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INTERTEXTUALIDADE

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16 Outubro 2012

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Ivete Walty
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TEXTUALIDADE

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Como se pode notar na constituição da própria palavra, intertextualidade significa

relação entre textos. Considerando-se texto, num sentido lato, como um recorte significativo

feito no processo ininterrupto de semiose cultural, isto é, na ampla rede de significações dos

bens culturais, pode-se afirmar que a intertextualidade é inerente à produção humana. O

homem sempre lança mão do que já foi feito em seu processo de produção simbólica. Falar

em autonomia de um texto é, a rigor, improcedente, uma vez que ele se caracteriza por ser

um “momento” que se privilegia entre um início e um final escolhidos. Assim sendo, o texto,

como objeto cultural, tem uma existência física que pode ser apontada e delimitada: um

filme, um romance, um anúncio, uma música. Entretanto, esses objetos não estão ainda

prontos, pois destinam-se ao olhar, à consciência e à recriação dos leitores. Cada texto

constitui uma proposta de significação que não está inteiramente construída. A significação

se dá no jogo de olhares entre o texto e seu destinatário. Este último é um interlocutor ativo

no processo de significação, na medida em que participa do jogo intertextual tanto quanto o

autor. A intertextualidade se dá, pois, tanto na produção como na recepção da grande rede

cultural, de que todos participam. Filmes que retomam filmes, quadros que dialogam com

outros, propagandas que se utilizam do discurso artístico, poemas escritos com versos

alheios, romances que se apropriam de formas musicais, tudo isso são textos em diálogo

com outros textos: intertextualidade.

No sentido estrito, a palavra texto remete a uma ordem significativa verbal. Dentro

dessa ordem, a literatura vale-se amplamente do recurso intertextual, consciente ou

inconscientemente. Em razão disso, a intertextualidade faz-se operador de leitura. É

importante marcar a primazia de Bakhtin em relação a esses estudos, divulgados por Julia

Kristeva. É dela o clássico conceito de intertextualidade: “(...) todo texto se constrói como
mosaico de citações, todo texto é absorção e transformação de um outro texto.” (KRISTEVA,

1974, p. 64).

Por isso mesmo, Antoine Compagnon chama a atenção para o fato de que “escrever,

pois, é sempre rescrever, não difere de citar. A citação, graças à confusão metonímica a que

preside, é leitura e escrita, une o ato de leitura ao de escrita. Ler ou escrever é realizar um

ato de citação”. (COMPAGNON, 1996, p.31)

Pode-se associar essas concepções ao estudo de Bakhtin sobre a inerente polifonia da

linguagem, na medida em que todo discurso é composto de outros discursos, toda fala é

habitada por vozes diversas. Analisando a obra de Dostoiévski, o teórico russo afirma que o

romance seria uma forma dialógica por excelência, pelo fato de ser composto por discursos

de várias naturezas, tais como: o jurídico, o epistolar, o popular, o político.

Na verdade, a intertextualidade, inerente à linguagem, torna-se explícita em todas as

produções literárias que se valem do recurso da apropriação, colocando em xeque a própria

noção de autoria. Augusto de Campos, por exemplo, apropriando-se de variadas produções

poéticas e musicais, num processo de colagem metalingüisticamente confessado, constrói

um de seus sonetos em estilo non-sense, apontando desde o título para a forma em que será

vazado. Tal composição explicita o processo de construção de um texto apenas com recortes

de outros.

Soneterapia 2*

tamarindo de minha desventura

não me escutes nostálgico a cantar

me vi perdido numa selva escura

que o vento vai levando pelo ar

se tudo o mais renova isto é sem cura

não me é dado beijando te acordar

és a um tempo esplendor e sepultura

porque nenhuma delas sabe amar

somente o amor e em sua ausência o amor

guiado por um cego e uma criança


deixa cantar de novo o trovador

pois bem chegou minha hora de vingança

vem vem vem vem vem sentir o calor

que a brisa do Brasil beija e balança

*para ser parcialmente cantado, agradecimentos a Augusto dos Anjos, Orestes

Barbosa & Sílvio Caldas, Dante Alighieri, Vinícius de Morais & Tom Jobim, Sá de Miranda,

Orestes Barbosa & Sílvio Caldas, Olavo Bilac, Noel Rosa & Rubens Soares, Décio Pignatari,

Mark Alexander Boyd, Ary Barroso, João de Barro & Pixinguinha e Castro Alves.

(CAMPOS, 1974, p. 349).

