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Estado laico é conquista de todos e das famílias

Autor: Paulo Lôbo | Data de publicação: 09/12/2015


Durante quase 400 anos, desde o início da colonização portuguesa até o
advento da República, o Estado e a Igreja Católica integravam a ordem política
brasileira. A Constituição imperial de 1824, apesar de sua inspiração iluminista
e liberal, estabeleceu em seu artigo 5º: “A religião Católica Apostólica Romana
continuará a ser a religião do Império. Todas as outras religiões serão
permitidas com seu culto doméstico ou particular, em casas para isso
destinadas, sem forma alguma exterior de templo”. Assim, à Igreja Católica se
assegurou o domínio do espaço político, e às demais, o espaço privado.
A interferência da religião na vida privada foi marcante na formação do homem
brasileiro, repercutindo na dificuldade até hoje sentida da definição do que é
privado e do que é público, da confusão entre “o jardim e a praça” — a feliz
metáfora de Nelson Saldanha —, do sentimento generalizado de que a coisa
pública e as funções públicas seriam extensão do espaço familiar ou patrimônio
expandido de grupos familiares. Esse traço resistente da nossa cultura tem
origem no desenvolvimento da sociedade portuguesa, transplantado para o
Brasil colonial. Para Nestor Duarte[1], o “privatismo característico da sociedade
portuguesa” encontrou, no meio colonial brasileiro, condições excepcionais
para o fortalecimento da organização familiar, “que se constitui a única ordem
perfeita e íntegra que essa sociedade conheceu”. A casa grande era uma
“organização social extraestatal, que ignora o Estado, que dele prescinde e
contra ele lutará”. A igreja era a única ordem que conseguia preencher o vazio
entre a família e o Estado no território da colônia.
A igreja regulava a vida privada das pessoas desde o nascimento à morte,
conferindo a seus atos caráter oficial. Os atos e registros de nascimento,
casamento e óbito eram da competência do sacerdote. Os cemitérios estavam
sob controle da igreja.
Apenas com o advento da República, em 15 de novembro de 1889, o ideário
da modernidade de separação do Estado e da igreja se consumou (Decreto
119-A, de 17 de janeiro de 1890). A Constituição de 1891 estabelecerá que
(artigo 72, parágrafo 7º) “nenhum culto ou igreja gozará de subvenção oficial,
nem terá relações de dependência ou aliança com o governo da União ou dos
estados”. A partir daí, confirmando-se nas Constituições subsequentes (como o
artigo 19, I, da CF-88), a religião saiu juridicamente da vida política,
destinando-se à vida privada.
O Estado laico é conquista de todos e das famílias, porque fundado na ética da
tolerância. Não é hostil às religiões; ao contrário, surgiu no processo
emancipador da humanidade, para assegurar a liberdade religiosa. Acolhe e
garante os crentes e os não crentes. Nesse sentido, é o Estado neutro.
Apesar do advento mais que centenário do Estado laico, houve e ainda há
tentativas de imposições de valores religiosos no ordenamento jurídico das
relações familiares. A igualdade entre os cônjuges, o reconhecimento jurídico
das entidades familiares fora do casamento, o direito ao divórcio, a igualdade
jurídica entre filhos de qualquer origem foram e são alvo dessa interferência
indevida, em desafio aberto ao Estado laico. Foi difícil a luta para redução do
quantum despótico nas famílias, ao longo do século XX; cada passo era
resultado de árdua batalha legislativa, como se viu na progressiva
emancipação dos filhos “ilegítimos”.
No âmbito privado, as pessoas podem dirigir suas vidas familiares de acordo
com os valores da religião a que se vincula, desde que não conflitem com os
princípios constitucionais. Podem, por exemplo, não se divorciar, se assim
determina sua religião. Podem não concordar que haja outras entidades
familiares fora do casamento.
Não podem, todavia, impor suas convicções religiosas ao conjunto da
sociedade, ainda que aquelas sejam majoritárias, porque o Estado laico
também protege outras convicções religiosas ou não religiosas minoritárias e a
liberdade de cada pessoa de realizar seus projetos de vida.
É preocupante que alguns parlamentares assumam seus mandatos como
representantes do povo e se convertam em porta-vozes de seus grupos
religiosos, como se não vivessem em um Estado laico. O projeto de lei
denominado Estatuto da Família, que tramita na Câmara dos Deputados, ao
proclamar que família é apenas a constituída pelo casamento, é exemplo
negativo da tentativa de reintrodução de valores religiosos unilaterais na ordem
jurídica das relações familiares, violando o Estado laico e a garantia
constitucional da liberdade de constituição de família e do pluralismo familiar.
Expressa intolerância e aberto desafio ao que já foi reconhecido pelo Supremo
Tribunal Federal.
[1] A ordem privada e a organização política nacional. Brasília: Ministério da
Justiça, 1997, p. 64-89.
Paulo Lôbo é advogado, doutor em Direito Civil pela USP, professor emérito da
UFAL e diretor nacional do Instituto Brasileiro de Direito de Família (IBDFAM).
Foi conselheiro do CNJ.
Revista Consultor Jurídico, 6 de dezembro de 2015, 8h00

