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ESTUDO DE CASO

Ciências & Cognição Vol 22(1), 2017, pp. 093-101 - http://www.cienciasecognicao.org/revista © Ciências & Cognição
Submetido em 09/03/2016 | Revisto em 16/11/2016 | Aceito em: 09/04/2017 ISSN 1806-5821 - Publicado Online em 30/06/2017

Relação simbiótica patológica entre mãe-filho e o processo de


aprendizagem
Pathological symbiotic relationship between mother-child and the learning process

Carolina Ferreira Barros Klumpp, Leda Maria Codeço Barone, Márcia


Siqueira de Andrade

Departamento de Pós-Graduação em Psicologia Educacional, Centro


Universitário FIEO- UNIFIEO, Osasco, São Paulo, Brasil.

Resumo
Este estudo de caso teve como objetivo principal compreender as relações
existentes entre o vínculo simbiótico patológico entre mãe-filho e o processo de
aprendizagem da criança, cuja hipótese incidia na importância do rompimento
desse vínculo para o favorecimento da aprendizagem. Participaram da pesquisa 16
estagiários do curso de graduação em Psicopedagogia que atendiam pacientes com
dificuldades de aprendizagem na Clínica-Escola do Centro Universitário FIEO. Cada
estagiário respondeu 3 questionários contendo perguntas referente à
caracterização dos pacientes atendidos na clínica; às suas percepções acerca do tipo
de vínculo estabelecido entre mãe-filho percebido na anamnese; e as modalidades
de aprendizagem patológicas dos pacientes, totalizando 48 questionários coletados.
Os dados foram descritos e relacionados aos objetivos propostos na análise
realizada. Os resultados principais sugerem que o vínculo simbiótico patológico
entre mãe-criança é apenas um fator presente em crianças com dificuldades de
aprendizagem, mas não um fator determinante. Há necessidade de realização de
estudos comparativos para estudar a problemática.

Palavras-chave: Vínculo simbiótico mãe-filho; processo de ensino-aprendizagem;


dificuldades de aprendizagem.

Abstract
The main objective of this research was to understand the relationship between the
symbiotic pathological bond between mother / child and the child's learning process,
whose hypothesis focused on the importance of breaking the bond to favor learning.
Participated in this study 16 trainees from the Graduation Course in
Psychopedagogic that attended patients with learning difficulties in the Clinic-School
of the Centro Universitário FIEO. Each trainee answered 3 questionnaires containing
questions regarding the characterization of the patients attended at the clinic; their
perceptions about the type of bond established between the mother-child perceived
in the anamnesis; and the pathological learning modalities of the patients, totaling
48 questionnaires collected. The data were described and related to the objectives
proposed in the analysis performed. The main results suggest that the symbiotic
pathological bond between mother / child is only a factor present in children with
learning difficulties, but not a determining factor. There is a need for comparative
studies to study the problem.

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Keywords: Symbiotic mother-child bond; teaching-learning process; learning


difficulties.

1. Introdução

Simbiose, em Biologia, refere-se à íntima associação funcional entre dois organismos, de


forma que haja aproveitamento mútuo entre eles. Pode ser compreendida como uma relação
parasitária, em que os organismos envolvidos nessa relação saem beneficiados (Michaelis, 2016).
Esse mesmo termo foi metaforizado na Psicanálise, ao se referir ao vínculo parasitário existente
entre mãe e filho.
A relação simbiótica entre mãe-bebê é parte integrante do desenvolvimento infantil.
Mahler (1982) explica as seguintes fases relacionadas a esse desenvolvimento:

a. Recém-nascido: o bebê está centrado em suas continuadas tentativas de alcançar a


