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Titulo: O arco-íris na sala de aula?

Processos de
organização de turmas: Reflexões críticas

Autor: Luiza Cortesão

Colecção: Cadernos de Organização e Gestão Curricular

ISBN: 972-8353-44-8

Editora: Instituto de Inovação Educacional

ÍNDICE
INTRODUÇÃO ......................................................................................................................................1
I - IGUALDADE DE OPORTUNIDADE FACE À EDUCAÇÃO: UMA MIRAGEM? .......................4
II - ORGANIZAÇÃO DAS TURMAS: UM PROCESSO INÓCUO? ...................................................7
III - ORGANIZAÇÃO DE TURMAS E GESTÃO DA HETEROGENEIDADE ................................11
IV - CONSIDERAÇÕES FINAIS ........................................................................................................16
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ..................................................................................................17
ANEXO - ALGUNS LIVROS E ARTIGOS RELATIVOS A PRÁTICAS DOCENTES ATENTAS À
HETEROGENEIDADE........................................................................................................................18
INTRODUÇÃO
No seu livro «Sociologie de l’Ecole», Alain Beaudot reúne um conjunto de
textos de diferentes autores com os quais procura fazer uma análise, em diferentes
perspectivas, da instituição escolar. E termina, quase insolitamente, com um texto
sobre a escola, um belo e poético texto de Georges Jean. Lê-lo é mergulhar através da
memória e dos sentidos na escola de agora e de outrora, na escola em que trabalhamos
mas sobretudo na escola da nossa infância.

A mim, com este texto, Georges Jean pegou-me pela mão e fomos juntos à
minha escola primária oficial, uma escola escura e húmida de uma rua do Porto onde,
como em muitas escolas, reinava uma curiosa mistura de risos e de medos, de
brincadeiras e de rotinas, de monotonia, de aquisições imperiosas de aprendizagens
nunca esquecidas, de mnemónicas, de recitações em coro. Com ele voltei a ouvir «o
sussurro dos pés que deslizam no chão luzidio, das galochas que batem no chão dos
corredores». Com ele recordei os cheiros, uma mistura de cheiros de tinta, de giz, de
humidade, dos corpos fechados em espaços exíguos (porque o frio não convidava a
abrir a janela e porque os fumos da fábrica do outro lado da rua eram às vezes pouco
agradáveis); com ele revi os espaços de uma casa de três andares, numa rua estreita,
com muitas crianças arrumadas em velhas carteiras duplas, de tampo inclinado,
voltadas para o estrado, simbolicamente mais alto, em que a professora se sentava
numa grande secretária de madeira castanha com tampo de oleado escuro. E, lá mais
acima, na parede revi, com ele, o crucifixo ladeado pelos dois quadros com as
fotografias dos «chefes», cujo brilho reluzente dos vidros húmidos que as
resguardavam despertava em mim uma atenção desconfiada. Com ele ainda, recordei
«o momento dos recreios em que se eleva esta inimitável música concreta de choques,
gritos de andorinhas no Céu de Verão, com subtis variações ligadas às estações, as
brincadeiras que, não se sabe bem porquê, mudam cada mês, em cada semana…»1

Aqui, talvez pelas semelhanças evidentes, as memórias tornaram-se mais


recentes e ligaram-se sem interrupções a outras escolas onde trabalhei e em que, como
nesta, a «música concreta» dos recreios se mantém constante. E as recordações
fixaram-se naqueles momentos, tão carregados de significado, em que o grito
estridente da campainha que anuncia o intervalo é instantaneamente seguido de uma
enorme explosão que tudo abafa, de gritos, de corridas, de encontrões, de brincadeiras
que imediatamente se organizam, de grupos que se formam, de conversas apressadas
mais ou menos secretas que se travam, desta mistura de afectos, de violência, de
prazer, de arrogância, de timidez, e de simples alegria, que instantaneamente povoa os
corredores e os recreios.

Como é que aquela massa de alunos, que se mantivera cinquenta minutos mais
ou menos quieta e ordeira, com comportamentos mais ou menos normalizados se
transforma instantaneamente numa pequena multidão fervilhante de energia que se
afirma de mil e uma maneiras diferentes pela heterogeneidade, pela imprevisibilidade?

Cada turma é como que uma garrafa de vinho espumoso que se mantém com um
aspecto homogéneo encarcerado pelo vidro em que foi guardado, aparentemente
tranquilo mas também inacessível, e que, quando salta a rolha, se desdobra numa

1
Jean, G. (1981), p. 159.

1
súbita torrente de espuma e se revela como um líquido cujas características são bem
fáceis de apreciar: pode-se então sentir a sua doçura, o seu corpo, o seu aroma, o
picante que o gás lhe empresta… Do mesmo modo, os alunos mantidos tranquilos na
sala, formam um todo aparentemente homogéneo a cujo conhecimento é difícil
aceder. Porém, libertos pelo toque da campainha, transformam-se também numa
saudável torrente fervilhante de uma energia que estava oculta, porque reprimida. As
suas características manifestam-se então de uma forma bem explícita, abrindo-se,
oferecendo-se à possibilidade de se deixar conhecer.

Pode assim admitir-se que conhecer os alunos seria mais fácil se, em vez de
reprimidos, de domesticados, de homogeneizados, estivessem activos nas aulas
usufruindo de um espaço (simbólico) maior para manifestar os seus gostos, as suas
iniciativas, os seus interesses, possibilidade essa que, habitualmente, só podem gozar
em momentos não ligados a actividades curriculares. Ora acontece que o mesmo
professor que os manteve tranquilos, normalizados na sala de aula, também, porque
tem necessidade de descansar (sobretudo se trabalha com este tipo de preocupações)
frequentemente não está, entre os alunos, interagindo com eles, com alegria, com
afecto, durante os recreios. Aliás até pode estar lá presente e só conseguir prolongar a
relação homogeneizadora que tem habitualmente na sala de aula. Assim sendo, na sua
actividade docente pode esforçar-se, e às vezes até pode transmitir a alguns os
conhecimentos curricularmente considerados como importantes, mas não terá grande
possibilidade de estabelecer uma relação autêntica e de comunicar realmente com
todos, em grande parte por não ter conseguido aceder ao conhecimento da diversidade
presente nos seus alunos.

Verificando-se ser difícil o conhecimento por parte dos professores, das


características reais dos alunos com que trabalham, torna-se interessante que nos
detenhamos agora sobre algumas questões que poderão contribuir e também ser uma
consequência desta situação:

— Que razões poderão estar por detrás do facto de o sistema (e dentro dele a
maioria dos professores) ser tão pouco sensível, tão pouco aberto ou mesmo
hostil aos problemas relacionados com a heterogeneidade na sala de aula?
Por que ocorrerá esta tendência de procurar «normalizar» a riqueza da
heterogeneidade no molde do «aluno médio» ou de «cliente tipo», não
deixando espaço para a emergência de manifestações da sua real
heterogeneidade?

— Que custos representam para a relação educativa, esta leitura


homogeneizante da heterogeneidade, da diversidade cultural, através do
«vidro» da «normalização»?

Pensa-se que uma reflexão prévia sobre este tipo de questões permitirá que se
aborde de forma um pouco mais profunda o problema que constitui o objecto
fundamental da análise deste texto.

Como é que o processo escolhido para organizar as turmas poderá interferir


com esta problemática?

2
É que a heterogeneidade e a diversidade cultural existem mesmo na população
que acede à escola. O mundo é, realmente, um «arco-íris de culturas» como afirma
Boaventura Sousa Santos, autor que também chama a atenção (e isto é muito
importante) para quanto a consciencialização da existência das diferentes cores do
arco-íris, (por outras palavras a consciência da heterogeneidade, do mosaico
multicultural em que vivemos) nos facultará a visão enriquecedora e estimulante da
incompletude da nossa cultura.

