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Keila Grinberg e Ricardo Salles
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lo da década de t87o, o tempo e a üda social aceleram-se como


o Brasil C O LE ç A O

o mundo e no Império do Brasil. Isso era ainda mais verdadeiro

opolita Corte do Rio de Janeiro. Entretanto, a partir da década

embalada pela expansão das fronteiras do café e por novas for

lis, desponta a metrópole do século seguinte: SãoPaulo.


imperial '''/.

am deste volume: Hebe Mattos, Angela Alongo, Margarida de Volume 111P«


1870-1889
eves,Mana LuizaFerreira de Oliveira, JoãoKlug, MarthaAbreu,
:
Viana, Leonardo Affonso de Miranda Pereira, rosé Augusto Pá
ria Helena Machado e Renato Lemos

2a .0868
CAPÍTULO
X "Teremos grandes desastres, se não
houver providências enérgicase
imediatas": a rebeldia dos escravos
e a abolição da escravidão
Mana Heiena Pwe ra VaiadoMachado
EMANCIPACIONISMO
E GRADUALISMO:
COMO FAZERCOM QUE
OS PRÓPRIOS ESCRAVIZADOS INDENIZEM SEUS SENHORES?

Como é sabido, no Brasil, a abolição tardou, só se concretizando após


não teria termo antes
longa e dolorosa agonia, a qual, previa-se à época,
do sécuo XX.i Tão longo e socialmentepenoso foi o processode aboli-
ção que, aos contemporâneos -- acostumados a decidas de intemiiná-
veis discussõesparlamentares que acabavam resultando em tentativas
fracassadasou tímidos projetos emancipacionisEase/ou gradualistas, que
a todos frustravam e a ninguém atendiam --, parecia que não Tina nun-
ca. Talvez por isso, apesar de tão tardia, tenha sido comemorada pelos
populares como evento auspicioso e surpreen.dente que, de certa forma,
parecia anunciar nova onda de esperança e otimismo, capaz de restaurar
a crença na sociedade brasileira. . . ,
No entanto, ao contrário do que apontavam as aparênciase afirma-
vam os parlamentares e a burocracia imperial, que correram para assumir
asglórias dg.feito, o eito.social da abolição.foi realizado em outra parte,
nas esferas menos visíveis da sociedade, nglSlobras do mundo parlamen-
tar no contexto das mijitâncias populares nascentesS.nas franjas da
política formal sta e excludente do império.: A reboquedos eventosque
nas localidades escravistase cidades mais importantes balançavam as bases
do poder de controle senhorial e da polícia, com revoltas, fugas e pro
testos de escravos,forros e populares ocorrendo em todo tempo e lugar
onde a escraxidão ainda significava algo, a política formal, semprecau'
telosa e conservadora, manççve-sena retaguarda, timidamente buscando
os movimentos sociais.De fato, o acompanhar dasdiscussõesabolicio-
O BRASIL IMPERIAL VOLUME 3 'TEREMOS GRANDES DESASTRES. SE NÃO HOUVER PROVIDÊNCIAS ENÉRGICAS

nestas/emancipacionistas en&etad;s a& longo da segunda metade do :gl africanos livres, os quais, por princípio, jogavam-na para o futuro, e de-
culo XIX sugere que nalÊsferas institucionais e.fpmlais (]a.política, que vido ao fato de o ânus da prova de serviços prestadosrecair nascostas
diziam respeito ao Estado, ao Parlamento e à imprensa jornalística. a dosafricanos os quais, obviamente, encontravam imensasdificuldades
política gradualista que tinha como meta primordial equacionara para comprova-la --, a emancipação acabou acontecendo de fato com
questãoda propriedade escrava,em cujo cerne se encontrava o proble- os decretos de 1853(para africano livres em mãos de particulares) e de
ma da indenização pecuniária aos senhores e a falta de capitais disponí- 1864 (para aqueles servindo em repartições públicas).
veis para fazê-lo -- conduziu as discussões, monopolizando o debate a No entanto, mesmo após conceder as cartas de emancipação, o Esta-
respeito da abolição Ao mesmotempo, a estratégia protelatória Subja- do brasileiro continuava impondo restriçõesao exercício da liberdade,
cente ao gradualismo conservador tinha com.oobjetivo garantir a traD- estabelecendo uma política de tutela, obrigando os emancipados a pedir
quilidade pública nas cidadese no mundo rural. autorização às autoridades para se deslocar ou mudar de ocupação ou
Boa oportunidade para se compreender como se desenvolveram no emprego3 Como afirma Enidelce Bertin ao estudara luta dos africanos
Brasil os princípios do gradualismo encontra-se na análise das políticas por liberdade na cidade de São Paulo, frente à política postergacionista e
levadas a cabo pelo Estado com relação aos africanos livres, que prece- tutelar desenvolvida pelo Estado no trato daqueles que já eram livres,
deu o emancipacionismo. Tendo servido de laboratório, o processo de "questionamosse a administração dos africanos livres pelo Estado não
libertação dos africanos livres pretendeu-secomo uma estratégia para era um grande ensaio para testar a tutela dos libertos em geral no mo-
inculcar noslibertandos disciplina do trabalho compatível com a subser- mento em que a escravidão acabasse". Nesse sentido, afirma a autora:
viência que deles se esperava,isso através da tutela, que deveria enraizar
relações baseadas na dependência pessoal e no controle do liberto. De Considerando essaatuação do estado diante das emancipações dos
fato, .o acompanhar da política de postergação para a concessão das car- africanos livres, entendemos que havia uma percepção dos efeitos
tas de liberdade dos africanos apreendidos em tráfico ilegal, política -- reais ou não -- daquelas liberdades sobre o controle do processo
estabelecidadesde 1818 e ratificada em 1831 pelo Estado nacional, com- de emancipação. Nesse sentido, o significado histórico da ação dos

prova que a estratégiaaditada no tratamento da questãodos africanos africanos livres reveste-sede importância política, tanto porque
expôs que os interesses do Estado estavam muito aquém da preo-
livres foi o primeiro ensaio do gradualismo, que implementado nas dé-
cupaçãocom a proteção, como porque evidenciou que, para o go-
cadasa seguir,sob a rubrica de emancipacionismo,conduziu a questão
escrava no Brasil. verno, os emancipados exerceram a função de ensaio para o trabalho
livre tutelado, além de uma experiência de "liberdade controlada".4
Ao estabelecero prazo de 14 anosde trabalho para efetivaçãoda li-
berdade do "africano livre", período no qual o capturado poderia servir
ao Estado ou ser arrematado por particulares, em ambos os casos fican- Além disso,ao impor os anosde trabalho como condição para a liberda-
do submetido a formas de controle similares às da escravidão e até mes- de, o Estado exigia que o africano, ainda que livre, adquirisse sua eman-

mo trabalhando lado a lado com os escravos,mostra que o Estado cipação, de alguma forma consagrando o princípio de que os senhores,
brasileiro concebia a liberdade do africano -- e de seusdescendentes-- o Estado ou mesmoa sociedadeem geral tinham direito à indenização
pela perda do potencial ou real trabalhador, representado pelo africano
apenascomo produto final de uma longa trajetória, no decorrer da qual
e seus descendentes. Esse princípio que já norteava informalmente a
deveriam ser inculcadas as regra! da disciplina, dependência pessoal e
tutela:.Como resultado dos dispositivos postergadoresda liberdade dos política de alforrias vigentes na sociedade escravista brasileira sendo
O BRASIL IMPERIAL VOLUME 3 .TEREMOS GRANDES DESASTRES. SE NÃO HOUVER PROVIDÊNCIAS ENÉRGICAS

