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JEAN

TIROLE
PRÉMIO NOBEL DA
ECONOMIA

ECONOMIA
DO BEM
COMUM
tradução

Rita Carvalho e Guerra & Pedro Carvalho e Guerra

não ficção · economia


ÍNDICE

Agradecimentos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 13
Prefácio . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 15

ECONOMIA E SOCIEDADE

CAPÍTULO 1
Gosta de economia? . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 29
I. O que impede a nossa compreensão da economia . . . . . 29
II. O mercado e os outros modos de gestão da escassez . . . 36
III. Partilhar melhor a economia . . . . . . . . . . . . . 40

CAPÍTULO 2
Os limites morais do mercado . . . . . . . . . . . . . . . 46
I. Limites morais do mercado ou falha do mercado? . . . . 49
II. O não-mercado e o sagrado . . . . . . . . . . . . . . 52
III. O mercado, ameaça para as relações sociais? . . . . . . 59
IV. As desigualdades . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 62

O TRABALHO DO INVESTIGADOR EM ECONOMIA

CAPÍTULO 3
O economista na cidade . . . . . . . . . . . . . . . . . . 75
I. O economista, intelectual público . . . . . . . . . . . . 76
II. Os perigos do envolvimento na cidade . . . . . . . . . 79
III. Uma interacção necessária e algumas salvaguardas . . . 85
IV. Da teoria à política económica . . . . . . . . . . . . 88

índice 7
CAPÍTULO 4
A investigação no dia-a-dia . . . . . . . . . . . . . . . . 90
I. O ir e vir entre teoria e as provas empíricas . . . . . . . . 90
II. O microcosmo da economia universitária . . . . . . . . 101
III. Os economistas: raposas ou ouriços? . . . . . . . . . . 109
IV. O papel da matemática . . . . . . . . . . . . . . . . 113
V. A teoria dos jogos e a teoria da informação . . . . . . . 116
VI. Os contributos metodológicos . . . . . . . . . . . . 123

CAPÍTULO 5
A economia em movimento . . . . . . . . . . . . . . . . 127
I. Um actor nem sempre racional: homo psychologicus . . . . 128
II. Homo socialis . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 140
III. Homo incitatus: os efeitos contraproducentes
das recompensas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 144
IV. Homo juridicus: direito e normas sociais . . . . . . . . . 150
V. Homo darwinus . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 153

O QUADRO INSTITUCIONAL DA ECONOMIA

CAPÍTULO 6
Para um Estado moderno . . . . . . . . . . . . . . . . . 159
I. O mercado tem inúmeras falhas,
que devem ser corrigidas . . . . . . . . . . . . . . . . 160
II. A complementaridade entre mercado e Estado,
e os fundamentos do liberalismo . . . . . . . . . . . . . 165
III. Primazia do político ou das autoridades independentes? . 167
IV. Reformar o Estado . . . . . . . . . . . . . . . . . . 173

CAPÍTULO 7
A empresa, a sua gestão e a sua responsabilidade social . . . . 181
I. Numerosas organizações possíveis… e poucas escolhidas . 182
II. E a responsabilidade social da empresa em tudo isto? . . . 191

8 ECONOMIA DO BEM COMUM · Jean Tirole


OS GRANDES DESAFIOS MACROECONÓMICOS

CAPÍTULO 8
O desafio climático . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 201
I. A questão climática . . . . . . . . . . . . . . . . . . 201
II. As razões da estagnação . . . . . . . . . . . . . . . . 204
III. Negociações que não se encontram à altura dos desafios . 212
IV. Responsabilizar os actores face ao aquecimento global . . 217
V. As desigualdades e a fixação de preço do carbono . . . . . 226
VI. Credibilidade de um acordo internacional . . . . . . . 231
VII. Conclusão: repor as negociações no bom caminho . . . 233

CAPÍTULO 9
Vencer o desemprego . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 235
I. A constatação . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 236
II. Uma análise económica do contrato de trabalho . . . . . 244
III. A incoerência das nossas instituições . . . . . . . . . . 247
IV. O que pode trazer uma reforma e como consegui-la? . . . 254
V. Os outros grandes debates relativos ao emprego . . . . . 258
VI. A urgência . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 263

CAPÍTULO 10
A Europa numa encruzilhada . . . . . . . . . . . . . . . 265
I. A construção europeia: da esperança à dúvida . . . . . . 265
II. As origens da crise do euro . . . . . . . . . . . . . . 267
III. O caso da Grécia: muito rancor de um lado e do outro… 280
IV. Agora, quais as opções da Europa? . . . . . . . . . . . 286

CAPÍTULO 11
Para que serve a finança? . . . . . . . . . . . . . . . . . 292
I. Para que serve a finança? . . . . . . . . . . . . . . . . 292
II. Como transformar produtos úteis em produtos tóxicos? . 294
III. Serão os mercados eficientes? . . . . . . . . . . . . . 302
IV. Mas, na verdade, porque regulamos? . . . . . . . . . . 316

índice 9
CAPÍTULO 12
A crise financeira de 2008 . . . . . . . . . . . . . . . . . 321
I. A crise financeira . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 322
Uma liquidez pletórica e uma bolha imobiliária . . . . . . 323
II. O novo ambiente pós-crise . . . . . . . . . . . . . . 330
III. De quem é a culpa? Os economistas e a
prevenção das crises . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 344

