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Vanda e Os Gigantes

“Tão imenso e tão resplandecente é


Bahamut que os olhos humanos não podem
tolerar sua visão. Todos os mares da Terra,
postos numa de suas fossas nasais, seriam
como um grão de mostarda em meio ao
deserto.”
- Jorge Luís Borges, O Livro dos Seres
Imaginários.

Episódio 1: A Caçadora

Os cabelos negros voavam junto à brisa que vinha do oceano, enquanto o corpo
pequenino coberto por uma couraça de couro se erguia na proa do navio, observando a
montanha que crescia no horizonte. Ao redor, marinheiros trabalhavam e a olhavam
num misto de curiosidade e ceticismo – era difícil crer que aquela moça de aparência
frágil fosse mesmo a famosa Vanda, a caçadora de gigantes.
Desconfortável com a atenção que recebia, Vanda se virou e desceu em direção
aos aposentos de passageiros para preparar o desembarque. Caminhando, se deixava
levar pelas névoas do passado que tomavam seus pensamentos.

***

- O que você quer, pequenina? – a voz da cabeça à direita ecoava como um trovão
pelo vale entre as montanhas.
- Você matou meu pai! – Vanda tentava gritar de forma ameaçadora, mas, em
comparação com a criatura à sua frente, soava pequena e suplicante. – E agora eu vou
matar você!
As duas cabeças gargalharam em conjunto. Vanda se colocou de prontidão,
agarrando com a mão direita a espada coberta de símbolos místicos que pertencera ao
pai. Vendo a sua fúria diminuta, o gigante de duas cabeças agarrou a clava de pedra no
chão e se postou em posição de defesa.
- Pois então… – disse a cabeça direita, o tom de bravata ressoando novamente
pelo vale.
- …venha! – completou a da esquerda.
A garota correu em direção ao inimigo.

***

Vanda balançou a cabeça para afastar os devaneios. Precisava manter o foco; um


único passo em falso bastaria para desencadear uma queda de dezenas de metros.
Cuidadosa, continuou a escalada, se agarrando nas cordas que prendia à rocha,
buscando os caminhos mais seguros para chegar ao topo da montanha.
Quando o sol já saía do centro do céu, a guerreira chegou afinal à cratera
esfumaçante. Recuperou o fôlego e olhou para dentro, procurando o ponto de origem da
fumaça. Encontrou sem dificuldade – mas ainda seria uma longa descida até lá.

***
A clava atingiu o chão, fazendo a terra tremer. Vanda escapou por sorte, caindo
para o lado pouco antes do golpe. As pernas já doíam com tantas esquivas, e ela ainda
não causara um arranhão sequer no gigante. Ofegante, começava a questionar se fora
uma boa idéia desafiá-lo – não era uma guerreira, afinal, apenas a filha de um, morto ao
enfrentar o mesmo monstro em defesa da vila onde morava. A espada que empunhava
era tudo o que dele restava.
E era tudo o que restava para ela também. Desde quando podia lembrar, o pai era
tudo o que tinha. A mãe morrera quando era ainda uma criança, jovem demais para
guardar lembranças ou ressentimentos, e os dois passaram tempo demais viajando antes
de se estabelecerem na pequena vila atacada pelo monstro. O gigante o havia tirado dela
– e Vanda se sentiu um lixo por questionar a vingança por um instante sequer.
Levantou determinada e olhou para o inimigo, que preparava um novo golpe. Não
havia tempo para pensar; pulou para trás enquanto a enorme clava caía em sua direção,
atingindo mais uma vez o chão. Aproveitou a chance e se agarrou a ela quando o
gigante a levantou, levando-a junto com a arma em direção ao céu.
Vanda se segurou relutante, sem ter certeza do que fazia – quando deu por si, já
estava no alto, tentando se manter agarrada enquanto o gigante gritava e balançava o
braço para derrubá-la. Conseguiu; a garota logo se soltou e despencou em direção ao
chão, que se aproximava com velocidade...
Parou. Vanda olhou para baixo e viu o chão, ainda metros distante. Olhou para
frente, e viu a espada de seu pai cravada na carne do gigante, os símbolos incrustados na
lâmina brilhando intensamente, as mãos agarradas por um impulso involuntário ao cabo.
A criatura gritou de dor e se curvou para frente, permitindo à garota ficar de pé
sobre suas costas. Vendo o caminho que se abria, correu até a cabeça mais próxima,
cravando a espada com violência no pescoço do gigante. Retirou a arma em uma chuva
de sangue, seguida por um berro de dor esboçado e logo abafado.
Vanda se virou para a cabeça que restava, que agora a fitava com um olhar
assustado, e sorriu antes de saltar com a espada erguida em sua direção.