a forma mais comum de obtenção da liberdade, como comprovam os Janeiro, nos quais advogados abolicionisras, com a colaboração de escri-
estudos score o tema -- se confirmou na política emancipacionista da vães, rábulas e simpatizantes, provenientes das mais diversas ocupações
segunda metade do século XIX.s Tanto com a lei de 1871 -- que legali. urbanas,dedicavam-sea acoitar e proteger escravosao mesmo tempo
zava o pecúlio adquirido pelo escravo e a compra da alforria a partir dessa que levantavam fundos para reivindicar legalmente a alforria dos fugi-
poupança ou através de empréstimo, adiantamentos ou contratos de tra. dos e/ou ameaçados pela fúria de senhores violentos e sádicos. O mais
balho com terceiros -- quanto com a dos Sexagenários,de 1885 famoso representante dessacorrente foi o célebre rábula negro, de as-
como forma de ressarcimento, impunha aos libertandos maiores de 60 cendência escrava, Luiz Gama.
anosa exigência de servir seussenhores por mais três anos ou até os 65 Já a Lei dos Sexagenários tem sido considerada o produto do mais
anos --, ficava consagrado o princípio da indenização dos senhores, cujo obscurantistaespírito escravocrataque ainda nos estertoresda escravi-
montante deveria ser acumulado pelo próprio escravo.ó dão encontrava espaçopolítico para procurar inutilmente conter o des-
Se o gradualismo foi uma calculada política desenvolvida desde mea- fecho, àquela altura irreversível, da abolição. Essalei foi até pouco tempo
dos do século XIX pelo Estado com vistas a controlar a aquisição da li- analisadacomo um não evento ou apenasuma excrescênciapolítica, in-
berdade pelos africanos e seus descendentes, assim protegendo o acesso capazde produzir impacto efetivo sobre a volátil realidade social do es-
dos senhores a uma mão de obra considerada naturalmente fadada a servir facelamento da escravidão. No entanto, novos estudos, ao reenfocar a
e potencialmente indisciplinada e bárbara, é também verdade que na lei que alforriava os escravos sexagenários mas estipulava aos libertandos
implementação das políticas emancipacionistas, o Estado acabou sendo a obrigatoriedade da prestação de serviços pelo espaçode três anos ou
obrigado a se defrontar com o poderio privado dos senhoris. A inter- até os 65 anos, frente à conjuntura política e às cruciais questões a res-
venção desse nas relações antes privadas entre senhores e seusescravos é peito da constituição de um mercado de mão de obra livre no Brasil,
uma dasprincipais característicasda política emancipacionjstado secu- demonstram que a análise da arengapolítica em que se deu o debate so-
lo XIX, tendo sido uma das vias de consolidaçãode poder do Estalo bre essalei ainda tem muito a nos informar sobre os anos finais de vi-
monárquico. Dentre a panaceiade leis e decretos por meio dos quais o gência da escravidão.8
império buscavarestringir o poder senhorial, tomando a dianteira do Estabelecendoos nexos entre as leis dos Sexagenáriose do Ventre
processo gradualista de restrição e potencial extinção da escravidão. su- Livre, estasim consideradapela historiografia fator importante na op-
blinham-se asjá mencionadas leis do Ventre Livre, de 1871, e dos Sexa- çãodo emancipacionismogradual como caminho para a abolição, o li-
genários, de 1885. A primeira, embora oferecessea tutela dos ingênuos, vro E/zZxea mão e os a/zéls, por exemplo, vai mostrar que desde a década
até a maioridade de 21 anos, aos senhores de suas mães, foi mais efetiva de 1870 o palco principal no qual se digladiavam diferentes tendências
em aspectomenos conhecido, masde maior impacto prático na vida dos interessadasna constituição de um mercado de mão de obra livre era
escravos.De fato, ao legitimar o direito de o escravopossuirpecúlio pró- político e jurídico. Essasituação se deve ao fato de que desde a promul-
prio e de, representadopor um homem livre, na figura de um curador, gação da Lei Rio Branco ficava consagrada a intervenção do Estado, teo-
reivindicar na justiça a compra de sua alforria em parcelas, a lei abria um ricamente agente externo, maneira impessoal, nas disputas entre senhores
dos principais focos de tensão, ao mesmo tempo que legirimava o poder e cativos, estesobviamente assistidospor homens livres, advogadose
do Estado como mediador das relaçõesentre senhorese escravos.7As curadores, aos quais cabia responder judicialmente pelo escravo em suas
brechas jurídicas abertas pela lei de 1871 justificaram a organização do reivindicações contra seussenhores. As ferrenhas lutas políticas entre as
primeiro movimento abolicionista nos tribunais de São Paulo e Rio de diferentes facções das elites regionais brasileiras, entre liberais e çonserva-
O BRASIL IM PERIAL VOLUM E 3 'TEREMOS GRANDES DESASTRES, SE NÁO HOUVER PROVIDÊNCIAS ENÉRGICAS

dores, reaparecem aqui no papel das leis emancipacionistas e dos agentes dismo" e investindo em políticas públicas voltadas para o desenvolvi-
encarregados de executa-las e seus simpatizantes advogados emancipa- mento de projetos de colonização ou assentamentodos libertos como
cionistas e abolicionistas -- que sededicaram a explorar todas as possibi- pequenos proprietários. Por mais que as ideias de Rebouçassoem ainda
lidades de implementação da contestação da escravidão na arena judiciária. pertinentes nos dias de hoje, comprovando sua excepcional sensibilida-
E nessesentido que se podem interpretar as razõesda ingerênciado de social e percepção política, não há como negar que muito poucos
Estado no governo da casa,isto é, da propriedade escravista,ser rejeitada parlamentares e militantes da abolição se aproximaram de sua lucidez. lz
pelos senhores com profunda hostilidade.P Ao estabelecer um espaço de Apesar das dificuldades encontradas pelo abolicionismo gradualista
disputa jurídica em torno dos direitos do escravo e de seuvalor monetá- para articular um projeto social mais amplo que superassea escravidão,
rio, a lei retirava da esfera senhorial o princípio norteador das relações ao longo da décadade 1880, assistiu-seà ascensãode militâncias aboli-
escravistas, qual seja, o poder absoluto do senhor sobre a vida de seus es- cionistas de cunho parlamentar e jornalístico, cuja crescente radicalização
cravos. Qualquer flexibilização dessarelação,como ocorria no processo chegou a ensejar,entre os contemporâneos, temor de que estivesseem curso
de obtenção da alforria, mesmo quando comprada pelo cativo, a coartação, uma perigosaperda de limites de contenção entre o mundo da política
ou o que seja, deveria emanar da vontade livre e soberanados senhores. formal e a desordemsocial. A polarização no âmbito dasideias, dos dis
Sendo a escravidão, em princípio, um regime no qual a lei se faz ausente, cursos e dos textos jornalísticos justificou, de fato, que nos anos mais avan-
e o poder senhorial, absoluto, sua regulamentação legal, em caráter im- çados,se delineassecerta indiferenciaçãoentre essamilitância de cunho
pessoal,tendia a provocar fissuras incontornáveis na basedo sistema. legalista-parlamentare outras, de cunho mais prático. Decerto, no correr
Como ressaltou Conrad, o cerne da discussão da Lei dos Sexagenários dessesanos, figuras como Danças,Nabuco, Rebouçase muitos outros no-
se dava em torno da questão da indenização. Do ponto de vista senhorial, táveis passaram a ser acusadas, pelos escravocratas e conservadores, de
seria aceitável a ideia de que os escravos pudessem resgatar sua liberdade petroleiros, anarquistas e mesmo comunistas, sem que, no entanto, repre-
por meio da hipoteca de seutrabalho, como havia consagradoa Lei do sentassem,no limite, mais do que uma filiação abstrataa um certo socia-
Ventre Livre ao legalizar o pecúlio e a çoartação? Se,porém, os escravos lismo utópico -- como era o caso de Rebouças -- que não se desdobrava
eram de fato escravos, todo o trabalho que porventura gerassemjá era em nenhuma linha de ação mais concreta.i3 Era a crítica cada vez mais
em si propriedade dos senhores. Que sentido teria então para os proprie- radical à ideia da legitimidade da propriedade escravista veiculada por tais
tários aceitar como indenização aquilo que naturalmente lhes pertencia?lo militantes que justificava asacusaçõesde anarquistase niilistas, por exem-
Prisioneiros da lógica de defesa da propriedade e das ambivalências plo, sem que, no entanto, suas atividades tivessem atravessado a barreira
da indenização,que semostrava economicamente inviável para o Tesouro da legalidade." Como afirmou Rebouçasa respeito do tema:
Nacional, os movimentos emancipacionistae abolicionista, compelidos
a focar todas as suasenergias na luta contra a indenização dos senhores, Na propaganda Booth, como em todas as propagandas socialistas
apenas eventualmente avançavam para a discussão das políticas sociais e da Inglaterra e Alemanha, cometem o erro fundamental de se diri-
económicasque poderiam reparar os prejuízos das vítimas da escravi- girem às vítimas, quando o trabalho deve ser feito com os algozes.
dão.ti Eram poucos os militantes que, como André Rebouças,tinham Na grande obra da Abolição, nós jamais nos envolvemoscom os
clareza de que a única maneira de alcançar a abolição de forma imediata escravizadose os que não seguiram o nosso exemplo mancharam.
se como "papa-pecúlios", como "incendiários de canaviais", como
e sem indenizaçãoseria radicalizando, isto é, enveredando pelo cami-
excitadores dos fuzilamentos de Cubatão.js
nho da reforma agrária, restringindo o que ele denominava "landlor-
r