Ora é importante notar que, admitindo-se isto, se assume que a heterogeneidade


que está presente numa turma poderá ser lida como fonte potencial de uma riqueza
que importa rentabilizar e não como um obstáculo à realização de actividades de
ensino-aprendizagem. Assume-se que essa rentabilização será feita no sentido de
contribuir para que a igualdade de acesso à educação seja acompanhada de uma maior
igualdade de sucesso.

Estas afirmações, porque polémicas, e que são afinal hipóteses de trabalho,


constituem o objecto de análise do texto que se segue.

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I - IGUALDADE DE OPORTUNIDADE FACE À EDUCAÇÃO:
UMA MIRAGEM?
Desde a constituição da República, ao texto da lei de bases do Sistema
Educativo, a inúmeros textos mais ou menos oficiais que têm sido produzidos, afirma-
se constante e oficialmente, de forma bem explícita, a importância de garantir aos
cidadãos uma igualdade de oportunidades face à educação. Esta preocupação tem
vindo progressivamente a ser atendida através de diferentes medidas tomadas,
medidas essas que tentam contribuir para que tenha lugar uma igualdade de acesso à
escola, que assim se foi transformando no que se designa por «escola de massas». De
facto muitas mais crianças, adolescentes e jovens entram e permanecem (algum
tempo, pelo menos) no Sistema Educativo. E é também indiscutível que os grupos
socioculturais de origem desses alunos são muito mais diversificados.

No entanto, como tem sido amplamente referido em diferentes situações,


múltiplos trabalhos foram também demonstrando que essa igualdade de acesso que a
escola de massas tenta oferecer não é geralmente acompanhada de uma igualdade de
sucesso dos alunos que a frequentam. Mas o que de mais perturbador revelaram essas
pesquisas é que o sucesso acontece, de modo desigual, nos diferentes grupos
socioculturais que constituem a população escolar. Sobretudo a nível de ensino básico
(mas também nos outros graus de ensino) verifica-se claramente que, de uma forma
muito acentuada, quem tem mais sucesso na escola são, sobretudo, os alunos da classe
média e classe média alta. (Os professores aliás sabem-no desde há muito, através
daquele saber de experiência feito que tão pouco reconhecido e valorizado é).

Ora se, de início, muitos trabalhos atribuíam este facto só às condições sociais
deficientes em que vivem as crianças que maioritariamente não têm sucesso na escola,
em breve se começou a apontar outro tipo de causas que poderiam estar também na
origem deste problema: admitiu-se que poderá também ter influência o tipo de
socialização que as crianças têm na família, no bairro e no grupo de pares com quem
brincam diariamente (os professores também sabiam isto e diziam entre si, com
melancolia: os pais são analfabetos ou quase, não compreendem a importância da
escola nem o que se passa cá dentro e estão longe do que aqui se pede aos alunos. É
pois bem natural que eles não sejam bons alunos…).

Mais recentemente, porém, começou a olhar-se para esta questão de uma outra
maneira: em vez de se pensar que a causa dos problemas residia sobretudo no facto de
as crianças com insucesso serem as que tinham nascido e se tinham desenvolvido em
meios sócio-culturalmente desfavorecidos, facto que lhes tornava difícil atingir os
saberes e culturas veiculadas pela escola (teoria do handicap sociocultural), começou a
pensar-se que talvez a própria escola tivesse algumas responsabilidades no processo.
É que a escola oferece, habitualmente um tipo único de processo de ensino, mesmo
que a população escolar seja bem heterogénea quanto às origens sociais, geográficas,
étnicas etc.… A escola, a educação constrói-se e funciona habitualmente para o
«aluno-tipo» o tal «cliente-ideal» pelo que a presença, a participação de grupos com
comportamentos diferentes é por vezes muito perturbadora do seu funcionamento. A
distância entre as propostas, as exigências da escola e o tipo e nível de saberes e
interesses dos alunos é demasiado grande. As linguagens e os interesses divergem
demasiadamente. Assim se poderá em parte explicar o pesado insucesso que acontece

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na escola actual nos meios rurais, nos meios suburbanos, nos alunos ciganos, cabo
verdeanos, angolanos, guineenses, etc. etc.…

E, no entanto, cada um destes grupos de crianças é detentor de saberes, de


tradições específicas que os outros grupos não têm. Todos se posicionam face aos
problemas do quotidiano de uma maneira própria. Não pode portanto deixar de se
pensar como será enriquecedor para todos que o “outro-diferente”, em vez de ser
considerado estranho ou ignorante, seja lido como alguém que tem muito a desvendar
para os restantes elementos do grupo, que tem uma contribuição própria para a
resolução de questões de aprendizagem com que se defrontam.

Talvez em parte porque a consciência da heterogeneidade dos alunos assusta e


incomoda, por ser uma fonte de desafio a que é difícil (e trabalhoso) dar resposta,
talvez porque todos nós fomos socializados, desde há longos anos, a olhar os alunos
como «devendo» ser, todos idênticos (em termos de comportamentos e saberes),
(Cortesão, L., Pacheco, N., 1192) uma boa parte dos professores está afectada de uma
dificuldade de se dar conta, de «ver» as cores do arco-íris sociocultural presente na sua
sala de aula. Sofre daquilo que em trabalhos anteriores se designou por «daltonismo
cultural» (Cortesão, L., Stoer, S., 1993) e vê a turma nos tons cinzentos da
«normalidade». Assim sendo, tudo o que é diferente poderá passar a ser olhado como
anormal, mesmo como errado.

Ora o olhar daltónico e o simbólico «vidro» organizativo da «normalização» a


que atrás se fez referência, e que, à semelhança do vidro de garrafa que contém o
vinho espumoso, aprisiona os alunos em grupos-turmas que «deverão» ser
homogéneas, estes dois factores associam-se fazendo com que se torne mais difícil
usufruir da riqueza da diferença na relação professor-aluno. Dificultam aquela relação
que nasce do conhecimento mútuo, da valorização do outro-diferente, do diálogo
autêntico professor e aluno, do entendimento de interesses, da compreensão da
aceitação de ignorância, de dificuldades, de medos, de problemas e também da
valorização de saberes de cada um. E sobretudo o olhar daltónico e o «vidro
organizativo» da normalização constituem um impedimento para o crescimento sócio-
moral e o correspondente estímulo intelectual que poderá ocorrer nas redes de
colaboração, interajuda, solidariedade que se podem estabelecer entre diferentes. Os
alunos não poderão também consciencializar a incompletude da sua cultura.

Ao contrário desta situação, o professor que conhece os seus alunos, que se dá


conta da diversidade, poderá recorrer a propostas flexíveis e variadas de ensino-
aprendizagem para que os diferentes grupos de alunos, com diferentes características,
diferentes saberes, tenham possibilidade de usufruir do processo de aprendizagem em
curso. (Os bons professores também, instintivamente de certo modo sabem isto e
mudam a maneira de ensinar conforme o tipo de dificuldades e interesses e saberes
que conseguem detectar nos seus alunos).

Repare-se, no entanto, que este último tipo de preocupação e até de práticas, já


do conhecimento de alguns professores, corresponde a uma significativa alteração
teórica e portanto a uma adopção de propostas de ensino-aprendizagem de natureza
diferente (teoria sócio-institucional).

Ele corresponde a um posicionamento em que:

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— se aceita a existência da heterogeneidade e, numa atitude positiva, se procura
conviver e tirar partido dela;

— as opções feitas ao nível do processo de ensino-aprendizagem são «pilotadas»


pela identificação dos tipos de aluno presente na sala de aula;

— a escola adapta-se também ao aluno, em vez de forçar exclusivamente o


aluno a adaptar-se à acção pedagógica, aos valores e normas que informam
habitualmente o funcionamento da escola.

