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UNIVERSIDADE: Universidade Federal do Paraná

COMITÊ ACADÊMICO: Ciências Políticas e Sociais


TÍTULO DO TRABALHO: POR DENTRO DO EXECUTIVO: UM ESTUDO
SOCIOLÓGICO DA ELITE ESTATAL DO GOVERNO LERNER
AUTORES: Bruna Gisi Martins de Almeida e Adriano Nervo Codato
E-MAIL DOS AUTORES: brunagisi@gmail.com; acodato@terra.com.br
PALAVRAS-CHAVE: elite política; carreira política; ideologia da técnica
PALABRAS CLAVES: elite política; carreira política; ideologia da técnica

Introdução1

Como bem apontou Robert Putnam (1976) em seu estudo comparativo de elites
políticas, a idéia de que o poder é distribuído de forma desigual na sociedade é axiomática,
nenhum sistema político nacional existente realiza uma distribuição igual do poder entre todos
os indivíduos (p.8). A grande maioria dos estudos sobre, em termos gerais, “a política” parte
da constatação de que existe um grupo com acesso privilegiado aos meios de poder, ou seja,
com capacidade maior e mais constante de influenciar nas decisões políticas fundamentais
referentes a uma coletividade. É possível pensar, assim, que o estudo sobre essa minoria
governante – a elite política – nos permite compreender melhor o funcionamento da estrutura
de poder da coletividade da qual faz parte.

A configuração política das sociedades das quais as elites fazem parte, é o resultado
tanto das formas de recrutamento do grupo dirigente, quanto da estrutura de elite. Assim,
uma das questões mais importantes das investigações empíricas sobre elites diz respeito ao
processo de escolha dessa minoria governante. Em resumo, a pergunta central que dirige esses
estudos é: quais são os meios e os modos de acesso ao microcosmo político? É possível
afirmar que o recrutamento inclui duas dimensões: a seleção sócio-econômica dos indivíduos
e a seleção político-institucional daqueles que irão exercer uma função de comando numa
dada sociedade.
Para Anthony Giddens (1974), a análise do recrutamento inclui, de um lado, uma
avaliação realista do grau de abertura da elite para indivíduos de origem social heterogênea e,
de outro, a identificação dos canais privilegiados ou avenidas de acesso às posições de elite.
Este segundo processo se refere à trajetória político-institucional dos membros da elite, ou

1A primeira versão deste trabalho foi apresentada no XXV Congreso de la Associación Latinoamericana de
Sociologia – ALAS, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul UFRGS) em 2005 com o título “Ideologia
da técnica e política democrática”. Os dados aqui discutidos foram coletados na pesquisa Quem governa?
Mapeando as elites políticas e econômicas no Paraná contemporâneo (1995-2002), desenvolvida no Núcleo de
Pesquisa em Sociologia Política Brasileira da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