O BRASIL IMPERIAL VOLUME 3 TE REMOS GRANDES DESASTRES SE NÃO HOUVER PROVIDÊNCIAS ENÉRGICAS

Apesar de o movimento abolicionista na década de 1880, acuado pela insubordinações, violências e fugas, mantinham a população sempre em
eterna discussão a respeito da legitimidade da propriedade e da indeni- sobressalto. O tardio crescimento da população escrava,já no alvorecer
zação aos senhores, ter-se mantido dentro de uma moldura um tanto aca- da década de 1880, que povoava as novas áreas com cativos recém-che-
nhada, é certo que a vulgarização da discussãoa respeito da abolição gados, espelhavaa expansão dos cafezais, mas traduzia-se também em
ganhou as ruas das cidades e dos distritos escravistaspor conta de suas forte incremento da rebeldia escrava.lõ
atividades. No Sudeste, nos distritos escravistas da província de São Paulo O temor de uma revolta geral, acompanhada de motins urbanos que
e de suas áreas fronteiriças na província do Rio de Janeiro, bem como envolveriam tantos os libertos quanto o populacho volátil das cidades
nas cidades -- Rio de Janeiro, São Paulo, Santos e cidades cafeeiras --, que inchavam sob o influxo do desenvolvimento cafeeiro, surgia, já em
a vulgarizaçãodas ideias abolicionistas por certo alimentou a rebeldia meadosda décadade 1880, como um dos principais terrores dos senho-
dos escravos,mesmo que indiretamente. Cientes de que a escravidão res, das populações citadinas e, sobretudo, das autoridades policiais dos
perdia a legitimidade, os grupos de escravos passavam a ganhar em ou- distritos escravistas.Como afirmava o delegado da Polícia de SantaRito
sadia e articulação, utilizando-se da quebra do consenso sobre a escravi- do Passa-Quatro,na província de São Pau]o, no início do ano de ] 888,
dão para avançar em todo o tipo de reivindicação. Revoltando-se, ao justificar a necessidadedo pronto envio de reforços para a cidade,
fugindo, cometendo crimes, demandando melhorias, assim como salário que se encontrava em completa revolta devido aos tumultos provocados
e autonomia de ir e vir, os escravos, no decorrer da década, mostraram pelos escravos, que em levas abandonavam as fazendas: "Já se vê pois V
que confrontavam a escravidãotanto por dentro do sistemaquanto por Excia. que as cousas aqui vão muitíssimo mal e com certeza teremos gran-
fora dele, exigindo simplesmente a liberdade. des desastres, se não houver providências enérgicas e imediatas."''
Tendosetornado o principal problema a ser enfrentado nesseperíodo,
a manutençãoda segurançapública e da ordem, fortemente ameaçadas
'TEREMOS GRANDES DESASTRES, SE NAO HOUVER pela eclosão de frequentes sedições de escravos e pela descoberta da arti-
PROVIDÊNCIAS
ENÉRGICAS
E IMEDIATAS" culação de tantas outras, organizadas com a colaboração de abolicionistas,
suscitou a montagem, por parte das autoridades policiais, com a anuência
Como discuti em O P/ano e o pânico, a rebeldia escravana décadade dos governos provincial e imperial, de uma estratégia de desinformação
1880 mostrou-se especialmente assustadoraem todas as regiões onde a e censura no tratamento público da questão escrava. Incapazes de fazer
concentração de cativos era expressiva. Nesse contexto, algumas áreas frente às tropelias dos escravos e à ousadia dos abolicionistas, buscava-
particularmente violentas atravessaram a década sob constante interven- se descaracterizar a periculosidade das ocorrências que envolviam essas
ção da chefia da Polícia, que enviando pesadoscontingentes a essasloca- categorias,evitando o pânico da população e a emergênciade uma dis-
lidades procurava cercear os movimentos escravos,senão os extinguindo, cussão generalizada sobre a deterioração dos mecanismos de controle
pelo menos mantendo os sob controle. Cito como exemplo o oesteda social e a urgência da resolução da instituição servil. Nessesentido, o
província de São Paulo, região marcada na década de 1880 pela cons- papel dos órgãos policiais tornava-se passo a passo mais estratégico
tante expansãoda cafeicultura, na qual localidades como Belém do tratava-se não apenasde defender os interessessenhoriais, mas,também,
Descalvado, Pirassununga e Rio Claro se tornaram áreas em que o cor- de manter o monopólio do poder de repressão, evitando uma situação
re-corre das tropas enviadas da capital da província procurava acompa' de confronto entre asforças pró e contra abolição. É o que se depreende
nhar, sempre com certo atraso, as tropelias dos escravosque, com suas da análise dos documentos da Polícia que traçam com tintas fortes situa-
O BRASIL IMPERIAL VOLUME 3 'TE RE M OS G RAN DE S DE SASTRE S SE NÁO HOUVER PROVIDÊNCIAS ENÉRGICAS

iões limítrofes, de revoltas de escravos,manifestaçõespúblicas com par- Tranquilidade pública, segurançada população, manutençãoda or-
ticipação de populares e trânsito constante de escravos e libertos, que dem parecem ter sido, além da defesa da ordem escravista, os objetivos
pareciam ameaçar a ordem pública e a segurança das cidades e dos dis- das forças policiais das províncias escravistasdo Sudeste.Claro estáque
tritos rurais, o que sugeriria a eminente perda do controle, dos senhores a atuação da Polícia nos municípios, de forma geral, coadunava-secom
e autoridades policiais, sobre os escravos, libertos ou populares. interessesdos fazendeiros e senhores de escravos, explicáveis pelos acor-
Em 1883, em ofício reservado,alertava o chefe da Polícia ao presi- dos políticos que selavam as nomeações das autoridades locais. De fato,
dente da província de São Paulo sobre o perigo iminente em que sevia a proteção dos interessessenhoriais manteve, ao longo da década, práti-
mergulhada a província, dado o reduzido número da força policial, e cas bastante conhecidas: descaracterização das denúncias de maus-tra-
sublinhava a urgente necessidadede um novo aumento do número de tos em escravos, prisão de escravos indisciplinados, repressão às forças
praças, que embora já elevado para 960 no exercício de 1883/18 84, con- abolicionistas. Seria tedioso enumerar todos os possíveisexemplos dessa
tinuava muito aquém das necessidades.Acrescentava o chefe da Polícia: tendência, uma vez que a maior parte da documentação policial resume-
se à enumeração dos fatos e circunstâncias nos quais as forças policiais
V Excia. deve saber das contínuas revoltas de escravos que se dão investiram seus esforços com vistas a preservar os interessessenhoriais,
nas Fazendasdesta província e da atitude que os mesmos têm toma- quasesempre identificados com a manutenção da ordem pública. Exem-
do de tempos para cá. As sociedadeslibertadoras e abolicionistas plificando apenasa Repartição dos Negócios Policiais, em seu relatório
crescem de onomento a momento e se tornam mais exigentes e des- atinente ao período de setembro de 1883 a outubro de 1884, afirmava
respeitosas do legítimo direito da propriedade escrava. Há só nesta que embora reinassea tranquilidade pública na província, a polícia ha
capital para mais de 100 escravos com pecúlios depositados e por- via contido alguns incidentes desagradáveis, preservando uma ordem
tanto com a sualiberdade pendente de litígio, e número superior a pública que claramente se identificava com a defesada propriedade es-
contado, conforme reclamaçõesque diariamente recebemem di-
crava, tais como: retirando os juízes de direito de Araraquara e Jacareí,
versascasasparticulares ignoradas, já é grande o número de liber-
reprimindo uma insurreição de escravosem Descalvado na fazenda
tos, que filhos da transição rápida de escravospara não escravos,
de propriedade de d. Rito Antonia da Silva Serra, ocasiãona qual o pró-
querem para mais gozarem de sua liberdade, viver na mais absoluta
prio chefe da Polícia de São Paulo, acompanhado de 40 praças, havia se
ociosidade. Estando as cousasnesseestado Exmo Sr, têm como jus-
to o fundamento que de um momento para outro revoltem-semui- deslocadopara o local para reprimir os escravosrevoltosos e impedir
tos escravos existentes nas diversas Fazendas e que unidos com os que os cativos das fazendas vizinhas também se levantassem e abando-
desta Capital e com um grande grupo de desordeiros que por ai anda nassem seus postos ou ainda capturando os 21 escravos da fazenda da
e perturbem a tranquilidade pública de modo considerável.t8 viúva Duque, de Campinas,que, revoltados, haviam fugido.t9
Na mesmalinha, os juízesnas localidadestendiam a agir de forma a
O documento acima comprova cabalmenteo estado de apreensãoem implementar os procedimentos legais de maneira seletiva e cuidadosa,
que se encontravam as autoridades da província de São Paulo, ainda na com o intuito de preservar os interessesdos senhores. Essatendência fica
primeira metade da década de 1880. Descrita em tons contundentes e bastanteexplicitada, por exemplo, no inquérito policial referente à re-
com imagens fortes, a comunicação do chefe da Polícia, de caráter volta dos escravosocorrida na fazendaSãoJoséde Rio Claro, província
reservado, expressavacerta visão que só era externada nos círculos fe- de São Paulo,em 1885, propriedade do finado barão de Rio Claro, que
chadosdo poder. se havia tornado, após inventário, Sociedade Agrícola Oliveira & Cia.
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Esseauto testemunha tanto a luta jurídica de advogadose promotores roça na maior parte do tempo e residente na fazenda havia mais de 30
na defesa dos escravosquanto as dificuldades impostas pela Polícia e pelos anos, corroborou a versão de Mamede, declarando que "estavam no ser-
juízespara a efetiva implementação das leis que prejudicariam os inte- viço de separar e desbastarcafé na FazendaSão Jozé, serviço esseque
resses senhoriais no controle dos escravos.20 exige cuidado por cauza das mudas aglomeradas, que não pode ser feito
O episódio em questão iniciou-se com a apresentação, na delegada com violência". No entanto, o administrador reclamou que o serviço ia
de Polícia local, de um numerosogrupo de escravosdo eito, do qual se vagarosoe mandou o feitor castigar os escravos;discordando, o feitor
distinguiam "negras que apenasacompanhavam seusmaridos", masque opinou que o serviço "hia bem e com regularidade e que o administra-
não haviam participado do crime. Do grupo em questão, 14 escravos dor queria castigar injustamente aos escravos".2z
entregaram-se, declarando que haviam agredido o feitor e que, por tal, Ao tentar punir Mamede pela insolência, o administrador acabou por
não pretendiam voltar à fazenda. Respondendo à situação, o delegada detonar a revolta do grupo, pois, confirme afirmou André, ao assistirem
abriu um inquérito policial e passoua interrogar os escravos,que unani- a tal fato os escravosuniram-se e deram relhadas no administrador.
memente declararam que o feitor era excessivamente violento e "malig- Afirmou aindaesseescravoque "o administrador é muito impertinente
no" -- repetindo um dos epítetos mais utilizados por escravosrevoltosos e tem revoltado muito não só a elle respondente como também aos ou-
No entanto, a leitura dos autos mostra que o grupo havia ido muito além tros parceiros". Inquirido pelo delegado a respeito das circunstâncias da
do esperado por senhores e autoridades, acostumados a lidar com as agressão,respondeu o interrogado que as relhadas infligidas no admi-
tensões produzidas pelas cíclicas intensificações dos ritmos de trabalho nistrador, "que podiam ser em número de 50, foram dadas nas nádegas
nas fazendas, que acabavam desembocando na indisciplina coletiva dos de calça abaixada".n
escravose em crimes violentos.zt Nessecaso, o grupo havia transgredi- A sequênciade interrogatórios dos outros parceiros seguiu a mesma
do um dos tabus mais bem defendidos em uma sociedadeescravista-- toada: os 14 escravosque se haviam apresentadoà delegada eram ho-
que é o do monopólio do exercíciodo castigocorporal pelo chicote, mens de idade mais aval çada, em torno de 50 anos, e haviam declarado
infligido pelos senhorese seuspropostos sobre o plantel de escravos,e residir na fazenda havia pelo menos duas décadas,sendo que alguns mais
nunca ao contrário realizando o impensável, colocando perigosamente antigos chegaram a calcular que lá serviam havia 40 anos, como afirmou
o mundo de cabeça para baixo. Euphêmio, natural de Campinas e trabalhador da roça. Agindo enquanto
Como se verifica da leitura dos autos, o incidente se dera em respos- grupo coesosconsciente de seusdireitos e interesses,os escravosassu-
ta à atuação, no ver dos escravos, injusta do administrador, que, descon- miam claramente que não mais tolerariam uma das mais clássicases-
tente com o ritmo "vagaroso" do trabalho da gang, havia mandado o tratégias senhoriais de controle dos plantéis, que era o de transferir a
escravo Mamede, residente na fazenda havia 16 ou 20 anos e feitor da aplicação dos castigos violentos aos feitores escravos, de forma a se pre-
roça havia sete, que "castigasse os trabalhadores"(note-se a ausência do servarem fisicamente e a futurar as possíveis ligações identitárias entre
termo escravo no depoimento), ao que Mamede se havia negado. Con os escravos.24Em seu depoimento, o escravo Francisco Molde, natural
trariado, o administrador tirou o chicote para castigar o feitor, que, em de São Paulo, residente na fazenda havia 36 anos e de serviço da roça, ao
respostaà agressão,fugiu para a mata. Reagindoao ataque, "os outros prover certos detalhes do incidente, desvelou o nível de solidariedade
parceiroscaíram sobre o administrador agarrando-oe batendo-o com o grupal dos escravos,fato aterrador tanto para seussenhores quanto para
chicote dizendo-lhe que elesfaziam aquilo para ver se era bom o que elle as autoridades: afirmou ele que, de fato, cada escravo dera duas ou três
queria fazer com elles". Interrogado, o escravo André, trabalhador da relhadas nas nádegas do administrador. Ele, porém, não as havia desfe-
O BRASIL IMPERIAL VOLUME 3
'TEREMOS GRANDES DESASTRES SE NÃO HOUVER PROVIDÊNCIASENÉRGICAS

