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LACAN: ENTRE A

FILOSOFIA
ESTRUTURALISTA E A
TEORIA SOCIAL

UMA INTRODUÇÃO

CIAN
BARBOSA
Lacan: entre a filosofia estruturalista
e a teoria social
Uma introdução

Aula II
AULA II

O Estruturalismo

O Estruturalismo surge em um momento contingencial e conveniente, seja para a


situação tecnocrática francesa1, seja para uma espécie de “salvação política” da teoria,
quando o marxismo institucional era visto como moribundo pela intelectualidade francesa.
Michel Foucault, por exemplo, designa ao intelectual não levar-se pelo contínuo da história,
mas sinalizar possibilidades e impossibilidades, sem sujeitar-se à espera de um mestre na
figura do partido ou seu líder. A história não é mais um fundo onde se projeta a esperança de
um futuro melhor. É objeto de questionamento, de dúvida e inquietação, por remeter à
barbárie resultante de um projeto político emancipador — é importante termos em mente,
para compreendermos o período, a noção de que qualquer “crítica das críticas” francesas à
experiência socialista que podemos ter agora, não eram ao menos o espírito em voga no
“momento estruturalista”. Abre-se assim a era das rupturas entre os intelectuais franceses. É
nesse contexto de efervescência, em 1956, que Lyotard, Genette, Castoriadis, Lefort, Faye e
outros encontraram, com fascínio, o “rigor do programa de Lévi-Strauss” com sua
antropologia estrutural, reencontrando assim também Saussure (1857-1913), que vieram a se
tornar grandes marcos, grandes referências do estruturalismo.

Jean-Pierre Faye se questionava sobre o funcionamento das mitologias no


mundo moderno, especialmente a partir da fratura de 1930 nos Estados
Unidos, mas também a partir da depressão que afetou Viena em 1873. A via
estrutural de Lévi-Strauss parece-lhe então promissora na explicação das
múltiplas e complexas correlações entre uma mitologia e uma conjuntura, na
relação entre estrutura e flutuações. (DOSSE, François. História do
Estruturalismo I. Pg. 190. Ensaio/Unicamp. 1993 pg. 190)

A via estrutural surge com um potencial de rigor recebido como único e contagiante.
A linguística aparece como uma nova ciência já desde 1916, mas é o método de Leví-Strauss
que, encantando os pensadores de sua época, incita também retrospectivamente certa
proeminência à linguística estrutural, revelando resultados impressionantes nos trabalhos
etnográficos e dando força a um ímpeto interdisciplinar. Em contrapartida, sua teoria do mito
apresenta-se como uma possível resposta a problemas de muitos campos do saber.

1
Como nos indica Georges Balandier: “Para mim, o estruturalismo teve muito êxito porque foi o suporte do
pensamento tecnocrático, deu-lhe uma maquilagem lógica, uma racionalidade, uma espécie de vigor. Entre esse
tempo e o estruturalismo existe mais do que um encontro feliz, um casamento de conveniência.”
(BALANDIER, G. Apud DOSSE, F. 1993, p. 187)
Lévi-Strauss busca, na ideia de modelo da economia, seu recurso para a formalização
científica. Dentre as ciências humanas, a economia é a primeira a buscar na formulação
matemática e na criação de modelos sua abordagem científica. Apesar de não ter sido a
ciência maior do estruturalismo, foi a que levou com mais reconhecimento essa exigência
formal/matemática de boa parte das ciências humanas desse período. Citando Michel
Aglietta, François Dosse remarca:

As transformações no pós-guerra das relações entre o estado e o mercado na


França também vão assegurar ao conceito de estrutura um êxito certo no
campo da economia, num plano essencialmente pragmático. Desta vez, num
plano macroeconômico, refletiu-se sobre o campo dos possíveis da
intervenção do estado: “É a idade de ouro do keynesianismo”. [...] o estado
resultante do programa do Conselho Nacional de Resistência recorre aos
modelos macroeconômicos para transformar em profundidade os
mecanismos da economia francesa, pelo planejamento, a organização
territorial, as nacionalizações… (Iden. Ibidem. pg. 196)

