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BIBLIOTECA

DOS

PRÊMIOS NOBEL
DE

LITERATURA
patrocinada pela

A C A D E M IA SU EC A
e pela

FU N D A ÇÃ O N O B E L
BIBLIOTECA DOS PRftMIOS NOBEL DE LITERATURA
PATROCINADA PELA ACADEMIA SUECA
E PELA FUNDAÇÃO NOBEL

Prêmio de 1911

MAURICE MAETERLINCK
(BÉLGICA)

EDITORA OPERA MUNDI


Rio de Janeiro
1971
MAURICE
MAETERLINCK

O PÁSSARO
AZUL
Tradução de
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

Estudo introdutivo de
FRANÇOIS ALBERT BUISSON

Ilustrações de
TOUCHAGUES

EDITÔRA OPERA MUND1


Rio de Janeiro
1971
Titulo do original francis:

k/o iie a u b l e u

Todos os direitos desta edição


(introdução, prefácios, notas, tradução,
ilustrações e demais características)
pertencem à
EDITÔRA OPERA MUNDI
"PEQUENA HISTORIA"

DA ATRIBUIÇÃO DO
PRÊMIO NOBEL
A

MAURICE MAETERLINCK

Pelo DR. GUNNAR AHLSTRÕM


Membro do SVENSKA IN S T IT U T E T
-J^^l os bons tempos, antes do impetuoso aparecimento da
dinamite, as recompensas literárias consistiam apenas em beleza,
glória e poesia: distinções honoríficas, coroas de louro, viole­
tas de ouro ou ainda solenes medalhas acadêmicas. Se alguma
remuneração mais substancial as acompanhava, era colocada
com discrição numa bolsinha, ou figurava anonimamente na
lista civil do rei. Em dinheiro só se falava com desdém, mes­
mo quando o beneficiário estava dolorosamente cônscio de que
ele existe.

Desse ponto de vista, como de tantos outros, o Prêmio


Nobel, tãjo explosivo e espetacular quanto a invenção que per­
mitiu criá-lo, trouxe algo de nôvo. O dinheiro — coroas suecas
ou pilhas de francos-ouro — começou a tilintar, sem respeito
humano, à vista e ao ouvido de todo mundo, misturando um
som metálico aos ritmos feiticeiros e às meditações do mundo
espiritual. Época nova, em que o capitalismo do século X IX re­
mete com toda a franqueza um cheque, lembrando assim a
onipotência triunfal de suas contas bancárias. Eis que poetas
e sábios se vêem metamorfoseados em colegiais de olhos bri-

i
i
Ihonlfíi de csperanca c apreensão, nn tensa expectativa da
dlstribuIçAo nnunl dc prêmios. Ano após ano, o espetáculo
mi* rrprtc, fts vêzes com variações um tanto sensacionais. É
natural que nflo receba sòmente aplausos, c que também sus-
cite comentários irônicos.

"A rstnçfio dos prêmios”, tal é o titulo do artigo publicado


no Gmitoin, em l 9 de dezembro de 1910, com a assinatura de
René Doumic, cujo espírito cáustico ainda não se tornara insós-
íío pelo exercício das funções de secretário perpétuo da Aca­
demia Francesa, que êle iria assumir mais tarde. O autor não
esconde que êste sistema de prêmios, de que a publicidade se
apossou no decorrer dos últimos anos, ameaça a integridade da
literatura. Vigiar com o rabo do ôlho, para que não escape
a oportunidade de uma láurea, é coisa que só pode ter efeito
funesto, para quem escolha a profissão de homem de letras:
"Quando aspiramos aos sufrágios de um júri, passamos a ficar
em guarda contra uns tantos excessos. O desejo do prêmio é
o comêço da prudência.” Sob os auspícios do Prêmio Nobel,
a literatura mundial se engaja num rumo propício aos talentos
ajuizados, bem pensantes e inofensivos. Passou a época dos
gênios independentes. No mundo escolar, há muito tempo se
discute a prática da atribuição de prêmio. O verão é tradi­
cionalmente a estação dêles. Habituamo-nos agora, no mundo
literário, a tudo esperar da estação das fôlhas mortas e da
neve. Os rostos dos laureados estão sulcados de rugas, suas
cabeleiras são prateadas. As crianças dão lugar a alunòs-mo-
dêlo, de cabeça encanecida.

"O s prêmios foram declarados impróprios para crianças.


Mas são excelentes para pessoas grandes. Não há limite de
idade. O último em data dos laureados, o Sr. Paul Heyse, é, ao
que me dizem, um bonito velho. Entramos na estação em que se
concedem prêmios a pessoas sérias: é o comêço do inverno.
Estação que começa quando acaba a dos crisântemos. "D o céu
chovem cruzes que não escolhem os ombros”, diz alguém, num
dos mais belos dramas do Sr. François de Curei. Nas próxi­
mas semanas, choverão coroas, mas para cabeças escolhidas.”

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Em princípio, o comentador irônico certamente tinha razão.
Seu único êrro era ser demasiado amável com relação ao Prê­
mio Nobel, e exagerar-lhe a importância, vendo nêle um fator
determinante da evolução literária mundial. Na realidade, pro­
fissionais da pena e autores inspirados prosseguiram nas rotas
que êles mesmos haviam escolhido, soberanamente desinteres­
sados da probabilidade de obter a gloriosa e sonante distinção.
A grandeza se estabelecia independentemente da recompensa
de nôvo gênero, a pêso de ouro. Em suma, não se tratava abso­
lutamente de candidatos a ostentarem seus próprios méritos.
Bem pelo contrário, era o Prêmio Nobel que saía à cata de
candidatos indiscutíveis. O loureiro e seus cheques procuravam
uma fronte a ornar, e algibeiras a encher.

A estação dos crisântemos, que precedeu a distribuição dos


prêmios de 1911, transbordou de reflexões gerais em tôrno de
candidatos possíveis e impossíveis. O debate foi particularmen­
te vivo na França; em meios mais ou menos periféricos, insis­
tiu-se curiosamente na discussão de um candidato que se tor­
nara bastante conhecido: Henri Fabre, o “Homero dos insetos”.
Publicaram-se artigos comoventes sôbre a precária situação
econômica do digno ancião e sôbre o dever de assisti-lo com
o Prêmio Nobel; um pronunciamento mais caloroso trazia a
assinatura de Edouard Herriot, prefeito de Lyon. Os ecos dês-
se movimento chegaram à Suécia, e reputado professor de li­
teratura nêle encontrou matéria para um artigo. Ao mesmo tem­
po em que rendia homenagem ao dom de observar a natureza
e à ciência entomológica, permitia-se formular certas dúvidas
sôbre os méritos literários e artísticos do candidato, cujos Sou-
venirs Entomologiques acabavam de ser publicados em sueco.

O fato ê que o nome de Henri Fabre fôra lançado em


1909. Não entrará ainda, porém, nos registros do Nobel. Ne­
nhum pedido de inscrição em seu proveito fôra enviado, nem
no ano de Paul Heyse nem no ano que seria de Maurice M ae-
terlinck. Ao expirar em 30 de janeiro de 1911 o prazo de
inscrição previsto, vinte e cinco candidatos, entre os quais êle

11
n lo figurava, tinham sido propostos à Academ ia Sueca e à
ttua com issão Nobcl.

Dc modo geral, a safra era boa. Escritores de grande clas-


fc viam renovadas suas candidaturas: Jaroslav Vrchlicky, de
Pragd; Georges Souris, de Atenas e Constantinopla; Salvador
Rueda, dc Madrid e Havana; o italiano Antonio Fogazzaro,
que muitas vêzes se colocara em ótima posição, fôra de nôvo
indicado por aquêle mesmo professor sueco de línguas româ-
nicas que, antes, trabalhara tão eficazmente em favor de Mis-
tral. O autor de Daniele Cortis e de 11 Santo, porém, morreu
pouco tempo depois da indicação, sendo assim eliminado do
escrutínio em que, dadas as preferências manifestadas por oca­
sião de outras votações, provàvelmente teria sido objeto de
consideração.

Desta vez, a frente britânica estava dividida: o formulá­


rio da Sociedade de Autores, de Londres, serviu para reco­
mendar diferentes candidatos. A começar pelo presidente da
Sociedade, Thomas Hardy, que propôs John Morley, secunda­
do nisto por vinte e quatro membros, entre os quais Lord Ave-
bury, Mackenzie Wallace, Arthur Pinero, Hall Caine e Au-
gustin Birrell. Note-se: o nome do próprio Thomas Hardy,
bem como, aliás, o de Henry James figuravam igualmente na
lista, mas seus partidários oficiais não eram muitos nem pode­
rosos. Havia também um novato, George Bernard Shaw, que
iria tornar-se na sua hora, em 1925, um dos maiores ornamen­
tos dos anais nobelianos. Fôra recomendado por uma das
sumidades literárias e científicas da época: Gilbert Murray,
ilustre professor de grego em Oxford, já célebre pela sua edi­
ção e tradução de Eurípides.

Como de costume, são interessantes as propostas france­


sas. Anatole France é de nôvo recomendado por Paul Hervieu.
“Tenho a honra de reiterar-vos a segurança de que o Sr. Ana­
tole France, hoje com 66 anos, ocupa desde longo tempo situa­
ção magistral nas letras francesas. A pureza de seu estilo, a
dignidade de sua obra, sua erudição incomparável e sua sabe­

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doria infinitamente penetrante o situam na familia dos maiores
escritores que, através dos tempos, constituem o panteão do
pensamento. Em horas de grave dissensão política e intelec­
tual em minha pátria, vi como polêmicas e paixões adversas,
que nada respeitam, dispensavam consideração à bela e nobre
mestria de Anatole France, e — embora êle participasse da
ação — o colocavam acima dos debates. No ano passado, fui
testemunha das ovações entusiásticas com que o saudaram os
estudantes, exprimindo assim a homenagem e a fé da juven­
tude pensante no velho mestre, cuja popularidade não tem rival
entre êles. O coração das jovens multidões só raramente tem
dêsses impulsos; procuro em vão entre os chefes da literatura
francesa, desde a morte de Victor Hugo, desde a morte de
Renan, quem mais conquistou a alma preciosa dos estudantes,
senão Anatole France.”
France é, porém, livre-pensador, e isso o torna suspeito aos
olhos de uma assembléia tão conservadora como a Academia
Sueca de então. Não é menos verdade que, mesmo nesse meio,
impressiona a coragem com que êle lutou pela justiça e pela
honestidade em sua pátria. A falta de disposição favorável a
seu respeito não impede que se lhe estenda a coroa de louro,
modesta embora, em nome do ideal. Lê-se em um dos comuni­
cados da Comissão, que “êle mostrou grande coragem no caso
Dreyfus, dando prova, assim, de um idealismo ético, tantas
vêzes ausente dos trabalhos puramente literários”.
Naquele ano, porém, a França oficial, a França da Aca­
demia Francesa, tinha um candidato privilegiado, que empur­
rava os demais para segundo plano: Pierre LotjHMobilizaram-
se realmente tôdas as fôrças em seu favor, e reuniu-se, mesmo,
importante documentação. Dão que pensar os algarismos: em
quarenta imortais, dezenove assinaram o documento de inscri­
ção de sua candidatura, notando-se entre êstes Jules Lemaitre,
Émile Faguet, Raymond e Henri Poincaré, René Doumic, Paul
Eourget, Henri Lavedan e Maurice Barrès.
Segue-se a relação das obras do candidato, realçada com
especificação de cifras atingidas pelas edições, tôdas imponen-

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tcs; cm certos casos, no do Pôchcurs d'Isl.nndc por exemplo, fica-
se impressionado com a menção complementar: "mais de du­
zentos mil exemplares ilustrados", Era como se as grandes tira­
gens caminhassem diretamente para o mais volumoso dos prê­
mios. Juntaram-se ao dossier estudos elogiosos de Jules Le-
maitre, Paul Bourget, René Doumic e Henri Lavedan, e —
cálculo cheio de sagacidade — o conjunto finaliza com decla­
rações do próprio Pierre Loti. Cita-se notadamente o elogio
de Octave Feuillet, proferido por Loti ao ingressar na Acade­
mia Francesa em 1892; nêle, o escritor repele o naturalismo e
confessa enfàticamente sua fé no ideal. Êste dossier é notàvel-
mente bem provido, abrangendo mais de 60 páginas in~folio,
no volume dos documentos de instrjução.

É o caso de perguntar por que motivo a irmã mais velha


da Academia Sueca terá manifestado tamanho excesso de zêlo
e coligido tão volumosa documentação. Pierre Loti, por si mes­
mo, já seria candidato bem forte. Haveria razão especial para
êsses esforços exagerados? Pretendia-se a todo custo lançar um
candidato invencível? Nesse caso, tal política seria ditada por
uma espécie de descontentamento com relação às premiações
de anos anteriores? A França não recebera prêmio desde a
meia-recompensa outorgada a Mistral, em 1904. Era época de
nacionalismo, e não se brincava com o prestígio da pátria.

Tôdas as hipóteses são válidas. Outra carta, vinda da


França, fornece talvez uma indicação sôbre o estado de espírito
dos círculos acadêmicos. Frédéric Masson, historiador de Bo-
naparte e antigo bibliotecário do Ministério da Guerra, indica
Ernest Lavisse com arrebatamento digno dêsses títulos,

“O abaixo-assinado, Frédéric Masson, da Academia Fran­


cesa, tendo antes, por duas vêzes, exposto à Comissão Nobel
da Academia Sueca os títulos que habilitam o Sr. Ernest La­
visse, da Academia Francesa, ao grande Prêmio Nobel de
Literatura, não poderia senão reportar-se a sua proposta funda­
mentada e acompanhada de obras e de outros documentos nos
quais ela se apoiava.” Não lhe seria possível expedir de nôvo

14
cs 50 volumes que constituíam a obra do sr. Lavisse e que, afi­
nal de contas, tornavam sua candidatura pelo menos discutível.
Além disso, a hostilidade da Comissão Nobel da Academia
Sueca, que, para três alemães, se comprouve em só distinguir
um francês, afastando deliberadamente tôdas as candidaturas
patrocinadas por membros da Academia Francesa — como as
de Albert Sorel, Ernest Lavisse e Anatole France — parece
demasiado franca para que nos esquivemos a denunciá-la; o
abaixo-assinado, ao mesmo tempo em que se comprazerá em
apreciar a competência dos juizes e o alcance de seus julga­
mentos, terá o cuidado de dizer por que razões declina da
humilhação de apresentar candidatos franceses, quando de an­
temão todo francês é afastado, “a menos, entretanto, que se
chame d’Estournelles de Constant ou Arnaud, tabelião em Lu-
zarches ( Seine-et-Oise). Risum teneatis
Nessa atmosfera carregada de cólera e de espírito polê­
mico, a candidatura de Maurice Maeterlinck surge à guisa de
manifestação extremamente pacífica. É lançada em cinco linhas,
pelo Barão de Bildt, Ministro da Suécia em Roma e promotor
da concessão do Prêmio a Carducci. Maeterlinck, entretanto,
não podia ser considerado novato nos debates nobelianos. A
candidatura do autor de Le T résor des Humbles e de Monna
Vanna já fôra, de maneira relativamente solene, lançada vêzes
bastantes para tornar-se familiar e para adquirir essa pátina
de ancianidade que se mostrara tão preciosa ao longo das
discussões.
Já em 1903, seu nome fôra citado por Anatole France, em
terceiro lugar, seguindo-se aos de Tolstoi e Georg Brandes.
Por ocasião do Prêmio de 1904, F. Cumont e H. Pirenne, pro-
fessôres de História da Faculdade de Filosofia e Letras, da
Universidade de Gand, enviaram uma carta em que se lia a
seguinte altiva afirmação: “Os abaixo-assinados estão convic­
tos de se não terem deixado cegar por um patriotismo pouco
esclarecido.” Só em 1908, entretanto, se desencadeou a grande
ofensiva. Teve curioso prelúdio político, refletido em um artigo
característico, publicado em junho pelo Gil Blas:

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"A Câmara dos Deputados da Bélgica deu agora ao nosso
Palais-Bourbon uma bonita lição de mentalidade, embora pa­
reça que deva ficar no terreno da teoria.

O deputado Paul Janson sugeriu que o Parlamento belga


propusesse oficialmente a candidatura, ao Prêmio Nobel dêste
ano, dos grandes escritores Maeterlinck e Verhaeren. A inter­
venção parlamentar, aparentemente estranha, foi muito bem
justificada pelo autor da iniciativa: observou êle que não se
tratava apenas da parte do Prêmio Nobel destinada sòmente à
literatura, mas também do Prêmio da Paz. A êsse título, afigu-
ra-se que as próprias nações têm o direito e o dever de intesrvir
solenemente. )

Ao que se afirma, o presidente da Assembléia prometera


estudar a insólita questão, mas teria logo chegado à conclusão
de que ela se situava fora do campo da competência parla­
mentar. Coube, pois, à Academia Livre da Bélgica, no decurso
do verão, tomar a iniciativa, redigindo magnífica mensagem
impressa de quatro páginas, repleta de nomes mais ou menos
célebres. Esta petição, datada de 20 de agôsto de 1908, e assi­
nada por dois secretários da entidade, J . des Cressonières e
L. Hennobicq, foi remetida a Estocolmo. Sua argumentação
esclarece de maneira interessante a situação histórica e a escala
dos valores literários da época.

"Usando da faculdade que o regulamento do Prêmio No­


bel concede às sociedades literárias e às academias de organi­
zação análoga à de Estocolmo, a Academia Livre da Bélgica
tem a honra de propor a vossos sufrágios, para o Prêmio de
Literatura, a candidatura de dois belgas, os Srs. Émile Verhae­
ren e Maurice Maeterlinck.

“Agrupando em seu seio algumas das individualidades que


melhor representam o movimento intelectual independente na
Bélgica, acreditou ela que lhe cabia assinalar à vossa atenção
os dois artistas que, pelo juízo unânime de seus membros —
escritores, poetas, pintores, escultores, dramaturgos, homens

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públicos, sociólogos, jurisconsultos, oradores — sintetizam a
atividade intelectual de que a Bélgica é teatro, e o esforço que
ela desenvolve para reassumir sua posição na cultura européia.

“Funestas conseqüências históricas e longo domínio do


estrangeiro haviam por assim dizer destruído, no decorrer dos
três séculos anteriores a 1830, a civilização original de um povo
que desempenhou antigamente papel capital na evolução do
mundo, em especial no tocante às artes.

“78 anos de paz e prosperidade despertaram essa civili­


zação, e, num país que havia quase esquecido seus escritores
originais, viu-se aparecer uma plêiade de poetas, romancistas,
ensaístas, dramaturgos e historiadores, que contribuíram pode­
rosamente para restituir-lhe a consciência de seu papel e de
seus destinos.

“Cumprido êste primeiro dever, alguns dentre êles, com­


preendendo que uma cultura, por mais profundamente nacional
que seja, não pode viver e desenvolver-se se não se articular
com o movimento universal dos espíritos, puseram seu empe­
nho em ligar a literatura nova do país, e a sensibilidade que ela
exprime, à grande civilização internacional dos povçs ociden­
tais. Tiveram o legítimo orgulho de crer que poderiam trazer
uma contribuição ao espírito europeu em perpétua formação.

