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Entrevista com Mario.C.R.

Vidal, autor do livro Ergonomia na Empresa:


útil, prática e aplicada. (www.editoravirtualcientifica.com.br)

1. O que significa a ergonomia para o trabalho?

Ergonomia no trabalho é pleonasmo, já que ergo significa trabalho. As


aplicações de alguns metodos e técnicas de Ergonomia fora do contexto e
dos ambientes de trabalho podem ser consideradas como exceções e não
como a regra. Bem, isso dito a explosão da demanda por Ergonomia tem
a ver com diversos fatores que exponho em meu livro Ergonomia na
Empresa: útil, prática e aplicada Crescimento da escolaridade, Impactos
normativos e regulamentações, aumento da complexidade do quotidiano (
o cozinheiro ,moderno deve ter noções de programação...) mas sobretudo
pelo fato de que a Ergonomia dá resultado onde outras abordagens
falharam. A Ergonomia resolve problemas da atividade das pessoas a
partir de sua realidade concreta e não mediante imposições de soluções
prontas ou prejulgamentos sobre as manifestações de problemas. A
ergonomia é essencialmente proativa e construtivistas, e por isso se
sobressai com relação a posturas reativas e conformadoras.

2 - Quais os tipos de LER mais comuns em trabalhadores de


cozinhas?

Há que se entender que a LER não é uma doença em si, mas uma
denominação hoje superada do conjunto de sindromes chamado Doenças
OsteoMusculares Relacionadas ao Trabalho . Essas manifestações podem
ser de varios tipos - afetação do tunel carpial, descompensação na coluna
cervical, bursites nos ombros e cotovelos, etc. Cada pessoa pode ter
manifestações especificas diferentes devido a fatores pessoais, tal como
compleição fisica, sexo, hábitos pessoais e perfil psicológico e social. O
que existe de comum é o tipo de exigência no trabalho e de dificuldade
em atendê-los. Esse aspecto comum à origem das diferentes
manifestações individuais não pode ser evidenciado num exame clinico ou
complementar, requer também o estudo da situação de trabalho e é ai
que entra a Ergonomia.

3 - Existem equipamentos que podem minimizar esses problemas?

A mao que toca um violao, se for preciso faz a guerra, dizia o Marcos
Valle. Equipamentos em si nao resolvem nada fora de uma especificação
de uso e manuseio, que é um dos resultados possiveis da Ação
ergonomica. Dizer que o equipamento X resolve alguma coisa é mais ou
menos a mesma coisa que dizer compre uma AlfaRomeo e acabe com os
problemas de segurança no transito. Claro que este veiculo-icone com
seus ABS, airbags, computadores de bordo e outras milongas mais é
bastante superior ao inseguro Fusca, mas tudo depende muito do
motorista..Agora num carro com a direção defeituosa e sem pastilhas de
ferio, o risco é muito maior. No caso dos equipamentos de cozinha
existem vários utensilios de design muito superior aos convencionais para
tarefas especificas como facas especiais para picotar ervas, fatiadores etc.
Seu efeito como contribuidor 'as boas praticas é real, necessário mesmo,
mas não se pode sustentar que sejam suficientes. Nada substitui uma boa
organização do trabalho e sua ausencia é sentida desde as cozinhas mais
equipadas 'as mais rudimentares.

4 - Em projetos de cozinhas o que deve ser observado para evitar


essas doenças?

Coisas do tipo: altura de bancadas, etc.A adequação antropometrica que


estabelece parametros dimensionais é certamente um fator sine qua non.
Esta normatividade é até possivel, o pessoal da Divisão de Ergonomia
INT/RJ possui padroes antropométricos brasileiros aplicáveis para estes
casos. Mas sem a organização, o escalonamento de tarefas, uma filosofia
que busque evitar o atropelo da proximidade das horas criticas, o esforço
dimensional pode se tornar inócuo.

5 - No caso de altura de bancada, como determinar a ideal,


principalmente no caso do brasileiro em que a variação de altura
das pessoas é grande?

Problemâo! Não existe altura ideal, o ideal seria ajustar a altura para cada
usuário através de regulagens de alturas. A emnos que em uma cozinha o
executante de uma operação mude a cada minuto, o que não parece
razoável, deve-se pensar em adaptações localizadas. Colocar a bancada
na altura média consegue a façanha de ser desconfortável para toda a
população de trabalhadores. No meu laboratorio os postos individualizados
são inteiramente customizados (adaptado ao ocupante) e nos locais de
uso comum estamos colocando regulagens individualizaveis.

6 - Quais os procedimentos de funcionários que podem contribuir


para evitar maior incidência de LER?

E como um projeto pode contribuir para induzir um funcionário a trabalhar


de forma mais adequada? Há que se conhecer a atividade das pessoas,
naquele local, com as particularidades e possibilidades de cada situação.
Assim como não existe uma teoria geral das coisas ou metodos universais
para se viver bem, fica dificil falar nestes termos. O projeto de
funcionamento - e sempre deve existir um - deve estabelecer as boas
praticas dentro do principio maior da Ergonomia, que é adaptar a situação
de trabalho para as pessoas que realizam as atividades. Essa adequação,
se obtida, elimina a LER, se preferires assim chamar as DORT´s. Agora
não se precisa induzir ninguém. A ergonomia tem como fundamento a
participação e a integração de pessoas em seu processo de projeto. E isso
não ocorre por demagogia ou ideologia, é que não há outra maneira de se
trabalhar. Neste sentido o delinemanto do projeto, o treinamento de
pessoal e a organização do trabalho, se combinam dialogam e convergem
para resultados, dentro do que chamamos Ação Ergonomica. FAZENDO
JUNTO, INTEGRANDO SUGESTÕES - E UMA BOA PARTE PARTE DAS
SUGESTÕES DO PESSOAL É EXCELENTE - A PESSOA SE CONSCIENTIZA,
ATE PORQUE PORQUE ISSO É UM PROCESSO EDUCATIVO. Quem aprende
certo, faz correto. Claro que se não houver vontade administrativa de
treinar as pessoas corretamente, nem a Ergonomia pode dar jeito...