Dosse afirma que a ideia de estrutura já é comum ao pensamento econômico e que,


apesar do paradigma estrutural ter sido mais explorado na década de 30 pelo pensamento
econômico francês, pode-se afirmar que o “estruturalismo sociológico e o estruturalismo
econômico” são contemporâneos da sociologia e da economia política. A econometria surge
como manifestação da ideia formalista de descrição pura do real, em um nível intermediário
entre a realidade concreta e a estrutura. Por meio dessas “modelizações” que os economistas
participam no paradigma estruturalista. É também no nível econométrico que podemos
discernir certos limites do formalismo e do matematismo no campo das ciências humanas,
considerando que não existem modelos capazes de prever ou discernir os desdobramentos da
realidade concreta, que os modelos possuem “um certo número de aporias nas quais tropeça o
método.” (DOSSE, François. Pg. 200)
Até aqui, o que ainda não foi dito mas é recorrente no debate acerca do estruturalismo
é o tema do ‘retorno’. Tendo em vista que o estruturalismo, enquanto traço, deve ser encarado
antes como um método, do que como uma filosofia, sua característica maior é então a de
buscar certo grau de formalização, característica encontrada no trabalho operado por
Saussure. Sua solução ao problema de Crátilos, formulado por Platão é a seguinte: Saussure
dá a razão para Hermógenes que, contra Crátilos, afirma os nomes e palavras atribuídos às
coisas serem uma escolha arbitrária. A publicação póstuma de Cours de linguistique
générale (Curso de Linguística Geral) demarca, para muitos, o nascer da linguística moderna
— ou, ao menos, um exemplo de formalização paradigmática da disciplina, que produziu
efeitos em muitas vertentes deste campo.
O essencial da demonstração consiste em fundamentar o arbitrário do signo,
em mostrar que a língua é um sistema de valores constituído não por
conteúdos ou produtos de uma vivência mas por diferenças puras. Saussure
oferece uma interpretação da língua que a coloca resolutamente do lado da
abstração para melhor a separar do empirismo e das considerações
psicologizantes. (idem. Ibidem. Pg. 65/66)

Assim, estabelece preceitos fundamentais para o estruturalismo ao tratar da linguagem


e seus signos como algo da ordem da diferença pura, aproximando-se da fundamentação
axiomática característica, por exemplo, da matemática. A leitura lacaniana de Saussure e suas
devidas subversões serão objeto da próxima aula, mas para iniciarmos o debate faremos
alusão a um elemento basilar de sua linguística. Sabemos que Saussure, em seu Cours de
Linguistique Générale (1916), define o signo linguístico como união entre conceito e imagem
acústica, ou seja, entre significado e significante. A imagem acústica não se refere ao som
material, mas sua impressão psíquica. Além disso, Saussure determinará tanto a
arbitrariedade do signo, quanto o caráter linear do significante. Temos assim a proposição
saussuriana de Significado (“conceito”) sobre o Significante (“imagem acústica”), expressa
em seu algoritmo elementar:

Pagando o custo da destituição subjetiva e do fechamento da linguagem, Saussure é


também criticado pelo tratamento positivo da língua enquanto objeto científico — como visto
anteriormente também, a dimensão social da linguagem é tida como insuficiente em sua
teoria por autores como Giddens. Apesar dos debates acerca do corte epistemológico operado
por Saussure, podemos sintetizar sua contribuição como sendo a de formalização do objeto
linguístico e sistematização dessa ciência, a linguística moderna, no pensamento francês.
Pretende-se demonstrar também ao longo do curso que, em uma leitura minimamente
rigorosa, nota-se que a dimensão social e cultural não serão negligenciadas por Levi-Strauss e
Lacan, sendo esses autores fundamentais para compreendermos os aspectos da vida
(intersubjetiva, social) da linguagem. O estruturalismo é também caracterizado por uma
referência a essa sistematização, recorrendo ao formalismo de Saussure para desenvolver um
método compartilhável às ciências humanas. Dosse cita Saussure para situar que o projeto
estruturalista visava realizar um ambicioso programa de integração das disciplinas humanas.