“Situada nos confins da França e da Alemanha, velho


país-fronteira em que as culturas germânica e latina se encon­
tram e se penetram, a Bélgica parece estar em condições parti­
cularmente felizes para operar a síntese dos dois elementos prin­
cipais da civilização ocidental.

“Alguns de seus escritores mais conspícuos exprimem ins­


tintivamente, sob forma francesa, as reações da sensibilidade
germânica, e, reciprocamente, em língua flamenga, as da inte­
lectualidade latina. É a contribuição aa Bélgica nova à cultura
da Europa, contribuição considerável, e que parece fadada a
tornar-se mais considerável ainda.

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“Ora, são os Srs. Êmile Verhaeren e Maurice Maeterlinck
que melhor representam na literatura belga esta tendência para
o universal.

“O primeiro, ao renovar de certo modo as fontes da poesia


francesa, não se satisfez com celebrar em imagens imprevistas
e magníficas o encanto presente e a glória passada da terra
pátria, ou com exprimir, sob a forma do lirismo pessoal mais
sincero e mais ardente, as inquietações e esperanças de uma
geração que se deixou embriagar, com o mesmo ardor, pelo
mais sombrio pessimismo e pela mais ingênua confiança no fu­
turo; com tôdas as fôrças de sua alma, quis participar das
grandes correntes generosas que ijmpelem o mundo para seus
destinos, e dos tormentos eternos do espírito humano. A êsses
pensamentos, a essas sensações, soube aplicar ritmos novos, e
sua obra, traduzida para muitas línguas, é considerada, na pró­
pria França, uma das expressões capitais da poesia contemporâ­
nea. Disso dá testemunho a homenagem unânime da jovem
geração poética.
“A obra de Maurice Maeterlinck não alcançou menor re­
percussão. Tem igualmente origem na expressão de uma sensi­
bilidade que o escritor deve a seu povo e a sua raça. Ninguém
exprimiu melhor o que há de místico na alma belga, mas êsse
misticismo, bem cedo e melhor do que por um simples desejo
ou por uma prece, êle o coordena com o resto do mundo.
“De Novalis a Emerson, de Swedenborg a Carlyle, de
Marco Aurélio a Guyau, Maeterlinck procurou os iniciadores
do seu pensamento entre os espíritos mais profundos e mais
raros, que acrescentaram algo ao patrimônio moral da huma­
nidade.
“É lícito dizer, já agora, que podemos incorporá-lo a essa
falange. Seu espírito, a princípio inquieto e sombrio, elevou-se
pouco a pouco a uma serenidade goethiana. Formulando de
certo modo a mística do racionalismo, é daqueles que tentaram,
com o maior êxito, ligar a moral científica e naturalista da
nossa época ao sentimento religioso.

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“De resto, a influência de Maeterlinck foi maior ainda
lôbre o público cosmopolita do que sôbre o público do seu pais.
Sr f xiste hoje um escritor europeu, êste é certamente o autor
•Ir lx Trésor des Humbles, La Vie des Abeilles e Pelléas et
Méllsande,

“Obras como as dêstes dois famosos escritores contribuem


poderosamente para o progresso das idéias e o avanço da civi­
lização moral.

“Eis porque nos pareceu que poderiam ser alinhadas entre


Dl gue Nobel procurou estimular; eis porque as submetemos
confiantemente à vossa apreciação.”

Êste pronunciamento maciço conferiu densidade à candi­


datura de Maeterlinck nos anos seguintes. Na Suécia, seu nome
era conhecido havia muito. Lugné Poe, no decurso de uma
excursão pela Escandinávia, em 1894, representara em Estocol­
mo La Princesse Maleine; depois, outras peças de Maeterlinck
alcançaram sucesso na capital sueca. Além disso, conquistara
fie um grande admirador na pessoa de August Strindberg, que
lhe prestara atenção aos dramas desde sua permanência em Pa­
ris, e depois se entusiasmara pelo volume de ensaios Le Trésor
des Humbles.' Igualmente nos círculos literários de jovens, sua
obra era acompanhada com admiração. Na Academia, as opi­
niões permaneceram por muito tempo divididas, mas pouco a
pouco a simpatia triunfou. O Secretário perpétuo mudou de
opinião, e a decisão final foi acolhida com aclamações pelo
grande público.

Maeterlinck achava-se na Itália, quando soube que fôra


distinguido; respondeu com uma semana de atraso à comuni­
cação da Academia: “É a mais alta glória que pode caber a
um escritor. Não preciso dizer-vos até que ponto me sensibiliza,
nem até onde vai meu reconhecimento. As palavras, no caso,
servem mal o pensamento.” A princípio, manifestara intenção
de assistir à solenidade de 10 de dezembro, porém mais tarde,
por telegrama, informou que adoecera. Circulou a versão de

19
que o escritor atlético, mas de uma timidez feroz, à medida
que se aproximava o grande dia, foi sendo tomado de pânico
ante a perspectiva de ficar exposto aos olhares de um público
numeroso, e seria essa a verdadeira razão de sua ausência.

O Prêmio foi entregue ao Ministro da Bélgica em Esto­


colmo, Sr. Wanters, que, no banquete subseqüente, se esfor­
çou por transmitir uma impressão pessoal do seu compatriota
e da terra flamenga que o vira nascer. Haviam dito, realmen­
te, que Maeterlinck de modo algum se sentia lisonjeado
pelo fato de o considerarem belga; certo jornal parisiense
adiantara, mesmo, que êle recusaria o Prêmio, se lhe fôsse
oferecido nessa qualidade nacionkl. Talvez seja lícito admitir
razões sentimentais para a eloqüência calorosa do diplomata e
para a sua pintura evocativa da região de planuras, largos
céus e velhas cidades, à margem do Escalda. Descrição que
termina com esta nota pessoal:

“Foi nesse meio que Maeterlinck nasceu, foi lá que êle se


desenvolveu, e de lá que extraiu as fôrças de seu talento e de
seu gênio. Foi lá também que o conheci, e que vi, alinhadas
no fundo de um jardim coberto de ílôres, as colméias junto
às quais êle ia estudar e descrever a vida das abelhas. Se a
literatura francesa se orgulha, a justo título, dos sucessos de
Maeterlinck, grande parte dêles cabe à sua Pátria. Ao confe-
rir-lhe o Prêmio Nobel de literatura, a Academia Sueca não
fêz senão recompensar a forma francesa de um pensamento
flamengo.”

20
DISCURSO DE RECEPÇÃO

PRONUNCIADO POR

C. D. AF WIRSÉN
POR OCASIÃO DA ENTREGA DO

PRÊMIO NOBEL DE LITERATURA


A

MAURICE MAETERLINCK

NO DIA 10 DE DEZEMBRO DE 1911


Slre,

Excelências,

Minhas senhoras,

Meus senhores,

Muitos escritores foram recomendados êste ano, por vo­


zes da mais alta competência, como candidatos ao Prêmio
Nobel. E muitos dêles apresentavam qualidades de tal modo
excepcionais, que se tornou extremamente difícil pesar-lhes os
méritos respectivos. Conferindo hoje esta distinção a Maurice
Maeterlinck, indicado já várias vêzes, e altamente considera­
do, a Academia Sueca levou em conta, antes de tudo, a pro­
funda originalidade, a marca singular do seu talento de escritor,
tão diferente das formas usuais a a literatura; o caráter idealista
dêsse talento se eleva a uma rara espiritualidade, e faz vibrar
em nós, misteriosamente, cordas delicadas e secretas. N ão é
por certo natureza banal, a dêste homem singular, que ainda
não fêz cinqüenta anos, e que, como escritor, segue o seu pró­
prio caminho, inteiramente pessoal, possuindo a maravilhosa
faculdade de ser ao mesmo tempo místico, profundo e popular
pelo encanto da expressão. Lendo-o, acode-nos às vêzes a pa­
lavra de Sófocles: "O homem é apenas uma sombra ligeira",
ou a de Calderon, ao afirmar que a vida é sonho; entretanto,
Maeterlinck sabe reproduzir, com a f ô r ç a d e um visionário,
as sutis nuanças d e nossa vida moral. Faz ressaltar, a um toque

23
de vara de condão, aquilo que, nas circunstâncias ordinárias,
guardamos em estado latente, e integra profundezas secretas
de nosso ser; reconhecemos que evocou aspectos do nosso ser
mais intimo, aquilo que de ordinário permanece oculto em mis-
teriosa penumbra; e o [az em geral, sem cair na afetação e na
frivolidade, com segurança e finura clássicas jamais desmen­
tidas, por mais vagos que sejam às vêzes — como um brinquedo
de sombras chinesas — a ação e os cenários, conforme a natu­
reza tão sutil de sua poesia. Mesmo quando fabulosa e fantás­
tica a narração, a réplica não deixa de ter sua agudeza. Como
que ao som da música em surdijia, o poeta nos introduz em
regiões insuspeitadas pelo nosso inconsciente; sentimos, com
Goethe, que
Alies Vergángliche
Ist nur ein Gleichniss.1
Pressentimos que nossa verdadeira morada fica muito
longe, bem para lá do limite de nossas experiências terrestres.
Entretanto, mal chegamos a transpor êsse pressentimento em
Maeterlinck, embora sua poesia nos desvende perspectivas de
longínquo inacessível.
Maurice Maeterlinck nasceu em 1862, na cidade de Gand
no seio de uma família bastante próspera, ao que parece. E s­
tudou no colégio de jesuítas de Santa Bárbara, que êle não
apreciava muito, mas nem por isso a escola conventual deixou
de influir fortemente em sua evolução intelectual, orientando-o
para o misticismo. Concluído o bacharelado, em obediência ao
desejo dos pais estudou Direito e estabeleceu-se em Gand como
advogado. Só teve êxito, porém — escreve o seu biógrafo Gé-
rard Harry — em demonstrar inaptidão para a carreira judi­
cial, graças aos "abençoados defeitos " que tornam um homem
absolutamente desajeitado para as chicanas forenses e as de­
fesas públicas no Tribunal. As letras atraíam-no, e a atração
aumentou em conseqüência de uma estada em Paris, período em
que travou relações com certo número de escritores, entre os

1 "Todo transitório / Ê apenas símbolo.” (Final da 2* parte de Fausto d e Goethe.)

24
quais Villiers de l’Isle-Adam, que, segundo paírece, exerceu
1/ntnde influência sôbre seu espírito. Tamanha foi a sedução
</<•Paris sôbre Maeterlinck, que ê/e passou a residir lá em 1896.
Entretanto, como residência fixa, a grande metrópole convinha
pouco a êsse espirito solitário e contemplativo. E certo que ia
lii de tempos em tempos, para conversar com os seus editores;
no verão, contudo, preferia ficar em Saint-Wandrille, antiga
tibadia normanda, adquirida pelo poeta, que a salvou das amea­
ços do vandalismo; no inverno, refugiava-se de bom grado na
vila florida de Grasse, sob clima suave.
A primeira obra publicada por Maeterlinck foi um magro
volume de versos, intitulado Serres Chaudes. Èstes poemas
eram mais atormentados do que se podia esperar de um homem
naturalmente calmo e meditativo. No mesmo ano (1889), publica
um drama fantasista, La Princesse Maleine. É um texto sombrio
c terrifico, voluntariamente monótono graças a numerosas re­
petições destinadas a sugerir uma emoção duradoura; não é
menos verdade que reina um encanto feérico nesse pequeno
drama, escrito com um vigor que não teríamos suspeitado no
autor de Serres Chaudes; de qualquer modo, trata-se de im­
portante obra de arte. La Princesse Maleine foi louvada em
têrmos entusiásticos por Octave Mirbeau, no Figaro; a partir
de então, seu autor deixou de ser um desconhecido. Daí por
diante, Maeterlinck escreveu tõda uma série de composições
dramáticas. A maior parte se desenrola em épocas que não sa­
beríamos determinar, e em lugares que não figuram em qual­
quer carta geográfica. Os cenários são habitualmente um cas­
telo feérico, com passagens subterrâneas, um parque cheio de
belas sombras, um farol, e, ao longe, o horizonte marinho. Nes­
sas regiões melancólicas, movem-se quase sempre figuras tão
veladas como a própria concepção. Porque, em muitas de sua§
obras cênicas mais perfeitas, Maeterlinck é simbolista e agnós­
tico. Entretanto, não se deve concluir daí que seja materialista.
Pressente, pelo instinto e pela imaginação poética, que o ho­
mem não pertence unicamente ao mundo sensível, e diz expres­
samente que a poesia não satisfaz se não nos leva a perceber
um reflexo da realidade mais profunda e secreta, que é a fonte

25
dos fenômenos. As vêzes essa profundeza lhe aparece de ma­
neira obscura e nublada, como conjunto de potências ocultas
de que os homens fàcilmente se tornam vítimas, e atribui então
à fôrça oculta uma onipotência fatal, que aniquila nossa liber­
dade. Em muitas criações dramáticas, porém, suavizou essa
concepção, deu maior relêvo à esperança e misturou menos as
influências místicas à realidade. A idéia predominante em suas
melhores obras é que devemos procurar para lá da reflexão,
para além do raciocínio discursivo, a vida espiritual verdadeira,
íntima e profunda do homem, que se manifesta precisamente
em seus atos mais espontâneos; são êsses que Maeterlinck ex-
cele em representar com a fôrça de imaginação e o espírito so­
nhador, quase sonâmbulo, de um iluminado, mas com a precisão
de um perfeito artista; entretanto, a expressão é estilizada:
a simplificação da técnica é levada tão longe quanto possível,
sem prejudicar a inteligência do drama.

Um deísmo mais acentuado teria tido influência feliz em


sua obra dramática, que assim lembraria menos as sombras
chinesas; nem por isso, entretanto, devemos diminuir ou subes­
timar suas produções geniais. Â semelhança de Espinosa e de
Hegel, que eram grandes pensadores, embora não deístas, M ae­
terlinck é grandíssimo poeta, se bem que sua concepção das
coisas e da vida não seja a d e um deísta. N o fundo, ê/e não
nega coisa alguma: apenas indaga o princípio da existência
oculto nas trevas. Aliás, não será o agnosticismo desculpável
até certo ponto, se nenhuma razão humana saberia formular
uma noção exata da origem da existência, noção que, sob mui­
tos aspectos, resulta apenas de pressentimentos e da fé? E se
as personagens de Maeterlinck são às vêzes sêres d e sonho,
isso continua sendo algo de muito humano, pois, como escreveu
Shakespeare com tôda a razão:

. . . W e are such stuff


As dreams are made of, and our little life
Is rounded with a sleep.1

l“ . . . Somos feitos da mesma gaze / que nossos sonhos; nossa curta vida /
rodeia-se de sono." (Th e T em pe st, IV ato, I cena.)

26
De resto, Maeterlinck não é de modo algum 'polemista; em
quase tôdas as suas obras, sente-se a exalação de uma alma
terna, às vêzes melancólica, e por êsse motivo êle suplanta, em
beleza poética, muitos escritores cuja concepção do mundo tal­
vez se apóie demais na noção d e personalidade. Maeterlinck
6, sem nenhuma dúvida, um homem que sentiu e pensou pro­
fundamente. Devemos reverenciar-lhe a sêde sincera d e ver­
dade, e ter em mente que existem para êle uma lei e um direito
interiores, os quais, invariàvelmente. comandam e orientam os
homens, num mundo em que tantos fatores parecem estimular
a injustiça. Se, depois d e vencer tantas etapas de desenvolvi­
mento interior, êle fala às vêzes em ”gravitação” como fôrça
que domina o munao, e parece querer substituir a religião por
ela, não será grande nossa margem d e êrro se interpretarmos,
na linguagem simbolista, a palavra ”gravitação” como expres­
são simbólica dessa lei de gravidade, ético-religiosa, por assim
dizer, a que tudo obedece.

Falta-me tempo para enumerar tôdas as obras de M aeter­


linck; contudo, parece conveniente lembrar muito de passagem,
nesta ocasião solene, as mais características.

O poder implacável e misterioso da morte raramente foi


traduzido de maneira mais pungente do que em sua pequena peça
L ’Intruse (1890). Entre todos os que cercam a mãe enfêrma e
esperam o seu restabelecimento, o velho avô cego é o único a
escutar passos furtivos e resváladiços no jardim, onde os cipres­
tes começam a agitar-se e o rouxinol emudece; sente passar um
sôpro glacial, e afiar-se uma foice; percebe que entrou alguém
invisível às outras pessoas, e veio sentar-se entre elas. A o bater
a meia-noite, ouve-se um ruído, como se alguém se levantasse
ràpidamente e saísse. N o mesmo instante, morre a doente. O
hóspede inevitável tinha passado por ali. Com que fôrça o autor
nos faz assistir a êsse presságio, e d e que meios reduzidos lança
mãol Ainda mais profundamente melancólico é talvez o pequeno
drama Les Aveugles (1890). em que paira o mesmo pressenti­
mento de desgraça. Os cegos acompanharam seu guia, um ve­
lho padre doente, e eis que em plena floresta julgam tê-lo per­

27
dido. N ã realidade, é/e continua no grupo, mas está morto.
Pouco a pouco adquirem a noção dessa morte. Como voltarão
agora para o asilo?,

Em Pelléas et Mélisande e Alladine et Palomides, é o


poder funesto do amor, em diferentes variações, que M aeter­
linck descreve com imaginação cheia de fantasia — êsse amor
que, travado por outros laços ou por circunstâncias exteriores ,
não pode nem deve alcançar desfecho feliz, e se deixa es­
magar por uma fatalidade perante a qual esmorece a energia
humana.

O mais genial de seu dramas é, sem cohtestação, Agla­


vaine et Sélysette, uma das mais puras jóias da literatura mun­
dial. Drama profundamente melancólico, encerra, porém, te­
souros de poesia. Méléandre, que se casou com a doce e tímida
Sélysette, começa a amar a nobre Aglavaine, e é correspondido
por ela. Êsse amor puro os leva acima da materialidade. Sély­
sette, entretanto, sofre por não ser a única a possuir o coração
de Méléandre. A meiga criatura, feita d e abnegação, resolve
sacrificar-se pela felicidade d e seu marido e de Aglavaine, e
acaba por executar o seu propósito: debruça-se tão fortemente
para fora das ameias do velho torreão, que se desmorona uma
parte estragada da parede, e Sélysette cai, não sôbre as ondas,
como tinha calculado, mas sôbre a areia da praia. Ferida e trans­
portada para casa, já nos braços da morte, esforça-se por per­
suadir a Méléandre e a Aglavaine que a queda fôra involuntá­
ria, tentando assim evitar-lhes o remorso. N este drama, fértil
cm estados de alma finamente nuançados, tôdas as personagens
são nobres e generosas. Tanto quanto M éléandre, Aglavaine
sente que a felicidade é vã e fugitiva, quando conquistada ao
preço do sofrimento alheio, e se êles não se sentem menos irre­
sistivelmente impelidos um para o outro, obedecem, não a de­
sejos vulgares, mas a uma atração poderosa e muito espirituali­
zada. Lutam contra a fatalidade, e a peleja é tanto mais dura
quanto pressentem que o amor fraternal, com o fluir do tempo,
se tornará impossível, e tudo os levará â união completa, de
que êles fogem como de um pecado. Belíssimas são as palavras

28
de Aglavaine: "Se o sofrimento é imperativo, nós é que devemos
sofrer. Existem mil deveres, mas creio que raramente nos en­
ganamos quando, antes de tudo, procuramos tirar o sofrimento
ao mais fraco, para fazê-lo recair sôbre nós mesmos. Em ver­
dade, êste drama opera uma encantação que permite classifi-
cá-lo entre as mais belas criações poéticas do século.