rido, pois se dedicara a apenas segurar as pernas do administrador "para havia sido castigada pelos escravos com chicotadas nas nádegas --, quan-
que as esporas de suas bobinas não machucassem aos companheiros".a tos ainda mais, importava levar os rebeldes de volta à fazenda para puni-
Claro estáque o enraizamento na fazer)dahavia levado essestraba- dosexemplarmente, única maneira que essessenhores e prepostos podiam
lhadores escravos a desenvolverem forte solidariedade, cimentada em considerar capaz de responder a tão inaudita inversão da ordem. Pressão
prováveis laços de parentesco, casamento e apadrinhamento, como sugere nado pelo delegado, o administrador submeteu-se à perícia, que, no entan-
o fato de o grupo ter-se apresentado à delegada acompanhado de suas to, apenasatestou, de maneira sucinta, a existência de ferimentos leves.29
esposasas quais, embora não tivessem participado diretamente da agres- A leitura dosautos delineia, dessaforma, uma sutil disputa pelo con-
são ao administrador, ainda assim se faziam presente,na trama que havia trole social, policial e jurídico das indisciplinas escravas;isso no ano de
resultado no incidente. Leandro, natural da Africa, trabalhador da roça 1885, um dos momentos mais cruciais da década da abolição, em uma
e com mais de 50 anos de idade, declarou em seu interrogatório que "o das regiões mais violentas da província de São Paulo. O delegado, ao
Administrador era maligno... que a poucos dias havia dado palmatoadas defender draconianamente o indiciamento dos escravosna lei de 1835,
nele interrogado e prendido sua mulher no troDCO..."zõ que os castigada com a pena de morte ou de açoites, de certa forma
De acordo com os procedimentos legais,o delegado prendeu os es- buscava manter a guarda dos réus, colocando-os a salvo da ação senhorial.
cravos criminosos e convocou a vítima, o administrador da fazenda, para O administrador humilhado, em vez de exigir a punição dos indigitados,
depor e submeter-seao exame de corpo de delito, peçaessencialpara ali- menosprezavao crime e inocentava os escravos, defendendo sua devo-
mentar a continuidade do processo inquisitorial, que deveria, por certo, lução ao senhor. O fiel da balança, o juiz de direito, por seu turno, ane-
redundar em processo criminal, no qual os escravosseriam incursos na xou ao processo longo arrazoado jurídico que, em sua essência,apoiava
lei especial de 1835, a qual dispunha sobre as agressõesaos senhores, a versão senhorial: argumentando que uma vez que a vítima não se inte-
feitores, seusprepostos e familiares, e julgados em júri popular.:' No ressavaem levar o processo adiante, não havia lugar para a ação criminal,
entanto, apesardos esforçosdo delegado,a continuidade do processose apenaspara a particular. Nesse sentido, o juiz julgou a ação improce-
viu obstada, uma vez que a vítima, Estanislao Campos Ferraz Netto, em dente e mandou arquivar o inquérito, obviamente devolvendo os escra-
seu depoimento, apresentou versão claramente interessada em inocen- vos ao controle senhorial.
tar os escravose minimizar todo o ocorrido. Em primeiro lugar, Estanislao Dois outros autos, entretanto, seguiram o arquivamento do proces-
negou que, ao tempo do ocorrido, fosse administrador da fazenda. Pelo so, ambos referentes aos castigos "moderados" que foram aplicados aos
contrário, afirmou que embora no passadotivessepreenchido essafun- rebeldes em sua volta à fazenda. Um primeiro era o 'Auto de delito pro-
ção, na época do incidente estavaapenasde visita à fazenda, fato que cedido no escravoChristovão", que se havia escondido na casado ins-
desqualificava o possível enquadramento do grupo na lei de 1835. Além petor de quarteirão, o qual, por sua vez, se negava a entrega-lo ao senhor.
do mais, a vítima negou que tivesse sido chicoteada pelos escravos, ad- Um segundo auto, essede necropsia do cadáver do preto Liberato, mos-
mitiu apenas que havia sido levemente ferido, situação que requeria ape- tra explicitamente como se haviam desenrolado os "castigos moderam(5s"
nas as correções moderadas do senhor.28 senhoriais. No entanto, a necropsia apenas se interessou em descobrir a
Aqui certamenteos interessessenhoriaiscolidiram com o correto e cazzszz
mortas, dada como "aneurisma toráxico", sem descrever as condi-
expedito procedimento do delegado; tanto o administrador não queria ções gerais do corpo, ao mesmo tempo em que o juiz concluía que
se expor à humilhação de um corpo de delito que comprovada a inver- Liberato havia sofrido de morte natural, mandando arquivar o auto.
são dos papéis, expondo a todos -- livres e escravos -- que a autoridade Inconformado, o promotor reabriu a denúncia, mandando exumar o
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cadáver, que foi submetido a uma segunda necropsia,a qual concluiu tudo da parte da chefia da Polícia, em manter as atividades repressoras
em direção totalmente oposta à primeira. De acordo com essa,Liberato dentro do estrito cumprimento da lei. O acirramento das tensõesenvol-
apresentavauma série de órgãos, como baço, rins e fígado, congestiona- vendo escravos, já nos primeiros anos da década de 1880, colocando a
dos, atestando ter sido a morte resultado de castigos violentos. Apoiado questão servil na ordem do dia, atraía para as atividades policiais de
no segundoparecer, o promotor exigiu que o processofosse levado ao controle dos movimentos escravosa atenção da opinião pública que,
chefe da Polícia30 informada pelos jornais, acompanhavaa evolução dos conflitos, sensi-
C) resultado da apelação do promotor parece ter sido, entretanto. bilizando-se pelas denúncias das arbitrariedades policiais.
irrelevante. Embora todos os autos relativos ao casotenham sido expe. Como se depreendedo caso discutido a seguir, ainda em 1881 a
didos para a apreciação da chefia da Polícia, situação que nos permitiu ocorrência de revoltas violentas em distritos cafeeiros importantes,
localizar esseconjunto documental, o acompanhamentodos papéis da acompanhadas de ondas de pânico e violência, começavam a rachar a
Polícia não registrou mais nenhum rastro desseincidente que pudesse antiga solidariedade entre autoridades e senhores de escravos.Alguns
fornecer indícios de sua continuidade. Com quase toda a certeza, o caso delegados da Polícia, juízes e promotores começavam a se ressentir de
foi abafado: além de não interessar às autoridades dar publicidade aos agir de maneira publicamente arbitrária, ao arrepio dos procedimentos
casos mais sensíveis de rebeldia escrava, os meses seguintes acabaram legais,mostrando ser apenasfoguetes nas mãos de fazendeiros trucu-
coalhados de denúncias sobre planejamento de grandes revoltas de es- lentos e aterrorizados.
cravos nos entornas de Rio Claro, fato que desaconselhavade todo a O relatório do delegado de Itatiba(área cafeeira do oeste paulista)
defesade escravosrebeldes.': Apesar de sua inconclusão, o conjunto dos ao chefe da Polícia acerca da repressão a uma revolta de escravos, ocor-
autos relativos à revolta dos escravos da fazenda São José testemunha as rida numa das fazendasimportantes da região, a qual prontamente re-
lutas que, na década de 1880, passavama antepor diferentes autorida- primida, não havia resultado em nenhuma ocorrência mais grave, ilustra
des locais em torno da interpretação dos fatos e episódios que exigiam essarealidade.3zO primeiro relatório do delegado de Itatiba dá ideia da
definições sobre o direitos dos escravose de seucontrole social c jurídico extensão da revolta, bem como do pânico do senhor frente à rebeldia de
e sobre a implementação das leis emancipacionistas, cíveis ou criminais, seus escravos:
constituindo, assim, um território de disputa pública entre diferentes
autoridades. Em vista de tal cenário, os escravosrapidamente passaram Hoje a uma hora da madrugadafiz seguiruma escoltaforte de
a radicalizar, jogando, cada vez mais acirradamente, uns contra os ou- dez homens, comandada pelo sargento aqui destacado, em socor-
tros, autoridades e senhores. ro do fazendeiroFrancisco Cardoso, no Bairro do .jardim, deste
termo, voltaram às onze horas trazendo presosnove dos chefes
da insurreição de escravosde Cardoso ficando todos acomoda-
dos, digo ficando o resto dos escravos acomodados sem que hou-
A TKANQuILiDADE PUBLICA: FAZENDEIROS. DELEGADOS
DA POLÍCIA E ESCRAVOS DESGOVERNADOS vessenenhum incidente na diligência, porém como todo o tirano
é covarde, Cardoso que tremia de medo vendo que onze sabres
saltaram da bainha em seu auxílio, tornou-se um valentão e quer
Se havia fortes interessesligando autoridades municipais aos senhores dilacerar os escravos...
de escravos,também é verdade que ressaltados papéis policiais acerca
da repressão aos movimentos escravosa crescente preocupação, sobre
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Em sua sequência, afirmava o delegado, em tom dramático, bem ao gos- Lavoura. Baluartes da reação escravista, essasassociações assumiram --
to da época:
principalmente no oestepaulista, área de expansãodo café na província
de São Paulo, e nas áreas produtoras de café e açúcar fluminenses --
limo ExmoSr.
crescente hostilidade com relação às reivindicações escravas e à atuação
A escravidão, essamiséria estampadana face da sociedade bra- de advogados interessados na libertação jurídica dos cativos. Na provín-
sileira, de ontem para cá tem me feito passarpor horríveis torturas cia de São Pau[o, ]oca]idadescomo Brocas (] 8 81), Araraquara (1883 e
o senhor me pedia que Ihe garantissea vida e propriedade, a huma- 1884), Ribeirão Preto (1 883), Botucatu (1883 e 1884) e São.jogo da Boa
nidade, a religião e o espírito do século me pediam que garantisse o
Vista(1 884y' viveram sérios conflitos envolvendo as atividades de gru-
sangue do escravo. Cardoso, sanhudo quer ensanguentar a cadeia
pos de fazendeiros e Clubes de Lavoura que "provocando distúrbios na
eu me oponho por toda parte sussurrava-se: a autoridade não con.
sentia que se dilacerasse os escravos. É agente de Nabuco, com-
cidade, ameaçamespancar as autoridades e corpo policial".3s
parsa de Luís Gama diziam. Finalmente hoje ao meio-dia, a Congregadosem bandos armados, sempre sob a direção dos mais
semelhançade Palatos,talvez tão covarde quanto ele, ordenei que poderosos, os fazendeiros não se acanhavam em ameaçar, pelas armas,
se açoitassemos nove infelizes escravosde Cardoso. Dirigi-me à advogados, juízes e delegados que não demonstrassem identificação es-
cadeia e fiz representar o mais triste e degradante espetáculo. trita com seusinteresses.Vale lembrar o bem conhecido discurso apre-
mandando aplicar cinquenta açoites em cada um. O estalar do chi- sentadopor Christiano Ottoni ao Senado em 1884, o qual não apenas
cote do algoz, os gemidos dasvítimas davam àquela cena o aspec- registra a escalada de tensões sociais nos distritos escravistas, que passa-
to da época negra do Santo Ofício. Quatrocentas e cinquenta vezes vam a antepor radicalmente fazendeiros aos escravos revoltosos e mili-
se levantou o azorrague e outras tantas caíram sobre a garupa de tantes abolicionistas. como evoca os crescentes contitos entre autoridades
nove homens pretos, isto em nome da lei, diante da autoridade e municipais, judiciárias e policiais e os grupos de fazendeiros organiza-
força pública. O que diria Castro .aves sefosse vivo? Ao retirar-me
dos em torno dos Clubes de Lavoura ou em bandos armados. Situação
fui saudadopela multidão, maseu estavaenvergonhado.E ficou
que sugeria, não sem razão, a emergência no Brasil ou pelo menos
tudo em paz e sossego.s3
nas áreas conturbadas pelos conflitos escravistas -- de padrões de
justiçamento sumário e linchamento, tidos como uma das consequências
Embora excepcional, o texto acima testemunha a radicalização de cer-
mais nefastasda guerra civil norte-americana:
tos estratos da população nasáreas de alta concentração de cativos, que
passavam a reagir de forma violenta às contestações escravas. Situações
Mas, paralelamente a estes fatos, surgem outros igualmente lamen-
como a acima descrita, no entanto, sugeremque o acirramento dos âni-
táveis, ainda mais condenáveis, porque são praticados por homens
mos dos fazendeiros tumultuava as cidades e ameaçava as autoridades, livres. Refiro-me à expulsão do lugar de sua residência dos juízes
exigindo tanto a repressão contra escravos rebeldes como contra advo-
que julgam de certa maneira, por indivíduos reunidos e armados
gados envolvidos nos movimentos emancipacionistas ou nos clubes e que se dizem povo; a expulsão de advogados que requerem em juízo
sociedadesabolicionistas.
alguma libertação; e a par disto ainda excessosmais espantosos; a
Outros tantos delegados e juízes municipais, no decorrer da década, invasão das prisões, a retirada de criminosos que são esquartejados
expressaramigualmente sua discordância quanto aosmétodos utilizados na praça públicas E o que é mais assustador é o silêncio guardado
pelos fazendeiros locais, sobretudo aqueles congregados nos Clubes de sobrecada um destesfatos!(-.) Supondo que fossea lei de Linch
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em uso em alguns Estados da União Americana, cabe-me perguntar 'VAMOS DAR UM SAQUE GERALNA POVOAÇÃO": ESCRAVOSANDARILHOS

