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MEMÓRIAS AFETIVASi

FEHLBERG, Bhárbara

Projetada no segundo semestre de 2018, a fábrica de café da Estudante de Arquitetura e


Urbanismo Emanuelle Stephany de Oliveira Lages do Instituto federal do Espírito Santo-Campus
Colatina, para a disciplina Projeto Arquitetônico III foi um dos primeiros projetos de grande porte
realizado pela mesma. O terreno localiza-se no Instituto Federal do Espírito Santo- Campus Itapina,
na região de Colatina, noroeste do estado do Espírito Santo, sendo uma área que conserva
tradições e movimentada pelo turismo. Imprescindível ressaltar Itapina como uma potencial área
para o então projeto de Emanuelle, visto que:
“O vilarejo histórico, do final do século XIX, já foi um dos mais importantes produtores de
café. Experimentou o auge e a decadência da produção e hoje preserva um conjunto
histórico e arquitetônico com edificações construídas em estilos colonial brasileiro e art décor
(ES BRASIL, 2017, pág. 1).”
Figura 01: Casarões, Itapina.

Fonte: TERRA CAPIXABA, 2013.

Emanuelle precisava travar um intenso diálogo com o lugar e os usuários. Influenciada pelo
programa, bem como o terreno escolhido dentre as opções que se encontra inserido no Instituto,
próximo a sua entrada, tornando-o bastante visível ao fluxo intenso da Rodovia BR-259 e
imperceptível aos olhos de quem ali frequenta. Lages fundamentou-se no termo integração, que
funcionou como um partido, a essência da obra se baseia em sua capacidade de combinar o
funcional e o sensível. O terreno, apesar de ser plano, se encontra abaixo do nível da estrada
principal de entrada, assim, foi necessário pensar em soluções práticas que, nesse caso, foi feita
através de rampas que conduzem a vencer o generoso desnível frontal. Fato que levou-a tomar
decisões que destacassem a edificação no nível da estrada, por meio de dois blocos empilhados
que traduzem a grandeza e impacto que a estudante desejava, usando da rampa na fachada como
elemento convidativo para adentrar a fábrica, implantada de forma vertical, objetiva, de fácil
acesso através da fachada principal que encontra-se voltada, por inteira, para a Instituição, o que
não é um ponto negativo, porém perde a oportunidade de atrair a atenção do viajante que está
passando pela rodovia, pois tirando a fachada principal, o que sobra é um grande maciço.Ainda a
respeito da implantação, uma parcela considerável do terreno é permeável, palco para
possibilidades que agregariam e enriqueceriam o “cerne” projetual, bem como o caminho que
envolve a edificação.
Figura 02: Modelagem da Fábrica de Café, Itapina.

Fonte: AUTORA, 2018.

Para Velloso (2007, pág.1), na pedagogia de Walter Gropius, se tratando da Nova Objetividade, em
que a produção da forma arquitetônica parte da adoção de método tal “que permita tratar um
problema de acordo com suas condições peculiares” nos ensina a lidar com a objetividade a partir
de um método racional, que permita localizar os problemas que a existência coloca
continuadamente e, ao mesmo tempo, encontrar a forma que os possa resolver. A fábrica se insere
no contexto de resoluções de problemas, é clara e objetivamente expressa por meio de sua forma
e volume. Segundo Owen Hopkins (2009, pág. 159), a retilinearidade é o arranjo de linhas retas e
planos e definia a arquitetura da Nova Objetividade tanto na forma quanto na planta, vista como
inerentemente econômica e racional. Tal racionalidade relaciona-se com a simplicidade das formas
e das opções construtivas de Emanuelle, natural da cidade de Comercinho, Minas Gerais, onde a
simplicidade e o tradicionalismo são marcantes e podem, consciente ou inconscientemente,
traduzir memórias de Lages como explica o arquiteto Guto Requena (2015, TEDxBlumenau), ao
dizer que arquitetura e design não dizem respeito apenas à matéria, ao mundo físico, remete-se a
ideia de esculpir memórias. Adjacentes as complexidades tecnológicas existentes e as
condicionantes para o novo e o moderno, a opção de preservar as técnicas construtivas traduz a
preocupação com o local, a cultura e quem ali frequenta e passará a deparar-se e usufruir do
“novo” como, por exemplo, os alunos que vivenciarão uma nova sala de aula, dentro da fábrica.
Dentro desse viés, a preocupação local expressa-se na arquitetura Regionalista que se caracteriza
por levar em consideração aspectos como clima, identidade, tipologias locais e pureza.
“Para Frampton, o regionalismo crítico é o modo de pensar arquitetura como forma de
valorizar os aspectos locais de uma determinada cultura, estabelecendo uma atitude de
resistência perante o fenômeno da universalização cultural, a partir da relevância do
contexto e de seus respectivos valores regionais (TEORIA E CRÍTICA ÁLVARO SIZA, 2009, pág.
1)”.

Um aspecto importante a destacar é como foi consideravelmente resolvido a questão do clima,


crucial na região devido à grande insolação e períodos de chuva, ao projetar com telhado
embutido e beirais e como a alvenaria convencional torna a edificação mais saudável.
Figura 03: Modelagem da Fábrica de Café, Itapina.

