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2 ESTADO DA ARTE

Com a finalidade de fazer um levantamento acerca dos trabalhos


desenvolvidos nos últimos 04 (quatro) anos sobre a temática de violência contra
crianças e adolescentes no âmbito familiar, foi feito uma pesquisa nos principais
bancos de teses, dissertações, periódicos, entre outros trabalhos acadêmicos, a fim
de entender como tem sido as discussões acerca dessa temática, como tratam a
situação e as medidas que tem sido propostas e/ou aplicadas nesses últimos anos.
Esta pesquisa é parte integrante da monografia intitulada: CRIANÇAS E
ADOLESCENTES COM DIREITOS VIOLADOS: violência doméstica no município
de Chapadinha – MA.
Nesta revisão de literatura foi desenvolvido um estudo bibliográfico tendo
como base de dados as plataformas: Biblioteca Digital Brasileira de Teses e
Dissertações (BDTD), Banco de Teses da Coordenação de Aperfeiçoamento de
Pessoal de Nível Superior, Scientific Electronic Library Online (SCIELO), Google
Acadêmico e o Repositório Institucional da Faculdade do Baixo Parnaíba – FAP.
Para que a busca alcançasse resultados mais relevantes e coerentes com
a pesquisa, foram utilizados os filtros disponíveis em cada plataforma de pesquisa,
os principais critérios selecionados foram: publicações no Brasil, língua portuguesa,
o espaço de tempo foi de 2015 a 2019, utilizou ainda as palavras-chave “violência
doméstica”, “crianças e adolescentes”, “direitos de crianças e adolescentes
violados”, e a inserção do tema na caixa de busca das plataformas.
A final das pesquisas, foram encontrados, somando o resultado de cada
uma, um total de 47 trabalhos, tendo sido selecionados para análise apenas 6, pelo
fato de estarem mais próximos da temática aqui estudada, e corroborar com a
pesquisa.
Na plataforma SciELO – (Scientific Electronic Library Online), foram
encontrados 12 trabalhos, e selecionados 3 para serem analisados, pois apresentam
mais proximidade com o tema abordado nesta monografia.
Posteriormente foi consultado o repositório institucional da Faculdade do
Baixo Parnaíba – (FAP). Nesta não foram encontrados trabalhos realizados nesta
área de pesquisa.
No Google Acadêmico foram encontrados 2 trabalhos, porém selecionado
apenas 1, visto que um este se encaixa perfeitamente na discussão, enquanto o
outro não aborda a mesma linha de pesquisa deste trabalho, abordando, portanto,
crianças em situação de rua, embora também discorra sobre violência contra
crianças.
Na plataforma BDTD não foi encontrado nenhum trabalho tendo como
base os filtros de pesquisa.
No banco de teses e dissertações da CAPES foram encontrados 20
trabalhos, tendo sido selecionado apenas 1, pois foi o único que esteve coerente
com o objeto de estudo.
Abaixo pode ser conferida uma tabela delineando as pesquisas realizadas
nas plataformas.

FONTE: Scientific Electronic Library Online Quantidade de pesquisas encontradas – 12

(SCIELO)
Total de trabalhos analisados 03
Quantidade de pesquisas encontradas – Não foram
FONTE: Repositório Institucional da encontradas
Faculdade do Baixo Parnaíba – FAP.
Total de trabalhos analisados

Quantidade de pesquisas encontradas – 02


FONTE: Google Acadêmico
Total de trabalhos analisados 01
Quantidade de pesquisas encontradas – Não foram
FONTE: Biblioteca Digital Brasileira de
encontradas
Teses e Dissertações (BDTD)
Total de trabalhos analisados