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seja, aos tipos de cargos e posições que esses indivíduos normalmente ocupam antes de
assumirem os postos de poder e/ou prestígio numa sociedade dada.
Tendo isso em vista, o presente trabalho pretende apresentar e analisar dados
referentes à trajetória política de uma elite política particular, qual seja, a elite político-
administrativa do estado do Paraná no período de 1995 a 2002 2. Essa elite é composta pelos
indivíduos que ocuparam os principais cargos no executivo estadual entre 1995 e 2002 3. Para
a definição desse universo adotou-se o que a literatura convencionou chamar de critério
posicional: de acordo com as discussões de Wright Mills (1981), responsável pela criação de
tal método, a base de constituição da elite está na razão direta dos recursos institucionais que
seus membros controlam.
O foco da nossa análise é, portanto, os dados referentes à carreira política dos
indivíduos dessa elite. Quanto a isso, cabe perguntar: quais as credenciais políticas mais
importantes para o ingresso nas cúpulas do aparelho do Estado? Nossa hipótese é que o tipo
de trajetória política desses indivíduos tem relação com o perfil (anti-)político do governador
e com a ideologia da superioridade da “técnica” – i.e., o planejamento racional e/ou a decisão
impessoal das medidas de governo – sobre a “política” – i.e., o improviso baseado na intuição
ou o comando apoiado exclusivamente no carisma do líder. Buscaremos investigar, em termos
gerais, se existe um caminho típico para o acesso a essa elite específica, o que implica saber
quais são os atributos (políticos) que os indivíduos devem possuir para serem recrutados à
elite estatal.
A trajetória política da elite político-administrativa
Ainda que possa parecer evidente, a primeira dimensão da análise do processo de
recrutamento da elite político-administrativa diz respeito ao fato desses indivíduos possuírem
ou não uma carreira política efetiva.
Como a elite estatal não é composta a partir de cargos eletivos, mas indicada e
nomeada pelo chefe do executivo estadual, existe uma possibilidade maior (do que na elite
parlamentar, por exemplo) desses indivíduos só terem “entrado para a política” quando
entraram efetivamente para o governo. Contudo, a pesquisa revelou que 91% dos indivíduos
entrevistados tiveram algum emprego público antes de assumir o posto na administração
Lerner. Ou seja, quase todos tiveram alguma experiência política prévia. No entanto, é preciso

2
A técnica de coleta de dados utilizada foi a aplicação de questionários de tipo survey, este questionário foi
formulado coletivamente pelo Núcleo de Pesquisa em Sociologia Política Brasileira da Universidade Federal do
Paraná (UFPR).

2
verificar se essa foi uma experiência significativa, que os socializou na vida política do
estado.
Tendo isso em vista, por quanto tempo esses indivíduos atuaram politicamente? A
Tabela 1 traz os dados sobre o tempo de carreira dos 54 entrevistados a partir do survey4.

Tabela 1
Tempo de carreira política da
elite político-administrativa
classes
freqüência
%

até 1 ano
17
31,4

1 a 5 anos
6
11,1

6 a 10 anos
9
16,7

11 a 20 anos
7
13

21 a 30 anos
9
16,7

acima de 30 anos
6
11,1

Total
54
100

De acordo com a tabela acima, 42,5% dos membros desta elite tiveram cinco anos ou
menos de carreira política, sendo que 31,4% tiveram menos de um ano. Isso poderia nos levar
à conclusão de que boa parte dos membros do governo era inexperiente politicamente. No
entanto, quase 41% deles tiveram mais de 11 anos de carreira, o que pode ser considerada

3
São esses cargos: governador, vice-governador, secretários de estado, presidentes de companhias estatais e
chefes da polícia (civil e militar). O total dos ocupantes destes postos formou um universo composto por 75
indivíduos. Desse total, foram entrevistados em nossa pesquisa 54 indivíduos, ou seja, 72% do universo.
4
Consideramos a passagem do indivíduo pelos principais cargos públicos dos três setores: Executivo,
Legislativo e Judiciário.

3
uma trajetória relativamente extensa5. Tem-se, por um lado, quase metade dos indivíduos
novatos ou recém-chegados na política, sem nenhuma experiência no campo, e, por outro,
praticamente o mesmo número de indivíduos bastante treinados politicamente.
A fim de identificar o perfil da carreira desses indivíduos, além da extensão da
carreira, interessa saber em que tipos de cargos eles se encontravam antes de entrarem para o
governo.
O dado mais expressivo nesse sentido é que 65% dos entrevistados nunca ocupou
algum cargo eletivo durante sua trajetória. Isso significa que mais da metade dessa elite, não
fez sua carreira em postos políticos strictu sensu, i.e., não passaram pelo processo de seleção
partidária e nem pela escolha eleitoral.
Um outro dado que reafirma essa primeira característica é que o primeiro cargo da
carreira política de quase 78% dos entrevistados são postos não-eletivos. Trata-se assim de
uma elite política sui generis, já que ao contornar o sistema eleitoral/partidário só pode fazer
política de dentro do sistema estatal. O que exigirá, por sua vez, uma intimidade
razoavelmente elevada com a máquina pública.
A Tabela 2 apresenta as freqüências dos tipos de cargos ocupados como primeiro
cargo público. Estes dados permitem identificar a que postos não-eletivos eles se dedicaram
preferencialmente no início de suas carreiras políticas.

