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Carta aos Cientificistas

Um manifesto contra as falhas do pensamento cientificista


Por: Kordy (ao Cultura Libertária)

Introdução
Caro amigo leitor, este artigo/texto é um manifesto, um modo de
denunciar um problema complicado que desqualifica intelectualmente a
nossa sociedade pós moderna/secular. De uns bons anos pra cá, assim como
Olavo de Carvalho vinha denunciando em seu livro “O Imbecil Coletivo”, a
soberania do pensamento individual foi destruída pela pseudo
intelectualidade absoluta do coletivo; ou seja, um indivíduo sozinho jamais
é capaz de descobrir ou conhecer a verdade. Uma verdade só é verdade se
“produzida” pelo intelecto coletivo [quase como uma divisão ontológica
entre coletivo e indivíduo].

E não para por ai. Como se não bastasse a podridão intelectual do


pensamento coletivista, vemos a ascensão do pensamento cientificista quase
como uma cosmovisão (visão de mundo). E qual o problema deste
pensamento? Bom, o pensamento cientificista acredita que só a ciência é
capaz de descobrir verdades (através do método científico) e que nada está
além dos limites dela própria. Cientificistas desconsideram que a verdade
seja metafísica, e sim algo tangível, palpável e dotada de materialidade,
tendo como conclusão, que a filosofia está morta e não legitima verdade
alguma além de homens barbudos que vivem com a cabeça no mundo da lua.
Mas será que as coisas realmente funcionam dessa maneira? Pois bem, neste
texto que você lerá abaixo, eu procuro esmiuçar o pensamento cientificista e
demonstrar que a ciência não existe sem que antes a filosofia a legitime como
uma “descobridora de verdades”, e que é contingente à metafísica. Porém é
bom deixar claro que se vocês esperam um artigo que deslegitime totalmente
a ciência como uma inutilidade mundana, está enganado. Ela vem ajudando
a sociedade em seu desenvolvimento a milhares de anos. O objetivo deste
texto é demonstar que a ciência não é a única ferramenta capaz de descobrir
verdades a respeito da realidade. Isto posto, Boa leitura!

Ciência como resposta para tudo


Não é novidade pra ninguém que a razão (racionalidade humana)
seja crucial e muito importante para a nossa existência, e por ser algo vital a
nossa existência, não deve ser aplicada de maneira errada e imprudente. A
muitos anos, existe uma grande tendência de limitar esta razão de forma
reducionista a acreditar que a verdade só pode emergir de algo que é
cientificamente e empiricamente confirmado e verificado, eliminando
inclusive os métodos e meios lógicos, filosóficos e matemáticos de
descoberta e conhecimento. Isso é muito comum na comunidade científica e
ateia, que consideram a ciência como uma redentora1 da humanidade, quase
como uma cosmovisão2 (e na maior parte das vezes é mesmo). “Tudo dentro
da ciência, nada fora da ciência” (Um ultranacionalismo científico). Porém,
investigando mais a fundo, teremos que esses grupos tendem a ver a ciência
como um objetivo que vai além da investigação da realidade material ou das
leis da física, universo, astronomia, etc. O fim último dessa visão é “libertar”
a humanidade da tal crença em Deus ou superstições “sobrenaturais” em
geral. Com uma análise simples, como dito na introdução, a ciência é
importante, mas não dá um passo a frente quanto às questões últimas da
natureza e da realidade. Como diria muito bem um linguista chamado Noam
Chomsky em uma entrevista a um jornal americano:

“A ciência fala sobre coisas muito simples e faz


perguntas difíceis sobre elas. Assim que as coisas se tornam complexas, a
ciência não consegue mais lidar com elas. Mas é um assunto complicado: a
ciência estuda o que está no limite da compreensão, e o que está nos limites
da compreensão é geralmente bastante simples. E raramente alcança os
assuntos humanos. Assuntos humanos são por demais complicados.”

1
Uma salvadora da pátria; aquela que resolve todos os problemas da humanidade.
2
Visão de mundo e de universo (Cosmos + Visão).
E o que esta fala de Noam quer nos dizer? Bom, que devemos sempre
procurar algo metafísico ou além da ciência para guiar a vida humana e a sua
natureza, tal como a complexidade da moral, justiça, ética, valores,
dignidade, etc. Encontrar quaisquer valores objetivos3 metafísicos em um
método que busca apenas entender aquilo que é físico e material, é no
mínimo uma ingenuidade intelectual, ou seja: a ciência não é o único método
para se encontrar verdades no universo. Mas quais são as limitações
explícitas da ciência? Vamos nos aprofundar mais um pouco?