Aglavaine et Sélysette, obra-prima d e Maurice M aeter-


linck, apareceu em 1896. Em 1902, o autor publicou Monna
Vanna, drama conhecido e representado aqui mesmo na Suécia.
A ação se desenrola sóbre a trama histórica do Renascimento
na Itália; sua composição, muito nítida, é inteiramente despren­
dida dessa espécie de crepúsculo que geralmente caracteriza a
arte de Maeterlinck. Muito se discutiu, e com opiniões bem di­
versas, a idéia dramática do dever, que impele a ação; esta peça
é sem dúvida muito audaciosa e oferece grande interesse psico­
lógico; contudo, talvez Maeterlinck seja mais ê/e mesmo nos
pequenos dramas delicadamente simbolistas, onde não impera
a luz plena e crua do sol, mas que abrem perspectivas maravi­
lhosas aos mais íntimos pressentimentos do coração humano.

Dono de um talento muito diversificado, Maeterlinck es­


creveu obras concernentes à filosofia, senão à filosofia abstrata.
Tal é, por exemplo, Le Trésor des Humbles (1896) que, entre
outras passagens notáveis, contém páginas inspiradas sôbre o
místico Ruysbroeck e sôbre a Vida Profunda; o idealismo do
autor encontra aí expressão feliz, em suas considerações sôbre
a poesia mais alta que, diz ê/e; tem por fim manter abertas as
grandes vias que conduzem do mundo visível ao mundo invisí­
vel. Em numerosos pontos surge nesse livro o pensamento, já
assinalado no curso dêste resumo, d e que existe, por trás do
nosso eu visível, outro que é o nosso eu verdadeiro. A idéia
pode parecer abstrata aos empiristas; no fundo, será tão plau­
sível quanto a doutrina de Kant sôbre o caráter inteligível que,
aliás, é fonte do caráter empírico. Em Le Temple Enseveli
(1902), encontramos a idéia d e uma personalidade invisível,
base da personalidade visível e terrestre. D e resto, se M aeter-

29
linck é acusado de fatalismo, convém lembrar que em seu livro
La Sagesse et la Destinée (1893), impregnado de tão doce
otimismo, a sorte do homem é colocada nêle mesmo, e depende
da maneira como irá utilizar sua vontade. O infortúnio e a queda
das grandes personalidades da história aí se nos apresentam
como provocados por culpa delas próprias, ou como conse­
qüência do fato de haverem perdido, à custa de erros, e até de
más ações, a antiga confiança em si mesmas, e, com isso, a
fôrça de lutar vitoriosamente contra os perigos.

Em 1901, aparece La V ie des Abeilles, livro que alcança


vasta repercussão. Maeterlinck é, pessoalmente, hábil apicultor,
mas ao escrevê-lo, por muito familiarizado que estivesse com
as abelhas, não se propôs de modo algum a fazer obra cientí­
fica propriamente dita. N ão se trata d e um epítome de história
natural, mas de um livro de exuberante poesia, com uma chusma
de reflexões que, aliás, de certo modo conduzem a uma declara­
ção de incompetência. O autor parece dizer que é inútil nos
perguntarmos se a curiosa cooperação das abelhas, a divisão
de seus trabalhos e sua vida social são fruto de uma inteligência
raciocinante. Quer empreguemos o têrmo instinto ou o têrmo in­
teligência, isso é tão somente um modo de assinalar nossa igno­
rância. Aquilo a que chamamos instinto das abelhas é talvez
de natureza cósmica, emanação da alma universal. Impossível
esquecer Virgílio, em sua imortal descrição das abelhas, quando
conta que um pensador lhes atribuiu uma parte de divina mens,
divino pensar, espírito divino.

L ’Intelligence des Fleurs, outra obra de Maeterlinck, dis­


tingue-se por apresentar ousadamente as plantas como provi­
das de sabedoria e de raciocínio. Há nesse livro a mesma riqueza
de imaginação poética, ornada, aqui e ali, de reflexões pro­
fundas.

Com uma fôrça criadora que nunca se exaure, M aeter­


linck compôs em 1903 Joyzelle, drama impressionante pelo ca­
ráter fantástico, pois mostra o triunfo, através duras provações
e sombrias peripécias, do amor fiel à sua própria natureza.

30
M arie Madeleine (1909), que figura a transformação da alma
da pecadora arrependida e sua vitória sôbre uma tentação tanto
mais forte quanto visa justamente ao lado mais nobre de sua
natureza, impelindo-a a salvar o M essias a expensas de si
mesma e da vida espiritual nova que êle próprio lhe infundira,
isto é, à custa mesmo da obra vital d o M essias; finalmente,
L’Oiseau Bleau, mágica profunda, que cintila com a poesia da
infância, mesmo quando parece conter demasiada reflexão, com
risco de perder um pouco d e ingênua espontaneidade. Ai de
nós: o pássaro azul da felicidade só existe para lá dos limites
dêste mundo perecível, mas aqueles que têm coração puro ja­
mais hão d e procurá-lo inutilmente, pois nêles a vida sentimental
e a imaginativa se enriquecerão e se purificarão na viagem
através das províncias do país dos sonhos.

Eis-nos de volta a nosso ponto de partida, o pais dos so­


nhos. Talvez não erremos ao afirmar que, para Maurice M ae­
terlinck, tôda realidade no tempo e no espaço, mesmo quando
não é produto da imaginação, usa sempre um véu tecido de
sonhos. Sob êsse véu se oculta a verdade fundamental da exis­
tência, e. quando êle um dia se levantar, será descoberta a es­
sência das coisas .
Guiado pelas criações do poeta, procurei interpretar-lhe
a concepção de vida. Que esta concepção é bela e nobre, não
pode haver dúvida a respeito; em Maeterlinck, ela se apresenta
com um ornato, até então insuspeitado, de estranha poesia, às
vêzes bizarra, e sempre embebida de alma.
Maurice Maeterlinck é um dos eleitos da poesia. Os gostos
podem mudar, mas o encanto de Aglavaine e de Sélysette per­
manecerá. A o poeta que nos fêz perceber vibrações tão finas
dessa melodia secreta que os homens trazem no coração, a
Suécia, país das sagas e das canções populares, oferece hoje
o Prêmio mundial.

31
VIDA
E OBRA
DE

MAURICE MAETERLINCK
POR

FRANÇOIS ALBERT-BUISSON
da Academia Francesa
o coração da terra flamenga, numa daquelas cidades
do norte, envoltas em bruma, como que a meio caminho entre
céu e terra, e onde o vasto e úmido silêncio só é perturbado,
à noite, pelo vozear dos sinos, que se respondem de campa­
nário a campanário, nasceu Maurice Maeterlinck — em
Gand, a 29 de agôsto de 1862. Sua infância transcorreu em
Oostacker, à margem do amplo canal que liga essa cidade a
Terneuzen, e em cujas águas vagarosamente passam os navios.
A Bélgica de 1862, porém, não era mais a Flandres dos
pintores e dos místicos, dos Van Eyck e dos Ruysbroeck:
era uma jovem nação orgulhosa de sua independência e de
sua prosperidade custosamente adquiridas, sem tempo nem
gôsto para deter-se ante devaneios de poetas.
Originário dessa burguesia realista e austera que insti­
tuiu o poderio da nação belga, e cujo elogio não é mais ne­
cessário fazer, mas que não devia estimular em nada os
vôos do futuro escritor, Maeterlinck, pertencente a antiquís-
sima família com raízes no século X I V , destinava-se à advo­
cacia. Enviaram-no a um colégio de jesuítas à margem do
Lys, para formá-lo na lição das humanidades clássicas. Já

35
seus gostos e aspirações, entretanto, fugiam ao quadro em
que se pretendia encerrá-los: à noite com dois camaradas, a
que o prendiam as mesmas inquietações e a mesma curiosi­
dade, devorava às ocultas alguma revista de vanguarda ou
se distraía com os primeiros ensaios poéticos.
Os estudos jurídicos esperavam-no ao sair do colégio. Na
Faculdade de sua terra natal, conheceu Émile Verhaeren,
cujo nome deveria também ilustrar a literatura belga, e cuja
vocação jurídica era tão vaga quanto a sua. No Direito, o
jovem Maeterlinck veria apenas, como contaria mais tarde
com humor, “um cemitério romano e um moderno canteiro
de construção”; nada encontrou nêle que pudesse satisfazer
sua sêde de absoluto.
Formando-se em Direito, apesar disso, em 1885, para ser
fiel ao desejo paterno, inscreveu-se no tribunal de Gand. Nada
o predispunha a colhêr os louros de Demóstenes ou de Cícero:
em seu corpo robusto e planturoso de flamengo à Jordaens,
a natureza, por uma dessas ironias em que é vezeira, insta­
lara uma voz fraca, abafada, que teve logo de renunciar à
luta no pretório. Perdeu as primeiras causas que lhe confia­
ram, e que foram também as últimas. Maeterlinck se lembra­
rá talvez de seus fracassos oratórios ao celebrar, mais tarde,
as virtudes do silêncio.
E se é verdade, como dirá uma de suas personagens,
que não há acontecimentos inúteis, nunca um malogro teve
conseqüências mais felizes: no dia em que, para tristeza dos
seus, Maeterlinck deixou o fôro, a cidade de Gand perdeu
talvez um advogado, porém ganhou a Bélgica, sem contesta­
ção, um de seus maiores escritores.

Octave Mirbeau compara-o a Shakespeare

A terra flamenga afigurava-se a Maeterlinck pouco pro­


pícia ao desenvolvimento do seu espírito: Paris atraía-o, aquê-
le Paris não conformista em que uma pessoa podia inovar

36
M*m escândalo e entregar-se à gratuidade deliciosa dos de-
vnneios. De fato, ao chegar lá, em 1886, encontrou atmosfera
favor&vel a seus projetos: era o período em que a jovem
escola simbolista se achava em plena florescência, com Villiers
de L’Isle-Adam, Catulle Mendès e Stéphane Mallarmé, e
começava a reagir contra o naturalismo frio e sem alma,
procurando reconquistar para a literatura as fontes esqueci­
das do mistério e do infinito.

De volta à Bélgica em 1887, inscrito no fôro de Gand,


mas sobretudo impregnado da nova estética simbolista, põe-se
Maeterlinck a trabalhar, e em 1889 publica seu primeiro e
único volume de poemas, Serres Chaudes, que traduz a opres­
são da alma, como que confinada numa atmosfera irrespirá­
vel. Consagra, porém, seu maior desvêlo a um drama em
cinco atos, que êle mesmo imprime, debaixo do maior segre­
do, em modesta oficina de sua cidade natal, ccrm a cumplicida­
de — realmente heróica, em face da autoridade paterna —'
de sua mãe e de sua irmã. Envia exemplares dessa obra, La
Princesse Maleine, a seus amigos parisienses, e fica à espera,
com um pouco de ansiedade. Não correria o risco de desa­
pontar o público com êsse drama estranho e misterioso? Per­
sonagens um tanto desvairadas, quase sonambúlicas, natureza
inquietante e hostil onde se diria flutuar um pressentimento
de desgraça; e, em meio a essa atmosfera de fim-de-mundo,
a figura comovente de uma princezinha medrosa e friorenta,
a debater-se desesperadamente contra a morte. Acostumado
a um teatro mais humano, em que a psicologia das persona­
gens tem primazia sôbre os jogos imprevistos do destino,
mostrar-se-ia o espectador francês sensível a essa harmonia
assustada e umbrosa, que envolve o drama de Maeterlinck?

Todos êsses receios eram lícitos; a obra, de uma estética


tão nova, primeira tentativa talvez de teatro simbolista, arris­
cava-se a mergulhar na indiferença e no esquecimento. Uma
bela manhã, porém, em 24 de agôsto de 1890, o nome até
então desconhecido de Maurice Maeterlinck resplandeceu em
duas colunas na primeira página do Figaro; Octave Mirbeau,

37
cuja atenção fôra atraída para La Princesse Maleine por Sté-
phane Mallarmé, nesse dia não reprimiu o entusiasmo, e sua
pena» de ordinário acerba, antes inclinada ao sarcasmo do
que ao louvor, subscreveu o mais espantoso elogio jamais
feito a um autor jovem:

“Nada sei a respeito do Sr. Maurice Maeterlinck. Não


sei de onde êle é nem como é. Sei apenas que ninguém é
mais desconhecido do que êle, e sei também que fêz uma
obra-prima: não uma obra-prima etiquetada prèviamente de
obra-prima, como as publicam todos os dias nossos jovens
mestres. . . , mas uma admirável, pura e eterna obra-prima,
uma obra-prima que basta para imortalizar um nome e fazer
êsse nome abençoado por todos os famintos do Belo e do
Grande. . . O Sr. Maurice Maeterlinck deu-nos a obra mais
genial desta época, a mais extraordinária e mais ingênua tam­
bém, e — ousarei dizê-lo? — superior em beleza ao que há
de mais belo em Shakespeare. Essa obra se chama La Prin­
cesse M aleine’’

Qualquer outro que não Maeterlinck correria o risco de


ser esmagado por ditirambo dêsse calibre. Octave Mirbeau
vira certo, e La Princesse Maleine era apenas a primeira de
uma longa série de obras-primas. Abre-se-lhe então o teatro,
e sucessivamente são levadas à Cena, no mesmo ano, Ulntruse,
Les Aveugles e Les Sept Princesses, três dramas-que focali-
zam a inquietação humana. Depois, é (Pelléas et ^JvTeTTsande^
representação mística do amor predestinado^ seqüencia dê"
pequenos quadros de graça harmoniosa e delicada, para os
quais Debussy compôs música tão perfeitamente acorde, com
sua misteriosa encantação.

Quem não se lembra daqueles castelos assombrados, da­


quelas florestas profundas e nascentes insondáveis, sobre
os quais se diria pairar um poder invisível e fatal? Pela pri­
meira vez, quem sabé, na dramátnrgía fráncesa, o próprio
cenário iria participar da ação: tudo era signo, pressentimen­
to, presença oculta do destino. Através do nevoeiro e da

38
noite, porém, entremostravam-se frágeis criaturas, mulheres
ou crianças, a descobrirem com espanto êsse mundo absurdo
e malévolo, e a anunciarem por seus olhares e silêncios o
ndvento de outro mundo onde as almas, libertadas, viveriam
eternamente. Quem não se lembra daquela cena admirável,
cuja delicada harmonia Debussy tornou mais sensível ainda,
cm que, do alto de sua tôrre, a doce Mélisande se inclina
como para um impossível abraço, na direção do seu querido
Pelléas, e em que sua cabeleira bruscamente desnastrada
inunda o rosto e o coração do amante? Desta vez ainda, o
destino será mais forte do que o amor, e o ar mefítico dos
pântanos, mais do que a cólera inocente de Golaud, destrui-
rá a frágil Mélisande. . .

Maeterlinck escreve em seguida três pequenos dramas


para marionetes: Alladine et Palomides, Intérieur e La Mort
de Tintagiles (o segundo, reapresentado pela Comédie-Fran-
çaise em 1919), "obras de inquietação e de angústia, nas
quais a presença tenebrosa e dissimuladamente ativa da morte
enche todos os interstícios do poema, em que o problema
da existência só é solucionado pelo enigma do seu aniqiiila-
mento”. Depois, Aglavaine et Sélysette, obra que indica uma
virada ideológica no autor, e a respeito da qual se escreveu
que testemunhava "imensa e luminosa mudança em sua
vida”; Ariane et Barbe-Bleue, tão hàbilmente musicada por
Paul Dukas, e apresentada na Ópera Comique em 1907;
Monna Vana, drama em que Maeterlinck, abandonando o
reino do mistério e do desconhecido, propõe sêres mais con-
cretamente humanos, e que alcançou em cena êxito estron­
doso.
Finalmente, L ’Oiseau Bleu, deliciosa mágica filosófica
que se desenvolve numa atmosfera encantada, e oferece ori­
ginal mistura de sabedoria nimbada de poesia. Alguns consi­
deram essa obra o apogeu da carreira dramática de Mae­
terlinck, "coroa de sua plena e rica maturidade, momento
mais brilhante e feliz de sua inspiração”. Montada em 1911,
LO iseau Bleu teve em Paris acolhimento triunfal.

39
Houve quem pronunciasse, a propósito de Maeterlinck,
o nome de ohakespeare; também se evocou a tragédia de
Ésquilo ou de Sófocles: comparações esmagadoras e lisonjei­
ras ao mesmo tempo. De qualquer modo, Maeterlinck rompia
deliberadamente com a tradição do teatro clássico francês.
Neste, vinham à tona as paixões e os deveres dos homens;
atentados, assassínios e traições eram apenas ocasiões excep­
cionais, em que essas paixões e êsses deveres se revelavam
em sua verdade mais alta. Para Maeterlinck, porém, “há
um eu mais profundo que o eu das paixões e da razão pura ',
e êsse eu mais profundo, que já é um pouco nossa alma, não
carece de circunstâncias excepcionais nem de ações heróicas
para desvendar-se: é essa luz interior e imóvek a transparecer
us vêzes, como relâmpago, na mais simples dè nossas ações:
n pupila que se abre, a fronte que se inclina, a mão que se
fecha, dizem mais sôbre o infinito que há em nós, do que as
imprecações do herói ou os ciúmes da rainha.

O patético de Maeterlinck não é, pois, senão o eterno


patético da vida cotidiana: suas princesas se exprimem como
pastôras, seus reis têm o falar franco e ingênuo dos campo­
neses da Flandres e da Valônia. No fundo, quase nada acon­
tece em suas peças: não há peripécias nem reconhecimentos,
só a lenta maturação de um acontecimento que pressentimos
por mil sinais, e do qual nenhuma vontade humana poderá
impedir a inexorável aproximação. O que importa a Maeter­
linck é menos a psicologia de suas personagens que o jôgo
de fôrças cósmicas — vida, amor e morte — que se defron­
tam por meio delas; Pelléas et Mélisande não é o drama do
ciúme, é o drama de um amor impossível, em luta com o
destino.
Desde então, ao contrário da tragédia clássica, a mola
essencial do drama de Maeterlinck já não reside no terror
e na piedade, mas num sentimento mais profundo e mais
ingênuo ainda, isto é, no espanto: êle queria fazer sentir a
suas personagens e, através delas, ao espectador, "o que há
de espantoso no simples fato de viver ". Meditemos nesta

40
palavra: não contém em germe uma das intuições mais pe­
netrantes do existencialismo contemporâneo? Acrescenta Mae­
terlinck, no capítulo citado há pouco: “Trata-se de fazer
ouvir, acima dos diálogos ordinários da razão e dos senti­
mentos, o diálogo mais solene e ininterrupto do ser e de seu
destino”. Objetivo ambicioso, certamente, que a obra teatral
de Maeterlinck em nenhum momento deslustrou.

