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Especial

Um Universo Paralello na Bahia


O império underground da música eletrônica

O produto de um pequeno nicho dentro da música


eletrônica brasileira é também o maior evento de
cultura alternativa da América Latina

Texto: Carla Letícia | Diagramação: Juliana Rodrigues


Especial Especial

V
inte e sete de dezembro de 2017. em média 15 pessoas por viagem (pela da edição do evento. pada dos Veadeiros. dialmente conhecido Alok, seguia assim a as 21 mil pessoas, incluindo os artistas,
Já são mais de sete horas den- qual cada uma pagou R$50,00), além dos onda das festas rave privadas que acon- mas que continua sendo de produção
São sete dias de muita dança nos qua- “O UP foi uma ideia que tive quando
tro do ônibus saído de Salvador. quilos de bagagem. Quinze quilômetros teciam desde a década de 90 nas praias totalmente independente. Mais três mil
se 3 km de praia fechados para a festa, morava na Holanda, queria fazer um ano
Há algumas paradas rápidas apenas para depois, estamos na praia. Ou quase. de Trancoso, já na Bahia. formam a equipe de produção, de acor-
morando em barracas e rodeados pelo novo na Bahia, mas quem colocou em
comer e fumar um cigarro, mas sem do com Ekanta: “A equipe de idealização
Mochilas e mais mochilas em uma mar, muitos coqueiros e pelo famoso prática foi o Swarup (nome artístico de Dezoito anos mais tarde, na pequena
descanso. A estrada vai ficando pior a e produção que chamamos de inter-
confusão de gente, lanternas, cadeiras de manguezal da Praia de Pratigi, que abas- Juarez Petrillo), meu marido na época”, Ituberá, monta-se uma vez a cada dois
cada quilômetro, a cada pequeno povo- na tem 100 pessoas, e é dessa que eu
praia e objetos diversos se amontoam tece os chuveiros coletivos feitos de conta Ekanta Jake, pioneira do psytrance anos no réveillon uma estrutura compa-
ado que passa como um relâmpago pela faço parte. Estamos sempre crescendo e
na fila mais desorganizada que se pode bambu. Mais de 700 DJs da Eletronic no Brasil e DJ há mais de 25 anos. O casal, rável a de um megaevento internacional,
janela empoeirada. Gente da Argentina, evoluindo. Vamos nos adaptando à me-
imaginar. Pessoas não param de chegar. Dance Music (EDM) mundial e também ar- ao lado dos filhos Bhaskar e o hoje mun- que atende a um público que ultrapassa
Chile, Colômbia, Peru. Tem de um tudo dida em que o ‘universo’ pede”. Hoje, o
É possível ouvir todos os sotaques do tistas da MPB se dividem em seis palcos,
na excursão, mas todos estão calados
mundo, em diferentes línguas. Todas um em cada hora, 24 horas por dia. Uma
por conta do cansaço. Alguns poucos
aproveitam para dormir o máximo que
podem. São aqueles que já viveram a sua
ao mesmo tempo. A entrada no festival
que custa quase R$2 mil (valor individual
cidade paralela, em um mundo paralelo,
com uma comunidade paralela altamente A atração pri nci pal da festa
incluindo a excursão, o ingresso em pri- organizada e autônoma. O DJ é aquele cara que toca entre uma a isso”, afirma. Paralello, aos 12 anos de idade. O quintal de
estreia no festival. Sabem que vai piorar.
meiro lote e os sete dias de alimentação O me ga e v e nt o atração e outra. Aquele que coloca umas Alguns meses mais tarde, pudemos con- casa. Filhos do casal de DJs e produtores
Percorri caminhos diferentes em mi- dentro da festa) pode acontecer daqui músicas pra animar o público até alguém versar pessoalmente, nos bastidores do Juarez Petrillo e Ekanta Jake, fundadores do
O Festival Universo Paralello foi um começar a cantar e aparece pequeno atrás badalado Villa Mix em Salvador. A voz, festival, os meninos nasceram junto com a
nhas duas incursões ao paraíso artificial a algumas horas ou só no dia seguinte.
produto trazido do Goiás e abraçado por do equipamento de som. Raramente co- nessa ocasião, estava menos empolgada, história do psytrance no Brasil. Ficaram no
baiano da música eletrônica, em 2015 e Muitos montam acampamento ali mes-
Ituberá. Foi em 2000, de um estilo mu- nhecemos seu rosto ou sabemos sobre ainda que destoando do show grandioso estilo por um tempo, e ainda mantêm até
em 2017, sua última edição. A grande ro- mo, enquanto outros antecipam a festa e sua vida. Isso se você não for um fanático hoje um dos pés nele com o projeto Ló-
sical e uma cultura ainda emergentes no e animado que ele fez aquela noite. Estava
tatória, primeira imagem que se tem da começam a cantar, dançar e fumar. por música eletrônica. E principalmente, se mesmo todo elegante e com o jeito de gica, em que tocam juntos.
país, que surgiu do casal de DJs e pro-
antes desabitada Praia de Pratigi, na ci- essa pessoa não for o DJ Alok. galã com que aparece nas revistas. Fotos Conheci essa história no fim de 2017, em
A demora é por conta da revista. A dutores goianos Juarez Petrillo e Ekan-
dade baiana de Ituberá, no sul da Bahia, e flashes o tempo todo. A quantidade de minha segunda visita ao Universo Para-
bagagem de cada um dos 20 mil visi- ta Jake a ideia deste evento, uma festa
não é nada animadora para aqueles ávi- fãs era enorme ao seu redor, como sem- lello. Encontrei um Alok descalço na areia
tantes (número de participantes das edi- grande que reunisse os recém-nascidos pre, e ele não conseguia se movimentar escaldante de Pratigi, na praça de alimen-
dos pelo ideal paradisíaco do litoral baia-
ções de 2015 e 2017, de acordo com a fãs daquela arte. A música era o estra- muito. Tentava sem sucesso atender a to- tação abarrotada com alguns dos 20 mil
no, rodeado por belos coqueiros e areia
produção do festival) é aberta em cima nho trance psicodélico, estilo eletrônico dos. Após a entrevista corrida no camarim participantes do festival. Vestia bermuda
branquinha. O lugar é um verdadeiro
de uma mesa por uma fila de incontáveis com raízes na Índia e em Israel, no fim da lotado às 2h da madrugada, com direito a e óculos, enquanto ria e comia um acarajé,
caos, completamente abarrotado de ôni- longos bocejos e expressão de puro can- tirando uma foto do cardápio da lancho-
seguranças de camisa preta. Mas isso só década de 80. Com base nele, o Univer-
bus, bugues e carros de boi. Barracas de saço, eis que recebo um áudio no celular: nete que oferecia um sanduíche com seu
depois de trocarmos o ingresso físico ou so Paralello nasceu, já com esse nome
lanches e artesanatos dominam a vista, “Voltei da Europa hoje, na minha cabeça já nome. Dali a alguns minutos seria sua apre-
virtual pela pulseira de pano onde se lê e 300 pessoas no dancefloor. A primeira
junto com grandes cartazes chamativos. são 6 horas da manhã. Desculpe se pareci sentação no palco principal com o Lógica.
“Universo Paralello”, seguido do número vez foi no centro-oeste do país, na Cha- de alguma forma um pouco... sei lá... sem Não havia ninguém ao seu redor, não ha-
Depois do desembarque, pegamos o Alok e Bhaskar, aos oito anos de ação”. Posso dizer que entendi ali o que via pedido de fotos ou fãs desesperados.
transporte que nos leva pela trilha de ter- idade. Os meninos cresceram no acontece por Me lembrei de sua fala no vídeo de
ra na mata escura até a entrada oficial do Universo Paralello (Fonte: Repro- trás do gran- apresentação do festival, divulgado
dução/Twitter @alokoficial de letreiro em em suas redes sociais, meses antes:
Festival Universo Paralello (UP), evento
LED nos shows “Essa aqui é a minha casa”.
de cultura alternativa realizado há 18 anos “Ter músicas que bombam tira um peso
glamourosos No festival, sua única apresentação
no Brasil. Esse transporte é organizado enorme das minhas costas”. Com toda
onde se lê solo foi no palco paralelo UP Club,
pelos moradores da pequena região in- certeza, essa foi a frase que mais cha-
“Alok”. com o projeto “Alok”, cheio de per-
mou a atenção durante uma das conver-
dígena da Costa do Dendê, já treinados “Seu suces- sonalidade e perfeitamente equilibra-
sas com o artista brasileiro mais ouvido
e habituados a receber seus visitantes no mundo atualmente, de acordo com o so veio muito do entre o mainstream que o carac-
barulhentos uma vez a cada dois anos, site de streaming de música Spotify. Essa rápido. Será?”. teriza atualmente e o underground
desde 2003. Eles são parceiros dos do- conversa ocorreu em fevereiro de 2017, Escreveu Alok que se espera de um evento de cul-
nos da festa e também oferecem outros pelo telefone. Ele disse que estava saindo no Twitter, tura alternativa. Deve ser porque “o
da academia e, ao contrário do que possa logo acima de Alok ocupa o 19º lugar na lista dos Universo Paralello é o nosso menino
serviços lá dentro, como restaurantes
parecer, o tom era de pura alegria. A frase uma foto que DJs mais populares do mundo. Fon- de ouro”, como ele me disse.
e carregamento de bagagens, ficando o mostra no te: Reprodução/Instagram @alok
saiu quando me contava sobre a pressão Hoje ele é o 19º melhor DJ do mundo,
com a metade do lucro. A outra metade em ser o mais requisitado DJ brasileiro do comando das pi- eleito pela DJ Mag, maior referência
é dos produtores do evento. momento. “O fato de a nossa música ser a ck-ups ao lado do irmão gêmeo, Bhaskar. para o mundo da música eletrônica. Essa
mais tocada do Brasil e do mundo me dá o Na imagem não aparentam ter mais de posição nunca havia sido alcançada por um
Se embrenhando na mata, um dos dez anos de idade. A primeira apresenta-
suporte necessário para eu carregar essa brasileiro na história. Deve ser porque ele
vários carros de boi coloridos e enfei- ção profissional, para um público grande, agora é a atração principal da festa.
responsabilidade. Complicado seria se eu
tados, com uma lâmpada pendurada por fosse o número um e não correspondesse foi no palco principal do Festival Universo
um varal improvisado no teto, carrega Fonte: Acervo Pessoal