O DESAFIO INDUSTRIAL

CAPÍTULO 13
Política da concorrência e política industrial . . . . . . . . 349
I. Para que serve a concorrência? . . . . . . . . . . . . . 351
II. E a política industrial nisso tudo? . . . . . . . . . . . 359

CAPÍTULO 14
Quando o digital altera a cadeia de valor . . . . . . . . . . 371
I. As plataformas, guardiãs da economia digital . . . . . . . 372
II. Os mercados bilaterais . . . . . . . . . . . . . . . . 376
III. Um modelo económico diferente:
quando as plataformas regulam . . . . . . . . . . . . . 382
IV. Os desafios dos mercados bilaterais
para o direito da concorrência . . . . . . . . . . . . . . 385

CAPÍTULO 15
Economia digital: os desafios sociais . . . . . . . . . . . . 393
I. A confiança . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 394
II. A propriedade dos dados . . . . . . . . . . . . . . . 397
III. A saúde e a solidariedade . . . . . . . . . . . . . . . 400
IV. As novas formas de emprego no século xxi . . . . . . . 405
V. Economia digital e emprego . . . . . . . . . . . . . . 413
VI. A fiscalidade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 416

CAPÍTULO 16
A inovação e a propriedade intelectual . . . . . . . . . . . 420
I. O imperativo da inovação . . . . . . . . . . . . . . . 420
II. A propriedade intelectual . . . . . . . . . . . . . . . 421

10 ECONOMIA DO BEM COMUM · Jean Tirole


III. Gerar a acumulação dos royalties . . . . . . . . . . . 425
IV. As instituições da inovação . . . . . . . . . . . . . . 433
V. O desenvolvimento cooperativo e o programa livre . . . . 437
VI. E muitas outras análises… . . . . . . . . . . . . . . 443

CAPÍTULO 17
A regulação sectorial . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 444
I. Uma reforma quádrupla e a sua racionalidade . . . . . . 445
II. A regulação incentivadora . . . . . . . . . . . . . . . 449
III. Os preços das empresas reguladas . . . . . . . . . . . 454
IV. A regulação do acesso à rede . . . . . . . . . . . . . 459
V. Concorrência e serviço público . . . . . . . . . . . . . 464

índice 11
AGRADECIMENTOS

E ste livro beneficiou de inúmeros conselhos e comentários. Tenho a agra-


decer, em especial, a Frédéric Cherbonnier, Mathias Dewatripont, Augus-
tin Landier, Patrick Rey, Paul Seabright, Nathalie Tirole, Philippe Trainar
e Étienne Wasmer, que leram as versões anteriores, na íntegra ou em parte. Phi-
lippe Aghion, Roland Bénabou, Olivier Blanchard, Christophe Bisière, Paul
Champsaur e Alain Quinet ofereceram igualmente comentários preciosos.
Agradeço ainda ao Professor Renato Gomes, pela releitura cuidadosa e pela
contribuição para a versão portuguesa. Ainda que estes leitores benevolentes
tenham contribuído para a obra, não deverão ser, em caso algum, responsabi-
lizados por eventuais erros ou lacunas.
Como todos os livros, Economia do Bem Comum deve muito ao ambiente
intelectual do autor. No meu caso, as diferentes instituições às quais pertenço,
e em primeiro lugar, claro, a Toulouse School of Economics (TSE) e o Institut
for Advance Study in Toulouse (IAST), o instituto pluridisciplinar fundado em
2011 na Universidade de Toulouse Capitole. Este ambiente intelectual é um tri-
buto a Jean-Jacques Laffont, quinta-essência do economista e incarnação da
procura do bem comum. A influência intelectual dos meus colaboradores, que,
evidentemente, não são igualmente responsáveis pelas deficiências desta obra,
sente-se em quase todas as linhas.
Tive um prazer enorme em trabalhar com a equipa da Presses Universi-
taires de France, e em especial com Monique Labrune, directora editorial, que
acompanhou o processo de elaboração com talento e bom humor.
Por fim, queria agradecer àqueles e àquelas que me encorajaram a escre-
ver esta obra. A começar pelas inúmeras pessoas, por vezes anónimas, que me
fizeram tomar consciência do meu dever de informar acerca da minha disci-
plina, para lá de um círculo de decisores, sem, no entanto, sacrificar o rigor.

agradecimentos 13
PREFÁCIO
O que aconteceu ao bem comum?