homeostase (conceito retirado da Fisiologia, que se refere à tendência de os organismos
vivos manterem constantes seus parâmetros biológicos ante modificações do meio
exterior). Os cuidados maternos reduzem as aflições e as tensões do bebê, e tentam livrá-
lo de situações desagradáveis. Com o tempo, o bebê passa a diferenciar as experiências
como sendo “boas” ou “más”;
b. Segundo mês: início da fase de simbiose normal, na qual o bebê comporta-se e funciona
como se formasse com a mãe um sistema onipotente (uma única unidade dual dentro de
uma mesma fronteira). Enquanto a necessidade que o bebê tem de sua mãe é absoluta, a
necessidade que esta tem do bebê é relativa. O bebê neste período precisa dos cuidados
maternos numa espécie de simbiose social. É através dessa dependência fisiológica e
sociobiológica com a mãe que acontece a diferenciação estrutural condutora da
organização do indivíduo para a adaptação: o ego. É por meio desses cuidados maternos
que o bebê é levado gradativamente de uma tendência vegetativa para uma crescente
percepção sensorial do ambiente até o contato com o meio externo. O bebê começa a
passar por sensações internas formando o núcleo do “self”, senso de identidade;
c. Quatro ou cinco meses: o bebê começa a ter expressões faciais sutilmente diferenciadas e
claras. Ele volta-se para o estímulo externo, a seguir, sua atenção volta-se para o interior;
d. Dos nove aos doze meses: ocorre o fluxo maturativo da locomoção ativa. Essa atividade
motiva o bebê a praticar, no espaço, a separação física ativa e retorno à sua mãe. Esse
período de exploração culmina ao redor da metade do segundo ano, quando o bebê já
caminha livremente, parecendo ter chegado ao sentimento do auge de exaltação. Muitas
mães consideram o primeiro passo do filho como um aviso: “Ele agora é adulto!”. Essas
mães não consideram de maneira alguma que o bebê rompeu intrapsiquicamente a
membrana simbiótica. Essas mães poderão ser as que interpretam as mensagens do bebê
conforme seu sentimento de ser a criança, ora como uma continuação de si mesmas, ora
como um indivíduo separado;
e. Dezesseis a dezoito meses: o bebê fica surpreso com as novas experiências e já apresenta
um esquecimento relativo da presença materna, apesar de querer partilhar com a sua mãe
os seus novos acontecimentos e habilidades adquiridas, voltando-se a ela (período de
reaproximação).

Mahler (1982), além de descrever esses períodos de desenvolvimento do bebê


relacionando-os com o vínculo simbiótico normal, diz que a criança altera gradualmente sua

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conduta em relação às respostas da mãe, fazendo-a de maneira característica e resultante de sua