Tabela 2
Freqüência de tipos de cargos públicos ocupados
pela elite político-administrativa
primeiro
Cargos* cargo %
servidor público concursado (municipal, estadual, federal) 18 33,3
diretor de empresas e agências estatais (federal, estadual, municipal) 12 22,2
secretário municipal 8 14,8
vereador 4 7,4
secretário de estado 2 3,7
deputado estadual 2 3,7
judiciário estadual 2 3,7
deputado federal 1 1,9
não ocupou nenhum cargo político anteriormente 5 9,3
Total 54 100
* Além destes, existem outras posições que não aparecem sequer uma vez: prefeito, vice-
prefeito, governador, vice-governador, ministro de Estado, senador, membro do Judiciário
federal.

5
Conforme Putnam (1976), o tempo de carreira dos membros das elites políticas pode indicar o grau de
permeabilidade da elite quanto a pessoas “de fora” do universo de elite. Segundo o autor, quanto menor a
trajetória política dos indivíduos tanto maior a permeabilidade da elite a outsiders.

4
Dentre as colocações que mais aparecem estão: “funcionário público”, “diretor de
empresa estatal” e “secretário municipal”. Exceto o último, esses não são cargos estritamente
políticos, mas administrativos, sendo que funcionário público por concurso, a função que
mais aparece, com pouco mais de 33%, é um cargo eminentemente técnico.
É importante ressaltar ainda que esses postos são também os que mais aparecem nas
suas carreiras como um todo: em algum momento da suas trajetórias políticas, 44% dos
indivíduos entrevistados foram “diretor de empresa estatal”, 39% “funcionário público”, 28%
“secretário municipal” e 26% “secretário estadual”. Esses elementos indicam que uma grande
parte desses indivíduos é socializada (politicamente) em um setor muito específico, o setor
administrativo do Estado.
É interessante notar que “funcionário público” parece ser uma posição-padrão para a
entrada no time, pois ele aparece com alta porcentagem como primeiro cargo da carreira
política (33,3%), mas não é mais citado como segundo ou terceiro cargo ocupado. Além de
tudo, uma grande parte desses indivíduos começou e, principalmente, continuou sua trajetória
política como servidor público: 46,2% dos entrevistados não tiveram um segundo cargo antes
de entrarem no governo e 63% não tiveram um terceiro cargo. Para além disso, não é possível
concluir que exista um caminho peculiar para os membros da elite político-administrativa até
a chegada no governo do estado.
Além da extensão e do tipo de carreira política, uma outra dimensão importante na
análise do treinamento político de uma elite política é sua trajetória partidária. A primeira
informação relevante é o percentual de indivíduos que pertenceram a partidos políticos antes
de entrarem para o governo. Há aqui um dado importante: mais de 1/3 (37%) dos membros da
elite político-administrativa não pertenceu a nenhum partido anteriormente ao período
analisado. Essa informação reforça a anterior e pode ser explicada por ela: poucos integrantes
da elite estatal participaram da disputa eleitoral.
Se existe uma parte considerável dessa elite sem nenhuma inserção partidária prévia,
de qualquer forma é importante saber qual o tipo de atuação tiveram aqueles que pertenceram
a alguma agremiação antes de embarcar na administração Jaime Lerner. Um dos indicativos
do tipo de participação em partidos é se durante suas trajetórias eles ocuparam ou não cargos
de direção nas máquinas partidárias no estado. No entanto, dos indivíduos que pertenceram a
algum partido (n=34), 73,6% nunca ocuparam uma posição de direção. Podemos verificar
assim que esta é uma elite com pouca inserção prévia no sistema partidário e com reduzida
experiência política. Estar vinculado a partidos políticos parece não ser, ou melhor, não é um
requisito importante para a conquista de cargos nesse governo.