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Especial Especial
UP é considerado pelos produtos jorna- mago da pista”). No evento trance, to-
lísticos especializados (ou não, a exem- dos os participantes são levados a entrar
plo do argentino La Nación) o maior fes- neste mesmo “ritual” de dança e intros-
tival de trance da América Latina. pecção, a compartilharem da mesma
energia coletiva, a vibe.
Dentro da área do festival, além dos
palcos, tem-se uma “praça” de alimen- N o dan cefloor
tação, pronto-socorro, lojas e áreas de Murilo Ganesh, um fotógrafo reco-
convivência, assim como o espaço do nhecido da cena, construiu sua profissão
Projeto Circulou, realizado há 12 anos no exclusivamente sobre o nicho formado
UP. “Fazemos várias oficinas na cidade de ao redor desta cultura. Ele vive da psico-
Ituberá, antes do festival começar. Gera- delia e da admiração de muitas pessoas
mos muitos empregos dentro e fora dele, por essa cultura, andando de festival em
fazemos reformas no hospital, disponibi- festival. “Tudo começou com um hobby
lizamos ambulâncias, etc. Tudo através e uma paixão de adolescente. Comecei a
do Circulou”, diz Ekanta. A produtora trabalhar em alguns sites de divulgação
afirma que a cidade recebe atividades de baladas, e foi aí que tudo começou a
diversas para a população de pouco mais fluir”, conta ele, que atualmente tem mais
de 29 mil habitantes, como produção de de 100 mil seguidores em redes sociais
cosméticos e culinária; reformas e pintu- Banners de divulgação das festas
como o Instagram.
derivadas do Universo Paralello em
ras em espaços públicos; shows, teatro Goa e Paris (Fonte: Reprodução) Ganesh já participou de 11 edições do
e poesia para crianças e adultos, dentre
Universo Paralello e é figura carimbada
outros tipos de intervenções. Juarez Petrillo e sua equipe, a Vagalume como mundial, que atende a pessoas do alternativas, mas o Main Floor (palco prin- cal – um termo defendido e destrinchado em festivais do estilo, como o Ozora
Atua ainda dentro da festa o Coletivo Records. A gravadora/produtora nasceu mundo todo. E você trabalhar e interagir cipal) é de psytrance, assim como o psy- pelo pesquisador carioca Felipe Trotta (Hungria) e Boom Festival (Portugal), por
de Redução de Riscos e Danos Balance, em 2004 e é responsável pelo Universo com essa equipe... foi mágico. O públi- trance foi o que impulsionou e nos levou em alguns artigos sobre a sonoridade exemplo. Para ele, o evento nacional tem
que tem grupos reunidos em diversos Paralello e pelas festas derivadas, além de co foi em torno de três mil pessoas, e o ao conceito de tudo”, conta a fundadora nos estilos brasileiros – é algo facilmen- um diferencial. “O que faz o UP ser es-
estados do Nordeste, e atua juntamen- manter em seu casting uma parte dos ar- resultado foi muito positivo”, conta Ro- do festival Ekanta Jake. Trata-se de um te observado nas cenas relacionadas aos pecial é o público brasileiro. Nós temos
te ao serviço médico dentro da festa. “A tistas de trance music brasileiros, como drigo Bouzon, DJ e fundador da empresa. nicho, um pequeno universo na galáxia estilos da e-music. uma energia incrível e estar em um local
Nevermind e Vegas. dos gêneros e subgêneros que com-
gente passa dois anos se preparando, ca- E is o bat e - e s taca ! A estética trance, tanto na música paradisíaco também ajuda muito”, opina.
pacitando a equipe para que consigamos “Ao contrário do que o estereótipo põem a EDM, termo que engloba todos
Outra que também se originou do quanto na cultura que se formou ao seu O curioso psytrance trouxe consigo
dar conta desse público (...). O propósito festival foi a UP Club Records, gravadora permite supor, os DJs fizeram histó- redor, busca a formação de uma comu- uma forma de festejar que já era marca
da nossa equipe é dar suporte para pes- criada em 2015 por Alok, para dar voz a ria”. A frase da jornalista Claudia Assef nidade alternativa criada fora da socie- em outros estilos, mas que com ele ga-
soas que, pelo uso excessivo de drogas,
desencadeiam crises psíquicas durante o
produtores independentes e sem espa- é uma das que iniciam o livro Todo DJ
Já Sambou – a publicação mais popular
“Ao contrário do que dade massiva atual. Um pacto social to- nhou uma nova roupagem hippie: a rave.
ço no mercado. O UP Club, que também talmente cultivado por aquelas pessoas, Em sua dissertação de mestrado de-
festival”, explica Guilherme Storti, mem- nomeia um dos palcos do festival, seguiu no país sobre a história da música ele- o estereótipo permite durante aquele espaço e tempo. Sempre fendida no Programa de Pós-Graduação
bro do coletivo, no documentário “Uni- o mesmo caminho da Route 303 Stage e trônica nacional. Claudia, que atualmente foi possível encontrar os conceitos de
verso Paralello 13 - Balance - Redução de se tornou uma festa itinerante que acon- escreve sobre o tema no site e editora supor, os DJs fizeram shamanismo, espiritualidade, hinduísmo
em História da Universidade de Brasília,
intitulada “Temporalidade nômade: raves
Danos”, disponível no YouTube. tece pelas capitais do Brasil, levando ge- Music Non Stop, dentro do UOL, é uma
fiel defensora dos disc-jóqueis brasilei-
história” e até budismo entrelaçados ao trance, psicodélicas”, de 2014, Nathalia Moreira
Uni vers o s den t r o d e ou tro ralmente artistas de techno, house e psy cuja tradução em português é transe, descreve não só o novo parâmetro tra-
na boléia. ros, sendo ela mesma uma integrante da - Claudia Assef algo que diz muito sobre ele.
Em 2017, pequenas edições que fun- zido pela psicodelia às festas rave, como
categoria. “O Universo Paralello acontece utiliza o Festival Universo Paralello para
cionam como uma “amostra” do evento Em abril deste ano, Salvador recebeu As batidas repetitivas e os sons ele-
numa região onde a gente não tem uma exemplificar. Segundo ela, a rave passa
aconteceram na psicodélica Goa, na Ín- uma edição da UP Club, amplamente di- trônicos progressivos têm a função de
cena tão fervilhante, ou pelo menos não a englobar uma enorme variedade de
dia, e até Paris. No caso da cidade indiana, vulgada como “um pedaço do Universo provocar um estado quase hipnótico no
tinha. Atualmente a Bahia está voltando a os demais (ler “Os principais gêneros da
berço do psytrance, não foi a primeira Paralello na cidade pra você” pela produ- ouvinte, algo comumente intensificado estilos e tendências, que se desenrolam
se firmar no cenário”, afirma Claudia. música eletrônica”).
vez e se trata de uma Free Promo Par- tora Concept Content, a maior em atua- pelo uso de substâncias psicoativas – daí proporcionalmente, em uma infinidade de
ty, uma festa para promover o UP. Já ção no segmento atualmente na cidade. O cenário a que a escritora se refere Cada um dos estilos de música eletrô- vem sua associação a elas. Este estado símbolos, valores e práticas.
Paris recebeu a Route 303 Stage, um “A gente tava trabalhando lado a lado é aquele que envolve o trance psicodé- nica tem atualmente um tipo de público intenciona a libertação emocional e es- As festas trance acontecem geral-
evento que também nasceu do festival com pessoas que tem 20, 30 anos de lico – o psytrance, e a cultura alternativa e evento segmentados, nascidos con- piritual, um transcender de consciência, mente em áreas abertas, o mais inseridas
e leva o nome de um dos seus palcos. carreira. São pessoas extremamente ex- relacionada a ele, que ganhou de muitos forme o imaginário coletivo construído como defende o criador do estilo, o mú- possível na natureza virgem. Em lugares
Outras cidades pelo mundo também já perientes, que fazem um negócio como fãs e artistas o nome de cultura trance. “A ao redor dele. O caráter ambientalizador sico americano Goa Gil, em entrevista ao distantes dos centros urbanos, onde ne-
receberam festas do UP organizadas por o Universo Paralello, não só nacional proposta do festival é de arte e cultura e produtor de sentido do gênero musi- portal Trance – Cultura Psicodélica (ler “O
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Especial Especial
nhuma interação com a “civilização” seja nhando por isso essa nomenclatura, dife- que segundo o produtor musical Felippe para os DJs nacionais”, comenta. Senne primeiros a levar a música eletrônica em com agenciamento de artistas e label de
possível ou buscada. Essas festas, em rente de uma festa normal. Quando dura Senne, está em uma de suas melhores é dono do curso de produção musical nível nacional”, protesta o DJ Feio. festas, além de fazer alguns warm ups
sua maioria, não têm patrocínio, são de mais do que um dia, já é considerada um fases. “Artistas brazucas estão lotando online Make Music Now e sócio-fundador (eventos de aquecimento para a festa
Em 1996 também surgia o Planeta
produção independente, com número festival. eventos, grandes hits estão sendo fei- do HUB Music Group, trabalhando com principal) do brasileiro Lukas Ruiz, o Vin-
Atlântida, festival que acontecia no litoral
de participantes limitados e muitas ve- tos por aqui, e vemos um interesse gi- a administração da carreira de artistas, tage Culture, um dos mais conhecidos
O estilo vem ganhando muito espa- gaúcho, mas que nunca se voltou total-
zes estrutura precária. A duração de uma gante do mercado mainstream do show além de uma gravadora e editora. DJs de house music da atualidade.
ço na cena de música eletrônica do país, mente para a música eletrônica. Ambos,
rave trance é de no mínimo 12 horas, ga- business brasileiro voltando seus olhos
Os precursores porém, não chegaram na dimensão que Paraísos ar t ific iais
“Nós abrimos o mercado para tudo o gigante Rock in Rio desfrutava desde A cultura de e-music brasileira, porém,
OS SEIS PLANETAS palco já se tornou também uma marca que existe hoje em dia”. Quem afirma é 1985.O que se vê nestes eventos atual- tem muito de fora, a começar pelos ter-
muito forte por si só, e hoje é um dos
Luiz Sala, mais conhecido como DJ Feio mente são palcos e espaços exclusivos mos, todos em inglês e sem tradução.
Seis planetas formam o universo paralelo do festival bienal baiano. Seis arenas de dança que maiores selos de house music do Brasil.
buscam abarcar juntas o maior número de pessoas fãs de diversos estilos da música eletrô- ou agora também DJ Salla. Artista pionei- voltados para a música eletrônica, coisa Alguns eventos chegaram aqui importa-