própria bagagem congênita e do relacionamento mãe e filho. A mãe também transmite, de
inumeráveis maneiras, uma espécie de “plano referencial de espelho”. Esse espelhamento entre
mãe e criança, recíproco, pode reforçar ou não a delineação da identidade da criança. Desse
modo, conclui-se que a mãe tem papel importante no desenvolvimento de seu filho para que o
mesmo ocorra de forma saudável, a fim de que a criança se diferencie de sua figura e delineie a
sua própria personalidade. Porém, muitas mães apresentam dificuldades em permitir que seus
filhos comecem a se separar de si próprias e passem a explorar o ambiente, caracterizando assim
um vínculo simbiótico patológico.
Pode-se perceber que durante a fase simbiótica normal, o bebê é realmente dependente
da mãe, porém o mesmo não ocorre inversamente, o que não chega a ser o conceito biológico
propriamente dito, porém aproxima-se da situação patológica na medida em que ocorre uma
fusão entre os dois. O vínculo simbiótico patológico se caracteriza pela fusão onipotente,
psicossomática ou ilusória entre mãe e filho, sendo que não há a representação internalizada de
limites comuns dos dois indivíduos de modo real e fisicamente separados (Mahler, 1982). Bleger
(2001) descreve a patologia da simbiose como sendo um vínculo ou relação com um objeto que,
pelas características que apresenta, denomina “objeto aglutinado”. Para o autor, essa simbiose é
uma relação que permite a imobilização e controle do objeto aglutinado. Bleger (2001) reforça o
sentido de aglutinado como sendo um aglomerado, uma condensação de formações muito
primitivas do “eu” em relação a objetos internos e em relação à parte da realidade exterior, em
todos os níveis de integração (oral, anal e genital). Há uma confusão na discriminação do “eu”,
pois essa discriminação ainda não foi alcançada.
Mahler (1982) explica que para muitas mães de nossa cultura ocidental é muito difícil
abandonar a “conduta simbiótica protetora” e proporcionar apoio em nível emocional e verbal
elevado, permitindo, ao mesmo tempo, que o bebê experimente os novos progressos de sua
autonomia.
Fernández (2001) associa autonomia com a autoria de pensamento. Segundo a autora,
para que a criança consiga desenvolver-se saudavelmente e aprender, necessita reconhecer sua
autoria de pensamento. Autoria de pensamento é o ato de produção de sentidos e de
reconhecimento de si mesmo como protagonista ou participante de tal produção. Para Scoz e
Porcacchia (2009) o conceito de autoria implica considerar o espaço existente entre a obra e seu
produtor, ou seja, o sujeito é reconhecido como autor da obra e, ao mesmo tempo, esse autor é
produzido quando se reconhece criando, quando sua obra mostra algo novo dele mesmo. Scoz
(2014, p. 14) explica que “reconhecer um sujeito ativo é reconhecer sua capacidade pensante e
reflexiva”. Desse modo, a autoria de pensamento é a condição para a autonomia da pessoa e, por
sua vez, a autonomia favorece a autoria de pensar. À medida que alguém se torna autor, poderá
conseguir a sua autonomia (Fernández, 2001).
A autoria de pensamento está relacionada às modalidades de aprendizagem que o sujeito
pode apresentar. Fernández (2008) explica que a modalidade de aprendizagem supõe um molde
relacional que cada sujeito utiliza para aprender, que se refere a uma organização do conjunto de
aspectos (conscientes, inconscientes e pré-conscientes) da ordem da significação, da lógica, da
corporeidade e da estética. Esse molde de relacionar-se pode congelar e enrijecer, gerando uma
modalidade de aprendizagem considerada patológica.
De acordo com a maneira que o sujeito aprende e de acordo com os ensinantes que este
indivíduo teve ao longo de sua vida é que ele poderá ter desenvolvido ou não o reconhecimento
de sua autoria de pensamento, de sua autonomia e também ter desenvolvido determinada
modalidade de aprendizagem (Fernández, 2001).

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Chamat (1997) discute a relação entre os vínculos de dependência e parasíticos com a


aprendizagem. Para a autora, o vínculo de dependência (simbiótico patológico) é caracterizado
por crianças imaturas do ponto de vista psicológico e afetivo-cognitivo. Faltam a essas crianças
esquemas e estruturas de pensamento que lhes possibilitem uma aprendizagem assimilativa; e,
ainda mais, que lhes tragam o desejo de pensar, por causa do medo que têm do desequilíbrio.
Para a mesma autora, a criança que tem um vínculo de dependência mantém-se
infantilizada. A criança não enxerga possibilidade de crescimento e é excluída de qualquer relação
vincular com o novo e com o desconhecido. A autora explica ainda que esses indivíduos costumam
revelar acentuado medo frente às situações novas e desconhecidas, paralelos a uma centração no
prazer imediato; despersonalização ou falta de identidade própria; imaturidade psicológica,
afetiva e cognitiva; presença marcante do egocentrismo.
É nesse contexto que a pesquisa sobre este tema se justifica, à medida que pode ampliar a
compreensão das possíveis associações entre o vínculo simbiótico patológico entre mãe-filho e o
favorecimento ou não do processo de aprendizagem da criança. Desse modo, este estudo teve
como objetivo principal compreender as relações existentes entre o vínculo do tipo simbiótico
patológico entre mãe-criança com a aprendizagem, por meio da percepção de estagiários em
Psicopedagogia da Clínica-Escola do Centro Universitário FIEO – UNIFIEO sobre aspectos
relacionados ao tema verificados em seus atendimentos. A hipótese recai na premissa de que o
rompimento do vínculo do tipo simbiótico é fator fundamental para o processo de aprendizagem
saudável do indivíduo.