Se a postura saussuriana é, pois, restritiva por definição, ela inscreve-se, não


obstante, numa ambição muito ampla de construção de uma semiologia
geral que integre todas as disciplinas que se interessam pela vida dos signos
no seio da vida social: “a linguística é apenas uma parte dessa ciência
geral”. É na realização deste ambicioso programa que se inscreve o projeto
estruturalista, reagrupando em torno de um mesmo paradigma todas as
ciências do signo. (idem. Ibidem. Pg. 71)

Saussure e, em seguida, Lévi-Strauss, aparecem assim como referências para um


possível paradigma interdisciplinar. Nesse sentido, podemos dizer que método (teórico) e
movimento (intelectual) se encontram, do contrário não poderíamos ignorar o fato de que o
estruturalismo é uma expressão de algo inscrito na filosofia francesa desde o início do século
XX. Porém, é curioso reparar que Dosse equipara, na metáfora da genealogia familiar, Lacan
como a figura paterna do estruturalismo (enquanto Barthes fica como figura materna, e nós
ficamos com essa imagem). Seu rigor metodológico e esforço em fundar uma teoria
autêntica, atualizada pela formalização estruturalista da psicanálise freudiana, o colocam
como um dos intelectuais fundamentais no contexto do estruturalismo, e inescapável ao que
se possa chamar de pós-estruturalismo. Sua missão é a de reerguer a psicanálise, através de
um retorno à obra freudiana e uma revitalização de sua teoria pelo estruturalismo, enquanto
um método de análise e produção teórica que não reduza o sujeito falante à esfera da
psiquiatria, da fisiologia, ou de qualquer biologismo. “Missão” não é em vão, já que, cada vez
mais certo de sua inscrição no programa estruturalista, Lacan tornaria-se assim,
verdadeiramente freudiano; o que o levaria ao seu rompimento com a Sociedade Psicanalítica
de Paris (SPP) e o tornaria mal recebido na Sociedade Internacional de Psicanálise (em
inglês, IPA, da qual seria plenamente “excomungado” em 1964), se descrevendo então como
um psicanalista engajado com “um tipo de fé”, já no Seminário I, que se inicia em 1953, após
sua saída da SPP e separação da IPA.
Quando no trato dos textos dos Seminários, é preciso ter em mente que há certa
contribuição literária, por ser fundamentalmente constituída através do trabalho de Jacques
Alain Miller, seu genro, que além de ser também seu aprendiz, foi o responsável (junto
também a sua esposa, Judith Miller, filha de Lacan) pela transcrição do material apresentado
nos seminários. As categorias conceituais apresentadas por Lacan (o nó borromeano do
Real/Simbólico/Imaginário, o Outro, o pequeno objeto a e o Gozo [Jouissance], o
Nome-do-Pai, os quatro discursos, etc.) constroem uma rede de interação entre a linguística
saussuriana, a antropologia de Lévi-Strauss e a teoria Freudiana, através de um extenso
diálogo com a Filosofia2. Lacan demonstra uma preocupação com o material escrito, frisa a
importância da relação entre esse material e o sujeito na psiquiatria, em especial o sujeito
psicótico. No caso de Marcelle, uma professora de 34 anos, erotômana e paranóica que se
toma por Joana d’Arc e delega para si a missão de regenerar os costumes, Lacan volta-se à
análise de suas cartas para constatar e demarcar perturbações semânticas e nas formas
estilísticas de sua escrita.
Seria uma reviravolta completa: rejeita o organicismo psiquiátrico e, ao invés de
integrar Freud a este, institui “a primazia do inconsciente” no estudo clínico. “O caso
psicótico das irmãs Papin acentua ainda mais a ideia do inconsciente como estrutura
constituinte do Outro, como alteridade radical de si mesmo” (DOSSE, François. 1993 Pg.
118). Dizemos isso apenas para constatar que um estudo da teoria lacaniana junto a um
estudo dos autores de seu contexto, e do próprio contexto, só tem a contribuir para a
compreensão do texto lacaniano. Vamos então, antes, apresentar alguns dos elementos
teóricos que estão em voga no estruturalismo e precisam ser compreendidos para entrarmos
no trabalho teórico de Lacan. Esses elementos marcam campos específicos, tanto a linguística
como a antropologia que, junto da psicanálise, serão fundamentais para compreensão do
impacto que o estruturalismo teve nas ciências sociais e filosofia.
Antes de focarmos na relação teórica entre Saussure e Lacan, até mesmo por ser mais
notada e explícita, vale comentar que essa relação muitas vezes ignora (ou mantém recalcada)
a dimensão da influência de Lévi-Strauss na obra de Lacan. Markos Zafiropoulos nos revela
que, antes de Saussure, é Franz Boas quem apresentava a compreensão de que as leis da
linguagem funcionam no nível do inconsciente, já em 1911 (cinco anos antes de ser publicado
o Curso de linguística geral de Saussure). Ou seja, há aqui não apenas uma certa dívida
recalcada para com Lévi-Strauss, mas para com a antropologia da época. Tanto a tese sobre
As estruturas elementares do parentesco (1947), quanto o famoso artigo de Lévi-Strauss, A
Eficácia Simbólica (1949), exercem influência radical no pensamento de Lacan, que irá se
mostrar na mudança de sua concepção sobre a transcendência do imaginário pelo simbólico,
na reformulação da noção do estádio do espelho, teorizada em dois tempos (1936),

