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SINDICATO DOS PROFESSORES DO ESTADO DE MINAS GERAIS

www.sinpromg.org.br - abril de 2007 - Número 01

“Mulher é
desdobrável”
Adélia Prado
[ Conteúdo ]

Mês da mulher Sala de aula


Homenagens e protestos Ambiente escolar reproduz as
marcaram o Dia Internacional relações de gênero da sociedade
da Mulher página 23
página 5

Mulheres na política Parto humanizado


Cientes dos desafios, elas querem Tema traz à luz reflexões sobre o
ocupar os espaços formais de de- impacto das transformações tec-
cisão nológicas e das relações humanas
página 8 sobre um dos momentos mais mar-
cantes na vida das mulheres
página 25
Movimentos sociais
Agenda das mulheres ganha visibili-
dade no 7º Fórum Social Mundial Violência de gênero
página 10 Duplo medo: falta de segurança
dentro e fora de casa
página 29
Mercado de trabalho
Cresce a presença das mulheres na
economia, mas as desigualdades
permanecem
página 11

Assédio moral
Discriminação torna as mulheres
alvos preferenciais dos assedi-
adores. Combate ao assédio moral
pode ser feito com a inclusão de Beleza Negra
cláusulas nos acordos coletivos.
Livro mostra a relação das mulheres
página 16 negras com o corpo e o cabelo e o
caráter simbólico dessa dupla para a
afirmação da identidade negra
página 32

Nutrição
Grande número de jovens com
transtornos alimentares preocupa..
A escola pode contribuir para a
mudança de hábitos?
página 33

Educação
Mulheres são maioria Seções
na sala de aula Arte página 36
página 21 Agenda página 37
Retrato página 38

ELAS POR ELAS - ABRIL DE 2007 3


[ Expediente ]

Publicação especial do Departamento de Comunicação do Sindicato dos


Professores do Estado de Minas Gerais (Sinpro Minas)

Diretores responsáveis: Aerton de Paulo Silva, Carla Fenícia, Lavínia Rosa


Rodrigues, Marilda Silva e Míriam dos Santos
Conselho Editorial: Carla Fenícia, Lavínia Rosa, Marilda Silva e Clarice Linhares
Editora/jornalista responsável: Débora Junqueira (MG 05150JP)
Redação: Débora Junqueira / Denilson Cajazeiro (MG 09943JP)
Programação visual e diagramação: Mark Florest
Foto capa: Helô Espada
Em defesa da
Revisão: Aerton de Paulo Silva
Tiragem: 1.000 exemplares
Impressão: Rona Editora
Distribuição gratuita: Circulação dirigida
igualdade de gênero
E-mail: Diretoria: sinpromg@sinpromg.org.br
Departamento de Comunicação: comunicacao@sinpromg.org.br Na efervescência de idéias da diretoria do Sinpro
Minas durante o seminário de planejamento, realizado em
janeiro de 2007, surgiu a proposta de produzir uma revista
dedicada às mulheres, com reportagens sobre temas da
atualidade nas áreas da política, economia, movimentos
SINDICATO DOS PROFESSORES DO ESTADO DE MINAS GERAIS sociais, saúde, educação e cultura, sob a ótica de gênero.
SEDE: Rua Jaime Gomes, 198 - Floresta - CEP: 31015.240 - Fone: (31) 3465 3000
Fax: (31) 3465 3008 - Belo Horizonte - www.sinpromg.org.br Entre um intervalo e outro, sugestões de pautas sur-
giram de forma entusiasmada e a idéia de uma revista de
variedades, que contribuísse para o debate sobre a pro-
SEDES REGIONAIS:
moção da igualdade de gêneros, ganhava forma, sendo
Barbacena: Av. Bias Fortes, 694 - sala 102 - Centro - CEP: 36200000 - Fone: (32) 3331 0635 -
aprovada dentro do planejamento proposto pelo Grupo de
barbacena@sinpromg.org.br. Divinópolis: Av. Getúlio Vargas, 127 - Casa 2 - Centro - CEP: Trabalho da Educação.
35500-024 - Fone: (37) 3221 8488 - divinopolis@sinpromg.org.br. Coronel Fabriciano: Rua
José Cornélio, 134 - Sala 203 - Centro - CEP: 35170000 - Fone: (31) 3841.2098 - coronelfabri- Fala-se muito das questões que envolvem o universo
ciano@sinpromg.org.br. Governador Valadares: Av. Brasil 2.507 - Centro - CEP: 35020070 - feminino apenas no Dia Internacional da Mulher, mas não
Fone: (33) 3271 2458 - governadorvaladares@sinpromg.org.br. Montes Claros - Rua Januária,
672 - Centro - CEP: 39400077 - Fone: (38) 3221 3973 - montesclaros@sinpromg.org.br. Poços de se enfatiza o Dia Nacional da Mulher, o Dia Internacional
Caldas - Rua Rio de Janeiro, 314 - sala 304 - CEP: 37701011 - Fone: (35) 3721 6204 - pocosde- da Mulher Negra, entre outras datas importantes rela-
caldas@sinpromg.org.br. Ponte Nova: Av. Dr. Otávio Soares, 41 - sala 406 - Palmeiras - CEP:
35430229 - Fone: 3817 2721 - pontenova@sinpromg.org.br. Pouso Alegre - Rua João Basilio, cionadas às questões de gênero ao longo do ano. Por isso,
272 - Centro - CEP: 37550000 - Fone: (35) 3423 3289 - pousoalegre@sinpromg.org.br. Uberaba:
Av. Doutor Fidélis Reis, 557 - Piso C - sala 13 - Centro - CEP: 38010030 - Fone: (34) 3332 7494 -
nossa publicação não se restringe ao 8 de março, afinal,
uberaba@sinpromg.org.br. Uberlândia - Av. Cesário Alvim, 987 - Centro - CEP: 38400694 - Fone: todos os dias pertencem às mulheres. Como dizem por aí,
(34) 3214 3566 - uberlandia@sinpromg.org.br. Varginha: Av. Cel. José Alves, 361 - sala 202 - Vila
Pinto - CEP: 37010540 Fone: (35) 3221 1831 - varginha@sinpromg.org.br. quem tem dia é minoria, e nós, mulheres, somos muitas
e desdobráveis.
Denominada de Elas por Elas, a revista traz reporta-
Diretoria
gens sobre a presença marcante das mulheres no Fórum
DIRETORIA: Gestão 2006/2009 Social Mundial, a questão de gênero na sala de aula, nu-
Presidente: Gilson Luiz Reis, 1º Vice–Presidente: Bruno Burgarelli Albergaria Kneipp, 2º Vice–
trição, parto humanizado, mercado de trabalho, além de
Presidente: Marco Eliel Santos de Carvalho, Tesoureira Geral: Lavínia Rosa Rodrigues, 1º abordar os principais problemas que afetam as mulheres
Tesoureiro: Luiz Augusto Pinto, Secretária Geral: Marilda Silva, 1º Secretário: Dimas Enéas
Soares Ferreira, Conselho Fiscal: Terezinha Lúcia de Avelar, Maria das Graças de Oliveira, Se- como a violência de gênero e o assédio moral no trabalho.
bastião Geraldo de Araújo, Suplentes do Conselho Fiscal: Valdir Zeferino Ferreira Júnior, Os assuntos tratados nesta publicação mostram que,
Valéria Chiode Perpétuo, Rui da Silva Sales.
Diretoria: Adelmo Rodrigues de Oliveira, Aerton de Paulo Silva, Ailton de Soza Santos, Albanito mesmo com todos os avanços em suas lutas, as mulheres
Vaz Júnior, Alex Jordane de Oliveira, Altamir Fernandes de Sousa, Alzira dos Reis Silva, Ana Paola
de Morais Amorim Valente, Andrea Luiza Drumond das Chagas, Angelamaria S. Burgarelli A.
continuam a ter muitos desafios pela frente. Ainda é
Kneipp, Anivaldo Matias de Sousa, Antônio de Pádua Ubirajara e Silva, Aristides Ribas de An- grande a distância entre os anseios das mulheres por
drade Filho, Benedito do Carmo Batista, Cândido Antônio de Souza Filho, Carla Fenícia de Oliveira,
Carlos Afonso de Faria Lopes, Carmem Cristina Rodrigues Schffer, Cássia Beatriz Batista e Silva, igualdade de oportunidades e a superação da discrimi-
Cecília Maria Vieira Abrahão, Celina Alves Padilha Arêas, Clédio Matos de Carvalho, Clóvis Alves nação de gênero.
Caldas Filho, Débora Goulart de Carvalho, Décio Braga de Souza, Edimar Balbino de Aquino Póvoa,
Edson de Oliveira Lima, Edson de Paula Lima, Edward Neves Monteiro de B. Guimarães, Eliane de Dessa forma, o Sinpro Minas contribui com o
Andrade, Elizabeth Avelar Nunes, Elizabeth Barbosa, Elizabeth do Nascimento Mateus, Elmindo de processo de discussão sobre a igualdade de gênero, fo-
Rezende, Eni de Faria Sena, Eudson Carlos Souza Magalhães, Eustáquio Vieira da Silva, Evan-
gelina Sena Fulgêncio Jardim, Fábio Alex Lopes de Almeida, Fabio dos Santos Pereira, Fátima mentando o debate acerca de temas que afetam não só o
Amaral Ramalho, Flávio Correa de Andrade, George Rafael Lima Souza Maia, Gilberto Alves da
Cunha, Heleno Célio Soares, Humberto de Castro Passarelli, Iara Prestes Stoessel, Jandira Apare-
cotidiano das mulheres, mas da sociedade como um todo.
cida Alves de Rezende, Jones Righi de Campos, José Alves Pereira, José Armando Borges, José A intenção do Sinpro Minas é que as opiniões e in-
Carlos Padilha Arêas, José Flávio Perpétuo, Josiana Pacheco Silva Martins, Juliana Maria Almeida
do Carmo, Júnia Aparecida Rios Barcelos, Liliani Salum Alves Moreira, Luiz Antônio da Silva, Mar- formações contidas nesta publicação sejam úteis para am-
cos Paulo da Silva, Marcos Vinicius Araújo, Maria Cézar Ferreira Barbosa, Maria da Conceição pliar a conscientização sobre a urgência em promover
Miranda, Maria da Glória Moyle Dias, Maria de Lourdes Coelho, Maria Eliane Serafim de An-
drade, Maria Esperança Amat Dutra, Maria Helena Pereira Barbosa, Maria Irene Pereira Vale, desde mudanças culturais até políticas públicas, que re-
Maria Julieta Martins de Albuquerque, Mario César Mota II, Mark Alan Junho Song, Mateus Júlio presentem a emancipação feminina, assim como a for-
de Freitas, Matilde Agero Batista, Maurício Krieger Amorim, Miguel José de Souza, Miriam Fátima
dos Santos, Mozart Silvério Soares, Murilo Ferreira da Silva, Nacib Rachid Lauar, Nalbar Alves mação de uma sociedade que consiga inverter a lógica
Rocha, Nardeli da Conceição Silva, Natália Pereira Chagas, Nelson Luiz Ribeiro da Silva, Newton
Pereira de Souza (licenciado), Onofre Martins de Abreu, Osvaldo Sena Guimarães, Patrícia Pin-
capitalista, que coloca a mulher na condição de subal-
heiro de Souza, Paulo Augusto Malta Moreira, Paulo César Reis Cardoso de Mello, Pitágoras San- ternidade, e, com isso, amplia a opressão de gênero.
tana Fernandes, Regina Célia de Aquino Xavier, Renato Sérgio Pereira Pina, Rita Simone Oliveira
e Silva, Rodrigo Ferreira Queiroz, Rodrigo Salera Mesquita, Romário Lopes da Rocha, Rossana Ab-
biati Spacek, Rozana Maris Silva Faro, Sandra Lucia Magri, Sérgio Luiz da Costa, Valéria Peres Boa leitura!
Morato Gonçalves, Wagner Ribeiro, Welber Salvador Zóffoli, Zeuman de Oliveira e Silva.

