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Conteúdo

MARÇO - Mês de São José

MAIO – Mês de Maria Santíssima

JUNHO – Mês do Sagrado Coração de Jesus

NOVEMBRO – Mês das Almas do Purgatório

Novenário em Honra do Divino Espírito Santo


Março - Mês de São José
MÊS DE SÃO JOSÉ

POR
MONS. DR. JOSÉ BASÍLIO PEREIRA
NIHIL OBSTAT
Fr. Marianus Diekhans
Bahiae, 5 - Januarii -1948
REIMPRIMATUR
Bae, 5-1-1948
Mons. Aníbal Matta
ProVinc. Gen.
MÊS DE SÃO JOSÉ
ORAÇÕES A RECITAR TODOS OS DIAS
Invocação do Espírito Santo
Vinde, Espírito Santo, enchei os corações dos vossos fiéis e
acendei neles o fogo do vosso amor.
V - Enviai o vosso Espírito, Senhor, e tudo será criado
V- E renovareis a face da terra.
ORAÇÃO
Deus, que esclarecestes os corações de vossos fiéis com as
luzes do Espírito Santo, concedei-nos por esse mesmo Espírito
conhecer e amar o bem, e gozar sempre de suas divinas
consolações. Por Jesus Cristo, Nosso Senhor. Amém.
ORAÇÃO PREPARATÓRIA
Com humildade e respeito aqui nos reunimos, ó Divino Jesus,
para oferecer, todos os dias deste mês, as homenagens de
nossa devoção ao glorioso Patriarca S. José. Vós nos animais
a recorrer com toda a confiança aos vossos benditos Santos,
pois que as honras que lhes tributamos revertem em vossa
própria glória. Com justos motivos, portanto, esperamos vos
seja agradável o tributo quotidiano que vimos prestar ao
Esposo castíssimo de Maria, vossa divina Mãe a José, vosso
amado Pai adotivo. Ó meu Deus, concedei-nos a graça de amar
e honrar a José como o amastes na terra e o honrais no céu. E
vós, ó glorioso Patriarca, pela vossa estreita união com Jesus
e Maria; vós que, à custa de vossas abençoadas fadigas e
suores, nutristes a um e outro, desempenhando neste mundo o
papel do Divino Padre Eterno; alcançai-nos luz e graça para
terminar com fruto este devoto exercício que em vosso louvor
alegremente começamos. Amém.
Lê-se a Meditação e o exemplo próprios do dia e depois rezam-
se três P. Nosso, Ave e Glória.
ORAÇÃO
Ó glorioso S. José, a bondade de vosso coração é sem limites
e indizível, e neste mês que a piedade dos fiéis vos consagrou
mais generosas do que nunca se abrem as vossas mãos
benfazejas. Distribui entre nós, ó nosso amado Pai, os dons
preciosíssimos da graça celestial da qual sois ecônomo e o
tesoureiro; Deus vos criou para seu primeiro esmoler. Ah! que
nem um só de vossos servos possa dizer que vos invocou em
vão nestes dias.
Que todos venham, que todos se apresentem ante vosso trono
e invoquem vossa intercessão, a fim de viverem e morrerem
santamente, a vosso exemplo nos braços de Jesus e no ósculo
beatíssimo de Maria. Amém.
LADAINHA DE SÃO JOSÉ
Senhor, tende piedade de nós.
Jesus Cristo, tende piedade de nós.
Senhor, tende piedade de nós.
Jesus Cristo, ouvi-nos.
Jesus Cristo, escutai-nos.
Pai Celestial, que sois Deus, tende piedade de nós.
Filho, Redentor do mundo, que sois Deus, tende piedade de
nós.
Espírito Santo, que sois Deus, tende piedade de nós.
Santíssima Trindade, que sois um só Deus, tende piedade de
nós.
Santa Maria, rogai por nós.
São José, rogai por nós.
Ilustre Filho de Davi, rogai por nós.
Luz dos Patriarcas, rogai por nós.
Esposo da mãe de Deus, rogai por nós.
Guarda da puríssima Virgem, rogai por nós.
Sustentador do Filho de Deus, rogai por nós.
Estrênuo defensor de Jesus Cristo, rogai por nós.
Chefe da Sagrada Família, rogai por nós.
José justíssimo, rogai por nós.
José castíssimo, rogai por nós.
José prudentíssimo, rogai por nós.
José fortíssimo, rogai por nós.
José obedientíssimo, rogai por nós.
José fidelíssimo, rogai por nós.
Espelho de paciência, rogai por nós.
Amante da pobreza, rogai por nós.
Modelo dos artistas, rogai por nós.
Honra da vida de família, rogai por nós.
Guarda das virgens, rogai por nós.
Sustentáculo das famílias, rogai por nós.
Alívio dos miseráveis, rogai por nós.
Esperança dos doentes, rogai por nós.
Patrono dos moribundos, rogai por nós.
Terror dos demônios, rogai por nós.
Protetor da Santa Igreja, rogai por nós.
Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, perdoai-
nos, Senhor.
Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, ouvi-nos,
Senhor.
Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, tende
piedade nós.
V. - O Senhor o constituiu dono de sua casa.
R. - E fê-lo príncipe de todas as suas possessões.
ORAÇÃO
Deus, que por vossa inefável Providência vos dignastes eleger
o bem-aventurado São José para Esposo de vossa Mãe
Santíssima concedei-nos, nós vos pedimos, que mereçamos
ter como intercessor no céu aquele a quem veneramos na terra
como nosso Protetor. Vós que viveis e reinais com Deus Padre
na unidade do Espírito Santo. Amém.
JACULATÓRIAS
Amado Jesus, José e Maria, eu vos dou meu coração, alma e
vida minha.
Pai Nosso, Ave Maria e Glória ao Pai.
Amado Jesus, José e Maria, assisti-me na hora da agonia.
Pai Nosso, Ave Maria e Glória ao Pai.
Amado Jesus, José e Maria, fazei que em paz expire na vossa
companhia.
Pai Nosso, Ave Maria e Glória ao Pai.

ME D IT A Ç ÕE S

PRIMEIRO DIA
Oremos para que, em todo o curso deste mês não se .cometa pecado mortal
em nossa família.
São José é o protetor dos meninos
Os meninos lembram ao Santo Patriarca o Divino Jesus em
seus primeiros anos, quando lhe era permitido acariciá-lo,
prestar-lhe toda a sorte de cuidados, desvelar-se mais por ele.
Pequenos, se quereis conservar-vos inocentes, amai o
trabalho, a oração, a recreação sob as vistas paternais de São
José. Figurai este bom velho inclinando-se para vós,
afugentando o demônio, recebendo as vossas petições, e indo
ele mesmo apresentá-las a Jesus que nada recusa a seu Pai
terrestre... Quantas conversões se contam todos os anos, no
mês de Março! Quantos favores particulares obtidos pela
intercessão de São José!
Farei hoje uma relação escrita das graças que desejo obter pelo
patrocínio de São José; eu lhes recordarei todos os dias, e me
obrigarei a algumas pequenas práticas de piedade em sua
honra.
EXEMPLO
Santo Afonso Maria de Liguori fundador da Congregação dos
Missionários do Santo Redentor, teve durante a vida uma
devoção muito particular ao Santíssimo Esposo de Maria. Este
santo Bispo, eminente na piedade e na doutrina, foi
visivelmente suscitado por Deus para, com a austeridade de
seus costumes, confundir a tibieza dos cristãos modernos,
reanimar com seus escritos, o espírito de fé e de fervor a São
José de um modo especial.
Nunca principiava uma carta ou qualquer composição literária,
sem fazê-la preceder das iniciais dos nomes Jesus, Maria,
José; e até as repetia, quando precisava acrescentar alguma
coisa a uma carta já terminada. Compôs e deu à estampa um
eloquente discurso e primorosas meditações, cheias de unção
e de piedade, para as sete quartas- feiras e nove dias
imediatamente precedentes à festa de São José. Trabalhou por
diversos modos na preparação do culto do glorioso Patriarca e
o declarou protetor de sua Congregação.
Inspirem-se todos os cristãos nessa devoção especial do ilustre
Doutor da Santa Igreja.

SEGUNDO DIA
Oremos hoje na intenção de vencer inteiramente ainda o mais leve
movimento de mau humor.
São José era afetuoso para com todos
Como se haviam de amar todos na pequena casa de Nazaré!
Meu Deus, que quadro encantador se apresenta as minhas
vistas! Maria procurando tudo o que pode ser agradável a
Jesus; Jesus como adivinhando tudo o que contentaria à
Virgem Maria; José fazendo tudo o que está em suas forças
para que ninguém sofra! Oh! delicioso interior, que nos seria tão
fácil reproduzir entre nós! Que faremos da nossa faculdade de
amor, se não empregarmos em concorrer para a felicidade
daqueles que nos cercam!
Como vós, hoje, São José, farei tudo o que puder, a fim de que
ninguém sofra.
EXEMPLO
S. Francisco de Sales, diz o Padre Paulo de Barry, foi
admiravelmente devoto de São José. Julgo, escreveu esse
padre, que foi o santo de sua maior devoção; e isto mesmo ouvi
do Padre Barnaud que teve a felicidade de lhe assistir na última
enfermidade. Na véspera de sua ditosa morte, antes que o
houvesse acometido o acesso a que sucumbiu o Padre
Barnaud, de partida para Lião, foi apresentar-lhe as despedidas
e oferecer-lhe os seus serviços e os de todos os padres de
nossa casa de São José. Por única resposta e cumprimento,
disse-lhe o santo Bispo com uma doçura angélica e num tom
cordial: "Oh meu Padre, pois não sabes que estou sempre e
todo com São José?"
Devotos de São José, aprendei nessa lição do grande mestre
na vida espiritual.

TERCEIRO DIA
Oremos para expiar nossas infelicidades às inspirações da graça.
São José era fiel à graça
Ele conhecia que lhe vinha do céu a inspiração, quando se
tratava de causar uma alegria a Jesus, e, por mais que lhe
custasse o que parecia do gosto do Divino Filho, fazia-o
sempre. Não pensemos que a vida de São José tenha corrido
sem abalo e sem sacrifício... Se Deus nos pedisse o que dele
exigiu, compreenderíamos quão meritória foi sua fidelidade.
Também nós sentimos muitas vezes uma voz que nos diz:
Jesus ficaria contente, se procedesse deste modo, se fizesse tal
sacrifício.
Oh! prometemos hoje a São José fazer tudo o que a
consciência nos sugerir para contentar a Jesus.
EXEMPLO
Uma das glórias da missão providencial de Sta. Teresa foi
propagar na Igreja o culto da São José. A ilustre reformadora
do Carmelo colocou todos os seus mosteiros sob a proteção do
santo Patriarca, e mandava que à porta de cada um deles
pusessem a sua imagem. "Eu o tomei por meu advogado e
protetor", escreveu ela, "e não me lembro de lhe ter pedido
nada que não fizesse. É de pasmar a enormidade de graças
que Deus me tem concedido por sua intercessão, e o número
de perigos de alma e do corpo de que me tem livrado. Quisera
persuadir o mundo inteiro a ser devoto deste glorioso Santo
pela grande experiência que tenho dos bens que ele alcança...
Contento-me, porém, de pedir por amor de Deus que o
experimente quem não o crê, e verá por si mesmo que imenso
bem é o recomendar- se o cristão ao glorioso Patriarca a seu
devoto".
Não cessava de advertir a seus religiosos e religiosas que São
José deveria lhes ser sempre o pai, o guia, o superior; e, após
a sua bem-aventurada morte, havendo um prelado da Ordem
mudado em alguns conventos o título de São José pelo de
Santa Teresa, ela apareceu subitamente em Ávila à venerável
M. Isabel de S. Domingos, e indignada lhe intimou: “Dirás ao
Padre Provincial que tire já o meu título aos mosteiros e lhes
restitua o de São José, que tinham antes”.
A exemplo de Santa Teresa de Jesus, invoquemos sempre a
São José.

QUARTO DIA
Oremos pelas pessoas inclinadas à preguiça e à intolerância.
São José trabalhava com amor
Sabia ele que seu trabalho era necessário a Jesus. Que
felicidade poder dizer a cada instante do dia: É para Jesus! É
para Maria! Nosso trabalho também servirá para Jesus, se o
quisermos. Cada linha estudada ou escrita, cada obrigação
cada pequena ação material pode tornar-se, nas mãos do
nosso anjo, a moeda espiritual que ganhará almas para o céu
como o trabalho de José se convertia na moeda que comprava
o pão para Jesus.
Oferecerei hoje todas as minhas orações pela conversão dos
pecadores.
EXEMPLO
Santa Joana de Chantal dedicava a mais terna devoção a São
José. Todos os dias fazia orações particulares diante de um
painel do Santo, concluindo-se com uma recitação do Salmo.
"Laudate Dominum, omnes gentes, do Glória Patri e Ave
Maria," em ação de graças. Estabeleceu que no segundo
domingo de cada mês a comunidade, fizesse a santa
comunhão e uma procissão em honra de São José. Trazia ela
em seu livro das Regras uma pequena gravura representando
Jesus, Maria e José e falando uma vez as suas religiosas
reunidas, lhes disse mostrando, a imagem: "Todos - 1 2 - os
dias antes de dar começo a nossa leitura, beijo os pés a Jesus,
Maria, José". Outro dia, tendo visto um quadro de São José
com o menino Jesus nos braços, mandou logo a uma irmã que
trouxesse uma imagem da Santíssima Virgem para juntar às
outras duas, acrescentando que seu coração não estava
contente nem sua devoção satisfeita, enquanto não via as três
pessoas sacratíssimas reunidas.
C o m o S a n t a J o a n a d e C h a n t a l , pratiquemos nossa
devoção, imitando as virtudes do ínclito Patriarca.

QUINTO DIA
Oremos para expiar os pecadores que ora se cometem.
São José orava com piedade
À tarde, pela manhã, muitas vezes no dia reuniu-se ele com
Jesus e Maria, e juntos diziam suas orações ao bom Deus. . .
Era Jesus quem presidia. . . Maria e José respondiam. Oh!
quanta piedade, modéstia, atenção e felicidade.
Se lá tivéssemos estado, também teríamos orado com fervor...
Não o podemos fazer ainda?
Imaginarei hoje que estou no meio da Sagrada Família,
escutarei a oração como se Jesus a fizesse, assistirei a elas
com reconhecimento, e responderei sem impaciência, nem
precipitação, sem elevar demasiado a voz e sem omitir
nenhuma das palavras indicadas.
EXEMPLO
São Bento José Labre teve, desde tenra infância, uma grande
devoção a São José, de quem foi um dos mais fiéis imitadores.
Humilde e oculto, como seu augusto Patrono, amou de
preferência as privações e os sofrimentos. Professando
voluntariamente a pobreza, contentava-se com os alimentos
mais grosseiros, e do pão que recebia de caridade pública,
reservava a maior parte para outros necessitados. Peregrino
infatigável, percorria a pé as maiores distâncias e não media
perigos e obstáculos para visitar os principais santuários do
mundo, acompanhando nessas pias jornadas os sentimentos
de São José, quando atravessava as ruas de Jerusalém em
busca de Jesus e ia encontrá-lo no templo. Chegado ao termo
de cada peregrinação, passava as noites à porta da igreja e as
horas do dia no interior, ajoelhado no lugar mais retirado e
obscuro, em contínua oração, a escutar a voz de Jesus,
presente no Sacramento eucarístico, e embebido nessa doce
contemplação que era também as delícias do Santo Patriarca
no seu exílio do Egito e na abençoada casinha de Nazaré.
Passou os últimos anos em Roma, e aí morreu em 1783, na
quarta-feira santa, espalhando-se logo por toda a cidade a
notícia de que morrera um Santo. A brevidade com que a Igreja
propôs à veneração dos fiéis e a aceitação que tem tido o culto
do mendigo tão obscuro e desprezado em toda sua vida, é
ainda um traço de semelhança que ele apresenta em relação
ao humilde artista de Nazaré que é hoje o Padroeiro da Igreja
universal.
Imitaremos a São José como o fez São Bento Labre,
procurando, sempre e em toda parte, a presença de Jesus!
SEXTO DIA
Oremos em união com as pessoas do claustro e do século que se
levantam em meio da noite para elevarem suas preces a Deus.
São José era observante do silêncio
Todos os Santos têm amado o silêncio. Duas coisas mais
contribuíam para fazê-lo amar a São José: 1° - sua aplicação
ao trabalho; ele tinha sua tarefa de cada hora marcada e não
se ocupava senão em adiantá-la; 2.° - sua atenção para com
Jesus, que lhe enchia o coração e o espírito. Falar é destruir-
se, e não executar com perfeição possível a tarefa aceita, é
esquecer que se está em presença de Jesus.
Em todas as idades é difícil guardar o silêncio, mas eu vou esta
manhã prestar-lhe uma homenagem, reduzindo-me durante
algum tempo a só falar o que for de absoluta necessidade.
EXEMPLO
Em seu livro - "Manual completo de São José" - narra o Cônego
Bonaccia que, ao ser aprovada no Parlamento subalpino a lei
de supressão das casas religiosas na Itália, um bom e humilde
religioso, orando a São José, queixou-se-lhe com toda a
confiança da sorte que iam ter a sua igreja e seu convento
construído havia pouco num sítio do ducado de Placência, com
um grande auxílio do santo Patriarca. Mas este veio logo
sossegá-lo, lhe aparecendo em sonho, acompanhado da
Santíssima Virgem e de multidão de anjos, que lhe dirigiram
distintamente estas palavras: "Vós não saireis absolutamente."
O religioso, despertando em seguida a visão, sentiu-se calmo
e animado. Sucedeu isto em Julho de 1866, e quando a 31 de
dezembro do mesmo ano, os agentes da força vieram executar
o decreto, em vez de fazerem sair os religiosos, suas palavras
foram estas: "Ficai tranquilos, porque vós, assim como alguns
outros, não saireis." De fato, o fervoroso devoto de São José
com outros seis de seus companheiros ficaram na posse da
igreja e do convento.
Nos dias de vexames e perseguição às instituições religiosas,
roguemos, a São José que lhes venha em socorro.

SÉTIMO DIA
Oremos pelas almas que experimentam muita repugnância em obedecer.
José era dócil a todas as ordens que lhe davam.
Submisso com o príncipe que o chama a Belém, obedece,
lutando com o pesar que lhe causam os sofrimentos de Maria
numa viagem tão longa e penosa! Submisso com o anjo que o
manda para o Egito, obedece, sem consideração do prejuízo,
que sofria em seu trabalho. Deus o quer, dizia ele consigo a
cada ordem recebida, curvemo-nos à sua vontade!
O que nos mandam nunca tem para nós as penosas
consequências que experimentou São José. Como ele,
saibamos dizer: isto me incomoda, me aborrece, me fadiga,
mas Deus o quer; cumpra-se a sua santa vontade!
EXEMPLO
O Beato Hermano de Steinfel, da Ordem dos premonstratos,
foi, desde menino, fervoroso devoto de São José.
Meditava habitualmente nas virtudes do santo Patriarca, e
aplicava-se a reproduzi-las na sua conduta. A Santíssima
Virgem, sensível como é às honras prestadas a seu castíssimo
Esposo, não podia ser indiferente às devotas práticas de
Hermano, e o distinguiu com favores excepcionais.
Reconhecendo o zelo com que procurava imitar a São José,
para que fosse mais viva a semelhança, a Virgem Maria quis
comunicar-lhe alguns traços que não dependiam da vontade do
santo religioso. Numa visão com que o favoreceu, e da qual o
pincel e buril se inspiraram brilhantemente, Maria Santíssima
recomendou a Hermano que a seu nome juntasse também o de
São José; o que ele fez com alegria, chamando-se desde então
Hermano José.
Como o Beato Hermano, sejamos fiéis devotos de São José
para ganhar a proteção particular da Santíssima Virgem.

OITAVO DIA
Oremos pelas almas que se deixam dominar pelo desejo de agradar.
São José era pobre e amava a pobreza.
Amava-a, porque era a condição em que o bom Deus o havia
colocado, e ele queria tudo quanto Deus queria, e depois,
porque, em virtude duma graça particular, compreendia todo o
embaraço, todas as inquietações que causam as riquezas.
Jesus lhe havia dito, em seus colóquios íntimos, que o pobre
que trabalha e se resigna, encontra mais facilmente o caminho
do céu. Amemos, todos nós, a posição em que estamos;
renunciemos a esses desejos de possuir e de aparecer, que
talvez agora sejam ainda pouco imperiosos, porém virão mais
tarde atormentar nosso coração; e se alguma vez faltar-nos
qualquer coisa, oh! quanto é doce então dizer ao bom Deus,
como devia dizê-lo São José: Espero de vossa Providência o
nosso pão para amanhã!
Uma piedosa menina dizia a Deus, falando em nome de seus
pais; "Meus Deus! que tenhamos sempre o necessário, e nada
mais!"
EXEMPLO
O Padre Marchese oratoriano, em sua obra sobre a vida de
Santa Margarida de Cortona, refere que essa ilustre penitente
julgava dever em grande parte à proteção de São José a graça
de sua admirável conversão, invocando-o frequentemente, ela
teve a dita de que o próprio Filho de Deus a louvasse por esta
pia prática, numa dessas revelações prodigiosas com que a
favoreceu.
"A devoção que tens a meu pai adotivo", disse-lhe Jesus, "muito
me compraz; e quero que lhe prestes quotidianamente algum
tributo de honra e de louvor porque ele me é muito caro”. Essas
palavras tanto inflamaram o fervor da serva de Deus, que
amiudou os seus atos de amor e veneração ao Santo Patriarca.
Almas devotas de São José, ouvi como feita a cada um de vós
esta divina exortação.

NONO DIA
Oremos pelas almas que se deixam arrastar ao mal.
São José estava sempre unido a Jesus
Separava-se dele o menos que podia. Era junto de Jesus que
trabalhava e, era junto de Jesus que orava; repousava perto
dele, com ele tomava a sua refeição.
E se alguma vez era forçado a ausentar-se, consigo levava
sempre a imagem do celestial Menino... Também por isso como
eram perfeitas as ações de São José! Quero hoje trabalhar,
orar, repousar, como se estivesse continuamente sob as vistas
de Jesus; então não terei arrebatamento, nem preguiça, nem
desmazelo.
Palavra de vida esta palavra: Jesus me vê.
EXEMPLO
Ó Venerável servo de Deus Aleixo de Vigavano, capuchinho,
foi devotadíssimo a São José durante a vida inteira.
Avizinhando-se a hora da morte, pediu ao irmão enfermeiro que
acendesse algum círios em sua cela; e interrogado para que,
respondeu: "Daqui a instantes, vou receber a visita da Maria
Santíssima e de seu esposo São José; e é preciso recebê-los
com todas as honras." Pouco depois o moribundo avisou aos
assistentes que se ajoelhassem, porque seus dois bem-
aventurados hóspedes chegavam; e logo tomando uma
fisionomia quase celestial, rendeu ao Senhor sua alma
formosíssima e foi assistir à glorificação de seu especial
Protetor de quem a Santa igreja nesse mesmo dia (19 de
Março) fazia a solene comemoração.
Não nos separemos de São José durante a vida, seremos por
ele assistidos à hora da morte.

DÉCIMO DIA
Oremos pelas pessoas que gostam de ser vistas e de se mostrar ao
mundo.
São José levava uma vida oculta
Todos os Santos mais ou menos têm amado a obscuridade.
Que importavam a São José as honras públicas? O sorriso de
aprovação de Jesus o contentava. Que lhe importavam as
vistas e as conversações dos estranhos? A dulcíssima palavra
de Jesus lhe bastava. Para que procuraria eu ser aplaudido em
tudo o que faço? Porque me inquietar de não receber um
louvor, que julgo merecido?
Ó Jesus, concedei-me a graça de procurar agradar no pequeno
trabalho que me é traçado, e de só aspirar à aprovação de
minha consciência!
EXEMPLO
Soror Maria de São José chamava-se a religiosa carmelita que
acompanhou Santa Teresa em quase todas as suas viagens.
Dedicada a São José como todas as religiosas de sua Ordem,
ela o tomou por seu Santo Padroeiro no dia em que professou,
e a Providência quis que residisse habitualmente no primeiro
mosteiro fundado em Ávila sob o nome de São José.
A piedosa carmelita procurava em tudo imitar as virtudes do
Santo Patriarca, e Deus a submeteu a dolorosas provações,
semelhantes às que sofreu na terra o benditíssimo Pai adotivo
de Jesus. Os seus últimos quatro dias de sua vida passaram-
se numa terrível agonia, sem o uso dos sentidos, e portanto
sem a consolação exterior dos socorros espirituais; porém
Soror Maria de São José, tolhida de dar qualquer sinal sensível,
fazia, como o seu santo Padroeiro, atos internos de abandono
à vontade divina, e expirou ditosamente num desses atos.
Sejamos devotos e zelosos e constantes na terra e
partilharemos da glória de São José lá no céu.

UNDÉCIMO DIA
Oremos a fim de que o bom Deus nos perdoe todo o mal que havemos
causado com as nossas murmurações.
São José era todo caridade em suas palavras
Ainda nisto, que cenas edificantes em cada uma das
conversações que, nas horas de repouso, entretinha a Sagrada
Família! Falava-se a respeito do próximo sim, porém, com que
bondade José sabia de um fato doloroso, talvez humilhante.
Como se escusava o culpado, como se reduzia sua falta a um
momento de fraqueza, como se buscavam todos os meios de
fazê-la esquecer, como sempre se orava pelo pobre transviado!
Alguns doutores atribuem a São José o pio costume de coligir
a notícia de todas as ações dignas de louvor e de procurar,
relatando-as, estender o bom conceito dos que as praticavam.
Não posso eu fazer o mesmo todos os dias? Ó São José,
ajudai-me a curar meu espírito de sua tendência para criticar,
para suspeitar, para pensar mal. Ajudai-me a encontrar sempre
razões para desculpar, e a ter satisfação em relatar o bem que
fazem aqueles que me cercam.
EXEMPLO
O Padre Luiz Lallemand, que foi considerado, na Companhia
de Jesus, como a cópia fiel do espírito de Santo Inácio,
escolheu a São José para seu guia, e honrava-o diariamente
com quatro exercícios devotos, dois durante a manhã e dois à
tarde. O primeiro deles era uma elevação mental ao coração de
São José, para meditar na fidelidade com que ele correspondeu
à graça; ato acompanhado do exame da própria consciência, e
ver se fora fiel a Deus. No segundo, considerava como São
José conciliava a prática do recolhimento e da vida interior com
suas ocupações exteriores; e entrava em si a examinar em que,
por esse lado, se afastara de tão Santo modelo. À tarde,
contemplava primeiro São José como Esposo da Santíssima
Virgem, e excitava-se a amá-lo por amor de sua Esposa
Imaculada; e, por último, ponderava as adorações e preitos de
amor e de reconhecimento que São José rendia ao Menino
Jesus, e pedia a graça de imitá-Lo. Nutrindo assim a sua
fervorosa devoção, o Padre Lallemand chegou a adquirir e
inspirar aos outros uma confiança ilimitada em São José.
Peçamos a São José a graça de praticara sua devoção com pia
confiança de ser sempre atendidos.

DUODÉCIMO DIA
Oremos para que as pessoas que temos distinguido com a nossa amizade
sejam ou se tornem bem piedosas.
São José tinha uma ternura toda particular por Jesus.
É que conhecia quem era esse Menino muito amado Jesus
parecia pequeno, fraco e ocultava, sob tais aparências, sua
força, seu poder, sua majestade! Quanto mais José o
contemplava e estudava, mais sentia-se transportado de
admiração diante de tanta bondade para com os homens. Havia
horas em que o santo Patriarca se teria prostrado aos pés da
celeste criança chamando-a seu Deus! outras em que ficava
como aniquilado, sem poder proferir uma palavra; era quando
Jesus dizia: Meu Pai!
Modelo de minhas comunhões, ó São José, comunicai-me
Vosso respeito, Vosso amor, tão terno e tão ardente por Jesus.
. . Eu tenho o mesmo Deus que vós!
EXEMPLO
A Sra. de La Peltrie, cujo nome figura brilhantemente nos fatos
da caridade católica, tendo lido a relação de uma importante
missão que os Padres Jesuítas haviam dado entre os
selvagens do Canadá, sentiu vivos desejos de concorrer
também para a salvação daqueles pobres infiéis. Quando
pensava nos meios de realizar sua intenção, foi atacada de
uma grave moléstia, que os médicos não conheceram e da qual
a desenganaram. Nesse perigo, recorreu a São José e fez voto
de, se recobrasse a saúde, fundar e dotar, à sua custa, uma
casa de educação cristã para as meninas daquela região em
que principiava a ser pregado o Evangelho. Quase
instantaneamente o mal desapareceu, pelo que, perguntando o
médico surpreendido o que é que acontecera, a piedosa
senhora respondeu-lhe espirituosamente: "Doutor, as minhas
dores partiram para o Canadá." Fiel a seu voto, acompanhando
as ursulinas que em 1639 embarcaram para Quebec, mandou
ali edificar um mosteiro em que se recebessem as jovens
canadenses, e veio a ser sua primeira superiora. Teve depois
uma visão em que lhe foi anunciado que São José seria o
protetor especial da Nova-França, o que mais tarde se realizou
por aclamação pública, verificando-se ainda hoje que não há
nenhum país católico em que se celebre com maior solenidade
que ali a festa do Santo Patriarca.
Roguemos a São José pela prosperidade e santificação dos
povos, entre os quais está mais propagado o seu culto. ~ ;

DÉCIMO TERCEIRO DIA


Oremos para que o nosso bom Deus nos inspire desejo de propagar cada
vez mais a devoção a Santíssima Virgem.
São José tinha uma afeição terna por Maria
Amava-a por suas virtudes. "Maria", diz um autor pio, "até nas
mínimas coisas desvelava-se com São José: informava-se de
seus gostos, de suas necessidades, de seu trabalho; velava em
que nada lhe faltasse, estava sempre disposta a lhe fazer a
vontade". O coração de São José compreendia estas
delicadezas e procurava provar-lhe o reconhecimento. Ele
amava a Maria, principalmente porque era Mãe de Jesus!
Não tenho também eu as mesmas razões, para amara Virgem
Mãe...? Ah! se eu procurasse examinar o que Maria faz por
mim, não a encontraria sempre solicita comigo e a me
dispensar cuidados. Não é Ela quem me dá Jesus? Eu também
vos amo, ó Maria, sim, eu Vos amo!
EXEMPLO
O Padre Huguet, religioso marista, foi na segunda metade do
século passado o mais ardente pregador da devoção a São
José. Não há muitas pessoas piedosas que desconhecem as
inúmeras publicações que fez sobre o culto ao Santo Patriarca.
O Padre Ramiére, fundador do "Apostolado da Oração",
escreveu-lhe um dia o seguinte: Se a imprensa é um campo de
batalha, se cada bom livro que encontra aceitação é uma vitória
ganha para causa de Deus, se cada exemplar espalhado na
sociedade é um soldado que continua durante anos a combater
o erro e o vício: eu não sei se haverá na França um Marechal
que comande um exército tão numeroso quanto o vosso, e que
em sua fé de ofício conte tantas campanhas felizes. " Os dois
ilustres religiosos morreram quase ao mesmo tempo em 1884
e um dos companheiros do Padre Huguet, relatando ao
"Mensageiro do Coração de Jesus" a morte do santo sacerdote,
o fez assim: "Como o intrépido apóstolo do Sagrado Coração,
o zeloso propagador do culto de São José, morreu com as
armas na mão! Desde certo tempo o Revmo. Padre Huguet
falava muitas vezes da morte, mas exteriormente nada fazia
prever um fim tão próximo. A19 de fevereiro caiu de cama e, a
21, às 7 horas da manhã, depois de curta e suave agonia,
entregou a alma a Deus. Na véspera, tinha recebido o Santo
Viático e a Extrema-Unção com sentimentos de resignação e
piedade que edificaram todos os assistentes. Depois chamou-
me para junto de si e ditou-me estas palavras: " Tendo tido hoje
a felicidade de receber todos os sacramentos, pedi a Deus pela
Sagrada Família a graça de acabar bem a minha vida conforme
sua divina vontade. Ah! como nestes momentos solenes se
aprecia o favor de ser religioso... filho de Maria... devoto de São
José!...
Invoquemos particularmente a São José em favor de todos os
pregadores do seu culto.

DÉCIMO QUARTO DIA


Oremos pelas pessoas demasiado delicadas que nada querem suportar.
São José foi provado pelos sofrimentos
Jesus não poupou as dores à sua divina Mãe; não devia poupá-
las àquele que chamava seu pai neste mundo... A dor purifica
os culpados e santifica os justos. Meditemos sobre a mais
cruciante de todas: a perda de Jesus ... Perder Jesus, com este
pensamento: Estará, talvez, a esta hora entre as mãos dos que
lhe vão dar a morte! e não o verei mais...E com estrouto ainda
mais terrível! Eu o perdi, talvez por minha culpa! Oh! quem dirá
o que tais pensamentos despertem de angústias num coração
terno, amante e dedicado!... Juntai à dor pessoal de José a
impressão que lhe causam os terrores, as lágrimas, as
apreensões de Maria angustiada. Pobre Pai! chora também ele
e dizia a Deus: "Meu Deus! restituí a Maria o seu Jesus, e tomai
a minha vida!"
Contai com o sofrimento... Mas pedi a São José a graça de não
ter que sofrer a perda de Jesus.
EXEMPLO
Ana Maria Bufet, a piedosa fundadora da peregrinação de São
José da Boa Esperança, vivia numa gruta do rochedo d'Espaly,
ocupando-se na instrução religiosa das crianças e na
assistência aos enfermos, às horas que lhe ficavam da oração.
Esclarecida por uma fé viva, aquilatava o poder e os privilégios
de São José e pressentia o que a devoção viria a ser numa
época de tantos perigos para a família e para a sociedade. O
fervor com que se rezava naquele santuário improvisado,
alcançou da Providência Divina tantas graças extraordinárias
que para ali se estabeleceu uma corrente constante de
peregrinações. Ana Maria teve ainda outras recompensas: viu
juntar-se ao altar do rochedo d'Espaly um belo templo ereto a
São José e a peregrinação à gruta foi enriquecida por Leão XIII
com insignes favores, entre os quais uma indulgência plenária
em todas as festas do Santo Patriarca. Radiante de
contentamento, a santa velhinha dizia repetidas vezes depois
disso: " Não tardo muito a ir ver São José." E depois de alguns
meses de sofrimentos suportados com uma resignação
exemplar, os 82 anos de idade, morreu no ósculo do Senhor,
invocando com alegria o nome do Santo de sua particular
devoção.
Imploremos a bênção e a proteção de São José em favor de
todas as devoções e obras pias, por mais humildes que lhes
seja a origem.

DÉCIMO QUINTO DIA


Oremos para que o bom Deus nos proporcione hoje a ocasião de
dedicarmo-nos por alguém.
São José era dedicado
A dedicação é o dom de si mesmo. Desde o momento em que
se uniu a Maria, José não se pertenceu mais. É todo de Jesus,
todo de Maria! Se é preciso acompanhar Maria à casa de
Isabel, se é preciso conduzi-La a Belém, José está pronto.
Ordenam-lhe a fuga para o Egito: não hesita um instante. Há
de modificar todos os seus planos de conduta, voltar para
Nazaré, quando sua intenção era continuar em Jerusalém;
sempre a mesma dedicação:
Sede o meu modelo, ó São José! Que eu seja tudo, primeiro,
de nosso bom Deus e, depois, do meu dever, da abstinência e
da caridade. Que eu nunca me faça rogar para prestar um
serviço.
EXEMPLO
Um dos mais hábeis pintores da escola francesa estava em
Roma, e havia sido encarregado de fazer um grande quadro
representando a proclamação do dogma da Imaculada
Conceição. Traçado que foi o esboço do importante quadro,
dirigiu-se ao Vaticano a ouvir a opinião de Pio IX. Com todo o
talento e boa vontade, o notável artista procurara agrupar em
redor do trono do Eterno as Miríades de Anjos e Santos que
compõem a Corte Celeste: esmerara-se em sua obra, mas,
ainda assim, receoso, apresentou o desenho ao Papa. Este
logo ao primeiro exame, lhe diz: - "E São José, onde está Ele?
... O artista, mostrando um grupo meio sumido nas nuvens da
glória responde: - "Colocá-lo-ei ali!" "Não", volvei-lhe Pio IX e
apontando um lugar ao lado de Jesus Cristo, diz: "É aí e só aí
que haveis de colocar No céu não é outro o seu lugar, é esse".
Por este simples fato avalia-se a viva devoção de Pontífice ao
Patriarca e o fervor e confiança com que, a 8 de dezembro de
1870, o proclamou Padroeiro da Igreja universal.
Seguindo a pia indicação do imortal Pio IX, honremos e
procuremos São José como o Santo mais vizinho do Filho de
Deus na glória celeste.

DÉCIMO SEXTO DIA


Oremos na intenção de reprimir todos os sinais de mau humor que nos
escapam.
São José tinha habitualmente o sorriso nos lábios.
Só a perda de Jesus podia afligi-lo porque a presença do Filho
de Deus era para ele um manancial inexaurível de felicidade.
Representai José voltando à tarde de um trabalho realizado
longe da família. O sorriso não o deixou: leva consigo a imagem
de Jesus; mas ao regresso que delícia! Maria esperava-o com
essa ansiedade serena e jubilosa de um coração que ama
sempre com um amor novo, Jesus o esperava e corre-lhe ao
encontro, estende-lhe os bracinhos, o seu Pai suspende-o com
ternura, beija-o com respeito e chora de alegria. Eram, cada
dia, novos e inefáveis gozos. José experimentou-os todos os
dias de sua vida: as angústias do Calvário foram reservadas à
Virgem Maria.
Ó Jesus, também eu devo estar sempre contente porque
posso, como São José, possuir- vos pela comunhão todos os
dias da vida.
EXEMPLO
No ano de 1657, na cidade de Anvers, uma religiosa
agostiniana, de nome Isabel, afetada da cruel enfermidade da
pedra, padecia dores atrozes que chegavam a fazê-las perder
os sentidos. Tanto se lhe agravou o estado, que os médicos
perderam a esperança de curá-la. Desenganada dos socorros
humanos, a boa religiosa, a exemplo de Santa
Teresa, recorreu a São José e, fazendo benzer um cordão em
honra desse Santo, o pôs sobre os rins, atando-o à cintura. Não
foi vã a sua confiança: ò mal desapareceu para sempre. Os
Bolandistas em sua obra monumental sobre os "Fatos dos
Santos" consignam este milagre e o dão como autêntico. A
notícia do prodigioso fato propagou-se em muitos países, e a
feliz inspiração de Anvers foi seguida com êxito igual por muitos
devotos. Essa é a origem do cíngulo de São José, distribuído
pelas mais antigas confrarias do Santo Patriarca, e enriquecido
pela Igreja muitas indulgências.

DÉCIMO SÉTIMO DIA


Oremos por todas as pessoas que se ocupam da salvação das almas.
São José era cheio de zelo pela glória de Deus
Não conhecemos pormenores sobre o apostolado de São José,
mas pode-se afirmar que não deixava passar ocasião de falar
de Jesus. Há quem se esqueça um instante daqueles a quem
ama? "Sua estada no Egito", diz um autor, "foi ocasião de
numerosas conversões." "o verdadeiro Deus não é conhecido!"
dizia a Virgem Maria, e ei-los um e outro, primeiro a orarem com
fervor depois, atraindo todos a si com delicadeza e afabilidade,
e logo explicando os mistérios da fé, indiferentes às repulsas e
aos desprezos que algumas vezes sofriam!
Exemplo para nós! Custa pouco dizer uma boa palavra, um
conceito piedoso... Talvez que a alma, sobre 9 qual cairá essa
palavra só esperasse este impulso para se render a Deus. Oh!
digamos todos os dias alguma coisa do nosso bom Deus. t
EXEMPLO
Durante o verão do ano de 1862, uma enfermidade epidêmica
assolou a cidade de Chambery, fazendo inúmeras vítimas.
Temeroso do flagelo que ameaçava-lhes as ovelhas, o zeloso
pastor da paróquia de São Pedro convoca os fiéis à Igreja e
exorta-os vivamente a se colocarem, naquelas graves
circunstâncias, debaixo da proteção da Virgem Maria e de São
José. Em sete domingos consecutivos fizeram-se piedosos
exercícios em honra da Mãe de Deus e de seu puríssimo
Esposo, acudindo a multidão compacta: e o Senhor atendeu
visivelmente àquela poderosa meditação. Durou o flagelo cerca
de três meses, mas, (coisa inaudita!) nessa freguesia, cuja,
população era já superior a três mil almas, não houve nesse
período "uma só morte" ao passo que os sinos das outras
igrejas dobravam frequentemente a finados, os de São Pedro
só tiveram ocasião de se fazer ouvir em sons festivos
anunciando os ofícios religiosos ou os casamentos e batizados.
Com isso ainda mais se propagou entre esse bom povo a
devoção a São José e, em quaisquer perigos, todos o
procuraram com ilimitada confiança.
Nos dias das calamidades públicas, invoquemos, de modo
particular, o patrocínio de São José.
DÉCIMO OITAVO DIA
Oremos pelas pessoas que são muito susceptíveis
São José era paciente
Paciente em sua pobreza habitual que lhe havia de ser penosa,
porque o impedia de prestar a Jesus o conforto que seu coração
desejava proporcionar-lhe. . . Não se lastimava disso. Paciente
em seu trabalho de todos os dias que para ele, como para
todos, devia ter suas horas de monotonia, de fadiga e de
fastídio: nunca o deixava.
Duas lições importantes: contra os acidentes ou males de
nossa condição, sejamos pacientes para minorá-los; contra o
tédio de nosso trabalho, revistamo-nos de mais firmeza, de
mais constância: Deus contará os nossos esforços . . . Farei
hoje um ato de abandono à Providência.
EXEMPLO
Um padre da Companhia de Jesus, em Outubro de 1867,
publicou o seguinte: " Estando iminente a invasão dos
garibaldinos, seis dos nossos religiosos conduziram os
colegiais de Tívoli para Roma, e onze ficaram em Tívoli onde
se acharam durante oito dias com os garibaldinos. Fizeram o
voto de celebrar o Tríduo solene em honra de São José, se
nada sofressem. O inimigo ocupou todas as casas religiosas,
menos a nossa. Os garibaldinos dormiam então em cima de
palha, acontecendo que as nossas "classes" estavam cheia de
bons leitos dos zuavos pontíficios que tínhamos alojado um
pouco antes. Não nos impuseram contribuição, fizeram-nos
uma só visita, e até um deles, entrando em nossa igreja,
ofereceu ao Padre Reitor um livro apanhado na biblioteca do
Seminário. Só na manhã última é que nos fizeram uma
requisição de quatro barris de vinho, que foram postos à sua
disposição mas, à notícia de primeira derrota de Mentona, se
retiraram, deixando os barris ainda intactos. O Padre veio com
uma deputação de três alunos juntar-se a nós para o
encerramento do tríduo solene celebrado em honra de São
José. A notícia de nossa preservação causou admiração geral
em Roma, e o Santo Padre se dignou conceder, por um breve
em pergaminho, uma indulgência plenária para o nosso Tríduo
"ad perpetuam rei memoriam."
Seja o Santo Patriarca o defensor de nossas pessoas e de
nossos bens contra todas as conspirações e ataques dos
injustos e dos maus.

DÉCIMO NONO DIA


Oremos em união com Jesus, Maria, José orando em Nazaré.
São José foi sempre inocente
Foi purificado antes do seu nascimento1, e Deus, que o
destinara para companheiro da Virgem Maria, inspirou-Lhe o
mais escrupuloso cuidado da pureza de sua alma. Ele amou o
retiro e a oração: passou uma vida laboriosa e assaltada de
apreensões: submeteu-se inteiramente à vontade de outros, e
quase nunca separou-se de Jesus e de Maria.
Estes meios estão ao meu alcance... Eu vos confio minha
inocência, ó São José! rodeia-a do retiro, da oração, do
trabalho, da obediência; e neste pequeno santuário que lhe
tiverdes construído, onde não penetrarão as alegrias nem os
prazeres do mundo, fazei uma habitação para Jesus e para
Maria. Eu vo-lo peço por vossa festa, em recompensa da minha
comunhão e meu favor de hoje. Recitarei devotamento uma
oração a São José.

1 Não é isto uma doutrina da Igreja, mas apenas crença pia, aceita e propugnada por S.
Crisóstomo, Teófilo, Gérson, P. Câncio e outros teólogos que o Dr. Pedro Morais cita em seu
comentário sobre o primeiro capítulo do Evangelho de S. Mateus, 1.°tomo, pags. 214 a 219.
Nota do Tradutor.
EXEMPLO
Um missionário marista deu à publicidade, nas colunas do
"Propagador da devoção de São José", a seguinte narrativa
que lhe foi feita pela superiora das irmãzinhas dos Pobres:
"O estabelecimento fundado por essa congregação em Roanne
devia dois mil francos de reparos indispensáveis feitos na casa
e na capela. Aproximava-se a época do pagamento, e a Irmã
ecônoma não tinha nada em caixa; vivia-se, como de costume,
possuindo cada manhã só o preciso para aquele dia, e
confiando sempre na Providência que abre a cada instante as
mãos benfazejas para acudir às criaturas. Fazia pouco tempo
que se havia recorrido aos da Obra dos Velhos. Para onde
recorrer agora? Não é muito difícil encontrar todos os dias
algumas migalhas para dar de comer aos pobres; porém outra
coisa é, em tempos tão críticos, obter por esmola dois mil
francos.
"Só São José nos livrará do embaraço", dizem entre si as Irmãs,
" vamos imediatamente fazer-lhe uma novena para implorar o
seu socorro ". E depõem uma petição aos pés da veneranda
imagem do Chefe da Sagrada Família. Não era ainda terminada
a novena, quando veio alguém dizer à Irmã Superiora que uma
senhora que estava de passagem em Roanne, e que caíra
enferma no hotel, lhe desejava falar. A irmã não se demora em
acudir e encontra uma senhora presa ao leito por moléstia."
Minha Irmã," lhe disse ela, " mandei pedir-lhe que viesse cá,
para lhe perguntar se recebeis qualquer esmola que vos
deem?" -" Como não receber, e até com reconhecimento? Esse
é o nosso único recurso! Então a senhora tirou de sob o
travesseiro uma bolsa e entregou à Irmã, recomendando-se
muito a suas orações.
A superiora aceitou com reconhecimento a oferta, e foi grande
sua comoção, quando, chegando à casa, ao contar o dinheiro
que a Providência lhe enviara, achou exatamente os dois mil
francos de que precisaria no dia seguinte.
Nas maiores dificuldades da vida, coragem e recurso ao
valimento do glorioso São José!
VIGÉSIMO DIA
Oremos por todas as pessoas que nos têm hostilizado e a quem não
amamos.
São José sofreu muitas vezes contrariedades e perseguições.
Os homens são sempre os mesmos: em todo o tempo,
censuram tudo o que não é o que eles praticam. José, modesto
em seu porte, reservado no falar, cheio de ordem em sua vida
privada, ouvia, por certo, muitas palavras zombeteiras, acres e
más: ele oferecia esses dissabores a Deus e continuava em
sua vida regular e pobre. No exílio, tratado como estrangeiro,
invejado, talvez, por sua aplicação ao trabalho e pela
prosperidade com que Deus o abençoava, teve de
experimentar tudo o que a injustiça tem de pungente para um
coração reto: pedia a Deus por seus inimigos e prosseguia sua
vida laboriosa e exemplar.
Tereis as vossas honras de perseguição; talvez tenhais já
sentido quanto é desagradável não ser querido por todos...
Meus filhos, como São José, orai, suportai, e que nada vos
afaste de vosso dever!
EXEMPLO
Duas senhoras, católicas mãe e filha residentes em Londres,
rezavam frequentemente juntas o Rosário com o fim de
obterem a conversão do chefe da família, homem ilustrado e
honesto, porém indiferente à religião e contrário aos católicos,
de quem combatia as crenças, e aos quais chamava idolatras
pelo culto que rendiam à SS. Virgem e aos Santos. Em Março
de 1862, as enfermidades desse cavalheiro, já octogenário,
agravaram-se consideravelmente, fazendo recear morte
próxima, sem a mínima esperança de conversão. Os zelosos
missionários a serviço da capela católica de bairro não
ousavam mais falar-lhe de seu estado, e até diminuíram as
visitas, para não o irritarem, porém, aconselharam a sua
piedosa filha que recorresse a São José. Imagine-se que geral
surpresa, quando pouco depois da meia-noite, ele se pôs a
recitar em voz alta a "Ave Maria", tão corretamente como um
católico e com uma unção que não se podia esperar de quem
estava sofrendo tanto. Repetiu muitas vezes essa oração até
cerca de cinco horas da manhã, pediu então com instância um
padre católico, e este apressou-se a vir completar o que a Santa
Virgem e São José haviam com tanta misericórdia começado.
O enfermo fez com a maior - 40 ~ calma sua confissão, e às
cinco horas da tarde abjurou os seus erros, tudo no próprio dia
do Patrocínio de São José.
Roguemos ao Padroeiro da Santa Igreja, por todas as vítimas
dos erros e das dúvidas contra a fé.

VIGÉSIMO PRIMEIRO DIA


Oremos em união com o nosso anjo da guarda incumbido por Deus de
proteger-nos.
São José teve sempre confiança em Deus
Dificilmente faremos uma ideia de diversas crises pelas quais
as providências fez passar São José . . . Repelido em Belém e
não encontrando um abrigo para a Virgem Maria, que via
fatigada; perseguido por Heródes e vendo, a cada instante, os
soldados prestes a imolarem o Menino Jesus, abandonado por
todos no exílio, trabalhando para ganhar o pão do dia e sem
saber se poderia oferecer à sua família o pão do dia seguinte .
. . Quando se consideram estas situações, vê-se, ao mesmo
tempo, o santo varão conservar sempre um sorriso, oh! é
impossível deixar de admirá-lo ... I É que ele contava sempre
convosco, ó meu Deus!
Ó São José, ensinai-me a dizer o que repetidamente dizeis
àqueles que se admiraram talvez, de vossa tranquilidade:
"Faço o que posso, Deus proverá a tudo!"
EXEMPLO
Achava-se, em 1862, no hospital de Croix- Rouge em Lião, um
militar reformado, que não só se afastara de toda a prática
religiosa, mas era até um ímpio. Nascido na pior época da
história da França, não fora educado em bons princípios; e
tendo feito, sob o primeiro imperador, a guerra da Espanha,
tomara para com seus camaradas nos últimos sacrilégios de
que fora teatro esse desditoso país. O infeliz não queria ouvir
falar de padres, e tinha horror aos religiosos.
Entretanto, Deus, em sua misericórdia, lhe dera uma filha muito
piedosa que se afligia profundamente de ver o pobre pai em tão
deploráveis disposições. Todos os dias pedia a Deus a
conversão dessa alma que cada vez mais dele se afastava.
Não confiando na eficácia de suas orações, conjurava todas as
pessoas piedosas do seu conhecimento a se unirem com ela
para conseguir este milagre de conversão. Um dia uma fiel
serva de São José, a quem ela comunicara a sua mágoa, teve
a feliz inspiração de mandar a todas as irmãs que serviam no
hospital em que se achava o pobre pecador, um exemplar da
devoção aos sete domingos "consagrados a honrar as dores e
as alegrias de São José," pedindo-lhes que fizesse este santo
exercício na intenção do velho militar. Durante esse tempo, a
filha redobrou de fervor junto a Jesus, Maria, José. O pecador
obstinado rendeu-se à divina graça: depois de ter vivido quase
meio século afastado dos sacramentos, confessou-se com
vivos sinais de contrição, e sua filha, coroada em seus mais
ardentes desejos teve a dita de acompanhá-lo à santa Mesa na
festa das Dores da Santíssima Virgem. Desde essa hora feliz,
o velho transformou- se completamente; sua conduta não é
mais a mesma, e a boa filha não cessa de bendizer por isso e
agradecera São José.
N ã o c e s s e m o s d e r e c o m e n d a r à intercessão de São
José a conversão dos pecadores e a perseverança dos fiéis.
VIGÉSIMO SEGUNDO DIA
Oremos pedindo a Deus a fidelidade em referir-lhe todas as nossas ações.
São José santificava-se cada dia mais
A vida de São José foi a vida comum que três palavras podem
resumir: pobreza, provações, trabalho. Foi com esses
elementos que se fez um Santo.
Sofreu com paciência, orou constantemente, tudo referiu a
Deus, e bastou-lhe isto para exceder em santidade, dizem os
doutores, os Santos do céu.
Em minha condição presente, na condição que Deus me
reserva no futuro, hei-de achar sempre a possibilidade e até a
felicidade de me tornar um Santo Ó São José! Fazei-me
compreender bem o valor destas três palavras: Resignação -
Trabalho - Pensamento em Deus.
EXEMPLO
O Padre Caubert, cura de Chalindrey, no Alto Marne, refere
que, em junho de 1867, rebentou um grande incêndio em sua
freguesia sendo presa das chamas quatorze casas. Quando o
fogo, parecia querer devorar tudo, e já a flecha do campanário
principiava a arder um homem de viva fé, jogou uma medalha
de São José no meio das labaredas. Imediatamente o vento
mudou, e o incêndio voraz se extinguiu poupando até uma casa
coberta de "colmo" que as chamas já atingiam.
"Os homens sem crença", escreveu o citado sacerdote,
noticiando o fato na imprensa religiosa, não sabem explicar o
prodígio; porém, todos os cristãos viram claramente no ocorrido
a proteção de São José.
Peçamos a São José que nos defenda e o que é nosso contra
todos os elementos da destruição.
VIGÉSIMO TERCEIRO DIA
Oremos pedindo perdão de nossas dissipações.
São José vivia no recolhimento
Recolher-se é ocupar-se em ver a Deus no íntimo da
consciência e esforçar-se por não deixá-lo só, oferecendo-lhe
tudo o que se faz: São José avançava todos os dias nesta vida
de união interior com Deus; nunca se julgava só e se lhe
houvessem perguntado alguma vez: em que pensais? Ele teria
respondido sempre em Deus. Felizes as almas que, à força de
atenção sobre si mesmas, vivem esta vida preciosa!...
Acostumai-vos a isto, e destinai hoje alguns minutos que
empregareis todos em contemplar a Deus habitando em vossa
alma como numa mansão que lhe pertence. Não consintais
nada nessa alma que ofenda-lhe as vistas e o force a queixar-
se de vós.
EXEMPLO
"O Propagador da Devoção a São José," em seu número de
Outubro de 1871, publicou a seguinte comunicação que lhe foi
dirigida por um grupo de pessoas piedosas residentes em Nice,
costa do sul da França.
"É com o maior contentamento que vimos hoje satisfazer uma
dívida de gratidão contraída com São José Este poderoso
Protetor nos valeu de um modo evidente. Durante a guerra
contra a Prússia, quando era geral a consternação e as famílias
viviam na ansiedade e na angústia, muitos de nós não tinham
um instante de sossego: estavam nas fileiras do exército irmãos
e sobrinhos nossos, expostos ao ferro e ao fogo dos
prussianos. Estabelecemos uma liga de orações em honra de
São José, prometendo que, se os nossos parentes, em número
de dezesseis, que se achavam então em presença do inimigo,
voltassem todos sãos e salvos, nós daríamos publicidade ao
fato e nos empenharíamos cada vez mais na propagação do
culto de São José. O Santo Patriarca ouviu os nossos rogos:
"Nenhum dos nossos parentes que tomaram parte na
campanha, sofreu o mais leve ferimento."
Confiemos a São José o cuidado de guardar os nossos irmãos
contra os golpes de seus inimigos.

VIGÉSIMO QUARTO DIA


Oremos em união com as pessoas que fazem devotamento o mês de São
José.
São José vivia no fervor
Ser fervoroso é aspirar, ser cada vez mais santo, é querer fazer
mais hoje do que se fez ontem, mais hoje à tarde do que esta
manhã. É procurar sempre aumentar, senão a tarefa, a atenção
ligada à ela, o cuidado em executá-la ... O fervor é a vida, a
marcha da alma para o céu. Não compreendeis que devia ser
esta toda a aplicação de São José? ... Agradar a Jesus, a Maria:
fazer hoje por eles alguma coisa mais do que ontem.
Não é assim que tendes visto o amor de vossa mãe por vós?
Fazei assim por Jesus, por vossos amigos, por vossa alma!
Como o bom Deus há de sorrir aos vossos esforços!
EXEMPLO
Nas mais críticas ocasiões, combatamos o desânimo,
invocando o Santo Patriarca!
VIGÉSIMO QUINTO DIA
Oremos hoje para que Deus nos guarde de pensar mal de outrem.
São José vivia na humildade
Trabalhava para contentar a Jesus e a Maria: muitas vezes
algum deles com um benévolo sorriso lhe agradecia e então
José, todo venturoso, bendizia a Deus pelo prêmio que lhe
dava. - A humildade é isto. - Ser humilde não é dizer em toda a
parte que nada se faz de bom, mas é atribuir a Deus as nossas
vantagens e elevar sempre a ele os elogios que nos dirigem ...
O que pondereis fazer de útil, sem o socorro de Deus? . . .
Nada. Vossa inteligência, vossos órgãos, tudo vos é dado por
Ele...
Oh! se algures sois estimado, louvado, recompensado, alegrai-
vos, com razão, mas como José, dizei: Graças ao bom Deus!
Acostumai-vos a tudo referir a Deus... Que manancial de paz,
quando somos advertidos ou censurados!. . . Tem-se pesar,
mas não se sente perturbação e diz-se: Procederei melhor
daqui em diante, porque escutarei mais a Deus.
Recitarei hoje com fervor o meu terço em honra da Anunciação
da Santíssima Virgem.
EXEMPLO
A 25 de Junho de 1868, cerca das 7 horas da manhã uma
violenta borrasca desabou sobre a cidade de Fermo na Itália.
Uma das várias faíscas elétricas que nessa ocasião caíram
penetrando no andar superior do palácio de um conde, pelos
cordões das campanhas, desceu ao pavimento inferior,
percorreu salas e chegou até a alcova em que o nobre dormia.
Passado o momento do pânico ouviram-se gritos do dono da
casa que clamava: "Milagre! Milagre!". O raio não só não havia
ofendido a ninguém, mas, sem deixar vestígios de sua
passagem na alcova, desaparecera por detrás de um quadro
de São José, suspenso na parede, ao lado do leito. Dera-se, na
véspera à noite, uma circunstância que parecia explicar de
algum modo o prodígio. O fidalgo tinha o costume de recitar às
quartas-feiras os Salmos de São José e naquele dia se
recolhera sem o fazer deixando a sua devoção para o dia
seguinte: mas, custando a conciliar o sono, ergueu-se, acendeu
a luz e naquela mesma hora rezou. Na manhã seguinte, logo
ao despertar, tinha aquele vivo testemunho da proteção
especial que lhe dispensava o seu Santo predileto.
Supliquemos a São José que nos defenda contra todo o perigo
de morte violenta.

VIGÉSIMO SEXTO DIA


Oremos para que todas as nossas ações se inspirem no amor de Deus.
São José era de uma justiça e de uma probidade perfeita.
É raro, em verdade, querer-se enganar formalmente, mas há
pequenas fraudes que se cometem comumente sem
escrúpulos e sem remorsos, quer em conselhos que se dão
com egoísmo, sem considerar se prejudicarão a outros; quer no
uso das coisas alheias, sem a permissão de seus donos; quer
na falta de cuidado com objetos que se obtém por empréstimo
e que, por nossa negligência, se arruínam e muitas vezes se
extraviam! São José, em suas relações com o próximo, era de
uma probidade escrupulosa! Acostumai-vos a respeitar o que
não é vosso.
Pouco é pouco, sem dúvida, mas a justiça é delicada e clama
sempre que ofendida.
EXEMPLO
Um moço da cidade de Turim que não tinha nenhum principio
religioso, comprando uma vez um pouco de rapé
distraidamente pôs-se a ler o papel em que este fora envolvido;
era uma oração a São José para obter a graça de uma boa
morte. Essa oração, que mal compreendia, despertou-lhe certo
interesse e tocou-lhe o coração. A cada instante voltava à sua
leitura. Os camaradas, excitados pela curiosidade, queriam
tomar-lhe das mãos aquela folha para ver o que continha mas
o moço a escondeu e entrou de novo a divertir-se com eles.
Sentia, porém um desejo ardente de tornar a ler a pequenina
oração, que de princípio lhe causara uma impressão indizível;
e assim logo que o deixaram só, volveu à leitura, e tantas vezes
a fez que acabou por aprendê-la de cor e repeti-la por hábito.
São José não foi insensível a esta homenagem, embora quase
involuntária: moveu de tal sorte o coração deste moço, que por
si mesmo procurou um sacerdote que o instruísse na religião e,
conduzido ao serviço de Deus, nele perseverou até a morte.
Roguemos a São José que cerque de bons exemplos e santas
inspirações todos os seus devotos, para que eles o glorifiquem
no tempo e na eternidade.

VIGÉSIMO SÉTIMO DIA


Oremos para que Deus nos perdoe todas as nossas suspeitas sobre o
próximo.
São José procedia com simplicidade
Ele via as coisas como elas se apresentavam, não indagando
nunca se traziam alguma intenção má que lhe houvessem
querido ocultar. Em Belém, por exemplo diziam-lhe: "Não
temos lugar para receber-vos." E, se lhe vinha o pensamento
de que o repeliam por ser pobre, ele não o acreditava e repetia
simplesmente: "Não tem lugar!"
Em Nazaré, quantas coisas feitas por Jesus e Maria, cujo
motivo não descortinava! Seguia tudo com inteira confiança
dizendo consigo: Jesus e Maria não podem fazer nem querer o
mal. - Quanta calma, quanta felicidade traria à nossa alma este
modo de pensar!
Eu vo-lo peço, ó São José, concedei-me a graça de me abster
sempre de julgar aqueles a quem não devo julgar, e de nunca
procurar intenções más nos atos alheios.
EXEMPLO
"Os Anais de Nossa Senhora do Sagrado Coração", em seu
número de Março de 1870, narram o seguinte: "Um homem de
boa posição na sociedade foi atacado de um mal que a
medicina julgou incurável. Tinha um tumor canceroso debaixo
da língua, e os profissionais declararam impraticável a
operação.
Era, portanto inevitável a morte e morte dolorosa e terrível. O
enfermo, que era homem de fé, teve a ideia de fazer uma
novena a São José antes da festa deste Santo. Dez vezes por
dia ele exclamava: "São José, Amigo do Sagrado Coração de
Jesus, rogai por mim". E ainda não terminara a dita novena,
durante a qual suspendeu o uso dos remédios, já a cura se
manifestava. O tumor havia desaparecido contra as previsões
dos médicos. O privilegiado comungou em ação de graças no
próprio altar de São José "Amigo do Sagrado Coração," em
Isoudum, e aí deixou um ex-voto como penhor de seu
reconhecimento.
Encomendemo-nos a São José para que ele nos preserve de
toda a corrupção de alma e do corpo.

VIGÉSIMO OITAVO DIA


Oremos, pedindo a graça de evitar a precipitação.
São José era Prudente
A prudência não destrói a simplicidade nem a retidão: é uma
trincheira em defesa duma e doutra. - São José não estreitava
amizade com todos: experimentava, observava antes de abrir
o coração. - São José contava com a Providência, mas sabia -
53 - que ela só intervém, quando se tem feito por si tudo o que
se pode, e havia-se como se tudo dele dependesse. - São José
sentia-se protegido por Jesus e Maria, mas evitava toda a
ocasião, do mal, considerando que Deus, não faz milagres por
aqueles, que se expõem voluntariamente. Três coisas nas
quais preciso imitar-vos, ó São José: a escolha de meus
amigos, a assiduidade em meu trabalho a fuga das ocasiões.
Velarei sobre mim, invocar-vos-ei para que sempre me
ampareis.
EXEMPLO
A19 de Março de 1870, numa pequena cidade de Itália, em
consequência de uma desgraça que se dera na família, um
moço de trinta e três anos foi acometido de tão viva dor e
tamanha exaltação mental, que resolveu pôr termo a própria
vida e, para esse fim, disparou um tiro de pistola sobre o
coração. Ao golpe sinistro, caiu o infeliz banhado em sangue,
porém ainda vivo, e, em vez de arrepender-se e implorar
socorro, pedia que acabassem de matá-lo quanto antes. São
assim esses pretendidos espíritos fortes; não podem suportar
um instante de adversidade e diante da tribulação facilmente
desesperam e sucumbem. O triste acontecimento consternou
profundamente a família da qual as pessoas mais piedosas
logo se lembraram de recorrer ao valimento do grande Santo
que a Igreja festejava nesse dia. Muitas e fervorosas orações
foram dirigidas ao santo Patriarca e este as ouviu
favoravelmente. De fato depois de dez horas de terríveis
convulsões ocasionadas pela ferida, o moço recobrou a
serenidade de espírito, pediu publicamente perdão do crime
cometido, e mostrou desejos de confessar-se e receber o
sagrado Viático. Enquanto se rezava a São José, o poderoso
Santo havia falado ao coração do infeliz e o transformara. Uma
crise ameaçadora ainda esteve a impedir que recebesse o
Santíssimo Sacramento, mas São José venceu também esse
obstáculo. O moço pôde comungar, e passou a última hora de
sua vida a abraçar e oscular o crucifixo, dando exemplo
admiráveis de resignação e de calma preparação para a morte.
Entre os presente não houve quem não atribuísse à mediação
de São José tão consoladora conversão.
Nas mais dolorosas provações, invocando o Santo Patriarca,
supliquemos a graça de imitá-lo em sua plena conformidade à
vontade divina.
VIGÉSIMO NONO DIA
Oremos para que Deus nos faça generosos, sempre na intenção de
agradar-lhe.
São José dava com abundância
Dar aos pobres é aproximar-se de Deus. Oh! Como se havia de
praticar a esmola na casinha de Nazaré! Não era do supérfluo
que se dava, mas do necessário em que se faziam cortes, todos
os dias. Quando, ao fim do dia, chegava a hora do repouso:
"Ainda um pouco de trabalho pelos pobres!" Dizia Jesus e José
voltava a faina, ajudado por Jesus e Maria; e depois desse labor
suportado com alegria, repousavam todos mais felizes,
pensando em que, no dia seguinte, os pobres, teriam um
quinhão maior.
Se tendes pouco, daí pouco; se tendes muito, dai muito, mas
daí sempre, depositais a juros, para o céu, tudo o que distribuis
entre os pobres.
Darei hoje as esmolas que puder, ainda que para isso seja
preciso privar-me de alguma coisa.
EXEMPLO
"Ó Propagador da devoção a São José,” em seu fascículo de
Julho de 1886, publica a seguinte comunicação:
"Uma piedosa senhora tinha em seu gabinete uma imagem do
Santo Patriarca e, dedicando-lhe muita devoção, não saia de
casa sem fazer-lhe alguma oração ou dizer-lhe ao menos,
quando não dispunha de mais tempo: "Meu bom São José,
abençoai-me e guardai esta casa!" Em Agosto de 1885, em sua
ausência, um malfeitor, quebrando as vidraças da janela,
penetrou no interior e foi até a alcova. Armário, gavetas,
pequenas caixas, tudo foi revolvido. Chegando, porém, ao
guarda-roupa que estava entreaberto e que também foi
visitado, não tocou numa caixa de chapéu onde a senhora
deixara naquele dia perto de 700 francos as suas economias
de alguns anos. Malogrado em seus cálculos e impacientes
retira-se e entra do mesmo modo em casa de um professor,
onde arromba um cofre fechado e rouba 760 francos. Certa de
que devia a conservação de seu pecúlio a São José, que assim
1
justificava a grande confiança com que era invocado a
fervorosa devota vinha dar um público testemunho de seu
reconhecimento em honra do Santo Patriarca e remeteu uma
pequena esmola para auxílio da obra de resgastes dos
escravos nas terras da África."
Roguemos a São José que nos guarde sempre contra as
ciladas e assaltos de quaisquer inimigos desconhecidos e
ocultos.

TRIGÉSIMO DIA
Oremos por nossos benfeitores, a fim de que Deus lhes retribua todo o
bem que nos fazem.
São José era reconhecido
O santo Patriarca se havia habituado a ver a mão benfazeja do
Senhor abrir-se a cada instante para dar-lhe alguma cousa. A
luz de que gozava, o ar que respirava, o pão que ganhava, as
forças que possuía; sabia que tudo isso vinha de Deus, e lhe
agradecia a todo instante. Essa elevação incessante de seu
coração reconhecido conservava-o numa alegria contínua. . . -
Como ele, não recebemos nós tudo de Deus? Oh! se os nossos
olhos se abrissem, como abrir-se-ão no céu, veríamos a
Providência atenta em nos assegurar o bem estar, a paz, a
alegria ... Demos-lhe graças hoje e não lhe desagrademos em
coisa alguma.
Ousaríamos cometer uma falta no momento mesmo em que
Deus nos faz tanto bem?
EXEMPLO
Nos dias nefastos em que Napoleão I perseguiu a Igreja e teve
prisioneiro o Sumo Pontífice Pio VI, decretou-se, entre outras
coisas, que a igreja de São José, chamada da "Scala," na
cidade de Lucca, fosse demolida. Um pedreiro ímpio, ao seguir
com outros para a dita igreja, a executar o indigno decreto disse
mofando: "Vou agora fazer a barba a São José". E escalando
as paredes já fendidas do templo, começou a obra da
destruição, descarregando fortes pancadas que repercutiam
dolorosamente no coração dos fiéis que a curiosidade e o
assombro tinham atraído. Uma pequena trave, de cuja
extremidade saía um grande prego pontiagudo, se desprendeu
e caiu do teto já abalado; e o prego foi cravar-se violentamente
na cabeça do desgraçado sacrílego, que veio ao chão e foi logo
um cadáver.
Ofereçamos homenagens e reparações a São José por todas
as irreverências e desacatos cometidos contra a sua santa
imagem.

TRIGÉSIMO PRIMEIRO DIA


Oremos para que nos conceda uma grande devoção a São José.
São José estava constantemente ocupado.
Os Santos têm sempre alguma coisa a fazer e fazem-na sem
precipitação e também sem indolência. Feliz por ter de ganhar
todos os dias o pão de Jesus e de Maria, José não teria
perdoado a si a mínima perda de tempo e este pensamento:
Eles não teriam o que precisam, ativava-lhe a coragem e
dobrava-lhe as forças. A morte o surpreendeu no trabalho e
morreu, com o sorriso nos lábios escutando estas palavras de
Jesus: "Empregaste bem a tua jornada: vai servo bom e fiel, vai
repousar!"
Ó Jesus, assisti-me na hora da minha morte e dizei-me, como
a José, essas dulcíssimas palavras de esperança que me
esforçarei por merecer, empregando em vossa glória os dias
que me concederdes.
EXEMPLO
A 26 de Janeiro de 1856, deu entrada no hospital das religiosas
de São Carlos de Virieux-Pelussin, no Loire, uma moça, em
estado quase mortal; perdera o uso de todos os membros e de
todas as faculdades físicas. Dispensaram-lhe todos os
cuidados e depois de oito dias de cruéis sofrimentos,
manifestou pequena melhora porém continuava ainda surda e
muda. Veio nesse Ínterim o mês de São José, e a jovem o fez
com as outras enfermas. No derradeiro dia, após a oração
habitual e no meio do mais profundo silêncio, quando se
passava a recitar a ladainha de São José, ouviu-se a jovem
enferma agradecer e invocar a São José lastimando não tê-lo
conhecido por tanto tempo. Repentinamente abre os olhos e
diz: "Ó, meu Deus, eu vejo!" E, um instante depois, exclama:
"eu ouço!" Recobrava sucessivamente o uso dos sentidos.
Toda a casa acudiu aos gritos de surpresa e alegria que
soltaram as pessoas presentes: "Milagre! Milagre!" Dois dias
depois, a doente levantou-se perfeitamente curada.
Roguemos todos os dias ao nosso glorioso Protetor que os
nossos olhos nunca se fechem à luz da divina graça, e que os
nossos ouvidos se abrem dóceis às palavras de vida e de
salvação!
COROASINHA
Em honra das sete dores e dos sete gozos de São José.
I. Ó Esposo puríssimo de Maria Santíssima, glorioso São José,
assim como foi grande a amargura e angústia do vosso coração
na perplexidade de abandonardes vossa castíssima Esposa,
assim foi inexplicável a vossa alegria, quando pelo Anjo vos foi
revelado o soberano mistério da Encarnação.
Por esta vossa dor, e por este vosso gozo, vos rogamos a graça
de consolardes, agora e nas extremas dores, a nossa alma com
alegria de uma morte, semelhante à vossa, entre Jesus e Maria.
Padre Nosso, Ave Maria, Glória ao Padre.
II. Ó felicíssimo Patriarca, glorioso São José, que fostes
escolhido para o cargo de Pai adotivo do Verbo humanado, a
dor que sentistes ao ver nascer em tanta pobreza o Deus
Menino se vos trocou em celestial júbilo ao escutardes a
angélica harmonia e ao verdes a glória daquela brilhantíssima
noite.
Por esta vossa dor, e por este vosso gozo, vos suplicamos a
graça de nos alcançardes que, depois da jornada desta vida,
passemos a ouvir os angélicos louvores e a gozar os
resplendores da celeste glória.
Padre Nosso, Ave Maria, Glória ao Padre
III. Ó obedientíssimo executor das divinas leis, glorioso São
José, o sangue preciosíssimo, que na circuncisão derramou o
Redentor Menino, vos traspassou o coração, mas o nome de
Jesus vo-lo reanimou, enchendo-o de contentamento.
Por esta vossa dor, e por este vosso gozo, alcançai-nos que,
sendo arrancados de nós todos os vícios nesta vida, com o
nome de Jesus no coração e na boca, expiremos cheios de
júbilo.
Padre Nosso, Ave Maria, Glória ao Padre
IV.Ó fidelíssimo Santo, que também tivestes parte nos
mistérios da nossa Redenção glorioso São José, se a profecia
de Simeão, a respeito do que Jesus e Maria tinham de padecer
vos causou mortal angústia, também vos encheu de soberano
gozo pela salvação e gloriosa ressurreição que igualmente
predisse, teria de resultar para inumeráveis almas.
Por esta vossa dor e, por este vosso gozo, obtendo-nos que
sejamos do número daqueles que pelos méritos de Jesus e
pela intercessão da Virgem sua Mãe têm de ressuscitar
gloriosamente.
Padre Nosso, Ave Maria, Glória ao Padre.
V. Ó vigilantíssimo Guarda, íntimo familiar do Filho de Deus
Encarnado, glorioso São José, quanto penastes para alimentar
e servir o Filho do Altíssimo, particularmente na fugida que com
ele houvestes de fazer para o Egito; mas qual foi também o
vosso gozo por terdes sempre convosco o mesmo Deus, e por
vedes cair por terra os ídolos egípcios!
Por esta vossa dor, e por este vosso gozo, alcançai-nos que,
expelindo para longe de nós o infernal tirano, especialmente
com a fugida das ocasiões perigosas, sejam derribados do
nosso coração todos os ídolos de afetos terrenos, e,
inteiramente empregados no serviço de Jesus e de Maria, para
eles somente vivamos e felizmente morramos.
Padre Nosso, Ave Maria, Glória ao Padre.
VI. Ó Anjo da terra, glorioso São José, que cheio de pasmo,
vistes o Rei do Céu submisso a vossos mandados, se a vossa
consolação ao reconduzi-lo do Egito, foi turbada pelo temor de
Arquelau, contudo sossegado pelo Anjo, conservastes-vos
alegre em Nazaré, com Jesus e Maria.
Por esta vossa dor, e por este vosso gozo, alcançai-nos que,
desocupado o nosso coração de viciosos temores, gozemos
paz de consciência vivamos seguros com Jesus e Maria e
também entre Eles morramos.
Padre Nosso, Ave Maria, Glória ao Padre.
VII. Ó Exemplar de toda a santidade, glorioso são José,
perdestes vós, sem culpa vossa, o Menino Jesus, e para maior
angústia houvestes de buscá-lo por três dias, até que com
sumo júbilo gozastes do que era vossa vida, achando-o no
templo entre os doutores.
Por esta vossa dor, e por este vosso gozo, vos suplicamos, com
coração nos lábios, que interponhais o vosso valimento, para
que nunca nos suceda perdermos a Jesus por culpa grave; mas
se por desgraça o perdermos, com tão contínua dor o
procuremos, q u e o a c h a m o s f a v o r á v e l , especialmente
em nossa morte, para passarmos a gozá-lo no céu, e lá
cantarmos convosco, eternamente, suas divinas misericórdias.
Padre Nosso, Ave Maria, Glória ao Padre.
Antífona. O mesmo Jesus tendo quase trinta anos era reputado
por Filho de José.
V. Rogai por nós bem aventurado São José.
R. Para que sejamos dignos das promessas de Cristo.
ORAÇÃO
Deus, que por vossa inefável Providência vos dignastes eleger
o bem aventurado São José para Esposo de vossa Mãe
Santíssima concedei-nos, nós vos pedimos, que mereçamos
ter como intercessor no céu aquele a quem veneramos na terra
como nosso Protetor. Vós que viveis e reinais com Deus Padre
na unidade do Espírito Santo. Amém.
Hino a São José
Vinde alegres cantemos No Senhor repousais
A Deus demos louvor Oh! Esposo preclaro
A um pai exaltemos Amantíssimo Pai
Sempre com mais fervor Dos cristãos firme amparo
São José a vós nosso amor Este canto aceitai
Sede nosso bom protetor Que por ele possamos
Aumentai o nosso fervor Todos nós alcançar
São José triunfante Lá no céu que esperamos
Lá na glória gozais Vossa glória cantar
Para Sempre reinante

Editado e formatado
por
Carlos Alberto de França Rebouças Junior
Fortaleza, 22 de março de 2011.
MAIO – Mês de Maria Santíssima
MÊS DE MARIA

TRADUZIDO DAS PALHETAS DE OURO

AUMENTADA COM UMA COLEÇÃO DE


EXEMPLOS PARA TODOS OS DIAS DO MÊS

POR

Mons. Dr. José Basílio Pereira

Digitalizado e Formatado por


CARLOS ALBERTO DE FRANÇA REBOUÇAS JUNIOR
NIHIL OBSTAT

Salvador, 17 de outubro de 1953


Frei Osvaldo Linn – Censor Diocesano
IMPRIMATUR

Salvador, 19 de outubro de 1953


Por comissão, Pe. Heitor de Araújo
Mês de Maria Santíssima

Orações que se hão de recitar todos os dias

INVOCAÇÃO AO ESPÍRITO SANTO

Veni, Sancte Spíritus, reple tuórum corda fidélium, et


tui amóris in eis ignem accénde.
V. – Emitte Spíritum tuum et creabuntur,
R. – Et renovábis fáciem terra

ORÉMUS

Deus, qui corda fidélium Sancti Spiritus ilustratióne


docuisti: da nóbis in eódem Spíritu recta sápere, et de ejus
semper consolatióne gaudére. Per Christum Dóminum
nostrum. Amen.