1- De acordo com as aulas ministradas, verifique neste artigo, em que


momento da história a família sofreu influências religiosas? Explique?
2- Explique com fundamentos na norma jurídica, quais princípios são
apontados neste artigo?

Estatuto da Família x Estatuto das Famílias. Singular x plural. Exclusão x


inclusão
 
 
O Brasil vive, no presente momento, um grande conflito ideológico e, como não
poderia ser diferente, tal colisão atinge não só os aplicadores do Direito como
também os projetos de lei que tramitam no Congresso Nacional, especialmente
em temas condizentes aos costumes e à família. Como exemplo desse
embate, pode ser citada a tramitação de dois projetos de lei a respeito do
conceito de família no Congresso Nacional.
O primeiro deles, na Câmara dos Deputados, intitulado Estatuto da Família (PL
6.583/2013), no singular, pretende restringir o conceito de família aos
casamentos e às uniões estáveis entre homens e mulheres e seus filhos. Nos
termos do seu art. 1º, "esta lei institui o Estatuto da Família e dispõe sobre os
direitos da família, e as diretrizes das políticas públicas voltadas para
valorização e apoiamento à entidade familiar". Em complemento, enuncia a
proposta de art. 2º da norma que "para os fins desta lei, define-se entidade
familiar como o núcleo social formado a partir da união entre um homem e uma
mulher, por meio de casamento ou união estável, ou ainda por comunidade
formada por qualquer dos pais e seus descendentes".
A outra projeção é o Estatuto das Famílias (PL 470/2013), no plural, em curso
no Senado Federal, originário de proposta formulada pelos juristas que
compõem o IBDFAM - Instituto Brasileiro de Direito de Família e que, em vários
de seus dispositivos, traz um conceito extensivo de família. Cite-se, entre
tantas regras, a proposta de conceito de união estável constante do seu art. 61,
in verbis: "é reconhecida como entidade familiar a união estável entre duas
pessoas, configurada na convivência pública, contínua, duradoura e
estabelecida com o objetivo de constituição de família". Como se nota, a
proposta menciona a união de duas pessoas, não obrigatoriamente homem e
mulher.
Acompanhando os debates que ocorrem na Câmara dos Deputados, e diante
do momento que vive o país, o projeto de lei 6.583/2013 tem grandes chances
de ser aprovado. Se isso ocorrer, não persistindo eventual veto da presidência
da República, dois são os caminhos interpretativos para a citada projeção.
O primeiro deles é o reconhecimento de sua inconstitucionalidade. Ora, é
sabido que o Supremo Tribunal Federal concluiu que a união homoafetiva é
entidade familiar protegida pela Constituição Federal, devendo ser aplicadas,
por analogia, todas as regras previstas para a união estável heteroafetiva
(julgado na ADPF 132/RJ, publicado no Informativo 625 da Corte, de maio de
2011). Em complemento, o Superior Tribunal de Justiça reconheceu, logo após,
que é possível o casamento entre pessoas do mesmo sexo, consequência
natural da decisão do Supremo, pois se todas as normas são aplicáveis por
analogia, o mesmo deve ser dito quanto à conversão da união estável ao
casamento, retirada do art. 1.727 do Código Civil (REsp. 1.183.378/RS).
Conforme o voto do ministro Luis Felipe Salomão nesse acórdão, proferido em
outubro de 2011, "é bem de ver que, em 1988, não houve uma recepção
constitucional do conceito histórico de casamento, sempre considerado como
via única para a constituição de família e, por vezes, um ambiente de
subversão dos ora consagrados princípios da igualdade e da dignidade da
pessoa humana. Agora, a concepção constitucional do casamento –
diferentemente do que ocorria com os diplomas superados – deve ser
necessariamente plural, porque plurais também são as famílias e, ademais,
não é ele, o casamento, o destinatário final da proteção do Estado, mas apenas
o intermediário de um propósito maior, que é a proteção da pessoa humana em
sua inalienável dignidade. A fundamentação do casamento hoje não pode
simplesmente emergir de seu traço histórico, mas deve ser extraída de sua
função constitucional instrumentalizadora da dignidade da pessoa humana. Por
isso, não se pode examinar o casamento de hoje como exatamente o mesmo