Quantidade de pesquisas encontradas – 20


FONTE: CAPES
Total de trabalhos analisados 1

2.1 Scientific Electronic Library Online (SCIELO)

O primeiro trabalho a ser analisado é um artigo intitulado


“Caracterização da violência doméstica contra crianças e adolescentes e as
estratégias interventivas em um município do estado do Rio de Janeiro,
Brasil” de autoria de Antonio Augusto Pinto Junior, Vicente Cassep-Borges, e
Janielly Gonçalves dos Santos, os quais buscaram caracterizar os tipos de violência
infantil e as estratégias de intervenção no município Volta Redonda no Estado do
Rio de Janeiro, entre 2008 e 2012, através de prontuários do Centro de Referência
Especializado de Assistência Social (CREAS). Eles consideraram as informações,
presentes em 210 prontuários, para traçar o perfil dos envolvidos, o tipo de violência,
e as medidas interventivas que foram adotadas.
Com os prontuários sob posse deles, realizaram análises descritivas de
frequência dos dados levantados, e obtiveram resultados que apontam que a
violência sexual, física e a negligência foram as mais citadas.
Para organizar as informações disponibilizadas após análise dos
prontuários, fizeram um formulário padronizado, contendo as seguintes categorias:
modalidades de violência; características do agressor (vínculo de parentesco, sexo,
idade, escolaridade, uso de álcool/drogas ilícitas); características da vítima (idade,
sexo, escolaridade); situação socioeconômica da família; características das
intervenções (medidas de proteção à vítima, encaminhamento da vítima,
encaminhamento do agressor). Para uma análise mais fidedigna, utilizaram o
software de pesquisa Statistical Package for the Social Sciences versão 20.0
(SPSS).
Abaixo pode ser conferida a tabela que desenharam para organizar suas
informações.

Tabela 1. Características dos autores de violência doméstica contra crianças e adolescentes no município de
Volta Redonda/RJ, 2008-2011
CARACTERÍSTI n %
CAS
Sexo
Masculino 122 58,1
Feminino 88 41,9
Vínculo de Parentesco
Pai 52 24,7
Mãe 85 40,5
Padrasto 35 16,7
Madrasta 3 1,4
Outros parentes 35 16,7
(tios, avós, primos,
irmãos)
Idade (anos)
Menos de 20 12 5,7
De 20 a 30 49 23,3
De 31 a 40 62 29,5
De 41 a 50 27 12,9
De 51 a 60 14 6,7
61 ou mais 2 0,9
Sem informação 44 21,0
Uso álcool/drogas ilícitas
Sim 84 40,0
Não 24 11,4
Sem informação 102 48,6