_____________

Vinde, Espírito Santo, enchei os corações dos vossos fiéis


e acendei neles o fogo de vosso amor.
V. – Enviai o vosso Espírito e tudo será criado.
R. – E renovareis a face da terra.

OREMOS

Deus, que esclarecestes os corações dos vossos fiéis


com as luzes do Espírito Santo, concedei-nos por esse
mesmo Espírito conhecer e amar o bem, e gozar sempre
de suas divinas consolações. Por Jesus Cristo Nosso
Senhor. Amém.

-2-
ORAÇÃO PREPARATÓRIA

Senhor, todo poderoso e infinitamente perfeito, de


quem procede todo o ser e para quem todas as criaturas
devem sempre se elevar, eu vos consagro este mês e os
exercícios de devoção que em cada um de seus dias
praticar, oferecendo-os para vossa maior glória em honra
de Maria Santíssima. Concedei-me a graça de santificá-lo
com piedade, recolhimento e fervor.
Virgem Santa e Imaculada, minha terna Mãe, volvei
para mim vossos olhares tão cheios de doçura e fazei-me
sentir cada vez mais os benéficos efeitos de vossa valiosa
proteção.
Anjos do céu, dirigi meus passos, guardai-me à
sombra de vossas asas, pondo-me ao abrigo das ciladas
do demônio, pedindo por mim a Jesus, Maria e José sua
santa bênção. Amém.

Lê-se a Meditação própria do dia, cuja série se


encontra adiante, e depois rezam-se três Ave Marias, e, em
seguida, esta

ORAÇÃO

COMPOSTA POR SANTO AFONSO DE LIGÓRIO

Ó Maria, filha predileta do Altíssimo, pudesse eu


oferecer-vos e consagrar-vos os meus primeiros anos,
como vós vos oferecestes e consagrastes ao Senhor no
templo! Mas é já passado esse período de minha vida!
Todavia, antes começar tarde a vos servir do que
ser sempre rebelde. Venho, pois, hoje, oferecer-me a Deus
no templo. Sustentai minha fraqueza, e por vossa
intercessão alcançai-me de Jesus a graça de lhe ser fiel e
a vós até a morte, a fim de que, depois de vos haver
-3-
servido de todo o coração na vida, participe da glória e da
felicidade eterna dos eleitos. Amém.

LADAINHA DE NOSSA SENHORA

Senhor, tende piedade de nós.


Jesus Cristo, tende piedade de nós.
Senhor, tende piedade de nós.
Jesus Cristo, ouvi-nos.
Jesus Cristo, atendei-nos.
Deus Pai dos céus, (*)
Deus Filho, Redentor do mundo,
Deus Espírito Santo,
Santíssima Trindade, que sois um só Deus,
Santa Maria, (**)
Santa Mãe de Deus,
Santa Virgem das virgens,
Mãe de Jesus Cristo,
Mãe da divina graça,
Mãe puríssima,
Mãe castíssima,
Mãe imaculada,
Mãe intacta,
Mãe amável,
Mãe admirável,
Mãe do bom conselho,
Mãe do Criador,
Mãe do Salvador,
Virgem prudentíssima,
Virgem venerável,
Virgem louvável,

-4-
Virgem poderosa,
Virgem benigna,
Virgem fiel,
Espelho de justiça,
Templo da sabedoria,
Causa da nossa alegria,

(*) Tende piedade de nós.


(**) Rogai por nós.

Vaso espiritual,
Vaso honorífico,
Vaso insigne de devoção,
Rosa mística,
Torre de Davi,
Torre de marfim,
Casa de ouro,
Arca d’aliança,
Porta do céu,
Estrela da manhã,
Saúde dos enfermos,
Refúgio dos pecadores,
Consoladora dos aflitos,
Auxílio dos cristãos,
Rainha dos anjos,
Rainha dos patriarcas,
Rainha dos Profetas,
Rainha dos apóstolos,
Rainha dos mártires,
Rainha dos confessores,
Rainha das virgens,
Rainha de todos os santos,
Rainha concebida sem pecado original,
Rainha assunta ao céu,
Rainha do sacratíssimo Rosário,
Rainha da paz,
Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo,
perdoai-nos, Senhor.
Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, ouvi-
nos, Senhor.
Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, tende
misericórdia de nós.

V. – Rogai por nós, Santa Mãe de Deus.


R. – Para que sejamos dignos das promessas de Cristo.

OREMOS

Infundi, Senhor, como vos pedimos, vossa graça em


nossas almas, para que nós que pela anunciação do Anjo
viemos ao conhecimento da encarnação de Jesus Cristo,
vosso Filho, pela sua paixão e morte de cruz, sejamos
conduzidos à glória da ressurreição. Pelo mesmo Jesus
Cristo, nosso Senhor. Amém.

LADAINHA DE NOSSA SENHORA


(LATIM)

Kyrie, eléison,
Christe, eléison,
Kyrie, eléison,
Christe, audi nos,
Christe, axaudi nos,
Pater de cœlis, Deus, (*)
Fili Redemptor mundi, Deus,
Spíritus Sancte, Deus,
Sancta Trinitas, unus Deus,
Sancta Maria, (**)
Sancta Dei Genitrix,
Sancta Virgo vírginum,
Mater Christi,
Mater Divinæ Gratiæ,
Mater puríssima,
Mater castíssima,
Mater inviolata,
Mater intemerata,
Mater amábilis,
Mater admirábilis,
Mater boni consilii,
Mater Creatóris,
Mater Salvatóris,
Virgo prudentíssima,
Virgo veneranda,
Virgo prædicanda,
Virgo potens,
Virgo clemens,
Virgo Fidelis,
Speculum justitiæ,
Sedes sapientiæ,
Causa nostræ laetitiæ,
Vas spirituale,
Vas honorabile,
Vas insigne devotionis,
Rosa mystica,
Turris Davidica,
Turris eburnea,
Domus áurea,
Fœderis arca,
Janua cœli,
Stella matutina,
Salus infirmorum,
Refugium peccatorum,
Consolatrix afflictorum,
Auxilium christianorum,
Regina angelórum,
Regina patriarcharum,
Regina prophetarum,
Regina apostolórum,
Regina martyrum,
Regina confessórum,
Regina virginum,
Regina sanctorum omnium,
Regina sine labe originali concepta,
Regina in cœlum assumpta,
Regina sacratíssimi Rosarii,
Regina pacis,

(*) Miserere nobis


(**) Ora pro nobis

Agnus Dei, qui tollis peccata mundi, parce nobis, Domine.


Agnus Dei, qui tollis peccata mundi, axaudi nos, Domine.
Agnus Dei, qui tollis peccata mundi, miserere nobis
V. – Ora pro nobis sancta Dei Genitrix.
R. – Ut digni efficiamur promissionibus Christi.

ORÉMUS

Gratiam tuam, quæumus, Domine, mentibus nostris


infunde, ut qui, Ângelo nuntiante, Christi Filii tui
Incarnationem cognovimus, per Passionem ejus at Crucem
ad Resurrectionis gloriam perducamur: Per eumdem
Christum Dóminum nostrum. Amen.

Para o Tempo da Páscoa

Regina cœli, lætare, allelúia.


Quia quem meruisti portáre, allelúia,
Resurréxit, sicut dixit, allelúia.
Ora pro nobis Deum, allelúia.
V. – Gaude et lætáre, Virgo Maria, allelúia.
R. – Quia surréxit Dóminus vere, allelúia.
Oremus:
Deus, qui per resurrectionem Filii tui, Domini nostri Iesu
Christi, mundum lætificare dignatus es: præsta,
quæsumus; ut per eius Genetricem Virginem Mariam,
perpetuæ capiamus gaudia vitæ. Per eumdem Christum
Dominum nostrum. Amen

Rainha do céu, alegrai-vos, aleluia!


Porque quem merecestes trazer em vosso seio, aleluia!
Ressuscitou como disse, aleluia!
V. – Exultai e alegrai-vos, í Virgem Maria, aleluia!
R. – Porque o Senhor ressuscitou verdadeiramente,
aleluia!
Oremos. Ó Deus, que dignastes alegrar o mundo com a ressurreição
do vosso filho Jesus Cristo, nosso Senhor, concedei-nos, vos
suplicamos, que por sua mãe, a Virgem Maria, alcancemos as
alegrias da vida eterna. Por Jesus Cristo, nosso Senhor. Amém

O “LEMBRAI-VOS” DE SÃO BERNARDO

Lembrai-vos, ó piedosíssima Virgem Maria, que


nunca se ouviu dizer que algum daqueles que a vós têm
recorrido, implorado vossa assistência e invocado o vosso
socorro, tenha sido por vós abandonado. Animado de
uma tal confiança, eu corro e venho a vós e, gemendo
debaixo do peso dos meus pecados, me prostro a vossos
pés, ó Virgem das virgens; não desprezeis as minhas
súplicas, ó Mãe do Verbo encarnado, mas ouvi-as
favoravelmente e dignai-vos atender-me. Amém.

Três vezes a jaculatória:

Ó Maria, concebida sem pecado, rogai por nós que


recorremos a vós.
Leituras

1º DIA
Maria é meu refúgio
É uma felicidade começar este mês, deparando logo
à minha vista este doce título que a Igreja aplica à
Santíssima Virgem: Refúgio!
Um refúgio é aonde vêm recolher-se, para ficarem
ao abrigo, aqueles que têm medo.
Aonde vêm esconder-se, para serem protegidos,
aqueles que são culpados.
Aonde vêm viver, para terem um asilo, aqueles que
são pobres no mundo.
Ó Maria, tenho medo, sou culpado, sou pobre;
venho ter convosco.
Tenho medo de minha fraqueza e de minha
inconstância. Ai de mim, se esquecesse as promessas que
tantas vezes tenho feito a Deus!
Tenho medo do demônio que me há de tentar, eu
sei, que me oferecerá ocasiões de pecar, tanto mais
atraentes, quanto mais piedoso eu quiser ser.
Tenho medo de Deus, porque sou culpado; de Deus,
que se cansará, talvez, de me perdoar novas faltas, que
pode bem cedo me chamar a si.
Sou pobre, sinto em minha alma o que me falta de
paciência, de piedade, de amor do dever; e, entretanto,
sem estas virtudes não posso ir ao céu.
Bem vedes, ó Maria, as razões que tenho de acolher
com alegria este convite da Igreja para vir todos os dias
deste mês, ao pé de vosso altar, e ficar alguns minutos
perto de vós. Um lugar perto de vós não é um refúgio? O
demônio aí não tem poder, Deus não fere aí a alma
culpada porque junto a vós ela se converte. Aí, pouco a
pouco, insinuam-se na alma as virtudes que irradiam de
vosso coração.
Eu serei assíduo, Maria, vo-lo prometo.
EXEMPLO
O Beato Inácio de Azevedo e a imagem
de Maria Santíssima
O bem-aventurado mártir Inácio de Azevedo, da
Companhia de Jesus, teve sempre a mais fervorosa
devoção à SS. Virgem. Antes de partir para a missão do
Brasil com seus trinta e nove companheiros, obteve do
Papa S. Pio V a permissão de fazer tirar uma cópia da
célebre Virgem de Santa Maria Maior atribuída ao pincel
de S. Lucas. Munido dessa imagem, que considerava sua
salvaguarda, embarcou cheio de confiança, no navio S.
Tiago, e inspirou aos jovens missionários que o seguiam
os sentimentos de devoção que o animavam. Na altura da
ilha de Palma, uma das Canárias, o S. Tiago foi atacado
por um corsário calvinista, Jacques Soure, que lhe deu
abordagem.
Logo que os missionários viram os calvinistas, só
escutaram o seu ódio atroz à fé católica e, à ordem do
chefe, assassinaram todos os quarenta e os lançaram ao
mar. Azevedo, tendo nas mãos a imagem de Maria,
animava seus irmãos ao martírio quando um golpe de
sabre lhe abriu a cabeça; foi atirado ao mar, ainda
segurando a santa imagem. Entretanto, Azevedo aparecia
à flor da água trazendo sempre a imagem de Maria SS.; e,
à noite, quando as trevas cobriam o mar, seu santo corpo,
levado pelas vagas, se achou perto do navio, batendo no
casco pancadas repetidas, até que o ruído foi notado por
um português católico. Este, vendo o corpo de Azevedo,
que vinha de encontro ao navio com o quadro, reconheceu
nisto um prodígio, e, cheio de respeito, pegou na imagem
que logo as mãos do santo soltaram sem custo. Guardou-
a cautelosamente o marinheiro, e enviou-a depois para o
Colégio dos Jesuítas na Bahia, onde se vê ainda hoje na
basílica e conserva sinais do sangue que corria das
feridas do glorioso mártir da evangelização do povo
brasileiro.

2º DIA
Maria é uma voz que me instrui
Eis-me ainda aqui, ó minha Mãe, mais reanimado
e mais alegre. Venho escutar vossa voz.
Que voz grata a de uma mãe!
Como as lições mais difíceis tomam alguma coisa
de suave e de bom, passando pelo coração e pelos lábios
de uma mãe!
Uma mãe tem paciência para esperar e para não
desanimar com as travessuras e até má vontade de seus
filhos.
Uma mãe tem jeito para insinuar brandamente a
lição que quer ensinar e para apresentá-la de mil
maneiras.
Uma mãe tem a constância para começar de novo,
para prosseguir, para reatar, sem nunca se impacientar.
E estas qualidades, eu as vejo em vosso coração, ó
Maria, divina educadora. Oh! falai-me. Ontem eu vos
prometi ser assíduo, todos os dias, em vir à vossa
presença; hoje vos prometo ser dócil.
Falai-me de Jesus, de sua abnegação, de sua
caridade, de sua obediência. Falai-me de vossas virtudes
tão fácies de imitar. Falai-me também do vosso amor e da
vossa misericórdia. Tenho tanta necessidade de esperar
em vós.
Ó Maria, fazei-me muito dócil.
EXEMPLO
Santo Afonso de Ligório e a devoção
à Santíssima Virgem
Uma de suas práticas mais caras era recitar a Ave
Maria todos os quartos de hora, olhando para uma
imagem de Nossa Senhora do Bom Conselho, que estava
sobre sua mesa de trabalho. Abstinha-se de carne à
quarta-feira, em honra de Nossa Senhora do Carmo; até
a idade de 88 anos absteve-se de todas as bebidas nos
sábados. Por voto recitava o terço todos os dias, e, em sua
velhice, sentindo-se fraco de memória, queria que lhe
lembrassem esta obrigação os que o cercavam. Na dúvida
de ter feito, perguntava sempre a seu criado, e este uma
vez lhe respondeu: Monsenhor, façamos um contrato:
todas as Ave Marias que rezardes além do terço, serão por
mim. De fato, nos últimos anos, tinha continuamente o
rosário nas mãos. Não se conseguindo um dia despertá-
lo de um sono pesado que lhe podia ser fatal, lembrou-se
alguém de lhe dizer: Monsenhor, temos de rezar ainda o
rosário; a tais palavras o Santo abre os olhos e pega no
terço.
Outro voto de Afonso era o de pregar todos os
sábados. Forçado, enfim, a renunciar a este pio dever,
dizia ternamente à sua celeste soberana: Minha Mãe, já
estou velho; não posso mais pregar as vossas glórias;
possa eu ao menos ter sempre alguém que me fale delas.
De fato, queria que todos os dias lhe lessem alguma coisa
sobre tão grato assunto.
3º DIA
Maria é o coração que me ama
Maria me ama! Oh! Que palavra grata!
S. Francisco de Sales exclamava um dia: Como sou
feliz! Minha mãe e a Santa Virgem ma amam tanto! Ai de
mim! Quando já não tiver mais minha mãe para me amar,
tenho, porém, e terei sempre, a Santa Virgem.
Maria me ama; e o amor que ela tem por mim, foi
produzido e é sustentado, em meu coração, pelo tríplice
olhar que ela fixa sobre Deus, sobre minha alma, sobre si
mesma.
I. Se Maria considera em Deus, vê o amor infinito
que Deus nos tem, Ele que nos criou para o objeto de seu
amor.
Vê-nos a todos, no paternal coração de Deus, que
nos dá vida, que a conserva, que a cerca de encantos; de
Deus que nos segue com a ternura de uma mãe, que nos
respeita a liberdade, e nem por um só instante desvia os
olhos de nós.
Ela vê que este Pai celeste, impelido por seu amor,
enviou à terra, para nos arrancar ao inferno, seu Filho
muito amado, e que, sempre por amor de nós, o entregou
à mais dolorosa morte.
E quando Maria volve os seus olhares a Jesus
Cristo, encontra-o nos sofrimentos, nas humilhações, nas
dores: é testemunha de sua flagelação, de sua coroação
d’espinhos, de sua crucifixão; escuta aquela prece tão
eloquente: “Meu Deus, que nem um só daqueles por quem
eu vim ao mundo pereça eternamente”.
Oh! Como duvidar que Ela nos ame!
Não fôssemos nada para Ela, nada tivéssemos em
nós que atraísse a sua estima, nem sua compaixão,
simplesmente por amor de Deus, porque sabe que,
amando-nos, agrada e consola a seu Deus, Maria nos
havia de amar!
Sim, boa palavra: Maria me ama!
Oh! Também eu vos amo, ó minha Mãe!
EXEMPLO
Conversão de um livre pensador pela devoção a Maria
Faz alguns anos morreu na Baviera, na santa paz
de Deus, um escritor que tinha sido longos anos ferrenho
livre-pensador e inimigo da Igreja de Jesus!
Dotado de viva inteligência e de grande força de
vontade, procurava conhecer o destino da criatura
humana; e a graça de Deus entrou-lhe na alma, qual raio
luminoso de sua conversão.
Conhecer a verdade e abraçá-la por sua forte e reta
vontade era um só ato de sua alma sedenta da verdade e
até então torturada pela incerteza. O célebre livre-
pensador tornou-se, livre e espontaneamente, católico
crente e fervoroso. O mal que tinha espalhado em redor
de si por seus escritos e discursos, reparou-o ele
corajosamente, tanto quanto possível, no jornal e na
tribuna.
Um dia, encontrou-se com o sr. Bispo: A’ devoção
de Maria Santíssima? O senhor guardava a devoção a
Maria Santíssima? Guardei, respondeu, e em grau não
pequeno, pode crer, Excelência. Mais admirado ainda o
prelado tornou a perguntar: será possível? Como então
podia escrever tantas injúrias contra a Igreja de Jesus
Cristo, o Filho de Maria Santíssima? Escrevi contra Jesus
e sua Igreja, pequei nisso e muito; mas nunca escrevi
contra Maria, a Mãe de Jesus. V. Exa. procure em todos
os meus escritos e discursos e não encontrará nenhuma
frase contra Maria Santíssima. Eu admirava e venerava
piedosamente a Mãe de Jesus, ao passo que insultava,
crucificava, quanto me era possível, seu Filho adorável. A
Maria devo minha conversão, minha felicidade; a ela
ficarei eternamente devedor.

4º DIA
Maria é o coração que me ama
Continuemos nesse pensamento: Maria nos ama.
II. Se Maria contemplar nossa alma, nossa pobre
alma, que, se a não tiver em seu auxílio, se perde
eternamente, há de sentir-se compadecida.
Nossa alma é a imagem de Deus, de quem Maria
conhece a santidade; e Maria, podendo impedir que essa
imagem seja profanada, deixá-la-ia ao ludíbrio e irrisão
do demônio? Não, seu amor por Deus se opõe a isto.
Nossa alma é a imagem de Deus, é filha de Deus,
recebeu de Deus a ordem de chamá-lo de Pai: e, podendo
impedi-lo, Maria permitiria que a filha de Deus que ela
tanto ama sofresse durante toda a eternidade? Não, seu
amor por Deus e sua caridade pelos homens se opõem a
isto.
Nossa alma foi resgatada pelo sangue de seu Filho;
custou humilhações, dores, lágrima, cuja recordação está
sempre presente a Maria; e, podendo impedi-lo, Maria
permitiria que essa alma, preço de tantas dores, se
perdesse por toda a eternidade? Não, seu amor por Deus
e sua caridade pelos homens se opõem a isto.
Nossa alma, enfim, é destinada a conhecer e amar
a Deus, a unir-se aos anjos para exaltar a grandeza, a
majestade e o amor de Deus, e, podendo impedi-lo, Maria
permitiria que essa alma blasfemasse e maldissesse a
Deus na eternidade? Não, seu amor por Deus e sua
caridade pelo próximo se opõem a isto.
Concluamos ainda, como ontem: Maria nos ama, e
lhe digamos com afeição: Também nós, ó Mãe, vos
amamos!
EXEMPLO
Nossa Senhora de Guadalupe
Nossa Senhora de Guadalupe é uma imagem da SS.
Virgem, pintada outrora pelos anjos no manto de um
pobre índio do México. A Santa Virgem, quando quis ter
um santuário no centro do Novo Mundo, no México,
ordenou a um índio, que ia à cidade, pedisse ao Bispo que
lhe erguesse ali na montanha um santuário. Era a festa
da Imaculada Conceição. Que sinal me dás tu? – disse o
Bispo. – Nenhum, senhor, respondeu, admirado ele
próprio de sua missão. E partiu; mas a Virgem o deteve
outro dia, ao passar pela montanha, e lhe disse: “Toma
estas flores, é este o sinal”. De fato, era o inverno, e
entretanto o rochedo estéril se cobria de flores odoríferas.
Assim o índio recebia o sinal que lhe fora exigido. Enche
o manto de flores, e as leva ao Bispo do México. Desta vez,
está animado; renova o pedido, e abre o manto em que
guardava o tesouro; caem as rosas, e no pano grosseiro
que veste, aparece desenhada a imagem maravilhosa.
Uma esplêndida basílica foi construída na montanha; e o
manto miraculoso ostenta sempre a imagem admirável,
obra dos anjos. Foi há três séculos, no dia 12 de
dezembro; e o culto perdura cada dia mais fervoroso.

5º DIA
Maria é o coração que me ama
Temos ainda o assunto de ontem: Maria nos ama.
III. Se Maria se considera a si mesma, vê-se
enriquecida de graças, e essas graças excitam
continuamente seu reconhecimento, obrigando-a a fazer
por Deus tudo quanto pode.
Agradecendo, exaltando, glorificando a Deus com
suas palavras e com os afetos de seu coração, ela sabe
também a alegria que proporciona a Deus, conservando-
lhe fiéis e inocentes as almas que Ele criou, e
reconduzindo a seu amor as que o haviam abandonado;
e assim se sente, de algum modo, obrigada a nos amar
pelo reconhecimento que deve ao Senhor.
Maria se vê constituída Mãe dos homens; recorda-
se do dever que lhe foi imposto pela Divina Providência e
manifestado por seu Filho, quando, sobre a cruz, ia
consumar o cruento sacrifício. Ela compreende toda a
extensão das obrigações de mãe. Conhece quais foram as
intenções de Deus, elevando-a a essa dignidade e qual o
alcance destas palavras de Jesus expirando: — Eis aí
vosso Filho ! E Maria, que quer ser fiel a seu dever, o vê
resumir-se nesta palavra: – amar! Oh! como entrega seu
coração a este sentimento de amor
Coragem, pois, ó minha alma, sê feliz, repete em teus
momentos de tédio e de temor: Maria me ama! E dize-lhe,
com um sentimento profundo de gratidão: Também eu vos
amo, oh minha Mãe!
EXEMPLO
Confiança em Maria Santíssima
Um Bispo da Escócia atravessava a pé as montanhas de
sua diocese, quando foi surpreendido pela noite num
bosque e aí se perdeu. Depois de caminhar em diversas
direções, chegou a uma cabana de pobres camponeses.
Notando-lhes a tristeza geral, soube que o velho pai
quase à morte não queria preparar-se. A todas as
observações, só tinha uma resposta: “Não morro agora”.
Como o Bispo insistisse o velho perguntou: Sois católico?
— Sim, respondeu~-lhe. — Pois então vos direi porque
não morro agora: Eu também sou católico: desde o dia da
minha primeira Comunhão até hoje nunca deixei de pedir
à SS. Virgem a graça de não morrer sem um padre.
Pois bem, acreditais que minha boa Mãe possa deixar de
ouvir minha oração?
Impossível! Não, eu não morro agora. Meu filho, replicou
o Bispo comovido, tuas preces foram ouvidas; quem te
fala é mais que um simples padre : é teu Bispo. A SS.
Virgem mesma conduziu-me através destes bosques para
receber o teu último suspiro. E, abrindo o manto,
mostrou a cruz peitoral, à cuja vista, o enfermo, possuído
de alegria, exclamou: Õ minha boa Mãe, eu vos rendo mil
graças. E, voltando-se logo para o Bispo, disse : Tereis a
bondade de me confessar, porque agora sei que morro.
rouco depois de ter purificado sua consciência, pela
última vez, morreu como um justo.

6º DIA
Maria há de me amar sempre
É verdade isto? Maria há de me amar sempre? Sempre,
ainda quando me torne culpado?
I. Sim, porque Maria conservará sempre seu coração de
mãe, e uma mãe não se cansa de esperar a volta de seu
filho, enquanto esse filho vive. Pode voltar, há de voltar,
diz ela consigo e, como o pai do filho pródigo, tem sempre
o coração aberto, e, qualquer que seja o estado a que o
pecado tenha reduzido a pobre alma culpada, sua mãe há
de ter sempre uma palavra de amor para recebê-la.
U’a mãe nunca se cansa de trabalhar para
converter um filho culpado. Ela experimenta todos os
meios : exorta, repreende, ameaça, pune. ô Maria, se
acaso, caindo no pecado eu fugir de vós, deixando minhas
orações, banindo-vos da mente, levai-me de novo ao vosso
amor e a Deus, levai-me até à força. Fazei que, longe de
vós, experimente tantos desgostos, tantas decepções,
tanto abatimento, fazei-me sofrer tantas humilhações e
tanto abandono, que só tenha refúgio a vossos pés.
U’a mãe nunca se cansa de pedir àqueles que lhe podem
restituir seu filho. Quem pode reconduzir a alma culpada,
é Deus: e Maria não cessa de rogar-lhe que não nos puna
com a morte, e sim nos conceda a graça do
arrependimento.
Ah, pobre alma pecadora! no momento em que tuas
faltas excitavam contra ti a cólera de Deus, Maria
suplicava e pedia ainda algum tempo, e esse tempo Deus
to concedia.
Quando ias procurar o pecado, Maria corria até a cruz
de Jesus e dizia a seu Filho: Perdoa-lhe, não sabe o que
faz.
E poderia eu temer que Maria me repelisse e que não
me amasse mais, quando, tocado pelo arrependimento,
me fosse lançar a seus pés?...
Não! não, minha mãe! Oh! eu vos prometo nunca
desesperar de vossa misericórdia.
EXEMPLO
A devoção à Nossa Senhora e o
protestantismo
Ao apostólico missionário e célebre orador sacro, Pe.
Roh, S. J., perguntou, em Bremen, um pregador luterano:
— Qual a razão, por que se vê, em geral, os católicos
romanos mais alegres do que os luteranos ?
— É muito simples a razão, replicou o Padre — Enquanto
numa família ainda a mãe for viva, os filhos estão alegres
e contentes. Mas, esta desaparecendo, fica tudo triste. É
o caso dos protestantes. A reforma protestante aboliu o
culto de Maria, ficastes sem mãe. Nós temos a nossa boa
Mãe do céu, e veneramo-la com gratidão e alegria.

7º DIA
Maria há de me amar sempre
Quero continuar minhas considerações de ontem.
II. Maria há de me amar sempre, porque há de ser
sempre o que indicam os nomes que lhe dá a Igreja: o
refúgio dos pecadores e a mãe de misericórdia.
E para que esses nomes, se não houvesse nem
pecadores nem míseros?
Sois culpado, e por isso temeis ser repelido? Oh! não
conheceis Maria!
Maria é a Mãe de Jesus que veio à terra não pelos
justos, mas pelos pecadores como vós. Maria foi
constituída, diz S. Bernardo, a dispensadora desse
sangue divino, e sobre quem o derramará senão sobre os
pecadores?
Sois culpado, e por isso temeis ser repelido? Oh! não
conheceis Maria!
Maria tornou-se Mãe de Deus por causa dos pecadores,
em favor deles ! Se é assim, diz Santo Anselmo, como
posso eu me entregar ao temor? Não tenho o direito de
dizer-lhe: Tende piedade de mim, vós que de algum modo
me deveis o que sois?
Sois culpado e por isso temeis ser repelido! Tereis acaso
a vontade obstinada de viver no pecado? Certamente que
não.
Então, sem dúvida, eu posso vos inspirar a confiança
em Maria, que é a advogada dos pecadores e não do
pecado: Pois bem diz S. Bernardo, ela está pronta a vos
auxiliar; a sua proteção é a escada dos pobres pecadores,
que os faz subir, suavemente, até Deus.
Vinde, pois, a Maria, vinde sem temor; não achareis
em seu coração, nem em sua face, nada de austero, nada
de terrível, ela oferece a todos o leite que cura e a lã que
preserva do frio. Percorrei o Evangelho, e se encontrardes
em Maria o menor pensamento que acuse dureza,
impaciência, severidade, então admitirei a vossa
hesitação em recorrer a ela. Porém, não ; Maria abre a
todos os braços de misericórdia, a fim de que todos gozem
de suas graças: os escravos recebendo a liberdade, os
enfermos a saúde, os aflitos a consolação, os pecadores o
perdão, os justos a graça, os anjos a alegria... Vamos,
portanto, à sua presença, prostremo-nos a seus pés e,
prendendo-a fortemente, não a deixemos ir sem que nos
tenha lançado a sua bênção.
EXEMPLO
Conversão devida a N. Sra. das Vitórias
Um bom homem, por influência de uma leitura má,
deixara os costumes cristãos, ao ponto de, estando
gravemente enfermo, não querer ouvir falar de
sacramentos. Deixou até de receber o seu digno Cura que
vinha visitá-lo, só porque este, vendo-o em perigo, lhe
falava em confissão. Desesperando de fazê-lo voltar a
melhores sentimentos só com os seus rogos, a filha, moça
piedosa, resolveu recomendá-lo às orações da
Arquiconfraria de N. S. das Vitórias. Foi bastante; poucos
dias depois, no dia da Imaculada Conceição, o Cura veio
visitar o enfermo ; e este, não só o acolheu, mas, em
presença de todas as visitas que então aí se achavam,
pediu-lhe espontaneamente que viesse confessá-lo no dia
seguinte. Assim recebeu todos os sacramentos, rogando
mesmo aos vizinhos, que conheciam suas ideias
antirreligiosas, viessem assistir à cerimônia do Sagrado
Viático, para serem testemunhas da reparação, como o
haviam sido do escândalo que ele tinha dado.

8º DIA
Maria é advogada que me defende
Para defender a quem é acusado e sabe-se que é
culpado, é preciso coragem, amor, e influência.
E’ preciso coragem para falar perante o juiz,
mormente quando foi ele mesmo o ofendido, — coragem
para falar diante dos acusadores que têm um interesse
imenso em fazer condenar o culpado e que articulam
contra ele fatos esmagadores.
E’ preciso amor por esse pobre culpado que nada
tem que oferecer a quem o defende, senão seu
reconhecimento.
É preciso influência sobre o juiz que tem de
pronunciar a sentença, para comovê-lo e incliná-lo ao
perdão.
Ó Maria, a quem os Santos chamam advogada dos
desesperados, como sinto renascer a vida em minha
alma, vendo-vos Filho, o juiz a quem ofendi, e vos ouço
murmurar a palavra — perdão.
Bem sabeis que vosso Filho não vos repelirá. Ele
vos deve muito e muito vos ama, para vos contristar.
Ó Maria, bem sei que não podeis me justificar, mas
podeis pedir perdão: podeis, sobretudo, prometer que
serei mais submisso, mais vigilante.
Sim; prometei a Deus que velarei sobre as minhas
vistas e sobre o meu coração; prometei que deixarei as
ocasiões que me levaram ao pecado; Prometei que hei de
executar corajosamente todos os preceitos da Igreja.
Oh! como essas promessas sinceras me aliviam o
coração!
EXEMPLO
Uma conversão em Maio
Conta a Semana Religiosa de Gênova: Em maio de
1888 morria, em Roma, um menino de seis anos de idade,
filho de pais casados só civilmente. O pai era- militar
graduado. Ouviu a mãe uma vez o pequeno enfermo
recitando, com muita devoção, a Ave Maria, e como,
embora nessa ligação ilícita, não houvesse perdido a fé,
lhe disse: Filhinho, pede a Maria Santíssima que te cure.
O filho lhe respondeu em pranto: Não, a Madona não me
há de curar, porque vós e o papá viveis mal. E morreu.
Causou isto uma impressão tal em ambos os
progenitores, que logo se apressaram a ir confessar-se na
igreja de Gesu, e realizaram, em seguida, o seu casamento
religioso na freguesia.
A oração dos inocentes à Mãe de Deus socorre e
salva os pais transviados.

9º DIA
Maria é o apoio que constitui minha força
Um apoio material é o que sustenta aquele que está
vacilante.
É o que ajuda a se levantar o que teve a desgraça de
cair.
É o que ajuda a caminhar com segurança e previne
novas quedas.
Não era isso o que por mim fazia minha mãe,
quando era criança?
Sustentava meu andar mal seguro, guiava-me em
todos os passos que eu dava.
E vós, Maria, não foi isso que fizestes tantas vezes
à minha alma? Quantos pecados teria eu cometido, se
não me tivésseis desviado da ocasião que se apresentava
Quanto tempo eu teria ficado no pecado, se não me
houvésseis conduzido por vossas inspirações, ao tribunal
da penitência!
E quando eu considero as faltas que tenho
cometido, não tenho de confessar que as devo ter deixado
voluntariamente, ao arrimo que ofereceis à minha
fraqueza?
A oração da manhã, um arrimo para o dia.
O “Lembrai-vos”, recitado antes do sono, um arrimo
para as horas da noite.
A visita ao Santíssimo Sacramento, um arrimo
contra as tentações do demônio.
O terço, um arrimo contra as ocasiões do mal.
Ó Maria! vou tornar às minhas práticas de
princípio; ajudai-me a ser fiel.
EXEMPLO
Frutos consoladores do “Memorare”
Dois moços tinham sido educados num estabelecimento
religioso, onde aprenderam a recitar todos os dias esta
oração. Seguiram carreiras diferentes. Alguns anos mais
tarde, se encontraram na mesma cidade, um feito oficia],
outro, ainda estudante de medicina. Este, infelizmente,
fora arrastado por maus companheiros, e abandonara de
todo a religião; o oficial não a praticava, mas havia
conservado a fé e a devoção a SS. Virgem e não falhava
um só dia à recitação de seu “Lembrai-vos”. O estudante
adoeceu gravemente. Seu amigo, que o visitava a miúdo,
aconselhou-o a receber os sacramentos: ele porém
recusava, e repetia que, não crendo mais em nada, isso
lhe era inútil. Entretanto, o perigo aumentava; o oficial,
angustiado com a recusa, corre à igreja, lança-se de
joelhos ante o altar da SS. Virgem, e recita com fervor o
“Memorare”. Sentiu-se tocado pela graça e prometeu à
sua Mãe celeste ir-se confessar o mais breve possível, o
que há muito não fazia.
De coração aliviado e cheio de confiança, volta para
junto do seu caro enfermo e, qual não é sua surpresa,
vendo-o inteiramente mudado Há pouco, disse o pobre
doente, me veio à lembrança, como celeste inspiração, o
‘Memorare”. que outrora gostávamos de recitar; pude
repeti-lo, e com isso abrasar a minha alma nas flamas da
graça. Traze-me depressa um padre. O oficial, comovido,
contou-lhe o que fizera, e se apressou a procurar o
homem de Deus. O enfermo recebeu os últimos
sacramentos com profunda piedade, viveu ainda alguns
dias nas mais santas disposições, e, rezando sempre o
“Memorare”, adormeceu pacificamente no Senhor.
10º DIA
Maria pode conduzir-me ao céu
Quero durante alguns dias deter-me em pensamentos
ainda mais consoladores.
I. Ela foi a criatura mais fiel e mais dedicada ao Senhor,
e amou-o mais, ela só, do que todas juntas. Só a Virgem
Maria cumpriu perfeitamente o preceito do amor, amando
a Deus de todo seu coração, de toda sua alma, e com
todas as suas torças, amando a Deus tanto quanto uma
criatura pode amá-lo; e, em retribuição, ela foi amada por
Deus com todo o poder do amor divino, porque Deus
nunca se deixa vencer em generosidade. Ora, se Deus
ama assim a Maria, pode recusar-lhe alguma coisa?
Um dia, Santa Brígida ouviu Jesus Cristo dizer a
sua Mãe:
— Minha Mãe, sabeis quanto vos amo, pedi-me, pois, o
que quiserdes, e, qualquer que seja vosso pedido será
satisfeito; pois desde que — nada me recusastes quando
eu estava na terra, é justo que nada vos recuse agora que
estais comigo no céu. É justo que palavra de consolação!
diz S. Ligório.
Maria, pode levar-me ao céu, porque:
II. Ela é a Mãe de Jesus Cristo, Senhor do Céu.
As súplicas de Maria, diz Sto. Antônio, sendo súplicas de
u’a mãe, têm a força de uma ordem para Jesus Cristo e,
portanto, é impossível que não sejam atendidas.
Maria, quando pede por nós, diz ainda S. Pedro
Damião, de certo modo manda; seu pedido não é o de uma
serva, mas o de uma soberana.
O que Deus pode por sua natureza, dizem todos os
Santos, Maria, Mãe de Deus, o pode por seus rogos. Ela
recebe da piedade cristã um titulo que não pode ser dado
a mais ninguém: a onipotência suplicante.
Oh! tenho pois toda a razão de pensar e dizer, para
me consolar, fortificar e animar:
Maria pode me levar ao céu.
EXEMPLO
Os ramalhetes a Maria
Uma mãe de família de Nancy conta:
— Eu tinha um esposo bom, afetuoso, irrepreensível na
vida particular e pública, mas descuidado e arredio à
prática da religião. Durante o mês de Maio que precedeu
sua morte, eu armara, como costumava fazer todo o ano,
uni pequeno altar, em meu aposento, à Santíssima
Virgem e ornava-o de flores, renovadas de vez em quando.
Todos os domingos meu marido ia passar fora da cidade;
e, de cada vez, ao voltar, me oferecia um ramalhete que
ele mesmo colhera, e eu com essas flores ornava o meu
oratório. Nos primeiros dias do mês seguinte, foi
subitamente fulminado pela morte, sem tempo de receber
os socorros da religião. Fiquei inconsolável; minha saúde
se alterou seriamente, e a família obrigou-me a partir
para o sul. Passando em Lião, quis ver o santo Cura d’Ars,
que ainda vivia. Escrevi-lhe para solicitar uma audiência
e recomendar às suas orações meu marido, que morrera
de repente. Não lhe dei outros pormenores. Apenas
entrara na sala em que ele recebia as visitas, o santo Cura
me disse: — Senhora, estais consternada, mas não vos
lembrais então dos ramalhetes de cada domingo do mês
de Maio? Ser-me-ia impossível dizer qual foi o meu
pasmo, ouvindo o Padre Vianney lembrar uma
circunstância de que eu não tinha falado a ninguém, que
só podia conhecer por uma revelação. — Acrescentou:
Deus teve piedade daquele que honrou sua santa Mãe; no
instante da morte, vosso esposo pôde arrepender-se; sua
alma está no purgatório; nossas boas obras não o
deixarão ficar lá.
11º DIA
Maria quer levar-me ao céu
Já vi que a Virgem Maria me tem amor, e um amor
maior, diz um Santo, do que todos os Anjos e Santos
juntos.
Se Maria me tem esse amor, é certo, portanto, que
Ela quer me levar ao céu.
De que me serviria seu amor na terra, se mais tarde
ela me abandonasse? Amar não é dar a alguém tudo o
que lhe é de maior utilidade, quando isso está no poder
de quem ama? Ora, que é que eu posso desejar mais do
que o céu?!
Maria, não vos peço nem as riquezas, nem a glória,
nem os triunfos mundanos; quero o céu, o céu por toda a
eternidade!
Um pensamento vem ainda corroborar minha
esperança: Maria, pela lei do reconhecimento, é de
alguma sorte obrigada a salvar-nos, — diz S. Afonso.
De fato, o que Ela possui, não o possui por nosso
beneficio ?
Não foi por nossa causa — dos pecadores mesmo —
que foi escolhida entre todas as mulheres para ser a Mãe
de Deus?
Se Deus não nos houvesse amado ao ponto de se
querer fazer homem para nos salvar, Maria seria como é,
Mãe de Deus? Teria as graças que recebeu? Gozaria dos
eminentes privilégios de que goza? Maria, que sabe tudo
isso, poderia deixar de nos amar ternamente e de se
empregar, com todo poder que lhe dá seu título de Mãe
de Deus, em favor dos que se lhe recomendam? Poderia
permitir que um só daqueles que a invocam, se perca
eternamente?
Por isso tenho prazer em repetir:
Maria quer levar-me ao céu.
EXEMPLO
Conversão de um maçom
Com o chapéu enterrado na cabeça, o cigarro à
boca, um delegado da loja maçônica de Dax, em posição
arrogante, parara para ver passar, em Lourdes, a
peregrinação de Viviers, em 1889. De repente, se opera
em seu espírito uma revolução. A majestade do
espetáculo abate-o, o acento de fé e de piedade daquela
imensa multidão, que atravessa as ruas cantando as
glórias e o poder de Maria Santíssima, é para ele uma
revelação vitoriosa do seu ódio e dos preconceitos de
seita. Enfim, a graça de Deus o subjuga. Não resiste mais,
lança fora o cigarro, descobre-se respeitoso, e logo pede
confissão. No dia seguinte, o Bispo de Viviers tinha nas
mãos a sua retratação, na qual declarava ter ido a
Lourdes, não espontaneamente, mas delegado —
compreende-se para que fim — pelos maçons de Dax.

12º.DIA
Maria me levará ao céu
Maria me levará ao céu, porque hei de amá-la sempre,
invocá-la sempre e sempre servi-la.
1. Hei de amá-la sempre. Amar é ter por uma
pessoa um sentimento que nos impele para ela que faz
pensar voluntariamente nela, que induz a procurar
contentá-la e ser-lhe agradável — sentimento esse que
incomoda, quando, voluntária ou mesmo
involuntariamente, se lhe tem desagradado.
Este sentimento, eu o tenho para com a Virgem Maria.
Deus, tão bom, permitiu que, desde a mais tenra infância,
nascesse este afeto em meu coração; ele cresceu, e até
quando eu ofendia a Deus, esse amor, por uma graça tão
particular, não se enfraqueceu, e foi ele que me
reconduziu ao dever.
A natureza de todo sentimento, eu o sei, é ser móvel,
variar, extinguir-se; mas, o que experimento por Maria
não há de variar, nem extinguir nunca porque:
II. Hei de orar sempre a Maria.
A oração é o alimento do amor sobrenatural; a oração é o
entretenimento cotidiano com a Virgem Maria, é o recurso
à proteção divina pela intercessão de Maria para não
pecar ou para sair do pecado; a oração é o meio infalível
para obter a graça, para vencer a tentação, para ter a
vontade e a força de cumprir o dever.
Maria, quero me habituar a recitar cotidianamente
uma oração particular em vossa honra. Prometo-o com
toda força de vontade de que sou capaz.
Sim, todos os dias hei de recitar ou uma parte do terço,
devoção tão atraente quando se tem o coração puro; ou o
“Lembrai-vos”, tão consolador na aflição; ou a invocação:
ó minha Soberana, ó minha. Mãe — tão poderosa nas
tentações... E estas orações servirão para nutrir em
minha alma o amor que vos tenho.
EXEMPLO
A devoção do terço recompensada
Numa pequena cidade da Alsácia morria uma mulher
de reconhecida virtude. Era o modelo da mãe de família.
A piedade era a alma de sua vida e todas as suas obras:
assistia quase todos os dias à santa Missa, recebia muito
frequente a sagrada Comunhão, recitava diariamente o
terço e muitas vezes, até em comum: com o marido, os
filhos e os criados, se os trabalhos destes o permitiam.
Quando esta zelosa serva de Maria caiu em agonia, foi
favorecida com uma assinalada graça. Viram-na, de
repente, como em êxtase e, arrebatada ao céu, exclamar:
Ó meu Jesus! ó eternidade! ó santa Mãe de Deus! ó minha
boa Mãe! Tornando a si, muito comovida, disse aos
assistentes : Oh que favor! eu não o mereci! Vi Nosso
Senhor a me chamar, enchendo-me de alegria indizível o
coração. Estava ao lado sua bendita Mãe que mostrou-lhe
todos os terços que rezei durante minha vida, que me
valerão uma bela coroa eterna. — Morreu pouco depois, e
sua morte edificante foi o que deve ser a dos
predestinados.

13º DIA
Maria me levará ao céu
III. Sim, Maria me levará ao céu, porque não só hei de
amá-la e invocá-la, mas hei de servi-la, fielmente, todos
os dias de minha vida.
Um servo em toda a extensão da palavra, é aquele que,
mediante uma recompensa, põe à disposição de outro,
para empregá-las a seu serviço, suas faculdades, suas
forças, seu tempo, tudo de que ele pode dispor, sem violar
a lei de Deus.
Pois bem, é esse estado de servidão que eu quero
impor a mim mesmo em relação à Virgem Maria.
Conheço sua santidade: ela não me ordenará o que
não seja sempre conforme a lei de Jesus e não tenha por
fim tornar-me santo e me conduzir ao céu.
Conheço sua justiça: ela não me ordenará o que
não seja útil e proporcionado às minhas forças; o que
possa impedir-me de desempenhar as obrigações que me
são impostas por minha família, por minha posição
social, pelos deveres do meu estado.
Conheço sua bondade: não ordenará nada sem me
alcançar uma graça que me dê a felicidade do que ela
exige; durante meu trabalho me animará, me
aconselhará, me fortificará; e depois de meu trabalho, me
há de dar sempre uma recompensa.
Conheço sua misericórdia: ela me perdoará o
trabalho que eu houvesse, feito mal, me ajudará a repará-
lo, e sobretudo me há de poupar, quando me vir submisso
e arrependido, ainda merecendo castigo.
Oh eis-me, pois, a vosso serviço, ó Maria, ó minha
Soberana, ó minha Mãe. Eu me ofereço todo a vós, e, para
vos provar minha dedicação, consagro-vos hoje meus
olhos, meus ouvidos, minha boca, meu coração, toda
minha pessoa. Desde que vos pertenço, ó minha boa Mãe,
guardai-me, defendei-me [e usai-me) como vosso bem e
vossa propriedade.
EXEMPLO
Milagre de Nossa Senhora de Lourdes
Filomena X... era uma pobre orfãzinha, que parecia
votada ao sofrimento. Na idade de três anos, foi atacada
de uma paralisia. A mão e o braço direito ficaram fracos
e quase inúteis. Apesar disso, crescendo, ganhava
penosamente a vida a serviço de um moleiro, quando foi
vítima de um horrível desastre. A roda do moinho a pegou
pelo vestido, e a infeliz, não podendo desprender-se, foi
arrastada no movimento da rotação, contundindo a
cabeça e indo violentamente de encontro à parede.
Levantaram-na moribunda. Desde então Filomena só
pôde andar com auxílio de muletas. Suas enfermidades
se agravaram ainda com uma queda, que lhe partiu uma
perna. A caridade, que tanto fizera por ela, deu-lhe
recursos para ir a Lourdes. Se esta voltar sem as muletas,
diziam muitos, acreditaremos nos milagres de Lourdes:
Ela voltou, deixou as muletas na Gruta, aí está
caminhando. — Como foste curada, Filomena? — Não sei;
ao sair da piscina, me senti forte; vesti-me e tomei a porta.
—Sem muletas e sem auxílio? — A Santa Virgem arranjou
tudo. — Que oração lhe fizeste? Oh! não sabendo bonitas
orações, eu lhe dizia: Santa Virgem, curai-me, se é de
vossa santa vontade; guardai as minhas muletas; já as
carreguei muito tempo.
14º DIA
Maria é o modelo que desejo imitar
Ó Maria, permiti a uma alma da qual sois o refúgio, o
apoio, a protetora, a mãe, e que compreende quanto a
amais e vos quer amar de todo o coração; permiti que vos
olhe com a afeição de um filho que está em presença de
sua mãe e que lhe estuda as palavras, os sentimentos, as
resoluções, e em tudo quer assemelhar-se-lhe.
Parecer-se com alguém é tomar, tanto quanto é possível,
o seu tom, suas maneiras, todo seu exterior.
Parecer-se com alguém é, principalmente, querer o que
esse alguém quer; amar, o que ama; não ter outros gostos
senão os seus; outros desejos senão os que nutre aquele
coração; outros amigos senão aqueles a quem ele deu sua
afeição.
O Maria, é isso que desejo fazer durante este mês. Quero-
o, porque vos amo, porque desejo ser amado por vós, e
porque sei que o amor não pode durar senão entre dois
corações que se assemelham aos que procuram
assemelhar-se.
Quero-o porque sei que não hei de agradar a Deus,
senão quando Ele encontrar em mim algumas das
virtudes que fizeram de vás a criatura mais santa, mais
perfeita, mais amada por Ele.
Quero-o, porque sou vosso, vosso filho, qualquer que seja
minha idade, somos todos vossos filhos, desde o Calvário.
— Vosso servo, obrigado, a título de justiça e
reconhecimento, a dar-vos a vida que possuo e que Deus
m’a conservou até agora, talvez a vossos rogos.
Renovo minha promessa de ser assíduo em todos os
exercícios deste mês e de ser dócil a todas as lições que me
derdes.
EXEMPLO
A mestra de um general
Perguntaram um dia a um velho general francês como,
tendo passado sempre a vida em campanhas e exercícios
militares, ele se fizera tão devoto, que comungava
frequentemente. O que é mais curioso, respondeu o bravo
soldado, é que me converti antes mesmo de ouvir a
palavra de qualquer padre ou de pôr os pés numa igreja.
Deus me deu uma esposa piedosa de quem eu respeitava
a fé sem partilhá-la. Desde moça ela fazia parte de todas
as congregações de sua freguesia, e à assinatura de seu
nome acrescentava — Filha de Maria. Nunca sua timidez
lhe permitiu dizer-me palavra sobre Deus; mas, eu lia-lhe
no rosto o pensamento. Quando orava, à minha vista,
cada manhã e cada noite, com as feições iluminadas pela
fé e pelo amor; quando voltava da igreja, onde comungara
com uma calma, uma doçura, uma paciência que tinha
um que da serenidade do céu; era um anjo. Quando me
prodigalizava os seus cuidados, e pensava as minhas
feridas, era uma irmã de Caridade. De repente, senti
também o desejo de amar ao Deus, que a minha mulher
amava tanto, e que lhe inspirava as doces virtudes que
constituíam o encanto de minha vida, e a dedicação de
que meus dias de velhice tinham necessidade. Um dia,
eu, que aliás ainda não tinha fé, eu, tão contrário às
práticas da religião, tão afastado dos sacramentos, lhe
disse: Leva-me a teu confessor! Pelo ministério desse
homem de Deus e pela graça divina, me tornei o que hoje
sou, felizmente.

15º DIA
Maria meu modelo
Maria e a oração
A oração de Maria era contínua. A oração não é só a
palavra de louvor, de agradecimento ou de amor dirigida
a Deus; é também, e ainda mais, essa relação habitual
entre a alma e Deus. Nada representa melhor do que a
vida da criança unida a sua mãe; se caminha, é presa a
seus vestidos; se brinda, é volvendo-lhe a cada instante o
olhar; se repousa, é em seus braços, ou perto do leito em
que a mãe repousa.
Eis Maria e Deus.
A oração de Maria era simples, quando lhe vinha aos
lábios. Simples nas palavras e nos sentimentos. Maria
adorava, e o dizia; sentia-se agradecida, e o dizia como
lhe passava n’alma.
Oh! não sejamos afetados para com o nosso bom Deus!
Simples no exterior, Maria orava com muito respeito e
modéstia, mas não se lhe notava nada de exagerado, nada
de rígido, nada de singular; a calma de sua fisionomia, a
serenidade do olhar, a mansidão do todo faziam dizer a
quem a via: Fala com Deus.
A oração de Maria era regular. Maria havia determinado
suas horas de colóquio particular com Deus e, chegada
uma dessas horas, deixava toda ocupação que não lhe
vinha da caridade ou dever, e dizia consigo: Vamos, Deus
me espera.
Ó minha Mãe, quando, pois hei de orar como vós?
Quando é que a oração será para mim a mais séria, e mais
importante, a mais amada das ocupações?
EXEMPLO
Maria e a doutrina cristã
Quando o Pe. Smet, da Companhia de Jesus,
evangelizava as hordas do Oregon, ao oeste dos Estados
Unidos, lá encontrou um orfãozinho chamado Paulo, que
tinha grande dificuldade em aprender suas orações e o
catecismo. Era um menino piedoso, cheio de candura,
incapaz de mentir. Um cristão, chamado João, o ajudava
a aprender, e Paulo ia procurá-lo, todos os dias, na sua
loja. Na véspera do Natal de 1841, indo lá como de
costume e. estando ausente seu mestre, foi obrigado a
esperá-lo algum tempo. Enquanto está na loja escura,
uma luz viva brilha a seus olhos e do meio dessa luz vê
surgir uma Dama belíssima que, num momento, lhe
ensina todas as suas orações. Cheio de espanto e de
alegria, o pequeno corre ao Padre Smet, e lhe recita
perfeitamente as orações. O padre, suspeitando de um
prodígio, pergunta-lhe como pôde aprender tudo em tão
pouco tempo. Eu vi, disse Paulo, entrar na loja uma
Dama, cujos pés não tocavam no chão. Vestia de branco,
e tinha estrelas sobre a cabeça. Sob os pés vi uma
serpente que tinha nas goelas um fruto que eu não
conheço. Vi também seu coração; saíam dele raios de luz
que vinham sobre mim. Vendo tudo isto, a principio tive
medo; mas depois perdi todo o medo: então meu coração
estava ardente, meu espírito claro, e não sei como, num
momento, soube todas as minhas orações. Algum tempo
depois mostrando-se-lhe uma imagem da Imaculada
Conceição: Eis, disse ele, a Dama que eu vi.

16º DIA
Maria meu modelo
Maria e sua família
Maria compreendia o dever dos filhos para com seus
pais. Separada dos seus desde tenra idade, guardava
sempre no coração a lembrança da afeição que lhe tinham
e a Imagem de seus traços. Não, Deus não quer nunca o
esquecimento!
Maria respeitava a seus pais. Oh! quem dirá que
sentimento de veneração lhes demonstrava nos dias
felizes em que iam vê-la no tempo! Como escutava suas
palavras, como mostrava apreço a tudo que eles diziam,
como era obediente a todos os seus desejos!
Maria amava seus pais com esse amor de ternura que
faz palpitar o coração junto daqueles a quem se ama; com
esse amor de complacência que faz partilhar de todas as
suas mágoas, de todas as suas alegrias, e que só procura
adivinhar o que lhes pode ser agradável; com esse amor
de compaixão que procura animar, fortalecer, consolar;
com esse amor sobrenatural que faz orar por ele, que vai
ate a dar-lhes, discreta e suavemente, conselhos para a
sua santidade.
Oh! enquanto gozar adita de possuir meus pais, Maria,
quero ser como vós, respeitoso e amante para com eles; e
se a morte nos levar, quero sempre rogar por seu
descanso eterno.
Pais muito amados, a quem muitas vezes penalizei,
perdoai-me! Agora, se o puder, por minha docilidade aos
vossos desejos, por minha submissão às vossas ordens,
por minhas orações, ao menos, imitarei a Santa Virgem
nas relações em que viveu com sua abençoada família.
EXEMPLO
Poder de uma filha de Maria
Na manhã de 7 de dezembro de 1888, último dia da
novena com que as Filhas de Maria se preparam para a
festa da Imaculada Conceição, o pregador discorria sobre
o que uma jovem pode fazer com a exortação e o exemplo,
e encerrou o discurso contando o caso de uma menina de
7 anos, de Lião que, ouvindo um missionário dizer que
quem beijasse três vezes a medalha milagrosa, e três
vezes recitasse a jaculatória — Maria concebida sem
pecado, rogai por nós que recorremos a vos, — com
certeza se converteria, pensou logo em experimentá-lo
com o pai que era livre pensador. Chegando a casa com
doce astúcia o fez ler três vezes a jaculatória que estava
gravada no verso da medalha e lha fez beijar três vezes: e
depois insistiu, que ele, comovido pelos rogos da filha,
cedeu e voltou ao grêmio da Igreja.
17º DIA
Maria meu modelo

Maria e seus superiores


Maria sentia-se feliz em depender sempre de alguém.
Quando, mais tarde, ouviu da boca de Jesus Cristo essas
palavras: Não vim para ser servido, mas para servir,
reconheceu um sentimento que havia sempre alimentado
em Seu coração.
Este sentimento de dependência amada é talvez o que
mais seguramente indica a santidade: há tanto orgulho
em todos nós! Quando menina, Maria teve superiores no
Templo; mais tarde, ela subordinou-se ao mando de S.
José; ainda mais tarde, quando Jesus Cristo subiu ao céu
constituiu-se na dependência de S. João a quem vinha
respeitosamente pedir a santa Comunhão.
Em todos os seus superiores, a Virgem Maria via a Deus
que lhes havia comunicado sua autoridade e era a
vontade divina que ela executava, cumprindo suas
ordens.
Não tinha visto Jesus submisso em tudo e sempre ao
que ela determinava?
Como essa recordação lhe havia de encher alma de um
afeto imenso pela obediência! Ó minha Mãe, trazei-me
muitas vezes à mente a lembrança da obediência de Jesus
e a vossa. Não me deixeis nunca na independência
absoluta. Oh! dai-me, principalmente para as decisões da
Santa Igreja e as palavras do Sumo Pontífice, uma tal
submissão de espírito e de coração, que não me permita
nunca hesitar nem discutir, mas a todo ensino e faça
dizer firmemente: Aceito e creio!
EXEMPLO
Milagre da SS. Virgem a um estudante
João Nicolau Beauregard era piedoso como um
anjo, e trabalhava com todas as forças; mas, apesar de
uma aplicação admirável, era sempre o último da classe
de modo que, no fim do ano escolar, o Reitor do Colégio
dos Jesuítas em Metz, julgando-o destituído de vocação
para os estudos, aconselhou ao pai fazê-lo aprender um
ofício mecânico e deixar a carreira das letras. Esforços
extraordinários, durante as férias, abrem-lhe ainda uma
vez a entrada no curso a título de experiência. Foi em vão,
e, no fim do trimestre, continuava a ser o último. Devia
fazer sua última composição decisiva. A piedosa mãe o
levou o levou à presença de uma imagem milagrosa da
Virgem, na igreja dos Celestinos. Oraram com fervor e
ouviram missa. Cheio de confiança volta para o Colégio,
faz a composição e é logo o primeiro. Maria renovava com
ele o que havia feito com o grande teólogo de Granada,
Francisco Suarez, com o grande orador português
Antônio Vieira, e outros. João Nicolau Beauregard, o rude
estudante sempre atrasado, pôde seguir a carreira
eclesiástica, e chegou a ser um dos oradores mais
célebres da França.

18º DIA
Maria meu modelo
Maria e a vontade divina
Não é um reflexo do Coração de Maria este quadro do
coração de S. Francisco de Sales? — Amava igualmente o
doce e o amargo, o repouso e a fadiga, a vida e a morte, e
nunca preferiu uma coisa a outra, a menos que a Eterna
Majestade lhe houvesse feito conhecer o seu querer,
porque então ele se determinava incontinente.
E tudo isso se passava nela em paz, sem réplica, sem
contradição, sem sim, sem não, sem talvez nem mas.
As águas de Siloé, dizem as Sagradas Escrituras,
corriam em silêncio, isto é, deslizavam tão
imperceptivelmente, que mal se teria podido notar a mais
pequena agitação; da mesma sorte, sua conformidade
com a vontade divina, se fazia tão admiravelmente, que
não se teria podido distinguir nunca o mais ligeiro ruído,
a menor ondulação do coração.
Eis bem o vosso Coração, ó Maria, tal qual eu o
imagino; sempre calmo, sempre benigno, sempre feliz,
elevando-se para o céu, obedecendo ao influxo da vontade
divina.
O que vos acontecia, vós o aceitáveis em paz, porque
sabíeis que tudo vem de Deus.
Vós o aceitáveis com alegria, porque sabíeis que,
aceitando-o, Deus se alegrava.
Deus vos havia revelado, por certo, aquela oração tão
confortadora que saiu mais tarde, dos lábios de Jesus:
Seja feita vossa vontade, assim na terra como no céu.
Ó minha Mãe, dai-me amor à vontade divina. Deixando
agir a Providência, sempre tão boa, não serei eu mais feliz?
EXEMPLO
Proteção da SS. Virgem
Nos dias da revolução francesa, vivia em
Estrasburgo, asilado em casa de uma família piedosa, o
Padre Colmar, que foi depois Bispo de Mayença e que
então estava denunciado perante o governo. Uma noite,
depois de seus trabalhos apostólicos, se achava ele
tranquilamente sentado à mesa com a família. De
repente, abre-se a porta: um comissário de Polícia
precipita-se na sala e exclama: Cidadão, entregue-me o
Padre Colmar; sei que ele está escondido em vossa casa.
O pai de família, perturbado a princípio, levanta-se e diz
calmo: se o encontrardes, levai-o. Depois de ter
examinado todos os cantos, da adega até o celeiro, não o
achando, o comissário partiu com seus agentes, muito
desapontado. Durante essa hora de angústia, o Padre
Colmar ficou à mesa, calado, com a mãe de família e os
meninos, encomendando-se à proteção divina. Partindo a
polícia, como todos se admirassem de que os homens não
tivessem reparado no Padre, que estava ali bem à vista, a
mais moça das meninas exclamou: Oh! eles não puderam
ver o sr. Padre, porque uma bela Dama veio estender
sobre ele um grande véu branco. Assim operara a SS.
Virgem um verdadeiro milagre em favor de seu servo. Tal
é a admirável proteção que Maria se compraz em conceder
ao zelo apostólico do sacerdote, quando ajudado pela
fervorosa oração dos fiéis.

19º DIA
Maria e a Santa Comunhão
Maria comungava todos os dias, desde que os apóstolos
haviam começado a celebrar a santa Missa.
A alma de Maria era sempre o tabernáculo vivo de Jesus
Cristo. Este atuava continuamente nessa alma e, de dia
em dia, mais conformava sua vontade com a vontade
divina, de modo que Maria pensava o que pensava Jesus,
e queria o que Ele queria.
Além disso, ela reproduzia em sua vida as virtudes que
Jesus Cristo, em seu estado glorioso, não podia mais,
atualmente, praticar.
Ao estado de humilhação e Jesus no Sacramento,
Maria correspondia com atos de humildade; ao estado de
vítima que Jesus apresentava, respondia a Virgem com o
sofrimento pessoal.
Para honrar a vida oculta de Jesus Maria se
aniquilava e tendia a se tomar uma simples aparência
humana, da qual todo o ser se houvesse transformado em
.Jesus Cristo.
Ela é pobre como Jesus no Sacramento, mais pobre
ainda, porque pode experimentar as privações reais da
indigência. Como Jesus Cristo, obedece e imita sua
obediência sacramental, submetendo-se ao último dos
ministros da Igreja.
Ó Maria, ajudai-me a passar como vós uma vida
eucarística. Que meus dias de Comunhão sejam dias de
oração, dias de trabalho unido a Jesus. Há de ser sempre
por vós e convosco que eu me aproximarei da santa Mesa.
Eu vos invocarei sempre antes e depois de minha
Comunhão.
EXEMPLO
Um ministro protestante e a santa
Casa de Loreto
O Padre Afonso Ratisbona, o célebre judeu a quem
Nossa Senhora apareceu e converteu numa igreja de
Roma, conta o seguinte:
O reverendo pastor..., doutor anglicano, tomara a
peito surpreender a Igreja católica em algum erro
flagrante, assim provar a sua falsidade. Achou que o
milagre da trasladação da casa de Nazaré do Oriente para
o Ocidente era uma fábula, e que a Igreja, autorizando
um ofício em memória desse milagre, autorizara um
absurdo e, por conseguinte, não era assistida pelo
Espírito Santo. A fim de demonstrá-lo, parte o ilustre
professor da Universidade de Oxford para Nazaré, com
um armazém de instrumentos e ingredientes químicos.
Chegando ao Santuário da Encarnação, entrega-se a mil
e mil investigações científicas: por dentro e por fora, em
redor, de cima para baixo, de baixo para cima, olha, mede
tudo, com uma incrível minúcia, tudo que ainda resta da
habitação da Sagrada Família; e por fim, terminado estes
trabalhos, paciente, embarca para a Itália e vai
diretamente a Nossa Senhora de Loreto. Lá recomeça as
mesmas operações; compara os resultados com os
obtidos na Galiléia; depois, apercebendo-se de que faltam
ainda algumas indicações, volta a Nazaré, e torna a ir a
Loreto efetuar a contraprova. Mas, a medida que esta
elaboração prossegue, seus preconceitos odiosos mudam-
se em confusão, sua confusão em contrição, e sua
contrição em conversão. Volta pela terceira vez a Nazaré,
não mais como químico, nem como sábio, não mais como
protestante, nem como professor de Oxford, mas como
católico profundamente vencido pela graça de Deus .
Tomou-se sacerdote católico.

20º DIA
Maria meu modelo
Maria e as provações
Ó Maria, deixai-me, durante alguns dias estudar vossa
vida em seus primeiros anos. Não éreis ainda sustentada
pela presença ou pela recordação de Jesus; parecíeis
então humanamente mais fraca, e as lições que me
destes, por isso, me hão de comover mais e me parecerão
mais fáceis de segui-las.
Ó Maria, vossa infância teve esses dias de tristeza
e de tédio que pesam sobre meu coração e, algumas vezes,
me fazem a existência tão penosa? Teve esses dias de
sofrimentos que me deixam quase sempre debulhado em
lágrimas? Teve, finalmente, esses dias de contrariedade
que me põem inquieto?
— Sim, meu filho, exceto os males que são a punição
de um pecado atual ou a conseqüência das paixões que
residem na alma, das quais, minha Imaculada Conceição
me isentara, experimentei, como tu, dissabores,
contrariedades, decepções.
Sofri como tu, e não quero sair da minha vida infantil,
nem recordar meus sofrimentos do calvário, para os quais
tive necessidade de uma graça toda particular; meus
sofrimentos foram os mesmos pelos quais todas as almas
a quem Deus quer mais do que ás outras. Não, eu não fui
poupada; o sofrimento não é o pão cotidiano de todos? e
um dia sem sofrimento não é um dia sem mérito?
Mas, meu filho, nas horas de tédio eu me chegava mais
a Deus, orava com maior fervor, esperava com mais
paciência.
As nuvens do coração passam como as nuvens do
firmamento.
Nos dias em que meu coração era combatido por
uma humilhação, por uma palavra pouco amável, com
maior ardor eu trabalhava, e orava com mais piedade.
A oração, o trabalho, deixam sempre o sorriso e a
paz.
EXEMPLO
Um devoto do Rosário três vezes
escapa à forca
Brenm, em Babiscconde (Inglaterra), incendiava-se
a casa de miss Keyes. Extinto o fogo, foi encontrado o
corpo da infeliz senhora crivado de golpes, o que provava
ter sido o incêndio proposital, para esconder um
homicídio e um furto. Acusado desses crimes, foi preso
um certo Lee, que miss Keyes tomara a seu serviço pouco
antes. Levado a prisão, achou-se em seu poder uma
faquinha e um rosário. Pediu Lee que não lho tirassem
porque costumava rezar a coroa todos os dias.
Comparecendo ante o júri, declarou ser inocente, mas
não foi crido. Os jurados o consideraram criminoso, e
condenaram-no a morte. A 25 de fevereiro de 1885 Lee
subiu à força. No momento em que deveria morrer, o laço
partiu-se; o condenado foi reconduzido ao cárcere. Uma
semana depois, Lee foi novamente levado ao patíbulo;
novo embaraço, o aparelho não funcionava, o infeliz
voltou às galés. Sobe a terceira vez ao patíbulo, terceira
vez recebeu as últimas bênçãos do capelão e ainda
terceira vez a execução não se efetua. Informado de todo
o ocorrido, o subsecretário dos negócios do interior obteve
da rainha a comutação da sentença. Pois bem; o mísero
era realmente inocente, e fora condenado por erro
judiciário. Em abril de 1889, um indivíduo de
Babicconde, às portas da morte, declarava ter sido o
autor do crime.

21º DIA
Maria meu modelo
Maria e as contradições
Ó Maria, eu muitas vezes repeli a ideia de que pudesse
haver entre vossas companheiras de infância, mais tarde,
entre as pessoas que conviviam convosco quem não vos
amasse. Era possível odiar-vos sendo vos tão boa? Tão
dedicada como éreis, de que censurar-vos?
— Ó meu filho, Jesus era mais meigo, mais dedicado,
mais generoso do que eu, e teve inimigos e contraditores;
eu tive também os meus.
Não que fossem más as pessoas que não me queriam,
mas é que o caráter delas, oposto ao meu, lhes fazia
experimentar para comigo uma indisposição, da qual não
se apercebiam, e que as forçava a serem pouco atenciosas
comigo.
E que, talvez interpretando mal a bondade de Deus com
sua serva e não vendo as provações por que Deus me fazia
passar, julgavam-se menos felizes ou até esquecidas, e
suas mágoas se manifestavam em explosões de mau
humor.
Eram mais infelizes do que más, e eu orava muito por
elas.
Meu filho, se tiveres que sofrer de alguém que não te
estime, não lhe queiras mal, pede por ele e nunca lhe
recuses os serviços que puderes prestar.
EXEMPLO
A medalha da SS. Virgem num duelo
Paulo Cassagnac, membro do parlamento francês, em
1889, referiu em jornais de Paris o seguinte:
Rochefort tinha insultado, num artigo, a memória de
Maria Antonieta, eu a defendi; veio daí um duelo. Depois
de uma tentativa de encontro, frustrada na Bélgica pela
gendarmeria, nos vimos frente a frente nas vizinhanças
de Paris, junto a 5. Diniz. Era 1.0 de janeiro, e tínhamos
neve até o joelho. Rochefort propusera, feroz, que
atirássemos seis vezes... Ao primeiro tiro errou o alvo; eu
fiz fogo um instante depois e Rochefort caiu. Julguei-o
morto, porque a bala atingiu o ponto que eu alvejara,
batendo certeira e em cheio na ilharga. Cercaram-no.
Com surpresa verificou o médico que, em vez de
atravessá-la de um lado a outro, como devia acontecer, a
bala fizera uma simples contusão. O projétil se tinha
desviado! Sobre quê? O médico procurou e, cada vez mais
surpreendido, nos mostrou uma medalha da Virgem que
mão amiga tinha cosido no cós das calças... Sem aquela
medalha milagrosa Rochefort teria sido fulminado.
A fé e os rogos de uma oração devota salvaram a vida
de um ímpio e pouparam aos duelistas um crime e viu-
se, mais uma vez, de que pequeninas coisas se serve Deus
para mostrar o seu poder e glorificar a SS. Virgem.

22º DIA
Maria meu modelo
Maria e os maus
Meu filho eu te falei, ontem, das pessoas que não me
queriam por antipatia de caráter e que me faziam sofrer
essas pequenas contrariedades tão comuns na vida de
todos os dias. Havia, porém, outras mais para lastimar do
que essas: eram as que, escutando o demônio, queriam
ver em meus atos, em minhas palavras, intenções que eu
não tinha.
Afastavam-se de mim; faltavam mal de mim... Oh!
quanto eu sofria por vê-las assim! Entretanto, suportava-
as com paciência; nunca deixei escapar uma queixa que
desse a conhecer suas ações, falava bem de todos e
suavizava-lhes a vida o mais que podia.
Filho, procede deste modo. Se o bom Deus te mandar
essa provação: fala bem dos que não te estimam, abona-
os quando puderes; e mais meritório isto do que realizar
um feito brilhante.
Depois, quem sabe se com tua bondade, tua mansidão,
tua paciência não acalmarás as perturbações de seu
coração e não os reconduzirás a Deus?
Filho compreendes que humildade, que abnegação, que
esquecimento de ti mesmo te seriam necessários? Pede-
me essas virtudes!
EXEMPLO
Um blasfemador de Maria
Em marcha para o campo de manobras, em Chateauneuf,
alguns mobilizados travaram uma conversação ímpia e
libertina; ao que replicava um soldado, conhecido na
companhia por sua piedade sincera e sua palavra
independente de respeito humano.
Um deles lança uma horrível blasfêmia contra a pureza
virginal de Maria. Ah! que disseste! replicou logo o
camarada fiel... Hás de te arrepender disto um dia!...
Às onze horas, depois do almoço, três daqueles moços
entraram num barquinho de pesca para darem um
passeio no rio. Sobem a corrente, e logo se acham na
altura da represa. Não vos aproximeis! ao largo!
imprudentes; estais perdidos! Exclama o velho guarda.
De feito, uma tapagem destinada ao serviço do
reservatório produz de encontro à corrente uma
cachoeira, com um redemoinho dos mais perigosos. E já
era tarde; mal os nossos barqueiros responderam com
uma pilhéria ao conselho da experiência, entravam no
círculo de atração da voragem. impossível recuar,
fatalmente o barco é arrastado para o abismo açoitado
por ondas contrárias, é sacudido convulsivamente. ... gira
sobre si... e se aprofunda! Os três soldados
desapareceram... Todavia, dois dentre eles, alguns
instantes depois, alcançavam a praia; mas o terceiro
ficara no fundo d’água. Era o blasfemador da. manhã!

23º DIA
Maria meu modelo
Maria e os pobres
Vós devíeis amar muito aos pobres, ó Maria. O amor
dos pobres é o sinal, não só de um bom coração, mas de
um coração que Deus possui inteiramente.
Os pobres são, primeiro, aqueles que não têm os bens
necessários à vida.
Com esses repartíeis vós tudo de que podíeis dispor;
sentíeis que gozar só, um bem que se pode comunicar a
outros, e gozar pela metade. — Quantas vezes, sem
dúvida, recusastes de vossas, amigas ou um prêmio
merecido ou uma dádiva espontaneamente ofertada,
pedindo que a dessem aos pobres! ...
Quantas vezes não reunistes, com cuidado, esses mil
pequenos objetos que se perdem numa casa, para fazer
deles o cabedal dos pobres!
Quantas vezes quisestes vós mesma ser a distribuidora
das esmolas que se davam!...
E com que bondade e modéstia devíeis praticar estes atos
de caridade, e como com a esmola material devíeis dar
aos pobres essa esmola espiritual de que a alma tem
necessidade!
Ó minha Mãe, eu posso fazer como vós; dai-me o gosto da
esmola. Hoje, a vosso exemplo, eu me privarei de alguma
cousa em favor dos pobres.
EXEMPLO
A esmola em honra de Maria
Um célebre missionário pregava no exercício do mês de
Maria. Um dia, discorrendo sobre o amor da SS. Virgem
pela pobreza e pelos pobres, teve a inspiração de dizer:
Convido o pecador mais infeliz deste auditório a fazer uma
boa esmola aos pobres, e prometo a essa alma o perdão e
a felicidade. Na coleta que se seguiu ao sermão, se
encontrou, com surpresa, um bilhete de mil francos.
Quem fizera tão rica oferta? No dia seguinte, um. homem
se lançava aos pés do pregador e lhe dizia em lágrimas:
Meu Padre, ontem, quando pregáveis sobre a pobreza de
Maria, entrei por acaso na Igreja, mas com desespero
n’alma e resolvido a matar-me ontem mesmo. Convidaste
o pecador mais desgraçado do vosso auditório a dar uma
esmola em honra de Maria; eu a dei e, no mesmo instante,
recobrei a esperança; veio-me a resignação, e hoje me
sinto consolado e forte. Agora venho reconciliar-me com
Deus; confessai-me e ajudai-me a bendizer sempre a
misericórdia de Maria Santíssima.

24º DIA
Maria meu modelo
Maria e os aflitos
Os pobres são também aqueles cujos corações têm
necessidade de consolação e de alegria; e é grande, muito
grande, o número desses pobres de coração!
Há deles entre as crianças: umas estão separadas das
famílias, outras privadas de suas mães, e outras caídas
num abandono e privações de carinhos que lhes rasgam
o tenro coração. — Oh! quanto haveis de ter amado os
orfãozinhos e os desamparados!
Há desses pobres entre as mães; como sofrem estas,
quando se veem esquecidas por seus filhos, ou quando a
morte lhos vem arrebatar! Ó Maria! como teríeis sabido
consolar a essas pobres mães!
Há pobres assim entre as pessoas de piedade, e é Deus
que, por um segredo de sua Providência, priva-os de toda
consolação e alegria. — ó Maria! como devíeis dissipar os
receios e as dores das almas atribuladas!
Sede ainda a consoladora dos aflitos e, se hoje, ante o
vosso altar, uma criança, u'a mãe, uma alma angustiada
vierem invocar-te, consolai-as, ó Maria!
Às crianças fazei sentir vossa ternura; às mães e às almas
atribuladas ‘mostrai vosso coração partido de dor e lhe
segredai estas palavras: Um pouco de tempo ainda e
depois o céu.
EXEMPLO
O incêndio de Reuilly e o terço miraculoso
A 5 de Julho de 1885, pelas 10 horas da noite, um
violento Incêndio se declarava em Paris na rua de Reuilly,
nos prédios ocupados pela Sociedade Anônima da
Papelaria do Souche. O fogo havia ganho as oficinas
vizinhas e já se estendia para o estabelecimento dirigido
pelas Irmãs da Providência, onde há muito, funcionavam
uma comunidade religiosa, um orfanato, uma escola
comunal, um asilo de velhos e de cegos, e várias salas de
trabalhos.
No momento em que o incêndio parecia ser mais contido,
uma Santa mulher, que tinha a vida cheia de exemplos
de abnegação e de piedade, teve a inspiração de atirar o
seu terço sobre o teto da capela que já começava a arder.
Como se fosse aquele terço um instrumento eficaz para
sustá-lo, o incêndio, que até aí se desenvolvera com uma
fúria crescente, de súbito recuou e, pouco tempo depois,
se extinguiu: o estrago se limitou àquela parte do teto da
capela, e o estabelecimento escapou milagrosamente ao
perigo.

