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História

SEGUNDA UNIDADE: SEMANA 10: ATIVIDADE 01

QUESTÃO-PROBLEMA: Qual a pior herança do século


passado que a Professora Maíra Zapater define em seu
artigo? Explique o porquê da sua resposta.

A pior herança do “Breve Século XX”


Foi o historiador Eric Hobsbawn quem deu ao século XX o epíteto de
“breve” no subtítulo de sua obra “Era dos Extremos”. Não obstante a sensação
de sua brevidade trazida pelo inédito volume de mudanças ocorridas nessa
centena de anos, os extremos a que se referiu Hobsbawn parecem retornar
nessas primeiras duas décadas do século XXI – ou talvez tenham permanecido
latentes esse tempo todo.
Os “extremos” de Hobsbawn dizem respeito à formação de ideologias
extremadas características desse período, cuja implementação por meio de
ditaduras de diversas matizes políticas – dos comunismo soviético e chinês aos
militarismos repressores de extrema-direita na América Latina, passando pelos
totalitarismos nacionalistas do fascismo europeu – mobilizaram todo tipo de
valores e pretextos para atingir variadas finalidades, mais ou menos escusas,
mas sempre gerando consequências políticas de alto custo humano.
Esses extremos e suas ideologias se compuseram, como qualquer
fenômeno histórico, de vários fatores. Mas arrisco dizer que as vertentes
do nacionalismo eram uma tônica comum entre todos.
O termo “nacionalismo” deriva, evidentemente, de “nação”. E “nação”,
por sua vez, é ensinado nas primeiras aulas de Teoria Geral do Estado, nos
idos do 1º ano da faculdade de Direito, como o conceito que, muito
resumidamente, pode ser descrito como um grupo de pessoas que se sente
unido por compartilhar determinadas tradições e valores culturais (tais como
idioma, religião, história oficial etc), independentemente de reconhecimento
jurídico de sua existência. Nessa mesma aula nos informam o conceito de
Estado, quase que em relação de oposição ao de “nação”, didaticamente
descrito como o conjunto composto por um povo, que habita um território no
qual há soberania reconhecida por uma ordem jurídica. Dizem-nos, ainda,
nossos professores que há Estados que não são nação, e também há nações
sem Estado. Ilustram-nos com exemplos dos “símbolos nacionais”: bandeiras,
hinos, brasões, selos e todo tipo de imagem que remeta simbolicamente aos
valores acalentados por aquelas pessoas que se identificam como nacionais.
Mas a experiência histórica nos mostra o lado reverso dessa idílica união
patriótica: junto ao amor pelo compatriota, surge a repulsa e a intolerância
àquele que é identificado como não pertencente àquele grupo, o que ocorre em
especial em épocas de crise – econômica, política, cultural. Épocas de crise
são terrenos férteis para nacionalismo: há insegurança e medo de sobra. O
medo é o sentimento mais apto a aniquilar qualquer senso crítico (já que sua
função é, precisamente, proteger o ser humano do perigo, o que deve ser feito
sem pensar muito), e por isso mesmo é tão fácil de ser manipulado e
direcionado a um inimigo comum. Daí os muitos exemplos – que correspondem
a alguns dos “extremos” indicados por Hobsbawm – de medidas políticas de
viés nacionalista que acarretaram graves violações de direitos humanos em
decorrência de xenofobia. O mais famoso talvez seja, justamente, o Nacional-
Socialismo Alemão, ou nazismo (que decorre da expressão em
alemão Nationalsozialist): em nome de fortalecer o compartilhamento de uma
identidade cultural ariana, era preciso identificar “o outro” não pertencente a
esse grupo, transformá-lo em inimigo a ser combatido e exterminá-lo. Para
compreender o impressionante processo de construção cultural dessa
“identidade inimiga” a ser destruída, sempre recomendo o excelente
documentário “Arquitetura da Destruição”, de Peter Cohen, 1989, e que está
integralmente disponível e legendado em português no Youtube.
Embora recorrentemente citado, o regime nazista não foi o único a
apelar para valores nacionalistas em nome da destruição de um inimigo
estrangeiro comum: o genocídio armênio praticado pelo Império Turco-
Otomano em 1915 (e até hoje não reconhecido pelo governo turco) teve traços
de motivação nacionalista. A Guerra da Bósnia (1992-1995), ocorrida no
território da ex-Iugoslávia, teve diversos fatores marcados por discursos
nacionalistas, que chegaram ao extremo da “limpeza étnica” levada a cabo por
sérvios contra mulheres bósnias e croatas por meio de estupros sistemáticos
com vistas a engravidá-las de “filhos sérvios”. Aliás, para quem gosta de
categorizar violência sistemática como sinônimo de povos de religião
muçulmana, vale lembrar que aqui as atrocidades foram cometidas por um
povo de maioria cristã ortodoxa contra minorias muçulmanas (no caso, da