de dois séculos passados, cuja união entre Estado e Igreja engendrou um
casamento civil sacramental, de núcleo essencial fincado na procriação, na
indissolubilidade e na heterossexualidade".
Todas essas decisões fizeram o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) editar, em
2013, a resolução 175, que veda às autoridades competentes, caso dos
responsáveis pelos cartórios de registro civil de todo o país, a recusa de
habilitação, celebração de casamento civil ou de conversão de união estável
em casamento entre pessoas de mesmo sexo. Em suma, o casamento
homoafetivo transformou-se em realidade prática do Direito brasileiro.
No âmbito da doutrina do Direito de Família, para demonstrar qual a corrente
majoritária hoje prevalecente, pontue-se que, na VII Jornada de Direito Civil,
realizada pelo Conselho da Justiça Federal em setembro de 2015, aprovou-se
enunciado segundo o qual é existente e válido o casamento entre pessoas do
mesmo sexo. Cabe esclarecer que desse evento participaram juristas com as
mais variadas visões sobre o Direito de Família e, mesmo assim, a proposta
aprovada conseguiu ampla maioria, o que demonstra uma sedimentação
doutrinária a respeito do tema no País. 
O citado Estatuto da Família, no singular, desconsidera toda essa evolução.
Sim, evolução, pois a tendência dos países ocidentais é a inclusão dos direitos
civis de casais homossexuais, sem que isso represente qualquer afronta ou
ofensa aos direitos das pessoas que pretendem ter uniões heteroafetivas.
Nessa perspectiva, o projeto já soa totalmente inconstitucional.
Mas não é só. O art. 2º do projeto de lei 6.583/2013 é inconstitucional por
desconsiderar o conceito de família monoparental previsto no art. 226, § 4º, do
Texto Maior, constituída por um dos ascendentes e seus descendentes. Como
antes se transcreveu, a projeção limita a família aos pais que vivem com seus
filhos, deixando de fora as famílias monoparentais existentes entre avós e
netos.
Sem falar em outras entidades que também não foram contempladas, caso das
famílias mosaico – de várias origens, oriundas de famílias reconstituídas – e
das famílias anaparentais (na expressão criada por Sérgio Resende de Barros)
– famílias sem pais, formadas por irmãos ou primos que vivem juntos, com
intuito comunitário familiar.
Sabe-se, conforme os escritos de vários constitucionalistas nacionais, que a
Constituição Federal Brasileira de 1988 é inclusiva, e não exclusiva, afirmação
que merece especial atenção quanto tópico que regulamenta as entidades
familiares em rol meramente exemplificativo (art. 226). Assim, não pode uma lei
infraconstitucional limitar o texto superior na concessão de direitos civis sob
pena de flagrante inconstitucionalidade.
Vale dizer, em complemento, que a Lei Maria da Penha já traz um conceito
ampliativo, em seu art. 5º, inciso II, ao estabelecer que a família deve ser
compreendida "como a comunidade formada por indivíduos que são ou se
consideram aparentados, unidos por laços naturais, por afinidade ou por
vontade expressa". Essa é a ideia de família que deve prevalecer na realidade
brasileira, na opinião deste articulista, não só para os fins de incidência dessa
lei, mas também de outras normas.
De toda sorte, há um segundo caminho para a interpretação do Estatuto da
Família, qual seja o de adaptá-lo ao Texto Maior e a toda essa evolução. Por
essa ideia, é possível firmar a premissa segundo a qual o projeto de lei apenas
exemplifica algumas formas de família, sem excluir outras, caso de todas as
entidades aqui citadas. Se for assim, nosso Congresso Nacional perde
precioso tempo de trabalho legislativo, pois as famílias ali previstas já estão
amplamente tuteladas, especialmente por serem maioria no Brasil.
Pensamos que o trabalho a ser desenvolvido é de proteção de outras
constituições famílias, como propõe o Estatuto das Famílias, no plural; e não o
Estatuto da Família, no singular. A inclusão deve prevalecer sobre a exclusão,
pois esse é o sentido da nossa Lei Maior. Como palavras finais, vale lembrar
que a Constituição Brasileira veda a discriminação no seu art. 5º, além de
valorizar a dignidade da pessoa humana no seu dispositivo inaugural. A
projeção no singular deixa esses valores de lado. 
  