5
Uma outra exigência derivada da nossa metodologia é verificar em quais partidos essa
elite se concentra. Em nossa pesquisa, pedimos aos dirigentes do estado que listassem até 6
partidos aos quais foram filiados antes de ocupar a respectiva colocação no governo. No
entanto, a maioria deles (56%6) pertenceu somente a um partido. O mesmo vale para a filiação
a partidos durante o período analisado (1995-2002), ou seja, enquanto detinham o respectivo
cargo: dos que pertenceram a partidos durante o governo (n=36), 64% pertenceram a somente
um partido. Por esse motivo, analisaremos somente os dados relativos ao primeiro partido
político em que estavam inscritos antes e durante o período em questão.
Ao conferir os dados sobre a porcentagem de agremiações que aparecem como
primeiro partido a que os membros da elite foram filiados antes de assumirem cargos no
governo estadual; verificamos uma informação relevante: a predominância dos filiados ao
PDT. Daqueles que pertenceram a algum partido antes de 1995, exatos 50% iniciaram suas
trajetórias partidárias no Partido Democrático Trabalhista, justamente o partido do governador
(no primeiro mandato).
Já nos dados sobre a porcentagem das agremiações que aparecem como o primeiro
partido ao qual a elite estatal pertenceu durante o período de governo de Jaime Lerner, é
interessante notar a mudança: agora, o partido que predomina é o Partido da Frente Liberal
(que se situa, de resto, na outra ponta do espectro ideológico). Estando na cúpula do estado,
39% dos indivíduos que pertenceram a algum partido se inscreveram no PFL. Ainda que a
porcentagem dos filiados ao PDT durante o período continue expressiva (22%), existe quase
uma inversão entre o PDT e o PFL de um momento a outro.
Para melhor compreender esses dados é suficiente lembrar que o governador foi
filiado ao PDT até 1997, quando então ingressa no PFL. Assim, o aumento no percentual de
políticos do PFL é uma conseqüência direta da migração de Jaime Lerner para a nova
agremiação. Aceitando isso como verdadeiro, podemos imaginar também que essa equipe de
governo é composta por um grupo já ligado ao ex-governador e que se filia ao PFL somente
quando ocupa um cargo no Estado (ou melhor, para ocupar um cargo na administração do
estado). Logo, a variável “pertencimento a partido político” não é decisiva na composição do
secretariado. A fidelidade estrita ao governador e o fato de acompanhá-lo onde quer que vá
parece contar mais que a lealdade a qualquer agremiação ou ideologia política.
Padrão de mobilidade geográfica da elite paranaense

6
Para essas porcentagens, o n é igual a 34, isto é, o número de indivíduos que pertenceram a algum partido antes
do período considerado por este estudo.

6
Em seu estudo sobre a elite política paulista no período de 1889 a 1937, Joseph Love
(1982) identifica uma crescente “provincialização” da classe dirigente. Este termo designa o
aumento do recrutamento e treinamento político dos membros da elite no próprio estado de
São Paulo e não em outros estados brasileiros. Ainda que não tenhamos informações sobre a
elite político-administrativa paranaense ao longo do tempo, procuramos identificar se o
mesmo fenômeno ocorreu no Paraná, ou seja, se essa elite é recrutada e treinada no estado ou
fora dele. A Tabela 3 apresenta o “índice de localismo” da elite em questão.