25º DIA
Maria meu modelo
Maria e os passatempos
A vida de Maria Santíssima era uma vida simples,
comum; e aquele que não tivesse penetra no âmago de
sua alma ou compreendido a causa da paz que se lhe
irradiava no rosto, não teria visto nela senão uma mulher
mais afável, mais corajosa, mais dedicada que as outras.
Mas quedar-se-ia surpreso, se lhe houvessem dito: É a
Mãe de Deus.
Maria trabalhava, orava, descansava, recreava-se e,
nessas horas de repouso e de distrações, era tão santa e
agradável a Deus como nas horas da oração.
Maria, criança, prestava-se voluntariamente às
exigências de suas companheiras, sofrendo os caprichos
de umas, tomando parte, para contentá-las, nos
divertimentos inventados por outras, não recusando
nunca um serviço nem uma palavra boa, e, sobretudo,
não deixando passar nenhuma recreação sem fazer
algum bem.
Maria, adolescente, mostrava-se, sempre e em toda parte,
reservada, boa, modesta, prudente, dedicada, mormente
no exercício da. caridade; chamava ao dever sem irritar o
amor próprio, e não perdia nunca o sentimento da
presença de Deus.
Maria, Mãe de Jesus, nunca deixava seu Filho muito
amado; perto dele é que repousava; perto dele buscava o
alivio para o peso de seu trabalho; perto dele sorria,
modelo da afeição terna, dedicada e respeitosa de toda
mãe cristã.
Ó Maria! reinai em meu pensamento, nas horas de
repouso! Que eu seja com todos brando, diligente,
dedicado e discreto: que sempre domine em mim o desejo
de fazer o bem.
EXEMPLO
Conversão de uma protestante pela Ave Maria
Corria célere o trem de Munich a Augsburgo da Baviera.
Encantadoras paisagens seguiam uma à outra; o sol do
verão inundava a planície e as montanhas de’ luz e
alegria, que visivelmente contrastavam com a tristeza
estampada no rosto de uma das duas jovens que viajavam
em um compartimento reservado a senhoras.
A companheira notava-o e, comovida, indagou
discretamente o motivo. A primeira contou:
Educada em colégio de Religiosas tirara. o diploma de
professora. Da primeira cadeira, porém, que obtivera,
tinha ela voltado às Religiosas, para como Religiosa,
dedicar suas energias a Jesus e à juventude estudiosa ao
mesmo tempo. Admitida, gozava da doce e religiosa
atmosfera do noviciado, quando, faltando poucas
semanas para a profissão, sua melindrosa saúde a
obrigou a voltar ao lar paterno.
A outra não soube ocultar sua surpresa. Não
compreendo, - disse, - pois, sou protestante; porém, ao
meu ver, devia estar bem contente de ter escapado da
prisão do claustro.
Vou ser professora também, sou normalista e já entrei no
derradeiro exame. Hei de trabalhar muito, não há dúvida,
para a juventude e para meu Deus, mas quero também
folgar, gozar da mocidade. A senhora reze por mim, para
que me saia bem no exame; esqueça sua mágoa e será
feliz ainda. A católica agradecendo, o prometeu, pedindo,
porém, que ela também ‘devia se recomendar a Deus e
bem podia recorrer à Mãe de Deus, dizendo todos os dias
a Ave Maria.
Eu, rezar a Ave Maria? Eu, uma protestante? perguntou
admirada a outra. E por que não? replicou a católica. Por
ventura lhe é proibido dizer as palavras dulcíssimas que
primeiro pronunciou o Arcanjo?
O trem parou. A normalista devia saltar. Despedindo-se,
afetuosamente, prometeu experimentar a eficácia das
palavras angélicas. — Três anos depois a católica recebeu
uma carta de sua companheira de viagem em que se
confessou imensamente feliz como católica, pela eficácia
das Ave Marias.

26º DIA
Maria é a voz que me chama
No primeiro dia do presente mês, prometi a Maria a
assiduidade em vir render-lhe minhas homenagens; no
segundo dia, prometi-lhe a docilidade.
E Maria falou a meu coração; revelou-me seu amor, seu
poder, sua misericórdia. Maria falou à minha Inteligência:
mostrou-me, dentre suas virtudes, as que estão mais a
meu alcance, e prometi ser fiel em. imitá-la.
Eis que agora escuto sua voz que me chama. — Filho: eu
aprecio teus sentimentos de amor e de confiança, tua
veneração e mais que tudo, teus esforços para imitar
minhas virtudes; mas, tenho alguma coisa mais a pedir-
te.
Queres realmente ser meu e dar-te inteiramente a mim
para que te dê a Jesus Cristo?
Inteiramente, isto é, teu corpo com seus órgãos e
sentidos, tendo eu a liberdade de lhe dar a vida ou de
paralisá-lo? — tua alma com suas faculdades para forçá-
la, de certo modo, a se empregar só no serviço de Deus?
— teus méritos, tuas virtudes adquiridas, tuas boas
obras, para te conservar, por certo, sua parte
incomunicável, mas podendo eu dispor, para maior glória
de Deus, de tudo o que é susceptível de ser comunicado
a outrem?
Um de meus servos, Santo Agostinho, me chamou o
molde vivo de Deus; ele disse, com exatidão, que desde
que só em mim se havia formado um Deus homem,
também só em mim o homem pode formar-se em Deus,
tanto quanto é capaz disso a natureza humana pela graça
divina.
Reflete neste pensamento, filho, e desde hoje medita
nesta palavra dos Santos: assim como Deus não veio do
céu à terra senão passando por Maria e dando-se todo a
ela, também a alma não irá da terra ao céu sem
consagrar-se inteiramente a Maria e ser levada por ela.
EXEMPLO
Uma vocação devida à Ave Maria
Nascido na ilha Maurícia, de pais ingleses e protestantes,
M. Tuckwel tem em si um exemplo tocante das
misericordiosas antecipações da graça. Na idade de seis
anos, ouviu recitar a Ave Maria, decorou e repetiu-a
diante de sua mãe. Ela ralhou e o advertiu que não
repetisse mais semelhantes louvores a Maria, porque
eram uma das superstições papistas. O menino
obedeceu; mas, daí a algum tempo, lendo na Bíblia,
acertou com a passagem de S. Lucas que narra a
saudação do Anjo a Maria. Como a mãe não soube lhe
resolver a dúvida, voltou a recitar a Ave Maria.
Aos 13 anos ouvindo falar contra o culto da SS. Virgem,
protestou dizendo: Que contradição vossa! quando a
Bíblia vos manda e a todas as gerações, glorificar a Maria
e chamá-la bem-aventurada.
Ouvindo isto, sua mãe levantou-se e disse com violenta
emoção: Esse menino será nossa vergonha; ele acaba
católico.
De fato, logo que foi livre, M. Tuckwel se fez instruir e
abraçou’ o catolicismo. Um dia que ele instava com sua
Irmã para segui-lo, esta lhe disse, mostrando-lhe os
filhos: Vês estes meninos, sabes que eu os amo; pois, eu
preferia cravar-lhes... um punhal no coração do que
deixá-los entrar nessa religião. Maria quis também
triunfar desta oposição, e a venceu. M. Tuckwel viu, uma
vez, sua irmã em grande consternação: seus dois filhos
estavam com o crupe, a morte era iminente. Dize comigo
a Ave Maria e Maria os salvará! Vencida pela dor, a mãe
ajoelhou-se e disse com o irmão:
Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós pobres
pecadores. E seus filhos escaparam.
M. Tuckwel deixou então o seu cargo de oficial para pedir
as ordens sacras. Tornou-se um sacerdote conhecido no
mundo católico.

27º DIA
Marta é a voz que me chama
Deixa-me, filho, dar-te a conhecer o que faço em prol dos
que se consagram a mim na forma em que te propus
ontem.
I. Eu os fortaleço. Pois que tudo o que eles têm e tudo o
que fazem me pertence, eu me empenho em que tudo seja
bom.
Eles o sabem e contam que os acompanhe de perto, com
uma assistência toda particular, na oração, no trabalho e
no repouso; com, eles, quando têm de se sacrificar de
qualquer modo; perto deles, para lhes fazer praticar
continuamente uma virtude: ora a humildade, ora a
submissão, ora a paciência. Alguns têm chegado, por
efeito da graça e por hábito, a me verem a seu lado!
II. Eu os apresento a Jesus que de minhas mãos aceita
suas obras e seus desejos por mais pobres que sejam, e
que, depois de sua morte, os receberá a eles mesmos de
minhas mãos e os introduzirá no Paraíso. Não sou eu a
Mãe de Jesus? Jesus repeliria aquele que amou e serviu
sua Mãe?
III. Eu lhes dou a paz, e como poderiam eles estar
inquietos? Sendo bem (meu e minha propriedade, não
devo protegê-los? Terão decepções, mágoas... eu lhes farei
conhecer o seu valor.
Não devo defendê-los? Serão tentados, com certeza, mas,
como terão tomado o hábito de invocar-me, virei sempre
em seu auxílio; suas quedas, se algumas vezes se
olvidarem de chamar por mim, serão menos humilhantes;
cometerão ainda faltas, mas hão de saber levantar-se
prontamente. Aquele que se consagrou realmente a mim,
poderá errar materialmente e se enganar, é homem, mas
há de reconhecer bem cedo sua falta. Não se obstinará;
há de tornar a Deus.
A base dessa doação é a submissão e a humildade.
Não te sentes inclinado a te consagrar a mim?
EXEMPLO
O toque do Ângelus evita um homicídio
Não era mau o mestre Antônio; tinha uma esposa modelar
e uma coroa de encantadoras crianças ornava-lhe a casa.
Mas pesava sobre mulher e filhos urna constante
apreensão, — pois, Antonio vivia debaixo do jugo do vicio
da caça furtiva, proibida severamente pela lei.
Um dia foi preso em flagrante e condenado, à prisão de 3
meses.
Enquanto a mulher e filhos rogavam em casa pela
conversão do esposo e pai para que a graça divina o
confortasse e lhe desse o inalterável propósito de se livrar
da paixão, — na prisão, o detido só pensava em. vingança;
o guarda-floresta que o denunciara havia de pagar-lhe!
De volta ao lar, cedeu primeiro às instâncias da esposa e’
dos filhos, — mas em companhia de seus antigos
companheiros de caça, não resistiu. Novamente se
entregou à sua paixão. O guarda-floresta notava-o bem, e
redobrava sua vigilância, a fim. de livrar seu dono das
perdas sensíveis que os caçadores furtivos lhe traziam.
Antônio por sua vez, procurava encontrar-se com o
guarda-floresta, para vingar-se. A bala de’ sua arma
certeira havia de rasgar o coração do inimigo.
No próximo domingo, Antônio faltara à Missa. O guarda,
que logo ficou desconfiado, deu a ronda pelo distrito.
Antônio mal o avistou, levantou a arma certeira contra o
seu inimigo, quando da torre da matriz se ouviu o toque
das Ave Marias. Vendo o guarda rezar, a arma lhe caiu
das mãos; rezou também e, tocado pela graça de Deus,
renunciou à vingança e aproximou-se do adversário
pedindo-lhe o perdão e a amizade.

28º DIA
Maria é a voz que me chama e me dirige
Queres ter uma ideia geral dessa doação que te peço?
Dar-se a Maria é:
I. Fazer todas as suas ações com ela, Como as teria
feito, se se tivesse achado nas circunstâncias em que nos
encontramos e se tivesse tido os mesmos deveres que nós
temos.
II. Fazer todas suas ações em Maria, isto é, sob a
influência do seu olhar materno que podemos supor
sempre fixo sobre nós, como outrora estava sempre fito
em nós, quando éramos crianças, o olhar de nossa mãe.
III. Fazer todas as nossas ações por Maria, isto é, deixá-
las todas entre suas mãos, quando realizadas, para que
as purifique primeiro, e depois apresente-as a Jesus, para
que delas disponha como lhe aprouver.
EXEMPLO
O dedo de Deus
Em pleno verão de 1923 percorreu a cidade de Lourdes,
a notícia de um horrível desastre. Um caminhão cheio de
romeiros, perto do santuário, caiu num abismo,
causando a morte a 19 pessoas.
Com surpresa geral devotos romeiros exclamaram: Como
é que N. Senhora não lhes mostrou a sua valiosa
proteção?!
Poucas semanas depois os jornais relataram que as
vítimas não eram "devotos romeiros", mas um grupo de
fanáticos ateus, uma expedição da Holanda, da folha
acatólica “De Protestant’, organizada e chefiada pelo Dr.
Klerk, secretário da Liga anticatólica. Pretendiam fazer
seus estudos em Lourdes mesmo e assim desmascarar os
falsos milagres de Lourdes e relatar na dita folha.
Tinham terminado as suas investigações e de Lourdes
mesmo já anunciavam a série dos artigos a publicar. Mas,
a única notícia que saiu foi da morte desastrosa de todos
os membros da expedição sacrílega. — Como Deus não
deixa impune a falta de respeito à sua SS. Mãe!

29º DIA
Maria é a voz que me chama e me dirige
Quereis agora que, percorrendo contigo as horas de teus
dias, eu te diga quais os sentimentos que lhes devem
corresponder em tua alma?
Deveres religiosos.
I. Pela manhã, ao despertar e à noite, antes de adormecer,
beija com respeito a medalha que trazes ao pescoço: é
minha imagem, a imagem de tua Mãe do Céu; beija
também o cordão que a tem suspensa e considera alegre
que é sinal da cadeia espiritual que te prende a meu
serviço. Dize afetuosamente:
Ó minha Mãe, eu vos pertenço; guardai-me, defendei-me
[e usai-me] como bem vosso e vossa propriedade.
II. Durante a oração, pensa em que estou aí perto de ti,
e de teus lábios deixa cair em minhas mãos cada palavra
que pronunciares, como se deixasse cair uma pérola. Não
é uma pérola cada palavra do Padre Nosso, do Creio em
Deus Padre ou dos atos da Fé, Esperança e Caridade?
Na meditação, diz-me simplesmente: minha boa mãe,
acudi a minha memória para ocupá-la toda com a
lembrança de Jesus, — a minha inteligência, para que
estude bem as palavras e ações de Jesus, — a minha
vontade para que eu queira tudo o que Jesus quer.
Ensinai-me o que vós teríeis dito e prometido a Jesus.
Conclui, repetindo comigo a Deus: Senhor, eis aqui vosso
servo, ordenai à minha alma o que quiseres!
À santa Missa e à Comunhão, une-te aos sentimentos de
respeito e amor que me animavam, assistindo ao santo
Sacrifício e comemorando a Paixão de meu Filho. Diz-me,
antes do comungar: Ó minha Mãe, é de vossas mãos que
desejo receber Jesus, dai-mo! — e recita pausadamente
os atos. Depois da santa comunhão, fala assim a Jesus:
Ó Jesus, eu vos ofereço as ações de graças que vos rendia
vossa Mãe: E imagina que eu venha adorar, agradecer e
amar a Jesus em teu coração. Dize-me: Minha Mãe,
guardai Jesus em minha alma, e aí fazei-o viver e reinar.
EXEMPLO
Maria, refúgio dos pecadores
Conta um velho missionário:
Já ia pelo fim da santa Missão, quando se aproxima do
confessionário um comunista conhecido no lugar por um
dos mais exaltados. Como ele mais tarde relatou, para
zombar da confissão, disse alguns crimes horrorosos e
perguntou:
Não basta, quer mais ainda?
O missionário, vendo a falta de disposição, mas confiando
no poder da Mãe de misericórdia, tentou levá-lo a outros
sentimentos.
A resposta porém, foi uma terrível blasfêmia. O padre
replicou:
Vá ajoelhar-se no altar de N. Senhora e diga 3 vezes:
Maria, eu sei que não és mais que qualquer mulher, –
caso, porém, sejas realmente mais, prova-o já por um
sinal certo.
O blasfemador foi e disse isto mesmo, porém, só uma vez,
pois logo passou-lhe tão sensível terror pelo espírito, que
contrito e arrependido demorou no altar uma hora inteira
implorando o Refúgio dos pecadores.
Depois voltou ao confessionário, onde, em torrentes de
lágrimas, fez uma sincera confissão geral.

30º DIA
Maria é a voz que me chama e me dirige
II. Deveres ordinários da vida.
Em todas as cousas exteriores, trabalho manual ou
intelectual, refeições, visitas obrigadas ou simples
distração, deixa penetrar em tua alma este –pensamento:
Minha boa Mãe, velai sobre mim, trabalhai comigo; —
falai comigo; — sofrei comigo; — vivei comigo!
Depois de uma falta: Minha Mãe, tenho sido fraco,
esquecido, mau; volto a vossos pés, pedi perdão por mim,
oferecei em expiação por mim a ação que pratico - e, na
hora de minha confissão, dai-me o arrependimento
sincero de minha falta!
Em todo tempo, conserva-te sossegado, calmo e afetuoso.
— No prazer, agradece a Maria; na inquietação e no temor
de algum acontecimento triste, aproxima-te ainda mais
de Maria; na aflição, murmura suavemente o nome
diletíssimo de Maria.
Não te aborrecerás de dizer:
Maria é minha mãe, eu lhe pertenço. -Maria é minha
rainha, eu lhe obedeço.
Maria é minha soberana senhora, eu a sirvo.
Maria é minha mestra, eu a escuto. Maria é meu modelo,
eu a imito.
Maria é meu sustentáculo, eu nela me amparo.
Maria é minha força, eu combato unido com ela.
Maria é meu refúgio, eu repouso em seu seio. -
EXEMPLO
Morte edificante de uma devota de Nossa Senhora
Em qualquer idade é triste perder a vista, mas perdê-la
quando a natureza ostenta os seus maiores encantos, é
uma dor mais viva, e foi a que Júlia Veyret sofreu aos 12
anos.
Desejava ela ser admitida na Congregação da Santíssima
Virgem, e o foi, antes mesmo da Idade fixada, no dia da
Assunção, em 1865: Pela sua bondade e resignação
admiráveis, merecera esta graça. Deus, porém, ia chamá-
la mais alto: foi acometida de grave enfermidade, que fez
desesperar da cura. A Irmã Saint-Charles, que fora sua
mestra, lhe anunciou o perigo iminente; Júlia comungara
inda nessa manhã, mas custou-lhe crer que a morte já
viesse. Oremos, disse ela, para que o bom Deus me
esclareça; e suas companheiras, ajoelhando-se em torno
do leito, recitaram 7 Padre Nossos e 7 Ave Marias. Eram
9 horas; de repente, o rosto de Júlia se ilumina, ela sorri
docemente: o céu lhe fez compreender que vai deixar este
mundo. Entrando, nessa hora, na alcova, uma de suas
tias, a doente lhe diz com alegria: Dou-te uma boa nova,
irei breve para o céu. Pede que lhe preparem logo o seu
vestido branco mais novo, e quer experimentar a capela
com que lhe cingirão a cabeça. Falta a medalha: o Padre
Diretor vai buscá-la, e Júlia recebe-a com sinais de
alegria, apertando-a repetidas vezes. Antes de deixar a
terra, quer despojar-se de todas as suas vaidades.
Continuou-se a orar com ela. Pelas três horas, disse às
pessoas que lhe assistiam: Não posso mais orar; orai por
mim. Recitai o ato de contrição! Alguns instantes depois,
expirou, pronunciando uma última vez os nomes
sagrados de Jesus, Maria, José. Ainda não tinha quinze
anos. Quando a cobriram de rosas e lírios, ninguém se
cansava de olhá-la; a morte não alterara seus traços,
senão para dar-lhes um encanto celeste.

31º DIA
Maria é minha mãe a quem eu me entrego
Consagração à Santíssima Virgem
Ó Maria, admirável Mãe de Jesus e minha Mãe
amabilíssima, poderosa Soberana: Eis-me a vossos pés,
com uma alegria infantil, para me dar ao vosso amor,
para me entregar em vossos braços, ó minha Mãe, com
tudo o que sou, tudo o que tenho ou puder adquirir na
ordem da natureza e na ordem da graça! Eu me ofereço e
dou ao vosso ditoso serviço de um modo tão perfeito, ó
minha Mãe, ó vida de minha alma! que não só nada mais
tenha de meu, depois de vos haver dado tudo, mas ainda
para todo sempre, no tempo, na eternidade, eu nada mais
possa ter que não seja vosso; ficando, desde agora, minha
alma com suas faculdades, suas afeições, suas
esperanças; meu corpo com seus sentidos e sua vida
terrestre; todo o meu ser, sem a menor reserva, sem
nenhuma revogação possível, entregue a vós,
abandonado ao vosso cuidado, à vossa direção maternal,
à vossa providência cheia de amor. Hoje, em particular,
eu vos consagro todos os meus pensamentos, todas as
minhas obras de religião, de caridade, de penitência. Já
não sou meu, sou vosso, para melhor ser de Jesus.
Oh! bendito seja Cristo que nos deu tal mãe!
Mas, ó boa Mãe, por absoluta que seja esta doação, meu
desejo, meu propósito não podem bastar às necessidades
de meu coração, a meu amor extremo.
Portanto, vós que sois tão boa, ó minha Soberana, fazei,
eu vos rogo, ainda mais do que eu por mim poderia.
Dignai-vos unir-me e prender-me convosco, fazei-me
vosso da maneira mais íntima, mais absoluta, mais
definitiva, da maneira que vós sabeis a melhor e que eu
não conheço, de sorte que seja vosso e vos sirva, não só
por minhas ações, mais ainda por um estado especial e
uma condição nova, nas quais me venhais vós mesma
constituindo. Ó Jesus, Filho do Deus eterno e Filho de
Maria, que unis, por vossa misericordiosa graça, nossas
almas à vossa amável Mãe, dignai-vos ter-me e-
considerar-me dora em diante como seu servo e seu
escravo amante; sede Vós mesmo o laço de todos os
corações; laço indissolúvel do meu coração com o
amantíssimo coração de vossa bendita Mãe. Ó Jesus,
meu bem, meu tudo! eu vos suplico esta preciosa graça,
com todo ardor de que meu pobre coração é capaz; eu vo-
lo rogo para a vida, para a hora de minha morte e para
toda a eternidade. Amém.
************
Se o atrativo interior da graça vos inclina a desenvolver
estes pensamentos pios e insistir nestes atos de amor, de
confiança e de rogação, fazei-o à vossa vontade... Jamais
podereis compreender a bondade do coração de nossa
Mãe, e nunca imaginareis com que amorosa
complacência ela recebe -vossa consagração.
Ah! quando, em verdade, seremos totalmente de Maria?
Então ela há de querer também ser toda nossa. Maria
toda nossa... Pensas nisto, filho querido dessa Mãe bem-
aventurada?...
Oh! bendito seja Cristo que nos deu tal Mãe.
EXEMPLO
A imagem de Nossa Senhora salva das águas
Na grande inundação que, em 1889, sofreu a cidade de
Johnston, nos Estados Unidos, aconteceu o seguinte, que
foi narrado até pelo jornal protestante Philadelphia-
Times:
Quando sucedeu a catástrofe, celebrava-se o ato do mês
de Maria; a igreja da Imaculada Conceição estava
apinhada de povo que, ao rumor terrível das- águas que
se aproximavam, mal teve tempo de fugir. Poucos
minutos depois, a igreja estava debaixo d’água até a
altura de 15 pés, e a inundação tudo arruinou, fora e
dentro, fazendo em pedaços o quanto encontrava.
Quando afinal foi possível entrar de novo na igreja,
consternava a todos o quadro de destruição. Mas, um
objeto escapara à fúria das águas. A imagem da SS.
Virgem suntuosamente ornada lá estava como no dia em
que a tinham colocado, perfeita e intacta. As flores, até os
véus e as cortinas tinham sido poupadas; não se
encontrou o menor vestígio de estrago e os sinais da água
se viam nas paredes até 15 pés de altura, quando a
imagem ficara só a três pés de altura do solo, tendo tido,
assim, acima de si um volume d’água de 12 pés, que não
lhe fizera o mais leve dano. Todos quantos viram essa
imagem, com todos os seus ornatos ilesos e intactos,
estão convencidos de que se operou um milagre.

AVE MARIS STELLA

Salve, ó Estrela do mar,


Salve, augusta Mãe de Deus,
Preclara Virgem sem par,
Ditosa Porta dos céus.
Àquele divino Ave
De Gabriel escutando,
Firma entre nós paz suave,
O nome de Eva mudando.

Da culpa o mortal,
Ao triste cego ilumina:
Afastado todo o mal,
Ao puro bem nos inclina.

Que és Mãe, vem mostrar;


Nos leva as preces benigna,
Ao Deus que para nos salvar,
Obedecer-te se digna.

Pia Virgem soberana


Cheia de santa doçura,
Livra da culpa a alma humana,
Faze-a dócil, boa e pura.

À perfeição nos conduz,


Na marcha firme do crente,
Pra que a visão de Jesus
Gozemos eternamente.
Maio – Mês de Maria Santíssima

Digitalizado, formatado e revisado


por
Carlos Alberto de França Rebouças Junior
Fortaleza – Ceará, 25 de maio de 2002
JUNHO – Mês do Sagrado Coração de Jesus
MÊS DO SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS

Traduzido das "PALHETAS DE OURO"

12ª EDIÇÃO
AUMENTADA COM DUAS COLEÇÕES DE EXEMPLOS PARA CADA DIA
DO MÊS

POR
Mons. Dr. José Basílio Pereira

12ª Edição
1962

EDITORA MENSAGEIRO DA FÉ LTDA.


Caixa Postal, 708
Salvador – Bahia – Brasil
NIHIL OBSTAT:
Salvador, 15 de setembro de 1962
Frei Valdemiro Schneider O. F. M, (Censor diocesano)
REIMPRIMATUR:
Salvador, 15 de setembro de 1962
Mons. Pedro C. Guerreiro P. V. G.
PRÓLOGO
A primeira edição deste opúsculo veio a lume em 1888, e trazia
então uma notícia resumida mas bastante explicativa, sobre o
Apostolado da Oração.
Hoje ele é reeditado sem esta segunda parte, mas em seu lugar
vêm duas coleções de exemplos para os dias do mês; alguns
transcritos quase textualmente do periódico "Mensageiro do
Coração de Jesus" (Edição francesa), e outros compostos sobre
dados que se encontram no dito periódico religioso e noutros, ou
em vidas de Santos e biografias de cristãos de todas as classes, que
foram fervorosos devotos do Sagrado Coração.
A primeira série de exemplos, que vem junto às meditações,
consta de fatos que se deram em tempos e lugares diferentes, e
demonstram a utilidade e o poder incalculável da pia devoção;
chamar-se-á bem esta série a das — "Graças do Coração de Jesus".
A outra oferece, a largos traços, o esboço de vidas que se
orientaram todas por este culto especial; pode intitular-se a dos
— "discípulos do Sagrado Coração".
A segunda coleção de exemplos vai colocada no fim do opúsculo,
proporcionando, mesmo fora dos exercícios devotos, uma
interessante e proveitosa leitura espiritual para cada dia do mês
consagrado ao Santíssimo Coração de Jesus.
BAHIA, 2 9 - 3 - 1 9 1 3 .
Padre José Basílio Pereira
MÊS DO SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS
(7 anos e 7 quarentenas de indulgência cada dia e uma indulgência
plenária no fim.)
ORDEM DO EXERCÍCIO COTIDIANO
Invocação do Espírito Santo
Vinde, Espírito Santo, enchei os corações dos vossos fiéis e acendei
neles o fogo do vosso amor.
V. — Enviai o vosso Espírito e tudo será criado.
R. — E renovareis a face da terra.
ORAÇÃO
Deus, que esclarecestes os corações de vossos fiéis com as luzes do
Espírito Santo, concedei-nos, por esse mesmo Espírito, conhecer e
amar o bem e gozar sempre de suas divinas consolações. Por Jesus
Cristo Nosso Senhor. Amém.
Oração preparatória
(100 dias de indulgência — Leão XIII, indulto de 10 de dezembro de
1885).
Senhor Jesus Cristo, unindo-me à divina intenção com que na terra
pelo vosso Coração Sacratíssimo rendestes louvores a Deus e ainda
agora os rendeis de contínuo e em todo o mundo no Santíssimo
Sacramento da Eucaristia até a consumação dos séculos, eu vos
ofereço por este dia inteiro, sem exceção de um instante, à imitação do
Sagrado Coração da Bem aventurada Maria sempre Virgem
Imaculada, todas as minhas intenções e pensamentos, todos os meus
afetos e desejos, todas as minhas obras e palavras. Amém.
Lê-se a intenção própria do dia, recitando em sua conformidade um
Pai Nosso, Ave Maria e Glória, e a jaculatória: Coração de Jesus, que
tanto nos amais, fazei que vos amemos cada dia mais.
Em seguida, a Meditação correspondente ao dia e, depois, a Ladainha
do Sagrado Coração.
LADAINHA DO SAGRADO CORAÇÃO
Senhor, tende piedade de nós.
Jesus Cristo, tende piedade de nós.
Senhor, tende piedade de nós.
Jesus Cristo, ouvi-nos.
Jesus Cristo, atendei-nos.
Deus Pai dos céus, tende piedade de nós.
Deus Filho, Redentor do mundo, tende piedade de nós.
Deus Espírito Santo, tende piedade de nós.
Santíssima Trindade, que sois um só Deus, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, Filho do Pai Eterno, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, formado pelo Espírito Santo no seio da Virgem
Mãe, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, unido substancialmente ao Verbo de Deus, tende
piedade de nós.
Coração de Jesus, de majestade infinita, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, templo santo de Deus, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, tabernáculo do Altíssimo, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, casa de Deus e porta do céu, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, fornalha ardente de caridade, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, receptáculo de justiça e amor, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, abismo de todas as virtudes, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, digníssimo de todo o louvor, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, rei e centro de todos os corações, tende piedade de
nós.
Coração de Jesus, no qual estão todos os tesouros da sabedoria e
ciência, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, no qual habita toda a plenitude da divindade, tende
piedade de nós.
Coração de Jesus, no qual o Pai celeste põe as suas complacências,
tende piedade de nós.
Coração de Jesus, de cuja plenitude nós todos participamos, tende
piedade de nós.
Coração de Jesus, desejo das colinas eternas, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, paciente e misericordioso, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, rico para todos os que vos invocam, tende piedade
de nós.
Coração de Jesus, fonte de vida e santidade, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, propiciação para os nossos pecados, tende piedade
de nós.
Coração de Jesus, saturado de opróbios, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, atribulado por causa de nossos crimes, tende
piedade de nós.
Coração de Jesus, feito obediente até a morte, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, atravessado pela lança, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, fonte de toda a consolação, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, nossa vida e ressurreição, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, nossa paz e reconciliação, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, vítima dos pecadores, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, salvação dos que em vós esperam, tende piedade de
nós.
Coração de Jesus, esperança dos que em vós expiram, tende piedade
de nós.
Coração de Jesus, delícia de todos os Santos, tende piedade de nós.
Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, perdoai-nos,
Senhor.
Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, ouvi-nos Senhor.
Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, tende piedade de
nós.
V. — Jesus, manso e humilde de coração,
R. — Fazei o nosso coração semelhante ao vosso.
ORAÇÃO
Onipotente e sempiterno Deus, olhai para o Coração de vosso
diletíssimo Filho e para os louvores e satisfações que ele vos tributa
em nome dos pecadores, e àqueles que invocam vossa misericórdia,
concedei benigno o perdão, em nome do mesmo Jesus Cristo, vosso
Filho, que convosco vive e reina juntamente com o Espírito Santo por
todos os séculos dos séculos. Amém.
Para concluir, a seguinte fórmula de consagração
(300 dias de indulgência. Leão XIII, Decreto de 28 de maio de 1887).
Recebei, Senhor, minha liberdade inteira. Aceitai a memória, a
inteligência e a vontade do vosso servo. Tudo o que tenho ou possuo,
vós mo concedestes, e eu vo-lo restituo e entrego inteiramente à vossa
vontade para que o empregueis. Dai-me só vosso amor e vossa graça,
e serei bastante rico e nada mais vos solicitarei.
Doce Coração de Jesus, sede meu amor.
(300 dias — Pio IX).
Doce Coração de Maria, sede a minha salvação.
(300 dias — Pio IX).

MEDITAÇÕES
-I-
Os terníssimos afetos do Coração de Jesus

PRIMEIRO DIA
Oremos para que em todo este mês não se cometa um só pecado mortal
em nossa família. Pai Nosso, Ave Maria. Glória e a jaculatória:
“Coração de Jesus, que tanto nos amais, fazei que vos amemos cada
dia mais”.
Jesus e as criancinhas
Jesus está assentado e, em redor dele, estão os discípulos; lá adiante,
por entre a multidão, seu olhar paternal descobre umas criancinhas que
tímidas se aconchegam às mães; Jesus estende-lhes os braços como a
chamá-las.
Os pequenos compreendem esse convite afetuoso e logo correm a
Jesus que os abraça, abençoa, detém junto de si e lhes fala do céu. Os
Apóstolos, temendo que eles incomodassem o divino Mestre, queriam
afastá-los... "Não, diz Jesus, deixai que as criancinhas se cheguem a
mim".
Que cena tocante! Ó Jesus, também eu sou criança e também, como
elas, corro a vós; acariciai-me, abençoai-me, falai-me do céu.
Se me conservar simples, inocente, afável, me haveis de querer: não é
assim meu Jesus? Afastai-vos, pois, pensamentos, desejos, afeições
que arrancareis do coração o que agrada a Jesus.
"Preparar-me-ei devotamente para a minha próxima Comunhão".
EXEMPLO
"Deixai os pequeninos virem a mim, porque deles é o reino dos céus.
Foram certamente essas palavras partidas do Coração de Jesus que
ditaram a seu Vigário na terra o decreto sobre a Comunhão dos
meninos, mandando que se lha dê logo que neles se acenda o lume da
razão e saibam distinguir entre o pão da alma e o do corpo; e os fatos
providencialmente se tem encarregado de provar que, ao invés de
retardar a primeira Comunhão para além do primeiro decênio da vida,
é justo, muitas vezes, permiti-la até no primeiro lustro... Um desses
casos é o de Nellie, chamada "a pequena violeta do SS. Sacramento",
morta aos 4 anos e meio de idade, a 2 de fevereiro de 1908, no
convento do Bom Pastor, em Cork na Irlanda, e cuja "vida" corre
impressa num volume de 225 páginas sob os auspícios e bênçãos de
Pio X. Nellie, a primeira vez que viu a Sagrada Hóstia exposta,
exclamou radiante: "Ali está o Deus Santo!" E dizia depois muitas
vezes: "É preciso que vá hoje à casa de Deus Santo: eu quero conversar
com Ele". Abraçando com efusão as pessoas que haviam comungado,
sem que lho houvessem dito, lhes declarava: "Eu sei que hoje
recebeste o Deus Santo”. Quando, ferida de uma enfermidade mortal,
lhe anunciaram que faria a sua primeira Comunhão, deu um grito de
alegria, exclamando : "Terei então breve o Deus Santo em meu
coração!" E, no curso de sua dolorosa enfermidade, recebeu muitas
vezes a Hóstia Sacrossanta, recolhendo-se em fervorosas ações de
graças que duravam duas e três horas, e suportando seus padecimentos
até o fim, com uma resignação admirável e edificante, nunca, vista em
criança de sua idade.
"A Revista do Coração Eucarístico" de julho de 1911 menciona
também o caso de certa aluna de uma casa religiosa de Roma, onde se
asilaram cerca de cem meninas escapas ao terremoto de Messina.
Admitidas à audiência pelo Papa, quando este falava, sentiu-se mais
de uma vez puxado pelas vestes, e perguntou: "Quem é que me sacode
assim?" Uma voz argentina responde logo: "Sou eu". Era uma pequena
de 5 anos; as superioras quiseram repreendê-la, mas Pio X acudiu:
"Povera fanciulla, que queres de mim?'— "Eu tenho cinco anos ;
queria fazer minha primeira Comunhão, e as Religiosas não
querem!"— "Não sabes talvez bastante o catecismo", observou o Papa
sorrindo. — "Examinai, replicou ela, eu responderei". O Pontífice fez-
lhe diversas perguntas, e as respostas foram satisfatórias; admirado,
voltou.se para as Irmãs, e disse: "Dai-lhe a santa Comunhão amanhã".

SEGUNDO DIA
Oremos pelas almas que estão em pecado e não pensam em se
confessar. Pai Nosso, Ave Maria. Glória e a jaculatória: “Coração de
Jesus, que tanto nos amais, fazei que vos amemos cada dia mais”.
Jesus e Lázaro
De pé, junto do túmulo do amigo, Jesus está chorando... Ó Jesus, muito
amor tendes vós aos vossos amigos! Quanto me enternecem as vossas
lágrimas! como demonstram a ternura do vosso piedosíssimo
Coração! Elas suscitam em mim uma recordação que me punge e ao
mesmo tempo me comove: a daqueles dias em que, morta a minha
alma à graça, ainda corríeis a vê-la e choráveis sua sorte...O meu Anjo
da Guarda, testemunha de vossas lágrimas, dizia, lembrando a
observação dos judeus: "Como Jesus ama esta alma!" Agradeço-vos,
meu Deus, a vossa imensa bondade! Lázaro seguiu-vos...do mesmo
modo quero que todas as faculdades de minha alma, que todo o meu
ser sejam empregados em vosso serviço para começar já hoje.
"Serei fiel em cumprir os meus deveres para agradar a Deus".
EXEMPLO
Em Lião, refere o Pe. Trouiller em 1893, um chefe de família, arredio
das práticas religiosas desde muitos anos, achava.se gravemente
enfermo. Atacado como fora de uma apoplexia, propôs-lhe um dos
parentes que aceitasse a visita de um padre. Irritado, respondeu que
não. Repetindo-se o ataque, um amigo esforçou-se por trazê-lo a
melhor resolução: retorquiu, vivamente, que não lhe falasse mais no
assunto, sob pena de brigarem. Entretanto, os progressos do mal eram
rápidos, e o perigo iminente. A família, então, angustiada, recorreu ao
Coração de Jesus, refúgio dos pecadores e abismo de misericórdia.
O enfermo acabava de sofrer terceiro ataque. Deram-lhe um
escapulário do Sagrado Coração, que tocara em Paray uma das mais
preciosas relíquias de S. Margarida Maria, e uma pessoa que o doente
prezava teve a inspiração de trazer a vê-lo um sacerdote que ele
conhecia e estimava. Com surpresa de todos, a visita foi logo aceita;
e, depois de longa conferência, o Padre retirava-se, declarando que seu
penitente podia receber os últimos sacramentos.
No dia seguinte, (uma quinta-feira santa), a zelosa senhora que
oferecera o precioso escapulário, voltando a visitar o remisso,
encontrou-o sentado numa poltrona, tendo nas mãos um livro de
orações que recitava devotamente. Uma. bem ornada mesa esperava a
Sagrada Eucaristia que, dentro de poucos instantes, viria encher de
graças a alma do pobre pecador. E, com a saúde espiritual, o Coração
de Jesus restituiu-lhe a saúde do corpo.

TERCEIRO DIA
Oremos por aquelas pessoas a quem Deus reserva no presente dia
alguma dolorosa provação. Pai Nosso, Ave Maria. Glória e a
jaculatória: “Coração de Jesus, que tanto nos amais, fazei que vos
amemos cada dia mais”.
Jesus e a pobre viúva de Naim que chorava seu filho
Afigura-se-vos, na vossa primeira idade, que nunca sofrereis grandes
dores... Mas ai! também vos chegarão essas penas, que dilaceram o
coração arrancando-lhe tudo o que ele ama. Lembrai-vos então que há
sobre a terra um Deus previdente, que vê todas as dores: Jesus, —é
quem vos consolará. É principalmente na comunhão que ele nos diz:
"Não choreis... eu vos conduzirei aonde estão aqueles que amais;
vinde, não me deixeis".—Dai-me, meu Deus, o amor da Eucaristia !.é
aí que se acha a consolação e a paz... sei que aí não me enganam... aí
ouço, confortado, essas palavras: "Não chores".
"Irei diligente fazer a minha visita ao SS. Sacramento".
EXEMPLO
"Hás de ter sabido o que sucedeu, ultimamente, ao nosso Júlio,
escrevia de Bretanha, em 1883, uma boa mãe cristã a outra sua amiga.
Ele comandava o “Alceste”, navio à vela, e já avariado; tinha sob suas
ordens cerca de 500 homens. Voltando para Brest, foi surpreendido
por quatro tempestades terríveis, redemoinhos e vagas de 30 pés de
altura que cercavam o navio. Uma rajada de vento despedaçou-lhe a
vela grande; outra levou-lhe suas três chalupas; e assim é que chegou
à baía dos Mortos, que tem esse nome pelos muitos sinistros que nela
ocorrem. Foi-lhe preciso passar o Goulet para entrar na enseada; e
sabes quanto ele é estreito e perigoso. Junte-se a isto um mar medonho,
um vento assustador, e noite escura, sem haver piloto e estando ocultos
os faróis pela altura das vagas; mas o nosso bom Júlio tinha feito
pregar na popa de seu navio uma imagem do Sagrado Coração e, cheio
de confiança nessa proteção, prometeu uma missa em ação de graças,
se chegasse ao porto de salvamento com toda a equipagem; e assim
aconteceu. Imagina o que minha pobre Cecília passou, mas ouve
também o que me escreve: "Tive ontem um desses momentos de
felicidades que fazem esquecer todos os sofrimentos passados. Dizia-
se a missa, em ação de graças, em S. Luís: e Júlio, de uniforme, tinha
ao pé o seu segundo oficial, protestante convertido pelo prodígio que
viu; depois todos os oficiais, acompanhados de suas mulheres e
parentes: e atrás deles a equipagem, todos perfilados militarmente e
numa atitude respeitosa. Foi um ato de fé público, que muito me
comoveu e deixou em todos ótima impressão".

QUARTO DIA
Oremos em união com as pessoas que hoje comungaram. Pai Nosso,
Ave Maria. Glória e a jaculatória: “Coração de Jesus, que tanto nos
amais, fazei que vos amemos cada dia mais”.
Jesus e a Samaritana
Lá vos estou vendo, Senhor, oprimido de fadiga, assentado à borda do
poço de Jacó, aguardando os que passam, dizendo a todos: "Dai-me de
beber; tenho sede do vosso coração, dai-mo; tenho sede da vossa
inocência, conservai-ma..." Ah! Jesus meu, quantas vezes não vos
tenho eu recusado esta esmola, para dar às leviandades, às paixões, às
vaidades...e vós não desanimastes, continuáveis a pedi-la sempre...
Sim, Jesus meu, vos quero dar este alívio que me pedis, e do qual
pareceis carecer...Que quereis de mim no dia de hoje? Fidelidade no
cumprimento dos meus deveres, amor nas minhas orações?... Eis-me
aqui, Senhor... pedi o que quiserdes.
"Recitarei, com mais atenção, as minhas breves orações, durante o
dia".
EXEMPLO
O Pe. Ludovico de Casória, encontrando uma vez, absorta em
profundo estudo, a ilustre napolitana Catarina Volpicelli, disse-lhe :
"Virá um tempo em que fecharás todos os livros. Jesus te abrirá o livro
de seu Coração, que diz infinito amor a cada. página, a cada palavra".
E assim foi: Catarina, meditando, junto ao sagrado tabernáculo,
inflamou-se de tanto fervor que, deixando tudo, foi encerrar-se entre
as perpétuas adoradoras do SS. Sacramento. O Senhor, porém,
dispunha a seu respeito maiores coisas, e quis que, obrigada a sair do
convento por motivo de saúde, fizesse no mundo ainda mais do que
teria podido fazer no claustro. Ardendo em santo zelo, empregou no
serviço de Deus quanto era, tinha e podia: o talento, os estudos, os
raros dons da natureza e da graça, o rico patrimônio, suas obras, a
própria vida, tudo ofereceu e sacrificou ao Sagrado Coração, com um
ato solene que assinou com o próprio sangue, chamando-se vítima e
escrava do divino amor. Fundou o instituto das Servas do Sagrado
Coração e, em Nápoles, o santuário do Coração de Jesus, sede do
Apostolado de que ela foi a primeira Zeladora. Criou a "Voz do
Coração de Jesus", periódico mensal da Santa Liga; instituiu a obra da
Adoração Reparadora, e da assistência às igrejas pobres, o Orfanato
das meninas, várias congregações de piedade para as jovens, a
Biblioteca para a divulgação dos bons livros: quem poderia enumerar
todas as obras que realizou sob o impulso onipotente da caridade
divina? Era, todavia, tão humilde, que se tinha como a. última e ínfima
entre as servas do Sagrado Coração; e nunca a sua devoção arrefeceu
um instante; pois, ainda na hora extrema da vida, quando,
placidamente e com inefável sorriso nos lábios, estava para voar à
pátria celeste, quis novamente oferecer-se como vítima ao Divino
Coração com o ato solene que o Sumo Pontífice chamou "voto
heroico".
QUINTO DIA
Oremos pelas almas fracas que estão a ponto de se deixarem arrastar
para o mal. Pai Nosso, Ave Maria. Glória e a jaculatória: “Coração de
Jesus, que tanto nos amais, fazei que vos amemos cada dia mais”.
Jesus e o pai aflito que pede a cura de seu filho
O Coração de Jesus não pôde resistir às lágrimas, sobretudo às que se
derramam pelos outros... "Vai, diz ele a este pai amante, vai, teu filho
está salvo". Ah! quem é que não terá em torno de si almas cujo estado
seja bem mais perigoso, ainda que diferentemente, que o desta
criança?...para curá-las, ide a Jesus, orai, chorai e esperai com toda a
confiança... — Fazei-me ouvir depressa, meu Deus, em favor daqueles
que amo e cuja santificação desejo, estas palavras: “Consola-te... todos
eles vivem para o céu”.
“Eu me mortificarei hoje, abstendo-me de dizer qualquer palavra que
desagrade a Jesus”.
EXEMPLO
O castelo de Villargoix, em Côte d'Or, pertence a uma nobre família
cristã, onde o cumprimento dos deveres religiosos é tradicional e, de
tempos imemoriais, se observa o costume de fazer em comum a oração
da noite, recitando-a, em voz alta, o chefe da família, reunidos ao toque
do sino todos os parentes e os domésticos. Muito naturalmente, pois,
entrou aí o culto ao Coração de Jesus; e com ele vieram bênçãos e
graças particulares sobre a casa. Um dia, o proprietário, marquês de
Belathier Lantage, tendo a seu lado um filho, examinava a construção
já adiantada de uma abóbada que devia ligar duas partes do castelo,
quando se ouviu um medonho estalo. O marquês aterrado, tem,
entretanto, a inspiração de fazer um voto ao Sagrado Coração: num
momento a abóbada se faz em pedaços e cai em terra, mas o piedoso
cristão se vê são e salvo sobre uma barra de ferro solidamente
encravada na parede, enquanto o filho, sem o sentir, escorrega
suavemente ao longo de uma grossa trave, que o depõe sem um ar-
ranhão sobre a relva.
Em cumprimento do seu voto, o marquês dedicou sua capela ao
Sagrado Coração, gravando sob a santa imagem a seguinte inscrição:
"Eles me constituíram o guarda de sua casa"; e a devota família dizia
agradecida: "O Coração de Jesus nos guarda, e nós montamos guarda
ao Coração de Jesus".

SEXTO DIA
Oremos em união com as Religiosas que por voto guardam silêncio.
Pai Nosso, Ave Maria. Glória e a jaculatória: “Coração de Jesus, que
tanto nos amais, fazei que vos amemos cada dia mais”.
Jesus e o paralítico da piscina
Há já 38 anos que este infeliz está ali, esperando a sua cura sem pensar
em pedi-la àquele que é só quem lha pode dar, ao Deus da imensa
bondade.
Passa Jesus... o doente nem pensa nele e, contudo, é este bom Mestre
que lhe diz: "Queres ser curado...?"— "Não tenho quem me valha",
responde o doente... Ah! com certeza tu não conheces Jesus, pobre
desgraçado!... Pede-lhe que te cure. Ele nem sequer lho pede, e Jesus
cura-o... Como sois bom, ó meu Jesus! Fazei-nos bem, ainda quando
vo-lo não sabemos pedir... e eu que vo-lo peço; serei desatendido?
Não, não! creio-o firmemente!
"Hoje praticarei algum ato particular de bondade a fim de agradar a
Deus".
E X E M P L O
Em outubro de 1890, de uma cidade do sul de França, recebia o diretor
do Apostolado a seguinte comunicação: "Aproveito a minha primeira
hora livre, para vos noticiar que o Sagrado Coração ouviu as minhas
súplicas em favor do meu querido pai. De 22 para 23 anos minha alma
não cessava de recorrer a Deus; mas, obtendo aos poucos a liberdade
de fazer as minhas devoções, eu vi esse coração de pai sempre afastado
da religião. Não porei na balança da misericórdia divina meus
sacrifícios contínuos, minhas promessas de "vítima" pela salvação
dessa alma cara. Mas uma enfermidade longa, inexorável, veio visitar
meu pobre pai, e com ela o isolamento, a reclusão, a inação forçada.
Cerquei-o de cuidados e de afeição: mas tinha sempre motivos de
chorar por sua alma. O caro enfermo tinha consigo o escapulário do
Sagrado Coração que eu lhe cosera nas vestes... Um zeloso
missionário renovava, mas em vão, suas visitas, no intuito de trazer a
melhores sentimentos o velho advogado e político. O santo sacrifício
da missa era oferecido quase diariamente por ele. Afinal, uma noite
em que o bom religioso velava ao seu lado, ele chama de repente:
"Padre, eu preciso que me ajudeis a cumprir um grande dever: eu quero
confessar-me". Quando terminou, eu me aproximei do leito e lancei-
me em seus braços. Disse-me então com lágrimas: "Fiz o que de há
muito desejavas, e me sinto satisfeito".
O enfermo testemunhava com lágrimas sua fé e arrependimento.
Alguns dias depois, uma crise terrível quase o leva repentinamente. —
"Meu Deus, dizia eu, vós fizestes tanto: concedei-lhe ainda uma
absolvição e o sacramento dos moribundos". E o Senhor ouviu minha
súplica; a morte, que parecia já arrancá-lo, mo restituiu: ele recebeu
com alegria a santa unção. Enfim, no dia 8 de junho, um mês depois
de voltar a Deus, extinguia.se, docemente, com o crucifixo nas mãos,
a serenidade nos traços e a resignação no coração".

SÉTIMO DIA
Oremos a fim de colher bons frutos das instruções que recebemos. Pai
Nosso, Ave Maria. Glória e a jaculatória: “Coração de Jesus, que tanto
nos amais, fazei que vos amemos cada dia mais”.
Jesus e o leproso
Ouvi este grito d'alma, este grito cheio de confiança e de amor:
"Senhor, se quiserdes, podeis curar-me!" e ao mesmo tempo,
acrescenta o Evangelho, lançava-se o leproso de joelhos e suplicava
com as mãos erguidas... Jesus para, estende-lhe as mãos e com elas
toca as chagas do doente. "Sim, quero-o, diz Jesus, sê curado..." —
Oh! e por que já não estarei eu curado do meu orgulho, da minha
sensualidade, da minha indolência, eu que tantas vezes vos hei tocado
na santa comunhão? Faltar-me-ia a confiança?...
Meu Jesus, eu creio e espero! Curai-me!...
"Recitarei as minhas orações na igreja, como se estivesse vendo
realmente Jesus Cristo".
EXEMPLO
O Padre J. André, missionário de Callatupaty no Indostão, em 1884,
quando ali reinava a peste, narra numa carta, o seguinte: Um dia,
quando eu ia sair de casa, chegaram dois homens cobertos de suor:
"Padre, dois cristãos de Vayalogam". "De tão longe! Alguma extrema
unção, sem dúvida". — "Sim, Padre, para toda a aldeia".—“Para toda
a aldeia! Expliquem-se".— "Padre, leia". E me apresentaram uma
folha de palmeira em que leio: "Os cristãos de Vayalogam rogam ao
Souami que os venha socorrer. A cólera está a suas portas, e já as três
aldeias pagãs e turcas que cercam Vayalogam são dizimadas. Que o
Padre não abandone seus filhos neste perigo; venha dizer-lhes uma
missa e purificar suas almas, e eles se salvarão". — "Meus amigos,
respondi eu, desde que ninguém dentre vós foi atacado, não vedes que
nosso Senhor vos defende? Vossa aldeia é tão longe! É viagem de uma
semana! Ora, vós sabeis que cada hora do dia e da noite eu posso ser
chamado aqui para alguma vítima da cólera ou da varíola". — "Então,
dizei o que devemos fazer". — "Amigos, como eu mesmo não posso
ir, vou fornecer-vos um substituto que, sem dar a ninguém a extrema
unção, fará o que eu não posso fazer. Aqui está uma imagem do
Sagrado Coração de Jesus. Lembro-me de que numa grande cidade de
minha pátria, em Marselha, a cólera chegou a fazer 120 vítimas por
dia. No mais forte da epidemia, o bispo fez um voto ao Coração de
Nosso Senhor; desde esse dia, ninguém mais foi atacado. Tomai sua
imagem, e no domingo próximo, levai-a em procissão pela aldeia: Os
poucos pagãos que há por lá não poderão opor-se".— "Ao contrário;
foram os mais empenhados em que viéssemos chamar-vos". — "Mas
não é tudo. Enquanto durar o flagelo, todos os dias pela manhã e à
noite, reuni-vos no maior número possível na igreja, e recitai a
ladainha do Sagrado Coração. E que nenhum menino falte, mesmo os
que apenas principiam a caminhar". —“Mas, Padre, um grande
número desses meninos ainda não sabem as orações”.—"Não importa.
Dizei-lhes só que é preciso pedir a Deus que preserve a aldeia de todo
o mal: Nosso Senhor lhes inspirará a maneira de o exprimirem. Além
disto, a presença deles, por si, é ama oração que sobe ao céu. Quanto
aos adultos, que tenham cuidado em não ofender ao Coração Divino.
Ide, fazei o que digo, e estareis salvos.
Dois meses depois, bate à minha porta o guarda da igreja de
Vayalogam. — "E então, Aroupalen, a cólera?' — "Desapareceu,
padre". — "Quantas vítimas?" — "Nenhuma entre nós. Porém fez
muitas entre nossos vizinhos pagãos e turcos".
OITAVO DIA
Oremos para que Deus nos conceda a graça de repelir as tentações, que
durante o dia experimentarmos. Pai Nosso, Ave Maria. Glória e a
jaculatória: “Coração de Jesus, que tanto nos amais, fazei que vos
amemos cada dia mais”.
Jesus e os aflitos
Que impressão deviam fazer nos corações estas palavras de Jesus: "Oh
vós, que estais oprimidos de dores e sofrimentos, vinde a mim, que eu
vos aliviarei!" Ainda ninguém tinha falado assim; ninguém se havia
mostrado tão acessível a todos como Jesus... Assim, vede: os pobres,
os doentes, e os abandonados são os que o acompanham. — Quem os
queria anteriormente? Quem não os bania de sua convivência? Ó
Jesus, ensinai-me a ter um coração compassivo, a amar aqueles a quem
ninguém ama, a acudir aos que todos repelem... Dai-me sempre muitos
corações, a quem eu possa consolar durante a minha vida.
"Hoje procurarei ser útil a alguém da minha companhia".
EXEMPLO
O Dr. José Charazac, fundador da Policlínica de Toulouse, autor de
várias obras científicas elogiadas como de alto valor pela imprensa
profissional, foi um verdadeiro cristão, sem fraqueza nem respeito
humano. Começava, habitualmente, o seu dia por uma longa visita à
igreja de Beaulieu, onde, recolhido em fervorosa oração, oferecia ao
Coração de Jesus as primícias de seus trabalhos. Depois, todo entregue
aos deveres da profissão suportava-lhe as tarefas com uma paciência
heroica, viajando a toda a hora do dia e da noite para acudir aos
enfermos, sem olhar a tempo desfavorável nem a maus caminhos, e
dirigindo-se primeiro e de preferência aos pobres: "Os ricos, dizia ele,
tem mais recursos; lhes é mais fácil providenciar". Seu grande espírito
de fé lhe fazia ver no indigente a personificação de Jesus Cristo
sofrendo. Um dia, um amigo lhe disse: "Meu caro, eu tenho muitos
doentes para lhe mandar; devo, porém, prevenir que todos são clientes
pobres e para consultas gratuitas". — "Mas então, respondeu logo ele,
não se há de tratar aos infelizes que não podem pagar médico?
Mandemos todos, e sempre". E todos os enfermos que lhe enviei,
informa esse amigo, voltavam penhorados: não só lhes dispensava
cuidados, mas fornecia-lhes remédios, dava-lhes até dinheiro, e com
tanta bondade, que o modo de socorrer duplicava o mérito e o valor do
serviço prestado. Aos 34 anos de idade, caiu gravemente enfermo, e
preparou-se para a morte, comungando várias vezes na semana: no
Coração de seu Deus é que o médico exemplar ia haurir a sua
invencível coragem e perfeita resignação. Tinha filhos em tenra idade
que a miúdo o acarinhavam; com os olhos marejados de lágrimas, ele
dizia então aos que o cercavam: "Faça-se a vontade de Deus! eles não
puderam conhecer-me bem; vós lhes direis quanto eu os amava!" Um
pouco antes de expirar, exclamou: "Eu morro! mas diviso lá no alto
uma felicidade mais perfeita, vejo o céu, eis a eternidade bem-
aventurada. Lá, eu vos tornarei a ver um dia". E, levando a mão ao
coração, sorriu docemente à família, traçou sobre si um grande sinal
da cruz, e entregou a alma a Deus. Na sociedade médica de Toulouse,
em sessão de 21 de novembro de 1892, o secretário geral, Dr. Bezy,
fazendo o seu necrológio, dizia entre outras coisas: "Ao lado de
numerosas coroas depostas sobre o seu féretro pela piedade dos seus,
via-se um "bouquet" de violetas trazido, timidamente, por um "pobre
menino" a quem Charazac salvara a vida por uma hábil traqueotomia...
Pratiquemos as virtudes de que nos deixa o mais belo exemplo, e que
resumem sua vida privada e sua carreira científica: Amor do trabalho,
coragem na luta, bondade com os infelizes".

NONO DIA
Oremos pelas pessoas que mais estimamos. Pai Nosso, Ave Maria.
Glória e a jaculatória: “Coração de Jesus, que tanto nos amais, fazei
que vos amemos cada dia mais”.
Jesus defende Madalena
Madalena tinha sido pecadora, estava, porém, arrependida e chorava
aos pés de Jesus. Não era preciso tanto para comover o coração do
bom Mestre; não só perdoa, mas vede como ele toma a sua defesa
contra os que, no fundo de seus corações, diziam: É uma pecadora. —
"É mais amante do que vós, respondeu Jesus. Vim à vossa casa, não
me destes água para meus pés, e ela mos há banhado com as suas
lágrimas; não me destes o ósculo de paz, e ela não cessou de beijar-me
os pés... Por isso eu lhe digo: Tudo vos é perdoado, ide em paz!"
Lição de misericórdia que eu jamais esquecerei, ó meu Deus! Talvez
que aqueles que eu desprezo dentro do meu coração, e os que acuso,
sejam mais queridos de Deus, porque o amem muito mais.
"Porei sumo cuidado em julgar o próximo, para não pensar mal de
ninguém; e se fizer juízo temerário, mortificar-me-ei à refeição".
EXEMPLO
Em Amsterdam, a Liga do apostolado em 1892 propôs-se a trabalhar
seriamente na obra da conversão dos pecadores. A Liga contra cerca
de 500 jovens, que se reúnem todos os domingos: no dia do Natal
rogaram elas com instância ao Sagrado Coração, que convertesse ao
menos um pecador cada semana, e em curto prazo já se haviam
convertido vinte e um. Cada associada reza, diariamente, uma "Ave
Maria' nessa intenção, e procuram, por toda a parte, os transviados;
quando os acham, dão os nomes ao Diretor, que, sem os declinar, na
reunião seguinte pede orações por eles e, em seu favor, se faz uma
comunhão e o Padre anuncia que num dia determinado dirá a missa
nessa intenção, convidando a comungarem nesse ato todas as que
puderem, Se o pecador é da paróquia, o Padre vai procurá-lo; se de
outra, avisa ao respectivo Pároco, a fim de que o disponha. Estas
piedosas diligências têm sido até agora coroadas de êxito. Havia aqui
uma mulher de 70 anos que não queria ouvir falar de Deus: estava em
grande perigo de morte, e não queria deixar-se levar para o hospital,
dirigido pelas Irmãs de Caridade; enfurecia-se, quando lhe falavam
nisso. As associadas da Liga, querendo convertê-la, vão ao Diretor:
"Padre, nada conseguimos; que se há de fazer?"— "Nós triunfaremos,
ficai certas — respondeu ele— o Sagrado Coração nos ajudará.
“Trazei-me aqui nove de vossas companheiras”. Chegadas estas,
disse-lhes: "Começai uma novena com muito fervor; pedi a Nosso
Senhor que a doente perca os sentidos, a fim de que se possa então
transportá-la ao hospital". A súplica foi ouvida e a pobre mulher veio
para a companhia das irmãs. Mais tarde, volta a si e, vendo uma das
Religiosas aos pés de seu leito, reúne todas as suas forças, salta ao
chão e quer atirar-se pela janela; acode gente, conseguem contê-la e
comunica-se o fato ao apostolado: este redobra as orações, e faz dizer
uma missa na intenção, comungando nela 400 associadas. Não tardou
o triunfo completo: quatorze dias depois, a pobre pecadora,
transformada e recebendo os confortos religiosos, morria, com todas
as disposições da mais piedosa cristã.
DÉCIMO DIA
Oremos por aquelas pessoas dentre nós que mais necessidade tem de
orações. Pai Nosso, Ave Maria. Glória e a jaculatória: “Coração de
Jesus, que tanto nos amais, fazei que vos amemos cada dia mais”.
Jesus e o povo falto de pão no deserto
Há palavras bem comovedoras; Jesus vê a multidão que o segue
esquecendo, em seu fervor o necessário à vida, e diz: "Tenho
compaixão deste povo; há já três dias que me segue e ainda não tomou
alimento algum... Não o quero mandar embora neste estado, pois temo
que lhe faltem as forças no caminho..." Vós pensais em tudo, bom
Mestre, em tudo!... Se eu vos servir, se vos acompanhar, ainda mesmo
que algures descure a vida material, tenho a certeza de que vós
provereis as minhas necessidades em pessoa, e até por um milagre, se
for preciso. Eu compreendo bem vossas palavras: "Buscai em primeiro
lugar o reino dos céus, e tudo mais vos será dado em acréscimo!..." O
mundo não o entende e zomba... Porém eu creio, meu Deus, creio!
“Recitarei uma dezena do terço para pedir à SS. Virgem um grande
abandono à divina Providência”.
EXEMPLO
O Pe. Causséque, missionário em Madagascar, em setembro de 1890,
relatava o seguinte: "Há cerca de 15 anos, um dos meus alunos de uns
vinte anos de idade, veio uma 1ª sexta-feira, às 5 horas da manhã,
procurar-me para se confessar. Depois da confissão, disse-me: "Padre,
estou muito cansado, porém meu coração está contente". — "Por
que?" perguntei eu. — "É que ontem eu estava ainda muito longe, e
temia não poder chegar a tempo da Comunhão de hoje que é a nona e
completa os nove meses em honra ao Sagrado Coração. Mas caminhei
ontem o dia inteiro, até 8 horas da noite, e aqui estou". —“Pois bem,
meu filho, disse-lhe eu, o Coração de Jesus te abençoará”.— "A
bênção veio, de fato. Esse aluno de então é hoje pai de família com 12
filhos, e fez carreira. Da Comunhão da sexta-feira do mês passou, com
a mulher e dois filhos, à comunhão semanal: e é feliz, tem boa posição
e goza de ótimo conceito. Um europeu que lhe confiou grandes somas
para negociar, disse-me a respeito: Com esse procurador, eu não
examino contas: porque se viesse a duvidar de sua probidade, em quem
me poderia mais confiar? E que era ele há 25 anos? Um pequeno
malgache paupérrimo e sem instrução, arrancado por um missionário
ao paganismo, onde a mentira e ganância são vícios tradicionais. Hoje,
é um bom chefe de família, estimado entre os seus, e honrado com a
confiança dos estrangeiros. Glória ao Coração de Jesus!"

UNDÉCIMO DIA
Oração para alcançar de Deus um grande horror a todo pecado. Pai
Nosso, Ave Maria. Glória e a jaculatória: “Coração de Jesus, que tanto
nos amais, fazei que vos amemos cada dia mais”.
Jesus e os apóstolos pedindo a
punição dos samaritanos
Os habitantes de Samaria não quiseram receber a Jesus: expulsaram-
no dentre os seus muros... os apóstolos indignados, lhe dizem:
"Senhor, quereis que digamos que desça o fogo do céu e os
consuma?"— "Não sabeis de que espírito sois! lhes diz Jesus. O filho
de Deus não veio perder as almas, mas salvá-las..."
Ah! quão grande é a vossa bondade, ó meu Jesus! Agora sei porque,
depois de tantos pecados, já me não tem vindo surpreender a morte! O
demônio a enviava; vós, porém, Senhor, a detínheis. Jesus, fazei-me
agradecido.
"No dia de hoje procurarei dizer alguma coisa da bondade de Deus".
EXEMPLO
Quando, em 1881, os Padres Jesuítas se estabeleceram na aldeia de
Onha, em Burgos, reinavam ali, por diversas causas, costumes
repreensíveis, e a mocidade tinha o hábito de blasfemar; nos dias de
festa, se entregava a danças indecorosas; nem o cura, com sua prédica,
nem o alcaide, com intimações e penas, tinham podido até aí pôr cobro
ao escândalo. Tentaram-no os recém-chegados por este modo:
encontrando-se um deles com um jovem em passeio, trava
conversação e, depois de falar sobre vários assuntos, pergunta porque
se não formam na aldeia coros decanto, como há na Espanha.
Respondendo o jovem que não faltam boas vozes, mas não têm quem
ensine e exercite, o Padre oferece-lhe o mestre e um local para
aprenderem o canto e quaisquer outras coisas de utilidade que per-
tençam à boa educação.
Uma semana depois, os moços na quase totalidade inauguram suas
reuniões literárias e musicais numa sala dos Padres sob a sua direção,
tomando a agremiação o título de "Academia do Sagrado Coração de
Jesus". O ensino religioso e moral não poderia, em tais circunstâncias,
ficar esquecido; e o Diretor, na primeira oportunidade, fez ver que era
absolutamente preciso, dentro de um mês, corrigirem-se do mau vezo
da blasfêmia. Respondem ser impossível, porque estava muito
enraizado o hábito. O Padre replica sem se perturbar: "Confiando em
vosso divino patrono, fazei o que vos digo. Formai cada manhã, o
propósito de não blasfemar nem uma só vez durante o dia, e quando,
por acaso, o fizerdes, apanhai uma pedrinha e metei-a no vosso bolso,
renovando logo a resolução tomada". Concordaram todos, e a reforma
começou. À noite, à hora da classe, chegavam todos os jovens com a
sua coleção de pedras.
Mas, para abrandar o corretivo e poupar o amor próprio, foi
providenciado a que não pudessem conhecer as faltas uns dos outros.
O Padre percorria as fileiras, levando um saco no qual todos metiam a
mão, depondo lá as pedrinhas os que as tinham, sem que se soubesse
quais eram e em que número. Fazia-se depois a soma total e era então
imposta uma penitência comum, por exemplo, a recitação de uma
"Ave Maria". E só com isto as blasfêmias, sem muito tardar, cessavam.
Em relação às danças escandalosas, os jovens agremiados fizeram
também entre si um pacto de honra, e as substituíram resolutos por
diversões honestas e agradáveis. Por esta forma, quando em Onha
celebrou-se em 1882 a festa do Sagrado Coração, a aldeia se regene-
rara já dos seus dois mais graves escândalos, e por obras de sua piedosa
Academia, cujo coro de cantores nesse dia mesmo a abrilhantava.

DUODÉCIMO DIA
Oremos por todos os membros de nossa família. Pai Nosso, Ave
Maria. Glória e a jaculatória: “Coração de Jesus, que tanto nos amais,
fazei que vos amemos cada dia mais”.
S. João repousando sobre o peito do Salvador
Que amável familiaridade! Apenas me parece compreensível e,
contudo, meu Deus, não tenho eu esta dita de S. João cada vez que
comungo? Se eu tivesse a pureza que ele tinha, se eu amasse a Jesus
como ele o amava, ah! que deliciosos momentos passaria ao pé do
altar, guardando Jesus comigo, e em mim! Agora explico estas
palavras de uma adolescente: "O céu é uma primeira comunhão
contínua". Pois não está em mim o céu depois da comunhão? O Evan-
gelho não diz que S. João falasse muito com Jesus, mas diz que foi o
único Apóstolo que se achou no Calvário... oh! também aí me achareis,
meu Jesus! nada me separará de vós, nada.
"Farei hoje um ato de reparação a Jesus no SS. Sacramento".
EXEMPLO
Otávio de Ravinel, noviço da Companhia de Jesus, revelara desde a
infância um coração angélico: ainda criança, abraçando sua mãezinha,
dizia, às vezes, muito sério: "Eu quero ser um apóstolo"; e ao voltar da
igreja, onde na bênção do SS. Sacramento segurava a naveta do
incenso de que ainda rescendia, notava contente: "Trago o perfume de
Nosso Senhor!' Num dia da festa dos Santos Inocentes, escrevia:
"Tenho inveja desses milhares de meninos que se festejam hoje e que
derramaram o sangue para salvar o Menino Jesus". Na escola
apostólica de Amiens, acometido de uma afecção que o prendeu por
muito tempo ao leito ou a uma cadeira, sem nunca se impacientar,
dizia: "Se o bom Jesus padeceu tanto, um de seus filhos não pode
sofrer um pouco?" Entrando para o noviciado, ele se ofereceu ao
Coração de Jesus como vítima pela salvação das almas, propondo-se
a trabalhar sempre em favor delas, e aplicando às do Purgatório, pelo
voto heroico, todos os méritos satisfatórios e indulgências que lucrasse
durante a vida, e os sufrágios que tivesse por morte. Ficava-lhe por
fazer só o sacrifício da vida; esse ofereceu-o ele também, mais tarde.
Uma alma em perigo de perder-se lhe foi recomendada: "Eu me
considero particularmente encarregado por Nosso Senhor da salvação
desta alma. Peço a Jesus que me faça sofrer o preciso para alcançar a
sua conversão completa". E o sofrimento veio, chegando ao extremo.
Porém na manhã mesma de sua morte, ao acabar a ação de graças da
Comunhão, recebia esta carta: "Oh !como te hás de sentir feliz de que
teu último sacrifício tenha sido para reconduzir uma alma ao bom
caminho! Que poderei eu fazer em retribuição? pedira Deus a tua
saúde? Eu o fiz, mas parece que Deus não quer escutar as minhas
súplicas. Porém não partirás sem ter de mim uma consolação; aquele
por quem te ofereceste, vem, de joelhos, ante o teu leito de
sofrimentos, prometer-te ser um bom cristão durante o resto da vida.
Tu me enviarás as forças, do alto do céu, para que eu mereça reunir-
me a ti um dia".
Otávio rendeu graças, comovido, e exclamou: "Agora, só me resta
morrer". — "Por que? lhe perguntaram". "Pois não ofereci eu minha
vida por essa conversão? Deus ma concedeu: cumpre-me pagar",
pouco depois, expirava, na flor da juventude, em transportes de fervor,
como se tivesse já o céu diante dos olhos.
“Farei hoje um ato de reparação a Jesus no SS. Sacramento”.

DÉCIMO TERCEIRO DIA


Oremos a fim de obter uma grande e terna devoção para com a SS.
Virgem. Pai Nosso, Ave Maria. Glória e a jaculatória: “Coração de
Jesus, que tanto nos amais, fazei que vos amemos cada dia mais”.
Jesus negado por S. Pedro
Pobre Apóstolo, que remorsos em sua alma culpada e que temor ao
pensar que devia tornar a ver Jesus! Procurava, talvez trêmulo e
confuso, ver, sem ser visto, seu bom Mestre, a quem tinha negado... O
divino Mestre também o buscava... Que se lia então, ó Jesus, no vosso
divino olhar? não era a “cólera”, nem a “queixa” nem a “exprobração”;
cólera, queixa, exprobração, teriam morto o Apóstolo... Em vosso
olhar só se havia de ler o “amor”...! Como sois bom, ó Jesus meu! Por
isso, quaisquer que sejam as minhas faltas, jamais me apartarei de vós!
"Farei hoje um fervoroso ato de esperança".
EXEMPLO
Quando, em 1883, rompeu a guerra de França com os malgaches, os
missionários católicos, estabelecidos entre estes, houveram de retirar-
se do país para não serem perseguidos pela população pagã, mas o
Coração de Jesus os protegeu e o seu rebanho. No dia 1º de junho,
festa do Sagrado Coração, enquanto os missionários, na primeira
estação do caminho do exílio invocam o seu celeste patrono, o rebanho
sem pastor era congregado na catedral por uma piedosa pastora diante
do tabernáculo vazio, e aos pés da imagem do Coração de Jesus ereta
no altar mor. A Genoveva de Tananarive, cujo nome é Vitória,
escrevia nesse mesmo dia ao Diretor das missões: "Padre, esta manhã,
conforme vossas recomendações, nos reunimos na igreja; recitamos o
terço e entoamos os dois cânticos; e assim continuaremos todos os
dias, com o auxílio de Deus".
De fato, as reuniões continuaram em Tananarive e na Imerina. Os
antigos alunos dos Padres organizavam o serviço do culto,
distribuindo entre si os papéis em que poderiam substituir os
missionários, e Vitória percorria as igrejas, a animar e exortar os fiéis.
O triunfo maior, porém, foi o seguinte: o bispo anglicano quis
aproveitar-se da situação e, dirigindo-a ao grupo mais importante dos
convertidos, lhes disse: "Os Padres não estão mais aqui; vós não tendes
dinheiro, eu vo-lo posso dar; ides ser forçados ao serviço militar, mas
eu vos livrarei. Como católicos romanos, sereis considerados
cúmplices dos franceses: comigo, sereis tratados como amigos do
Estado, sem deixar de ser católicos, pois que nós somos católicos
anglicanos. Vinde para a minha igreja!' Todos responderam : "Senhor,
nós somos filhos da Igreja Católica, não vos podemos acompanhar".
E cumpriram a palavra: feita a paz, ao voltarem os missionários em
1886, o rebanho os cercou de novo, fiel ao Sagrado Coração de Jesus.
”Farei hoje um fervoroso ato de esperança”.