Referências, alusões, epígrafes, paráfrases, paródias ou pastiches são algumas das

formas de intertextualidade, de que lançam mão os escritores em seu diálogo com a

tradição. Tomás Antônio Gonzaga retoma Camões. Drummond retoma Gonzaga. Adélia

Prado retoma Drummond. Eça de Queiroz relê Flaubert, relido também por Machado de

Assis. Esse diálogo, no entanto, não se dá sempre em harmonia. Se a tradição pode, de

certa forma, ser reiterada com as diferentes retomadas que dela se fazem, pode também ser

relativizada ou mesmo negada.

Muitos dos romances de José Saramago, por exemplo, procedem a uma revisão crítica

das tradições históricas portuguesas em sua relação com os discursos político e religioso.

Este é o caso de História do cerco de Lisboa, Memorial do convento e O evangelho segundo

Jesus Cristo. Outro escritor português contemporâneo, que relê a história – o período

salazarista – despindo-a de seu caráter monumental, é Mário Cláudio em Tocata para dois

clarins, por exemplo. Como o próprio título do romance deixa entrever, a voz oficial é

fraturada para alojar vozes dissonantes.

No Brasil, nos romances de Alencar – Iracema e O Guarani - e Antônio Callado – A

expedição Montaigne - que fazem do índio sua personagem principal, observa-se um

tratamento diferenciado do tema, em dois momentos distintos: a visão idealizada, mas

redutora, do século XIX, e a visão polêmica e crítica da atualidade. A tradição é, assim,

sempre revisitada, tornando-se diferenciada aos olhos dos escritores/leitores.

Um mesmo escritor pode reler-se, utilizando-se de textos que ele mesmo escreveu, o

que resulta numa espécie de intratextualidade. Carlos Drummond de Andrade, por exemplo,

retoma seu conhecido texto No meio do caminho, para escrever Consideração do poema:

Uma pedra no meio do caminho


ou apenas um rastro, não importa.

Estes poetas são meus. De todo o orgulho,

de toda a precisão se incorporaram

Ao fatal meu lado esquerdo. Furto a Vinicius

sua mais límpida elegia. Bebo em Murilo.

Que Neruda me dê sua gravata

chamejante. Me perco em Apollinaire. Adeus Maiakóvski. (ANDRADE, 1978, p. 75)

Desvenda-se o mecanismo intertextual, na medida em que além de referir-se a si

mesmo, o poeta confessa o furto que faz a outros poetas, incorporando-os duplamente em

seu acervo.

Embaralhando mais as fronteiras discursivas, a obra de Jorge Luiz Borges é exemplo

de um discurso híbrido que associa o ficcional e o teórico, evidenciando o papel da leitura na

composição dos textos. Observe-se, por exemplo, o conto Pierre Menard, autor do Quixote,

em que se propõe o nível máximo da apropriação: escrever, linha por linha, a obra alheia e,

mesmo assim, criar uma obra nova:

“Não queria compor outro Quixote – o que é fácil – mas o Quixote. Inútil acrescer que

nunca visionou qualquer transcrição mecânica do original; não se propunha copiá-lo. Sua

admirável ambição era produzir páginas que coincidissem – palavra por palavra e linha por

linha – com as de Miguel de Cervantes.” (BORGES, 1995, p. 57)

Questiona-se o plágio, desqualificando-o como roubo. É o mesmo que, teoricamente,

faz Michel Schneider (1990) quando discute a questão da autoria:

“Se todo texto é só uma série de citações anônimas, não susceptíveis de atribuições,

por que então assinar um texto defendendo essa intertextualidade absoluta? Se o texto

moderno, segundo Barthes, essa ‘citação sem aspas’, por que deveria ficar ligado a um

nome, uma vez que esse nome não poderia, de modo algum, atestar ou indicar a origem?”

(SCHNEIDER, 1990, p.43)

Borges, em outro texto – Kafka e seus precursores -, inverte o processo de produção

textual quando transforma Kafka em modelo para aqueles que escreveram antes dele,

criando, regressivamente, uma tradição. Tudo isso porque o leitor ativa sua biblioteca

interna a cada texto lido, estabelecendo nexos relacionais entre o que lê e o que já foi lido.
Atente-se, então, para o fato de que a intertextualidade, centrada também na figura do

leitor, perturba qualquer possibilidade de cronologia rígida para a historiografia literária, na

medida em que as associações feitas são livres.

Até mesmo o conceito de tradução é revisto, numa perspectiva intertextual, como

uma leitura da obra, uma recriação. Relativizam-se também as noções de cópia e modelo,

fonte e influência. Isso porque a cópia pode levar a uma releitura desconstrutora do modelo.