Flávio Tartuce é doutor em Direito Civil pela USP. Professor do programa de
mestrado e doutorado da FADISP - Faculdade Especializada em Direito.
Professor dos cursos de graduação e pós-graduação em Direito Privado da lato
sensu da EPD - Escola Paulista de Direito, sendo coordenador dos últimos.
Professor da Rede LFG. Diretor nacional e estadual do IBDFAM - Instituto
Brasileiro de Direito de Família. Advogado e consultor jurídico em São Paulo.

1- Aponte e explique quais entidades familiares estão previstas no artigo 2º


proposto pelo Projeto de Lei 6.583/2013? Estes arranjos familiares são
os mesmos previstos na CF/88? Em qual artigo?
2- Qual dos dois projetos de lei citados no artigo possui a característica
plural por abarcar um maior número de arranjos familiares?

Família ou famílias?
Autor: Maria Berenice Dias | Data de publicação: 27/09/2015
Durante séculos ninguém titubeava em responder: família, só tem uma – a
constituída pelos sagrados laços do matrimônio. Aos noivos era imposta a
obrigação de se multiplicarem até a morte, mesmo na tristeza, na pobreza e na
doença. Tanto que se falava em débito conjugal!
Este modelito se manteve, ao menos na aparência, às custas da integridade
física e psíquica das mulheres, que se mantinham dentro de casamentos
esfacelados, pois assim exigia a sociedade.  Tanto que o casamento era
indissolúvel. As pessoas até podiam se desquitar, mas não podiam casar de
novo. Caso encontrassem um par, tornavam-se concubinos e alvos de severas
punições.
As mudanças foram muitas. Vagarosas, mas significativas. As causas,
incontáveis.  No entanto, o resultado foi um só. O conceito de família mudou,
se esgarçou. As mulheres de objetos de desejo se transformaram em sujeitos
de direito. O casamento perdeu a sacralidade e permanecer dentro dele deixou
de ser uma imposição social e uma obrigação legal.
Veio o divórcio. Antes, porém, era necessário os cônjuges passarem pelo
purgatório da separação, que exigia que se identificassem causas, punindo-se
os culpados. A liberdade total de casar e descasar chegou somente no ano de
2006.
A lei regulamentava exclusivamente o casamento. Punia com o silêncio toda e
qualquer modalidade de estruturas familiares que se afastasse do modelo
“oficial”.
A omissão preconceituosa do legislador, porém, não significa inexistência de
direito. Não se pode falar em silêncio eloquente, com significado de conteúdo
excludente. Ausência de lei não impede a inclusão no âmbito da tutela jurídica.
E foi assumindo a responsabilidade de julgar que os juízes começaram a