E realmente, o que (através de trabalhos que têm vindo a ser realizados) parece
ser possível constatar é que, quando estas preocupações informam o processo de
ensino-aprendizagem, acontece geralmente que o sucesso escolar é mais generalizado,
menos limitado aos grupos socioculturais mais privilegiados que frequentam a escola.
Assim sendo poderá admitir-se que:

— uma adequada gestão da heterogeneidade constituída através do


posicionamento do professor e também da organização de turmas poderá
contribuir para um maior sucesso escolar dos diferentes tipos de alunos e
portanto para uma maior aproximação do que se designa por escola
democrática;

— numa escola em que esta gestão não é feita, em que a diversidade não é
valorizada e rentabilizada, «sobrevivem» claramente com mais facilidade os
alunos que, pela sua origem sócio-cultural, estão naturalmente mais próximos
dos saberes, dos valores e das normas que vigoram e que são importantes na
escola. E, arbitrariamente, esta situação é lida como sendo resultante de estes
alunos serem detentores de mais qualidades, possuidores de mais mérito
(escola meritocrática).

Este tipo de considerações poderá contribuir para fundamentar opções, para


consciencializar até que ponto decisões que se tomam a nível da forma como o
trabalho na escola se organiza, poderão ter efeitos muito importantes no significado e
nos resultados de todo o processo. Mas o que se reveste de especial melindre é o facto
de acontecer que decisões, tomadas com a melhor das intenções, poderem contribuir
para afastar do Sistema Educativo alunos que os professores, por princípio, gostavam
de ajudar a progredir. Este pode ser, entre outros, o caso do modo como se organizam
as turmas

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II - ORGANIZAÇÃO DAS TURMAS: UM PROCESSO INÓCUO?
Os professores que trabalham em escolas sabem bem que, com frequência há
turmas que são referidas como «boas», que há turmas «médias» (que são as que se
consideram «normais») e também «turmas problema». Esta situação é tão frequente,
tão familiar que quase se torna difícil identificar como situação problemática a
existência de turmas de diferentes qualidades. E, no entanto, é muito importante tentar
descobrir porque razão se juntaram na mesma classe tantos alunos «bons» ou tantos
alunos «maus», mesmo que não tenha havido a intenção de agrupar na mesma sala
pessoas com características semelhantes. É desafiante descobrir por que se agiu de
forma a reduzir a riqueza da heterogeneidade.

Esta questão sugere que talvez seja interessante proceder a uma listagem de
algumas das diferentes formas a que se recorre para organizar uma turma e tentar
interpretar os significados de cada uma delas. Passando em revista algumas dessas
formas a que se lança mão para agrupar os alunos (sobretudo, mas não só, as dos
primeiros anos de cada instituição) poderá referir-se que é frequente organizar as
turmas em função:

A — das prioridades expressas pelos encarregados de educação que primeiro


apresentam os seus pedidos na escola;

B — da idade dos alunos (juntando os que têm aproximadamente a mesma


idade);

C — da zona de origem atendendo portanto a relações de vizinhança ou de


amizade;

D — dos grupos que vêm de outras escolas e que têm ligações fortes que não
querem quebrar;

E — do tipo de percurso académico anterior (êxitos, repetências etc.…);

F — dos grupos sociais e étnicos;

G — das opções que fazem relativamente à frequência de algumas disciplinas;

H—…

Ao conversar com professores e com instituições que adoptaram ou adoptam um


(ou até mais do que um) destes processos, poderá verificar-se que, em todos os casos é
possível, geralmente, legitimar essas opções através de argumentos aparentemente
muito válidos. É, felizmente, pouco frequente que as razões que presidem à
organização das turmas sejam exclusivamente orientadas de modo a que,
conscientemente, se queira somente privilegiar alunos que, por razões várias, à partida
parecem apresentar-se em melhores condições de progredir melhor no sistema, ou
ainda para que um dado professor fique com um grupo de alunos que dê menos
trabalho e mais rendimento. Distanciar-se do empenhamento, da solidariedade para
com alguns grupos de crianças e adolescentes cujo desenvolvimento tanto depende
dos professores é uma situação que acontece, é certo, mas não é, felizmente, prática
corrente. O que acontece com mais facilidade é optar-se por certos critérios de

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organização, sem que se tenha consciência dos efeitos uniformizadores e selectivos
que eles poderão ter. Ora isto pode ser evidenciado se se reflectir um pouco sobre cada
uma das formas de organização da turma a que atrás se fez referência.

Mas para proceder a esta análise é também preciso ter presente que, se os alunos
que têm mais sucesso são habitualmente os que foram socializados na família e na
comunidade com níveis socioculturais idênticos aos que prevalecem na escola,
também é verdade que na relação escola/encarregado de educação ocorre, de modo
semelhante, o mesmo tipo de problema: há pais que estudaram outros que não.
Sobretudo no Ensino Básico, há pais que, por origem social, partilham os valores da
escola. Assim sendo, eles conhecem as suas regras de funcionamento e estão
conscientes de quanto as múltiplas aprendizagens (mais ou menos explícitas) que a
escola exige são outros tantos passaportes necessários para progredir no Sistema
Educativo e para ajudar a aceder a uma dada profissão e ao mercado de emprego em
que estão interessados. Mas também há pais que vivem na urgência de resolver o
imediato, o quotidiano, pressionados por dificuldades de toda a ordem, que não fazem
planos a longo prazo, de cujos horizontes de expectativas estão mesmo ausentes
inúmeras opções de vida possíveis para outros. Há grupos em que não existe,
normalmente, qualquer pressão social para ir à escola (é o caso de muitos ciganos por
exemplo). Há pais que não usam no quotidiano o mesmo tipo de linguagem que os
professores utilizam na escola, linguagem essa que é também usada para escrever os
documentos que lá circulam. Há pais que se exprimem de outras formas e para quem a
linguagem da escola é dificilmente inteligível. Pais que se sentem à vontade quando
vão tratar de questões que querem discutir nas instituições educativas que os seus
filhos frequentam, que sabem as regras que aí vigoram e se «mexem» com facilidade
neste ambiente. Há pais que se sentem desconfortáveis até inferiorizados na escola,
não tendo o à-vontade para exprimir e muito menos exigir coisas que às vezes
desejariam para os seus filhos. Há pais que, simplesmente não vão à escola, muitas
vezes porque ela representa um universo demasiado distante do seu para que nem
sequer lhes apeteça lá ir.

O que atrás se disse constitui simplesmente um pequeno conjunto de exemplos


de condições que fazem com que a capacidade de gestão e afirmação dos próprios
interesses (e a própria consciência de quais são esses interesses) esteja desigualmente
distribuída pelos diferentes tipos de pais. É certo que também há pais que apesar de
pertencerem a níveis culturais próximos dos que a escola aceita, por razões várias não
se interessam muito por o que se passa, a nível educacional, com os seus filhos. Mas
estes são em número menos significativo.

Considerando tudo isto, poderá ver-se que, não se pode analisar os efeitos para
os alunos das opções tomadas a nível da organização de turmas sem se tomar também
em linha de conta características dos encarregados de educação.

Considere-se então o caso A atrás mencionado em que se refere a possibilidade


de se organizarem turmas atendendo aos pedidos que primeiro são apresentados na
escola. Neste caso não será difícil verificar que se está a responder, sobretudo, aos
interesses de pais que sabem quando é que a escola começa a organizar as turmas, que
sabem qual é o horário que mais lhes convém, e que sabem que, por exemplo, as
turmas da manhã são as que têm, normalmente, professores com mais experiência.
Trata-se, sobretudo como é evidente, dos pais de classe média ou média alta. Assim

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sendo, ao organizar algumas turmas com alunos destes grupos e outras turmas com
crianças de grupos socioculturais cujos pais aparecem na escola, de uma forma geral,
mais tardiamente (e que pertencem a grupos que não partilham a cultura da escola)
está-se a recorrer a um critério muito selectivo. No entanto, até parece justo atender a
solicitações de quem se manifesta primeiro.