a todos os responsáveis pela direção dos negócios públicos: desejais DELEGADOS EMANCtPACIONISTAS E A REAÇÃO SENHORIAL
que se admitam em nosso país um tal estilo? É o que vedes na
América do Norte mais digno de imitação?3ó
Um dos episódios mais dramáticos ocorridos já àsvésperas da abolição,
em fevereiro de 1888, atesta o nível de confronto que se desenrolava
Nessesentido, nota se que, embora a Justiça e a Polícia, de forma ge- nasáreascafeeiras de São Paulo, colocando senhores de escravos,de um
ral, trabalhassem em harmonia com os interesses dos fazendeiros na lado, e de outro, o delegado da Polícia de Penhado Rio do Peixe, loca-
manutenção da ordem e, portanto, na defesa da sacrossantaproprie- lizada a oeste da província de São Paulo.37 Caso excepcional devido tan-
dade escrava,a década de 1880 também colaborou para o delineamento to à violência dosfazendeiros,que lincharam o delegado"abolicionista"
de possíveis cisões. O crescente desgoverno dos escravos parece ter su- Joaquim Firmino de Araújo Cunha, quanto à participação de ex-confe
gerido às autoridades policiais que, em situaçõescríticas, mais importan- derados norte-americanos emigrados para a região, como o médico .games
te do que defender o direito dos fazendeiros seria preservar a chamada H. '«'ame e Jogo Jackson Khnk, ambos naturalizados brasileiros e fa
tranquilidade pública. zendeiros escravistasda região e, do que se depreende dos autos crimi-
Ora, à medida que os senhoresperdiam o controle sobre seuscati- nais, líderes do linchamento. Ao que tudo indica, a acusaçãocontra
vos, passavama exigir das autoridades que interviessem de forma Joaquim Firmino, que teria justificado a organizaçãode um grupo de
truculenta na contenção da rebeldia escrava, e assim, decididamente. fazendeiros e capangascom objetivo de aplicar represália no delegado e
se colocassem ao lado da defesa da propriedade de escravos. Por seu outras figuras locais, baseava-seem sua atuação moderada e legalista em
turno, muitas autoridades começavama se sentir pressionadose des- defesa das leis emancipacionistas, que naquela altura passavam a ser
respeitadas,situaçãoque delineava potenciais conflitos de poder no abertamente discutidas em toda parte, em n7eefingsde rua, jornais e as-
âmbito do controle social. Pode-sedizer que, embora permaneça ainda sociações abolicionistas, entre outros espaços. Segundo os réus, o crime
como questão nebulosa, o processo de intervenção da esfera pública de Joaquim Firmino restringia se a estar dando guarida em sua casaa
no mundo privado dos senhoresde escravoscomeçou a gerar, em tor- dois escravosem processo de emancipação, além de participar de meefi/ gs
no da década de 1880, uma cisão na esfera do controle social, em torno abolicionistas, organizados em torno do Clube Euterpe Comercial, de
Mogi-Mirim.3a Tendo reunido, na calada da noite, nos arredores da ci-
da implementação das leis emancipacionistas. Embora estritamente con-
servador, defensor dã legitimidade da propriedade escravae fundado dade, mais de 200 pessoas revoltadas com a aparente adesão do delega-
do local ao abolicionismo. a turba entrou sorrateiramente na cidade e
no ideal da indenização pecuniária e moral aos senhores pela eman-
postos-se à frente da casa do delegado "em grande algazarra, fazendo
cipação dos escravos na forma do estabelecimento de períodos de
ao mesmo tempo uma enorme descargade que ficaram crivadas de balas
trabalho obrigatório e cumprimento de outras obrigações pelo liber-
as paredes e folhas das janelas, enquanto outros quebravam as vidraças e
tando --, o gradualismo emancipacionista produziu, nos distritos ca-
forçavam a porta...". A seguir, invadiram a residência, surraram até a
feeiros, grandes conflagrações de interesses.
morte o delegado,agrediram suamulher e uma filha pequena.Ato con-
tínuo, a turba ganhou novamentea rua, dirigindo-se à casade outras
vítimas, tidas também como colaboracionistas. Não tendo podido alcançá-
las, pois devido ao alarde os perseguidos haviam tido tempo de se refugiar
O BRASIL IMPERIAL VOLUME 3 TE RE M OS G RAN DE S D E SASTRE S SE NÃO HOUVER PROVIDÊNCIAS ENÉRGICAS