***

Um pequeno pulo para atingir o chão, e chegava ao ponto mais baixo da cratera. À
frente se abria uma grande cavidade na montanha, de onde vinha a fumaça que vira do
lado de fora.
Vanda se aproximou com cautela, cuidando para não acordar a criatura que
habitava o local, inconscientemente desejando o próprio descuido. Apenas mais alguns
passos e já podia vê-la: as escamas rubras como sangue, as asas encolhidas sobre as
costas, as patas dianteiras apoiando a cabeça adornada de chifres, as montanhas de ouro
e jóias no entorno.
A guerreira sorriu, lamentando apenas que não estivesse acordada. Sacou a espada
da bainha na cintura e continuou caminhando com cuidado, seguindo próxima às
paredes à procura de um ponto por onde pudesse subir no seu pescoço. Tão concentrada
estava que não notou os olhos do dragão se abrindo em uma fração de segundo
enquanto passava na sua frente.

***

Dias passaram desde a morte do gigante de duas cabeças. Vanda voltara para a
vila, onde assumira a mesma função de guarda que era de seu pai. Todos a respeitavam
depois do feito que realizara, então raramente tinha qualquer problema.
A garota odiava aquele tédio. Lembrava com nostalgia não dos anos que vivera
com o pai, mas sim dos poucos minutos da batalha contra o gigante – a respiração
ofegante, o sangue fervendo, o instinto guiando seus passos e movimentos. Sentia que
apenas então estivera viva de verdade.
Decidiu-se, afinal, e anunciou a decisão ao conselho da vila. Os velhos
imploraram para que mudasse de idéia; ofereceram dinheiro, conforto, tudo o que
quisesse. Mas o que Vanda queria eles não poderiam dar – encontrariam outro
aventureiro errante em busca de aposentadoria, respondeu, ou mesmo um jovem
corajoso entre os próprios filhos; seu destino estava em outro lugar.
Pegou então a velha espada da família, alguns pertences de valor pessoal e o
pouco dinheiro que possuía, e partiu em direção ao horizonte distante, sonhando
encontrar os gigantes fantásticos de que ouvia falar nas histórias do pai.

