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Universidade Federal da Fronteira Sul

Bolsista: Isabel Schapuis Wendling


Fichamento:
CUNHA, M. T. S. Do Coração à Caneta: Cartas e diários pessoais nas teias do vivido
(Décadas de 60 e 70 do século XX). História: Questões & Debates, v. jul./dez., n. 59,
p. 115–142, 2013
- “Cartas e diários pessoais sã documentos que carregam traços ritualísticos,
consagrando-se como artefatos culturais quanto como documentos[...] Materializados
em papel e tinta, eles eternizam, em folhas amarelecidas pela passagem do tempo,
ideias, saberes, valores, acontecimentos e dizeres.” (p.116)
Das cartas e seus fragmentos
- As cartas eram capazes de manter amizades distantes, capazes de unir através de
historias banais aqueles que foram separados pela distância.
- As cartas cotidianas, chamadas de cartas ordinárias, ou escritos sem qualidade, são
capazes de trazer práticas sociais, e culturais, demonstradas a partir das aventuras
individuais.
- “A carta, como uma prática de escrita, partilha da constituição de um regime de
sensibilidades/sociabilidades, ou seja, fala tanto de quem a escreve como revela sempre
algo sobre quem a recebe, anunciando a intensidade do relacionamento entre os
envolvidos” (p.119)
- “A troca de intimidades e sentimentos permite pensar sobre um pacto epistolar,
considerado como “uma espécie de contrato assinado de modo tácito por aqueles que se
correspondem” (LYONS, 1999, P.66)” (P.120)
- “Como objetos matérias, recheados de práticas culturais de uma época, as cartas
trazem marcas da modelização de práticas de escritas escolares” (p.120)
- As cartas traziam um cerimonial – chamado gramática social da escrita privada – onde
a exemplo das cartas analisadas pela autora, “iniciavam-se, sempre pela localização
espaço-temporal, prosseguiam com um vocativo carinhoso, em geral no diminutivo, e
finalizavam-se com palavras saudosas que recordavam a distância e a ausência e que, ao
mesmo tempo, anunciavam o prosseguimento do assunto para o dia seguinte.” (p.121)
Um tempo nas cartas de C. e L.
- A autora nota como as correspondentes não tratavam sobre o período que se
encontrava o Brasil naquele momento, vivia-se em um regime de exceção. Podendo
então ser por conta de uma desinformação política, e despolitização da vida pessoal, ou
mesmo que tais fatos não teriam importância suficientes para o seu cotidiano.
Notícias do cotidiano escolar nas cartas
- Sendo as correspondentes, uma professora, e outra estudante do magistério, elas
tratavam muito da vida escolar, principalmente a professora, que tentavam vender a bela
profissão de professora a estudante.
- “O espaço privado da escrita cria condições para um certo desnudamento, para uma
certa exteriorização dos sentimentos imanentes à prática escolar” (p.125)
- “As cartas vão se constituir em pequenos lugares onde se quebra o silencio sobre o
imaginário de enobrecimento que cerca a figura da professora” (p.126)
- “Por meio destas práticas de escrita epistolar é possível perceber uma preocupação que
transcende o conteúdo que se quer transmitir, visto haver uma preocupação com a forma
como a correspondência chega a seu destinatário.” (p.128)
- “Cartas como escrituras ordinárias mostram em traços firmes e/ou inseguros uma
relação pessoal com o universo da escrita, por meio delas “abre-se a possibilidade de
(re)conhecer outras maneiras de viver e de narrar o vivido. Com eles, enfim,
‘devolvemos’ uma certa visibilidade a muitos protagonistas anônimos do acontecer
coletivo” (CASTILLO GÓMEZ, 2000, p. 11.)” (p.129)
- “Não só o conteúdo do que estava ‘indo’ e ‘vindo’ pelos correios, mas o ‘onde’ e o
‘como’ elas estavam sendo produzidas” é o que teriam importância para a pesquisa do
arquivo epistolar. (p. 129)
De diários pessoais e seus fragmentos
- Os diários: “Praticados na intimidade, relatando fatos e situações em sua aparente
insignificância com riqueza de detalhes, se constituem tanto em refúgios do eu como em
repositórios de lembranças” (p.130)
- “Um diário não existe fora da gravitação que impõe o fluir do tempo” (p.130)
- “O diário pode ser um dos recursos mais importantes para a expressão, o cultivo e a
auscultação do íntimo, onde se pode guardar e velar aquilo que constitui uma das
facetas para a construção de teias de sensibilidades pela descrição da própria
intimidade” (p. 131)
Nos diários, sensibilidades múltiplas
- “Nesse gênero narrativo, embora a ênfase recaia sobre o universo das experiências
privadas, é possível encontrar aspectos do mundo público que permitem mostrar, ao
mesmo tempo, a importância do sujeito individual aumentada à custa do coletivo.” (p.
133)
- Nesse momento a autora mostra como o diário era escrito principalmente por datas
religiosas, de comemorações ou retiros, demonstrando a fé daquela que narrou.
- Assim, “o prosseguimento das anotações ao longo desse ano de 1968 vai evidenciar
outras formas de compreender como as pessoas comuns vivenciavam acontecimentos
marcantes, como sujeitos singulares registravam um entendimento do tempo histórico a
partir de experiências pessoais.” (p.136)
Acabamentos provisórios...
- “Diários e cartas são locus de subjetivação e estes processos de subjetivação são
históricos, plurais e polifônicos. Eles ressignificam e até regulam desejos, afetos,
sensibilidades.” (p.139)
- “Documentos dessa espécie apontam para outras estratégias de visibilidade de uma
época e permitem observar que, enquanto arquivos públicos calavam, os documentos
privados, agora publicizados, podem fornecem informações e indícios sobre o cotidiano,
formas de ver o mundo através de fatos comuns da experiências humana, hábitos,
costumes.” (p.139)

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