Somos predestinados, mas o sábio pode deter a fatalidade

Nesta análise sumaríssima de seu teatro, ter-se-á reco­


nhecido que a estética de Maeterlinck não deixava de ter
prolongamentos metafísicos e morais: sua intenção não era
distrair o espectador, nem comovê-lo ou instruí-lo, mas elevá-
lo àquelas alturas vertiginosas onde a alma pode expandir-se
livremente. Em seu próprio teatro — e a evolução da obra ha­
veria sempre de confirmá-lo — Maeterlinck era antes de tudo
um moralista, e, com tôda a solenidade antiga desta palavra,
um Sábio: Se do filósofo tinha os grandes desígnios e as per­
cepções profundas, não tevé nunca a linguagem abstrata e
a dialética rebarbativa para os profanos. Suas inúmeras me­
ditações sôbre a condição humana, intituladas Le Trésor des
Humbles, La Sagesse et la Destinée, Le Double Jardin, Le
Temple Enseveli, La Mort, UHôte Inconnu, Le Grand Secret,
Avant le Grand Silence, Le Sablier e L Ombre des Ailes,
foram escritas em linguagem límpida e harmoniosa, discreta­
mente imagística, e essa linguagem parece fundir-se com o
pensamento que exprime.

Só poderei recordar aqui os principais temas dessa obra


numerosa. Maeterlinck partiu de um pessimismo absoluto:
os homens, dizia êle, não passam de “precários e fortuitos
clarões”, perdidos num oceano de mistério. A ciência nada
nos ensinou, pelo menos até agora, sôbre a origem e o fim
da vida, e, no fundo, é apenas "uma expressão tranqüiliza-
dora e conciliante de nossa ignorância”. O incognoscível, en­
tretanto, nem por isso é inativo: cerca-nos de sua presença
inquietante, e, se estamos encolhidos em nosso cantinho.

41
subitamente êle se nos manifesta por meio de pressentimen­
tos, sonhos, aparições: é "aquêle visitante inesperado que
vem sorrateiramente perturbar a quietação satisfeita em que
adormecêramos, embalados pela mão firme e vigilante da
ciência clássica’*.

Como os recém-nascidos de U O iseau Bleu, pensava êle,


somos sêres predestinados desde o nascimento, e a curva
de nossa vida, que acreditamos a todo momento infletida
pelo nosso querer, já estava desenhada, de fato, nos regis­
tros imutáveis da eternidade.

Entretanto, às vêzes Maeterlinck se revolta contra êsse


pessimismo deprimente: “Seria monstruoso e inexplicável, ex­
clama êle, que fôssemos somente aquilo que parecemos ser".
Somos cativos, sem dúvida, cativos de nosso corpo, cativos
dêste mundo, que nos cerca, e no qual não reconhecemos
o nosso bem. Do próprio seio dêsse cativeiro, porém, sobe
a esperança de libertação; sôbre a terra exausta e desengana­
da, Maeterlinck julga ouvir como que o frêmito surdo de um
enxame de asas a se abrirem e, por certos sinais, reconhece
que vivemos hoje uma ocasião excepcional de libertação es­
piritual.

Para o sábio, a fatalidade, a desgraça que fere os homens


pode ser vencida. O acontecimento, em si, é secundário. Em
sua alma, êle sabe como fransTormá-lo, pata que não destrua
nada de vital; dêste modo ò sábio se converte éin senhòr do
destino, e paralisa a desgraça.

Voltando-se então para a História, Maeterlinck se lem­


bra de que a humanidade conheceu épocas de alta espiri­
tualidade. Não se trata “daqueles séculos perfeitos em que
a inteligência e a beleza reinam com tôda a pureza, mas em
que a alma não se revela <— a Antiguidade clássica, os séculos
X V II e X V III franceses — mas dessas épocas místicas, em
que as barreiras entre os homens parecem ceder, e em que
as almas libertadas se comunicam em abraços fraternos, como

42
n índia dos Brâmanes ou de Buda, ou a Alexandria de Plotino
e de Filon, ou ainda aquela florescência efêmera, mas radian­
te, que foi o Romantismo alemão.
Será fácil reconhecer, nesta enumeração, os verdadeiros
antepassados espirituais de Maeterlinck. Como Novalis, de
quem traduziu para o francês O s D iscípulos d e Sais, e cujo
‘ idealismo mágico” o seduzia, pensava Maeterlinck que viria
uma hora em que os homens não precisassem mais de sinais
e de palavras para se exprimirem ou se compreenderem, nem
de olhos para se verem, e em que as almas regressassem juntas
à sua mansão comum.
A morte não seria mais que a volta a essa pátria espi­
ritual, de que só guardamos aqui embaixo longínqua reminis-
cência ou obscuro pressentimento: para uma vida que é cati­
veiro, a morte só poderia ser libertação; por isso Maeter­
linck a esperava com serenidade. “Deixarei sem pesar êste
mundo absurdo, do qual não compreendi nada", escrevia
êle a Louis Piérard, alguns dias antes de morrer.

O s insetos e as flô res consolam -no d o com ércio d os hom ens

Entretanto, ninguém se debruçou com maior amor do


que êsse filósofo, sôbre os mais humildes mistérios da vida;
ninguém falou dêles com tanta elegância e fervor.
Maeterlinck preferia cada vez mais o convívio com a
natureza à companhia dos homens, de quem evitava conti­
nuamente a curiosidade importuna. Paris, que dera o pri­
meiro impulso ao seu gênio, não conseguiu jamais conquis­
tá-lo, e menos ainda retê-lo. Deixando a ruidosa Rua de
Seine, refugiou-se numa casa meio provincial da Rua Ray-
nouard — a rua em que Balzac viveu, antes; —- em seguida,
após breve permanência na Rua Pergolese, instalou-se em
ponto retirado de Neuilly. Um dia, finalmente, seus amigos,
espantados, souberam que êle tinha ido viver em plena na­
tureza ou entre ruínas; daí por diante, no inverno, em Quatre-
Chemins, perto de Grasse, em meio a um paraíso floral;

43
durante o verão, na velha abadia normanda de Saint-W an-
drille, por apreciar-lhe a atmosfera shakespeariana.

Seria errôneo supor, entretanto, que nessas diferentes


mansões êle se entregasse à meditação solitária e desesperada:
se nada tinha a recear da morte, não precisava recusar tam­
pouco os benefícios efêmeros que a vida lhe prodigalizava.
Êsse grande contemptor da técnica era — quem o diria? — fã
do automóvel, e não desdenhava igualmente as alegrias mais
pobres da bicicleta. Êsse homem que desprezava o copo era
também um desportista completo, e mais tarde, já sexagená­
rio, não lhe desagradaria iniciar-se no boxe.

De passagem por Nice em janeiro de 1924, Maurice M ar­


tin du Gard quis rever Maeterlinck, então com 62 anos, e
dirigiu-se à sua vila "Les Abeilles”. É assim que, em La Revue
dcs Deux Mondes, de l 9 de fevereiro de 1960, retrata o dono
da casa:.

"Cabeça descoberta, alto, desempenado e sólido, usava


paletó-esporte, de bonita lã escocesa, cinza com flocos brancos
e prêtos. Quando a gente se lembra do rosto de Maurice
Barrês, que não era mais velho do que êle, ao ir-se embora
em dezembro! Maeterlinck, porém, não está marcado pela
idade, pelo sucesso ou pelas provações; aprendeu a resignar-
se sem qualquer ostentação, qualquer melancolia. Aprender
a resignar-se e a desesperar, sem desesperar, é muito de
Goethe. Êle é menos olímpico. Não envelheceu, salvo na­
queles sedosos cabelos brancos, de penteado liso, sem r is c a .. .
e bastaria a cabeleira para dar-lhe um ar de bondade. E êle é
bom. É um espírito fraternal. Rosto glabro e rosado, faces
sem rugas, olhos azuis de criança. O sorriso quase não aban­
dona êsse homem que harmonizou pensamento e vida, e que
nunca precisou mentir. Nada de ar mundano, nada, absolu­
tamente nada, de ar literário; reserva natural, modéstia fá­
c i l . . . Antigamente, nervosidade intensa, angústia, irritação
pelas menores coisas; hoje, calma, quase nenhuma descon­
fiança, e nenhuma tristeza — seria tolice. A poesia, o tra-

44
balho e o amor modelam êsses bonitos velhos, silenciosos e
lentos; não temem a Deus, e às vêzes o amam; Maeterlinck
o ama, sem saber qual, ao certo. Chegado a êsse cume da
beleza moral, não renuncia a nada. Em suma, viveu sempre
perto da morte sem separá-la da vida, sempre pensou e agiu
como se tivesse de ir embora no dia seguinte. Parece olhar
tudo com indiferença, e nada lhe escapa dos sêres nem das
coisas, mesmo invisíveis. Espécie de mistério, mas que con­
tinua sendo sortilégio.”
Acima de tudo, êste intelectual, êste contemplativo gosta­
va de inclinar-se, como antigamente São Francisco de Assis,
diante de nossos irmãos inferiores: pássaros e insetos. A
prática minuciosa da apicultura o consolava das desolado-
ras abstrações, e a vizinhança das flôres, do comércio decep­
cionante dos homens. Êste amor à vida, em sua formas mais
humildes e perfeitas ao mesmo tempo, valeu-nos uma série
de obras que figuram talvez entre as mais apuradas e mais
belas de Maeterlinck: La Vie des Abeilles, La Vie des Four-
mis, La Vie des Termites, sem falar em L'Intelligence des
Fleurs. Lendo essas monografias cativantes como medita­
ções, seriamos tentados a crer que se trata de obras de ima­
ginação, mas que de ciência. Não nos deixemos iludir, en­
tretanto, pela graça diáfana do estilo. Antes de escrever tais
livros, Maeterlinck acumulou inúmeras observações pessoais,
pelo menos quanto às abelhas e às flôres, que êle pôde estu­
dar de perto em seus jardins de Gand e de Grasse; leu aten­
tamente todos os tratados de entomologia e de botânica que
poderiam trazer qualquer contribuição útil ao assunto. Vul-
garizador, dir-se-á: como desejaríamos que todos os vulga-
rizadores atingissem essa precisão na análise, essa leveza de
estilo, essa profundidade na reflexão!

A grande lição social das abelhas e das térmites constituirá,


talvez , a carta do mundo d e amanhã
Em La Vie des Abeilles, Maeterlinck descreve com
amor as mil e uma atividades da colméia zunzunante, e mos­
tra que essas atividades tão diversas não são caprichosas ou

45
anárquicas, mas ordenadas por um poder oculto e sobera­
namente sábio, a que chama de "espirito da colméia”, e de
que a rainha se constitui, por assim dizer, órgão represen­
tativo. É nesse espírito coletivo, nessa "idéia fraternal”, como
diz algures, que se fundamenta a coesão da colméia. Como,
então, não nos sentirmos tentados a assimilar êsse modo de
associação a nossas repúblicas humanas? A sociedade dos
homens, pelo menos como a entende nossa tradição demo­
crática, se baseia em um contrato tácito pelo qual o indivíduo
aliena somente parte de sua vontade própria em troca dos
benefícios que a associação lhe proporciona; assim, a adesão
do indivíduo à sociedade é condicional, sempre parcial, e,
pelo menos em direito, revogável. Nada de semelhante entre
as abelhas: trata-se menos de uma sociedade contratual que de
uma comunidade viva, mais instintiva do que consciente,
antes mística do que racional, em que o indivíduo é absor­
vido pelo todo e imola corpo e alma ao interêsse soberano
da espécie.
Em página admirável, Maeterlinck desenvolve, por assim
dizer, a filosofia das abelhas e seus prolongamentos humanos:
"A abelha é antes de tudo, e mais ainda que a formiga, um ser
de multidão.. . Na colméia o indivíduo não conta.. . é ape­
nas um momento indiferente, órgão alado da espécie. Tôda
a sua vida é um sacrifício total ao ser inumerável e perpétuo
de que faz p arte..
Mais adiante, alude a essa "sociedade quase perfeita,
mas impiedosa, de nossas colméias, em que o indivíduo é
inteiramente absorvido pela república, e em que a república,
por sua vez, é sacrificada à cidade abstrata e imortal do fu­
turo”. Não se percebe que, através das abelhas, é do homem
que se trata, afinal de contas? Não conhecemos, infelizmente,
essas sociedades que instituem o reino da perfeição por meio
de massacres, e sacrificam os homens reais de hoje à huma­
nidade abstrata de amanhã?

Voltemos às abelhas, e tentemos discernir através delas


as intenções que a natureza manifesta:. "A natureza”, escreve

46

com profundidade Maeterlinck, "tende visivelmente à melho­


ria da espécie, porém mostra ao mesmo tempo que não a
deseja ou não pode obtê-la senão em detrimento da liber­
dade, dos direitos e da felicidade próprios do indivíduo. À
medida que a sociedade se organiza e sie eleva, diminui o
Ambito da vida particular de cada um de seus membros
Desde que há progresso em alguma parte, o resultado é o
sacrifício cada vez mais completo do interêsse pessoal ao
geral.”

Lei de bronze, em verdade, a que opõe o indivíduo à


espécie, e a liberdade ao progresso! Temos de reconhecer
que, com lucidez profética (se considerarmos que essas li­
nhas foram escritas em 1913), Maeterlinck definiu aí o dra­
mático debate que se propõe às consciências de hoje. Quem
não se interrogou um dia, com severidade ou angústia, sôbre
as contradições e os paradoxos de que é pródigo o mundo
moderno? Havíamos acreditado, e queríamos acreditar ainda,
que, afinal, o mundo é simples, e que, através de dilacera-
mentos e lutas, apesar de fracassos e recuos, as fôrças do
Bem haveriam de suplantar progressivamente as do Mal.
Mas se o bem e o mal estivessem de tal modo ligados que não
se soubesse mais distingui-los perfeitamente um do outro? E
se o bem, para atingir seus fins, necessitasse da cumplicidade
monstruosa do mal? Quem nos diz, afinal de contas, que
certos valores não são contraditórios, que aquêle que quer
a liberdade não estará engendrando a injustiça, e o que quer
a justiça não estará sacrificando a liberdade? Quem nos diz
que o progresso da humanidade não deve ser gravado ini­
cialmente em letras de fogo e de sangue, na própria carne
dos homens?

De qualquer modo, Maeterlinck tinha consciência dolo­


rosa dêsse dilema. Admirava sem reservas a obra maravilho­
sa das abelhas: “Se uma inteligência estranha a nosso globo
viesse pedir à terra o objeto mais perfeito da lógica da vida,
deveríamos apresentar-lhe o humilde favo de mel.” Verificava
êle, entretanto, logo depois, que a lógica da vida zomba do

47
sofrimento dos sêres vivos, e que, para a humilde operária
morta em serviço, a grandeza da obra futura não passa de
abstração irônica. Achava que, diferentemente das formigas
e das abelhas, o homem não é obrigado a obedecer às leis
da natureza, mesmo correndo o risco de perecer; quanto a
êle, recusava-se a optar. Persuadido de que só há progresso
à custa de lágrimas e de sangue, e que não existe perfeição
na terra sem sacrifícios cotidianos, relutava em escolher lá­
grimas, sangue e sacrifícios, preferindo deixar às sociedades
de abelhas e de formigas sua grandeza cruel. Sabia que a
humanidade, entregue a si mesma, resvala para a decadên­
cia irremediável, e não tinha a menor confiança nas soluções
pacíficas do liberalismo tradicional. Por um paradoxo de
que há outros exemplos, êsse amigo dos humildes, para
quem havia mais verdade no apêrto de mão do camponês
do que na dissertação do filósofo ou no discurso do chefe de
estado, êsse amigo dos humildes, dizia eu, estava longe de
ser democrata, e, em momentos de desilusão, exprimia-se du­
ramente sôbre a “estupidez de Demos’’. Além do mais, êsse
grande solitário, que desconfiava das palavras e dos discursos
não acreditava no reino das Assembléias soberanas, e des­
prezava os políticos profissionais.

No fundo, Maeterlinck não acreditava na política, e


tôda política lhe parecia inumana. Se com as abelhas ainda
é lícito hesitar, se a beleza da obra justifica e por assim dizer
santifica os sacrifícios por ela exigidos, já não ocorre o
mesmo com essa realização monstruosa que são as sociedades
de térmites. As térmites devem ter vivido antigamente ao ar
livre, em nossas regiões temperadas, até o dia em que um
rebaixamento de temperatura as obrigou a procurar refúgio
na terra e na madeira: muitas pereceram na tormenta, entre­
tanto algumas se adaptaram e sobreviveram. T al é o ponto
de partida dessa aventura, admirável e sinistra ao mesmo
tempo, que fêz das térmites êsses sêres noturnos, roedores
obscuros e terríveis, que solapam as casas do homem no
pesado silêncio das noites tropicais. Milagre de adaptação:
êsses animais chegaram a digerir a única substância que

48
lhes permaneceu ao alcance: a celulose da madeira. Sal­
vou-se dêsse modo a espécie, mas ao preço de quanto sacrifí­
cio! Operários das trevas, perderam pouco a pouco o uso
dos olhos e até a lembrança da luz, condenados a cavar
eternamente e sem esperança, e nem mesmo percebem a
grandeza da obra que realizam.

Como poderia deixar de ser amarga a meditação do


filósofo sôbre êste exemplo alucinante? "A s sociedades de
himenópteros, conclui Maeterlinck, não sem triste ironia,
chegaram a uma altura terrível, a uma perfeição que, do
ponto de vista prático e estritamente utilitário. . . , do ponto
de vista da exploração das fôrças, da divisão do trabalho
e do rendimento material, não atingimos ainda.” Aqui ainda
êle aflorou, com acento profético, um dos dramas de nossa
época: não conhecemos, também, êsse culto da eficácia, êsse
frenesi da produção? E estaremos seguros de que as socie­
dades humanas não evoluem para a termiteira?

Maeterlinck foi mais longe ainda. Numa antecipação


do Apocalipse, perguntava a si mesmo o que aconteceria se,
resfriando-se progressivamente a temperatura da crosta ter­
restre, a espécie humana fôsse condenada a um dia buscar
abrigo cada vèz mais longe nas profundezas da terra. Diante
dessa medonha perspectiva, nossa imaginação se perturba,
e nossas orgulhosas metafísicas permanecem mudas, sentindo
plenamente que estão à mercê de alguma catástrofe cósmica.
"Um meridiano”, dizia Pascal, "decide quanto à verdade; uns
graus a mais ou a menos, na superfície do globo, decidem
finalmente quanto a nossa existência.”

Para lá de nossa vida terrestre, porém, sabia êle que


existe a vida misteriosa do Universo: e excogitava se a
salvação de nossa espécie não viria acaso de alguma inter­
venção exterior, da comunicação miraculosa com um planêta
cujos habitantes fôssem mais sábios e mais felizes que nós.
São antecipações dêste gênero que Maeterlinck nos oferece
em algumas obras mais recentes, como La Vie de l’Espace,

49
que lhe foram sugeridas pelos maravilhosos desenvolvimen­
tos da física de Einstein.