***

A montanha explodiu em uma chuva de rochas, poeira e fogo. Partindo como um


foguete, o dragão se lançou aos céus. Vanda agarrava a asa esquerda, reunindo as forças
que tinha para não cair. Trazia no rosto um sorriso masoquista, um gozo intenso de
alegria, enquanto sentia o vento cortando a pele e forçando o cabelo para trás.
O monstro bateu as asas com violência para fazê-la perder o equilíbrio, mas ela
apenas se agarrou mais forte. Soltou quando a asa estava na posição superior e caiu
sobre as costas da criatura, de onde conseguia ver a espada cravada até a metade no
pescoço escamoso, os símbolos próximos ao cabo brilhando com intensidade assassina.
Correu até a arma e a agarrou, segurando-a firme enquanto o dragão tentava forçar sua
queda girando em torno do próprio eixo. Puxou-a para fora quando pôde ficar de pé
outra vez, espirrando sangue escuro em todas as direções e fazendo o monstro gritar de
dor.
Correu até a parte traseira cabeça. A criatura se debateu com violência, forçando-a
a se abaixar e agarrar no pescoço para não cair. Quando parou, a guerreira se ajoelhou,
levantou a arma em direção ao céu, e a cravou violentamente contra o monstro,
perfurando a pele e adentrando a carne.
O dragão gritou de dor mais uma vez, e Vanda precisou segurar com força a
espada para não perder o equilíbrio. Retirou a arma em uma nova chuva de sangue, e
fincou-a novamente na cabeça do monstro; ele gritou outra vez, um urro esganiçado,
logo abafado. Vanda retirou e cravou a espada com velocidade uma última vez, mas
percebeu que perdiam altitude muito rápido, sem controle. Tentou puxá-la para fora,
mas logo sentiu o impacto da queda; então se agarrou com força ao cabo enquanto
mergulhava junto com o monstro para o fundo do oceano.
De longe, os marinheiros atracados na costa da montanha assistiam assustados à
queda da criatura e a gigantesca onda que ela levantava. O capitão retirou uma luneta do
casaco, e começou a varrer a área com os olhos: à esquerda, à direita, pelo centro, ainda
mais à esquerda.
Notou afinal pequenas bolhas de ar se formando e estourando na superfície da
água, e fixou o olhar naquele ponto. As bolhas aumentaram em intensidade e
quantidade, até se converterem em um pequeno espirro de água de onde saiu Vanda, a
mão direita erguida em triunfo empunhando a espada coberta de símbolos arcanos.
- Viva! – gritou o capitão, vibrante, num gesto logo repetido pela tripulação.
Dezenas de metros distante, Vanda ofegava. O tesouro ainda estava na montanha,
mas que importava para ela? Os marinheiros que o pegassem, agora que o dragão não
estava mais lá para ameaçá-los. Queria apenas uma boa cama para descansar antes da
próxima caçada.
Começou a nadar em direção ao navio, sorrindo de um lado ao outro do rosto.

Episódio 2: O Maior de Todos os Dragões

Vanda saiu da embarcação, se movendo com dificuldade pela escuridão vazia.