Para entender o método científico


O Método cientifico é uma metodologia de estudo empírico que
consiste nas seguintes etapas:
• Observação: o cientista observa a realidade.
• Postulado: ele então faz uma afirmação que gostaria de saber se é
verdadeira acerca do fato observado.
• Experimento: ele conduz uma serie de experimentos empíricos na
tentativa de provar o postulado.
• Análise: o resultado dos experimentos são comparados entre si
• Conclusão: da análise, então ele conclui se o postulado pode ser
demonstrado e com que grau de assertividade.

Este método é o método utilizado pelos cientistas para encontrar as


tais verdades que eles dizem que apenas a ciência pode provar. Porém, com
uma simples análise, vemos que o método científico se propõe a analisar
apenas os fenômenos físicos (aquilo que acontece no universo), mas não
explicam os fenômenos imateriais e metafísicos4 dos quais eu descreverei no
próximo tópico.

3
Aquilo que independe da escolha e da subjetividade. É de maneira universal.
4
Aquilo que está para além da física. Algo abstrato e não tangível que sempre existiu.
Limitações da ciência
Como dito anteriormente, e volto a dizer, a ciência é importante. Nos
explicará como o mundo (físico) funciona e é o processo que traz
prosperidade a muitas pessoas, seja no cultivo, na agricultura, na economia,
dentre outras coisas, mas não consegue explicar os componentes mais
importantes da vida humana como ética, moral, razão, abstração e
matemática. E como a ciência, considerada onipotente e onipresente pelo
ateu Peter Atkins, pode não conseguir provar e encontrar verdade nesses
fatores?

Moralidade e ética
A ciência pode nos dizer como um smartphone funciona ou como
ocorre o ciclo das águas, mas não consegue nos dizer como devemos viver a
nossa vida como seres humanos, muito menos nos dizer o que é certo e errado
ou bom e mau. E neste ponto, um cientificista diria: “Mas você acha que nós
não podemos ser pessoas éticas ou morais? Não podemos ser bons?”.

E a resposta é: Claro! Cientistas podem ser pessoas boas e morais , 5

mas essa moralidade e bondade não obtêm um caráter objetivo e universal


por meio do método científico. Se trocarmos em miúdos, um cientista não
realiza um experimento e conclui que estupro é errado, ou que roubar é ruim,
ou que mentir é imoral. A ciência se limita ao físico e ao material, e questões
como moralidade e ética, ou o dever-ser moral e ético não são legitimados
objetivamente pelo método empírico de experimentação. A ciência não
determina a ética ou a moral, e sim, a ética e a moral devem ser um guia para
toda a ciência. A ciência estuda o fenômeno ocorrido, mas nunca o que está
por trás dele, ou seja, a ciência explica o que acontece, mas nunca como isso
deveria ter acontecido em relação aos valores morais ou éticos por exemplo.
5
A objetividade da verdade e da moralidade independe da crença humana na mesma, e sim da
existência desta verdade. Portanto, ateus e cientificistas podem ser pessoas morais, pois ainda que não
acreditem na objetividade da moral e da ética, ao agirem em adequação a esta verdade, estarão sendo
indivíduos morais e éticos.
O estudo moral e ético antecede o próprio método científico. A ciência é
limitada. Em um caso de estupro por exemplo, os cientistas estudarão as
consequências daquele ato, o ato em si e as circunstâncias que podem ter
levado ao ato (assim como em uma investigação criminal no estilo C.S.I),
mas nunca conseguirão dizer que aquele ato foi um ato certo ou errado ou
porquê uma ação é moralmente superior a outra, e até o porquê Hitler é uma
pessoa pior do que um indivíduo que opera obras de caridade pelo mundo
inteiro. A ciência se limita a entender apenas as mortes do holocausto como
um acontecimento, e também as obras de caridade de uma pessoa, mas nunca
realizar um juízo de valor moral acerca dessas duas ações levando a uma
valoração daquilo que é pior ou melhor objetivamente.

Matemática e abstrações
A ordenação matemática do universo foi descoberta, nunca
inventada ou criada por seres humanos.

Mais simplista e essencial do que as próprias ordenações


matemáticas, fórmulas, contas, equações, são os próprios números, que
existem por uma necessidade de sua própria natureza6, assim como a mente,
sendo chamados apenas de necessários abstratos. É por conta dessa
ordenação matemática universal que conseguimos entender o mundo com
tanta clareza, exatidão e confiança. Quer um exemplo muito simples? Pense
comigo: sabemos que 1+1 é 2 pois desenvolvemos uma maneira de causar
um abstrato na realidade, ou seja, nossa mente abstrai algo necessário
metafisicamente e causa isso na realidade como uma maneira de explorar e
entender o mundo, porém, 1+1 sempre foi 2, independente de já termos feito
essa conta um dia. Cateto ao quadrado mais cateto ao quadrado é igual a
hipotenusa ao quadrado7 de maneira transcendental e necessária, onde
Pitágoras apenas descobriu e com sua mente racional, desenvolveu uma
fórmula para adequar um abstrato à realidade. E há uma confiança nisso.
Quer ver? Se você juntar 1 pão com outro pão, você terá 2 pães. Isso é um
método simples que qualquer ser humano é capaz de realizar. Mas você