Fonte: AUTORA, 2018.

Volumetricamente a edificação é bem simples, dois grandes blocos maciços e uma fachada em
balanço. Optou-se pelo acesso superior através de uma rampa extensa, fugindo do óbvio e fazendo
com que o usuário antes de entrar de fato na edificação possa experienciar a fachada e o entorno.
É difícil fugir do caráter funcionalista, afinal se trata de uma fábrica, a forma, em determinados
pontos, acaba cedendo a função, entretanto mesmo com volumes tão sólidos Emanuelle
conseguiu fugir da fachada monótona colocando um elemento diagonal, e assumido a rampa
como ferramenta empoderadora de sua obra. Nesse projeto a construção se eleva ao lado de um
lago e próxima a entrada do IFES tendo importante destaque em seu entorno, possuindo
semelhanças características escultóricas, afinal, o estilo tradicional das obras do entorno se
contrasta com as formas cúbicas da edificação. Apesar da funcionalidade de uma fábrica ainda
podemos ver que Emanuelle, mesmo que de maneira tímida, adicionou elementos tradicionais,
como a pedra na fachada, feito muitas vezes pelo arquiteto finlandês Alvar Aalto (1898-1976) que
explorava técnicas de construção tradicional finlandesa e as incorporava às suas obras
pertencentes ao movimento moderno (LIMA, 2017), o que era inconcebível pelos arquitetos
modernistas, já mostrando algum tipo de mudança nos seus pensamentos. Talvez Lages esteja
mais para um regionalismo crítico ao fazer menos modificações possíveis no terreno, respeitando
sua topografia natural, diante disso seu projeto foi elevado para mais um andar, que possui um
objetivo concreto, proporcionar a visão aérea da produção fabril por alunos, visitantes e
trabalhadores da fábrica, contribuindo para seu melhor entendimento, melhorando as condições
de trabalho e supervisionamento. Os fluxos são definidos e funcionais dando boa vazão ao seu
produto, as instalações foram pensadas, mas a sensação é que tudo surgiu como resposta a esse
fluxo. A indagação que permeia o projeto seria a de Emanuelle ter se rendido, no âmbito formal,
meramente a arquitetura funcionalista, compreendida através dos escritos do arquiteto Louis
Sullivan:
“Seja a águia arrebatadora em seu vôo, ou a flor de maçã aberta, o trabalho-cavalo
trabalhador, o cisne alegre, o carvalho ramificado, a corrente sinuosa em sua base, as
nuvens à deriva, sobre todo o sol correndo, formam sempre segue a função, e esta é a lei,
onde a função não muda, a forma não muda, as pedras de granito, as colinas, permanecem
por séculos, o raio vive, entra em forma e morre, num piscar de olhos. É a lei perene de todas
as coisas orgânicas e inorgânicas, de todas as coisas físicas e metafísicas, de todas as coisas
humanas e todas as coisas sobre-humanas, de todas as manifestações verdadeiras da
cabeça, do coração, da alma, que a vida é reconhecível. sua expressão, essa forma sempre
segue a função. Esta é a lei (LOUIS SULLIVAN, 1896, pág. 408)”.
Referências
BARATTO, Romullo. TEDx com Guto Requena: Esculpindo memórias afetivas. Brasil: Archdaily,
2015. Disponível em: <https://www.archdaily.com.br/br/762696/tedx-com-guto-requena-
esculpindo-memorias-afetivas> Acesso em: 09 dez. 2017.
ES, Brasil. Itapina: Bucolismo, história e belezas. Espírito Santo: Next Editorial, 2017. Disponível
em: <http://esbrasil.com.br/itapina-bucolismo-historia-e-belezas/> Acesso em: 09 dez. 2017.
FRAMPTON, Kenneth. História crítica da arquitetura moderna. São Paulo: Martins Fontes, 1997.
GROPIUS, Walter. Bauhaus: Novarquitetura. São Paulo, Perspectiva, 1972, p. 25.
HOPKINS, Owen. Arquitetura: Guia visual de estilos arquitetônicos ocidentais do período clássico
até o século XXI. Brasil: Publifolha, 2009, p. 159.
LIMA, Maíra de L. Modernismo: Novo Clássico?. São Paulo: Romano Guerra Editora, 2017.
Disponível em: <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/resenhasonline/17.185/6520> Acesso
em: 10 dez. 2017.
OWEN, Hall. Lippincott’s Magazine. Londres: J. B. Lippincott Company, 1896, p. 408.
SIZA, Álvaro. Lugar | regionalismo crítico | contextualismo. 2009. Disponível em:
<http://teoriaecriticaalvarosiza.blogspot.com/2009/10/lugar-regionalismo-critico_15.html> Acesso
em: 10 dez. 2017.
VELLOSO, Rita de C. L. O fracasso da utilidade: Notas sobre o funcionalismo na arquitetura
moderna. São Paulo: Romano Guerra Editora, 2007. Disponível em:
<http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/08.089/201> Acesso em: 09 dez. 2017.

iTrabalho apresentado à disciplina de Teoria e História da Arquitetura III.


Curso de Arquitetura e Urbanismo.
IFES – Colatina.
Professora: Aline Vargas da Silveira.
Período: 2018/2.