alargar o conceito de família. As mudanças chegaram à Constituição Federal
que enlaçou no conceito de família, outorgando-lhes especial proteção, outras
estruturas de convívio. Além do casamento trouxe, de forma exemplificativa, a
união estável entre um homem e uma mulher e a chamada família
monoparental: um dos pais e seus filhos.
Mas seguiu a justiça a cumprir o seu papel de fazer Justiça. Reconheceu que o
rol constitucional não é exaustivo, e continuou a reconhecer como família
outras estruturas familiares. Assim as famílias anaparentais, constituídas
somente pelos filhos, sem a presença dos pais; bem como as famílias
homoafeitivas, que são as formadas por pessoas do mesmo sexo.
O reconhecimento da homoafetividade como união estável foi levado a efeito
pelo Supremo Tribunal Federal, no ano de 2011, em decisão unânime e
histórica. O tema acabou regulamentado pelo Conselho Nacional de Justiça.
Agora é proibido negar acesso ao casamento e impedir o registro das uniões
homoafetivas, estando assegurada a possibilidade de estas se transformarem
em casamento.
Também se deve à iniciativa do Poder Judiciário assegurar aos homossexuais,
vivendo sozinhos ou em família, o direito de adotarem crianças, bem como
fazerem uso das técnicas de reprodução assistida.
Ativismo judicial? Não, interpretação da Carta Constitucional segundo um
punhado de princípios fundamentais. É a justiça cumprindo o seu papel de
fazer justiça, mesmo diante da lacuna legal.
Da inércia, passou o Legislativo, dominado por autointitulados profetas
religiosos, a reagir.
Não foi outro o intuito do Estatuto da Família, que acaba de ser aprovado pela
Câmara dos Deputados (PL 6.583/2013). Tentar limitar o conceito de família à
união entre um homem e uma mulher, além de afrontar todos os princípios
fundantes do Estado, impõe um retrocesso social que irá retirar direitos de
todos aqueles que não se encaixam neste conceito limitante e limitado.
 
Maria Berenice Dias, Advogada, Vice Presidenta Nacional do IBDFAM,
Presidenta da Comissão da Diversidade Sexual da OAB.

1- Em qual período da história prevalecia a Era Matriarcal e, por quê? Em


que momento da história a mulher ingressa no mercado de trabalho e
começou a tornar-se independente?
2- Antes da CF/88 qual o tipo de entidade familiar existente? Quais as
modalidades de famílias previstas na CF/88? Esse rol é taxativo?
Justiça fixa multa para mãe que tentou impedir o convívio do pai com a
filha
28/01/2016Fonte: IBDFAM
De acordo com o processo, a genitora tentou reiteradamente impedir as visitas
paternas, bem como desprestigiar a imagem do pai
 