Os resultados, obtidos por eles, indicam que o número de agressores, em


sua maioria, é do sexo masculino (58,1%), e as figuras que mais praticaram
violência foram a mãe (40,5%) e o pai (24,7%). A faixa etária dos agressores de
maior frequência foi de 31 a 40 anos, e as vítimas foram de maioria do sexo feminino
e na faixa dos 14 aos 18 anos.
Os dados também indicaram que a situação socioeconômica das famílias
era precária. Muitas (24,3%) tentavam viver com renda de até um salário mínimo.
As medidas interventivas que encontraram com a pesquisa foram
encaminhamento das vítimas para psicoterapia individual (23,3%), e o agressor para
atendimento psicossocial (28,7%), no entanto, observaram que uma parcela
significativa de agressores não foi alvo de intervenção ou encaminhamento (30,1%).
Nas discussões, associaram a violência física à uma “estratégia
privilegiada de educação infantil”, e julgaram que este modelo de educação ainda é
muito frequente no Brasil. Esta ideia corrobora ainda com as discussões realizadas
no Referencial Teórico desta monografia. Os autores do Artigo chamam atenção
para esta situação, apelam para que as instituições de assistência social passem a
buscar formas inovadoras de assistência às famílias em situação de risco e investir
em estratégias de prevenção desse tipo de violência doméstica, buscando discutir
com a comunidade e com diferentes grupos sociais outros modelos de educação
infantil, para retirar o emprego de força ou de punição corporal.
Os pesquisadores também evidenciaram que a violência sexual foi uma
das modalidades mais identificadas na pesquisa. Segundo eles, o fator também está
envolvido por aspectos sociais e familiares complexos e, na maioria dos casos,
culmina em gravidez precoce, doenças sexualmente transmissíveis, além dos
agravos para a saúde das vítimas.
Quanto aos casos de negligência, que consiste na omissão dos pais ou
responsáveis, em prover as necessidades físicas, de alimentação, saúde,
educacionais, higiênicas de seus filhos e/ou de supervisionar suas atividades. Os
pesquisadores evidenciaram que prevaleceram as omissões familiares no cuidado
de saúde e educação, além do abandono físico, corroborando, desta forma, os
resultados de outras pesquisas na área.
Os autores destacam que a violência psicológica foi a menos identificada,
mas chamam a atenção para que, embora pouco reportada, esta modalidade de
violência doméstica exige atenção redobrada dos profissionais de assistência à
infância, visto que os sinais e indicadores de sua manifestação não são tão
evidentes quanto os presentes em uma agressão física. Alertam ainda que
raramente constitui-se o motivo principal de denúncia, podendo estar, na maioria dos
casos, atrelado a outras formas de agressão.
Na conclusão, os autores destacam a importância e necessidade de as
instituições de assistência às vítimas de violência doméstica elaborem formulários
que abrangem as mesmas categorias criadas e analisadas por eles na pesquisa.
Recomendam ainda que sejam anexados nos prontuários dos usuários desses
serviços. Alertam também sobre a importância do preenchimento adequado e
completo de todos os documentos inseridos nesses prontuários.
Outro trabalho que discute o tema é também um artigo, intitulado “Família
e negligência: uma análise do conceito de negligência na infância”. Tendo como
autores Natália Teixieira Mata, Liane Maria Braga da Silveira e Suely Ferreira
Deslandes, o Artigo tem o objetivo de problematizar e discutir acerca das
denominações de negligência dadas às famílias no cuidado de crianças e
adolescentes e suas implicações morais. Segundo as autoras, a negligência é um
problema de saúde pública que atinge diversas famílias na sociedade.
As autoras apresentaram o contexto que engloba a situação, e
destacaram que essa denominação faz parte das tipologias de apresentação das
violências interpessoais (violência física, psicológica, sexual e negligências).
Para desenvolver a discussão, as autoras conceituam a família, e afirmam
que esta não é uma instituição “natural”, estável, harmoniosa e privada. Para essa
afirmação, elas têm como base as declarações de Bourdieu (1996).
O trabalho delas consiste mais em uma abordagem explicativa, em que
buscam definir através das várias produções acadêmicas nacionais, de diferentes
áreas, o conceito de Negligência. E ao longo de todo o estudo vão percebendo
controvérsias quanto à essa definição, as visões de negligência contra a criança são
vistas de formas diferentes em determinadas áreas de atuação profissional.
Perceberam também, que a multiplicidade de diferentes cenários
familiares torna complexo a tarefa de definir uma situação como negligência, pois
estas podem reproduzir, praticar ou sofrer negligências.