Projetos de DJs como Alok, CatDealers e que não acontecia na época de seu sur-
nica, e até da MPB. Cada uma delas é independente, tem quase uma vida própria e acabaram ro do psytrance no país, ele e Rica Amaral dos com nome e tudo, como é o caso do
Boris Brejcha são aqueles que sabemos
“saindo do festival”, dando nome a festas itinerantes que acontecem pelo Brasil. Para entender que fazem parte do UP Club mesmo sem fundaram em 1996 a XXXperience, a pri- gimento. Esse foi o diferencial que uma gigante belga Tomorrowland, que reúne
do que se trata esse universo, é necessário conhecer um pouco de cada uma. Leia a seguir: terem sido divulgados: eles têm a cara da meira rave do Brasil. A festa de dimen- marca de cerveja conseguiu enxergar, mais de 150 mil pessoas e é um símbolo
pista, super sofisticada e mais “glamouro- sões gigantescas (quatro palcos, mais de em 2000. O festival Skol Beats foi o do alcance da cultura de música eletrô-
T OR T U GA mas sem perder o ritmo, este é o seu lugar.
primeiro exclusivo de EDM no Brasil, uma
Neste palco você encontraria mais facilmen- Ao chegar no Chill Out, você pode (ou não) sa” do que o trance “pé no chão” das de- 50 atrações e 30 mil de público na épo- nica em nível mundial. Por aqui, o evento
se surpreender com muita gente dormindo... mais. Não significa dizer que seja diferente aposta na cultura jovem e descolada acontece no interior de São Paulo.
te os DJs que mais gostam de brincar com
na estrutura, porém. Techno, deephouse,
ca de seu surgimento) foi responsável
o grave e passear por ritmos como o hip ou que só parecem estar dormindo. pela divulgação do trance por aqui, e até que começava a tomar conta das pistas
eletro house, minimal e muitos outros têm Outro exemplo grande é o Ultra Brasil,
hop, o drum and bass, o trap e o bass mu- As características técnicas da música chill hoje é considerada um marco para a his- e que trazia os maiores consumidores da
sic – esses dois últimos vertentes nascidas
como casa o UP Club. nossa versão do Ultra Music Festival, um
out são uma velocidade mais baixa, uma tória da nossa própria música eletrônica. bebida.
dos estilos principais - e outros. Isso não BPM (Batida Por Minuto) mais baixa ou até mai n floor evento realizado anualmente em Miami
significa, porém, que psytrance, house ou inexistentes, unidas a sintetizadores harmo- Chegamos então ao ápice. Tudo no Uni- Atualmente, milhares de pessoas lo- O evento da cervejaria tentou cobrir (EUA), mas que também acontece hoje
outros estilos não sejam encontrados por niosos e calmos. Além disso, podem possuir verso Paralello converge para para o Main
tam cada edição da festa, que acontece os principais estilos de música eletrônica, em diversos outros países como Argen-
lá. Muito pelo contrário. Todos os palcos do sons da natureza, como pássaros, ondas, Floor, o palco principal da festa. Psytran- incluindo até mesmo o trance, que aca- tina e Espanha. No Brasil, a última edição
ce, house, tecno, dark... Poderíamos passar por todo o país, em várias cidades, e há
Festival Universo Paralelo têm como regra águas e outros. Instrumentos da música bava de ganhar, no mesmo ano, o Uni- contou com 20 mil pessoas e três pal-
principal e primordial o caráter democrático, clássica como piano, flauta, violão e outros os sete dias de festa só no Main. Locali- quem diga já ter ultrapassado as frontei-
zado geralmente perto da maior parte dos ras do underground. “O Brasil é um país verso Paralello. “Nós abrimos as portas cos, também em São Paulo, apesar de já
e o Tortuga vocais femininos também podem compor
soma a isso campings e da praça de alimentação, sua sem memória. Se a XXXperience tivesse para que as empresas patrocinassem as ter sido realizado no Rio de Janeiro.
uma música chill out.
a função de decoração é a mais aguardada de todo o sido criada no Japão, Alemanha, França, festas, abrimos um novo mercado, que
PA LCO PA RAL EL L O Um dos mais antigos e emblemá-
divulgar no- Festival.
Holanda, enfim, em qualquer lugar, me- de 300 pessoas em cada festa naque-
O Palco Paralello é aquele lugar onde você ticos da cultura alternativa, porém, é o
vos talentos Os maiores DJs de psytrance do even- nos no Brasil, seríamos vistos com os la época, cresceu para 30 mil ou mais”,
e artistas pode encontrar o seu cantor favorito no Uni-
to com certeza se apresentarão aqui, em
Burning Man. Nascido em 1986 nos EUA,
verso Paralello. Ou você tava achando que só reis da e-music mundial, já que fomos os conta o DJ Feio, que hoje em dia trabalha
emergentes frente a uma plateia gigantesca: a área de- onde acontece até hoje, o festival cos-
em suas re- tem espaço pra DJ por lá? No palco se apre- tuma atrair mais de 50 mil pessoas e foi
dicada ao Main tem quatro vezes o tama-
giões. sentam artistas que são revelações do rap,
MPB, black music, reggae, hip hop ou qual-
nho das outras pistas. o primeiro a trazer a ideia de formação
303 S TAGE quer outro estilo alternativo que tenha a cara O Main também é o grande espaço de de uma comunidade alternativa ao mun-
Poderiam com certeza ser 303 pistas em da festa. Nas duas últimas edições, os shows celebração da virada do ano, sendo o úni- do dos eventos musicais. Depois, é claro,
uma só! Porém, todas seriam voltadas para incluíram Lenine, Russo Passapusso, B Negão, co palco em atividade na hora, de 23:00 do lendário Woodstock, em 1969, o pai
o trance. O 303 Stage é dedicado a todas Criolo e Emicida. a 00:00. A grande queima de fogos, bem de tudo o que veio a surgir com esté-
as vertentes do psytrance. DJs que têm o como performances circenses também
acontecem por lá nos primeiros minutos
tica hippie. Nos tempos atuais, o Ozora
“dedo pesado” para subgêneros como dark
psytrance e hi tech costumam estar em sua do novo ano. e o Boom Festival são o sonho de con-
maioria por aqui. Goa, fullon e prog (verten- sumo dos novos fãs e profissionais do
tes do psytrance) também não podem faltar psytrance. Os eventos datam do fim da
e definem o o palco de 300 faces. O 303 década de 90 e reúnem de 30 a 50 mil
está localizado fisicamente no coração do pessoas em pequenas cidades no interior
UP, e é preciso passar por ele para chegar A estrutura da Hungria e Portugal, respectivamente.
em qualquer canto da festa. do UP Club.
Fonte: Esses últimos foram alguns dos exem-
C HIL L O U T Acervo
Time to chill! Quase todo festival trance tem pessoal plos tomados por produtores brasileiros
um Chill Out, que muito além de um estilo ou para tentarem as suas próprias experi-
área física, é um conceito. O termo em in- up club ências no terreno do psytrance, assim
Voltando às dancefloors, chegamos à área
glês significa “relaxar”, e é justamente isso. como Ekanta e Juarez. Depois do Univer-
mais mainstream do Universo Paralello. Este
Se você quer desacelerar, repor as energias Pista do Mainfloor. Fonte: Acervo Pessoal so Paralello, temos hoje diversas opções
Cores e muita psicodelia: o fotógrafo Murilo Ganesh é especializado no simbolismo transcenden-
tal das festas trance (Fonte: Murilo Ganesh)
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Especial Especial
pelo Brasil, nascidas todas nos últimos 15 teve sua última edição embargada pela padrões impostos pela sociedade de
Os p rincipais gênero s da M ú s ic a Elet rô n ic a anos. Os mais procurados são o Mundo
de Oz, o Samsara (ambos em Minas Ge-
justiça em Camaçari, em junho de 2018.
Por conta disso, não se sabe ainda se a
massa, é algo comumente relaciona-
do aos festivais trance, assunto trazido
O DJ baiano Mauro Telefunksoul, pioneiro “Se você tentar mapear todos os gêneros passa muito por ciclos. O techno, por
no bass music soteropolitano, ao comentar que existem, não vai conseguir. É impos- exemplo, vai estar em alta e daí vai saturar,
rais) e o Zuvuya (Goiás). Esses eventos edição deste ano do Terra em Transe em textos como o do autor português
sobre os principais estilos da música ele- sível. São muitos e você vai sempre cair e aí vai vir alguém e vai reinventar, trazendo reúnem de duas a três mil pessoas. será realizada. Gil Calado, intitulado Trance Psicadélico,
trônica, a Eletronic Dance Music (EDM), os no conflito de opiniões. Gêneros que para alguma coisa de algum outro gênero. Foi Capitaneados pelo Universo Paralello, Na linha dos festivais destaca-se ainda Drogas Sintéticas e Paraísos Artificiais,
chama de “os quatro elementos”: “O house, umas pessoas é assim, pra outras é “assa- assim com o future bass. Ele nasceu do
o filho mais velho, muitos outros even- o Ressonar, festival de cultura alternativa publicado em 2006 na revista Toxicode-
o techno, o drum and bass e o trance. Tudo do”, pondera Guilherme Souza, DJ do pro- trap apenas com uma pequena variação de pendências. Paraísos Artificiais, inclusive,
vinha deles”. Pouco a pouco diversas outras jeto FullMode e professor há dois anos do sintetizadores”, exemplifica Guilherme. tos trance nasceram tendo a Bahia como que acontece todos os anos na Chapada
cenário. Esse é o caso do Festival Ter- Diamantina, na região da cidade de Len- também é o nome do filme brasileiro de
variações surgiram e criaram vida própria, Curso Para DJs, escola de música eletrônica
trazendo novas características para esse em Salvador.
Com a ajuda do DJ, traçamos um pequeno
ra em Transe, com primeira edição em çóis, e reúne a mesma média de públi- Marcos Prado, lançado em 2012, que re-
mapa dos principais estilos da música ele- trata os festivais e raves psicodélicas do
jogo, que tem muitas outras variáveis. 2014, atualmente realizado na cidade co dos dois eventos anteriores: duas mil
“O gênero na música eletrônica também trônica abaixo: país como nenhum outro havia feito até
de Jandaíra. Ele é uma alternativa bienal pessoas. A festa acontece toda primeira
para o público, realizado nos anos que lua cheia do ano, logo após o réveillon então. O longa teve cenas gravadas em
Estilo tem variações entre 118 e 135bpm, apesar de apresentar batidas mais lentas no seu surgimento. É a música de pista, não tem UP – já que ninguém consegue do Universo Paralello, e tem uma dura- pequenos eventos realizados em Per-
aquela que caracteriza a maioria dos DJs que você ouve no rádio. É o gênero mais próximo do pop, considerado o mais
competir com ele por aqui. Produzido ção que varia. Em 2018, foram dez dias nambuco no ano anterior e gerou, claro,
HOUSE