Diretoria do Sinpro Minas

4 ELAS POR ELAS - ABRIL DE 2007


[ Mês da mulher ]

Poesia e protestos
Agência CUT

Denilson Cajazeiro
Brasil afora, elas protestaram contra Bush; em Belo Horizonte, Valdete Cordeiro e Gilse Cosensa receberam homenagens e o grupo Meninas de Sinhá entoou cantigas de roda

“Quando eu nasci um anjo esbelto, desses que Puc Minas e Valdete Cordeiro, fundadora do Grupo
tocam trombeta, anunciou: vai carregar bandeira. Meninas de Sinhá foram homenageadas com uma
Cargo muito pesado para mulher, esta espécie ainda placa pela contribuição à luta das mulheres. Para
envergonhada. Mulher é desdobrável”, declama a encerrar as comemorações do mês da mulher, as
atriz Tatiane Camargo, em cena do espetáculo Meninas de Sinhá, moradoras do bairro Alto Vera
teatral Orfandade. Elaborado a partir de poemas da Cruz, na região Leste de Belo Horizonte, entoaram
escritora mineira Adélia Prado, a peça retrata uma belas cantigas de roda.
mulher que nos convida a participar das lembranças
de suas histórias vividas na infância, na adolescência
e na maturidade. Manifestações
Da Cia Teatral Polivox, de São Paulo, o es- No Dia Internacional da Mulher, o Sinpro Minas
petáculo veio a Belo Horizonte a convite do Sindi- também participou das manifestações promovidas
cato dos Professores do Estado de Minas Gerais pelo movimento sindical contra a visita de George
(Sinpro Minas), do Sindicato dos Auxiliares em Bush ao Brasil. Milhares de pessoas saíram às ruas
Administração Escolar (Saae-MG) e da Federação de todo o país, pedindo um mundo sem violência e
Interestadual dos Trabalhadores em Estabeleci- com mais igualdade. Em São Paulo, 20 mil manifes-
mentos de Ensino (Fitee). Apresentada para pro- tantes lotaram a avenida Paulista. Na Praça Sete, em
fessores, auxiliares em administração escolar e Belo Horizonte, o Sinpro Minas distribuiu o adesivo
convidados, a peça ficou em cartaz entre 9 e 11 de “Bush, mulher não ama quem mata”.
março, em comemoração ao Dia Internacional da Com um tom monocórdico, Bush disse que veio
Mulher. ao Brasil para discutir questões de cooperação ener-
Na última apresentação, Gilse Cosensa, uma gética. Ousou dizer que o seu governo se preocupa
das coordenadoras do Movimento Tortura Nunca com as questões sociais na América Latina. A fala
Mais; Benilda Regina Paiva de Brito, professora da soou como piada.f

ELAS POR ELAS - ABRIL DE 2007 5


[ Mulheres na política ]

Elas querem o poder

Denilson Cajazeiro

Na última eleição, de um total de 2.498 candidatas, apenas 176 foram eleitas. Para o Congresso Nacional, quatro senadoras e 46 deputadas federais se elegeram.

No Fórum Social Mundial deste ano, realizado Políticas para as Mulheres, nada menos que 97 orga-
em Nairóbi, cidade africana com 3,4 milhões de ha- nizações não-governamentais brasileiras voltadas
bitantes, as mulheres estavam por toda a parte. Em para as mulheres estão cadastradas.
protestos, passeatas, fóruns e debates sobre o rumo Esse fenômeno, explica a socióloga Eline Jonas,
do planeta, não foi difícil perceber que na arena das reflete o grau de consciência das mulheres frente às
discussões políticas elas despontam como lide- repressões da sociedade patriarcal. “Estamos con-
ranças. quistando o direito de dar visibilidade às condições
Uma busca na internet da expressão “movi- em que vivemos, por meio desses canais. Isso vai
mentos feministas” nos dá uma certa dimensão contribuir para conscientizá-las de que essa situação
disso: cerca de 430 mil resultados em menos de um de opressão e desigualdade não é natural”, diz a so-
segundo. Somente no site da Secretaria Especial de cióloga, que também é coordenadora-geral da União

6 ELAS POR ELAS - ABRIL DE 2007


Brasileira de Mulheres (UBM) e participou do Entre os últimos da América Latina
Fórum de Nairóbi.
No Brasil, as atuais 45 parlamentares da Câ-
Mas, se por um lado não é difícil perceber que
mara dos Deputados correspondem a um baixo per-
elas estão à frente de lutas por moradia, creches,
centual de 8,77%. O número é bem distante da
pelo acesso à terra, por mais igualdade, também não
precisa ser especialista para constatar que as mu- participação delas na sociedade, atualmente de 51%
lheres estão longe de participar dos espaços formais da população, e coloca o país na 103º posição entre
de poder. os países pesquisados.
A coordenadora do Núcleo de Estudos e Pes- A pesquisa aponta ainda que, em nosso país, a
quisas sobre a Mulher (Nepem) da UFMG, Marlise presença de mulheres na Câmara dos Deputados é
Matos, tenta entender esse fenômeno. Ela pesquisa, a quarta mais baixa da América Latina. O Brasil
há um ano, a vida das parlamentares na Assembléia ficou à frente apenas do Haiti (4,1%), da Guatemala
Legislativa de Minas Gerais e na Câmara dos Depu- (8,2%) e da Colômbia (8,4%). As médias mais altas
tados. Com o título Um estudo sobre recrutamento são da Costa Rica (38,6%), de Cuba (36%) e da Ar-
político: trajetória, carreira e comportamento le- gentina (35%). Apesar de ter ficado atrás dos vizi-
gislativo de mulheres, a pesquisa de Marlise quer nhos, o Brasil foi elogiado, pois o número de
deputadas passou de 32 no fim da última legislatura,
em 2006, para as atuais 45 representantes, o que
“A história da representa um aumento de quase 30%.
mulher é a história Na análise de Marlise Matos, a falta de ambição
da exclusão do é um dos primeiros obstáculos que dificultam o
acesso das mulheres ao poder. Como assim? Signi-
público” fica que as mulheres não almejam o espaço político?
Boa parte delas não, conforme explica a pesquisa-
identificar as condições que levam à baixa parti- dora. “Muitos estudos indicam que elas não podem
cipação das mulheres nos espaços de poder. Se- almejar, pois historicamente foram relegadas ao es-
gundo a pesquisadora, uma série de fatores empurra paço privado. A história da mulher é a história da
as mulheres para fora da vida pública. É uma cor- exclusão do público. Elas sempre foram socialmente
rida de obstáculos. “Você tem um conjunto de ele- limitadas para exercer seu papel de gênero no es-
mentos que converge para produzir esse efeito paço doméstico”, diz.
perverso: mulheres fora dos espaços formais de de- Há todo um processo de construção sociocul-
cisão política. Esse fenômeno é mundial”, aponta a tural que vai dizer para as mulheres: não ambi-
coordenadora do Nepem.
cione a vida política, pois lá não é o seu lugar! “Não
De fato, a taxa mundial de participação das
que falte capacidade. O que falta são estímulos soci-
mulheres na política é mesmo baixa. Segundo um
ais para que elas desejem isso. Muitas das lideranças
levantamento feito pela União Interparlamentar
(IPU, sigla em Inglês) em 189 países, há uma média são cortadas já nesse processo precoce da socia-
de 17,1% parlamentares mulheres em Câmaras bai- lização, em casa, infelizmente, ou na escola. Se você
xas. A pesquisa comparou a presença das mulheres educa e socializa as mulheres para que elas não de-
em Câmaras baixas porque nem todos os Parlamen- sejem a política, vai haver um deficit mesmo. Há
tos possuem Câmaras altas, o que no Brasil equiva- uma revolução cultural a ser feita, que não se con-
le ao Senado. cretizou”, destaca a coordenadora.

ELAS POR ELAS - ABRIL DE 2007 7


[ Mulheres na política ]

Jogo perverso Fundo Partidário exclusivamente para as candida-


tas e o rigor na punição aos partidos que não cum-
Outro obstáculo que contribui para expulsar as
prirem as leis, como a do sistema de cotas.
mulheres dos espaços formais de decisão política
“Queremos igualdade nessa dimensão também.
são as regras do sistema político-partidário, organi-
Neste mundo, se não conseguimos o acesso ao
zadas, frisa Marlise, sob a forma patriarcal. “Basta
poder, estamos impossibilitando vários outros aces-
dizer que, até os anos 60, a Câmara não tinha ba-
sos”, esclarece Marlise.
nheiro feminino, e que a atual mesa diretora da Casa
não tem uma mulher. É um mundo absolutamente
forjado para tirá-las desse lugar. É assustador, e as
pessoas vão tomando isso como natural”. Participação na
Uma das medidas que alguns países têm ado-
tado para minimizar o problema é o sistema de vida partidária
cotas. O levantamento da União Interparlamentar
ressalta que o fator mais eloqüente para esclarecer No Brasil, 43% dos filiados a parti-
a diferença entre os países é o uso e a estruturação dos políticos são mulheres, de acordo
desse sistema. No Brasil, porém, tal proposta não com levantamento feito pelo Tribunal Supe-
tem funcionado. A legenda que não cumpre o per- rior Eleitoral (TSE), a partir das informações
centual previsto pelas cotas partidárias, de pelo repassadas pelas legendas.
menos 30%, não é punida, o que acaba por esvaziar
o sentido da lei. “Não há sanção para o partido que
não cumpre a lei, e aí eles não cumprem. Argumen- Dos 11.570.161 filiados a agremiações
tam que não acham candidatas para concorrer. É políticas no Brasil, prevalece a participação
claro, pois não querem nem procurar. Esse jogo masculina: 6.505.178 (56,22%) são homens
institucionalizado é muito perverso para as mulhe- e 5.039.006 (43,55%) são mulheres.
res”, argumenta Marlise.

O maior número de mulheres filia-


Mulheres no poder das está no Distrito Federal: dos 111.652
Cientes de tantos desafios, elas estão se orga- credenciados a legendas, 52,04% são do
nizando. A participação das mulheres nos espaços sexo feminino e 47,86 do masculino.
de poder será uma das principais discussões da II
Conferência Nacional de Políticas para as Mulheres,
em Brasília, entre 18 e 21 de agosto. “Não tem sido O Paraná, com 755.831 filiados a par-
boa a performance feminina no acesso ao poder. tidos, concentra, percentualmente, o maior
Temos que elaborar um conjunto de medidas para índice de filiados do sexo masculino:
que elas tenham condições de concorrer com os ho- 60,01% contra 39,76% de mulheres.
mens de igual para igual”, afirma Teresa Souza, se-
cretária-adjunta da Secretaria Especial de Políticas
para as Mulheres do governo federal. Em Minas Gerais, que tem 1.277.011
Da Conferência deverá sair um documento com eleitores filiados, 59,64% são homens e
propostas que tentem ampliar a presença feminina 40,13% são mulheres.
no poder. Discute-se a destinação de recursos do

8 ELAS POR ELAS - ABRIL DE 2007


Arquivo pessoal
Deputada defende Presença ainda pequena
Michelle Bachelet na presidência do Chile;
criação do PAC feminino Dilma Rousseff no Ministério da Casa Civil; Ellen
Gracie na presidência do Supremo Tribunal Federal
A deputada federal Jô Moraes (PCdoB-MG) é e Ségolène Royal como candidata à presidência da
recém-chegada ao ambiente excessivamente en- França são exemplos raros de mulheres que, de uma
gravatado da Câmara dos Deputados. Em seu pri- forma ou de outra, alcançaram patamares elevados
meiro mandato como deputada federal, a do poder.
parlamentar está propondo à bancada de mulheres Contudo, o número de mulheres nesses es-
a apresentação de um Programa de Aceleração do calões ainda é irrisório, se comparado à presença
Crescimento (PAC) Feminino. Trata-se de uma delas na sociedade e à participação masculina. O úl-
agenda com propostas de crescimento econômico timo pleito mostra essa dura realidade. De um total
e desenvolvimento social sob a perspectiva das mu- de 2.498 candidatas, apenas 176 foram eleitas: três
lheres. governadoras, quatro senadoras, 46 deputadas fe-
Um dos projetos é o que visa priorizar o de- derais e 123 deputadas estaduais. “Há um número
senvolvimento urbano e o saneamento de áreas ca- significativo de mulheres que se candidata em todos
rentes onde as mulheres sejam chefes de família. os pleitos, mas não se elege. Isso é um contra-
“Em qualquer programa de desenvolvimento, estímulo”, lamenta Marlise Matos.
temos que assegurar medidas que incluam as mu-

Agência Brasil
lheres”, defende a deputada. Outra proposta refe-
re-se à destinação de investimentos para os
municípios construírem creches, conforme pre-
visto no Fundeb.
Uma das principais reivindicações dos movi-
mentos feministas, as creches e pré-escolas são
fundamentais para facilitar a inserção da mulher
no mercado de trabalho e para o incremento da
renda familiar. Documento do Fundo de Desenvol-
vimento das Nações Unidas para a Mulher (Uni-
fem), com base em dados da Pesquisa Nacional por
Amostra de Domicílios (PNAD) de 2001, aponta
que nos domicílios nos quais as crianças tinham
acesso à creche ou pré-escola – cerca de 39% do
total –, a renda familiar per capita era 50% mais
elevada do que aqueles cujas crianças não freqüen-
tavam estabelecimentos de educação infantil.
Dilma Rousseff, ministra da Casa Civil, exemplo raro de mulher no poder