2. Método

Trata-se de um estudo de caso. Os estudos de caso levam em conta os elementos


processuais, as próprias situações investigadas e a possibilidade de transformação dessas
situações. Segundo Franco (2007), o estudo de caso pretende retratar uma configuração que,
embora particular, funcione como ponto de partida para uma análise que busque o
estabelecimento de relações sociais mais amplas de um determinado objeto de estudo. A
generalização do estudo de caso, conforme postula Franco (2007), é tratada como um processo de
interação objetivada. À medida que o leitor reconhece semelhanças, diferenças, equivalência ou
não, do caso particular investigado com outros casos ou situações de sua prática social, pode
estender a reflexão a outros contextos similares. Portanto, é fundamental que a análise de um
estudo de caso seja baseada numa pormenorizada interpretação de contexto.

a) Participantes

Participaram dessa pesquisa 16 estagiários da Clínica-Escola que cursavam, na ocasião da


pesquisa, o último semestre de Graduação em Psicopedagogia do Centro Universitário FIEO-
UNIFIEO.
Do total dos participantes dessa pesquisa, 94% (n=15) eram do sexo feminino e 6% (n=1)
do sexo masculino. Em relação à idade desses participantes, as idades variavam de 21 a 45 anos,
sendo que 56,3% (n=9) pertenciam à faixa etária dos 21 a 25 anos, 12,5% (n=2) à faixa etária dos
26 a 30 anos, 12,5% (n=2) à faixa etária dos 31 a 35 anos, 12,5% (n=2) à faixa etária dos 36 a 40
anos e 6,3% (n=1) à faixa etária dos 41 a 45 anos.
Salienta-se que a Clínica-Escola da referida Instituição de Ensino Superior atende a
população da região oeste da grande São Paulo, principalmente crianças e adolescentes com

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dificuldades de aprendizagem oriundos de escolas públicas e que possuem baixo nível


socioeconômico.

b) Instrumento

Foi utilizado questionário, com respostas escritas, elaborado com o intuito de coletar
dados pertinentes à caracterização dos pacientes atendidos na clínica; as percepções dos
estagiários acerca do tipo de vínculo estabelecido entre mãe-filho percebido através da anamnese
(entrevista semiestruturada com os pais); e as modalidades de aprendizagem patológicas dos
pacientes.
O questionário consistiu nas seguintes questões: 1) Qual a idade de seu paciente?; 2) Qual
a queixa que o trouxe para a clínica psicopedagógica?; 3) Em se tratando da anamnese, relate
brevemente sobre o vínculo do paciente com a sua mãe; 4) Você acha que a relação que o
paciente tem com a sua mãe o está afetando de alguma maneira em seu processo de
aprendizagem? Se sim, por quê?; e 5) Qual a modalidade de aprendizagem patológica
diagnosticada de seu paciente?

c) Procedimentos

Este estudo caracterizou-se por ser de nenhum risco aos participantes da pesquisa e foi
obtido o Termo de Concordância da Clínica-Escola de Psicopedagogia do Centro Universitário
FIEO-UNIFIEO, bem como o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, o qual foi assinado pelos
estagiários (participantes da pesquisa). É importante ressaltar que esta pesquisa teve aprovação
do Comitê de Ética em Pesquisa da Instituição promotora (CNS n. 196/96- Projeto nº. 038/2010)
tendo seguido os preceitos éticos que regem a realização de pesquisas com seres humanos
(Ministério da Saúde, Conselho Federal de Psicologia). Cada estagiário (participante) respondeu
três questionários, um para cada paciente atendido na Clínica-Escola de Psicopedagogia, obtendo
um total de 48 questionários respondidos.

d) Análise de dados

Os dados foram analisados quantitativamente, de acordo com as frequências das respostas


obtidas em cada pergunta do questionário, associando-os aos objetivos propostos nessa pesquisa.