2
A questão do inconsciente é fundamental para a filosofia francesa, e não menos o é para o estruturalismo: “está
no centro do paradigma estruturalista e não somente pelo substancial progresso registrado pela prática
terapêutica que é a psicanálise; vímo-lo em ação na antropologia preconizada por Lévi-Strauss e na distinção
estabelecida entre linguagem e fala por Saussure. (DOSSE, François. História do Estruturalismo I. Pg. 117)
formalizada no clássico texto O Estádio do espelho como formador da função do eu (1949),
que será revista à luz do texto de Levi-Strauss.
Especificamente na década de 1950, define Zafiropoulos, Lacan irá abandonar seu
paradigma sociológico, que vinha de Durkheim, para endossar o aporte de Lévi-Strauss sobre
a análise da função simbólica, onde encontramos, primeiramente já em 1951, como defende
Zafiropoulos e, na sequência, em 1953, um momento de virada em que, nessa ocasião, é
marcado pela sua concepção acerca do Nome-do-Pai, fundamental especificamente para sua
teoria das psicoses: Zafiropoulos defende que é na conferência sobre o mito do neurótico de
1953 que Lacan irá encerrar (ao menos oficialmente) sua fase durkheimiana. É também entre
1953 e 1954, durante seu Seminário I, que Lacan irá repensar a clássica instância freudiana
do superego, ligando-a não mais às primeiras identificações imaginárias, mas à linguagem
(ZAFIROPOULOS, 2010, p. 25). A tese de Zafiropoulos, apresentada em seu livro Lacan
and Lèvi-Strauss, or the return to Freud (2010), é justamente de que o retorno a Freud,
operado por Lacan, se faz através de Lévi-Strauss, ou ainda “um dia, o espírito do pai morto
da psicanálise, Freud, retornou pelos atalhos de Lévi-Strauss” (ZAFIROPOULOS, 2009). A
dimensão dessa virada em torno do conceito de Nome-do-Pai, além de sua iminente
importância para a clínica das psicoses em Lacan, também demonstra em que nível a
antropologia de Lévi-Strauss influencia sua concepção acerca da própria lógica do
significante. Lacan enfatiza que Lévi-Strauss

nos mostra em todo lugar onde a estrutura simbólica domina as relações


sensíveis (...) que o que faz com que uma estrutura seja possível são razões
internas ao significante, o que faz com que uma certa forma de troca seja
concebível ou não são as razões propriamente aritméticas: eu acredito que
ele não recuará diante desses termos (LACAN, 1956; Bulletin de la société
française de philosophie, t. XLVIII apud ZAFIROPOULOS, M. 2009).

Lévi-Strauss é o primeiro a oferecer uma noção estrutural do inconsciente, e é com


essa noção que Lacan retorna à Freud. Como veremos mais à frente, a abertura que ocorre
ao se inverter o algoritmo do signo de Saussure é algo que Lacan se dá conta através do
próprio Lévi-Strauss. Nos diz Markos que em 1957 então, Lacan tornaria-se, em um só
ímpeto, realmente freudiano e estruturalista: é nesse momento (em Questões preliminares a
todo tratamento de psicose) que Lacan afirma: o pai não é um objeto real.