“Mulheres votam em mulheres? Evidente que não. Se votassem, não teríamos estes 10% de participação. São as
próprias mulheres que reproduzem os valores tradicionais de gênero. Muitas delas acham que ir para o espaço público
e tomar decisões não são papéis para as mulheres”
Marlise Matos, coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre a Mulher, da UFMG

ELAS POR ELAS - ABRIL DE 2007 9


[ Movimentos sociais]

Sinpro participa do Fórum de Nairóbi


A articulação das mulheres no 7º Fórum Social cia especial da ONU para as mulheres, nos moldes
Mundial, entre 20 e 25 de janeiro, em Nairóbi, no Quê- da Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infân-
nia, foi intensa. Durante os seis dias do encontro, elas cia). Segundo ativistas do Wedo, seria necessário um
não mediram esforços para ampliar a discussão em órgão à parte, com orçamento próprio de pelo
torno de importantes temas da agenda mundial. Entre menos US$ 500 milhões anuais para atender as de-
os temas discutidos estava a condição das mulheres. mandas relacionadas às questões de gênero.
Em alguns países, como na Somália, muitas vezes elas Lavínia Rosa, professora e diretora do Sinpro
ainda são submetidas a mutilações sexuais. No Sri Minas, e a consultora educacional Ana Maria Prestes
Lanka, muitas são forçadas à esterilização. A discri- integraram a delegação brasileira que participou do
minação contra as mulheres também foi bastante de- Fórum, o primeiro realizado no continente africano.
batida. Há países africanos que, em caso de viuvez, O evento contou com a presença de quase 50 mil
elas não podem herdar a terra. pessoas, militantes de movimentos sociais de todo
Na esteira das denúncias contra a discri- o mundo. Em 2008, não haverá um encontro centra-
minação, a ONG feminista Wedo se empenhou em lizado. Os movimentos sociais só voltam a se encon-
promover o debate acerca da criação de uma agên- trar num evento único em 2009.f

Ana Maria Prestes

“A nossa sociedade, mesmo com todos os esforços, não tem condições de proteger a mulher.
Daí a importância dos movimentos sociais, que constroem a legitimidade real na sociedade”
Eline Jonas – socióloga e presidente da União Brasileira de Mulheres (UBM)

10 ELAS POR ELAS - ABRIL DE 2007


[ Mercado de trabalho ]

Em desvantagem no mundo do capital


Cresce a participação feminina na população economicamente ativa. Porém, elas
ainda convivem com elevadas taxas de desemprego, desigualdades salariais e má
qualidade das condições de trabalho

Fábio Pozzebom/Abr
Trabalhadoras do Movimento Interestadual de Quebradeiras de Coco Babaçu do Maranhão, do Pará, do Piauí e de Tocantins, no Festival de Cultura Popular, em Brasília

O mercado de trabalho vem ganhando, há um mento é a mudança de valores ocorrida nas últimas
bom tempo, traços mais femininos. As pesquisas décadas. “A mulher tem buscado o seu crescimento
mostram que, nos últimos anos, a presença das mu- profissional. Isso está muito claro, sobretudo entre
lheres na economia cresceu bastante. Entre 1976 e as mais jovens”, avalia Magda Neves, que, há anos,
o início do século 21, a participação feminina na po- pesquisa temas relativos ao mercado de trabalho.
pulação economicamente ativa (PEA) saltou de De acordo com o estudo Salário Mínimo e as
29% para 43%, um acréscimo de 25 milhões de tra- Mulheres nos mercados de trabalho metropolita-
balhadoras em quase trinta anos. nos, feito pelo Departamento Intersindical de Es-
Fatores de toda ordem – cultural, político e so- tatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese), as
cioeconômico – são responsáveis por essa expansão. mulheres representavam 46,7% da PEA metropoli-
Para Magda de Almeida Neves, cientista política e tana em 2006, um total de 8,8 milhões de trabalha-
professora da pós-graduação em Ciências Sociais da doras. Elaborado a partir da Pesquisa de Emprego e
PUC Minas, um dos fatores que explica o cresci- Desemprego (PED), o estudo confrontou dados de

ELAS POR ELAS - ABRIL DE 2007 11


[ Mercado de trabalho ]

1999 e 2006 para avaliar as condições ocupacionais riais”, diz o economista Carlindo Rodrigues de Oli-
e de remuneração das mulheres nos primeiros anos veira, coordenador-técnico da pesquisa em Belo Ho-
desta década. rizonte.
Alguns graves problemas ainda persistem. No Várias lutas em diversas frentes de batalha
Distrito Federal e nas outras cinco regiões metro- estão sendo travadas para tentar inverter esse qua-
politanas pesquisadas (São Paulo, Belo Horizonte, dro. Além das inúmeras manifestações das mulhe-
Recife, Salvador e Porto Alegre), o rendimento res ao longo da história, por mais igualdade no
médio dos homens é maior que o das mulheres, em- mundo do capital, a redução das diferenças muitas
bora essa diferença tenha caído nos últimos anos. vezes é obtida graças aos esforços de sindicatos, que
Em Belo Horizonte, a cada hora trabalhada em incluem nos acordos trabalhistas cláusulas de re-
2006, a mulher recebia em média R$ 4,58 reais, en- lações de gênero no trabalho.
quanto o homem ganhava R$ 5,99 reais. Em São Em 2005, a professora Magda Neves elaborou a
Paulo, o trabalhador ganhava, por cada hora de tra- metodologia do plano de ação do Programa Pró-
balho, R$ 6,70 reais, e a trabalhadora recebia R$ Eqüidade de Gênero, do governo federal. As empre-
5,21 reais. sas que adotarem políticas igualitárias e cumprirem
Outro dado da pesquisa revela que em todas as as metas do programa recebem um selo. Em 2006,
cidades pesquisadas a taxa feminina de desemprego 11 instituições, públicas ou de capital misto, foram
supera a masculina. Na capital mineira, esse percen- premiadas. Em 2007, o programa será voltado a em-
tual era de 11% para os homens e de 16,9% para as presas públicas e privadas. A adesão é voluntária.
mulheres. “Os dados mostram a continuidade da en- “Do recrutamento às políticas de promoção de car-
trada da mulher no mercado de trabalho, mas em gos, temos que convencer as empresas a se compro-
condições inferiores à dos homens, tanto em termos meterem com as relações de gênero”, defende
da taxa de desemprego, quanto em questões sala- Magda.

Por todo o globo, a situação é a mesma


A permanência das desigualdades de gênero dutividade, recebendo salários menores do que os
tem contribuído para a “feminização” da pobreza em dos homens pelo mesmo trabalho. Entre as que tra-
todo o mundo. É o que mostra o relatório Tendên- balham, 47,9% estão em situação de emprego re-
cias Mundiais do Emprego para as Mulheres – munerado e assalariado, dado que representa uma
2007, da Organização Internacional do Trabalho melhora diante dos 42,9% de dez anos atrás.
(OIT). Segundo estimativas da OIT, em 2006 as Outro dado aponta que, em quase todas as
mulheres tinham mais chances de estar desempre- regiões e tipos de ocupação, elas recebem menos
gadas do que os homens. A taxa de desemprego para realizar a mesma função. Números disponíveis
feminina foi de 6,6%, superior à masculina, de 6,1%. sobre seis grupos ocupacionais mostraram que, na
De acordo com o levantamento, em 2006 exis- maioria das economias, as mulheres ainda ganham
tiam 2,9 bilhões de trabalhadores no mundo, sendo 90% ou menos do que os homens, mesmo em car-
1,2 bilhão de mulheres. O documento destaca que reiras tidas como tradicionalmente femininas, como
81,8 milhões de mulheres estão desempregadas em a enfermagem e a educação.
todo o mundo, ou exercem empregos de baixa pro- As conclusões do relatório revelam que as de-

12 ELAS POR ELAS - ABRIL DE 2007


sigualdades de gênero estão diminuindo, mas o
avanço é lento. “Os progressos mostrados indicam Gênero e etnia:
que é possível gerar trabalho decente e produtivo
para as mulheres. Mas isso significa que, além de
dupla discriminação
colocar o emprego como uma prioridade das políti- O ingresso da mulher negra no mercado de tra-
cas econômicas e sociais, será necessário reco- balho tem sido caracterizado por uma dupla dis-
nhecer que os desafios enfrentados pelas mulheres criminação. Segundo a Pesquisa de Emprego e
no mundo do trabalho requerem intervenções ade- Desemprego (PED) feita pelo Dieese, analisando o
quadas às suas necessidades específicas”, informa o biênio 2004-2005, em Belo Horizonte, a taxa de de-
documento. semprego entre as mulheres negras era de 23,3%,
enquanto a de mulheres não-negras era de 18,2% e
a de homens não-negros era de 13,1%.
A realidade no mundo A pesquisa mostra ainda que é significativa-
mente maior a presença das negras em situações
No relatório de 2004, a estimativa era vulneráveis de trabalho, isto é, empregos sem
de que as mulheres correspondiam a pelo carteira assinada e que não observam os direitos tra-
menos 60% dos trabalhadores pobres no balhistas. Em Salvador, Recife e São Paulo esse per-
mundo, que não ganhavam o suficiente para superar, centual ultrapassou os 50% das ocupações
com suas famílias, a linha da pobreza equivalente a um preenchidas por mulheres negras no biênio anali-
dólar diário por pessoa. O novo estudo diz que “não há sado. No Distrito Federal, 41,3% das mulheres ne-
razões para crer que esta situação tenha experimentado gras estavam ocupadas em empregos dessa
variações importantes”. natureza, enquanto o percentual de mulheres não-
negras era de 20,6%.
Em todas as regiões analisadas (Distrito Fede-
Na África Subsaariana e no Sudeste da ral, Salvador, Recife, Porto Alegre, Belo Horizonte e
Ásia, de cada dez mulheres trabalhadoras São Paulo), o rendimento por hora de trabalho da
quatro desempenham atividades familiares mulher negra não ultrapassa os 61,2% daquele re-
sem remuneração, em comparação com dois de cebido pelos homens não-negros.
cada dez homens. Na Ásia Meridional, seis de cada dez
Mark Florest

mulheres estão nessa situação, contra dois de cada dez


homens. No Oriente Médio e Norte da África, a proporção
de trabalhadoras familiares sem remuneração é de três
para cada dez mulheres e um em cada dez homens.

As diferenças na taxa de ocupação são


notórias no Oriente Médio e no Norte da
África, onde somente pouco mais de duas de cada dez
mulheres trabalham, em comparação com sete de cada
dez homens.

Fonte: Organização Internacional do Trabalho - OIT


Pesquisas apontam: mulher negra sofre dupla discriminação no mercado de trabalho

ELAS POR ELAS - ABRIL DE 2007 13


[ Mercado de trabalho ]

Mark Florest
Provedoras da renda familiar
Incomodada com os olhares sociais sobre a par-
ticipação da mulher na renda familiar, a economista
Izabel Marri buscou entender melhor o assunto. Ela-
borou então o artigo Esposas como principais pro-
vedoras de renda familiar, premiado no ano
passado em um concurso do governo federal e do
Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e
Tecnológico (CNPq).
A partir de dados do Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística (IBGE), referente ao ano de
2004, Marri traçou o perfil dos casais cujas esposas
são as principais provedoras, isso é, têm ganhos fi-
nanceiros superiores a 50% do rendimento do casal.
“Conhecer melhor o perfil desse tipo de trabalha-
dora é importante, porque subverte o sólido es-
tereótipo segundo o qual aos homens é reservado o
papel de responsável econômico-financeiro das
famílias, cabendo às mulheres, quando muito,
‘ajudá-los’ nessa tarefa”, argumenta a economista.
Segundo o estudo, em 2,2 milhões de famílias
os rendimentos femininos eram maiores que os mas-
culinos, o que representa 17% dos 12,8 milhões de
casais com duplo rendimento do trabalho. O curioso Izabel Marri: “provedoras do lar fazem a maior parte do trabalho doméstico”
é que, como a posição de chefe é definida pelos
próprios entrevistados com base em sua percepção
e não necessariamente por um critério econômico- tram que 95% das esposas provedoras gastavam, em
financeiro, em apenas 13% desse universo de 2,2 média, 21 horas semanais em tarefas domésticas.
milhões de casais a responsabilidade foi atribuída à Por sua vez, os maridos se dedicavam aos trabalhos
mulher. “Considerando que a noção de responsabi- da casa por aproximadamente 11 horas semanais,
lidade dificilmente está associada aos encargos do ou seja, a metade do tempo. “Estes dados corrobo-
trabalho doméstico, e que, pelo menos nesse caso, a ram os resultados das pesquisas internacionais que
responsabilidade não é tampouco financeira, resta mostram que as esposas, de um modo geral, fazem
apenas a justificativa cultural que relega à mulher o a maior parte do trabalho doméstico”.
papel secundário na hierarquia familiar, mesmo Segundo a economista, tem crescido em alguns
quando a ela cabem não só os cuidados com os fami- países a participação das mulheres como provedoras
liares e com a estrutura física da residência, mas da renda familiar. Nos Estados Unidos, entre as
também com a provisão financeira da família”, ana- famílias com duplo rendimento, a participação das
lisa Marri. mulheres que ganham mais que seus cônjuges pas-
Além disso, receber mais que os maridos não sou de 17,8% em 1987 para 25,2% em 2003. Entre
significa, necessariamente, que elas terão menos as famílias canadenses, o salto foi de 11% em 1967,
afazeres domésticos. Os números da pesquisa mos- para 25% em 1993.

