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A INVENÇÃO DA FAVELA: do mito de origem a favela.

com
Licia do Prado Valladares

Sobre a autora:
• Graduada em Sociologia e Política pela PUC do Rio de Janeiro (1967);
• Doutora em Sociologia pela Universite de Toulouse I (Sciences Sociales)
(1974);
• HDR - Habilitation à diriger des Recherches - pela Universite de Lyon 2 (2001),
trabalho exigido de candidatos ao ingresso como professores efetivos no sistema
universitário francês;
• Fundadora do URBANDATA-Brasil (Banco de Dados sobre o Brasil Urbano);
• Professora emérita da Universidade de Lille;
• Atualmente é pesquisadora visitante do PPCIS (Programa de pós-graduação em
Ciências Sociais) da UERJ.

Sobre a Obra:
• Lançado no final de 2005, pela FGV, no Rio de Janeiro, o livro A invenção da
favela teve origem em sua tese de HDR - Habilitation à diriger des Recherches,
defendida na França em 2001.
• É uma continuidade com ampliado aprofundamento do livro Passa-se uma casa
(Zahar Editores, 1978), tese de doutorado defendida na França em 1974 e que
teve como motivação a experiência de um trabalho de campo, sob a orientação
de Carlos Alberto Medina, realizando “observação participante” na favela da
Rocinha, onde residiu por nove meses.
• Seu objeto de estudo são as representações sociais construídas por diversos
autores ao longo dos cem anos de existência das favelas no Rio de Janeiro.

Objetivo:
Duvidando das representações dominantes onde a favela é retratada como o
território da violência, como lugar de todas as ilegalidades, como bolsão de pobreza e de
exclusão social, a autora concluiu que as razões e modalidades da produção e
persistência de tais estereótipos precisavam ser investigados.
De que maneira a favela havia sido percebida e imaginada nos vários contextos
históricos e políticos?
A proposta da pesquisa é construir uma sociologia da sociologia da favela, para
examinar as origens e a constituição de um pensamento erudito sobre esse fenômeno
social, privilegiando seus atores, vinculações, interesses, representações e ações.
A categoria de favela utilizada hoje, tanto nas produções eruditas quanto nas
representações da mídia, aparentemente é evidente, mas é de certo modo, uma favela
“inventada”. E é este processo de invenção que a autora pretende esclarecer e analisar
neste livro, seguindo no decorrer do século XX os discursos, imagens, representações e
análises que acompanharam os 100 anos de existência concreta das favelas do Rio de
Janeiro.

A gênese da favela carioca:


• O cortiço como o “germe”, a semente da favela.
• Morro da Favella(1887): Antigos combatentes da guerra de Canudos se
instalaram no Morro da Previdência no Rio de Janeiro, para pressionar o
Ministério da Guerra para receber os soldos atrasados. Composto por um
conjunto de barracos aglomerados sem um traçado de ruas e nem de serviços
públicos, em áreas invadidas.
• O mito de origem: Em 1902, o livro Os sertões de Euclides da Cunha
influenciou profundamente os observadores da favela, fornecendo aos
intelectuais a “matéria prima” que lhes permitiu “compreender e interpretar a
favela emergente” basicamente como uma aglomeração de excluídos rebeldes,
formando uma comunidade coesa e pondo em perigo a ordem social.
• Sertão X Litoral <=> Favela X Cidade
• Na segunda década do século XX, a palavra favela se tornou um substantivo
genérico para designar qualquer hábitat pobre, de ocupação ilegal e irregular,
sem respeito às normas e geralmente sobre encostas.

A transformação da favela em problema


No início do século XX, o Rio era capital da República, passou pela Reforma
Pereira Passos. Imperavam os discursos: médico-higienista, da engenharia reformista,
do reformismo progressista, e do urbanismo. Mesmo que houvesse um descompasso
entre crescimento populacional e a construção de casas, ainda assim, a imagem da
favela era apresentada como “lepra da estética”, um lugar insalubre e anti-higiênico,
como foco de epidemias e contágio, ou seja, uma patologia social a ser combatida.

A transição para as ciências sociais: valorização da favela e descoberta do trabalho


de campo
Com o primeiro Recenseamento Geral de 1950, Alberto Passos Guimarães
conceituou precisamente as favelas e forneceu dados oficiais e quantitativos, permitindo
a produção de novas representações e conhecimentos sobre as favelas. Entre 1950 e
1960, a favela torna-se então, o objeto de campo de pesquisa das ciências sociais.
Em 1960, o jornal O Estado de S. Paulo, publicou um extenso relatório de
pesquisa que financiou, chamado “Aspectos humanos da favela carioca”, essa pesquisa
foi realizada pela Sociedade para Análise Gráfica e Mecanográfica Aplicada aos
Complexos Sociais (SAGMACS) e o Padre Louis-Joseph Lebret foi o responsável.
Segundo o diretor da pesquisa, José Arthur Rios, a metodologia utilizada foi um
cruzamento do Économie et Humanisme e a Escola de Chicago.

Da favela-problema a favela-solução
A favela como um problema, causada por uma urbanização acelerada que se
processa historicamente de forma excludente e concentradora, passa a se constituir
como uma resposta popular e eficaz para esse déficit de moradias, permitindo que essa
população pobre e marginalizada pudesse se integrar à vida urbana através de sua
inserção no mercado de trabalho, político e cultural (particularmente o Carnaval).

Os dogmas
Através de um exame detalhado da literatura acadêmica e institucional, a autora
percebeu algumas características básicas atribuídas a favela carioca, que eram
consensualmente compartilhadas pela maioria dos pesquisadores. Dentre as principais
características, três foram chamadas de dogmas:
1. A favela como um espaço absolutamente específico e singular;
2. A favela como o locus da pobreza, o território urbano dos pobres;
3. A favela como uma unidade singular tanto cientificamente quanto
politicamente.

Da favela real para a favela virtual


As favelas cariocas ganham uma dimensão virtual e globalizada, passam a fazer
parte do turismo profissional evidenciando a integração desses espaços à modernidade e
à economia de mercado.
A urbanização da favela, o desenvolvimento do mercado imobiliário e
econômico, fomentando uma população consumidora de serviços e produtos, cessa com
a simplória representação da favela como o habitat da população pobre do Rio de
Janeiro. Sendo assim, essa nova realidade das favelas, tendo como exemplo a Rocinha,
inviabiliza a fundamentação dos dogmas citados acima.