Vestia uma pesada armadura branca, grande e desajeitada, cobrindo-a por completo dos
pés até a cabeça, onde terminava em um elmo de vidro arredondado. Só assim, fora
avisada, sobreviveria no ambiente hostil onde enfrentaria o maior de todos os gigantes.
Ainda se lembrava de como o via no horizonte cada vez que vencia um adversário.
Derrotara gigantes maiores que castelos, serpentes maiores que cidades, pássaros
maiores que montanhas; e todos pareciam pequenos sempre que o fitava, imponente e
desdenhoso, pairando ao longe sobre o céu. Como poderia ignorá-lo? Sua mera
existência era uma bravata, um desafio aberto que Vanda não podia recusar.
Viajou por todo o mundo atrás dos meios para alcançá-lo. Chamavam-na de louca,
riam do seu objetivo; quando não abertamente, o faziam pelas costas, logo que o seu
semblante confiante deixava de encará-los. Foi enganada e trapaceada; vendeu bens,
serviços, o corpo e a alma. E, sempre que pensava em desistir, que ameaçava largar tudo
e concordar com aqueles que a tinham por insana, bastava olhar para o céu e vê-lo,
como que também rindo às suas custas, para balançar a cabeça e retomar a busca, a
motivação subitamente renovada.
Encontrou o que procurava, afinal, na figura de um velho ermitão, que vivia na
beira de um pequeno riacho em um vale entre montanhas. Um louco, como ela – vinha
de uma terra longínqua, na direção do nascente, e dizia conhecer as estrelas, bem como
aqueles que vivem além delas. Guardava em sua cabana uma velha embarcação,
diferente de tudo que Vanda jamais vira: tinha a forma de um trono fortificado, rodeado
por cilindros metálicos apontando para o chão, com um casco vermelho reluzente como
o aço ornamentado por figuras douradas de dragões serpentinos. Era o que procurava,
dizia a ela; o meio para alcançar o maior dos gigantes.
Seguiram-se meses de cálculos e planejamento. Cada detalhe precisava ser
delineado com cuidado – a grandeza da viagem não permitiria que fosse feita de outra
forma. Era preciso a certeza da vitória, muito antes de o primeiro passo ser dado em
direção a ela.
Veio, então, a preparação: o treinamento contra os perigos que enfrentaria, e a
busca pelos materiais que poriam a embarcação em movimento. Atravessou o mundo
novamente, até a terra natal do ermitão, onde encontrou o pó arcano que a lançaria em
direção ao céu. Um ano já havia passado quando Vanda, afinal, partiu naquela que seria
sua maior caçada.
Atravessou milhares de quilômetros de escuridão e vazio, cruzando nuvens de
gases e desviando de esferas rochosas, antes de se ver, afinal, próxima do seu objetivo.
Uma distância incomensurável ainda os separava, mas ele já dominava o horizonte,
brilhando intensamente contra os corpos que o rodeavam: o Dragão-Sol, com suas
garras capazes de rasgar galáxias, presas que destruiriam estrelas pequenas, e asas cujo
bater desmancharia nebulosas.
Vanda flutuava pelo espaço, cada centímetro avançado com o máximo de cuidado
e precisão, conectada por um longo cordão à nave da qual se afastava, e carregando na
mão direita a grande lança metálica que usaria na batalha. À sua volta giravam uma
dúzia de corpos, planetóides de rocha e gás presos na órbita do dragão. Ela se viu
pensando no fim que teriam, uma vez que o monstro fosse morto, e a força que os
segurava se apagasse; saberiam reconhecer a liberdade, e seguir seus caminhos para
longe do tirano que os aprisionava? Ou se desfariam em pedaços sem a força emanada
da criatura, que os retia e mantinha coesos?
Não podia se importar – seu papel era vencê-lo, e o dele era ser vencido. Não era
para isso que existiam os dragões? Talvez os planetas mudassem de sol uma vez que o
anterior morresse, e passassem a orbitar ao redor de Vanda, como um tesouro mudando
de dono após ser retirado do covil esvaziado.
A guerreira parou de se mover, e observou o adversário. Estava acostumada a se
sentir pequena, diminuída ante o tamanho dos seus inimigos. Nada, no entanto, se
comparava àquilo: frente à imensidão do Dragão-Sol, ela era um mísero ponto
manchando a superfície de uma partícula de poeira sobre um grão de areia. Sua escala
era a dos homens e animais; a dele, a dos planetas e estrelas. E, se entre os seus já era
diminuta, que dirá entre os dele – o peso da insignificância, subitamente caindo sobre
ela, já rivalizava com o da armadura que a protegia.
Sentiu de repente um vento forte empurrando-a para trás. Uma onda de calor a
atingiu, queimando a pele por baixo da armadura: era a baforada de radiação, a defesa
final da criatura. Fora alertada sobre ela – não era disparada contra um alvo, mas
emanava continuamente do próprio corpo do monstro; sua temperatura era tal que
poderia desintegrar em instantes quem se aproximasse desprotegido. A roupa branca
que vestia, no entanto, a bloquearia, mas apenas em parte – uma vasta coleção de
queimaduras seria seu prêmio, caso fosse bem-sucedida.
Esforçando-se para manter a posição, Vanda levantou a mão que empunhava a
lança, deixando-a pronta para o arremesso. Fitava com cuidado o inimigo, observando o
seu movimento vagaroso. Não saberia dizer quanto tempo esperou, os olhos atentos a
cada bater de asas; podem ter sido horas, ou podem ter sido dias – na imensidão do
espaço, sob a luz radioativa da criatura que enfrentava, o próprio tempo perdia o
significado, e um único instante poderia passar como um ano. Afinal, no entanto, veio o
momento que aguardava: a falha no seu corpo revelada, e o núcleo-coração exposto ao
ataque.
Atirou. A lança cruzou o espaço, cortando os ventos emanados pela criatura. À sua
frente, com o atrito das partículas, uma ponta incandescente tomava forma, como se
completasse a sua forja. Seguia em linha reta, na direção do alvo, impulsionada pela
força do arremesso e também pela atração do Dragão-Sol, capturando-a como a um
cometa no seu campo de gravidade.
Vanda a olhava esperançosa por trás do elmo protetor. Sabia, no entanto, que não
veria o seu triunfo: estava já no limite da segurança, e dezenas de milhares de
quilômetros ainda a separavam do oponente. A arma viajaria por séculos antes de
atingi-lo, atravessando o seu corpo e destruindo o núcleo-coração.
Suspirando profundamente, se virou para o caminho de volta, e começou o retorno
à embarcação que a trouxera até ali.