Bósnia). Ou seja: há violência e intolerância em qualquer religião e
posicionamento político[1]. Na África, Ruanda viveu dias tenebrosos com os
massacres praticados pela maioria hutu contra a minoria tutsi, conflito também
contaminado por discursos nacionalistas xenofóbicos[2].
As manifestações de conteúdo nacionalista e xenofóbico não restringem
a territórios ocupados por diferentes grupos, mas são também frequentes em
regiões em que haja fluxo migratório. Mesmo no Brasil, cuja população é
composta quase que exclusivamente por imigrantes (pois brasileiros natos só
mesmo os povos indígenas, que custam a sobreviver), isso não é novidade:
Getúlio Vargas, durante a ditadura do Estado Novo (1937 – 1945), de caráter
fascista e nacionalista, impôs diversas medidas contra estrangeiros[3] , em
decretos que equiparavam textualmente, por exemplo, “indigentes,
vagabundos, ciganos e congêneres”, ou estabelecendo regras rígidas para
“concentração e assimilação” de estrangeiros, além de violar expressamente
direitos de imigrantes e descendentes de italianos, alemães e japoneses após
a entrada do Brasil na 2ª Guerra Mundial em 1942 ao lado dos Aliados,
promovendo, por exemplo, o confisco de bens de pessoas dessas origens[4],
entre outras restrições. Uma das mais curiosas diz respeito ao time paulista de
futebol Palmeiras, que até 1942 se chamava Palestra Itália, quando um decreto
de Getúlio Vargas proibiu qualquer nome que fizesse referência a algum dos
países do Eixo.
Estes não são, infelizmente, os únicos exemplos de crises decorrentes
de ideologias nacionalistas e/ou xenofóbicas. Em comum a todos os casos,
temos graves violações de direitos humanos decorrentes da disseminação do
ódio ao diferente, que se naturaliza a ponto de algumas destas violações terem
ocorrido com amparo legal (caso da legislação nazista de extermínio e da Lei
de Transferência e Reassentamento aplicada contra o povo armênio).
Ainda assim, tais ideologias parecem resistir e ganhar espaço de
manifestação, como se viu no confronto ocorrido na noite de 02 de maio,
durante manifestação contra a nova Lei de Migração aprovada pelo Congresso
e que segue agora para sanção presidencial. Segundo consta dos relatos da
mídia, um grupo de 15 a 20 pessoas, dentre os quais alguns de origem
palestina, contestou o grupo que protestava e houve confronto, resultando na
prisão dos palestinos, posteriormente liberados em audiência de custódia na
qual se determinou medidas cautelares que impedem os indiciados de
participarem de manifestações envolvendo a lei de imigração.
Não pretendo aqui ingressar na disputa de narrativas sobre o ocorrido,
mas sim falar do incontroverso: ocorria uma manifestação de movimentos
contrários à lei de imigração, com elementos de xenofobia (como, por exemplo,
a identificação sinonímica de povos árabes a terroristas, em estereótipo
bastante frequente no senso comum). Um dos líderes do movimento declarou
em entrevista que não há qualquer conotação xenófoba nas manifestações. E
acredito que sua fala possa ser sincera, e que essas pessoas não se vejam
como xenófobas, por não perceberem que mesmo os argumentos de pretexto
socioeconômico tanto podem ter por fundamento inconsciente uma motivação
xenófoba quanto legitimar a incitação a esse sentimento. Pois aqui quero
colocar minha pergunta muito sincera, na esperança de que algum integrante
ou apoiador destes movimentos esteja lendo esta coluna: haverá na História
recente algum caso em que movimentos de intolerância a minorias, imigrantes,
estrangeiros etc tenha tido um resultado de sucesso, no sentido de produzir os
efeitos (econômicos, sociais, culturais etc) almejados pelos intolerantes? Não
são notavelmente mais numerosos os casos de perseguição, tortura e
assassinatos?
Terá sido o século XX breve demais para que possamos nos dar conta
dos efeitos devastadores de seus extremos? Não conseguiremos aprender
nada com a experiência histórica?

Maíra Zapater é Doutora em Direito pela USP e graduada em Ciências


Sociais pela FFLCH-USP. É especialista em Direito Penal e Processual Penal
pela Escola Superior do Ministério Público de São Paulo, Professora e
pesquisadora. Autora do blog deunatv.

Disponível em: http://www.justificando.com/2017/05/05/pior-heranca-breve-seculo-xx/


, acesso em 26 de maio de 2021.

[1] Para saber mais sobre esse conflito dos anos 1990 –
http://acervo.estadao.com.br/noticias/topicos,guerra-da-bosnia,489,0.htm
Além disso, vale conferir sobre o julgamento dos crimes de guerra na Corte de Haia.
[2] Vale conferir esta reportagem da BBC  e o filme “Hotel Ruanda”, de Terry George, 2005,
disponível na Netflix.
[3] Como os Decretos-Lei 406/1938 e 3010/1938.
[4] Por meio deste decreto