DÉCIMO QUARTO DIA


Oremos pelos pobres pecadores endurecidos. Pai Nosso, Ave Maria.
Glória e a jaculatória: “Coração de Jesus, que tanto nos amais, fazei
que vos amemos cada dia mais”.
Jesus e o bom ladrão
Toda a vida mortal de Jesus pode reduzir-se a uma só palavra:
"misericórdia". Não é também isto o que resume a sua vida
eucarística? Nunca repelia ninguém. —Ia sempre ao encontro dos
pecadores. — Intercedia sempre por aqueles mesmos que o
magoavam: e, desde que via numa alma a menor vontade de voltar ao
bom caminho, usava para ela de tais cuidados e carinhos, que, diz um
Santo, quase faz inveja o ser pecador. —O ladrão, pendente de uma
cruz, reconhece o seu crime e, restando-lhe apenas alguns momentos
de vida, ouve estas consoladoras palavras: "Hoje estarás comigo no
Paraíso". Oh! dizei-me também estas palavras, meu Jesus!
"Confessar-me-ei com mais cuidado".
EXEMPLO
O "Mensageiro do Coração de Jesus" de setembro de 1880 menciona
a seguinte conversão sucedida na Bélgica: "Um médico rico e
conhecido, que casara com uma senhora piedosa, de há muito
desprezara os seus deveres religiosos, e, às exortações da consorte para
que voltasse a Deus, respondia ser mais católico que muitos outros,
fiel a seus deveres de família e generoso com os pobres. Na guerra de
1870, ele sustentara, às suas custas, uma das principais ambulâncias
belgas, enviara socorros a Metz e Sedan, sem querer por isso nenhuma
indenização; tratava e fornecia remédios gratuitamente aos pobres da
aldeia em que estava situada a sua quinta. Depois de passados assim
20 anos, sobrevieram- lhe repetidos reveses que o arruinaram: mas
com eles, em vez de se voltar para Deus, mais infenso à religião se
mostrava. Aos desgostos pelo abandono em que os amigos de outrora
o deixavam, associou-se uma grave enfermidade. A família então
juntou-se toda a trabalhar por convertê-lo, e nessa intenção se fizeram
orações e promessas, celebraram-se missas, e começou uma novena de
primeiras sextas-feiras. Em outubro piorou muito; alguns Padres o
visitaram, a quem recebeu com polidez, mas recusando o socorro de
seu ministério. Aceitou., afinal, um belo Cristo, que mandou colocar
perto de si, mas declarando que, munido deste sinal da Redenção, não
precisava de intermediários entre Deus e sua alma. A moléstia
progrediu, e o assistente a dizia já no termo; nesse tempo, uma sua tia,
Religiosa do Sagrado Coração, mandou-lhe uma imagem, abaixo da
qual estava escrita uma fórmula de consagração, e pediu que com a
esposa a recitasse durante uma novena das primeiras sextas-feiras.
Deu-se isto numa quinta-feira à tarde, e no dia seguinte o doente anuiu
ao pedido, e recitou, com sua mulher, a pequena oração. A noite que
se seguiu foi má, e a boa cristã, ao amanhecer, estando só com o
marido, lembrou-lhe o dever de pensar seriamente na eternidade: ele
calou-se por instantes e, perguntando o que julgavam do seu estado os
médicos, à resposta de que o consideravam gravíssimo, disse: “Mande
chamar o Padre, porque eu quero morrer como perfeito cristão”.
Devidamente preparado, recebeu com devoção os últimos
sacramentos; ao chegarem os médicos e amigos, contrários às práticas
religiosas, perguntando-lhe surpreendidos, se não se impressionara,
respondeu: "Sinto-me feliz, só quero agora ocupar-me das coisas
celestes". Quando o cercavam as pessoas piedosas da família, queria
que lhe recitassem jaculatórias e pedia perdão a todos, dizendo: "Logo
que estiver no céu, farei por vós o que não pude na terra, onde tudo me
saiu mal". Os próprios criados exclamavam admirados: "É um
milagre! O amo a pedir perdão! Morre como um santo! Não foi em
vão que tanto se rezou por ele!" Falava da morte com alegria, e fez
suas disposições querendo um enterro pobre, e sepultura no cemitério
da aldeia, que era sagrado. E morreu, exclamando: "Eis o caminho do
céu! como é belo!"
Confessar-me-ei com mais cuidado.
— II —
Desejos do Sagrado Coração

DÉCIMO QUINTO DIA


Oremos para que nós tenhamos uma terna devoção a S. José. Pai
Nosso, Ave Maria. Glória e a jaculatória: “Coração de Jesus, que
tanto nos amais, fazei que vos amemos cada dia mais”.
O primeiro desejo do Coração de Jesus
é a glória de seu Pai
Amamos aos nossos pais como a nós mesmos: queríamos que todos
dissessem como nós, que não os há mais nobres, nem mais virtuosos,
nem mais ilustres, nem melhores; revolta-nos uma injúria feita a eles.
— Oh! Como estes sentimentos eram ardentes, justos, no Coração de
Jesus! Nada mais quer do que a glória do seu Pai; o zelo de sua honra
devora-o, tem fome e sede de o fazer amar... Oh! ajudemos Jesus, fa-
lemos daquele Deus de bondade, dirijam-se nossas ações para Deus,
façamos recitar algumas vezes as criancinhas alguns atos de amor de
Deus.
“Hoje farei todas as minhas orações para que Deus seja conhecido e
amado".
EXEMPLO
O relatório do Apostolado da Oração, apresentado no Congresso
Eucarístico de Liège em 1883, consigna o seguinte fato, referido por
um dos zeladores: "Havia nessa cidade um homem que desde muito
não ia à Missa nem procurava os sacramentos; dera-se à embriaguez,
blasfemava; em suma, tinha uma péssima conduta. Em casa, eram
contínuas as rixas com a família. A mulher, encontrando-se um dia
comigo fez-me chorosas queixas e eu, consolando-a como pude, acon-
selhei que com os filhos recitasse todos os dias um "Pai Nosso" e uma
"Ave Maria" em honra do Coração de Jesus; e ela o prometeu. Tempos
depois, uma zeladora da Liga fala ao marido transviado para que se
aliste no Apostolado, e ele anui, recebe o escapulário e obriga-se a
recitar as orações. Desde logo opera-se nele mudança total: começou
a ir à Missa e, cada vez que lhe vai escapar uma blasfêmia, refreia-se
humilhado. Indo uma vez significar-lhe o meu prazer pela boa
transformação, vi a seu lado um livre pensador que, oferecendo até
dinheiro, procurava persuadi-lo a deixar os filhos na escola municipal
onde se não dava o ensino religioso. Em oposição, eu mostrei-lhe o
que há de precário e falso nos gozos deste mundo e que só é feliz quem
serve a Deus. Ele me ouviu com atenção, e mostrou-se resolutamente
de acordo, o livre pensador retirou-se desconcertado e não voltou. En-
contrando, mais tarde, o convertido, perguntei-lhe se era fiel ao seu
compromisso com o Sagrado Coração, e respondeu: "Sim, e me sinto
feliz; falta-me, porém, uma coisa; é fazer uma boa confissão e
comungar". Ajudei-o a preparar-se, e fez com todo o recolhimento a
sua Comunhão pascoal. Esse homem hoje é um modelo: colocou os
filhos numa escola católica, leva a filha a comungar em cada lª sexta-
feira do mês, e, à força de exortações e conselhos, reconduziu também
à vida cristã um de seus cunhados. É ocioso dizer que a paz voltou a
essa casa, e que toda a família vive tranquila e feliz, depois de tal
conversão, operada toda pelo Coração de Jesus, que mais uma vez
realizou a sua promessa: “Os pecadores se converterão por esta
devoção; eu estabelecerei a paz nas famílias”.

DÉCIMO SEXTO DIA


Oremos para que a Santíssima Virgem seja mais conhecida e amada.
Pai Nosso, Ave Maria. Glória e a jaculatória: “Coração de Jesus, que
tanto nos amais, fazei que vos amemos cada dia mais”.
O segundo desejo do Coração de Jesus
é a honra e glória da SS. Virgem
Oh! como é agradável a Jesus ver honrar e amar sua Mãe; essa Mãe, a
quem por tanto tempo obedeceu; essa Mãe, tão virtuosa, tão santa, tão
boa; essa Mãe, a quem tanto viu sofrer!... Por isso, vede como Ele
inspira um tão grande número de práticas de devoções em sua honra,
como enche de bênçãos aos que a invocam, como concede a paz e a
alegria aos que a amam... Ó Jesus, queremos amar, com todo o nosso
coração, a vossa Mãe... Teremos por Maria a mais terna devoção.
"Recitarei, hoje, um ato de abandono à SS. Virgem".
EXEMPLO
Mons. Bossé, prefeito apostólico de S. Lourenço no Canadá, em 1883
relata o seguinte: "Um milagre acaba de ser operado na missão de
"Betchouan" pelo Sagrado Coração de Jesus. Numa pequena casa
achavam-se treze pessoas. Trazem ali um barril de 36 libras de pólvora
para fazer a divisão. Um homem pega num vaso, enche-o de explosivo
e derrama-o também numa garrafa. Entra um rapaz com um cachimbo,
em torno do qual estavam sete homens. Uma parede inteira da casa é
atirada longe, o fogão se esboroa, o teto é sacudido à altura de quatro
pés e cai desconjuntado. Portas, janelas, móveis ficam em pedaços; a
caixa do edifício é só o que resiste. Três dos homens cujas roupas se
incendiaram, correram à praia e se atiraram na água. Sete queimaram
as mãos e o rosto; mas estão em via de cura. Todos, no momento do
desastre, invocaram Jesus e Maria. Havia nesse aposento, pregadas na
parede destruída, duas imagens do Sagrado Coração e uma de Maria,
que estavam em quadros com vidros: os quadros e os vidros se
esmigalharam, mas as três imagens se acharam intactas a doze pés da
casa, sobre uma pilha de destroços... O papel não estava nem roto, nem
machucado, nem enegrecido: até mesmo as estrelas doiradas, que
ornavam o manto de Jesus, nada sofreram. Os feridos fizeram celebrar
uma Missa em ação de graças, e nela comungaram.

DÉCIMO SÉTIMO DIA


Oremos pelos Ministros de Deus — os Padres, — a fim de os
ajudarmos na salvação das almas. Pai Nosso, Ave Maria. Glória e a
jaculatória: “Coração de Jesus, que tanto nos amais, fazei que vos
amemos cada dia mais”.
O terceiro desejo do Coração de Jesus
é a salvação das almas
Se nos fosse permitido, como a S. João, reclinar a nossa cabeça sobre
o peito de Jesus, e perscrutar-lhe as palpitações do coração, ouviríamos
estas palavras: “Almas! almas! quero salvar as almas!” Se não
fôssemos tão distraídos pelas coisas exteriores, ouviríamos a voz
suplicante de Jesus dizer-nos: “Ajudai-me a salvar as almas!" — Uma
alma que se condena é um triunfo para o demônio! é um blasfemo que,
durante toda a eternidade, amaldiçoará Jesus!... Salvemos as almas:
podemo-lo fazer "pelos bons exemplos, pelas palavras e, sobretudo,
pelas orações".— Se salvarmos uma alma, teremos salva a nossa.
"Ouvirei uma missa pela conversão dos pecadores".
EXEMPLO
Havia em Forte de França, na Martinica, e era ali muito conhecido, um
homem abastado que nunca recebera o ensino religioso, e, tendo.se
casado com uma boa senhora, porém tíbia e tímida, contentava-se de
ser probo. Aos sessenta anos de idade, em 1880, atacou-o uma
fraqueza geral, que aumentava dia a dia, inquietando a família que
pensou em lembrar-lhe que se devia aproximar de Deus. O doente,
porém, respondia, a galhofar, que se havia de arranjar bem com Deus,
quando o visse face a face. Progredia, entretanto, a moléstia e mais se
afligiam, cada dia, os parentes, mormente considerando que nem a sua
primeira Comunhão ele fizera; conseguira, tão somente, um deles, que
deixasse coser ao seu travesseiro um escapulário do Sagrado Coração,
e a este recomendava todos os dias o doente. Após seis meses de
sofrimento, perdeu um dos olhos, redobram então as orações ao
Sagrado Coração, e um dia o rebelde pediu que lhe trouxessem um
Padre e, depois de várias visitas deste e longas conferências decidiu-
se a confessar-se, fazendo-o com boas disposições, mas sem querer
ainda a Comunhão, por lhe parecer desnecessária. Passado um mês,
trouxeram-lhe uma imagem do Sagrado Coração, que foi colocada em
seu quarto. No dia imediato, veio-lhe um escarro de sangue, e,
assustado, pediu a Comunhão. O sacerdote marcou-a para alguns dias
depois, e durante esse tempo vinha exortá-lo, de modo que fez uma
excelente preparação, e no ato mostrou uma fé e humildade
verdadeiramente edificantes. Viveu ainda três meses, mas suportando
com a maior resignação os seus cruéis sofrimentos e, se acaso lhe
escapava algum movimento de impaciência, logo o corrigia com
invocação piedosa, ou beijando o Crucifixo. Comungou ainda outras
vezes, sentindo pelo seu estado de fraqueza não poder ajoelhar-se para
receber o seu Deus com toda reverência; e teve morte serena e
consoladora. Tudo isto foi publicado em 1881, em honra do Coração
de Jesus, por testemunhas dos fatos relatados.

DÉCIMO OITAVO DIA


Oremos pelas almas do Purgatório, que são mais amadas pela SS.
Virgem. Pai Nosso, Ave Maria. Glória e a jaculatória: “Coração de
Jesus, que tanto nos amais, fazei que vos amemos cada dia mais”.
O quarto desejo do Coração de Jesus é o livramento das almas do
Purgatório
Almas queridas de Jesus, almas muito amadas que Ele vê sofrer, e que,
em respeito a sua justiça, ainda não pode livrar!
Estas almas chamam-no, desejam-no, dizem-lhe a cada instante:
"Quando vos veremos, Senhor?... E choram menos pelas dores que
experimentam que por se verem separadas de Jesus! Parece-me, dizia
uma Santa, estar vendo Jesus que estende para mim uma das suas
mãos, dizendo-me: "Estas pobres almas devem-me orações, missas
mal-ouvidas, mortificações, esmolas que deveriam ter feito...
Satisfazei por elas".
Sim, Jesus, quero começar hoje mesmo.
“Darei, de tempos a tempos, uma esmola pelas almas do Purgatório”.
EXEMPLO
Santa Margarida Maria recomendou, vivamente, em suas instruções, o
seguinte: "À noite, dareis uma voltinha pelo Purgatório, em
companhia do Sagrado Coração, consagrando-lhe tudo o que
houverdes feito, e pedindo que se digne aplicar os seus merecimentos
às santas almas que padecem. E ao mesmo tempo lhes pedireis
também, queiram interpor o seu poder para vos alcançarem a graça de
"viver e de morrer no amor e fidelidade ao Sagrado Coração de N.
Senhor Jesus Cristo, correspondendo aos seus desejos de resistência".
Noutro escrito que deixou, lê-se: "Numa noite de Quinta-feira Santa,
tendo eu alcançado licença para passá-la diante do SS. Sacramento,
estive uma parte do tempo como cercada destas almas pobres: e Nosso
Senhor disse-me que me dava a elas todo este ano, para lhes fazer todo
o bem que pudesse. Desde então, vem elas ter muitas vezes comigo; e
não lhes dou outro nome senão o de minhas "amigas penadas". Eu
pedia em favor delas sufrágios e aplicações de Missa dizendo: "Muito
mais obrigada vos fico pelo bem que lhes procurais do que se a mim
mesma o fizésseis". Outras vezes, regozijava de terem saído livres
pelas orações e penitências que por elas fizera : "Esta manhã, domingo
do Bom Pastor, duas das minhas boas amigas que sofrem, vieram dar-
me um adeus; porque hoje o soberano Pastor as recebia no seu redil da
eternidade, com outras que iam entoando cânticos de alegria que se
não podem explicar". Estes piedosos sentimentos de Sta. Margarida
Maria se manifestavam também na mesma época numa Religiosa de
alta virtude. Maria vitória da Encarnação, do Convento das Clarissas
da Bahia, cuja vida foi escrita pelo arcebispo D. Sebastião Monteiro.
Era a santa freira fervorosíssima devota dos mistérios da Paixão de
Nosso Senhor e, às sextas-feiras, fazia a via sacra, carregando uma
pesada cruz e levando à cabeça uma coroa de espinhos a disciplinar-
se de modo que o sangue esguichava sobre as paredes ou corria pelo
pavimento; assim, às vezes, a se arrastar de joelhos, ia até o lugar das
sepulturas e se prostrava sobre elas orando. Tinha ainda uma particular
devoção ao arcanjo S. Miguel como o defensor das almas do
Purgatório, para cujo alívio fazia muitos sufrágios e oferecia todas as
obras de humildade que praticava. Por isso, escreve o seu ilustre
biógrafo, elas a procuravam com toda a confiança: indo, uma vez, altas
horas da noite, ao coro fazer oração, ouviu lastimoso gemido de um
defunto que, por chegar tarde à igreja, ficara por enterrar : cobrando
ânimo, perguntou o que queria, e ele respondeu, pedindo mandasse
fazer sufrágios de que muito precisava; satisfez o pedido no dia
imediato, e o defunto, mais tarde, veio agradecer-lhe. Uma noite, viu
a alma de uma sua serva que lhe falava, quando a companheira que
dormia perto, despertando e vendo um clarão em sua cela, ao tempo
em que lhe ouvia a voz, gritou assustada, fazendo acordar toda a
comunidade. Viu, de •outra vez, a alma da religiosa Madre Luzia, que
subia ao céu. De uma feita, acabada a sua oração no coro, retirava.se,
mas a cercaram de tal sorte as almas, que ficou a orar até romper a
aurora. Como para mostrar que não era isso feito de pura imaginação,
permitiu Deus que as almas lhe imprimissem como três dedos de fogo
num ombro, e viram-nos várias Religiosas, a quem disse por graça:
"As minhas amigas me cauterizaram; não quero mais brinquedos". Por
outro lado, elas lhe faziam carinhos e a serviam: em noite de excessivo
calor, uma freira que falava à porta da cela, sentiu uma suavíssima
viração e, não podendo explicar, perguntou donde vinha. Madre
Vitória respondeu: "São as minhas amigas que me estão abanando".
— "Oh! que consolação é a de ver uma alma em salvação. Veio aqui,
nestes dias, uma tão linda e resplandecente, que excedia a luz do sol".
E, valendo-se delas, conseguiu a muitas pessoas acharem o perdido,
saberem de pessoas ausentes muito longe ou de coisas futuras que se
não poderiam conhecer naturalmente, e curarem-se prestes de
moléstias antigas e graves. Madre Vitória morreu em 1715, numa
sexta-feira, às 3 horas da tarde, dando-se, nesta ocasião e depois, por
muitas vezes, fatos extraordinários que confirmaram a reputação de
santidade que já gozava em sua vida, e que tem uma longa e detida
comemoração na Crônica da Ordem Seráfica.

DÉCIMO NONO DIA


Oremos pelo Santo Padre, Pai Nosso, Ave Maria. Glória e a
jaculatória: “Coração de Jesus, que tanto nos amais, fazei que vos
amemos cada dia mais”.
O quinto desejo do Coração de Jesus é o triunfo completo da Igreja
A Igreja não perecerá jamais: debalde as portas do inferno vomitam
contra ela legiões infernais; debalde a má imprensa espalhará as suas
calúnias; a Igreja resistirá até a consumação dos séculos. É um artigo
de fé, o temor a esse respeito seria uma falta.
Mas se a Igreja não pode perecer, pode sofrer, e sofre... Sofre na pessoa
de seu “chefe”, o Papa, cuja autoridade é desconhecida; sofre em seus
"membros", os fiéis perseguidos; em seus "mandamentos" des-
prezados... Oh! como Jesus me alegraria de vos ver algumas vezes de
joelhos, diante do SS. Sacramento, pedindo-lhe a paz da Igreja e
impondo-vos, nessa intenção, algumas pequenas privações".
"Pedirei, com mais fervor, em minhas orações, o triunfo completo da
Igreja".
EXEMPLO
O Pe. Romano Hinderer, alsaciano, que recebeu o batismo em 1668, o
ano em que se erigiu em Coutances, Normandia, a primeira igreja
pública dedicada ao Coração de Jesus, foi como escreve um seu
discípulo, senão o primeiro, ao menos o mais feliz propagador desta
devoção na China. Enviado para a província de Tchékiang, dentro em
pouco erigiu na capital (Hangtcheou) o primeiro templo que a China
possuiu sob a referida invocação, e não tardou a ser testemunha de
uma proteção miraculosa obtida por ela: um incêndio voraz se ateara
numa aldeia próxima, e devorara quarteirões inteiros. Os habitantes,
infiéis na maior parte, corriam às ruas desorientados, clamando por
seus ídolos: entre eles havia um cristão muito pobre, cuja casa se
achava entre as dos infiéis, e ele pede a Deus que se compadeça de sua
miséria. O incêndio prossegue e arde já a casa vizinha à do cristão;
mas, de repente, as chamas passam sobre ela, respeitando-a, e vão
queimar as dos outros, reduzindo-as a cinza. Um grande número de
pagãos converteu-se logo diante do prodígio. Sucederam-se outros; na
aldeia de Kin-kin-kias, estavam reunidos os neófitos e oravam sob um
desses alpendres que são o oratório dos camponeses chins, quando
apareceu no céu sobre o teto de colmo, uma cruz luminosa, cercada de
uma auréola de nuvens brilhantes, que deixava em torno um campo
azul semeado de estrelas. Ao clarão, que parecia o de um incêndio,
acudiram os pagãos: a cruz pairou, durante um quarto de hora, em seu
nimbo de fogo, e depois desapareceu, deixando infiéis e cristãos
maravilhados. Em 1722, no dia 24 do mês consagrado ao Coração de
Jesus, sobre a sua igreja em Hangtcheou, desenhou-se novamente no
céu a cruz luminosa, futurando pelo tempo de meia hora; o povo todo
a viu, e se fizeram desenhos dela, que foram gravados e distribuídos
no Império chinês e na Europa. Pela invocação do Sagrado Coração,
obteve o Pe. Romano a graça de curas miraculosas, e escapou
incólume a várias perseguições que a Igreja sofreu na China, durante
os 37 anos em que aí missionou; e ao morrer, em seus 77 anos de idade,
tendo arrancado ao paganismo mais de cem mil almas a quem ensinava
tão santa devoção, dizia ele ainda cheio de confiança: "É pela devoção
ao Coração de Jesus que a missão na China não se conservará, mas há
de se elevar muito".
— III —
Os espinhos do Coração de Jesus
VIGÉSIMO DIA
Oremos pelas almas que resistem à graça. Pai Nosso, Ave Maria.
Glória e a jaculatória: “Coração de Jesus, que tanto nos amais, fazei
que vos amemos cada dia mais”.
O 1º espinho do Coração de Jesus são as
almas que, voluntariamente, permanecem
em estado de pecado mortal
A alma inocente é morada de Deus, e pela sagrada Comunhão torna-
se a habitação particular de Jesus Cristo... aí Jesus Cristo está "em
casa", e encontra suas delícias; aí quer ficar... Ora cometer um pecado
mortal, conservá-lo voluntariamente, é admitir o demônio dentro
d'alma, constituí-lo Senhor no lugar de Jesus que sai então expulso,
ignominiosamente...
Pobre Jesus! Fica ele então à porta da alma pecadora; bate a essa porta
que lhe cerraram, pede para entrar e ouve um espantoso grito dos
Judeus: "Não! não! não é a vós que eu quero, mas ao meu pecado!" —
Oh! se vos julgais em estado de pecado mortal, ide, ide já confessar-
vos.
“Uma oração pelos pecadores".
EXEMPLO
A piedade, como diz a Sagrada Escritura, é útil a tudo. Isto se vê até
no êxito admirável de tantas pequenas indústrias que o amor de Deus
sugere aos seus servos para fazerem o bem e lhe ganharem as almas.
Em 1891, na escola católica da Ilha de Tine, do arquipélago grego, foi
colocado sob a imagem de Nosso Senhor um coração "cheio de
espinhos", tendo o direito de cada tarde, no mês de junho, tirar desse
coração um espinho o aluno que houvesse procedido melhor; tal foi a
porfia entre eles por uma conduta exemplar que tornou um espetáculo
de edificação à escola, podendo dizer-se que o Sagrado Coração era
aí, todo o dia, coberto das mais belas flores d'alma por aquela piedosa
turba infantil.
O colégio congreganista de Negapatan, no Indostão, em 1869, instituía
a prática seguinte: no começo do mês, cada aluno traçava numa folha
de papel tantas linhas perpendiculares quantos os dias do mês e à mar-
gem de uma série de linhas horizontais, registrava as espécies de boas
obras que se poderiam aplicar, escrevendo no fim de cada dia, na
coluna e lugar correspondentes, o número dos atos de virtude que
praticara. Ao fim de um mês, entregavam-se todas as listas ao Diretor
do Apostolado da Oração, sem nenhuma indicação nominal, para que
só de Deus fosse conhecido o esforço e mérito de cada um; e o Diretor,
somando o resultado em relação a cada espécie de boas obras, na
conferência mensal publicava o balanço do "Tesouro do Coração de
Jesus".
O Pe. Eraud, noticiando o fato, considera-o a causa principal dos
progressos que na instrução e na vida cristã fazem os alunos dos
estabelecimentos, alguns dos quais ainda recentemente se haviam
distinguido em difíceis provas a que se submeteram na universidade
de Madras.

VIGÉSIMO PRIMEIRO DIA


Oremos pelas almas que Deus chama à vida religiosa. Pai Nosso, Ave
Maria. Glória e a jaculatória: “Coração de Jesus, que tanto nos amais,
fazei que vos amemos cada dia mais”.
O 2º espinho do Coração de Jesus
são as almas indiferentes
Há algumas almas que ouvem falar do amor de Jesus, e veem nisto
apenas uma pia exageração, — que pouco se lhes dá de cometer ou
não pecados, contanto que nisto tenham prazer ou proveito, — que se
riem do cuidado com que as almas piedosas procuram evitar os
pecados veniais, que assistem às orações por complacência, mas
considerando esse tempo, se não mal empregado, perdido. Oh! Quanto
Jesus há de sofrer com esta indiferença!...
Meu Deus, não permitais que eu caia em tal!—Bem leviano e
esquecido sou eu, mas não, não quero ser indiferente no que toca à
vossa glória!
"Hoje farei uma fervorosa visita ao SS. Sacramento, pedindo-lhe pelos
infelizes que resistem a Jesus Cristo".
EXEMPLO
Assim como são uniformes as manifestações do amor e misericórdia
do Coração de Jesus, multiforme é o zelo de seus fervorosos devotos
em corresponder-lhe; fazem-no com a adoração, a expiação e o
desagravo, pondo em obra a piedade infantil, a devoção das várias
classes sociais e o fervor das Comunidades religiosas. Mas, tendo
sempre em vista, com a agonia de Deus, a salvação das almas, os
servos do Coração de Jesus não poderiam deixar de ocupar-se,
particularmente, do transe da morte e dessa hora solene que decide da
conversão dos pecadores e da perseverança dos justos. Pesando os
interesses eternos de mais de cem mil almas que todos os dias
comparecem diante do Tribunal Divino, e desejoso de valer, por algum
modo, aos que sucumbem de morte súbita, e no mar ou em desertos e
países paganizados, sem que se lhes possa ministrar os socorros da
religião, o Pe. Lyonard, em 1847, quando fazia ainda, em Vals, os seus
estudos para o sacerdócio, compôs, em favor dos agonizantes, a
oração— "Ó misericordiosíssimo Jesus" — que, enriquecida de indul-
gências pela Igreja, e traduzida em todas as línguas cultas, é hoje
recitada em todo mundo.
Em 1885, sob o mesmo impulso piedoso, e arcando com dificuldades,
que só por uma visível proteção divina pôde vencer, a viúva Joana
Trapadoux, diretora do Hospício do Calvário em Lião, erigia ai uma
igreja sob a invocação do "Coração agonizante de Jesus".
Depois de levantar um templo ao "Coração agonizante", a piedosa
senhora desejou formar uma congregação de Religiosas para o servir;
o Pe. Lyonard, que havia sido mestre de um filho da Sra. Trapadoux,
veio coadjuvá-la na realização dessa ideia; e o céu a patrocinou; pois
querendo ter por auxiliar a Agostinha Vallete, que então se achava
entrevada, fez-se para esse fim uma novena e, ao terminar, a enferma
subitamente se erguia curada. A congregação fundou-se em 1859,
tendo por sua primeira professora e primeira superiora a Sra.
Trapadoux, que tomou o nome de Maria Madalena do Coração
Agonizante. "O pensamento da perda eterna dos remidos por Jesus
Cristo, e do quanto há de isto doer ao seu coração me impressionou
profundamente, dizia ela. Diante desta ideia, não me parece que possa
recusar coisa alguma a Nosso Senhor, ainda quando não viesse daí
nenhuma recompensa, nem neste mundo nem no outro. Mil vidas
quisera ter para dar, e sinto só ter uma e tão incapaz! E os vinte e um
anos que ainda viveu, consumiu-os todos a exemplar Religiosa num
continuado trabalho e sofrimento como vítima voluntária da expiação
dos pecados do mundo, e pela salvação dos agonizantes de cada dia.
VIGÉSIMO SEGUNDO DIA
Entre os nossos parentes, oremos por aqueles que não cumprem seus
deveres religiosos. Pai Nosso, Ave Maria. Glória e a jaculatória:
“Coração de Jesus, que tanto nos amais, fazei que vos amemos cada
dia mais”.
O 3º espinho do Coração de Jesus são
as almas frouxas e tíbias
Estas almas não são indiferentes, mas o quereriam ser talvez... O amor
de Jesus Cristo lhes é molesto e pesado, e, todavia, já sentiram toda a
doçura deste amor. Ó vós, que por influência duma paixão oculta, dum
amor próprio e de um orvalho sem medida, vos afastais de Jesus, ouvi
esta queixa: "Se fosse um inimigo que me tratasse assim, eu suportaria;
mas uma alma que amo, que admiti à minha mesa!..." Vinde de novo
lançar-vos aos pés de Jesus... Talvez que amanhã já seja tarde... Se ele
já vos não pudesse receber!...
"Rezarei o terço para pedir a Maria Santíssima me alcance o fervor
primitivo".
EXEMPLO
Do relatório anual das obras do Apostolado da Oração, publicado em
novembro de 1884, consta a seguinte narração, feita pela professora
da escola primária de uma aldeia da França: No ano passado, ao partir
eu para o novo posto que me fora designado, informavam-me que me
teria de haver com meninos indóceis e sem nenhuma piedade, filhos
de gente descuidada de seus deveres religiosos e pouco zelosa dos
bons costumes. Parti um tanto impressionada, porém cheia de
confiança em Deus; e, logo ao chegar, pus mãos à obra. Comecei por
uma fervorosa novena ao Coração de Jesus; manifestei-lhe meus
receios e minhas esperanças, e procurei depois ganhar, pouco a pouco,
o coração dos meus novos discípulos. Alistei-os no Apostolado da
Oração, instando a recitarem todos os dias, ao despertar, a pequena
fórmula: "Divino Coração de Jesus, eu vos ofereço o meu dia, pelo
Coração Imaculado de Maria, em todas as vossas intenções". No
começo da aula, recitávamos em comum a dezena do Terço. Até aí
tudo ia bem e os meninos se mostravam muito dóceis. Por fim, um dia
lhes disse: "Meus amiguinhos, não é bastante o recitar todas as manhãs
a vossa curta oração e a dezena da Terço; é preciso comungar todas as
primeiras sextas-feiras do mês em honra ao Sagrado Coração. Assim
é que estareis completamente no Apostolado da Oração". A tal
proposta, houve espanto e desassossego entre os pequenos; não tinham
o costume de comungar tantas vezes: desde a Páscoa (sete meses
passados), não se tinham confessado! Todavia, passada a surpresa,
consentiram e, em dezembro, inaugurávamos as nossas "Comunhões
mensais". Entre os alunos, um, de 10 a 11 anos, resistia a princípio, e
dizia: "Eu não quero me confessar hoje, eu não tenho pecados". "Pois
bem, lhe respondia eu, rindo; confessarás as tuas virtudes, vem sempre
conosco à Igreja". Na volta, ele dizia aos companheiros: "Era o
demônio que me fazia gritar que não tinha pecados; estou bem
contente de minha confissão". A dificuldade estava assim vencida, e
no mês seguinte os alunos, por si próprios, apresentavam-se para. a
Comunhão. Em fevereiro caíra a neve e fazia muito frio; quis dispensá-
los, porque a igreja ficava a 5 quilômetros, mas acudiam todos: “Não
cai mais neve, e a gente que tem passado já abriu o caminho; nós
queremos comungar hoje em honra do Sagrado Coração”. Um deles
percorreu a pé, em jejum, 10 quilômetros, e, de volta a casa, ainda não
quis comer imediatamente, dizendo: "Eu quero ter ainda por algum
tempo só a Jesus em meu coração". Outro que teve de deixar a escola
e de empregar.se para ganhar, não podendo fazer a Comunhão na 1ª
sexta-feira, veio muito pesaroso dizer-mo, e, propondo-lhe eu que a
fizesse, ele só, no 1º domingo do mês, aceitou-o com alegria, e tem
perseverado. Com isto, os meninos, que à minha chegada eram
revessos e turbulentos, se tornaram, pouco a pouco, obedientes e
piedosos; e os pais experimentaram também a boa influência da
mudança, melhorando os costumes em toda a aldeia, sobretudo no
tocante à religião. Enfim, eu mesma que viera cheia de apreensões,
hoje estou contente, e rendo graças ao Sacratíssimo Coração de Jesus.

VIGÉSIMO TERCEIRO DIA


Oremos para que se propague a devoção ao Sagrado Coração de Jesus.
Pai Nosso, Ave Maria. Glória e a jaculatória: “Coração de Jesus, que
tanto nos amais, fazei que vos amemos cada dia mais”.
O 4º espinho do Coração de Jesus são as almas que profanam os
sacramentos
Estas almas chamam-se "sacrílegas"; ora, sabeis o que fazem os
sacrílegos? Unem-se ao demônio para o auxiliar no mais horrível
crime: a profanação do Corpo e Sangue de Jesus Cristo.
Convertem a alma numa sentina repleta de vergonhosos vícios e,
depois, conhecendo bem o que fazem, lançam aí o Corpo de Jesus
Cristo e esperam pelo agradecimento do demônio ufano deste crime
que ele por si não podia cometer. Meu Deus! Meu Deus! Deixai que
eu vos peça perdão por todos estes cruéis pecadores.
"Hoje farei um ato de reparação ao Sagrado Coração de Jesus".
EXEMPLO
Chamado a missionar numa aldeia de Pondichery, escreve o Pe.
Fourcade, eu comecei por consagrar aquelas regiões ao Coração de
Jesus e em sua honra disse uma novena de Missas. Tínhamos ali só
uma Capelinha e 8 a 9 famílias cristãs. Precisávamos de um terreno e,
perto da capela, havia um, em que estava o pagode chinês, e que
pertencia a Balekichnen, chefe da aldeia. Convindo-nos possuí-lo para
nos livrarmos da má vizinhança, e precisando o proprietário vendê-lo
para pagar dívidas, contratamos a compra, sob a condição de ser
demolido antes o templo chinês. Os pagãos se enfureceram com a
notícia e procuraram por todas as formas tolher-nos a aquisição. O
proprietário, porém, atormentado pelo credor, vinha a miúdo, pedir o
dinheiro, respondendo-lhe nós, invariavelmente: "Derrubai o pagode,
e o tereis". Conservando-se as coisas neste pé, longo tempo, recorri ao
Sagrado Coração, a quem consagrara a aldeia, e prometi erigir-lhe um
templo no próprio local do pagode, se a resistência cessasse. Poucos
dias depois, Balekichnen veio comunicar-nos que estava a demolir o
pagode, e por nossos próprios olhos o verificamos, rendendo graças ao
céu. Dentro de poucos anos, tinha eu batizado ali cerca de sete mil
pagãos.

VIGÉSIMO QUARTO DIA


Oremos por todos os nossos parentes e amigos para que Deus lhes
recompense a sua dedicação para nós. Pai Nosso, Ave Maria. Glória e
a jaculatória: “Coração de Jesus, que tanto nos amais, fazei que vos
amemos cada dia mais”.
O 5º espinho do Coração de Jesus são os que corrompem a infância
Eis uma outra espécie de sacrilégio não menos doloroso ao Coração
de Jesus, talvez ainda mais doloroso que a profanação do seu corpo...
Queridas almas das criancinhas que tanto ama Jesus, almas inocentes
e puras, será possível que haja seres tão perversos que vos ensinem o
mal e vos levem a praticá-lo? Ah! que tesouro de cólera se amontoa
contra eles lá no céu! Todo o pecado pode, sem dúvida, obter o seu
perdão, mas para obter o perdão de haver ensinado o mal a uma alma
inocente, sobretudo se esta pobre criança morreu com esse pecado, que
penitências, que expiações, que tormentos não serão necessários!...
"Hoje hei de orar muito pelas almas inocentes".
EXEMPLO
Em Homs, na Síria, durante as chuvas do inverno que em 1890
causaram muitos desmoronamentos, um menino de uma família
cismática havia colocado "uma imagem do Sagrado Coração no
compartimento da casa em que, segundo o costume geral, a família
dormia. Uma. noite, o pai vendo que o madeirame aí, pela sua vetustez,
ameaçava desabar sob a violência da chuva, disse à família: "Devemos
passar para o cômodo vizinho, porque pode acontecer alguma
desgraça esta noite; o teto aqui ameaça ruína e o de lá está mais
sólido". Concordaram todos, à exceção do menino, que exclamou:
"Que temeis então? Não temos nós aqui a imagem do Sagrado
Coração, que nos protege? Por mim não tenho medo; eu fico". A fa-
mília toda, impressionada com as palavras do menino, resolveu não
sair ainda essa noite do seu pouso, entregando-se à guarda do Sagrado
Coração; e em boa hora o fez. Antes de amanhecer, uma parte da casa
abateu; mas foi aquela que parecia mais sólida e em que tinham
pensado abrigar-se. O aposento em que estava a imagem do Sagrado
Coração, nada sofreu.

VIGÉSIMO QUINTO DIA


Oremos para que o Coração de Jesus nos inspire gosto pela Comunhão
frequente. Pai Nosso, Ave Maria. Glória e a jaculatória: “Coração de
Jesus, que tanto nos amais, fazei que vos amemos cada dia mais”.
O 6º espinho do Coração de Jesus são as almas que se afastam
voluntariamente da Sagrada Comunhão
Afastar-se voluntariamente da Sagrada Comunhão, quando ela nos é
permitida, é dizer a Jesus Cristo: “Não quero estar convosco”. Não se
pôr em estado de comungar frequentemente, ao menos todos os oito
dias, é dizer a Jesus Cristo: “Não me quero incomodar”. É, com efeito,
para não se incomodarem que estas pessoas não comungam todos os
oito dias. Certamente não vos pertence regular as vossas Comunhões,
mas pertence-vos o preparar-vos para elas; cortai pelos sentimentos de
vaidade, pelas amizades excessivas, pelas maledicências, pelas perdas
de tempo... vereis como se vos despertará o gosto pela sagrada
Comunhão e como voluntariamente o vosso confessor vo-la permitirá.
"Vou, desde já, preparar-me para comungar no próximo domingo”.
EXEMPLO
Uma zeladora do Apostolado comunicou ao "Mensageiro do Coração
de Jesus" o seguinte, ocorrido em 1883:
"Uma de minhas antigas discípulas adoeceu gravemente e, a despeito
das reiteradas preces e promessas piorava e chegou a perigo extremo.
Ao visitá-la nestas circunstâncias me disse: "A Santíssima Virgem não
me quer curar". — Não desanimeis, respondi, ela quer porventura que
invoqueis o seu Divino Filho; recorri ao Sagrado Coração,
prometendo-lhe três coisas: — 1º consagrar-lhe-eis toda a vossa casa;
— 2º colocareis sua imagem ali em lugar de honra; — 3º quando
estiverdes curada, fareis nove Comunhões sucessivas de 1ª sexta-feira
do mês. Desde hoje começaremos uma novena ao Sagrado Coração;
uni vossas orações às nossas, e do fundo d'alma dizei a Jesus: "Jesus,
outrora vós curáveis na Judeia todos os enfermos que a vós recorriam;
curai-me para glória do vosso Divino Coração". Ela prometeu tudo.
Pela minha parte, eu comecei a orar com fervor, e fiz a oferenda de um
sacrifício pessoal. A noite foi medonha para a pobre enferma: crises
repetidas e delíquios assustadores. Todavia, na manhã seguinte pôde
comungar; mas o dia foi todo de extremas dores. Eu a animei a confiar,
mesmo quando se sentisse agonizante; e redobrei de instâncias e de
súplicas ao Coração de Jesus. Qual não foi a minha alegria, quando,
no dia seguinte, 16 de agosto, li este bilhete: "A moribunda renasce; a
noite foi muito calma; seu estômago, que se recusava absolutamente a
qualquer bebida, suporta-a sem fadiga. A enferma sente-se voltar à
vida". Em menos de oito dias, e antes do fim da novena, achava-se ela
já em plena convalescença, e antes mesmo de haver decorrido um mês
tornava de novo às ocupações de antes e se dispunha a cumprir suas
promessas. Dois magníficos quadros ornam hoje o salão de sua
morada: um representa o Divino Coração de Jesus, e outro, o
Imaculado Coração de Maria, e todos os meses ela renova a esses
Corações a consagração de sua pessoa e da família inteira .Quanto à
novena de Comunhões mensais de 1ª sexta-feira, ela começou-a, mas
um dia viu-se forçada a interrompê-la. — "Que fareis?" lhe perguntei
eu. Respondeu.me: “Vou recomeçar e, se ainda for obrigada a
interrompê-la recomeçarei sempre até cumprir a promessa. Os
negócios de minha casa de comércio me embaraçam muito nesse dia,
mas, custe o que custar, cumprirei o que prometi. Nisso tenho até
muito prazer; não compreendo mais, presentemente, como podia
passar meses sem me aproximar da Santa Mesa. A Comunhão mensal
é uma necessidade para a minha alma”.

VIGÉSIMO SEXTO DIA


Oremos por aqueles a quem Deus confiou o cuidado da nossa alma.
Pai Nosso, Ave Maria. Glória e a jaculatória: “Coração de Jesus, que
tanto nos amais, fazei que vos amemos cada dia mais”.
Entre os consoladores do Coração de Jesus acham-se primeiramente
os zelosos Ministros de Deus e os santos Religiosos e Religiosas
É o exército visível de Jesus, são os seus Anjos sobre a terra.
O fim deles é a glória de Deus — a honra e glória de Maria, — a
salvação das almas, — o triunfo da Igreja, — numa palavra, todos os
interesses de Jesus Cristo. — Cada manhã, recebem as ordens do seu
Deus e Senhor; cada noite dão conta do seu dia... Oh! Pedi a Jesus que
este exército se aumente cada vez mais; oferecei-vos, algumas vezes,
para que, também vós, sejais alistados no serviço de tão bom Senhor.
— Oh! Se soubésseis como ali se está bem! Como se vive feliz! Como
se morre cheio de confiança!
"Ora hoje pelos Padres e Religiosos; e lê alguma cousa sobre a
vocação".
EXEMPLO
No ano de 1884, um seminarista de uma diocese da Áustria dirigia-se
ao órgão da Liga do Apostolado, para fazer pública a sua ação de
graças por três mercês alcançadas do Sagrado Coração:
1ª — No meio de seus estudos teológicos foi atingido pela lei militar
e logo considerado válido para o serviço ativo. Com essa perspectiva
de três anos de vida de quartel, recorre ao Coração de Jesus, e confia-
lhe sua pessoa e sua vocação. Alguns meses mais tarde, realiza-se a
segunda inspeção, cuja sentença é definitiva. Qual não foi então a sua
alegria, ao ouvir essa decisão: Inapto para o serviço militar!
2ª — Uma demasiada aplicação aos estudos lhe abalou a saúde, ao
ponto de que o médico lhe mandou interrompê-los, durante alguns
anos talvez. Cheio de confiança na promessa do Divino Mestre,
invocou o seu Coração compassivo e, contra as previsões humanas,
recobra em pouco tempo todas as suas forças.
3ª — Uma terceira provação lhe sobrevém: sua família empobrece e
não pode mais pagar a sua pensão; ele pede aos superiores um
abatimento, ou, ao menos uma espera, que a princípio não lhe é
concedida. Não desanima, e redobra de orações, invocando o Sagrado
Coração com inteiro abandono à sua providência paternal. Sua
confiança perseverante não é frustrada: algum tempo depois, sem nova
diligência de sua parte, lhe anunciam que terá de pagar só uma
pequena parte da pensão.
Não sabendo exprimir quanto se sente agradecido, o jovem espera o
momento em que, revestido do sacerdócio, o possa mostrar,
dedicando-se a servir e glorificar o Santíssimo Coração de Jesus.

VIGÉSIMO SÉTIMO DIA


Oremos pelos enfermos desamparados. Pai Nosso, Ave Maria. Glória
e a jaculatória: “Coração de Jesus, que tanto nos amais, fazei que vos
amemos cada dia mais”.
Os segundos consoladores do Coração de Jesus são as almas que
sofrem pacientemente
Oh! Como uma alma paciente em seus sofrimentos físicos ou morais
consola o Coração de Jesus!
"Ela sofre", mas bem sabe que o seu sofrimento vem de Deus... e
submete-se com amor, resigna-se com a maior confiança! "Sofre" e
por isso compreende mais vivamente as dores de Jesus, — e oferece
as suas em compensação e consola seu Divino Mestre com maior
sinceridade. "Sofre"; condoer-se-á, pois, com mais comiseração do seu
próximo; nunca se é tão compassivo como depois de se haver sofrido
com paciência! Quanta virtude nessas almas!
"Não me lastimarei quando Deus me enviar algum sofrimento".
EXEMPLO
Mons. Ségur, um dos mais ilustres e valorosos apóstolos da Igreja de
França, foi também um fervorosíssimo devoto do Sagrado Coração.
Nas muitas obras católicas que fundou e dirigiu, em suas pregações
que eram incessantes, nos 70 opúsculos e livros que publicou sobre
assuntos variadíssimos, a devoção ao Coração de Jesus ocupou sempre
o seu pensamento e a sua palavra, e dela fez ardente propaganda o
novo sacerdote. Salienta-o, porém, e glorifica sobretudo um traço
característico dos perfeitos devotos do Sagrado Coração: o amor às
cruzes da vida, a resignação ao sofrimento. Em sua primeira Missa, à
hora da elevação, Gastão de Ségur pediu a Maria Santíssima que lhe
concedesse uma enfermidade, cruciante, mas que lhe não tolhesse o
exercício do ministério: queria ter um lugar ao pé da cruz do Divino
Mestre. Quando perdeu um dos olhos, exclamou: "A Santa Virgem
mandou-o para o Purgatório, para lá fazer as minhas vezes". Aos 34
anos de idade, cegando de todo, disse a um amigo: "Pedi ao Senhor
que eu carregue dignamente sua santa cruz. Já não correrei mais.
Ganham com isto os grandes pecadores, que terão menos acanhamento
em confessar-se a quem lhes não vê um traço." Foi instado a tentar a
cura, que Nélaton lhe prometia, e sujeitou-se à baldada operação,
fazendo o sinal da cruz e dizendo calmo: "Como Deus quiser".
Aconselharam-lhe que recorresse às orações de pessoas santas, e à
virtude de imagens milagrosas: obedeceu muito dócil e buscou o
venerando cura d'Ars, e M. Depont, o devoto da "Santa Face". O santo
homem de Tours dizia a Mons. Ségur: Não é fácil obter de Deus uma
graça corporal, quando não se pede na forma do postulante do
Evangelho: "Domine, fac ut videam— Senhor, fazei que veja". O
piedoso sacerdote, porém, não pôde conformar-se a dizer outra coisa,
senão a palavra do Padre Nosso: "Faça.se a vossa vontade". Falhando
também todos os pios recursos, Mons. Ségur aceitou por toda a vida a
cegueira, bendizendo-a. Todavia, o Sagrado Coração, conservando-o
preso à cruz, dava-lhe a virtude de comunicar a outros sua edificante
resignação: o Jovem cego Afonso Landais, de irritadiço, turbulento e
mau, se tornava, com as suas exortações, um exemplo de paciência e
bondade Mons. Ségur foi mesmo favorecido com a graça de curar a
um cego, e assim aconteceu no ano de 1869, com um menino Felix
Garé, em Lorient: sul tia o levou à presença de Mons. Ségur para que
o abençoasse, confiando em que isto o curaria. Monsenhor pôs-se
quase de joelhos para se aproximar dele, abraçou-o carinhoso e o
abençoou com um grande sinal da cruz. Na manhã seguinte, quando a
tia de Felix entrou no quarto deste, para levar, lhe o seu chocolate, e
lho quis dar por suas mãos, ele c desviou, docemente, dizendo: "Que
faz, minha tia? eu a vejo bem, meus olhos estão curados! E, em vez de
que a cegueira de Mons. Ségur lhe encurtasse em nada o exercício de
seu santo ministério, este se manifestava, até o fim, tão ativo, contínuo
e prodigioso, que a maioria dos operários da vinha do Senhor
poderiam, sem nenhum desdouro, dizer dele com o santo cura d'Ars:
Eis um cego que vê mais claro que nós.

VIGÉSIMO OITAVO DIA


Oremos pelas pessoas que o mundo despreza, a fim de que elas
suportem com paciência os seus dissabores. Pai Nosso, Ave Maria.
Glória e a jaculatória: “Coração de Jesus, que tanto nos amais, fazei
que vos amemos cada dia mais”.
Os consoladores do Coração de Jesus que estão em 3º lugar são as
almas humildes e desconhecidas, que se julgam felizes com este
esquecimento
São estas almas as que, com maior perfeição, imitam a vida oculta em
Nazaré sob o olhar de Maria; almas que ninguém conhece, em que
pessoa alguma pensa e que vão acumulando todos os dias tesouros de
paciência, de abnegação, de resignação, de caridade, suportando os
defeitos dos outros, muitas vezes o desdém, dedicando-se por todos...
e que, no fim de cada dia, sem mesmo terem consciência do seu mérito,
oferecem a Deus um coração imolado e puro, que consola o Coração
de Jesus...
"Aplicar-me-ei, hoje, em falar pouco e em praticar ocultamente
algumas ações boas".
EXEMPLO
O "Estandarte", jornal canadense de Montreal, em 1981 publicava: "O
comandante da "Naiade", o Sr. Almiranet de Cuverville, passou
muitos dias em Montreal, onde deixou a mais favorável impressão
entre todos os que tiveram a honra de o conhecer. Católico fervoroso,
ele fez empenho em visitar os nossos estabelecimentos religiosos e,
em várias casas, dirigiu a palavra à comunidade. Terça-feira o Sr.
Arcebispo o conduzia ao Grande Seminário para lhe apresentar seu
clero, que se achava em retiro: a recepção fez-se no salão do colégio,
e o ilustre marinheiro pronunciou um discurso vibrante de patriotismo
e amor à Igreja. A pedido do Prelado, o Snr. Almirante referiu a
história da pacificação do Pe. Dorgére; depois, terminou dizendo:
"Quero fazer-vos uma confidência: A devoção que me é cara sobre
todas é a devoção do Sagrado Coração de Jesus; devo-lhe todos os
triunfos de minha carreira. Uma imagem do Sagrado Coração está
fixada na proa da "Naiade". Outra está em meu camarote,
constantemente sob as minhas vistas. Toda sexta-feira, o capelão diz a
Missa em minha câmara. Eu tenho um jornal fiel de tudo o que me
sucede, e já verifiquei que muitos acontecimentos, dos mais felizes, se
deram na sexta-feira, dia do Sagrado Coração. Esse jornal eu envio
regularmente a Montmartre, e foi também neste santuário do Sagrado
Coração que fiz depositar, como "ex-voto', a riquíssima alabarda que
foi levada em triunfo através do Dahomey em sinal do
restabelecimento da paz e da proteção concedida pela França".

VIGÉSIMO NONO DIA


Oremos pelas almas inocentes a fim de que se conservem puras. Pai
Nosso, Ave Maria. Glória e a jaculatória: “Coração de Jesus, que tanto
nos amais, fazei que vos amemos cada dia mais”.
Os consoladores do Coração de Jesus que estão em 4º lugar são as
crianças devotas e inocentes
As crianças são um objeto especial de amor de Jesus; como outrora,
quando vivia cá na terra, ele se compraz em vê-las junto de si... e por
que isto? A criança mal sabe orar: depressa se enfastia de repetir as
mesmas palavras, e quando tem dito o "Pai Nosso" e a "Ave Maria",
não vai além.
Mas alguma coisa há na criança que “ora” por ela, que “ama” por ela,
que “atrai” sempre o benévolo olhar de Jesus: é a sua "inocência". A
criança diante de Jesus é um vaso de flores, que não tem consciência
de seu perfume, mas que o exala, embalsamando tudo em redor... Oh!
Como Deus ama o coração que sabe conservar-se inocente!
"Hoje imitarei a docilidade das crianças e dobrarei de afeto e bondade
com as pessoas de minha convivência".
EXEMPLO
O "Comitê" das obras da Basílica de, Montmartre, no meado do ano
de 1880, recebera de Samoa, no arquipélago dos Navegadores, com
um importante donativo, uma carta que terminava assim: "Não nos é
lícito comparar à vossa grande obra o que fazemos aqui em Samoa,
país pobre; entretanto, nós também construímos uma igreja que tem o
nome do Sagrado Coração. Temos isso de bom a vos dizer de Samoa:
toda ela está agregada ao Apostolado da Oração, muitos são admitidos
à Comunhão reparadora "mensal". Trazia a assinatura do Mataafa, rei
de Upolu: era uma valiosa conquista que o Sagrado Coração havia
feito nas regiões da Oceania. Colocado entre a pregação dos ministros
protestantes e a dos sacerdotes católicos, a princípio vacilara, e dizia
pesaroso: "Vós, europeus, estais nas fontes da verdade, devereis ser
zelosos de conservá-la pura e ardentes em propagá-la; mas vindes a
nós, semelhantes a colunas de nuvem do deserto, ora dando a luz ora
fazendo escuridão; isto nos confunde". Inteligente, porém. sincero e
refletido, comparou bem as duas doutrinas, e um dia, tomando as
vestes das ocasiões solenes, e empunhando o bastão hereditário,
declarou : "Chefes do séquito de Mataafa, e vós membros de sua
família e seus guerreiros, desde algum tempo eu abri minha alma ao
sacerdote; é chegado o momento de manifestar-me diante de todos:
Mataafa quer ser, e em breve será católico". E convertido, ei-lo já feito
um campeão católico, e a rebater os ataques dos protestantes contra o
culto das imagens, dizendo-lhes na interessante linguagem dos cultos
de seu país: "As imagens estão por toda a parte. Os nossos coqueiros
balançam nas ondas a imagem dos seus grandes leques; o sol passeia,
na flutuante superfície dos mares, a imagem de sua coroa de fogo. A
natureza inteira não é a imagem do grande actua (Espírito) que a criou?
Os livros são a imagem da palavra, que é a imagem do pensamento. A
Bíblia, que vós colocais acima de tudo, o que é senão a imagem da
palavra, do pensamento de Deus? Deixai, pois, de censurar aos
católicos que nos dão, com as imagens, o meio de conceber os
mistérios de sua fé".
A vida de Mataafa e a de seus filhos atesta um escritor que historiou a
propagação do Evangelho em Samoa, é a de verdadeiros chefes
cristãos, servido a Deus sem fraqueza e sem respeito humano.
Mataafa, declarou numa ocasião solene o Cardeal Moran, arcebispo de
Sidney, traz a cruz sobre a sua pele bronzeada, e tem sob a cruz o
coração de um guerreiro; ele deu provas disso, repelindo no campo de
batalha, com heroísmo cristão, os invasores de seu país. Por ocasião
da consagração das famílias, que se efetuou solenemente em todo o
vicariato apostólico dos Navegadores, Mataafa, que acabara de vencer
o rei vizinho Matosse, fez uma longa estação na igreja em que se
realizava a cerimônia, e aí efetuou a consagração de sua "pessoa", de
sua "família", e de seu "governo". Ao retirar-se, pediu que se
celebrassem três Missas ao Sagrado Coração pela paz de Samoa.

TRIGÉSIMO DIA
Oremos na intenção de saber agradecer a Deus as graças que nos há
concedido. Pai Nosso, Ave Maria. Glória e a jaculatória: “Coração de
Jesus, que tanto nos amais, fazei que vos amemos cada dia mais”.
Os consoladores do Sagrado Coração de Jesus somos nós que viemos,
durante este mês, meditar nos seus terníssimos afetos e estudar os seus
desejos
Todos estes dias foi Jesus consolado, vendo que fomos constantes, que
todas as manhãs o procurávamos fervorosos; mas, ainda quer de nós
alguma coisa. O mês consagrado ao seu Coração termina hoje; quantas
almas devotas porão de parte as suas práticas, as suas costumadas
orações e esquecerão a consolação que experimentam!... Jesus pede
que não nos esqueçamos do seu Sagrado Coração, e quer que esta
manhã lho prometamos.
“Farei um ato de consagração ao Coração de Jesus”.
EXEMPLO
Lê-se no livro — O Sagrado Coração de Jesus, — do Pe. Júlio
Chevalier, editado em 1886: "Miguel dos Santos, Religioso Trinitário,
desde a sua infância, dera-se tão perfeitamente a Deus, que este era
tudo para ele, e ele era todo de seu muito Amado. Mas, como o amor
nunca diz "basta" — parecia-lhe que ele não amava bem a seu Deus, e
todos os seus desejos eram amá-lo cada vez mais. Um dia, fazendo
oração nesta habitual disposição de espírito pouco satisfeito da medida
do seu amor a Deus, pediu a Nosso Senhor Jesus Cristo que lhe
mudasse o coração e lhe desse outro "mais tenro e mais sensível" aos
atrativos do amor divino. Esta súplica amorosa foi tão agradável a
Nosso Senhor, tão favoravelmente acolhida e generosamente despa-
chada, que nem imaginar poderia o suplicante o sinal de amizade que
seu divino Senhor lhe ia dar. Jesus tirou o "coração" do seu querido
Miguel, e no lugar desse "coração" que tomou e escondeu no peito,
pôs o seu próprio Coração, deixando esse fiel servo tão feliz, tão rico"
pela incomparável troca, e tão abrasado de amor, que impossível é
descrever. Este favor admirável, Miguel mesmo o comunicou a seu
confessor, o sábio e virtuoso Fr. Francisco da Madre de Deus, que o
atestou sob juramento; e Deus o fez conhecer ainda por outro modo.
Mas dir-se-á: como viver quando o coração é tirado ou substituído?
Impossível. —Responderemos: Na ordem contingente, nada há de
necessário. Deus poderia bem ter organizado o homem sem lhe fazer
um coração. Porque lhe não poderia manter a vida, depois de lhe ter
retirado uma víscera principal? Seria isso evidentemente uma
derrogação às leis atuais e ordinárias de nosso organismo, porém essa
derrogação não constitui uma impossibilidade absoluta, ela tem um
nome na Igreja católica: chama-se um milagre. Deus que tirou do nada
sua criatura para lhe dar o ser e a sua primeira forma, bem pode refazê-
la ou modificá-la a seu agrado. Quem ousaria pôr limites ao seu poder?
Surge, porém, dificuldade mais séria: como explicar que o Coração do
Salvador possa, sem cessar de lhe pertencer, tornar-se o coração de
outro, e até de muitos a um tempo? Aí o mistério. Uns explicam-no,
dizendo que Jesus Cristo nestas circunstâncias dá seu Coração do
mesmo modo que dá seu Corpo na Santa Comunhão, e que então se
faz uma comunicação especial, semelhante a que se faz na Sagrada
Eucaristia. Outros interpretam assim: "Jesus Cristo faz à feliz criatura
que ele assim despoja e enriquece, um duplo dom: à sua alma, o de
disposições e sentimentos que refletem as afeições intimas de sua alma
divina; e ao corpo, o de um coração em harmonia com o estado
anterior, como se seu Coração Sagrado se harmonizasse com os
impulsos de sua alma". O Papa Benedito XV adotou essa explicação
quando proclamou venerável Miguel dos Santos: “A troca do Coração
de Jesus pelo do seu servo fiel, disse ele, foi mística e espiritual”.
CONSAGRAÇÃO AO CORAÇÃO DE JESUS
Sim, Jesus, eu vos prometo recitar, todos os dias, uma oração ao vosso
Sagrado Coração; prometo-vos venerar as piedosas imagens que o
representarem à minha devoção; prometo-vos espalhar o
conhecimento desta devoção e propagá-la.
Sede a minha fortaleza, a minha alegria, a minha felicidade!
"Farei um ato de consagração ao Coração de Jesus".
Ao Coração adorável de Jesus dou e consagro o meu corpo e a minha
alma, a minha vida, os meus pensamentos, palavras, ações, dores e
sofrimentos. Não me tornarei a servir de parte alguma do meu ser, que
não seja para o amar, honrar e glorificar.
Tomo-vos, pois, ó divino Coração, por objeto do meu amor, protetor
da minha vida, âncora da minha salvação, remédio das minhas
inconstâncias, reparador dos meus defeitos, e seguro asilo na hora da
morte.
Ó Coração cheio de bondade, sede a minha justificação para com
Deus, e apartai de mim a sua justa cólera.
Ponho em vós toda a minha confiança, porquanto receio tudo de minha
fraqueza, como tudo espero de vossa bondade. Aniquilai em mim tudo
o que vos possa desagradar e resistir; imprimi-vos em meu coração,
como um selo sagrado, para que jamais me possa esquecer de vós, e
de vós ser separado. Isto vos peço por vossa infinita bondade: que o
meu nome se inscreva em vós, que sois o livro da vida, e que façais de
mim uma vítima consagrada inteiramente à vossa glória; que desde
este momento seja eu abrasado e um dia inteiramente consumido pelas
chamas do vosso amor; nisto consiste a minha dita, não tendo outra
ambição senão a de morrer em vós e por vós.
Assim seja.
DIA 1
O amor ao Sagrado Coração, pode dizer-se, nasceu com a Igreja, e
quem primeiro o praticou e ensinou, entre os homens, foi S. João
Evangelista. Por isso, com razão chamou-o Sta. Gertrudes "o porteiro
do Coração de Jesus". Na verdade, para lhe assegurar esse título, basta
o seguinte: na última Ceia pascal, era ele quem reclinava a cabeça no
seio do Divino Mestre, e das mãos deste veio às suas antes de passar
às dos outros, o cálice eucarístico; a ele coube no Gólgota receber o
legado inefável que o Salvador fez de sua divina Mãe, que foi como
que o do próprio Coração; e, na hora em que, morto Jesus, o soldado
Longuinho rasgou-lhe com a lança o Lado Sacratíssimo fazendo correr
dela a água e o sangue que representavam os mananciais dos
sacramentos da Igreja, foi ainda o discípulo predileto quem o
presenciou para atestá-lo. De sua pena inspirada saiu o mais profundo
e sublime dos Evangelhos, esse em que a um tempo se entrevê a Jesus
em suas grandezas inescrutáveis do Verbo Eterno e se o acompanha
nas mais íntimas e mais admiráveis manifestações de Deus
Humanado: e além desse Evangelho, que S. Jerônimo disse proceder
da união do coração do homem com o Coração de Deus, e no qual é
historiado o amoroso advento do Salvador, traçou também S. João o
livro das visões de Patmos que anuncia a vinda final e triunfante do
Juiz dos vivos e dos mortos a coroar de eterna glória aqueles que o
seguiram. Poderia o Mestre Divino distinguir e favorecer melhor o
Apóstolo amado? E o influxo de tão preciosas bênçãos se fez sentir
poderoso. A perseguição dos Césares ao nome cristão atingiu o santo
Apóstolo, mergulhando-o numa caldeira de óleo a ferver; e ele saiu
ileso, e como que refrigerado e fortalecido, confessando intrépido a fé
que professava. As chamas de zelo e de bondade que transbordavam
do Coração do Mestre comunicaram-se ao coração do Discípulo, e
foram nele um contínuo e fervoroso cuidar da salvação das almas, que
até a cruéis chefes de bandidos, com instruções, súplicas e lágrimas,
convertia em mansas ovelhas de Jesus; e, chegando à avançada idade
em que para ir ao templo o carregavam nos braços, quando já não tinha
forças para proferir discursos, contentava-se de clamar, repetidas
vezes, em ardentes transportes de caridade : "Filhinhos, amai-vos uns
aos outros".
DIA 2
S. Francisco de Assis, o cavaleiro elegante que mesmo nos folguedos
de sua mocidade nunca se maculou e teve sempre sua bolsa desatada
para o socorro dos pobres, depois que de todo se converteu, não foi
simplesmente, como ele anunciava aos bandidos que o assaltaram na
estrada, "o arauto do Grande Rei", nem tão somente o amoroso
trovador que convidava toda a natureza a acompanhá-lo em seus hinos
ao Criador; ele foi uma cópia viva do Coração de Jesus. "Num dia de
São Francisco refere Sta. Margarida Maria — Nosso Senhor me fez
ver este grande Santo revestido de uma luz e esplendor
incompreensíveis, elevado a um grau eminente de glória acima dos
outros Santos, por causa da conformidade que teve com a vida de
sofrimento do Nosso Divino Salvador e o amor que dedicara à sua
santa Paixão, pelo qual se levará a imprimir nele suas santas chagas:
isso o fizera um dos maiores favoritos do Sagrado Coração, que lhe
deu grande poder para alcançar a aplicação eficaz do seu precioso
Sangue, constituindo-o como que um distribuidor desse tesouro para
apaziguar a divina justiça... Ele é como que uma imagem sua, unida à
de seu Filho crucificado... Em seu favor, o rigor da justiça abranda e
cede lugar a clemência da misericórdia, particularmente em socorro
dos Religiosos que declinaram da sua regularidade. Depois de me ter
feito ver estas coisas, o Divino Esposo de minha alma deu-mo por
condutor, para me guiar nas penas de sofrimentos que me
sobrevieram". Eis porque o Seráfico Patriarca é tão glorificado: por
seus traços de semelhança com o Salvador. Fr. Bartolomeu de Pisa
escreveu um precioso livro sobre as "Conformidades da vida do bem-
aventurado Francisco com a de Jesus Cristo". Os escritores ascéticos,
todos eles as têm assinalado, e muitas delas são notórias e como que
palpáveis. Jesus nasceu à meia-noite sobre as palhas de um estábulo,
e Francisco também veio ao mundo num estábulo onde sua mãe,
prolongando-se-lhe as dores do parto, recolheu-se a conselho de
misterioso peregrino para dar a luz. Jesus renuncia ao lar para sair à
pregação, podendo dizer nesses dias que não tem onde recline a
cabeça: Francisco abraça, pelo Evangelho, a mais austera pobreza e a
vai pregar, descalço, de grosseira túnica e rude cordão à cinta,
esmolando o sustento. Como Jesus, ele cerca-se de doze discípulos,
dos quais um o trai e se enforca. Como Jesus. Francisco passa quarenta
dias num ermo sem se alimentar e ambos pregam de uma barca que de
si própria se afasta da costa e fica imóvel. Uma vez, falando sobre sua
Paixão, como Pedro soltasse exclamação a conjurá-la, o Cristo
repreendeu-o severo como a um tentador; também Francisco, um dia,
torturado de dores, porque um de seus irmãos estranhasse não lhe
diminuir Deus o sofrimento, ele atirou-se do leito ao chão para que
mais doesse o corpo e advertiu o companheiro que não fosse blasfemo.
A semelhança entre os dois foi tal, que até a incrédulos e ímpios, como
Renan, impressionou e se fez sentir e notar; porém o que mais os
assemelhou e uniu foi a visão inefável do Alverne, em que as chagas
de Cristo, os cravos que lhe transpassaram a Carne sacratíssima e o
golpe da lança que lhe abriu o Lado, como que passaram realmente
para o corpo do santo Patriarca, e ele se transfigurou num crucifixo
vivo e ambulante, vivendo já, por assim dizer, e padecendo em
Francisco o próprio Cristo, segundo a frase de S. Paulo.

DIA 3
"Vim trazer fogo à terra, e que hei de querer senão que lavre?" Estas
palavras, que se leem no Evangelho, significam o fim para que o Filho
de Deus se encarnou e o desejo que arde em seu Coração de que o fogo
do amor divino e do zelo da salvação das almas inflame todo o mundo.
Assim também as entendeu, tomando-se por luz e norma de sua vida
Santa Teresa de Jesus, a quem, pela beleza e sublimidade de seus es-
critos, na Igreja e no século se chama "a Doutora da vida mística".
Numa revelação deste sentir e da sua futura vocação. Teresa de Ávila,
aos sete anos de idade, acompanhada de um irmão de onze anos, saiu
furtivamente de casa, e a passos apressados caminhou para fora da
cidade; na estrada encontraram um tio que, surpreendido de vê-los
sozinhos tão longe de sua morada, perguntou-lhes aonde iam, e a
menina respondeu com toda a candura que iam para a África, a pregar
aos mouros o Evangelho.
Reconduzidos chorosos ao lar, pensaram os dois em se fazerem
monges e construir uma ermida no mais retirado canto de seu jardim,
para o que foram conduzindo e assentando pedras, que, por um
instante em equilíbrio, logo vinham abaixo, com grande pesar dos
pequenos operários que desanimaram de acabar a obra. Teresa, porém,
não desistiu do seu intento de servir a Deus num claustro, e, na flor da
mocidade, renunciando às grandezas e aos prazeres do mundo que sua
condição e riqueza lhe ofereciam atraentes, professou num convento
de Carmelitas. Depois de uma luta dolorosa de longos anos com as
saudades da família e o terror de não corresponder a vocação, Teresa
um dia, após a Comunhão, teve de Deus o mandato de restabelecer em
sua Ordem a primitiva observância da Regra, e já não houve obstá-
culos e sacrifícios que a intimidassem no levar a cabo essa missão; o
seu pensamento, a sua ambição foi só, desde logo, contentar
plenamente o Coração de Jesus, trabalhar e sofrer por sua glória, amá-
lo, mais e mais, por aqueles que o esquecem, expiar, a cada instante,
pelos que o ofendem. As notícias dos sacrilégios que em países
vizinhos cometiam os huguenotes ou da corrupção de costumes em
que longe viviam povos inteiros do Novo Mundo, a faziam recolher-
se em pranto e entregar-se, por longo tempo, à oração, implorando a
graça de se converterem todos eles, oferecendo-se fervorosa para
"sofrer ou morrer" pela glória de Deus e salvação das almas. Nas
grandes tribulações que a afligiam, o Salvador veio muitas vezes
animá-la, mostrando-lhe suas chagas ou a caminhar carregando a cruz;
tinha também, frequentemente, a visão de um anjo que trazia nas mãos
um dardo de ouro com ponta de ferro e na sua extremidade uma chama,
e que ele cravava através do seu coração, causando-lhe um misto de
dor e delícia. Jesus assim a assemelhava consigo, e como que lhe
dilatava o coração para mais amar e sofrer; e um dia, para a confortar
na luta, lhe disse : "Espera um pouco, filha, e verás grandes coisas".
Viu-se depois o que era: Teresa fundou 32 mosteiros, que foram uma
visível florescência de virtude e santificação que se estendeu pelo
mundo. Ao termo dessa abençoada tarefa, a Santa expirou num doce
êxtase, e viu-se então uma pomba que parecia sair-lhe dos lábios
entreabertos a voar para o céu. Conservava-se ainda no mosteiro das
Carmelitas da Alba de Tormez o seu corpo, e em separado o coração
que mostra a ferida feita pelo anjo, a qual o atravessa horizontalmente
e divide quase por inteiro; esta relíquia exala sempre odor celeste,
como o atesta o Pe. Marcel Bouix, que a tocou em 1849. A Igreja, além
da festa própria a 15 de outubro, instituiu em 1726 a da
Transverberação do Coração de Santa Teresa.
DIA 4
Iniciado por S. João Evangelista, o culto ao Sagrado Coração só
muitos séculos depois teve a sua propaganda formal por especiais
revelações de Nosso Senhor, que declarou tê-lo reservado para o fim
dos tempos como um poderoso meio de reacender a fé e despertar no
mundo o fervor religioso. Como na execução de suas obras as mais
grandiosas, também nesta escolheu Deus para seu instrumento uma
fraca e pequena criatura: a humilde Religiosa Margarida Maria. Era
nela tanta a inclinação e gosto pelas coisas do céu que, desde menina,
para a demover de qualquer propósito, bastava dizer-lhe que isso
ofenderia a Deus; e Deus, por sua vez, recompensava a sua dedicação
precoce, favorecendo-a já com visões maravilhosas em que se lhe
mostrou a carregar a cruz, para lhe dar a coragem de sofrer as
contrariedades e provações do lar infortunado. Houve em sua
mocidade momentos em que os prazeres do mundo a atraíram e tentou-
a o pensamento de não os deixar; porém não tardava a reação, e
Margarida como que em desagravo ocupava-se em instruir a multidões
de meninos pobres, visitar as famílias necessitadas e tratar dos
enfermos, chegando a beijar chagas, para vencer a natural repugnância
que sentia ao olhá-las, ato de heroísmo com que mereceu que ao seu
contato elas subitamente sarassem. Um dia, finalmente, cerrando os
ouvidos às súplicas de sua mãe, a jovem decidiu abraçar a vida
religiosa, e bateu às portas do convento de Paray: ia ataviada como
para a mais brilhante festa do mundo, e não vestia assim por vaidade,
mas pelo contentamento de se ir dedicar ao seu soberano Bem; pro-
vava-o, dizendo, na hora de entrar, a seu irmão que a acompanhara:
"Esteja certo de que não sairei mais daqui". No claustro, a sua piedade
e fervor causaram admiração desde os primeiros dias, e foram sempre
crescendo. Quando se achava só trabalhando, lendo ou escrevendo,
fazia-o de joelhos como tomada de respeito diante de um ser invisível.
Assim a surpreendiam as companheiras, comprazendo-se em
contemplá-la absorta na oração, em que passava longas horas, noites
inteiras, como arrebatada em êxtase, em sua cela e no coro, ao ponto
de que o povo que frequentava o santuário, o percebeu e vinha
observar pelas grades a "Santa" que se elevava aos céus quando orava.
Com o próprio sangue escreveu um dia esta consagração total de si a
Nosso Senhor: "Tudo em Deus, nada em mim ! Tudo para Deus, e
nada para mim! Tudo por Deus, e nada por mim!" No meio destas tão
vivas provas de fidelidade de sua serva, surpreendeu-a o Senhor com
as inefáveis revelações sobre o culto ao Sagrado Coração: a primeira
vez, mostrando-lhe a imagem que deveria representá-lo a amar sempre
e infinitamente aos homens, apesar de esquecido e ultrajado por eles;
a segunda, imprimindo ao culto a forma de expiação pelos pecadores,
com as Comunhões das primeiras sextas- feiras do mês e a hora de
adoração noturna; a terceira, recomendando a instituição de uma festa
universal na Igreja em honra do Sagrado Coração, na sexta-feira
imediata à oitava do Corpo de Deus. Confessando humildemente a
Santa quanto era insuficiente para tão grande tarefa, Jesus lhes
respondeu que supria ao que lhe faltasse, e comunicou-lhe uma das
chamas que abrasavam o seu Coração divino. Sucederam-se então
graças extraordinárias, verdadeiramente prodigiosas, que não
deixaram dúvida sobre a origem divina de tais revelações; vieram logo
auxiliar a fervorosa Visitandina santos sacerdotes, como os Padres
Colombiére e Croiset, de quem ela predisse que escreveria um livro
sobre a insigne devoção, como em breve sucedeu. A primeira imagem
do Sagrado Coração, qual se lhe revelara, Margarida Maria gravou-a
sobre seu peito, abrindo-a na carne a golpes de canivete; a segunda ela
esboçou a traços de tinta, e colocou-a no altar do noviciado de Paray,
onde recebeu a veneração da comunidade na sexta-feira após a oitava
de Corpus-Christi em 1685. Pela propagação desse culto, que tinha por
fim, com a glória de Deus, a conversão dos pecadores, a Santa pediu
ao Senhor a graça de sofrer a tal ponto que se tornasse uma viva
imagem do Sagrado Coração, cingido da coroa de espinhos e tendo
sobre si a cruz. Estas foram as armas com que pelejou e venceu, e o
seu triunfo aí está patente e marcado com o selo das grandes obras
divinas, em dois fatos: a romaria incessante que de todo o mundo aflui
ao pequeno santuário em que viveu a humilde Religiosa, e o
incremento que tem hoje, em toda a Igreja, o culto de que ela foi a
mensageira.

DIA 5
Meu Divino Salvador, por vossa onipotência e infinita misericórdia,
fazei que eu me mude e transforme todo em vós. Que as minhas mãos
sejam as mãos de Jesus, e minha língua seja a língua de Jesus; que
todos os meus sentidos e meu corpo sirvam só para vos glorificar;
sobretudo transformai minha alma e todas as suas faculdades: que
minha memória, minha inteligência, meu coração sejam a memória, a
inteligência e o Coração de Jesus". Costumava dirigir a Nosso Senhor
esta oração o Bem-aventurado João Gabriel Perboyre. Piedoso desde
a infância, já se fazia então notar pela bondade e zelo com que afastava
do mal e exortava ao bem, quer a seus irmãozinhos no lar, quer aos
pequenos companheiros com quem trabalhava no campo. A modéstia
de seu proceder em qualquer parte e seu recolhimento fervoroso na
igreja, mormente quando comungava, mereceram-lhe do povo o nome
de santinho". Crescendo nestes sentimentos, foi colocado num
estabelecimento eclesiástico: aí, ouvindo uma prédica fervorosa sobre
o apostolado, dissera no fim aos colegas: "Eu quero ser missionário;"
e, no concurso para a distribuição pública de prêmios, apresentou uma
bela composição sobre este tema: "A cruz é o mais belo dos
monumentos". Em progressiva marcha de santificação, professou no
instituto dos Padres da Missão e recebeu o sacerdócio; e como o
exerceu, atestam-no bem muitos fatos. Uma vez o seu ajudante de
Missa viu-o, no momento da consagração, suspenso do solo e em êx-
tase. Feito diretor de um colégio em Saint-Flour, tinha inspirações que
resolviam prestes graves dificuldades: um dia, ele chama a seu
gabinete um aluno reincidente em séria falta e, depois de empregar
sem êxito, a brandura e a severidade, lhe diz de repente, mostrando-
lhe o Crucifixo, e vivamente sentido: "Meu amigo, que tristes
momentos me fazeis passar aos pés de Jesus na Cruz!" e o culpado se
comove com este dito, pede perdão e se corrige. Outras vezes, cai de
joelhos ante o Crucifixo, e lhe oferece reparação em nome do
delinquente; e este, conhecendo a sinceridade e a grandeza daquela
dor, rompe a chorar e sai arrependido e transformado. — O padre
Girard, da Congregação, escreveu o seguinte: "Eu desejava muito
conhecer um Santo antes de morrer. Vi o padre Perboyre em 1934,
estudei-o; tudo nele me impressionou. Agora conheço um Santo, sei o
que é um Santo vivo". — Insistindo muitas vezes na sua súplica para
ir trabalhar na China, o padre Perboyre afinal é atendido, e se
estabelece na missão de Hou-pé. Nessa montanha existia no século
XVIII uma "república dedicada ao Sagrado Coração", que é assim des-
crita em documentos autênticos: "Cada família tinha a imagem dos
Sagrados Corações de Jesus e de Maria em seu lar. À tarde, ao fim dos
trabalhos do dia, acendiam círios, queimavam incenso e entoavam
cânticos ante as imagens. A sexta-feira era consagrada ao Coração de
Jesus, e o sábado ao Coração de Maria. Na capela, tocava a alguns,
antes do Sacrifício, lembrar ao povo a grandeza do mistério a celebrar-
se; à elevação da hóstia e do cálice, avisavam para se prostrarem e
adorarem as chagas de Jesus e seu Coração presente no altar; e
recitavam os atos preparatórios para a Comunhão e ação de graças.
Outros deviam instruir os jovens e novos cristãos, a quem faziam
cantar as lições de catecismo na hora do trabalho para não as
esquecerem, e visitavam os infiéis moradores nos arredores, semeando
entre eles os germens da fé. Eles todos se ofereciam a Deus em
expiação pela sua pátria paganizada, e velaram em que a sua co-
munidade não se afastasse uma linha da santa lei em que vivia. Nesse
regime viveram e prosperaram longo tempo "dez mil famílias". O
padre Perboyre restabeleceu no Hou-pé a colônia do Sagrado Coração
em todo o seu edificante fervor. Mas, passados nessa abençoada paz
cinco anos, um dia rebentou de fora a perseguição aos cristãos, e a casa
em que se achava o padre Perboyre foi cercada. Seus dedicados
companheiros quiseram repelir à força os assaltantes, mas ele o obstou,
imitando o Salvador no Jardim das Oliveiras quando mandou que
Pedro guardasse a espada. Os esbirros de um mandarim odiento
levaram-no para uma aldeia distante, e após um ano de cruéis torturas
a que resistiu impávido, confessando a fé, o puseram numa cruz e aí
foi estrangulado. Como a Jesus um discípulo traidor, ao padre
Perboyre um neófito por trinta moedas denuncia o lugar em que o
encontrariam, e é supliciado também entre facinorosos, numa sexta-
feira às 3 horas. No dia imediato ao de seu enterro aparecia sobre esta,
fazendo-se ver ao redor e até longe, uma grande cruz luminosa.