Episódio 3: O Matador de Gigantes

O Pântano dos Ossos jamais fora um lugar popular. A densa vegetação de árvores
retorcidas, de cujos troncos esbranquiçados a região tirava o nome, tornava a travessia
difícil, em especial nos períodos de cheia. A fauna local era traiçoeira, repleta de
animais sorrateiros que se camuflavam na paisagem antes de atacar, bem como
minúsculos seres peçonhentos, de aranhas a mosquitos transmissores de doenças. Nem
mesmo seus prêmios eram atrativos – não bloqueava o caminho entre cidades
importantes, e as parcas riquezas que escondia não eram o bastante para atiçar a
ganância dos caçadores de tesouros que predavam outras áreas.
Para Vanda, no entanto, nada disso importava. Era de outro tipo o tesouro que
buscava; não lhe interessavam metais preciosos ou peles raras, muito menos ervas e
remédios arcanos. Atravessara o pântano atrás, unicamente, de uma história: a da grande
serpente albina que se escondia entre as árvores, e reinava imponente sobre os seres da
região. Era o que procurava – a caça ao gigante, e o combate que se seguiria.
E que combate havia sido! Agarrava-se ao corpo do monstro, enquanto ele se
debatia entre as árvores; afundava com ele, prendendo a respiração, se deixando
carregar com violência por sob as águas, e então retornava à superfície apenas para
recuperar o fôlego e mergulhar novamente. O sangue fervia nas artérias, e a pele corava.
Era para isso que vivia: a experiência do limite; a epifania do perigo, quando o risco de
vida lhe dava a certeza de quem era, e do que devia fazer.
Lembrava-se dos detalhes com nostalgia enquanto retornava à estrada por onde
voltaria à civilização, cavalgando um velho corcel marrom de passos lentos e olhar
cansado. Como ela: os cabelos negros já começavam a acinzentar, a face exibia as
primeiras rugas junto às cicatrizes, e a postura e os ombros caídos traíam fadiga mais do
que confiança. Vestia ainda a mesma armadura de couro e carregava na cintura a mesma
espada da lâmina coberta de símbolos místicos, a empunhadura gasta e corroída pelo
tempo.
Parou de repente, puxando levemente as rédeas do animal para freá-lo. Em gestos
cuidadosos, levantou o rosto, e vislumbrou o horizonte. A estrada seguia adiante até se
misturar com o céu azul sem nuvens, onde o sol ascendia devagar iluminando as
primeiras horas do dia. Vanda olhou para a imagem com calma, examinando-a por
longos segundos, deixando o rosto se contorcer vagarosamente em um princípio de
sorriso.
E, então, caiu.