Ademais, há uma discussão que passa ao largo dos textos aqui
analisados. Se as situações de negligência são rótulos atribuídos preponde-
rantemente às famílias pobres e negligenciadas, sobretudo porque são estas que
chegam aos técnicos da rede de assistência e são atendidas em hospitais públicos;
as supostas situações de negligência atendidas em hospitais privados ou retidos no
seio de uma família de camadas médias ou de elite não se expõem à análise social.
Contudo, em cenários de disputas entre pais de classe média em litígio pela guarda
dos filhos, não raro a acusação de “negligência” é declarada contra o ex-cônjuge,
visando desqualificar sua capacidade de cuidar.
O que os cenários estudados por elas revelam é que para além das
classificações imputadas preponderantemente às famílias pobres, o trabalho de
construir o indivíduo negligente passa também pelo de apagamento social de uma
importante figura que constitui a família – o pai. Perceberam também que o
direcionamento a família nos casos de negligência perpassa também pela questão
de gênero, na maioria dos casos, a responsabilidade de zelar e cuidar dos filhos
recais sobre as “mães”. E nesse ponto, muitas vezes, a acusação de família
negligente, se desloca para mãe negligente.
O último trabalho a ser analisado desta plataforma é também um artigo, e
leva como título “Violência doméstica contra crianças e adolescentes: olhares
sobre a rede de apoio”. Suas autoras são Diene Monique, Elisabete Matallo, Maria
Isabel, Maria Neto, e Maria das Graças.
Desenvolveram sua pesquisa em um município do interior do estado de
São Paulo, Brasil. Os participantes do estudo foram 41 profissionais das unidades
de ABS e 15 famílias envolvidas na violência contra crianças e adolescentes.
Ressaltaram que escolheram as unidades de ABS por estas serem centro de
comunicação das Redes de Atenção a Saúde, e intermediarem as ações
direcionadas ao cuidado da população.
Os profissionais do estudo foram: 17 agentes comunitários de saúde; 4
auxiliares de enfermagem; 4 enfermeiros; 1 terapeuta ocupacional; 4 médicos
pediatras; 2 psicólogos; 1 médico psiquiatra; 2 médicos clínicos; 1 auxiliar de saúde
bucal; 5 residentes em saúde multiprofissional. Seis profissionais participantes eram
do sexo masculino e o restante, do sexo feminino. A maioria dos profissionais tinha
entre 31 e 40 anos de idade, havia concluído curso técnico ou superior entre 1 e 5
anos, e trabalhava na UBS pesquisada também por este mesmo período.
Os familiares participantes foram um pai, uma avó e treze mães de
crianças e adolescentes acompanhados pelo serviço em questão. Os participantes
possuíam entre 18 a 56 anos.
Eles chamam atenção ao dizer que apesar dos apontamentos da
literatura cientifica atual e diretrizes de órgãos de proteção à infância e adolescência
oficiais, o cuidado em rede ainda representa um grande desafio principalmente por
buscar superar o paradigma dominante, com uma lógica divisionista. Neste estudo,
compreendeu-se que os profissionais e as famílias desvelaram vivências – de
gestão, cuidado e pessoais – centradas nesta lógica de fragmentação.
Evidenciaram que o número de entidades privadas no setor da assistên-
cia social é significativamente maior que o de entidades estatais. Ressalta-se que os
processos de trabalho diferem daqueles executados pelas entidades estatais, e
sofrem alterações frequentes. Desta forma, a própria constituição dos serviços
assistenciais acaba gerando fragilidades e lacunas para o entendimento da
organização do setor.
Para as famílias, o vínculo com a escola foi percebido como fragilizado,
em especial pela falta de reciprocidade. Os familiares se referiram a um programa
social de transferência de renda como a principal fonte de apoio instrumental; na
premissa deste programa, se apresenta a obrigatoriedade da criança ou do
adolescente ser acompanhado pela unidade de ABS e estar frequentando a escola
Na pesquisa delas também, encontraram declarações divergentes entre a
comunidade e os órgãos de atendimento a saúde. Os profissionais da saúde
identificaram as famílias, e os conselhos locais de saúde, como vínculos
significativos com a unidade. As famílias, por outro lado, denotaram um vínculo
fragilizado com a unidade de ABS.
Os dados encontrados por elas mostram a necessidade da construção
e/ou efetivação de políticas públicas direcionadas a esta população, com o
empoderamento do núcleo familiar e comunitário. E por último, declaram que a
Saúde e a Enfermagem podem emergir como agentes potencializadores de debates
nesta temática, indicando caminhos interdisciplinares e intersetoriais, buscando a
transdisciplinaridade para o cuidado a famílias envolvidas em dinâmicas violentas.