14 ELAS POR ELAS - ABRIL DE 2007


O que diz a pesquisa da economista Izabel Marri
Quanto mais escolarizada for a esposa em re- Casais em que pelo menos um dos cônjuges
lação ao marido, maior a possibilidade de que ela seja a prove- se declara não branco, a probabilidade da esposa ser a prin-
dora financeira da família. cipal provedora é maior do que em casais nos quais os dois se
consideram brancos.
As esposas de famílias situadas nas regiões
do Norte, Nordeste e Sul do país possuem maior chance O rendimento mensal do trabalho da esposa
de serem as provedoras, comparativamente às esposas de provedora era 62% maior que de seu marido, ao passo que a
famílias situadas no Sudeste, região que concentra o maior di- renda do marido provedor era 163% maior que a renda de sua
namismo econômico do país. esposa. O rendimento do marido provedor era ainda 17% maior
que o da esposa provedora.

O artigo está disponível na página do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) - www.cnpq.br.

Escolaridade maior contribui para ingressar no mercado


O aumento da escolaridade é, sem sombra de por mulheres em 1990, passando para 40% em 2002.
dúvida, um forte fator que contribui para o ingresso No mesmo período, a participação passou de 11%
das mulheres no mercado de trabalho. Em 2002, 83 para 14% entre os engenheiros. Um crescimento pe-
em cada 100 mulheres com 15 anos ou mais de esco- queno, mas que segue a tendência das demais áreas.
laridade trabalhavam. Os números são resultados de Em todas as carreiras da área jurídica, as mulheres
estudos feitos pela Fundação Carlos Chagas, com passaram a representar, em 2002, mais de um terço
base em dados do Instituto Brasileiro de Geografia e da categoria profissional. “Quando me formei, em
Estatística (IBGE), do Ministério do Trabalho e Em- 2005, a metade da minha turma era de mulheres", diz
prego e do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas a engenheira civil Thais Braga Melgaço (foto). f
Educacionais Anísio Teixeira (INEP).
De acordo com os indicadores, as mulheres
Mark Florest

estão estudando mais que os homens. Em 2002, elas


representavam 58% de concluintes no ensino médio
e 63% no ensino superior. A pesquisa da Fundação
mostra também a entrada das mulheres em áreas
profissionais de prestígio tradicionalmente masculi-
nas. Além dos “guetos” femininos, como o magis-
tério e a enfermagem, tem crescido a presença delas
em carreiras como medicina, advocacia, arquitetura
e até mesmo engenharia, tradicionalmente domi-
nada pelos homens.
Segundo o estudo, essa poderia ser considerada
uma das faces do progresso alcançado pelas mulhe-
res. Entre os médicos, 31% da categoria era formada

ELAS POR ELAS - ABRIL DE 2007 15


[ Assédio moral ]

Mulheres são alvos preferenciais

De forma sutil, o assédio moral desestabiliza a vítima, afetando a saúde física e mental; no Brasil, ainda não existe uma legislação específica sobre o assunto

A discriminação de gênero no mundo do traba- 'pacto da tolerância e do silêncio' coletivo, enquanto


lho faz com que as mulheres sejam as principais víti- o assediado se fragiliza gradativamente.
mas de assédio moral. Fenômeno que se caracteriza As conseqüências são o aparecimento de sinto-
por situações de humilhações repetitivas e prolonga- mas de estresse, fadiga e outros efeitos maléficos
das durante a jornada de trabalho, freqüentes em re- sobre a saúde física e mental dos trabalhadores. O
lações hierárquicas autoritárias com o objetivo de quadro pode evoluir para a incapacidade laborativa,
desestabilizar emocionalmente as vítimas. desemprego ou mesmo a morte, constituindo um
No assédio moral, a vítima geralmente é afas- risco invisível, porém concreto, nas relações e
tada do grupo, sem explicações, sofre humilhações condições de trabalho.
e passa a ser hostilizada, ridicularizada, inferiori- Segundo o Núcleo de Promoção da Igualdade de
zada, culpabilizada e desacreditada diante dos pares Oportunidade e de Combate à Discriminação no Tra-
que, por medo, vergonha, competitividade e/ou indi- balho, ligado à Delegacia Regional do Trabalho de São
vidualismo, rompem os laços afetivos com a vítima. Paulo, das reclamações de assédio moral que chegam
Freqüentemente, reproduzem ações e atos do ao órgão, cerca de dois terços são feitas por mulhe-
agressor no ambiente de trabalho, instaurando o res. A incidência de acusações de assédio moral con-

16 ELAS POR ELAS - ABRIL DE 2007


Características do Perfil do agressor Exemplos de assédio moral
assédio Moral
• superior hierárquico (chefe, diretor, ge- • humilhações pelo empregador ou
• abuso de poder rente) do empregado; superior hierárquico que atingem
• manipulação perversa todos os empregados, com evi-
• colega; dente intenção de forçar o pedido
de demissão;
• superior agredido por subordinado, em
Perfil da vítima geral nos casos em que já existe um • estabelecimento de metas impos-
grupo formado na empresa e o supe- síveis de serem atingidas e a co-
rior vem de fora do grupo; brança constante por parte do
• trabalhadores com mais de 35 anos; empregador ou superior hierárqui-
• empregados que recebem salários co. Nesse ponto, é importante
muito altos, não aceitam o autorita- salientar que não há nenhum pro-
rismo e em geral têm mais competên- blema em estabelecer metas de
cia que o agressor; O que fazer ? produtividade e motivar os empre-
• pessoas que se dedicam à empresa, gados a atingi-las. O assédio surge
• verificar, em primeiro lugar, se o que quando as metas são irrealizáveis e
trabalhando até mais tarde sem re-
está ocorrendo é realmente assédio o superior cobra, humilhando o em-
clamar;
moral; pregado, ou pressionando-o cons-
• perfeccionistas e que não costumam
• reunir provas para a comprovação do tantemente;
faltar ao trabalho, nem doentes;
assédio para que o empregado possa • boicote por parte do superior ou
• trabalhadores que se sentem culpa-
ajuizar uma ação buscando inde- empregador, ou seja, menos traba-
dos facilmente;
nização por dano moral. Em geral, lho é transferido ou são cobradas
• pessoas que não têm mais resistên- estas provas são de testemunhas que atividades bem menos complexas
cia física para suportar as humi- presenciaram a situação. que as exercidas normalmente
lhações;
• denunciar o assédio aos recursos hu- pelo empregado;
• portadores de deficiência ou de pro-
manos, à Comissão Interna de Pre- • isolamento do assediado dos de-
blemas de saúde;
venção de Acidentes (CIPA) e ao mais colegas em conjunto com a ri-
• pessoas que têm religião ou Serviço Especializado em Segurança e dicularização ou menosprezo de
orientação sexual diferente da do Medicina do Trabalho (SESMT) da em- suas atividades profissionais;
agressor; presa, além de informar ao sindicato
• especialistas em determinadas ativi- profissional. • retirada do material de trabalho,
dades que têm as oportunidades li- impossibilitando o empregado de
• se não tiver sucesso com nenhum des- exercer suas atividades profissio-
mitadas;
tes órgãos, procure o Ministério do nais;
• homens em um grupo de mulheres e Trabalho e Emprego e solicitar uma
mulheres em um grupo de homens; fiscalização no local. Mas é impor- • ataques freqüentes em relação à
• mulheres grávidas ou com filhos pe- tante saber que neste procedimento, vida pessoal do empregado dentro
quenos. a identificação será necessária. do ambiente de trabalho;

Fonte: Monografia apresentada por Anelise Weyrich Baierle no curso de Especialização em Direito e Processo do Trabalho da CESUSC.
Endereço na internet: http://www.plantaotrabalhista.floripa.com.br/assediomoral.htm#carac

ELAS POR ELAS - ABRIL DE 2007 17


[ Assédio moral ]

tra empregadores, no estado de São Paulo, em 2005, bilizar a vítima.


aumentou 5,7% em relação ao ano anterior. Conforme descreve a advogada Anelise Wey-
Especialistas afirmam que as manifestações de as- rich Baierle, em sua monografia Assédio Moral:
sédio moral contra profissionais do sexo feminino não Aguente ou Desista. Será?, existe também o
são iguais às praticadas contra homens. Em relação às 'psicoterror' praticado apenas pelo fato de a vítima
trabalhadoras, são comuns piadas grosseiras, inti- ser mulher e como tal, acreditarem que ela não
midação, submissão e comentários sobre a aparência. tenha capacidade de ser mantida em qualquer cargo
No caso dos homens, a tática consiste em promover o de responsabilidade, especialmente em empresas
isolamento e fazer comentários sobre sua virilidade, ca- com tradição “masculina”. Informa a autora que
pacidade de trabalhar e de manter a família. "à mulher grávida também não resta melhor sorte.
Para a psicóloga e pesquisadora francesa, Detentora de estabilidade provisória desde a con-
Marie-France Hirigoyen, autora do livro O assédio cepção até cinco meses após o parto, é vítima cons-
moral: A violência perversa no cotidiano, o as- tante da coação moral, com o objetivo racional-
sédio moral não é mais do que uma evolução do as- mente estabelecido por parte do empregador de
sédio sexual. Em geral, o assédio sexual se fazer a gestante pedir demissão. Nessa mesma situ-
apresenta primeiro através de propostas por parte ação enquadram-se os empregados representantes
de um superior ou colega. Com a recusa, o agressor sindicais e acidentados no trabalho, também porta-
passa ao assédio moral, com o objetivo de desesta- dores de estabilidade”.

Sugestões de cláusulas
para o combate ao Direitos do/a trabalhador/a
assédio moral
Na hipótese do trabalhador/a ou testemunha do assé-
A empresa é responsável por condições de dio moral ser demitido, será anulada a demissão.
trabalho adequadas a todos os trabalhadores. O agressor deverá retratar-se por escrito, retirando as
Se o/a trabalhador/a for vítima de situações queixas contra o/a trabalhador/a.
constrangedoras, humilhantes e vexatórias no Se houver reincidência de práticas ofensivas e violência
exercício de sua função, por um superior hie- moral, sem que medidas preventivas tenham sido adotadas
rárquico, vindo a comprometer a saúde pelo empregador em relação à organização do trabalho e à
física/mental do mesmo, o assediador e a em- concepção do posto de trabalho, este deverá ser responsabi-
presa serão responsabilizados pela degradação lizado solidariamente.
deliberada das condições de trabalho. O custeio do tratamento do/a funcionário/a que adoece
Caberá ao empregador, à Comissão In- e foi vítima de acidente em função de assédio moral, até
terna de Prevenção de Acidentes (CIPA) e ao obtenção da alta, será responsabilidade da empresa.
Serviço Especializado em Segurança e Medi- Ficará assegurada a indenização da vítima por danos a
cina do Trabalho (SESMT) averiguar o abuso de sua dignidade, integridade e agravos à saúde física/mental, in-
poder nas relações de trabalho e tomar medi- dependentemente de querer continuar ou não na empresa.
das para coibir estas práticas, garantindo re- Considerar o conjunto de agravos à saúde em conse-
lações no trabalho em que predomine a qüência do assédio moral como doença do trabalho, exigindo
dignidade e o respeito pelo outro e a seus di- da empresa a notificação/Comunicação do Acidente de Tra-
reitos de cidadão.