D epois do retumbante fracasso económico, cultural, social e ambiental


das economias planeadas, depois da queda do Muro de Berlim e da
mutação económica da China, a economia de mercado tornou-se o
modelo dominante, senão mesmo exclusivo, da organização das nossas socieda-
des. Mesmo no «mundo livre», o poder político perdeu parte da sua influência,
em proveito, simultaneamente, do mercado e dos novos actores. As privatiza-
ções, a abertura à concorrência, a mundialização, o recurso sistemático a leilões
nos concursos públicos restringe o campo da decisão pública. E, como tal, o apa-
relho judiciário e as autoridades independentes de regulação, órgãos não sub-
metidos à primazia da política, tornaram-se actores incontornáveis.
No entanto, a economia de mercado apenas alcançou uma vitória parcial,
dado que não conseguiu conquistar nem os corações, nem os espíritos. A pree-
minência do mercado, no qual apenas uma pequena minoria dos nossos con-
cidadãos confia, é acolhida com uma sensação de fatalismo, nalguns casos
mesclada de indignação. Uma oposição difusa denuncia o triunfo da economia
sobre os valores humanistas; um mundo sem piedade ou compaixão, dedicado
ao interesse privado; a degradação dos laços sociais e dos valores ligados à dig-
nidade humana; o retrocesso da política e do serviço público, ou ainda a ausên-
cia de durabilidade do nosso ambiente. Um slogan popular que não conhece
fronteiras recorda que «o mundo não é um mercado». Estas questões ressoam
com uma acuidade especial no contexto actual, marcado pela crise financeira,
a subida do desemprego e as desigualdades, a inépcia dos nossos dirigentes face
às alterações climáticas, o desmoronamento da construção europeia, a instabi-
lidade geopolítica e a crise dos migrantes que daí resulta, assim como pela
ascensão dos populismos por todo o mundo.
O que aconteceu à procura do bem comum? E em que medida pode a
economia contribuir para a sua realização?
Definir o bem comum, algo que aspiramos para a sociedade, exige, pelo
menos em parte, um juízo de valor. Este juízo de valor pode reflectir as nossas
preferências, o nosso grau de informação, bem como a nossa posição na socie-
dade. Mesmo que cheguemos a acordo quanto ao carácter desejável destes
objectivos, podemos ponderar de modos diferentes a equidade, o poder de com-
pra, o ambiente, o local dedicado ao nosso trabalho ou à nossa vida privada.

prefácio 15
Já para não falar de outras dimensões, como sejam os valores morais, a religião
ou a espiritualidade, sobre as quais os pontos de vista podem divergir profun-
damente.
É, no entanto, possível eliminar uma parte da arbitrariedade inerente ao
exercício da definição de bem comum. A experiência de pensamento que se
segue oferece uma boa introdução ao tema. Imagine que ainda não nasceu e
que não conhece o lugar que lhe será reservado na sociedade: nem os seus genes,
nem o seu enquadramento familiar, social, ético, religioso, nacional… E per-
gunte-se: «Em que sociedade preferiria eu viver, sabendo que tanto poderei ser
homem como mulher, ser dotado de boa ou má saúde, nascer numa família
rica ou pobre, instruída ou pouco culta, ateia ou crente, crescer no centro de
Paris ou em Lozère, querer sentir-me realizado no trabalho ou adoptar um outro
estilo de vida, etc.?» Este modo de se interrogar, de se abstrair da sua posição na
sociedade e dos seus atributos, de se colocar «por trás do véu da ignorância»,
advém de uma longa tradição intelectual, inaugurada em Inglaterra no
século xvii por Thomas Hobbes e John Locke, prosseguido na Europa conti-
nental no século xviii por Emmanuel Kant e Jean-Jacques Rousseau (e o seu
contrato social), e, mais recentemente, renovada nos Estados Unidos pela teo-
ria da justiça do filósofo John Rawls (1971) e a comparação interpessoal do bem-
-estar do economista John Harsanyi (1955).
Para restringir as escolhas e impedir que o viés de uma resposta quimérica
atire a questão para o canto, reformularei a pergunta de modo mais simples:
«Em que tipo de organização da sociedade gostaria de viver?» A questão perti-
nente não é, de facto, saber em que sociedade ideal gostaríamos de viver, por
exemplo, numa sociedade na qual os cidadãos, os trabalhadores, os dirigentes
da esfera económica, os responsáveis políticos, os países privilegiassem espon-
taneamente o interesse geral em detrimento do seu próprio interesse pessoal.
Pois, como veremos neste livro, ainda que o ser humano não esteja constante-
mente em busca do seu interesse material, ignorar incentivos e comportamen-
tos não obstante bem previsíveis, como encontramos, por exemplo, no mito do
homem novo, conduziu, no passado, a formas de organização da sociedade tota-
litárias e depauperantes.
Este livro parte, como tal, do princípio que se segue: quer sejamos políti-
cos, directores de empresas, assalariados, desempregados, trabalhadores inde-
pendentes, altos quadros, agricultores, investigadores, qualquer que seja o nosso
lugar na sociedade, reagimos sempre aos incentivos com os quais somos con-
frontados. A combinação destes incentivos – materiais ou sociais – e das nos-
sas preferências define o comportamento que adoptamos, um comportamento
que pode ir ao encontro do nosso interesse colectivo. É por isso que a procura
do bem comum passa, em grande parte, pela construção de instituições que
visem reconciliar, na medida do possível, o interesse individual e o interesse
geral. Nesta perspectiva, a economia de mercado não é, em nada, uma finali-

