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IDEALIZAÇÃO

Equipe Itaú Mulher Empreendedora

THE FACTORY
Publisher
Adriano Silva

Editor
Fernanda Cury

Editor Assistente
Helaine Martins

Diretor de Arte/Capa
Rodrigo Maroja

Diagramação
Fernando Filho

Direção Fotográfica
Renato Pizzutto
SUMÁRIO
Prefácio...................................................................................................................................................................... 08
Introdução................................................................................................................................................................... 10

Capítulo 1 - Dando a volta por cima


Maria José de Lima........................................................................................................................................................... 16
Fatima Casarini...................................................................................................................................................................... 22
Adriana Barbosa...................................................................................................................................................................28
Rosana Silva..............................................................................................................................................................................34
Vanessa Berrouiguet.......................................................................................................................................................40

Capítulo 2 - Nasce uma mãe, nasce uma empresa


Adriana Fernandes............................................................................................................................................................48
Cristiane Carvalho.............................................................................................................................................................54
Stéphanie Habrich.............................................................................................................................................................60
Flávia Pacheco e Manuela Borges.....................................................................................................................66
Dani Junco...................................................................................................................................................................................72

Capítulo 3 - Meu negócio é gerar impacto


Natália Inês da Costa......................................................................................................................................................80
Maibe Marocollo...................................................................................................................................................................86
Milena Curado.........................................................................................................................................................................92
Débora Rabelo.........................................................................................................................................................................98
Bia Santos................................................................................................................................................................................104

Capítulo 4 - Diversidade e inclusão que enriquecem


Marioli Oliveira e Amanda Momente........................................................................................................112
Alexya Salvador................................................................................................................................................................118
Michelle Fernandes.......................................................................................................................................................124
Priscila Vaiciunas..............................................................................................................................................................130
Elizandra Cerqueira......................................................................................................................................................136

Capítulo 5 - Inovação à toda prova


Bianca Laufer.......................................................................................................................................................................144
Tatiana Pimenta...............................................................................................................................................................150
Livia Cunha.............................................................................................................................................................................156
Ana Paula Prati...................................................................................................................................................................162
Paula Pedroza......................................................................................................................................................................168
PREFÁCIO

N unca se falou tanto em empoderamento feminino.


(Que bom.) E nunca se falou tanto em empreende-
dorismo feminino. (Melhor ainda.) De fato, empreender
tem se mostrado um caminho eficiente para a ampliação e
para o fortalecimento do papel e do espaço da mulher em
sociedade.

Estamos falando da igualdade de gênero – também nos


negócios. Estamos falando em garantir às mulheres as
mesmas oportunidades para o seu desenvolvimento pro-
fissional e para a realização dos seus sonhos, por meio da
construção de suas empresas.

Nos últimos anos tenho me dedicado ao fortalecimen-


to do empreendedorismo feminino. Tenho acompanhado
milhares de histórias de mulheres que conquistaram seu
espaço e construíram sua autonomia trazendo ao mundo
uma nova oferta de valor com as empresas que criaram.

Tenho observado também, com orgulho, mulheres se


engajando, com seus negócios, em causas como a diversi-
dade ou a inclusão. Isso me motiva, porque são mulheres
que não querem apenas crescer em faturamento e margem
de lucro – elas também querem transformar o seu bairro, a
sua comunidade, o seu país e, por que não, o mundo, num
lugar melhor. E o melhor, esse processo inspira tantas ou-
tras mulheres a seguirem o mesmo caminho.

Acredito que belas histórias mereçam e devam ser com-


partilhadas. É por isso que me sinto tão contemplada com
Somos Empreendedoras. Todas as 25 personagens des-
te livro são transformadoras. Cada uma vem contribuindo,
seja gerando empregos e movimentando a economia, seja
defendendo a diversidade ou estimulando a sustentabili-
dade, seja desenvolvendo produtos ou serviços inovadores
para o mercado, para mudar a realidade ao seu redor e fa-
zer do mundo um lugar melhor.

O programa Itaú Mulher Empreendedora junto à


Rede Mulher Empreendedora é um exemplo de gran-
de parceria, temos contribuído para o desenvolvimento dos
negócios e empresas lideradas por mulheres. Ao completar
5 anos, o programa Itaú Mulher Empreendedora mos-
tra nas 25 histórias contadas neste livro o quanto fomos
capazes. Do quanto representamos muito mais do que 25.
Do quanto somos empreendedoras!

Ana Fontes
Fundadora da Rede Mulher Empreendedora
INTRODUÇÃO

P ara você, o que significa empreender? Para mim,


empreender é muito mais do que abrir um negó-
cio. É olhar ao redor e identificar necessidades. É ser
capaz de transformar essas necessidades em oportu-
nidades. É traçar um caminho que envolve disciplina,
criatividade e muito planejamento.

Mas quando se trata do empreendedorismo femi-


nino, esse cenário ganha tons mais acentuados. É que
ao empreender, a mulher enfrenta os mesmos desa-
fios que os homens, mas ainda encara muitos outros.
Discriminação e a necessidade de se desdobrar para
atender às necessidades da família e da empresa são
apenas alguns exemplos dos obstáculos que elas en-
frentam no dia a dia.

Nesses 5 anos do programa Itaú Mulher Em-


preendedora temos acompanhado e apoiado mu-
lheres que, através de seus negócios, têm superado
preconceitos e barreiras, e transformado não só a sua
realidade, mas também a vida das pessoas no seu en-
torno. Elas investem na saúde e na educação da fa-
mília e geram empregos, por exemplo. Veja quantas
e quantas vidas são impactadas por apenas um ne-
gócio! E essas mulheres fazem tudo isso com garra,
coragem, persistência e muita criatividade.

Acredito que as histórias dessas mulheres precisam


e merecem ser contadas, para que sirvam de estímulo
e inspiração a tantas outras. Foi com esse propósito
que nasceu o livro Somos Empreendedoras. Em
cada uma de suas páginas queremos celebrar todas
as empreendedoras que, à sua maneira, desenvolvem,
transformam suas habilidades e contextos de vida em
oportunidades para criar negócios e prosperar.
Confesso que não foi nada fácil selecionar as
25 empreendedoras que compõem o livro. Quan-
tas histórias lindas e emocionantes tínhamos em
mãos. Para organizar os depoimentos, dividimos
o livro em cinco capítulos de forma a contemplar
as principais motivações que levam as mulheres a
empreender. Assim, em “Dando a volta por cima”,
você poderá ler depoimentos de mulheres que vi-
ram no empreendedorismo a oportunidade para
superar dificuldades e retomar suas vidas com mais
segurança e autonomia. No capítulo “Nasce uma
mãe, nasce uma empresa”, empreendedoras que
encontraram na maternidade a razão para abrir
seu próprio negócio. Em “Meu negócio é gerar im-
pacto” você poderá ler histórias de mulheres que
enxergaram na geração de impacto um propósito
para empreender. Já no capítulo “Diversidade que
enriquece”, histórias de empreendedoras que atra-
vés de suas empresas romperam com estereótipos e
preconceitos, tornando, à sua maneira, a sociedade
mais igualitária e justa. Por fim, no capítulo “Inova-
ção a toda prova”, os depoimentos de empreende-
doras que solucionaram problemas através de suas
empresas disruptivas e inovadoras, e provam que mu-
lheres são boas na tecnologia, sim.

Com Somos Empreendedoras queremos mos-


trar como mulheres criativas, visionárias e corajosas
podem construir negócios transformadores, nos mais
diferentes segmentos do mercado. Aqui não publica-
mos apenas 25 depoimentos. A Maria José, a Elizan-
dra, a Vanessa e tantas outras participantes do livro
representam cada empreendedora de norte a sul do
Brasil, mulheres que estão diariamente à frente de
seus negócios, que ousam, se arriscam, caem, reco-
meçam mas nunca desistem de seus sonhos. É a cada
uma delas que dedicamos esse livro.

Por fim, espero que Somos Empreendedoras


possa inspirar todas as pessoas, homens e mulheres,
que buscam um mundo mais igualitário e com mais
oportunidades de liderança. Boa leitura!

Luciana Nicola
Superintendente de Relações Institucionais,
Sustentabilidade e Negócios Inclusivos do Itaú-Unibanco
CAPÍTULO

1
Dando a
VOLTA
por

CIMA
Maria José
de Lima
FUNDADORA DA MAZÉ DOCES (MG)

“O que me move é olhar


para trás e ver que o tacho
e o fogão transformaram a
minha vida”

“E u nasci na roça, em um lugar que se chama


Paiol, um vilarejo de apenas quatro casas no
interior de Minas Gerais. Tive uma infância dura.
Lembro de, ainda menina, fazer todo o serviço da la-
voura, mas sempre sonhando que eu viveria uma vida
diferente, mesmo que todas as possibilidades em volta
indicassem o contrário. No meu dia a dia a principal
tarefa que minha mãe me dava era fazer doces. Eu não
gostava porque o açúcar das frutas atraia marimbon-
do. Hoje, entendo que ao me dar aquele serviço minha
mãe estava plantando uma semente. Aos 18 anos me
casei e vim para a cidade, onde consegui um empre-
go de faxineira em uma agência bancária. Eu costumo
dizer que, não importa o que você faça, tem que fazer
com amor. Então eu amava o chão que eu limpava. Fui
muito feliz por quatro anos nesse trabalho, até que en-
gravidei do meu segundo filho, Gabriel, e na volta da
licença-maternidade veio o baque: fui demitida.

Passamos por uma barra e, depois de mais de


um ano procurando emprego, decidi me virar sozi-
nha. Lembrei dos tempos na roça, peguei um tacho,
comprei os ingredientes, fiz uma receita de doce e fui
vender nas ruas. Senti, naquele momento, que mu-
daria o meu destino. Ganhei R$ 20 e foi com ele que
comecei o meu negócio. O meu pai me dizia ‘Filha,
deixa disso! Doce não vai dar dinheiro’, mas eu não
podia desistir. Eu tinha dois filhos para sustentar,
precisava persistir. Fazia os mais diversos doces
típicos de Minas, até que um cliente me desafiou
a produzir frutas cristalizadas. Aceitei o desafio
mesmo sem fazer a menor ideia de como preparar
o doce! Nem sabia o que era, nunca tinha comido,
mas fui aprender. A primeira leva não foi aprovada,
“Lembrei dos tempos na roça,
peguei um tacho, comprei os
ingredientes, fiz uma receita
de doce e fui vender nas ruas”

mas, na segunda, fiz 16 bandejas de doce e ele com-


prou todas.

A Mazé Doces surgiu ali, em 1999, de uma neces-


sidade de prover a minha família. Em um momento
em que as oportunidades teimavam em não aparecer,
segui o sonho de criar meu próprio emprego e de gerar
muitos outros para a minha cidade. Para começar a
fazer a minha primeira cozinha fiz uma dívida de R$
5 mil reais com conhecidos, a juros bem altos. E como
pagar essa dívida? O tempo foi passando e, depois de
quatro anos, consegui pagar. Nesse meio tempo, con-
tinuei em uma produção caseira, vendendo para lan-
chonetes. Em 2005, comprei um terreno e montei a
fábrica. Em 2007, abri a loja Mazé Doces, que virou
ponto turístico de Carmópolis. Feliz com o crescimen-
to da empresa, em 2012 decidi abrir mais uma loja,
em Divinópolis, mas não deu certo. Tornou-se muita
coisa para uma pessoa só, acabei perdendo o foco e,
“Essas mulheres que trabalham
comigo veem o que fui e o que
faço hoje e se espelham nisso”

após dois anos, tive que fechar a segunda loja. O que


a princípio parecia um erro, acabou sendo um acerto.
Com a abertura da loja em Divinópolis, passamos por
uma revitalização da marca, que ganhou cor, ganhou
vida. Esse foi um dos nossos grandes ganhos.

Desde então, a Mazé Doces é uma referência em


frutas cristalizadas, compotas, geleias, doces em calda
e cremosos, e o doce de figo com nozes, nosso maior
sucesso de vendas. Atualmente, produzimos de três a
cinco toneladas de doces por mês, que podem ser en-
contrados em vários estados da região sudeste do país.
Para dar conta de tudo isso, empregamos 23 funcioná-
rias. O que me move é olhar para trás e ver que o ta-
cho e o fogão transformaram a minha vida. E essas
mulheres que trabalham comigo também veem o que
fui no passado e o que faço hoje e se espelham nisso.

Nessa minha trajetória, a característica que per-


manece, até hoje, é o amor. E eu acho que quem está
aqui comigo, no dia a dia, assimilou isso. Para vir tra-
balhar na Mazé Doces tem que ter amor no coração.
Quando eu falo para as meninas ‘façam um laço bo-
nito’ é para que o cliente, ao abrir o pacote, sinta-se
abraçado pelo nosso trabalho, resgatando os sabores
da sua infância e transformando o simples ato de co-
mer um doce em uma experiência única. É por tudo
isso que trabalho muito, tenho muita coragem para
vencer. De manhã, eu sempre falo para mim mesma:
‘e aí, dona Maria, vamos viver mais um dia?’ Não im-
porta o que eu passe, sigo adiante”.

Maria José de Lima


Fundadora da Mazé Doces, loja e fábrica
de doces artesanais, de Carmópolis (MG)
Fatima
Casarini
FUNDADORA DA RAMO URBANO (SP)

“Para inovar é preciso


estar ligado no que
acontece a sua volta”

“H á mais de vinte anos trabalhando com flores,


eu não sei mais como é viver sem elas pelo
meu caminho. E as danadas me dão um trabalho! Co-
mecei após a falência de uma confecção de roupas fe-
mininas que montei com o meu marido. Trabalhamos
juntos nessa empreitada até que os planos econômicos
do final da década de 80 fizeram com que fôssemos
à falência. Foi uma fase bem difícil, não tínhamos di-
nheiro para pagar os boletos e havia milhares de itens
em estoque. Mas eu tenho um lado empreendedor
muito forte e, dois meses depois, eu já estava ansiosa
por outro negócio.

Um dia, passando por uma floricultura, pensei


‘Epa, eu poderia trabalhar com flores’, e assim foi. Fiz
um curso de arte floral, investi na primeira compra
de flores e algumas ferramentas, o que hoje seria
equivalente a R$ 200. Passei a fazer arranjos no jar-
dim de casa e ainda lembro dos pássaros e da luz
do sol que entrava no meu estúdio. Eu ia cedinho
para a feira na Ceagesp (Companhia de Entrepostos
e Armazéns Gerais de São Paulo) comprar as flo-
res, levava para casa, fazia os arranjos, as entregas,
a limpeza e, à noite, eu sentava na minha escrivani-
nha e fazia as contas em um caderninho que ainda
guardo comigo.

Meus primeiros clientes vieram da academia que


eu frequentava. Pedi para colocar semanalmente um
arranjo na recepção, com meus cartõezinhos, e deu
certo. Curiosamente, o primeiro deles me pagou em
dólar: três dólares. Uma nota eu guardei e tenho até
hoje. Há quase 30 anos ela anda comigo na carteira, é
meu amuleto. E logo me deu muita sorte e proteção.
“Ramo Urbano surgiu de uma
necessidade minha de inovação”

No início, eu fazia tudo sozinha: compras, produção,


entrega, marketing, finanças, faxina, etc.

Fui crescendo com planejamento. Primeiro, ga-


nhei um estúdio novo e lindo onde ficava o canil do
meu cachorro. Depois, contratei uma ajudante e um
motorista. Cresci mais um pouco, mudei para uma
‘casinha de avó’ supercharmosa. Depois, quando hou-
ve o boom da internet, resolvemos apostar em uma
floricultura virtual e criamos a Flores Online. Na épo-
ca cheguei a comandar, em média, a produção de 500
arranjos por dia, chegando a bater 7 mil arranjos por
semana em datas especiais como o Dia das Mães.

O objetivo, no entanto, sempre foi fazer a empre-


sa crescer para depois vender. Assim, em 2012, após
15 anos, vendemos a empresa. Eu queria voltar aos ve-
lhos tempos, fazer algo menor e mais personalizado.
Em uma reunião com meu irmão e uma amiga, em dez
minutos surgiu a ideia: vender flores em máquinas au-
tomáticas, as vending machines usadas para vender
“Em oito meses, surgiu a
Ramo Urbano, a primeira
empresa no mundo a vender
buquês de flores em vending
machines”

alimentos e bebidas. Mas para vender flores ela pre-


cisava passar por adaptações, como controle de umi-
dade, embalagem especial e uma espécie de elevador
para pegar o buquê. Fomos atrás da máquina ideal e,
em oito meses, surgiu a Ramo Urbano, a primeira em-
presa no mundo a vender buquês de flores em vending
machines. Troquei o formato online por levar flores ao
caminho das pessoas.

