênese desse
próprio conhecimento.
A metodologia deve ajudar a explicar não apenas os produtos da investigação científica, mas
principlamente seu próprio processo, pois suas exigências não são de submissão estrita a
procedimentos rígidos mas, antes de tudo, a fecundidade na produção dos resultados.
A prática científica não é redutível a uma seqüência de operações, de procedimentos
necessários e imutáveis, de protocolos codificáveis. Tal concepção, que converte a metodologia em
uma tecnologia, reduz o método a um procedimento "lógico", do tipo indutivista e a pesquisa a um
tipo de programa. Além de seus a priori empiristas, este procedimento propõe um modelo ideal de
pesquisa, sob a forma de uma espécie de caminho crítico e impõe uma concepção linear da
metodologia e da pesquisa.

Questões Metodológicas na Área do Design


A postura de quase independência em relação a normas e regras, caminhos e passos pré-
estabelecidos, que caracteriza a discussão sobre metodologia na esfera das Ciências Socias, serve
de pano de fundo para algumas reflexões sobre metodologia na área do Design.
Inúmeros são os estudiosos da área de Design que veem se dedicando ao estudo do tema
metodologia de projeto, seja propondo novos enfoques, novos métodos, seja analisando e refletindo
sobre as metodologias já propostas.
Um destes estudiosos, Gui Bonsiepe, designer formado pela escola Hochschule für
Gestaltung, Ulm e que durante muitos anos morou em nosso País, traz, na minha opinião, uma
contribuição bastante importante sobre este tema. Assim sendo, apresento e comento algumas de
suas suas idéias, como um convite a uma reflexão.
Segundo Bonsiepe (1983), na década de 60, registrou-se o auge da metodologia projetual,
quando interesses anglo-saxão e teutônico se voltaram para esse campo, até então pouco explorado.
Esse processo, culminou com a academização da metodologia, institucionalizada como disciplina
universitária.
Os partidários desta nova disciplina constataram o relativo subdesenvolvimento e atraso da
atividade projetual, quando comparada a outras atividades humanas, sobretudo às atividades
técnico-científicas.
Os metodólogos, então, trataram de descobrir a estrutura do processo projetual, de explicitar a
lógica interna da seqüência de passos que um designer deve dar, desde a formulação de um
problema projetual até a elaboração de uma proposta, na forma de um produto industrial.
As reflexões acerca do processo projetual constituem segundo Bonsiepe, uma operação
estruturalista dirigida a escavar o esqueleto da atividade projetual. Em termos gerais, trata-se de
uma reconstrução estruturalista, onde os componentes analíticos se interpenetram com os
componentes normativos. Partem da hipótese de que a atividade projetual das diversas áreas possui
uma estrutura comum, independente do conteúdo das tarefas projetuais. A nível teórico, pois, não
haveria diferença entre um projeto de um rótulo para uma garrafa de champanhe e o projeto de uma
maca hospitalar.
Certamente, os métodos específicos a serem empregados em cada caso poderiam e deveriam
forçosamente variar, mas a seqüência de etapas a serem seguidas seria, essencialmente, idêntica,
permanecendo invariável frente aos conteúdos projetuais. Uma vez diagramada a seqüência de
passos, o diagrama se transformou em norma paradigmática.
Para Bonsiepe, caracterizam-se, assim, as duas abordagens principais dos metodólogos: por
um lado tencionam explicar e modelar o processo projetual e, por outro lado, pretendem descrever
técnicas específicas, tipo receita culinária para o projetista.
Para essa finalidade, utilizaram-se da contribuição de algumas disciplinas científicas.
Inicialmente, a Teoria dos Conjuntos, a Teoria dos Sistemas, a Teoria da Informação e a Teoria da
Tomada de Decisões. Mais tarde, incorporaram disciplinas como Psicologia Ambiental e Teoria
Psicanalítica dos Símbolos.
Sob a luz dessas disciplinas, as metodologias tenderam a separar-se da esfera da Arte e
aproximar-se da esfera da atividade científica. Contudo, Bonsiepe chama atenção para o fato de que
existe uma diferença fundamental entre essas manifestações da inteligência humana. O Design não
é nem será uma ciência, o que não exclui que existam interações frutíferas entre as diversas áreas.
Além disso, existem determinads analogias entre o processo projetual e o processo de investigação
científica. A formulação de uma hipótese científica corresponde, no âmbito do projeto, ao
anteprojeto, como possível tradução de uma série de requisitos funcionais, tecnológicos,
econômicos, sociais e culturais, numa proposta de projeto em Design. Pode-se considerar a
anteprojeto como uma resposta-tentativa, cuja validade será demonstrada posteriormente, através de
um protótipo experimental e aperfeiçoado.
Depois de mencionar a diferença entre Projeto e Ciência, Bonsiepe diz que é conveniente
assinalar igualmente que não há justificativas para a interpretação do Design como uma atividade
artística, supostamente intuitiva e irracional.
Certamente a Arte, em suas diversas manifestações pode, nos limites da cultura ocidental,