16 ECONOMIA DO BEM COMUM · Jean Tirole


dade. Não passa de um instrumento, e ainda por cima um instrumento bas-
tante imperfeito, se tivermos em conta a possível divergência entre o interesse
privado dos indivíduos, dos grupos sociais e das nações, e o interesse geral.
Ainda que seja difícil colocarmo-nos do outro lado do véu da ignorância,
na medida em que somos condicionados pelo local específico que já ocupa-
mos na sociedade1, esta experiência de pensamento permitirá orientar-nos de
um modo bastante mais seguro na direcção de uma plataforma comum. É pos-
sível que eu consuma muita água ou que polua, não por daí retirar um prazer
intrínseco, mas porque isso satisfaz o meu interesse material: produzo mais
legumes, ou economizo os custos do isolamento, ou dispenso a aquisição de
um veículo mais ecológico. E aqueles que sofrem com os meus comportamen-
tos, reprovam-nos. Mas se reflectirmos acerca da organização da sociedade,
poderemos chegar a acordo quanto a saber se o meu comportamento é desejá-
vel do ponto de vista de alguém que não sabe se será beneficiário ou vítima,
ou seja, se o desagrado do segundo ultrapassa os ganhos do primeiro. O inte-
resse individual e o interesse geral divergem a partir do momento em que o
meu livre-arbítrio seja contrário aos interesses de outrem, mas convergem,
em parte, por trás do véu da ignorância.
Outro benefício da ferramenta de raciocínio que representa a abstracção
do véu da ignorância é o de os direitos adquirirem um cariz racional e não
serem simples slogans: o direito à saúde é um seguro contra a fatalidade de nas-
cer com maus genes, a igualdade de oportunidades no que concerne à educa-
ção deve proteger-nos das diferenças introduzidas pelo ambiente em que
nascemos e crescemos, os direitos do Homem e a liberdade servem de protec-
ção contra a arbitrariedade dos governos, etc. Os direitos não são mais que con-
ceitos absolutos, com os quais a sociedade pode concordar ou não, o que os
torna ainda mais funcionais, pois na prática podem ser outorgados a diferen-
tes níveis ou entrar em conflito uns com os outros (por exemplo, a liberdade
de uns termina onde começa a dos outros).
A procura do bem comum toma por critério o nosso bem-estar do outro
lado do véu da ignorância. Não conjectura soluções e não tem outro marcador
que não seja o bem-estar colectivo. Admite a utilização privada para o bem-
-estar da pessoa2, mas não o abuso dessa utilização às custas dos outros. Tome-

1 Para nos limitarmos ao exemplo francês, seria necessário incarnar-nos em cada um dos nossos
cidadãos com uma probabilidade de um sobre 66 milhões… A crítica que nos dirigem as outras
pessoas, que têm determinações diferentes, pode ajudar-nos a melhor nos colocarmos do outro
lado do véu da ignorância. E, idealmente, não deveremos partir do princípio de seremos franceses,
mais do que cidadãos de qualquer outro país. O exercício torna-se ainda mais complexo quando
incluímos gerações diferentes, algo, no entanto, indispensável à reflexão acerca de questões práticas
como a da dívida pública ou as nossas políticas contra as alterações climáticas.
2 O que remete para a crítica dirigida por Aristóteles à noção de bem comum desenvolvida por

Platão. Aristóteles sublinha que a comunhão de bens na sociedade ideal imaginada por Platão
pode colocar tantos problemas quantos os que resolve.

prefácio 17
mos o exemplo dos bens comuns, esses bens que, por trás do véu da ignorância,
devem por questões de equidade pertencer à comunidade: o planeta, a água,
o ar, a biodiversidade, o património, a beleza da paisagem… A sua pertença à
comunidade não impede que, in fine, esses bens sejam consumidos pelos indi-
víduos. Por todos, na condição de que o meu consumo não impeça o vosso (é
o caso do conhecimento, da iluminação da via pública, da defesa nacional ou
do ar1). Por outro lado, se o bem estiver disponível em quantidade limitada ou
se a colectividade pretender restringir a sua utilização (como é o caso das emis-
sões de dióxido de carbono), o uso é necessariamente privatizado, de uma
maneira ou de outra. De tal modo que a aplicação de uma tarifa sobre a água,
o dióxido de carbono ou o espectro hertziano privatiza o seu consumo, outor-
gando aos agentes económicos um acesso privativo desde que paguem à comu-
nidade o preço acordado. No entanto, é precisamente a procura do bem comum
que motiva esse uso privado: o poder público pretende evitar que a água seja
desperdiçada, pretende responsabilizar os agentes económicos pela gravidade
das suas emissões, e opta por alocar um recurso raro – o espectro hertziano –
aos operadores que dele farão um bom uso.
Estas observações antecipam, em grande parte, a resposta à segunda per-
gunta, o contributo da economia à procura do bem comum. A economia, como
as outras ciências humanas e sociais, não tem por objecto substituir-se à socie-
dade na definição do bem comum. Mas pode dar o seu contributo de duas
maneiras. Por um lado, pode orientar o debate no sentido dos objectivos incar-
nados na noção do bem comum, distinguindo-os dos instrumentos que podem
contribuir para a sua realização. Pois, muitas vezes, como veremos, estes instru-
mentos, quer se trate de uma instituição (o mercado, por exemplo), de um
«direito a» ou de uma política económica, adquirem vida própria e acabam por
perder de vista a sua finalidade, sendo contrários ao bem comum que, em pri-
meiro lugar, os justificava. Por outro lado, e acima de tudo, a economia, tomando
o bem comum como um dado adquirido, desenvolve ferramentas que para ele
contribuem.
A economia não está nem ao serviço da propriedade privada e dos inte-
resses individuais, nem ao serviço dos que pretendem utilizar o Estado para
impor os seus valores ou fazer prevalecer os seus interesses. Ela recusa que tudo
seja mercado, como recusa que tudo seja Estado. A economia está ao serviço do
bem comum; tem por objectivo tornar o mundo um lugar melhor. Nesse sen-
tido, tem como tarefa identificar as instituições e as políticas que promoverão
o interesse geral. Na sua procura do bem-estar da comunidade, engloba as

1 Desde que não polua esse ar, claro está. Estes bens, em relação aos quais a minha utilização não
é rival da vossa, chamam-se, em economia, «bens públicos» (na definição de «bem público»,
acrescentamos, por vezes, a impossibilidade de excluir certos utilizadores: um evento desportivo
na televisão, um espaço comunitário, um curso online ou uma invenção patenteada são bens não
rivais, mas – ao contrário do ar – o seu acesso poderá ser restringido).