A Ramo Urbano está focada na compra por im-


pulso, naquela pessoa que está despretensiosamente
passando por um lugar, vê flores e sente o desejo de
levá-las. Hoje, temos cinco máquinas instaladas na ci-
dade de São Paulo, como em shoppings e empórios.
Todas são abastecidas diariamente com buquês de flo-
res frescas, simples, limpas e, na maioria das vezes,
ainda em botão - além de vidrinhos com flores preser-
vadas. São, por exemplo, alstroemérias, rosas, tulipas,
frésias e gérberas, vendidas em uma embalagem es-
pecial que permite que o buquê fique na geladeira de
casa por várias horas, mantendo-se fresquinho até a
hora do uso. E a compra é feita de forma fácil e rápida,
por cartão de crédito ou débito.

Isso tudo foi muito bem pensado porque a Ramo


Urbano surgiu de uma necessidade minha de inova-
ção. Estou sempre querendo fazer alguma coisa nova,
não consigo ficar parada. Prefiro criar 50 arranjos a
ter de replicar o mesmo modelo 50 vezes. Todos es-
tão sempre à procura do inusitado, mas para inovar
é preciso estar ligado no que acontece a sua volta, es-
tar aberto a novas propostas e experiências. Desde
pequena estou atenta às coisas ao meu redor - como
nas flores no meu caminho. Não faço ideia de quantos
arranjos já criei, quantas emoções enviei, com cores e
flores. Mas tenho uma certeza: um buquê não precisa
de um porquê”.

Fatima Casarini
Fundadora da Ramo Urbano, São Paulo (SP), que
tem vending machines instaladas em shoppings e
empórios da capital paulista
Adriana
Barbosa
F U N D A D O R A D A F E I R A P R E TA ( S P )

“Não tive um caminho de


flores, não tem glamour na
minha história, mas, sim,
muito trabalho”

“E u circulei por muitos locais e atuei em diver-


sas áreas, antes de me tornar uma empreende-
ra. Como gestora de eventos, trabalhei em rádios, em
gravadora musical e produtora de TV. Mas foi em um
momento difícil da minha vida profissional e pessoal,
quando tentava voltar ao mercado depois de alguns
meses de desemprego, que experimentei trabalhar em
um setor totalmente novo: uma feira de rua. Era 2002,
e sem nenhuma perspectiva em vista, me uni a uma
amiga, Deise, que era da área de cinema e também
estava desempregada. Ela vendia pastel e eu vendia
roupa. Comecei vendendo as minhas próprias rou-
pas, no Brechó da Troca, e também trocava peças com
outras mulheres para ter um acervo maior e com di-
versidade de tamanhos. O sistema todo era bem sim-
ples: as pessoas se interessavam e eu trocava as peças
com elas. Tudo com uma estrutura básica de araras e
mesas de suporte para a venda de acessórios que me
permitia participar de diferentes feiras e mercados al-
ternativos. De feira em feira, vendia as peças com uma
pequena margem de lucro e reinvestia na compra de
outros produtos usados. Durante uma dessas feiras,
houve um arrastão e perdi quase toda a mercadoria.

Naquele momento, parecia que voltaríamos à


estaca zero, mas foi quando resolvemos que era hora
de montar a nossa própria feira. Na época, o bairro
da Vila Madalena era um ponto de concentração de
casas noturnas de black music, havia uma forte influ-
ência da cultura negra e americana. Já frequentáva-
mos bastante aquelas festas e eu ficava intrigada em
ver que o público era de jovens negros, o DJ era negro,
as hostess eram negras, mas, no final da noite, quem
contava o dinheiro eram os homens brancos, donos
“Vimos que ali havia
a oportunidade para
empreender em algo que
fosse voltado à nossa
identidade e à nossa história”

dos lugares. Como a gente podia produzir riqueza e o


dinheiro não passar pelas nossas mãos? Vimos que ali
havia a oportunidade para empreender em algo que
fosse voltado à nossa identidade e à nossa história, li-
gado ao aspecto artístico e cultural. Decidimos, então,
criar a Feira Preta.

O caminho até fazer a Feira Preta acontecer não


foi fácil. O obstáculo era convencer as empresas de
que, sob a perspectiva de negócios, os temas relacio-
nados aos negros tinham grande potencial. Ouvi de
várias corporações que não poderiam apoiar o even-
to porque o nome remetia a uma questão de conflito
racial e eles não enxergavam o potencial pelo viés de
segmento de mercado. Muitas pediram para eu alterar
o nome para algo do tipo ‘Feira Étnica’, por exemplo.
Mas conseguimos. No dia 24 de novembro de 2002,
na praça Benedito Calixto, aconteceu a primeira Feira
“O que surgiu de uma
necessidade urgente e imediata,
lá em 2002, se transformou em
um negócio promissor”

Preta com 40 expositores, apresentações da cantora


Paula Lima e do grupo Clube do Balanço, dois expo-
entes musicais na época, e um público de mais de seis
mil pessoas. De lá para cá, passamos por crises, mu-
damos de lugares, perdi a parceria da minha amiga,
acumulei dívidas, a falta de dinheiro me fez voltar ao
mercado de trabalho e, somente em 2016, pude sair
do meu último emprego para me dedicar 100% a isso.

Hoje, a Feira Preta é a maior feira negra da Amé-


rica Latina, reunindo um público médio de 14 a 15 mil
pessoas. O evento se tornou um festival de múltiplas
linguagens e reúne as principais tendências afro-con-
temporâneas em moda, design, arquitetura, empreen-
dedorismo, literatura, música, artes visuais, gastro-
nomia, workshops, diálogos criativos, entre outros.
Nesses 17 anos tivemos mais de 4,5 milhões de reais de
circulação monetária de venda dos expositores. Mais
de 900 artistas já passaram pela Feira, que começou
a ser reproduzida em outros estados, por iniciativas
espontâneas. E a ideia é que ela possa ser replicada,
também, em outros países da África de língua portu-
guesa, América Latina e nos Estados Unidos.

O que surgiu de uma necessidade urgente e ime-


diata, lá em 2002, se transformou em um negócio pro-
missor e tem muito do que vivi e aprendi sendo criada
em uma família matriarcal. Minha bisavó, dona Maria
Luiza, uma líder nata, para complementar a renda pe-
gava o que tinha na despensa, cozinhava e vendia co-
xinhas, doces e marmitex. Com a ajuda dos bisnetos,
chegou a abrir um restaurante na própria casa. Foi
meu primeiro contato com o empreendedorismo, com
ela que aprendi a usar a escassez para me reinventar.
Assim como na vida da minha bisavó e tantas outras
mulheres negras, eu não tive um caminho de flores,
não tem glamour na minha história, mas, sim, muito
trabalho”.

Adriana Barbosa
Fundadora da Feira Preta, o maior evento de
cultura e empreendedorismo negro da América
Latina, de São Paulo (SP)
Rosana
Silva
FUNDADORA DA UNIVER SO INOX (MG)

“Quando eu olhava para as


pessoas que trabalhavam
comigo, para minha família,
eu falava para mim mesma:
‘isso tem que dar certo’”

“E u vim de uma família muito pobre e sou a nona


filha de um casal de trabalhadores rurais. Nas-
ci em uma cidadezinha do interior de Minas Gerais,
chamada Serro, mas passei a infância em Ponte Preta,
zona rural. Um dia meu pai me disse que eu não po-
deria mais continuar estudando, precisava ajudar em
casa e não tínhamos dinheiro para pagar nem a con-
dução, nem o material escolar. Mas eu queria muito
continuar estudando, então, aos dez anos, fui para La-
goa Santa trabalhar como empregada doméstica em
um sítio. Trabalhava durante o dia e estudava à noi-
te. Com o que eu ganhava, dava para custear o que eu
precisava para seguir os estudos. Depois desse empre-
go, fui trabalhar em muitos outros lugares como te-
lefonista, operadora de rádio em cooperativa de táxi,
vendedora, atendente em papelaria, cimenteira, fiz de
tudo um pouco. Até que passei anos em empresas que
trabalhavam com o aço inox. Quando a distribuidora
em que eu estava fechou, fui ser vendedora em uma
loja de móveis e fiquei um tempo trabalhando com
mobiliários.

Durante todo esse período, eu continuei estu-


dando. No ensino médio, optei por fazer um curso
técnico de Contabilidade. Quando terminei, prestei
vestibular para Direito, em uma universidade em Belo
Horizonte, fui aprovada mas não tinha condições fi-
nanceiras de me mudar. Então, fiz vários cursos livres
de gestão administrativa e financeira. Depois de pas-
sar por tantas empresas, já havia em mim o desejo de
ter meu próprio negócio. Um dia, em 2002, houve um
leilão na cidade com máquinas para aço inox de em-
presas que haviam falido na região. Eu e mais dois co-
legas de trabalho nos juntamos, compramos algumas
“Meu plano era oferecer ao
cliente qualquer produto
em aço inox totalmente
customizado, ao invés de um
item produzido em série”

máquinas e montamos a Tecnotanque, em um gal-


pão bem pequenino, nos fundos de uma residência. A
ideia era fabricar tanques de lavar roupa em aço inox.
Só que nós tínhamos grandes concorrentes, empresas
de nível nacional, e isso fez com que os meus sócios
se desmotivassem. O primeiro saiu com seis meses de
empresa e o segundo desistiu após um ano.

Eu decidi seguir sozinha, troquei o nome para


Universo Inox e passei a oferecer serviços sobre me-
dida, porque era algo que me demandava mais mão
de obra, que eu já tinha. E o principal: eu tinha uma
concorrência muito pequena no mercado. Meu plano
era oferecer ao cliente qualquer produto em aço inox
totalmente customizado, ao invés de um item produzi-
do em série. Fui procurar no mercado quem precisava
dessas peças e passei a atender um nicho de mercado
“Eu tinha uma postura fechada
e incisiva para me proteger,
até que o mercado passou a
apostar em mim”

bem variado, como hospitais, laboratórios, restauran-


tes, universidades, mas também um público de resi-
dência. Meu primeiro grande cliente foi a Faculdade
de Farmácia da Universidade Federal de Minas Gerais
(UFMG) e, em 2004, a empresa começou a engrenar.
Com o tempo nos especializamos em cozinha indus-
trial e mobiliários e, hoje, atendemos principalmente
a indústria farmacêutica, inclusive as redes interna-
cionais, que possuem um alto nível de exigência e ga-
rantia de matéria-prima sempre certificada. Tudo isso
nos possibilitou, em 2008, sair do galpão alugado e
finalmente nos mudarmos para uma sede própria.

Atualmente, a Universo Inox atende todo o país


e somos referência no mercado de artefatos em aço
inoxidável, contando com uma estrutura moderna e
mão-de-obra altamente qualificada e preparada para
atender na elaboração dos projetos. São 25 trabalha-
dores diretos, fora as áreas administrativas, que são
terceirizadas. Quando eu cheguei com uma metalúr-
gica, começando um negócio, eu ouvi muitos ‘nossa,
mas essa menina?’. Eu tinha uma postura fechada e
incisiva para me proteger, até que o mercado passou a
apostar em mim e no meu diferencial: ir até o cliente e
entender a necessidade dele. Eu passei por muitas di-
ficuldades na vida e quando eu olhava para as pessoas
que trabalhavam comigo, para minha família que de-
pendia de mim, eu falava para mim mesma: ‘isso tem
que dar certo’. Eu tinha que mudar essa história e isso
me fez caminhar e nunca desistir, mesmo nas horas
mais difíceis. Valeu muito a pena e continua valendo
todos os dias quando o sol nasce junto com uma nova
oportunidade”.

Rosana Silva
Fundadora da Universo Inox, empresa
especializada em criar soluções em aço
inox, de Lagoa Santa (MG)
Vanessa
Berrouiguet
FUNDADORA DO MON PETIT (SP)

“Mon Petit, o primeiro bazar


de moda a baixo custo da
comunidade do Capão
Redondo, é o sustento meu
e das minhas filhas”

“F oram 12 anos de um casamento dos sonhos


com Karin, meu marido, um francês que co-
nheci em um supermercado em São Paulo, em 1999.
Ele tinha ganhado uma viagem ao Brasil, como prêmio
por ser o melhor vendedor da empresa em que traba-
lhava, e meu trabalho era oferecer degustação de pro-
dutos. Como ele sabia um pouco de português, quando
voltou à França, ficamos por um ano só nos falando
por Skype. Estávamos apaixonados e decidimos viver
juntos. Já morando de vez aqui no Brasil, ele assumiu
a mim e a minha filha mais velha, que, na época, tinha
um ano, mas não aceitou que eu trabalhasse nem es-
tudasse. Em 2004, casamos no civil e, juntos, leváva-
mos uma vida de classe média, viajamos para lugares
como França e Grécia. Até que, em 2012, Karin ficou
muito doente e morreu.

Por dois anos, fiquei vivendo de bicos até ser


contratada para fazer pesquisas por telefone para um
instituto. Mas foi por pouco tempo, logo fui demiti-
da. Eu estava sem dinheiro, sem condições de pagar
o aluguel, de me restabelecer e educar minhas duas
filhas. Acabei saindo de uma casa muito confortável
na zona norte da cidade e fui morar na casa da mi-
nha irmã, no Capão Redondo, periferia da zona sul.
Foi um período muito difícil, passamos fome. Um
dia, fui chamada pela direção da escola da minha
filha mais velha, queriam saber por que ela faltava
tanto, estava tão magra e pálida. Falei a verdade:
não tinha comida em casa e, portanto, nem forças
para levá-la. Nunca esqueço o quanto aquilo me dila-
cerou. Voltei para casa e tomei a decisão drástica de ir
para as ruas de São Paulo recolher materiais reciclá-
veis. Demorou a adaptação, mas aos poucos descobri
“Minha ficha caiu: aquilo
poderia render um negócio.
Juntei o que tinha sobrado do
primeiro bazar e parte do que
eu recebi investia na compra
de produtos para revender”

os itens que davam mais dinheiro e de R$ 7 passei a


tirar R$ 140 por semana.

As coisas pareciam estar se ajustando quando,


um ano depois, o destino me derrubou de novo, lite-
ralmente. Sofri um acidente gravíssimo em uma obra
repleta de entulhos, que me fez perder todos os dentes
da frente, ter uma lesão cervical que quase me deixou
inválida e ficar acamada por um mês. Ficamos viven-
do por um tempo com o pouco de dinheiro que eu ha-
via guardado, mas não durou muito. Em um momento
de desespero, subi na laje de casa para chorar e dei de
cara com um monte de coisas da mudança. Eu sim-
plesmente tinha esquecido daquele tanto de sacolas
com muitos objetos, roupas e calçados comprados em
todas as viagens que fiz mundo afora, quando Karin
“Eu amo imensa­mente minhas
filhas e o mínimo que eu posso
fazer por elas é ser forte”

era vivo. Tive a ideia de fazer um ‘família vende tudo’.


Lavei cada objeto e passei cada peça de roupa, mon-
tei o bazar na garagem e fiz um cartaz avisando que
abriria no dia seguinte. A intenção era vender tudo de
dia para poder comer à noite. O sucesso foi tão grande
que, no fim do dia, tínhamos juntado R$ 1.050. Agra-
decida, peguei minhas filhas e fomos ao mercado. Co-
memos tanto que tivemos até dor de barriga!

Para a minha surpresa, no dia seguinte várias


pessoas bateram na porta perguntando quando se-
ria o próximo bazar. Minha ficha caiu: aquilo poderia
render um negócio. Juntei o que tinha sobrado do pri-
meiro bazar e, a cada edição, parte do que eu recebi
investia na compra de produtos usados para revender.
Para ter uma cara mais profissional, fiz uma plaqui-
nha com o nome Mon Petit (meu pequeno, em fran-
cês) e o negócio começou a fluir. Cada vez mais pesso-
as iam lá comprar, outras apareciam curiosas sobre a
movimentação que acontecia na minha garagem e isso
chamou a atenção de empresárias e mulheres da alta
sociedade, que começaram a doar suas peças. Vendo
somente peças boas, algumas de grifes, vendidas a um
preço justo, que a comunidade pode pagar. Desde en-
tão, o Mon Petit, o primeiro bazar de moda a baixo
custo da comunidade do Capão Redondo, é o emprego
e sustento meu e das minhas filhas. Foi com ele que
construí nossa casa sobre a garagem e ninguém mais
nos despeja.

Apesar de todas as dificuldades, faço questão de


olhar sempre para minha história e meus aprendiza-
dos. A minha força se chama amor. Eu amo imensa-
mente as minhas filhas e o mínimo que eu posso fazer
por elas é ser forte. Quero que elas lembrem de mim
como um exemplo, uma referência de trabalho. Por
mais que para o mundo o trabalho que eu executo seja
insignificante, lavando carinhosamente roupas usadas
e vendendo-as, eu sou uma vencedora, eu consegui.”