nasvizinhanças, a turba irritada retornou à casade Joaquim Firmino. passaram,no início da décadade 1880, por uma reviravolta, com a en-
Ali, encontrou caído o delegado, provavelmente já morto. Alguns, po- trada em cena de nova forma de intervenção do poder: a do delegado
rém, para se certificar do óbito, chutaram e esfaquearamo cadáver,ape- legalista e moderado, que buscava implementar as políticas emanci-
sar dos rogos de sua mulher e de sua filha.'9 pacionistas,embora sem ferir frontalmente o poder senhorial. De fato,
Ao contrário do que se poderia esperar,nos dias seguintes,a maior Lacerdahavia iniciado sua trajetória abolicionista ao tempo em que
parte dos indiciados se apresentou à justiça local, confirmando a partici- ocupava o cargo de delegado da Polícia, no qual imprimiu atuação mo-
pação na reprimenda ao delegado que, segundo os réus, merecia receber deradamente emancipacionista e, sobretudo, legalista.
um susto por não cumprir aquilo que seesperava dasautoridades, isto é, No entanto, ao buscar intervir de forma mais legalista no trato das
fidelidade absoluta aos interessesdos fazendeiros.Atestando a certeza denúncias e crimes que envolviam os escravos do município enquanto ví-
da impunidade, um a um os réus confirmaram suas participações, ne- timas de abusos senhoriais, dando ouvidos a acusaçõesrelativas a castigos
gando apenasterem cometido a agressãofísica direta ao delegado. Com- exagerados e assassinatosde escravos, e procurando levar a cabo as dili-
provando o nível de tolerância local com relação ao comportamento gênciasde forma menos parcial, Lacerda passoua ser tratado pela camada
violento dos fazendeiros, quando se tratava de preservar a propriedade senhorial como elemento perigoso, que deveria ser prontamente extirpa
escrava,todos os réus foram absolvidos por júri popular.'o Indicando ser do da sociedade local. Ao que tudo indica, ao colidir com os interesses
essauma tendência que sedelineava nos mesesque antecederam o 13 de senhoriais, Lacerda, que dificilmente alimentava concepções mais arroja-
maio, em Mogi-Mirim, área cafeeira a noroeste de São Paulo contígua a dasdo que o ditado pelo emancipacionismoconservador,acaboudesco-
Pecha do Rio do Peixe e ainda em fase preliminar de expansão do café, brindo na pele o lado mais obscuro do poder senhorial: perseguido,
foi assassinado
o "agitador abolicionistaAntânio Paiva"no bairro rural ameaçado,caluniado, agredido moral e fisicamente, acabou sendo com-
de Ressaca.No dia seguinte, porém, os partidários e parentes da vítima, pelido, pela pressãodos escravistas,sobretudo daqueles congregadosem
em represália, invadiram a fazenda Santo Inácio, da qual, supõe-se, torno do Clube de Lavouralocal. a assumir militância muito mais radical
haviam partido os assassinosdo abolicionista." Situação similar se con- do que se podia esperarse levarmos em conta o início de suatrajetória.':
cretizava em outras regiões produtoras de café do Sudeste,sendo o caso Afinal de contas,o abolicionista radical, redator do combativo V2/zleCf#-
mais notável o do município fluminense de Campos dos Goitacazes, co de Março, jornal que pregava,em 1884, a insubordinação escravacomo
marcado pela atuação de Luiz Carlos Lacerda, delegado da Polícia !ocas forma legítima de defesa,havia iniciado sua carreira abolicionista recu-
nos inícios da década de 18 80 e que, nos anosseguintes,a partir de 1884, sando-se a participar, em 188 1, da Sociedade Libertadora Campista, sob
desenvolveraradical militância abolicionista. o argumento que "alzfes de ema cípar o escravo era preciso edz/aí-/o".«
Região fortemente escravista, como comprovam os dados de Sílvia Entre os muitos aspectos aterradores da generalização da rebeldia
H. Lara para o final do séculoXVlll, que computam 30.000 habitantes, escrava que emergiu desde o início da década, um deles chama a atenção
sendo 50% deles escravos, Campos dos Goitacazes entrou no século XIX por ter sido reiteradamente remarcado como o mais perturbador deles:
contando com o acúmulo de conhecimento a respeito do manejo dos a mobilidade a que passavam a usufruir os bandos de escravos e recém-
escravos, produzido em décadas de relações escravistas, com longa ex- [ibertos. Revo]tando-se, simp]esmente fugindo na ça]ada da noite ou,
periência senhorial e das autoridades locais no controle dos cativos, es- ainda mais no final da década, retirando se das fazendas em grandes
tes sempreprontos a fugir, resistir ao trabalho ou estabelecerrelações bandos, capitaneados por guias e agentes abolicionistas provenientes das
sociais perigosas.'Z As constantemente instáveis relações escravistas locais cidades, os grupos de escravos passavam a transitar por vias, estudas e
TEREMOS GRAN DES DESASTRES SE NÃO HOUVER PROVIDÊNCIASENÉRGICAS
O BRASIL IMPERIAL VOLUME 3

de quem chegou àsautoridades da corte. O teor das informações contidas


cidades.'s Os deslocamentos dos grupos, muitas vezescompostos não mais
na tal carta parecia, aos fazendeiros e autoridades municipais das pro-
por cativos mas por recém-libertos -- como os denominados libertos de
víncias cafeeiras, coalhadas de escravos rebeldes e cada vez mais móveis,
Antonio Bento, que nos anos finais da escravidãoeram trazidos do
simplesmente aterrorizante:
Quilombo do Jabaquara para as fazendas do oeste paulista para repor as
levas de cativos que abandonavam seus postos --, produzia nos senho-
Incognitos. SociedadeSecretaAbolicionista cujo centro é a Corte,
res, nas populações urbanas e nas autoridades municipais verdadeiros
organisadacom intuito de revolucionar a arrasa-miúdae com ella
calafrios.4óNessas situações, temia-se, mais do que qualquer coisa. a
apoiar a insurreição geral dos escravospara essefim preparada na
eclosãode surtos de violência incontrolada.
Corte, Proaíndia do Rio de .Janeiro, São Paulo, Paraná e Rto Grande
Episódio muito expressivo apareceno relatório do delegado da Polí- do Sul, nestestrês ou quatro meses,por estaforam mandados50
cia de Santa Rita do Passa-Quatroao chefe da Polícia de São Paulo, no agentes pelas cinco províncias do Império. São agentes escolhidos,
início de 1888, a respeito das algazarras provocadas por 30 e tantos li- intelligentespara bem persuadir e de confiança para executar; lO
bertos que haviam sido deslocadosde Santos para colher café nas fazen- foram para cada província. Um dos de São Paulo vae pela linha do
das locais. Afirmava o delegado que os ex-escravos, denominados sob a Norte, percorrendo as cidades e povoações por onde passaa estrada
rubrica de "colonos(-.) são bêbados, provocam desordens, aconselham geral. Procuram no seu itinerário os filiados a quem dão instrucções
os escravos a fugirem e procurarem Antonio Bento em São Paulo". Acres- verbaes e animam mostrando a proclamação que trasem com os
centa o delegado, pintando çom tintas carregadas a situação do municí- diseres:-- Viva o Imperador, Viva a Família Imperial, Abaixo o À4f.
pio sob sua responsabilidade, que a prisão de um deles, por desordens, nis&édo e Viva a Liberdade Geral dos Escravos: assignaturas entre

provocara a oposição do grupo que ameaçara invadir a cadeia e "dar um outras de Dantes,Joaquim Nabuco e muitos outros que não ficaram
na memória. Dizem que são appoiados pelo Conde D'Eu e que já
saque geral na Povoação, para ensinar a caboclada"." Ameaças como essa
contam com 400 subscriptos. Procuram faser nucleos municipaes que
indicavam a potencialidade da eclosão de revoltas de escravose libertos.
recebem instrucções do nucleo provincial; e este do nucleo central
que produziriam surtos de violência contra senhorese outros setores,
para no dia que for designado; depois de tudo preparado gritarem a
como as camadas médias das cidades.
revolução e sublevarem os escravos que appoiarão para dar o golpe
Nos anos finais de vigência da escravidão,os conflitos se exacerba- mais seguro. Contam em São Paulo com o apoio dos italianos que se
ram, levando a quadro geral de confronto nessadireção. A partir de cer- interessarãono movimento e na Corte com os trabalhadoresde es-
to ponto, fazendeiros, subdelegados, delegados, chefes da Polícia e outras tudas de ferro e outros, além do contingente de pessoalde que dis-
autoridades provinciais e da corte parecem não se entender mais, obser- põem. O agente secreto que segue pela linha do Norte, isto é pelas
vando-se no entrecruzamento de telegramas, ofícios e declarações pú- povoações cortadas pela estrada geral, é um homem branco mas não
blicas não só a ausência de estratégia discursiva comum, mas um jogo de muito claro, de 30 a 40 annos de idade, intelligente, usa toda a bar-
empurra com relação ao controle da agitação e deslocamentos dos cada ba, anda trajado com roupa de casimira escura, sem signal algum
vez menos manejáveis escravos. O episódio discutido a seguir, iniciado particular. É cauteloso, a noite é que procura os filiados sendo por
com o recebimento pelo chefe da Polícia da corte, em setembro/outubro isso guiado por algum dos da terra. Esteveno Bananal e já entendeu-
se com os seus, e deve estar em Barreiras ou já em Áreas. Não Procura
de 1885, de uma carta anónima, a qual havia caído nasmãosde um im-
só os da cidade, procura também os da roça e previne para se reuni-
portante fazendeiro de Resende-- cujo nome foi mantido em segredo
rem quando para isso tiverem ordem que receberam por signaes.'8
-- que repassouas informações para o delegado local, por intermédio
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Concomitantemente à circulação dessasalarmantes informações, surgi-