7 - Acho que não é de sua área, talvez você conheça algum


profissional que possa dar idéia de alguns exercícios adequados
para quem trabalha em cozinhas.

O pessoal acha que exercicios são o abracadabra da moda. Veja bem, o


conceito é o da existencia de pausas compensatórias planejadas num
processo de atividade. Nessas pausas pode-se até realizar exercícios mas
não necessáriamente. Quando os exercicios se verificam pertinentes, eles
produzem um bom resultado, eu posso testemunhar a favor disso. Mas
toda a ciencia da Educação fisica não pode se transformar em uma
solução universal a procura de problemas especificos. Na verdade muito
do sucesso da chamada ginastica laboral é muito mais o efeito de
dinamica de grupo do que a validade tecnica de atividades musculares
compensatórias. Antes de verificar que profissional poderia dar idéia de
exercicios adequados, é preciso estudar a situação e organizar trabalho,
pausas e equipamentos, para entao analisar a petrinencia de algumas
atividades compensatórias, Neste sentido um fisioterapeuta com
especialização em Ergonomia pode ajudar. Mas especialização em
Ergonomia representa um a dois anos de atividade em pós-graduação ,
não se trata de gente apenas com conhecimentos rudimentares como a
maioria do existe hoje no mercado! Sem uma formação solida em
Ergonomia trata-se de chralatanismo.

8 - Quais os equipamentos "vilões" dentro de uma cozinha, ou seja


que mais podem causar danos à saúde do funcionário?

Lá vem voce com suas perguntas para uso genérico... Vamos lá, te
respondo com uma outra forma de abordar o problema. Em primeiro lugar
os indutores de manuseio de cargas. Fogoes e fornos estão na alça de
mira de um ergonomista, pois ou provocam posturas desequilbradérrimas
ou requerem malabarismos para deslocar os quentissimos objetos. So que
o processo eixo de uma cozinha, a meu ver não é nem a cocção, nem a
preparação ou armazenamento, é o processo de higiene e limpeza. Neste
sentido há que desenvolver o que hoje existe muito pouco, que são
equipamentos de agilização desta atividade, ate mesmo instalações
especificas como a cozinha da vovó que possuia um beiral em torno da
pia, já que ela tinha manias de lavar a pia o tempo todo, Acontece que
vovó estava correta, uma pia se la va o tempo todo. So que essa ideia
deve pérmear a cozinha como um todo, e isso desde o projeto da mesma,
na escolha dos equipamentos cujos cantos vivos ou inacessiveis tornam
penosa a tarefa principal que é a higine, assepsia e limpeza do espaço
culinário. Se as boas pratocas se oprientam para higiene e limpeza, o que
autoriza os fabricantes em ignorá-las ?

9 - O fato de trabalharem em ambiente quente e sujeitos a


mudanças térmicas, pode ser considerado também como uma
preocupação para profissionais que estudam com ergonomia?

Sim e talvez das mais dificeis de resolver a termo, pois as temperaturas


são decorrentes da conservação, não apenas em termos biologicos, mas
també, organolepticos, palvra técnica que significa a manutenção do sabor
ao longo da conservação. Como não é possivel esquentar o freezer, talvez
uma solução seria a de refrigerar a conzinha, o que faria de fornos e
fo~goes coisas similares 'as capelas dos laboratórios quimicos, e
finalemnet sem resultados. As tecnologias de resfriamento rapido, cada
vez mais se reproduzindo seriam alternativas, mas elas não elimnam este
problema em sua fonte. Nossa saida é mais uma vez a organização do
trabalho, já que mais grave do que expor um cidadão a um gradiente
termico de 30, 40 graus é fazê-lo de forma abrupta, muito rapida. Pra que
a passagem por uma camara de aclimatação seja possivel, o funcionario
não pode estar premido pelo tempo, trabalhando "para ontem". Mesmo se
colocarmos pontas de acionamento programado, como em alguns bancos
e salas limpas, a pessoa apressada pode não sofrer de hipotermia, mas
intensificara nuito o seu stress pelo atraso no qula ja se encontra. Se essa
situação for estrutural decorrente daquela organização, não tenho a
menor duvida que o temporizador tera um defeito cujo conserto não seja
viavel. Ou sera sumariamente retirado em nome da eficiencia e da pratica,
agravando um problema ao invés de resolvê-lo.

10 - Quais as alternativas em equipamentos que diminuem a


necessidade de o funcionário carregar peso?

Ai começa a ficar mais dificl. Mas é bem verdade que se retirarmos os


gancho de carcaças em alguns açouges e em pouquissimas cozinhas,
nunca vi equipamentos de auxilio ao manuseio de cargas em cozinhas.
Acredito que poderia ser uma maneira muito interessante de transportar
do fogao ou dos fornos para os carrinhos de trasporte que ainda não
incorporaram as maravilhas da tração eletrica como noscampos de golfe.
Se aparecer alguém interessado nisso, gostaria bastante de desnvolver
protótipos de equipamentos e de instalações ergonomicas nesta
perspectiva. Se souber de algum site interessante sobre o tema, por
favor, coloque. Bom, existe o nosso site www.gente.ufrj.br que possui
links para todo o mundo da ergonomia nacional e internacional. Será um
prazer receber a visita de seus leitores.