6
São entes abstratos que não podem não existir. Portanto, existem por uma necessidade ontológica.
7
Representação do teorema de Pitágoras.
nunca precisou juntar 4 milhões de pães com mais 4 milhões de pães para
concluir que daria 8 milhões de pães, certo? Bom, para os cientificistas não
muito, pois se apenas o método científico pode legitimar verdades, a verdade
metafísica da conta acima não faria sentido, ou seja, ainda que cientistas se
definam como pessoas muito racionais, eles não confiam na exatidão de algo
tão simples como as verdades matemáticas. Para um cientificista, 1 milhão
de pedras somadas a mais 1 milhão de pedras não daria 2 milhões de pedras,
até que o método científico pudesse comprovar isso empiricamente e
materialmente. 8Nesse ponto, o cientificista se encontra em uma saia muito
justa, pois a própria notação científica utilizada para descrever números
muito grandes e grandezas quase que infinitas, não é uma verdade, e sim uma
mera brincadeira.

Sendo assim, temos que a linguagem matemática 9


é a fundação da
ciência, logo, a ciência nunca poderá justificar sua existência a partir dela
mesma. Se a matemática é a base da ciência, a ciência não pode ser o meio
de verificação da matemática. Isso soaria tão estranho quanto dizer que a
pintura existe por ela mesma, sendo que para existir pintura, é necessário que
exista alguém que a tenha pintado (um pintor ou artista). A ciência é também
contingente a matemática.10 Uma observação interessante é a de que estes
argumentos demonstram como que a ciência não pode realizar juízos sobre
a existência de Deus (ser necessário), já que Deus11 é o criador e a
fundamentação de todo o ser.12

Razão ou racionalidade

8
Este postulado em momento algum tira a verdade metafísica da matemática. Apenas demonstra que a
própria tentativa de argumentar contra as verdades metafísicas, já pressupõe um postulado (uma
tentativa de provar uma verdade sem utilizar o método científico).
9
Contas, equações, operações, fórmulas, etc.
10
Caso não entenda esta parte, estou me referindo a entes concretos contingentes. Uma referência ao
argumento da contingência de Leibniz para explicar a origem do algo, que neste caso, serviu pra
demonstrar uma causalidade entre matemática e metafísica.
11
Mente que causa o Universo.
12
Sem Deus, nada é.
Imagine que a nossa razão é como o processador de um computador.
Quando você compra um computador, o criador colocou dentro dele um
processador de informações que já estão carregadas no disco rígido (HD).

Desta mesma forma, os seres humanos existem como seres racionais,


mas o que seria isso exatamente? Bom, temos a capacidade de criar, pensar
filosoficamente e abstratamente, aprender outros idiomas, deliberar e saber
sobre o certo e errado, entre outros.

Muitos cientistas dizem que todas essas características não físicas do


ser humano foram desenvolvidas pela evolução e pela seleção natural, mas
esse postulado demonstra um enorme desconhecimento de como
evolucionistas e naturalistas enxergam a evolução. De acordo com o
evolucionismo, a seleção natural só seria capaz de desenvolver nos seres
humanos as capacidades suficientes para a sobrevivência, como caçar, se
alimentar, se proteger do perigo e encontrar um parceiro para reprodução.

Ao postular este argumento, os evolucionistas caem em contradição


com sua própria teoria, pois a natureza jamais teria gerado a capacidade
racional no ser humano, visto que não é essa a sua função e para os propósitos
da evolução e adaptação, isto não seria necessário. 13

No momento em que um cientificista declara que as únicas crenças


racionais são aquelas que podem ser comprovadas pela ciência e pelo método
científico, ele cai em uma contradição e se auto refuta, já que esta mesma
afirmação deveria ser comprovada pelo próprio método científico, coisa que
sabemos que não é possível. Neste momento, o cientificista tem 2 opções:
ou ele volta atrás e conclui que a ciência não é o único método capaz de
postular verdades ou o argumento da ciência como método único de
conhecimento foi refutada.

13
É valido lembrar também, que a natureza (natureza material mesmo) por ser um ente que não possui
consciência, não pode criar um outro ente que possua consciência, pois para haver a criação ou geração
de algo, é necessário que este tenha sido causado por uma inteligência. Conclui-se então que a natureza
não pode gerar nada racional pois isto seria uma impossibilidade ontológica.
Neste ponto, entendemos que algo metafísico deve necessariamente
existir para que os cientificistas não acreditem nele14, visto que não existe
outra explicação para a racionalidade humana, que não algo que transcenda
a própria física e materialidade.