Entretanto, Maeterlinck continuava persuadido de que


o milagre, se milagre houver, só poderá vir do homem. Acre­
ditaria realmente na possibilidade de comunicação com êsses
mundos estranhos? Sem dúvida, êles eram apenas a trans­
posição um tanto mítica do futuro espiritual que Maeterlinck
desejava para nosso planêta. O objeto de seus votos seria um
estremecimento de nossas almas, uma dessas ondas de misti­
cismo que sacudiram a humanidade em dois ou três momentos
privilegiados de sua história. Dêsse modo, a meditação sôbre
a ciência harmonizava-se com as conclusões' da sabedoria:
para os problemas da humanidade, que são problemas bioló­
gicos, só há remédios espirituais; desde que o mais íntimo
do homem se alienou e se perdeu na técnica, só a pureza
recuperada de nossa alma é que pode salvar-nos das bruxa­
rias do espírito.

Filósofo, Maeterlinck nunca deixou de ser poeta. Não


poderíamos encerrar esta brevíssima homenagem sem insistir
na incomparável beleza de seu estilo, diante do qual se in­
clinaram até mesmo aquêles que às vêzes criticavam o sentido
de sua obra, reconhecendo que alguns de seus livros ( L ’Oi-
seau Bleu, La Sagesse et la Destinée) são de um “mágico
estilista”.

Prosa tão fluida e harmoniosa constitui verdadeiro fei­


tiço para qualquer leitor sensível aos prestígios da forma.
Mesmo quando cogita de assuntos áridos, sabe envolver o
pensamento nos múltiplos encantos de uma língua poética e
musical.

Seu poder de sugestão não tem rival: comparando-o


a Victor Hugo, pôde alguém dizer que, se êste “produz a
impressão da plena luz diurna, Maeterlinck espalha a magia
delicada, mais divina, das noites consteladas”.

50
Em seus ombros, o manto de Tolstói?

A vida de Maeterlinck confunde-se com a própria ma­


turação de sua obra. Êle viveu uma dessas existências perfei­
tas e completas, que parecem reproduzir a harmonia de uma
curva invisível. Nada faltou à sua plenitude: glória, honra-
rias, fortuna, saúde, todos êsses bens que o sábio não procura
por si mesmos, mas que faria mal em recusar quando o des­
tino, por um dêsses dectetos de que só êle sabe as razões,
lhe permite fruí-los cândidamente. Ficamos a pensar na vida
dc rontenelle ou na de Goethe, das quais Maeterlinck se
aproxima através de tantas afinidades profundas: vidas sem
nuvens, sem abalos e contudo sem monotonia, vidas totais,
sem mutilações inúteis, sem asceses supérfluas, e que terminam
certa manhã, como a flor de que voam as pétalas sedosas.

Seus primeiros tempos foram difíceis. A glória, divindade


caprichosa, entretanto não se fêz esperar muito: o pronun­
ciamento de Octave Mirbeau não esmagou no alvorecer a
reputação do povem escritor; a fama o consagrou e fêz dêle
uma celebridade, realçada talvez pelos prestígios do afasta­
mento e por êsse halo romântico que, depois de Ossian,
envolve a nossos olhos as brumas do Norte. A glória de
Maeterlinck cresceu com Pelléas. As capitais européias, de
Berlim a Roma, de Madrid a São Petersburgo, sem esquecer
Bruxelas, disputavam-se a primazia de suas peças mágicas
e de seus dramas, que, logo depois de escritos, eram traduzi­
dos para tôdas as línguas da terra. Foi em Moscou, no
Grande Teatro, que ocorreu em 1909 a estréia de UOiseau
Bleu — quando na velha cidade moscovita ainda era per­
mitido acreditar em fadas. Finalmente, o renome dos ensaios
morais de Maeterlinck alcançou as Américas: a velha Europa
oferecia ao Nôvo Mundo o Sábio que sua inquietação talvez
esperava.

Não lhe faltaram honras oficiais. Em 1911, sua obra,


entretanto ainda longe do acabamento, foi julgada merece­
dora de uma das mais insignes consagrações literárias: o

51
Prêmio Nobel de Literatura. Com isso, pretendeu o júri de
Estocolmo, ao que se disse, “colocar o manto do ilustre Tols-
toi nos ombros do escritor mais indicado para servir-lhe de
continuador”.
A glória de Maeterlinck não deixou de expandir-se, na
Bélgica, até tornar-se glória nacional, e sua irradiação uni­
versal, levando aos antípodas o renome de sua pátria, consti­
tuiu a mais brilhante das ilustrações a uma frase pronunciada
em 1856 pelo Duque de Brabante, futuro Leopoldo II: “A
glória literária é o coroamento de todo edifício nannnal’’.
ro í talvez por lembrar-se dessa frase que seu sobrinho, o
grande rei Alberto I, concedeu a Maurice Maeterlinck as
honrarias de conde, manifestando assim, com ênfase, que a
aristocracia do espírito é o primeiro dos títulos ao reconheci­
mento das nações.

Maeterlinck deixou a Flandres em 1886, para instalar-se


na França, mas demonstrou sempre\tocante fidelidade à terra
que o vira nascer, e à qual sua obra devia tanto. Permitam-me
lembrar um episódio que, melhor que qualquer análise, ilustra
a delicadeza dêsse sentimento. Pouco depois de ser-lhe con­
ferido o Prêmio Nobel, quis a Academia Francesa, na ex­
pressão de um de seus membros, “satisfazer a ambição de
contar entre os seus imortais com um escritor tão brilhante
como Maeterlinck”. Deu-lhe a entender que bastaria apre­
sentar sua candidatura, prèviamente apoiada pela quase una­
nimidade dos sufrágios. Uma só condição — imposta, infeliz­
mente, pelo regulamento de sua fundação: a renúncia à na­
cionalidade belga pela nacionalidade francesa. Maeterlinck
recusou. Amistosas instâncias do próprio Raymond Poincaré
não lograram obter-lhe a aceitação, apesar da honra que se
queria fazer-lhe. Recusou-a por fidelidade à pátria de suas
raízes, demonstrando com isso um sentimento tão arraigado
na alma dos franceses que, no fundo, êstes ficaram encanta­
dos por encontrá-lo na dêle.

Competia desde então à Academia de Ciências Morais


e Políticas prestar ao escritor a homenagem da França: fê-lo

52
em 13 de março de 1937, com base no relatório'do meu emi­
nente confrade desaparecido, o Barão Seillière, elegendo
Maurice Maeterlinck para membro associado, na vaga do
Sr. Venizelos.

Na impossibilidade de acolhê-lo em seu seio, a Academia


Francesa lhe significou o seu reconhecimento concedendo-lhe
cm 1948, por indicação do Secretário-Geral Sr. Georges Le-
comte, a Medalha da Língua Francesa.

Seu último livro, Bulles Bleues, contendo recordações


de infância e juventude, revelou-nos um Maeterlinck paci­
ficado, voltando-se com humor pleno de ternura para a
Flandres de sua meninice, a amável anarquia de seus estudos
e seus primeiros balbucios de escritor. Estas reminiscências
foram sua última mensagem: Maurice Maeterlinck apagou-se
cm 7 de maio de 1949, aos 87 anos de idade, em seu castelo
de Orlamonde, acolhendo, com o sorriso infinito do sábio,
a morte que êle esperava "como irmã”.

Defendeu os direitos do invisível e do mistério

Que resta da obra de Maeterlinck?

O Sr. Jean-Marie Andrieu, encarregado de assuntos cul­


turais na Embaixada da Bélgica, em recente conferência no
Museu Guimet, sôbre "A atualidade de Maeterlinck”, res­
ponde a essa pergunta: "O afastamento de um artista não
se mede em função do tempo: avalia-se pela ressonância e
intensidade de seu talento, de seu gênio. . . Existe um pro­
blema Maeterlinck: suas obras completas não foram publica­
das, seu acervo abrange numerosas páginas inéditas.” A
celebração do centenário de seu nascimento, em 1962, dilata­
rá ainda o círculo de seu fiéis.

A significação de sua obra é universal. Disseram dêle


que era um contemplativo da Idade Média perdido no mundo
moderno. Na hora em que a ciência, embriagada pelos êxitos,

53
pretendia desvendar-nos o segredo das coisas, êle veio de­
fender os direitos do invisível e do mistério. À técnica triun­
fante no mal como no bem, opôs a reserva sorridente do
sábio. E não terá sido porque êle remou contra o seu tempo,
e porque é necessário, às vêzes, remar contra o nosso tempo,
que a mensagem de Maeterlinck foi e continua sendo atual?

54
MAURICE
MAETERLINCK

O PASSARO
AZUL
PRIMEIRO ATO
PRIMEIRO QUADRO

NA CHOUPANA DO LENHADOR

Ò palco figura o interior de uma choupana de lenha­


dor, simples, rústica, porém não miserável. ^ Lareira de
capote, onde bruxuleia o fogo de lenha. ^ Utensílios de
cozinha, armário, arca de pão, relógio de pêndulo, roca,
lavatório, etc. — Sôbre a mesa, um lampião aceso.
^ Junto ao armário, de cada lado, dormem enrodilhados,
de focinho sôbre o rabo, o Cão e a G ata. — Entre os
dois, um grande pão de açúcar, azul e branco. Dentro
da gaiola redonda, pendurada à parede, uma rolinha.
Duas janelas, ao fundo, com os postigos interiores fecha­
dos. Próximo a uma das janelas, um banquinho. À
esquerda, porta de entrada da casa, provida de tranqueta.
#—* À direita, outra porta. Escada em direção ao celei­
ro. Também à direita, duas caminhas de criança; à
cabeceira, sôbre duas cadeiras, roupas cuidadosamente
dobradas.
A o levantar-se o pano, Tiltil e Mitil
estão dormindo profundamente em
suas caminhas. M am ãe Til ajeita as
cobertas uma última vez, debruça-se
sôbre os meninos, contempla-lhes por
um instante o sono e, com a mão,
chama P apai Til, cuja cabeça aparece
no vão d a porta entreaberta. M am ãe
Til leva o d ed o aos lábios, para reco­
mendar-lhe silêncio, e sai pela direita,
na ponta dos pés, depois d e apagar a
luz. O palco fica momentâneamente
escuro; depois, filtra-se p o r entre as
fôlhas d o postigo uma claridade cujo
brilho aumenta pouco a pouco. O lam­
pião sôbre a mesa acen de-se esponta­
neamente. A s duas crianças parecem
acordar, e sentam-se nas camas.

TILTIL

Mitil?.

M ITIL

Tiltil?

TILTIL

V o cê está dormindo?

MITIL

E você?

59
T1LTIL
Eu não. Se estou falando com você, é porque estou acor*-
dado.

MITIL
Já é Natal?

TILTIL
Ainda não; amanhã. Mas Papai Noel não vai trazer nada
êste ano.

MITIL
Por quê?

TILTIL
Ouvi mamãe dizer que não podia ir à cidade para avisar a
êle. Virá no ano que vem.

MITIL
Demora muito, o ano que vem?

TILTIL
Um bocado. Mas esta noite êle vai à casa dos meninos
ricos.

MITIL
É?

TILTIL
Olhe, mamãe esqueceu o lampião! Tenho uma idéia.

MITIL
?

60
TILTIL
Vamos nos levantar?

MITIL
É proibido*

TILTIL
Mas se não há ninguém a í . . . Está vendo o postigo?

MITIL
Chi, que claridade!

TILTIL
São as luzes da festa.

MITIL
Que festa?

TILTIL
Lá em frente, na casa dos meninos ricos. É a árvore de
Natal. Vamos abrir o postigo.

MITIL

Será que pode?

TILTIL

Claro, a gente está sozinha. Ouviu a música? Vamos nos


levantar.

Os dois se levantam, correm para uma das janelas, sobem


no banquinho e empurram os postigos. Intensa claridade pe­
netra no quarto. Os meninos olham avidamente para [ora .

61
TILTIL

A gente vê tudo!

MITIL (mal conseguindo um lugar apertado no banquinho)


Eu não vejo.

TILTIL
Está nevando. Olhe ali dois carros com seis cavalos!

MITIL
Estão saindo dêle doze garotinhos.

TILTIL

Bôba! São garotinhas.

MITIL

Estão de calça.

TILTIL
Você entende lá disso!?.. . Não me empurre!

MITIL
Nem toquei em você.

tiltil (ocupando o banquinho inteiro)


Você tomou o lugar todo!

MITIL

Mas se eu fiquei sem lugar nenhum!

t il t il

Cale a bôca. Está-se vendo a árvore.

62
MITIL

Que árvore?

TILTIL

A árvore de Natal, ora essa! Você está olhando para a


parede!
MITIL

Estou olhando para a parede porque não há lugar.

tiltil (cede-lhe uma ponta insignificante no banquinho)


Ali! Agora chega? Não é o melhor lugar? Quantas luzes!
Que porção!

MITIL

Que barulho é êsse que estão fazendo?

TILTIL

É música.

MITIL
Estão zangados?

TILTIL

Não, mas cansa muito.

MITIL

Mais outro carro puxado por três cavalos brancos!

TILTIL

Cale a bôca. Olhe.

63
MITIL
Que é aquilo ali, de ouro, pendurado nos ramos?

TILTIL
São brinquedos, ora bolas! Espadas, fuzis, soldados, ca­
nhões.

MITIL
E bonecas, será que êles botaram?

TILTIL
Bonecas? Que bobagem. Não acham graça nisso.

MITIL
E aquilo tudo ali, enchendo a mesa?

TILTIL
Doces, frutas, tortas de creme.

MITIL
Eu comi uma, quando era pequena.

TILTIL
Eu também. É mais gostoso do que pão, mas servem um
pedaço tão pequenininho!

MITIL
Lá tem até demais. A mesa está cheia. Será que vão comer
tudo?

TILTIL
Claro. Que é que iriam fazer com isso?

64
MITIL
Por que não comem logo?

TILTIL
Porque não estão com fome.

m itil (estupefata)
Não estão com fome?! Por quê?

TILTIL
Porque comem à hora que querem.

m itil ( incrédula)
Todos os dias?

TILTIL
Dizem que sim.

MITIL
Será que vão comer tudo? Vão dar um pedaço?

TILTIL
A quem?

MITIL
A nós.

TILTIL
Êles não nos conhecem.

MITIL
E se a gente pedisse?

65
TILTIL
Isso não se faz.

MITIL
Por quê?

TILTIL
É proibido.

m itil (bate palmas)


Que lindos!

tiltil (entusiasmado)
Estão rindo tanto!

MITIL
Olhe os meninos dançando!

TILTIL
Pois então, vamos dançar também!

Pulam de alegria, sôbre o banquinho.

MITIL
Ah, que bom!

TILTIL
Estão ganhando doces! Podem pegar nos doces! E co­
mem! comem! comem!

MITIL
Os pequeninos também! Ganharam dois, três, quatro doces!

66
tiltil (louco de alegria)
Ah, que bom! Que bom! Que bom!

m itil (contando doces imaginários)


Eu ganhei doze!. . .

TILTIL
E eu quatro vêzes doze! Mas vou dar uns para você.
Batem à porta da cabana.
tiltil (perdendo de repente a excitação, e assustado)
Quem será?

m itil (apavorada)
Papai!
Como demoram a abrir, a tranqueta se move sozinha, ran­
gendo; entreabre-se a porta, e dá passagem a uma velhinha de
verde, capuz vermelho à cabeça. Ê corcunda, capenga e zarolha?
o nariz encosta-se no queixo; vem curvada, apoiando-se num
bordão. Sem a menor dúvida, é uma fada.
FADA
Vocês têm aí a Relva Cantante, ou o Pássaro Azul?

TILTIL
Relva temos, mas não canta. . .

MITIL
Tiltil tem um pássaro.

TILTIL
Mas êsse eu não posso dar.

67
FADA
Por quê?

TILTIL
Porque é meu.

FADA
É uma razão, sem dúvida. Onde está o pássaro?

tiltil (mostra a gaiola)


Na gaiola.

fad a (bota os óculos para examinar o passarinho)


Êsse eu não quero; não é bem azul. Você vai procurar
aquêle que eu quero.

t il t i l

Mas eu não sei onde êle está.

FADA
Nem eu. Por isso mesmo é preciso procurar. A rigor, posso
dispensar a Relva Cantante, mas tenho absoluta necessidade
do Pássaro Azul. É para minha filha, que está muito doente.

t il t il

Que é que ela tem?

FADA
Ninguém sabe ao certo. Ela gostaria de ser feliz.

TILTIL
Heinf

68
FADA
Vocês sabem quem eu sou?

TILTIL
A senhora se parece um pouco com a nossa vizinha, Dona
Berlingot.

fa d a (subitamente irritada)
Absolutamente! Não há a menor relação. Que horror! Sou
a Fada Beriluna.

T IL T IL

Ah, muito bem.

FADÃ

É preciso ir imediatamente.

T IL T IL

A senhora nos acompanha?

FADA
Ê de todo impossível, porque hoje de manhã botei um
cozido no fogo, e êle começa a entornar quando eu me afasto
mais de uma hora. (Indica sucessivamente o teto, a lareira e
a janela.) Vocês preferem sair por aqui, por ali ou por ali?

tiltil(timidamente, mostrando a porta)


Eu gostaria mais de sair por ali. ..

fad a (de nôvo se aborrece repentinamente)


É absolutamente impossível. Mas que costume idiota! ( In­
dica a janela.) Vamos sair é por ali. Muito bem. Que é que
estão esperando? Vistam-se depressa! ( Os meninos obedecem,
vestindo-se rapidamente.) Vou ajudar Mitil.

69
TILTIL
Nós não temos sapatos.

FADA
Não tem importância. Vou dar a vocês um chapèuzinho
mágico. Onde estão seus pais?

TILTIL (mostrando a porta à direita)


Estão lá, dormindo.

FADA
E vovô e vovó?

TILTIL
Morreram.

FADA
E irmãozinhos e irmãzinhas? Vocês não têm?

TILTIL
Temos, sim. Três irmãozinhos.

MITIL
E quatro irmãzinhas.

FADA
Onde estão?
TILTIL
Também morreram.

FADA
Vocês querem vê-los de nôvo?

70
TILTIL
Queremos, sim! Agora! Mostre para nós.

FADA

Êles não estão na minha algibeira. . . Mas a ocasião é


ótima. Vocês irão vê-los ao passarem pelo País da Saudade.
É na direção do Pássaro Azul. Logo à esquerda, depois do
terceiro cruzamento. Que estavam fazendo quando eu bati?

TILTIL

Brincando de comer doce.

FADA

Vocês têm doces? Onde estão?

TILTIL
No palácio dos meninos ricos. Venha ver, é tão bonitol
Conduz a Fada à janela.

fad a (à janela)
Êles é que estão comendo!

TILTIL
É, mas como a gente vê tudo. . .

fa d a

Você não fica zangado?

TILTIL

Por quê?

71
FADA
Porque estão comendo tudo. Acho que fazem muito mal
em não dar um pouco a você.

TILTIL
Não, porque êles são ricos. Tão bonita a casa dêles, não é?

FADA
Não é mais bonita do que a casa de você.

t il t i l

Oh! Aqui em casa é mais escuro, menor, não tem doce.. .