2.2 Repositório Institucional da Faculdade do Baixo Parnaíba – FAP


Não foram encontrados nenhum trabalho que correspondessem à
temática aqui discutida.

2.3 Google Acadêmico

O trabalho a ser analisado desta plataforma, é intitulado como “Violência


Doméstica contra Crianças e Adolescentes: Consequências e Estratégias de
Prevenção com Pais Agressores.” Escrito por Amailson Sandro de Barros e Maria
de Fátima Quintal de Freitas.
O artigo deles consiste em um levantamento bibliográfico que teve como
objetivo verificar em periódicos brasileiros de Psicologia e Educação as produções
sobre as práticas de violência doméstica envolvendo pais e filhos.
Na introdução elas já deixam claro que cotidianamente crianças e
adolescentes são vítimas de alguma violência doméstica, e quase sempre os
agressores são muito próximos de sua rede afetiva e social, como os pais ou
responsáveis.
Segundo os autores, a violência contra criança pode ser entendida como
criação e instrumento humano, cujo uso também pode ser regido e justificado pela
sua utilidade e por seu caráter meio e fim. Assim, um ato de violência protagonizado
pelos pais contra os filhos, pode ser compreendido como um ato contra rebeldia,
punição merecida, para a criança ou adolescente, e um direito de uso dos pais, visto
que se utilizam desta modalidade de correção e disciplina durante o processo de
educação de seus filhos.
Para caracterizarem parte da produção científica sobre a temática,
fizeram levantamento bibliográfico em artigos publicados na base eletrônica de
dados SciELO e no portal de Periódicos Eletrônicos de Psicologia (PePSIC).
Os dados coletados foram avaliados a partir da análise de conteúdo
(Bardin, 1977), e foram apresentados em duas categorias: consequências da
violência doméstica para o desenvolvimento da criança e do adolescente, e
estratégias de intervenção com grupo de pais agressores.
Os estudos deles revelaram que crianças e adolescentes que são
expostos à violência doméstica podem sofrer consequências múltiplas e severas às
vítimas. As pesquisas comprovaram que a violência afeta o desenvolvimento social,
comportamental, emocional, sexual e cognitivo da vítima, prejudicando seu bem-
estar e qualidade de vida, podendo este ter problemas na vida adulta, por conta dos
traumas.
Chamam a atenção para os sintomas que acometem uma criança vítima
de violência doméstica, apontam que é difícil traçar um conjunto único desses
sintomas, e afirmam que a exposição às situações abusivas, se constituem fatores
de risco para o surgimento de problemas de saúde mental, e até mesmo falta de
concentração na escola.
Destacam também sobre atrasos no desenvolvimento psicomotor,
desnutrição, doenças crônicas devido à falta de cuidados adequados, ausência de
limites comportamentais e maior envolvimento em acidentes domésticos, são
gerados, muitas vezes, em casos de crianças negligenciadas pela mãe.
Os sinais físicos no corpo da criança, como lesões, manchas,
hematomas, ferimentos, podem ser marcas de violência física.
Analisaram também sobre a violência sexual, onde observaram em sua
literatura que podem se observar gravidez precoce, doenças sexualmente
transmissíveis, dores abdominais, abortos rompimento da menstruação, obsessão
pela higiene, entre outros sintomas, são os presentes no caso desta modalidade de
violência. Outros estudos identificaram alterações no sono, dificuldades escolares,
hiperatividade, comportamentos hipersexualizados, comportamentos regressivos,
como os relacionados ao controle dos esfíncteres (enurese e encoprese),
pensamentos invasivos, furtos, bulimia, depressão, suicídio, pesadelos (Malgarim &
Benetti, 2010), dificuldades de concentração, pensamentos intrusivos (Pelisoli, Pires,
Almeida & Dell’Aglio, 2010), transtorno sexual, envolvimento com prostituição (Maia
& Barreto, 2012), prazer, nojo, culpa e desamparo (Siquieira, Arpini & Savegnago,
2011).
Estudando o trabalho de Hohendorffet et al (2012), os autores do artigo
viram que ao abordarem a violência sexual contra meninos, evidenciaram nessas
vítimas consequências afetivas, como raiva, medo, vergonha e confusão sobre a