A crítica literária brasileira contemporânea, valendo-se de tais relativizações, produziu textos

que nos permitem reler a própria história da colonização com novos olhos. Ensaios como

“Nacional por subtração”, de Roberto Schwarz (1989); “O entre-lugar do discurso latino-

americano”, “Eça, autor de Madame Bovary”(1978) e “Apesar de dependente, universal”

(1982), de Silviano Santiago; e “Da razão antropofágica: diálogo e diferença na cultura

brasileira”, de Haroldo de Campos (1992) integram esse debate.

Em qualquer nível, a produção simbólica é, pois, sempre uma retomada de outras

produções, perfazendo um jogo infinito que enreda autores e leitores. Apropriando-nos,

então, de Schneider, podemos afirmar:

“O texto literário é um palimpsesto. O autor antigo escreveu uma ‘primeira’ vez,

depois sua escritura foi apagada por algum copista que recobriu a página com um novo

texto, e assim por diante. Textos primeiros inexistem tanto quanto as puras cópias; o apagar

não é nunca tão acabado que não deixe vestígios, a invenção, nunca tão nova que não se

apóie sobre o já-escrito. (SCHNEIDER, 1990, p.71)

Bibliografia

ANDRADE, Carlos Drummond. Reunião: 10 livros de poesia. Rio de Janeiro: José

Olympio, 1978.

BAKTHIN, M. Marxismo e filosofia da linguagem. Trad. Michel Lahud e Yara F. Vieira.

São Paulo: Hucitec, 1981.________. Problemas da poética de Dostoiévski. Trad. Paulo

Bezerra. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1973.

BORGES, Jorge Luis. Ficções. 6ª. Trad. Carlos Nejar. São Paulo: Globo, 1995.

CAMPOS, Augusto. Balanço da bossa e outras bossas. São Paulo: Perspectiva, 1974.

CAMPOS, Haroldo. Metalinguagem e outras metas: ensaios de teoria e crítica literária.

4.ed, São Paulo: Perspectiva, 1992.


COMPAGNON, Antoine. O trabalho da citação. Trad. Cleonice P. B. Mourão. Belo

Horizonte: Editora UFMG, 1996.KRISTEVA, Julia. Introdução à semanálise. Trad. Lúcia

Helena França Ferraz. São Paulo: Perspectiva, 1974.

PAULINO, Maria das Graças Rodrigues, WALTY, Ivete Lara Camargos, CURY, Maria

Zilda Ferreira. Intertextualidades: Teoria e Prática. Belo Horizonte: Editora Lê. 1997.

SANTIAGO, Silviano. Vale quanto pesa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982.

________. Uma literatura nos trópicos. São Paulo: Perspectiva, 1978.

SCHNEIDER, Michel. Ladrões de palavras. Ensaio sobre o plágio, a psicanálise e o

pensamento. Trad. Luiz Fernando P. N. Franco. Campinas: Editora da UNICAMP, 1990.

SCHWARZ, Roberto. Que horas são? São Paulo: Companhia das Letras, 1989

Bib.: AA.VV.: Théorie d’ensemble (col. «Tel Quel», Paris, 1968); Daniel Bilous:

“Intertexte/Pastiche: L’Intermimotexte”, Texte, 2 (1983); Gérard Genette: Palimpsestes: La

Littérature au second degré (1982); Groupe Um (ed.): Revue d’esthétique, ¾ (1978); Jay

Clayton e Eric Rothstein (eds.): Influence and Intertextualiaty in Literary History (1991);

Jonathan Culler: “Presupposition and Intertextuality”, Modern Language Notes, nº 91, 6

(1976); Julia Kristeva: Sèméiôtikè. Recherches pour une sémanalyse (1969); id.: Le Texte

du roman (1970); id.: La Révolution du langage poétique - L’Avant-garde à la fin du dix-

neuvième siècle: Lautréamont et Mallarmé (1974); La Nouvelle Critique, nº especial (1968);

Laurent Jenny (ed.): Poétique, nº27 (1976), ed. port.: Intertextualidades (Coimbra, 1979);

Lucien Dällenbach: “Intertexte et autotexte”, Poétique, 27 (1976); Marc Angenot:

“L’intertextualité’: enquête sur l’émergence et la diffusion d’un champ notionnel”, Revue des

sciences humaines, 189:1 (1983); Michaël Riffaterre: La Production du texte (1979); id.: “La

Trace de l’intertexte”, La Pensée, 215 (1980); id.: Sémiotique de la poésie (1982); Michael

Worton e Judith Still (eds.): Intertextuality - Theories and Practices (1990); Paul Zumthor:

“Intertextualité et mouvence”, Littérature, nº41 (1981); Wolf Schmid e Wolf-Dieter Stempel

(eds.: Dialog der Texte: Hamburger Kolloquium zur Intertextualität (Viena, 1983).

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