***

Acordou aos poucos, com a cabeça e o corpo doendo, abrindo os olhos devagar e
deixando a imagem do ambiente se formar. Estava em um aposento grande, iluminado
por duas janelas altas, sobre um fino colchão de palha e coberta por um lençol sujo. Um
cheiro podre pairava no ar; olhando em volta, podia ver uma dúzia de corpos, todos com
a pele ressecada grudada aos ossos e preenchida por bolhas azuladas. Os olhos atentos e
a respiração difícil, no entanto, indicavam que ainda estavam vivos.
Vanda reparou que não vestia mais a armadura de couro, mas sim uma grande
camisa branca que a cobria até os joelhos. Na pele, saindo pelos braços e o pescoço,
podia ver as mesmas bolhas azuladas começando a se espalhar. Tentou levantar, mas foi
interrompida por um acesso de tosse.
- Eu não faria isso. – a voz abafada vinha de uma figura alta que caminhava entre
os corpos, vestindo um longo manto negro, com um chapéu de abas largas e uma
máscara protetora sobre o rosto. – Você está bastante fraca.
- Onde...? – a caçadora tentou responder, mas foi interrompida por um novo
acesso de tosse.
- Em um sanatório próximo à estrada para a capital. Você foi encontrada
inconsciente, e trazida para cá.
O homem se aproximou, se abaixando próximo à Vanda e ajudando-a a se
acomodar novamente no colchão. Antes de continuar, suspirou pesadamente sob a
máscara.
- Acreditamos que você contraiu a peste.
- A peste?
- Sim. Ainda está em um estágio intermediário, mas já é perigoso que fique em
meio a pessoas saudáveis. É melhor ficar aqui, onde poderemos tratá-la com cuidado.
Vanda fitava o vazio enquanto ouvia. Já respirava com dificuldade, enquanto a
face empalidecia e a umidade começava a se juntar sob os olhos. Parecia tão injusto,
depois da vida que levou, acabar assim – deitada em uma cama, doente, pensando em
todos os gigantes que ainda poderia enfrentar.
O médico notou o seu desânimo, e mudou o tom com que falava.
- Ah, mas não fique assim! Será muito bem cuidada, e tudo ficará bem. Apesar das
dificuldades, temos tido avanços nos tratamentos. Já estamos quase certos sobre a
origem da doença, por exemplo; acreditamos que é transmitida por um pequeno inseto,
veja só, uma simples pulga existente nos ratos...
Vanda se virou para o doutor com um olhar curioso. Percebendo o interesse, ele
continuou, relatando os últimos avanços da medicina, as melhoras na higiene pública, os
conflitos com religiosos fundamentalistas. Ela, no entanto, já não prestava atenção; no
pensamento, tentava formar a imagem de um pequeno ser de seis patas cavalgando um
grande rato negro, se aproximando sorrateiro de um gigante bípede, parando a poucos
metros de distância para ver a sua sombra imponente bloqueando o sol.
Terá sentido medo? É claro que sim – ela também sentia, na forma de um calafrio
que subia temerário pelas costas, sempre que via um deles desta forma. Mas, se isso não
a impedia de seguir adiante, também não pararia o pequeno guerreiro; reunindo a
coragem em um fôlego profundo, ele avançaria junto à montaria, e, em um pulo longo,
se agarraria à presa.
E seguiria o combate: a pulga se prenderia com força à Vanda, e a caçadora se
moveria com violência, como que para fazê-la cair. Cada passo seria um ataque, o
impacto tremendo na pele, forçando a pequenina a segurar com mais afinco. Talvez
tenha mergulhado em rios, passado por chuvas, sobrevivido a tempestades – e ela
sempre lá, firme, avançando vagarosamente pelo corpo da caçadora, cada centímetro
conquistado com luta e perseverança.
Chegaria, então, no ponto desejado. Na calmaria que precede a vitória, levantaria
as presas ao céu, e as fincaria fundo na pele: seria o seu ataque mortal, injetando a peste
no corpo do inimigo.
Vanda riu alto, interrompendo o médico que continuava o seu discurso, e atraindo
a atenção dos outros doentes no recinto. Sim, tudo estava certo, afinal: a grande
caçadora de gigantes era derrotada, enfim, como um daqueles que caçava.