FADA
É exatamente igual. Você é que não vê.

TILTIL
Eu vejo, sim, vejo muito bem, tenho uma vista esplêndida.
Vejo até a hora no relógio da igreja, que papai não enxerga.

fad a (zangando-se subitamente)


Pois eu digo que você não vê coisíssima nenhuma! Como
é que você me vê? Como é que eu sou feita? (Silêncio cons­
trangido de Tiltil.) Então, não responde? (Silêncio cada vez
mais embaraçado.) Não quer responder? Sou môça ou velhi­
nha? Côr-de-rosa ou amarela? Tenho corcunda?

tiltil (benévolo)
Bom, não é lá muito grande. . .

fa d a

Pois pelo jeito que você fêz, parece que é enorme. Meu
nariz é adunco, meu ôlho esquerdo é vasado?

72
TILTIL
Não, não estou dizendo isso. Quem foi que vasou?

fad a (cada vez mais irritada)


Não é vasado! Atrevido! Ordinário! É até mais bonito
do que o outro; maior, mais claro, azul que nem o céu. E meus
cabelos, está vendo? São louros feito trigo. Até parece ouro
puro. E tenho tanto cabelo, tanto, que chega a me pesar na
cabeça. Espalha-se por todos os lados. Está vendo em minhas
mãos?
Ostenta duas mechas ralas, de cabelos grisalhos.
TILTIL
É, estou vendo alguns.

fa d a (indignada)
Alguns? Feixes! Braçadas! Tufos! Ondas de ouro! Sei
perfeitamente que certas pessoas fingem não ver; mas você
não é dêsses cegos de mau caráter, ao que suponho.

TILTIL
Não, não, estou vendo perfeitamente os que não estão
escondidos.

FADA

Mas é preciso ver os outros com a mesma coragem! Os


homens são engraçados: depois que as fadas começaram a
morrer, êles não vêem mais nada, não desconfiam de nada.
Felizmente, carrego sempre comigo o que é necessário para
reanimar os olhos mortiços. Que é que eu estou tirando do
saco?

TILTIL
Ah, que lindo chapèuzinho verde! Que é isso brilhante

73
assim, na roseta?

FADA

Ê o Diamante Grande, que (az a gente ver.

TILTIL
Ah!

FADA

Pois é. Você bota o chapéu na cabeça e mexe um pouco


com o Diamante; da direita para a esquerda, por exemplo —■
olhe, assim, está vendo? Então êle calca uma saliência do crânio,
que ninguém conhece, e que faz abrir os olhos.

TILTIL
Não tem perigo?

FADA

Pelo contrário, êle também é uma fada. A gente vê no


mesmo instante o que há nas coisas. Por exemplo: a alma do
pão, a do vinho, a da pimenta. . .

TILTIL
Será que vê também a alma do açúcar?

fa d a (subitamente zangada)
Que dúvida! Não gosto de perguntas inúteis. A alma do
açúcar não é mais interessante do que a alma da pimenta. Aqui
têm vocês o que eu trouxe para ajudá-los na busca do Pássaro
Azul. Sei perfeitamente que o Anel-que-torna-a-gente-invisível
ou o Tapête-mágico seriam mais úteis. Mas perdi a chave do
armário onde estão guardados. Ah, ia-me esquecendo. (M os­
tra o Diamante.) Se você pegar nêle assim, está vendo? e der
outra voltinha, tornará a ver o Passado. Mais outra voltinha,
e verá o Futuro. É curioso, prático, e não faz barulho.

74
TILTIL
Papai não me deixa ficar com êle.

FADA
Seu pai não verá. Ninguém pode vê-lo enquanto estiver
na cabeça de você. Quer experimentar? (P õ e o chapèuzinho
verde na cabeça de Tiltil.) Agora, vire o Diamante. Uma volta,
e depois. . .
Apenas faz girar o Diamante, súbita e prodigiosa mudança
opera-se em tôdas as coisas. A velha fa d a transforma-se de
repente em bela, maravilhosa princesa; Üuminam-se as pedras
que formam as paredes da choupana; azulecem como safiras,
tornam-se transparentes, cintilam e deslumbram como as pe­
dras mais preciosas. Os trastes humildes se animam e resplan­
decem. A mesa d e pinho se apresenta com a nobreza e a gra­
vidade das mesas d e mármore; o mostrador d o relógio pisca
o ôlho e sorri jovialmente, enquanto o tampo d e vidro por trás
d o qual oscila o pêndulo, se entreabre e deixa escapar^ as H oras;
dando-se as mãos, às gargalhadas, elas se põem a bailar ao
som d e deliciosa melodia. Espanto justificado d e Tiltil, que
exclama, apontando para as H oras:

TILTIL
Quem são essas môças lindas?

fa da

Não tenha mêdo. São as horas de sua vida, felizes por


estarem soltas e visíveis durante um momento.
TILTIL
E por que é que as paredes são tão claras? São de açúcar?
De pedras preciosas?
fada

Tôdas as pedras são iguais, 4ôdas as pedras são precio-


sas: mas o homem só vê algumas.

75
Enquanto assim conversam, prossegue e completa-se a
encantação. As almas dos Pães-de-meio-quilo, em forma de
homenzinhos vestidos de malha côr de pão, assustados e enfa-
rinhados, se desprendem da arca e pulam em redor da mesa,
onde vai ter com êles o Fogo que, saindo da lareira, vestido de
malha côr de enxofre e vermelhão, os persegue, às gargalhadas.

TILTIL

Quem são êsses homenzinhos feios?

FADA

Não se assuste. São as almas dos Pães-de-meio-quilo.


Aproveitaram o reino da verdade para saírem da arca, onde
viviam muito apertadas.

TILTIL
E êsse diabo grande e vermelho, que cheira mal?

FADA
Psiu, não fale tão alto. É o Fogo. Tem mau gênio.

Êste diálogo não interrompeu a mágica. O Cão e a Gata,


enrodilhados junto ao armário, dão simultaneamente um grito
agudo e desaparecem num alçapão; no lugar dêles, surgem
duas figuras humanas, uma com máscara de buldogue, outra
com focinho de gata. O homenzinho de máscara de buldogue
— que daqui por diante se chamará Cão — atira-se logo sôbre
Tiltil, beijando-o violentamente e sufocando-o com barulhentas
e impetuosas carícias, enquanto a mulherzinha de máscara fe­
lina — que se chamará simplesmente Gata — se penteia, lambe
as mãos e alisa os bigodes antes de aproximar-se de Mitil.

CÃO (late, pula, esbarra em tudo, insuportável)


Meu deusinho, bom dia! Bom dia, meu deusinho! Final­
mente chegou o dia de falar! Eu tinha tantas coisas para dizer!

76
Por mais que eu latisse e mexesse com o rabo, você não com­
preendia. Mas agora, bom dia! Eu gosto muito, muito de você!
Quer que eu faça uma coisa extraordinária? Que eu faça
um bonito? Que eu ande com as patas da frente ou que dance
na corda?

tiltil (à Fada)
Quem é êsse senhor com cara de cachorro?

FADA
Não está reconhecendo? É a alma de Tilô, que você li­
bertou.

g a ta (aproxima-se de Mitil e estende-lhe a mão,


cerimoniosa e circunspecta)
Bom dia, senhorita. Como está linda, hojel

MITIL
Bom dia, minha senhora. (À Fada.) Quem é?

FADA
Tão fácil. É a alma de Tilete, que está cumprimentando.
Dê-lhe um beijo.

cão (empurra a Gata)


Eu também vou beijar o deusinho! Vou beijar a meni-
ninha! Beijo todo mundo! Esplêndido! Como a gente vai se
divertirl Vou fazer mêdo a Tilete: Au! Au! Au!

GATA
Não o conheço, cavalheiro.. .

fad a (ameaça o Cão com sua varinha)


Você aí: vai ficar bem quietinho, senão voltará ao silên­
cio, por tôda a eternidadel

77
Enquanto isso, a mágica prossegue em seu curso: a um
canto, a roca entra a girar vertiginosamente, tecendo magní­
ficos raios de luz; a torneira, no outro ângulo, começa a cantar
em tom agudissimo e, transformando-se em fonte luminosa,
enche a pia de espadanas de pérolas e esmeraldas, por entre
as quais se ergue a alma da Água, semelhante a uma jovem
gotejante, desgrenhada e lamurienta, que vai imediatamente
brigar com o Fogo.
TILTIL
E essa senhora molhada?

FADA
Não tenha mêdo, é a Água que sai da torneira.

A jarra de leite rola e cai da mesa, partindo-se no chão:


do leite espalhado, ergue-se uma grande forma álvinitente e
casta, que parece ter mêdo de tudo.
TILTIL
E o vulto de camisolão, com ar de mêdo?

FADA

É o Leite, que quebrou a jarra.

O pão de açúcar, colocado junto ao armário, cresce e


rompe o invólucro de papel, de onde emerge um ser melífluo,
dissimulado, envolto em guarda-pó metade branco, metade azul,
e que, sorrindo beatificamente, caminha na direção de Mitil.
MITIL (inquieta)
Que é que êle quer?

FADA
É a alma do Açúcar.

78
m itil (tranqüilizada)
Será que êle tem pirulitos?

FADA
Não tem outra coisa no bôlso. Seus dedos são feitos disso.

O lampião cai da mesa; uma vez no chão, sua chama se


levanta e se transforma numa virgem luminosa de incompa­
rável beleza. Envolta em longos véus transparentes e deslum­
brantes, mantém-se imóvel, como em êxtase.
TILTIL
Ê a Rainhal

MITIL
É Nossa Senhora!

FADA
Não, meus filhos, é a Luz.

Enquanto isso, nas prateleiras, as caçarolas rodam como


piorras; o armário de roupa bate com as portas, e começa um
magnífico desfile de tecidos côr de lua e de sol, a que se
misturam, não menos esplêndidos, retalhos e andrajos que des­
cem pela escada do celeiro. Eis, porém, que soam três pancadas
bem fortes na porta da direita.

tiltil (assustado)
É papai 1 Êle escutou!

FADA

Dê uma volta no Diamante, da esquerda para a direita!


(Tiltil faz rodar vivamente o Diamante.) Assim depressa, não!
Meu Deus, agora é tarde! Êles não poderão voltar a seus lu­

79
gares, e nós teremos muitos aborrecimentos. (A Fada volta a
ser uma velha, extinguem-se os esplendores nas paredes da
choupana, as Horas entram no relógio, a roca imobiliza-se, etc .
Na pressa e na confusão geral, porém, enquanto o Fogo dis­
para loucamente em redor do quarto, procurando a lareira, um
dos Pães-de-meio-quilo, que não encontrou lugar na arca, prin­
cipia a soluçar e solta gritos de terror.) Que há?

pão (todo lacrimoso)


Não há mais lugar na arcai

fa d a (inclina-se sôbre a arca)


Há, sim. (Empurra os outros pães, que retomam seus
lugares primitivos.) Vamos, depressa, acomodem-se.

Batem outra vez à porta .

pão (afobado, esforça-se em vão por entrar na casa)


Não há jeito! Êle vai me comer em primeiro lugar!

cão (pulando em redor de Tiltil)


Ainda estou aqui, meu deusinho! Ainda posso falar! Ainda
posso beijar você! Ainda! Que bom! Que bom!

FADA

Como, você também? Ainda está aí?

cÃo
Tive sorte. Não pude voltar ao silêncio. O alçapão se
fechou depressa demais.

GATA

O meu também. Que vai acontecer? Há perigo?

80
FADA

Meu Deus, tenho de lhes falar verdade: todos que acom­


panharem os dois meninos morrerão no fim da viagem.

GATA

E os que não acompanharem?

FADA

Viverão mais alguns minutos.

g a ta (ao Cão)
Venha, vamos voltar para o alçapão.

cÃo
Não, não. Não quero. Quero acompanhar o deusinho.
Quero falar com êle o tempo todo.

gatA

Imbecil!

Batem mais uma vez â porta.

PÃO (debulhado cm lágrimas)


Não quero morrer no fim da viagem! Quero voltar ime­
diatamente para a minha arca!

FOGO (percorre vertiginosamente o quarto, soltando


assobios angustiosos)
Não encontro mais minha lareira!

ÁGUA (tenta em vão entrar na torneira)


Não posso mais entrar na torneira!

81
açú car (agita-se em redor do saco de papel)
Rasguei meu papel de embalageml

LEITE (linfático e pudico)


Quebraram minha jarrinha!

FADA
Que idiotas, meu Deus! Idiotas e poltrões! Então vocês
preferem continuar a viver em suas miseráveis caixinhas, seus
alçapões, suas torneiras, a acompanhar os meninos que vão
procurar o Pássaro?

to d o s (menos o Cão e a Luz)


Preferimos, sim! Depressa! Minha torneiral Minha arca!
Minha lareira! Meu alçapão!

fad a (à Luz, que contempla ensimesmada os cacos do lampião)


E você, Luz, que me diz?

LUZ
Eu acompanho os meninos.

CÃO (late de alegria)


Eu também! Eu também!

FADA

Vocês são os melhores. Aliás, já é muito tarde para recuar.


Não podem mais escolher, todos seguirão conosco. Mas você,
Fogo, não se aproxime de ninguém; você, Cão, não atormente
a Gata; e você aí, Água, ande direitinho, procure não escorrer
por tôda parte.
Ouvem-se novas pancadas violentas, na porta da direita.

82
TiLTiL (escutando)
Ê papai outra vez! Agora se levantou, estou ouvindo os
passos dêle.
FADA
Vamos sair pela janela. Irão todos para minha casa, onde
vestirei corretamente os animais e os fenômenos. (Ao Pão.)
Pão, segure a gaiola em que levaremos o Pássaro Azul. Fica
por sua conta. Depressa, depressa, não percamos tempo.

Bruscamente, a janela se alonga como porta. Saem todos,


e a janela volta à forma primitiva. fechando-se com inocência.
O quarto volta a escurecer, as duas caminhas mergulham na
sombra. Entreabre-se a porta da direita, e no vão aparecem as
cabeças de Papai e Mamãe Til.

PAPAI TIL
Não era nada. É o grilo cantando.

MAMÃE TIL

Está vendo os dois?

PAPAI TIL
Perfeitamente. Dormem tranqüilos.

MAMÃE TIL
Estou ouvindo a respiração dêles. . .

Fecha-se a porta.

PANO

83
SEGUNDO ATO
SEGUNDO QUADRO

NO PALÁCIO DA FADA

Magnífico vestíbulo, no palácio da Fada Beriluna. Co­


lunas de mármore claro, com capitéis de ouro e prata,
escadarias, pórticos, balaustradas, etc*
Entram pelo fundo, à direita, sun-
tuosamente vestidos, a Gata, o Açúcar
e o Fogo. Saem de um aposento do
qual brotam raios de luz: o quarto-de-
vestir da Fada. A Gata recobriu com
uma gaze leve a malha de sêda prêta;
o Açúcar envolveu-se num traje de
sêda, metade branco metade azul-cla-
ro; o Fogo tem à cabeça plumas mui-
ticores e usa longo manto carmesim,
forrado de ouro. Atravessam a sala
de ponta a ponta, e chegam ao pri­
meiro plano, à direita, onde a Gata os
reúne sob o pórtico.

GATA

Por aqui. Conheço todos os meandros dêste palácio. Era


do Barba Azul, e a Fada o ganhou, como herança. Enquanto
os meninos e a Luz visitam a filhinha da Fada, vamos apro­
veitar nosso derradeiro minuto de liberdade. Chamei-os aqui
para conversarmos sôbre a situação que nos criaram. Todos
estão presentes?

AÇÚCAR

Ali está o Cão, que veio do quarto-de-vestir da Fada.

FOGO

Que roupa mais esquisita êle foi arranjar?!

87
GATA
Pegou a libré de um dos lacaios da carruagem da Cinde-
rela; era a roupa que mais lhe assentava. Tem alma de criado.
Mas vamos nos esconder atrás da balaustrada. Tenho uma des­
confiança esquisita dêle. É melhor que não escute o que vou
dizer a vocês.

AÇÚCAR
Não adianta. Já nos descobriu. Olhe, ali está a Água, que
saiu ao mesmo tempo do quarto-de-vestir. Meu Deus, que be-
lezal

O Cão e a Água juntam-se ao primeiro grupo.

f cão (aos pulos)


Vejam! Vejam só! Não estamos lindos? Olhem estas ren­
das, êstes bordados! Ouro purol

GATA (à Água)
Não é o vestido côr-do-tempo, de Pele-de-Asno? Tenho a
impressão de que é meu conhecido.. .

ÁGUA

É, sim. É o que mais me assenta.

FOGO (entre dentes)


Ela está sem guarda-chuva.

ÁGUA

Como?

FOGO

Nada, não.

88
ÂGUA
Pensei que estivessem falando sôbre um narigão vermelho
que vi há dias.

GATA #
Ora, não vamos brigar, temos mais que fazer. Estamos só
à espera do Pão. Por onde andará êle?

CÃO
Estava embaraçadíssimo para escolher a roupa.

FOGO
Que adianta, quando se tem o ar idiota e uma barrigona. . .

CÃO

Afinal, escolheu um costume turco, recamado de jóias,


cimitarra e turbante.

GATA
Aí vem êle! Envergou o mais lindo traje do Barba Azul.
Entra o Pão, no traje que acaba de ser descrito. A túnica
de sêda cai penosamente sôbre a enorme barriga. Com uma
das mãos, segura o cabo da cimitarra prêsa à cintura, e, com
a outra, a gaiola destinada ao Pássaro Azul.
pão (gingando vaidosamente)
Então? Como é que vocês me acham?

CÃO (pulando em redor do Pão)


Que bonito! Que boboca! Que bonito! Que bonito!

g a ta (ao Pão)
Os garotos estão prontos?

89
PÃO
Estão. O senhor Tiltil pôs o casaco vermelho, as meias
brancas e o calção azul do Pequeno Polegar. A senhorita Mitil
está com o vestido da Bela Adormecida e os sapatinhos de Cin-
derela. O problema foi vestir a Luz.

GATA
Por quê?

PÃo
A Fada achou que era uma pena vesti-la, de tão bonita
que é. Eu protestei em nome da nossa dignidade de elementos
essenciais e eminentemente respeitáveis. Cheguei a declarar
que, nessas condições, eu me recusava a sair com ela.

FOGO
Devia-se comprar um abajur para ela.

GATA
E a Fada, que respondeu?

PÃO
Me deu umas bastonadas na cabeça e na barriga.

GATA
E daí?

PÃO
Eu me convenci imediatamente, mas à última hora a Luz
se decidiu pelo vestido côr-de-luar, que estava no fundo do
cofre de tesouros de Pele-de-Asno.

GATA
Vamos, chega de conversa, o tempo urge. Trata-se de
nosso futuro. Vocês escutaram o que a Fada acabou de dizer:

90
o fim desta viagem será também o fim de nossa vida. Portanto,
é preciso esticá-la o mais possível, de todos os modos. E hâ
outra coisa ainda: temos de pensar na sorte de nossa raça, no
destino de nossos filhos.

PÃO
Muito bem! Bravo! A Gata está com a razão!