3. Resultados e Discussão

a) Caracterização dos pacientes atendidos na Clínica-Escola

Referente às questões 1 e 2 do questionário, constatou-se que 79,16% dos pacientes


atendidos na Clínica encontravam-se na faixa etária entre 7 e 11 anos, sendo que os 20,84%
restantes tinham idades entre 12 e 16 anos.
Referente aos principais motivos que levaram os pacientes ao atendimento
psicopedagógico (queixas), o que mais se destacou foi dificuldades na alfabetização, com 67% dos
casos, seguido das dificuldades de atenção/concentração, com 19%, problemas neurológicos, com
8% e dificuldades de seguir regras, com 6%.
Nesse contexto, é possível considerar que haja uma relação entre a maior parte do público
atendido na Clínica com a principal queixa apresentada por esse público, pois é justamente no

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período entre os 7 a 11 anos que as crianças têm que se alfabetizar e aprender os conteúdos
básicos do ensino fundamental. Quando a criança não atinge o nível de leitura e escrita esperado,
a assimilação de conteúdos fica comprometida, bem como seu processo de aprendizagem.
A alfabetização vai além da decodificação de símbolos. O ser alfabetizado é aquele capaz
de utilizar a escrita como um instrumento que lhe permita se comunicar, apreciar, sugerir e
pensar. A alfabetização proporciona ao sujeito não só saber ler e escrever como também o
permite pensar, o que é essencial para a formação do ser humano autônomo e autor de seu
próprio pensamento. O alfabetizar-se depende da estrutura cognitiva do indivíduo, do seu meio
social e familiar, bem como de seu processo de ensino-aprendizagem (Oñativia, 2009).
A aquisição da língua escrita representa um momento de iniciação da criança no processo
de escolarização. É, também, requisito para que a criança seja bem-sucedida em toda sua
trajetória escolar, uma vez que o saber formal veiculado pela escola é realizado, primordialmente,
por meio da leitura e da escrita. O processo de alfabetização por meio da leitura e escrita é
condição básica para a integração da criança na vida social (Barbiéri, Barros & Pereira, 2016).
As dificuldades de alfabetização tornam-se então um problema de grandes dimensões para
as escolas, professores e famílias destas crianças, uma vez que o indivíduo se insere no mundo
formal através da leitura e da escrita. Alfabetizar-se significa, nesse sentido, incluir-se dentro de
uma cultura, fazer parte dos padrões de uma sociedade, uma vez que o estudo e a aprendizagem
formal dentro de nossa cultura dependem da aquisição da leitura e da escrita.

b) Percepções dos estagiários acerca do tipo de vínculo estabelecido entre mãe-filho


percebido através da anamnese

Referente às questões 3 e 4 do questionário, constatou-se que 37,5% dos pacientes