O assassinato epistemológico do pai de família é bem perpetrado por um


Lacan que se tornou freudiano (sobre a questão do Pai morto) e
estruturalista com o mesmo ímpeto, porque ele vai, daí em diante, fazer
prevalecer as leis do simbólico e da linguagem sobre as da família, e porque
ele endossa muito precisamente – mas sem dizê-lo – a teoria de Lévi-Strauss
que diz respeito ao significante de exceção que permite ao pensamento
simbólico se exercer: o significante zero, ou o Nome-do-Pai, em Lacan.
(ZAFIROPOULOS, M. 2009, p. 10)

Esse significante zero, significante de exceção, significante flutuante, é, em


Lévi-Strauss, situado no conceito de mana — vindo desde Marcel Mauss, em seu Ensaio
sobre a Dádiva (1925). É daí que Lacan repensa, pela via da efetividade simbólica, a questão
da Lei, a instância do superego e a dimensão do Nome-do-Pai, agora desvinculado de uma
ideia centrada no núcleo familiar institucional “saudável”. Essa mudança é extremamente
significativa, e não é de se ignorar que ela ocorra pela influência teórica de Lévi-Strauss. Vale
lembrar que

É com toda a teoria de Lévi-Strauss que Lacan revisita o conjunto dos


grandes casos freudianos. Depois de 1951, ele revisita o caso Dora
mostrando tudo o que a identificação da jovem com seu pai lhe proibiu de
atuar no circuito de troca social que constitui a rede de seu mundo, lhe
marca um lugar de objeto de troca que ela recusa, mas que não é menos o
seu. Depois de 1953, ele revisita o homem dos ratos como O mito individual
do neurótico, para explicitá-lo segundo as regras da análise dos mitos de
Lévi-Strauss. Depois de 1954, ele revisita a teoria da psicose, como nós
vimos. Em 1957, ele relê enfim a fobia do pequeno Hans como um mito, ou
uma “fomentação mítica”, tendo valor de suplência ao enfraquecimento do
valor simbólico zero, tão precioso, que se tornou para ele a função do
Nome-do-Pai.

Desvincula-se da noção de pai como ela aparece na família, para pensar a dimensão
de sua função simbólica na vida da linguagem e da cultura, e seus efeitos. O ponto feito por
Lévi-Strauss, em Antropologia Estrutural, de que a psicanálise é uma versão moderna da
técnica xamã (p. 204), deve ser compreendido primeiramente pelo simples reconhecimento
de que, aquilo que possibilita a efetividade do procedimento psicanalítico é estruturalmente a
mesma coisa que dá efetividade ao tratamento do Xamã, nos limites do que se pode dizer.
Dirá então Lévi-Strauss, que o xamã provém ao doente uma linguagem pela qual estados
psíquicos não expressos, e até inexpressáveis, podem ser imediatamente expressados.3

3
“A relação entre monstro e doença é interna à sua mente, seja ela consciente ou inconsciente; é uma relação
entre símbolo e coisa simbolizada, ou, para usar a terminologia dos linguistas, entre significante e significado. O
xamã fornece à mulher doente uma linguagem, por meio da qual estados psíquicos não expressos e, de outra
forma, inexprimíveis podem ser expressos imediatamente. E é a transição para essa expressão verbal que induz a
liberação do processo fisiológico, ou seja, a reorganização, em um sentido favorável, do processo a que a mulher
doente é submetida ... A versão moderna da técnica xamanica chamada psicanálise deriva assim suas
características específicas do fato de que na civilização industrial não há mais lugar para o tempo mítico, exceto
dentro do próprio homem. Dessa constatação, a psicanálise pode obter a confirmação de sua validade, bem
como a esperança de fortalecer seus fundamentos teóricos e compreender melhor as razões de sua eficácia,
comparando seus métodos e objetivos com os de seus precursores, os xamãs e feiticeiros.” (STRAUSS, L. pp.
203–204).
Zafiropoulos aponta para o texto de 1951, Intervenção Sobre a Transferência4, onde,
para o autor, Lacan já demonstraria sua virada estruturalista e, agora, verdadeiramente
freudiana. É de se notar algumas coisas neste texto: primeiro, Lacan enfatiza a experiência
psicanalítica como algo que se desenrola “inteiramente nessa relação sujeito a sujeito” (p.
88), algo que ele afirma sustentar uma “dimensão irredutível a toda psicologia considerada
como objetivação de certas propriedades do indivíduo.” Lacan então irá definir a psicanálise
como “uma experiência dialética”, dando ênfase a isso para tratar a questão da transferência,
especificamente em análise. Recorre então, para tratar da transferência e de “reviravoltas
dialéticas” e “desenvolvimentos da verdade” na experiência psicanalítica, ao caso de Dora,
publicado por Freud em 1905: uma jovem vienense de 18 anos que se encontra dividida entre
sua percepção de si e seu lugar enquanto mulher. É fundamental perceber que, antes de
entrar propriamente nos comentários do caso clássico, Lacan faz antes certas considerações
sobre a distância entre sua posição e o que compreende como a posição da práxis
psicanalítica, e a psicologia. É preciso compreendermos que Lacan estava no processo de
engajamento com uma verdade que irá mover seu projeto: sua crítica iria não somente à
psiquiatria, à psicologia e às ciências humanas, mas à própria psicanálise de sua época
expressa no campo pós-freudiano (e na psicanálise do ego, etc). É com esse espírito que
Lacan, ao tratar do tema da transferência, o faz também para apontar a questão da resistência,
não só como questão clínica para a psicanálise, mas uma resistência presente na própria
psicanálise de sua época, curiosamente o que podemos compreender como uma resistência
dos pós-freudianos a Freud. Vale citar, das palavras de Lacan:

Se Freud tomou a responsabilidade — contra Hesíodo, segundo o qual as


doenças enviadas por Zeus avançam em direção dos homens, em silêncio —
de nos mostrar que que existem doenças que falam, e de nos fazer ouvir a
verdade do que elas dizem — parece-nos que essa verdade, na medida em
que sua relação com um momento da história e com uma crise das
instituições nos aparece mais claramente, inspira um temor crescente aos
praticantes que perpetuam sua técnica. (LACAN, J. 1951. Intervenção sobre
a Transferência. Em: Escritos. 1978. Perspectiva. Pg. 89)

Lacan aqui de fato passa para a posição de primazia do inconsciente para a


psicanálise, negando as posições de conformação ou barganha em seu campo, que tentavam
se reduzir a um lugar específico dentro dos psicologismos ou propedêuticas naturalistas que
insistiam (e insistem) na coisificação do ser humano. Para Lacan então torna-se cada vez
mais evidente como não só todas as “ciências do homem” mas também a própria psicanálise

4
de seu tempo é ainda organizada pela resistência à radicalidade de Freud. O caso Dora é
utilizado como registro também do surgimento da questão da transferência na clínica da
psicanálise, a primeira em que Freud reconhece que o analista participa (p. 90). Mais ainda,
Lacan irá dizer que parece chocante como

Ninguém tenha, até o momento, sublinhado que o caso de Dora é exposto


por Freud sob a forma de uma série de reviravoltas [renversements]
dialéticas. Não se trata aqui de um artifício de ordenamento para um
material do qual Freud formula de maneira decisiva que a aparição é
abandonada à vontade do paciente. Trata-se de uma escansão das estruturas
onde se transmuta para o sujeito a verdade, e que não concernem somente a
sua compreensão das coisas, mas sua própria posição enquanto sujeito do
qual são função seus “objetos”. É dizer que o conceito da exposição é
idêntico ao progresso do sujeito, isto é, à realidade da cura. (Idem; Ibidem.
Pg. 90)

Aqui é fundamental prestarmos atenção na compreensão e sentido da dialética


psicanalítica exposta por Lacan: 1) é um processo de “escansão das estruturas”, no qual o
sujeito torna-se implicado com a verdade, e; 2) implica uma mudança não simplesmente na
posição das coisas mas, antes, o que está em jogo é a posição do próprio sujeito: os objetos
“mudam” (ou parecem mudar) quando uma mudança ocorre, de fato, na posição do sujeito.
Porém, e isso fica evidente ao longo do texto, Lacan irá demonstrar que é justamente
a posição do sujeito, tanto para o analisando quanto para o analista, que está em questão: se a
psicanálise é uma experiência dialética que se desenrola na relação de sujeito a sujeito,
deve-se considerar não só o um a um de cada caso, a singularidade de cada sujeito, mas
também a posição de sujeito do analista: daí, se seguirá como problema para Freud não só a
questão da transferência (do analisando) mas também da contra-transferência (do analista).
Tudo isso, Lacan irá mobilizar para demonstrar como também a posição do analista não só
está em jogo, como é fundamental, para o advento da experiência psicanalítica. Não é por
menos que o próprio Freud irá retornar sempre com notas de rodapé ao caso de Dora, o que é
enfatizado por Lacan: nesse retorno está marcado o reconhecimento, por parte de Freud,
acerca de 1) sua incapacidade, no momento, em reconhecer a (possível) homossexualidade de
Dora (expressa em seu fascínio pela Sra. K…) e 2) ter se colocado demasiadamente no lugar
do Sr. K…, o que seriam seus dois equívocos.
Sobre o primeiro ponto, nos diz Lacan que resulta “de um preconceito, o mesmo que
torna falsa no início a concepção do complexo de Édipo fazendo-lhe considerar como natural
e não como normativo o prevalecimento do personagem paterno” (p. 96). E é dessa própria
questão que se trata mesmo a transferência e, enfim, a contratransferência da parte do próprio
analista. Nos diz Lacan:

O que é então, finalmente, essa transferência cujo trabalho Freud diz em


algum lugar prosseguir invisível atrás do progresso do tratamento e cujos
efeitos, de resto, “escapam à demonstração”? Não se pode aqui considerá-la
como uma entidade completamente relativa à contratransferência definida
como a soma dos preconceitos, das paixões, dos embaraços e mesmo da
insuficiente informação do analista a um dado momento do processo
dialético? O próprio Freud não nos diz que Dora teria podido transferir
sobre ele o personagem paterno, se ele tivesse sido bastante tolo para crer na
versão das coisas a ele apresentada pelo pai? (Idem; ibidem, p. 98)

Zafiropoulos demonstra como, ao discutir esse caso, Lacan “imediatamente enfatiza o


eixo epistemológico que orienta seu retorno a Freud.” O motivo, nos diz, é justamente para
que possa levar em consideração a maneira pela qual o sujeito é dividido entre o registro do
imaginário, onde encontra as primeiras identificações (aquelas do estádio do espelho), e do
simbólico. (ZAFIROPOULOS, 2010, p. 17). A mudança aqui é fundamental.
Resumidamente, ao localizar o complexo de édipo e, em geral, a função simbólica
(emprestada da antropologia) que inclui esse complexo, propriamente no registro do
simbólico, Lacan está saindo de seu momento durkheimeano, onde colocava o pai no nível de
operador familiar, aquele que extrairia a criança da captura imaginária materna/familiar. É
importante compreender o ponto da tese de Zafiropoulos aqui: Lacan só irá iniciar
verdadeiramente seu “retorno à Freud” no momento em que define as regras da função
simbólica como aquilo que vai além e organiza o registro imaginário, ao invés do pai
propriamente dito. Em sua compreensão acerca da estruturação do sujeito do inconsciente e
seus sintomas, Lacan abandona as leis familiares de Durkheim para adotar as regras do
discurso e da linguagem, onde o simbólico organiza a sociedade e, assim, as famílias (Idem,
p. 18).
Somos quase tentados a dizer que a influência de Lévi-Strauss na obra de Lacan é
tamanha que talvez já ressoe em sua saída da SPP, sendo crucial também para
compreendermos o sentido de seu retorno à Freud. É perceptível como, já no texto de 1951
que citamos, Lacan recorre à noção de mana para descrever a posição de Dora em relação à
presença da verdade: e sobre o mana dessa presença, é interessante a nota da tradução que
descreve, através de uma referência à Lévi-Strauss, em uma citação de Pierre Vives feita por
Roland Barthes, onde se encontra a definição de mana como uma espécie de símbolo
algébrico “encarregado de representar um valor indeterminado de significação, vazio de
sentido em si — e portanto suscetível de receber todo e qualquer sentido — cuja única função
é a de preencher uma distância entre o significante e o significado” (p. 97 - 98). Essa
referência de Lacan ao mana polinésio é crucial.
Vamos então elencar alguns dos fatores que estão em jogo aqui: em um momento de
mudança epistemológica, de conflito institucional em relação à sua posição na SPP e de uma
reconsideração acerca da psicanálise de sua época e da psicanálise de Freud, Lacan passa a se
questionar fundamentalmente sobre o desejo de Freud, o desejo do analista e,
fundamentalmente, o desejo da psicanálise. E ele coloca essa questão, ou ele a interpreta, nos
termos de uma resistência dos próprios psicanalistas (pós-freudianos) a Freud — resistência
da qual ele também fez parte. Lacan recorre ao caso onde surge a questão da transferência, o
caso onde Dora se encontra em um impasse na compreensão de si, ou seja, sobre a verdade de
seu desejo, e que se desenrola em meio a um imbróglio familiar extraconjugal que envolve
seu pai e a Sra. K…, casada com o Sr. K…, quem apresentou a Freud o pai de Dora. Mas o
que se revela aqui no caso de Dora é justamente um impasse referente à posição da mulher na
cultura, ou seja, como objeto de desejo do homem (e, frisa Lacan, é esse o mistério que