própria masculinidade, manifestada principalmente em meninos que foram abusados
por pessoa do mesmo sexo. Entretanto, como advertem os autores, há de se tomar
muita cautela quando considerada esta última observação, para não se generalizar a
experiência abusiva como determinante da orientação sexual da vítima.
Em outro estudo, que discutiu o sofrimento psíquico de um menino de 11
anos, testemunha ocular do abuso sexual da irmã de 10 anos perpetrado pelo pai
(Cantelmo, Matta, Costa & Paiva, 2010), identificou-se, por exemplo, que este
menino, vítima secundária do abuso sexual, passou a manifestar sentimentos
ambivalentes de amor e ódio pelo pai, bem como mágoa e tristeza pelo rompimento
da união familiar que fora abalada pela revelação desse abuso.
Considerando as consequências sinalizadas pelos autores, verificou-se
que a violência doméstica, nas suas diversas modalidades, compromete a saúde
física e mental das crianças e adolescentes.
O trabalho de intervenção com pais, encontrado por eles, é apontado pela
literatura como estratégia fundamental à redução e prevenção da violência
doméstica e de problemas de comportamento infanto-juvenil. De acordo com alguns
autores, o desenvolvimento dessa forma de intervenção oferece a possibilidade de a
família resgatar o respeito mútuo na relação pais e filhos e serve de suporte social
para as pessoas que dela participam (Costa, Penso & Almeida, 2005; Rios &
Williams, 2008; Rufatto, 2006).
Na revisão de literatura realizada por autores estudados por eles, Rios e
Willians (2008), encontraram três programas internacionais reconhecidos pela
efetividade da intervenção e pela ampliação do corpo teórico e prático que os
mesmos oferecem à temática do trabalho de intervenção com pais agressores. São
eles: Oregon Social Learning Center, Incredible Years e Positive Parenting.
O programa Oregon Social Learning, segundo Rios e Williams (2008), de
base sociointeracionista, envolve em seus temas principais: a identificação pelos
pais dos problemas de comportamento dos filhos, uso de técnicas de reforço,
disciplina, monitoramento, supervisão e aplicação de estratégias de solução de
conflitos.
O programa Incredible Years baseia a intervenção no ensino de
habilidades positivas aos pais, crianças e professores para superar e evitar o uso da
violência no processo de educação da criança e do adolescente. A intervenção é
padronizada e busca o desenvolvimento e aplicação do programa junto a crianças
com problemas de comportamento. O foco reside também na busca por estratégias
de intervenção que sejam universais e baseadas na comunidade, para posterior
utilização pelas famílias e professores.
O programa Positive Parenting funciona como estratégia preventiva de
apoio aos pais, de forma a aumentar-lhes o conhecimento, as habilidades e a
confiança em si mesmos. O programa é composto por cinco níveis de intervenção,
que buscam fortalecer e instrumentalizar a responsabilidade dos pais perante a
educação dos filhos.
Por fim destacaram sobre o fato de que a variação dessas consequências
para as vítimas também está relacionada ao apoio social e afetivo por elas obtidos e
para elas oferecidos após a ocorrência do ato violento. Observaram também que o
trabalho com pais é fundamental, visto que minimiza os comportamentos violentos
desses contra seus filhos, sensibiliza-os sobre o papel de pais e possibilita também
a formação e identificação de uma rede de apoio social e afetiva entre os
participantes dos grupos.
Concluem, então, que os trabalhos de intervenção, utilizando grupos de
pais, podem servir como espaços de apoio emocional e de geração de novas formas
de relação entre pais e filhos.
De modo geral, o intercâmbio de ideias e de reflexões conjuntas entre os
pais se mostrou essencial. Acreditam que essas intervenções colaboram para a
formação de relações familiares mais dialógicas, humanas, respeitosas e amorosas.
Sem o peso da rotulação, defendem, a partir dos resultados obtidos, que a
compreensão do significado e do sentido da violência doméstica para além do ato
praticado pelos pais contra os filhos é também emancipadora.