DIA 6
Leão Rarpey d’Aurevilly, irmão do ilustre escritor francês de igual
nome, na flor de sua mocidade conquistara já um nome brilhante no
foro e nas letras, e dera à estampa volumes de versos que tiveram os
aplausos de Mistral e outras sumidades da poesia; mas todas essas
glórias não o puderam prender no mundo e um dia sentiu fortes
impulsos de o deixar e ir servir a Deus. Para bem se esclarecer nesse
passo e vencer todo o respeito humano que o tentasse, empreendeu
uma peregrinação de cabeça descoberta e pés descalços, de Caen ao
santuário de Nossa Senhora do Livramento, distante 20 quilômetros.
Aí, após um retiro espiritual, decidiu-se a abraçar o sacerdócio. Foi
dele que o Pe. Dubois, autor do livro "Prática do zelo eclesiástico",
escreveu em seu "Guia do seminarista piedoso": "Conhecemos um jo-
vem que entrou para o Seminário sem se deixar prender pela
consideração do brilhante futuro que o mundo lhe prometia. Quando
pôs o pé em seu humilde cubículo, tão diferente de sua alcova do
século, abriu a janela, olhou o céu e, ajoelhando-se, exclamou: "Como
sou feliz, Senhor! Sede bendito! Dois meses depois, seu irmão
acadêmico visitava-o, e escrevia em seu "jornal": "Cheguei hoje a
Coutances para ver meu irmão... Achei-o de boa saúde e feliz, feliz
acima de toda a expressão, "renovado" em todos os pontos. — Durará
isto? As dúvidas ou receios de Júlio de Aurevilly nunca se
confirmaram; seu irmão foi um seminarista exemplar e depois um
sacerdote zeloso. "Amar a Deus e orar, para amar cada vez mais": era
a sua divisa. Ele amava ardentemente as almas, porque as via no
Coração do Divino Mestre e partilhava os sentimentos do Salvador
segundo a recomendação do Apóstolo: "Senti em vós aquilo que sente
Jesus Cristo". "Nosso Senhor, dizia ele, é o amante, o Salvador, o
santificador das almas. Qual foi seu pensamento único, a razão de sua
encarnação e de seus mistérios, senão a glorificação de seu Pai pela
salvação das almas? Ora, todo o sacerdote é um coadjutor de Cristo;
deve, portanto, ser um salvador das almas. Deve participar desse duplo
amor do Sagrado Coração: o amor do Santo dos Santos pelas almas
santas e por tudo o que conduz à santidade; — o amor de Deus
Salvador pelos pecadores, e por todas as obras de zelo próprias para
ganhar suas almas e introduzi-las nos caminhos da salvação". Deu-se
com ardor à pregação, a princípio como auxiliar do Pe. Dubois, que o
chamava "seu filho mais velho, seu bravo Timóteo", e depois com o
Pe. Le Goupils, conseguindo inúmeras e admiráveis conversões. Pela
fama de sua eloquência apostólica o Arcebispo de Paris convidou-o
para fazer as conferências de "Notre Dame", porém Leão d'Aurevilly
escusou-se, preferindo continuar como o orador popular das Missões,
onde certamente converteria maior número de almas do que entre a
cética sociedade parisiense. Desvanecidas todas as dúvidas que um dia
tivera, dizia dele seu irmão em 1847: "Senti uma dessas emoções que
fazem crer na imortalidade de nossa alma. Há nove anos não o via, não
o vira desde que é padre. Achei-o mudado, oh! sim, mas também
transfigurado. É a própria perfeição dos caminhos espirituais. Ouvi-o
pregar sobre a "felicidade de quem se confessa..." Nem um sopro de
preocupações literárias, mas solidez, ternura, autoridade, e aqui e acolá
movimentos de uma fé tão sincera, que são de uma prodigiosa
eloquência, eis de que fui testemunha. Ele é o "sacerdote" em tudo
quanto de são exprime essa forte palavra". Aos 8 anos de idade, quis
fazer de si a Deus uma oblação mais completa, e entrou para a
Congregação dos Sagrados Corações, fundada pelo Pe. Eudes,
observando nela, com a docilidade do mais perfeito noviço, as
exigências da Regra austera. Apesar de já enfraquecido pelos trabalhos
de um longo ministério, ainda continuou a pregar cada ano uma
estação quaresmal, quatro a cinco missões de algumas semanas, e
dezenas de retiros paroquiais ou de comunidades religiosas. No que
mais se comprazia, porém, era nos retiros de primeira Comunhão:
"Nosso Senhor, exclamava ele, não tinha tanta satisfação em
prodigalizar a sua graça e a sua verdade aos pequenos israelitas dos
campos?" No púlpito ou no confessionário, o seu conselho e exortação
constantes eram estes: "Unamo-nos todos numa fervorosa comunhão
de orações numa sociedade inflamada de Comunhões cheias de fé,
para reparar os crimes dos pecadores que se endurecem no mal,
quando deveria todo o mundo prostrar-se de joelhos, clamando: "Parce
Domine, parce populo tuo". Nesse labutar, o abateu um ataque de
paralisia, ao melhorar do qual ofereceu pela Igreja, pela pátria e pela
salvação das almas o sacrifício de sua vida intelectual, moral e física;
um segundo ataque sobreveio mais tarde, e o extinguiu lentamente
como um círio que ardesse até o fim no altar do Senhor.

DIA 7
É conhecido e abençoado em todo o mundo o nome de Fr. Damião
Veuster, o apóstolo dos leprosos em Molokai. Um ministro
protestante, o Sr. Chapman, enviando-lhe para suas obras de
beneficências um donativo de 25 mil libras esterlinas, dizia reconhecer
nele o imitador verdadeiro do Bom Pastor que dá a vida pelo rebanho.
Ao saber a sua morte, o herdeiro da coroa da Inglaterra abria com
avultada quantia uma subscrição para se lhe erigir um monumento e
formava um "comitê" para a fundação de um hospital de leproso em
Londres com seu nome.
Quem ignora o que é a lepra? Pode dizer-se que é a agonia com suas
angústias, a morte por antecipação, e a fazer cair, uma a uma, as pedras
do mísero pardieiro do nosso corpo; a morte com seu aspecto mais
repulsivo, com as legiões de vermes que se adiantam ao sepulcro, e se
encarniçam ávidos sobre membros a que ainda anima um sopro da
vida. O Pe. Damião, Religioso da Congregação dos Sagrados
Corações de Jesus e de Maria, ouvindo o Vigário Apostólico de Havaí
lastimar que não houvesse um sacerdote no leprosário de Molokai,
ofereceu-se e partiu. Contava ele então 33 anos; aí ficou até os 49,
idade em que morreu. Relatando suas primeiras impressões, Pe.
Damião escreveu: “Custei muito a habituar-me a essa atmosfera, e um
dia, à Missa, me senti tão sufocado que estive quase a sair para respirar
fora; reteve-me a lembrança de Nosso Senhor, mandando abrir em sua
presença o sepulcro de Lázaro. Agora entro sem dificuldade nos
aposentos dos pobres leprosos”. A força para desempenhar o seu
penoso ministério, ele a pediu e teve sempre do amantíssimo Coração
de Jesus. Os que visitavam alguma vez Molokai, voltavam edificados:
fazia-se a adoração perpétua na capela e os cristãos lá se achavam,
todos os dias, uns após outros, a fazer a via-sacra, a dirigir invocações
ao Sagrado Coração, a recitar o terço, a pedir o conforto e a se
oferecerem como vítimas para reparar os ultrajes que Deus recebe de
filhos ingratos aos quais foram prodigalizados os benefícios da
civilização. O Pe. Damião convertia os protestantes e os pagãos,
reconciliava os inimigos, trazia a paz aos revoltados, identificando-se
tanto com os seus 800 filhos adotivos, que nas instruções e no trato
usava sempre desta frase — "nós leprosos". — Por seus esforços, o
lugar veio a ter cabanas alvas e asseadas, um orfanato, escolas, duas
capelas, e um hospital para os mais desamparados; e seu exemplo
atraiu mais tarde companheiros, e Religiosos que se consagraram a
auxiliá-lo. Certo dia, um dos leprosos, que era médico, lhe disse:
"Padre, já estais afetado;" e ele respondeu: "Não me assusta o que
dizeis; já o esperava". E depois dizia a outros: "Estou contente, agora
sou como vós leprosos; não quereria a saúde, se a troco dela tivesse de
deixar a ilha e abandonar a tarefa que o Senhor me confiou". Resistiu
ao mal durante cinco anos, firme em seu posto, e quando soou a hora
da morte, rompeu nesta exclamação: "Como Deus foi bom em
conservar-me a vida até que eu tivesse dois Padres para me assistirem
nos últimos momentos, e a alegria de saber que as boas Irmãs aí estão
para socorrer os leprosos!" E expirou, louvando e agradecendo ao
Senhor de o deixar morrer como Religioso dos Sagrados Corações.
DIA 8
Não houve em certa época em Paris nome mais abençoado e popular
do que o de "Irmã Rosália", a princípio simples professora e um pouco
mais tarde superiora numa casa de Irmãs de Caridade situada num
quarteirão da cidade em que a ignorância, a miséria e os vícios mais
dominavam. Fazendo desde o primeiro dia o reconhecimento doloroso
do campo em que deveria agir, Irmã Rosália deu combate por mais de
50 anos, sem parar nem retroceder um instante, nunca desanimada nem
vencida, repousando de um trabalho com outro e só abandonando o
seu posto e suas armas no dia em que Deus, satisfeito de seus com-
bates, lhe deu o descanso eterno. Realizando no meio de Paris as
maravilhas das missões nas terras de infiéis, muitas vezes nas
pobríssimas casas dessas ruas tortuosas e infectas ela conseguia
encaminhar os pais ao batismo, à Comunhão, ao casamento, e ainda
ensinava o catecismo aos pequenos e preparava para a morte um velho
tio ou avô. Os pobres e os infelizes se tornaram como que o seu sangue,
a sua família, e entraram a considerá-la sua mãe, levando-lhe, com
toda a confiança, suas queixas, súplicas e segredos. Se uma oficina
lhes recusava trabalho ou um padeiro o pão, se um proprietário os
despedia ou penhorava os poucos móveis, se um comissário os
multava, se um filho desobedecia, era a Irmã Rosália que procuravam
para que desse remédio; e ela se punha em movimento, e remediava
de qualquer modo. Os seus humildes clientes estavam certos de que
lhe não bateriam à porta em vão; e ela, por sua vez, queria que eles a
qualquer hora fossem recebidos. Um dia, estando com um forte acesso
de febre, a Irmã porteira não deu entrada a um homem que lhe vinha
falar, e este encolerizou-se, e gritou. Irmã Rosália, ouvindo o rumor,
acudiu e informou-se, bondosamente, do que ele queria, para o
satisfazer; quando retirou-se, repreendeu a porteira, e, como esta repli-
casse que o médico recomendara deixassem-na em completo sossego,
retorquiu: "Deixemos o médico fazer o seu oficio e façamos nós o
nosso". Os jovens que precisavam de auxílio para os estudos ou
queriam um emprego, valiam-se de sua intervenção e eram bem
sucedidos; quando colocados, e em condições prósperas, ela os invoca
em favor de seus irmãos necessitados, e, pedindo a cada um aquilo que
ele fazia melhor e lhe custava menos, tinha para a sua caridade co-
laboradores inúmeros e preciosos. Ganhou assim entre todo o povo um
prestígio sem igual, e que se manifestou em vários fatos. Quando, em
1832, o cólera invadiu Paris, e as multidões desvairadas investiam
contra os médicos, acusando-os de importadores do flagelo, o dr.
Royer-Collard foi atacado, mas a fúria da turba desarmou-se logo que
ele gritou: "Eu sou um amigo da Irmã Rosália". Nas revoluções a santa
Irmã pode abrigar em sua casa a sacerdotes e bispos, e teve força para
fazer desmanchar barricadas e restabelecer a ordem; em junho de
1848, salvou a vida a um oficial da guarda móvel ajoelhando-se ante
os insurgentes enfurecidos e dizendo-lhes: "Há 50 anos que vos con-
sagrei minha vida; por todo o bem que vos tenho feito, e a vossas
mulheres e filhos, peço-vos a vida deste homem". A estima em que a
tinham manifestava-se por mil outros modos. Um dia, um velho
trapeiro que levava má vida, manda-a chamar para lhe entregar alguns
mil francos que juntara para a filha a qual aprendia na escola das
Irmãs: "Isto é com o tabelião, responde ela, eu mandarei aqui um". —
"Não quero, só confio em vós". — E ela teve de receber o dinheiro,
conseguindo então dele que se confessasse. As virtudes com que Irmã
Rosália pôde exercer tanto prestígio, dizem seus biógrafos, ela as
aprendeu do Sagrado Coração e deste as alcançou pela oração. Em
menina, vira serem asilados em sua casa sacerdotes perseguidos pela
revolução, lembrava-se de que num subterrâneo é que seu cura lhe.
ensinara o catecismo e lhe dera a primeira Comunhão. Desde esse
tempo, considerando quanto é o homem ingrato com seu Criador e
como, a despeito de tão ofendido, o Coração de Jesus se dilata para
nos atrair a seu amor, Irmã Rosália votou-se a todos os trabalhos e
sacrifícios pela conversão dos pecadores.

DIA 9
Julieta de Cobert, de uma nobre família da Vendéa, da qual nos dias
da revolução francesa muitos membros subiram valorosamente ao
cadafalso para não traírem sua fé e seu rei, foi um perfeito modelo de
virtudes cristãs. Esposando, aos 22 anos, o marquês de Barol, entre as
suas visitas e recepções de dever incluiu logo as dos pobres, indo
procurá-los com a esmola nos mais miseráveis tugúrios e ensinando-
lhes o caminho de seu palácio, para que se valessem dela nos vexames
imprevistos. Um dia, ao atravessar a praça do Senado em Turim,
quando passava o Sagrado Viático, desceu do carro e ajoelhou-se,
ouvindo então um grito estridente: "Não é de Viático que preciso, é de
sopa". Olhou para o lado donde saía a voz, e viu as janelas gradeadas
da Cadeia. Acompanhada do criado, lá foi para dar algumas moedas
ao preso que parecia sofrer fome, a fim de que ele não mais
blasfemasse. O mísero, porém, era um ímpio, que já estava a rir e
cantar com os companheiros; ao verem aquela dama jovem, de porte
calmo e grave, calaram-se e receberam com respeito o que lhes deu.
Quis ver também o cárcere das mulheres, e mais triste foi aí sua im-
pressão. Havendo na cidade uma Confraria de Misericórdia, que tinha
como um dos seus fins socorrer os presos, Julieta se inscreveu nela e,
não contente de levar-lhes víveres, empreendeu regenerá-los,
particularmente as mulheres, entre as quais se demorava, instruindo-
as e exortando-as, participando às vezes de sua grosseira refeição para
lhes ganhar mais a confiança, de modo tal que operou uma admirável
transformação no cárcere e conseguiu dos poderes públicos, além do
apoio à sua empresa, a remoção da penitenciária para casa mais salubre
e apropriada. Com o intuito de assegurar e ampliar o efeito deste seu
trabalho regenerador, fundou também uma casa de refúgio e um con-
vento de Madalenas, para as infelizes que voltavam à vida religiosa.
"Que consolação, dizia ela, ver essas pobres purificarem-se do lodo e
correrem como anjos que voltam para o céu!" Um dia, leu Julieta nos
jornais que um pai desesperado pelos gemidos da filha, doente havia
muito tempo, a suspendera do leito e lançara pela janela; foi o bastante
para decidir-se a fundar um hospício para as crianças deformes e
doentes, e depois um asilo para os meninos desvalidos, que instalou
nas salas do seu próprio palácio. Em 1825, o cólera penetrou em
Turim, e ainda ante essa pavorosa calamidade Julieta mostrou o
heroísmo cristão. "O marido, narra o grande escritor católico Sílvio
Pellico, veio uma vez ao posto de inspeção em que eu estava, e me
disse consternado, que ela se expunha ao contágio, socorrendo, por
suas mãos, os infelizes atacados. Logo que pude, saí a procurá-la, e a
encontrei serena e incansável em sua tarefa, levando de casa em casa
o conforto de sua palavra ou de medicina e sustento para combater o
mal". Debelado o flagelo, o governo conferia uma medalha de ouro à
marquesa de Barol pelos serviços prestados. O seu prêmio, porém, ela
queria de mais alto, e mais alto se inspirava para fazer o bem: esta sua
ardente caridade ela a aprendia e alimentava no Coração de Jesus, a
quem dizia: "Eu não sou mais do que uma fraca criatura, mas parece-
me que vos amo com todas as minhas forças, e quero também que os
outros vos conheçam e vos amem. Eu espero e posso tudo naquele que
me fortalece". Como o Coração do Divino Mestre, o da fiel serva se
inclinava mais de pronto para os fracos, os padecentes e os desvalidos,
porém, com isso não esqueceu o bem espiritual das classes elevadas,
e lhes assegurou um esforço de sábias educadoras, fazendo virem da
França as Damas do Sagrado Coração, a quem ofereceu, para se
estabelecerem, a sua esplêndida quinta do Casino, perto da cidade.
Quando a revolução no Piemonte perseguiu instituições católicas e
baniu as Ordens religiosas a marquesa de Barol, por ter dado abrigo
durante 24 horas ao Pe. Pellico, irmão do poeta, foi acusada de ter em
sua casa um batalhão de jesuítas que se exercitavam nas armas, e
denunciaram-na de roubar as crianças à família e prendê-las em seus
asilos. Os revolucionários apinhavam-se à porta do palácio e
ameaçavam pôr-lhe fogo; os amigos da marquesa aconselhavam-na a
fugir. "Aconteça o que acontecer, lhes respondia ela, não sairei de
Turim; não posso levar comigo meus 500 filhos, e devo ficar para lhes
servir de mãe até o fim. Cortar-me-ão a cabeça, direis vós: é um
caminho como qualquer outro para ir ao céu; Deus, que deu à minha
avó a coragem de morrer no patíbulo, não ma recusará. Fico em meu
posto". E impávida continuou a fazer o bem, sem diminuir em nada a
sua tarefa. Quando a velhice e enfermidade a prostraram, nem assim
deixou de por si mesma inspirar e dirigir todas as suas obras, e dizia:
"Paciência, é coisa bem indiferente o fazer a vontade de Deus
horizontalmente no leito ou perpendicularmente de pé". Acabou a
vida, reclinando-se placidamente no Coração de Jesus com o santo
pensamento de que fora a ele que visitara na pessoa dos presos,
socorrera nos enfermos e amparara nos pobres.

DIA 10
Eu não posso ver um menino, dizia, ainda jovem, o Venerável
Champagnat, que não me venha logo a vontade de lhe dar uma lição
de catecismo e de lhe fazer conhecer quanto Jesus Cristo o amou e
quanto deve amar o Divino Salvador. E realmente, passava algumas
vezes horas inteiras a ensinar a religião a pastorinhos que encontrava
nos campos ou a meninos que lhe apareciam nas casas em que ia acudir
a enfermos; e trabalhou por atrair auxiliares nessa tarefa, vindo a
fundar para esse fim a Congregação dos Irmãos Maristas. A estreia do
primeiro punhado de Irmãos foi muito feliz: havia nos mestres
dedicação, bondade, zelo e saber, e entre os alunos gosto pelo estudo,
emulação e disciplina, fazendo gosto ver a ordem e respeito que
guardavam na escola ou nas ruas, quando em silêncio as atravessavam.
A obra progrediu tanto que, estabelecida a princípio na modesta casa
do Padre em Lavalle, foi mister construir para sua habitação o vasto
edifício de Hermitage. "Não compreendo, dizia a Champagnat um
amigo, o que pretendeis vós enchendo vossa casa de meninos
indigentes e recebendo tantos postulantes que nada vos dão: se não
tiverdes um crédito sem limites sobre o tesouro do Estado, haveis de
abrir falência". — "Eu tenho mais do que isso, respondeu o Padre sor-
rindo, tenho o tesouro da Providência que fornece ao mundo inteiro
sem nunca se esgotar". O Padre Champagnat era fervorosíssimo
devoto do Sagrado Coração, ao qual pedia todas as graças de que
precisava; quando encontrava uma alma dominada por maus hábitos,
exortava-a a que recitasse as ladainhas do Sagrado Coração,
acrescentando depois de cada invocação: "Eu me consagro a vós". A
seus Religiosos dizia: “Quanto mais se pede ao Senhor, mais se
obtém”.
Pedir muito aos homens, é o meio de nada alcançar; mas com Deus, é
precisamente o contrário. Davi, que conhecia o Coração de Deus, lhe
dizia: “Vós perdoareis meu pecado, porque é muito grande e
patenteará vossa grande bondade”. Assim, o que de ordinário
desanima os homens, as grandes faltas ou grandes necessidades, eram
para o santo o principal motivo de sua confiança. É que ele tinha de
Deus uma alta ideia. Para concluir, digo: “Se quisermos agradar a
Deus, peçamos muito, peçamos grandes coisas; quanto mais longo o
requerimento, melhor ele o receberá”.
Desde moço, compusera a seguinte oração, que recitou até o último
dia de vida: "Divino Coração de Jesus, que por vossa profunda
humildade combatestes e vencestes o orgulho humano, é
principalmente a vós que dirijo as minhas orações; dai-me, eu vos
rogo, a humildade; destruí em mim o edifício do orgulho, não porque
seja ele insuportável aos homens, mas porque vos desagrada e ofende
a vossa santidade. — Santa Virgem, minha boa Mãe, pedi ao adorável
Coração de Jesus a graça de que eu me conheça, me combata e me
vença, e destrua o meu amor próprio e o meu orgulho; tomo aos vossos
pés a resolução de lhe fazer uma guerra sem trégua". Dizia dele o povo
de Lavalle, que não era tão bom e tanto sabia arranjar bem as coisas,
que se não podia deixar de fazer o que ele aconselhava e queria. Em
1840, no sexto dia do mês consagrado ao Coração de Jesus, morria em
odor de santidade o Padre Champagnat, deixando já florescente o
Instituto dos Maristas, com cerca de 400 membros e à frente de 48
escolas na França. Hoje ele se acha propagado em vários países da
Europa, África, Oceania, e América; vários Estados do Brasil o aco-
lheram com grande proveito, e o governo francês que expulsara as
Congregações religiosas, reconhecendo as vantagens de seu serviços
nas colônias, autorizou-o a abrir no país o noviciado.

DIA 11
É uma Santa: dizia, aos 11 de Abril de 1903, o povo Camigliano de
Toscana, junto ao leito mortuário de sua conterrânea Gema Galgani,
cuja curta existência fora um assombro de virtude e uma comunicação
quase contínua com o céu. Esta voz do povo, começaram logo a
confirmá-la as graças extraordinárias que pela invocação do nome da
jovem finada se foram alcançando, como entre outras, as curas
instantâneas de Filomena Bini de Pisa, Maria Mencucci e Mariana
Angelini, romanas, e Isolina Serafim, de Lucca; a preservação de um
naufrágio iminente nas águas do Mediterrâneo a dois Padres
Passionistas do México; um considerável socorro prestado em crise
aflitiva a um convento de freiras camaldulenses em Roma; a rápida
conversão de um incrédulo e blasfemo, enfermo num hospital de
Lucca; e em Roma as de uma mãe e dois filhos que desprezavam a
religião. Um livro, de cerca de 400 páginas, estampado com a licença
pontifícia, da lavra de um ilustre e zeloso sacerdote que foi o guia
espiritual de Gema Galgani, relata a seu respeito coisas maravilhosas;
e seu autor não hesita em compará-la a Teresa, Maria Madalena e
Verônica Juliani, declarando que, como o Evangelista, narra o que viu,
ouviu e tocou. Desde pequenina, Gema experimentava já as primeiras
irradiações dessas luzes e mercês sobrenaturais que a inundariam em
sua mocidade; sua mãe, chamando-a junto de si, ensinava-lhe
pequenas orações, e, mostrando-lhe o Crucifixo, dizia: "Olha, este
Jesus morreu na cruz por nós;" e lhe explicava com singeleza o
mistério do amor de Deus, e como pode e deve o cristão corresponder-
lhe. Propensa às distrações como é por natureza, a criança de ordinário
não se prende por muito tempo a oração e ao ensino; Gema, porém,
sentia prazer em ouvir essas instruções e, de vez em quando,
agarrando-se às vestes de sua mãe, pedia "que lhe falasse mais um
pouco de Jesus"; e, quando a boa senhora, prestes a morrer, lhe
perguntou: — "Gema, se eu te pudesse levar para onde Deus me
chama, quererias ir?" — "Aonde?" — "Ao paraíso com Jesus e com
os anjos" — a menina concordou muito contente, e já não queria sair
um instante do quarto, empenhada em que sua cara mãe a levasse.
Ansiosa de fazer sua primeira Comunhão, o conseguiu aos nove anos
de idade, na festa do Sagrado Coração em 1887, e, referindo-se a esse
ato, escrevia: "Não sei exprimir o que se passou entre mim e Jesus
nesse momento. Jesus se fez sentir muito à minha alma. Compreendi
então quando as delícias do céu venceram as da terra; e senti-me presa
do desejo de tornar contínua essa união com Deus". E cada ano
festejava de um modo particular esse dia, com edificantes
manifestações de fervor que em suas cartas traduzia assim: "Passei um
dia de paraíso; falei e chorei de amor com Jesus. — Disse-lhe: "O
vosso Coração é o meu; aquilo que vos agrada, é o que me pode fazer
feliz. — Jesus, eu quero fazer das minhas más inclinações um feixe, a
fim de as consumirdes todas por uma vez com o fogo do vosso amor".
Dava aos pobres o dinheiro, a comida e até a roupa que tinha para seu
uso, sendo preciso, às vezes, não a deixar em suas mãos." Se vos não
tornardes simples como estes meninos, diz Jesus Cristo no Evangelho,
não tereis parte no reino dos céus". Esse era o traço que caracterizava
toda a vida cristã de Gema. Taxada de soberba, porque se esquivava a
contar sem necessidade o que de extraordinário lhe sucedia, explicava:
"Soberba, não. Eu me calo, porque não sei que dizer, e temo não me
fazer entender bem". Procurada para se interessar junto de Deus por
diversas necessidades e aflições de outros, resumia tudo assim: "Já
pedi por aquele infeliz; agradeci o bom êxito do negócio; agora não
tratemos mais disso". Incumbida de mensagens de Nosso Senhor, as
comunicava sem rodeios: "Jesus quer que a Sra. ampare esta obra
santa; — Jesus manda dizer isto ao Sr. Padre; se eu esqueci alguma
coisa. Ele mesmo lho dirá". Quando se viu com os sinais dos estigmas,
surpreendeu-se, pensou mesmo que o tivessem todas as pessoas que
por votos se consagravam ao Senhor, e foi mostrá-los a sua tia,
dizendo: "Olhe, tia, o que me fez Jesus". Entretanto Gema tinha uma
bela e clara inteligência; ganhara nos estudos os primeiros prêmios e
medalhas de ouro; a prelados, sacerdotes, e pessoas doutas que a
interrogaram sobre pontos de fé e assuntos místicos respondeu com
um conhecimento e critério admiráveis, e uma vez argumentou
vitoriosamente, arrancando aplausos dos circunstantes, e fez calar a
um médico racionalista que a julgava fanática e censurava suas
práticas e mortificações. As pessoas da família, os fâmulos da casa
viam-na muitas vezes arrebatada em êxtase, e percebiam vultos
luminosos em seu aposento, e ouviam vozes que lhe falavam de coisas
celestes; um dia, encontraram-na suspensa do chão e com os lábios
colocados na chaga de um crucificado que pendia no alto da sala, e
assim ficou por muito tempo. Numa gravíssima e longa enfermidade
em que a medicina a desenganou e esteve agonizante, sarou um dia
subitamente; e a explicação que deu foi esta: O venerável Gabriel da
Addolorata desceu do céu, durante nove dias anteriores e fizera com
ela uma novena ao Coração de Jesus pela sua cara. Outra vez a sua
benfeitora, dona da casa em que habitava, enfermou com violentas
cólicas intestinais, e ela, compadecida, ofereceu-se a Deus para sofrer
em seu lugar: a doente ficou livre do mal naquele mesmo instante, e
Gema o suportou paciente por muitos meses. Pela conversão de um
grande pecador propôs perder três anos de sua vida: e o fato é que,
atestam várias testemunhas, o pecador se converteu e três anos depois
ela morria. A miúdo, em seus últimos tempos, rompia em exclamações
como esta: "Viva o Coração de meu Jesus. Vinde, vinde, pecadores,
não temais, não penetra aqui dentro o gládio da justiça! Eu quisera, ó
meu Jesus, que minha voz chegasse aos confins do mundo: chamaria
todos os pecadores, e lhes diria que entrassem todos em vosso
Coração". Morreu em 1903 no sábado santo; dias antes tivera
dulcíssimos êxtases que lhe fizeram dizer a uma Religiosa que lhe
assistia: "Irmã, se pudesse ver uma pontinha do que Jesus agora me
fez contemplar, como se sentiria feliz! A sexta-feira santa foi, toda ela,
a sua agonia; aos que a cercavam parecia verem a imagem viva de um
crucificado. No sábado, Jesus a conduzia triunfante.

DIA 12
A virtude precoce de um menino de doze anos é o quadro que hoje o
culto do Sagrado Coração dá a contemplar aos seus devotos. Fruto de
uma união abençoada, Paulo Bedin já aos quatro anos distinguia-se
por qualidades e ações que mesmo em idade mais adiantada são
admiráveis. Já sabia ler, e, tendo sido a História Sagrada o seu primeiro
livro, contava-a aos outros com animação, cheio de simpatia e
interesse pelos que sofriam, como Abel e José vendido pelos irmãos,
e condenava revoltado os maus que os perseguiram. Na igreja
edificava a todos a piedade e atenção reverente com que assistia às
cerimônias, e em casa, se lhe acontecia alguma vez esquecer a oração
da noite, levantava-se a qualquer hora e de joelhos supria a omissão
cometida. Num olhar de sua mãe ele adivinhava a aprovação ou a
censura, e lhe servia para logo de estímulo ou de freio ao que praticava.
Entregando-se um dia por demais à leitura de um livro de viagens, a
boa mãe ordenou-lhe que o deixasse, mas ele por exceção nessa hora,
fechou-o lentamente, "filho, disse ela. parece-me que esqueces o teu
catecismo. Que coisa é obedecer?" Paulo respondeu: "É fazer
prontamente e com alegria aquilo que se nos manda". Um momento
depois acrescentou: "Prontamente, eu compreendo; mas com alegria,
é diferente". Certo é que ele obedecia sempre alegre muitas vezes, e
dominando-se quando contrariado. Em seus estudos secundários, no
colégio de Mongré, o bom menino mostrou, mais firmes e acentuados,
os mesmos sentimentos e disposições. “É o modelo do trabalhador”,
dizia um dos seus mestres. Às vezes ao fim de uma tarefa mais pesada
ou em prêmio de triunfos alcançados na classe, dispensavam-no de
exercícios impostos aos outros, mas ele preferia partilhá-los,
pretextando que a ociosidade o fatigava mais. Era o escolhido para
fazer companhia aos alunos recém-chegados, e para dar coragem aos
desanimados ou aconselhar os indóceis: de tudo se desempenhava com
bondade. Um dia, no inverno, puseram-no de porteiro à sala de estudo,
perto do fogão que o incomodava, mas dizendo-lhe alguém que
pedisse o dispensassem, respondeu: "Não, porque teria de vir para o
lugar algum companheiro, que sofreria tanto quanto eu". Fazia esforço
para corrigir-se, até de pequenos defeitos como o de voltar-se para um
e outro lado à hora do estudo: "Ó bom Jesus, escrevia ele, dai-me força
de não me voltar mais: todos os sacrifícios que puder hoje fazer para
esse fim, eu vo-los ofereço". Em seu livrinho de notas se encontram
muitas como estas: "Sagrado Coração, eu vos ofereço todas as minhas
orações. — Eu vos consagro, ó divino Coração, o tempo dos estudos.
— Eu vos ofereço as minhas recreações. — Sagrado Coração de Jesus,
concedei-me a força necessária para me corrigir, a fim de fazer bem
minha primeira Comunhão". Preparado assim com o maior cuidado,
sua primeira Comunhão como as que lhe seguiram foi em tudo
frutuosa e edificante. Por sua vez, Deus o recompensa: nas provas
finais dos cursos e nas distribuições dos prêmios, ele colhia sempre
copiosos louros, porém acanhado e modesto, ao ponto de, felicitado,
confessar que não desejaria ser constantemente o primeiro e vexar-lhe
o estar superior aos outros. Ou porque o desenvolvimento precoce do
espírito lhe consumisse rápido as forças do corpo ou porque o fruto
dessa curta vida tão pura valesse para colheita celeste e de longos anos
cheios de boas obras, Paulo enfermou gravemente, e a moléstia foi
como um lento e doce voo para o céu; às visitas e cartas dos
condiscípulos que faziam votos e preces para sua cura, respondia
enviando-lhes finas imagens ou cabazes de frutas escolhidas; aos
mestres agradecia os cuidados e proteção que lhe haviam dispensado;
recomendava a sua mãe que bordasse dois frontais, um para a grande
capela do colégio em que fizera sua primeira Comunhão, outro para a
capela da Congregação; aos pais, a quem votava um amor extremoso,
confortava, falando-lhes na felicidade do céu, onde iria rogar a Deus
por eles. Chegada a hora de se lhe ministrarem os últimos sacramentos,
dispôs ele mesmo a ornamentação do aposento, e fez colocar na
parede, sobre o leito, as lembranças de sua primeira Comunhão;
recebendo em seu peito a Jesus Sacramentado, expirou suavemente
num sorriso inefável que lhe imprimiu às feições a serenidade e beleza
de um anjo que houvesse descido à terra.

DIA 13
Sto. Antônio de Pádua, o grande Taumaturgo, invocado em todo o orbe
católico, e particularmente na Itália, em Portugal e no Brasil, foi um
amantíssimo panegirista do Sagrado Coração. Nos sermões que dele
ainda se conservam, leem-se conceitos e indicações piedosas que o
provam, como as seguintes: "A alma religiosa encontrará no Coração
de Jesus um delicioso retiro, um asilo seguro contra todas as tentações
do mundo... — Quando a alma religiosa ouvir a voz do sangue divino,
que se dirija à fonte de onde ele deriva; ao mais íntimo do Coração de
Jesus; ali encontrará a luz, a consolação, a paz, e delícias inefáveis...
— A pomba edifica o seu ninho com as arestas que recolhe aqui e
acolá. E nós com que construiremos nossa morada no Coração de
Jesus? O Coração de Jesus é como que o princípio da vida
sobrenatural, é como que o altar de ouro, onde, de noite e de dia, se
evola até aos céus, um incenso odorífero, e perfumes suavíssimos
embalsamam a terra... A meditação dos sofrimentos exteriores de
Jesus Cristo é santa e meritória, sem dúvida; mas se queremos
encontrar o melhor do ouro puro, preciso é ir ao altar interior, mesmo
ao Coração de Jesus, e aí estudar as riquezas de seu amor".
Uma visão da Venerável Joana Maria da Cruz veio como que atestar
estes devotos sentimentos do glorioso Taumaturgo e revelar a
esplêndida renumeração que ele teve de Jesus. Assim a refere a
Venerável: "Num dia de festa de Sto. Antônio, estando eu em oração,
vi a alma deste Bem aventurado conduzida pelos Anjos aos pés de
Cristo. Nosso Senhor abria amplamente a chaga de seu Coração, e este
Coração, todo resplandecente de luz, atraía e como que absorvia a
alma de Sto. Antônio, como a luz do sol excede e absorve qualquer
outra claridade. No Coração de Jesus a alma do Santo assemelhava-
se-me a uma pedra preciosa, cujo brilho irradiava em redor. As
múltiplas cambiantes deste brilho representavam-me as virtudes do
Santo: cintilavam com um fulgor maravilhoso no oceano de luz do
Coração de Jesus em honra deste e para glória do Bem aventurado.
Jesus tomou depois esta pérola do seu Coração e a ofereceu ao Pai
Celeste, que a fez admirar aos Anjos e aos Santos".

DIA 14
O propagador principal do culto ao Sagrado Coração na Itália, foi o
Pe. Xavier Calvi, e, como ele mesmo revelou, o foi por inspiração de
S. Francisco Xavier, seu patrono, que, porventura para esse fim, duas
vezes lhe salvou miraculosamente a vida: uma, de um naufrágio em
sua viagem para Malta, e a outra em Roma, quando ele já agonizante,
o Geral Pe. Ricci lhe ordenou que pedisse a cura ao Santo, a quem se
fazia nessa intenção uma novena porque ele era então precioso para o
serviço da Igreja. Desde noviço, Xavier Calvi distinguiu-se pelo
recolhimento e gosto da oração e inteira obediência; recitava o Ofício
Divino de joelhos, e quase sempre diante do SS. Sacramento; visitava
os presos instruindo-os na fé e exortando-os à virtude; mortificava-se
à mesa e na dormida, tomando para leito o duro chão. Em Malta
começou por estampar e distribuir um opúsculo sobre o culto do
Sagrado Coração, e instituiu na casa religiosa que habitava, a adoração
do SS. Sacramento na dita festa, no último dia do ano e nos do
carnaval, assim como a cerimônia das três horas da Agonia na sexta-
feira santa, pregando nesses atos com um fervor que operava
conversões. Chamado dentro de pouco tempo a Roma, onde ao fim do
primeiro mês de estada caiu gravemente enfermo, vindo a
restabelecer-se por intervenção de S. Francisco Xavier, empenhou-se
cada vez mais em propagar o culto do Coração de Jesus, sugerindo-o
e recomendando-o vivamente a seus penitentes e nos exercícios
espirituais que pregava, num dos quais ganhou como auxiliar desta sua
obra o Cardeal Colonna. Orações, coroas, cânticos, jaculatórias, tudo
ele compunha e acomodava com piedosa indústria para alimentar a
flama e dar múltiplas formas ao culto do Rei dos corações. Nas
quintas-feiras, associava-se, diante do Tabernáculo, ao Coração de
Jesus agonizante; nas sextas-feiras, seguia o Sagrado Coração em
todas as circunstâncias da Paixão, e fazia a "via sacra, meditando sobre
todas as estações; e nas grandes solenidades relativas à santa
humanidade do Salvador, como às do Natal, Circuncisão, Epifania,
Páscoa, considerava quais seriam os sentimentos do Coração de Jesus
nesses mistérios de amor de Deus pelos homens. Em oratório privado
ao recitarem-se as ladainhas de Nossa Senhora, em vez de responder
simplesmente — "orai por nós" — dizia com viva fé: "Orai e amai por
nós ao Coração de Jesus". Suas cartas começavam assim: "Viva o
divino Coração! que Ele triunfe em tôda parte, "ubique gentium!" —
e acabavam invariavelmente: "Adeus. Orai por um mísero velho. Ó
Jesus! por vosso Coração, sede para nós Jesus!" Quando se tratou de
se instituir a festa e o oficio do Sagrado Coração, o Pe. Calvi
incumbido de colecionar tudo que se achasse de mais frisante a
respeito dos Padres da Igreja e escritores ascéticos, e foi com santo
júbilo, e como buscando tesouros, que ele compilou os testemunhos
da tradição sobre o assunto. Nada recusava do que se lhe pedisse para
o Sagrado Coração ou em nome dele, e o Coração Divino lhe retribuiu
até com dons extraordinários, e o espírito de revelação e profecia. Um
dia um padre, tendo visto em sonhos pálido e triste, um seu irmão
falecido há pouco, disse ao Pe. Calvi, encontrando-o: "Recomendo-
vos uma alma do Purgatório". — "Quem ? volveu ele, — vosso irmão?
Confiança, está no céu". Anunciou ao célebre Battoni que ele seria o
pintor do Sagrado Coração e executaria nesse gênero uma obra de
grande valor, que daria glória a Deus e lucro a ele e à família; e, de
fato, Battoni foi o autor do painel encomendado pela rainha de
Portugal para a nova igreja do Sagrado Coração em Lisboa. Predisse
também que Pausi, discípulo de Battoni, iria para a China e lá havia
de pintar belas imagens do Coração de Jesus para os Missionários e os
centros de catequese. Estendeu aos gravadores o seu apostolado e fez
imprimir-se em medalhas a aparição de S. Luís Gonzaga ao Irmão
Celestini, curando-o para que ele propagasse o culto do Sagrado
Coração. A esta vida de apóstolo coroou a morte do justo, morte rápida
e suave, em 1788, na primeira sexta-feira do mês, em dia do
aniversário da morte de S. Francisco Xavier, e cerca da hora em que a
lança do soldado abriu o Coração de Jesus.

DIA 15
O "Apostolado da Oração", que foi em sua origem apenas uma liga
piedosa formada pelo padre Gautrelet, entre os jovens religiosos de
Vais, tomou a vasta organização e o desenvolvimento que tem em todo
o mundo católico, por obra do Padre Henrique Ramière. Este
sacerdote, dotado de grande talento e provido de variada e sólida ins-
trução, desde o início de sua carreira deu-se ao ensino e ao púlpito,
pregando de continuo e com muito fruto. Era igualmente um bravo
polemista, e, em sendo atacada uma verdade religiosa, saía a defendê-
la, descarregando o golpe com a força precisa para desarmar o
adversário. Por esta sua vivacidade, e pelo zelo com que se dedicava
às boas obras, como que arrastando todos a servi-las, foi taxado de
excessivo ardor; mas a tal censura respondeu de uma feita a certo
Prelado: "Os carvões em brasa são os que acendem os ouros".
Intransigente quanto aos princípios e ao dever, ele era de uma
docilidade extrema, e estava sempre disposto a qualquer sacrifício
quando se tratava de fazer o bem. “Sois de um espírito admiravelmente
conciliador”, escrevia-lhe um cavalheiro que com ele travou rijo
combate na imprensa. "É tão humilde e simples, dizia alguém que o
conheceu de perto que aceitará observações de uma criança". Confiava
seus manuscritos a quem se queria instruir sobre assuntos de que ele
tratava, e deu todos os seus sermões ingleses a um Missionário que
partira para a América. Tinha a mesma dedicação para as classes
cultivadas e para as condições humildes; às vezes, recolhia-se a
estudar numa casa de campo, a fim de que os habitantes do lugar
tivessem a Missa: visitava-os todos, cuidando particularmente dos
enfermos, a quem ministrava conforto espiritual e deixava a esmola
para o remédio e o sustento, quando preciso. Perdoava generosamente
as ofensas; a alguém que o estimava muito e lhe perguntou como
deveria proceder para com uma pessoa que lhe era hostil, respondeu
de pronto: "Ajudai-o em tudo que puderdes", e como lhe observassem
que esta pessoa o deprimia, replicou: "Ele tem razão de estar
descontente comigo; eu não o quis molestar, mas as aparências eram
contra mim. O Coração de Jesus não sofreu mais?" Desde sua primeira
Missa escolhera como roteiro de sua vida as palavras do Evangelho:
“Quem se nutre de mim deve viver para mim”. "Compreendi, dizia ele,
que o meio mais poderoso para me firmar em minhas resoluções era
ter os olhos sempre fixos em Jesus Cristo, e ver nele o ideal dessa
liberdade, dessa paz, dessa vida pela qual suspiro. Seu Coração é a
fonte dela; cabe-me buscar aí quanto queira". E, com esta norma,
organizou o "Apostolado da Oração" e para ele criou o "Mensageiro
do Coração de Jesus"; surgindo contra esta a objeção de que havia já
muitas folhas e revistas religiosas, e que seria dificílimo sustentar por
muito tempo uma que se tivesse de ocupar sempre deste assunto,
respondia triunfante: "Quem é que teme vir a esgotar-se um assunto,
como esse, único, é verdade, porém mais vasto que o oceano?
Poderemos falar sempre e muito, e nunca faltará o que dizer sobre
aquele que "é tudo em todas as coisas". De fato o "Mensageiro" saiu
e, há mais de 50* anos, percorre o mundo, auxiliando todas as causas
católicas e pondo-as sobre o amparo do Sagrado Coração. Pio IX o
aplaudiu logo assinalando que ele unia as orações dos fiéis para os fins
mais urgentes e os punha em comunicação com o Coração de Jesus,
fundindo-os cada vez mais no espírito de unidade. Entretanto, o padre
Ramière, quase ao termo de tão laboriosa e fecunda carreira,
lembrando-se do lema que adotara ao subir pela primeira vez ao altar,
dizia humilde: "Há 35 anos que me nutro todos os dias de Jesus Cristo.
Celebrei neste espaço de tempo 12900 missas; vivo constantemente
sob o mesmo teto que o Divino Salvador; e como estou ainda longe de
viver Unicamente d'Ele e para Ele!" Nas ligeiras notas sobre um retiro
que pregou três dias antes de morrer, lê-se: "É tempo de me preparar
imediatamente para o último sacrifício... O Senhor bate já à porta. Res-
ta-me talvez bem pouco tempo para me dispor à grande prestação de
contas e santificar minha alma, e mais do que nunca devo fazê-lo pela
união com o Coração de Jesus". E na oitava de S. João Evangelista,
em janeiro de 1884, quando se dispunha a celebrar o santo Sacrifício,
o Padre Ramière cala ferido de morte nos braços de seus irmãos. A
"intenção que no "Mensageiro" ele designaria aos fiéis nesse mês, a
sua primeira e última intenção, fora o "estabelecimento do reino de
Deus na terra!"

*
O Mensageiro do Coração de Jesus completa, no Brasil, neste ano de 2011, 115 anos. Seu
primeiro exemplar foi publicado em 1896, criado pelo padre jesuíta Bartolomeu Taddei,
considerado o fundador e o maior promotor do Apostolado da Oração no Brasil.
DIA 16
Maria André, a dedicada "Zeladora do Apostolado da Oração", foi
logo após o batismo consagrada a Nossa Senhora, usando, por voto
materno, só vestes brancas, até os três anos de idade: era como um
prenúncio da angélica pureza com que em curta vida ela edificaria o
mundo. Aos cinco anos, já lia bem, tinha gosto pela oração e mostrava
um coração terno e compassivo, interessando-se, vivamente, pelos que
sofriam e revoltando-se contra quem os maltratava, até mesmo em
relação aos contos que ouvia: desgostava-lhe a fábula do Lobo e do
Cordeiro, e afligia-lhe recitá-la, tanta era a sua pena do inocente que a
fera escarnecia e imolava! Pelo fervor com que orava na igreja,
pessoas havia que procuravam sua mãe para lhe dizerem com
instância: "Peça a sua menina que reze por mim". Maria desejava
ardentemente comungar, e preparou-se com o maior cuidado e zelo.
Numa das lições de catecismo, o Padre, falando sobre as faltas que se
cometem diariamente, sobretudo as desobediências, mandou que se le-
vantassem as crianças que disto se sentiam culpadas; ninguém se
moveu, porém Maria, não se julgando de todo inocente neste ponto,
ergueu-se humilde, sem se confundir com o riso malicioso de algumas
das companheiras. Sua primeira Comunhão, feita com as melhores
disposições, inflamou-a no amor à Sagrada Eucaristia: buscava-a
frequentemente. Vendo sua mãe voltar da Comunhão, quando não
pudera acompanhá-la, abraçava-a contente, porque acabava de entrar
aí no peito materno o Deus Sacramentado. As boas qualidades de
Maria André manifestavam-se igualmente no colégio em que se
educou; as mestras apontavam-na às outras como o exemplo; as
condiscípulas, ao contrário de se melindrarem com isso e contestarem,
reconheciam-no ainda em maior grau, exclamando: "Nós não
podemos fazer o que Maria faz, ela é uma santa". E, sem se envaidecer
de que assim a julgassem, a jovem dispensava o mesmo carinho e
dedicação a todos; mais tarde, na vida social ou no lar, empenhava-se
por todas as formas em ser útil, em auxiliar a quem precisasse.
Amando muito o desenho e a pintura, abandonava o lápis e o pincel
para se dar a trabalhos manuais que não lhe agradavam, mas que parti-
lhava satisfeita para aliviar aos que via sobrecarregados: "Eu posso
fazer isto, dizia, dividamos".
O bem das almas, porém, era o que sobretudo procurava, lembrando,
gentilmente, os deveres religiosos, e a prática de boas obras e salutares
devoções; tinha sempre diversas a propor, e quando suas compa-
nheiras riam disso, volvia: "É porque assim podem escolher; se não
quiserem uma, têm outra". Trabalhava, porém, mais especialmente
pelo Apostolado da Oração, de que era zeladora: explicava seus dons,
mostrava, com eloquência e zelo, os frutos e vantagens que dele se
podiam colher, notando suplicante: "É tão pouco que fazer, e tanto a
lucrar!" Consegue assim reunir centenas de associados, e, como o
espírito da devoção ao Coração de Jesus é fazer o bem por todas as
formas e zelar tudo o que interessa a glória de Deus, Maria André pro-
cura, a miúdo, as operárias e vela em que não faltem às Missas de
preceito e frequentem a Comunhão; visita e socorre aos enfermos,
ensina o catecismo às crianças, fazendo profusa distribuição de
imagens, etc. Além disto, executa por suas mãos belos trabalhos para
a decoração do altar, e, como não houvesse organista para as
cerimônias da igreja, só por isso estudou a música, e em breve, toda a
vez que era preciso, estava a tocar o harmônio. Devotíssima do SS.
Sacramento, não prescindiu nunca de entrar nas igrejas por onde
passava fosse embora só para se ajoelhar um momento diante do
Tabernáculo; pelo fervor edificante com que fazia a via-sacra, mais de
uma vez a designaram assim: "Olhem a moça que faz tão bem o
caminho da cruz!" Dos vivos o seu zelo se estendia aos mortos; um
dia, ao entrar em casa, sabe que morrera, subitamente, um velho quase
abandonado. Maria, contristada, vai a sua mãe, e lhe diz: "Ninguém se
lembrará de mandar dizer uma Missa por este pobre senhor que bem
precisa; só me resta um franco; se me pudesse dar outro, faríamos logo
celebrar uma. Em seu desejo de mais servir a Deus, quis ser Religiosa;
seus velhos pais opuseram-se, dizendo que a separação lhes causaria a
morte e se esforçaram por distraí-la de seu fervor devoto. Maria sofreu
com a recusa e foi definhando; disseram-lhe então que, se o contrariá-
la a afligia muito, livre estava, fizesse o que queria; mas com lágrimas
nos olhos, respondeu: "O sacrifício está feito; não falemos mais nisto".
O abatimento das forças prosseguiu; numa procissão que
acompanhava, impressionou a sua mãe o ardor e transporte com que
entoava, como um hino de libertação, o cântico: "No céu, no céu, com
minha Mãe estarei!" Pouco depois, a febre a prostrara: "O bom Jesus
me tem pregado em sua cruz, escrevia ela na sua última carta; — desde
ontem estou reclusa. Eis como as corriqueiras são punidas. Deo
gratias, sempre". Após um mês de atrozes sofrimentos, durante os
quais recebeu por várias vezes os socorros espirituais, a 28 de
novembro de 1891, dizendo ternamente a seus pais: — "Eu orarei por
vós", — exalou o último alento; sob um impulso do alto, sua mãe
recitava nessa hora o "Magnificat, como para acompanhar com a ação
de graças da SS. Virgem a entrada triunfante de sua filha no céu.

DIA 17
O Pe. Vítor Drevon, descendente de Bayard — o cavalheiro "sem
medo e sem pecha", — mostrou-se como sacerdote um digno
continuador das tradições de seus maiores, na firmeza com que
guardou os postos que assumiu, sem jamais contar o número dos
inimigos que tinha a bater e sem se poupar a nenhum sacrifício na
defesa de sua santa causa. Professando na Companhia de Jesus,
exercitou-se primeiro na Algéria, em Constantina, onde num
quarteirão árabe transformou uma velha mesquita em igreja do
Coração de Jesus, fundando aí um centro de fervorosa fé cristã.
Chamado pouco depois à França, indo pregar em Paray-le-Monial uma
novena, falaram-lhe à alma os apelos do Sagrado Coração para que se
lhe oferecessem desagravos pelos ultrajes e abandono que sofria de
tantos, e trouxe daí a inspiração de criar a "Obra da Comunhão Re-
paradora". Iniciou-a na sua casa religiosa em Lons-le-Saulnier,
associando-se lhe o escol das almas piedosas que ele dirigia. O espírito
de sacrifício era a alavanca de que se servia para tão santo movimento,
a Comunhão fervorosa frequente é que o havia de incutir e fortalecer,
unindo o cristão à vida mística de Nosso Senhor no tabernáculo. "Vós,
dizia ele, deveis morrer cada dia no Sagrado Coração. Essa morte
diária de todo o vosso ser e de suas inclinações mundanas, é que vos
pode fazer crescer na virtude e no amor de Deus. É na Santa Mesa que
achareis as forças para vos sacrificardes pelos ingratos e para
consolardes o Divino Coração das ingratidões que sofre". Não se deve
comungar só por si e pela família, mas também pela Igreja, e não tão
somente para gozar de Deus neste mundo, mais ainda e sobretudo para
o desagravar e obter o perdão dos pecadores". E foi ensinando e
exortando assim que, de um pequeno santuário, ele espalhou no
mundo inteiro a "Comunhão Reparadora". Com esta grandiosa
empresa tentava aqui e acolá vários expedientes e modos de dar
combate ao mal e salvar as almas. Quando a França gemia sob o peso
da invasão estrangeira e entre os horrores da Comuna, ouvindo ele de
pessoa veneranda que tais males cessariam se os poderes do Estado e
as classes sociais se unissem em preces, correu a solicitá-lo dos
representantes da nação, dirigindo-se a um por um, e, a despeito de
que intrépidos cristãos, como Luís Veuillot, tivessem como perdidos
tais esforços, a proposta foi votada no Parlamento quase
unanimemente. Promoveu também as peregrinações a Paray-le-
Monial, percorrendo para isso a França e a Bélgica, e sustentando ativa
correspondência epistolar com muitos outros países, de cuja campanha
resultou, em junho de 1873, o concurso de milhares de peregrinos de
todas as procedências, e entre eles um cortejo de 200 deputados
franceses que ofereceram um estandarte ao santuário e fizeram nele a
sua consagração ao Sagrado Coração. Ao anunciarem os inimigos da
Igreja a comemoração do centenário de Voltaire, o Pe. Drevon
promoveu um ato universal de desagravo e conseguiu nesse intuito
mais de dois milhões de "Comunhões Reparadoras". Realizou ainda,
em Paray-le-Monial, duas grandes obras em honra do Sagrado
Coração: o "Museu e a Biblioteca Eucarística", colecionando todas as
produções da arte e todos os livros estampados em homenagem ao ine-
fável mistério do amor de Jesus. Ouviram-no algures exprimir o desejo
de morrer em Roma, e oferecer a sua vida pela paz da igreja e pela
pátria; indo à Cidade Eterna como postulador da causa do Pe.
Colombière, no dia do aniversário da morte deste caiu enfermo,
agravando-se rapidamente o mal, a que sucumbiu invocando de
contínuo por longas horas o nome de Jesus.

DIA 18
Armelle Nicolas foi uma pobre criada, mas tão admiravelmente
exerceu o seu humilde ofício que deixou uma abençoada memória em
Campenac, sua terra natal, e mereceu que o chefe da família a que
serviu durante sua vida inteira atestasse a seu respeito o seguinte: Deus
por uma especial providência no-la deu, logo que me casei, para
governar a nossa casa, pois que, sendo minha mulher inexperiente
nisso e doente, Armelle a servia, consolava e ajudava carinhosamente
assim como a todos da casa, onde muitas vezes havia enfermos e meu
filho mais velho sofreu por muito tempo uma aborrecida moléstia em
que lhe dispensou ela inexcedíveis cuidados. Atendia a tudo em
tempo, e com tanta diligência fazia suas devoções da igreja e suas
compras, que mal se percebia que saísse de casa; quando advertia de
alguma falta aos companheiros de serviço, era com bondade e
paciência tais, que eles a ouviam dóceis e se corrigiam, e em 35 anos
que esteve conosco nunca a vi irritada ou impaciente. Educava os
meninos com zelo e amor, ensinando-os desde que sabiam falar, a
darem seu coração a Deus e fazerem pequenas orações. Até as pessoas
de posição que frequentavam o nosso lar, tinham-lhe estima e respeito.
Interessava-se por todos os nossos negócios e os recomendava a Deus;
num grande processo que sustentei, ela muito me consolava e animava,
e às suas orações atribuo em grande parte o triunfo que alcancei. Era
enfim uma cristã, em quem não conheci defeito". Por sua vez o cura
de Campenac, após a morte de Armelle, dizia do púlpito: "Desde sua
infância deu indícios de uma vida acima do comum. Caracterizava-a
uma perfeita caridade com o próximo: não dava lugar a que sua mãe
ou os de sua casa fizessem nada de penoso, antecipava-os em tudo
quanto era de maior trabalho. Sua devoção à Missa era tal, que desde
a idade de 7 anos, enquanto morou em minha paróquia, nunca falhou
um só dia, embora morasse longe da igreja. Dava o seu almoço às
companheiras para guardarem o seu rebanho, enquanto ela ia assistir
ao Santo Sacrifício". O povo de Campenac, a uma voz, o confirmava,
chamando-a todos a boa Armelle. Aos vinte anos, deixou as ocupações
do campo e veio procurar trabalho na cidade, para ter mais frequente
o ensino e o conforto da religião. "Se meu sangue pudesse valer
alguma coisa para o bem das almas, dizia ela, eu o daria todo". E a
seus votos e orações pela conversão dos pecadores juntava um
empenho constante com os ricos para que protegessem as obras
apostólicas e auxiliassem as missões, sobretudo nas freguesias rurais.
Soube-se que muito concorreu para a conversão de pessoas que de há
muito viviam escandalosamente no vício. Aplicava as Missas que
ouvia e todas as suas boas obras ao alívio das almas do purgatório: "Se
eu visse um de meus parentes num braseiro, deixa-lo-ia arder, podendo
salvá-lo? Que não devo, pois, fazer para socorrer a meus irmãos no
purgatório!" Compadecia-se também vivamente dos pobres e dos
enfermos, distribuindo com eles o seu salário e visitando-os com a
mais desvelada caridade: a um operário de Vannes que vivia abando-
nado até da própria esposa, coberto de úlceras que repugnava olhar,
ela ia ver todos os dias, levava-lhe o sustento, pensava-lhe as chagas,
exortava-o à paciência, e assim o tratou por muito tempo até que ele
morreu, bendizendo a Deus de que a houvesse enviado em seu socorro.
Não lhe faltaram tentações, e às vezes violentas; porém corria a
abrigar-se como uma criança nos braços de seu Pai do céu rogando
que lhe não consentisse ofendê-lo, e a tentação cessava. Perguntando-
se-lhe, um dia, de que meios se servia para chegar a essa vida
exemplar, respondeu que durante vinte anos entregou seu coração a
Jesus, e ao cabo destes Jesus lhe abrira o seu. “Eu quero te abrigar em
minha casa, me disse Jesus, e, mostrando-me a chaga do seu divino
lado, fez-me entrar por aí em seu Coração... E me achei aí encerrada
com tanta glória e liberdade que o não podia compreender. Sentia-me
ali à vontade, nada me oprimia. Via esse Divino Coração tão
infinitamente grande, que mil mundos inteiros não bastariam para
enchê-lo. Eu agora, dia e noite, não saio do Coração de Jesus; é um
asilo, é meu refúgio contra todos os meus inimigos”. Aconselhada a
deixar o serviço doméstico para praticar mais livremente suas
devoções, recusou-o, declarando que nessa baixa condição se
exercitaria mais na humildade, e, servindo as criaturas, aprenderia a
servir a Deus. Num dia da oitava de "Corpus Christi" recebeu o coice
de um cavalo, que lhe fraturou a perna; durante mais de um ano, presa
ao leito ou cadeira, não ficava ociosa, fazia-se conduzir a um canto da
cozinha, e daí dirigia o trabalho ou executava qualquer coisa de útil à
casa; e quando lastimavam que se visse privada de praticar como
dantes a sua fé e dedicação, acudia logo: "Jesus me ensinou que tudo
o que é feito ou suportado por seu amor, é uma verdadeira oração. Por
sua graça e sua grande misericórdia, eu estou numa perfeita união com
Ele". Nestes sentimentos e santas disposições morreu aos 65 anos de
idade; seu amo determinou que se lhe fizesse o enterro como o de uma
sua filha, e, mandando que se lhe não cobrissem os pés, foi de joelhos
beijá-los. Foi uma procissão de todo o povo de Campenac o seu
préstito fúnebre, e sua sepultura, diz quem lhe historiou a vida, é
visitada por muitos, a lhe pedirem graças ou agradecê-las.

DIA 19
Quando desapareceu dentre os vivos o almirante Coubert, pranteou-o
em França o mundo literário pela pena de um dos mais notáveis
escritores, Pierre Loti, e a sociedade cristã pela palavra de um dos mais
eloquentes oradores sacros, Mons. Freppel. E bem o merecia, porque
havia sido um herói e um justo. No tempo em que vivemos, dizia o
almirante Julien de la Gravière, ele pode ser apontado aos nossos
jovens oficiais como o melhor e mais completo modelo no caminho
do patriotismo e da honra. Coubert reunia ao cabedal científico essa
paciência operosa que atende às coisas no seu conjunto e nos detalhes,
e possuía o sentimento de justiça que com a bondade d’alma granjeia
ao chefe a afeição de seus subordinados. Ele deu sempre às equipagens
o exemplo de uma fé sincera e viva: os capelães de armada atestaram
todos, verdadeiramente edificados, a piedade e recolhimento com que
assistia à Missa, acompanhando no “Manual do Cristão” os atos e as
orações da liturgia. Quando foi decretada em França a expulsão das
Congregações religiosas, sendo ele nomeado governador da Nova
Caledônia, declarou ao ministro: "Entrando para a armada, fiz o
sacrifício da minha vida, não o de minha honra. Sou católico. Se
contais comigo para executar os decretos, estais enganado. Procurai
algum mais complacente". E só aceitou o cargo, depois que o ministro
lhe respondeu: "Não se trata agora de decretos, sois preciso lá, parti".
E enquanto ocupou esse posto, Coubert defendeu corajosamente as
Congregações contra a perseguição dos sectários e dos maus, e a
respeito deles escrevia: "Na praça pública e como traidores da França
se deveriam castigar os que estorvam a ação dos nossos missionários".
Ao deixar o cargo, anunciava também: "Antes de partir de Numea, tive
a alegria de favorecer e autorizar a fundação de uma sociedade de boas
pessoas, cujo fim é manter e desenvolver as escolas congreganistas.
Numa semana se reuniram os capitais necessários".
Aberta a guerra da França com o Tonkin, teve Coubert o comando das
operações e ganhou assinaladas vitórias: porém nesse caminho de
glórias o prostrou uma enfermidade mortal, que ele sofreu até a última
hora como verdadeiro cristão, pedindo e recebendo os sacramentos, e
apertando ao peito o crucifixo. Coubert fora, em toda a sua vida, um
adorador fervoroso do Sagrado Coração. Subscrevera “em nome de
sua esquadra” uma avultada quantia para a construção da igreja do
"Voto Nacional", enviava-lhe anualmente o seu óbulo, e quis que após
a sua morte sua gloriosa espada e as condecorações com que foi
distinguido se depositassem na capela que a marinha católica erigiu no
grande santuário.

DIA 20.
Garcia Moreno, o heroico presidente da República do Equador, desde
menino revelou um talento não comum e adquiriu uma vontade
enérgica e firme. Cedo a pobreza se assentou em seu lar, sendo preciso
que sua própria mãe ministrasse ao órfão o ensino primário. Passou
depois a estudar humanidades com um sábio Religioso da Ordem de
Nossa Senhora das Mercês, que se afeiçoou vivamente ao discípulo,
por sua constante aplicação e a facilidade e rapidez, com que tudo
aprendia. Acabado este tirocínio, o jovem resolveu, ainda através de
todas as privações, ir cursar a Universidade, e também nesta
circunstância lhe valeu o Religioso, recomendando-o a duas irmãs
suas residentes em Quito, que, embora pobres, o acolheram. Aí
entregou-se com ardor aos estudos, que estendia até a noite alta e rea-
tava, madrugando; mas em compensação dos labores conquistava o
primeiro lugar nas aulas e se fazia querido e respeitado por mestres e
condiscípulos. Aos vinte anos, os salões de Quito abriam-se ao pobre
que tanto se distinguia, e ele se deixou seduzir um momento pelas
festas do mundo, mas logo reagiu, e, cortando rente os cabelos como
se fora um monge, orou e disse, levantando-se: "A vida é muito curta
para se gastar sequer um dia em futilidades. Agora, serei mais fiel a
meus livros". Pensou então em abraçar o sacerdócio, e chegou a
receber a tonsura e ordens menores, mas ou por sua sede insaciável de
saber, que parece querer lançar-se a tudo, ou por desígnios da
Providência que traçavam outros combates, diplomou-se em direito,
dando-se primeiro à advocacia, que abandonou pelo desgosto de ter
defendido uma causa que conheceu mais tarde ser injusta. Com um
sábio estrangeiro, expondo por vezes a vida, fez cuidadosas
explorações do grande vulcão de Quito, das quais apresentou
substanciosas memórias que as revistas científicas publicaram.
Assentou por fim a sua tenda no jornalismo e na carreira política,
votando-se à obra da restauração dos princípios cristãos nas
instituições públicas de seu país. Nessa campanha, vibrou a sua
brilhante "Defesa dos jesuítas", demonstrando que a perseguição a
esses Padres em Nova Granada, no Equador, em todo o mundo, tinha
por alvo a própria fé e o bem que eles faziam; concluía assim:
"Chamar-me-ão fanático, porque empreguei meu tempo em traçar esta
defesa, mas isto pouco me importa. Sou católico e me ufano de o ser,
conquanto não me conte como um dos mais fervorosos. Cristão e
patriota, não me posso calar sobre uma questão que afeta no mais alto
grau a religião e a pátria". Mas, se na verdade esqueceu por algum
tempo certos deveres de cristão, sua consciência despertou, diligente
e humilde, quando interrogada. Um dia, em Paris, onde Moreno se
abrigara contra as graves ameaças dos que dominavam no Equador,
defenderam em sua presença o ato de um infeliz que à hora da morte
recusara os sacramentos; ele rebateu, fazendo ver que, se o
esquecimento do dever religioso, no curso da vida, pode quiçá escusar-
se pela irreflexão humana e multiplicidade de negócios que desafiam
a atenção, à hora da morte, em que se decidem os interesses eternos, o
desprezo da religião é uma coisa monstruosa; e dissertou calorosa e
brilhantemente sobre a sublimidade da fé. O contendor, não podendo
retorquir vantajosamente, achou esta saída: "Mas, vós mesmo vos
descuidais de praticar a bela religião que pregais; desde quando não
vos confessais?" Garcia Moreno curva a cabeça um instante, e,
erguendo-a logo, exclamou: "Obrigado, amigo, respondestes com um
argumento pessoal, que vos pode parecer hoje excelente, mas que
amanhã nada valerá;" e no mesmo dia confessava-se, reatando na
manhã seguinte a prática regular e fiel de seus deveres cristãos. Eleito
reitor da Universidade pelo corpo docente, voltou a dar combate aos
abusos do poder, ganhando tanto a confiança dos seus concidadãos,
que lhe deram o voto sucessivamente para os mais altos cargos e na
convenção nacional de 1861 o elegeram Presidente da República. Viu-
se então restabelecida no país a ordem; o ensino cristão propagou-se,
recebendo o concurso das instruções religiosas da Europa mais altos
cargos e na convenção nacional de asilos e hospitais; e celebrou-se a
concordata com a Santa Sé, dando ação livre à Igreja em seu
ministério. Garcia tinha sobre sua mesa de trabalho, como a inspirá-lo
e guardá-lo, uma imagem do Sagrado Coração. Completo o quadriênio
do governo, deixava-o por entre ovações do povo que em 1869 o
reconduzia à presidência. Neste segundo período presidencial obteve
que o Congresso reformasse a Constituição, moldando-a pelos
genuínos princípios cristãos, e por atos oficiais consagrou a República
ao Sagrado Coração de Jesus. "É preciso, porém, dizia ele neste ato,
que o povo se purifique no Sangue divino, para que a oferenda seja
digna". Na última página de um livro da "Imitação" de que usava,
achou-se escrito por seu punho: "Todas as manhãs, na oração, pedirei
particularmente a virtude da humildade; assistirei à Missa, recitarei o
rosário, e lerei um capítulo da "Imitação"... Farei duas vezes por dia o
exame particular, e confessar-me-ei todas as semanas". Nos dias de
sua eleição, a esposa mostrou desejos de que oferecesse um banquete
aos diplomatas e ministros, e declarando ele que não gastaria com
festas dessa ordem quando eram tantas as necessidades públicas, ela
deu-lhe 500 piastras suas para esse fim; Moreno levou-as ao hospital,
mandando que com a soma dessem melhor refeição aos pobres, e, de
volta, informou-a do fato, dizendo: "Melhor do que desejava, apliquei
teu dinheiro". Garcia Moreno foi o único chefe de Estado que teve a
coragem de protestar contra a ocupação de Roma pelo rei do Piemonte.
Um alemão, professor da Escola Politécnica, ao voltar de visitá-lo em
sua casa de campo, escreveu edificado que aí o vira com o maior
recolhimento ajudar à Missa, diante de todo o povo do lugar. Foi ainda
reeleito em 1873, mas a impiedade e o maçonismo, exasperados contra
o seu governo cristão, trataram de matá-lo. Avisado várias vezes até
do próprio dia que estava marcado para o assassinato, e aconselhado a
se fazer seguir de uma escolta, não o quis, declarando que a última
medida a tomar era a de ser pronto para ir à presença de Deus, feliz de
morrer pela fé. No dia 6 de agosto de 1875, primeira sexta-feira do
mês, assistiu à Missa e comungou na igreja de S. Domingos em Quito;
a uma hora da tarde, se dirigiu para o palácio, entrando antes na
catedral para adorar o SS. Sacramento exposto; à saída, os algozes o
atacam de emboscada, vibrando sucessivos golpes, e ele cai,
exclamando: "Deus não morre!" Indignado contra o crime que o
surpreendera, o povo castigou logo os principais assassinos; o
congresso nacional, decretando o luto público, proclamava Garcia
Moreno o regenerador da pátria e mártir da civilização católica; e Pio
IX, à notícia da grande perda, pranteava-a, dizendo à cristandade:
"Cavalheiro de Cristo, ele caiu vítima da fé e da caridade com a
pátria!"

DIA 21
O dia 21 de junho evocará sempre à lembrança dos católicos o vulto
angélico de Luís Gonzaga, o pobre e humilde de coração que tanto
amou e imitou o Coração de Jesus. Descendente de príncipes, ele
mostrou, desde tenra idade, o maior desapego das grandezas e
honrarias do mundo e uma inclinação afetuosa para os pequenos e
pobres, a quem falava com particular agrado e distribuía copiosas
esmolas. Viam-no, ainda menino, erguer-se do leito pelo meio da noite
e pôr-se a orar de braços estendidos em cruz; acudia a acomodar os
criados quando contendiam, repreendendo sem aspereza os culpados,
e nas festas da corte, sempre que apareceu, foi com tanta modéstia e
superioridade que a todos impunha respeito. Refere-se na sua vida que
diante de damas não levantava os olhos, de modo que, vendo
frequentemente a imperatriz Maria da Áustria, nunca lhe conheceu os
traços da fisionomia, e de seu pudor se conta que, a despeito da
ordinária brandura, um dia fez corar a certo velho que proferiu um dito
indecoroso. Mesmo na vida secular praticava a mortificação e por
modo que ninguém o podia embaraçar, como nenhum esforço nem
súplica ou estratagema da família conseguiu demovê-lo de abraçar a
vida religiosa. Como noviço da Companhia de Jesus, pedia e prestava-
se com satisfação aos ofícios mais humildes: carregava as cestas com
provisão destinada aos pobres, limpava na cozinha os pratos e os
talheres, sacudia as teias de aranha, cuidava dos candeeiros do uso
comum; o que suplicara lhe reservassem, era o mais acanhado e
desprovido, e suas vestes e panos de cama os mais grosseiros. Quando
saía pela cidade em Roma, era seu prazer explicar as verdades da fé
nos lugares onde afluía o povo, como o campo de Flora ou Montanara;
e o fazia com tanta unção e clareza, que a todos convencia e cativava:
um dia o cardeal de Cusa, de passagem numa praça em que ele
ensinava o catecismo, parou a escutar atento e edificado a pregação do
jovem aos camponeses, de pé sobre um tablado, ao modo por que os
mercadores ambulantes anunciam seus artigos, mas apregoando e ex-
pondo os artigos da salvação. Dele dizia também o sábio cardeal S.
Belarmino: "Dando ao Irmão Luís os exercícios de Santo Inácio, nele
descobriu tal cópia de luzes, que, eu velho, nascido e educado num
meio de conforto aprendi deste menino a arte de meditar". Em firmeza
soube ele sempre dominar a natureza e o hábito, arriscando-se a todos
os perigos, vencendo todas as repugnâncias, e propondo-se a todos os
sacrifícios que a salvação das almas ou a caridade com o próximo lhe
pedissem. Provou-o à evidência quando em 1591 a fome e a peste
grassaram em Roma: o Santo percorria a cidade, com um alforje na
mão e pedindo esmolas, que distribuía às vítimas do flagelo; e,
encontrando um pestoso caído na rua, toma-o aos ombros e o conduz
ao hospital da Consolação. Neste santo lidar contraiu a peste, e dela
morreu, ouvindo-se então em sua câmara suaves melodias de origem
misteriosa, que se atribuíram aos anjos, festejando a seu irmão
terrestre. A força e glória de S. Luís estiveram em que ele foi um
precursor do culto ao Sagrado Coração, conhecendo-o e praticando-o,
se não em sua forma, em seu espírito que é o de cristianismo. S. Luís,
diz Santa Madalena de Pazzi, quando viveu no mundo, foi sempre a
disparar flechas de amor para o Coração do Verbo. Foi no dia 21 de
junho que Santa Margarida Maria e o venerável padre Colombière se
consagraram ao Divino Coração, e o padre Croiset indica S. Luís como
um guia nessa devoção. Quando Clemente XIII aprovou e instituiu a
sua festa, um solene milagre veio confirmá-la: o noviço jesuíta
Nicolau Celestini, que se achava mortalmente enfermo, foi curado de
súbito por intercessão de S. Luís Gonzaga, que lhe apareceu,
abençoando-o e recomendando-lhe propagar a devoção ao Sagrado
Coração como agradabilíssima ao céu.