Tabela 3
Grau de localismo da elite político-administrativa
local de nascimento % local de graduação % primeiro cargo % último cargo %
Curitiba 23 42,6 34 63 38 70,3 44 81,4
Interior do
Paraná 18 33,3 6 11,1 8 14,8 2 3,7
Outras
cidades 13 24,1 8 14,8 3 5,6 3 5,6
Sem cargo
anterior 5 9,3 5 9,3
Sem
formação
superior 6 11,1
Total = 54
*Para cada coluna de freqüências o total é 54 e para todas as colunas de porcentagem o total é 100%

Os números sobre o local de nascimento, local de formação universitária e local do


primeiro e último cargos da carreira política (antes da entrada no governo) mostram que as
porcentagens referentes a “Curitiba” cresceram progressivamente. Essa é portanto uma elite
extremamente local e não “importada”.
Em resumo: essa elite é recrutada, educada e treinada politicamente no Paraná, e
predominantemente na capital do estado, Curitiba. Esse governo de “curitibanos”, com pouca
experiência política (mas grande experiência na máquina do Estado) e baixíssima inserção
partidária é uma informação a mais para supor que o elemento que os aglutine (e que,
portanto, explique esse padrão de carreira) seja orbitar em torno de Jaime Lerner. A migração
de um partido a outro, acompanhando o governador, também sugere a mesma conclusão.

O perfil técnico da elite político-administrativa


A partir da análise dos dados apresentados até o momento sobre a carreira política
desses indivíduos, podemos identificar indícios de um “perfil” para essa elite, perfil esse que
nos possibilita retomar a hipótese proposta no início desse trabalho. A presença significativa
de cargos de tipo administrativo e/ou técnico em suas trajetórias políticas (e a quase

7
inexistência de cargos eletivos), a pouca inserção partidária, a baixa “fidelidade” aos partidos;
todos esses pontos parecem apontar para um caráter “técnico” da elite. São elementos que
podem servir como um fundamento “objetivo” (uma base real) para o discurso ideológico do
Governo de Jaime Lerner que, como foi indicado anteriormente, está embasado na idéia de
neutralidade política e de administração eficiente realizada por especialistas. A fim de
confirmar, ou não, esse perfil faz-se necessário recorrer a outros dados, desviando um pouco
do foco na carreira política.
Um primeiro dado que pode atestar o caráter técnico desta elite político-administrativa
é o nível de escolaridade de seus membros.

Tabela 4
Nível de escolaridade dos entrevistados
Nível Freqüência %
Superior incompleto 6 11,1
Superior completo 28 51,9
Especialização 8 14,8
Mestrado 8 14,8
Doutorado 4 7,4
Total 54 100

Como podemos ver na Tabela 4 os dados são significativos: 100% dos entrevistados
entraram na universidade (sendo que 11,1% deles não terminaram o curso superior). Ainda
mais impressionante é o percentual de pós-graduados na elite político-administrativa
paranaense: 41,7% dos indivíduos graduados (n=48) fizeram alguma pós-graduação. Temos,
portanto, uma elite altamente especializada.
No entanto, para ter uma visão mais apurada sobre estes dados, é interessante verificar
em quais cursos estes indivíduos se graduaram. Para identificar o perfil técnico desta elite é
importante saber as áreas de especialização. Segundo os dados de nossa pesquisa o curso de
graduação que mais aparece é direito (35,4%). Este dado não é surpreendente: o direito
sempre foi um curso tradicionalmente procurado pelos aspirantes a política7.
Se agruparmos as várias engenharias que aparecem como curso em que se formaram
(Civil, Agronômica, Cartográfica, Elétrica e Eletrônica) num mesmo grupo, essa é a segunda
categoria de cursos superiores que mais aparece com 33,3%. Este dado é muito significativo

7
José Murilo de Carvalho (1996) em sua pesquisa sobre a elite política brasileira durante o século XIX, aponta
como um dos principais elementos de homogeneidade desta elite o fato de a grande maioria dos indivíduos ser
formada em direito na Universidade de Coimbra de Portugal. Ainda que se trate de um período histórico muito
distante do tratado neste trabalho, é um bom exemplo da forma como a formação em direito é tradicionalmente
procurada pelos aspirantes a política.