Vanessa Berrouiguet
Criadora do Mon Petit, o primeiro bazar de moda a baixo custo
da comunidade do Capão Redondo, de São Paulo (SP)
CAPÍTULO

2
Nasce uma
MÃE
nasce uma
EMPRESA
Adriana
Fernandes
FUNDADORA DA MANDALA
COMIDAS ESPECIAIS (SP)

“Estávamos criando não


apenas um produto, mas
também um mercado, e nosso
ineditismo atraiu clientes”

“E u já alimentava o desejo de empreender na


gastronomia, mas tinha uma carreira sólida
na área da comunicação, então o sonho foi sendo adia-
do. Em 2014, quando meu segundo filho nasceu, pre-
cisei lidar com uma dieta muito restritiva que mudou
minha vida. Ao completar um mês, eu e meu marido
descobrimos que o Léo era alérgico alimentar múlti-
plo severo, ou seja, seu corpo não conseguia processar
as proteínas de diversos alimentos que passavam pelo
leite materno. O tratamento era eu fazer uma dieta su-
per-restritiva e, para isso, tive que recriar tudo o que
cozinhava em casa.

Cortei leite, ovos, soja, trigo, amendoim, casta-


nhas, peixes e crustáceos - os oito alimentos que cau-
sam 90% das alergias alimentares no mundo. Foram
14 meses de amamentação e dieta, e era praticamente
impossível encontrar pratos prontos sem tantos ingre-
dientes, ainda mais sem risco de contaminação cruza-
da. Tudo precisava ser feito em casa. Minha vida era
trabalhar, amamentar, cozinhar, congelar, levar mar-
mitas. Busquei informação e apoio em grupos de fa-
mílias de alérgicos e celíacos nas redes sociais e vi que
esse era o dia a dia de centenas de pessoas. Percebi
aí uma oportunidade: eu gostava muito de cozinhar,
então decidi pegar vinte anos de economia e montar
um negócio de comida pronta para pessoas que têm
algum tipo de restrição alimentar, a Mandala Comidas
Especiais.

Comecei sozinha o projeto, em janeiro de 2015,


mas logo meu marido passou por uma demissão e se
tornou meu sócio. Juntos, arriscamos tudo em um
segmento tão específico e novo que não sabíamos se
“Incluímos pessoas ao excluir
ingredientes. A Mandala é
amor em forma de comida”

haveria demanda. Surgiam dúvidas: será que não exis-


tia porque era um erro? Será que íamos falir? Mas nos
surpreendemos com um retorno muito mais rápido
do que a gente imaginava. Com apenas três meses de
vida de Mandala fomos convidados a passar pelo pro-
cesso de aprovação como fornecedores de um grande
hospital de São Paulo. Foram dois meses de validação
de documentos e de vistoria técnica em nossa fábrica
e ficamos extremamente felizes ao sermos aprovados
em tão rigoroso processo. Na sequência, outros hospi-
tais, resorts e hotéis de luxo, escolas e até companhias
aéreas nos procuraram. Estávamos criando não ape-
nas um produto, mas um mercado e nosso ineditismo
atraiu clientes.

Hoje, a Mandala é referência no fornecimento


de alimentos seguros para celíacos, pessoas alérgicas,
intolerantes ou sensíveis a determinados alimentos, e
para todos aqueles que desejem seguir uma dieta sau-
“Juntos, arriscamos tudo em um
segmento tão específico que não
sabíamos se haveria demanda”

dável e saborosa. Somos uma cozinha industrial de ali-


mentos ultracongelados, com loja de fábrica e e-com-
merce. Tudo o que produzimos na cozinha é livre dos
ingredientes que rastreamos: castanhas, crustáceos,
leites (inclusive lactose e caseína), ovos, trigo, glúten,
temperos prontos, produtos transgênicos, glutamato
monossódico, aromatizantes e corantes artificiais, en-
tre outros. Tanto no varejo como no corporativo te-
mos dois tipos de clientes: os que precisam comer sem
glúten e alergênicos (pois são celíacos, alérgicos, into-
lerantes) e os que preferem comer sem glúten, leite,
ovos (veganos, fit, quem quer comer saudável). Cerca
de 65% dos nossos produtos são veganos.

Esse caminho foi trilhado com muita capacita-


ção e preparo. Empreender exige estudo, planejamen-
to, dedicação, paciência e disciplina. Não significa
trabalhar menos, ganhar dinheiro rápido ou ter mais
tempo para os filhos. Já precisei trabalhar de madru-
gada, muitas vezes tive que dividir a atenção entre a
família e o celular que não para, pagar fornecedores e
salários mesmo ficando sem capital. Há momentos em
que dá vontade de desistir, mas os resultados consis-
tentes nos mostram que estamos no caminho certo. É
nossa missão: incluir pessoas ao excluir ingredientes.
A Mandala é amor em forma de comida”.

Adriana Fernandes
Fundadora da Mandala Comidas Especiais, que
fornece alimentos seguros para alérgicos e
intolerantes alimentares, de São Paulo (SP)
Cristiane
Carvalho
F U N D A D O R A D A T E R A P L AY
BRINQUEDOS TERAPÊUTICOS (SP)

“Identificar e aprender a
lidar com as emoções virou
sinônimo de qualidade de
vida dentro de casa”

“E m 2015, em um curto espaço de duas semanas,


recebi duas notícias que mudaram a minha
vida. Primeiro, foi o autismo do meu filho mais velho.
Desde pequeno ele apresentou um atraso no desen-
volvimento da fala, mas sempre acreditei que estava
dentro do normal. Quando tinha crises, eu achava que
era sua personalidade forte. Se não se comportava da
mesma forma que os colegas, é porque era tímido e en-
vergonhado. Até que o diagnóstico foi dado: meu filho,
na época com oito anos, tinha o Transtorno do Espec-
tro Autista. Uma semana depois, fui diagnosticada com
câncer, aos 37 anos e sem qualquer histórico familiar.
Foi um baque gigante. Logo meu filho iniciou um trata-
mento específico para o autismo e as melhoras, apesar
de lentas, aconteciam. Paralelamente, eu fazia quimio-
terapia e algumas ideias começaram a brotar.

Entre um procedimento e outro, arregacei as


mangas e encarei os estudos sobre o Transtorno do
Espectro Autista, o TEA. Para melhorar a vida do meu
filho e, consequentemente, de toda a família, me de-
diquei às pesquisas, fiz diversos cursos e devorei li-
vros e artigos científicos. Entendi que um dos maiores
obstáculos dos autistas é reconhecer as emoções - as
próprias e as das outras pessoas. Em casa, o riso, por
exemplo, poderia aparecer em meio a raiva, o choro
em meio a alegria. Não era falta de sensibilidade, meu
filho só não sabia exatamente como agir em determi-
nados momentos. Procurei em lojas especializadas
por produtos que pudessem atendê-lo, mas não en-
contrei. Eu mesma teria que criar a solução.

Por meses, testei vários métodos, desenhei, ra-


bisquei, fiz esquemas. Depois de muitas tentativas
“Procurei em lojas
especializadas por produtos
que pudessem atendê-lo,
mas não encontrei. Eu mesma
teria que criar a solução”

e ajuda dos meus dois filhos, surgiu o Bracelete das


Emoções, uma pulseira de silicone para crianças co-
municarem seu estado emocional por meio de figuras
que simbolizam alegria, tristeza, raiva, medo, cansaço
e tranquilidade. Foi um sucesso. Identificar, expres-
sar, entender e aprender a lidar com as emoções virou
sinônimo de qualidade de vida dentro da nossa casa.
Os colegas da escola, mesmo os que não estavam no
espectro autista, amaram. Os professores acharam
muito útil e os psicólogos que atendiam o meu filho
passaram a usar o bracelete com outros pacientes. Eu
sabia que tinha algo inovador em mãos.

Em fevereiro de 2016, depois que o plano de saú-


de arcou com todos os custos do meu procedimento
de reconstrução mamária, peguei o dinheiro que ha-
via reservado para a cirurgia e investi no meu próprio
“Meus dois filhos são meu
braço direito em todo o
processo de aprovação e
criação. O olhar super­crítico
deles é um selo de garantia em
tudo o que faço”

negócio. Assim nasceu a TeraPlay, uma loja online de


produtos que ajudam pessoas, autistas ou não, a li-
darem com suas emoções. São brinquedos e recursos
terapêuticos para crianças, adolescentes e adultos tí-
picos e atípicos (autismo ou TEA, TDHA, Síndrome de
Down, entre outros). Promovemos a educação emo-
cional e oferecemos recursos para atender às necessi-
dades sensoriais de todas as idades.

O nosso carro-chefe é o Bracelete das Emoções,


mas a TeraPlay conta com seis tipos diferentes de bra-
celetes de silicone, três livros de minha autoria e outros
recursos, totalizando mais de 50 produtos, todos dife-
renciados, como bolinhas antiestresse e mordedores de
estimulação sensorial. Vendemos para todo o Brasil e
para o exterior. Como muitos de nossos produtos não
encontram similares no mundo, já recebemos pedi-
dos da Europa, Estados Unidos e Canadá.

Meus dois filhos, um menino e uma menina


- ela, fora do espectro autista - são meu braço di-
reito em todo o processo de aprovação e criação. O
olhar supercrítico deles é um selo de garantia em
tudo o que faço.

Tem sido um desafio. Ser mãe-empreendedo-


ra é ser malabarista em tempo integral. Mas eu ain-
da tenho muitos sonhos e são eles que me movem.
Sonho que a TeraPlay alcance todas as pessoas que
precisem ser ajudadas pelos nossos produtos. So-
nho ver meus filhos se tornarem adultos seguros e
emocionalmente preparados para os desafios. So-
nho ver todas as pessoas no espectro autista incluí-
das e tendo suas necessidades atendidas. Sonho ver
cada vez mais crianças educadas emocionalmente,
se tornando pessoas melhores e mais felizes”.

Cristiane Carvalho
Fundadora da TeraPlay Brinquedos
Terapêuticos, São Paulo (SP)
Stéphanie
Habrich
FUNDADORA DO JORNAL JOCA (SP)

“Literalmente um
desabamento mudou a minha
vida, mas a maternidade me
deu força para empreender”

“E ra 11 de setembro de 2001, uma terça-feira, e


estava um dia lindo. Não tinha uma nuvem no
céu. Eu morava em Nova York e trabalhava no Deuts-
che Bank, localizado no quarto andar da Torre 4 do
World Trade Center. Fui mais cedo para o escritório
porque queria terminar logo o trabalho naquele dia.
Foi aí que tudo aconteceu: às 8h48, ouvi um estrondo
e vi uma bola de fogo quando o primeiro avião bateu
na Torre Norte do WTC. Saí correndo e deixei tudo
para trás. Fiquei sentada na calçada esperando que
os bombeiros liberassem a entrada do edifício. Mas
às 9h06 ouvi o segundo estrondo, quando outro avião
atingiu a Torre Sul. Voltando para casa soube da notí-
cia: as duas torres haviam desabado.

Ter sobrevivido ao atentado às Torres Gêmeas


foi um passo importante de conscientização e de que-
rer seguir em direção aos meus sonhos e minhas cren-
ças. Nos anos seguintes, fiz mestrado e cursos sobre
empreendedorismo, criação de revistas e desenvolvi-
mento infantil. Neste meio tempo casei e tive três fi-
lhos, Luca, Matteo e Nicolas, as principais motivações
pela minha mudança de carreira, por querer fazer algo
mais significativo e com mais impacto. Literalmente
um desabamento mudou a direção da minha vida,
mas a maternidade me deu força e coragem, uma ver-
dadeira injeção de ânimo para empreender. Deixei a
carreira no mercado financeiro e investi no meu gran-
de sonho: produzir conteúdo voltado para o público
infantojuvenil.

Filha de pai alemão e mãe francesa, nasci na


Alemanha, mas, por conta do trabalho do meu pai,
imigrei para o Brasil com minha família, no final dos
“Joca é o primeiro e único jornal
para crianças no Brasil, material
obrigatório na sala de aula em
cerca de 800 escolas”

anos 70, aos seis anos. Aqui vivi até no início dos anos
90 e, durante todos esses anos, meus pais continua-
vam assinando as revistas juvenis alemãs e francesas
que chegavam pelo correio. Tenho muitas delas ainda
guardadas como um tesouro e alimentava o desejo de
que meus filhos tivessem acesso a esse tipo de mate-
rial também. Em 2006, quando o meu marido foi cha-
mado para voltar a trabalhar no Brasil, me vi diante
da possibilidade de transformar esse desejo em reali-
dade. Não perderia esta oportunidade por nada. Era a
chance de empreender e a agarrei com toda a vontade
e coragem!

Aqui, criei a editora Magia de Ler, em 2007, e


lancei duas revistas: a Toca, para crianças de 1 a 4
anos, e a Peteca, de 5 a 8 anos, no esquema de assina-
tura. Deu errado. Foi um choque cultural muito gran-
de. Achei que seria como na Europa, os pais assina-
riam que nem loucos, mas não. Os pais não assinam.
“É para eles, e para toda a
geração a que pertencem, que
trabalho incansavelmente
para um mundo com mais
escuta e oportunidade”

Em 2008, fali. Mas não desisti do negócio. Três anos


mais tarde, em 2011, com melhor conhecimento sobre
o mercado brasileiro e sem muitos estudos técnicos,
com a cara e a coragem mesmo, tive a ideia de criar o
Joca, um jornal quinzenal voltado para jovens entre
8 e 14 anos. Mas houve uma mudança de foco: em
vez de vender somente para os pais, a publicação
agora seria oferecida às escolas. Tinha que dar certo
e deu. Hoje, o Joca é o primeiro e único jornal para
crianças no Brasil, material obrigatório na sala de
aula em cerca de 800 escolas públicas e privadas em
todo o país. O impresso é quinzenal e o online traz
de duas a três notícias diárias sobre o Brasil, o mun-
do e o universo infanto-juvenil, com uma linguagem
simples e de fácil compreensão. Um projeto ousado,
pioneiro e de grande contribuição para a formação
educacional.
Meu sonho é, através do Jornal Joca, ofere-
cer ferramentas para que crianças e jovens brasilei-
ros possam se posicionar e lutar por seus direitos e
conquistas, e assim reduzir a desigualdade. E, nesse
processo, ser mãe foi e ainda é uma transformação e
tanto. Cada fase dos meus três meninos, Luca, Mat-
teo e Nicolas, me trouxe mais e mais inspiração. Gosto
de uma frase de Jacqueline Kennedy Onassis, que diz
mais ou menos assim: ‘Se você não educar bem os seus
filhos, nada mais do que você fizer será tão importan-
te’. Definitivamente, são eles que garantem sentido a
todas as minhas conquistas. Conforme crescem, vou
aprendendo com eles, tendo ideias e criando novos
produtos. Também é para eles, e para toda a geração
a que pertencem, que trabalho incansavelmente para
um mundo com mais escuta e oportunidade”.

Stéphanie Habrich
Criadora do Joca, o primeiro e único jornal para
crianças e jovens do Brasil, de São Paulo (SP)
Flávia
Pacheco

Manuela
Borges
SÓCIAS DA BE FLEXY (SP)

“Somos a primeira plataforma


no Brasil que conecta mulheres
às empresas com jornadas de
trabalho flexíveis”

“S empre gostei muito de trabalhar, ficar dez ho-


ras no escritório não era um problema. Traba-
lho para mim é vida! Quando tive meu primeiro filho,
em 2008, percebi que seria difícil manter o ritmo.
Para mim, Flávia, o desafio foi ainda maior: o João
Pedro nasceu com alguns problemas de saúde e eu
tinha uma demanda grande de consultas médicas e
exames. Felizmente, tive líderes muito compreensi-
vos, que me apoiaram nesta jornada. Com um pouco
de flexibilidade, consegui conciliar essas duas frentes
tão importantes para mim: minha vida com meu filho
e minha carreira. Em 2011, nasceu a Clarinha e, com
ela, uma demanda adicional de tempo. Para comple-
tar, em 2012, o João Pedro passou por uma cirurgia
importante. Tentei conciliar a rotina pessoal e profis-
sional por mais um ano e meio, mas, em 2014, percebi
que não dava mais e decidi sair do mundo corporativo.
O Pepê precisava de mais apoio para o seu melhor de-
senvolvimento e tínhamos de buscar programas com-
plementares. Depois disso, vivi 18 meses de dedicação
exclusiva à família e ao tratamento dele.