18 ECONOMIA DO BEM COMUM · Jean Tirole


Economia e
sociedade
CAPÍTULO 1
Gosta de economia?

C aso não seja economista de formação ou de profissão, é provável que


se sinta intrigado pela economia (de outro modo não estaria a folhear
estas páginas), mas daí a gostar dela… Acha, sem dúvida, o discurso
económico pouco claro e pouco intuitivo, ou até mesmo contra-intuitivo. Gosta-
ria, neste capítulo, de explicar a razão de ser assim, descrevendo alguns preconcei-
tos cognitivos que, por vezes, nos pregam partidas quando abordamos as questões
económicas, e propondo pistas para uma maior difusão da cultura económica.
Pois a economia, na medida em que nos diz respeito a todos diariamente,
não é apanágio dos especialistas; é acessível a todos, desde que sejamos capazes
de ver para lá das aparências. E é apaixonante, uma vez identificados e ultrapas-
sados os primeiros obstáculos.

I. O que impede a nossa compreensão da economia


Os psicólogos e os filósofos sempre se debruçaram sobre os motivos subja-
centes à formação das nossas crenças. Utilizamos vários preconceitos cognitivos
(o que explica, sem dúvida, a sua existência), mas somos, ao mesmo tempo, preju-
dicados por eles. Voltaremos a encontrá-los ao longo de toda a obra, constatando
o seu impacto na nossa compreensão dos fenómenos económicos e na nossa visão
da sociedade. Em suma, existe o que vemos, ou queremos ver, e a realidade.

Acreditamos no que queremos acreditar, vemos o que queremos ver

Acreditamos frequentemente no que queremos acreditar, não no que a


evidência nos levaria a acreditar. Tal como o sublinharam pensadores tão diver-
sos quanto Platão, Adam Smith ou o grande psicólogo americano do século xix
William James, a formação e a revisão das nossas crenças também servem para
fortalecer a imagem que queremos ter de nós próprios ou do mundo que nos
rodeia. E essas crenças, agregadas ao nível de um país, determinam as políticas
económicas, sociais, científicas ou geopolíticas.
Não só nos sujeitamos a preconceitos cognitivos como, além disso e com
bastante frequência, os procuramos. Interpretamos os factos pelo prisma das
nossas crenças, lemos os jornais e procuramos a companhia de pessoas que

economia e sociedade 29
reforcem as nossas crenças e, assim, insistimos nessas crenças, certas ou erradas.
Ao confrontar alguns indivíduos com provas científicas do factor antrópico (ou
seja, ligado à influência do Homem) no aquecimento global, Dan Kahan, pro-
fessor de direito da Universidade de Yale, afirmou que os americanos que votam
no partido democrata ficam ainda mais convencidos da necessidade de agir
contra o aquecimento global enquanto, confrontados com os mesmos dados,
vários republicanos viam fortalecida a sua postura céptica em relação às altera-
ções climáticas1. Ainda mais espantoso é o facto de não se tratar de uma ques-
tão de instrução ou inteligência: estatisticamente, a recusa em aceitar as
evidências encontra-se, pelo menos, tão enraizada nos republicanos que dis-
põem de uma formação académica superior como nos republicanos menos ins-
truídos! Ninguém está a salvo deste fenómeno.
A vontade de se tranquilizar quanto ao futuro também desempenha um
papel importante na compreensão dos fenómenos económicos (e, em termos
mais gerais, dos fenómenos científicos). Não queremos ouvir que a luta contra
o aquecimento global será dispendiosa. Donde a popularidade, no discurso
político, da noção de crescimento verde, que sugere, através da sua denomina-
ção, que uma política ambiental seria «benéfica a todos os níveis». Mas se é
assim tão pouco dispendiosa, porque não foi já posta em prática?
Tal como queremos acreditar que os acidentes e as doenças só acontecem
aos outros, e não a nós nem aos que nos são próximos (algo que pode induzir
comportamentos nefastos – uma redução do cuidado ao volante ou da preven-
ção médica –, ainda que nem tudo sejam inconvenientes, pois a despreocupa-
ção neste domínio também confere benefícios em termos de qualidade de vida),
não queremos pensar na possibilidade de a exposição da dívida pública ou do
nosso sistema de segurança social poder pôr em causa a perenidade do nosso
sistema social, ou então procuramos acreditar que será «outro qualquer» a pagar.
Sonhamos todos com um outro mundo, no qual os actores não precisa-
riam do incentivo da lei para se comportarem virtuosamente, não poluiriam
ou pagariam os seus impostos e conduziriam prudentemente, mesmo na ausên-
cia de agentes da autoridade. É por isso que os realizadores (e não apenas os
cineastas de Hollywood) concebem finais condizentes com as nossas expecta-
tivas; esses happy end confortam-nos na ideia de que vivemos num mundo justo,
em que a virtude vence o vício (algo que o sociólogo Melvin Lerner classificou
como «acreditar num mundo justo» – «belief in a just world»2).

1 No seu artigo «Ideology, Motivated Reasoning, and Cognitive Reflection», Judgment and Decision Making,

2013, n.º 8, pp. 407-424. Mais precisamente, Kahan mostra que as capacidades de cálculo e de análise reflexiva
não aumentam a qualidade da revisão das crenças sobre o factor antrópico. Recorde-se que, em 2010, apenas
38 por cento dos republicanos aceitavam a ideia de um aquecimento global que tivera o seu início na era
pré-industrial, e apenas 18 por cento via aí um factor antrópico (ou seja, uma causa humana).
2 No seu livro Belief in a Just World. A Fundamental Delusion, Nova Iorque, Plenum Press, 1982.