Ainda há a possibilidade de ser postulado o argumento de que a razão


tenha surgido do nada e sem motivo, porém isso é totalmente irracional.
Primeiro que do nada, nada vem, segundo, que os próprios processos lógico-
dedutivos no próprio método científico devem ser pressupostos
anteriormente para que o método ocorra, logo, a ciência não pode provar a si
mesma pelo seu próprio método.

Caminhando para a conclusão


Uma das maiores, senão a maior limitação da ciência, é que ela não
pode nos explicar o por quê o universo existe ou o porquê de estarmos aqui,
ou até o porquê de existir o algo ao invés do nada.

Como um resumo de tudo que falamos até agora, podemos concluir


que a ciência estuda os fenômenos da realidade (o ato, a concretização, a
própria coisa “já acontecida”) e a filosofia estuda os alicerces e fundações de
tudo isso. É como se ciência estudasse a casa, sua pintura, suas paredes, sua
estrutura, os componentes químicos de seus elementos e a filosofia estudasse
a sua fundação, o porquê de ela estar ali, quem a criou e assuntos mais
complexos a respeito de sua natureza, sua realidade e suas características
enquanto um ente concreto da realidade.

Ciência e filosofia não são simultaneamente excludentes. Ambas são


boas para o nosso entendimento e compreensão de mundo. A ciência
pergunta como as coisas acontecem e a filosofia pergunta o porquê essas
coisas acontecem, é uma relação quase como complementar na busca pela
verdade e pelo conhecimento. Isto posto, não há nenhum conflito entre

14
O próprio fato de cientistas acreditarem ou não acreditarem em algo, prova que eles possuem uma
consciência que é metafísica. Utilizar de uma consciência metafísica para tentar provar que a metafísica
não existe parece algo estranho, não?
ciência e filosofia ou entre ciência e Deus, mas existe com certeza um grande
conflito entre naturalismo e fé. Como bem postula Rice Brooks15, o
naturalismo é a crença de que a natureza é tudo que existe. Isso, portanto,
excluirá qualquer coisa metafísica, transcendental, atemporal ou além das
próprias limitações da natureza, e logo após isso, não é difícil de entender
que a ciência só pode ser praticada por alguém que esteja plenamente
comprometido com a busca pela verdade e pelo conhecimento. A fonte e
desejo dessa busca, no entanto, brotará da filosofia, pois a filosofia é aquilo
que sustenta qualquer legitimidade que o método científico pode ter.
Podemos então dizer que um cientista deve por obrigação, a fé na
possibilidade de que as normas ali válidas para a existência sejam racionais,
ou seja, compreensível à razão, e como já foi dito, a razão é metafísica.

Temos que a ciência não existe sem a filosofia.

Conclusão
Após entendermos bastante como a ciência é limitada no tocante às
questões mais profundas da humanidade, do universo e da realidade, temos
que o estudo e o pensamento filosófico são a base para qualquer vontade de
encontrar a verdade através da ciência, e que é mais importante que a própria
ciência. Vimos também que muitos autores e filósofos brasileiros como
Olavo de Carvalho e Mário Ferreira dos Santos tinham razão ao denunciar a
barbárie intelectual que emerge das universidades pela hegemonia do poder
coletivo e da intelectualidade coletiva acerca do pensamento individual, e
que este é então, o maior problema que podemos encontrar hoje na sociedade
secular e pós moderna (ao menos quando falamos de busca por
conhecimento)16. Em uma realidade onde a bunda vale mais do que a razão,
onde a ciência afirma que a filosofia está morta 17(cortando o galho que está
sentada) e onde o relativismo tomou conta da cabeça dos seres humanos, só
nos resta pensar e estudar por nós e por muitos, pois nunca se sabe quando

15
Filósofo e apologeta cristão.
16
Presente nos livros “O Imbecil Coletivo” e “Invasão Vertical dos Bárbaros”.
17
Declaração de Stephen Hawking em uma entrevista.
um cientificista te chamará de negacionista18 da realidade por afirmar que a
ciência não prova ela mesma.

Espero que você tenha tido uma boa leitura e que isso tenha de
alguma maneira elucidado seus pensamentos a respeito do mundo pós
moderno que vivemos, e para te deixar com a pulga atrás da orelha e talvez
até com um pouco de vergonha, tudo isso que foi lido no meu texto, já era
conhecido com maestria por crianças gregas a mais de 3000 anos atrás.
19
Conceitos esses hoje, que nós adultos, muitas vezes não conseguimos
entender.

Fique com Deus e obrigado pelo seu tempo.

18
Aquele que nega algo que para o acusador parece muito óbvio.
19
Em relação ao Trivium (material utilizado no estudo de crianças na antiguidade). Material este que
ensinava as 7 artes liberais (lógica, gramática, retórica, aritmética, música, geometria e astronomia).