'T 'TEREMOS GRAN DES DESASTRES SE NÁO HOUVER PROVIDÊNCIAS ENÉRGICAS

esclarece,por exemplo, o telegrama enviado pelo chefe da Polícia de São


Paulo ao delegadoda Polícia de Descalvado, em novembro de 1885, o
ram, nos distritos cafeeirosdo oestede São Paulo,indícios da organiza-
ção de ampla sublevação de escravos,que supostamente deveria eclodir qual, vendo-seconfrontado com um levantamento de escravosem uma
no Natal de 1885. As averiguações levadas a cabo em populosos distri- das fazendas locais, cujo motivo, temia-se, ligava-se à sublevação geral
tos escravistas como os de Campinas, Mogi-Mirim, Casa Branca, Penha dos escravos em pauta, aconselhava a prisão urgente dessesescravos, mas
do Rio do Peixe,Brutas, São Simão e Limeira -- levantaram indícios da recomendo a prudência e moderação para que não se tenha que lamentar
preparação de diversos levantes escravos, surgindo, igualmente, pistas outros factos que poderiam depor contra a boa administração da polícia".sj
da colaboração de forasteiros em sua organização.49Tais conclusões le. Os dias seguintes mostraram, realmente, a existência de funda cisão
viram ao repentino acirramento de tensõese confrontos entre senhores entre as autoridades, que haviam passado a interpretar seus papéis sociais
e autoridades municipais do Judiciário e da Polícia, todos procurando em diferentes chaves: a irrestrita defesa da propriedade escrava saía da
pressionar os níveis mais altos da burocracia em busca de reforço poli- boca de cena para dar lugar à defesa da tranquilidade pública, cujo teor
cial, proteção e garantia de manutenção da tranquilidade pública. As- escorava-se no respeito à lei e aos procedimentos legais, e sempre reco-
sim, por exemplo, rezava o telegrama enviado pelo delegado da Polícia mendava, da parte da Polícia e outras autoridades, moderação. Concei-
de Limeira ao chefe da Polícia, datado de 20 de dezembro de 1885: to que podia ser crescentemente aproximado a uma visão liberal da
constituição de um espaço público impessoal.sz
limo. e Exmo. Snr. Em termos mais diretos, a adesão dasautoridades policiais ao gradua-
Fundados receios de uma sublevação de escravosincitados por lismo detonou as basesdo controle social dos escravosnas localidades.
um indivíduo que por aqui andou e ultimamente foi prezo em Mogy abrindo espaçopara a ascensãodos movimentos rebeldes.O legalismo,
Miram, a qual deverárealizar-seno dia 24 ou 25 do corrente,e mesmoque tímido, das autoridades foi um subproduto não planejado
achando-se actualmente no destacamento desta cidade só 4 praças do abolicionismo e deu lugar a uma reordenação de forças, com conse-
e um sargento incapazes de qualquer serviço por serem uns poltrões quências inesperadas. Os escravos, como sempre aproveitaram o espa-
solicito de V Excia a remessa de 15 a 20 praças de permanentes de
ço aberto pela briga entre os poderosos e avançaram decididamente. Os
linha para estacionaraqui somento o tempo precizo...se
já visíveismovimentos insurrecionais do começo da décadade 1880 se
aprofundarem em seus meados desembocando em crise aguda na qual o
A troca de alarmados telegramas entre senhores,subdelegadose delega- constante abandono dos postos de trabalho pelos escravos nas fazendas
dos e chefia da Polícia traça quadro bastanteclaro: à medida que o dia acrescentava-se
à crescentemobilidade dos grupos de cativos que, em
da supostarevolta se aproximava, as diferentes vozes, senhoriaise das suas andanças, assustavam as populações das vilas e cidades. Apesar da
autoridades, se entrechocam. Os senhorese parte das autoridades exi- contínua repressão da Polícia e dos capangas, armados pelos cada vez
gem intervenção cirúrgica das forças policiais para decididamente esma- mais presentes Clubes de Lavoura, os escravos, de alguma forma, perce-
gar a ousadia de escravos e abolicionistas. Já uma camada mais moderada biam que as autoridades não tinham mais instrumentos para conter a onda
de delegados, promotores e juízes, apoiada pela própria chefia da Polí- de insubmissão. A fissura no discurso hegemónico sobre a defesada pro
cia de São Paulo, recomenda a manutenção da tranquilidade pública, priedadeescravacomo prioridade acabou,em última análise,abrindo o
entendida como moderação, e o estrito cumprimento dasleis, colocan- flanco para a ascensãode um tipo de rebeldia escravaque pâs fim à pró-
do a defesa da propriedade escrava como segunda prioridade. Ê o que pria escravidão.
O BRASIL IMPERIAL - VOLUME 3
'TERE MOS GRANDES DESASTRES SE NÃO HOUVER PROVIDÊNCIAS ENÉRGICAS

Dispostos a punir administradores com relhadas, justificando que "que 2. Mantenho aqui a linha de raciocínio seguida em Mana Helcna Machado, O PZa-
elesfaziam aquilo para ver seera bom o que elle queria fazer com elles ptoe o pânico. Os movimentossociaisna déca(iada abolição,Rto de lareira/São
a abandonar asfazendas,fugindo solitariamente ou em grupos, na calada Paulo, Ed. da UFRJ/Edusp, 1994
3. EnidelceBertin, Os mala-mxa.Osa#üa/zos//zzesem Sãoâau/o#o sécw/oXIX.tesede
da noite, na maior parte das vezesa pé, seguindo os trilhos dos trens
doutorado, SãoPaulo, UniversidadeSãoPaulo, 2006. Ver também: BeatrizGallotti
como guia, sob alto risco de retaliação das autoridades e capangasse- Mamigonian, "Revisitando a 'transição para o trabalho livre': a experiência dos afri-
nhoriais, embrenhando senos coutos e quilombos, como o doJabaquara canos livres" llz M. Florentino (org.), Zrá#co, caf/ueilo e/i&ezlcúzcü.R/o de Ja/melro,
em Santos, que muitas vezes jogavam os fugidos em condições pouco sécz{/os
XV7/.XZX,Rio de Janeiro,Civilização Brasileira,2005, p. 389-412.
favoráveis, os escravos na década de 1880 provaram estar dispostos a 4. Bertin, 2006, op. clf., p. 239-240
5. Ver, por exemplo, Enidclce Bertin, A/morriasna São/bK/o do século XTX;/lbe7dz
tudo para se livrar da escravidão. Mais ainda, quando após inomináveis
de e dominação, SãoPaulo, Humanitas, 2004, que estudou as alforrias da cidade
esforços e riscos investidos na busca da libertação, os recém-libertos fo- de São Paulo ao longo do século XIX.
ram pressionados a retornar a seus postos de trabalho nas fazendas, como 6. Uma análise dos meandros da discussãoa respeito da indenização dos senhores
"colonos", eufemismo que reatualizava os princípios de submissãosimi- por meio do trabalho do libertando encontra-se em diferentes passagensde
lar à do cativeiro, passarama sinalizar que podiam praticar a terrível Conrad, OP.cff., tais como p. 96-100 e 224-229

vingança, temida por todos. Tal possibilidade, contida na expressão"dar 7. Inúmeros estudos nos últimos anos se voltaram para a análise das ações de liber-
dade que tomavam como base a lei de 1871, como Sidney Chalhoub, Wsõesda
um saquegeral na Povoação,para ensinar a caboclada", trazia uma in- /{berdade,SãoPaulo, Cia. das Letras, 1990; e Hebe Mana Mattos de Castra. Das
formação que não podia ser mais clara: a escravidão estava superada em cores da silêncio. Os significados da !ibwdaü no SHdesleescrauisla, Brasii. século
todos os sentidos. Senhores e autoridades, no entanto, mostraram grandes XIX, Rio de Janeiro,Arquivo Nacional, 1995.
dificuldades para entender o recado e preferiram seguir adiante argumen 8. Joseli Mana Nunes Mendonça, E#fre a mão e os anéis. A i.eí dos SexageKánose
os camfizbos (ü abo/leão /zo .Brasa/,Campinas, Editora da Unicamp/Centro de
tando que havia sido a falta de iniciativa dos ex-escravos,despreparados
Pesquisaem História Social da Cultura, 1999.
para entender o mundo da liberdade, que havia comprometido suain- 9. Aqui me refiro à terminologia utilizada por limar R. de Mantos, O tempo
serção na esfera da cidadania. saq#arema.A formação do Estado lmPerfa/, SãoPaulo, Hucitec, 1990, que anali
sa a formação liberal do Estado imperial brasileiro como produto da oposição de
três mundos ou esferas de poder: o mundo da casa(fazendas escravistas),o do
governo (dos cidadãosvotantes) e o da desordem, na qual se localizavam os ho-
mens livres pobres da ordem escravista, vinculados às normas sociais por tênues
Notas
laços paternalistas sempre vistos pelas elites como fonte da anarquia social.
10. Ver, por exemplo, Conrad, op. clt., p. 221
l Desdea Lei Eusébio de Queirós, de 1850, que proibia o tráfico internacional de 1 1. Sobre o impacto das reivindicações de indenização exigidas por senhores e parla-
escravos, passando pelas leis do Ventre Livre, de 1871, e dos Sexagenários, de mentares em torno das décadas da abolição e anos imediatamente posteriores,
1885, os políticos alinhados ao escravismo passarama declarar que cada uma ver Conrad, OP.clf., caps. 6, 7, 14, 115e 17; e Eduardo Sirva, "0 grande impasse:
dessasleis haveria de, por si só, extinguir paulatinamente a escravidão, sendo, a indenização" in Américo Jacobina Lacombe ef a/., R#i garbosa e a qzle/ma dos
portanto, desnecessária
qualquer outra intervenção no desenrolarnatural da arqHfu4}s,
Rio de Janeiro, FundaçãoCasa Rui Barbosa, 1988, p. 41-50.
extinção da escravidão.Tais prognósticos supunham que a escravidãodesapare- 12. Sobre as ideias reformistas de Rebouças, ver Sydney M. G. dos Santos, A/zdré
ceria no alvorecer do século XX, sendo que os mais conservadoresprognostica-
Rebozíçase sez tempo, Rio de Janeiro, edição do autor,. 1985, p. 447-495.
vam sua duração até 1910. Sobre o tema, consultar, entre outros: Robert Conrad,
13. Machado, O p/a/zo..., OP.cff., cap. 4; e Conrad, oP. c/f., em muitas passagens,tais
TbeDesíructíon ofBrgzzlzan SlaueO, 1850 1888, Berkeley,UniversiEy of California
como p. 162, 214 e 272.
Press. 1972.
14. Sobre o tema, ver Machado, O P/a/zo..., OP. cif., p. 163-168.
O BRASIL IMPERIAL VOLUME 3 TEREMOS GRANDES DESASTRES SE NÃO HOUVER PROVIDÊNCIASENÉRGICAS