30 ECONOMIA DO BEM COMUM · Jean Tirole


Enquanto os partidos populistas, tanto os de direita como os de esquerda,
navegam nesta visão de uma economia sem restrições, as mensagens que esbo-
roam a imagem deste conto de fadas e de Ursinhos Carinhosos são vistas,
na melhor das hipóteses, como preocupantes, e, na pior, como oriundas de
defensores de determinadas crenças, conforme os casos, fanáticos do aqueci-
mento global, ideólogos da austeridade ou inimigos do género humano. Essa
é uma das razões pelas quais a ciência económica é, frequentemente, apelidada
de ciência lúgubre (dismal science).

O que vemos e o que não vemos

– Primeiras impressões e heurísticas


O ensino da economia assenta, frequentemente, na teoria da escolha racio-
nal. Para descrever o comportamento de um agente económico, parte de uma
descrição do seu objectivo. Quer o indivíduo seja egoísta ou altruísta, ávido de
ganhos ou de reconhecimento social, quer seja impelido por qualquer outra
ambição, seja qual for o caso, ele age, supostamente, no seu melhor interesse. Eis
uma hipótese, por vezes, demasiado forte, e não só por o indivíduo nem sempre
dispor da informação necessária para fazer a escolha acertada. Vítima dos pre-
conceitos cognitivos, é ele susceptível de se enganar quando avalia o modo de
atingir o seu objectivo. Esses preconceitos de raciocínio ou de percepção são mui-
tos. Não invalidam a teoria da escolha racional como definidora das escolhas nor-
mativas (ou seja, escolhas que o indivíduo deveria fazer para agir no seu melhor
interesse), mas explicam porque não realizamos necessariamente essas escolhas.
Fazemos uso das «heurísticas», tão caras ao psicólogo Daniel Kahneman1,
prémio Nobel de Economia em 2002; ou seja, modos de raciocínio rápido que
fornecem um esboço de resposta às nossas questões. Essas heurísticas são-nos
frequentemente muito úteis, pois permitem que decidamos de maneira rápida
(quando nos encontramos cara-a-cara com um tigre, nem sempre dispomos do
tempo necessário para calcular uma resposta ideal…), mas também podem
revelar-se enganadoras. Podem ter como vector a emoção, que, embora por vezes
possa ser um guia fiável, é, na maioria das vezes, muito pouco sensata.
Vejamos um exemplo clássico de heurística: o que nos vem à memória
quando nos encontramos em situação de decidir ou, simplesmente, de avaliar.
«O telefone que toca sempre quando estamos ocupados ou quando estamos no
duche» é, evidentemente, uma partida que nos prega a nossa memória; recor-
damo-nos muito melhor das situações em que praguejámos porque a nossa

1 Daniel Kahneman, Système 1/Système 2. Les deux vitesses de la pensée, Paris, Flammarion, «Essais»,
2012. Ver também os seus trabalhos com Amos Tversky, em particular a sua obra com Paul Slovic,
Judgment Under Uncertainty. Heuristics and Biases, Nova Iorque, Cambridge University Press, 1982.
Consultar ainda, para um ponto de vista diferente acerca da heurística, Gerd Gigenrenzer, Simple
Heuristics That Make Us Smart, Oxford, Oxford University Press, 1999.

economia e sociedade 31
actividade foi interrompida, algo que permanece gravado na nossa memória,
do que dos casos em que as chamadas telefónicas não provocaram qualquer
incómodo. Do mesmo modo, todos receamos os acidentes de aviação e os aten-
tados, pois têm, frequentemente, uma abundante cobertura mediática e esque-
cemo-nos de que os acidentes de viação e os homicídios «vulgares» matam
infinitamente mais do que essas circunstâncias felizmente raras. Por exemplo,
desde o 11 de Setembro de 2001, ocorreram nos Estados Unidos 200 000 homi-
cídios, dos quais apenas 50 foram cometidos por terroristas islâmicos america-
nos1; tal não impede que os actos terroristas fiquem gravados nas nossas mentes.
A principal conclusão dos trabalhos de Kahneman e de Tversky é a de que
estas heurísticas nos induzem, frequentemente, em erro. Os dois psicólogos ofe-
recem vários exemplos deste fenómeno, mas um deles é particularmente escla-
recedor: os alunos de Medicina da Universidade de Harvard cometem erros
consideráveis2 quando se trata de calcular as probabilidades de desenvolver um
cancro à luz de determinados sintomas. No entanto, estamos perante os melho-
res alunos americanos. Uma vez mais, voltamos a encontrar um exemplo de dis-
torção de crenças que não é corrigido por um intelecto muito brilhante ou um
nível de instrução elevado3.
Do mesmo modo em economia, as primeiras impressões, a atenção con-
centrada no que parece ser mais evidente, também nos prega partidas. Obser-
vamos o efeito directo de uma política económica, facilmente compreensível,
mas deixamo-nos ficar por aí. A maioria das vezes, não temos consciência dos
fenómenos de estímulo, de substituição ou de relação intrínseca no funciona-
mento dos mercados; não vislumbramos os problemas na sua globalidade.
Porém, as políticas têm efeitos secundários que podem facilmente transformar
em nociva uma política bem-intencionada.
Encontraremos inúmeros exemplos deste fenómeno ao longo da obra,
mas vejamos desde já um exemplo4 intencionalmente provocador. Se escolho
este exemplo é porque ele permite perceber, de imediato, qual o preconceito
cognitivo que pode levar a uma má compreensão do efeito das decisões de polí-