2.4 Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD)

Não foram encontrados trabalhos que correspondessem ao objeto de


estudo desta pesquisa.

2.5 Banco de Teses e Dissertações da CAPES

O trabalho intitulado “Enfrentamento da violência doméstica contra


crianças e adolescentes na perspectiva de enfermeiros da atenção básica”, das
autoras Jéssica Totti Leite, Maria Aparecida Beserra, Liliana Scatena, Lygia Maria
Pereira da Silva, e Maria das Graças Carvalho Ferriani, é um artigo que tem como
objetivo fazer análise das ações relatadas por enfermeiros da atenção básica no
enfrentamento da violência doméstica contra crianças e adolescentes.
Elas realizaram uma pesquisa qualitativa em cinco Unidades de
Estratégia de Saúde da Família do Estado de São Paulo. Coletaram os dados no
segundo semestre de 2013 com entrevistas semiestruturadas com cinco enfermeiras
e analisados através de análise de conteúdo, modalidade temática.
Os principais critérios adotados para selecionar as USF foram: a presença
de pelo menos um enfermeiro em cada USF; tempo mínimo de 6 meses de
implantação da USF; a ligação da USF com a Universidade de São Paulo.
Elas também classificam a violência como um problema de saúde pública
mundial, e afirmam que tais atos de agressão, constituem violação dos direitos
humanos. Alegam que essas agressões se tornam obstáculos para o
desenvolvimento das vítimas, e declaram que a violência é um problema secular que
atinge todas as classes sociais, etnias, religiões, raças e culturas, e afeta o ser
humano em sua totalidade.
As entrevistas, que foram realizadas pelas pesquisadoras, foram
gravadas, e seguidas por um roteiro composto pelas questões relacionadas ao
objeto de estudo. Identificaram as falas das enfermeiras por meio da letra E,
seguidas do número da entrevista, a fim de garantir o anonimato das entrevistadas.
Este método foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Centro Saúde
Escola da Faculdade de Medicina – USP, processo nº 248.
As pesquisadoras analisaram e categorizaram os dados por meio de
análise de conteúdo, modalidade esta que serve para desvendar núcleos de sentido
que compõem uma comunicação significativa para o objeto analítico visado,
considerando a fala no cotidiano do ser humano como um modo mais puro e
sensível de relação social.
Os núcleos temáticos, como citado anteriormente, ao final do processo de
análise, emergiram os seguintes: “Políticas públicas identificadas pelas enfermeiras”
e “Ações das enfermeiras diante da violência permeadas por medos e conflitos”.
Por meio desses núcleos, enfim enxutos para a análise, ficou evidente,
sobre o primeiro núcleo, que as enfermeiras estavam cientes das políticas públicas e
se sensibilizavam quanto à importância dos eventos promocionais pela Secretaria
Municipal de Saúde para ajuda-las no combate da violência. No entanto, precisavam
priorizar outras atividades, como visitas e consultas, os procedimentos técnicos que
eram exigidos no seu trabalho, por conta da organização das atividades nas USF.
No trabalho também pode ser encontrado que os enfermeiros, muitas
vezes, sentem-se desamparados por não conhecerem, as vezes, as atitudes que
precisam ser tomadas em casos de violência contra a criança ou o adolescente, e
isso gera um desgaste físico e emocional, e insatisfação com seu próprio trabalho.
As enfermeiras relatam ainda, segundo a pesquisa, que, por vezes, precisam
denunciar a negligência do Conselho Tutelar, visto que, os profissionais da
enfermagem enfrentam dificuldades na hora de denunciar, e as vezes não sabem o
que denunciar, pois a família esconde informações em muitos casos, e geralmente
os casos denunciados são de violência física ou sexual, no entanto, embora
denunciem ao Conselho Tutelar, este não se empenha no caso, não oferecendo
nenhuma solução ao crime notificado.
Os entrevistados ainda declararam deixar muitos casos passarem sem