Se, como é referido no caso B, se atender a critérios de idade, estará muito


provavelmente a juntar-se os alunos que tiveram percursos escolares idênticos (de
sucesso ou de insucesso). Ora, como vimos, esse sucesso ou insucesso é
desigualmente distribuído nos diferentes grupos socioculturais. Se se atender à idade
em que pela primeira vez os alunos entram na escola, vários estudos evidenciaram, de
forma inequívoca, que os pais cuja cultura é próxima da da escola (e pelas razões já
atrás discutidas) têm maior tendência a inscrever os seus filhos, logo que a lei o
permite. Ora essa pressa em matricular as crianças na escola não é partilhada por
todos os grupos socioculturais minoritários. Daí resulta que, sobretudo no Ensino
Básico, as turmas organizadas com alunos mais novinhos são geralmente constituídas
por crianças oriundas de meios mais favorecidos, e as organizadas com alunos mais
velhos reúnem predominantemente os que pertencem a grupos mais desfavorecidos.
No entanto, este tipo de critério poderá ser defendido por professores e escolas
animados das melhores intenções, atendendo a que podem ocorrer (e por vezes
ocorrem) certos problemas ao juntar, por exemplo, crianças pequenas com
adolescentes ou até jovens, cujos problemas, interesses e comportamentos são tão
diversificados.

Ao atender à zona ou à escola de origem (caso C e D) é evidente que, com


grande probabilidade, se tende a manter reunidos alunos dos mesmos grupos
socioculturais. Todos sabemos que há zonas das cidades onde predominam bairros
degradados, outras onde há, sobretudo, apartamentos de luxo ou vivendas etc.… A
escolha por zona de origem tende a manter na escola esta distribuição. No entanto,
esta opção para organizar as turmas poderá ser feita em nome do desejo de não
quebrar solidariedades e amizades já estabelecidas, procurando não introduzir mais
um abalo à já traumática experiência de mudança de instituição.

Atender ao tipo de percurso académico anterior (caso E) também contribuirá


para juntar na mesma turma grupos com origens socioculturais (e com origem de
classe) semelhantes. Não será difícil perceber isto, se se atender a que, em grande
parte e pelas razões atrás expostas, o sucesso ou insucesso se distribuem de modo
diferente nas crianças de meios socioculturais diferentes. Assim sendo as turmas
acabarão por ser organizadas muito em função da classe social de origem.

Atender aos grupos sociais, a dificuldades de aprendizagem e até a etnias (caso


F) muito provavelmente poderá contribuir para manter estes grupos fechados sobre si
mesmo, reforçando situações de sucesso mas também de insucesso, estimulando a
autoconfiança de uns, inferiorizando e destruindo a auto-imagem de outros (os
minoritários). Mas até isto pode ser feito de um modo bem intencionado em nome de
uma tentativa de proteger os grupos, até mesmo os grupos minoritários, e de permitir
que as redes de solidariedade, que às vezes existem no interior deles, funcionem
também no interior da escola. Além disso afigura-se a muitos professores que
(sobretudo em casos mais extremos) é mais fácil abordar as especificidades destes
grupos e proporcionar-lhes uma melhor aprendizagem se eles estiverem reunidos na

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mesma classe. É assim que, na melhor das intenções, se vê, em algumas escolas,
organizar turmas de ciganos, de cabo verdianos, de alunos com necessidades
educativas especiais ou de crianças oriundas de bairros degradados, alegando que
assim, o professor se pode dedicar mais a ajudá-los a ultrapassar as suas dificuldades.
(Repare-se como a teoria do handicap sociocultural informa esta forma de actuar).

Até mesmo, em anos um pouco mais adiantados, o recurso às opções que os


alunos fazem para organizar as turmas e que parece ser um critério tão neutro, tem
alguns reflexos na constituição de grupos homogéneos, embora seja uma opção que se
possa justificar em função da organização dos horários. Senão repare-se: por exemplo,
com frequência verifica-se que, os que escolhem o francês como segunda língua são,
na generalidade, os filhos de emigrantes em países francófonos. E estes constituem,
como é evidente, um grupo social bastante homogéneo.

Assim pode ver-se que bastou passar em revista alguns dos critérios usados na
organização de turmas para se compreender que nenhum deles é neutro. Embora seja
possível encontrar razões que tentam legitimar cada um desses critérios, é importante
que se consciencialize que todos podem ter claros efeitos de segregação social. São,
além disso, critérios sempre homogeneizantes cujos efeitos, como se viu, são mais ou
menos defensáveis mas a que é necessário estar atento. Sobretudo, se se encarar a
heterogeneidade, como se tem vindo a tentar evidenciar, como uma fonte de
desenvolvimento e enriquecimento mútuo.

É aliás de salientar que os critérios adiantados oficialmente para organizar as


turmas já tomam em consideração, embora de forma prudente, muitas destas questões
(V. Documento de Lançamento do Ano Lectivo — LAL, M. E., 1993/1994
«Constituição de Turmas», Módulo 4, Tema 5, pp. 85 a 91). Afirma-se, por exemplo
em relação à idade, que «não devem constituir-se turmas apenas com alunos de 10, 11,
12, e 13 anos»… (acrescentando no entanto, em atenção aos problemas que daí podem
decorrer, que também não se deve «incluir numa turma alunos de níveis etários
diferenciados»). Afirma-se também que se deve proceder «à integração de alunos
reprovados e retidos em turmas de alunos do mesmo nível etário» e que não se devem
concentrar «alguns reprovados numa mesma turma». Aconselha-se ainda que o
«número de alunos do sexo feminino e sexo masculino deve ser sensivelmente igual».

Estas recomendações parecem revelar uma certa preocupação oficial de evitar a


constituição de turmas «rotuláveis» e de promover alguma mistura de alunos com
características de certo modo diferentes.

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III - ORGANIZAÇÃO DE TURMAS E GESTÃO DA
HETEROGENEIDADE
De acordo com o que foi anteriormente discutido, poderá admitir-se que, na
generalidade, os critérios a que se recorre para organização das classes, podem
constituir um significativo contributo para uma maior ou menor homogeneização do
tipo sociocultural dos grupos-turma.

Uma vez consciencializada esta situação e tal como foi já sugerido na


introdução deste trabalho, duas questões se levantam:

— Terá realmente lugar, como pensam algumas escolas e alguns professores,


uma maior facilidade e uma maior rentabilidade (a nível do processo de
apendizagem), quando se trabalha com grupos homogéneos, ou, pelo
contrário, a variedade presente no grupo classe poderá constituir uma fonte
de riqueza para a concepção e concretização desse mesmo processo?

— Se, como pensam outras escolas e outros professores, se admite que a


heterogeneidade se pode apresentar como situação potencialmente mais rica
para o processo de ensino-aprendizagem, como gerir essa heterogeneidade?
Será que essa gestão é possível nas condições em que actualmente trabalham
os professores nos diferentes níveis de ensino? E estarão as escolas e os
professores preparados para este tipo de trabalho?

As respostas que poderão tentar adiantar-se a estes dois tipos de problema são
de natureza diferente. A primeira está, de certo modo relacionada com o
posicionamento ideológico que se assume face à educação. A segunda depende da
resposta dada à primeira, mas também em boa parte da combatividade e imaginação
da escola e dos professores, bem como de decisões a tomar a nível das opções
metodológicas que se irão fazer. E aqui é necessário ainda considerar a importância de
poderem ser tomadas algumas decisões a nível organizativo decisões essas que
dependem sobretudo de instâncias mais centrais do Ministério e que, se fossem
consideradas, constituiriam, como se verá adiante, um significativo impulso para que
a heterogeneidade seja aceite e rentabilizada na prática educativa.