Sem ignorar o quão difícil pode ser aos genitores em questões familiares
controlar suas emoções, há que se fazer especial esforço, a fim de minimizar
as consequências para ofilho, já atingido pelo quadro de intensa beligerância.
Neste sentido, há que se ter uma conscientização de que ambos os pais
prosseguem, ainda que não estejam juntos afetivamente, em um mesmo
propósito, que decorre do poder familiar: o de promover o saudável e integral
desenvolvimento de filho em comum.
Com esse entendimento, a 12ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Paraná
decidiu pela incidência de multa, por fortes indícios de prática de alienação
parental, no caso da mãe guardiã não entregar a filha para o convívio com o
pai na forma determinada.   
No caso, a mãe, como representante da filha, recorreu da decisão que
regulamentou as visitas paternas em finais de semana alternados, das 10 às 18
horas dos sábados e domingos fixando multa por descumprimento no valor de
R$ 10.000,00.
 Genitor alienador
A genitora afirmou que não tentou impedir, em nenhum momento, a visitação
paterna, pelo contrário; deixa a criança sempre pronta nos dias e horários
determinados. Segundo a mulher, a criança está “abalada porque o genitor é
insensível no momento em que a busca para as visitas”.
A mulher afirmou também que a filha não se encontra emocionalmente
preparada para se separar da família materna e permanecer com estranhos, e
que o pai não via a filha há mais de dois anos e nada fez no sentido de tornar a
visitação mais natural, ressaltando que a criança sequer o reconheceu.
Segundo ela, depois das visitas paternas impostas, a menina ficou agressiva e
chegou a ter episódios de brigas na escola. Disse que o pai não se preocupa
com o bem-estar da criança, forçando-a à “traumática” inserção de seu
contexto e que a menina contou que o genitor desferiu tapas em seus pés por
não o chamar de pai, e que em outra ocasião teria ameaçado jogá-la no lixo
porque era “chata”. Dentre as alegações, a mulher acusou ainda, o genitor, de
pedofilia.
 Humilhação contínua
O genitor contou que a mãe da menina o acusou, nos autos, de crime de
descaminho de mercadorias do Paraguai, em “desesperada” tentativa de lhe
macular a imagem. Que a mulher não mede esforços para induzir o juiz a erro,
para que vede a menor da convivência paterna.
O homem lembrou recurso de Agravo de Instrumento, anteriormente interposto
pela genitora, no qual esta o acusou de pedofilia. Afirmou que já possuía direito
livre de visitas e que não houve fato novo a modificar a suspensão pleiteada
pela genitora.
Segundo ele, o relatório social indica a adaptação da filha à casa paterna, e
com base em laudo social ele rebateu todas as alegações de que a filha não o
reconhece. O homem também apresentou fotos e vídeos das visitas paternas e
disse que as acusações da genitora têm apenas o intuito de gerar nele abalo
emocional, o que está lhe causando diversos problemas de saúde.
Ele afirmou que a mulher causa entraves às visitas, promove escândalos e
pressiona a criança quando o pai vai buscá-la. Destacou que a família da
genitora sempre o tratou com desprezo, preconceito e indiferença, afastando-o
da filha, assim como descreve o estudo social. O genitor ressaltou os episódios
de alienação parental promovidos pela genitora e familiares, destacando que
existe promoção da figura paterna no namorado da mãe da menina, agravada
pela situação de desmerecimento e humilhação contínua do genitor.
 A decisão
Segundo o Ministério Público, com relação à determinação de visitas
assistidas, não há nenhum elemento que comprove a má índole do genitor ou
algum fato desabonador de sua conduta. “Apesar das alegações de que a
menor precisou ser internada após as visitas à residência do genitor, não há
comprovação de que o mesmo tenha ocorrido por maus tratos à menor”.
Com relação às alegações de que o autor é pedófilo, de acordo com o MP a
genitora não apresentou nenhuma prova, “sequer tendo juntado um documento
que ao menos sirva como indício de prova para tal alegação, demonstrando
apenas a intenção de obstar as visitas. Ainda, ante a ausência de provas
contra o genitor, não se justifica a necessidade da presença de um familiar
materno nas visitas, sendo que este possui outros dois filhos e nada indica que