8
para a hipótese aqui proposta: o fato de um terço dos entrevistados ser formado em cursos
tipicamente técnicos, delimita ainda mais o perfil desta elite. É interessante apontar ainda que
a Engenharia que mais aparece é Engenharia Civil: 25% dos entrevistados é formado em
Engenharia Civil, o que está plenamente de acordo com um Governo que tem como base de
legitimação o planejamento urbano.
Além do nível o do tipo de escolaridade dos indivíduos, um outro dado interessante a
ser analisado no que diz respeito ao possível caráter técnico desta elite político-administrativa
é o que se refere a sua posição frente às formas de participação política no regime
democrático8. É possível afirmar que a tendência tecnocrática na política é oposta à idéia de
ampla participação popular. Essa concepção tem contida em si a idéia de que o conhecimento
especializado é necessário para o bom funcionamento da política. Aqui está colocada uma
desigualdade de poder que não está só na posse do cargo, mas também no conhecimento que
esta atividade exigiria. Neste sentido, estariam excluídas do processo político todas as pessoas
que não possuem este conhecimento especializado.

Tabela 5
Participação política no regime democrático
Questões Concorda Concorda Nem concordaDiscorda Discorda
fortemente nem discorda fortemente
Voto 75,9% 20,4% 1,9% 1,9%
(41) (11) (1) (1) -
Plebiscito 3,7% 27,8% 22,2% 40,7% 5,6%
(2) (15) (12) (22) (3)
Conselhos gestores 18,5% 48,1% 11,1% 14,8% 7,4%
(10) (26) (6) (8) (4)
Orçamento participativo 5,6% 27,8% 18,5% 38,9% 9,3%
(3) (15) (10) (21) (5)
Participação direta 7,4% 14,8% 18,5% 51,9% 7,4%
(4) (8) (10) (28) (4)
TOTAL = 54*
* Para cada uma das linhas o total da freqüência é 54 e da porcentagem é 100%

Como podemos observar na Tabela 5, o procedimento indicado por quase todos os


entrevistados como necessário ao funcionamento da democracia foi o voto: 96,3% somando
concorda e concorda fortemente. Juntamente a isso podemos notar que quando questionados
sobre a necessidade da participação direta dos cidadãos em todas as decisões para que exista
democracia, 59,3% (somando discorda e discorda fortemente) se posicionou negativamente.
Esse procedimento foi o que teve maior rejeição de todos.

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Estas respostas apontaram para o fato de que estes indivíduos qualificam a democracia
como uma democracia representativa e mais, respondem negativamente a necessidade de
aumento da participação popular. Quando questionados se o Brasil é ou não uma democracia,
87% dos entrevistados responderam que sim, confirmando a qualificação liberal da
democracia. Desta forma, a oposição entre os técnicos de Estado e a democracia popular é
percebida por estes indivíduos que se legitimam pela ideologia da técnica.
Podemos pensar que o problema desta lógica tecnocrática na política, que não é só
observada objetivamente como expressada pelos entrevistados, são as implicações disso para
a democracia. A transformação de decisões políticas em decisões técnicas pelo discurso
legitima a idéia de que as pessoas não têm outra opção senão delegar as decisões sobre sua
vida cotidiana aos técnicos de estado, já que só estes possuem o conhecimento especializado
necessário para tomar as decisões políticas.

Estes dados parecem confirmar, portanto, o perfil revelado em parte com os dados
sobre a carreira política. O fato dos membros dessa elite serem altamente escolarizados, de
muitos deles possuírem formação em áreas técnicas e da maioria deles responder
negativamente a necessidade de aumento da participação popular na política; indica que existe
de fato uma base real para o discurso desse governo.