18 ELAS POR ELAS - ABRIL DE 2007


Vítimas buscam indenizações na Justiça
O Assédio moral é um fenômeno reconhecido gações de nada valem ao Judiciário. A este interes-
pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), sam somente as provas, cuja coleta pode transfor-
mas no Brasil, apesar de alguns projetos em discussão mar-se em grande teste de paciência ao assediado.
e leis estaduais, ainda não existe legislação federal es- Tão logo a vítima perceba que está sendo asse-
pecífica sobre o tema, portanto a decisão acaba nas diada moralmente, deve reunir documentos escritos
mãos dos juízes. Para que se caracterize o assédio pelo assediador, como e-mails, cartas e bilhetes,
moral, é fundamental a intenção do assediador em além de laudos médicos, cartões de ponto, e quais-
atingir o empregado e a repetição desse ato. quer outros documentos que provem uma
O assédio moral dá direito à rescisão indireta. O perseguição. Gravações das ofensas do malfeitor di-
trabalhador ainda pode pedir indenizações morais retamente à vítima também são possíveis. Outra
e/ou materiais. Para tanto, faz-se necessária consis- prova importantíssima são as testemunhas, que
tente coleta de provas. Eis aí a parte mais difícil: podem comprovar gestos, comportamentos e
como provar? A dificuldade existe por tratar-se de palavras relativas ao assédio. Recomendável tam-
uma violência sutil, psicológica, e não física. Acon- bém é procurar um advogado com experiência em
tece quase que de maneira “invisível”. Meras ale- encaminhar este tipo de ação.

balho (CAT) e posterior reconhecimento do INSS. Essa ação danos e agravos à saúde em conseqüência do assédio
deverá ser precedida de laudo de psicólogo ou médico, em moral, informando o empregador dos custos para a em-
que reconheçam os danos psíquicos e agravos à saúde como presa; elaborar política de relações humanas e éticas; di-
oriundos das condições e relações de trabalho. fundir os resultados das práticas preventivas para o
conjunto dos trabalhadores.
Cabe à equipe multidisciplinar elaborar código de
ética que vise coibir toda manifestação de discriminação
Deveres do empregador (etnia/racial, sexual, idade, gênero) e de práticas nocivas
à saúde física/mental e à segurança dos trabalhadores,
Cabe à empresa, custear e implementar programas de em particular o assédio moral e o assédio sexual. Deverá
prevenção, proteção, informação, formação e segurança con- a empresa encaminhar cópia protocolada do código para
tra as práticas de assédio moral. o sindicato da categoria, o Ministério Público e o Minis-
Compor equipe multidisciplinar de representantes da tério do Trabalho.
fonte: www.assediomoral.org.br

empresa, CIPA, médico do trabalho, psicólogo, sociólogo, as- Todos os trabalhadores deverão conhecer o con-
sistente social, advogado trabalhista, do Sindicato e acom- teúdo do código de ética assim como possuir uma cópia
panhamento do Ministério do Trabalho. Os responsáveis por do mesmo, não sendo aceito como 'conhecimento' do
programa de intervenção terão como objetivo: avaliar os fa- mesmo, assinatura de "termo de responsabilidade".
tores psicossociais, identificar e determinar os problemas; ad- Criar espaços de confiança dentro da empresa, em
mitir a existência dos problemas; definir a violência moral; que o/a trabalhador/a possa ser escutado/a com respeito,
informar e sensibilizar o conjunto dos funcionários acerca dos sendo garantido o sigilo da confidência.

ELAS POR ELAS - ABRIL DE 2007 19


[ Assédio moral ]

Professores devem exigir


medidas preventivas por
parte das escolas
to
ci a É responsabilidade das empresas punir os as-

nd sediadores. No entanto, poucas adotam programas


preventivos para o combate ao assédio moral, ainda

Si sua
que se comprove que financeiramente o prejuízo de
permitir a situação é maior. Inicialmente, quando se

O a fala na matéria, pressupõe-se a existência de um


perverso. E a pessoa jurídica que o emprega prefere

é oz
não vincular sua imagem à de um assediador, esco-
lhendo ignorar o fato, fingindo que o mesmo não
acontece.

v Todavia, a conscientização da sociedade acerca


do tema conduz à pressão sobre o meio empresarial,
exigindo a adoção de medidas eficazes no combate
Sin

ao fenômeno. Isso sem mencionar a pressão que


deve ser exercida sobre o mundo político, para a
aprovação de legislação federal regulando a matéria.
dic

A discussão sobre o tema é crescente no movi-


mento sindical, e algumas categorias têm negociado
ali

a inclusão de cláusulas sobre assédio moral nos


acordos e convenções coletivas de trabalho. A luta
ze

contra o assédio moral passa pela melhoria das


condições de trabalho.
-se

No caso específico dos professores da rede pri-


vada, o Sinpro Minas tem recebido denúncias da ti-
rania de alguns proprietários de escolas, gestores e
coordenadores de cursos, que podem se caracteri-
zar como assédio moral. O sindicato criou uma co-
missão para debater o assunto e acredita ser este o
momento da categoria se mobilizar para incluir, nas
próximas convenções, cláusulas em que o emprega-
dor tome medidas para evitar o assédio moral no es-
tabelecimento de ensino e se responsabilize pelos
atos de tirania praticados por seus empregados em
níveis superiores hierárquicos contra os demais.f

20 ELAS POR ELAS - ABRIL DE 2007


[ Educação ]

Cresce participação
das mulheres no ensino brasileiro

Mark Florest
De acordo com dados do Ministério da Educação (MEC), as mulheres representam 56% do total de matrículas registradas no ensino superior brasileiro

As mulheres estão estudando mais. Maioria nas Entre os concluintes dos cursos de graduação, elas
carteiras escolares do ensino médio, elas dominam eram 62,2%. Dos dez maiores cursos existentes no
também a graduação e recebem o maior número de país, as mulheres são maioria em cinco, sobretudo
bolsas de mestrado e doutorado no país. É o que re- em Pedagogia (91%) e Letras (80%).
velam estudos elaborados pelo Instituto de Estudos A presença de professoras também cresceu no
e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) ensino superior. Em 1996, elas representavam
em parceria com a Secretaria Especial de Políticas 38,7% do total de docentes. Em 2005, esse per-
para as Mulheres. centual saltou para 44,3%. Segundo o estudo do
Na educação superior, elas representaram 56% Inep, institulado A Mulher na Educação Superior
do total de quase 4,5 milhões de matrículas regis- Brasileira, o crescimento da participação feminina
tradas em 2005. O estado que apresentou o maior na docência superior num ritmo 5% maior que o dos
percentual de mulheres no campus foi Tocantins homens, permite dizer que, caso continue assim,
(66%), seguido de Goiás (61,3%) e Amapá (61,1%). elas serão maioria em 2011.

A partir do ensino médio, constata-se uma presença maior das mulheres em relação
aos homens: em 2003, o índice de matrículas foi de 54% para elas e de 46% para eles

ELAS POR ELAS - ABRIL DE 2007 21


[ Educação ]

Entre 1998 e 2003, o percentual de mestres na educação superior aumentou


em média 112,1%. O crescimento do número de homens com mestrado foi de 106,1%,
enquanto o de mulheres foi de 119,4%, mais de 7% acima da média nacional

Pesquisa científica
Na área da pesquisa científica, um levantamento 3424. Nas engenharias, o crescimento foi de 2%.
do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico Destaque para a Engenharia Aeroespacial, cuja
e Tecnológico (CNPq), com dados dos últimos cinco participação feminina cresceu 12% em relação ao
anos, também aponta um cenário de mudanças. A total de bolsas concedidas nessa área.
perspectiva é de crescimento da participação das De acordo com o CNPq, 52% do total de bolsas
mulheres em áreas tradicionalmente masculinas. de mestrado são concedidas às mulheres. No dou-
Nas Ciências Agrárias, por exemplo, houve um torado, a tendência é a mesma. Nos últimos cinco
crescimento de 4% de bolsistas mulheres em re- anos, o aumento de bolsistas doutorandas foi de
lação ao total. Atualmente, 46% das bolsas nessa cerca de 37%, igualando-se à participação mascu-
área são destinadas às mulheres. Em 2001, exis- lina. Hoje, são 3694 bolsistas mulheres e 3697 bol-
tiam 2831 bolsistas. Em 2006, o número saltou para sistas homens. f

Participação de mulheres em cursos de graduação

49,2
Administração 50,8

48,9
Direito 51,1

Mulheres
91,3
Pedagogia 8,7
Homens
20,3
Engenharia 79,7

80
Letras 20
Fonte: Inep
0 20 40 60 80 100

No mesmo período, o crescimento global dos docentes com doutorado foi de 80,9%. O
número de docentes homens com doutorado cresceu 69,2% e o de docentes mulheres
chegou a 104%, cerca de 24% acima da média global e 35% acima da média masculina.

22 ELAS POR ELAS - ABRIL DE 2007


[ Sala de aula ]

Relações de gênero no ambiente escolar:


um diálogo possível?

Mark Florest
Na sala de aula, meninas e meninos ainda recebem uma educação baseada nos modelos tradicionais, que não abordam as relações de gênero

Pode a escola ensinar didaticamente as re- fundamental de uma escola pública em Alegrete
lações de gênero? Claro que sim. Contudo, as expe- (RS) e em quatro livros de Matemática distribuídos
riências mostram que a caminhada é longa, e o às crianças de séries iniciais pelo Ministério da
Brasil ainda está matriculado nas séries iniciais. O Educação (MEC), entre 1999 e 2002.
que se percebe, com boa freqüência, é que o tema A intenção da pesquisadora era responder à se-
passa longe do ambiente escolar e, quando está pre- guinte pergunta: de que forma os discursos que per-
sente, muitas vezes reforça estereótipos e precon- passam a ação escolar vão constituindo identidades
ceitos contra as mulheres. masculinas e femininas? Para a sua surpresa, ou não,
“É claro que está mudando, mas a escola ainda Cecy observou que nas figuras, problemas e textos
reproduz, de certa forma, a visão patriarcalista que dos livros, os meninos apareciam jogando futebol,
subjuga as mulheres. O ambiente escolar é um re- ganhando carrinhos e pipas, andando de moto e
flexo da sociedade e nele se materializam as re- brincando com avião, bolinhas de gude e soldadi-
lações sociais”, opina Magda Chamon, autora da tese nhos. Por outro lado, as meninas eram representa-
de doutorado Trajetória de Feminização do Ma- das brincando de boneca, comprando alimentos,
gistério - Ambigüidades e Conflitos e professora fazendo docinhos e realizando tarefas domésticas.
na Universidade Fumec, em Belo Horizonte. Em relação às figuras de adultos, as mulheres –
A professora Cecy Maria Martins, em seu artigo mamães e vovós – faziam vestidos, colchas de reta-
Fazendo docinhos e dividindo o bolo: o feminino lhos, broas, bolos e salgadinhos, serviam alimentos
na matemática escolar, mostra um pouco essa re- às famílias e cozinhavam. Os homens compravam
alidade. Ela analisou as relações de gênero existen- veículos, vendiam alimentos, trabalhavam como mo-
tes no planejamento de uma professora do ensino toristas, mediam ruas, armários e terrenos.

ELAS POR ELAS - ABRIL DE 2007 23


[ Sala de aula ]

Feminino dócil e servil


A professora constatou que apenas duas perso- e as brincadeiras de ação e movimento, contribui para
nagens femininas nos livros didáticos analisados tra- uma representação do masculino criativo, livre, ou-
balhavam fora de casa: uma era professora e a outra sado, competitivo e autônomo. “O masculino é forjado
empregada doméstica. Em um dos livros, havia uma a partir do seu domínio no espaço público. Por outro
unidade dedicada aos “Probleminhas de forno e lado, a delimitação dos papéis femininos remete a
fogão”, onde somente mulheres desempenhavam uma naturalização do território doméstico como o es-
funções domésticas. “Observa-se que a produção des- paço destinado ao feminino”, observa a professora.
ses sujeitos femininos, considerando a pedagogia dos “A inexistente participação feminina em tare-
livros didáticos e das tarefas de Matemática propostas fas como medir terrenos, dirigir ou exercer profis-
pela professora, em diversos momentos é dirigida à sões expressa a constatação de Moreno [Montserrat
normalização de um feminino dócil, disciplinado, Moreno] acerca do recorrente discurso de que as ati-
doméstico e servil”, diz Cecy. vidades ligadas à tecnologia e às ciências exatas e
Segundo ela, a distribuição de papéis organiza- matemáticas são mais adequadas ao masculino”,
cionais específicos para meninos, privilegiando a rua destaca Cecy.