Quanto às opções educativas-ideológicas a que atrás se fez referência é


importante notar que, sobretudo ao nível do Ensino Básico, se o que se pretende é
essencialmente, que os alunos dominem conteúdos curricularmente considerados
como relevantes, se o objectivo único é que eles vençam as barreiras construídas pelos
processos de avaliação normativa e sumativa, sobretudo se se admitir como aceitável
que essa aquisição de saberes seja conseguida, predominantemente, pelos grupos que,
sócio-culturalmente, estão, à partida, mais próximos da cultura que domina na escola,
então é talvez possível admitir-se que se queira tentar trabalhar com grupos
homogéneos. (Mas nem isto constitui uma opção que se faça com segurança, pois que,
procedendo assim, à partida, se excluem os alunos da possibilidade de aprender e de
se enriquecer com o outro-diferente).

Se, porém, a par dos saberes curriculares, se está igualmente interessado em


desenvolvimentos vários do tipo sócio-afectivo, tais como a capacidade de trabalhar
em grupo, a solidariedade, a interajuda, a aceitação do outro-diferente, a consciência

11
de que ninguém sabe tudo (da incompletudo da nossa cultura de que se falava na
introdução); se não se aceita, com certa passividade, que grupos de alunos tenham a
sua auto-estima e a sua auto-confiança por vezes gravemente afectadas por estarem
reunidos em turmas reconhecidas como sendo as dos alunos mais fracos, mais
problemáticos2, então será de tentar trabalhar com turmas heterogéneas e tentar
usufruir da riqueza contida nessa heterogeneidade, mesmo com todas as dificuldades
que isso possa acarretar. Não se pode, além disso, esquecer quanto o clima de
interajuda, de abertura afectiva que é possível criar numa sala de aula com alunos
diferentes pode ser fundamental, mesmo para o desenvolvimento cognitivo, de todos
até dos mais desenvolvidos. Os trabalhos, ultimamente muito em voga, que valorizam
a relação entre o afecto e a cognição também parecem poder apoiar esta afirmação.

Como se poderá facilmente ver, esta opção será feita, tal como atrás se afirmou,
bastante em função de posicionamento de base face à educação. O que acontece,
muito frequentemente, é que os professores, mesmo que situando-se ideologicamente
na segunda opção, se angustiam face ao trabalho a desenvolver, quando têm de lidar
com grupos muito heterogéneos porque, se a diversidade é muito grande, a tarefa a
enfrentar é realmente difícil. E há medo de não dar a atenção devida aos alunos mais
desenvolvidos, há medo de não ajudar de forma adequada os que tem mais
dificuldades. É verdade que, se a heterogeneidade é mesmo muito grande, é real a
dificuldade de atender a todos, sobretudo se se considerar que muitas vezes os
professores trabalham em turmas com muitos alunos, que o material não é suficiente,
que os programas são, com frequência, desajustados e sobretudo demasiado longos.
Às vezes lutar, contra tudo isto surge face a alguns professores empenhados como
constituindo um conjunto de problemas quase intransponível. Eles pensam, com
angústia, que não conseguem responder com o seu trabalho ao nível dos seus critérios
de exigência, do seu desejo de atender, de desenvolver, todos os tipos de alunos que
têm na sua frente.

Porém, ao discutir este tipo de problemas, é importante considerar, que se está a


analisar um processo situado num complexo sistema, em que as interacções são muito
grandes e as questões de poder são muito significativas. Não é pois de esperar que um
elemento desse sistema, isoladamente, resolva integralmente todos os problemas
existentes. Nesse sentido, é de salientar que a escola (e os professores) veriam as suas
dificuldades de gestão da heterogeneidade muito diminuídas se fossem tomadas
algumas medidas, por exemplo, ao construir escolas e ao estabelecer espaços para as
diferentes actividades3. Outras medidas, mais simples já constituem até uma rotina em
alguns países e algumas delas até já foram objecto de experiências em Portugal4. Uma
das medidas que seria possível tomar, consistiria em organizar os horários de forma
que, à mesma hora duas turmas tenham a mesma disciplina. Isto permitirá que essas
duas turmas se juntem e os trabalhos, com este grupo maior, sejam geridos de forma
articulada por dois professores. Deste modo é mais fácil no interior do grupo-turma

2
Recordem-se também das experiências de Rosenthal que evidenciaram quanto o que se espera (de
bom ou de mal) de um aluno acaba por ter influência no aproveitamento e no desenvolvimento que esse
aluno vai ter (Rosenthal, R., 1968).
3
Mas é importante notar que às vezes esses espaços mais amplos existem e não são devidamente
rentabilizados. Outras vezes também acontece (como é o caso de muitas escolas de área aberta do
Ensino Básico) que eles são mesmo destruídos.
4
V. Revista «Rumos» da Porto Editora de Fevereiro 97 em que vem descrita uma experiência destas.

12
organizar os trabalhos de forma mais variada mais diferenciada, mais criativa, de
modo a poder responder melhor aos diferentes tipos de alunos presentes. A
colaboração entre professores, a articulação a nível dos planos de trabalho, a gestão de
materiais produzidos e postos à disposição de todos, o empenhamento em projectos
comuns são também alguns dos exemplos que podem contribuir para que este tipo de
problemas se vá resolvendo.

Não cabe no âmbito deste texto uma discussão suficientemente alargada deste
tipo de problemas. Há muitas publicações que apresentam e analisam metodologias
possíveis de utilizar e que poderão ajudar mais eficazmente o professor no seu
trabalho bem como dispositivos pedagógicos a que poderão recorrer (Cortesão, L., e
Stoer, S., 1996). Nesse sentido organizou-se no anexo um conjunto de indicações
bibliográficas, que poderão ser úteis. Mas é muito importante salientar que, enquanto
o sistema não adopta algumas medidas gerais de organização, a urgência dos
problemas a enfrentar valoriza especialmente as práticas e as atitudes dos professores
e das escolas que tentam não marginalizar, logo à partida, alguns dos seus alunos.
Mesmo antes de o sistema tomar essas medidas, as escolas ao organizar os horários e
os professores ao discutirem entre si e ao estruturarem as suas actividades, ao
trabalharem com os alunos, já poderão fazer alguma coisa. Sobretudo se se for
instalando a consciência de que segregar os alunos, organizá-los por grupos de nível
é um contributo para que os melhores sejam cada vez melhores e os que têm mais
dificuldade tenham cada vez mais dificuldades.

No entanto, só para não deixar esta questão suspensa, permitindo que, depois
das questões ventiladas, a angústia dos professores seja ainda maior, poderão sugerir-
se algumas linhas, embora muito gerais, de orientação metodológica.

Recordando-se, como se disse no início deste texto, que o toque libertador da


campainha que anuncia os intervalos (ao permitir a explosão de energias e a exibição
de actividades múltiplas dos alunos) permite também que seja possível descobrir, com
mais facilidade, diferentes características das crianças e dos adolescentes não visíveis
até então, será fácil admitir que, qualquer estratégia que devolva aos alunos a
possibilidade de estarem activos poderá contribuir para que seja mais fácil colher
dados sobre eles. Poderá portanto facilitar o estabelecimento de uma mais profunda
relação com aquele professor que se interessa pelos seus alunos, que deseja debruçar-
se sobre eles e que sente ser importante passar do nível do simples reconhecimento da
sua presença para o conhecimento de quem eles são. Assim sendo, não será muito
polémico admitir que o ensino expositivo, mesmo que se trate de uma excelente
explicação por parte do professor, não favorece o conhecimento do aluno e a relação
professor-aluno. O professor dirige-se «à turma» em geral, dirige-se portanto a uma
entidade passiva e abstracta que corresponde, quando muito, a um pequeno grupo
presente na sala e que, tradicionalmente, se teima em considerar como
correspondendo a todos os que estão presentes. Mas, muitos dos que lá estão não
pertencem a esse grupo e são assim alienados, de forma mais ou menos violenta, do
processo de aprendizagem.