mainstream. Alguns de seus subgêneros (vertentes) são: progressive house, deep house, electro house. muita discussão entre a crítica.
Alguns artistas do gênero: David Guetta, Avicii e o trio SwedishHouseMafia (formado por Axwell, Steve Angello e Sebas-
pelo coletivo Soononmoon, existente de evento.
tian Ingrosso). No Brasil, Vintage Culture é um bom representante. desde 2006 no estado, o festival nas- psicodelia n eles
A ideia de pessoas simples e não civi-
ceu do outro produto da empresa, a já A maneira como tudo se desenrolou
Essencialmente dançante, de ritmo acelerado e melodia monótona. O uso criativo da tecnologia de produção de música, lizadas, desprendidas de luxo e glamour,
no Brasil pode ser explicada por um dos
TECHNO

como tambores e sintetizadores é visto como um aspecto importante da estética da música techno. O tempo tende a tradicional e polêmica rave Aurora, que
conectadas pela música e distantes dos
variar entre aproximadamente 120 a 150 batimentos por minuto, dependendo do estilo do techno. primeiros a apostar no trance no país, o
Alguns artistas do gênero: Carl Cox, o brasileiro Gui Boratto e a também brasileira ANNA. DJ Feio. Segundo ele, o psytrance sem-
pre foi underground. “Os clubes na época
Utiliza a técnica do back-to-back, dois discos iguais e um mixer. É mais conhecido como uma música que se caracteriza
BREAK-BEAT