Dança X futebol
Em outro estudo, intitulado Discurso dos pro- e, se preciso, até com os pais. Sua preocupação era a
fessores e professoras de educação física sobre o de desvendar práticas sociais ligadas ao assunto. “Per-
relacionamento de meninos e meninas, as pro- cebi um grande despreparo dos professores para lida-
fessoras Flávia Fernandes de Oliveira e Cátia Pereira rem com as relações de gênero na sala de aula. Às
Duarte entrevistaram vinte professores de Edu- vezes, questões eram levantadas pelas próprias cri-
cação Física que dão aulas mistas em escolas da anças, mas eles nem percebiam”, afirma Érica.
rede pública do Rio de Janeiro. Elas concluíram que Daí a necessidade, conforme apontam os estu-
os relacionamentos entre meninos e meninas, nas dos, de criar meios para que os professores possam
aulas da disciplina, são uma reprodução do que eles conhecer o assunto e ensiná-lo no ambiente escolar.
vivenciam fora do ambiente escolar. “O que acentua São papéis da escola incentivar o debate e promover
os estereótipos de gênero nas aulas de Educação a conscientização de meninos e meninas para que
Física é a determinação das atividades por sexo; por não reproduzam as desigualdades entre homens
exemplo, a menina dança e o menino joga futebol”, e mulheres. E, ao que tudo indica, algumas iniciati-
analisam as pesquisadoras. vas apontam para mudanças nesse cenário. Além do
Érica de Souza, professora da Puc Campinas e intenso debate em torno do tema, feito por inúmeras
autora da dissertação de mestrado Questões de organizações não-governamentais, pesquisas aca-
gênero na infância e na escola, viu de perto esse dêmicas têm sido produzidas. O governo federal
mundo. Durante o seu trabalho, desenvolvido com também tem adotado algumas iniciativas, por meio
alunos de uma escola pública de São Paulo, Érica mer- da oferta de cursos específicos sobre o tema. Medi-
gulhou no dia-a-dia da sala de aula. Assistia às aulas, das que, se implementadas, vão contribuir para que
escutava os comentários dos estudantes, fazia entre- o estudo das relações de gênero se torne algo roti-
vistas, anotações, conversava com professores, alunos neiro nas escolas.f

24 ELAS POR ELAS - ABRIL DE 2007


[ Parto humanizado ]

As fronteiras do universo feminino


Assistência à gestante pretende redimensionar os papéis na cena do parto

Mark Florest
Alexandra Mendes e sua filha Luiza, nascida no Hospital Sofia Feldman, onde 70% dos partos realizados são normais. Em Minas Gerais, essa média é de 30%

Direito das mulheres decidirem sobre os proce- manos: possibilidades e limites da humanização
dimentos no momento do parto sem complicações, da assistência ao parto, publicada pela USP, esse
respeito à fisiologia humana, uso adequado da tec- movimento passou a questionar um modelo médico
nologia, diálogo com os médicos e a presença do pai centrado numa concepção do feminino como
na sala de parto. Essas são algumas características condição essencialmente “defeituosa”, que tratava o
do parto humanizado. O debate sobre o tema traz à parto como patológico e arriscado, utilizando tecno-
luz reflexões sobre o impacto das transformações logia agressiva, invasiva e potencialmente perigosa.
tecnológicas e das relações humanas sobre um dos A pesquisadora refere-se aos vários aspectos da
momentos mais marcantes na vida das mulheres. humanização, como à legitimidade política de reivin-
O movimento pela assistência humanizada ao dicação e defesa dos direitos das mulheres e cri-
parto iniciou-se há algumas décadas quando o femi- anças na assistência ao nascimento, que promova a
nismo trouxe as questões relativas à reprodução para segurança. Concepção mais relacionada a idéias de
as relações de poder e para a luta política pela auto- humanismo e direitos humanos, com ênfase no di-
determinação sobre o corpo e a sexualidade. Con- reito de conhecer e decidir sobre os procedimentos
forme descreve a professora Carmem Simone Grilo do parto sem complicações, a partir das informações
Diniz em sua tese Entre a técnica e os direitos hu- sobre as diversas variáveis existentes.

ELAS POR ELAS - ABRIL DE 2007 25


[ Parto humanizado ]

pitais, com a intervenção de médicos e muita tecno-


Inversão de lógica logia. Avanços que não podem ser negados, afinal a
tecnologia existe para melhorar a vida das pessoas,
Outro aspecto refere-se à legitimidade cientí- mas quando os interesses econômicos sobrepõem os
fica da medicina baseada na evidência, orientada valores humanos, abusos podem ser inevitáveis.
pelo respeito à fisiologia humana e pelo uso do con- Da mesma forma que os novos procedimentos
ceito de tecnologia adequada. Esse sentido busca- tecnológicos podem garantir maior segurança para a
ria inverter a lógica que avalia o parto vaginal como saúde das parturientes e dos bebês, por outro lado,
primitivo e arcaico, enquanto a intervenção tec- há quem levante a preocupação com o alto índice de
nológica e sem base na evidência é o que se busca cesarianas desnecessárias, que, muitas vezes,
superar. A humanização também traz um redimen- podem ser arriscadas. “Com toda a evolução que as
sionamento dos papéis e poderes na cena do parto, cesarianas já tiveram, o procedimento representa
como o deslocamento da função principal, no parto risco de morte para a mulher, três vezes maior, em
normal, do médico obstetra para a enfermeira obs- relação ao parto vaginal, além dos riscos futuros
tetriz – legitimado pelo pagamento desse procedi- para a criança”, atesta João Batista Marinho de Cas-
mento pelo Ministério da Saúde –, e do local tro, obstetra do Hospital Sofia Feldman, um dos hos-
privilegiado, a sala de parto. pitais referência em Belo Horizonte e no Brasil em
Se no passado as mulheres pariam seus filhos assistência humanizada ao parto.
em casa, assistidas por outras mulheres, hoje o “nor- Ele critica o excesso de interferência dos médi-
mal” parece ser o parto cirúrgico, realizado em hos- cos, no que define como “cultura de submissão”, em

Hospital Sofia Feldman: atendimento humanizado pelo SUS

Situado em Belo Horizonte, o Hospital Sofia nheira de hidromassagem. As parturientes tam-


Feldman é referência de assistência humanizada bém não precisam passar por raspagem de pêlos
no Brasil. Lá, muito antes de se tornar lei, a pre- ou corte no períneo. É permitido caminhar e tomar
sença de um acompanhante na sala de parto sem- água, coisas proibidas em várias maternidades.
pre foi garantida. A maternidade também foi uma
das precursoras do projeto Doulas Comunitárias,
Mark Florest

que consiste em utilizar voluntárias para cuidar da


mulher do início do trabalho de parto ao pós-parto.
Há evidências de que este acompanhamento re-
presenta importante apoio psicológico, com efeito
para a redução de dores e aumento da satisfação
da mulher em relação ao parto.
O hospital é uma fundação filantrópica que
atende somente pelo SUS. Dos cerca de 600 par-
tos/mês, a média de partos normais é de 70%, en-
quanto a média no Estado é de apenas 30%. Na
casa de parto, onde só ocorrem partos normais,
as mulheres podem escolher a forma como
querem dar a luz, o que inclui a opção de uma ba- Hospital Sofia Feldman, referência na assistência à gestante

26 ELAS POR ELAS - ABRIL DE 2007


que os médicos exercem um poder muito grande, “Hoje é quase impossível uma mulher entrar numa
sendo raro a mulher buscar outras alternativas. maternidade e sair sem tomar um remédio ou sofrer
“Ninguém tem coragem de falar, mas é uma desu- um corte. As mulheres não ficaram mais fracas, o
manidade o que fazem por aí. Já vi mulher fazer sistema coloca na cabeça delas sensação de incapa-
cesárea com 37 semanas de gestação, porque o cidade. Daqui a uns dias vão dizer que elas não
médico disse que se a barriga crescesse muito ela ia podem mais parir”, observa.
ter estria”, afirma. Ainda mais longe, o obstetra avalia que a cul-
O obstetra também considera o fator tura tecnicista vigente na sociedade desconstrói
econômico como um dos motivos para o alto índice aquilo que a mulher já tem interiorizado, para des-
de cesáreas. Segundo ele, numa sociedade onde pre- qualificá-la também como mãe. “A última fronteira
valece a máxima “tempo é dinheiro”, é quase ine- para a sociedade dominar o universo feminino é o
vitável que os médicos prefiram indicar uma cesárea parto. A assistência humanista vem para resgatar o
com a duração de 40 minutos do que acordar de ma- poder da mulher de ter direitos sobre a sua repro-
dução e de cidadania”, afirma João Batista.

“A última fronteira
Termo gera polêmica
para a sociedade Conforme aborda a tese da professora Carmem
Diniz, a polêmica entre médicos, especialistas e ati-
dominar o universo vistas pelo parto humanizado, também ocorre em
feminino é o parto” função do termo “humanização”. Os críticos desse
conceito temem que o termo tenha inscrito em si
uma proposta de rechaço a qualquer tecnologia,
uma espécie de obstetrícia “volta às cavernas”, além
de levantar que a incorporação da tecnologia tam-
bém é um fato humano. “Questionam a substituição
drugada para acompanhar um parto de até 12 horas. acrítica da tecnologia pela relação humana, como se
Questionado sobre a importância da cesárea o uso de ambas fosse incompatível”, pondera.
para a redução dos índices de mortalidade materna Segundo ela, num momento em que o modelo
e infantil, ele frisou os benefícios da tecnologia, mas de cesárea, como parto típico da classe média, já
em sua avaliação, o que contribuiu para maior segu- seria uma unanimidade, a crítica se baseia em con-
rança no parto não foi o excesso de tecnologia, e sim siderar o uso da tecnologia como modernidade, en-
procedimentos simples como assepsia, pré-natal, quanto seria um retrocesso a “des-incorporação” da
medicamentos que controlam a hemorragia, além do tecnologia, inserida no novo paradigma de que qual-
fato de as mulheres terem menos filhos atualmente. quer intervenção só se justifica quando provada ser
João Batista explica que o parto humanizado mais segura e eficaz que a não intervenção.
não é uma técnica, mas o resgate do fisiológico, mais O debate toma fôlego ao se analisar as estatís-
natural dentro do processo de nascimento, em ticas de cesáreas, que tornam o Brasil um dos países
oposição ao uso excessivo da máquina. O que não campeões nessa modalidade de parto. De acordo
inclui só o parto normal, mas uma cesárea bem indi- com dados de 2004 do Sistema de Nascidos Vivos
cada. Em sua opinião, existe uma filosofia implícita (Sinasc), do Ministério da Saúde, 41,8% dos partos
na cultura de se considerar o parto uma doença. realizados em todo o Brasil foram cirúrgicos. Uma

ELAS POR ELAS - ABRIL DE 2007 27


[ Parto humanizado ]

campanha do Ministério da Saúde estabeleceu a


meta de alcançar a taxa de 25%, no máximo, em Benefícios do parto normal
2007. Com isso, foram criadas algumas medidas
como a permissão da entrada de um acompanhante
- Recuperação mais rápida da mulher e re-
na sala de parto, a divulgação sobre o direito à anes-
dução dos riscos de infecção hospitalar.
tesia gratuita pelo SUS nos partos normais, (garan-
tidas em lei) entre outras.
- Baixa ocorrência de problemas respiratórios
Nas maternidades privadas, onde os índices de
para o bebê.
cesáreas estariam sempre acima de 70%, chegando
perto de 90% em algumas delas, a estratégia foi criar
- Possibilidade de se estabelecer um vínculo
salas de parto normal, onde se encontram recursos
mais rápido entre mãe e filho, já que, logo
de uma assistência típica ao parto vaginal, dis-
após o parto, ela já terá condição de tomar
farçadas em mobiliários de um quarto de dormir ou
conta do bebê.
como suítes luxuosas de um hotel. Mesmo assim, há
informações de que mais de 60% das mulheres inter-
- Esteticamente, a mulher não ficará com uma
nadas nessas alas terminam tendo partos por
cicatriz no abdômen.
cesárea.
Para os ativistas do parto humanizado esses
procedimentos podem representar a quebra da
noção de cesárea como parto ideal para a classe Riscos da cesariana
média e a representação por parte dos hospitais da
respeitabilidade técnica dessa opção. Apesar de que
- Na cesariana, é mais comum a ocorrência de
a humanização não ocorre só no ambiente, mas na
infecção e hemorragia, além da possibilidade
relação entre as pessoas.
de abertura acidental de algum órgão, como
bexiga, uretra e artérias.