representar os arquétipos hegemônicos da experiência estética, mas não pode pretender
exclusividade. O submundo do Design está ligado ao mundo da Estética, mas não necessariamente
ao mundo da Arte.
Voltando ao tema inicial, faz-se necessário o reconhecimento das abordagens metodológicas
acerca da organização do processo projetual, relacionadas a técnicas específicas mas, ao mesmo
tempo, há que se admitir certas omissões metodológicas.
Por exemplo, as metodologias dos anos 60, não deram ênfase especial à contaminação
ambiental, ao uso de recursos não renováveis, ao consumo de energia durante o ciclo completo do
produto, desde sua fabricação, passando pela etapa de uso, até sua eliminação e eventual reciclagem
e, finalmente, ao emprego de mão-de-obra em lugar de bens de capital.
Ao que se sabe, os metodólogos não questionaram o caráter universalista da metodologia.
Tampouco se perguntaram de que maneira as circunstâncias históricas, sociais, políticas,
econômicas impõem certas limitações à validade, supostamente universal, da metodologia projetual.
Bonsiepe diz que, é mais fácil, contudo, questionar e criticar do que oferecer respostas.
Entretanto, em se tratando de metodologia, é preciso resistir a três tentações:
1. a tentação do determinismo limitacionista, que nega qualquer validade à metodologia, além
de sua origem histórica;
2. a tentação de um universalismo espiritual, que interpreta a metodologia como aquisição
válida, sem restrições;
3. a tentação de um alternativismo que, com seu programa de negação absoluta, enterra a
metodologia no depósito de lixo da História.
Bonsiepe aconselha que, ao invés de ligar estas simplificações esquemáticas a determinadas
posições políticas, deve-se considerar algumas preocupações subjacentes às três posições
mencionadas. Para ele, deve causar assombro, principalmente, a dicotomia antidialética entre a
estrutura formal do processo de projeto, com suas respectivas operações e o conteúdo concreto do
projeto.
Com base nesta questão, propõe uma revisão nos esquemas metodológicos usualmente
propostos, com a utilização de critérios que possibilitem considerar a diversidade e as
especificidades dos problemas projetuais na área do Design.
Na sua análise em relação à complexidade do problema projetual, Bonsiepe diz, por exemplo,
que um designer será obrigado a calibrar seus métodos ao projetar um rótulo para um refrigerante e
ao projetar um sistema de sinalização para uma grande feira de negócios.
Ao tratar sobre a disponibilidade de recursos tecnológicos, o designer tem de ajustar o
processo projetual às possibildades locais, implicando uma metodologia particular.
Em relação aos objetivos políticos-econômicos, o designer deve ter bem clara a distinção entre
projetar para um empresário que está sujeito às leis de mercado e projetar para um contexto social
menos marcado por estas leis.
Na esfera do problema projetual, o designer deve estar atento às cargas estético-formais. É
preciso distinguir nos projetos o peso relativo de fatores estritamente técnico-funcionais e de fatores
propriamente estéticos.
Neste ponto, convém fazer uma breve incursão na relação entre metodologia e estética
projetual. Uma das falências mais notórias da metodologia consiste em sua omissão frente ao
tratamento dos detalhes formais de um produto, a semântica do produto. A dimensão estética é uma
incógnita para a metodologia. Apesar de 60 anos de existência, o curso básico de Design, uma
contribuição da Bauhaus, fossilizou-se no que se refere à metodologia dos fenômenos formais,
salvo raras excessões.
Um dos méritos da rebelião estudantil da década de 60 foi a reinvindicação do direito a uma
experiência estética que, ultrapassando a cultura institucionalizada, tivesse raízes na vida cotidiana:
na forma de vestir-se, na forma de relacionamento entre os sexos, no microambiente pessoal, na
experiência pessoal, na forma de trabalho etc.
Do movimento contestatório experimentado por grande parte da juventude acadêmica surgiu o
movimento heterogêneo da tecnologia alternativa, com seu correspondente desenho alternativo.
É preciso, contudo, ver se e como esse movimento alternativo fez surgir ou não uma
metodologia projetual alternativa. O adjetivo alternativo assinala uma opção por algo diverso do
status quo dominante, uma ruptura.
Se aceitamos a tese de que existe uma relação entre o contexto de projeto, por um lado, e a
metodologia, por outro, como variável dependente, devemos supor a existência de uma metodologia
alternativa. Obviamente, esta metodologia está sendo praticada, mas ainda sem a formalização e a
elaboração da metodologia clássica.

Bibiografia
BONSIEPE, Gui. A Tecnologia da Tecnologia. São Paulo: Edgard Blücher, 1983.
BRUYNE, Paul et allii. Dinâmica da Pesquisa em Ciências Sociais. Rio de Janeiro:
Livraria Francisco Alves Editora S.A., 3a ed., s/d.
CLAUDE,R. MOLES,A. Methodologie, Vers Une Science de L'Action. Paris: Gauthier Villans
Enterprise Moderne D'Edition, 1964.
Novo Dicionário do Aurélio, Rio de Janeiro: Ed. Nova Fronteira, 2a ed., 1986.