Esse período em que estive afastada do mercado


de trabalho foi muito bem aproveitado, mas, em me-
ados de 2015, constatei que retomar a minha carrei-
ra era importante para mim. Era hora de buscar um
novo caminho. Recebi três propostas excelentes, no
modelo tradicional. Foi quando o dono de uma quarta
empresa entrou em contato. Conversamos e fechamos
um esquema de 25 horas por semana, pelo tempo que
“Construímos uma
comunidade com profissionais
que querem trabalhar com
mais qualidade de vida”

eu precisasse. A flexibilidade, naquele momento, era o


mais importante, e compensou em muito a diferença
no pacote de remuneração. Troquei ‘dinheiro por tem-
po’. Fiquei lá por 18 meses, quando recebi uma pro-
posta de uma empresa líder de mercado na qual eu já
havia trabalhado. Achei que seria possível voltar a um
ritmo mais acelerado e aceitei. Foi uma experiência
muito rica, mas, ao mesmo tempo, exigiu uma dedi-
cação praticamente exclusiva. Me sentia com as famo-
sas ‘algemas de ouro’, ou seja, engajada nos desafios
e benefícios da empresa, mas sem conseguir integrar
a minha vida pessoal. Sem perceber, acabei me afas-
tando da minha família e isso não era o que eu queria.

Um dia, em um almoço com uma amiga, ela me


contou que, depois de mais de 20 anos nas áreas de
vendas, produtos e projetos em grandes empresas, es-
tava se desligando de uma delas e que gostaria muito
de montar o próprio negócio. Contei três ideias que
“Vaga flexível não quer dizer que
a pessoa vai trabalhar menos”

eu tinha e ela adorou a possibilidade de criar algo que


ajudasse mulheres, especialmente mães como nós
duas, a conseguir trabalhos que permitissem mais fle-
xibilidade de horários. E foi assim que eu e a Manuela
nos tornamos sócias da Be Flexy. Somos a primeira
plataforma no Brasil que conecta mulheres às empre-
sas com jornadas de trabalho flexíveis. Atuamos com
soluções específicas para a empresa, como divulgação
de vagas, recrutamento de candidatos, workshops de
sensibilização e consultoria para implantação desse
modelo. Nosso diferencial está no fato de sermos pio-
neiras nesta abordagem e 100% focadas em oportu-
nidades flexíveis. Construímos uma comunidade com
profissionais que querem trabalhar com mais quali-
dade de vida e se identificam com o nosso propósito.
Ofertamos às empresas um leque maior de opções na
hora da contratação, além de mentorias jurídicas e
de consultoria de como implantar modelos de gestão
flexíveis. Nosso grande sonho é transformar de forma
positiva a vida das pessoas e das empresas. Oferece-
mos às mulheres opções de jornadas flexíveis para
que possam integrar todas as suas demandas de for-
ma mais equilibrada e consigam aproveitar melhor o
tempo, esse ativo tão precioso e importante. Por outro
lado, ao tornarem a relação de trabalho mais produ-
tiva, flexível e com propósito, as empresas passam a
contar com times mais diversos, engajados, colabora-
tivos e criativos.

Em dois anos, já temos cases de sucesso que pro-


vam que a vaga flexível não quer dizer que a pessoa vai
trabalhar menos. Como, por exemplo, a Marisa, que
deixou um emprego convencional de nove anos em
uma multinacional para ter uma jornada flexível di-
vulgada pela Be Flexy. E o Rafael, que ficou muito feliz
em contratar duas profissionais de TI pela plataforma.
Com a Be Flexy, eu e Manuela ajudamos as pessoas a
conquistarem o controle do próprio tempo”.

Flávia Pacheco é sócia


de Manuela Borges
Fundadoras da Be Flexy, plataforma que conecta mulheres
às empresas com jornadas flexíveis, de São Paulo (SP)
Dani
Junco
FUNDADORA DA B2MAMY (SP)

“Não é preciso escolher entre


se tornar mãe ou CEO. É
possível ser as duas coisas”

“E ra 2014, eu tinha uma empresa de marketing


farmacêutico que caminhava muito bem e tinha
acabado de descobrir que estava grávida do Lucas. E,
embora eu tivesse orgulho da minha vida profissional
e estivesse financeiramente estável, eu me perguntava
como iria conciliar minha carreira com o bebê, e o que
eu estava fazendo para que meu filho vivesse num mun-
do melhor. Na época, em um curso sobre empreendedo-
rismo, ouvi pela primeira vez a palavra ‘propósito’, o que
me fez imaginar como seria quando o Lucas agarrasse
minhas pernas e perguntasse ‘mamãe, porque você está
indo trabalhar?’. Eu olhei para o que estava fazendo na
época e não tive resposta. Decidi que, antes dele nascer,
eu precisava encontrar um bom motivo para sair de casa
todos os dias. Quando não temos filhos, já é bem difícil
trabalhar com algo que não gostamos e não acreditamos.
Quando nos tornamos mães, cada segundo longe dos
nossos filhos tem que fazer muito sentido. O trabalho,
portanto, assumiu um novo peso para mim.

A verdade é que, quando engravidei, tudo ficou


de cabeça para baixo. Eu senti muita dificuldade em
conciliar a maternidade e a vida profissional e vivi um
dilema sobre como seria a volta ao mercado de traba-
lho depois que o Lucas nascesse. Perguntei em uma
rede social se outras mulheres sentiam essa angústia.
Chamei essas mães para tomar um café e, surpreenden-
temente, 80 mulheres compareceram! Vi que havia um
caminho a trilhar. Resolvi abraçar a causa e, em 2016,
criei a B2Mamy, uma aceleradora que apoia outras
mães que querem ser donas do seu tempo e do próprio
negócio. Somos uma empresa de educação e pesquisa
especialista na jornada da maternidade e nosso pro-
pósito é formar mulheres líderes e livres economica-
“Ouvi pela primeira vez a
palavra ‘propósito’, o que me fez
imaginar como seria quando o
Lucas agarrasse minhas pernas
e perguntasse ‘mamãe, porque
você está indo trabalhar?’”

mente, além de prover dados para que o mercado reaja


positivamente a esse novo status quo. O meu trabalho
é orientar mães que estão perdidas em suas vidas pro-
fissionais, mães que não sabem para onde seguir. Nós
damos voz para que elas falem em um espaço seguro
e expomos os cenários para que possam escolher, com
clareza, se querem voltar para o mercado ou se realmen-
te querem empreender.

Por dois anos fiquei me dividindo entre a acelera-


dora e a agência de marketing que eu já tinha, até que,
em 2017, decidi deixar o primeiro empreendimento, que
apresentava um ótimo faturamento, e investir o tempo e
o dinheiro na B2Mamy. Para dar conta, voltei para casa
da minha mãe, vendi meu carro e coloquei meu filho em
uma escola mais barata. Aos poucos, os resultados fi-
“É possível conciliar maternidade
e empreendedorismo sim, só que
não dá para fazer sozinha”

nanceiros foram aparecendo e fechei 2018 com um fa-


turamento de R$ 500 mil, valor já alcançado em 2019.
E isso prova que é possível conciliar maternidade e
empreendedorismo sim, só que não dá para fazer sozi-
nha. Na B2Mamy as participantes trabalham em uma
rede na qual se sentem mais seguras, se inspiram, ou-
vem histórias de quem está passando pelo mesmo mo-
mento e percebem que não estão sozinhas. Tiramos a
solidão da maternidade e do empreendedorismo.

Diferente de outras aceleradoras, que investem


nas empresas com vistas a receber um retorno lá na
frente, o modelo de negócio da B2Mamy não é basea-
do em investimento financeiro. No nosso modelo elas
pagam pelos encontros e pela aceleração. São as Tri-
lhas de Conhecimento, programa de aceleração que
engloba dois projetos: B2Mamy Start, para quem está
somente com uma ideia na cabeça ou desconhece to-
talmente os conceitos de inovação, e O B2Mamy Pul-
se, uma jornada de quatro meses para quem já tem
uma ideia mais modelada e precisa validar, tracionar
ou reorganizar para crescer. A maioria das mães que
procuram esses programas tem uma média de 30 anos
e filhos na primeira infância. E os resultados são incrí-
veis: mais de 7 mil mulheres se conectaram a concei-
tos de inovação com o B2Mamy Meetup; mais de 700
tiraram suas ideias do papel com o programa B2Mamy
Start e mais de 170 aceleraram suas empresas com
programa B2Mamy Pulse. Juntas, essas profissionais
estão faturando cerca de R$ 2,5 milhões.

Acreditamos que a mãe pode encontrar, sim, um


caminho equilibrado entre o sucesso profissional e a
participação ativa na criação dos filhos, o que refle-
te em uma sociedade mais generosa, colaborativa e
produtiva. Meu grande desejo para o futuro é que a
B2Mamy se torne a maior comunidade sobre mater-
nidade, empreendedorismo e inovação no mundo. E
isso começa hoje, dizendo para outras mulheres o que
gostaria que tivessem dito a mim: não é preciso es-
colher entre se tornar mãe ou CEO. É possível ser as
duas coisas”.

Dani Junco
Fundadora da Aceleradora B2Mamy, que oferece capacitação,
mentoria e networking para mães, de São Paulo (SP).
CAPÍTULO

3
Meu
NEGÓCIO
é gerar
IMPACTO
Natália
Inês da Costa
PRESIDENTE DO CENSA (MG)

“Delegar e trabalhar
‘para a empresa’ e não ‘na
empresa’ foi um desafio
difícil de ser superado”

“C omecei a trabalhar aos 16 anos. Fui secretária


de consultório médico, assistente adminis-
trativo, fiz estágios em psicologia e tive o privilégio de
conhecer diversas áreas de atuação, como psicologia
clínica e educacional. Já formada, ganhei muita ex-
periência atuando em várias empresas. Até que, em
1996, comecei a trabalhar no Censa (Centro Especia-
lizado Nossa Senhora D’Assumpção), que se dedica
à prestação de serviços de educação, saúde e socia-
lização da pessoa com deficiência intelectual, asso-
ciada ou não a outras deficiências, transtornos e sín-
dromes, com vistas na promoção da sua qualidade de
vida. Jamais imaginei que seria o início da missão de
uma vida.

Na organização, comecei na função de analista


júnior de recursos humanos e, em três anos, fui pro-
movida a Gerente de Desenvolvimento. Em 2010, a
consultoria contratada para conduzir o processo de
sucessão da organização identificou o meu perfil como
o mais adequado e alinhado aos objetivos do Censa
para assumir a sua direção. Me deparei com um novo
mundo, cercado de desafios e grandes conquistas. Sair
da operação e presidir a empresa não foi fácil, pois
sempre gostei do fazer. Sentar na cadeira da presidên-
cia, delegar e trabalhar ‘para a empresa’ e não ‘na em-
presa’ foi um desafio difícil de ser superado, porque
implicava em mudança de crenças, atitudes e compor-
tamento organizacional.

‘Como administrar um negócio?’, eu me per-


guntava. Eram mais de 120 funcionários divididos
em diversas atividades, de atendimento com equipe
multiprofissional, formada pelas especialidades de
“Meu sonho é ampliar o
número de pessoas atendidas e
levar o modelo de atendimento
para mais lugares”

psiquiatria e clínica médica, enfermagem, psicolo-


gia, nutrição, farmácia, fisioterapia, pedagogia e mu-
sicoterapia, a serviços na área de educação e saúde,
hospedagem, atividades lúdicas, esportivas e terapêu-
ticas. Tudo funcionando em um espaço de 22 mil
metros quadrados na região metropolitana de Belo
Horizonte. Mas, assim como em outros momentos
de minha carreira, busquei me capacitar para esse
novo desafio e iniciei uma pós-graduação em Gestão
de Negócios.

A recompensa de todo o esforço foi alcançar o


tão almejado equilíbrio financeiro da organização. Ter
a mesma desenvoltura que estabeleci com os relató-
rios da área da saúde e da educação, com os relatórios
financeiros e contábeis, me conferiu condições para a
tomada de decisões operacionais e, principalmente,
estratégicas.
“Jamais imaginei que seria o
início da missão de uma vida”

Presidir o Censa, compreendendo o cenário


político econômico no qual estamos inseridos, me
define como empreendedora. Minha atuação é uma
mescla de olhar para dentro e para fora da organi-
zação, com o foco em perpetuar o ideal da empresa:
cuidar da pessoa com deficiência intelectual, con-
ferindo-lhe qualidade de vida, bem como acolher e
atender a sua família. Hoje, o Censa tem um papel
fundamental na comunidade, na medida que dá vi-
sibilidade à pessoa com deficiência, evidenciando
que as limitações coexistem com as potencialidades,
além da disseminação de informações e produção
científica no campo do atendimento, intervenção e
inclusão.

Nossa atuação se dá em âmbito nacional, aten-


dendo pessoas oriundas de diversas partes do Bra-
sil, e possuímos parceria com instituições de ensino
(universidades, faculdades e escolas) com o objetivo
de formar profissionais qualificados para atuar com o
público de pessoas com deficiência, além de capacitar
a comunidade no fomento de ambientes físicos e ati-
tudinais mais acessíveis e inclusivos.

Meu sonho é ampliar o número de pessoas aten-


didas e levar o modelo de atendimento do Censa para
mais estados e países. É, em cada canto desse mundo,
continuar defendendo a causa da pessoa com deficiên-
cia, prestando um serviço de excelência”.

Natália Inês da Costa


Presidente do Censa, que oferece atendimento
transdisciplinar para pessoas com deficiência
intelectual, de Betim (MG)
Maibe
Marocollo
F U N D A D O R A D A M AT T R I C A R I A ( D F )

“O mundo pede respeito à


natureza e ética nas relações
de consumo. A Mattricaria
traz essa visão”

“A tuo no mercado de moda desde 2007, mas


sempre sentindo uma certa frustração com
a profissão e com o descaso das marcas em relação a
questões como a produção de resíduos, mão de obra,
fast fashion e o impacto no meio ambiente. Trabalhei
em duas fábricas gerenciando produção, trabalhando
com marketing, decorando interiores de lojas, fazendo
vitrines, de tudo um pouco. No chão de fábrica, perce-
bi um alto grau de desperdício e comecei a questionar
profundamente o processo. Tentei emplacar projetos
de reaproveitamento de resíduos, até havia uma in-
tenção do mercado da moda de querer parecer susten-
tável, mas no fundo era uma adesão de faz-de-conta.

Desiludida com o mercado, fui para Londres


passar seis meses estudando inglês em um curso gra-
tuito e, paralelamente, procurar uma outra forma-
ção, mas acabei com uma proposta de mestrado que
resgatou meu interesse: desenvolvimento sustentá-
vel em moda. Durante o curso, na London College of
Fashion, comecei a refletir sobre os resíduos que a
produção de moda gerava. Qual era o impacto de tudo
isso? Na busca por métodos alternativos, estudei e fiz
muitas pesquisas sobre o processo de tingimento na-
tural. Quando concluí o mestrado, enfrentei o dilema
entre continuar na Europa, onde a consciência sobre a
necessidade de processos sustentáveis estava enraiza-
da, ou encarar o desafio de trazer isso para o meu país,
onde isso era quase inexistente. Decidi voltar e aplicar
aqui meu conhecimento.

Em 2011, de volta ao Brasil, passei a mapear as


plantas tintórias do cerrado brasileiro - como urucum,
açafrão, casca de cebola, espinafre, barbatimão, romã,
“Enfrentei o dilema entre
continuar na Europa, onde
a consciência sobre a
necessidade de processos
sustentáveis estava enraizada,
ou encarar o desafio de trazer
isso para o meu país”

acácia, jatobá - junto às cooperativas de artesãos têx-


teis no Distrito Federal, Goiás e Minas Gerais, que
utilizam receitas tradicionais de pigmentos e tintas
naturais. A partir daí, misturando os conhecimentos
adquiridos tanto aqui no Brasil como no exterior, criei
a Mattricaria, com o objetivo de pesquisar e mapear
plantas tintórias brasileiras e registrar receitas tradi-
cionais voltadas às práticas artesanais com foco em
têxteis. Em casa mesmo, a partir de uma cuidadosa
alquimia, folhas, flores, raízes e sementes viram co-
rantes. A partir deles, eu tinjo os tecidos de fibras na-
turais em um processo totalmente artesanal. No iní-
cio, montava pequenas coleções que eram vendidas
apenas para amigos e familiares. Mas as pessoas não
“No chão de fábrica, percebi
um alto grau de desperdício
e comecei a questionar
profundamente o processo”

se contentavam em comprar as peças, elas queriam


entender o processo. De onde vinham aquelas cores?
Quais eram as plantas? Passei, então, a compartilhar e
ensinar sobre essas práticas com cursos e workshops,
transformando o consumidor em protagonista da
mudança da cadeia produtiva da moda. Mais recen-
temente, também lançamos a nossa linha de corantes
naturais, dando ao consumidor a possibilidade de tin-
gir com segurança e praticidade em casa ou qualquer
outro ambiente. Isso lhe dá autonomia para criar a
sua própria peça e se apoderar do processo.