- A gestante pode, ainda, ter problemas de ci-


Dor do parto catrização possíveis de afetar a próxima
gravidez.
Com a cesárea considerada, hoje, mais um
método anestésico do que de obstetrícia, o foco do - A incidência de morte materna associada à
debate costuma girar em torno da dor. Para o obs- cesariana é 3,5 vezes maior do que no
tetra João Batista, a maioria das parturientes tem método natural.
algum tipo de dor, que pode variar conforme o aten-
dimento, o medo, a tensão, porém o parto sem dor - No futuro, caso a mulher precise de uma
é possível. cirurgia de emergência, seu abdômen será
Quanto ao excesso de cesarianas, para ele as mais difícil de ser perfurado.
mulheres não estão mais fracas. “O sistema é que
coloca na cabeça delas a incapacidade. O discurso é - Possibilidade de o bebê nascer prematuro.
de que as mulheres não têm dilatação e vão sofrer,
mas se compararmos com uma corrida, cada pessoa
vai fazer o percurso num determinado tempo. É pre- Fonte: Ministério da Saúde

ciso esperar o tempo de cada uma”. f

28 ELAS POR ELAS - ABRIL DE 2007


[ Violência de gênero ]

Duplo medo
Violência dentro e fora de casa
preocupa a brasileira

Cedida pela FENAFAR

A falta de segurança pública preocupa a socie- terem sido agredidas fisicamente e até 47% decla-
dade como um todo. No entanto, para as mulheres, ram que sua primeira relação sexual foi forçada. A
o medo é duplo. A violência de gênero ocorre não só OMS considera que o fenômeno da violência contra
no espaço público como no privado, sendo muitas a mulher ocorre em todos os países e em todas as
vezes tolerada e silenciada. Superar a violência con- classes sociais.
tra as mulheres é um desafio de todas e todos e fun- De 2004 a 2006 aumentou o nível de preo-
damental para a segurança humana. cupação com a violência doméstica em todas as
Segundo a Organização Mundial de Saúde, regiões do país, em especial nas periferias dos gran-
quase metade das mulheres assassinadas são víti- des centros urbanos. É o que aponta a pesquisa na-
mas dos maridos ou namorados. A violência res- cional sobre violência contra a mulher, realizada em
ponde por aproximadamente 7% de todas as mortes maio de 2006, encomendada ao Ibope pelo Instituto
de mulheres entre 15 e 44 anos em todo o mundo. Patrícia Galvão. Antes, portanto, da entrada em
Em alguns países, até 69% das mulheres relatam vigor da Lei Maria da Penha (Lei 11.340), mas que

ELAS POR ELAS - ABRIL DE 2007 29


[ Violência de gênero ]

reforça a necessidade da nova lei ser aplicada com pouco importante, 54% acham que os serviços de
rigor. atendimento a casos de violência contra as mulhe-
No levantamento, intitulado Percepção e res não funcionam e 64% acredita que o homem que
reações da sociedade sobre a violência contra a agride a companheira deve ser preso.
mulher, 33% consideram a violência contra as mul- Os números mostram que a sociedade brasileira
heres, dentro e fora de casa, como o problema que não percebe com clareza a efetiva aplicação da lei
mais preocupa a brasileira na atualidade. Metade dos nos casos de violência contra a mulher por todos os
brasileiros conhece ao menos uma mulher que é ou agentes que têm a responsabilidade de fazê-lo.
foi agredida pelo companheiro. Enquanto 71% dos Dessa forma, surge uma sensação de impunidade e
entrevistados consideram que a Justiça brasileira de ineficácia dos sistemas policial e judiciário e das
trata a violência contra as mulheres como um assunto políticas públicas de proteção à mulher.

Lei Maria da Penha


Violência dentro de casa está longe de ser resolvida no papel
Uma das grandes esperanças na luta das ônibus em que ela viajava, em Nova Iguaçu (RJ),
mulheres pela segurança humana foi a criação isso entre outros vários crimes nos quais as
da Lei 11.340, que tornou mais rigorosa a mulheres tiveram um destino mais trágico.
punição para os crimes praticados contra as mu- Como resultado da lei que pune com mais
lheres. A nova lei leva o nome da brasiliense rigor parceiros agressores, também cresceram
Maria da Penha, homenageada como símbolo as dúvidas quanto a que local enviá-los e multi-
da resistência contra a violência doméstica, por plicaram-se os questionamentos sobre como
lutar durante anos pela punição do ex-marido oferecer assistência às famílias. Para especia-
que tentou matá-la, deixando-a paraplégica. listas, ficaram apenas dois fatos claros: houve
A lei estabelece e tipifica a violência domés- um avanço, mas o combate à violência dentro
tica contra a mulher como sendo física, psicoló- de casa está longe de ser resolvido no papel.
gica, sexual, patrimonial e moral. A maior
modificação é o fim do conhecido pagamento de
cestas básicas por maridos que espancavam
suas respectivas mulheres. Agora eles podem
ser fichados na polícia, presos, afastados de casa
e encaminhados para programas de ressocia-
lização. Outra novidade da lei é que, antes, a
mulher podia desistir da denúncia já na delega-
cia. Agora somente pode desistir perante o Juiz.
Após a publicação da Lei Maria da Penha,
sancionada em 7 de agosto de 2006, houve au-
mento das denúncias de violência doméstica e
muitas delegacias lotaram. Há alguns meses,
foi mostrado, em rede nacional, o caso do ma-
rido que manteve a ex-mulher sob a mira de um A brasiliense Maria da Penha, símbolo da resistência contra a violência
revólver, durante 10 horas, ao seqüestrar o doméstica

30 ELAS POR ELAS - ABRIL DE 2007


Mecanismo para manter a O custo da violência
subordinação das mulheres doméstica em números

Em artigo publicado na internet, a advogada


• Um, em cada 5 dias de falta ao tra-
Leila Linhares Barsted, diretora da ONG Cepia (Ci-
dadania, Estudo, Pesquisa, Informação e Ação), balho no mundo, tem como causa
afirma que a violência de gênero é um dos mecanis- violência sofrida pelas mulheres
mos sociais principais para manter as mulheres em dentro de suas casas.
posições subordinadas aos homens. Segundo ela,
ainda são poucas as vozes que incluem a ausência
específica de violência de gênero como elemento • A cada 5 anos, a mulher perde 1 ano
fundamental para a segurança das mulheres e da so- de vida saudável se ela sofre violên-
ciedade como um todo, mesmo sendo consenso, cia doméstica.
entre os que defendem os direitos humanos, que a
segurança de homens e mulheres significa ausência
de medo da guerra, do desemprego, da pobreza, da
exclusão social, do racismo, do sexismo e homofo- • O estupro e a violência doméstica são
bia, ou seja, garantia de respeito e tolerância à di- causas importantes de incapacidade
versidade humana. e morte de mulheres em idade pro-
Na opinião da advogada, alcançar um padrão de dutiva.
segurança humana é um grande desafio dos nossos
dias.“Desafios que têm como obstáculos: a hegemo-
nia do neoliberalismo, a desregulamentação de di- • Uma mulher que sofre violência
reitos e o recuo do Estado em relação a deveres doméstica, geralmente, ganha
assumidos no passado recente, a ampliação de pro- menos do que aquela que não vive em
cessos de pobreza e da exclusão social; a atuação de
situação de violência.
grupos criminosos na sociedade e nas instituições
públicas; a intolerância religiosa de fundamentalis-
tas; a persistência do sexismo, do racismo e da ho-
mofobia; o avanço do militarismo no plano • Um estudo do Banco Interamericano
internacional; além de outros fatores no processo de de Desenvolvimento estimou que o
deterioração da qualidade de vida", afirma.f custo total da violência doméstica
oscila entre 1,6% e 2% do PIB de um
país.
“Alcançar um padrão de
segurança humana é um dos
principais desafios da Dados de 2002 do Banco Mundial e do Banco Interamericano
de Desenvolvimento
sociedade atual”

O artigo está no site www.educacaopublica.rj.gov.br/biblioteca/cidadania

ELAS POR ELAS - ABRIL DE 2007 31


[ Beleza negra ]

Corpo e cabelo: dupla inseparável


para a identidade
As mulheres negras têm ajudado a reeducar a

Arquivo Betina Borges


sociedade brasileira na superação de um olhar que
estigmatiza os negros. A conscientização sobre as
possibilidades positivas do seu cabelo oferece uma
notável contribuição no processo de reabilitação do
corpo negro e na reversão das representações nega-
tivas presentes no imaginário herdado de uma cul-
tura racista. Essas são algumas constatações da
professora da Faculdade de Educação/UFMG, Nilma
Lino Gomes, que investigou o tema para a sua tese
de doutorado em Antropologia Social, pela USP, Sem
perder a raiz - Corpo e cabelo como símbolos da
identidade negra, publicada pela editora Autêntica.
A obra é fruto de uma intensa pesquisa em
quatro salões étnicos de Belo Horizonte. Segundo
Nilma, seu objetivo é contribuir para a compreensão
das relações raciais e um olhar afirmativo sobre a
cultura negra.
O corpo e o cabelo, dupla inseparável no con-
texto das relações sociais e culturais, possuem um
caráter, além de estético, social e simbólico para a
identidade da população negra. O livro parte da
idéia de que essa identidade é construída não só a
partir do olhar que o negro tem de si, mas também
na relação que ele tem com o olhar do outro sobre
ele. A sociedade também atua como um espelho,
que joga com imagens e com padrões estéticos.
Segundo Nilma, a mulher negra cresce ouvindo
Penteados “afros”: cultura e diversidade nos salões étnicos
que seu cabelo é ‘ruim’ e que, por ser negra, não
pode ser bonita. “O racismo nos retira do lugar do
belo por sermos diferentes, mas somos belos por corte ou penteado desejam, expressam mais do que
sermos diferentes. Essa é a sabedoria que se gostos estéticos. Sinalizam, também, o modo como
aprende nos salões étnicos, que muito contribuem foram construindo identidades, em meio a um pro-
para a afirmação da identidade negra”, constata. A cesso denso e complexo, no qual estão presentes ex-
professora vê a especialização dos salões em cabelos periências de racismo e preconceito e, também, de
crespos, com penteados de origem étnica africana ancestralidade, inserção política e afirmação iden-
recriados e reinventados, como forma de expressão titária.
estética e como uma opção política. O corpo e o cabelo são símbolos muito fortes
Os salões são espaços comerciais, mas inves- para identificar a ascendência da população negra,
tem em projetos sociais e possuem um papel de ati- usados tanto para estigmatizar os negros quanto
vismo político contra a discriminação racial. A para a afirmação política de sua identidade. “A re-
filosofia dos salões é que cada um use o cabelo do lação do negro com o cabelo é complexa, mas tam-
jeito que quiser. Mas quando os clientes dizem qual bém libertadora”, conclui Nilma.f

32 ELAS POR ELAS - ABRIL DE 2007


[ Nutrição ]

Entre a fome e a obesidade

Mark Florest
Falta de uma alimentação saudável aumenta a ocorrência de transtornos alimentares; nos últimos 30 anos, o consumo de refrigerantes e biscoitos aumentou 400%

São cada vez mais comuns casos de jovens víti- dade focada na ampliação do consumo, reforçam im-
mas de transtornos alimentares como anorexia, que agens e ideais quase inatingíveis, formando hábitos
podem até mesmo levar à morte. Também preocu- e costumes. Teoricamente os transtornos alimenta-
pam as estatísticas sobre a obesidade, especial- res podem atingir as pessoas de todas as camadas
mente a infanto-juvenil, que demonstram o aumento sociais, de todas as raças, de todos os graus de esco-
das taxas de doenças como diabetes, colesterol alto laridade e de ambos os sexos. Mas, em geral, os
e hipertensão, que antes atingiam pessoas de 50 a transtornos ocorrem com mais freqüência na classe
60 anos, e hoje são comuns em crianças de 8 a 10 média e média-alta, e entre as mulheres, principal-
anos. Essa realidade traz à tona não apenas os mente dos 13 aos 30 anos.
hábitos alimentares, mas, sobretudo, um conjunto O consumo de alimentos pouco nutritivos tem
de fatores determinantes do consumo de alimentos crescido nos últimos anos, o que interfere direta-
no país, o papel da escola e da família, e os valores mente na saúde, principalmente de crianças e ado-
da sociedade de um modo geral. lescentes. Segundo a POF 2003 (Pesquisa de
O crescente apelo estético de um padrão de be- Orçamentos Familiares) do IBGE, de 1974 a 2002, a
leza sempre magro, assim como a massiva publici- população brasileira diminuiu despesas com ali-