pelos samplers de ritmos como hip-hop, funk e electro e que logo se modificam e alteram para criar os denominados tinham uma máfia e não deixavam o psy
“breaks”. ser tocado, isso foi o motivo de criar-
Alguns artistas do gênero: The Prodigy e FatboySlim.

“[O psytrance] já é
DRUM AND BASS

O gênero é caracterizado por batidas rápidas, próximas a 170 BPM (Batida Por Minuto). Incorporou elementos de culturas
musicais como o dancehall, electro, funk, hip-hop, house, jazz, metal, pop, reggae, rock, techno e trance. Tem grande
influência da música brasileira, por ser um dos estilos que se desenvolveu inicialmente por aqui. muito popular no meio
Alguns artistas do gênero: Marky, o duo Noisia e Rudimental. O soteropolitano Mauro Telefunksoul também é um expoente
do estilo.
da galera que quer
ter liberdade, e não
O gênero, nosso assunto principal aqui, é caracterizado pelo tempo entre 130 e 190 bpm, com partes melódicas de
sintetizador e uma forma musical progressiva durante a composição (variantes conforme a vertente). O estilo é derivado se sentir acuado em
do house e do techno, com seus sons industriais, que parecem menos melódicos. Temos também o surgimento do trance
um clube fechado por
TRANCE

psicodélico, o psytrance, uma variação nascida com o desenvolvimento do estilo em Goa, na Índia, mais ligado à espiritua-
lidade. Suas vertentes obedecem diferentes variações dentro do padrão musical, sendo algumas delas o fullon, progressive
e o dark psytrance, hi tech... (a lista tem tantas outras que o espaço nem daria).
quatro paredes e um
Alguns artistas do gênero: Armin Van Buuren, InfectedMushroon e Ace Ventura. No Brasil: Vegas. teto, que em dia de lua
cheia, você não pode
Vertente minimalista que segue aquele ditado “less is more” (menos é mais). ‘Minimal techno’ é geralmente considerado vê-la”
MINIMAL

como o subgênero minimalista derivado do techno. É caracterizado pela repetição de batidas e sons, ou seja, pelo uso de
um mínimo de elementos de composição. - Luiz Sala (DJ Feio)
Alguns artistas do gênero: Boris Brejcha, Ricardo Villalobos e Deadmau5

O gênero é marcado pelo uso intenso de sub graves, sendo quase como uma adoração aos sons de frequências baixas
mos a XXXperience... Eles deram um tiro
DUBSTEP