Atualmente, temos pontos que já revendem a


nossa linha de roupas em várias regiões do Brasil. Mas
somos criteriosos: analisamos o perfil da empresa que
entra em contato com a gente, checamos se ela real-
mente se preocupa em promover o consumo conscien-
te e verificamos como é feita a divulgação de vendas.
Não aceitamos estratégias apelativas e oportunistas.
Gosto de ser uma pequena empresa, até por ser um
trabalho artesanal, personalizado e natural, sigo o rit-
mo que a natureza me impõe, e não ao contrário. O
mundo pede sustentabilidade, respeito à natureza e
ética nas relações de consumo. A Mattricaria traz essa
visão em seus produtos e serviços. São folhas, flores,
raízes e sementes que imprimem no projeto a auten-
ticidade de um produto brasileiro; promovendo téc-
nicas de artesanato tradicional e o potencial da biodi-
versidade do cerrado brasileiro.

Não à toa, Mattricaria é o nome científico da Ca-


momila (Matricaria Chamomilla), que se refere à cal-
ma e à leveza. E, na contramão de um mundo cada vez
mais acelerado, essa é a nossa inspiração”.

Maibe Marocollo
Fundadora da Mattricaria, marca de
design e tingimento natural de fios,
papeis e tecidos, de Brasília (DF)
Milena
Curado
FUNDADORA DA
CABOCLA CRIAÇÕES (GO)

“Não somos apenas


produto, somos moda com
propósitos sociais”

“A cho que sou empreendedora desde a minha


adolescência. Meus pais tiveram comércios,
eu sempre gostei de trabalhar na área, e naquela época
já fazia artesanato e artes plásticas para vender. Mas a
ideia de abrir um negócio surgiu com a vontade de res-
significar a técnica de um bordado antigo, que aprendi
com a minha avó aos 8 anos de idade. Eu trabalhava
em um Cartório de Registro de Imóveis, um serviço
muito burocrático, e a vontade de criar, de ter liber-
dade de escolhas, me levou a começar uma produção
de moda artesanal nos meus momentos de folga, jun-
to com minha mãe e minha avó. No início fazíamos
roupas de algodão de sacaria com a iconografia da mi-
nha cidade, Goiás Velho. Tal qual se fazia antigamente
quando, na falta dos nobres tecidos da época, trans-
formava-se o algodão das sacarias em indumentárias
para seus habitantes menos afortunados. E eu queria
que nossas criações tivessem identidade e originalida-
de. Deu certo e, após seis meses, decidi pedir demis-
são e me dedicar exclusivamente ao meu negócio.

Assim, desde 2007 os desenhos feitos à mão e


os bordados livres, técnicas passadas de geração em
geração na nossa família, vêm dando vida às roupas
coloridas, bolsas e acessórios produzidos de forma ar-
tesanal pela Cabocla Criações. Mas eu queria mais do
que isso. Minha mãe e eu costurávamos e nós duas,
junto com a minha avó, fazíamos os bordados. Os de-
senhos nas peças sempre foram feitos por mim, um a
um. Quando o negócio começou a crescer, o tempo fi-
cou escasso para tantas responsabilidades. Como pre-
cisávamos nos dedicar aos bordados, terceirizamos a
parte de costura para duas costureiras que estão co-
nosco até hoje. Com o passar do tempo, também não
“A vontade de criar, de
ter liberdade de escolhas,
me levou a começar uma
produção de moda artesanal”

demos conta de seguir sozinhas com o bordado e sur-


giu uma ideia: por que não fazer parceria com mulhe-
res em cárcere? Eu precisava de pessoas que tivessem
tempo para se dedicar ao trabalho e elas precisavam
de alguém que lhes desse uma oportunidade.

No dia 12 de janeiro de 2008 fui pela primeira


vez à Unidade Prisional e, junto com minha mãe, fize-
mos uma capacitação em bordados. Elas eram pagas
por produção, e o nosso projeto foi reconhecido como
remissão de pena, ou seja, a cada três dias de trabalho,
um dia a menos de cadeia. Começamos com cinco mu-
lheres presidiárias, das quais duas tinham sido presas
com os maridos. Quando elas viram no Projeto Cabo-
cla essa oportunidade de renda e remissão, passaram
a aproveitar o domingo, dia da “visita íntima”, para
ensinar os companheiros a bordarem. Para a nossa
surpresa, eles se inseriram no projeto e o ofício tra-
dicionalmente feminino ganhou homens encarcera-
“Eu precisava de pessoas
que tivessem tempo para se
dedicar ao trabalho e elas
precisavam de alguém que lhes
desse uma oportunidade”

dos como multiplicadores. Eles acreditaram no meu


sonho e eu acreditei no potencial deles. Atualmente
mantemos vinte pessoas no projeto, 18 homens e 2
mulheres, e temos lista de espera para novos presos
que querem bordar. Em alguns casos, quando saem
para o regime semiaberto, eles continuam bordando
até arrumarem algum serviço. Em 11 anos de projeto
temos até alguns casos de inclusão no mercado de tra-
balho. Mais que uma marca de moda, a Cabocla Cria-
ções se tornou uma marca social. Não somos apenas
produto, somos moda com propósitos sociais, na pro-
moção do cuidado ao próximo.

Eu acredito muito que isso tem feito do meu ca-


minho no empreendedorismo mais leve e satisfatório.
Desafios, vamos superando um a um. Como estou no
interior, na pequena Goiás Velho, temos dificuldade
em comprar todas as nossas matérias primas aqui.
Mas o que a cidade nos oferece fazemos questão de
comprar aqui, para movimentar a economia local. Te-
mos apenas uma loja física, que é visitada por pessoas
do Brasil e do exterior. Não temos revenda em outros
pontos ou e-commerce, apenas divulgamos nossas
produções em mídias sociais e o nosso maior alcan-
ce é feito pela publicidade dos nossos clientes - 70%
são clientes fixos. E isso é reflexo de como nasceu a
Cabocla Criações: da simplicidade e da beleza de se
buscar enternecer com arte a lembrança de um tem-
po de escassez. Agora, o algodão, tecido que outrora
fora solução à pobreza, é exaltado em suas qualida-
des e potências criativas e recebe bordados de cores e
formas orgânicas, desenhados um a um. Pela Cabocla
Criações, o algodão vira obra de arte”.

Milena Curado
Fundadora da Cabocla Criações, marca de
roupas artesanais, de Goiás Velho (GO)
Débora
Rabelo
FUNDADORA DO CAFÉ ABRAÇO (MG)

“Nós ajudamos as
pessoas a transformar o
mundo através de uma
xícara de café”

“A agricultura e a vida na roça fizeram parte da


minha vida desde a infância. Sou mineira da
cidade de Itamarandiba, localizada no Vale do Jequi-
tinhonha, e cresci em meio à natureza, pois meu pai
era um agricultor familiar. Na adolescência fui para
Belo Horizonte para estudar, cursei comércio exterior
na PUC-MG e por muitos anos levei uma vida essen-
cialmente urbana. Mas, em 2010, o reencontro com a
agricultura me trouxe de volta para a terra, me ajudou
a rever a vida, as escolhas e me fez compreender que
um novo caminho iniciaria. Havia um chamado para a
minha atuação mais consciente no mundo.

Naquela época, fui trabalhar em um projeto na


área da cafeicultura em uma região do estado de Mi-
nas Gerais, conhecida como Matas de Minas. Jun-
to com uma equipe tínhamos por objetivo entender
como aquela região poderia se tornar mais reconhe-
cida e competitiva no setor. Em uma das minhas idas
à região, visitamos uma pequena Associação de café
Fair Trade (comércio justo, em português), e eu fi-
quei tocada com todos os desafios e obstáculos que os
produtores compartilharam conosco. Saí emocionada
da reunião, com lágrimas nos olhos e refletindo sobre
como eu poderia, de fato, ajudar os pequenos cafei-
cultores a serem melhor remunerados e reconhecidos
para poderem trabalhar de forma digna e saudável em
suas propriedades. Aquela fase foi o início de um perí-
odo de transformação na minha vida.

Um ano depois eu deixei meu emprego, morei


por alguns meses em Nova York, voltei para o Brasil
em 2012, trabalhei em outras áreas e empresas, até
que em 2014 comecei a minha jornada empreendedo-
“A proposta é reestabelecer o
vínculo entre consumidores e
produtores, criando uma cadeia
produtiva do café mais saudável”

ra. Fiz consultorias, escrevi cases sobre negócios com


propósito e em um deles me conectei com o Gusta-
vo Mamão, que viria a ser meu sócio. Em 2017, final-
mente nasceu o Café Abraço, uma empresa que atua
na interconexão do Comércio Justo (Fair Trade), da
produção agroecológica ou orgânica, e da agricultura
familiar.

Começamos com o modelo de venda de paco-


tes de café para o consumidor degustar em casa e,
em 2018, iniciamos com o FoodService. Somos par-
ceiros de pequenos produtores de cafés de qualida-
de que atuam com práticas agrícolas resilientes. Nós
ajudamos as pessoas a transformar o mundo através
de uma xícara de café. A proposta é reestabelecer o
vínculo entre consumidores e produtores, criando
uma cadeia produtiva do café mais justa e saudável.
O Café Abraço tangibiliza essa visão, dando o devido
“O reencontro com a
agricultura me trouxe de
volta para a terra”

crédito a cada produtor, pagando o preço justo pela


saca, e tendo na sua escolha de compra, critérios que
favoreçam o impacto positivo socioambiental. Nossos
cafés são vendidos em pacotes de 250 gramas, moídos
ou em grãos. Cada pacote possui a foto e uma frase
do cafeicultor que produziu aquele café. Hoje temos,
aproximadamente, 45 pontos de venda nos estados de
MG, SP, RJ e Goiás. De 2017 até 2018 lançamos cafés
de 07 produtores.

Os cafés da nossa marca são todos especiais, e


isso quer dizer que eles passaram por um protocolo
de avaliação sensorial internacional da SCA – Spe-
cialty Coffee Association (Associação Internacional
de Cafés Especiais) — os cafés que possuem entre 80
e 100 pontos conforme os critérios de avaliação são
considerados de qualidade superior. Mas é mais que
isso: para nós, o que torna um café especial é também
a forma como ele foi produzido. É especial saber se
as pessoas estão vivendo bem, comendo bem, se elas
são saudáveis no seu ecossistema territorial. Antes
do café há um ser humano ali, trabalhando de sol a
sol, lidando com todos os fenômenos naturais para
entregar um produto de qualidade e ser remunera-
do de forma justa por ele. Nossa maior conquista é
ver o sorriso dos produtores quando recebem seus
cafés com a fotografia deles no rótulo. Ali não tem
dúvida: é o café do Sr. Vicente, da dona Aparecida e
Sr. Laerte, da dona Daisy, do Lázaro, do Márcio, do
Euzébio e do Júlio. Isso é muito bonito, é o que me
nutre todos os dias.”

Débora Rabelo
Fundadora do Café Abraço, marca de cafés, que
fortalece a produção da agricultura familiar, de
Belo Horizonte (MG)
Bia
Santos
FUNDADORA DA BARKUS (RJ)

“Meu maior propósito é


ver meu país inteirinho
financeiramente saudável,
usando o crédito de forma
consciente e investindo”

“S empre brinco que o empreendedorismo me pe-


gou desprevenida, porque não foi planejado.
Quando me dei conta, estava abraçando meu propó-
sito, organizando os números, atendendo clientes e
tocando um negócio. Tenho essa atitude desde a ado-
lescência. Sempre tive o perfil de aceitar todos os desa-
fios, me jogar, dar o meu melhor, mesmo sem saber o
que viria. Essa atitude sempre esteve em mim, mesmo
não tendo uma empresa. Mas só fui entender isso de
verdade há pouco tempo.

Comecei a empreender a Barkus há três anos,


mas a ideia surgiu de um projeto de iniciação científi-
ca de ensino médio em 2012. Nessa época eu, Marden
e Wallace, os fundadores, estudávamos na mesma sala
de aula. A escola abriu uma chamada para projetos de
pesquisa e propusemos a Educação Financeira como a
solução para o problema de consumo exagerado e sem
planejamento, depois de realizar uma pesquisa com
mais de 200 jovens. O que fizemos foi, literalmente,
traduzir o economês dos livros sobre educação finan-
ceira para uma linguagem jovem, divertida e mais
leve. Mas chegou o vestibular, cada um foi para um
curso diferente - estudei Administração na Universi-
dade Federal do Rio de Janeiro, onde me formei - e
nos afastamos.

Já em 2015, nos reencontramos e percebemos o


quanto ter tido acesso àqueles conhecimentos foi im-
portantíssimo. Nós tínhamos um controle financeiro,
um planejamento organizado de curto, médio e lon-
go prazo, e já investíamos. Decidimos, então, unir os
propósitos e espalhar os conhecimentos de educação
financeira para mais e mais jovens como nós.
“O que fizemos foi,
literalmente, traduzir o
economês dos livros sobre
educação financeira para uma
linguagem jovem”

A Barkus surgiu em maio de 2016 como um ne-


gócio de impacto social de inclusão e educação finan-
ceira com foco em grupos minorizados, com o pro-
pósito de democratizar o acesso a conhecimentos de
finanças pessoais, evitar o endividamento e incentivar
a população a investir. O nosso maior objetivo é aju-
dar outros jovens a entenderem suas próprias finan-
ças pessoais e começarem a investir de forma fácil, di-
vertida e prática. Somos uma das primeiras empresas
no Brasil a pensar nesse nicho e a construir o conhe-
cimento de Educação Financeira através de metodo-
logias ativas e personalizadas, em que os alunos são
os reais protagonistas da aprendizagem. Hoje, temos
dois produtos principais: o Libertas e o Atlas. O Li-
bertas é uma metodologia voltada para grupos, que
trata da organização dos gastos, planejamento para
objetivos, uso do crédito de forma consciente, intro-
dução a investimentos e investimentos de renda fixa.
“O nosso maior objetivo
é ajudar outros jovens a
entenderem suas próprias
finanças pessoais”

Já o Atlas é um curso livre de educação financeira para


crianças e adolescentes entre 11 e 17 anos com foco no
desenvolvimento de competências socioemocionais.

Nós começamos de forma muito filantrópica e


isso não se perdeu: trabalhamos com financiamen-
to cruzado, ou seja, dedicamos parte da receita de
projetos em empresas privadas para a realização de
oficinas e cursos gratuitos em instituições públicas,
levando os mesmos temas com a mesma qualidade
para quem não pode pagar por isso. Hoje, mais de
5.600 pessoas já passaram pela Barkus e, destas,
3.500 foram de forma gratuita. O impacto disso é
enorme, especialmente em um país onde mais de
12 milhões de jovens entre 18 e 29 anos estão ina-
dimplentes. Número crescente, ano após ano. E é
por isso que nós existimos: para apoiar as pessoas na
construção de atitudes e comportamentos financeira-
mente mais saudáveis, que ajudem no momento de
tomar decisões.

Hoje, estou como diretora executiva da Barkus.


Cuido mais da gestão organizacional e da área comer-
cial, atraindo novas parcerias e tomando as decisões
mais estratégicas. Como somos oito colaboradores,
uma equipe enxuta, também faço parte das decisões
de outras áreas, como a financeira, jurídica e de recur-
sos humanos. Mesmo estando nesta posição, tenho
muita dificuldade em me desapegar da sala de aula,
então ainda facilito oficinas e cursos junto da equi-
pe. Ou seja, sou realmente uma faz-tudo. E amo!
Meu maior propósito é ver meu país inteirinho finan-
ceiramente saudável, planejado, usando o crédito de
forma consciente e investindo. Não tem nada que me
deixaria mais realizada, ainda mais sabendo que fiz
parte disso”.

Bia Santos
Fundadora da Barkus, que visa levar a educação
financeira e o empreendedorismo para jovens e
adultos, do Rio de Janeiro (RJ)
CAPÍTULO

4
DIVERSIDADE
e
INCLUSÃO
que
ENRIQUECEM
Marioli
Oliveira

Amanda
Momente
FUNDADORAS DA WONDERSIZE (SP)

“Acreditamos que dentro de


todo corpo existe um indivíduo
que deve ser respeitado”

“A parceria vem da infância. Eu e a Amanda nos


conhecemos desde os nove anos de idade e,
por incrível que pareça, naquela época ela já tinha esse
perfil comercial. E é de família. Seu pai e sua mãe são
empreendedores natos, e ela sempre teve esse exem-
plo dentro de casa. Quando a Amanda voltou grávida
de uma temporada nos Estados Unidos, em 2013, eu a
acompanhei bem de perto. Após a gestação, com cerca
de 140 quilos, ela queria voltar a praticar exercícios,
mas era difícil encontrar roupas que expressassem seu
estilo e lhe dessem mobilidade. Coincidentemente, na
mesma época eu estava retornando ao trabalho após
uma licença maternidade, quando meu chefe comuni-
cou que eu não seria promovida, justamente por conta
da licença. E eu estava lutando por aquela promoção
há quase dois anos.