Por isso, muitos professores sentem a necessidade, de quebrar de tempos a


tempos a exposição com perguntas feitas aos alunos, ou então solicitam aos alunos
que os interrogam, se não entenderem alguma coisa. Fundamentalmente, o efeito desta
estratégia reside em tentar revitalizar a ligação ameaçada pela distância que tem lugar

13
em situações de exposição, visa, de certo modo, comunicar com o outro-diferente que
não entende, de imediato, a mensagem do professor. Mas é preciso notar que este tipo
de actuação vai (quase só) favorecer quem é capaz, quem tem coragem de perguntar, e
que são sobretudo os que dominam razoavelmente os códigos de comunicação que
vigoram na escola.

A actividade produtiva dos alunos não é, aliás, fácil de conseguir senão através
de um trabalho que se lhes apresenta como minimamente interessante. Assim sendo, o
professor tem de descobrir formas de abordar as questões que sejam mais estimulantes
do que a simples «explicação» das matérias. Não se trata de «motivar» artificialmente
os alunos. Trata-se de descobrir modos de ir ao encontro de um potencial que está lá,
dentro de cada aluno, às vezes bem oculto por detrás do desinteresse, de aparentes
incapacidades ou até de comportamentos perturbadores. Por isso se tem defendido que
o professor tem de ser um pouco um investigador que olha atentamente os seus alunos
com um olhar «não daltónico» (Cortesão, L., e Stoer, S., 1996). Tem de ser um
professor que tenta ler nos diferentes comportamentos, nos interesses, desinteresses,
nas aprendizagens, nas dificuldades, tomando tudo isto como indicadores preciosos
para que seja possível pilotar as suas propostas de ensino-aprendizagem estabelecer o
necessário contacto intelectual e afectivo com os alunos e produzir materiais e
estratégias adequadas aquela situação, aqueles alunos — os dispositivos pedagógicos
(Cortesão, L., e Stoer, S., 1996). Isto é aliás o que uma boa avaliação formativa pode
oferecer ao trabalho do professor (Cortesão, L., 1995).

O trabalho desenvolvido através de pequenos projectos em que a iniciativa é


muito dada aos alunos, os pequenos trabalhos de pesquisa na aula ou na escola, o
recurso a simples consultas bibliográficas feitas no grupo, turma ou na biblioteca para
desenvolver um tema dado, os debates organizados sobre temáticas importantes com
alunos preparados para o efeito ou até com convidados exteriores à escola, a utilização
de actividades espontâneas dos alunos (por exemplo os jogos) como suporte para
abordar as matérias previstas no currículo, o recurso a histórias pessoais ou a
genealogias como referências que concretizam e dão sentido a aprendizagens várias
previstas no currículo, a organização de campanhas encabeçadas por alunos por
exemplo sobre problemas do meio que solicitam intervenção; a organização de
exposições, são alguns exemplos de situações permitem abordar os conteúdos
programáticos e que, simultaneamente favorecem a actividade, o empenhamento,
portanto o desenvolvimento e o relacionamento entre todos. São além disso, situações
que, pondo o aluno em actividade, permitem ao professor que o conheça um pouco
melhor. E, sobretudo, são situações em que alunos diferentes podem rentabilizar
diferentes saberes, diferentes capacidades descobrindo por vezes em si potencialidades
até então ignoradas. São portanto também situações que permitem gerir e rentabilizar
a heterogeneidade muito mais difícil de atender numa turma que se deseje passiva.

Todas estas actividades lucrariam, evidentemente, em ser feitas num clima de


interdisciplinaridade, lucrariam em ser contempladas no plano de actividades da
escola o que, para além do entendimento entre professores, será muito facilitado por
uma conveniente organização de horários. Mas podem, em «ponto pequeno» ser feitas
mesmo só no interior da sala de aula, a propósito dos conteúdos programáticos que
têm de ser abordados. E evidentemente, são actividades a desenvolver (sobretudo no

14
E. Secundário) também aproveitando a Área Escola que tão pouco rentabilizada é,
habitualmente, e que tão rica poderia ser.

15
IV - CONSIDERAÇÕES FINAIS
De tudo o que até aqui foi afirmado, o que, eventualmente poderá ser mais
relevante para se poder enfrentar com lucidez o problema da organização de turmas
será talvez que:

— qualquer que seja o critério escolhido para fazer essa organização, ele terá,
muito provavelmente, efeitos (não esperados) que poderão contribuir para a
constituição de turmas sócio-culturalmente homogéneas;

— a heterogeneidade dos alunos, que é frequentemente tida pelo professor como


um problema, é na realidade uma riqueza que importa aprender a rentabilizar.
Mas para isso é preciso conhecer (realmente) os alunos.

Se estas duas premissas forem aceites como válidas, poderá aceitar-se também
que a opção residirá na constituição deliberada de turmas heterogéneas, embora seja
talvez prudente que essa heterogeneidade não seja excessiva (por exemplo em termos
de idades demasiado díspares).

Assim sendo, o investimento terá de fazer-se no sentido de se aprender a gerir e


a rentabilizar essa heterogeneidade. Por tal razão, como já atrás se disse, se junta uma
lista com a indicação de alguns livros e textos que poderão apoiar o professor nesse
sentido.

Tudo isto poderá parecer difícil, mas é, apesar de tudo, possível em maior ou
menor grau. Para além de medidas gerais que poderão ser decididas a nível central do
Sistema, depende em boa parte da forma como a escola se consegue organizar, da
relação que se vai criando. Depende ainda da alegria da imaginação da argúcia da
atenção de todos, especialmente dos professores. Depende também, em boa parte, do
professor se posicionar como mero funcionário executante de orientações do sistema
educativo, ou de se considerar também como agente de intervenção sociocultural que
procura gerir a sua margem de manobra e a articula com orientações que recebe do
Centro. Depende da escola se considerar um espaço que pertence estrutural e
funcionalmente a um sistema mais vasto (que portanto tem de se limitar a agir como é
habitual agirem as instituições periféricas que se limitam a executar ordens) ou de se
posicionar como instituição que, apesar de tudo, tem um espaço de manobra que lhe
permite certa autonomia funcional e que pode tentar inventar (dentro de certos limites)
soluções mais interessantes, mais adequadas para problemas que considera serem
cruciais. Para além disso o professor é, também por essência, alguém que deseja
abordar com imaginação o seu trabalho, sem o que cairá numa rotina que lhe torna a
sua vida profissional bem menos interessante. Ser um agente, pertencer a uma
instituição, que criativa e corajosamente colabora no crescimento, no desenvolvimento
de um leque mais alargado de crianças de adolescentes ou de jovens, que contribua,
mesmo que pouco, para que haja maior justiça social, é um desafio que justifica estar-
se na profissão.

16
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Campos, B. P. (1996). Editorial. Inovação, 9, 1-2, 5-6.

Cortesão, L. e Pacheco, N. (1992). Interculturalismo e Realidade Portuguesa.


Inovação, 4, 2-3, 33-34.

Cortesão, L. (1995). Avaliação Formativa, que desafios? Porto: Ed. Asa.

Cortesão, L. e Stoer, S. (1996). A interculturalidade e a Educação Escolar.


Inovação, 9, 1-2, 35-51.

Cortesão, L. e Stoer, S. (1997a). Investigação-Acção e Formação de Professores


para uma Educação Inter-Multicultural. In M. R. Santos & A. Carvalho
(org.), Correspondência Escolar: As Classes de Descoberta. Lisboa:
Ed/Gulbenkian (no prelo).