DIA 22
O General de Sonis, uma das mais brilhantes figuras do exército
francês, nascido nas Antilhas, era tão bravo soldado quanto fervoroso
cristão. Descuidado de seus deveres religiosos a princípio, muito
influiu em sua resolução de os praticar um simples fato: a visita
confortadora que lhe fez um sacerdote para ele desconhecido, o Pe.
Ponce, quando o jovem e suas irmãs choravam inconsoláveis e sós a
morte de seu pai, ocorrida no curso de uma viagem, longe da família
e num lugar onde ninguém os conhecia.
“Cada palavra desse padre me calava na alma, escreveu depois Sonis,
e quando ele nos deixou, eu estava convertido; depois fui sempre
avançando, porque, desde que se começa a amar a Deus, não é possível
mais achar que se o ame bastante”. Na escola "Saint Cyr", foi na sua
época um dos raros alunos que não hesitavam em se declarar cristãos.
Enviado para a guarnição de Limoges, mostrou-se aí um verdadeiro
"miles Christi": todos os dias às 5 horas da manhã mesmo no maior
rigor do inverno, via-se o jovem oficial da cavalaria dirigir-se à cate-
dral, ouvir atentamente a Missa e voltar ao quartel. Num exercício
militar o seu cavalo perdeu o freio e deu-lhe uma queda que poderia
ser mortal; seu primeiro ato, logo que ficou livre, foi ir à igreja, em
grande uniforme como estava, fazer a via-sacra em ação de graças.
Tinha em sua sala de recepções uma imagem do Sagrado Coração,
diante da qual ardia sempre uma lâmpada. Comungava todas as
semanas, e fazia diariamente a visita ao SS. Sacramento, como que
montando guarda diante do trono do Rei do Céu. "Pois que aí está
presente, é onde se deve ir tomar suas ordens todos os dias". Magoava-
o qualquer desrespeito à religião, e seus inferiores, sabendo-o
refreavam-se: um soldado, em certo exercício soltou uma blasfêmia,
porém olhando logo em redor e vendo que Sonis estava longe, disse
como arrependido: "Foi bom que o lugar-tenente não ouvisse; ele se
vexaria". Outra vez, encontrando numa praça o Santo Viático,
ajoelhou-se ali mesmo e adorou: passava num carro aberto uma jovem
mundana, que pondo-se em pé sobre o coxim, deu uma gargalhada.
Ante o insulto ao seu Deus, Sonis levantou-se, e, medindo-a de alto a
baixo, disse revoltado: "Isto te faz rir a ti?" A mulher empalideceu e
ocultou-se. Em sua devoção ao SS. Sacramento, promoveu a adoração
noturna para consolar ao Coração de Jesus nas horas em que se o deixa
quase solitário; e comunicava o fato a seu amigo Luís de Sèze nestes
termos: "Começamos nossa obra este ano, estando na terça-feira
gorda. Procuramos assim pôr na balança dos julgamentos de Deus um
pouco de amor na concha da misericórdia, que está muito vazia de
nossas reparações, a fim de fazer o contrapeso à malícia dos homens".
Nos dias de jejum tomava uma refeição ao pôr do sol e da quinta-feira
ao sábado santo fazia-o com tanto rigor que um Religioso lhe
aconselhou moderação: "Se em consciência posso bem suportá-lo,
replicou ele, podereis vós dispensar-me?" Tomou parte nas expedições
à Algéria e à Itália em 1895, vencendo fortes batalhas Percorria depois
o acampamento; dirigindo-se carinhosamente aos feridos, lhes ajudava
o tratamento, lembrava orações e distribuía medalhas bentas. Nas
marchas e reconhecimentos, onde havia um presbitério, apeava-se e ia
confessar-se: "Às vezes, refere ele, o cura não sabia o francês e eu
tinha de me arranjar com o pouco de latim que aprendera; para a
Comunhão nos dias seguintes, era entrar na igreja que encontrávamos,
a pedi-la com presteza; a ação de graças se ia fazer a cavalo e
correndo". Nas fronteiras de Marrocos, o cólera atacou as forças e fez
muitas vítimas. Em carta a um amigo, Sonis, consternado, relatava-o
assim: "Angustiava-me ver esses caros companheiros caírem como
moscas, sem haver quem os fizesse pensar em sua salvação eterna: não
tínhamos capelão. Eu fiz o que pude; animava-os, fazia-lhes boas
exortações, apresentava-lhes o Crucifixo. Não cabia mais em minhas
forças para lhes abrir o céu mais eu contava bem com o Sagrado
Coração de Jesus, que muito me valeu na circunstância". Travada a
guerra franco-prussiana, foi nomeado general de brigada, e respondeu:
"Quero só a "ordem de marchar, mesmo como simples soldado".
Assumindo primeiramente um posto em que bate os invasores, ele
recebe depois ordem de marchar tomando por guia a voz do canhão: a
maior parte das tropas que deve comandar tarda a mobilizar-se, outras
vem mal disciplinadas, esquivas e descalças, de modo que num quadro
numérico de mais de 40 mil homens Sonis só poderia contar com
algumas centenas de bravos. Foi o que se demonstrou em Loigny; ante
a fraqueza dos regimentos inteiros que se negavam a marchar, o
general lhes bradou: "Vou mostrar-vos o que valem verdadeiros
franceses e cristãos!" E, pondo-se à frente dos zuavos que
desfraldavam a bandeira do Sagrado Coração, avançou corajoso,
rechaçando até longe o inimigo; este porém recebia dentro em pouco
um reforço esmagador que se atirava sobre o punhado de bravos, e,
aos cem contra um, prostrava-se no campo de batalha glorificados
mesmo em sua queda pelo cumprimento heroico do dever. De Sonis
foi baleado em uma das pernas, que teve de ser amputada. Mais tarde,
numa peregrinação a Paray, aconselhando-o alguém a substituir a
perna de pau que usava por uma articulada, respondia: "Não, nada de
imposturas; assim pareceria ter duas pernas, quando tenho uma só". A
noite do aniversário da batalha de Loigny, ele passava-a na igreja em
oração, comungando de manhã. Pediu a sua reforma para não ter
nenhuma parte na execução dos decretos contra as Congregações
religiosas, e ao morrer, em 1886, declarava em seu testamento
dispensar nos funerais as honras militares, desde que se recusavam ao
SS. Sacramento. "Ele foi grande diante de Deus e dos homens",
proclamou o Mons. Freppel em sua oração fúnebre na igreja de
Loigny, perante o escol da França católica.

DIA 23
O Conde de Chambord, da velha dinastia dos Bourbons, que deu tão
gloriosos reis à França e à Igreja fiéis defensores, foi
reconhecidamente um cristão de convicção e de obras, um homem de
oração; sem com isto deixar de ser como não o desconheceram os seus
próprios adversários políticos, um espírito notavelmente esclarecido e
culto, um coração nobre e magnífico que no exílio honrou a pátria. A
educação religiosa do Conde foi desvelada e no dia 2 de fevereiro de
1823, em que fez a sua primeira Comunhão, Carlos X, seu avô, dizia:
"Teus destinos podem ser muito grandes, e muito difíceis os teus
deveres. Se alguma vez sentires o peso das tribulações e trabalhos inse-
paráveis da tua condição, a lembrança deste dia te dará forças". E o
adolescente o compreendia assim, recebendo a Sagrada Eucaristia
como o pão dos fortes e dos puros. Perguntando-se-lhe então a qual
dos seus dois antepassados, S. Luís ou Luís XIV, desejaria ele
assemelhar-se, respondeu sem hesitação: "A S. Luís, porque a
santidade é a maior de todas as grandezas". Seu preceptor, o padre
Druilhet, oferecendo-lhe um bordado em seda que representava o
Coração de Jesus, cujo sangue cala, gota a gota, sobre um ramo de
lírios, e tinha no alto o nome de Henrique e as palavras — "serva lilia",
interrogou-o como as entendia: "Pede ao Sagrado Coração que proteja
os Bourbons", respondeu. — "Não terão ainda um outro sentido?" —
"Bourbon, guarda a pureza... Padre, fique tranquilo". De fato, mais
tarde, numa época de degeneração em que outros príncipes arrastavam
levianamente a honra de seu nome e tristes aventuras, os seus
biógrafos puderam assinalar que Viena, Roma, Berlim, Londres,
Veneza, o viram sucessivamente dentro de seus muros, e em toda parte
ele deu à sua mocidade o brilho de uma conduta sem mácula. Essa
divisa - "serva lilia", - Chambord a guardou particularmente e de um
modo heroico, no dia em que lhe propuseram trocar por outra a sua
bandeira, para ser proclamado rei da França; ele o recusou. Foi
Terceiro Franciscano; rezava, meditava, e tinha devoções particulares,
cujos exercícios não olvidava, assistia frequentemente à Missa,
antecipando a hora costumada, se lhe era preciso viajar cedo;
comungava aos domingos e festas solenes, dizendo sentir um vazio na
alma quando não o podia fazer; estudava as questões fundamentais da
religião e as doutrinas católicas, munindo-se dos melhores livros e
tratados antigos e recentes. Nas viagens de trem que se prolongavam
quando o movimento em redor diminuía e a conversação cessava, ele
recolhia-se e consigo e sem respeito humano, tirando do bolso o terço,
postos os olhos no céu, rezava-o; conta-se mesmo que o fez por vezes
em caçada quando teve de estacionar à espera da presa que os
monteiros iam arrancar da toca. Ninguém poderia calcular o que fazia
em favor dos pobres; mandava dar lhes roupa, sustento, socorros
médicos, meios para a educação da prole, e nenhum dos que
encontrasse em caminho ficava sem uma boa esmola. Quando o seu
féretro era levado à estação de Goritz, viu-se um aleijado que soluçava
em pranto inconsolável; desde a primeira vez que o vira, o Conde lhe
consignara uma boa pensão mensal. A todas as instituições pias e de
beneficência auxiliava com donativos frequentes e avultados; Escolas
apostólicas, Propagação da Fé, Obras de patrocínio, Bibliotecas.
Óbulos de S. Pedro, ereções ou restaurações de santuários, tudo
achava, solicitado ou espontâneo, o seu pronto concurso; e após sua
morte, legados verdadeiramente régios coroaram a munificência dos
largos donativos que lhes fizera em vida. Na sua altíssima posição, era
um homem humilde. Entrando uma vez num cercado com alguns
nobres para atirar sobre uma narceja, um rústico saiu a gritar que era
um insulto aos penosos labores do povo essas partidas de prazer
renovadas do antigo regime. Seus companheiros quiseram prosseguir,
mas ele os dissuadiu: "Desde que o nosso passa tempo fez raiva a esse
bom homem e o pode escandalizar, retiremo-nos". Outra vez, na via
férrea, um sujeito obeso e arrogante invade o carro-salão e senta-se-
lhe em frente sem a menor atenção. Fez-se logo em torno o silêncio; o
homem porém rompe-o, falando, a princípio no bom tempo, depois
nos negócios, e na República e Império, e finalmente no Conde de
Chambord, a quem chama o "pretendente fátuo e estúpido" e o cobre
de injúrias. Os da comitiva do Conde o interrogam com o olhar,
prontos a reagir mas ele com um ligeiro sinal proíbe o replicar, e deixa
o insolente blaterar à vontade sem que ninguém dê indício de lhe
prestar atenção. O Conde se formara e se nutria todos os dias na escola
d'Aquele que disse Aprendei de mim que sou manso e humilde de co-
ração. Pela manhã e à noite ele se recomendava com fervor ao Sagrado
Coração; em sua capela fazia-se-lhe todas as sextas-feiras do ano três
horas de adoração, em cada primeira sexta-feira do mês um ato de
desagravo, e na solene festa anual a consagração plena do chefe da
casa e de toda a família real, consagração que ele por delegados seus
fazia efetuar-se também no mesmo dia nos santuários de Paray e de
Montmartre. Se ocupasse o trono, dizia ele, teria gosto em mostrar-se
o "filho mais velho do Sagrado Coração", como a França era a filha
mais velha da Igreja. Quando conhecia os sintomas da enfermidade
que lhe deu a morte, preparou-se com uma novena regular de
Comunhões nas primeiras sextas-feiras daqueles meses e, oferecendo
a sua vida pelo incremento de fé cristã e pela paz da França, morreu a
22 de agosto de 1882, véspera da festa de S. Luís, estreitando ao peito
a cruz cheia de relíquias que trouxera de sua peregrinação a Jerusalém.

DIA 24
No dia 5 de junho de 1841 recebia a unção sacerdotal em Turim o
jovem João Bosco, que por suas obras admiráveis foi depois chamado
o Vicente de Paulo do século XIX. Aos dois anos de idade ficou órfão
de pai, e o educara sua mãe de cujas virtudes cristãs se pode ajuizar
por dois fatos. Um dia, atravessando uma rua na ocasião em que um
velho aí proferia palavras escandalosas, voltou-se para o filho que a
acompanhava e disse: "Meu filho, se jamais tivesse de te assemelhar a
este infeliz, eu pediria a Deus que te desse já a morte". Outra vez,
aconselhando alguém a S. João Bosco que se fizesse padre secular,
porque lhe seria mais fácil conseguir uma alta posição, a mãe acudiu
logo: "Filho, se fazendo-te padre viesses a enriquecer, sabe que eu não
poria mais os pés em tua casa; pobre nasci, pobre quero ficar; uma só
coisa me interessa; é a salvação de tua alma". E correspondendo ao
sentir de sua mãe, D. Bosco só quis fazer o bem; a divisa que mais
tarde escolheu, e que se ligou a todas as suas obras, di-lo muito claro:
"Dai-me almas e de tudo o mais privai-me". Feito sacerdote, entrou
para o Instituto de S. Francisco, no qual se aperfeiçoavam os padres
no conhecimento da moral prática e na pregação, e se exercitavam no
sagrado ministério, visitando os pobres, os enfermos e os presos.
Nessa aprendizagem teve ele ocasião de ver muitos jovens e até
meninos que se tornaram presas do vício e do crime pelo abandono em
que se achavam e maus exemplos dos que os cercavam; contristado
pensou logo o jovem em fazer alguma coisa para remediar a tão grande
mal. Nessas disposições, poucos dias depois, preparando-se para
celebrar a Missa, ouviu gritos; indagada a causa, era que o sacristão, à
busca de quem ajudasse a Missa, batera em um menino que a isto se
recusava, aliás por não o saber. D. Bosco tranquilizou ao pequeno,
pedindo- lhe só que assistisse ao ato, e, acabado que foi, interrogou-o,
verificando que ignorava de todo a religião. Tomou a si instruí-lo, e
nessa mesma tarde lhe ensinava a fazer o sinal da Cruz. O catecismo
feito a Garelli atraiu outros e outros, e ao fim de dois meses contava já
uma centena de alunos; as reuniões deles se chamaram desde então
"oratórios", porque a base do ensino e o cabedal maior da empresa era
a oração. Dando o ensino elementar e a instrução religiosa, a escola
formou também um grupo de cantores que amenizava algures o
estudo. O rumor da meninada, a aumentar cada dia mais chegou a
incomodar a vizinhança, e D. Bosco por algum tempo só os pôde
reunir num descampado, ao ar livre: "Deus não tratará aos meus
meninos pior que as suas avezinhas", dizia ele. Aí se juntavam, ao
toque de um velho tambor e uma trombeta; faziam a oração, e, aos
domingos confessavam-se com seu "pai", e iam ouvir a Missa numa
igreja próxima. Daí mesmo o proprietário do terreno afinal despediu-
os, alegando que eles com o bater dos pés destruíram a relva até a raiz.
Nesta conjuntura, os amigos de D. Bosco o aconselharam a ficar
somente com os vinte meninos menores e dispensar os outros. "A
Providência enviou-me estes meninos respondeu ele; eu não enjeitarei
nenhum, ficai certos. Ela me fornecerá o que for necessário, e, se não
quiserem alugar-me uma casa, eu edificarei uma, com a proteção de
Maria Auxiliadora. Teremos vastos compartimentos, capazes de
receber todos os meninos que aparecerem, termos oficinas de toda a
espécie, onde aprendam a profissão que escolherem; pátios e jardins
para as recreações; igrejas e Sacerdotes para os educarem". Acredi-
taram que D. Bosco houvesse enlouquecido, e quiseram levá-lo para
um manicômio, convidando-o a entrar num carro que o conduziria ele,
insistindo em que os seus guias subissem primeiro, fechou sobre eles
a portinhola, e mandou que o cocheiro seguisse para o destino,
logrando assim os que lhe armavam a cilada. Em 1846, o padre ad-
quiriu um abrigo para sua obra: era uma espécie de telheiro tão baixo,
que o Arcebispo de Turim, oficiando aí um dia, não podia estar de pé
com a mitra; porém foi o abençoado embrião de que surgiu o atual
santuário de Valdoco. O Padre vendeu umas jeiras de terra que eram o
velho patrimônio da família, sua mãe dispôs até das joias nupciais e
preciosas recordações que ainda guardava, e tudo se empregou em
acomodar a seus destinos o casarão tosco. A Providência veio também
manifestamente em auxílio dessa loucura da caridade: a casa chegou
um dia a dever uma soma avultada e o credor apresentou-se, exigindo
pronto pagamento; na mesma ocasião um homem procura com
insistência a D. Bosco, e pedindo-lhe este que esperasse, ele entra
bruscamente no gabinete, depõe sobre a mesa um pequeno embrulho,
e sai dizendo: “Aceite isto, e reze por mim”. Era precisamente a
quantia que D. Bosco devia. Deus abençoava as obras do seu servo, e
fazia patente a sua santidade por meio de uma visível proteção até em
circunstâncias triviais: uma vez, devia celebrar-se numa de suas casas
certa festa literária e à última hora aquele a quem cabia o principal
papel enrouquecera ao ponto de não poder proferir uma palavra. D.
Bosco chama-o, dá-lhe a bênção, e diz: "Deixa-me ver, eu te vou dar
a minha voz, e tu te sairás muito bem". De fato, o menino recobrou a
voz, e o Padre ficou subitamente rouco e assim esteve muitos dias. O
foco em que este santo sacerdote buscava a inspiração e a luz em todos
os seus cometimentos, o tesouro de que hauria forças e recursos para
todas as suas obras, era o Sagrado Coração; foi ele quem erigiu em
Roma o primeiro templo que aí existe sob tão grata invocação, e teve
como uma de suas maiores e últimas consolações a de ir em pessoa
inaugurá-lo em maio de 1887. Determinou também que esta fosse a
devoção especial de todas as suas casas de estudo e de noviciado; sob
os auspícios do Coração de Jesus colocou as suas missões da América
do Sul, a "Colônia do Sagrado Coração" se chamou a primeira que
seus apostólicos missionários fundaram no Brasil, chamando ao
convívio da civilização e da fé os silvícolas do Barreiro. "Eis, —
escreve o bispo de Nice, referindo-se à vida de D. Bosco, — eis como
ele veio a ser pai de milhares de meninos desvalidos; eis como o S.
Vicente de Paulo de Turim fez tão grandes coisas, tendo só, para o
sustentar, sua fé e seu coração: eis como o pequeno grão de mostarda
se tornou em tão pequeno tempo essa árvore frondosa que estende
sobre a Europa e sobre o Novo Mundo seus ramos vigorosos, cobertos
de flores e de frutos".

DIA 25
Firmino Suc foi um cristão que trilhou constante o caminho do dever
e da virtude, na quadra da vida em que o coração mais se inclina às
ilusões e gozos do mundo, e numa época de hostilidade aberta às cren-
ças, de indiferença e menosprezo por delicados preceitos da moral.
Quando seu pai, no pensamento de lhe assegurar mais fácil acesso a
uma carreira pública, lhe propôs matriculá-lo numa das instituições
oficiais de ensino leigo, ele declarou logo que, a todo risco, preferia
aprender com os irmãos da Doutrina Cristã. O livro de suas notas mais
íntimas registra as impressões que guardou da primeira Comunhão,
quando, de mão estendida sobre o Evangelho, diante do Crucifixo,
disse anátema a Satanás e protestou servir a Deus fielmente nos
combates da vida. Anos depois, referindo-se a esta jura, escrevia ele:
"Renunciei eu deveras ao mal? Entre os 12 e os 20 anos há sempre
alguma coisa para atirar na água. Há faltas que ainda me sangram o
coração e me fazem chorar". Quais eram? Ei-las: "Sobretudo os meus
ímpetos de menino para com os meus, que eram tão bons comigo, e a
quem eu amava; com a minha madrasta, que me fazia todas as
vontades, e contra quem eu às vezes gritava como se fosse martirizado.
Meu Deus, concedei-me para com todos um pouco dessa doçura e
bondade que transbordam de vosso Coração". Completo o seu
tirocínio fez um concurso para as vagas nos correios e telégrafos; e foi
nomeado telegrafista em Brest, que era nesse tempo um foco de
impiedade e corrução. Aí, continuam a relatar as suas notas: "o próprio
excesso do perigo foi porventura a minha salvaguarda, porque vi claro
a minha situação. Sem me importar do que resultasse, isto é, sem
respeito humano, ia à Missa; a princípio, fui escarnecido, mas
continuei, deixando-os falar. Fazia minha oração; souberam e
zombaram, mas eu continuei. Não saía a divagar pelas ruas e à busca
de folguedos, como outros; lançavam-me o ridículo, porém eu não
recuava. Sou um tanto susceptível, e ainda me admiro de que esses
motejos não me incomodassem; era a mão da Providência que me
amortecia a susceptibilidade, para que resistisse ao assalto. Estou
convencido de que os meus críticos dentro de si me aprovaram e me
reconheciam a coragem". Firmino tinha uma pequena imagem do
Coração de Jesus à cabeceira do leito, e, ao deitar-se, a invocava e
beijava: "É uma guarda, dizia, e o inimigo, o diabrete negro, não ousa
atacar-me ao pé dela". Era associado ao Apostolado da Oração e o
praticava nos três graus, comungando frequentes vezes. Morando
distante o seu diretor espiritual, quando não o procurava pessoalmente,
pedia-lhe conselho por carta, e era isso a quase cada passo; deste é que
se lê em seu livro íntimo: "Um amigo me explicava os dogmas e
fortalecia minha fé, quando minha razão o interrogava com orgulho; e
eu sentia que me tornava bom e que uma força secreta e suave pene-
trava em mim, como o calor a um corpo que se aproxima de um foco
ardente". Transferido para o Havre, e depois a Paris, manteve em toda
a linha o seu procedimento exemplar. "Não se pode abandonar os
deveres religiosos sem destrilhar, notava ele, e então ai da
honestidade! sinto que cairia depressa, se não comungasse: é o
tabernáculo que faz os fortes. O Coração de Jesus é Deus inteiro num
peito humano: mil vezes feliz quem o compreende. Chamam "devoção
nova" a do Sagrado Coração. Não há nada de novo na Igreja. Ele é um
centro, é uma conjunção de forças divinas e de orações humanas sob
um vocábulo mais vibrante. Sempre se procurou o Coração de Jesus,
o belo livro da "Imitação" o prova, e a humanidade cristã sempre bebeu
nessa fonte e aí se saciou. Eu corro sempre a este santuário, e dele
trago um que de melhor, que lá renovo todas as vezes que me sinto
fraquear". Com a oração ele tinha outro meio de combater as
tentações: era o trabalho. Fez estudos sérios sobre monumentos e
antiguidades sacras, que mereceram os aplausos dos eruditos e mestres
que os leram. Suas próprias distrações eram boas e santas: "Eu
desenho um pequeno vitral que tem no meio um Sagrado Coração
respirando amor. Tudo distrai; o espírito, a consciência, o corpo, tudo
em nós aspira ao repouso pela liberdade; mas a verdadeira liberdade,
o verdadeiro repouso é o dever". Mandam-no para Nice, e aí se
repetem logo as zombarias de seus companheiros de serviço contra o
"clerical"; à refeição motejam porque guarda a abstinência, e ele
delicadamente lhes oferece o que tem; perguntam-lhe escarninhos se
ele vai à Missa, e responde corajoso: "E vós por que também não
ides?" Acabam afinal respeitando-lhe as convicções e o proceder.
Impelido sempre a avançar no caminho da virtude, resolve-se um dia
a abraçar o sacerdócio; mas o seu débil organismo estava já invadido
pela tuberculose, e o mal progrediu rápido. Recolhendo-se ao seio da
família, fez colocar bem perto do leito a imagem do Sagrado Coração
que sempre o acompanhava, “a fim de poder vê-la bem e ouvi-la,
quando lhe quisesse ela falar”; e pediu também um novo escapulário.
A uma senhora que o visitou no dia em que recebera os últimos sacra-
mentos, disse tranquilo: "Prepararam-me esta manhã com todo o
preciso para a grande viagem... Se bem que seja um erro falar assim,
porque Deus não está longe. Dando até o último instante o exemplo da
vida cristã, morreu em 1887, contando 23 anos de idade completos
nesse mesmo dia, a 17 de fevereiro. Seus funerais tiveram o concurso
de todas as classes sociais; o escritor católico Marques de Ségur
publicou o "Jornal de Firmino Suc", e o Pe. Laurienne traçou-lhe a
biografia, consignando nela o seguinte depoimento do seu diretor
espiritual: "Estou convencido de que foi pela sua extraordinária
devoção ao Sagrado Coração que ele veio a ser o consumado modelo
de jovem cristão, que todos conheceram".

DIA 26
Isabel Maria Cabral, de ilustre família que teve, em 1910, um digno
representante entre os Padres da Companhia que a fúria carbonária
perseguiu e desterrou de Portugal, foi também uma flor peregrina que
vicejou ao calor do Sagrado Coração. Quando ainda em botão no lar,
lá o perfumava com o aroma de finas virtudes. Dócil às recomendações
dos pais, terna e desvelada com os irmãos, de quem atenuava as pe-
quenas faltas, quando não as podia prevenir, foi considerada e
chamada o anjo da família; para vê-la recolhida e como que a meditar,
bastava dar-lhe uma pequena imagem. Desde que fez a sua primeira
Comunhão, adotou como exercício cotidiano o exame de consciência,
a oração mental, e as leituras de piedade, escolhendo livros como a
"Imitação de Cristo", os escritos de S. Francisco de Sales e de Sta.
Margarida Maria, os opúsculos de Mons. Ségur, e outros como esses;
por trabalho tomou o de fazer roupas para os meninos pobres e
preparar fios para o tratamento de feridos no hospital; e do que entrava
em seu bolsinho, dava quase tudo aos necessitados, e, tendo por mestra
uma senhora cuja família se arruinara, mais por isso a queria e respei-
tava, empenhando-se com os pais em que a protegessem. Na estação
calmosa, a família Cabral ia para uma casa de campo na freguesia de
Real, perto de Braga, e Isabel aí organizava peregrinações de jovens
do lugar para um santuário vizinho, e com Luís Gonzaga, seu irmão
mais moço, fazia também uma espécie de excursões apostólicas aos
arredores, dando às colinas, bosques e rios que via, os nomes de Jesus,
da SS. Virgem e dos Santos, como se fossem terras que descobrissem
para Cristo. O seu culto era o do Sagrado Coração, e quis que em sua
honra se celebrasse anualmente uma festa na capela de Real, assim
como, logo que pôde viajar, foi em romaria ao santuário de Paray.
Embora pertencendo à alta sociedade, Isabel trajava com a maior
modéstia, quase sempre de branco, por ser a imagem da pureza, e um
dia, recebendo, em mimo, de um velho tio cônego, um par de argolas
de valor, mas de mau gosto e fora do uso, a despeito de que os irmãos
se pusessem a rir do presente, essa foi a joia que ela preferiu para ir no
mesmo dia a uma festa brilhante e muito concorrida. Não surpreendeu,
pois, a vocação religiosa manifestada por Isabel, ao terminar os
exercícios espirituais feitos para conhecê-la; e as Irmãs Doroteias, cujo
instituto ela abraçou, desde o seu noviciado puderam atestar: "Ela
amoldou-se tão facilmente a todos os nossos costumes, que parecia ter
vivido sempre no exercício da Regra". Sob a disciplina religiosa, as
virtudes e o fervor de Isabel cresceram, e em suas cartas liam-se
trechos como este: “Pede para mim o desejo dos sofrimentos um
grande amor a Cruz, a completa renúncia aos meus gostos e vontade
para substituí-la pela do Coração de Jesus”. E seu culto ao Divino
Coração foi tão ardente, que deixou na comunidade a prática de se lhe
cantarem estrofes na visita do SS. Sacramento, que precede a
recreação das noviças, Isabel procurava sempre o último lugar, esco-
lhia, quanto possível, o que era de menor valor, desfazia-se de todo o
supérfluo, a trazia enquanto lho deixavam, roupas e calçados usados
que por suas mãos consertava. Um dia enviou a seu irmão Luís
Gonzaga, professo na Companhia, um desenho seu à pena
representando os corações dos dois unidos ao pé da Cruz por uma
corrente que os prendia ao Sagrado Coração e que se pregava na cruz
por três cravos, emblema dos votos religiosos. Outra vez, escrevia-lhe:
"Sei que tem pregado, e me dá prazer isto: quantas almas se podem
salvar por este meio. Quanto a nós que não dispomos desse e de outros
recursos, tomamos coragem meditando no que disse o Pe. Rodrigues
de vossos Irmãos coadjutores, que sem pregar nem confessar, podem
obter a salvação de tantas almas". Curta, mas assim toda cheia de san-
tas aspirações e exemplos edificantes, foi a vida de Irmã Isabel Cabral.
Quando transpusera de pouco só os 26 anos de idade, enfermou
gravemente; a suas companheiras que faziam uma novena impetrando
a sua cura, dizia sorrindo: "Nosso Senhor não quer ouvir o vosso
pedido; na festa de Sta. Doroteia, estarei no céu". Já antes disso,
estando uma vez em suas funções de mestra de desenho, uma irmã
chegou-se e pediu-lhe um objeto de que precisava: "Vede, lhe disse, a
disposição de todas estas coisas; breve me substituireis". E assim foi.
De outra vez anunciou que não tardaria a vestir o hábito completo da
sua Ordem o que só se fazia no leito de morte. No segundo dia de
moléstia, quis receber o Viático, e, perguntando-lhe a superiora se
Nosso Senhor não a deixaria ainda viver, como suas Irmãs desejavam,
respondeu: "Ele me disse que eu vá para o céu, de lá vos ajudarei
muito; eu orarei por vós, por esta casa, por todos". Mais tarde recebeu
ainda os sacramentos e a bênção papal, e dizendo em voz forte: "Como
é doce fazer a vontade de Deus!" expirou. Na Congregação de Sta.
Doroteia como noutras, é costume tirar por sorte o ofício que se há de
exercer cada mês, em hora determinada, para com o Sagrado Coração.
Nesse mês coubera a Isabel o ofício de "vitima", e sua hora de culto e
união era de onze à meia noite; e nesta hora morreu numa sexta-feira.

DIA 27
O Dr. Agostinho Fabre foi um médico ilustre pelo saber, por sua
corajosa fé cristã e pela extrema caridade com que exerceu sua
profissão. Filho de um rico negociante, ele teve a fortuna como um
bem secundário e do qual devia aplicar sempre às boas obras o
supérfluo: indo fazer em Paris os estudos superiores, mobiliou tão
modestamente os seus aposentos, que sua própria mãe, ao visitá-lo, o
estranhou ; e empregava em esmolas uma boa parte da pensão que
recebia. Ainda estudante, alistou-se nas Conferências de S. Vicente de
Paula, distinguindo-se entre os mais zelosos de seus membros, e numa
prova pública do tirocínio acadêmico sustentou a sua crença na
Providência Divina, sem nenhum temor dos ouvintes e juízes eivados
do materialismo e que se lhe mostravam hostis. Aos 28 anos era
professor, e com o brilho e vigor de suas lições prendia os discípulos,
como escreveu um deles, fazendo conhecido seu nome na Europa e
citadas com apreço as suas obras nas principais revistas médicas. Mas,
ao contrário dos que desprezam tudo o que não podem trazer para o
campo de suas observações de modo a analisá-lo e decompô-lo,
Agostinho Fabre via a reger e presidir o universo uma causa suprema
que lhe explicava o equilíbrio e a harmonia dos seres, e queria "a
ciência esclarecida pela fé e Deus glorificado pela ciência". No
exercício da medicina tanto o caracterizava o desinteresse unido à
generosidade, que vulgarmente o chamavam o "médico dos pobres",
tinha para todos estes um dia da semana, e era certo vê-los apinhados
na rua a esperarem a sua vez da consulta, na qual lhes dava com a
receita o dinheiro para a botica e o mais necessário. Acudia aos
enfermos com verdadeiro carinho, dirigindo-lhes palavras de conforto,
lendo-lhes às vezes uma página da "Imitação de Cristo", e prestando-
lhes qualquer serviço preciso na ocasião. "Eu tomarei os remédios que
indicais, disse-lhe um dia uma doente, porque sois um santo". O bom
doutor sorriu, e, voltando-se para o berço onde dormia uma criança,
inclinou-se, beijou-a na fronte, e respondeu: "Eis o santo, aquele que
nunca ofendeu a Deus". Católico de ideias e obras, Fabre foi quem
promoveu em Marselha a organização da “Liga do Coração de Jesus”,
e com tanto zelo e êxito, que em poucos meses, no ano de 1874, a
diocese enviava a Paray-le-Monial uma peregrinação levando rica
oferenda simbólica em que iam inscritos os nomes dos primeiros 50
mil associados da "Liga". Instituiu também a obra da "Adoração
noturna" da quinta para a sexta-feira, sendo o primeiro a apresentar-
se: foi proposto que lhe coubesse a primeira hora para que pudesse
repousar dos labores do dia, mas recusou-o e quis que se fizesse por
sorte a distribuição das horas e qualquer que fosse a sua, ficava até a
hora da Missa que encerrava o exercício. Quando a perseguição
religiosa quis fechar o santuário e hospício de Notre Dame de la Garde
ele como administrador invocou a lei contra o atentado e deitou-se de
través, na porta do corredor: os dois comissários passariam sobre seu
corpo, mas os agentes da polícia recuaram. Anunciando-se que seria
punido, os alunos da escola médica, "sem distinção de opiniões",
protestaram na imprensa, e no primeiro dia de aula receberam-no com
brilhante ovação. A um amigo que o aconselhava a poupar-se, res-
pondeu: "Eu descansarei no céu". Na lida, à cabeceira de um enfermo,
sentiu os primeiros sintomas da morte, e voltou pressuroso a casa,
mandou chamar o cura para lhe administrar os sacramentos, despediu-
se da esposa, confortando-a, e teve ainda nessa hora extrema um
pensamento para os pobres, pedindo que mandassem levar a certa
pessoa, que indicou, uma quantia que lhe prometera. À hora em que
morria, um agente policial batia à porta, acompanhado de uma mulher
que clamava: "Digam que é para um pobre, que é certo ele vir". Ao
ouvir que o Dr. Fabre estava à morte, o agente disse comovido: Só
assim é que a um pobre ele não acudiria". Nesse mesmo dia, celebrava-
se na igreja de S. José a assembleia anual do "Comitê católico", e o
lugar do Dr. Fabre, um dos primeiros, estava ali vazio; o Cardeal
Perraud assinalava-o com lágrimas, dizendo: “Esta manhã, Marselha
foi fulminada por nova consternadora: o Dr. Fabre morreu; o amigo
dos pobres, o sustentáculo de todas as Obras que interessam a Igreja e
as almas. A grande oração fúnebre desse cristão será feita pelo pranto
dos pobres, pela saudade de todos, e por essa revelação que segue a
morte e que nos deixa entrever as eternas recompensas das virtudes
cristãs”.

DIA 28
Aos incrédulos e mundanos parece incrível que alguém queira viver
peregrinando e a mendigar por amor de Deus e do próximo; julgam-
no desprezível e condenável como sinal de indolência e profissão de
ociosidade. S. Bento José Labre o quis e praticou, de modo tal que foi
para ele o mérito e uma glória, e a Igreja, elevando-o a seus altares,
mostrou que também isto pode ser um meio de santificação, e que os
infelizes que as vicissitudes da vida forçam a implorar a esmola tem
no céu um patrono especial para lhes ensinar a resignação às repulsas
e à confiança na Providência. Bento Labre, educado por um tio pároco
de Erin, manifestou desde cedo inclinações piedosas e capacidade
intelectual que deram esperanças de que viesse a abraçar o sacerdócio.
Reservava para os pobres o melhor de suas refeições, lho ia distribuir
às ocultas; entre os companheiros, a uns aconselhava, a outros
repreendia amigável, e reconciliava os desavindos, fazendo tudo isso
tão habilmente, que o povo o chamava o "pequeno Cura". Grassando
uma peste na freguesia, ele, embora avisado pelo tio de que se deve
acautelar, o acompanha sempre à visita dos enfermos, expondo-se de
perto ao perigo; e toma sobre si a tarefa de alguns dos atacados, indo
cuidar dos rebanhos que eles guardavam, ou carregando às costas
fardos de forragem que deveriam transportar. Morrendo de peste seu
tio padre, Bento Labre, logo que pôde, recolheu-se à Cartuxa de
Neuville, e depois, em busca de um instituto mais rigoroso, a Trapa de
Sept-Fons, onde os superiores, embora edificados pela sua conduta,
não o puderam conservar pela declaração dos médicos de que era
muito débil para observar a Regra. Destinava-o Deus à singular função
de passar entre os povos como um vivo exemplar do Divino
Crucificado, lembrando aos ricos o "quid prodest?" (que se lucra?) que
tantas vezes lhes segreda o vácuo d'alma, e fazendo ver aos indigentes
que a pobreza aceita e paciente é um tesouro que enriquece e alegra a
alma. Com uma pobre veste, um bastão, o Crucifixo pendente ao peito
e um rosário de grossas contas passado ao pescoço atravessou a pé
extensas regiões da França, Espanha, Itália e Alemanha, visitando os
santuários mais notáveis, onde ficava longas horas embebido na
oração. Circunstantes, e quem era desconhecido, viram-no por vezes
nos templos, cercado de uma auréola que mal deixava perceber numa
quase escuridão os que se achavam em redor, com os olho fitos no céu
e suspenso do chão. Seu peregrinar não era nem um instante ocioso;
caminhava, fazendo sempre o bem: aqui, a consolar um aflito; ali, a
dar um conselho de salvação ou a pensar um enfermo; adiante, a obter
do céu uma graça para quem o beneficiara, e, a miúdo, a repetir com
seus irmãos indigentes a esmola toda que recebera. Numa de suas
viagens, recolheu-se atacado de febre ao hospital de Paray-le-Monial,
onde tanto impressionaram às Irmãs o seu aspecto penitente e atos de
virtude, que elas guardaram com apreço as migalhas de pão que deixou
de suas refeições; e as Religiosas da Visitação por sua vez não es-
queceram nunca o êxtase fervoroso em que ele ficava longas horas no
lugar das aparições do Salvador. Em Roma, ia frequentemente orar
numa capela da igreja do Gesu, onde havia um painel do Sagrado
Coração; e nas igrejas em que se fazia a adoração das "Quarenta-
Horas", pedia que o deixassem passar a noite de guarda ao Santíssimo
Sacramento. Antes de dormir, todos os dias se consagrava ao Divino
Coração dizendo: "Eu quero de toda a minha alma repousar em vossa
santa graça. Este coração que me destes onde melhor o posso colocar
do que no vosso? É aí que eu o deposito, é meu doce Jesus! É aí que
eu quero habitar e que desejo tomar o meu descanso". Sua vida foi "um
ato contínuo de adoração", que veio a encerrar-se com a mais suave
morte numa quarta-feira santa, em que ouviu muitas Missas e à leitura
da Paixão se desfazia em lágrimas e caía em delíquio. O corpo ficou
insepulto até a Páscoa e se conservou flexível como se estivera só
adormecido, sem a mais leve exalação má. O povo afluiu em massa a
contemplar e bendizer o "Santo das Quarenta-Horas" e foi um
verdadeiro cortejo triunfal, mais sincero que o dos antigos Césares
Romanos, o préstito para o enterramento desse mendigo que comia um
pão esmolado e dormia ao relento!
DIA 29
A virtude perfeita de uma pequena operária é a jóia que o Sagrado
Coração agora nos expõe em seu preciosíssimo escrínio. Maria
Husson, desde criança, conheceu e suportou paciente as privações que
são como que a herança dos pobres. Quando os bandos de meninas,
passando aos saltos e carreiras para o vale ou a montanha, lhe grita-
vam: "Vem brincar conosco, o dia está tão bonito!" — ela que devia
guardar a casa, porque-seus pais tinham ido trabalhar no campo,
respondia sem pesar e sem queixa: - "Eu tenho as pernas fracas para
correr, e meu coração bate muito quando subo ao monte". Entrando
para a escola de Rignat ganhou depressa a estima da mestra pela sua
conduta exemplar e vivo desejo de aprender, que, favorecido por uma
inteligência clara e penetrante, lhe alcançou rápidos progressos. Suas
próprias condiscípulas reconheciam que ela se distinguia entre todas,
e não lhe queriam mal por isso. Algumas delas uma vez observaram
entre si: "Que tem Maria que nós também não tenhamos? Nós fazemos
o que ela faz: ler, coser, estudar, ir à Missa, e o mais. Isto não é nada
extraordinário; entretanto..." Uma das mais atiladas e francas acudiu
então: "Não há nada extraordinário nisto; mas olha, o extraordinário é
fazer todas essas coisas do melhor modo possível, e sempre bem, como
Maria o faz, ao passo que nós, tu sabes...!" — Maria, porém, não pen-
sava em sobressair nem se julgava superior às outras; o que ela queria,
só era aproveitar-se bem das lições recebidas, e todos os dias ia pedi-
la a Jesus na igrejinha da aldeia, falando-lhe como se o visse com os
seus olhos. Nas instruções do padre sobre a primeira Comunhão, ela
ouviu que deviam confessar todos os pecados, mas que só era pecado
o fazer voluntariamente alguma coisa proibida por Deus ou recusar-se
ao que ele mandava; Maria estava quase certa de nunca ter tido essa
vontade contrária a Deus, e foi o que com toda a candura acusou ao
sacerdote, o qual, encantado da confissão que ouvira, encaminhou-a
contente para os braços de Jesus como um anjo terrestre. Acabado o
tirocínio escolar, a fim de ganhar logo honradamente os meios de vida,
por ser de compleição fraca, abraçou a profissão de costureira que lhe
proporcionava trabalho, porém deficiente às vezes e mal remunerado,
dando-lhe, porém, ocasião de, no trato com a freguesia ou nas
diligências da tarefa, aconselhar ao bem ou desviar do mal, e não
poucas vezes socorrer outras ainda, mais necessitadas que ela. Para
fazer tais prodígios, vestia com simplicidade e modéstia, e em sua
mesa havia só o necessário para que não padecesse fome; em
compensação, o seu tesouro de virtude crescia, e o Cura de Rignat a
apontava como a melhor cristã de sua freguesia. As crianças amavam-
na como a uma verdadeira mãe, e os adultos a consultavam nas mais
sérias dificuldades, e queriam-na à sua cabeceira na hora da morte.
Maria Husson começava e acabava o dia, pedindo inspirações e Forças
ao Coração de Jesus, e sempre lhe parecia ouvir dele: "Avante! Sede
cada vez mais humilde e delicada por amor de mim". Mas, humilde
embora, como Jesus, a meiga operária teve um dia um grito de
indignação contra um insolente que em lugar público insultava uma
pobre jovem: "Não mereceis a honra de ser homem, pois que falais
como se fôsseis um bruto!" E ele emudeceu e fugiu. Tendo-se fechado
a escola infantil, Maria, sem olhar a sacrifícios, decidiu-se a
restabelecê-la, ensinando ela mesma; e o fez de modo admirável e
proveitoso durante seis anos, em que instruiu solidamente suas
discípulas para os trabalhos e deveres da vida, e formou com elas uma
legião de cristãs que, pelos seus cuidados e esforços, vestidas de
branco, e em concertos angélicos, solenizavam anualmente a festa da
primeira Comunhão e a procissão de "Corpus Christi". O abatimento
das forças e as exigências que lhe fez o representante do ensino oficial
obrigaram-na a retirar-se da escola; porém, saindo logo a esmolar, co-
lheu daqui e dacolá uma quantia com que pôde fornecer a duas
Religiosas de Chastei a casa e o estrito necessário para que viessem
ensinar em Rignat, adicionando ela a esse modesto cabedal tudo
quanto da própria mesa podia reservar. Por último, ao voltar de uma
detida visita ao santo Cura d'Ars, veio a arder em um novo zelo e toda
entregue à ideia de que se devia dar a Jesus em Rignat uma habitação
digna, pois que a sua estava nua e arruinada, tomou a agulha e,
trabalhando dia e noite, condenando-se a privações pôde fornecer, ao
serviço do altar, paramentos, alfaias, ornatos, operando uma
transformação ante a qual o povo dizia: "Como pode ela fazer tudo
isto? Parece que Deus manda os anjos a ajudá-la; há igrejas de grandes
cidades que não se ornam como a nossa". Depois tratou da restauração
do templo, e apelou para todos, aceitando o concurso em dinheiro,
materiais ou dias de trabalho; ninguém ficou ocioso: enquanto os
homens trabalhavam na construção, as mulheres iam ao vale buscar
água para fazer cal e a argamassa. E assim ergueu-se uma bela igreja
gótica, mais vasta que a primeira. Coroados assim todos os seus pios
desejos, chamou-a Deus a contemplá-lo em toda a sua grandeza e
gozá-lo em todo o seu amor, deixando na terra natal a saudade e o
exemplo de uma perfeita cristã. A um viajante, que, de passagem na
aldeia, perguntava de quem era tão solene e comovente préstito,
respondeu o Cura: "É de Maria Husson, pobre operária, que todavia
foi durante mais de meio século, a Providência visível de Rignat, e a
benfeitora de sua igreja, sua escola e seu povo".

DIA 30
O luminoso cortejo que no decurso deste mês temos visto desfilar em
honra ao Sagrado Coração, fecha hoje com o vulto de um egrégio
brasileiro: D. Vital, bispo de Olinda. Um traço da sua infância revelava
já, como que em gérmen, a vocação religiosa que mais tarde lhe
encheria nobremente a vida: morando perto da igreja, seus pais vinham
achá-lo muitas vezes ali, a ouvir a Missa, ou rezando muito
devotamente. No colégio de Benfica onde fez os estudos secundários,
como escreve o seu professor de latinidade, captou depressa a estima
e apreço de mestres e alunos, e ocupava sempre nas aulas o primeiro
lugar. Depois entrando para o Seminário, tanto se recomendou por seu
talento e piedade que o Prelado lhe facultou em prêmio o ir acabar seus
estudos em Paris, no seminário de S. Sulpício. Aí sustentou
brilhantemente as teses finais de filosofia, e, como informa um
companheiro, superiores e iguais o viam sempre cingido ao
regulamento, e, se por acaso incorria na menor falta, a reparação era
pronta. Mas, na grande capital francesa em que tantas vezes se
desvaneceram aspirações piedosas, no afamado instituto eclesiástico
em que se formavam os combates para os primeiros postos da milícia
católica, Vital só teve uma ambição: professar numa Ordem religiosa,
pobre e humilde. Recolheu-se para isso em 1863 ao convento dos
capuchinhos em Versailles, onde fez o noviciado, indo depois para o
de Toulouse, que era a sede dos estudos na Ordem. “Parecia deliciar-
se nas privações que o cercavam”, relata um visitante (o Pe. Dr.
Barroso). E, falando sobre a sua próxima profissão, dizia: “Ora muito
por mim, a fim de que Jesus faça deste seu indigno servo um perfeito
religioso, um verdadeiro filho do Serafim chagado de Assis”. Em
1868, ordenado presbítero, ele era logo chamado para o seminário de
S. Paulo no Brasil, que estava sob a direção dos Religiosos
capuchinhos; e lhe foi ali confiada a cátedra de filosofia, que regeu
com toda a proficiência. Porém a muito mais alta missão destinava a
Providência o exemplar sacerdote que sob o rude burel, quisera furtar-
se às honras e dignidade. Em 1871 surpreendeu-o, em seu retiro, a
nomeação para bispo de Olinda, e não houve escusas que o livrassem.
A 24 de maio de 1872, do sólio de sua catedral saudava o rebanho e
desejava-lhe a paz, "não a paz fementida e efêmera do mundo,
comparável à vaga do oceano que expira aos pés do homem sem poder
atingir a sua parte superior e divina, mas a paz de Deus, que se baseia
no cumprimento do dever, no testemunho da consciência pura, e que
acompanha o cristão até a eternidade". Mas a paz que aí então reinava
era, em grande parte, a da confusão e indiferença religiosa, a de um
culto que se satisfazia de meras exterioridades e bania o essencial; a
paz de uma aliança enganadora e funesta em que as lojas maçônicas
se enchiam com o seu pessoal, e com a sua ímpia orientação
desvirtuavam os sodalícios católicos. D. Vital viu, constrangido, o pe-
rigo crescente, não poupou meios brandos e suasórios para sustar o
mal; o inimigo, porém, respondeu, atacando pela sua imprensa os
dogmas de fé e a pureza da SS. Virgem, pretendendo comemorar a
fundação de lojas com solenidades na igreja, e fazendo-se eleger
presidente de uma confraria que tinha sua sede próxima do palácio do
Bispo um chefe da seita que em seu jornal blasfemava das coisas
sagradas. Lançado então o interdito sobre as Irmandades refratárias,
exasperou-se o ódio sectário, e o Bispo foi preso e arrastado à barra do
Supremo Tribunal. Do Episcopado, das Câmaras, da imprensa
jurídica, de todas as classes sociais, levantavam-se protestos; mas ao
leme da nau do Estado se achava o Grão-Mestre do Oriente, e a
condenação se fez, contra o voto de um só dos juízes. D. Vital, quando
lhe apresentaram o libelo para dizer em sua defesa, escreveu somente
as palavras do Evangelho sobre o interrogatório de Cristo no tribunal
de Caifás: "Jesus se calava: "Jesus autem tacebat". Devotíssimo do
Sagrado Coração, fora ele quem primeiro havia divulgado no Brasil,
por uma tradução sua no vernáculo, um livro de exercícios do mês
dedicado a esse culto; ao Coração de Jesus, por uma pastoral expedida
aos 12 de junho de 1874, da fortaleza em que o prenderam,
antecipando-se a consagração universal decretada por Pio IX,
consagrou ele a sua diocese dizendo: "Entremos por aquela porta da
vida, que no lado do nosso adorável Salvador foi aberta de par em par
dessa fonte perene de todas as graças; permaneçamos nesse paraíso de
delícias inefáveis, até o nosso último alento". Mudando a situação
política, o novo governo, em setembro de 1875, anistiou os
eclesiásticos envolvidos no conflito religioso, e D. Vital, desde que lhe
foi restituída a liberdade, quis ver a Pedro, quis ouvir o Vigário de
Jesus Cristo, que o acolheu com toda a confiança e o cumulou de
atenções; no aniversário da sua prisão em Olinda, ele celebrava o santo
Sacrifício no Cárcere Mamertino. A 6 de outubro seguinte D. Vital
voltava à sua diocese, e do púlpito da igreja de São Pedro, falava assim
ao amado rebanho: "Bendito seja Deus, desencadeando a procela;
bendito seja Deus trazendo-nos a bonança! Conseguiu a mão da
violência, arrancando o Pai do seio da família, atirá-lo para bem longe;
mas não logrou que ele a esquecesse um momento sequer. Lá mesmo
na solidão do cárcere fostes o objeto contínuo das nossas vigílias, a
imagem constante dos nossos sonhos. E quem, senão essa mesma
pastoral solicitude nos impeliu a atravessar o Atlântico, em demanda
da Cadeira Apostólica, centro da unidade? Pela segurança do rebanho
cometido à nossa vigilância, não cessaremos de propugnar um só
instante. Venha de novo o cárcere com todas as suas provações: já o
conhecemos. Venha o desterro; empunhando o bastão de peregrino,
tomaremos o caminho do exílio. Venha a própria morte violenta ou
traiçoeira: nada de tudo isto, saiba a impiedade, nos há de acobardar o
ânimo. Sim, venha a morte por amor do rebanho estremecido; venha
essa morte tão bela! A cruz no peito, Jesus nos lábios, os olhos no céu,
recebê-la-emos radiante de prazer. Serás, ó morte gloriosa, o nosso
maior triunfo". Em 1877 o ínclito bispo veio ainda ao Rio de Janeiro,
de onde partiu com uma romaria brasileira, para a França, visitando
nessa ocasião alguns dos grandes santuários desse país e da Itália. Em
todas as suas viagens hospedava-se nos conventos de sua Ordem, onde
havia, e aí desaparecia logo à entrada o bispo, ficando só o humilde
capuchinho: de uma testemunha ocular, digna de todo o crédito, soube-
se que "às sextas-feiras, e em algumas semanas mais vezes, sobretudo
se ocorria festa Solene de Nossa Senhora, servia à mesa, ia à cozinha
lavar a louça, varria o refeitório, e empregava-se nos misteres os mais
humildes" e "foi surpreendido muitas vezes sozinho, descalço, em
tempo de intenso frio, a praticar a devoção da "Via-crucis" no claustro
do convento. E tão contente se sentia então, que muitas vezes disse a
um sacerdote seu amigo: "Que boa e santa vida! Quem me dera morrer
por aqui entre meus irmãos!" Sofrimentos que lhe minavam o forte
organismo, e cuja origem real seus médicos não puderam conhecer
bem, agravaram-se em Roma no mês de janeiro de 1878, e,
aconselhado a voltar para a França, recolheu-se ao Convento dos Ca-
puchinhos em Paris, onde morreu a 4 de julho. O Religioso que lhe
serviu de enfermeiro, em carta que foi publicada, escreveu: "Durante
os três meses que passei com ele sem jamais o deixar dia e noite, nunca
notei nele a menor imperfeição; nunca se queixou, nunca murmurou,
nunca deu demonstrações de mau humor nem de impaciência; sempre
calmo, resignado, contente e reconhecido a tudo o que se lhe fazia;
pedindo a Deus sofrer ainda mais, se esta fosse a sua santa vontade,
ter o seu purgatório neste mundo, perdoar seus inimigos e morrer pela
Igreja do Brasil... Já desde quarta-feira tinha pedido e recebido os
últimos sacramentos, assistindo a esta cerimônia toda a comunidade
reunida. O Pe. Provincial dirigiu-lhe uma tocante alocução; todo o
mundo chorava, somente S. Exa. estava calmo e resignado. A partir
deste momento permaneceu ele recolhido em Deus, não se ocupando
mais o seu pensamento senão da eternidade. O dia de quinta-feira
passou assaz calmo, mas à noite pelas dez horas entrou em uma suave
agonia, meia hora depois disse-me ainda algumas palavras que não
pude compreender e às onze horas e quinze minutos extinguiu-se doce-
mente e em pleno conhecimento. Acabava em um ato de adoração
noturna, ao entrar da primeira sexta-feira do mês, o dia especialmente
consagrado ao Coração do seu amantíssimo Jesus.

Editado, formatado e revisado


por
Carlos Alberto de França Rebouças Junior
Fortaleza, 16 de março de 2011.
NOVEMBRO – Mês das Almas do Purgatório
Mês das Almas do Purgatório

Mons. Dr. José Basilio Pereira

10ª E D I Ç Ã O
1943

Editora Mensageiro da Fé Ltda.


Salvador — Bahia
NIHIL OBSTAT: Baía, 19 de Julho de 1942
FREI BRUNO MOOS, O. F. M. — Cens. Dioc.
REIMPRIMATUR — Baía, 20 de Julho de 1942
MONS. ANNIBAL MATTA - Pro-Vig. Geral

DIREITOS RESERVADOS
MÊS DAS ALMAS DO PURGATÓRIO

Para as pobres almas, que sofrendo estão,


Bom Jesus, não falte vossa compaixão.
INTRODUÇÃO
Doutrina da Igreja Católica
I
Existência do Purgatório
I. — O Purgatório é um lugar de sofrimento em que as almas dos
que morrem em estado da graça, mas sem haver satisfeito à justiça
divina quanto à pena temporal incorrida por seus pecados,
acabam de se purificar, solvendo essa dívida para poderem ser
admitidas no Céu, onde conforme a Escritura, só entrará quem for
puro.
II. — As provas da existência do Purgatório podem ser tomadas:
1º. DA ESCRITURA SAGRADA.O Antigo Testamento mostra-nos
Judas Macabeu recolhendo doze mil dracmas, espolio de uma
vitória memorável, e remetendo-as para Jerusalém, a fim de que
se oferecessem sacrifícios pelas almas dos que haviam perecido
no combate, por ser, dizia ele, um pensamento pio e salutar ode
orar pelos mortos para que se resgatem de suas faltas.
O Novo Testamento refere-nos estas palavras de Jesus Cristo bem
claras e precisas: Há pecados que nunca são remetidos, nem neste
mundo nem no outro. (Mat. 12) Haverá, portanto, pecados que
serão perdoados na outra vida. Não são menos frisantes estas
outras palavras da parábola do credor: Há uma prisão donde não
se sairá senão quando se tiver pago o ceitil derradeiro. (Mat, 18).
— E estas de São Paulo: Haverá no último dia um fogo que
destruirá as obras de certas almas, que só então salvar-se-ão. (Cr,
3.)
2º. DA TRADIÇÃO INTEIRA, à qual deu o Concilio de Trento esta
ratificação infalível:
«Se alguém pretender que todo pecador penitente, quando recebe
a graça da justificação, obtém a remissão da culpa e da pena eterna
de tal sorte que não fica devedor de nenhuma pena temporal a so-
frer na terra ou na vida futura no Purgatório, antes de entrar no
reino dos Céus: seja anátema! (Sess. 6.a)*
3º. DA RAZÃO, finalmente, como São Boaventura com sua lucidez

*
O escritor não cita ipsis verbis os textos, mas dá seu sentido exato.(Do Trad.)
ordinária expõe nestes termos:
«O Purgatório deve existir por muitas causas:
A primeira, como observa Santo Agostinho, é que há três ordens
de pessoas: Umas inteiramente más, e a essas não aproveitam os
sufrágios da Igreja; outras inteiramente boas, que não precisam de
tais sufrágios; outras, enfim, que não são de todo más, nem de todo
justas e a estas cabem as penas passageiras do Purgatório, porque
suas faltas são veniais.
A segunda causa é a própria justiça de Deus, porque, assim como
a soberana bondade não sofre que o bem fique sem remuneração,
assim a suprema justiça não permite que o mal fique sem
nenhuma punição...
A terceira razão para que haja um Purgatório é a sublime e
santíssima dignidade da luz divina que somente olhos puros
devem contemplar. É preciso, pois, que volte cada um à sua
inocência batismal, antes de comparecer na presença, do Al-
tíssimo.
Além disso, todo pecado ofende a Majestade Divina, — é
prejudicial à Igreja — e desfigura em nós a imagem de Deus.
Ora, toda ofensa pede um castigo, todo dano uma reparação, todo
mal um remédio; portanto é necessário também (neste mundo ou
no outro) uma pena que corresponda ao pecado.
Demais, os contrários ordinariamente curam-se com os
contrários, e como o pecado nasce do prazer, o castigo vem a ser o
seu remédio natural.
A ninguém pode aproveitar a negligência, que é um defeito, e, se
tal defeito não fosse punido, pareceria de vantagem para a vida
futura não cuidar de fazer penitência neste mundo.» (Comp. teol.,
7).
II
Penas do Purgatório
A revelação que nos fala claramente da existência de um
Purgatório não se explica tão claramente sobre o estado em que
se acham as almas que precisam de purificar-se; não podemos,
portanto, saber com exatidão nem onde elas sofrem, nem o que
sofrem, nem de que modo sofrem.
Só podemos afirmar que as penas do Purgatório são
extremamente graves e de duas -espécies: a primeira, a mais insu-
portável, diz o Concílio de Florença, é a privação de Deus.
A necessidade de ver e possuir a Deus, que a alma, desprendida do
corpo, compreende ser o objeto único de sua felicidade: essa
necessidade se faz sentir atodas as nossas faculdades com uma
força extraordinária.
É uma sede ardente, é uma fome devoradora, é um vazio medonho,
uma espécie de asfixia produzida pela ausência de Deus, que éo
alimento e o ar de nossa alma.
A segunda é uma dor que põe a alma em torturas mais cruéis do
que as que os tiranos infligiam aos mártires.
A Igreja não definiu a natureza desta dor, mas permite ensinar-se
geralmente que há no Purgatório, como no inferno, um fogo
misterioso que envolve as almas sem consumi-las; e, diz La
Luzerne, conquanto não seja um artigo de fé, todas as autoridades
dão tanto peso à doutrina de um fogo expiatório que seria
temeridade desprezá-la.
III
Causas do Purgatório
São duas as causas do Purgatório:
1.a A falta de satisfação suficiente pelos pecados remetidos. É de fé
que Deus, perdoando os pecados cometidos depois do batismo e a
pena eterna devida a esses pecados quando são mortais, deixa
ordinariamente ao pecador já reconciliado a dívida de uma certa
pena temporal que ele há de solver nesta vida ou na outra.
2.a Os pecados veniais de que os justos podem estar maculados
quando partem deste mundo.
IV
Estado das almas do Purgatório
Conquanto padecendo os mais cruéis tormentos, não se
abandonam as almas do Purgatório à impaciência nem ao
desespero: estão na graça e na caridade, e sua vontade tanto se
conforma com a vontade divina, que elas querem com alegria tudo
o que Deus quer. — Adoram a mão que as castiga e, por mais
desejos que tenham de seu livramento, não o almejam senão na
ordem dos decretos divinos. Consolam-se com a certeza que tem
de não ofender mais a Deus e de ir um dia possuí-lo no Céu por
toda a eternidade.
V
Duração das penas do Purgatório
Essas penas durarão pouco em relação às penas do inferno que
são eternas, mas, consideradas em si mesmas, podem durar muito
tempo. A Igreja autoriza os sufrágios de aniversário por muitos
anos e até durante séculos: o que faz supor que as almas podem
ficar todo esse tempo no Purgatório. Autores respeitáveis, entre
outros Belarmino, admitem que haja pecadores detidos no
Purgatório até o fim do mundo.
VI
Boas obras em favor das almas do Purgatório
Há entre os fiéis vivos e os fiéis mortos comunicação das boas
obras.
—«A Igreja católica, esclarecida pelo Espírito Santo, aprendeu nas
divinas Escrituras e na antiga Tradição dos Santos Padres e tem
ensinado nos grandes Concílios que há um Purgatório e que as
almas detidas nesse lugar são socorridas pelos sufrágios dos fiéis
e principalmente pelo precioso Sacrifício do Altar». (Conc. Trent.
sess, 25.)
O corpo místico de Jesus Cristo se compõe de três Igrejas bem
distintas: a Igreja triunfante no Céu, — a Igreja padecente no
Purgatório, a Igreja militante na terra. Essas Igrejas, distintas em
razão de sua situação diversa, compõem realmente um só corpo,
do qual Jesus Cristo é a cabeça; em virtude da comunhão dos
Santos, que professam no símbolo, elas se prestam mútuo auxilio.
Tal é a magnífica harmonia do corpo da Igreja católica.
Não poderíamos nunca, diz o catecismo romano, exaltar e
agradecer devidamente a inefável bondade divina que outorgou
aos homens o poder de satisfazer uns pelos outros e pagar assim
o que é devido ao Senhor.
VII
As orações das almas do Purgatório
É certo que as almas do Purgatório não podem merecer para si,
mas ensinam comumente os teólogos, diz Monsenhor Devie, que
se lhes pode fazer súplicas e que Deus se digna atendê-las, quando
elas exercem a caridade para conosco, pedindo o que é necessário.
— Os Santos no Céu, acrescenta esse prelado, não podem merecer
para si; entretanto eles pedem por nós. É a doutrina de Belarmino,
de Suarez, de Lessio e de Liguori.
«As almas que pensam, diz Belarmino, são santas, oram como os
Santos; e são escutadas em razão de seus méritos anteriores.»
«A opinião de que as almas do Purgatório oram por nós, diz
Suarez, é muito pia e muito conforme à ideia que temos da
bondade divina: não é em nada errônea.»
«Os mortos, observa ainda Belarmino, podem vir em nosso auxilio,
porque os membros devem imitar a cabeça, o chefe Jesus Cristo...
Há de se dar a reciprocidade entre os membros de um mesmo
corpo: assim como na Igreja os vivos socorrem os mortos, os
mortos devem socorrer os vivos, cada um a seu modo».
Todavia, a Igreja em seu culto externo não pratica a invocação das
almas do Purgatório.
VIII
Aparições das almas do purgatório
1º. Estas aparições estão na ordem, das coisas que Deus pode
permitir, e não repugnam a nenhuma das suas perfeições.
Mas as almas do Purgatório, privadas dos seus corpos, não podem
por força própria entrar em comunicação com o mundo sensível:
é preciso um prodígio para que isto se realize.
2º. A Sagrada Escritura faz menção de aparições de mortos como
de Samuel a Saul, de Jeremias e do grão-sacerdote Onias a Judas
Macabeu, de muitos que saíram do túmulo na morte de Jesus
Cristo e foram vistos em Jerusalém.
3º. Um grande número de aparições que se contam são
imaginárias, mas é certo que as tem havido verdadeiras, até
mesmo em tempos não remotos. Santo Agostinho, S. Bernardo, S.
Gregório Magno e S. Liguori referem várias, e seria mais do que
temerário acusá-los de mentira ou de imbecilidade. S. Tomás diz:
«As almas dos mortos manifestam-se algumas vezes por uma
disposição particular da Providência para se ocuparem de coisas
humanas».*
4º. A Igreja não condenou, em tempo nenhum, esta crença.
Cumpre dizer também que ela nunca sancionou com sua
autoridade a autenticidade absoluta de nenhuma aparição citada
pelos Santos.
5º. Sendo as almas do Purgatório santas, boas e caritativas
conosco, quando têm de Deus a permissão de nos aparecer não é
evidentemente senão para testemunhar seu amor ou invocar o
nosso: longe, pois, de nos causar terror, uma aparição deveria
alegrar-nos.
Assim devemos ter como alucinação fantasmagórica, conto de
pura invenção, toda aparição que só tenha por fim apavorar os
vivos. É uma indignidade prestar este papel a almas santas.

*É portanto, contrária ao ensino da Igreja, além de humilhante e afrontosa aos destinos e


condição das almas dos finados, a doutrina do espiritismo que dá aos médiuns o poder de as
chamar ao mundo a fazerem revelações. A Igreja tem por várias vezes condenado esse erro
e suas funestas práticas e, ainda recentemente, ocupou-se do assunto o Instituto Psicológico
de Paris,nomeando para estudá-lo uma comissão que a esse fim celebrou 60 sessões, nas
quais tomou parte o medium mais afamado da Europa e cujo resultado Gustavo LeBon, que
é um eminente cientista e não um clerical nos Annales de Sciences Psychiques, resume na
seguinte conclusão: «O que há de certo no espiritismo é ter abalado milhares de mioleiras
que já não estavam muito sólidas». (Do Trad.)
ORAÇÕES PARA CADA DIA DO MÊS
Em nome do Padre, e do Filho e do Espírito Santo. Amem.
Senhor, preparai e fortalecei nossos corações com a abundância
de vossa graça, a fim de que, penetrando, em espírito de fé,
caridade e compaixão, nas tristes prisões do Purgatório, possamos
levar aos fiéis que nele sofrem os tesouros de sufrágios que dão
alívio a seus padecimentos, glória à vossa divina Majestade, con-
solação e paz a nossas almas.
V. Vinde, Senhor, em meu auxilio.
R. Deus, acudi em meu socorro.
V. Dai às almas o repouso, Senhor.
R. E da luz eterna o esplendor.
V. Descansem em paz.
R-. Amem.
ORAÇÃO
Ó santa e augustíssima Trindade! Ó Jesus! Ó Maria! Anjos benditos;
Santos e Santas do Paraíso, alcançai-me as seguintes graças que
peço pelo Sangue de Jesus Cristo: Fazer sempre a vontade de Deus;
Viver estreitamente unido com Deus;
Pensar incessantemente em Deus;
Amar sobre todas as coisas a Deus;
Fazer tudo por Deus;
Procurar só a gloria de Deus;
Fazer-me santo por amor de Deus;
Reconhecer minha miséria e o meu nada; Conhecer cada vez mais
a vontade de meu Deus.
Santa Maria, oferecei ao Eterno Padre o Sangue precioso de Jesus
Cristo pela salvação de minha alma, pelas santas almas do
Purgatório, pelas necessidades da Santa Igreja, pela conversão dos
pecadores, pelo mundo inteiro.
Lê-se a Meditação própria do dia, cuja série se encontra adiante, e reza-se, depois
esta
Salve Rainha
PELOS MORTOS
Salve, Rainha, Mãe de misericórdia, vida, doçura, esperança nossa,
não só neste vale de lágrimas, porém ainda no lugar de nossa
expiação, salve! A vós clamamos, Consoladora dos aflitos; a vós
suspiramos, gemendo e chorando por nossos irmãos que sofrem
no Purgatório. Esses vossos olhos misericordiosos volvei a eles,
Advogada nossa; e mostrai-lhes Jesus, bendito fruto do vosso
ventre. Isto vos rogamos encarecidamente por eles, ó clemente, ó
piedosa, ó doce Virgem Maria! Intercedei pelos mortos, Santa Mãe
de Deus, para que entrem já no gozo das promessas de Cristo.
Amem.
ORAÇÃO
Ó Jesus, abandonado de todos e até de vossos apóstolos no Jardim
de Getsêmani, dignai-vos lançar os olhos de misericórdia sobre as
almas do Purgatório, em particular sobre as que não recebem
orações nem consolações e que, pelo decurso do tempo ou efeito
de irreligiosidade e negligência, estão esquecidas; fazei que
participem das orações, santos sacrifícios, boas obras, cujo mérito
não puder ser aplicado àqueles por quem a Igreja os oferta. Ah!
Senhor, não terei eu abandonado, em um criminoso olvido, almas
que tenham jus a meu reconhecimento, de parentes, de amigos, de
benfeitores? Quero daqui em diante reparar tão grande
ingratidão... Se conhecesse algum meio eficaz, por mais penoso
que me fosse, empregá-lo-ia para aliviar essas pobres almas sem
proteção no meio de um oceano de sofrimentos. Entretanto, eu me
proponho fazer todos os sacrifícios que puder, e todo bem que
fizer ofereço-vos à vossa glória pelas almas do Purgatório. em
consideração de sua fé e esperança em vós, em consideração,
principalmente, da agonia mortal e cruel abandono que sofrestes:
dignai-vos, ó Jesus, remitir-lhes as penas que ainda têm de sofrer,
a fim de que possam ter livre entrada no reino eterno a que
aspiram e onde celebrarão a grandeza inefável de um Deus que
não desampara ninguém.
Ladainha pelos fiéis defuntos
Extraída do «Manual dos Ordenandos»
Senhor, tende piedade de nós.
Jesus Cristo, tende piedade de nós.
Senhor, tende piedade de nós.
Jesus Cristo, ouvi-nos.
Jesus Cristo, atendei-nos.
Deus Padre, dos Céus, tende misericórdia dos fiéis defuntos.
Deus Filho, Redentor do mundo, tente misericórdia dos fiéis
defuntos.
Deus Espírito Santo, tende misericórdia dos fiéis defuntos.
Santíssima Trindade, que sois um só Deus, tende misericórdia dos
fiéis defuntos.
Santa Maria, rogai pelos fiéis defuntos. (*)
Santa Mãe de Deus, rogai pelos fiéis defuntos.
Santa Virgem das virgens, rogai pelos fiéis defuntos.
S. Miguel, rogai pelos fiéis defuntos.
Santos Anjos e Arcanjos, rogai pelos fiéis defuntos.
S. João Batista, rogai pelos fiéis defuntos.
S. José, rogai pelos fiéis defuntos.
Santos Patriarcas e Profetas, rogai pelos fiéis defuntos.
S. Pedro, rogai pelos fiéis defuntos.
S. Paulo, rogai pelos fiéis defuntos.
S. João, rogai pelos fiéis defuntos.
Santos Apóstolos e Evangelistas, rogai pelos fiéis defuntos.
Santo Estevão, rogai pelos fiéis defuntos.
S. Lourenço, rogai pelos fiéis defuntos.
Santos Mártires, rogai pelos fiéis defuntos.
S. Gregório, rogai pelos fiéis defuntos.
Santo Ambrósio, rogai pelos fiéis defuntos.
Santos Pontífices e Confessores, rogai pelos fiéis defuntos.
Santa Maria Madalena, rogai pelos fiéis defuntos.
Santa Catarina, rogai pelos fiéis defuntos.
Santas Virgens e Viúvas, rogai pelos fiéis defuntos.
Santos todos e Santas de Deus, intercedei pelos fiéis defuntos.
Sede propício: perdoai-lhes, Senhor.
Sede propício: escutai-nos, Senhor.
De todo o mal, livrai-os, Senhor.
Da vossa ira, livrai-os, Senhor.
Do ardor do fogo, livrai-os, Senhor.
Da região das sombras da morte, livrai-os, Senhor.
Por vossa admirável conceição, livrai-os, Senhor.
Por vosso nascimento, livrai-os, Senhor.
Por vosso nome dulcíssimo, livrai-os, Senhor.
Pela multidão de vossas misericórdias, livrai-os, Senhor.
Por vossa Paixão acerbíssima, livrai-os, Senhor.
Por vossas chagas sacratíssimas, livrai-os, Senhor.
Pela morte ignominiosa com que, morrendo, vencestes nossa
morte,
Pecadores: nós vos rogamos, atendei-nos.
Vós que absolvestes a pecadora e escutastes o bom ladrão, nós vos
rogamos, atendei-nos.
Vós que salvastes gratuitamente todos os que estão salvos, nós vos
rogamos, atendei-nos.
Que absolvais de todos os seus pecados e penas aos nossos
parentes, propínquos e benfeitores, nós vos rogamos, atendei-nos.
Que vos digneis lembrar-vos e compadecer-vos de todos os fiéis
defuntos que não são mais lembrados na terra, nós vos rogamos,
atendei-nos.
Que outorgueis a todos os que descansam em Cristo o lugar de
refrigério, da luz e da paz, nós vos rogamos, atendei-nos.
Que convertais sua tristeza e luto em alegria, nós vos rogamos,
atendei-nos.
Que vos digneis coroar sua aspiração, nós vos rogamos, atendei-
nos.
Que os façais bendizer-vos de tudo e vos oferecer para sempre o
sacrifício do vosso louvor, nós vos rogamos, atendei-nos.
Que os eleveis ao grêmio dos vossos escolhidos, nós vos rogamos,
atendei-nos.
Filho de Deus, nós vos rogamos, atendei-nos.
Fonte de piedade, nós vos rogamos, atendei-nos.
Vós que tendes a chave da morte e do inferno, nós vos rogamos,
atendei-nos.
Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, dai o repouso
aos fiéis defuntos.
Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, dai o repouso
aos fiéis defuntos.
Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, dai aos fiéis
defuntos o repouso eterno.
Jesus Cristo, ouvi-nos.
Jesus Cristo, atendei-nos.
Senhor, tende piedade de nós.
Jesus Cristo, tende piedade de nós.
Senhor, tende piedade de nós.
Padre-Nosso
V. Das portas do inferno,
R. Salvai as suas almas, Senhor.
V. Descansem em paz.
Amem.
V . Senhor, escutai a minha oração,
R-. E chegue até vós o meu clamor.
OREMOS
Ó Deus, que perdoais aos pecadores e quereis a salvação dos
homens, de vossa clemência imploramos que, pela intercessão da
bem-aventurada sempre Virgem Maria e de todos os vossos
Santos, leveis à eterna bem-aventurança nossos irmãos, parentes
e benfeitores que tem partido deste mundo. Por Jesus Cristo,
nosso Senhor. Amém.
Querendo orar especialmente por um defunto:
Inclinai-vos, Senhor, a ouvir as humildes preces com que
solicitamos vossa misericórdia, para que transporteis à região da
paz e da luz a alma de vosso servo ..............que retirastes deste
mundo, e a façais participante da felicidade dos Santos. Por Cristo
Nosso Senhor. Amém.
Por uma defunta:
Nós vos suplicamos, Senhor, por vossa misericórdia, que vos
amerceeis da alma de vossa serva e, tendo-a libertado da
corrupção da vida mortal, lhe deis a posse da salvação eterna. Por
Nosso Senhor Jesus Cristo. Amem.
Salmo De Profundis:
Do profundo abismo, em que me achava, clamei por vós, Senhor:
Senhor, ouvi a minha voz.
Inclinem-se vossos ouvidos atentos ao clamor de minhas súplicas.
Se considerardes nossas iniquidades, Senhor: Senhor, quem se
poderá sustentar?
Mas em vós se encontra a propiciação, e Vossa lei me anima a
confiar em vós, Senhor.
Minha alma descansou na palavra do Senhor e nele pôs toda a sua
esperança.
Espere assim Israel no Senhor, desde o raiar da aurora até o mais
escuro da noite.
Porque o Senhor é todo misericórdia, e copiosa é a graça de sua
redenção.
E ele mesmo há de remir Israel de todas as suas iniquidades.
V. Dai-lhes o descanso eterno, Senhor,
R. E da luz perpetua o esplendor.
V. Da porta do inferno,
R. Livrai, Senhor, suas almas.
V. Descansem em paz.
R. Amém.
V. Ouvi, Senhor, a minha oração,
R. E chegue a vós o meu clamor.
ORAÇÃO
Ó Deus, Criador e Redentor de todos os fiéis, concedei às almas de
vossos servos e servas a remissão de todos os seus pecados, a fim
de que, pelas humildes súplicas de vossa Igreja, obtenham o pleno
perdão que sempre esperaram de vossa infinita misericórdia. Vós
que viveis e reinais por todos os séculos dos séculos. Amem.
W. Dai-lhes o descanso eterno, Senhor,
R. E da luz perpetua o esplendor.
V. Descansem em paz.
R. Amém.
LEMBRANÇA DAS ALMAS DO
PURGATÓRIO
DIA 1
A vigília dos mortos
Acabo de ler a tocante denominação da festa de amanhã:
Comemoração dos mortos, lembrança dos finados.
A Igreja católica não quer que sejamos ingratos e esquecidos, e por
isso criou esta festa das recordações, festa pia dos corações
amantes.
Sede bendita, Santa Igreja, que depois de nos terdes assistido até
nossa hora derradeira e depois de nos haverdes cerrado os olhos,
ainda cuidais de nós: trazendo-nos à lembrança daqueles que em
vida tanto amamos, e dando-lhes os meios de nos aliviarem e até
obrigando-os a pensar em nós!
Os hereges abandonam os seus, quando a morte lhos arrebata:
desde que cessam de vê-los, não se interessam mais por eles. Para
os descrentes e hereges tudo se acaba nessa hora: não podem
oferecer mais nada a seus mortos e, se, no momento da separação,
não ousam julgar admitido no céu o companheiro que perderam,
desde logo cessou tudo, só lhes restam as lágrimas!
Ah! as lágrimas são para os vivos, desafogam o coração, mas, sem
as orações, as lágrimas de nada servem aos mortos.
Sede, pois, bendita, Santa Igreja católica! Sede bendita por nos
trazerdes, no meio das agitações de nossa vida material, como um
eco de além-túmulo, esse grito tão tocante em sua simplicidade:
«Tende compaixão de nós, vós ao menos, ó amigos de outrora,
porque a mão do Senhor se descarregou sobre nós.»
Sede bendita Santa Igreja católica, por nos dardes os meios de
sermos úteis àqueles que Deus chamou a si.
Se a crença no Purgatório não existisse, o coração humano, pela
voz de suas mais íntimas necessidades e de seus mais nobres
instintos, o inventaria, fosse embora só para suavizar a morte e
para fazer a luz na tristeza e no crepe dos funerais. Antigamente,
em algumas comunidades religiosas, deixava-se desocupado na
capela e no refeitório, durante quarenta dias, o lugar de um irmão
que falecia: na capela faziam-se-lhe as saudações do costume,
como se ele fora presente; dava-se-lhe o ósculo de paz, e se dizia
em sua direção o requiescant in pace do ofício coral.
No refeitório serviam-lhe sua ração diária e, todos os dias, acabada
a refeição comum, vinha um pobre comê-la de joelhos, orando
pelo finado.
Nós desejamos também, durante este mês, convidar-vos para o
nosso lar, ó mortos queridos! queremos ocupar-nos de vós, orar
convosco, trabalhar convosco!
Daremos igualmente aos pobres, pelo repouso de vossa alma, a
parte que vos tocaria em nosso labor cotidiano.
DIA 2
Lembrança dos mortos
“Não esqueçais vossos mortos, vós a quem eles tanto amaram!” Vi
estas palavras gravadas, na porta de um cemitério, aos pés de um
crucifixo, e me despertaram uma série de pensamentos de
tristeza, de confusão e de remorso!
Não esqueçais vossos mortos, que tanto vos amaram! Estas
palavras se deveriam escrever, não só na porta do cemitério em
que repousam seus corpos, aguardando a ressurreição, mas ainda
em cada um dos móveis que temos ao redor de nós e que deles
recebemos.
Neste aposento. — Não foi ele, esse finado talvez já esquecido, esse
pai que queria tanto; não foi ele quem o dispôs tal qual está
proporcionando-nos tantas comodidades?
— Não- foi nesse leito que ele exalou o último suspiro, que nos
disse o derradeiro adeus e que nos deu a sua última benção?
Nestes moveis. — Não foi essa mãe, de quem talvez já não nos
lembrávamos, quem os comprou para nós? Evoquemos nossas
recordações: foi para a festa de nosso dia de anos: ela fizera
economias, condenara-se a privações para nos adquirir esses
objetos, porque uma vez lhe manifestamos vagamente o desejo de
possuí-los.
Nesta cadeira. — Não é a que ela ocupou em seus últimos dias,
donde tanto nos acariciava? Esse lugar junto à mesa não era o seu?
Neste oratório. — Não era aquela boa irmã, menina tão piedosa,
quem o ornava? Nós vínhamos rezar ali com ela e, chamados por
ela, vínhamos todos, pai, mãe, os irmãos pequenos... e agora, está
abandonado talvez...como a lembrança daquela que já não pode
mais orar conosco.
Neste crucifixo que guardamos como uma relíquia, — Não recebeu
ele os ósculos derradeiros de um pai, de uma mãe, de um filho?
Ó meus mortos mui queridos, com que dita eu acolho estas
recordações que me comovem, consolando-me? com que prazer
eu vos revejo em espírito e peço a Deus vosso alívio, vossa paz,
vosso repouso eterno!
Se o tivésseis querido, Senhor, estes seres tão amados, viveriam
ainda e estariam junto a nós!
Eu me resignei à vossa santa vontade: aceitai em atenção a esta
resignação dolorosa, mas submissa, recebei as orações que por
eles faço hoje e quero fazer todos os dias deste mês.
DIA 3
Lembrança dos mortos
A lembrança dos mortos é um encanto para o coração.
Uma animação para o trabalho.
Um conforto para as horas do cansaço.
Um freio para o ímpeto das paixões.
Quantas vezes, vendo um órfão crescer e desenvolver-se na
inteligência e no coração, dizem os amigos da família: Oh! se os
pais o vissem, como se julgariam felizes!
Quantas vezes, também nós temos dito nessas horas em que,
aflitos, não encontramos um coração que se nos abrisse e com o
qual desafogássemos: ah! se minha mãe aqui estivesse, eu não
sofreria tanto! se meu irmão, se minha irmã, se meu amigo vivesse,
não estaria agora abandonado!
Qual de nós se não surpreendeu já num desses momentos de
angústias que atravessam toda a existência humana, exclamando:
Meu pai! minha mãe!
Até em nossas alegrias, em nossos triunfos, acaso não ternos
repetido às vezes: Se minha mãe me visse, que prazer teria!
Recordações tão caras, embora tão dolorosas, vós rejuvenesceis
minha vida!
Quantas vezes, um bilhete velho de um amigo de infância, — uma
carta, principalmente de pai ou mãe, demonstrando-nos sua
afeição, dando um conselho, fazendo uma advertência, — carta
deparada por acaso no fundo de uma gaveta, levou-nos de novo a
esses dias passados em que vivemos todos juntos, trabalhando e
sofrendo unidos, e ajudando-nos uns aos outros! E essas
recordações nos despertaram também a de que não fomos sempre
bastante indulgentes, bastante obedientes e amantes: e pusemo-
nos a corrigir os erros.
Oh! não será estéril a lembrança de hoje! Meu pai, minha mãe, vou
reler vossas cartas, escutar vossas advertências, e a satisfação que
não vos dei, quando estáveis a meu lado, vós a tereis agora.
Conta-se de uma mãe que, na idade em que a filho começava a
compreender e sentir, o levou em frente ao retrato do pai e lhe
disse: Jura que te esforçarás para ser digno dele!
O menino jurou, e, por vezes, se detinha ante o retrato que parecia
olhá-lo, e assim o interpelava: Meu pai, está contente comigo?
Eis a minha promessa de hoje: Sim, eu me farei digno de vós, ó
meus mortos muito amados! Vós me haveis de ver fiel a Deus, fiel
a meus deveres, fiel aos vossos exemplos.
DIA 4
Relações com os mortos
Se a lembrança dos mortos é tão grata, se tem tanta força para nos
determinar a fazer o bem, que será o pensamento íntimo de nossas
relações de cada instante com eles?
A doutrina católica oferece a perspectiva mais consoladora sobre
essa estreita e afetuosa comunicação das almas dos escolhidos,
que começa além-túmulo e prossegue na bem-aventurança eterna.
O ensino da Igreja nos permite crer que nossos defuntos não estão
ausentes, mas apenas velados e sempre junto a nós.
Ah! o pai, a mãe, o filho, o amigo a quem eu prezava, não era
somente aquele Corpo que se via e se tocava, mas também aquela
alma a quem Deus havia concedido toda a afeição que me
mostrava e que eu lhe retribuía. Aquela alma já não se manifesta
mais exteriormente, porém ainda me faz sentir sua presença.
Falem a respeito aqueles a quem Deus outorgou a graça de
compreender o que essa comunicação das Igrejas militante e
purgante encerra de consolador e suave! «Aquele a quem
choramos, escrevia Fenelon, não se ausentou de nós, fazendo-se
invisível. Ele nos vê, ele nos quer, ele se compadece de nossas
necessidades. Os sentidos e a imaginação só é que perderam seu
objeto. Aquele que já não podemos ver, está mais do que antes co-
nosco. Encontrá-los-emos sempre no meio de nós, olhando-nos e
oferecendo-nos os verdadeiros socorros. Não- sofrendo mais suas
enfermidades, melhor do que nós, conhece ele as nossas, e pede os
remédios que nos dão cura. Embora privado de vê-lo há muitos
anos, eu lhe falo, abro-lhe meu coração, tenho a crença de en-
contrá-lo na presença de Deus; e, conquanto já o tenha chorado
amargamente, não posso dizer que o perdi.Oh! quanto é real esta
união íntima!»
«A morte, diz S. Bernardo, não separa dois corações unidos pela
piedade.»
«As almas dos justos não nos deixam. Se quisermos, elas se
conservarão conosco e nos farão experimentar um bem-estar
indefinível, mas real. Invoquemo-las frequentemente com as
nossas preces, com as nossas aspirações e com as boas obras que
lhes fizeram e também a nós farão ganhar o Céu.» (Gergerès)
Eu posso, portanto, associar-vos a meus trabalhos, a minhas
orações, a minhas alegrias, a minhas tristezas, ó meus queridos
finados! Que bem me faz este pensamento!
DIA5
Relações com os mortos
Ocupemo-nos ainda hoje das relações íntimas que há entre nossa
alma e as almas dos nossos mortos. «Nada mais triste, escreve
Ozanam, nada mais desolador do que o vácuo aberto pela morte
ao redor de nós. Eu conheci esse tormento depois da morte de
minha mãe, porém durou pouco. Não tardaram a vir outros
momentos em que entrei a compreender que não estava só, em
que alguma coisa de suavidade infinita se passou dentro de mim:
era como uma confiança de que não me haviam abandonado, era
como uma vizinhança benfazeja, embora invisível; era como se
uma alma estremecida, de passagem, me acariciasse com a ponte
de suas asas.
E, assim como outrora eu reconhecia os passos, a voz, a respiração
de minha mãe; assim quando um bafejo aquecia ou reanimava
minhas forças, — quando uma ideia nobre preponderava era meu
espírito — quando um impulso generoso abalava minha vontade,
logo me vinha o pensamento de que partia dela.
Já se passaram dois anos, correu o tempo que dissipa todas as
ilusões da imaginação perturbada, e experimento sempre a
mesma coisa.
Quando pratico o bem, quando faço qualquer coisa pelos pobres,
a quem minha mãe acudia tanto, quando estou em paz com Deus
que ela servia bem, afigura-se-me que ela me sorri de longe.
Às vezes, ao rezar, julgo ouvir sua oração acompanhando a minha,
como fazíamos juntos, à noite, aos pés do crucifixo. Finalmente,
quando tenho a felicidade de comungar, quando o Salvador vem
me visitar, parece-me que ela o segue a meu mísero coração, como
tantas vezes seguia, levado em Viático, às casas dos indigentes».
Todo o coração amante e piedoso há de experimentar mais ou
menos o que experimentava Ozanam, mas isto só acontece ao que
tiver sido realmente piedoso, ao que amar sinceramente a Deus,
ao que houver sido bom e dedicado enquanto viveram aqueles a
quem chora!
Só esse poderá dizer o que S. Jerônimo diz de Santa Paula: Nós a
possuímos ainda conosco... Aquele que volta ao Senhor continua a
fazer parte da família.
DIA 6
A depositária das recordações
Não é grata ao coração dos mortos, não é consoladora essa
reconstituição, pelo pensamento, da família, que a morte dis-
persou.
Mãe! esse filho que morreu em teus braços, a esta hora é o amigo,
o irmão o companheiro de teu anjo da guarda perto de ti, a teu lado
talvez; ele te diz baixinho: Não chores, mãe, eu sou feliz!
Filho! tua mãe, teu pai, mortos na paz do Senhor, são como
outrora, embora de um modo invisível, teu guia, teu conselheiro,
teu defensor!
Amigos, irmãos, esposos! aquele que o bom Deus chamou a si, não
cessa de vos amar: mais puro com a expiação do purgatório, mais
amante pela sua união com Deus, no Céu ele será para convosco
tudo o que era na terra, e ainda mais clara e poderosamente!
Nutri-vos destas ideias, pobres almas aflitas; os sentimentos que
elas despertarem suavizarão a amargura de vossa dor. Se tais
sentimentos perseverarem, se fizerem permanência em vossa
vida, oh! como os dias vos correrão tranquilos! Mas, ah! o
sentimento é de sua natureza passageiro: tanto mais
impressionável quanto mais delicado, o coração também vê
apagarem-se, pouco a pouco, suas impressões substituídas por
outras. Os vestidos do luto ficam durante algum tempo a avivar
nossas recordações queridas, mas esses vestidos se deixam, e com
eles aliviam-se primeiro e depois desaparecem também as
lembranças.
Pobre natureza humana! a Igreja bem o conhece, e, não querendo
que nos tornemos esquecidos, constituiu-se, em nome de Deus, a
depositaria das recordações de nossos mortos.
Vejamos o que ela fez.
Consagrou um dia inteiro todos os anos, à oração pelos finados.
Nesse dia, reveste-se de todas as suas pompas fúnebres e nos
conduz todos ao cemitério a olhar mais uma vez o túmulo dos
nossos mortos.
Quis que um dia de cada semana, a segunda-feira — fosse
especialmente consagrado a sufragar os falecidos, e, em muitas
Ordens religiosas, junta-se nesse dia ao Ofício canônico — o dos
mortos.
Dispôs que no fim de cada Ofício, isto é, sete vezes por dia, todos
os sacerdotes e religiosos tivessem uma lembrança em favor dos
mortos e rogassem a Deus para eles o descanso e a paz.
Instituiu aniversários, a fim de que as famílias viessem
regularmente, todos os anos, ajoelhar-se ao pé do altar para pedir
de um modo particular por seus defuntos.
Determinou que todas as manhãs, no santo sacrifício da Missa,
houvesse uma recomendação e um memento especial pelos
mortos.
Concedeu indulgências particulares às orações pelos defuntos, e
permitiu que se aplique em favor deles grande número de
indulgências ganhas por orações e boas obras.
Aprova, sustenta e acoroçoa* a fundação das confrarias
consagradas ao cuidado dos mortos.
Vós que praticais o culto dos mortos, amai a Igreja que tem a
missão de conservá-lo em vossos corações!
Aquele que não vai mais à Igreja, esquece depressa os mortos!
DIA 7
Consolação
Serve a todos a página seguinte, embora escrita expressamente
para a consolação de um só.
Todos aqueles que amavam e a quem a morte arrebatou o objeto
do seu amor, todos carecem das mesmas palavras que levantam o
espírito e que o tranquilizam.
«Não podeis habituar-vos à ideia de não achar mais em parte
alguma, sobre a terra, o ente a quem parecia ligada vossa vida. É
dolorosa, muito dolorosa a separação que vos feriu, mas lembrai-
vos de que nossos laços só se quebram na aparência... Deus, que
os formou na terra, transporta aos Céus aqueles a quem prezamos,
para nos forçar a erguer os olhos até sua mansão eterna.
A vista do cristão fixa o outro mundo, mas o olhar do coração
encontra um vácuo desolador. Vós, principalmente, que podeis
esperar a salvação de vossa irmã, não lastimeis sua sorte que é a
convivência com os anjos. A vida piedosa, a morte edificante que
teve, fazem crer que sua alma está gozando de uma felicidade que
vós não podeis prometer-lhe nem dar-lhe. Dizei antes, pensando