GATA
Escutem. Todos aqui presentes, animais, coisas e elemen­
tos, possuímos uma alma que o homem não conhece ainda. È
por isso que conservamos um resto de independência. Mas se
êle achar o Pássaro Azul, saberá tudo, verá tudo, e ficaremos
completamente à sua mercê. Eis o que acaba de me participar
minha velha amiga a Noite, que é ao mesmo tempo guarda dos
mistérios da Vida. Portanto, é do nosso interêsse impedir a
todo custo que êsse pássaro seja encontrado, mesmo que se
torne imperativo ameaçar a própria vida dêsses garotos.

cão (indignado)
Que é que essa coisa aí está dizendo? Repita, para eu es­
cutar bem!
PÃO
Silêncio! O senhor não está com a palavra. Sou eu quem
preside a assembléia.
FOGO
Quem foi que o nomeou presidente?

água ( ao Fogo)
Silêncio! É da sua conta?

FOGO
É da minha conta o que me interessa. Não tenho que lhe
dar satisfações.

91
açú car (conciliador)
Com licença: não vamos brigar. A hora é grave. Antes de
tudo, precisamos nos entender sôbre as medidas a tomar.

PÃO
Participo inteiramente da opinião do Açúcar e da Gata.

CÃO

Tolice! O que há é o Homem, e nada mais! Temos de


obedecer a êle, fazer tudo que êle quiser. Só isso é que vale.
Só conheço a êle. Viva o Homem! Tudo pelo Homem, para a
vida e para a morte! Êle é deus!

PÃo
Participo inteiramente da opinião do Cão.

g a ta (ao Cão)
Mas estamos dando nossas razões.. .

cÃo
Não há razões! Eu gosto do Homem, e basta. Se fizerem
alguma coisa contra êle, primeiro eu estrangulo vocês, e depois
vou contar tudo a êlel

açú car (intervindo com doçura)


Com licença.. . Não azedemos a discussão. De certo pon­
to de vista, todos dois estão certos. Há prós e contras. . .

PÃO
Participo inteiramente da opinião do Açúcar!

GATA

Pois todos aqui, Água, Fogo, e até vocês mesmos, Pão


e Cãò, não somos vítimas de uma tirania inqualificável? Lem­

92
brem-se de como era antes da vinda do déspota:' nós passeá­
vamos livremente pela face da terra. A Água e o Fogo eram
senhores absolutos do mundo: vejam o que êles são hoje. Quanto
a nós, pobres descendentes dos grandes animais ferozes. . .
Atenção! Disfarcemos. A Fada e a Luz se aproximam. A Luz
tomou o partido do Homem, é a nossa pior inimiga. Aí estão
elas.
Entram pela direita a Fada e a Luz, seguidas por Tiltil
e Mitil.
FADA
Então, que é isso? Que fazem aí nesse canto? Parecem
estar conspirando. Já é tempo de começar a viagem. Resolvi
agora que a Luz vai chefiar vocês. Devem obedecer-lhe como
se fôsse eu mesma; ela ficará com a minha varinha. Esta noite,
os meninos irão visitar seus avós que morreram. Vocês, por
discrição, não os acompanhem. Êles passarão a noite com a
família desaparecida. Enquanto isso, vocês preparem tudo que
é necessário para a caminhada de amanhã, que vai ser com­
prida. Vamos, de pé! A caminho, cada um no seu pôsto!

g a ta (com hipocrisia)
Exatamente o que eu estava dizendo a êles, Dona Fada.
Eu os exortava a cumprirem o dever conscienciosa e corajosa­
mente; pena é que o Cão não parasse de me interromper.

CÃO
Que é que ela está dizendo? Espere um pouco!
Vai saltar sôbre a Gata, mas Tiltil, que previu o seu im­
pulso, o detém com um gesto ameaçador.
TILTIL
Quieto, Tilõ! Cuidado. Se fizer isso mais uma v e z .. .

CÃO
Meu deusinho, você não sabe: foi ela q u e.. .

93
tiltil (ameaçando-o)
Cale a bôcal

FADA
Bem, acabamos com isso. Esta noite, o Pão dará a gaiola
a Tiltil. O Pássaro Azul talvez esteja escondido no Passado, em
casa dos avozinhos. De qualquer modo, é uma hipótese que não
convém desprezar. Muito bem, “seu” Pão, e essa gaiola?

pão (solene)
Um momento, por favor, Dona Fada. (Como orador que
toma a palavra.) Todos vós sois testemunhas de que esta gaiola
de prata, que me foi confiada p ela.. .

fad a (interrompendo-o)
Basta, nada de frases. Sairemos por ali, os meninos por
aqui.

tiltil (um tanto preocupado)


Vamos sair sozinhos?

m it i l

Estou com fome.

t il t il

Eu também.

fad a (ao Pão)


Desabotoe essa roupa turca e dê-lhe um pedaço de sua
barriguinha.

O Pão desabotoa a roupa, tira a cimitarra e corta duas


fatias de sua própria e gorda barriga, oferecendo-as às crianças.

94
açú car (aproxima-se dos meninos) '
Permitam que lhes ofereça também alguns pirulitos.

Quebra um a um os dedos da mão esquerda e oferece-os


aos meninos.
MITIL
Que é que êle está fazendo? Quebrou todos os dedos!

açú car (obsequioso)


Experimentam, são ótimos. Pirulitos de verdade.

m itil (chupando um dedo)


Meu Deus, que gostoso! Você tem mais?

açú car (modesto)


Claro, quanto eu quiser.

MITIL
Dói quando quebra?

açúcar

Absolutamente. Pelo contrário. É até vantajoso: êles bro­


tam logo, e dessa maneira tenho sempre dedos limpos e novos.

FADA

Vamos, meus filhos, não comam açúcar demais. Não se


esqueçam de que daqui a pouco irão jantar em casa de seus avós.

TILTIL
Êles estão aqui?

FADA
Irão vê-los daqui a um momento.

95
TILTIL

Como é que vamos vê-los, se já morreram?

FADA

Morreram como, se estão vivos na lembrança de vocês?


Os homens não sabem dêste segrêdo, porque sabem muito pou­
ca coisa; mas você, graças ao Diamante, verá que os mortos
que recordamos vivem tão felizes como se não tivessem morrido.

TILTIL
A Luz vem conosco?

LUZ

Não, é melhor que tudo se passe em família. Vou esperar


aqui na vizinhança, para não parecer indiscreta. Êles não me
convidaram.

TILTIL

Por onde é que nós vamos?

fa d a

Por aqui. Estão no limiar do País da Saudade. Logo que


virar o Diamante, você verá a árvore, com um letreiro, indican­
do a chegada. Não se esqueçam de que todos dois devem
estar de volta às oito e quarenta e cinco. É da maior importân­
cia. Acima de tudo, sejam pontuais. Tudo estará perdido se
se atrasarem. Até já. (Chamando a Gata, o Cão, a Luz, etc.)
Por aqui. Os pequenos, por ali.

Sai pela direita, com a Luz, os animais, etc., enquanto os


meninos saem pela esquerda.

PAN O

96
TERCEIRO QUADRO

NO PA IS DA SAUD ADE

Nevoeiro espesso, do qual emerge, à direita, bem no


primeiro plano, o tronco do grande carvalho, com um
letreiro. Claridade lãtea, difusa, impenetrável.
Tiltil e Mitil estão junto ao carvalho.

TILTIL
Olhe a árvore!

MITIL

Com o letreiro!

, TILTIL
Não consigo ler. Espere, vou subir nesta raiz. É isso mes­
mo. Está escrito: "País da Saudade”.

MITIL
Êle começa aqui?

TILTIL
É, tem uma flecha.

MITIL
Muito bem, onde estão vovô e vovó?

TILTIL

Atrás do nevoeiro. Vamos ver.

MITIL
Não vejo absolutamente nada. Nem meus pés, nem mi­
nhas mãos. (Choramingando.) Estou com frio! Não quero mais
viajar. . . Quero voltar para casa. . .

98
TILTIL
Vamos, não fique ai chorando o tempo todo, feito a Água.
Que vergonha, uma menina tão grande! Olhe, o nevoeiro estã
diminuindo. Vamos ver o que há lá dentro.
Realmente, a bruma começa a mover-se; vai ficando mais
tênue, clareia, dispersa-se, evapora-se. Dentro em pouco, na
claridade cada vez mais transparente, sob um dossel de folha­
gem, surge alegre casinha de camponês, coberta de trepadeiras.
Porta e janelas abertas. Colméias sob o telheiro,. vasos de flôres
no peitoril das janelas, a gaiola com um melro adormecido, etc.
Junto à porta, sentados no banco, dormem profundamente um
velho camponês e sua mulher — o avô e a avó de Tiltil.
tiltil (reconhece-os de repente)
Vovô e vovó!
m itil (bate palmas)
É mesmo, são êles! São êles!

tiltil (ainda um pouco desconfiado)


Cuidado! A gente não sabe ainda se êles podem se mexer.
Vamos ficar atrás da árvore.
Vovó Til abre os olhos, levanta a cabeça, espreguiça-se,
suspira, olha Vovô Til, que também acorda lentamente.
VOVÓ TIL
Tenho impressão de que nossos netinhos ainda vivos nos
farão hoje uma visita.
vovô TIL
Com certeza êles pensam em nós, pois estou me sentindo
perturbado, êsse formigamento nas pernas.. .

vovó TIL
Acho que estão pertinho daqui. Há lágrimas de alegria
dançando nos meus olhos.. .

99
VOVO TIL
Não, não, estão muito longe. Ainda me sinto fraco.
VOVÓ TIL
Pois eu digo que estão aí. Já me voltaram as fõrças.
e MITIL (precipitam-se de detrás do carvalho)
tiltil
Estamos aqui! Estamos aqui! Vovózinho, vovòzinha! So­
mos nós! Somos nós!

vovô TIL
Aqui? Está vendo? Eu não dizia? Tinha certeza que viriam
hoje.
vovo TIL
Tiltil! Mitil! É êle! É ela! São êles! (Tenta correr na dire­
ção dêles.) Não posso correrl Continuo com reumatismol
vovô t i l (acode também, capengando)
Eu também. Essa perna que me botaram quando quebrei
a outra ao cair do carvalho grande!
Avós e meninos beijam-se efusivamente.
VOVÓ TIL
Você está gordo, forte, meu Tiltil!
vovô t i l (acaricia os cabelos de Mitil)
E Mitil? Olhe só que cabelos, que maravilha de olhos! E
como está cheirosa!
vovó t i l
Quero mais beijos. Venham para o meu colo.

vovô t i l
Não, não. Primeiro, eu. Como vão Papai e Mamãe Til?

100
TILTIL
Muito bem, vovô. Estavam dormindo quando saímos.
VOVÔ TIL (contempla-os e cumula-os de carícias)
Benza-os Deus, como estão bonitos, limpinhos! Foi ma­
mãe quem lavou o seu rosto? Suas meias não estão furadas. An­
tigamente, eram cerzidas por mim. Por que não vêm nos visitar
sempre? Ficamos tão satisfeitos. Há meses e meses que vocês
nos esqueceram, que não vemos ninguém. . .
TILTIL
Não podíamos, vovó. Foi por gentileza da Fada que
hoje__
v o v ó TIL
Estamos sempre aqui, à espera de uma visitinha dos que
vivem. São tão raras! A última vez que vocês vieram, espere —
quando foi mesmo? No Dia de Todos os Santos, quando tocou
o sino da igreja...
TILTIL
No Dia de Todos os Santos? Não saímos naquele dia,
estávamos tão resfriados.
v o v ó TIL
Não saíram, mas pensaram em nós.

TILTIL
Foi, sim.
VOVÔ TIL
Pois bem, tôda vez que pensam em nós, a gente acorda
e torna a vê-los.
TILTIL
Como? Então basta que. . . ?

101
VOVÓ TIL
Ora, você sabe muito bem.

TILTIL
Não sei, não.
vovó t i l (a Vovô Til)
É espantoso, lá em cima. Ainda não sabem. Não apren­
dem nada, então?

vovô TIL
No nosso tempo já era assim. Os Vivos são tão idiotas,
quando falam dos Outros. . .

TILTIL
Vocês dormem o tempo todo?

vovô TIL
Sim, dormimos um bocado, à espera dc um pensamento
dos Vivos, que nos desperte. Ah, é bom dormir, depois que
a vida acabou. Mas também é agradável acordar de vez em
quando.
TILTIL
Não estão mortos de verdade, éntão?

vovô t i l (sobressaltando~se)
Que é que você está dizendo? Que é que êle diz? Emprega
palavras que não compreendemos. Será algum têrmo nôvo,
alguma invenção?
t il t i l

A palavra “morto”?

vovô TIL
É, sim. Que quer dizer?

102
TILTIL
Quer dizer pessoa que não vive mais.

v o v ô TIL
São bem idiotas» lá em cima!

TILTIL
É bom, aqui?
v o v ô TIL
É. Mais ou menos. Mas se as pessoas ainda rezassem. . .

TILTIL
Papai me disse que não se deve mais rezar.

v o v ô TIL
Deve-se, deve-se. Rezando, a gente se lembra.

VOVÓ TIL
Pois é, tudo iria bem, se pelo menos vocês viessem nos
visitar mais vêzes. Lembra-se, Tiltil? Da última vez, eu fiz
uma linda torta de maçãs. Você comeu tanto, tanto, que
adoeceu.
TILTIL
Eu não como torta de maçãs desde o ano passado. Êste
ano não houve maçã.
v o v ó T IL
Não diga tolices. Aqui há sempre maçã.

TILTIL
Não é a mesma coisa.
v o v ó TIL
Como não é a mesma coisa? É tudo a mesma coisa, quando
a gente pode se beijar.

103
tiltil (olha alternadamente para o Avô e a Avó)
Você não mudou nada, vovô, absolutamente nada. Vovó
também não mudou nem um tiquinho. Estão até mais bonitos. . .

v o v ô TIL
Oh, vai-se indo como Deus é servido. Não envelhecemos
mais. Vocês é que cresceram, hein? É, estão subindo de ver­
dade. Olhem, na porta se vê ainda a marca da última vez.
Foi no Dia de Todos os Santos. Vamos, fique bem aprumado.
(Tiltil se apruma, encostado à porta.) Quatro dedos. É muito!
(Mitil também se perfila, encostada à porta.) Mitil, quatro
e meio. ô , sementinha danada! Como cresce, como cresce!

tiltil (olha em redor, enlevado)


\ Como tudo está direitinho, nos seus lugares! E tudo mais
bonito! Olhe o relógio com o ponteiro grande, que eu quebrei.

v o v ô TIL
E esta é a sopeira que você desbeiçou.

TILTIL
Aquêle é o furo que eu fiz na porta, no dia em que achei
uma verruma.

v o v ô TIL

É mesmo, quanto estrago você fêz! E ali está a ameixeira


em que você gostava de subir, na minha ausência. Continua
a dar ameixas vermelhas, tão bonitas.

TILTIL
Agora são muito mais bonitas!

MITIL
E êste é o velho melro. Será que êle ainda canta?

104
O melro acorda e começa a cantar com tôda a fôrça.
VOVÓ TIL
Está vendo? Basta pensar nêle.

tiltil (nota, estupefato, que o melro é todo azul)


Êle é azul! É o Pássaro Azul, que eu tenho de levar para a
Fada! E vocês não me disseram que êle estava aqui! Ah, como
é azul, azul, azulinho feito uma bola de gude azul! (Suplicante.)
Vovô, vovó, posso ficar com êle?

v o v ô TIL
Está bem, acho que pode. Que lhe parece, Mamãe Til?
VOVÓ T IL
Claro que pode. Para que serve êle aqui? Vive dormindo,
não canta nunca.
T IL T IL
Vou botá-lo na gaiola. Ué, onde está minha gaiola? Ah,
é verdade, esqueci atrás da árvore grande. ( Corre até a árvo­
re, apanha a gaiola e coloca o melro dentro.) Então, é verdade,
vocês me deram êste pássaro a sério? Ih, como a Fada vai
ficar satisfeita! E a Luz, então!

v o v ô T IL
Sabe? Não me responsabilizo por êsse passarinho. Tenho
mêdo de que êle não se acostume com a vida agitada lá de
cima, e aproveite o primeiro ventinho propício para voltar.
Enfim, veremos. Deixe êle aí um momento e venha ver a vaca.
( observando a colméia)
tiltil
E as abelhas, como vão?
vovô t il

Vão indo. Também não vivem mais, como dizem vocês


por lá, mas trabalham de verdade.

105
t i l t i l (aproxima-se da colméia)
Ê mesmo, que cheiro de mel! Os favos devem estar cheios!
E as flôres tôdas que beleza! Minhas irmãzinhas que morreram
também estão aqui?
MITIL

E meus três irmãozinhos enterrados, onde estão?


A essas palavras, sete criancinhas de tamanhos diferentes,
em escadinha, saem da casa, uma por uma.

v o v ó TIL

Estão aqui; estão aqui. Basta a gente pensar, basta falar


nêles, aparecem os diabinhos!
I Tiltil e Mitil correm ao encontro das criancinhas. Esbarram
uns nos outros, beijam-se, dançam, rodopiam, gritam d e fe ­
licidade.
T ILTIL

Olhe ali, é Pedrinho! (Agarram-se pelos cabelos.) Ah,


vamos brigar outra vez, como antigamente! E Roberto! Bom
dia, João! Onde está sua piorra?^ Madalena, Pierrete, Paulina,
Riquette!
M ITIL
Ah, Riquette, Riquette! Continua engatinhando. . .

v o v ó TIL
É, ela não cresce mais.

TILTIL (notando o Cãozinho, que late em tôrno dêles)


Êsse é Quiqui. Cortei o rabo dêle com a tesoura de
Paulina. Também não mudou nada.

vovô t i l (sentencioso)
É, aqui não muda coisa nenhuma.

106
TILTIL

E Paulina, sempre com a verruga no nariz!

vovó T IL

É, não sai. Não há nada a fazer.

TILTIL

Ah, como êles têm boa cara, como estão gordos, relu­
zentes! Que carinhas bonitas! Estão alimentados, não é?

v o v ó TIL

Passam bem melhor depois que deixaram de viver. Não


têm mais nada a recear, não têm preocupações, nunca adoecem.
O relógio da casa dá oito horas.

vovó til (estupefata)


Que é isso? I

v o v ô TIL

Palavra que não sei. Deve ser o relógio.

v o v ó TIL
Não é possível. Êle não bate nunca.

vovô TIL
É porque não pensamos mais na hora. Alguém pensou
na hora?
TILTIL

Fui eu. Quantas horas são?