e também marcados pelos “bass drops” ao fim da introdução da música. Os elementos mais dominantes na estrutura da
música são introduzidos de forma impactante. no próprio pé e acabaram criando um
Alguns artistas do gênero: Skrillex, Diplo, Benga e KnifeParty. monstro que éramos nós”, diz ele.
O estilo tinha, de início, um grande es-
Do dancefloor, horas e mais horas de psytrance. O estilo é o que paço no Brasil, era a novidade, ganhando
comanda o festival. Fonte: acervo pessoal
8 9
Especial Especial
só depois o status de estilo undergrou- no Brasil, perdeu força (algo natural em vermind, Cosmic Light, Digital Culture e e os dogmas estéticos do rock às festas em 1998 (oficialmente), ganhou o nome grafia, do design, da moda, produtores
nd. “Pelo mundo ele nunca foi superior ao qualquer gênero musical), mas está vol- Second fazem sucesso pelas pistas das pacíficas e inclusivas”, relembra. Sua co- de Coletivo Pragatecno. musicais, DJs, promoters... Foi um marco
house, tech-house, techno... Apenas no tando a ter muita atenção através da sua raves de trance psicodélicas brasileiras. A luna ficou conhecida no mundo da músi- porque deu visibilidade e mobilizou no-
“Em 1997, eu e três amigos ouvíamos
Brasil ele tinha supremacia. Agora, ele se transformação no que chamam de ‘prog lista é imensa. ca e se tornou uma referência para artis- vos grupos em outras cidades no Nor-
quase o mesmo som e decidimos pu-
tornar comercial, acredito que não. Mas trance’”, afirma ele, se referindo a uma Na s ma nche t e s tas e um público que começava a surgir.
blicizar, através de reuniões ampliadas
te e Nordeste”, descreve ele. A iniciativa
já é muito popular no meio da galera que das vertentes do trance, o progressivo. No contexto do surgimento dos fes- Camilo escreveu ainda para O Estado de formou coletivos em Belém, Fortaleza,
e festinhas, o que ouvíamos. Decidimos
quer ter liberdade, e não se sentir acuado tivais, os veículos informativos especia- S. Paulo, Jornal da Tarde e O Globo (ler João Pessoa, Recife, Maceió e depois
O prog é, inclusive, o estilo do DJ criar um grupo que pudesse assinar nos-
em um clube fechado por quatro pare- lizados apareceram, ainda tímidos e com “Com a palavra, Camilo Rocha”). Salvador.
Paulo Vilela, conhecido por seu projeto sas festas. Mais pessoas foram se agre-
des e um teto, que em dia de lua cheia, foco no mainstream. Em 1990, o jornalis-
Vegas, o maior nome do psytrance em Dois anos antes, porém, o futuro já gando. Cada um trazendo diferentes Os coletivos criaram uma cadeia de
você não pode vê-la”, afirma Luiz Sala, ta Camilo Rocha, um dos primeiros a es-
atuação no Brasil. “Assim como o house, acontecia com a Noite Ilustrada, na Fo- contribuições pessoais. Gente da foto- comunicação na internet, com a ajuda
resumindo o pensamento de todo fã do crever sobre música eletrônica no Brasil,
espero que um dia o psytrance seja tão lha de S. Paulo. A coluna escrita por Eri-
trance. começava seu trabalho na coluna Dance
reconhecido como qualquer outro esti- ka Palomino contava o que acontecia
A ideia de que o estilo está voltando lo. Somos mais que um estilo de música, Music, na revista Bizz. “Foi uma conse- nos clubes da periferia da cidade, local
qüência de gostar deste tipo de música.
agora a cultivar um público por aqui tam-
bém é compartilhada pelo produtor Feli-
somos uma filosofia de vida”, defende o
produtor, que faz cerca de 20 shows por E não apenas da sonoridade inovadora,
onde a cena underground urbana nascia
e fervilhava. Ela criou também o Prêmio
com a palavra, camilo rocha
ppe Senne, no mercado desde 2007. “O mês e tem mais de 300 mil fãs no Fa- mas do contexto em torno, desde a rup- Melhores da Noite Ilustrada, algo que im-
tura com a mentalidade ‘machocêntrica’ Um dos primeiros jornalistas a escrever sobre e-music
psy foi muito popular entre 2003 e 2008 cebook. Como ele, projetos como Ne- pulsionou os artistas da época com sua no Brasil, Camilo Rocha ajudou a formar a cena nacional
valorização. “Fazia-se uma house super da dance music na pioneira revista Bizz, O Estado de
saudável na época. Esse frescor que eu S. Paulo, Jornal da Tarde e n’O Globo, além da revista
trouxe das coisas é que apareceu com britânica Muzik. Conheça um pouco do melhor jornalista
O mago da pista muita legitimidade no jornal. (...) O que
era visto como coisa de gueto, hoje já
especializado eleito duas vezes pela Rio Music Confe-
rence, a atual BRMC, maior conferência de música eletrô-
São 16 horas da tarde e é o primeiro dia do so”, conta o mago na entrevista reveladora de perto, pela primeira vez, essa lenda nica da América Latina:
é entendido como uma manifestação de
Festival Universo Paralello. Já aconteceram concedida no ano passado ao portal Trance viva da cultura psicodélica – que ele ca- cultura jovem e global”, conta Erika no Reprodução/Internet
atividades desde às 8 da manhã, mas ne- - Cultura Psicodélica. O artista é chamado racteriza como uma união entre música
nhuma música foi ouvida até o momento. assim desde o nascimento dos seus dispu- e espiritualidade que tem o objetivo de
documentário 10 Anos de Música Eletrô- Como você começou a escrever sobre lizados online como portais e blogs
O camping já está lotado e tem gente por tados rituais, como são chamadas as suas fazer o ouvinte transcender a consciên- nica no Brasil, de Ruth Slinger, de 2001, música eletrônica? Você acompanha a desempenham hoje algum papel para a
todos os lados, mas um único espaço está apresentações em formato long set (shows cia. Gil está lá, movimentando-se sem focado na cena do Rio de Janeiro e São cena hoje? cultura de música eletrônica no Brasil?
intransitável de tão abarrotado. A maior par- mais longos do que o normal). parar, organizando a mesa de som do Paulo. Foi uma consequência de gostar deste Com certeza, mas infelizmente o con-
te do público está concentrada lá, no palco seu jeito: velas, panos coloridos, objetos
Gil foi o precursor do goa trance, verten- O surgimento da música eletrônica tipo de música. E não apenas da sono- teúdo de muitos peca por ser raso e
303, esperando o ritual começar. O ritual de como imagens de Buda e alguns outros
te dentro do estilo também desenvolvido também foi registrado em 1997 pelo ridade inovadora, mas do contexto em pouco questionador. Existem tantas
24 horas do mago Goa Gil. que não dá para distinguir. Ele só inicia
inicialmente por ele, o trance psicodélico. torno, desde a ruptura com a menta- questões que podem ser exploradas
o ritual quando tudo está devidamente Rraurl.com, site feito pela jornalista pau- lidade “machocêntrica” e os dogmas no cenário hoje, mas poucas são abor-
Vinte e quatro horas em cima do palco. Acredite, eles são diferentes. Pense no pri-
“energizado”. “Desde o início dos tempos, listana Gaía Passarelli e mais dois jorna-
Essa era a proposta inicial. Na prática fo- meiro como um derivado do segundo, que estéticos do rock às festas pacíficas dadas com profundidade. Exemplo: a
a humanidade usou música e dança para listas. “Comecei a escrever para manter
ram 27. Sem comer, sem descansar, sem pode ter (como de fato tem) incontáveis e inclusivas. Comecei a fazer trabalhos baixa representatividade de negros
comungar com o Espírito da Natureza e
dormir. Coisa até possível para os jovens outras vertentes e subgêneros. o site atualizado e gostei porque eu era esporádicos escrevendo sobre o tema na cena, seja como profissionais, seja
o Espírito do Universo... Estamos usando
DJs cheios de energia de hoje, mas esta- uma mocinha muito cheia de opinião e ali até que, em 1990, fui convidado para como público. Então pode-se dizer que
Ao chegar mais perto do palco para ver a música trance e a experiência que ela dá
mos falando de um senhor de 67 anos de encontrava espaço para falar oque que- fazer a coluna Dance Music, na revista boa parte dos veículos se incumbe de
para desencadear uma reação em cadeia
idade.“Esse cara destrói cérebros!”, grita Bizz. Acompanho a cena sim! Menos in propagar o que já existe e está aceito,
na consciência, isto é o que chamamos ria. Hoje parece ingênuo, mas na época a
alguém ao longe, em meio a uma expecta- loco, mas por meio de imprensa espe- mas não de contribuir para evolução ou
tiva geral pelo set que já estava duas horas
de ‘Redefinir o Ritual Tribal Antigo para o gente era muito revolucionário”, diz ela. cializada, redes sociais e inúmeros con- mudanças.
século XXI’”, explica ele na entrevista ao Já o movimento das publicações no nor-
atrasado. Gilbert Levey nasceu na Califórnia, tatos e amigos que tenho nesse meio.
portal Trance - Cultura Psicodélica. Se você pudesse mudar algo na cena
em 1951. Aos 18 anos, com o início do enfra- deste do país, região onde hoje o psy-
Você conhece o Festival Universo Pa- de música eletrônica brasileira hoje, o
quecimento do movimento hippie nos EUA, De fato, as horas seguintes foram de in- trance encontra maior espaço, começou ralello? que você mudaria?
se mudou para a Índia, para iniciar uma via- cessantes sons tribais antigos unidos a a aparecer só algum tempo mais tarde.
gem espiritual. Viagem essa que hoje leva toques futurísticos, psicodélicos e ani- Toquei lá em 2007, foi maravilhoso. Mais inclusão, mais democratização de