15. Citadopor R. Magalhães


Jr., A z/idafzírbzí/e/zfa
derosédo nafrocüjo,Rio de 34. Daesp,Polícia,ordens 2.612, 2.627, 2.628, 2.629, 2.636 e 2.658, caixas 177,
Janeiro, Sabia, 1969, nota 34, semelucidação da fonte. lêxto semelhanteapare- 192, 193, 194, 201 e 223, respectivamente.
ce na obra de Rebecca Baird Bergstresser,Tbe Mopeme f Áor íbe Aóolltio of 35. Daesp, Polícia, ordem 2.628, caixa 193 de 1884. Ofício do delegado de Polícia
S/az/eryf?zR/o deJa/ze]ro,Brazí/, í 880-] 889, PhD, Stanford University, 1973, D. de Botucatu ao chefe da Polícia
162, retirado de carta de Rebouças a Nabuco de 1890. 36. Discurso de Christiano Ottoni ao Senado de 9 de julho de 1884, reproduzido em
16. Machado, O P/a/zo...,OP.c/f., p. 76-77. Os dados a respeito da população escra- Lana Lage da Gama Lama, Rede/dia }zegra ó' aóo/icionlsmo, Rio de Janeiro,
va encontram-se em Conrad, OP.c/t., quadro 14, p. 295, e mostram que entre Achiamé, 1981, p. 102-103.
1874 e 1882 a população escravado município de Descalvadopassoude 1.339 a 37. A única pesquisa até hoje realizada sobre o caso é a de Jácomo híandato,Joaqaím
2.860, a de Pirassunungade 1.376 a 3.550, e a de Rio Claro de 3.935 a 4.852. Fírmi/zo.O mártir (ü Abo/irão, Itapira, edição do autor, 2001.
17. Departamento do Arquivo do Estadode SãoPaulo (Daesp), Polícia, caixa 2.692, 38. Louro Monteiro de Carvalho e Salva,Molli-Mfrím (s bsz'aiospara a swabisfória),
ordem 257. Mogi-Miram, CasaCardona, 1960, p. 213
39. Conforme "Autuação" constante do processo-crime de 1888, Autora: A Justiça
18. Daesp, Livro de Reservados,ordem 1.529, Ofício de ll de setembro de 1883.
contra Doutor JamesWarne e outros. Processoparcialmentereproduzido em
19. Daesp,Polícia, caixa 2.638, ordem 203 de 1884. Relatório da Repartiçãodos
Negócios Policiais, de 23 de setembro de 1883 a 30 de outubro de 1884.
Mandato,/oaqz/fmFlrm{/zo...,OP.cizr.,p. 102-105.
40. Processo-crimede 1888, Autora: A Justiça contra Doutor Jamescarne e outros,
20. Daesp, Polícia, caixa 2.647, ordem 212 de 1885. Translado dos Autos de Interro-
processoparcialmente reproduzido em Mandato,/oaqz ím FI mimo...,OP.cif., p.
gatório feito aos escravos da Fazenda São José, neste Município, e Termo e Corpo 152-155
de Delito e mais peçasdos ditos autos.
41. Carvalho e Sirva,Mo/í-Miram, OP.cif., p. 214.
21. Sobre o tema, ver Mana He]ena ]Z T Machado, Cr/me e escxaui(üo. Zzaba/bo,
42. Sílvia Hunold Lara, Campos da Wo/ê#zcia,São Paulo, Paze Terra, 1988, p. 139 e
/zzfa e reslsfêmcü nas ].az/ozlras nau/]sfas, (]840-í888), São Paulo, Brasiliense, cap. XIE p. 341-356
1987
43. Sigo aqui a análise de Lima, Robe/diamagra...,OP.cif., p. 84-139.
22. Daesp, Polícia, caixa 2.647, ordem 212 de 1885. Trasladodos Autos de Interro- 44. Lima, Rede/día/zebra...,OP.cff., p. 85.
gatório..., OP.cif., Interrogatório do escravoMamede.Grifos meus. 45. Em SãoPaulo, capital, o trânsito de escravosfugidos tornou-se, nos anos finais
23. Daesp, Polícia, caixa 2.647, ordem 212 de 1885. Trasladodos Autos de Interroga- da vigência da escravidão, um dos grandes temores. O episódio de enfrentamento
tório..., oP. cíf., Interrogatório do escravo André. ocorrido entre um bando de escravos, que se haviam retirado de diferentes fazen-
24. Ver Machado, Crime e escraz/lado,OP.clf., p. 62-86. das do oeste e se dirigiam para Santos, e um grupo de policiais do Corpo de
25. Daesp, Polícia, caixa 2.647, ordem 212 de 1885. Traslado dos Autos de Inter- Permanentes, ocorrido na capital, no bairro de Santo Amara, causou pânico na
rogatório..., OP.cfz'.,Interrogatório do escravoFranciscoMolde. cidade. Ver Mana Helena R T. Machado, "Sendo cativo nas ruas: a escravidão
26. Daesp, Polícia, caixa 2.647, ordem 212 de 1885. Traslado dos Autos de Interro- urbana na cidade de São Paulo" f?zR Porta (org.), Histó ia de São jazz/o. A cidade
gatório., ., OP.cíf., Interrogatório do escravo Leandro. /zo.rmPérío,v. 2, São Paulo, Paze Terra, 2004, p. 96-97.
27. Sobre lei especial de 1835, ver Machado, Cr/me e escrat/filão, OP.cíf., p. 65. 46. Sobre o Quilombo do Jabaquara,ver olaria Helena P T. Machado, "De rebeldes
28. Daesp, Polícia,caixa 2.647, ordem 212 de 1885. Trasladodos Autos de Inter- a fura-greves: as duas facesda experiência da liberdade na Santospós-emancipa-
rogatório..., oP. c/f., Depoimento de Estanislao Campos Ferraz Netto. ção" fn O. Cunha e F. dos Santos Games, Quase-cima(üos. Hisfórüs e a rroPo/o-
29. Daesp, Polícia, caixa 2.657, ordem 222 de 1885. Autos de Corpo de Delito em rlas dzzpós-emazciPação/zoBrasa/,Rio deJaneiro, Ed. da FGX 2007, p. 241-282.
Estanislao Ferraz Netto. 47. Grifo meu.
30. Daesp, Polícia, caixa 2.647, ordem 212 de 1885. Traslado dos Autos de Interro- 48. Daesp,Polícia, caixa 2.649, ordem 214 de 1885. Ofício contendo carta anónima,
gatório..., OP.cit. Traslado de Autos de Delito procedido no escravo Christovão supõe-secopiada pelo escrivão de Polícia de Resende e então enviada ao chefe da
pertencente à Sociedade Agrícola Oliveira & Cia e Traslado de Autos de Autópsia Polícia da corte, que por seu turno a reenviou ao chefe da Polícia de São Paulo, e
do cadáver do preto Liberato. este para asautoridades policiais municipais. Considera-se também a possibilidade
31. Machado, O P/a/zo...,op. cÍf., cap. 5. de que a carta anónima tenha sido apenas relembrada pelo fazendeiro denunciante,
32. Daesp, Polícia, ordem 2.600, caixa 165 de 1880. que a tivesse tido em mãos apenas para leitura. No entanto, as circunstâncias da
33. Daesp, Polícia, ordem 2.600, caixa 165 de 1880. denúncia permanecem nebulosas. Apesar do tom pouco claro da denúncia, o que
O BRASIL MPERIAL - VOLUME 3

poderia fazer supor um certo grau de fantasia por parte dos fazendeiros, vale
relembrar que poucos anos antes, na mesma região, Antonio Mesquita e seus
seguidores haviam, de fato, tentado levantar os escravosa partir de um plano
similar. Acrescenta-seque indivíduos presosna localidade confirmaram o supos-
to plano. Sobre essatentativa de sublevação,ver Machado, O P/a/zo...,op. clt
cap.5 (grifo no original)
49 Daesp, Polícia, caixas 2.641, 2.647 e 2.649, ordens 206, 212 e 214 de 1885.
50 Daesp, Polícia, caixa 2.649, ordem 214 de 1885
51 Daesp, Polícia, caixas 2.642 e 2.651, ordens 207 e 216.
52 Para o aprofundamento da questão, ver André Rosemberg, A Po/üla em São lbzí.
/o (:Z87í-:Z 889): a J/zsrffzíição, práflca colidia a e cz /[#ra, tese de doutorado. São
Paulo, Universidade de São Paulo, 2008, cap. 5.
CAPITULO
XI A alternativa republicana
e o fim da monarquia'
RematoLemos

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