1 Números recolhidos pelo sociólogo da universidade da Carolina do Norte Charles Kurzman,

citados por Simon Kuper no Financial Times de 21 de Novembro de 2015. Obviamente, este valor
exclui as vítimas dos atentados de 11 de Setembro, mas dá uma ideia do problema da percepção.
Kurzman também viria a declarar ao Huffington Post, em 17 de Dezembro de 2015: «Este ano,
um americano muçulmano por cada milhão foi morto por outros americanos devido ao ódio pela
sua fé, ao passo que, assassinados por militantes muçulmanos, o número é de um por cada
17 milhões.»
2 Neste exemplo, metade dos alunos atribuiu a probabilidade de 95 por cento ao desenvolvimento

de uma doença, quando a probabilidade real não superava os 2 por cento. Ver o capítulo 5 para
uma descrição desta experiência.
3 Nos Estados Unidos, não se entra numa Faculdade de Medicina directamente após a escola

secundária, mas após quatro anos de estudos universitários noutras áreas.


4 Estudado por Michael Kremer e Charles Morcom, em «Elephants», American Economic Review,

2000, vol. 90, n.º 1, pp. 212-234.

32 ECONOMIA DO BEM COMUM · Jean Tirole


ticas públicas. Suponhamos que uma ONG confisca o marfim de certos trafi-
cantes. Essa ONG pode optar entre destruí-lo de imediato ou, pelo contrário,
vendê-lo discretamente no mercado. Instados a reagir a quente, uma imensa
maioria dos leitores veria na segunda hipótese um comportamento absoluta-
mente repreensível. A minha reacção espontânea não teria sido diferente. Mas
detenhamo-nos neste exemplo.
Para além da receita recolhida pela ONG, que poderia assim servir a sua
nobre causa, conferindo-lhe mais meios para limitar o tráfico (capacidades de
detecção e de investigação acrescidas, veículos suplementares), a venda do mar-
fim teria uma consequência imediata: contribuiria para a diminuição dos pre-
ços do marfim (um bocadinho, caso fosse vendido pouco marfim; muito mais,
caso fosse vendido muito1). Os traficantes são como muitos outros indivíduos
racionais: pesam os lucros monetários da sua actividade ilícita e os riscos de
prisão ou de confronto com as forças da ordem que possam encontrar; uma
redução nos preços teria como consequência, no limite, desencorajar alguns
deles de matarem mais elefantes. Imoral? Talvez, pois poderia dar-se o caso de
a venda de marfim por parte de uma ONG, organização vista como respeitá-
vel, legitimar o comércio aos olhos de compradores que se sentiriam, de outro
modo, um pouco culpados pelo seu interesse no marfim. Mas somos, no mínimo,
obrigados a pensar duas vezes antes de condenar o comportamento da ONG
em questão. Tanto mais que nada impede, por outro lado, o poder público de
exercer as suas funções soberanas naturais: perseguir os caçadores furtivos e
vendedores de marfim ou de cornos de rinoceronte e informar acerca das nor-
mas de comportamento com o intuito de as alterar.
Este cenário fictício permite compreender uma das razões fundamentais
para o falhanço do protocolo de Quioto que, em 1997, prometia ser uma etapa
decisiva na luta contra o aquecimento global. Expliquemo-nos. Os efeitos de
transição no caso do meio ambiente são apelidados, em jargão económico,
«problema das fugas». Assim se designa o mecanismo pelo qual a luta contra
as emissões de gases com efeito de estufa, numa dada região do globo, pode
não ter qualquer efeito ou um efeito reduzido na poluição mundial. Suponha-
mos, por exemplo, que a França reduz o consumo de energias fósseis (gasóleo,
carvão…); este esforço é louvável e, no entanto, os especialistas estão de acordo
ao afirmarem que serão necessários muitos mais esforços por parte de um con-
junto de países, de modo a limitar o aumento das temperaturas a um nível
razoável (1,5 a 2 °C); entretanto, quando economizamos uma tonelada de car-
vão ou um barril de gasolina, fazemos baixar o preço do carvão ou do petró-
leo e, deste modo, incitamos outros a consumirem ainda mais noutras partes
do mundo.

1 O que conta para o raciocínio é saber se a acção de venda vai no sentido certo, independentemente

do seu nível e, como tal, da dimensão do seu impacto.

economia e sociedade 33
Do mesmo modo, se a Europa impuser às empresas de um sector exposto
à concorrência internacional a factura pelas suas emissões de gases com efeito
de estufa, as produções emissoras de gases com efeito de estufa neste sector ten-
derão a ser deslocalizadas para países pouco preocupados com as suas emissões,
o que compensará, em parte ou na totalidade, a diminuição das emissões de
gases com efeito de estufa na Europa, gerando um efeito ecológico muito fraco.
Em matéria económica, o inferno está cheio de boas intenções. Qualquer
solução séria para o problema do aquecimento global não poderá ser senão
mundial.