De um lado, a Amanda resolveu produzir as pró-


prias roupas de ginástica com o auxílio de uma costu-
reira e recebeu inúmeros elogios pelas suas criações
que tinham o seu tamanho e a sua cara. Logo enxer-
gou ali uma grande oportunidade. Eu, por outro lado,
percebia que, para dar condições melhores ao meu
filho, seria necessário ter meu próprio negócio; infe-
lizmente as empresas ainda têm muito preconceito
com a figura da mãe. Juntamos nossas experiências -
Amanda formada em Negócios Imobiliários e eu, Ma-
rioli, coordenadora de design em uma multinacional
de auditoria e consultoria - e criamos a WonderSi-
ze, uma marca de roupas fitness com a proposta de
ajudar outras mulheres que sofriam com a dor de não
encontrar peças adequadas para o seu corpo. Criamos
“Acreditamos na inclusão
verdadeira e sempre
estamos enxergando além”

peças com muito cuidado, pensando nas necessidades


das mulheres plus size, como leggings e bermudas que
não ficam transparentes e que têm o cós que não enro-
la, em tamanhos que vão até o 66.

Eu vendi dez dias das minhas férias para levan-


tar capital, a Amanda juntou um dinheiro que tinha
guardado e fizemos a primeira legging. Como desig-
ner, fiquei responsável por criar a estratégia de marke-
ting e Amanda ficou responsável pelo comercial. No
começo chamávamos a legging de ‘a pretinha básica
que você precisa ter’. O pai da Amanda disse: ‘vocês
não podem chamar esta calça assim! Precisam de um
nome porque ela é única’. Assim, nossa primeira peça
foi batizada de Joana Dark, a legging com a qual nos-
sa cliente enfrentaria qualquer batalha do dia a dia e
voltaria ilesa.

O lançamento da marca foi em agosto de 2017,


no desfile do São Paulo Fashion Week Plus Size, de-
pois de montar toda a coleção em apenas um mês. Foi
“Se a peça não interagir de forma
funcional com as curvas da nossa
cliente, ela é revista”

uma loucura. Brinco que, na nossa ignorância, nós nos


jogamos. Mas, se soubéssemos o quanto seria difícil,
talvez ainda estivéssemos nos planejando até hoje.
Calculamos quantas calças teríamos de vender para
pagar o desfile e fomos na raça e na coragem. Duas
semanas depois já havíamos vendido cerca de R$ 30
mil. E não aconteceu por acaso. Nossas modelagens
são únicas, desenvolvidas para o corpo de uma pes-
soa gorda. Mulheres que, por muito tempo, não eram
representadas pela moda, e queremos que isso acabe.
Não fazemos apologia à obesidade, só acreditamos
que dentro de todo corpo, independentemente de cor,
orientação sexual ou peso, existe um indivíduo que
tem direitos e que deve ser respeitado.

Hoje nós desenvolvemos os modelos e as cole-


ções e uma confecção terceirizada produz as peças. Se
a peça não interagir de forma funcional com as cur-
vas da nossa cliente, ela é revista. E já lançamos vários
produtos únicos, como o roupão que veste até o 66 e
a legging meia-calça que não tem o pezinho e facilita
o vestir. Chamamos este modelo de Hebe, uma home-
nagem à apresentadora Hebe Camargo que, indepen-
dente da sua idade, nunca teve vergonha de mostrar
as suas pernas. Pensamos nossas peças para que as
clientes também se sintam assim, seguras e confortá-
veis com seus corpos, que elas entendam que podem
e merecem ocupar todos os espaços públicos e fazer
suas próprias escolhas. Esse impacto social com toda
a certeza é a nossa maior conquista. O retorno que te-
mos das clientes dizendo o quanto se sentem repre-
sentadas e inspiradas a mudar as suas vidas é maravi-
lhoso! Acreditamos na inclusão verdadeira e sempre
estamos enxergando além. Enquanto olham para a
nossa grama, estamos mirando as estrelas”.

Marioli Oliveira é sócia


de Amanda Momente
Fundadoras da WonderSize, marca de roupas
fitness plus size (SP)
Alexya
Salvador
F U N D A D O R A D O AT E L I Ê
A L E X YA S A LVA D O R ( S P )

“A minha vida toda foi um


afrontamento e resistência
constantes”

“C resci cercada de muito amor. Meus pais sem-


pre estiverem presentes e lutaram para que eu
e a minha irmã tivéssemos o mínimo para sobreviver.
Mas eu sentia que eu era diferente das outras crian-
ças. Com o passar do tempo fui me percebendo LGBT,
apesar de nem saber o que isso significava na época.
Era meados da década de 1980 e eu não tinha referên-
cias sobre esses termos, sobre essas realidades. Só fui
de fato me entender e me aceitar como uma mulher
trans com quase 30 anos de idade. E ser uma criança
transgênera fez da escola o pior lugar em que eu po-
deria estar. Apanhava quase todos os dias, sofria com
preconceito porque destoava dos demais alunos. Eu
falava que um dia eu voltaria para a escola para ser a
professora que eu não tive: aquela que conversa e vai
além dos saberes pedagógicos de sala de aula, abor-
dando questões como respeito e cidadania. Foi exata-
mente o que aconteceu. Cursei a faculdade de Letras,
me tornei professora de português e inglês, e ainda
tenho formação em Pedagogia e Teologia.

A minha vida toda foi assim: um afrontamento


e resistência constantes. Casei em 2011, quando o Su-
premo Tribunal Federal reconheceu a união estável
homoafetiva, e somos pais de três crianças adotivas:
Gabriel, um menino de 9 anos com necessidades in-
telectuais especiais, e Ana Maria e Daisy, duas meni-
nas trans. Hoje nós estamos na configuração de famí-
lia transafetiva. Uma família comum como qualquer
outra, com os mesmos ideais e desafios. Um deles foi
conciliar a minha rotina profissional com a rotina de
mãe. Quando o Gabriel chegou, em 2015, eu era uma
professora contratada do Estado, e dava aula nos três
turnos. Quando ele chegou eu reorganizei nossas vi-
“O que surgiu, inicialmente,
da necessidade de ter uma
outra renda e propiciar uma
vida melhor para meus filhos,
se tornou algo muito maior”

das de forma que eu desse aula enquanto ele estivesse


na escola, para no outro período ficar livre para cui-
dar dele. O salário, obviamente, caiu pela metade. Foi
quando procurei algo que eu pudesse fazer em casa e
ter outra renda. Um dia, por acaso, estava visitando
a avó do meu marido e ela me emprestou sua máqui-
na de costura, um modelo bem antigo, de ferro preto.
Eu nunca tinha costurado, mas trouxe a máquina para
casa e comecei a procurar no Youtube por tutoriais
de modelagem para aprender. A partir daí eu desco-
bri que tinha o dom da costura, me apaixonei por esse
universo e criei o Ateliê Alexya Salvador.

Comecei fazendo aventais de professoras e deu


muito certo. Passei a fazer pijamas, depois roupas, e o
negócio foi crescendo a ponto de a máquina de costu-
ra já não atender a minha demanda e eu precisar in-
“Uma mulher transgênera,
negra e da periferia é capaz de
chegar onde quer”

vestir mais no negócio. Comprei uma máquina nova,


mas chegou um momento que ela, por ser doméstica,
também não aguentava mais o volume e o ritmo da
produção. Foi hora de comprar minha primeira má-
quina industrial. Usada, mas industrial! Mas foi com
a máquina de bordados e a produção de enxovais de
bebê que o ateliê atingiu um outro patamar. Também
parti para o universo da sublimação, uma técnica de
estamparia. Agora crio as minhas estampas e perso-
nalizo o desenho que o cliente quer, o que ampliou o
meu leque de vendas.

O que surgiu, inicialmente, da necessidade de ter


uma outra renda e propiciar uma vida melhor para os
meus filhos, se tornou algo muito maior. O meu traba-
lho no Ateliê Alexya Salvador mostra que as pessoas
transgêneras podem ser empreendedoras. Ainda que
façam de tudo para deslegitimar a minha condição fe-
minina, a minha maternidade e o que produzo como
empreendedora, provo, todos dias, que uma mulher
transgênera, negra e da periferia é capaz de chegar
onde quer. E estou próximo de chegar lá. Venho per-
correndo esse caminho em todos os aspectos da mi-
nha vida: com a minha militância, com o meu corpo,
com a minha história. E isso tudo engloba a minha
maternidade, minha fé, meu negócio.

Para o futuro, meu sonho é ter uma cooperativa


de pessoas trans em situação de rua, onde eu ensine o
pouco que eu aprendi, para que elas possam se colocar
no mercado de trabalho e tenham sua dignidade recu-
perada. Muitas só precisam de uma oportunidade, de
voltar a estudar, ter um emprego. E eu quero muito
que o meu trabalho possa ajudá-las a ter uma fonte de
renda e uma vida mais digna”.

Alexya Salvador
Fundadora do Ateliê Alexya Salvador,
que confecciona acessórios bordados e
personalizados, de Mairiporã (SP)
Michelle
Fernandes
FUNDADORA DA BOUTIQUE
DE KRIOULA (SP)

“Já sofri muito preconceito


por usar turbantes, mas eles
me fazem andar de cabeça
erguida e postura ereta”

“E ra final de 2012 quando fui demitida do meu


emprego de auxiliar administrativa. Terminei
aquele ano desempregada e sem perspectivas de con-
seguir uma nova oportunidade de trabalho. Naquele
momento eu também passava por uma outra grande
mudança e descoberta: a transição capilar, quando
raspei a cabeça para retirar a química dos fios alisados
e, pela primeira vez, descobrir como eles eram natu-
ralmente. É um período em que você fica meio inse-
gura com a própria aparência e passei a procurar por
produtos e acessórios que me ajudassem a valorizar
minhas características de mulher negra. Só que eu não
me reconhecia em nada do que encontrava e percebi
que se quisesse uma transformação, eu mesma teria
que promovê-la. Já havia em mim a vontade de em-
preender e decidi fazer algo que tivesse ligação com
a fase que eu estava vivendo: oferecer produtos para
mulheres que, negras e gordas como eu, nunca se sen-
tiram bonitas nem reconhecidas no mercado da moda.
Desse desejo nasceu a Boutique de Krioula.

Eu usava muito turbante e isso provocava curio-


sidade e interesse nas minhas amigas. Enxerguei ali
uma oportunidade de aliar empreendedorismo e pro-
pósito. Com um pequeno investimento inicial de R$
150, fiz meus primeiros turbantes para vender, criei
uma página nas redes sociais e comecei a avisar as
pessoas. Na época, meu marido, Célio, trabalhava na
indústria têxtil e, às vezes, trazia retalhos para eu trei-
nar novas amarrações, o que me deu a ideia de criar
um canal de tutoriais no YouTube. Uma amiga foi fa-
lando para a outra e as primeiras vendas começaram
a acontecer. Eu levava meus varais de turbantes para
eventos de cultura negra e encontros da periferia, mas
“Eu não me reconhecia em nada
do que encontrava e percebi que
se quisesse uma transformação,
eu mesma teria que promovê-la”

rapidamente o negócio começou a crescer ao ponto


em que se fez necessária a criação do site para melhor
atender a quantidade de clientes ao redor do Brasil.

A Boutique de Krioula visa valorizar a cultura


afro-brasileira por meio de seus produtos. Trabalha-
mos com tecidos africanos, importados diretamente
de países como Angola e Senegal, e contamos com
uma linha de afro-joias, como brincos e anéis. São
peças exclusivas, com muitas cores e estampas, todas
desenhadas pelo Célio, meu marido e sócio, que é gra-
fiteiro. Em 2013, quando a empresa passou a vender
mais, ele pediu demissão e veio trabalhar comigo em
tempo integral. Em nosso ateliê no Capão Redondo,
periferia da zona sul de São Paulo, ele desenvolve os
desenhos e cuida de toda parte de design da marca,
enquanto eu cuido do marketing e redes sociais, por
onde tenho contato direto com as minhas clientes.
“A mulher negra é protagonista
da minha marca. Para ela, o
turbante não é só acessório,
é uma forma de resgatar suas
raízes. E eu, as minhas”

Hoje temos representantes em Salvador, no Rio


de Janeiro e em Angola, e contamos com vendas em
lojas colaborativas. A internet, no entanto, ainda é
nossa principal fonte de captação de clientes e vendas,
então me dedico bastante em fazer um conteúdo de
qualidade. Nessa nossa trajetória, fomos inspiração
para a criação de outras marcas de moda afro-brasilei-
ra e isso, além de orgulho, nos faz querer inovar, sair
da zona de conforto. Então, estou sempre fazendo cur-
sos, buscando mentorias, estudando o mercado para
poder melhorar ainda mais meus produtos e entender
meu cliente. Recentemente, participei de um progra-
ma de aceleração que me incentivou a desenvolver
planos mais robustos. Foi o estímulo que eu precisava
para desenvolver planos mais robustos e conseguir fe-
char aquele ano com a venda total de 1500 turbantes
e 2000 brincos.
Já foram muitas as conquistas. Conheci grande
parte do Brasil, tive a oportunidade de estar com pes-
soas incríveis e palestrar em eventos contando a minha
história. Ainda tenho grandes sonhos, como partici-
par do Afropunk e o Curly Day, eventos que aconte-
cem em Nova York. Mas ouvir de clientes que a partir
dos meus produtos ela se reencontraram e elevaram
sua autoestima, não tem preço. Já sofri muito precon-
ceito por usar turbantes, mas eles me fazem andar de
cabeça erguida e postura ereta. É isso que quero trans-
mitir com o meu trabalho, que as mulheres negras se
orgulhem de suas raízes e se sintam confiantes. A mu-
lher negra é protagonista da minha marca. Para ela, o
turbante não é só acessório, é uma forma de resgatar
suas raízes. E eu, as minhas”.

Michelle Fernandes
Fundadora da Boutique de Krioula, e-commerce de
moda afro-brasileira, de São Paulo (SP)
Priscila
Vaiciunas
FUNDADORA DO MANAS À OBRA (SP)

“Meu maior desafio é ainda


ter de ouvir que o que
proponho é loucura”

“A ideia nasceu há mais de dez anos, quando eu


ainda estava finalizando o curso técnico em
Edificações: uma vontade enorme de ter uma empre-
sa composta exclusivamente por mulheres. Os anos se
passaram, percorri outros caminhos profissionais até
que, em 2013, fui demitida. Fiquei dois anos desem-
pregada, sem conseguir me recolocar no mercado de
trabalho. Um dia, conversando com a minha sogra,
ela comentou que tinha visto uma reportagem sobre
‘Maridos de Aluguel’ na televisão e questionou se eu
não sabia realizar pequenos reparos em residências.
Pensei que poderia ser uma oportunidade interessan-
te. Eu já possuía as ferramentas, então comecei a ofe-
recer o serviço para amigos e conhecidos e logo atendi
minha primeira cliente. Surgia o Manas à Obra, que,
em apenas quatro meses de funcionamento, já estava
com a agenda lotada.

Contrariando o paradigma de que isso ou aqui-


lo não é serviço para mulheres, nós oferecemos os
serviços de ‘mana de aluguel’, uma brincadeira com
o termo ‘marido de aluguel’, que incluem desde uma
manutenção simples, pintura, repaginação e reforma
de ambientes e espaços até serviços técnicos para re-
sidências, pequenos comércios e negócios. Também
elaboramos laudos técnicos, inspeções e vistorias de
imóveis e de obras e consultorias. Ou seja, fazemos de
instalação de chuveiros e torneiras ou troca de resis-
tência e sifão a projetos elétricos e de repaginação de
ambientes. Tudo isso feito por uma equipe majorita-
riamente composta por mulheres e pessoas transexu-
ais. Apenas em casos de obras maiores, contamos com
uma equipe mista. Todos são certificados e os serviços
contam com garantia de três meses.
“Nosso principal objetivo é
atuar no mercado da construção
mostrando que é possível haver
diversidade e respeito”

Essa inclusão, fundamental para mim, é o dife-


rencial do Manas à Obra em um mercado extrema-
mente masculino e preconceituoso. Desde 2015, quan-
do comecei a divulgar meu trabalho nas redes sociais,
foram vários os relatos que recebi de mulheres e pes-
soas LGBT+ sobre situações de assédio, abuso e dis-
criminação ao contratarem os serviços de um encana-
dor, eletricista, técnicos de telefonia ou TV a cabo, por
exemplo. Elas acabavam tentando resolver o proble-
ma sozinhas ou mesmo adiando um conserto para não
ter que passar por nenhum tipo de constrangimento.
Era inacreditável o desrespeito desses profissionais.
Por isso, o Manas à Obra é mais que uma empresa de
reparos domésticos, ela nasceu da necessidade de as-
segurar a integridade física, moral, social e psicológica
de mulheres e pessoas LGBT+. Nosso principal objeti-
vo é atuar no mercado da construção mostrando que é
possível haver diversidade e respeito.
“Vale a pena quando percebo
que posso deixar um legado
de amor e empatia, provar que
ser mulher não nos limita aos
cuidados com casa e filhos”

Não tem sido fácil. Por ter escolhido um merca-


do formado em sua maioria por homens - o que difi-
culta a minha procura por mão de obra especializada
-, ainda sou a responsável por praticamente 90% das
atividades da empresa. Respondo e-mails, faço visitas,
elaboro orçamentos, atendo clientes, agendo os servi-
ços e administro o negócio. Mas vale a pena quando
percebo que posso deixar um legado de amor e empa-
tia, provar que ser mulher não nos limita aos cuidados
com a casa e os filhos.