motiva sua idolatria pela Sra. K…). Isto é, devido ao automatismo da função simbólica, que
determina o grupo ao qual ela pertence, seu encontro com o próprio desejo implica também
uma discordância do seu lugar enquanto mulher, dado pela cultura de sua época, sua posição
econômica e social, etc. É interessante reparar como Lacan expõe o desenvolvimento da
verdade a par e passo da forma como Dora percebe a si mesmo na relação com a totalidade de
seu imbróglio, os outros objetos em questão ganham um novo sentido ao passo que, no
desenvolvimento dos impasses encontrados, com os objetos em função de Dora, estes objetos
ganham sentido elucidando a própria verdade sobre a posição do sujeito. Todas as coisas já
estavam ali: a traição acompanhada por anos por Dora, sua cumplicidade silenciosa, seu
apego pela Sra. K…, todos esses elementos já estavam dados, o que muda é simplesmente a
posição do sujeito, que se percebe como parte da trama na medida em que há uma verdade
sobre seu desejo que nela o implica. Se a verdade está ao lado do analisando, o analista
aparece encarregado das “reviravoltas” dialéticas. O que Freud faz? Questiona sobre a parte
de Dora na (totalidade) da desordem apresentada; questiona sobre a “natureza” do seu ciúme
em relação à relação amorosa de seu pai com a Sra K... (que escondia um interesse por aquela
que seria seu “sujeito-rival”), interesse que, diz Lacan, pela “natureza muito menos
assimilável ao discurso comum não pode se exprimir no caso senão sob essa forma inversa”
(p. 92); o que por fim chegaria no valor real do objeto que era a Sra. K… para Dora.
A leitura de Zafiropoulos é um tanto quanto providencial, ao expor que Lacan se
interroga aí, nesse momento, sobre questões acerca da autoridade: como vimos, vinha de uma
mudança da perspectiva acerca da “função paterna”, ou da “figura epistemológica do pai de
família”, cometendo seu assassinato! A passagem de Durkheim para Lévi-Strauss dará lugar
então ao significante, expresso no mana pela antropologia, como aquele de grau zero que tem
a função de estabelecer, de fixar, de preencher a distância entre significante e significado5. É
nessa ambiguidade estrutural do simbólico, por essa via, que Lacan irá retornar a Freud,
fazendo isso enquanto se questiona sobre a relação (ou transferência), sua e de seus colegas
(pós)freudianos, para com Freud. Se em 1951 já podemos ver a intenção de questionar o
próprio campo em sua institucionalidade, recorrendo à questão da transferência (em um caso
onde Freud erra sucessivamente e coloca seu erro como questão e parte da investigação
psicanalítica) para colocar críticas ao psicologismo e à resistência, na própria psicanálise, da
verdade que Freud fez ser ouvida; em 1953, no início do Seminário I, Lacan já está separado
da IPA (mas ainda não excomungado), e já havia rompido com a SPP. Lacan encontra-se ele
mesmo em um imbróglio, agora institucional, que o fará refletir sobre a relação entre
autoridade institucional e o desejo da psicanálise, como já dissemos. É suficiente então dizer,
para concluir ao menos por aqui, que a resposta para este impasse será dada por Lacan como
uma necessidade, para ser fiel ao desejo de Freud com a criação da psicanálise, de guiar-se
pelo amor à verdade ao invés da autoridade institucional — ou, melhor dizendo, que
eventualmente um analista deverá escolher em qual autoridade se apoiar, entre a autoridade
do ego ou a da verdade e, caso escolha a primeira, terá se afastado do desejo de Freud.
Poderemos melhor examinar esse ponto em aula.

5
É verdade também que, eventualmente, Lacan irá criticar essa mesma noção de grau zero como algo
impossível de ser representado, dando lugar assim à falta do grau zero, representado também como a o
significante da falta no Outro. Sobre isso, ver em: Subversão do Sujeito e Dialética do Desejo no Inconsciente
Freudiano (Escritos, 1978).

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