– O preconceito da vítima identificável


A nossa empatia é, naturalmente, dirigida àqueles que nos são muito pró-
ximos geográfica, étnica e culturalmente. A nossa inclinação natural, ligada a
causas evolucionistas1, consiste em sentir mais compaixão por pessoas em afli-
ção económica que pertençam à nossa comunidade do que por crianças a mor-
rerem à fome em África, ainda que intelectualmente reconheçamos que estas
últimas necessitam muito mais da nossa ajuda. De um modo mais geral, senti-
mos uma maior empatia quando nos identificamos com a vítima; e para nos
identificarmos com uma vítima, o facto de esta ser identificável ajuda. Os psi-
cólogos estudam desde há muito esta tendência transversal de conferirmos
maior importância a pessoas a quem podemos atribuir um rosto do que a pes-
soas que sejam anónimas2. O preconceito da vítima identificável, por humano
que seja, afecta as políticas públicas; como diz o adágio (muitas vezes atribuído
a Joseph Estaline, mas de origem controversa), «a morte de um homem é uma
tragédia. A morte de um milhão de homens é uma estatística.» Deste modo,
a perturbadora fotografia da criança síria de três anos encontrada morta numa
praia turca obriga-nos a tomar consciência de um fenómeno que gostaríamos
de reprimir. Teve um impacto muito maior na tomada de consciência dos euro-
peus do que as estatísticas dos milhares de migrantes que se tinham afogado
antes no Mediterrâneo. A fotografia de Aylan está para a imigração rumo à
Europa como a fotografia da pequena vietnamita Kim Phúc, queimada pelo
napalm, a correr nua por uma estrada, esteve para a guerra do Vietname, em 1972.
Uma vítima identificável marca muito mais os espíritos do que milhares de víti-
mas anónimas. Do mesmo modo, uma campanha publicitária contra a condu-

1 Historicamente, a nossa sobrevivência dependeu sempre de uma forte norma de reciprocidade


no seio de um grupo social restrito. Uma das novidades da história recente (em termos de evolução)
consiste na aprendizagem de interacções pacíficas com populações que nos são estranhas. Ver o
livro de Paul Seabright, La Société des inconnus. Histoire naturelle de la collectivité humaine.
2 O psicólogo americano Paul Slovic mostrou como a famosa imagem de uma só criança faminta

do Mali pode gerar uma onda de generosidade muito superior à suscitada pelas estatísticas da fome,
nomeadamente os milhões de crianças que sofrem de subnutrição. Esta diferença de reacção não
faz, evidentemente, sentido, mas mostra bem como as nossas percepções e emoções afectam os
nossos comportamentos.

34 ECONOMIA DO BEM COMUM · Jean Tirole


ção sob o efeito do álcool tem melhor efeito quando mostra um passageiro a
ser projectado contra um pára-brisas do que quando anuncia o número anual
de vítimas (uma estatística muito mais rica em informações acerca da ampli-
tude do problema).
O preconceito da vítima identificável também nos prega algumas parti-
das quando se trata de políticas de emprego. Os meios de comunicação social
fazem a cobertura do combate dos trabalhadores com contratos sem termo
prestes a perder o seu emprego, e do seu drama, tanto mais real quanto vivem
num país onde têm poucas hipóteses de encontrar outro contrato sem termo;
estas vítimas têm rosto. Aqueles e aquelas, em número muito maior, que se
arrastam entre períodos de desemprego e contratos a termo certo, não têm
rosto; não passam de estatísticas. E, no entanto, como veremos no capítulo 9,
são as vítimas de instituições, nomeadamente das criadas para proteger os con-
tratos sem termo, que levam as empresas a preferir os empregos precários e os
contratos financiados pelo erário púbico à criação de empregos estáveis. Como
se pode gastar tanto dinheiro do erário público e das contribuições sociais, pre-
judicando a competitividade das empresas e, consequentemente, o emprego;
ou sacrificando o dinheiro que poderia ter sido usado na educação ou na saúde,
para chegar a um resultado tão mau? A resposta advém, em parte, do facto de
pensarmos nos planos de despedimento, mas esquecermos, nesse momento,
os excluídos do mercado de trabalho, quando estes não são senão as duas faces
da mesma moeda.
O contraste entre a economia e a medicina é, neste aspecto, marcante:
na opinião pública, ao contrário da «ciência lúgubre», a medicina é – com jus-
tiça – vista como uma profissão dedicada ao bem-estar das pessoas (a expres-
são inglesa «caring profession» é particularmente adequada neste contexto). E,
no entanto, o objecto da economia é semelhante ao da medicina: o econo-
mista, tal como o oncologista, diagnostica e propõe, se necessário for, o melhor
tratamento tendo em conta o estado (obrigatoriamente imperfeito) dos seus
conhecimentos ou recomenda a ausência de tratamento, se o mesmo não for
necessário.
A razão deste contraste é simples. Em medicina, as vítimas dos efeitos
secundários são as mesmas que fazem o tratamento (excepto no domínio da
epidemiologia, tendo em conta as consequências ligadas à resistência aos anti-
bióticos ou à falta de vacinação); ao médico basta-lhe manter-se fiel ao jura-
mento de Hipócrates e recomendar o que ele acredita ser no melhor interesse
do seu paciente. Em economia, as vítimas dos efeitos secundários são, frequen-
temente, pessoas diferentes daquelas a quem o tratamento se aplica, como o
exemplo do mercado de trabalho muito bem ilustra. O economista obriga-se a
pensar também nas vítimas invisíveis, permitindo, deste modo, ser acusado de
insensibilidade ao sofrimento das vítimas visíveis.

economia e sociedade 35

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