contra eles tenha cometido alguma conduta grave. Conforme entendimento
jurisprudencial, as visitas objetivam a manutenção dos vínculos familiares, não
se admitindo as visitas assistidas nos casos em que não há provas
desabonadoras da conduta do genitor não detentor da guarda”.
Além disso, os estudos sociais apontaram para favorável adaptação da criança,
que deve, assim, progredir com relação aos laços paternos.
Segundo a decisão, o caso exige “postura firme” diante dos “nítidos
embaraços” e paulatina obstaculização da convivência paterna. “O Judiciário,
embora esteja atento ao princípio do devido processo legal, contraditório e
ampla defesa, não pode ser conivente com nítidos abusos perpetrados,
inclusive na esfera processual, por uma ou outra parte, principalmente
envolvendo Direitos da Criança”.
“Sendo patente o direito à convivência entre pai e filha, assegurada por
praticamente quatro dias a cada mês, é que deve ser por ora, mantida a
visitação, disposta na decisão agravada, sob pena de multa, agora ajustada
para R$ 5.000,00 (cinco mil reais), a fim de coibir o agravamento do prejuízo à
infante, pela falta de convívio com o pai e a família paterna”, determinou a
desembargadora Ivanise Maria Tratz Martins, relatora.
 Especialista comenta
Para a advogada Adriana Aranha Hapner (PR), membro do Instituto Brasileiro
de Direito de Família (IBDFAM), o magistrado que atua em casos de Direito de
Família, bem como os da Infância e Juventude, precisa ter “extremo” cuidado
com os detalhes que estão sob sua análise, e “sensibilidade” para aplicação do
melhor direito no caso específico.
"As decisões na área causam impacto de enormes proporções nas vidas dos
envolvidos, e, acima de tudo, às crianças e adolescentes inseridos nas ações,
o que faz com que o exame dos elementos deva ser o mais amplo possível, na
investigação dos fatos e nas provas produzidas, devendo haver aparato
instrumental e pessoal adequado por parte do Poder Judiciário”, diz.
Segundo a advogada, as situações envolvidas nos casos de alegação de
prática de abuso contra os filhos por um, ou até por ambos os genitores, são de
difícil comprovação tendo em vista ocorrerem, em sua maioria, no âmbito
privado. “Todas as práticas de abuso contra crianças, acima de tudo, se
revelam extremamente cruéis e devem ser coibidas da forma mais célere e
eficaz possível”, diz.
Quanto à alienação parental, Adriana Hapner explica que é possível perceber
que muitos dos genitores não têm conhecimento do alcance nefasto que essa
prática pode produzir para os filhos. “Tentar afastar, física e emocionalmente,
um filho de um dos seus genitores, e/ou das respectivas famílias, é atitude
egoísta do Alienador, podendo ser exercida de forma voluntária ou, até mesmo,
involuntária, no que diz respeito ao mal que pode causar aos próprios filhos. A
conscientização das pessoas, envolvidas em casos específicos de Alienação
Parental, bem como a população em geral, através de campanhas a serem
promovidas para demonstrar as consequências danosas de sua prática, é o
primeiro passo para enfrentamento do problema, que tem chegado com
frequência cada vez maior ao Poder Judiciário. Por outro lado, a decisão
comentada demonstra a preocupação dos magistrados na avaliação de todas
as alegações de prática de abusos do poder parental por ambos os genitores, o
que se revela tarefa de grande complexidade”, reflete.
Segundo ela, a aplicação da lei da Alienação Parental (Lei 12.318/2010), com a
condenação de multa por tentativa de restringir o convívio entre o genitor não
guardião e os filhos, constatada prática de Alienação Parental, é medida
adequada e legal na tentativa de coibir o abuso praticado contra os filhos.
“Embora importante ressaltar que a percepção da realidade vivenciada em
cada caso específico deva ser objeto na mais ampla investigação e produção
probatória para que falsas alegações de Alienação Parental não sejam objetos
de manobra de genitores irresponsáveis, que buscam acuar o outro que tenta
proteger igualmente os filhos de outros abusos. Acima de tudo, cabe destacar a
responsabilidade que deve ser cobrada dos genitores que atuam em prejuízo
do bem-estar dos respectivos filhos, assim como de todos os operadores do
Direito que atuam nos casos, pois as consequências irão gravar definitivamente
as crianças e adolescentes envolvidos”.