atendidos na Clínica-Escola de Psicopedagogia apresentavam vínculo simbiótico patológico com
suas mães. É importante ressaltar que as respostas consideradas como pertencentes a esse tipo
de vínculo foram retiradas da expressão “superproteção” utilizada pelos participantes da pesquisa,
uma vez que esses estagiários não conheciam o termo simbiose e explicaram o que queriam dizer
com superproteção apontando características referentes ao vínculo do tipo simbiótico patológico,
como “mãe que não autorizava o filho a pensar”, “mãe que não favorecia a autonomia do filho”,
“mãe que não cortava o cordão umbilical da criança”, “mãe que não deixava o filho crescer”, entre
outras.
O percentual restante se dividiu em outros fatores ocorridos na vida dos pacientes e em
outras formas de vincular-se: ausência paterna, com 12,5% dos casos; ausência de ambos os pais,
com 8,33%; rejeição da criança na gravidez ou no pós-parto, com 6,25%; ausência materna, com
6,25%; separação dos pais, com 4, 16%; mãe autoritária, com 4,16%; não amamentou o filho, com
2,17%; mãe como rival do filho, com 2,08%; e outros problemas não especificados, com 16,6%.
Esses dados revelam que o tipo de vínculo simbiótico patológico entre mãe-filho pode ser
percebido como um fator presente entre as crianças com dificuldades de aprendizagem, mas não
como fator determinante, uma vez que o percentual de pacientes que não apresentaram esse tipo
de vínculo e que possuíam problemas de aprendizagem foi consideravelmente maior.
É importante destacar que as respostas que apontaram o vínculo simbiótico patológico
trouxeram as seguintes características percebidas nos pacientes: grande dependência para realizar
atividades, insegurança, baixa autoestima, falta de iniciativa, autonomia prejudicada, fragilidade
emocional e infantilidade. Essas características foram citadas pelos estagiários como sendo
prejudiciais para o processo de aprendizagem dos pacientes atendidos.

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A superproteção contribui para a dificuldade de aprendizagem da criança, pois a


permissividade e dependência dos pais fecham e isolam a criança do contato com o mundo e com
o conhecimento (Corrêa & Santana, 2014).
Crianças superprotegidas se tornam adultos dependentes, inseguros, imaturos e medrosos,
apresentando dificuldades em relação à autonomia e à tomada de decisões. Os pais muitas vezes
querem privar seus filhos do mundo da violência, drogas e das experiências ruins, mas essa
tentativa pode, em alguns casos, ter efeito indesejado, pois o filho pode rejeitar a superproteção e
transgredir o esquema de segurança imposto, expondo-se ainda mais aos riscos (Góes, 2005).
Paín (2007) enfatiza que a criança reivindica seu direito à independência porque ela é
dotada da capacidade de produzir sentidos, ou seja, a criança quer mostrar aos seus pais e ao
mundo que ela é um ser capaz, o que não inibe, desta forma, seu processo de aprendizagem.
A melhor proteção que um pai pode oferecer ao filho é dar responsabilidade para que ele
faça suas próprias escolhas, avaliando primeiro as necessidades e possibilidades de cada faixa
etária (Góes, 2005).

c) Modalidades de aprendizagem patológicas dos pacientes

Fernández (2008) explica que a Modalidade de Aprendizagem supõe um molde de se


relacionar. De uma maneira geral, pode ser compreendida como a maneira que o sujeito se
relaciona com o objeto de conhecimento, consigo mesmo enquanto aprendente e com os demais
enquanto ensinantes. Esse molde de se relacionar pode enrijecer, gerando uma modalidade de
aprendizagem considerada patológica. Há quatro modalidades de aprendizagem patológicas, de
acordo com os mecanismos de assimilação e acomodação trazidos por Piaget (1996) (Fernández,
2008; Paín, 2007): 1) Hipoassimilação: pobreza de contato com o objeto de conhecimento que
redunda em esquemas mentais empobrecidos, déficit lúdico e criativo; 2) Hiperassimilação:
internalização prematura dos esquemas, com o predomínio lúdico e da subjetivação, não
realizando o pensamento do indivíduo; 3) Hipoacomodação: pobreza de contato com o objeto de
conhecimento e dificuldade na internalização de imagens. Modalidade relacionada à falta de
estimulação ou o abandono. Pode aparecer ainda quando não foi respeitado o tempo da criança
nem a sua necessidade de repetir muitas vezes a mesma experiência; 4) Hiperacomodação:
pobreza de contato com a subjetividade. Pode haver uma superestimulação da imitação, falta de
iniciativa, obediência acrítica às normas e submissão.
Referente à questão 5, última pergunta do questionário, dentre os pacientes que
apresentaram vínculo simbiótico patológico, 55% deles foram diagnosticados com modalidade de
aprendizagem patológica Hipoassimilativa e Hipoacomodativa, 28% com modalidade
Hipoassimilativa e Hiperacomodativa e com 17% com modalidade Hiperassimilativa e
Hipoacomodativa.
Comparado aos pacientes que não apresentaram esse tipo de vínculo, as modalidades de
aprendizagem patológicas diagnosticadas se dividiram em: 50% dos casos em Hipoassimilação e
Hipoacomodação, 33% em Hiperassimilação e Hipoacomodação e 17% em Hipoassimilação e
Hiperacomodação.
Desse modo, pode ser percebido que em ambos os casos a modalidade de aprendizagem
patológica diagnosticada que se destaca nos atendimentos é a Hipoassimilação e
Hipoacomodação.
Com este resultado não é possível afirmar que haja uma relação direta entre o vínculo
simbiótico patológico entre mãe-criança com a modalidade de aprendizagem predominante
apresentada pela criança, uma vez que todas as crianças que não apresentaram esse vínculo