Ao olhar para o futuro, tenho alguns planos: au-


mentar a demanda e contratação de serviços de obra
e reforma, qualificar mão de obra, ingressar no setor
de energia solar, aprimorar mão de obra para cons-
truções sustentáveis e realizar algumas parcerias.
Mas, três anos depois, meu maior desafio é ainda ter
de ouvir que o que proponho é loucura, que não vai
dar certo, que estou deixando de ganhar dinheiro que-
rendo trabalhar apenas com mão de obra de mulheres
e LGBTs+. Eu geralmente concordo com a pessoa e
justifico minha escolha dizendo que não faço isso por
dinheiro, faço por amor, faço porque acredito que o
mercado de trabalho tem espaço para todos e que as
pessoas que priorizo contratar como parceiras de ser-
viço têm muito mais a oferecer e agregar na minha luta
diária dentro da sociedade. E é por esse sonho que vou
continuar existindo e lutando mesmo com toda adver-
sidade e cansaço”.

Priscila Vaiciunas
Fundadora do Manas à Obra, que oferece serviços
de reforma e reparos domésticos feitos por
mulheres e pessoas LGBTs+ (SP)
Elizandra
Cerqueira
FUNDADORA DO BISTRÔ
MÃOS DE MARIA (SP)

“Abracei a missão de garantir


liberdade, independência
financeira e autoestima
para outras mulheres da
comunidade onde cresci”

“E u nasci, no sertão baiano, em uma cidadezinha


chamada Poções. A terceira de cinco filhos.
Quando eu tinha um ano de idade os meus pais deci-
diram, assim como muitas outras famílias nordestinas
nos anos 1970, tentar a vida na grande cidade. Na épo-
ca, o Morumbi, bairro rico da zona oeste de São Paulo,
ainda estava em expansão e precisavam de muita mão
de obra na construção civil. E, assim, fomos morar
no bairro vizinho, uma favela que surgia bem ao lado
dos prédios luxuosos, chamada Paraisópolis. Naquela
época, crescia na mesma velocidade que o bairro no-
bre, e, hoje, é a maior favela de São Paulo. Enquanto
o meu pai trabalhava como pedreiro, minha mãe era
empregada doméstica.

Em Paraisópolis me criei e cresci com o sonho de


fazer faculdade. Ainda no colégio, entrei para o Grê-
mio Estudantil, inspirada por um amigo que foi pre-
sidente anteriormente, me tornando uma liderança
na escola e uma referência feminina na comunidade.
Quando terminei o ensino médio, fui convidada para
fazer parte da União dos Moradores e foi dessa expe-
riência incrível que, em 2006, fundamos a Associação
de Mulheres de Paraisópolis (AMP). Eu já me sentia
empoderada, o que me motivou a querer transformar
Paraisópolis. Abracei a missão de garantir liberdade,
independência financeira e autoestima para outras
mulheres da comunidade onde cresci.

Nessa mesma época, comecei a trabalhar em


uma agência de publicidade. A área da comunicação já
me encantava, fiquei muito feliz, mas logo me frustrei.
Sofri preconceito, era tratada com diferença, fui humi-
lhada algumas vezes. Cheguei a duvidar de mim mes-
“Eu não acredito no
empoderamento feminino
sem independência
financeira”

ma, mas não desisti. Fiz um cursinho pré-vestibular


aos finais de semana e, em 2008, consegui uma bolsa
integral para uma das universidades mais renomadas
em publicidade de São Paulo. Quando fui demitida da
agência, decidi focar minha energia na faculdade e nos
trabalhos sociais.

Passei pela Escola do Povo, onde o foco era o


analfabetismo, e depois estive à frente da Agência de
Empregos de Paraisópolis, por onde consegui empre-
gar mais de 3 mil moradores da favela em empresas
de diversos portes. Há dois anos, quando me tornei
presidente da AMP, resgatei um projeto de cursos de
capacitação em gastronomia para mulheres que já ha-
via na comunidade, cujo objetivo era a geração de ren-
da e o incentivo à prática empreendedora. O resultado
foi a criação de uma plantação comunitária e o projeto
Horta na Laje, com oficinas de plantio e incentivo ao
cultivo de hortas orgânicas em casas de moradores. As
“Eu já me sentia empoderada,
o que me motivou a querer
transformar Paraisópolis”

participantes são assessoradas mensalmente por um


técnico da União dos Moradores e, a cada dois meses,
por dois doutores em agronomia da Unesp (Universi-
dade Estadual Paulista). Deu tão certo que a produção
de temperos e hortaliças aumentou e resolvemos criar
um bistrô para usar parte dos alimentos. Foi quando
surgiu o Bistrô & Café Mãos de Maria.

Inaugurado em setembro de 2017, o Bistrô Mãos


de Maria tem um prato diferente para cada dia da se-
mana, como carne de panela, galinhada, frango, mo-
queca e feijoada. Tudo feito com temperos, verduras
e legumes colhidos diretamente na horta da laje – or-
gânicos, sem agrotóxicos. Em média, servimos 30 al-
moços por dia, no valor de R$ 20 cada um. Vem mo-
radores da comunidade, vizinhos do Morumbi e até
estrangeiros! E todas as funcionárias são moradoras
capacitadas pelos nossos cursos – damos preferên-
cia para as que estavam fora do mercado de trabalho
ou passando por alguma dificuldade, como violência
doméstica. Hoje, além de empregarmos seis pessoas,
recebemos em torno de 700 clientes e faturamos cer-
ca de R$ 15 mil por mês, com lucro revertido para a
capacitação de mais mulheres.

Eu não acredito no empoderamento feminino


sem independência financeira e o bistrô é a represen-
tação da liberdade. Nossas Marias não poderiam estar
em outro lugar a não ser no coração da comunidade,
em nossa laje gourmet, entre temperos e hortaliças,
empoderando outras mulheres através da indepen-
dência financeira, na quinta maior favela do Brasil,
com mais de 100 mil habitantes. Acreditamos que
toda menina e toda mulher tem o direito de ser livre e
escolher tudo aquilo que ela deseja ser”.

Elizandra Cerqueira
Fundadora do Bistrô Mãos de Maria, negócio
social que capacita e emprega mulheres da
comunidade Paraisópolis, de São Paulo (SP)
CAPÍTULO

5
INOVAÇÃO
à toda
PROVA
Bianca
Laufer
FUNDADORA DA GREENPEOPLE (RJ)

“Meu sonho é provar que se


alimentar bem e de forma
saudável não é moda, é uma
tendência mundial”

“O meu interesse pela saúde e nutrição surgiu


ainda na adolescência. Eu tinha 15 anos quan-
do minha autoestima começou a ser medida em gra-
mas e entrei em um processo de anorexia. Foi um pe-
ríodo muito doloroso, em que eu emagrecia a cada dia
e, no final de um ano, eu só estava comendo cenoura.
Com a ajuda da família e tratamentos, comecei a cura
da doença. O medo de engordar acabou por me apro-
ximar de nutricionistas e me incentivou a reencontrar
o prazer na alimentação. Ao longo dos anos mergulhei
em cursos de nutrição que me mostraram a importân-
cia de uma refeição saudável e, ao me curar, a busca
por uma alimentação equilibrada virou meta. Hoje,
mais do que meta, é negócio.

Economista, trabalhei por anos no mercado fi-


nanceiro em Nova York e, naquele dia a dia frenéti-
co, eu descobri que tinha um espírito empreendedor.
Quando meu primeiro filho nasceu e eu parei de traba-
lhar, a preocupação em escolher a dedo os alimentos
que entravam em casa aumentou. Então, fui estudar
sobre alimentos, me formando em cursos de terapeuta
de saúde pelo Institute of Integrative Nutrition (IIN)
e de superalimentos. Tempos depois, durante uma
viagem com a família para Maui, no Hawaí, conheci a
técnica do suco prensado a frio e, naquele momento,
me deu um clique: ‘puxa, isso tem tudo a ver com o
Rio de Janeiro’. Desejava ser a primeira a fazer esse
tipo de produto aqui, mas não queria trazer uma mar-
ca de fora para dentro do Brasil.

A ideia era tropicalizar esse conceito, oferecer um


produto com a cara do Rio e com ingredientes brasilei-
ros, adaptado ao nosso paladar e nossa riqueza de frutas.
“A Greenpeople representa
uma nova fase na minha vida,
onde a densidade nutritiva é
muito mais importante que a
contagem de calorias”

Comecei a fazer milhares de testes na minha


cozinha mesmo, com uma máquina de suco prensa-
do que trouxe na mala de uma viagem. Convidava os
amigos para que experimentassem os sabores, tudo
sempre misturado à rotina como mãe de dois filhos,
com crianças correndo para lá e para cá. E assim sur-
giu, em 2014, a Greenpeople, uma empresa de sucos
prensados a frio e snacks que representa uma nova
fase na minha vida, onde a densidade nutritiva é mui-
to mais importante que a contagem de calorias. Apos-
tamos na prensagem a frio, processo que preserva as
propriedades nutricionais durante a extração do suco
de frutas, verduras e legumes frescos. Assim, evitamos
maior contato dos ingredientes com o oxigênio e pre-
servamos nutrientes mais sensíveis a oxidação, além
de extrair o máximo do sumo nutritivo das frutas e
hortaliças. Hoje, somos a única empresa de bebidas
a usar o processamento com alta pressão ou HPP (do
“As combinações precisam ser
inovadoras, ter qualidade e
sabor final prazeroso, como
uma poção mágica!”

inglês High Pressure Processing) no Brasil, e que nos


permite garantir as mesmas condições de frescor, sa-
bor e nutrientes com um prolongamento significativo
da validade dos sucos - ampliamos de 3 para 60 dias.
Com a evolução da marca, o mix foi ampliado para a
produção de snacks saudáveis e desidratados (muitos
deles feitos com parte do que sobra após a prensagem
dos sucos), água de coco e leites vegetais.

Os produtos da Greenpeople são, acima de tudo,


gostosos. Com o adicional de serem produzidos sem
conservantes ou aditivos químicos, com técnicas que
respeitam o potencial nutricional de cada alimento.
Faço questão de participar de todas as decisões e estou
à frente das pesquisas de tendências, do desenvolvi-
mento de produtos e do marketing. É uma forma de
manter aquele espírito de quando comecei, na cozinha
da minha casa, sem muitas pretensões. Hoje, apesar de
todo o crescimento, seguimos praticamente da mesma
forma nessa etapa inicial de criação, com ideias mi-
nhas e testes artesanais, como um laboratório caseiro
e afetivo. As combinações precisam ser inovadoras,
ter qualidade e sabor final prazeroso, como uma poção
mágica! Não por acaso, até hoje os primeiros sabores
são um grande sucesso, como o Juçaí, com fruto da
palmeira juçara e o Yellow Chia, com maracujá.

Meu sonho é provar que se alimentar bem e de for-


ma saudável não é moda, é uma tendência mundial.”

Bianca Laufer
Fundadora da Greenpeople, empresa de sucos 100%
naturais e prensados a frio, do Rio de Janeiro (RJ)
Tatiana
Pimenta
FUNDADORA DA VITTUDE (SP)

“Ainda há um estigma
enorme de que ir ao
psicólogo é coisa de maluco.
Mas não, é coisa de gente”

“A tuei durante 13 anos em empresas nacionais


e multinacionais de grande porte, como en-
genheira civil. Em 2013, me mudei para o Haiti para
trabalhar em uma multinacional de origem suíça que
atua no setor de construção civil. Para a minha surpre-
sa, no início de 2015, a empresa iniciou um processo
de reestruturação, tendo mais de 50% do seu quadro
de pessoal cortado em dois anos. Eu fui uma delas.
No mesmo dia, recebi a notícia de que meu pai estava
muito doente e vi minha vida virar de cabeça para bai-
xo. Eu me dei conta de que havia ficado muitos anos
fora de casa. Sou filha única, saí da casa dos meus pais,
em Corumbá, no Mato Grosso do Sul, aos 17 anos para
fazer faculdade de Engenharia Civil em Londrina, no
Paraná. Desde então, sempre morei longe deles e per-
cebi que deveria aproveitar o presente que o destino
havia me dado para cuidar dos meus pais.

Nos meses seguintes à demissão e ao diagnósti-


co, fiquei envolvida com o tema saúde, observei mui-
tas coisas que sentia falta no sistema brasileiro e todo
o contexto me fez ter vontade de conhecer mais esta
área. Um dos meus amigos e atual sócio, o Everton,
estava fazendo um MBA e tinha recentemente apre-
sentado um projeto de empreendedorismo na área de
saúde. Tivemos inúmeros encontros e cafés, discuti-
mos ideias, estudamos o cenário, o mercado de saú-
de, players e benchmarks internacionais, e, no final de
2015, decidimos efetivamente seguir em frente com
o projeto. Eu queria algo relacionado à telemedicina,
que usasse a tecnologia para esclarecer pequenas dú-
vidas de saúde por meio de uma orientação mais pro-
fissional. Ele queria produzir um site de avaliação de
profissionais da saúde. Juntos, entendemos que a Psi-
“Hoje temos mais de mil
psicólogos cadastrados em
nossa plataforma, presentes
em 90 cidades de 22 estados e
Distrito Federal”

cologia era o caminho, já que a área permitia o aten-


dimento online. Ali dávamos os primeiros passos para
a criação da Vittude, uma plataforma que conecta psi-
cólogos a pessoas que estão em busca de psicoterapia
ou coaching.

Dedicamos os primeiros meses de 2016 a conhe-


cer o universo das startups, nos inscrevemos em even-
tos, meetups, workshops e processos de aceleração.
Precisávamos de um parceiro forte para avançar mais
rapidamente. Nos inscrevemos para um programa de
aceleração, fomos aprovados e em julho começamos
o processo. A nossa plataforma somente entrou no ar
em 1º setembro desse mesmo ano, após o término do
processo, já com o registro de agendamento da primei-
ra consulta. Hoje temos mais de mil psicólogos cadas-
trados em nossa plataforma, presentes em 90 cidades
“Nosso grande desafio é levar
mais informação, conscientizar
e tentar mudar esse cenário”

de 22 estados e Distrito Federal. Uma pessoa que bus-


ca um psicólogo, e entra pela primeira vez no site da
Vittude pode ter duas opções de escolha: consultório
físico, sistema feito para as pessoas que desejam ir até
o consultório do psicólogo para sessões presenciais e
que utiliza ferramenta de geolocalização para encon-
trar um psicólogo mais próximo do endereço pesqui-
sado pelo cliente; e consultório virtual, onde o cliente
pode escolher ser atendido por um psicólogo de forma
remota, do conforto do seu lar, utilizando uma ferra-
menta própria de videoconferência. Tudo com a vali-
dação do Conselho Federal de Psicologia.

O grande diferencial da Vittude é estar focada


100% na saúde mental. Estima-se, por exemplo, que
no Brasil cerca de 200 mil pessoas são afastadas por
ano do mercado de trabalho com pelo menos um diag-
nóstico relacionado a transtornos mentais. Muitas
empresas estão preocupadas em não onerar o sinis-
tro do plano de saúde corporativo, e não trabalham
com práticas preventivas. Uma das barreiras ainda é
o preconceito. Ainda há um estigma enorme de que
ir ao psicólogo é coisa de maluco. Mas não, é coisa de
gente. E nós estamos promovendo este acesso. Nosso
grande desafio é levar mais informação, conscientizar
e tentar mudar esse cenário. Queremos ser a melhor
solução digital em psicologia no Brasil, promovendo
uma experiência surpreendente aos usuários”.

Tatiana Pimenta
Fundadora da Vittude, plataforma que conecta
psicólogos e pacientes, de São Paulo (SP)
Lívia
Cunha
F U N D A D O R A D O C U C O H E A LT H ( S C )

“Estamos no caminho
certo para nos tornarmos
uma ferramenta de
empoderamento de saúde”

“C omo filha de médico passei boa parte da infân-


cia acompanhando meu pai na rotina entre o
hospital e o consultório. A ideia do cuidado ao próxi-
mo, especialmente o cuidado com pacientes, sempre
me encantou, mas, por outro lado, me chamava a aten-
ção a dificuldade que meu pai enfrentava para conven-
cer os pacientes sobre a importância de um tratamento
médico bem feito, fora do ambiente hospitalar. Apesar
do interesse pela questão da saúde, não segui o cami-
nho da medicina. Meu sonho sempre foi empreender.
Por isso, enquanto eu fazia o curso de Administração
de Empresas na Universidade Federal de Santa Ca-
tarina, procurei trabalhar em ambientes que fossem
mais propícios ao desenvolvimento de competências
empreendedoras.