solução, pois sua equipe é pequena frente à alta demanda de atendimentos. Além
disso, alegaram também à falta de capacitação para esses momentos.
Chamam a atenção para a importância de os gestores do poder público
incluírem nas suas pautas de discussão, como melhorar o suporte técnico e legal
aos profissionais de saúde, afim de que atuem conforme rege o estatuto de normas
preconizadas pelo Sistema Único de Saúde – SUS.
As profissionais de saúde explicitaram o seu despreparo para lidar com as situações
de violência intrafamiliar contra crianças e adolescentes, sobretudo para identificar,
por exemplo, se um caso de omissão foi decorrente de negligência ou de falta de
condições econômicas da família. Verificou-se uma tentativa de medicalização do
fenômeno pela dificuldade em lidar com os aspectos sociais e a promoção da saúde.
No segundo núcleo exploraram como era a atuação das enfermeiras
frente aos casos de violência, e quais eram os sentimentos que acompanhavam
suas ações.
As autoras chamaram a atenção para o fato de que, embora as
enfermeiras não possuam proteção nos casos em que elas denunciam ocorrências
de violência, os profissionais da enfermagem, assim como outros indivíduos
atuantes na saúde, devem estar engajados no enfrentamento da violência e na
melhoria da qualidade dos serviços públicos de saúde, para que assim seja criada
uma sociedade mais solidária, justa e democrática. Cada profissional, independente
da área de atuação, é responsável de alguma forma pelas crianças e adolescentes
que estão em situação de violência.
Cabe destacar que no estudo desenvolvido por elas, o medo declarado
pelas profissionais da saúde, frente aos casos de violência doméstica, consistia no
fator menor, algo mais preocupante, e que fazia com que elas se sentissem
intimidadas, eram as constantes ameaças das famílias das vítimas aos profissionais,
as ações executadas pelo agressor às crianças também deixava as enfermeiras
preocupadas, com medo. Além disso, a proximidade e vínculo das USF com as
famílias, aumentava o medo das enfermeiras de tomar atitudes para combater a
violência doméstica.
Diante do que foi declarado, percebeu-se a complexidade dessa questão social, e a
necessidade de desenvolver um olhar multiprofissional e ações intersetoriais que
busquem melhorar as condições de vida das vítimas, e elaborar políticas públicas
que viabilizem a garantia dos direitos constitucionais destas populações vulneradas.
As pesquisadoras também alertam que há uma necessidade urgente de implantar
uma capacitação para os profissionais, tendo como objetivo instrumentalizá-los, afim
de que tenham capacidade para enfrentar os casos de violência doméstica, além do
mais, é claro, oferecer subsídios para que exerçam com segurança seu papel
profissional na saúde e principalmente na proteção às crianças e adolescentes em
situação de violência doméstica.
REFERÊNCIAS

Carlos DM, De Pádua EMM, Fernandes MID, Leitão MNC, Ferriani MGC. Violência
doméstica contra crianças e adolescentes: olhares sobre a rede de apoio. Rev
Gaúcha Enferm. 2016;37 (esp):e72859. doi: http:// dx.doi.org/10.1590/1983-
1447.2016. esp.72859.
Junior AAP, Cassepp-Borges V, Santos JG. Caracterização da violência
doméstica contra crianças e adolescentes e as estratégias interventivas em
um município do Estado do Rio de Janeiro, Brasil. Cad. Saúde Colet., 2015,
Volta Redonda – RJ, Brasil.
Leite JT, beserra MA, Scatena L, Silva LMP, Ferriani MGC. Enfrentamento da
violência doméstica contra crianças e adolescentes na perspectiva de
enfermeiros da atenção básica. Rev Gaúcha Enferm. 2016 jun;37 (2):e55796. doi:
http://dx.doi.org/10.1590/1983-1447.2016.02.55796.
Mata NT, Silveira LMB, Deslandes, SF. Família e negligência: uma análise do
conceito de negligência na infância. Fiocruz, Rio de Janeiro – RJ, Brasil. DOI:
10.1590/1413-81232017229.13032017

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