ELAS POR ELAS - ABRIL DE 2007 33


[ Nutrição ]

mentos tradicionais como arroz, feijão, batata, açú- Paulo (Unifesp) com 316 adolescentes, de 10 a 19
car e passou a gastar mais com iogurte, refrigerante anos, de uma escola particular de São Paulo verifi-
e alimentos preparados. O consumo de biscoitos e cou que metade das 178 meninas entrevistadas es-
refrigerantes aumentou 400% da primeira à última tavam insatisfeitas com seus corpos, contra 30% dos
pesquisa. Também proliferaram as cadeias de lan- meninos. Das garotas, 30% fazia dieta sem precisar.
chonetes "fast food", com produtos altamente gor- Especialistas explicam que é normal as meninas ga-
durosos e aumentou o hábito de se alimentar fora nharem alguns quilos por volta dos 10 anos, pois elas
de casa. precisam de depósitos de gorduras para a produção
O resultado é que, em 2003, cerca de 40% dos de hormônios da puberdade e para preparar o fenô-
brasileiros com mais de 20 anos estavam acima do meno do "estirão", quando crescem rapidamente.
peso. Dentre eles, 11,1% foram classificados como
obesos. Entre os adolescentes de 10 a 19 anos, A escola pode contribuir
16,7% estavam com excesso de peso. Afirma-se que
esse crescimento é maior nas famílias mais ricas, para a mudança dos hábitos
que moram em áreas urbanizadas, apesar de ter alimentares?
crescido significativamente nas mais pobres. À medida que cresce o número de crianças e
Por outro lado, cerca de 1,7 milhão de brasileiros adolescentes acima do peso e os problemas de
sofrem de anorexia, conforme notícia do Jornal A saúde, em conseqüência dos transtornos alimenta-
Tarde-BA. Na maioria das vezes são meninas com res, aumenta também a preocupação dos pais e dos
idade entre 11 e 14 anos que se recusam a comer, com educadores sobre o que fazer para reverter esse
medo de engordar. A anorexia é caracterizada pela quadro. Com os meios de comunicação e a internet,
manutenção do peso em pelo menos 15% abaixo do está mais fácil o acesso à informação sobre as for-
Índice de Massa Corporal (IMC) normal para a idade mas de prevenção de doenças através de uma ali-
e altura da pessoa, ausência de menstruação por três mentação balanceada e exercícios físicos. Mas isso
meses consecutivos e negação do baixo peso corporal. não tem levado à mudança dos hábitos. Será que a
A doença geralmente está associada ao uso de drogas escola está cumprindo o seu papel?
à base de anfetaminas, substâncias que reduzem o Um dos aspectos de interferência existente nas
apetite e aumentam o metabolismo para a queima de escolas é a contradição entre o que é ensinado em
gorduras, mas produzem efeitos colaterais como in- sala de aula e o que se pratica nas cantinas. Algu-
sônia, taquicardia, irritabilidade, agressividade, de- mas escolas realizam iniciativas de educação ali-
pressão e ansiedade. mentar, mas por outro expõem nas vitrines de suas
Um estudo realizado por cientistas da Universi- cantinas balas, chicletes, refrigerantes e salgadinhos
dade de Leeds, no Reino Unido, revela que uma em industrializados, com embalagens coloridas e
cada cinco meninas com nove anos de idade faz atraentes.
dieta porque, na escola, os colegas troçam do seu Em escolas estaduais de Estados como Rio de
aspecto físico, e também manifestam sintomas rela- Janeiro, Paraná e Santa Catarina, estão em vigor
cionados ao fenômeno bulling. A pesquisa alerta portarias que proíbem a venda de alimentos pouco
para o risco que essas crianças correm de vir a de- saudáveis nas cantinas. Nas escolas privadas, grande
senvolver desordens alimentares durante a ado- parte das cantinas é terceirizada e fica à critério des-
lescência. Normalmente, a forma encontrada pelas ses comerciantes a escolha dos alimentos.
meninas para reduzir o peso passa por saltar Segundo depoimento de uma mãe de aluna da
refeições ou comer menos durante o dia. rede privada de Belo Horizonte, as cantinas visam
Uma pesquisa da Universidade Federal de São lucro e não estão preocupadas em oferecer outras

34 ELAS POR ELAS - ABRIL DE 2007


opções mais saudáveis. Na escola, a justificativa é saudáveis, assim como aprender a preparar um san-
que quando são ofertados alimentos naturais, eles duíche natural, estabelecendo uma relação íntima com
se perdem, porque as crianças não se interessam. os alimentos. “Nós temos pouco tempo, mas os nossos
"Sou muito preocupada com a saúde da minha filha, filhos têm tempo para isso”, frisa.
preparo a merenda em casa, que sempre inclui uma Talvez só isso não seja suficiente para mudar os
barra de cereais e suco natural", afirma a mãe. hábitos alimentares de crianças e adolescentes, mas
é um primeiro passo. A mudança de hábito é um
processo demorado e exige que a escola e os pais
Energéticos e indisciplina trabalhem juntos. Quanto aos pais, a educação deve
O nutricionista, especializado em obesidade, começar pelo exemplo. É imprescindível reconhe-
Antônio Marcondes Araújo, professor da Faculdade cer que a criança não é responsável por sua ali-
Universo, em Belo Horizonte, vê com bons olhos a mentação, tampouco pelo seu estilo de vida.
restrição de alimentos industrializados nas cantinas Uma pesquisa, divulgada na internet, realizada
escolares e acha que essas medidas deveriam ser pela Universidade Paulista (Unip), em um colégio pri-
discutidas pela comunidade das escolas privadas, vado de São Paulo, apontou que 62,8% dos alunos en-
assim como deveria existir alguma regulamentação trevistados fazem um consumo de frutas, verduras e
para as cantinas dessas escolas. Atualmente, a Vi- legumes muito longe do razoável, e 50% deles afir-
gilância Sanitária fiscaliza somente os aspectos de maram nunca comer verduras como acelga, agrião,
rúcula, entre outras. "Para a prevenção dos principais
problemas nutricionais como anemia, desnutrição e
40% da população carência de cálcio é preciso aumentar a ingestão de
frutas e massas e reduzir frituras e gorduras trans,
brasileira está acima do presentes principalmente em biscoitos recheados”,
peso, de acordo com recomenda o nutricionista. A orientação para uma
alimentação saudável é variar bastante o cardápio,
dados do IBGE não esquecendo de incluir vegetais, carnes, frutas e
cereais. Dessa forma é possível prevenir doenças e
comercialização e de higiene e não há restrições garantir uma melhor qualidade de vida.f Mark Florest

quanto ao nível nutricional dos alimentos. Segundo


ele, a maioria das escolas tem nas cantinas uma
fonte de renda e não dá lucro vender fruta. “Com
0,30 centavos é possível comprar uma maçã, mas
nas cantinas não dá nem para um saco de pipoca”,
compara.
Araújo também levanta outra preocupação. “O
consumo de alimentos altamente energéticos contri-
buem para a indisciplina na sala de aula, pois os alunos
ficam cheios de energia, sem ter onde gastar e ficam
dispersos, o que pode até prejudicar o rendimento es-
colar”, observa. Em sua opinião, o ideal para o horário
do lanche é o consumo de frutas. Nas palestras que faz
em escolas públicas, ele destaca que a própria criança Antônio Araújo vê com bons olhos a restrição de alimentos industrializados nas
deva ser incentivada a comprar frutas e alimentos cantinas

ELAS POR ELAS - ABRIL DE 2007 35


[ Arte ]

Existe uma arte feminina?


Inspirados nessa pergunta e em textos e pen-
samentos de nomes como Fernando Pessoa, Viní-
cius de Moraes, Leonardo Boff e Uta Grosenick, a
artista plástica mineira Lúcia Castanheira e seus
alunos criaram 30 telas feitas com diversos materi-
ais e suportes (papel, tela e madeira). Trabalhando
temas femininos, os artistas decidiram fazer uma re-
flexão sobre o assunto e lançar um desafio para o
espectador: existe uma arte feminina?
As obras, avalia Lúcia Castanheira, provocam o
público e abrem uma discussão em torno do tema.
As telas não são assinadas justamente para não
gerar uma identificação do espectador com o autor. sexo. A expressão, masculina ou feminina, é do in-
“A assinatura, geralmente, é o gesto que certifica a divíduo, não da mulher ou do homem”, define Lúcia
autenticidade de uma obra de arte. Se ela não exis- Castanheira. Segundo ela, as obras devem percor-
te, não tem como saber se o autor é um homem ou rer algumas cidades mineiras por meio do Circuito
uma mulher”, argumenta a artista plástica. Mineiro de Artes. Elas também estarão no atelier da
A intenção dos trabalhos é abolir a noção de artista plástica, na avenida Bandeirantes, 1788, no
arte feminina ou masculina. “A boa arte não tem bairro Mangabeiras.f

Cleópatra era bela? Livro homenageia presença


Foi descoberta re- da mulher na MPB
centemente uma moeda
romana datada de 2,5 Chega às livrarias em abril o livro MPB Mulher, com tiragem
mil anos que refuta a te- restrita a mil exemplares. Na obra, Ricardo Cravo Albin traça um
se de que Cleópatra fora perfil de 80 intérpretes e autoras – de Chiquinha Gonzaga a
a mais bela mulher da Daniela Mercury, sele-
Divulgação
Antiguidade, imagem re- cionadas pelo pesquisa-
forçada, principalmente, ao longo da his- dor a partir do acervo de
tória do cinema hollywoodiano. Na moeda, Mário Luiz Thompson,
Cleópatra aparece como uma mulher de que ilustra o livro com fo-
nariz adunco e queixo proeminente. tografias dos anos 60 à
No cinema americano, a bela atriz atualidade. Um CD de 14
Elizabeth Taylor emprestou o seu rosto faixas, produzido em par-
para interpretar Cleópatra, em filme de ceria com Carlos Savalla,
1963. No Brasil, a atriz Alessandra Negrini vem encartado na obra,
interpreta a rainha egípcia em filme de dividida em oito capítu-
Júlio Bressane, de 2007. los. A música baiana mereceu um capítulo à parte, diante da forte
No ano 50 a.C, Cleópatra e o general presença de cantoras como Maria Bethânia e Gal Costa. Segundo
romano Júlio César tornaram-se amantes. Cravo Albin, MPB Mulher não tem a pretensão de ser uma an-
Ela recebeu ajuda de César para assassinar tologia da presença feminina na Música Popular Brasileira. A pro-
o próprio irmão a fim de se tornar rainha posta do livro, de acordo com o pesquisador, foi perfilar as
do Egito. f mulheres fotografadas por Thompson.f

36 ELAS POR ELAS - ABRIL DE 2007


[ Agenda ]

II Conferência Nacional de
Datas para marcar no calendário
Políticas para as Mulheres
24 de fevereiro
Entre 18 e 21 de agosto, mulheres de todo o Conquista do voto feminino no Brasil
país desembarcam em Brasília para participar da II
Conferência Nacional de Políticas para as Mulheres 8 de março
(CNPM), com, pelos menos, dois propósitos. Dia Internacional da Mulher
Além de avaliar a implantação do ambicioso
Plano Nacional de Políticas para as Mulheres, ela- 21 de março
borado em 2004 e com 199 ações, elas vão discutir Dia Internacional pela Eliminação da
a participação feminina nos espaços de poder. Discriminação Racial
Teresa Souza, secretária-adjunta da Secretaria Es-
pecial de Políticas para as Mulheres, espera a par- 30 de abril
ticipação de 2,8 mil mulheres no encontro. Dia Nacional da Mulher
Segundo ela, a parte do Plano que mais
avançou foi a da violência contra a mulher. “Dentro 28 de maio
desse eixo aprovamos, num prazo recorde, a Lei Dia Internacional de Luta pela Saúde da
Maria da Penha, que vai diminuir a violência contra Mulher e Dia Nacional de Redução da
as mulheres. Além disso, monitoramos em todo o Morte Materna
país o que está acontecendo referente ao assunto,
por meio de uma central de atendimento, e isso nos 24 de junho
dá subsídios para que façamos novas políticas públi- Fundado o Jornal Movimento Feminino,
cas. Na realidade, essa área fosse talvez a que es- em 1947
tivesse mais atrasada e a que demos passos mais
largos", afirma a secretária-adjunta. 25 de julho
Teresa Souza ressalta que um dos principais de- Dia Internacional da Mulher Negra
safios na implementação do Plano é a questão geo- Latino-americana e Caribenha
gráfica. “Quando vamos elaborar uma política
pública com seriedade, aí é que a gente tem a di- 29 de agosto
mensão real do tamanho do nosso país”.f Dia da Visibilidade Lésbica no Brasil

23 de setembro
Dia Internacional contra a Exploração
Seminário Internacional Sexual e o Tráfico de Mulheres e Crianças

Política e Feminismo 10 de outubro


Dia Nacional de Luta contra a Violência
A Universidade Federal de Minas Gerais à Mulher
(UFMG), em parceria com a Rede Brasileira de Es-
tudos e Pesquisas, realiza, entre os dias 21 e 25 de 25 de outubro
maio, o I Seminário Internacional Política e Fe- Dia Internacional contra a Exploração da
minismo. O seminário, aberto à participação de Mulher
toda a sociedade civil, pretende levantar a discussão
da política em sua articulação com o pensamento e 25 de novembro
a prática feminista e de gênero. Informações pelo Dia Internacional da Não-Violência
email nepem@fafich.ufmg.br ou pelo telefone (31) contra a Mulher
3441-4603.f

ELAS POR ELAS - ABRIL DE 2007 37


[ Retrato ]

Mark Florest
“Exercícios de Leitura”
Bartolomeu Campos Queiroz
Escritor e educador*

Maria Lourdes de Carvalho, uma das poucas mulheres da turma de medicina de 1950 da UFMG. “Naquela época, as
alunas não podiam entrar na enfermaria de urologia”.

38 ELAS POR ELAS - ABRIL DE 2007


Mark Florest

SINDICATO DOS PROFESSORES DO ESTADO DE MINAS GERAIS


Rua Jaime Gomes, 198 - Floresta - CEP: 31015.240 - Fone: (31) 3465 3000
Fax: (31) 3465 3008 - Belo Horizonte - www.sinpromg.org.br

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