milhares de jovens pelo mundo a embarca- malescos da música eletrônica contem- Coletivos n o N ordeste Conheço a história do festival. Eventos acesso. Nos anos 2000, a cena eletrô-
rem no trance psicodélico, estilo criado por porânea. O objetivo é claramente levar Cláudio Manoel Duarte de Souza, o maiores como o UP têm papel funda- nica baseada em house e techno (afinal,
ele na cidade de Goa, nome pelo qual ficou aquela multidão ao transe. Ao trance. DJ Angelis Sanctus, foi uma das figuras mental na ampliação do público, sempre funk é música eletrônica brasileira) pe-
mundialmente conhecido. Dormi, acordei, caminhei pelos 15 quilô- importantes do nascimento da cultura trazendo gente nova, assim como na gou um ranço playboy e elitista forte.
metros de extensão de praia, comi, dormi consolidação de saberes profissionais Coletivos independentes em São Paulo
“As primeiras festas eram fogueiras na praia ligada à música eletrônica no Nordeste.
O psicodélico Goa Gil apresenta seu mais um pouco e voltei. Ele continuava em relação a eventos de maior porte. vêm discutindo e tentando melhorar
onde tocávamos guitarras, bateria, flautas, Mais do que um disc-jóquei, ele ajudou a
set de 27 horas no Universo Paralello. lá, com a mesma disposição do início. isso, mas ainda falta muito.
em festas de lua cheia... tudo surgiu dis- Fonte: Divulgação/Internet iniciar um movimento coletivo de cons- Você acha que os produtos especia-
Aquela de 1990.
trução de uma ideia por aqui. Essa ideia,
10 11
Especial Especial
das redes sociais, e possibilitaram a atu- portal, que antes se chamava Play EDM, mas ajuda a solidificar nossa imagem veiculado no seu canal, a Phouse TV. O
alização de um público em várias regiões sofreu uma mudança, um rebranding da plural e eclética”, explica o editor-chefe programa se chama “Gipsy Road” e mos-
do Brasil, incluindo o interior da Bahia. E Underground X Mainstream marca. “As pessoas acabaram adotando da Phouse, Flávio Lerner. tra as três moças se aventurando pelo
essa acabou sendo a sua maior forma o termo EDM como música comercial, Em 2015, a Phouse investiu em um litoral baiano, vivendo intensamente na-
de buscar informação sobre o assunto. Com certeza você já viu essas duas pala- hit. Acho que é aquilo que é fiel à verdade apesar de ser um termo que englo- quilo que mais parece um paraíso sem
vrinhas por aí quando o assunto é música. do artista. Aquilo que fala antes de mais documentário sobre o Festival Universo
Um banco de dados construídos por eles ba todos os demais, então tinha muito Paralello, gravado por três repórteres e regras. Diversas coberturas feitas por
Especialmente música eletrônica. Apesar de nada com a arte e não com os acessórios
para eles mesmos. polêmicos, esses conceitos estão intrinse- que vêm com a arte, que é o planejamen- preconceito por conta do nosso nome canais independentes no Youtube in-
camente ligados aos de mercado e cultura to comercial, sucesso, fama”. carregar EDM. Por isso a gente não con- vestem no mesmo formato: contar uma
Por volta de 1998, o jornalista Lucia-
musical, seja no Brasil ou lá fora. Para quem seguia conversar com o público do un- história com belas imagens de aventura.
no Matos criou um blog especializado
em música underground (não necessa-
não sabe, o mainstream é como chamamos
Já o DJ Paulo Vilela, responsável pelo pro-
jeto Vegas, mostra a relatividade dessas derground, conta o editor-chefe Rodol- “Buscamos mesclar Um deles, o mais visitado, é feito pela
aquilo que é comercial, vendável. Aquilo que
riamente eletrônica) em Salvador. “Há está na moda e que a maioria das pessoas
definições: “É um ponto de vista. Se eu
for tocar no mainstage (palco principal)
fo Reis. Segundo ele, no hoje chamado
Play BPM o tratamento desses públicos
os conteúdos própria produção do festival e se chama
UP Audiovisual. O canal tem mais de 40
mais de 20 anos eu comecei a escrever
sobre música, sentia falta de coberturas
está consumindo em um determinado mo-
mento. Mais do que isso, é um conteúdo fei-
da Tomorrowland, por exemplo, meu som é diferenciado, assim como as pautas: “É mais populares mil inscritos, com número de visualiza-
pode ser o mais underground do evento. ções que ultrapassam os 300 mil em um
de um cenário mais independente. Em to especialmente para essas pessoas. Para
a maioria.
Porém, se eu toco em um festival como
muito difícil de falar porque são públicos
realmente bem diferentes. E eu acho que
com conteúdo vídeo.
98 eu criei um fanzine em papel, depois
fiz o blog, depois fiz o site e comecei O parâmetro que mede o que é mainstream
Universo Paralello, eu sou mainstream”.
tem que ser diferente a forma de ser tra- underground, que O tratamento geral dos portais e blo-
Chamei de oposto complementar acima,
a trabalhar na imprensa”, diz ele. Luciano ou não é muito relativo, mas convencionou-
-se dizer que ele é um resultado da cultura
porque um conceito não existe sem o
tado também”. O portal tem média de 40
a 50 mil acessos mensais e dez pessoas
não vai nos trazer gs especializados vai de encontro à sub-
é dono do portal El Cabong, nome que jetividade e à crítica, traços conhecidos
utiliza como DJ.
e consumos dominantes em um certo local.
outro. E ambos são altamente necessá-
rios para a indústria musical e para o de- na equipe - redatores, fotógrafos, vide- tantos acessos, mas do jornalismo musical, porém, mais car-
Como no ying-yang, o seu oposto com-
Atualmente, diversos sites, revistas e plementar é chamado underground, quase
senvolvimento de uma cultura, seja ela
qual for. A exemplo disso, o artigo dos
omakers e freelancers.
ajuda a solidificar regados da aura encantadora e utópica
Já a DJ Mag Brasil, que também tem que envolve a ideia dos festivais trance.
blogs especializados ganharam o seu es- sempre relacionados às palavras resistência
e contracultura. O underground é o alter-
pesquisadores Jorge Cardoso Filho e Je-
uma versão impressa e é derivada da es- nossa imagem plural e Geralmente, como na Revista Phouse e
paço e estão fazendo a festa dos fãs de derJanotti Júnior, de 2006, intitulado “A
música eletrônica brasileiros. Uma delas é
nativo, produtos culturais independentes e
geralmente pouco conhecidos, existentes
música popular massiva, o mainstream e trangeira, tem 30 mil acessos mensais. eclética” no Play BPM, tratam-se de artigos es-
o underground: trajetórias e caminhos da No site atuam agora um diretor, um edi- - Flávio Lerner peciais de opinião ou matérias longas e
a revista DJ Sound, fundada por Fernando apenas pela vontade de artistas e produto-
música na cultura midiática”, define bem tor, uma assistente editorial e uma equi- Editor-chefe da cheia de detalhes, focando na experiên-
Sarmiento, que já tem quase 30 anos de res de fazer algo diferente da maioria.
os conceitos de mainstream e under- revista Phouse
pe de redatores freelancers sob deman- cia vivida pelo repórter durante os dias
existência e ainda resiste em forma de A jornalista e DJ Cláudia Assef descreve ground como estratégias de consumo, da. “Para a edição impressa, esta equipe de festival.
portal. Resiste não. Ela existe. E vai mui- como aquilo que é feito sem a preocupa- que, por sua vez, asseguram público para
se une ao time da DJ Mag Latinoamérica O relato do profissional é, na maioria
to bem, obrigada. Outra que também é ção de vender: “O underground nasce sem ambas.
a preocupação de estourar, de se tornar um em Buenos Aires. São eles que cuidam de
referência no segmento é a revista Hou-
todo o design, diagramação e impressão
seMag, também focada em um cenário
da revista”, explica o editor Rodrigo Airaf.
mainstream da e-music.
“Inevitavelmente o mainstream é o core
Par a a c en a el e t r ôn i c a , editorial de um modo geral, porém, há
r evis tas el e t r ô n i c a s uma ajuda considerável no site a talen-
A publicação especializada mais co- tos emergentes do cenário alternativo e
nhecida hoje, porém, é a revista eletrô- eventos regionais que estejam ‘causan-
nica Phouse criada pelo jovem baiano do barulho’, bem como conteúdo sobre
Luckas Wagg, em 2013. Segundo ele, os principais players do mercado não-
trata-se da maior plataforma de música -comercial”, garante o editor.
eletrônica da América Latina atualmen- Com uma equipe pequena e até mes-
te, com quase meio milhão de acessos mo instável, os sites fazem um apanhado
mensais. “Produzimos conteúdo para sobre o cenário nacional e internacional de
toda e qualquer pessoa que tenha inte- música eletrônica, e atuam fazendo notas
resse por música eletrônica, seja do ce- rápidas sobre artistas, acontecimentos e
nário mainstream ou underground. Tenha furos, além da divulgação de eventos.
ela 14 ou 50 anos”, garante o empresário. Artigos de opinião e reportagens espe-
Os números da Phouse ultrapassam a da ciais são a carta coringa de todos eles.
famosa Billboard Brasil, de acordo com Dentro do Universo Paralello encontro uma marca consolidada. Quem
disse que o underground não se vende? | Foto: Acervo pessoal “Buscamos mesclar os conteúdos mais
os dados disponíveis no site SimilarWeb. populares com conteúdo underground,
Em agosto do ano passado, outro que não vai nos trazer tantos acessos, Espaço Circulou, dentro do UP: oficinas, arte e cultura para todas as idades. Foto: Acervo Pessoal