Cortesão, L. e Stoer, S. (1997b). Investigação-Acção e a Produção de


Conhecimento no Âmbito de uma Formação de Professores para a
Educação Inter-Multicultural. Educação Sociedade e Culturas, 6, 1997.

Jean, G. (1981). Écoles. In A. Beaudot, Sociologie de L’Ecole. Paris: Dunod.

Rosenthal, R. e Jacobson, L. (1968). Pygmalion in the Classroom. New York:


Holt Rineart and Winston.

17
ANEXO - ALGUNS LIVROS E ARTIGOS RELATIVOS A PRÁTICAS
DOCENTES ATENTAS À HETEROGENEIDADE
Araújo, H. C. e Stoer, S. (1993). Genealogias nas Escolas: A capacidade de
nos surpreender. Porto: Ed. Afrontamento.

«Situado no que muitas vezes hoje se distingue como o “triângulo disciplinar”


(Antropologia, História, Sociologia), este livro propõe-se como dispositivo
pedagógico. Baseado no que é denominado o processo das genealogias, torna-se
surpreendente a sua capacidade de, ao mesmo tempo, 1) envolver professores, alunos
e pais num projecto de investigação que alarga o âmbito da educação escolar e 2)
promover não só a compreensão da diversidade cultural mas também a valorização
daquelas culturas que se afastam da norma imposta pela escola oficial.

Tendo como objectivos principais:

a) dar a conhecer a experiência pedagógica e de investigação das


genealogias construídas na escola de Viatodos;

b) divulgar a metodologia das genealogias como instrumento/processo


didáctico;

c) promover uma escola para todos.

A relevância e a utilidade deste livro, no âmbito da Reforma Educativa em


processo, tornam-se imediatamente evidentes. O dispositivo pedagógico constituído
pelo processo das genealogias assume-se como central ao projecto educativo de cada
escola, potencializando um aproveitamento aprofundado e enriquecedor tanto da
Área-Escola como da formação contínua.» Araújo, H. C. e Stoer, S. (1993). (extracto
do texto da contracapa).

Bellém, J. et al, (1993). Apoios Educativos. Acabam Reprovações? Lisboa: Ed.


Fragmentos, col. Educar.

Este livro reúne planificações, metodologias e exemplos de instrumentos de


trabalho que poderão ser utilizados em actividades de ensino/aprendizagem de
diferentes áreas disciplinares. Trata-se de materiais que visam proporcionar uma
diferenciação do ensino a nível do 1.o e 2.o ciclos do Ensino Básico.

Cortesão, I. e Malafaia, R. (1999). Olhar e Melhorar a Escola. Porto: Ed. Asa.

«Com este pequeno livro pretendem as autoras contribuir para que os


professores possam, de algum modo, ajudar os alunos e sentirem-se bem na Escola, o
que não só facilitará o seu sucesso, como os ajudará a terem mais saúde, no sentido
lato, tal como a concebe a O. M. S.: “Saúde — estado de completo bem estar físico,
mental e social”.

18
Baseadas na Pirâmide de Maslow, dão sugestões para o embelezamento da
Escola, para o rastreio de perturbações de ordem física, tantas vezes causa de
insucesso escolar. Propõem actividades que sensibilizem a comunidade escolar para a
importância da alimentação racional.

Finalmente apresentam um conjunto de textos cuja discussão com os alunos


poderá contribuir para o seu desenvolvimento sócio-moral.» (extracto do texto da
contracapa)

Cortesão, L., Amaral, M. T., Carvalho, J., M. I., Casa Nova, M. J., Lopes, P.,
Monteiro, E., Ortet, M. J. e Pestana, I. (1995). E Agora Tu Dizias Que…, Jogos e
Brincadeiras Como Dispositivos Pedagógicos. Porto: Ed. Afrontamento.

«Sugerimos-lhe que use este livro em primeiro lugar para ter prazer com ele.
Folheie-o, veja os desenhos e fotografias, as descrições dos jogos e recue através dele
até ao tempo em que se alvoraçava com a “cabra-cega”, competia através da
“macaca”, em que se divertia e emocionava com as “escondidas”, em que punha toda
a sua habilidade, força e sedução no jogo do “bom-barqueiro”.

Folheie-o e veja como as crianças de hoje têm tantas coisas em comum com a
criança que outrora o leitor também foi, como elas também se divertem, representam,
se exercitam e deleitam, tal como noutros tempos todos nós fizemos.

Mas estude-o também porque, através dele, talvez agora como educador e ou
como professor, encontre neste texto sugestões de algumas formas de entender melhor
os seus alunos e os grupos a que pertencem e formas de lhes oferecer um ensino que
vá mais ao encontro das suas características, interesses e necessidades. E também
porque talvez encontre nele algumas sugestões de modos de fortalecer uma relação de
cooperação com as famílias dos alunos, ajudando ao mesmo tempo os estudantes e
seus familiares e compreender que os saberes de que são portadores são também
importantes para a escola.» Cortesão, L., et al, Texto da contracapa.

Cortesão, L. (com colaboração de Fátima Antunes, Carlos Ferreira, Teresa


Novais e Adriano Silva) (1994). Quotidianos Marginais «Desvendados» pelas
Crianças. Educação Sociedade e Culturas, 1, 63-87.

«Este trabalho pretende contribuir para evidenciar como histórias contadas por
crianças constituem, de entre outros, um material interessante para tentar aceder a uma
compreensão de característica que informam o quotidiano dessas mesmas crianças. No
presente caso, trata-se de um grupo de meninos brancos e ciganos que vivem em
bairros degradados, em situação quase de “guetto” sócio-cultural. Note-se que o facto
de identificar e compreender algumas características sócio-culturais dos grupos com
que trabalho constitue o primeiro passo para que o professor consiga imaginar formas
de ensino-aprendizagem adequadas a esses grupos.»

19
Cortesão, L. (1995). Avaliação Formativa, como Desafios? Porto: Ed. Asa.

«Procura-se, numa primeira parte, analisar, brevemente o conceito de avaliação


formativa, fazendo-se também uma sucinta referência a alguns princípios e quadros
teóricos que tem informado este tipo de avaliação, através de uma muito rápida
discussão da evolução histórica sofrida no contexto epistemológico das ciências de
educação. Procura-se ainda analisar a validade da prática de avaliação formativa no
quotidiano da sala de aula. Num segundo texto, abordam-se de forma muito
pragmática, alguns problemas que se levantam a propósito da prática deste tipo de
avaliação na sala de aula.

Com ele procura-se analisar como se poderão concretizar situações de avaliação


formativa nas condições de trabalho com que um professor se defronta.»

Cortesão, L. e Torres M. A. (1995). Avaliação Pedagógica — Mudança na


Escola, Mudança na Avaliação. Porto: Porto Editora, 4.a Ed.

«Insucesso do aluno, da escola ou da sociedade? Mais do que atribuir


responsabilidades em maior ou menor grau ao aluno, à escola ou à sociedade, é
importante consciencializar toda a gama de factores que contribuem para que o
insucesso escolar não ocorra entre nós de forma tão dramática. É importante, ainda, ter
consciência de que a Escola tem a sua quota-parte de responsabilidade e que, neste
campo, todos nós, professores, podemos fazer algo que contribua para minorar o
problema. Não mais podemos encarar o insucesso escolar em termos fatalistas de
alunos dotados ou não dotados. Também não nos podemos permitir dizer que o
insucesso escolar é somente o resultado de uma fatalidade social face à qual nada nos
resta senão cruzar os braços. Se é importante a consciência do peso que tem toda a
gama de factores que, vindos do meio, incidem sobre o aluno, é vital a consciência de
que os educadores têm uma palavra a dizer, uma acção a desenvolver no projecto, de
transcendente importância, de ajudar os alunos a desenvolverem-se. E neste campo
nenhuma oportunidade se pode perder, e é preciso actuar depressa. Nesta perspectiva,
a Avaliação Pedagógica surge como um conjunto de atitudes e práticas críticas e
renovadoras que ultrapassam, de longe, o acto de classificar e que permitem à Escola
assumir-se não só como mais humana mas tam-bém como instituição com alguma
capacidade de intervenção no processo social.» Cortesão, L. e Torres, M. A., Texto da
contracapa.