*
Acoroçoar significa incitar, animar.
em sua ausência: Nós nos tornaremos a ver bem cedo, e então
nada mais nos há de separar!
Penetremos nos intuitos divinos: Deus nos fere quando quer, e no
ponto mais Sensível. É só a fé que nos dá forças para estes
sacrifícios naturalmente impossíveis. Um cristão não pode afligir-
se como quem não tem a esperança! Falai pouco aos homens e
muito a Deus sobre a vossa tristeza. Eis o segredo da resignação.
Não esqueçais de que devemos: sempre amar a Deus que é bom,
até mesmo quando nos envia a tribulação. Estranhareis acaso que
ele tenha recompensada aquela que lhe fez tão generoso sacrifício
de sua mocidade, de sua beleza, de sua fortuna e de sua vida?
Lembrai-vos do momento solene em que o sacerdote; sem abaixar
a voz, disse-lhe: «Sai, alma cristã, sai deste mundo!» Como
respondeu ela com um sorriso angélico: «Sim, meu Deus, já, se o
quiserdes!»
Ela estava, portanto, preparada para esta viagem eterna!
Ela morreu como morrem os santos. Voou para o lugar de
felicidade em que a esperava, para coroá-la, o Deus a quem tanto
amou. Olhai para o Céu, e esse olhar fortalecerá o vosso coração
dilacerado. Aproximai-vos do sagrado Tabernáculo. Que coisa
melhor poderia fazer um coração aflito que, a todo momento se
apega às criaturas! Sofrei junto de Jesus Cristo: sofrereis amando.
O amor suaviza tudo e nos consola de sobrevivermos àqueles que
queríamos mais do que a nós mesmos».
DIA 8
Consolação
Nosso Senhor Jesus Cristo quis para nossa consolação
experimentar as amarguras que causa ao coração humano a perda
daqueles a quem ama.
«Lázaro era apenas seu amigo, diz Monsenhor Segur; Jesus ia
cientemente ressuscitá-lo, e, todavia, quis chorar, quis sofrer, para
santificar as dolorosas emoções da separação.
A morte dos que nos são intimamente caros é, pode-se dizer, a dor
das dores».
«Vedes este esquife? dizia-me um dia um pobre operário que
seguia, soluçando, o préstito de seu filho único: é minha vida que
se vai!»
Para essas torturas, para tais dores que, com toda a verdade, se
tem chamado uma dor louca, só há uma consolação: a que Vós
dispensais, ó meu Deus! Perto de Vós, sob vossa mão paternal, que
fere e que cura, o pobre coração recobra a paz, a própria felicidade,
não a da terra, mas a do Céu: a felicidade da terra cessou para ele.
Escutemos algumas palavras, eco abençoado de um coração
partido, mas de um coração ditoso dessa ventura celeste.
«Haveis de vos considerar muito infeliz», dizia-se uma mãe
verdadeiramente cristã que acabava de perder sua filha.
— «Infeliz? respondeu ela brandamente, oh! não! eu sofro muito,
mas sei que minha filha está com Deus».
«Meu coração está traspassado, dizia um pai a quem falavam da
morte de seu filho, o único arrimo de sua velhice. Mas, eu sinto
ainda assim uma certa alegria no fundo d'alma: Meu filho está
salvo! Sabeis o que ele era para comigo, sabeis quanto eu o queria
e ele a mim. Pois bem, se o bom Deus me propusesse restituir-mo,
eu não o aceitaria. Meu filho está salvo, salvo por toda a
eternidade! Tudo mais não é nada!»
«Eis que vosso filho está a seguro e possui a salvação eterna!
escrevia a uma mãe S. Francisco de Sales. Ei-lo escapo e garantido
contra toda a perdição!... Foi para proteger vosso filho que Deus o
levou tão cedo... Oh! quanto ele há de estar contente e agradecido
pelo cuidado que dele tivestes enquanto se achava a vosso cargo,
e principalmente pelas devoções que praticais em seu beneficio!
Em compensação, roga ele a Deus por vós e faz mil votos por vossa
vida, para que ela seja cada vez mais conforme à vontade divina e
assim possais ganhar o Céu de que ele goza. Ficai, portanto, em paz
e erguei bem o vosso coração ao Céu onde contais com esse bom
santinho.»
Ei-las, as palavras de verdadeira consolação: Aquele que eu choro
está no Céu, está ao abrigo das misérias... e me espera!
DIA 9
Felicidade de ser útil aos mortos
«Oh, se tudo estivesse acabado para sempre, se eu não pudesse me
ocupar mais dele, se não tivesse mais o prazer, não digo só, de
torná-lo a ver no Céu, mas de lhe ser ainda útil durante o resto de
minha vida, como seria isto cruel!» dizia uma pobre mãe junto ao
corpo inanimado de seu filho.
Deveria ser muito doloroso, sim; mas consolai-vos, pobres filhos,
vós podereis ainda ser úteis àqueles que a morte vos roubou,
podeis ajudá-los a mais depressa ganhar o Céu! A Igreja
compreendeu essa necessidade de vosso coração e deu alimento a
vosso amor.
A morte separa: parte os laços materiais que nos prendiam uns
aos outros; não dissolve os laços imateriais que ligavam uma alma
a outra alma, um coração a outro coração.
Está longe, não está perdido: é o grito da alma cristã, e assim, um
pai, uma mãe, um filho podem sempre ocupar-se daqueles que
amavam, quando os possuíam consigo, e que ainda prezam,
mesmo sem os verem.
Os atos de dedicação, de que foram cheios os vossos dias e que
tinham por objeto fazê-los felizes, podeis praticá-los ainda, e,
oferecendo-os a Deus pelo repouso dessas almas, vós continuareis
a trabalhar em sua felicidade.
O trabalho material que fazíeis por eles podeis prossegui-lo ainda
em sua intenção, e o fruto lhes será aplicado pela misericórdia
divina.
As riquezas que acumuláveis para eles, podeis juntá-las ainda, e o
que em seu nome distribuirdes aos pobres, lhes há de ser
comunicado por Deus de um modo muito mais útil do que vós
mesmos o teríeis feito.
«Conheci, diz o Visconde Walsh, um luterano que, por amor de
nossa crença no Purgatório, se fez católico.
Perdera um irmão querido no meio de um banquete e lembrava-
se a cada instante, dessa passagem tão brusca de uma orgia para o
fundo de um féretro.
Ah! disse-me ele num dia de finados, por causa de meu irmão vou
me fazer católico... Quando me for permitido rezar por meu irmão,
então respirarei, viverei para pedir todos os dias o Céu para
aquelea quem tanto estimei na terra. Vossa Igreja faz que os seres
que se prezam possam ajudar-se mutuamente ainda depois da
morte. Vossas orações tiram ao sepulcro sua mudez pavorosa, Vós
conversais ainda com os que já partiram desta vida;conhecestes a
fraqueza humana, essa fraqueza que não é crime, mas ainda
menos é a pureza; e, entre os limites do Céu e do inferno, Deus vos
revelou um lugar de expiação, o Purgatório.
Meu irmão está aí, talvez: eu me faço católico para libertá-lo dessa
prisão para me consolar neste inundo, para me aliviar deste peso
que me oprime, peso que eu não sentirei mais, quando me for dado
orar.»
DIA 10
Esperança
Um pensamento sombrio vem, talvez, lançar o terror na alma à
hora em que evoca a lembrança de seus mortos.
«Ah! diz ela, eu me tranquilizaria, ficaria em paz e me julgaria feliz,
se pudesse contá-lo no Céu, se houvesse falecido cercado das
preces da Igreja e purificado pelos últimos sacramentos, Mas ah!
morreu de repente, morreu longe do bom Deus a quem tinha
esquecido em sua vida inteira!»
Pobre coração aflito, eu vos responderei a isto com as palavras que
a Igreja me autoriza a dizer-vos:
A Igreja não condena definitivamente a ninguém. Baixa decretos
para declarações de que uma alma está no Céu e assim pode ter
culto, mas nunca expede nenhum, publicando que uma alma esteja
no inferno.
São Francisco de Sales não queria que se desesperasse nunca da
conversão dos pecadores até seu último suspiro, e, ainda depois
de mortos, não admitia que se julgasse mal mesmo dos que tinham
levado uma vida irregular, a não ser daqueles cuja condenação
consta da Escritura. Alegava como razão disso que nem a primeira
graça nem a derradeira, que é a perseverança, se dá por mérito,
isto é, ambas são de todo gratuitas. Entendia, portanto, que se
devia presumir sempre bem da pessoa que expirava, ainda não
sendo sua morte edificante, porque todas as nossas conjecturas só
se podem firmar sobre as aparências, e essas, muitas vezes, iludem
ainda os mais experientes.
«Entre o último suspiro do moribundo e a eternidade, há um
abismo de misericórdia, » disse um bispo ilustre. — Passam- se
entre Deus e a alma certos mistérios de amor que nós só
conheceremos no Céu.
Que precisa este agonizante para obter o perdão? Uma luz que lhe
mostre a justiça e a misericórdia divinas; uma luz, ainda rápida
como um relâmpago; essa luz pode produzir um sentimento de
contrição e de amor, este sentimento basta para lhe fechar o
inferno e abrir o Purgatório.
Esta luz é Jesus, apresentando-se àquela alma e dizendo-lhe com
um olhar ligeiro como o pensamento: É a mim ou ao demônio que
tu queres? e a alma dizendo com a mesma rapidez: A vós, a vós,
Senhor! e a misericórdia triunfa! Esperai, pois, esperai sempre;
dirigi vossas preces constantes por esses mortos que vos fazem
estar inquietos: ninguém pode calcular até que ponto essas preces
podem ser atendidas.
DIA 11
Esperança
Ainda algumas palavras de esperança sobre as almas de nossos
mortos. Fala o padre Bougaud em sua obra:O Cristianismo e os
tempos presentes.
«Quem poderá narrar as misericórdias de Deus no leito de morte
de seus filhos? Aí nessas sombras confusas da hora última, em que
o olhar do homem nada mais distingue, quem pode saber o que se
passa entre Deus e uma alma? Quando o espírito paira nos lábios
como um ligeiro sopro, já não mais da terra, nem ainda do Céu: no
momento: em que Deus se inclina para recolher essa alma, quem
poderá dizer o que se passa? Uma mãe repeliria seu filho, ainda
mesmo sendo um ingrato? não tentará ela por todos os meios
trazê-lo de novo a si? Não irá sempre ao seu encontro, até o fim?
não esgotará todos os recursos para salvá-lo, a despeito de toda a
obstinação dele em fugir-lhe? Ora, Deus é mais do que a mãe.
Vede o que fez Ele para tornar impossível a perda das almas! Não
lhe bastou haver-nos envolvido nessa graça que nos previne, nos
segue e nos banha como uma atmosfera. Foi pouco ter
estabelecido sete sacramentos, isto é, sete rios de luz e de força
que inundam a vida inteira e cada um de seus períodos, como tudo
isso não satisfazia ainda seu coração de pai, vede e adorai a
maravilhosa invenção de seu amor.
Estais enfermo: já sentis que sobre vós estende a morte suas
negras asas. Acodem-vos à memória vossos pecados, vossas
fraquezas, aquele ato do qual vos disse a consciência: Isto,
incontestavelmente, é um mal. O sacerdote não chega a tempo de
recolher vossa confissão, oferecê-la a Deus e vos perdoar em seu
nome: que fazer? Vós tendes um coração: arrancai dele um alento,
um grito, uma lágrima, uma palavra de arrependimento, um ato de
amor, um só! sereis logo absolvido: ficais purificado e perdoado.
Aquele homem, prestes a morrer, ainda há pouco blasfemava; o
sacerdote veio, ele o repeliu: apresentaram-lhe o Crucifixo, ele o
afastou com a mão. Foi seu derradeiro movimento; seu último ato.
Os socorros da religião não poderão chegar mais até sua alma já
profundamente mergulhada nas sombras da morte. Mas resta-lhe
o coração, e, para ser salvo, perdoado, que será preciso? Um
simples ato de amor, um só desejo, um só pesar, uma só palavra:
Meu Deus, eu vos amo!
Homens cegos, que chorais de desespero em redor desse leito!
talvez à mesma hora os anjos conduzam essa alma com gritos de
alegria.
Ela salvou-se com esse ato de amor.
O Purgatório a recebeu.
Esse homem que acaba de suicidar-se, cometeu um crime sinistro.
A Igreja afasta-se com horror de seus restos mutilados, e faz bem.
Mas ensinará ela que o mísero esteja perdido sem recurso? Não,
absolutamente; pois quem sabe o que fez esta alma no momento
em que, lacerada, partiu desse mundo? Quem sabe o que ela viu ao
clarão do tiro de morte? que revelação teve ao disparar a arma
fatal? Teve muito pouco tempo! direis vós. Ah! que importa? Uma
palavra, um grito, um olhar, um transporte de amor a Deus, basta
para que ela saia deste mundo purificada.»
DIA 12
Esperança
«Oh! como desconhecemos nós o coração de Deus! quando o
homem está prestes a morrer, o homem que ele criou por suas
mãos, sobre quem velou com ternura (durante a vida, a quem
seguiu passo a passo, a quem tocou e iluminou para chamá-lo a si
e que não atendeua nada disto; quando está à morte, Deus se pre-
para para dar-lhe o derradeiro combate, o combate do amor, o
combate supremo de uma mãe que, vendo o filho quase arre-
batado, fica louca, terrível, chega ao paroxismo da indignação e do
amor. Desce, por isso, esse Deus de bondade; inclina-se esse pai
inquieto, para o leito de dor em que vai morrer um de seus filhos.
Apela para tudo o que havia já empregado com o fim de o vencer,
luzes, graças, ternuras, benefícios: Eu vo-los dei às mãos cheias, tê-
los-eis sem medida!
Se o enfermo rende-se aos primeiros assaltos, vê-se o triunfo, e a
religião ganha a conversão de um pecador. Mas, se o homem
resiste e, antes de ter cedido, cai nas sombras que precedem a
morte, nem por isso termina o combate. Ao contrário, redobra de
esforço, e a vitória pode ainda ser de Deus, mesmo quando não há
mais para os homens nenhum meio de o saber. Quando os olhos
do enfermo ficam turbados; quando as extremidades ficam frias;
quando para verificar se ainda vive precisa-se pôr a mão sobre seu
coração: se a mão do homem fosse mais sensível, sentiria a luta
que continua, a luta suprema. Trata-se de obter uma palavra, nada
mais do que uma simples palavra, um alento, um leve movimento!
Deus trabalha para isso com a obstinação do amor: e quem não
compreende que Deus, lutador hábil, há de consegui-lo muitas
vezes?
Vós dir-me-eis: Que é que sabeis, ao certo, em tudo isso? onde
encontrastes a história dessa luta? Respondo: Achei-a em vosso
coração. Sois pai? sois mãe? O que eu digo, não o faríeis vós?
Então, o coração de Deus não velará o vosso?! tereis vós a gloria
de fazer por vossos filhos mais do que Deus pelos seus?
Impossível. É assim, ó religião divina, que não há dor alguma sem
consolação: tu as refrigeras todas na esperança.»
« Minha luz divina, — dizia Nosso Senhor a Santa Gertrudes, que
lhe pedia graças para um pobre pecador falecido sem sa-
cramentos,—minha divina luz que penetra no futuro,
manifestando-me que vós faríeis por ele esta oração, eu lhe des-
pertei no coração boas disposições que o preparassem a gozar os
efeitos da vossa caridade.»
Palavras de consolação! diz o padre Blot: Na previsão de nossas
orações futuras, Deus se digna conceder ao pecador moribundo
boas disposições que assegurem a salvação de sua alma!
Sim, palavras consoladoras, bem próprias para nutrir a esperança
em nossa alma.
SOFRIMENTO DAS ALMAS DO
PURGATÓRIO
DIA 13
1º sofrimento — Pena dos sentidos
Ó meus caros mortos, se para meu coração toda a pena fosse a da
separação, seria cruel, por certo; mas o pensamento de comunicar
convosco pela oração, e ainda mais a ideia de vos tornar a ver no
Céu, e de vos tornar a ver mais santos e mais amantes, aliviaria
esta dor; mas, ah! este mesmo pensamento que me dá a esperança
de vos tornar a ver, leva-me a contemplar-vos nas chamas do
Purgatório, sofrendo e consternados.
Não escutarei a imaginação, que poderia levar-me além da
realidade; quero ouvir os santos, e o que me dizem eles acerca do
que vós sofreis, é bastante para excitar a minha compaixão, e
obrigar-me a socorrer-vos.
«Reuni, diz Santa Catarina de Gênova, todas as penas que os
homens têm sofrido, sofrem e sofrerão, desde o princípio do
mundo até o fim dos tempos; juntai todos os tormentos que os
tiranos e os algozes têm feito sofrer aos mártires; será uma pálida
imagem dos tormentos do Purgatório; e, se às pobres
encarceradas fosse permitida a escolha, prefeririam aqueles
suplícios durante mil anos a ficarem no Purgatório mais um dia;
porque, diz S. Tomás, o fogo que os envolve é o mesmo que
atormenta os condenados no inferno, e esse fogo, oh, é terrível!»
Deus, escolhendo o fogo, soube achar um reparador digno de sua
justiça!
Não há dor, dizem os que têm estudado a natureza desse
elemento, que iguale a que ele causa.
Não objeteis que o corpo não está no Purgatório: a dor, diz S.
Tomás, não é o golpe que se recebe, mas a sensação dolorosa desse
golpe. Quanto mais delicadeza há nessa sensação, mais viva é a
dor, e a alma, ainda sendo ferida, ela sozinha experimenta ao
mesmo tempo a aflição que lhe fariam sofrer todos os membros
do corpo atacados separadamente.
Esse fogo do Purgatório, cuja natureza não conhecemos, dotado
por Deus de uma espécie de inteligência para esmerilhar nos
recessos da alma e consumir todas as manchas que lhe deixou o
pecado, obra
ao mesmo tempo sobre a imaginação e a memória, sobre o juízo e
a vontade...
Não aprofundemos mais este ponto; porém, fixando a atenção,
escutemos o grito pungente que, do fundo desse abismo de fogo,
vem até nós: Eu sofro, sofro muito no meio destas chamas: uma
gota d'água! uma prece, por piedade!
DIA 14
2º sofrimento — Pena do dano
A pena mais terrível do Purgatório é certamente a pena do dano,
isto é, a separação forçada de Deus ou uma força irresistível que a
cada instante afasta bruscamente de Deus a alma que a todo mo-
mento; por instinto de sua natureza, corre a se unir com ele.
Pode-se fazer uma ideia dela pelo suplício de uma mãe que,
chamada pelo filho prestes a ser devorado por uma fera, fosse
retida por uma força invencível no momento em que se
precipitasse em seu socorro, e isso não uma só vez, porém dez,
cem vezes.
Há neste suplício, dizem os santos, uma angústia mais sensível, de
certo modo, que a do inferno. Os míseros condenados não amam a
Deus, seu desejo insaciável e sempre renascente é ver a Deus
aniquilado.
Mas as santas almas do Purgatório amam ao Senhor, amam-no
tanto quanto o conhecem, e porque o viram, compreenderam o
amor que lhes tem, sentem quanto há sido bom para com elas,
sabem quanto serão felizes perto dele e em sua união... e, todavia,
estão detidas longe dele! nada podem, nada, para se lhe
aproximarem! É uma sede sem fim, a qual nada é capaz de imitar.
É uma fome sem limites, que não há nada que possa fartar: É um
peso enorme que abafa, e do qual não é possível desembaraçar-se.
Santa Teresa experimentou alguma coisa destas angustias
misteriosas:
«Em vão, diz ela, tentaria eu explicar sua natureza. A alma, por
vezes, sente um desejo irresistível de Deus que parece transportá-
la a um deserto onde ela nada mais vê para poder descansar.
Nenhuma consolação, nem do Céu, onde ainda não está, nem da
terra a que já não pertence.»
«Ó Jesus, exclama a santa, quem poderia fazer uma pintura fiel
desse estado? É um martírio que a natureza custa a suportar; os
ossos se separam e ficam como deslocados, as mãos tomam tal ri-
gidez que se não podem juntar, e, até o seguinte dia, sente-se uma
dor tão violenta, como se todo o corpo estivesse desconjuntado;
um só desejo nos consome: morrer! morrer! ir a Deus! — Esse
estado, conclui a santa, é o das almas do Purgatório.»
Oh! vós que amastes tanto na terra e que tanto sofrestes com a
morte daqueles que amáveis, vós a quem a separação ainda
tortura, escutai, escutai o grito dessas almas que chamam a Deus
e que nos dizem: Vós no-lo podeis dar, oh dai-nos nosso Deus!
fazei-nos dignos dele!
DIA 15
3º sofrimento — Impotência de se acudirem a si
próprias
O estado das almas do Purgatório, diz o Pe. Faber, é a impotência
absoluta.
Não podem nem fazer penitência, nem merecer, nem satisfazer,
nem ganhar uma indulgência, nem receber os sacramentos.
Alguns teólogos asseguram que elas não podem nem orar por si.
Estão mergulhadas nessa noite profunda de que fala S. João,
durante a qual ninguém pode mais trabalhar.
Foram lançadas, nessas trevas exteriores, em que só há lágrimas e
gemidos.
Parecem-se com esse paralítico estendido à beira da fonte de Siloé,
que não pôde fazer o menor movimento para ter u m
a l í v i o . . . e ainda o paralítico podia chamar em seu socorro e
tinha a esperança de ser ouvido. Mas, vós, pobres almas do
Purgatório, vossa triste voz não pode chegar até nós sem uma
permissão especial de Deus... e quando chega, porventura é
sempre ouvida?
Elas veem na terra uma infinidade de graças, das quais uma só as
aliviaria, as libertaria talvez, e não podem se aproveitar delas para
si. É o suplício contínuo do faminto preso à pouca distância de uma
mesa lauta, para a qual se dirige sem nunca chegar a alcançá-la. Na
terra, quantas orações se dizem, quantas comunhões se fazem,
quantas missas se celebram, quantas indulgências se ganham!
Filhos pródigos, expiando sua fuga da casa paterna, dizem elas em
pranto: Quantas riquezas na casa de nosso pai! e nós aqui
transidas de fome!
Isto é talvez uma punição especial de Deus: esqueceram as almas
do Purgatório enquanto viviam sobre a terra. — Deus permite que
também sejam esquecidas.
Veem suas companheiras de infortúnio aliviadas, de tempos a
tempos, recebendo os frutos de uma comunhão, o valor do sangue
de Jesus Cristo, e elas... ficam esquecidas...
Vós que viveis na terra e que tão facilmente vos comoveis ante o
sofrimento e a ideia do abandono, ouvi as almas do Purgatório
pedindo-vos uma migalha desse Pão dos Anjos que Deus vos dá
com tanta abundância e generosidade, uma pequena parte de
vossas orações, de vossas boas obras, de vossos sofrimentos!
DIA 16
4º sofrimento — O Conhecimento dos seus pecados
As almas no Purgatório veem as coisas de Deus diversamente de
nós. Esclarecidas pela divina luz, compreendem elas o respeito, o
amor, a obediência que Deus lhes merecia, e toda a felicidade,
ingratidão e covardia dos pecados que cometeram.
E essa fealdade e laxidão, sempre ante seus olhos, enchem-nas de
tanta vergonha, que procuram, embora inutilmente, fugir das
vistas de suas companheiras de tormento.
Essa ingratidão, sempre patente, oprime-as de tantos remorsos,
que seu coração se confrange a cada instante e sente a necessidade
de sofrer para expiar tanta falta de amor.
Podem comparar-se, diz um piedoso bispo, com um homem que,
no.meio de um calor insuportável, é envolto, comprimido,
esmagado por um manto, cujo peso o aniquila e que está como
soldado a todos os seus membros.
E sob esse manto estão encerrados, como em sua morada natural,
vermes que se nutrem da carne desse homem e o atormentam,
mordendo-o, sem que possa expeli-los.
E esse manto está roto, sujo, repugnante, e o infeliz é obrigado a
estar com ele em presença do Ser mais santo e mais puro, que o vê
e, vendo-o assim, há de experimentar um sentimento de repulsão.
Que estado esse! que dor, que vergonha!
É o estado permanente, o sofrimento contínuo, a vergonha das
almas do Purgatório à recordação de suas faltas e em presença dos
anjos e do próprio Deus.
A esta vergonha vem se unir o pensamento de que teriam podido
facilmente evitar as faltas que as fazem sofrer!
Ah! dizem elas, se eu tivesse obedecido ao meu Deus naquela
ocasião em que me custava tão pouco;—se eu não lhe houvesse
recusado um sacrifício que era bem leve!— se eu não proferisse
aquela palavra que minha consciência reprovava;— se eu não me
tivesse descuidado de ganhar aquela indulgência tão fácil... não me
veria como me vejo neste momento! não sofreria o que sofro!
Tardio arrependimento! as lágrimas não purificam mais, quando
se tem deixado passar o tempo da misericórdia!
Ó almas queridas, possam ao menos as vossas dores servir-nos de
lição!
DIA 17
5º sofrimento — O olvido em que caem
Ver-se esquecido na terra, esquecido por aqueles a quem se amou
e que nos amaram, é uma dor pungente para o coração — mas ver-
se esquecido, quando, se está no Purgatório, quando o coração é
mais sensível e nada de exterior o distrai dessa ideia, deve ser um
golpe ainda mais cruel.
Oh! como são justas as queixas que um Religioso ouviu desses
pobres corações abandonados!
«Ó irmãos! ó irmãos! ó amigos! pois que há tanto tempo vos
aguardamos, e vós não vindes; vos chamamos, e não respondeis;
sofremos tormentos que não têm iguais, e não vos compadeceis;
gememos, e não nos consolais!
Ai de nós! todos os que amámos na terra com toda nossa afeição,
nos abandonaram; choramos no meio desta noite escura, e não há
quem nos console.
Ah! tudo se acabou, acabou-se para sempre! esqueceram-me e já
nem mais uma lembrança me prende à terra!...
Em toda a parte está o esquecimento: sobre minha vida inteira que
nenhuma palavra lembra mais, sobre meu nome que já ninguém
pronuncia, sobre meu túmulo que ninguém visita, sobre minha
morte que não há mais quem chore; na terra só tenho o
esquecimento em todos e em tudo!
A despeito dos adeuses tão sentidos, a despeito dos protestos tão
afetuosos, a despeito dos juramentos tão ardentes, eis em que dá
tudo entre os vivos, no total esquecimento dos mortos.
Ninguém para rezar, ninguém sequer para lembrar-se deles!...»
Ninguém?! oh! vós vos enganais, almas queridas! Há na terra um
coração que nunca esquece, um coração a toda hora disposto a vir
em socorro dos mortos olvidados: é o coração da Igreja católica,
coração de uma mãe!
Ela pede para vós, todos os dias, o repouso, o refrigério, a luz. E
nós, seus filhos, como vós: nós, vossos irmãos que tanto vos temos
esquecido, queremos desde já associar-nos a todas as suas ora-
ções e todas as suas obras...
DIA 18
6º sofrimento — Incerteza do tempo a sofrer no
purgatório
«Um homem, diz o padre Felix, gemia, há tempos, numa prisão
célebre. Certo dia, cansado de sofrer, concebeu a ideia de livrar-se.
Nessa época existia uma senhora de alto valimento que podia
bastante para quebrar as algemas do preso e pôr termo a seus
sofrimentos.
Eis aqui, reza a história, em que termos eloquentes o mísero lhe
dirigiu sua súplica; «Senhora, a 25 do corrente de 1760, faz cem
mil horas que eu peno, e ainda me restam duzentas mil a sofrer.»
Não sei que despacho teve esta petição. O coração desta mulher
teve a dureza de resistir a esta eloquência? Não sei, mas parece-
me impossível dizer mais em tão poucas palavras! Há cem mil
horas que sofro, tenho ainda que sofrer duzentas mil!... Há cem mil
horas... Portanto, ele as tinha contado?! Sim, como vós podeis
contar, uma a uma, as pancadas de um relógio durante uma noite
longa e triste em que o sofrimento vos faz perder o sono. Ora, se é
assim com os presos da terra, que dizer desses encarcerados do
mundo invisível (o Purgatório)? Quem nos dirá o que é para esses
padecentes de além-mundo a passagem de seu prazo de
tormento? A duração para nós não é o tempo que passa, é o que
sentimos passar; e a lentidão dessa passagem cresce para os que
sofrem, na proporção de sua angústia. É isto o que, em relação às
almas do Purgatório, dá a extensão de longos dias aos minutos, a
de anos inteiros aos dias, e aos anos a de séculos que parece nunca
se acabarem!
Um Religioso, aparecendo, depois de morto, a um de seus Irmãos,
lhe revelou que três dias passados no Purgatório lhe haviam
parecido mais longos do que centenas de anos. Outro, havendo
experimentado numa visão o suplício do Purgatório, desde as
matinas somente até a aurora, persuadiu-se de que sofria há mais
de um século. Um homem, que fazia desprezo das penas do
Purgatório, viu aparecerem-lhe dois moços que rapidamente o
transportaram a esse triste lugar; depois de um quarto de hora de
sofrimento, ele já clamava: «Retirai-me, retirai-me, há tanto tempo
que eu sofro.» Assim os encarcerados do Purgatório, muito mais
do que os presos da terra, contam essas horas intermináveis que
tanto custam a passar e que o suplício parece tornar eternas!
Se, ao menos, soubessem essas almas a hora do resgate, poderiam
dizer: depois de tantos mil e mil minutos, meu suplício terminará
e eu subirei ao Céu! —Mas não. Sabem perfeitamente — e é tal a
esperança e o amor de Deus, vivo e ardente em seus corações, que,
dizem os teólogos, distinguem o Purgatório do Inferno —sabem
com certeza que há de soar a hora do seu livramento; mas quando
soará essa hora suspirada?
Ignoram-no, e até o momento marcado por Deus, parece-lhes
ouvir cada vez que perguntam: Quando será? uma voz terrível que
lhes responde: Ainda não! Ainda há muito que expiar!
Este pensamento deve atuar em nós para continuarmos sempre
em nossas orações pelos mortos. «Eu temo, diz S. Francisco de
Sales, temo do bom conceito que meus amigos têm feito de
mim; entendendo que eu já estou no Céu, sem querer me
deixarão ficar no Purgatório.»
ALÍVIO ÀS ALMAS DO PURGATÓRIO
Motivos que nos determinam a socorrer às almas
do Purgatório
DIA 19
Primeiro motivo: — O serviço que prestamos a Deus
e a gloria que lhe proporcionamos
É verdade que nós, frágeis e míseras criaturas, podemos prestar
serviço a Deus, podemos realmente lhe ser úteis? Sim, diz
Bourdaloue, cuja doutrina é sempre segura, sim, podemos. O
Purgatório é um estado de violência para o próprio Deus. Ali, vê
Deus almas a quem quer com um amor sincero, terno e paternal,
almas que sofrem e às quais todavia não pode Ele acudir, — almas
cheias de mérito, de santidade, de virtude, mas a quem não pode
Ele ainda remunerar, — almas que são suas escolhidas, suas
esposas, e que Ele é forçado a ferir e castigar... Pois bem! nós
podemos, nós, pobres criaturas, fazer cessar esse estado de
violência, dando à justiça divina tudo o que ela pede...
Não me é dado compreender o que se passa no coração do Senhor,
quando comas minhas orações e boas obras eu tiro uma alma do
Purgatório, e essa alma, numa espécie de delírio de alegria, vai
lançar-se no seio de Deus, dizendo-lhe: Meu pai! meu pai! — mas
imagino o que experimentaria o coração de uma mãe que, tendo
conhecimento de que seu filho foi condenado à prisão por muitos
anos, o visse, de repente, trazido por um amigo que o houvesse
libertado. Oh que alegria! oh que amplexo! — e que
reconhecimento pelo salvador desse filho.
É esta alegria, esta felicidade a que eu proporciono a Deus! é esse
reconhecimento o que obtenho em seu coração.
E, além da alegria que ocasiono a Deus, concorro também para sua
gloria, essa gloria de que Deus é tão cioso. Ouçamos ainda
Bourdaloue:«Nós admiramos, diz ele, esses homens apostólicos
que, levados pelo espírito de Deus, atravessam os mares e vão aos
países bárbaros ganhar a Deus os infiéis, mas compreendeis que a
devoção das almas do Purgatório para seu alivio e livramento é
uma espécie de zelo que, em relação a seu objeto, não cede ao da
conversão dos pagãos e até o vence de certo modo. É que, sendo
as almas confirmadas na graça, hão de ser incomparavelmente
mais nobres aos olhos de
Deus que as dos pagãos elas estão, mormente na ocasião, num
estado muito mais apto para glorificar a Deus que as dos infiéis.»
Qual de nós recusar-se-á a contribuir assim para a felicidade e
glória de Deus?
DIA 20
Segundo motivo: O serviço que prestamos a nós
mesmos
1º. Adquirimos um protetor certo no Céu. A alma que nossas
orações tiverem libertado, contraiu para conosco, só pelo fato de
seu resgate, uma estrita obrigação de reconhecimento; primeiro,
diz o padre Faber, pela glória da qual lhe antecipamos a hora;
depois, em razão dos horríveis sofrimentos aos quais a arran-
camos; assim, é para ela um dever obter-nos incessantes graças e
bênçãos. No Céu também se ama e se é reconhecido!
E não é somente essa alma que fica reconhecida, é seu anjo da
guarda também, é a Santíssima Virgem a quem essa alma era
consagrada, é o próprio Jesus que a nossas orações deve o
glorificá-la mais cedo. — E o anjo da guarda, e Maria e Jesus,
também eles nos testemunham sua alegria com benefícios novos.
2º. — Constituímos no Céu um representante nosso que, em nosso
nome, adora, louva e glorifica o Senhor. — Aquele que serve a
Deus na terra, nunca está satisfeito; não sabe, não pode amar como
deseja e sente a necessidade de fazê-lo; mas, se libertou uma alma
do Purgatório, oh que alegria, que consolação a de poder dizer:
Uma alma santa que ama perfeitamente a Deus, foi amá-lo por
mim; e, enquanto eu estou na terra ocupado, nas funções e
trabalhos da vida, talvez até esquecendo-me de Deus, lá no Céu ela,
talvez muitas, sem interromperem um só momento seu cântico de
amor indizível, adoram, glorificam a majestade e a beleza do
Altíssimo, e fazem-no em meu nome!
3º. — Constituímos protetores nossos as almas por quem oramos.
O ensino comum dos teólogos é que, não podendo as almas do
Purgatório orar eficazmente por si, podem, todavia, alcançar
graças para nós, «São santas, diz Suarez, caras a Deus; a caridade
leva-as a nos amar... Por que não intercederão conosco, mesmo
quando expiam por si? É o que se dá conosco sobre a terra, pois
que, embora devedores em relação a Deus, não hesitamos nunca
em rogar pelo próximo.»
Pode-se, portanto, invocá-las nas necessidades, nos perigos, nas
inquietações. Os fiéis o praticam habitualmente e há poucas almas
piedosas que não possam dizer: Quando tenho pedido alguma
graça pelas almas do Purgatório, é raro que não a tenha alcançado.
DIA 21
Terceiro motivo: — As principais virtudes que
assim praticamos
— Socorrendo as almas do Purgatório, praticamos a caridade em
toda a sua extensão. «A devoção às almas do Purgatório, diz S.
Francisco de Sales, encerra todas as obras de misericórdia, cuja
prática, elevada ao sobrenatural pelo espírito de fé, nos há de
merecer o Céu.»
Descer ao meio desses fogos devoradores, levar às almas
prostradas em seu leito de chamas a esmola de nossas orações,
não é, de algum modo, visitar os enfermos?
Não é dar de beber aos que têm sede, chover o doce orvalho de
graça celeste sobre as almas que ardem na sede de ver a Deus face
a face?
Adiantar para elas o momento em que hão de entrar na posse da
bem-aventurança, do Céu, de Deus, do qual estão mais famintas do
que o mendigo o está do pedaço de pão que lhe estendemos: é, em
verdade, alimentar os que nos pedem de comer.
Nós remimos cativos, pagando o resgate das santas almas
prisioneiras da justiça divina, despedaçando as cadeias que as
retêm longe do Céu, e que cadeias!
Vestimos com magnificência os que estão nus, abrindo, com a
nossa penitência, aos mortos a mansão de glória em que o Senhor
lhes tem preparado uma túnica de luz de eternos esplendores.
Que admirável hospitalidade exercemos, introduzindo-as na
Jerusalém celeste, na cidade triunfante dos espíritos bem aven-
turados!
Poderíamos acaso comparar o mérito do sepultar corpos dados
em pasto aos vermes, com a inapreciável felicidade de fazer subir
ao Céu almas imortais?» Sufragando as almas do Purgatório,
exercitamos a gratidão. Certamente não são estranhos aos que
imploram socorro, são os nossos: pai, mãe, amigos...
Esses corações dedicados que outrora tanto trabalharam e
sofreram, que, por nossa causa talvez —por nos amarem com
excesso,—cometeram essas faltas, em cuja expiação sofrem
agora;— esses corações que muitas vezes ferimos com a nossa in-
diferença, com as nossas queixas, com recriminações mesmo: hoje
que não palpitam mais na terra, não é verdade que sentimos
remorsos de não lhes haver testemunhado bastante a nossa
afeição? Pois bem, nós podemos reparar tudo, orando por eles!
Muitas vezes os deixamos sós: vamos pensar neles; muitas vezes
lhes desobedecemos: escutemos suas súplicas e façamos por eles
tudo o que nos pedem; — faltamos-lhes à complacência e à
afabilidade, preferimos nosso prazer à sua felicidade: privemo-
nos de alguns momentos de distração para consagrá-los a orar por
eles.
Ó meus queridos mortos, sereis contentes daquele que tanto se
arrepende de vos haver penalizado na terra: eu vo-lo prometo.
DIA 22
Quarto motivo: O julgamento que nos espera após a
morte
Ouvi estas palavras do Evangelho:
O que fizerdes ao mínimo dos meus, é a mim que o fazeis. — Sereis
medidos com a mesma medida de que houverdes usado com
outros.
Virá um dia, e talvez esse dia não esteja longe, em que estareis vós
mesmos no lugar da terrível expiação. Conhecereis então, por uma
experiência pessoal e dolorosa, o que é o Purgatório; e, como as
pobres almas que lá sofrem a esta hora, clamareis com um acento
aflitivo: — tende piedade de mim, tende piedade!
E, por uma justa permissão divina, estes gritos despedaçadores
penetrarão na alma daqueles a quem vos dirigirdes na medida em
que agora as súplicas das almas calam em vosso coração:
esquecestes? sereis esquecido!; repelistes como importunos seus
pedidos de orações? vossas instâncias também serão repelidas;—
não quisestes sofrer uma privação para dar uma esmola em favor
dos mortos? não se fará esmola em vosso benefício. E assim
ficareis só, sem amigos, obrigado a permanecer no fogo
purificador até expiardes vós mesmo ainda a mais pequena
mancha.
E, mesmo quando, mais caridosos que vós, vossos parentes
intercedessem por vosso livramento, Deus, árbitro supremo da
aplicação de seus sufrágios, quiçá não vos deixará sentir em toda
sua medida os efeitos de uma caridade da qual vos tornastes tão
pouco digno.
Oh! não nos coloquemos em condições de ser assim abandonados!
Mas, se houverdes sido bom, dedicado, generoso com essas pobres
almas, é Deus — Ele o disse — é Deus mesmo que vos retribuirá,
e no cêntuplo, o que tiverdes feito em seu nome pelos seus, e, até
dado que vossos parentes e amigos vos abandonem, Deus
suscitará boas almas que hão de orar e expiar por vós; ou, talvez,
por uma abundância de graça toda especial, aumentando aqui
mesmo na terra vosso amor por Ele, vos fará expiar em vida todos
os vossos pecados.
Deus é muito justo para deixar uma só ação boa sem recompensa,
e, recompensando como Deus, dá sempre mais do que se lhe deu.
Terminemos com estas palavras de Santo Ambrósio: «Tudo o que
damos por caridade às almas do Purgatório converte-se em graças
para nós, e, após a morte, encontramos o seu valor centuplicado.»
O Purgatório é como um banco espiritual em que podemos
depositar cotidianamente nossas boas obras, por menores que
sejam; e aí estão em seguro e se multiplicam; e, quando nos vemos
aflitos e inquietos, daí vem, como viria o rendimento de um
dinheiro depositado, a luz, a força e a prudência que nos são
preciosas em nossas dificuldades.
Sejamos, pois, generosos, muito generosos.
Meios que nos fornece a Igreja para aliviar as almas do
Purgatório
DIA 23
Meios gerais
Graças, meu Deus, mil graças de terdes em vossa infinita
misericórdia permitido a meu coração fazer bem a meus pobres
finados e de haverdes multiplicado em redor de mim os meios de
fazê-lo.
Esses meios, diz um piedoso autor, são tão numerosos como as
pulsações de meu coração, como meus pensamentos, como
minhas palavras, meus suspiros, minhas ações, porque não há
uma só destas coisas que não lhes possa aproveitar.
Um movimento do coração em sua intenção, — um olhar para o
Céu em sua lembrança, — um suspiro de piedade por eles, — um
pensamento de compaixão sobre os males que sofrem, — os
nomes de Jesus e de Maria pronunciados com devoção em seu
favor,—a menor obra boa em recordação deles, — diminuem
certamente suas penas, contanto que a caridade tenha parte nisso
e que esteja em estado de graça aquele que pensa neles e por eles
trabalha.
Realmente custa-nos muito pouco sufragar os defuntos. Somos
obrigados afazer certas orações, quer em particular, quer em
público, —a assistir à santa Missa, ao menos nos domingos e festas
de preceitos, — a aproximar-nos dos sacramentos em certas
épocas, a fazer alguns jejuns e esmolas, — a perdoar aos nossos
inimigos. — Tudo isto, se, estando na graça de Deus, o oferecemos
pelas almas do Purgatório, é aceito por Deus e serve para alívio
delas.
E os males de todos os dias? os dissabores que perturbam quase
continuamente nossa vida, — a fadiga do trabalho obrigatório, —
as enfermidades enviadas discretamente por Deus, — as
humilhações imerecidas, a intempérie inevitável das estações, a
tarefa de suportar os humores e caprichos dos que nos rodeiam,
tudo isso ainda pode servir para expiar nossos pecados e os
pecados das pobres almas do Purgatório.
Aceitemos, pois, tudo o que o bom Deus permite, sem murmurar
jamais contra ele: todas as manhãs, ofereçamos a Deus, em favor
dos nossos finados, todo o bem que pudermos fazer... oh! de que
sofrimentos serão aliviados no Purgatório!
Quão rico é o homem, diz Bossuet, pois que com tão pouco pode
ganhar o Céu e fazê-lo ganhar aos outros!
DIA 24
Primeiro meio:—A Oração
A oração, feita diretamente pelas almas do Purgatório, é a súplica
de um filho a Deus para que se mostre bom e misericordioso.
A uma oração feita assim, no fundo da alma, será Deus insensível?
De mais, a oração, quando parte de um coração puro e é feita com
instância, tem por si só, diz S. Tiago, uma força imensa. Eleva-se
até o coração de Deus, penetra nesse coração, comove-o, e lhe
arranca, de alguma sorte, a despeito de sua justiça, o perdão e a
misericórdia.
Portanto, eu rogarei muito a Deus por meus mortos, farei a Deus
esta violência que lhe é tão grata.
Entre minhas orações, empregarei, de preferência, as que são
indulgenciadas: o Terço, a Via Sacra, invocações especiais... etc.
Uma indulgência é a remissão total ou parcial das penas temporais
devidas aos pecados já perdoados quanto à ofensa e à pena eterna:
essa remissão é outorgada pela Igreja, que recebeu de seu divino
Fundador o poder de fazê-lo pela aplicação dos méritos
superabundantes do mesmo Jesus Cristo e dos Santos.
Aos que vivem neste mundo, como ainda estão sob a jurisdição do
Papa, é este quem aplica as indulgências a modo de absolvição por
força destas palavras de Jesus Cristo: «Tudo o que remitirdes na
terra será remitido no Céu.» Quanto aos mortos, não estando mais
sob essa jurisdição, as indulgências só lhes são aplicadas por modo
de sufrágio, isto é, o Papa toma do tesouro da Igreja, formado pelos
méritos de Jesus Cristo e dos Santos, o que sua prudência julga
conveniente e o faz oferecer pelos fiéis, em favor dos defuntos, a
Deus que o aceita em satisfação por eles. Assim, os vivos
substituem os mortos em virtude da comunhão, dos santos. É o
que faz Sto. Tomás dizer que a indulgência não é uma pura
remissão, mas uma espécie de resgate.
Doutrina consoladora! Ela me dá ocasião de ser bom para com os
meus defuntos: incute-me a convicção de que posso acumular
para eles, proporciona-me o prazer de fazer por eles alguns
sacrifícios, e expiar assim a falta de afeição e de reconhecimento
de minha parte que, durante sua vida, lhes foi sem dúvida tão
sensível!
Uma indulgência é uma chave que a Igreja me confia para penetrar
em seu tesouro, onde estão os méritos de Jesus Cristo e dos Santos,
com permissão de retirar a soma que ela mesma indicou; — esta
soma de méritos, eu a entrego a Deus para solver as dívidas das
almas do Purgatório, e Deus a aceita, aplicando-a na medida que
julga de conveniência.
Oh! quanto sois verdadeiramente mãe, vós que nos entregais
assim os vossos tesouros: — eu quero, pois, eu vou me aproveitar
deles!
DIA 25
Segundo meio:— A santa missa
É o meio mais eficaz e mais pronto para aliviar e libertar as almas
de nossos mortos.
A cada Missa celebrada com devoção, diz S. Jerônimo, saem muitas
almas do Purgatório. — E não sofrem tormento algum durante a
Missa aplicada por elas, acrescenta o mesmo Doutor.
Na Missa, é o próprio Jesus que se oferece ao Eterno Padre em
troca, por assim dizer, da alma de quem se lhe pede o livramento.
— Um santo sacerdote, diz o Cura d'Ars, orava por certo amigo que
ele sabia estar no Purgatório: veio-lhe a ideia de que não podia
fazer nada de melhor do que oferecer por sua alma o santo
sacrifício da Missa. Chegado o momento da consagração, tomou a
hóstia entre as mãos e disse: «Pai santo e eterno, façamos uma
troca. Vós tendes a alma de meu amigo que está no Purgatório, e
eu tenho em minhas mãos o corpo de vosso Filho: pois bem! livrai
meu amigo e eu vos ofereço vosso Filho com todos os méritos de
sua Paixão e Morte.» No momento da elevação, viu ele a alma do
amigo que, toda radiante de glória, subia ao Céu.
Na santa Missa, é o sangue de Jesus com que se quer libertar, e este
sangue tem valor infinito.
A indignidade daquele que manda dizer a Missa ou mesmo de
quem a diz, não tira o valor da oferenda. Qualquer outra oração ou
obra boa, feita em estado de pecado mortal, é uma obra morta, mas
o sacrifício da Missa tem sempre intrinsecamente o mesmo valor.
«Seu mérito, diz Bourdaloue, não depende da santidade de quem
o oferecer, e muito menos de quem o faz oferecer, mas é ligado só
à pessoa de Jesus Cristo e ao preço de seu sangue; donde segue-se
que um pecador, ainda em seu estado desordenado, pode con-
tribuir para o repouso das almas do Purgatório... Pode e deve-o,
tanto mais quanto este sacrifício é o único meio que ele tem de
suprir a impotência em que está de socorrer de outro modo essas
almas predestinadas. Deus olha a Hóstia que se apresenta, que é
Jesus Cristo, e não aqueles pelo ministério ou cuidado de quem ela
lhe é oferecida.»
Farei, portanto, oferecer a santa Missa por meus finados. Se não
puder, ouvirei a Missa por eles: ouvir a Missa, unir-se ao sacerdote
que a celebra, é oferecer também a santa vítima. «Lembrai-vos, Se-
nhor—diz o sacerdote ao ofertório — de vossos servos aqui
presentes por quem vos oferecemos este sacrifício ou que vo-lo
oferecem eles mesmos.»
Comungarei por eles: a santa comunhão é, depois do santo
sacrifício, o ato mais sublime da religião, o que dá mais gloria a
Deus; o que, pelos sentimentos de humildade, contrição e amor
que desperta na alma, constitui uma das obras satisfatórias mais
úteis.
DIA 26
Terceiro meio:— O jejum, as mortificações, a
esmola
Os atos de mortificação, em geral, nos fazem mais comedidos, mais
piedosos e, consequentemente, mais agradáveis a Deus; as
orações que conjuntamente fazemos são acolhidas mais
favoravelmente: Deus não repele o coração contrito e humilhado;
mas, além do valor que esses atos dão a nossas orações, eles são
por si mesmos uma reparação em favor das almas do Purgatório.
Estas almas sofrem porque foram negligentes, sensuais, tíbias,
pouco submissas...e nós, esforçando-nos por sermos mais ativos
nos trabalhos, mais firmes na resistência às tentações, mais
mortificados nos sentidos, mais generosos para dar, reparamos o
que elas fizeram mal, — suprimos o que omitiram, —
compensamos o que fizeram de modo imperfeito, e, assim,
pagamos realmente a Deus as dívidas, que contraíram.
Sofrem essas almas, porque buscaram com sofreguidão os
prazeres do mundo, permitidos, sim, mas em certos limites e
moderadamente; — abandonaram-se a uma curiosidade que feriu
a delicadeza de sua virtude, tiveram alguma sensualidade em suas
refeições...O h ! pois que Deus nos aceita como reparadores e
redentores em favor delas, privemo-nos de assistir àquela festa
mundana que nos impediria de orar com recolhimento; não vamos
aonde nos convida a simples curiosidade, embora não pareça
repreensível;— evitemos o que pode lisonjear nossas paixões, —
sejamos, sobretudo, severos observadores dos jejuns e da
abstinência imposta pela Igreja.
Meus pobres mortos, sei que padeceis, e hei de entregar-me ao
prazer? privando-me apenas do que seria um perigo para minha
alma, posso aliviar-vos, e não o farei? Ó meu Deus, aqui estou! feri
a mim, porém poupai a eles! acudi-lhes!
Façamos também a esmola em intenção de nossos finados.
Quando um pobre bate à nossa porta, nós lhe dizemos, entregando
o que nos é possível dar; pedi por meus pobres mortos! Oh! se nos
fosse dado ver o que nossa esmola faz da oração desse mendigo!
Faz dela, afirma S. João Crisóstomo, a amiga de Deus, oração
sempre escutada; nossa esmola em suas mãos torna-se alguma
coisa de onipotente: move o coração de Deus, alcança dele tudo
quanto quer. — Passa-se uma espécie de contrato entre Deus e o
homem: nós damos capitais, bens; privamo-nos para dar; Deus,
em compensação, em troca, dá o alivio, e o resgate àquelas almas.
Se soubermos que nossos mortos deixaram dívidas, quitemo-las
pronta e generosamente.
Se soubermos que eles cometeram alguma injustiça, vamos
repará-la, e, dando a esmola, tenhamos a intenção de compensar
os danos que possam ter causado e que ignoramos.
Se nos fizeram algumas recomendações, não tardemos de cumpri-
las.
Se nos pediram Missas, providenciemos para que se celebrem o
mais prontamente possível.
A vontade e até os desejos dos moribundos devem ser sagrados.
DIA 27
Quarto meio: — O ato heroico
Um derradeiro meio que encerra em si todos os outros é o ato
heroico, que consiste em aplicar às almas do Purgatório tudo de
que podemos dispor em nossas orações e obras pessoais, e ainda
em ceder-lhes a aplicação que nos tocar das orações e obras de
outros.
O ato heroico é o mais próprio das almas que só se julgam felizes
quando, depois de haverem dado tudo, dão-se a si mesmas; por
isso a instituição desse ato foi bem aceita e ele é praticado com
fervor.
Demais, esse ato não empobrece a ninguém; antes, centuplica o
mérito de todas as nossas boas obras. —O mérito de uma obra
procede, com efeito, da caridade, e quanto maior caridade houver
em uma ação, mais meritória será ela para quem a faz. Ora, haverá
na vida cristã ato mais cheio de verdadeira caridade do que
aquele, pelo qual, despojando-nos de todo o mérito satisfatório de
nossas orações e boas obras, nós o oferecemos a Deus para que o
aplique, ele mesmo, às almas do Purgatório?
Esse ato heroico centuplica o fruto impetratório de nossas boas
obras. Quando pedimos a Deus uma graça, não somos sós a pedir;
milhares de almas, as almas em benefício das quais fizemos esse
ato, pedem conosco: pedem do Céu, se já o gozam; pedem do
Purgatório, se ainda nele estão!
O ato heroico pode ter a seguinte fórmula:
«Para vossa gloria, ó meu Deus, e para imitar o mais possível o
generoso Coração de Jesus, meu Redentor, e também com o fim de
mostrar minha dedicação à Santa Virgem, minha Mãe, que é
também Mãe das almas do Purgatório, deponho em suas mãos
todas as minhas obras satisfatórias, assim como o valor de todas
as que houverem de ser feitas em minha intenção depois de minha
morte, para que Ela aplique tudo às almas do Purgatório, segundo
sua sabedoria e à sua discrição.»
Esse ato dá aos sacerdotes altar privilegiado todos os dias do ano;
aos fiéis, uma indulgência plenária com que podem livrar uma
alma do Purgatório todas as vezes que comungam e todas as
segundas-feiras, ouvindo a santa Missa pelos defuntos, contanto
que visitem nesse dia uma igreja, e orem segundo as intenções do
Sumo Pontífice; além disso, podem aplicar aos mortos todas as
indulgências que, pela letra das concessões, não lhes fossem
aplicáveis.
Quem recusará fazer esse ato, ato de generosidade, por certo, mas
também ato que a Igreja remunera com tanta largueza e a que
Deus será reconhecido no Céu?
Eu faço-o em toda a sua extensão: digo com alegria essa fórmula
que me é indicada, e formo a intenção de renová-la, ao menos de
coração, em todas as minhas comunhões.
Que não faria eu, meu Deus! que não daria eu com o fim de
contribuir para vossa glória e poupar o sofrimento a meus
defuntos tão pranteados!
LIÇÕES DADAS PELAS ALMAS DO
PURGATÓRIO
DIA 28
I. Horror ao pecado
Que boas lições, diz o Padre Faber, podemos retirar da meditação
do Purgatório!
A primeira, a que domina todas as ou traz, é o amor da pureza, em
geral, e como consequência, o temor de ofender a Deus, a fuga das
ocasiões do pecado, — o desejo de mortificar-se para expiar as
próprias faltas, — o zelo em ganhar as indulgências.
Apenas desprende-se do corpo, a alma se encontra, sem poder
explicar como se dá isto em face de Deus, a quem vê, a quem
conhece... e sente-se naturalmente atraída a ele com uma violência
que nada tem de comparável na terra... Mas, de repente, revela-se-
lhe a pureza de Deus, — essa pureza que é alguma coisa de
indizível em linguagem humana, e, conhecendo-se ainda
maculada, embora levemente, concebe tal horror de seu estado e
logo tal desejo de se purificar para se unir a Deus, que se precipita
incontinente nas chamas do Purgatório onde espera a sua
purificação.
Assim entende Santa Catarina de Gênova, a qual acrescenta: «Se
esta alma conhecesse outro Purgatório mais terrível, em que se
purificasse mais depressa, aí é que ela se arrojaria na veemência
de seu amor por Deus. Havia de preferir mil vezes cair no inferno
a comparecer ante a Divina Majestade com a mais ligeira mancha.»
E, no Purgatório, essa alma justa e amante deixa de olhar tudo o
mais para fixar duas coisas: a pureza de Deus a quem ama, e a
necessidade de se tornar digna dessa pureza.
Entretanto, sofre, e sua dor é tanto mais viva quanto ela ignora
completamente quando cessará o exílio que a tem longe de Deus!
Diz ainda Santa Catarina: «É tão cruciante a pena, que a língua não
pode exprimi-la, nem a inteligência conceber-lhe o rigor.
Conquanto Deus em sua bondade me tenha permitido entrevê-la
um instante, não a posso descrever... Todavia, se uma alma, que
ainda não está purificada, fosse admitida à visão de Deus, sofreria
dez vezes mais do que no Purgatório; porque não estaria em
condições de acolher os efeitos dessa bondade extrema e
misericordiosa justiça. »
Não é verdade que tal doutrina nos faz temer a menor falta e amar
cada vez mais a pureza? Roguemos às almas do Purgatório que nos
alcancem o horror do pecado.
DIA29
II. Reparar os pecados pela penitência
Santa Brígida viu, um dia, ante o Soberano Juiz, uma alma do
Purgatório, que estava trêmula e confusa e a quem era intimada
que declarasse publicamente os pecados que não tinham sido
seguidos de penitência suficiente e que lhe haviam merecido a
punição que sofria.
A alma exclamava com uma voz que cortava o coração: Infeliz de
mim, infeliz! — e em soluços, fazia a enumeração de tudo o que a
manchava e prendia tão longe do Céu.
Não reproduziremos essa visão, mas dela extrataremos a relação
das principais faltas que, como vermes roedores, torturam uma
pobre alma do Purgatório.
«Perdi meu tempo, esse tempo bem precioso do qual todos os
momentos podiam servir para expiar meus pecados, praticar uma
virtude, merecer o Céu: eu o perdi em conversações fúteis, em
ocupações banais e sem objeto, em leituras recreativas demasiado
prolongadas; — é por isso que sofro!
Esqueci por negligência minhas penitências sacramentais: as fiz
mal por dissipação, e aceitei-as sem espírito de fé:— é por isso que
sofro!
Caí em murmurações contra meus superiores, meu confessor,
meus parentes; murmurações leves, sem dúvida, mas partidas do
amor próprio magoado, da falta de respeito, do ciúme; — é por
isso que sofro!
Consenti em pensamentos de vaidade a respeito do trajar, sobre
os acessórios da casa, acerca de predicados de família; vesti-me
com orgulho, segui as modas com ostentação, afetei um asseio
exagerado; — é por isso que sofro.
Eu me proporcionei, sem nenhuma necessidade, pequenas
sensualidades durante minhas refeições e fora delas, num viver
voluptuoso e descuidado, num zelo excessivo do bem estar, no
abuso do descanso corporal, na fuga de tudo que naturalmente
modificaria os sentidos; — é por isso que sofro!
Em conversação, atirei ditos espirituosos com o fim de ser
elogiado, apreciado, distinguido, e para brilhar mais que os outros;
— é por isso que sofro!
Faltei à caridade que me chamava em socorro do próximo: faltei à
caridade, deixando de o consolar, de o defender, de o aconselhar
ao bem; conservando voluntariamente um pequeno pensamento
de rancor, de inveja; — é por isso que sofro!
Omiti por negligência e incúria muitas comunhões que me eram
permitidas: fui remisso em minhas devoções, pouco aplicado em
meu terço e na oração; — é por isso que sofro!»
Meu Deus! como estas confissões me instruem!
DIA 30
III. Evitar também o pecado venial
Ainda uma lição só, uma das mais úteis para minha alma.
É a queixa que se ouve de quase todas as almas do Purgatório, pois
quase todas sofrem por não terem compreendido bastante o
alcance do pecado venial.
«Nós dizíamos na terra: É um simples pecado venial, e nos
deixávamos levar por esse pendor de nosso coração, nos
deixávamos ganhar por essa pequena satisfação dos sentidos.
Mas, como se dissipou essa ilusão, quando, à hora da morte, vimos,
na luz do Senhor, as lamentáveis consequências dessas faltas!
Felizes, todavia, por não nos terem sido de mais terríveis
consequências! Sim, esses pecados veniais podiam nos conduzir
ao inferno.
Os pecados veniais não condenam, é certo, mas, com inteligência,
com malícia, em grande número e sem que se os apague com a
devida penitência, conduzem pouco a pouco, por um declive
insensível, mas resvaladiço, ao pecado mortal que condena.
Conduzem a esse termo fatal pelo enfraquecimento progressivo
de todas as forças vivas da alma:
Pela diminuição do horror do mal;
Pela excitação e desenvolvimento das paixões;
Pela subtração de certas graças especiais de distinção;
Por mil caminhos a um tempo.
E quando a alma, neste estado, não se converte, muitas vezes só a
morte, vindo-lhe ao encontro, pode livrá-la de rolar até o fundo do
abismo: porém, oh! Deus nem sempre usa a misericórdia de enviar
a morte bastante cedo para prevenir que o homem nessa
voluntária cegueira consuma a sua desgraça!
Deus nos fez esta graça: deu-nos a morte em hora oportuna; mas,
terrível castigo o nosso! que dura expiação a que sofremos!
A cada um dos nossos pecados veniais corresponde uma medida
de penas. E, se Deus contou em nossa consciência milhares de
pecados veniais, qual será o rigor e a duração das penas que ainda
nos estão reservadas!
Considerai também, ó amigos que na terra vos interessais por nós,
considerai que o Purgatório não é o castigo só dos pecados veniais,
ainda subsistentes na hora da morte, mas o castigo de todos os
pecados perdoados e não expiados.
Oh! vivei, pois, na justiça, na santidade no temor de Deus!
Vós, que amais, evitai nossa triste sorte: sofrereis muito!»
DIA SEGUINTE
Perseverança em orar pelos mortos
Ao cabo deste mês, consagrado às almas
do Purgatório, me é permitido levantar os olhos ao Céu e
perguntar a mim mesmo, se, com as minhas orações de todos os
dias por essas almas, com a minha assiduidade em lhes dar, todos
os dias, a parte satisfatória de minhas obras e aplicar-lhes as
indulgências que lucrei, não teria eu contribuído para que alguma
delas fosse chamada a gozar da visão de Deus?!
Oh! se assim fosse, meu Deus, se eu pudesse dizer: Há no Céu, a
esta hora, uma alma que me deve o seu resgate do Purgatório: uma
alma que fala de mim ao bom Deus, que o glorifica em meu nome,
que por mim louva e ama a Santíssima Virgem! se assim fosse,
quanto seria eu feliz!
Só poderei sabê-lo por um milagre, e esse milagre, eu não o peço:
mas, o que sei e ouso afirmar é que, cedo ou tarde, se continuar as
minhas orações, meus sufrágios, o dom generoso dos próprios mé-
ritos que para mim só posso reservar, e se, ao mesmo tempo, eu
me conservar em estado de graça, um dia gozarei essa alegria de
ter resgatado uma alma do Purgatório.
Não quero, portanto, deixar de interessar-me por essas almas
desditosas! Vai nisso, a glória de Deus; vai nisso minha salvação
também!
Em algumas comunidades, vê-se à porta da capela ou do refeitório,
um quadro com o título de sorteio espiritual em favor das almas
do Purgatório.
Aí, precedidas por um número ordinal, são designadas por uma
denominação particular muitas das almas do Purgatório.
Abaixo do quadro, numa caixinha ou bolsa, está uma série de
números correspondente à do quadro e, todas as segundas-feiras,
cada Religioso, ao passar, tira um desses números, e deve, durante
a semana, aplicar o fruto de suas orações e obras à alma que assim
lhe é designada.
Reproduzimos uma parte deste quadro, que poderá servir para
direção de nossas intenções.
Poder-se-á dizer, por exemplo: Ó Jesus, em união com a santa
Virgem e meu Anjo da Guarda, eu vos rogo, por vossa Paixão, o
alívio da alma do Purgatório... a mais desamparada.
DIVERSAS INTENÇÕES
Recomendemos especialmente a Deus
1. A alma mais desamparada.
2. A alma que sofre há mais tempo.
3. As almas dos que mais nos amaram, talvez demais.
4. As almas dos que nós mais estimamos.
5. A alma predileta de Jesus e de Maria.
6. A alma que sofre pelos escândalos que lhes causamos.
7. As almas dos sacerdotes que nos dirigiram nas diferentes
épocas da nossa vida.
8. As almas daqueles de quem fomos cúmplices em alguma
falta.
9. A alma cujo livramento dará mais gloria a Deus.
10. A alma que foi mais fervorosa com a Sagrada Eucaristia e a
Santíssima Virgem.
11. As almas dos que não nos estimavam.
12. A alma que não teve zelo na vocação que abraçou.
13. A alma por quem somos especialmente obrigados a orar.
14. A alma que está mais prestes a se remir.
15. A alma que se deixou cair nas faltas a que nós somos mais
sujeitos.
16. A alma que expia o tempo dissipado em leituras frívolas e
cuidados excessivos do corpo.
17. A alma que faltou à bondade, à condescendência e a
inabilidade.
18. A alma que não cessava de orar pelos agonizantes.
19. A alma que tinha mais devoções às almas do Purgatório.
20. A alma que, sem causa, perdia suas comunhões e se
confessava com pouco espírito de fé.
21. A alma que faltava à confiança em Deus.
22. A alma pouco respeitosa com os seus superiores.
23. A alma que se consagrou ao serviço de Jesus sacramentado.
24. A alma que propagou com zelo as boas leituras.
25. A alma que era demasiadamente aferrada à própria
opinião.
26. A alma que se deixou dominar pelos escrúpulos e não
obedeceu devidamente a seu confessor.
27. A alma de quem escreveu ou distribuiu este livrinho,
quando o Senhor o houver chamado a si.