12 13
Especial
das vezes, acompanhado de imagens maioria vem de fora do estado, especial- descreve a escritora e jornalista Claudia
suas do evento, o mais próximas possí- mente do Sul”, diz ela. De novo, o valor Assef.
veis do “seu olhar pessoal”, o que serve do underground.
Os megaeventos de música eletrôni-
ainda mais ao apelo visual já construído
O “tempero” emprestado pela Bahia ca, mais especificamente aqueles volta-
no texto. Na mídia ou no ingresso do
ao Universo Paralello, após 12 anos qua- dos para a cena trance, são um nicho tão
festival, em ambos os casos, é vendida
se um produto legítimo seu, parece ter específico e segmentado que se perdem
a experiência, a aventura. Aquela única e
contribuído para a receita do sucesso em um universo de nichos, tidos como
especial, diferente de tudo o que você
do festival na cena trance, mas também irrelevantes em um contexto maior, mas
está acostumado e que promete te tirar
fora dela. “O UP é muito importante para que em todos os aspectos significam e
da zona de conforto e torpor da rotina
trazer novas pessoas para dentro da mú- ressignificam a história de um estilo mu-
urbana e estressante. Para os produtos
sica eletrônica, acho que quem vai e tem sical no âmbito mundial, de um público
jornalísticos, o underground é uma es-
uma experiência no Universo Paralello consumidor e de uma cidade. De uma
tratégia de mercado, com público asse-
tende a ficar nesse universo. Fica muito pequena cidade no interior da Bahia.
gurado e valioso.
maravilhado com aquela grandiosidade”,
“O papel desses veículos é fundamen-
tal. Eles apoiam e divulgam uma cena que
sem esse apoio de uma estrutura de mí- Uma outra religião
dia ficaria muito difícil(...). Hoje a gente
não precisa mais daquele veículo grande Com quase 30 anos no comando das Eu sou da cena mais underground de rap, do
pickups em Salvador e em muitas cida- bass music, então a gente sempre tocou em
como antigamente. Antigamente todo des baianas, o DJ Mauro Telefunksoul já lugares menores. E eu sou assim, até no jei-
mundo lia a Folha de S. Paulo, o Estadão, dispensou o convite para tocar no Festi- to de me vestir e pensar, eu sou como meu
O Globo, a Veja. Hoje em dia não mais”, val Universo Paralello algumas vezes. Em estilo: da rua, da cidade”, define ele.
defende a escritora e jornalista Claudia maio de 2018, minutos antes de entrar no
Vestindo uma regata de um time de bas-
Assef. palco para um show na cidade de Barrei-
quete americano do qual é fã e um boné de
ras, a quase 900 km da capital, pergunto
O pú b li c o do un derg r ou n d ao artista sobre as festas underground
aba reta, o típico DJ da periferia, fã de Tim
Maia e Elza Soares, se apresentou em Bar-
Rodrigo Bouzon, DJ e dono da pro- na Bahia e escuto algo curioso: “Nunca fui
reiras com um set recheado de funk e até
dutora de eventos Concept Content, se nessa onda de rave. O trance é como se
MPB. Ao lado dele, estava o DJ carioca RD,
apresentou pela primeira vez no Univer- fosse outra religião”.
uma das referências em produção musical
so Paralello em 2017. “Foi uma realização de funk no Brasil e dono de hits populares
pessoal muito grande. A pista tava bem como o “Malandramente”.
vazia quando eu tava tocando, e no de- “Já toquei músicas que tinham elementos e
correr do set foi enchendo. Era nítido textura do trance, porque hoje eu opto por
que as pessoas vinham de vários lugares fazer um set mais aberto, open format. En-
do mundo diferentes (...) Não tenho nem tão não tenho essa coisa de não tocar. Se
eu gostar, eu toco. Pra mim a mistura é es-
explicação de como é aquele lugar”.
sencial (...) Mas não é do meu perfil musical
A também baiana Adriana Prates, DJ, ouvir trance”, diz Mauro, que se apresentou
pesquisadora e integrante do coletivo após alguma insistência pela primeira vez no
Mauro Telefunksoul se apresenta em Barreiras, no
Universo Paralello na última edição, em 2017.
Pragatecno, é frequentadora do festival interior da Bahia: um baile urbano. Foto: Acervo
pessoal
desde 2006, e tenta definir o perfil de Para o baiano, que já foi convidado a tocar
público dentro do evento: “Dá pra dizer Telefunksoul, único nome que utiliza hoje, em festivais como o UP, este representa
que ele não é muito variado em termos foi um dos primeiros DJs da cena baiana, uma cena que não é a sua, mas que ganha
responsável por criar uma mistura de es- pelo caráter democrático. “No Tortuga [pal-
de raça e classe, por exemplo. São pes- tilos que hoje caracteriza muitos artistas co onde ele se apresentou no festival] eu vi
soas majoritariamente brancas e de bom por aqui. Precursor do bassmusic regio- que tinha a oportunidade de você mostrar
poder aquisitivo – dá para deduzir o alto nal – ao qual chama de Bahia bass, seu outro estilo de som. Tinha acabado de voltar
poder aquisitivo porque podem pagar estilo é nascido de uma união do urbano da Europa e resolvi participar pra fechar o
pelo ingresso (que é bem caro) além das drum and bass com ritmos baianos. “Eu ano com chave de ouro. A galera recebeu
despesas com deslocamento (passa- sempre fui da cena indoor. Os eventos muito bem. Toquei afro, toquei bass. E foi
outdoor eu até tocava, mas é porque em legal, uma experiência”, descreve.
gens, etc), gastos com água e comida
Salvador sempre teve muita festa aberta.
durante o festival (porque as coisas são
caras lá dentro), etc. Também noto que a
14
Especial

“Um Universo Paralello na Bahia: o império underground da música eletrônica”


Trabalho de Conclusão do curso de Comunicação - Habilitação em Jornalismo
Faculdade de Comunicação - Universidade Federal da Bahia
Discente: Carla Letícia Pereira Oliveira
Orientadora: Profª Drª Suzana Barbosa
Semestre 2018.1
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