Conclusões
A partir das informações apresentadas neste artigo, do ponto de vista sociológico, o
mais significativo aqui é que o fato desses indivíduos passarem majoritariamente por cargos
administrativos e técnico-políticos durante suas carreiras políticas dá, em certa medida, uma
base real para a propaganda/ideologia da gestão Jaime Lerner, reforçando junto ao público sua
imagem. Como ideologia é ilusão (sobre o real) e, ao mesmo tempo, alusão (a elementos do
real), nenhuma publicidade política poderia encontrar repercussão social (que se traduz em
crença e depois em apoio, que juntos conferem “legitimidade”) baseada apenas na invenção
de atributos ou na exibição de qualidades imaginárias. Explicamos.
O elemento principal para conquistar apoios, votos e cargos para o grupo que se reuniu
em torno do governador do estado foi desde sempre a ideologia da superioridade da técnica
sobre a política, auto-ilusão que orientou e justificou suas ações. Conduta politicamente
neutra e administrativamente eficaz, fundada na competência e num saber especializado: esse
é o dado primordial do qual se deve partir quando se pensa nos predicados que garantiram a

8
Tendo em vista que a democracia sempre implica em alguma forma de participação dos cidadãos, nessa
questão os entrevistados deveriam indicar quais dos procedimentos de participação apresentados eles consideram

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legitimidade e o sucesso político dessa confraria. Centradas na imagem pessoal de Jaime
Lerner (“arquiteto, urbanista, planejador” etc.), suas campanhas eleitorais jamais destacaram
sua filiação partidária, seus alinhamentos políticos ou deram ênfase à dimensão ideológica da
agremiação a qual era filiado (“socialista”, depois “liberal”, por mais esdrúxulo que possa
parecer). Bem ao contrário, a publicidade em torno da sua figura pública procurou ressaltar
suas habilidades de especialista, suas idéias inovadoras e sua competência específica enquanto
profissional, e não como um “político” comum, reprovação aliás reservada a seus adversários.
A reafirmação do caráter técnico da atuação política de Jaime Lerner e de sua equipe foi,
portanto, a base da validade desse governo. Mas ela não poderia sustentar-se num vazio
social.
O deslocamento dos interesses de grupo pela administração das coisas, operação
ideológica que consistiu em exibir a segunda, tomada sempre em sentido apologético,
disfarçando a presença dos primeiros, entendidos sempre em sentido pejorativo, encontrou
tanto na origem social e no perfil profissional, quanto no percurso político “apolítico” da
maior parte dos integrantes da elite estatal um plano fértil para progredir. O preenchimento de
cargos político-administrativos por indivíduos com poucas conexões políticas, exceto a
ligação com o (ou a dependência direta do) governador, sem inserção no sistema político ou
nas máquinas partidárias tradicionais do estado, altamente escolarizados, em geral
funcionários públicos de carreira, mas também profissionais liberais, pôde dar origem a um
discurso mistificador, mas bastante eficaz. Sua função foi basicamente encobrir o fato de que
havia, essencialmente, um grupo de “técnicos” (ou melhor: de políticos com formação
técnica) que tomavam decisões políticas em nome da aparência de um grupo de “técnicos”
que tomavam decisões técnicas. A reiteração desse procedimento, mesmo quando operado só
no nível do discurso (simbólico, portanto, e talvez por isso mais eficaz), foi a negação prática
de que a escolha dos indivíduos que ocuparam cargos no governo envolveu interesses antes de
tudo políticos.

Referências
CARVALHO, José Murilo de. A construção da ordem: a elite política imperial; Teatro de
sombras: a política imperial. Rio de Janeiro: Editora UFRJ; Relume-Dumará, 1996.
GIDDENS, Anthony. Elites in the British Class Structure. In: STANWORTH, P &
GIDDENS, A.(eds.). Elites and Power in British Society. Cambridge: Cambridge University
Press, 1974.

necessários para o funcionamento do regime democrático.

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LOVE, Joseph. A locomotiva. São Paulo na federação brasileira. Rio de Janeiro: Paz e Terra,
1982.
PUTNAM, Robert D. The Comparative Study of Political Elites. New Jersey: Printice-Hall,
1976.
WRIGHT MILLS, Charles. A elite do poder. 4ª ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1981.

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