Garcia, R. L. (1996). A Formação da Professora Alfabetizadora. S. Paulo:


Cortez.

«O grupo de pesquisa coordenado por Regina Leite Garcia vem actuando junto
às professoras alfabetizadoras, numa perspectiva oposta à da desqualificação do
magistério. Partem da convicção de uma capacidade e compromisso das professoras,
apesar de tudo e de todos. Se não por que continuariam no magistério recebendo
salários imorais, sujeitas a péssimas condições de trabalho e desacreditadas
socialmente?

20
Este grupo de pesquisadoras questiona a possibilidade de se “salvar” a escola
colocando antenas parabólicas e enviando Kits pedagógicos para todas as escolas do
país, como se a formação continuada de professores e professoras pudesse ser
garantida por aparelhos de televisão e de vídeo. Sua discussão sobre a formação de
professoras, no caso, alfabetizadoras, parte de outros postulados teórico-
epistemológicos e teórico-práticos.

Sua proposta é, pelo menos, instigante. Há que ler o livro, para concordar ou
discordar.

Mas há que lê-lo.» Garcia, R. L. (org.) (1996). Texto da contracapa.

Leite, C. (1996). O Multiculturalismo na Educação Escolar: Que Estratégias


numa Mudança Curricular? Inovação, 9, 1-2, 63, 81.

A partir da análise de reacções de professores à mudança que lhes é proposta ou


que com eles é negociada, defende-se o investimento numa formação de professores
que faça deles participantes activos no currículo por forma a encontrarem respostas
pedagógicas à diversidade cultural.

Leite, E., Malpique, M. e Santos, M. A. R. (1990). Trabalho de Projecto.


Porto: Ed. Afrontamento

«Muito será dito sobre o trabalho de Projecto, ao longo deste livro, mas
gostaríamos de evidenciar já alguns dos aspectos significativos da introdução desta
metodologia na Escola.

Assim:

— A transmissão do conhecimento, na aprendizagem escolar, dá lugar à


construção pessoal do saber, de forma dinâmica, interactiva, dando ao aluno
mais autonomia, mais responsabilidade, permitindo-lhe encontrar o seu
próprio caminho no labirinto do saber.

— Os alunos não só são activos na sua formação mas o saber vai responder a
necessidades profundas que advêm de respostas, ou vias de respostas, aos
problemas formulados e definidos pelos próprios grupos.

— A teoria e a prática, o sensível e o intelectual, são desenvolvidos de forma


integrada.

— Estimulam-se atitudes investigativas como observar, questionar, reflectir


sobre os dados colhidos… Criam-se hábitos de trabalho, aprende-se a
planificar, a gerir o tempo, a gerir os imprevistos…

— Aprende-se a ser imaginativo; solidário, implicado, ter opiniões, a criticar, a


ser atento ao mundo que nos cerca.

21
— Na relação Escola/Comunidade a exterioridade recíproca cede à interacção.
O trabalho de campo inerente a esta metodologia alarga o espaço escolar e
como tal abrem-se novos horizontes.

— Trabalhar em Projecto é dar ao professor um estatuto diferente na relação


educativa, é exigir-lhe uma visão mais sistémica do conhecimento, um papel
mais democrático nas suas relações com o saber e o poder, é ser “estimulador
de aquisição e procura do saber”, “motivador de aprendizagem”, é “ensinar a
aprender”. “O Projecto é projéctil”, está em movimento… mexe no
estabelecido, acorda o adormecido, provoca rupturas…» Leite, E., Malpique,
M. e Ribeiro dos Santos, M. (1989) p. 6. Neves, M. C. e Martins, M. (1994).
Descobrindo a Linguagem Escrita. Uma experiência de aprendizagem da
leitura e da Escrita numa Escola de Intervenção Prioritária. Lisboa: Escolar
Editora.

Este livro contém sugestões para aprendizagem da leitura e da escrita nos


primeiros anos de escolaridade através de metodologias que possam tornar estas
aprendizagens significativas para os alunos.

Ministério de Educação/D. G. E. B. S. (1992). Materiais de Apoio aos Novos


Programas Leitura e Escrita, 1.o ano, 1.o ciclo (Fevereiro de 1992).

Este livro contém uma colectânea de textos e de um conjunto de sugestões


metodológicas para que, atendendo à diversidade cultural, se possam desencadear
aprendizagens de leitura e da escrita no Ensino Básico, 1.º ano.

Ministério de Educação/D. G. E. B. S. (1992). Materiais de Apoio aos Novos


Programas, Leitura e Escrita, 2.o ano, 1.o ciclo.

Este livro reúne um conjunto de textos, bem como várias sugestões


metodológicas para que, respeitando preocupações relativas à diversidade cultural, se
possam desenvolver actividades de leitura e escrita no Ensino Básico.

Perrenound, P. (1995). Ofício de Aluno e Sentido de Trabalho Escolar. Porto:


Porto Editora.

«O presente livro é composto por um conjunto de textos — alguns inéditos —


da autoria de um dos mais importantes sociólogos da educação, Philippe Perrenoud. O
leitor poderá apreciar uma nova maneira de abordar as práticas pedagógicas, a
formação de professores e a profissão docente. A pertinência destas temáticas na
situação educativa actual impõe-se de forma evidente.» (Texto da contracapa)

22
Perrenoud, P. (1993). Práticas pedagógicas, profissão docente e formação
perspectiva sociológica. Lisboa: D. Quixote/I. I. E.

«Seria absurdo pedir aos professores para renunciarem a ser actores que
procuram defender os seus interesses e a renunciarem também a esperar atingir os
seus objectivos numa relação pedagógica muitas vezes difícil de viver, conflitual e
esgotante. Mas o paradoxo do educador é o de servir-se do seu poder para emancipar o
aprendente. Na medida em que se proclama defensor deste paradoxo, o professor está
condenado a compreender, e sem dúvida a aceitar, que os alunos não podem existir,
individual e colectivamente, senão praticando à sua maneira o ofício de aluno,
adoptando tácticas defensivas, jogando com as regras, enganando uma instituição e os
adultos que têm do seu lado o saber e a lei, os meios e a instituição. Compreender
melhor as suas escolhas e propor-lhes diferentes formas didácticas, um outro contrato
pedagógico, uma outra forma de comunicar, é muito bom. Mas com a condição de se
renunciar a acreditar que isso reduzirá, de uma vez por todas, a sua alteridade, que a
educação deixará de ser um combate.» Perrenoud, Ph. (1994), p. 228.

UNESCO. (1995). Necessidades Especiais na Sala de Aula: Conjunto de


materiais para formação de professores. Lisboa: I. I. E.

«O objectivo (deste material) é ajudar os professores a serem mais eficazes na


resposta a dar às diferenças entre os alunos.» Mel Ainscow.

Zeichner, K. M. (1993). A Formação reflexiva de Professores. Ideias e Práticas.


Educação, 73-112. Lisboa.

«Os textos seleccionados sublinham a importância de preparar professores que


assumam uma atitude reflexiva em relação ao seu ensino e às condições sociais que o
influenciam. A defesa de uma perspectiva dos professores como práticos reflexivos
leva o autor a rejeitar uma visão das abordagens de cima para baixo das reformas
educativas, nas quais os professores aplicam passivamente planos desenvolvidos por
outros actores sociais, institucionais e/ou políticos.»

23