DEVOÇÕES PELOS MORTOS


Terços das almas do Purgatório
1.o Modo de rezá-lo
Reza-se, dizendo em cada conta do terço comum as duas orações
seguintes, que são, ao mesmo tempo, as mais curtas e as mais
indulgenciadas.
I. — Nas contas grandes recitam-se os atos de fé, esperança e
caridade, com as seguintes fórmulas:
Creio em vós, Senhor, porque sois a verdade eterna.
Espero em vós, Senhor, porque sois a fidelidade suprema.
Amo-vos, Senhor, porque sois a bondade infinita.
O Papa Bento XIV ligou a estes atos:
1. » 7 anose 7 quarentenas de Indulgência.
2. " Indulg. plenária, cada mês, tendo-os recitado ao menos uma vez por
dia.
Indulg. plenária, em artigo de morte, tendo-os recitado muitas vezes durante a
vida.
II. — Nas contas pequenas, diz-se a invocação:
Doce Coração de Maria, sede minha salvação.
1º O Santo Padre Pio IX concedeu 300 dias de indulg.
2.° Indulg. plenária, cada mês, pela recitação diária. (As indulgências plenárias
nas condições do costume: confissão, comunhão, visita de um oratório público
e orações segundo a intenção do Papa.)
III.— Antes do terço faz-se devotamente o sinal da cruz. Depois, o
seguinte oferecimento ou algum semelhante:
Meu Deus, pelo dulcíssimo Coração de Maria eu vos ofereço as
indulgências que puder ganhar, e rogo-vos que as apliqueis às
almas (ou a tal...) do Purgatório.
Três ou quatro minutos bastam para recitar-se este terço. Pode-se ganhar de
cada vez pelas almas do Purgatório muitas indulgências.
Não é preciso dizer estas orações com um terço nas mãos. As indulgências são
ligadas às fórmulas e não ao modo. Basta que sejam recitadas em estado de
graça, isto é, livre a alma de pecado mortal e contrita dos veniais.
2º MODO DE REZAR O TERÇO
Primeiro Terço
V. Deus vinde em meu socorro,
R. Senhor apressai-vos em socorrer-me.
V.O Repouso eterno dai-lhes Senhor,
R.: E a luz do perpétuo esplendor.
1ª Dezena
Eu ofereço, meu amorosíssimo Jesus, pelas almas aflitas do
Purgatório, cada um de todos os tormentos, penas e dores de
vossa santa Paixão e Morte penosíssima de Cruz, e o Sangue
preciosíssimo que derramastes, para nosso remédio e salvação.
Padre N., 10 Repouso eterno, Ave-Maria.

Eu vos ofereço, meu benigníssimo Jesus, pelas almas aflitas do
Purgatório, aquela piedosa súplica que fizestes ao Eterno Padre,
orando no Horto, quando entristecido e amedrontado, pela vista
de quanto devíeis sofrer, lhe suplicastes que retirasse de vós o
amargoso cálice da Paixão: e também aquela inteira e santa
resignação com que, sujeitando-vos depois à sua divina vontade,
lhe dissestes: Faça-se, eterno Pai, não a minha, mas a vossa
vontade.
Padre N,10 Repouso eterno, Ave-Maria.

Eu vos ofereço, meu clementíssimo Jesus, pelas almas aflitas do
Purgatório aquele sacro e vivo Sangue que, à força de dor interna,
também suastes angustiado, ó meu Jesus, orando no Horto, em
tanta abundância, que, correndo em copiosas torrentes, de todo o
vosso santíssimo' Corpo, até chegou a banhar a terra.
Padre N.,10 Repouso eterno, Ave-Maria.

Eu vos ofereço, meu piedosíssimo Jesus, pelas almas aflitas do
Purgatório, aquele vergonhoso ultraje de serdes conduzido
amarrado, como um malfeitor, à casa do' pontífice Caifás onde,
com aspecto feroz, vos recebeu no meio dos vossos inimigos, os
quais, todos aí congregados, como lobos raivosos, estavam
esperando-vos, manso Cordeiro.
Padre N., 10 Repouso eterno, Ave-Maria.

Eu vos ofereço, meu misericordiosíssimo Jesus, pelas almas aflitas
do Purgatório, aquele admirável silêncio, quando, levantando-se
contra vós, inocentíssimo Senhor, tantos falsos testemunhos, não
abristes a boca em vossa defesa; mas tudo sofrestes com
paciência, dando-nos exemplo para seguirmos a vossa mansidão.
Padre N. 10 Repouso eterno, Ave-Maria.
OFERECIMENTO
(Esta oração se diz no fim de cada terço)
Eu vos rogo, meu clementíssimo Jesus, pela grande doçura do
vosso Coração, que tenhais piedade das almas aflitas, que estão
penando no Purgatório. Lembrai- vos, Jesus amorosíssimo, de
tantas misericórdias conosco tão prodigamente repartidas.
Lembrai-vos das penas, das chagas, dos sofrimentos, das feridas e
das dores que suportastes. Lembrai-vos de todas as gotas de vosso
precioso sangue, que pelos homens derramastes. Lembrai-vos,
enfim, da morte penosíssima, que, por nós pecadores, com tanto
amor padecestes.
Eu por tudo isto vos rogo humildemente que derrameis sobre
aquelas almas aflitas a virtude, a eficácia, o fruto e a graça dos
mencionados vossos trabalhos e da vossa Paixão, para que,
aliviadas daquelas penas, fiquem inteiramente livres e salvas.
Lembrai-vos, Jesus misericordiosíssimo, que são vossas filhas
diletas, vossas queridas amigas, por vós remidas e por vós eleitas
para a glória do Paraíso. Basta de vossa justiça; que já por bastante
tempo elas têm penado no fogo. E, se ainda têm que purgar por
vosso respeito, sejam benignamente absolvidas: pela infinita
misericórdia. Nas vossas mãos eu as entrego, piedosíssimo Senhor
meu Jesus Cristo, e a vós de todo o meu coração as recomendo.
Segundo Terço
1ª Dezena
Eu vos ofereço, meu amantíssimo Jesus, pelas almas aflitas do
Purgatório, todas aquelas penas e desprezos que sofrestes,
quando estivestes nas mãos daquela iníqua e cruelíssima gente,
cheia de raiva e de furor; pois, não cessaram os pérfidos de afligir-
vos excessivamente, com pontapés, bofetadas, e escarros no rosto;
e mais com blasfêmias e injurias.
Padre N., 10 Repouso eterno, Ave-Maria.

Eu vos ofereço, meu caríssimo Jesus, pelas almas aflitas do
Purgatório, aquele santo pudor virginal que, sobremodo, vos
acometeu, quando os ímpios judeus vos despiram para amarrar-
vos à coluna; e aquela tão grande dor que também sentistes,
quando tão fortemente vos apertaram as cordas.
Padre N., 10 Repouso eterno, Ave-Maria.

Eu vos ofereço, meu piedosíssimo Jesus. pelas almas aflitas do
Purgatório, aquele excessivo tormento que sofrestes, quando
fostes tão desapiedada e cruelmente flagelado; e a grande dor que
sofreu a vossa Mãe Santíssima que, quantos golpes eram dados
nas vossas inocentíssimas e santas carnes, tantos ela sentia
darem-se-lhe no seu puríssimo Coração.
Padre N., 10 Repouso eterno, Ave-Maria.

Eu vos ofereço, meu piedosíssimo Jesus, pelas almas aflitas do
Purgatório, aquela extrema dor que, também, experimentastes,
quando fostes injustamente coroado de agudíssimos espinhos; e
aquele sacratíssimo sangue que da cabeça e de todas as chagas do
corpo saiu, pela nova e áspera flagelação.
Padre N. 10 Repouso eterno, Ave-Maria.

Eu vos ofereço, meu misericordiosíssimo Jesus, pelas almas aflitas
do Purgatório, aquele duro sentimento que vos magoou, quando
os pérfidos judeus, todos a uma voz, gritaram: — crucificai-o,
crucificai-o, — pedindo que a Vós, ó meu inocente Senhor, fosse
dada, sobre o infame patíbulo da Cruz, a morte e ao facinoroso
Barrabaz a vida; cujas vozes foram tão agudas setas, que
traspassaram cruelmente o vosso coração e o da vossa dolorosa
Mãe Maria.
Padre N., 10 Repouso eterno, Ave-Maria.
Terceiro Terço
1ª Dezena
Eu vos ofereço, meu benigníssimo Jesus, pelas almas aflitas do
Purgatório, a grande fadiga que suportastes, carregando,
desfalecido e magoado, até ao monte Calvário, a Cruz, que, por ser
mui pesada, tornou maiores e muito mais agudas vossas dores.
Padre N., 10 Repouso eterno, Ave-Maria.

Eu vos ofereço, meu benigníssimo Jesus, pelas almas aflitas do
Purgatório, aquele feroz e acerbíssimo martírio que, com re-
quintadas penas e dores, amargamente sofrestes na penosíssima
crucificação; e aquele grave tormento que também sentistes,
estando vivo três horas na Cruz pois que, estando todo o sagrado
corpo cheio de chagas, furadas as mãos e os pés e coroada a cabeça
de agudíssimos espinhos, o estar assim pendurado vos causou
acerbíssima aflição e dor.
Padre N.10 Repouso eterno, Ave-Maria.

Eu vos ofereço, meu clementíssimo Jesus, pelas almas aflitas do
Purgatório, aquela lastimosa e compassiva lamentação que fi-
zestes na Cruz, de vos verdes abandonado do Eterno Pai; e
quando, vendo também que o Céu retirava de vós os seus amoro-
sos confortos, todo doloroso e desconsolado, dissestes: — Meu
Deus! meu Deus! por que me desamparastes?
Padre N., 10 Repouso eterno, Ave-Maria.

Eu vos ofereço, meu clementíssimo Jesus, pelas almas aflitas do
Purgatório, aquela última dor que sentistes, ao separar-se a vossa
alma do corpo, quando, encomendado vosso espírito ao Pai, com
lágrimas nos olhos, em alta voz, dissestes: — Pai, nas vossas mãos
encomendo o meu espírito.
Padre N., 10 Repouso eterno, Ave-Maria.

Eu vos ofereço, finalmente, misericordiosíssimo Jesus, pelas almas
aflitas do Purgatório, todas as dores que sofreu a vossa bendita
Mãe, em cima do monte Calvário, não só quando ela vos viu penar
entre tantos espasmos e dores, e morrer, na Cruz, com tanta
ignomínia; mas também, ao ver-vos traspassado pela lança cruel,
no vosso sacratíssimo lado; ao ver-vos descido da Cruz, e
depositado nos seus braços; ao ver-vos, enfim, encerrado no santo
sepulcro, banhado de lágrimas desta vossa saudosa Mãe e minha
magoada Senhora.
Padre N., 10 Repouso eterno, Ave-Maria.
VIA-SACRA pelas almas do Purgatório
1º. — Diante de cada estação, indica-se o assunto que lhe
corresponde, para fixar o espírito sobre uma das dores de Jesus
Cristo.
2º.— Recita-se com devoção o seguinte oferecimento a que Pio IX
ligou 100 dias de indulg.:
Eterno Padre, eu vos ofereço o Sangue, a Paixão e a Morte de Jesus
Cristo, as dores da Santíssima Virgem e as de S. José, pela remissão
dos meus pecados, livramento das almas do Purgatório, necessi-
dades da Santa Madre Igreja e a conversão dos pecadores.
3º. — Repete-se dez vezes a invocação:
Meu Jesus, misericórdia!
300 dias de indulg. cada vez.
4º. — Termina-se com o versículo:
As almas dos fiéis por misericórdia de Deus descansem em paz.
Amem.
Não exige o Padre-nosso e Ave Maria.
Um quarto de hora basta para esta Via-Sacra na qual as
indulgências peculiares deste pio exercício crescem
consideravelmente com as das orações apontadas.
Veja as orações da Via-sacra no «Adoremus» ou no Devoto de S.
José»
Invocações para a Missa ou novena, concluindo por
uma dezena de terço ou com a jaculatória
«Meu Jesus, Misericórdia»

1ª —Senhor Jesus! dignai-vos, pelo precioso Sangue que


derramastes no Jardim das Oliveiras, socorrer e livrar as almas do
Purgatório, principalmente a mais desamparada. Levai-a hoje
para o Céu, a fim de que, unida aos Anjos e a vossa Mãe Santíssima,
ela vos bendiga para sempre. Amem.
2ª— Senhor Jesus! pelo precioso Sangue que derramastes durante
vossa flagelação, dignai-vos socorrer e livrar as almas do
Purgatório, principalmente a que em vida me fez mais benefícios.
Levai-a hoje para o Céu, a fim de que, unida aos Anjos e a vossa
Mãe Santíssima, ela vos bendiga para sempre. Amem.
3ª — Senhor Jesus! pelo. precioso Sangue que derramastes
durante vossa coroação de espinhos, dignai vos socorrer e livrar
as almas do Purgatório, principalmente a que mais amou a
Santíssima Virgem. Levai- a hoje para o Céu, a fim de que, unida
aos Anjos e a vossa Mãe Santíssima, ela vos bendiga para sempre.
Amem.
4ª— Senhor Jesus! pelo Sangue precioso que derramastes,
carregando a vossa Cruz, dignai-vos socorrer e livrar as almas do
Purgatório, principalmente a que sofre pelos maus exemplos que
lhe dei. Levai-a hoje para o Céu, a fim de que, unida aos Anjos e a
vossa Mãe Santíssima, vos bendiga para sempre. Amem.
5ª — Senhor Jesus! pelos merecimentos do Sangue precioso
contido no cálice que apresentastes a vossos apóstolos depois da
Ceia, dignai-vos socorrer e livrar as almas do Purgatório,
principalmente a que foi mais fervorosa com o Santíssimo Sa-
cramento do Altar. Levai-a hoje para o Céu, a fim de que, unida aos
Anjos e a vossa Mãe Santíssima, vos bendiga para sempre. Amem.
6ª — Senhor Jesus! pelos méritos do Sangue precioso que manou
de vossas chagas, dignai-vos socorrer e livrar as almas do
Purgatório, principalmente a daquele a quem me confiastes na
terra. Levai-a hoje para o Céu, a fim de que, unida aos Anjos e a
vossa Mãe Santíssima, ela vos bendiga para sempre. Amem.
7ª — Senhor Jesus! pelos méritos do Sangue precioso que saiu do
vosso sagrado Coração, dignai-vos socorrer e livrar as almas do
Purgatório, principalmente a que mais propagou o culto do vosso
Sacratíssimo Coração. Levai-a hoje para o Céu, a fim de que, unida
aos Anjos e a vossa Mãe Santíssima, ela vos bendiga para sempre.
Amem!
8ª — Senhor Jesus! pelos merecimentos de vossa adorável
resignação sobre a Cruz, dignai-vos socorrer e livrar as almas do
Purgatório, principalmente a que mais padece por minha causa.
Levai-a hoje ao Céu, a fim de que, unida aos Anjos e a vossa Mãe
Santíssima, ela vos bendiga para sempre. Amem.
9ª —- Senhor Jesus! pelos méritos das lágrimas que a Santa
Virgem derramou ao- pé de vossa Cruz, dignai-vos socorrer e
livrar as almas do Purgatório, principalmente a que vos é mais
cara. Levai-a hoje para o Céu, a fim de que, unida aos Anjos e a
vossa Mãe Santíssima, ela vos bendiga para sempre. Amem.
***
Aos que nas penas estão,
Valha a vossa compaixão,
Ó Maria.
Súplicas pelas almas dos fiéis defuntos
(do Pe. Martinho de Cochem)
Ó Pai de toda a misericórdia, tende piedade das almas benditas do
Purgatório.
Ó piedosíssimo Redentor do mundo, Jesus Cristo, livrai as almas
do purgatório de seus tormentos.
Espírito Santo, Deus de todo o amor, livrai as almas dos fiéis
defuntos de suas grandes penas.
Virgem Maria, cheia de graça, Mãe de misericórdia, alcançai às
almas perdão e misericórdia.
Todos os Anjos, visitai-as e consolai-as no seu cárcere!
Todos os Santos e Bem-aventurados no céu, rogai pelas almas do
purgatório que tanto sofrem.
Prostrai-vos todos diante do trono de Deus, pedindo perdão e
misericórdia por elas.
Ó Deus, atendei às súplicas dos vossos Santos, e livrai as almas que
tanto, sofrem no fogo do purgatório.
Eu clamo juntamente com eles a Vós, Senhor, olhai propício para
o purgatório, e lembrai-Vos da vossa piedade e misericórdia.
Oh! quanto são terríveis as chamas do purgatório, quão cruéis as
dores que lá as almas sofrem!
Pela paixão e morte de Jesus Cristo, tende piedade delas, ó Pai de
misericórdia, ó Deus de toda a consolação!
Eu Vos ofereço para purificação das almas dos fiéis defuntos as
lágrimas de Jesus, e para alivio de suas penas e dores Vos ofereço
o preciosíssimo Sangue do vosso divino Filho.
Eu Vos ofereço para expiação de suas culpas os tormentos que
Jesus sofreu na cruz, e para perdão dos seus pecados todos os
horrores que o mesmo Jesus padeceu na sua agonia.
Eu Vos ofereço para seu livramento todas as santas Missas e o
sagrado Corpo e o precioso Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo
que está presente sobre os nossos altares.
Ó meu Deus, Pai de misericórdia, aceitai propício este
oferecimento, e salvai as almas do purgatório pelo amor de Maria
Santíssima, e sobretudo pelo amor de Jesus Cristo, vosso divino
Filho, Nosso Senhor. Amem.
V. Dai-lhes, Senhor, o descanso eterno,
R. Entre os resplendores da luz perpétua.
V. Descansem em paz.
R. Amem.
Ofício das Benditas Almas do Purgatório

Matinas
Abrirei meus lábios / Em tristes assuntos, /
Para sufragar / Os fiéis defuntos.
Sede em meu favor,/ Salvador do mundo,/
E das almas santas / Do lago profundo.
Nós vos pedimos / Pronta salvação,
preferindo aquelas / da nossa intenção.
Para que por vós,/ Jesus, Sumo Bem,
elas já descansem / Para sempre. Amém.
Hino
Deus vos salve, Cristo / Em vossa Paixão,/
Redentor das almas / Dos filhos de Adão.
Por tal benefício / Público e notório,/
Socorrei as almas / Lá no purgatório.
Não entreis com elas,/ Senhor, em juízo,/
Para que não tenham / Total prejuízo.
Porque na presença / Do Crucificado,/
Nenhum dos viventes / É justificado.
Pelo sacrifício da sagrada Missa,/
Não useis com elas / Da vossa justiça.
Com as tristes almas,/ Meu Senhor, usai /
Das misericórdias / De Deus, vosso Pai.
Vós sois o Cordeiro / Todo ensanguentado,/
Para o bem das almas / Tão sacrificado.
Supra o vosso sangue, / Precioso e santo,/
O dever das almas, / Que padecem tanto.
Peçamos a Deus / A eterna luz,/
Para os que já dormem / Em Cristo, Jesus.
Ouvi meu bom Deus,/ O deprecatório /
Em favor das almas / Lá no purgatório.
Pai Nosso e Ave Maria.
Oração
Onipotente e misericordioso Deus e Senhor nosso, supremo
dominador dos vivos e dos mortos. Pelos merecimentos infinitos
do vosso unigênito Filho, e também pelos grandes merecimentos
da sempre Virgem Maria, sua Mãe e por todos os merecimentos
dos bem- aventurados, concedei propício o perdão das penas que
merecem as almas dos fiéis defuntos, pelas quais fazemos estas
preces para que, livres do purgatório, vão gozar da eterna glória,
por todos os séculos dos séculos. Amém.
Prima
Sede em meu favor,/ Salvador do mundo,/
E das almas santas / Do lago profundo.
Nós vos pedimos / Pronta salvação,/
preferindo aquelas / da nossa intenção.
Para que por vós, / Jesus, Sumo Bem,/
elas já descansem / Para sempre. Amém.
Hino
Deus vos salve, Excelso / Senhor compassivo,/
Das almas que penam / Entre o fogo vivo.
Segundo Batismo / Lhes dai, meu Senhor,/
Batismo de fogo / Purificador.
Como em Babilônia / Os três inocentes /
Só de vós se lembram / Nas chamas ardentes.
Só a vossa clemência / As pode remir /
Do fogo que arde / Sem as consumir;
Fogo que formastes / Com tais predicados,/
Para expiação / Dos nossos pecados.
Muito mais ativo/ que o calor do sol,/
Pior que uma frágoa / Que um vivo crisol.
Supra o vosso sangue, / Que é tão meritório,/
O dever das almas / lá no purgatório.
Aplacai das chamas / Também o calor,/
Daquele tremendo/ fogo expiador.
Peçamos a Deus / A eterna luz,/
Para os que já dormem / Em Cristo, Jesus.
Ouvi meu bom Deus, / O deprecatório./
Em favor das almas / Lá no purgatório.
Pai Nosso e Ave Maria.
Oração
Onipotente e misericordioso Deus e Senhor nosso, supremo
dominador dos vivos e dos mortos. Pelos merecimentos infinitos
do vosso unigênito Filho, e também pelos grandes merecimentos
da sempre Virgem Maria, sua Mãe e por todos os merecimentos
dos bem- aventurados, concedei propício o perdão das penas que
merecem as almas dos fiéis defuntos, pelas quais fazemos estas
preces para que, livres do purgatório, vão gozar da eterna glória,
por todos os séculos dos séculos. Amém.
Terça
Sede em meu favor,/ Salvador do mundo,/
E das almas santas / Do lago profundo.
Nós vos pedimos / Pronta salvação,/
preferindo aquelas / da nossa intenção.
Para que por vós, / Jesus, Sumo Bem,/
elas já descansem / Para sempre. Amém.
Hino
Deus vos salve, Pai / De misericórdia,/
Onde resplandece / A paz e a concórdia.
Por tal excelência / Que em vós adoramos,/
Socorrei as almas, / Por quem suplicamos.
Tão aferrolhadas, / Como Manassés,/
Mover não podem / Suas mãos nem pés.
Privadas de verem / Ao grande Adonai./
Seu eterno Rei, / Seu divino Pai.
Mais penalizadas / Do que Absalão,/
Por já não gozarem/ de Deus a visão.
Como o santo Jó / Tão amargamente /
Lágrimas derramam / Para Deus somente.
Qual o Rei Profeta,/ Seus olhos aflitos /
Estão já enfermos / Por falta de espírito.
Médico divino / Só vossa virtude /
Pode dar às almas/ eterna saúde.
Peçamos a Deus / A eterna luz,/
Para os que já dormem / Em Cristo, Jesus.
Ouvi meu bom Deus, / O deprecatório./
Em favor das almas / Lá no purgatório.
Pai Nosso e Ave Maria.
Oração
Onipotente e misericordioso Deus e Senhor nosso, supremo
dominador dos vivos e dos mortos. Pelos merecimentos infinitos
do vosso unigênito Filho, e também pelos grandes merecimentos
da sempre Virgem Maria, sua Mãe e por todos os merecimentos
dos bem- aventurados, concedei propício o perdão das penas que
merecem as almas dos fiéis defuntos, pelas quais fazemos estas
preces para que, livres do purgatório, vão gozar da eterna glória,
por todos os séculos dos séculos. Amém.
Sexta
Sede em meu favor,/ Salvador do mundo,/
E das almas santas / Do lago profundo.
Nós vos pedimos / Pronta salvação,/
preferindo aquelas / da nossa intenção.
Para que por vós, / Jesus, Sumo Bem,/
elas já descansem / Para sempre. Amém.
Hino
Deus vos salve nosso / Divino Mecenas,/
Protetor das almas / Que estão entre penas.
Vós sois nosso irmão / Pela humanidade,/
Nosso advogado / Com a divindade.
Derramai mil graças / Dessas vossas mãos /
Sobre aquelas almas / Dos nossos irmãos.
Obrai, pois com elas,/ Já com brevidade,/
Um gasto estupendo / Da vossa bondade.
Apressai as horas / Chegai os momentos /
De finalizarem / Seus grandes tormentos.
Não vos recordeis / Dos tempos passados,/
Quando cometeram / Seus grandes pecados.
Supra o vosso sangue,/ Tão satisfatório /
O dever das almas / Lá no purgatório.
Acabai as vossas / Correções fraternas,/
Para que já gozem / delícias eternas.
Peçamos a Deus / A eterna luz,/
Para os que já dormem / Em Cristo, Jesus.
Ouvi meu bom Deus, / O deprecatório./
Em favor das almas / Lá no purgatório.
Pai Nosso e Ave Maria.
Oração
Onipotente e misericordioso Deus e Senhor nosso, supremo
dominador dos vivos e dos mortos. Pelos merecimentos infinitos
do vosso unigênito Filho, e também pelos grandes merecimentos
da sempre Virgem Maria, sua Mãe e por todos os merecimentos
dos bem- aventurados, concedei propício o perdão das penas que
merecem as almas dos fiéis defuntos, pelas quais fazemos estas
preces para que, livres do purgatório, vão gozar da eterna glória,
por todos os séculos dos séculos. Amém.
Noa
Sede em meu favor,/ Salvador do mundo,/
E das almas santas / Do lago profundo.
Nós vos pedimos / Pronta salvação,/
preferindo aquelas / da nossa intenção.
Para que por vós, / Jesus, Sumo Bem,/
elas já descansem / Para sempre. Amém.
Hino
Deus vos salve, Cristo,/ Pastor piedoso /
Das almas benditas/ Do lago Penoso.
Libertai as almas, / Pastor sempiterno,/
Daquele lugar / Junto do inferno.
Qualquer dessas almas,/ Que pena Terá!/
Porque no inferno / Quem vos louvará?
Nestas tristes almas,/ Senhor, acabai /
Os justos castigos / De Deus, vosso Pai.
Supra vosso sangue, / Tão satisfatório /
O dever das almas/ Lá no Purgatório.
Quebrai, meu Jesus,/ poderoso e forte/
Aquelas prisões / Dos laços da morte.
Seja o vosso braço / O libertador /
Das almas que penam / Em tanto rigor.
Por vós finalize, / Jesus soberano,/
Nessas tristes almas / A pena do dano.
Peçamos a Deus / A eterna luz,/
Para os que já dormem / Em Cristo, Jesus.
Ouvi meu bom Deus,/ O deprecatório./
Em favor das almas / Lá no purgatório.
Pai Nosso e Ave Maria.
Oração
Onipotente e misericordioso Deus e Senhor nosso, supremo
dominador dos vivos e dos mortos. Pelos merecimentos infinitos
do vosso unigênito Filho, e também pelos grandes merecimentos
da sempre Virgem Maria, sua Mãe e por todos os merecimentos
dos bem- aventurados, concedei propício o perdão das penas que
merecem as almas dos fiéis defuntos, pelas quais fazemos estas
preces para que, livres do purgatório, vão gozar da eterna glória,
por todos os séculos dos séculos. Amém.
Vésperas
Sede em meu favor,/ Salvador do mundo,/
E das almas santas / Do lago profundo.
Nós vos pedimos / Pronta salvação,/
preferindo aquelas / da nossa intenção.
Para que por vós, / Jesus, Sumo Bem,/
elas já descansem / Para sempre. Amém.
Hino
Deus vos salve, Filho / Do Onipotente,/
Com as tristes almas,/ Sempre tão clemente.
Tende compaixão / Dessas tristes almas,/
Que estão padecendo / Rigorosas chamas.
Bem como as securas / Do rico avarento,/
Padecem as almas / Outro igual tormento.
Assim como os servos / Dos vales e montes,/
Quando sequiosos / Procuram as fontes.
Assim mesmo as almas / Querem excessivas /
Só a vós, meu Deus,/ Fontes d’águas vivas.
Mandai-lhes, propício, / As águas da graça,/
Para melhorarem / daquela desgraça.
O perdão das almas,/ Senhor, alcançai,/
Das misericórdias / De Deus vosso Pai.
Vosso sangue seja,/ Propiciatório,/
De Deus para as almas / Lá no purgatório.
Peçamos a Deus / A eterna luz,/
Para os que já dormem / Em Cristo, Jesus.
Ouvi meu bom Deus, / O deprecatório./
Em favor das almas / Lá no purgatório.
Pai Nosso e Ave Maria.
Oração
Onipotente e misericordioso Deus e Senhor nosso, supremo
dominador dos vivos e dos mortos. Pelos merecimentos infinitos
do vosso unigênito Filho, e também pelos grandes merecimentos
da sempre Virgem Maria, sua Mãe e por todos os merecimentos
dos bem- aventurados, concedei propício o perdão das penas que
merecem as almas dos fiéis defuntos, pelas quais fazemos estas
preces para que, livres do purgatório, vão gozar da eterna glória,
por todos os séculos dos séculos. Amém.
Completas
Converta-nos Deus, / A nós todos juntos /
Para sufragarmos / Os fiéis defuntos.
Sede em meu favor,/ Salvador do mundo,/
E das almas santas / Do lago profundo.
Nós vos pedimos / Pronta salvação,/
preferindo aquelas / da nossa intenção.
Para que por vós, / Jesus, Sumo Bem,/
elas já descansem / Para sempre. Amém.
Hino
Deus vos salve, Esposo / Das almas fiéis /
Que estão padecendo / Tormentos cruéis.
Olhai compassivo / Para as fadigas /
Dessas que não são / Vossas inimigas.
Mesmo assim vos amam / Em tal padecer,/
Sem aqueles toques / Do doce prazer.
Como as Virgens loucas / Foram imprudentes,/
Perdoai as suas / Ações negligentes.
Celebrai depressa / As núpcias eternas,/
Com aquelas almas / humildes e ternas.
Conduzi-as logo / À feliz herança /
Da vossa suprema / Bem-aventurança.
Transporta-as já / Sem mais dilação /
Para os tabernáculos / Da santa Sião.
Por vós gozem elas / Sem menor detença /
Os doces efeitos / Da vossa presença.
Peçamos a Deus / A eterna luz,/
Para os que já dormem / Em Cristo, Jesus.
Ouvi meu bom Deus, / O deprecatório./
Em favor das almas / Lá no purgatório.
Pai Nosso e Ave Maria.
Oração
Onipotente e misericordioso Deus e Senhor nosso, supremo
dominador dos vivos e dos mortos. Pelos merecimentos infinitos
do vosso unigênito Filho, e também pelos grandes merecimentos
da sempre Virgem Maria, sua Mãe e por todos os merecimentos
dos bem- aventurados, concedei propício o perdão das penas que
merecem as almas dos fiéis defuntos, pelas quais fazemos estas
preces para que, livres do purgatório, vão gozar da eterna glória,
por todos os séculos dos séculos. Amém.
Oferecimento
Nós Vos oferecemos, / Ó bom Deus propício, / Pelas tristes almas,
/ Este breve ofício. Vós que sabeis tudo / Quanto nós pensamos, /
Bem sabeis que almas / Hoje sufragamos. Participem todas / Por
vossa bondade, / Conforme a justiça / E a caridade. Para que por
vós, / Jesus, Sumo Bem, / Em paz já descansem / Para sempre.
Amém.

Ao Mês das Almas


Respostas
Meus amigos, vós ao menos,/ de nós tende compaixão,/
rogaremos, pois, na glória,/ pela vossa salvação.
A
Ai de nós que se dilata / a nossa ardente prisão./ Quando veremos
a Deus / no Reino da Salvação.
B
Bem podia nossos filhos,/ nossos irmãos, nossos pais,/ moderar
nossos tormentos,/ dar alívio aos nossos ais.
C
Com sufrágios, com pedidos,/ a Deus nosso Salvador / pra tirar-
nos destas chamas / pelo seu divino amor.
D
Dai-nos socorros mortais,/ abrande-se Deus por vós,/ lembrai-vos
que sereis breve,/ padecentes como nós.
E
Estamos em mar de fogo,/ onde jazigo já não temos,/ só nas vossas
orações / achar alívio podemos.
F
Fogo ativo, fogo ardente,/ chama a mais devoradora / pela justiça
divina / em nossas almas labora.
G
Gemendo, mas esperando,/ chorando por ir gozar,/ a Deus por
quem suspiramos / se finde o nosso penar.
H
É possível, ó mortais,/ que esquecidas desta sorte,/ vosso amor
para conosco / tivesse fim sem a morte?
I
Irmãos no corpo e na alma,/ irmãos na religião,/ irmãos na vida e
na morte / tende de nós compaixão.
J
Já fomos no mundo amadas,/ de vós agora esquecidas,/ sofrendo
estamos as penas,/ por nossas culpas merecidas.
L
Lembrai-vos de nós, aflitas / Por Deus, por Santa Maria,/ que por
entre acerbas penas / a sua glória nos guia.
M
Mundo, ó mundo enganoso,/ que deixamos sem pesar,/ medita em
nossos tormentos:/ terás menos que purgar.
N
Não peques, pois que os pecados / condenam sendo mortais,/
estas chamas só consomem / simples culpas veniais.
O
Oh, se todos nossos dias / fossem dados ao Senhor,/ não havia
purgatório / nem penas de tal rigor!
P
Purgatório onde existimos,/ chamando Igreja purgante,/ é o lugar
que habitamos / entre fogo devorante.
Q
Quer Deus estas nossas almas / qual ouro purificar,/ pra na Igreja
triunfante / o podermos gozar.
R
Rogaremos então nós / pela militante igreja,/ vossa devoção
conosco / hoje abençoada seja.
S
Seja o nosso Deus servido,/ nossos rogos aceitar,/ entretanto vós
por nós / não cesseis de suplicar.
T
Tende de nós piedade,/ cristãos filhos de Jesus,/ vos pedimos
pelas dores,/ que por nós sofreu na cruz.
U
Um rosário muitas vezes,/ pode uma alma resgatar,/ se for dum
vosso parente / que prazer em o pensar.
V
Venham a nós vossas preces,/ penitência e devoção,/ missas,
esmolas, sufrágios / fazei por nossa tensão.
X
Chamai em nosso socorro / a Mãe de Deus vossa amante,/ cuja
vista nossa chama / torna mais refrigerante.
Z
Zelai os nossos legados,/ como Deus mandado tem,/ para nos
vermos unidos / nos céus para sempre. Amém.

Bendito Final
Bendito Deus de Israel,/ que fez nossa redenção / purgadas no
fogo as almas,/ as leva à Santa Sião.
Bendito que entre as chamas,/ dentre o fogo abrasador,/ livra as
almas que no Céu / lhe vão tributar louvor.
Bendito Jesus; Pai nosso,/ que nos altos céus estais,/ socorrei,
como pedimos,/ as almas santas que amais.
É bendito vosso nome / e também santificado / pelas almas que
absolveis, / do resto do pecado.
Chegue a elas vosso Reino, ouvi seus gemidos ternos,/ fazei-as
passar aos vossos / Tabernáculos eternos.
Cumpra-se a vossa vontade / em que saiam do tormento / essas
almas que suspiram / pela luz do livramento.
O pão que elas desejam / lhes daí Senhor neste dia./ Vós mesmo
sois o pão vivo / que as farta de alegria.
Perdoai quanto vos devem;/ como bom Pai amoroso / libertai
libertai nossas irmãs / desse lago tormentoso.

Hinos à Santíssima Virgem


Pelos mortos
(Versão do latim)
I
Aos que nas chamas estão / do purgatório terrível,/ nesse
tormento indizível,/ valha tua compaixão,/ Ó Maria!
Fonte pura e salutar / que lavas nossos pecados,/ banha as almas
dos finados,/ alivia o seu penar,/ Ó Maria!
Atende essa grei tão pia:/ sua aflição é intensa,/ ergue-as à tua
presença,/ dá-lhes a eterna alegria,/ Ó Maria!
Mãe, acode aos padecentes,/ abre-lhes o seio amoroso;/ do Cristo
o Sangue precioso / resgate já esses crentes,/ Ó Maria!
És a esperança da Igreja:/ em prol dessa multidão / move teu Filho
ao perdão,/ dá-lhe a coroa que almeja,/ Ó Maria!
Que este pranto, esta prece,/ indo ao Sumo Julgador,/ desse fogo
abrasador / livre a Igreja que padece,/ Ó Maria!
E no dia de juízo,/ quando Jesus nos julgar,/ Terna Mãe lhe hás de
rogar / que nos leve ao Paraíso,/ Ó Maria!
II
Coro: Santa Mãe de Deus,/ Mãe do Salvador,/ abri os céus,/ das
almas tende compaixão.
1. Tende compaixão,/ Mãe do Bom Jesus./ Por vosso amor,/ livrai
as almas da prisão.
2. Que na eterna luz,/ estejam com Jesus / em doce união,/ felizes
para sempre. Amém.
Editado, formatado e revisado
por
Carlos Alberto de França Rebouças Junior
Fortaleza, 27 de março de 2011.
Novenário em Honra do Divino Espírito Santo
NOVENÁRIO EM HONRA DO DIVINO
ESPÍRITO SANTO
— Imprimatur —
Fortaleza, 11 de novembro de 1934.
MONS. J. A. FURTADO
Pro-Vigário Geral
ÀS ALMAS PIEDOSAS
Propagar o culto ao Divino Espírito Santo é a razão deste livrinho
que vai acompanhado dos votos ardentes de quem anseia ver
tributada uma devoção condigna ao Santificador das almas.
Lamenta-se por toda a parte que o povo cristão ignore o dogma da
habitação em nós da terceira pessoa divina.
Em boa hora aparece este Novenário e é de esperar que da difusão
dele venha resultar melhor conhecimento da preciosidade da
graça entre os fiéis.
Queira o Espírito Santo abençoar este trabalhinho feito em sua
honra e ilumine os corações com os seus divinos dons.
BIBLIOGRAFIA
The Forgotten Paraclete — Mgr. Landrieux
La Mission de l'Eprit Saint — E. Manning — Archevêque de
Westminster.
Dévotion au Saint-Esprit — Friaque.
Catecismo Católico — Dcharbe.
L'année liturgique — Dom Gueranger.
A alma Eucaristica.
ORAÇÃO PREPARATÓRIA
Vinde Santo Espírito, enchei os corações de vossos fiéis e acendei
neles o fogo de vosso divino amor.
V — Enviai, Senhor, o vosso Espírito e tudo será criado.
V — E assim renovareis a face da terra.
O R E M O S
Deus, que ilustrais os corações dos vossos fiéis com a luz do
Espírito Santo, fazei que pelo mesmo Espírito saibamos o que é
reto, e nos alegremos sempre com sua consolação.
Amém.
ORAÇÃO
Espírito Santo, divino Paráclito, Pai dos pobres, consolador dos
aflitos, Santificador das almas, eis-me prostrado em vossa
presença; eu vos adoro com a mais profunda submissão e repito
mil vezes, com os Serafins que rodeiam o Vosso trono: Santo!
Santo! Santo!
Vós que enchestes de imensas graças a alma de Maria, e
inflamastes de santo zelo os corações dos Apóstolos, dignai-vos
também abrasar o meu coração com o vosso amor. Aparecestes
em forma de nuvem, de língua de fogo, de pomba, para revelar as
comunicações de vossa caridade.
Cobri-me com a sombra de vossa proteção, ensinai-me a maneira
de vos louvar incessantemente; dai-me costumes puros.
Enfim, sois o Autor de todos os dons celestes. Ah! eu vos suplico,
vivificai-me com Vossa graça, santificai-me com vossa caridade,
governai-me com vossa sabedoria, dotai-me como filho por vossa
bondade e salvai-me pela vossa infinita misericórdia, a fim de que
não cesse nunca de vos abençoar, louvar e amar na terra, durante
minha vida, em seguida no céu por toda eternidade. Amém.
PRIMEIRO DIA
Meditação
O Espírito-Santo é a terceira Pessoa da Santíssima Trindade.
Vemos como uma graça singular que esta Pessoa divina se digna
habitar em nós. É o Espírito Santo mesmo que vem morar nos
nossos corações, isto está escrito em cada página do Novo
Testamento.
Se há uma cousa para admirar é que nós cristãos e católicos que
temos no coração a luz da Fé e nas mãos as santas escrituras,
cheguemos algumas vezes à metade de nossa existência e talvez
ao fim de nossa vida sem mesmo nomear o Espírito Santo,
enquanto que falamos no Pai e no Filho.
É possível que ignoremos a presença íntima do Espírito Santo em
nós?
Lastimável ignorância!
Não temos consciência das operações contínuas da graça, efeito da
presença do Espírito Santo em nossas almas.
Insensibilidade criminosa!
Se há uma cousa para nossa vergonha, uma cousa que devia nos
lançar de joelhos com o rosto em terra, é que, durante o correr do
dia, nós vivemos como se não houvesse o Espírito Santo; somos
como os Efésios, que quando o Apóstolo lhes perguntava se eles
tinham recebido o Espírito Santo depois que abraçaram a fé,
responderam: Nós nem sabíamos que havia Espírito Santo. (At.
19,2).
Nós vivemos no mundo e somos mundanos; vivemos sobre a terra
e as cousas da terra nos tornam terrestres; vivemos para o prazer,
para o tráfico, para o dinheiro, para a leviandade, para a satisfação
de nossa vontade própria.
Se há uma verdade preciosa a conhecer e doce a contemplar, uma
verdade que ofereça interesse mais do que ordinário e contenha
de alguma forma a medula do cristianismo, uma verdade
frequentemente lembrada nos Santos Livros, e no entanto deixada
quase na sombra por quem tem o dever de pregar ao povo, é
seguramente o dogma tão piedoso quanto consolador da presença
e da habitação do Espírito Santo nas almas justas.
Eusébio conta de Leônidas, pai de Orígenes, que durante a noite,
enquanto o seu filho dormia, o piedoso cristão, que logo seria
martirizado, se aproximava de seu filho, e beijava-lhe com
respeito o peito como um santuário do Espírito Santo.
RAMALHETE ESPIRITUAL
Não contristeis o Espírito Santo. Não resistais ao Espírito Santo. Não
extingais o Espírito.
(Ef. 4,30 — At. 7,51 -- Tes. 5,19)
EXEMPLO
A ilustre Virgem de Siracusa acabava de distribuir com os pobres
o rico dote que sua mãe tinha posto em reserva para o seu
casamento.
Informado desta conduta e tomado de despeito, o jovem que tinha
pedido a sua mão e ao qual Luzia tinha prometido contra a própria
vontade casar-se, denunciou-a ao pretor Pascasio. Este mandou
prender imediatamente a jovem e quando ela compareceu diante
do tribunal, nada lhe foi poupado para renunciar a religião cristã,
tida por vã superstição, e para sacrificar aos deuses.
"O verdadeiro sacrifício que nós devemos oferecer é visitar as
viúvas e os órfãos, disse Luzia, é assistir aos pobres nas
necessidades. Há três anos que eu ofereço este sacrifício ao Deus
Vivo, e só resta sacrificar a mim mesma como uma vítima que é
devida à sua divina Majestade".
—"Dizei isto aos cristãos e não a mim, respondeu Pascasio; eu sou
obrigado a guardar os editos dos imperadores, meus senhores".
Santa Luzia continuou: "Vós guardais as leis destes príncipes e eu
as de meu Deus; Vós temeis os imperadores da terra, eu o do céu;
Vós tendes receio de ofender um homem, e eu ao Rei Imortal; Vós
desejais agradar a vossos senhores e eu ao meu Criador; não
penseis poder-me separar do amor de Jesus Cristo.
—"Todos estes discursos acabarão quando vierem os açoites,
retorquiu o pretor impacientado.
—"As palavras, atalhou a intrépida Virgem, não poderiam faltar
àqueles a quem Jesus Cristo disse:
Quando vós fordes levados aos tribunais não vos inquieteis sobre
o que haveis de responder... o Espírito Santo falará por vós".
—"Vós acreditais que o Espírito Santo está em Vós?
. —"Aqueles que vivem piedosamente e castamente são o templo
do Espírito Santo.
—"Pois bem, eu vos mandarei a um lugar infame a fim de que o
Espírito Santo vos abandone".
—"A violência feita ao corpo nada tira à pureza da alma; e, se vós
me ultrajardes eu terei no céu uma dupla coroa".
Deus salvou por um milagre a honra de sua esposa.
ORAÇÃO
Peço-vos, oh! divino Espírito Santo que me visiteis com vossa
graça e vosso amor.
Nós Vos pedimos, Senhor, que o Espírito Santo venha em nossos
corações e morando neles os torne templos dignos de sua glória.
LADAINHA DO ESPÍRITO SANTO
Senhor, tende piedade de nós.
Pai Eterno todo poderoso, tende piedade de nós.
Jesus, Filho Eterno do Pai e Redentor do mundo, tende piedade de
nós.
Espírito do Pai e do Filho, Amor eterno, Santificai-nos.
Santíssima Trindade, ouvi-nos.
Espírito Santo, que procedeis do Pai e do Filho, vinde a nós.
Divino Espírito, que sois igual ao Pai e ao Filho, vinde a nós.
Promessa do mais terno e generoso dos Pais, vinde a nós.
Dom do Deus altíssimo, vinde a nós.
Fogo Sagrado, vinde a nós.
Caridade Ardente, vinde a nós.
Unção espiritual das almas, vinde a nós.
Espírito de Verdade, vinde a nós.
Espírito de Sabedoria e de Inteligência, vinde a nós.
Espírito de Conselho e de Força, vinde a nós.
Espírito de Ciência e de Piedade, vinde a nós.
Espírito de Temor de Deus, vinde a nós.
Espírito de graça e de oração, vinde a nós.
Espírito de compunção e de confiança, vinde a nós.
Espírito de doçura e de humildade, vinde a nós.
Espírito de paz e de paciência, vinde a nós.
Espírito de modéstia e de pureza, vinde a nós.
Espírito consolador, vinde a nós.
Espírito Santificador, vinde a nós.
Espírito do Senhor, que encheis o universo, vinde a nós.
Espírito de Infalibilidade, que dirigis a Igreja, vinde a nós.
Espírito de adoção dos filhos de Deus, vinde a nós.
Espírito Santo, ouvi-nos.
Iluminai nosso espírito com vossa luz;
Inflamai nossos corações com vosso calor;
Tornai-nos firmes e corajosos na fé;
Conduzi-nos na via de vossos mandamentos;
Fazei-nos dóceis a vossas inspirações;
Ensinai-nos a orar e orai conosco;
Ensinai-nos a nos amar e nos suportar mutuamente;
Revesti-nos de caridade e misericórdia para com nossos irmãos;
Inspirai-nos horror ao mal;
Dirigi-nos na prática do bem;
Concedei-nos o mérito das virtudes;
Fazei-nos perseverar na justiça;
Sede nossa eterna recompensa.
Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, perdoai-nos
Senhor.
Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, ouvi-nos
Senhor.
Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, tende piedade
de nós.
V — Vinde, Espírito Santo e enchei os corações de vossos fiéis.
R — E acendei neles o fogo do vosso divino amor.
ORAÇÃO
Que vosso Divino Espírito nos esclareça, abrase e purifique, e nos
refrigere com seu celestial orvalho, tornando-nos fecundos em
boas obras, por Nosso Senhor Jesus-Cristo que, sendo Deus, vive e
reina convosco na glória, em união com o Espírito-Santo.
Amém.
SEQUÊNCIA
Vinde, oh! Santo Espírito, e mandai do céu um raio da Vossa luz.
Vinde, oh! Pai dos pobres, vinde oh! Distribuidor dos bens, vinde
oh! Luz dos corações.
Vinde, oh! Consolador ótimo, doce hóspede e suave alegria das
almas.
Vinde aliviar-lhes os trabalhos, temperar-lhes os ardores e
enxugar-lhes as lágrimas.
Oh! luz beatíssima, inflamai os íntimos corações dos vossos fiéis.
Sem a Vossa graça nada há no homem nada inocente.
Lavai, pois, o que está sórdido, regai o que é seco, sarai o que anda
enfermo.
Abrandai o que é duro, abrasai o que é frio, e reconduzi o desviado.
Concedei aos vossos servos, que em vós confiam, o setenário de
vossos dons.
Dai-lhes o mérito da virtude, o dom da graça final, e o glorioso
prêmio dos prazeres eternos.
Amém.
Espírito Divino, acende em mim a luz que faça o meu destino ser
alcançar Jesus.

SEGUNDO DIA
Meditação
O Espírito Santo é comparado a uma fonte de água viva e também
a um fogo ardente.
"O fons vivus, Ignis, Charitas!"
A água é vida. Na natureza a água circula como o sangue nas
nossas veias. Quer ela brote do seio da terra ou se arroje das
montanhas em torrentes, ou caia do céu em chuva, é a água que
fertiliza a terra.
Sem ela, a terra mais rica permanece estéril. Onde há água a vida
ressurge, a semente germina, a seiva circula nas plantas.
A água faz o oásis surgir no deserto!
A ação da água na natureza nos faz compreender a ação da graça
nas almas.
A graça santificante, como a água, purifica, refresca e vivifica.
As almas santas são comparadas a "jardins fertilizados por águas
vivas", a "árvores vicejantes plantadas na beira das águas".
A água fertiliza a terra, mas é o sol que faz a seiva levantar, que dá
à flor seu brilho e à fruta seu sabor.
Nas sagradas Escrituras, o homem justo é comparado à palmeira:
"o justo florescerá como a palmeira''. A palmeira para florescer
deve possuir água e sol em abundância, pois a estes dois elemen-
tos deve a vegetação tropical a sua vida.
Assim, o fogo é também princípio de vida. O fogo não somente
vivifica, mas purifica, ilumina e inflama.
É o símbolo do trabalho da graça nas nossas almas, nos três graus
de vida purgativa, iluminativa e unitiva.
O fogo torna o ferro flexível e, ao mesmo tempo que torna
maleáveis os metais duros, dá ao giz que o artista modelou a
consistência de pedra. Da mesma forma, o Espírito Santo amolece
os corações endurecidos pelo vício e dá às almas fracas a energia,
e o vigor, como o fez com os Apóstolos no Pentecostes.
O Espírito Santo ilumina, vivifica, é luz para o coração: lumen
cordium, e por isso é princípio de união. A fé nos aproxima de
Deus, o amor nos une a Ele.
"Eu vim para lançar fogo à terra", disse Nosso Senhor, este fogo
que é a caridade, o amor.
A Nicodemos, Jesus declara que: "Se o homem não renascer da
água e do Espírito Santo, não entrará no reino de Deus" (João III,
5) e João Batista pregou que o Messias batizaria "no Espírito Santo
e no fogo".
Vede! Água, fogo, e sempre o Espírito Santo.
Este batismo de fogo, receberam-no os Apóstolos no dia de
Pentecostes, quando o Espírito Santo desceu sobre eles em línguas
de fogo.
R A M A L H E T E E S P I R I T U A L
A alma não está tão unida ao nosso corpo como o Espírito divino
está com a nossa alma.
E X E M P L O
O Espírito Santo distribui seus dons conforme lhe apraz, a uns dá
o dom das línguas, a outros o das profecias, das revelações e dos
milagres.
Santo Antônio de Pádua pregou em Roma e todos os homens o
entenderam, embora sendo de nacionalidades diferentes.
—De São Francisco Xavier, Apóstolo da Índia e do Japão, referem
os processos de canonização que falou as línguas de vários povos
tão corretamente, como se tivera nascido e sido educado no meio
deles. E sucedeu muitas vezes que, ouvindo-o pregar, homens de
diversas nações, ao mesmo tempo, cada um deles o entendia,
como se lhes falasse na sua própria língua.
—O nosso venerável Padre Anchieta, Apóstolo do Brasil, fazia
milagres com tanta frequência, que o chamavam: o Taumaturgo. O
seu dom de milagres manifestou-se especialmente no domínio
que exerceu sobre os elementos e sobre os animais.
Um dia, achava-se o Padre Anchieta à beira-mar, em profunda
meditação, por tal modo que subindo a maré e, sem ele o notar
nem mover-se, viu-se, num momento, rodeado das ondas, porém
estas nem sequer humedeceram os seus vestidos.
— Noutra ocasião, navegando o Padre Anchieta numa barca, com
o mar em calma e um calor forte que sufocava os marinheiros, viu
na margem de um mangue três ou quatro guarás, e lhes disse em
língua indígena: "Ide, chamai vossos companheiros, e vinde fazer-
nos sombra". Foram, e em breve voltaram em uma formosa nuvem
que se pôs sobre a canoa por espaço de uma légua, até que
entrando a viração, pois elas batiam as azas como que abanando
com um leque, transmitiu ar fresco aos marinheiros, maravilhados
de tão amigável e inesperado obséquio.
Este caso foi jurado pelo companheiro Pe. Pedro Leitão diante do
P. Fernão Cardim, Provincial e diante de outras pessoas.
ORAÇÃO
Peço-vos, oh! divino Espírito Santo, que me visiteis com vossa
graça e vosso amor.
Permiti, Senhor, que a infusão do divino Espírito purifique os
nossos corações e os faça fecundos com a intima aspersão da sua
graça.
Amém.
Vinde, Luz de caridade, inflamar os corações a todos nós; por
piedade, defendei-nos nas tentações.
TERCEIRO DIA
Meditação
O orgulho é o grande obstáculo à nossa perfeição. É o orgulho que
nos leva a resistir a Deus, a nos perder.
Quem nos salvará de tão grande perigo? Quem nos dará a
humildade?
O Espírito Santo, infundindo em nós o dom de temor.
O dom de temor nos dá o profundo sentimento da grandeza e da
soberana Majestade de Deus, em cuja presença somos como o
nada.
Praticamente, nos mostra em Deus o Mestre onipotente, o
Legislador.
Um dos erros do modernismo é alterar as verdades da religião; o
livre pensador glorifica o pecado e nós o julgamos com menos
severidade, exalta as paixões e nós as desculpamos, nega o inferno
e nós o imaginamos menos terrível do que é. Assim, o salutar
temor do juízo de Deus morre nas almas.
Temer a Deus não significa ter medo d'Ele. Este temor de Deus,
dom do Espírito Santo, nos torna apreensivos em ofender a nosso
Pai celeste, em contristá-lo nas mínimas cousas: Temor que
aumenta à medida que aumenta o amor.
O Espírito Santo nos faz conceber quão grande é este Deus que a
Fé revela e nos leva a nos inclinar diante de sua Majestade: é a
Adoração.
Penetra e excita no coração um sentimento de segurança, de
abandono nas mãos de um Deus onipotente: é a Confiança.
Influi sobre a vontade e a move a servir sempre um Mestre tão
perfeito: é a Fidelidade.
Desce ao intimo da consciência inspirando o sentimento de
compunção, tornando-a delicada, receosa em ofender a Deus.
É neste harmonioso conjunto de respeito, confiança, fidelidade e
compunção que consiste no dom de temor.
Os frutos do dom de temor são a modéstia, a temperança e a
castidade.
R A M A L H E T E E S P I R I T U A L
"Bem-aventurados os pobres de espírito porque deles é o reino
dos céus".
Esta bem-aventurança corresponde ao dom da piedade.
E X E M P L O
0 imperador Juliano, vinte anos depois de ter recebido o batismo
e a confirmação, renunciou à fé e tornou-se ímpio.
Convencido de que estes dois sacramentos haviam impresso em
sua alma caracteres indeléveis e eternos, e querendo por força se
livrar desses dois caracteres espirituais, que sem cessar lhe
censuravam a apostasia, recorreu a todos os meios possíveis, sem
pensar que esses mesmos esforços eram uma testemunha
eloquente a favor desta religião que ele combatia com tanto furor
e tenacidade.
A história relata que ele fazia correr sobre sua pessoa o sangue das
vítimas imoladas nos altares dos falsos deuses, e recorria às
práticas supersticiosas, a fim de destruir em sua alma a impressão,
o sinal sagrado de cristão e confirmado.
Ai dele! o desgraçado só fazia irritar a cólera divina e agravar sua
culpa.
A despeito de seus esforços sacrílegos, quando a trombeta do anjo
chamar os homens ao juízo final, será na qualidade de cristão
confirmado que ele sairá do sepulcro e virá dar contas do abuso
das graças que lhe, deram os sacramentos.
ORAÇÃO
Peço-vos oh! divino Espírito Santo, que me visiteis com vossa
graça e vosso amor, e me concedais o dom do Temor, para me
servir de freio a fim de não recair nas faltas passadas, das quais eu
vos peço perdão.
LADAINHA SEQUÊNCIA
Temor de Deus vos suplicamos,
Sempre nos vinde dominar.
Todos os dons, solicitamos,
Vinde em nossa alma derramar.

QUARTO DIA
Meditação
O dom do Temor nos cura do orgulho. - O dom da Piedade é
derramado em nossas almas para combater o egoísmo, segundo
obstáculo à nossa união com Deus.
Este dom da Piedade nos mostra Deus como um Pai muito bom e
suscita em nossas almas um desejo ardente de lhe agradar. Faz-
nos doces e confiantes para com este Pai celeste, quando pre-
cisamos pedir-lhe um favor ou confessar- lhe uma falta.
Entretém em nossos corações relações de amor para com a
Santíssima Virgem a quem consideramos uma Mãe terníssima e
poderosa medianeira, para com os Anjos e Santos que temos como
protetores e advogados.
Infunde em nós o amor a todos os homens, sobretudo aos pobres
e humildes.
Ha uma falsa piedade que é uma caricatura da verdadeira; é
superficial, estreita, falha de sentimentos generosos e de ideias
elevadas, escrava de formulas e palavras; piedade farisaica que se
interessa mais com os objetos da piedade do que com a Virtude,
que pratica os conselhos e negligencia os preceitos, se ocupa de
trabalhos supérfluos e esquece os impostos pelos dever, piedade
de rotina, suspeita, sentimental, perdida num vago misticismo,
que se acomoda a tudo, meia mundana, meia cristã.
A piedade será para nós questão de temperamento? Naturezas
impressionáveis fazem consistir a piedade em sentimentalismo;
naturezas ardentes no zelo exterior; a piedade dos fracos se limita
a não ofender os outros.
Será lógica a nossa piedade?
Teremos em nós uma mistura de devoção e dissipação, misticismo
em nossas ideias e trivial idade em nossa vida, sentimentalidade
espiritual e grande cobardia em face do dever?
Há inúmeras almas piedosas, como as multidões da Galileia.
Elas se comprimiam em volta de Nosso Senhor, mas, de todas, só
uma mulher pobre e humilde tocou o Senhor com fé e confiança.
"Quem me tocou?" perguntou Jesus. Respondeu S. Pedro; "Senhor,
as multidões vos cercam e Vós dizeis quem me tocou?" e Jesus
disse —"Alguém me tocou, porque uma virtude emanou de mim".
Como os raios do sol o dom da piedade é luz, calor e vida, e se
compõe de fé, amor e força; vai a Deus sem constrangimento; é o
sentimento religioso em toda a sua delicadeza. É menos um ato de
obediência imposto ao servo que uma prova de ternura em que se
compraz o filho.
Os frutos que produz a piedade são: a alegria espiritual e as
doçuras da caridade.'
R A M A L H E T E E S P I R I T U A L
“Bem-aventurados os mansos porque possuirão a terra”.
EXEMPLO
(extraído da vida de Guy de Fontgalland).
A piedade do pequeno Guy de Fongalland não é uma manifestação
exterior, ritos, fórmulas: é a sua própria alma.
É extraordinária a intimidade a que chegara Guy com seu "menino
Jesus".
Sua professora, acompanhando-o à missa tinha-lhe pedido que
rezasse por uma de suas intenções. Assim fez Guy, e logo depois
da Elevação voltando-se para ela, disse-lhe: "Mademoiselle, está
feito, já rezei para o que a Sra. me pediu".
Como há sempre pessoas que tenham da piedade uma ideia
medíocre, a professora não deixou de fazer observar ao pequeno
que ele devia se ter abstido de falar depois da Consagração:
— Mas, sim! diz Guy, quando todos abaixam a cabeça eu a levanto,
olho para Deus bem em frente e digo o que tenho a dizer-lhe: é o
meu momento!
Que força no caráter! que retidão máscula e leal na piedade.
É o meu momento, diz Guy...
Bendigamos a minúcia um tanto mesquinha da excelente
professora.
Ela vai nos mimosear com uma resposta ainda mais bela.
—Mas, durante a ação de graças, quando Jesus está no seu
coração?
—Oh! responde Guy sorrindo, aí não é a mesma cousa, Jesus me
fala, eu o escuto e o saboreio!"
A propósito desta resposta, disse um padre franciscano, da mais
brilhante inteligência, que, na sua opinião, semelhante frase indica
um estado místico muito elevado.
ORAÇÃO
Peço-vos, oh! divino Espírito Santo, que me visiteis com Vossa
graça e Vosso amor e me concedais o dom da Piedade, a fim de que
eu possa vos servir com mais fervor, seguindo com docilidade
vossas santas inspirações, observando vossos divinos preceitos...
LADAINHA SEQUÊNCIA
Divina Luz da Piedade
Nos inflamando o coração
Com o Santo ardor da caridade
Nos purifique a imperfeição.

QUINTO DIA
Meditação
— O dom da Ciência ensina aos homens as verdades da fé, a prati-
ca das virtudes cristãs, dando-lhes o verdadeiro conhecimento de
seus deveres.
Retifica e amadurece nosso raciocínio e nos torna capazes de
discernir o bem do mal.
A fé é a luz de nossas almas.
Pelo dom da Ciência, o Espírito Santo faz brilhar esta virtude de
maneira a dissipar nossas trevas; esclarece as dúvidas e expele o
erro.
A alma iluminada fica ciente do pouco valor deste mundo, este
mundo variável e traidor, que promete mais do que dá.
O dom de Ciência nos ensina a ver Deus nas suas obras, a ler no
grande livro da natureza o poema escrito por Deus, porque toda
criatura é uma palavra deste poema divino, uma espécie de
sacramento, um sinal visível que contém um fragmento da ideia
de Deus.
Os santos descobrem nas criaturas tudo o que elas revelam de
Deus, de seu poder, sabedoria, e bondade, porque as obras de arte
proclamam bem alto o seu autor. Na harmonia do universo perce-
bemos os traços do Criador. a marca de seus passos, a impressão
de sua mão, o eco de sua palavra, o reflexo de seu pensamento, a
radiação de seu amor.
O dom de Ciência também aumenta o poder intelectual dos sábios,
e ilumina os gênios. Nos iletrados dá e esclarece o bom senso, mais
valioso que o arrogante conhecimento dos sábios.
A Ciência — o sentido do sobrenatural é para a alma o que a luz do
sol é para os olhos, o que o conhecimento humano é para a mente.
Aqueles que não possuem este dom são como os cegos que têm
meios limitados de percepção: um sentido falta a eles, e um aspeto
do mundo lhes escapa.
O fruto deste dom é uma fé esclarecida que nos ajuda a usar das
criaturas sem os lastimáveis desvios.
R A M A L H E T E E S P I R I T U A L
Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados.
E X E M P L O
Santa Verônica de Milão, morta em 1494, era uma humilde
camponesa, que não havia recebido instrução humana e nem sabia
sequer ler. A graça do Espírito Santo recebida no crisma foi seu
único professor e lhe revelou os segredos do reino dos céus. As
luzes interiores do Divino Espírito a faziam meditar sem cessar
nos mistérios e nas verdades principais da fé. Tornando-se
religiosa, desejou ler as Sagradas Escrituras, e para isto, passava
as noites aprendendo a ler, sozinha; conseguiu-o, finalmente,
tendo que vencer dificuldades incríveis.
Um dia, num momento de piedoso abandono, queixou-se a Deus
da lentidão de seus progressos.
O Espírito Santo a consolou numa visão: "Não te inquietes, lhe
disse, basta conheceres três cousas — primeiro: a pureza de
coração, que consiste em amar a Deus acima de tudo, e em amar
as criaturas para Ele; segundo: não murmurar nunca e suportar
com paciência os defeitos do próximo; terceiro; ter cada dia um
tempo marcado para meditar sobre a Paixão de Jesus Cristo.
Fiel às lições do Espírito de Deus, Santa Verônica avançou
rapidamente no caminho da perfeição.
ORAÇÃO
Peço-vos, oh! divino Espírito Santo, que me visiteis com vossa
graça e vosso amor e me concedais o dom da Ciência, a fim de que
eu possa conhecer bem as cousas de Deus e, esclarecido por
Vossas santas instruções, andar sem me desviar do caminho de
minha salvação.
L A D A I N H A S E Q U Ê N C I A
Dai-nos Ciência que nos guie
A Jesus, oh! Mestre Senhor,
Nossa razão jamais se alie
Aos erros mil do sedutor.

SEXTO DIA
M e d i t a ç ã o
O dom da Fortaleza comunica à alma uma coragem sobrenatural,
uma energia divina, que a torna capaz de enfrentar as dificuldades,
os sofrimentos, as tentações, os perigos, as tristezas e as
provações de que é cheia a vida do homem nesta terra.
O dom da Fortaleza nos torna capazes de empreender e de agir. É
um movimento sobrenatural que dá à alma um especial controle
sobre os sentidos e a natureza, é a tenacidade no bem.
É o dom que faz as grandes almas, os corações nobres e os
caráteres heroicos.
Agir e sofrer: eis a vida.
Agir para Deus é a fonte da vida sobrenatural, sofrer pelo amor de
Deus é o segredo da perfeição.
É o dom da Fortaleza que sustenta a alma contra os assaltos do
inimigo infernal, contra o espírito do mundo que menospreza a
virtude e rejeita a pobreza, a castidade e a humildade.
Todas as maravilhas de coragem, constância, abnegação,
penitência, e resignação são devidas ao dom da Fortaleza. Se
multidões de almas de sua livre vontade procuraram a cruz e
carregando-a não a acharam demasiado pesada, devem isto ao
dom da Fortaleza; porque todo nosso ser se revolta contra o
sofrimento. Para suportá-lo é preciso uma energia de vontade, um
império sobre si mesmo que não estão na nossa natureza e que só
a graça pode dar.
Está em contradição com o dom da Fortaleza o respeito humano,
unido a uma certa cobardia que se intimida diante do juízo
mundano.
Seus frutos são: a longanimidade, que não se cansa de praticar o
bem, a paciência que suporta todas as provações, e a alegria que é
a primeira recompensa dada pelo Espírito Santo a quem pode
dizer como São Paulo "Combati o bom combate".
RAMALHETE ESPIRITUAL
"Bem-aventurados os que têm fome e sê- de da justiça porque
serão fartos".
EXEMPLO
Na última perseguição do Japão, um japonês dizia à sua mulher, na
presença de seu filhinho de dez anos: "Pobre criança! É muito
pequeno para confessar sua fé e ser martirizado! Tornar-se-á
pagão!"
Ouvindo isto, a criança foi buscar um ferro em brasa e passou-o na
mãozinha. A mãe lh'o arrancou com grandes exclamações.
— Como veem, respondeu a criança, posso também vos acompanhar
no martírio.
Eis as maravilhas que o Espírito Santo opera numa alma de criança!
— Lê-se nos anais da última perseguição do México um fato
comovedor.
Os perseguidores tinham em seu poder um menino piedoso a quem,
à força de maltratos, queriam fazer confessar onde estavam
escondidos o bispo e os padres mexicanos. Porém o pequeno
permanecia calado. Tinham-no pendurado, preso apenas pelos dois
polegares.
Num momento dado, o pequeno mártir declarou ter uma cousa a
dizer. Os malvados algozes sorriam com ar de triunfo, pensando tê-
lo vencido.
Quando o desprenderam, ele deixou cair sacudindo-as, as duas
falanginas partidas pela corda que segurava o corpo e então
apresentou-lhes os dois indicadores para ser suspenso novamente.
Furiosos, os algozes o ligaram sem piedade, e, com um tiro certeiro
no coração, transplantaram esta florzinha para sua verdadeira
pátria: o céu.
ORAÇÃO
Peço-vos, oh! divino Espírito Santo, que me visiteis, com vossa
graça e vosso amor, e me concedais o dom da Força, a fim de que
eu possa vencer os ataques do demônio e todos os perigos que no
mundo se opõem à salvação de minha alma.
LADAINHA SEQUÊNCIA
Na tentação cruel, terrível,
Ah! sustentai o nosso ardor
E que por Vós, Força invencível,
Sempre lutemos com valor.
SÉTIMO DIA
Meditação
O dom de Conselho produz na ordem sobrenatural o que a
prudência faz na ordem natural.
Ensina a julgar os homens e as cousas com o espírito cristão e
mostra-nos a maneira de tratar santamente a todos. Dirige cada
um em particular com uma discrição em que se unem a força e a
suavidade fazendo-o falar ou calar, agir ou esperar, segundo os
tempos, os lugares e as circunstâncias.
O dom do Conselho leva a distinguir entre duas cousas boas e
justas qual é a melhor, a mais elevada, a mais agradável a Deus.
Ao barco duvidoso no mar revolto, é necessário um piloto
esclarecido que conheça a rota segura, por entre rochedos e
abrolhos.
Assim, a alma iluminada com o dom de Conselho discerne os
meios e vê claramente o seu caminho, para o seguir com confiança,
seja árduo embora, estéril ou repugnante.
Não receia o zelo indiscreto que empreende mais do que pode
realizar, ficando assim salva da agitação e da inconstância.
Os mandamentos e os preceitos do Evangelho marcam a fronteira
de nossas obrigações morais, e nos traçam a vereda ordinária da
salvação. Mas, se os Mandamentos bastam para nos livrar da
perdição, não nos libertam suficientemente das perplexidades e
preocupações da vida. Uma regra mais estrita é exigida: é a dos
conselhos evangélicos. Não é obrigatória. Se é apontada para
todos, só para alguns é especialmente proposta.
Há no Evangelho páginas de misteriosa significação que só
penetram aqueles que têm o dom de conselho.
É o tesoiro escondido do Evangelho.
Os frutos deste dom são: a docilidade e a obediência em seguir em
todas as ocasiões os conselhos do Espírito Santo.
R A M A L H E T E E S P I R I T U A L
Bem-aventurados os misericordiosos porque alcançarão
misericórdia.
E X E M P L O
Nada deve se colocar como obstáculo entre nós e o serviço de Deus.
Se Ele nos chama ao completo sacrifício, este sacrifício deve ser feito.
— São Caetano ocupava em Roma uma posição honrável e
lucrativa.
A atmosfera da corte pontifical, com seus esplendores permitidos,
lhe pareceu perigosa; renunciou a tudo, fez-se padre e passou toda
sua vida em obras de caridade, para a salvação das almas.
—Sto. Afonso, quando advogado, se afastou um dia, ligeiramente,
da verdade; sua consciência ficou de tal forma alarmada, que ele
renunciou imediatamente a esta profissão, onde estavam todas as
esperanças do seu futuro.
-—Sta. Rosa era bela, e sua pessoa atraía a atenção. Ela cortou os
cabelos, com o receio de se expor à tentação, e por sua humildade, e
modéstia, encontrou facilidade em prosseguir no caminho da
santidade.
— São Carlos Borromeu vendeu todo seu patrimônio e em um só dia
distribuiu com os pobres o dinheiro.
Não houve pastor na Igreja que trabalhasse tão energicamente, e
que tomasse tão pouco repouso como São Carlos.
Não houve jamais quem fosse tão dedicado para ganhar as almas,
não reservando para si um instante, como ele.
Sempre rodeado de homens, cheio de negócios, ocupado do clero, da
arquidiocese, dos necessitados.
A prece se aliava à sua ação.
ORAÇÃO
Peço-vos, oh! divino Espírito Santo, que me visiteis com vossa graça
e vosso amor, e me concedais o dom de Conselho, a fim de que eu
possa escolher o que é mais conveniente à minha santificação, e
descobrir as ciladas do espírito maligno.
LADAINHA SEQUÊNCIA
Vinde nos dar Vosso Conselho
Que nos ensine a sempre ver
Em Jesus Cristo, nosso espelho,
O que devemos resolver.

OITAVO DIA
Meditação
O dom da Inteligência nos dá a percepção clara, o sentido íntimo das
verdades divinas.
Consiste numa iluminação que nos torna capazes de penetrar
profundamente as verdades sobrenaturais, não de um modo
obscuro, mas, por uma espécie de intuição que vê como
transparentes as palavras e os símbolos.
A alma contempla o objeto de sua fé, como se possuísse um novo
sentido, e com olhos que se abriram para a luz de um mundo mais
elevado.
"Intellectus" vem de "intus legere" que significa penetrar o espírito
da letra.
A alma dotada da inteligência se sente dilatada por esta clareza,
esta luz, que lhe aumenta a fé, a esperança e a caridade.
Sente-se impressionada de um modo novo pela leitura do santo
Evangelho, acha um sentido desconhecido nas palavras do
Salvador, compreende melhor o fim dos Sacramentos, sente-se
comovida pelos ritos profundos da liturgia, e atraída pela vida dos
Santos, que lhe causa grande edificação.
O dom da Inteligência, assim como o da sabedoria, completa a obra
da perfeição, e nos conduz à contemplação.
Esta atração para a vida contemplativa não depende das condições
materiais da existência, e não é o privilegio das almas
enclausuradas. Encontra-se às vezes numa operária, numa
camponesa, numa mãe de família, pois, a graça da contemplação
não é fruto da ciência mas antes da humildade de espirito, e da
pureza de coração.
O fruto do dom da Inteligência é uma fé luminosa.
R A M A L H E T E E S P I R I T U A L
Bem-aventurados os limpos de coração porque verão a Deus.
E X E M P L O
Escreve um missionário da China:
Numa missão, encontrei uma menininha de dez anos, muito bem
instruída da religião, o que nesta idade é muito raro entre os
chineses. Esta criança desejava ardentemente se crismar, eu
hesitava, no entanto, achando-a jovem demais. Querendo me
certificar se sua coragem igualava sua inteligência, disse-lhe:
"Depois que estiveres crismada, que farias se o mandariam te
pusesse na prisão, te interrogasse sobre a doutrina? que
responderias?
— Responderia: sou cristã pela graça de Deus.
— E se ele te mandasse renunciar ao Evangelho, que farias?
— Responderia: Nunca.
— Se ele chamasse o carrasco e te dissesse: Apostasia, ou terás a
cabeça cortada, qual seria tua resposta?
— Eu lhe diria: Corta!
Encantado de vê-la tão bem-disposta e resoluta, não hesitei em
administrar-lhe o sacramento da Confirmação.
ORAÇÃO
Peço-vos, oh! divino Espírito Santo, que me visiteis com vossa graça
e vosso amor e me concedais o dom da Inteligência a fim de que eu
possa entender os mistérios divinos, e pela contemplação das cousas
celestes desapegar meus pensamentos e afetos de todas as vaidades
deste mundo miserável.
LADAINHA SEQUÊNCIA
Divina luz de Inteligência
A nossa mente esclarecei
E com fervor e diligência
Nós seguiremos vossa lei.

NONO DIA
Meditação
O dom da Inteligência nos conduz à Sabedoria, assim como o
conhecimento é o primeiro passo para o amor.
Conhecendo a excelência de uma cousa, desejámo-la.
O Espírito Santo é luz e calor, é amor e Verdade ao mesmo tempo.
O dom da Sabedoria é ligado ao da Inteligência, enquanto ao objeto
que numa é mostrado, e na outra é possuído.
O dom da Sabedoria é bem interpretado pela etimologia da palavra
sapiência: "sapere", saber bem, sentir o gosto, provar as cousas
divinas, estimar o valor das cousas pelo sabor.
O dom da Sabedoria consiste na experiência do coração que possui
o dom divino, e se compraz na sua posse. Com e- feito, a sabedoria é
o amor puro, é santidade, é a última palavra da perfeição, resumidas
neste grito do Salmista "Oh! provai e vede como o Senhor é suave".
O dom da Sabedoria está em nossos corações, possuindo nós a graça
santificante, e cresce, à medida que formos fiéis e dóceis às
inspirações divinas.
Os que têm mais facilidade de adquirir o dom da Sabedoria são os
pobres, cuja condição engendra a simplicidade, amesquinha e
aniquila o orgulho que é o grande obstáculo à nossa união com
Deus.
Depois dos pobres, são as crianças batizadas, pois as suas almas
ainda não foram manchadas, nem seus corações obscurecidos pelo
pecado.
Quando a Sabedoria incriada, o Filho de Deus, veio a este mundo, ela
tocou em muitas cousas com suas mãos divinas: os doentes, os
aflitos, os famintos, os moribundos, as crianças; o pão que benzeu e
dividiu no deserto; a dor e o sofrimento; enfim, as abraçou na Cruz.
Jesus deixou em tudo o que tocou um perfume, uma doçura, que só
percebem aqueles que possuem o dom da Sabedoria.
A Sabedoria é o antegozo da nossa felicidade eterna, é a suprema
perfeição da alma em sua união com Deus.
O fruto deste dom é uma estima singular da sabedoria divina.
RAMALHETE ESPIRITUAL
Bem-aventurados os pacíficos porque serão chamados filhos de
Deus.
EXEMPLO
Santo Antão, abade, cujas austeridades extraordinárias a todos
causavam espanto e admiração, tinha um aspeto singularmente
alegre, de maneira que os estranhos que visitavam a solidão em que
vivia reconheciam-no à primeira vista pelo seu rosto sereno, onde
brilhava o mais puro gozo, e distinguiam-no entre todos os monges.
Isto parece incompreensível ao mundano, que pensam que uma vida
mortificada é penitente é incompatível com uma verdadeira alegria
e gozo do Espírito Santo; vê os espinhos da abnegação, mas não as
suas rosas; experimenta a amargura dos padecimentos, mas não
saboreia a sua doçura; olha para a cruz, mas não vê a unção que o
Espírito de paz nela infunde.
O servo de Deus, Contardo Ferrini, ilustre professor de direito
romano, que na cátedra da universidade italiana, fez resplandecer
ao mesmo tempo a ciência, a nobreza da fé, e a pureza dos
costumes, costumava dizer: — "Eu não posso conceber uma vida
sem oração, um despertar matutino sem o sorriso de Deus, um re-
pouso noturno sem que seja sobre o peito de Cristo".
Cada manhã recitava suas orações e fazia sua meditação; cada
manhã ia à igreja para a "festa dos santos pensamentos", como
dizia. Depois de longas viagens, mal descia do trem, procurava
uma igreja para assistir ao santo sacrifício da Missa e unir-se a
Jesus na comunhão.
E era um leigo e, mais ainda, professar de universidade...
O R A Ç Ã O
Peço-vos, oh! divino Espírito Santo que me visiteis com vossa
graça e vosso amor, e me concedais o dom da Sabedoria, a fim de
que eu possa dirigir minhas ações a Deus, e o possua eternamente
no céu, depois de o ter amado e servido nesta terra
Amem.
L A D A I N H A S E Q U Ê N C I A
Vinde nos dar Sabedoria
Que nos dispensa a salvação
O nosso empenho noite e dia
Seja alcançar a perfeição.
Digitalizado, editado e diagramado
por
Carlos Alberto de França Rebouças Junior
Fortaleza, 11 de março de 2011.