1- Quais princípios podem ser encontrados nesta notícia? Fundamente?

Lições de Joelma e Chimbinha


Autor: Maria Luiza Póvoa Cruz | Data de publicação: 14/12/2015
Disputa pela guarda dos filhos, denúncias de violência, conflito pelo patrimônio.
Indo para além das notícias publicadas na mídia, o divórcio de Joelma e
Chimbinha tem muitas nuances importantes do ponto de vista do Direito de
Família. O caso retrata comportamentos não recomendados e que, por si só,
geram consequências negativas acompanhadas por uma plateia atenta. O
divórcio foi assinado, mas definições importantes ainda estão por ocorrer.
A começar pelo tópico mais grave, um dos fatos mais marcantes foi o registro
do boletim de ocorrência, em setembro, feito pela cantora Joelma acusando o
ex-marido de ameaças. Depois, vieram supostas revelações sobre agressões
físicas e psicológicas dele contra ela. O caso ainda está em investigação.
Porém, se comprovada, a situação reafirma que a fama e a independência
financeira não quebram as barreiras da violência doméstica e nem o silêncio da
mulher agredida. Além disso, mostra que esses atos são cometidos, em sua
maioria, dentro de casa. Segundo dados do levantamento Mapa da Violência:
Homicídios de Mulheres 2015, um terço dos homicídios cometidos contra
mulheres foram executados por parceiros ou ex-parceiros.
Outro aspecto diretamente ligado ao divórcio é a disputa patrimonial. Quando
empresa, carreira e fama se unem ao matrimônio alguns cuidados devem ser
tomados, com racionalidade, e prevendo um possível fim da união no futuro.
Como o processo corre em segredo de Justiça, ainda existem poucos detalhes
sobre a divisão dos bens. Segundo informações divulgadas pela imprensa,
existem duas empresas registradas pela Calypso. Em uma delas, a detentora
do nome do grupo, Joelma, é sócia majoritária, com 60% das ações. Na
segunda, as ações são divididas igualmente. Contudo, essas definições foram
questionadas por Chimbinha. O processo inclui ainda imóveis no Recife e no
Pará, o escritório e o ônibus da banda. A fortuna do casal estaria estimada em
mais de R$ 70 milhões.
Uma saída para evitar os conflitos vivenciados pelos músicos é investir em
estratégias de governança familiar. A família pode determinar regras sobre o
uso do patrimônio e cuidar dos valores familiares, separando os bens pessoais
dos empresariais. Além disso, diante de problemas no relacionamento, o casal
também poderia ter considerado uma mudança no regime de bens.
Por fim, e mais importante, estão as questões familiares. Joelma tem três
filhos: uma moça de 25 anos, um rapaz de 17 e uma menina de 11 anos.
Chimbinha é pai biológico apenas da caçula. A guarda da garota ainda será
definida. Houve ainda uma medida preventiva proibindo o guitarrista de entrar
em contato com o garoto e com sua irmã mais velha. Fato gerou desabafo de
Yago, filho socioafetivo de Chimbinha, sobre a separação, que causou
comoção nas redes sociais.
Diante de tantas controversas, é importante ressaltar que os filhos, biológicos
ou não, devem ser protegidos de quaisquer ameaças a sua formação
psicológica e moral, com destaque para a prevenção da alienação parental.
Essa prática, definida pela lei 2.318/2010, consiste no prejuízo à convivência
social e afetiva deles com uma das figuras parentais.
Com bom senso, planejamento, verdade e racionalidade é possível colocar fim
a uma relação conjugal protegendo adequadamente - e minimizando os riscos
de conflitos - os bens materiais do casal e, o mais importante, resguardando a
dignidade da família. Essa é uma importante lição deixada pelo caso Joelmae
Chimbinha.
Maria Luiza Póvoa Cruz é advogada, juíza aposentada e presidente do Instituto
Brasileiro de Direito de Família - Goiás

1- É possível Chimbinha adquirir o sobrenome de Joelma, quando do


casamento? Por conta do divórcio, Chimbinha pode continuar a usar o
sobrenome de Joelma? Qual princípio pode ser destacado nesta
situação?
2- Qual(is) princípio(s) pode ser apontado tendo em vista a situação do
casal e dos filhos?