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também apresentaram como modalidade de aprendizagem patológica dominante a


Hipoassimilação e a Hipoacomodação.

4. Considerações Finais

Esta pesquisa tinha como objetivo principal compreender as relações existentes entre o
vínculo do tipo simbiótico patológico entre mãe-filho e o processo de aprendizagem da criança,
cuja hipótese se sobressaía na importância do rompimento do vínculo do tipo simbiótico
patológico entre mãe e filho para a aprendizagem saudável da criança.
A partir dos resultados obtidos, foi possível identificar que esse vínculo é apenas um fator
presente em uma parcela dos pacientes que apresentavam dificuldades de aprendizagem, mas
não um fator determinante. Desse modo, uma criança que apresenta dificuldades de
aprendizagem não tem necessariamente um vínculo simbiótico patológico com sua mãe. Esse
dado revela que a criança pode apresentar problemas de aprendizagem por outros fatores, ou
apresentar esse tipo de vínculo apenas como fator subjacente ou concomitante.
Deve-se considerar ainda que muitas das características associadas ao vínculo simbiótico
patológico elencadas pelos estagiários podem afetar diretamente o processo de aprendizagem do
indivíduo, como insegurança, baixa autoestima e desmotivação. Esses dados revelam que se
confirmam as relações possíveis entre o não rompimento desse tipo de vínculo com as
dificuldades de aprendizagem, porém, salientando o que já foi dito, não pode ser considerada uma
relação de causa e efeito, pois há outros fatores e dimensões envolvidas no processo de ensino-
aprendizagem.
É importante destacar que, pelo fato dos indivíduos desta pesquisa serem pacientes da
Clínica-Escola de Psicopedagogia e frequentarem esse espaço por apresentarem dificuldades de
aprendizagem, salienta-se a importância de estudos posteriores com crianças que não apresentem
dificuldades de aprendizagem para que se possa obter dados comparativos com esta Pesquisa, a
fim de que se detenha mais dados para comprovar se há ou não uma relação direta entre o
vínculo do tipo simbiótico patológico entre mãe e filho com a questão da aprendizagem.
Destaca-se ainda que por se tratar de um estudo de caso, os resultados encontrados são
circunscritos ao público investigado na presente pesquisa. Portanto, é fundamental que o
contexto seja considerado para que em pesquisas realizadas em situações semelhantes os
resultados encontrados nesse estudo possam ser utilizados/generalizados.

Agradecimento

À Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES).

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Autor para correspondência:


C.F.B. Klumpp - Endereço para correspondência: Centro Universitário FIEO-UNIFIEO. Av. Franz Voegeli, 300,
Vila Yara, Osasco, SP, CEP: 06020-190. E-mail: cabarros1@hotmail.com

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