Durante a faculdade conheci o Gustavo Comitre,


que depois se tornou meu sócio. Ele tomava medicação
de uso contínuo e tinha dificuldade para administrar
seu tratamento da maneira correta no dia a dia. Neste
período, além de cursar a faculdade, eu fazia estágio
em Empreendedorismo Inovador na Fundação CER-
TI - Centro de Referência em Tecnologias Inovado-
ras. Este foi meu primeiro contato com o mundo das
startups e encontrei ali a oportunidade de resolver em
escala o problema da falta de adesão medicamentosa.
Unimos a vontade de encontrar uma solução para os
pacientes com a vontade de empreender e começamos
a planejar o que, em 2016, tornou-se a CUCO Health.

Em uma pesquisa, descobrimos que menos de


50% dos pacientes tomam a medicação como deve-
riam. Por que não facilitar o controle desses tratamen-
tos? A CUCO nasceu com esse objetivo: ajudar pacien-
“O mais legal é que as
pessoas falam que não é um
aplicativo, mas um amigo
e cuidador que as ajuda
diariamente”

tes a se engajarem em tratamentos medicamentosos


e melhorarem os níveis de adesão. Funciona assim:
o médico prescreve o remédio e já avisa o paciente
que há uma terapia digital para auxiliá-lo. O paciente
compra o medicamento na farmácia e dentro da caixa
há um indicativo para baixar o aplicativo CUCO, que
por meio do QR Code da embalagem cadastra auto-
maticamente os lembretes para o paciente. Ele passa
também a ter acesso a uma bula interativa em formato
de chatbot. Ao longo do tratamento o paciente conta
com uma ferramenta que lembra de comprar e tomar
o medicamento, esclarece dúvidas frequentes sobre
o remédio, faz alertas de interações medicamentosas
(que ocorre, muitas das vezes, por conta da automedi-
cação), e tem uma jornada de autoconhecimento so-
bre a doença. Além disso, a ferramenta é inteligente e
identifica a não adesão ao medicamento. Nesse caso,
“O propósito nunca mudou:
cuidar das pessoas, não
importando as barreiras que
possamos enfrentar”

envia notificações para engajar novamente o pacien-


te. Há duas versões do aplicativo, uma gratuita para o
consumidor final, e a premium, vendida aos laborató-
rios farmacêuticos.

Para chegar nesse atual modelo, mudamos por


duas vezes o plano de negócios. Começamos com foco
em auxiliar os pacientes. Com o passar do tempo, perce-
bemos que, para impactar de fato na experiência do tra-
tamento, era preciso envolver os pagadores. Passamos,
então, a desenvolver uma solução e um modelo de negó-
cios orientado às operadoras de saúde e hospitais. Após
um ano, mudamos o foco novamente, que passou a ser
a indústria farmacêutica. Nessa mudança estratégica,
a Cuco deixou Florianópolis e se mudou para São Pau-
lo. Foi aí que o Gabriel deixou a sociedade e a equipe
foi toda substituída. Mas, mesmo com tantas mudan-
ças, o propósito nunca mudou: cuidar das pessoas,
não importando as barreiras que possamos enfrentar.
O CUCO é uma ferramenta humanizada, fize-
mos testes da ferramenta com os pacientes, conver-
samos com eles, damos atenção aos comentários que
fazem sobre o aplicativo. O mais legal é que as pes-
soas falam que não é um aplicativo, mas um amigo
e cuidador que as ajuda diariamente. Em parceria
com um grande hospital de São Paulo, notamos
que houve uma queda na taxa de reinternação de
crianças cardiopatas após os pais adotarem a tec-
nologia. Com o aplicativo, a adesão ao tratamento no
pós-operatório passou de 40% para 79% dos casos.
No geral, temos uma adesão medicamentosa de 75%
com 100 mil pacientes. Isso mostra que estamos no
caminho certo para nos tornarmos uma ferramenta
de empoderamento de saúde no Brasil”.

Lívia Cunha
Fundadora do Cuco Health, aplicativo que ajuda
pacientes a gerenciarem seus tratamentos
médicos, de Florianópolis (SC)
Ana Paula
Prati
C R I A D O R A D O B A B Y C H E C K- I N ( S P )

“Enxerguei a oportunidade
de oferecer uma facilidade
até então não disponível
para as famílias”

“E u nasci em uma família de empreendedores.


Convivi desde muito cedo com os desafios e as
responsabilidades de se gerir o próprio negócio. Talvez
por isso mesmo a minha primeira experiência como
empreendedora tenha sido quando eu ainda estava na
faculdade, em uma cafeteria que dividia com minha
irmã e minha mãe. Em 2008, depois de me formar em
Design de Produto no Rio Grande do Sul, decidi vir
para São Paulo. Aqui, trabalhei por sete anos com o
nicho da maternidade, em duas multinacionais fa-
bricantes de produtos como berços, carrinhos e ca-
deirinhas para bebês. Nesse período, tive a oportu-
nidade de aprofundar meus conhecimentos neste
mercado e desenvolver estratégias de marketing
voltadas para mães.

Mergulhando nesse universo maravilhoso da


maternidade vi que, claro, ele tem seu lado bonito,
mas também muitas dificuldades, como por exem-
plo, sair de casa com as crianças. E foi observando
as dúvidas e inseguranças que os pais tinham que
surgiu a ideia: por que não montar uma plataforma
colaborativa que pudesse unir dicas de locais e ativi-
dades infantis, encorajando os pais a sair mais com
os filhos, possibilitando novas atividades e contri-
buindo para o desenvolvimento infantil? Surgia as-
sim, no final de 2014, o primeiro esboço do que viria
a ser o Baby Check-in, um aplicativo para que pais
de primeira viagem pudessem conectar-se com pais
mais experientes, compartilhando dicas e avaliações
de locais que recebessem adequadamente toda a fa-
mília. Enxerguei a oportunidade de unir tecnologia e
serviço e oferecer uma facilidade até então não dis-
ponível para as famílias.
“Compreender melhor essa
linguagem da tecnologia me
ajudou a ver o meu negócio
de uma forma mais ampla”

Dei um mergulho no universo do empreende-


dorismo e, confesso, não foi fácil deixar um empre-
go seguro para entrar neste grande desafio que é
abrir uma empresa. Eu estava com um grande pro-
jeto nas mãos, mas ele não saia do papel. Eu precisava
estruturar o negócio e não sabia como. Investi na minha
capacitação, participei ativamente de eventos de star-
tups e empreendedorismo feminino e, paralelamen-
te, fiz pesquisas mais profundas sobre o meu público
e o mercado. Diante de tamanho desafio, pensei em
desistir, pois sabia que sozinha não conseguiria fazer
algo tão grande como imaginava. Foi quando recebi
uma mensagem de uma ex-colega de universidade,
Marina Beloray, que se interessou pelo projeto e logo
se tornou minha sócia. Tempos depois, encontramos
um terceiro sócio, o desenvolvedor Maicon Santos,
que cuidava da área de tecnologia, enquanto eu me
aprofundava na estruturação da empresa e Marina
ficava a frente de relacionamentos e comercial.
“Busquei cursos na área,
entendi as novas necessidades
do meu público e reavaliei o
meu negócio. Levei seis meses
para repensar o nosso foco”

A Baby Check-in ganhou fôlego e forma. Co-


meçamos nos concentrando em nossa rede de rela-
cionamento no Rio Grande do Sul e isso foi funda-
mental no início. As primeiras versões do aplicativo
mostrava os lugares de uma cidade que eram ava-
liados pelos usuários como baby-friendly, ou seja,
restaurantes, museus, parques e atividades que os
pais pudessem frequentar com os filhos. Locais que
entravam na plataforma por indicação dos usuários
ou avaliação da nossa equipe. No final de 2017, os
dois sócios se desligaram da empresa e eu segui so-
zinha. E me vi enfrentando um dos grandes desafios
dessa jornada: ao mesmo tempo que percebi que
não estava conseguindo atingir as metas e, portan-
to, o negócio precisava passar por mudanças, eu não
tinha muito conhecimento da tecnologia mais ade-
quada. Era um universo com uma linguagem com-
pletamente diferente do que eu estava acostumada.
Novamente procurei me capacitar, busquei cursos na
área, estudei programação, entendi as novas necessi-
dades do meu público e reavaliei o meu negócio. Le-
vei seis meses para repensar totalmente o nosso foco.
Agora, mais que locais, o aplicativo indica profissionais e
serviços para atender gestantes e famílias com crianças
de zero a seis anos. Temos cerca de 600 cadastros e 9
mil usuários, de várias partes do país.

Compreender melhor essa linguagem da tecno-


logia me ajudou a ver o meu negócio de uma forma
mais ampla. E, este ano, me tornei mãe, o que ampliou
ainda mais esse olhar! Hoje, tenho um contanto mui-
to mais pessoal com tudo o que envolve a empresa e
vivo na pele as dificuldades que motivaram a criação
da Baby Check in. Mas uma coisa não muda: continuo
acreditando na construção de ambientes e atividades
para toda a família. Na aprendizagem, nas experiên-
cias e descobertas das crianças como forma transfor-
madora para uma infância feliz”.

Ana Paula Prati


Criadora do Baby Check-in, aplicativo para segmento materno/
paterno que mapeia locais, serviços e profissionais adequados
para crianças, gestantes e famílias, de São Paulo (SP)
Paula
Pedroza
FUNDADORA DA AUDIMA (SP)

“Nosso sonho é que


um dia todo o conteúdo
escrito da internet também
possa ser ouvido”

“S empre tive dificuldade em ler algum texto na in-


ternet por conta do brilho do computador e dos
smartphones. Acabava preferindo ouvir audiobooks
e podcast ao invés de artigos escritos. Naturalmente
me veio o questionamento: se eu tenho dificuldade,
imagine outras pessoas que têm algum problema cog-
nitivo ou deficiência? Comecei a estudar com profun-
didade esse tema e descobri que muitas pessoas com
deficiência visual não navegam na web por falta de
acessibilidade. Outras, que têm um nível muito básico
de alfabetização, também não conseguem interpretar
um texto por meio da leitura, mas se adaptam bem ao
áudio. E é uma faixa enorme da população, no Brasil
e no mundo, que fica esquecida, sem poder ler e se in-
formar em plataformas virtuais porque vivemos num
império da visão. Por conta dessa minha dificuldade
pessoal, eu sabia que o áudio poderia ajudar nisso, por
outro lado a maior parte dos veículos ainda não está
adaptada para incluir pessoas com deficiência visual
ou com dificuldade de leitura.

Descobri que 19% da população brasileira tem


alguma deficiência na visão; 25% são analfabetos ou
semianalfabetos no Brasil; que 30% apresentam pres-
biopia (também conhecida como vista cansada); e que
32% dos brasileiros apontam a falta de tempo como
principal barreira para ler. Ou seja, grande parte da
população tem muita dificuldade para ler conteúdos
online. Diante desse cenário, percebi que a tecnologia
podia ser a solução para tornar as coisas mais fáceis
ou até mesmo possíveis para essas pessoas. Vi o quan-
to o áudio poderia ajudar a sociedade e causar um ver-
dadeiro impacto social. E foi assim que, em 2016, criei
a Audima, uma empresa que se transformou na minha
“A Audima é, basicamente,
uma solução de inclusão
digital que converte textos
em áudio”

causa e trouxe uma motivação que me ajuda diaria-


mente a superar todas as barreiras.

A Audima é, basicamente, uma solução de inclu-


são digital que converte textos em áudio, em uma voz
natural e agradável, como em um audiolivro - nada de
tom robótico. E é muito simples: os sites e veículos in-
teressados podem instalar na versão gratuita ou paga
e fazer a conversão automática de todo o seu conteú-
do para áudio. Para ouvir o material, os usuários só
precisam clicar em um player, que também pode ser
controlado pelo teclado, que conta com opções para
aumentar ou diminuir a velocidade da fala. A empresa
começou nos Estados Unidos, mas hoje nossa opera-
ção é toda no Brasil. A semente dessa ideia surgiu em
2016, quando eu morava em Nova York e participei
de um programa de aceleração. Recebi aporte de US$
250 mil em um somatório de 4 investidores, além de
créditos em tecnologia e serviços de empresas como
“Além de inclusivo,
aumentamos a possibilidade
de venda e disseminação de
conteúdo”

Amazon, IBM, Google e Facebook, o que ampliou a vi-


sibilidade da Audima no mercado e ainda aprimorou a
tecnologia. Com isso, foi possível montar minha equi-
pe e desenvolver a plataforma.

Nosso modelo é pioneiro no mundo e a procura


pela Audima está crescendo cada vez mais. A ferra-
menta já está em mais de 2,5 mil sites no país e foi
usada 3 milhões de vezes. Em um primeiro momen-
to, focamos nos veículos de imprensa, mas, posterior-
mente, também passamos a trabalhar com marcas,
e-commerces e até festival de música, que usou nosso
áudio em todas as páginas. Nossos dados demonstram
que a ferramenta pode potencializar até 50% o tempo
de permanência do site. Isso significa dizer que, além
de inclusivo, aumentamos a possibilidade de venda
e disseminação de conteúdo. Além disso, recebemos
muitos e-mails de usuários de sites nos agradecendo
por nossa tecnologia. São idosos, pessoas com defi-
ciências visuais e até estudantes dizendo que o áudio
facilitou a interpretação de artigos de estudos. Além
disso, os portais nos reportam feedbacks muito po-
sitivos de seus usuários. Esse é o nosso propósito: ge-
rar inclusão digital com o áudio. E nosso sonho é que
um dia todo o conteúdo escrito da internet também
possa ser ouvido”.

Paula Pedroza
Fundadora da Audima, plataforma que
converte textos em áudios que não soam
artificiais, de São Paulo (SP)
CRÉDITOS FOTOGRÁFICOS
Maria José de Lima - Foto: Alexandre Rezende
Fatima Casarini - Foto: Renato Pizzutto
Adriana Barbosa - Foto: Renato Pizzutto
Rosana Silva - Alexandre Rezende
Vanessa Berrouiguet - Foto: Renato Pizzutto
Adriana Fernandes - Foto: Renato Pizzutto
Cristiane Carvalho - Foto: Renato Pizzutto
Stéphanie Habrich - Foto: Renato Pizzutto
Flávia Pacheco e Manuela Borges - Foto: Renato Pizzutto
Dani Junco - Foto: Renato Pizzutto
Natália inês da Costa - Foto: Alexandre Rezende
Maibe Marocollo - Foto: Cristiano Mariz
Milena Curado- Foto: Renato Pizzutto
Débora Rabelo - Foto: Alexandre Rezende
Bia Santos - Foto: André Valentin
Marioli Oliveira e Amanda Momente - Foto: Renato Pizzutto
Alexya Salvador - Foto: Renato Pizzutto
Michelle Fernandes - Foto: Renato Pizzutto
Priscila Vaiciunas - Foto: Rogério Pallatta
Elizandra Cerqueira - Foto: Renato Pizzutto
Bianca Laufer - Foto: Juliana Rezende
Tatiana Pimenta - Foto: Renato Pizzutto
Livia Cunha - Foto: Renato Pizzutto
Ana Paula Prati - Foto: Renato Pizzutto
Paula Pedroza - Foto: Zzn Peres
OS EMPREENDIMENTOS
Capítulo 1
Teraplay - www.teraplay.com.br/
Ramo Urbano - fatimacasarini.com.br/
Ateliê Alexya Salvador - alexyasalvador.com.br/
WonderSize - www.wondersize.com.br/
Manas à Obra - www.manasaobra.com/

Capítulo 2
Greenpeople - www.greenpeople.com.br/
Vittude - www.vittude.com/
Feira Preta - feirapreta.com.br/
Cabocla Criações - www.instagram.com/caboclacriacoes
Boutique de Krioula - www.boutiquedekrioula.com/

Capítulo 3
Café Abraço - www.cafeabraco.com.br/
Cuco Health - cucohealth.com/
Mandala Comidas - www.mandalacomidas.com.br/
Mattricaria - www.mattricaria.com.br/
Censa - www.censabetim.com.br/

Capítulo 4
Mazé Doces - www.mazedoces.com.br/
Bazar Mon Petit - www.facebook.com/nossomonpetit
Jornal Joca - jornaljoca.com.br/portal/
Audima - audima.co/
B2Mamy - www.b2mamy.com.br/

Capítulo 5
Be Flexy - www.beflexy.com.br/
Mãos de Maria - www.facebook.com/Bistroecafemaosdemaria
Baby Check in - www.babycheck-in.com/
Universo Inox - www.universoinox.com.br/
Barkus - barkus.com.br

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