VOVÔ TIL

Palavra que não sei mais. Perdi o hábito. Deu oito pan­
cadas. Deve ser o que, lá em cima, êles chamam de oito horas,

107
TILTIL
A Luz me espera às oito e quarenta e cinco. Negócio da
Fada. É muito importante. Vou-me embora.

v o v ó TIL
Não vão nos deixar assim à hora da ceia. Depressa,
depressa, vamos servir a mesa em frente à porta. Logo hoje,
que há uma ótima sopa de couve e uma linda torta de ameixas. . .
Trazem a mesa, preparam-na em frente à porta, carregam
travessas, pratos, etc. Todos ajudam.
TILTIL
Bem, uma vez que eu já tenho o Pássaro Azul. . . E
depois, há tanto tempo que não provo sopa de couve! Desde
que comecei a viajar. Não há disso nos hotéis.

v o v ó TIL

Eis aí. Tudo pronto. À mesa, meninos! Se estão com


pressa, não vamos perder tempo.
Acende-se o lampião e serve-se a sopa. Avós e meninos
sentam-se em volta para a refeição noturna, entre empurrões,
xingamentos, gritos e risadas.
tiltil (comendo gulosamente)
Que gostosa, meu Deus, que gostosa! Quero mais! Mais!
Empunha a colher de pau e bate com ela no prato, ruido­
samente.
VOVÔ TIL

Espere aí, calma. Sempre mal-educado! Acaba quebran­


do o prato.

TILTIL (meio levantado sôbre o banquinho)


Quero mais! Quero mais!

108
Pega e puxa a sopeira, derrubando-a; a sopa se derrama
sôbre a mesa e sôbre os joelhos dos convivas. Gritos e uivos
de gente queimada.
vovó TIL
Viu? Eu bem que preveni!

vovô t i l (dando em Tiltil um tapa estalado)


Tome para você!

tiltil (perturbado por um momento, logo bota a mão no rosto,


com enlevo)
Ah, eram assim mesmo os tapas que você me dava, quando
era vivo! Que tapa gostoso, vovô, faz um bem! Vou dar um
beijo em você!

vovô t i l
Bem, se isso lhe dá prazer, tem mais ainda.
O relógio dá oito horas e meia.
(sobressaltado)
tiltil
Oito e meia! (Atira a colher.) Mitil, estamos em cima
da hora!
vovó t i l
Ora, mais alguns minutos! A casa pegou fogo? A gente
se vê tão pouco.. .
TILTIL
Não, não é possível. A Luz é tão cam arada... E eu
prometi a ela. Vamos, Mitil, vamos.
vovô TIL
Santo Deus, como os Vivos são aborrecidos, com seus
negócios, suas agitações!

109
TILTIL (pegando a gaiola, beija todo mundo, apressado, em
volta da mesa)
Adeus, vovô! Adeus, vovó! Adeus, irmãos, irmãs, Pedri-
nho, Roberto, Paulina, Madalena, Riquette, e você também,
Quiqui! Sinto que não podemos continuar aqui. Não chore,
vovó, nós voltaremos muitas vêzes.

VOVÓ TIL

Voltem todos os dias!

TILTIL

Pois não. Voltaremos o maior número de vêzes possível!

v o v ô TIL

É a nossa única alegria. Que festa, quando o pensamento


de vocês nos visita!

vovô TIL
Não temos outras distrações.. .

TILTIL
Depressa, depressa! Minha gaiola! Meu passarinho!

vovô til (dá~lhe a gaiola)


Aqui estão. Sabe, eu não me responsabilizo de modo
algum. Talvez êle não esteja bem tinto.

TILTIL

Adeus! Adeus!

IRMÃOS E IRMÃS TIL

Adeus, Tiltil! Adeus, Mitil! Não se esqueçam do pirulito!


Adeus! Voltem! Voltem!

110
Todos agitam lenços, enquanto Tiltil e Mitil se afastam
lentamente. Já durante as últimas falas, porém, o nevoeiro do
começo voltou gradualmente a formar-se, e o som das vozes
se foi enfraquecendo, de maneira que, ao findar a cena, tudo
desapareceu na bruma, e, ao cair o pano, de nôvo se vêem
apenas Tiltil e Mitil junto ao grande carvalho.
TILTIL
Por aqui, Mitil.

MITIL
Quedê a Luz?

TILTIL
Não sei. (Fita o pássaro na gaiola.) Olhe, o pássaro não
está mais azul! Ficou prêto!
MITIL
Me dê a mão, irmãozinho. Estou com muito mêdo e sinto
tanto frio .. .

PANO

111
TERCEIRO ATO
QUARTO QUADRO

NO PALÁCIO DA NOITE

Vasta e prodigiosa sala, de magnificência austera,


rígida, metálica e sepulcral, dando impressão de templo
grego ou egípcio, cujas colunas, arquitraves, lajes e
ornamentos fôssem de mármore prêto, de ouro e de ébano.
Sala em forma de trapézio. Degraus de basalto, que lhe
ocupam quase tôda a largura, dividem~na em três planos
sucessivos, que se elevam gradualmente para o fundo.
À direita e à esquerda, entre colunas, portas de bronze
escuro. Ao fundo, portão monumental de bronze. Apenas
uma claridade difusa, que parece emanar da própria
natureza do mármore e do ébano, ilumina o palácio*
A o levantar-se o pano, a N oite, sob a
aparência d e mulher lindíssima, coberta de
lóngas vestes negras, está sentada nos d e ­
graus d o segundo plano, entre dois meninos;
um dêstes, seminu, com o o Amor, dorm e pro­
fundamente e sorri, enquanto o outro se
mantém d e pé, imóvel e coberto dos pés à
cabeça. — A G ata entra pela direita, no
primeiro plano.

NOITE
Quem vem lá?
gata (cai exausta, nos degraus d e mármore)
Sou eu, mamãe Noite. N ão agüento mais.
NOITE
Que é que você tem, minha filha? E stá pálida, magrinha,
suja até os bigodes! Continua brigando no telhado, sob a
neve e a chuva?
GATA
Não se trata de telhado, ora. T rata-se do nosso segrêdo.
É o comêço do fim. Consegui sair um momento para preve­
ni-la, mas receio que não haja nada a fazer.
NOITE
Como? Que aconteceu?
GATA
Já lhe falei sôbre o pequeno T iltil, filho do lenhador, e
sôbre o Diamante mágico. Pois bem, Tiltil vem aí para lhe
tomar o Pássaro Azul.

115
NOITE

Ainda não o pegou.

GATA

Pegará daqui a pouco, se não fizermos um milagre. Acon­


tece que a Luz vem guiando. Ela nos traiu a todos, pois ficou
inteiramente do lado do Homem. A Luz acaba de saber que
o Pássaro Azul, o verdadeiro, o único que pode viver na
claridade do dia, está escondido aqui, entre os pássaros azuis
dos sonhos, que se alimentam de raios de lua e morrem ao
nascer do sol. Ela sabe que não pode transpor o limiar dêste
palácio, porém mandou os meninos virem em seu lugar. Como
a Senhora não pode impedir o Homem de desvendar os seus
segredos, não sei como isso vai acabar. De qualquer modo,
se por infelicidade êles botarem a mão no verdadeiro Pás­
saro Azul, só nos resta desaparecer.

NOITE

Oh, Senhorl Oh, Senhor! Em que tempo nós vivemos!


Não tenho mais um minuto de descanso. Não compreendo
mais o Homem de uns anos para cá. Aonde êle quer chegar?
Que necessidade tem de saber tudo? Já descobriu a têrça
parte dos meus Mistérios, todos os meus Pavores andam
apavorados e não têm mais coragem de sair, meus Fantas­
mas fugiram, a maior parte de minhas Doenças não está se
sentindo bem. . .

GATA

Eu sei, mamãe Noite, eu sei. Os tempos estão duros,


ficamos quase sozinhas na luta contra o Homem. Mas sinto
que se aproximam. Só vejo um recurso: como êles são garotos,
é preciso lhes meter um mêdo tamanho que não tenham cora­
gem de insistir nem de abrir o portão do fundo, atrás do qual
estão oá pássaros da Lua. Os segredos das outras cavernas
bastarão para distrair a atenção dêles, ou para aterrorizá-los.

116
n o ite (presta ouvidos a um rumor de [ora)
Que barulho é êsse? São muitos, então?
GATA
Não é nada. São nossos amigos Pão e Açúcar. A Água
está indisposta e o Fogo não pôde vir, porque é parente da
Luz. Só o Cão é que não está conosco, mas não há jeito de
afastá-lo.
Entram timidamente, pela direita, no primeiro plano, Til­
til, Mitil, o Pão, o Açúcar e o Cão.
g a ta (corre na direção de Tiltil)
Por aqui, por aqui, meu senhorzinho. Preveni a Noite,
que ficou encantada com a sua visita. Ela pede desculpas:
está um pouco indisposta, por isso não pôde ir ao seu encontro.
TILTIL
Bom dia, Dona Noite.
n o ite (ofendida)
Bom dia? Não sei o que é isso. Poderia perfeitamente
dizer: boa noite, ou pelo menos: boa tarde.
tiltil (desapontado)
Perdão, minha senhora. . . Eu não sabia. (Aponta para
os dois meninos.) São seus filhinhos? Tão simpáticosl
NOITE
É, êste é o Sono.
TILTIL
Por que é tão gordo assim?

NOITE
Porque dorme muito.

117
TILTIL
E a outra, que se escondeu? Por que tapou o rosto? Está
doente? Como se chama?
NOITE
É irmã do Sono. É melhor não dizer o nome,
TILTIL
Por quê?
NOITE
É um nome que ninguém gosta de ouvir. Vamos mudar
de assunto. A Gata me disse agora mesmo que você vem à
procura do Pássaro Azul?. . .
TILTIL
É, sim, se a senhora permitir. Quer me dizer onde êle
está?
NOITE
Não sei de nada, meu filho. Tudo que posso afirmar
é que aqui êle não está. Nunca o vi na minha vida.
TILTIL
Pois está. A Luz me disse que está, e ela sabe o que diz.
Quer me emprestar as chaves?
NOITE
Isso não, filhinho. Você compreende que não posso dar
assim minhas chaves ao primeiro que chegar. Vigio todos os
segredos da Natureza, sou responsável por êles, e estou ab­
solutamente proibida de confiá-los a quem quer que seja,
quanto mais a uma criança.
TILTIL
A senhora não tem direito de recusá-las ao Homem, que
está pedindo Eu sei.

118
NOITB
Quem lhe disse?

TILTIL
A Luz.

NOITE
Sempre a Luzl Ainda e sempre a Luzl Que tem ela com
isso, afinal?

CÃO
Quer que eu tome as chaves à fôrça, meu deusinho?

TILTIL
Cale a bôca, fique quieto e procure ser bem-educado.
(À Noite.) Vamos, minha senhora, me dê as chaves, por
obséquio.

NOITE
Você tem o sinal, pelo menos? Onde está?

tiltil (toca no chapéu)


Aqui está o Diamante.

n o ite (resigna-se ao inevitável)


Sendo assim. . . Esta é a chave que abre tôdas as portas
do salão. Se lhe acontecer alguma desgraça, a culpa é sua.
Não assumo qualquer responsabilidade.

pão (preocupadissimo)
É perigoso?

NOITE
Perigoso? Quer dizer, eu mesma não sei bem como irei me
arranjar, quando algumas dessas portas de bronze se abrirem

119
diante do abismo. Estão lá dentro, em redor dêste salão, em
cada uma dessas cavernas de basalto, todos os males, todos
os flagelos, tôdas as doenças, todos os terrores, tôdas as
catástrofes, todos os mistérios que atormentam a vida desde
o começo do mundo. Tive muita dificuldade em prendê-los,
com o auxílio do Destino; e é com esforço, posso garantir,
que mantenho um pouco de ordem entre êsses tipos indisci­
plinados. É fácil imaginar o que acontece quando um dêles
foge e aparece na terra.
PÃO
Minha idade venerável, minha experiência e meu devo-
tamento fazem de mim o protetor natural destas duas crian­
ças. Eis por que, Dona Noite, peço licença para lhe fazer uma
pergunta.
NOITE
Faça.
PÃO
Em caso de perigo, por onde é que a gente foge?
NOITE
Não há meio de fugir.
tiltil (toma a chave e sebe os primeiros degraus)
Vamos começar por aqui. Que há por trás desta porta
de bronze?
NOITE

Creio que são os Fantasmas. Da última vez que eu a


abri, há muito tempo, êles não saíram.
tiltil (introduz a chave na fechadura)
Vou ver. (Ao Pão.) Você está com a gaiola do Pássaro
Azul?

120
PÃo (batendo os dentes)
Não é que eu tenha mêdo, mas não acha que seria prefe­
rível deixar como está, e olhar pelo buraco da fechadura?
TILTIL
Não pedi sua opinião.
m itil (começa de súbito a chorar)
Estou com mêdo! Onde está o Açúcar? Quero voltar
para casa!
açú car (solícito, obsequioso)
Aqui, senhorita, estou aqui. Não chore. Vou cortar o
dedo para lhe oferecer um pirulito.
t il t il

Vamos acabar com isso.


Faz girar a chave e entreabre cautelosamente a porta.
Logo fogem cinco ou seis Espectros de formas diversas e es-
tranhas, espalhando-se por todos os lados. O Pão, aterroriza­
do, atira a gaiola e vai esconder-se no fundo do salão, enquan­
to a Noite, perseguindo os Espectros, grita para Tiltil:
NOITE
Depressa, depressa! Feche a porta! Vão fugir todos, e
não podemos pegá-los! Vivem caceteados lá dentro, depois
que o Hõmem deixou dè levá-los ã sério.7T {'Persegue os
Espectros, com um chicote de serpentes, tentando recondu­
zi-los à porta da prisão.) Me ajudem! Por aqui! Por aqui!
tiltil (ao Cão)
Vamos, ajude, Tilô!
cão (saltando e latindo)
Já vou! Já vou!
TILTIL

E o Pão, onde está?


PÃO (no fundo do salão)
Aqui. Estou junto da porta, para impedir que êles saiam.

Ao ver um dos Espectros avançar para êsse lado , êle


foge desabaladamente, soltando gritos de pavor.
n o ite(a três Espectros, agarrando-os pelo pescoço)
Por aqui, vocês! (A Tiltil.) Abra um pouquinho a porta.
(Solta os Espectros na caverna.) Lá dentro, tudo vai bem.
(O Cão traz outros dois.) Êsses também. Vamos, depressa,
arranjem-se! Sabem perfeitamente que só sairão daqui no
Dia de Todos os Santos.
Fecha a porta.
tiltil (dirige-se a outra porta)
Que há atrás desta?

NOITE
Para quê? Eu já disse, o Pássaro Azul nunca passou por
aqui. Mas seja como você quiser. Pode abrir, se lhe agrada.
São-as Doenças.

tiltil (com a chave na fechadura)


Será preciso tomar cuidado, ao abrir?

NOITE
Não, não vale a pena. Estão bem sossegadas, coitadinhas.
Não são felizes. O Homem lhes moveu tamanha guerra, de
tempos para cá! Principalmente depois da descoberta dos mi­
cróbios. Pode abrir, e verá.
Tiltil escancara a porta. Não aparece nada.

122
TILTIL
Elas não saem?
n o it e

Eu avisei: quase tôdas estão doentes, desanimadíssimas.


Os médicos não são delicados com elas. Entre um instante,
para espiar.
Tiltil entra na caverna e sai logo depois.
TILTIL
O Pássaro Azul não está lá. Que ar doentio têm as suas
Doenças! Nem sequer levantaram a cabeça. (Uma Doencinha,
de chinelos, “robe de chambre’’ e touca de algodão, foge da
caverna e começa a pular no salão.) Olhe, aquela pequena fu­
giu! Qual é?
NOITE
Nada, é a menorzinha, a Coriza, uma das menos perse­
guidas. Vai passando melhor. (Chama a Coriza.) Venha cá,
pequena. Ainda é cedo, você tem de esperar a primavera.
Bocejando, tossindo, assoando-se, Coriza volta para a
caverna e Tiltil fecha a porta.
t i l t i l (ruma para a porta vizinha)
Agora, vamos ver esta. Que será?
NOITE
Cuidado. São as Guerras, mais terríveis e poderosas do
que nunca. Só Deus sabe o que aconteceria se uma delas fugisse.
Felizmente, estão muito obesas, perderam a agilidade.. . Mas
vamos todos ficar preparados para empurrar a porta, enquanto
você dá uma olhadela rápida na caverna.
Com mil precauções, Tiltil entreabre a porta, de maneira
que haja só uma pequenina fenda, por onde êle possa enxergar.
Logo se retira, gritando:
t il t il

Depressa! Empurrem depressa! Elas me viram! Estão


vindo tôdas! Estão abrindo a porta!

123
NOITE
Vamos, todos! Empurrem com fôrça! Que é isso, Pão, que
está fazendo? Empurrem todos! Elas têm uma fôrça! Ah, aí
está! Pronto, recuaram. Já era tempo. Você viu?
TILTIL
Vi, sim. São enormes, medonhas! Acho que o Pássaro
Azul não está lá.
NOITE
Claro que não. Êle seria comido na mesma hora. Então,
ficou satisfeito? Viu que não há nada a fazer?
TILTIL
Preciso ver tudo. A Luz me disse.
NOITE
A Luz disse? Dizer é fácil, quando a gente é medrosa
e fica em casa.
TILTIL
Vamos à seguinte. Qual é?
NOITE
Aqui, eu prendo as Trevas e os Terrores.
TILTIL
Posso abrir?
NOITE
Perfeitamente. Estão bastante sossegados, como as Do­
enças.
(entreabre a porta, meio desconfiado, e arrisca um
TILTIL
olhar na caverna)
Não estão lá. . .

124
n o ite (olha, por sua vez, na caverna)
Como é, Trevas, que estão fazendo aí? Ora, saiam um
instantinho, é bom, anima a gente. Os Terrores também. Não
há motivo para receio. (Algumas Trevas e alguns Terrores,
sob a aparência de mulheres recobertas, umas de véus negros,
outras de véus esverdeados, arriscam penosamente alguns
passos para [ora da caverna e, a um gesto esboçado por Tiltil,
voltam a tôda pressa.) Vamos, coragem. É um garôto, não vai
lhes fazer m al... (Â Tiltil.) Ficaram extremamente tímidas,
menos as grandes, aquelas que você vê lá no fundo.

tiltil (olha para o [undo da caverna)


Ih, são medonhas!

NOITE
Estão acorrentadas. São as únicas que não têm mêdo do
Homem. Feche a porta, para evitar que se zanguem.

tiltil (na direção da porta seguinte)


Olhe, esta é mais escura. Qual é?
NOITE
Por trás dela existem muitos Mistérios. Se faz mesmo
questão, pode abri-la também, mas não entre. Todo cuidado é
pouco. Enquanto isso, nós nos preparamos para empurrar a
porta, como fizemos com as Guerras.
tiltil (entreabre com infinita cautela, e insinua a cabeça,
medrosamente, no vão)
Ih, que frio! Meus olhos estão ardendo. . . Fechem de­
pressa! Empurrem! Estão empurrando de lá! (A Noite, o Cão,
a. Gata e o Açúcar empurram a porta.) Ah, eu vi!
NOITE
Viu o quê?

125
tiltil ( transtornado)
Não sei, era pavoroso! Estavam todos sentados, pare­
ciam monstros sem olhos. Qual era o gigante que quis me
pegar?
NOITE
Provàvelmente foi o Silêncio. É quem toma conta desta
porta. Deve ter sido horroroso, não? Você ainda está branco
feito papel, tremendo todo. . .
t il t il

Eu nem acreditaria.. . Nunca vi coisa igual! Estou com


as mãos geladas. . .
n o it e

Pois daqui a pouco, será muito pior ainda, se você con­


tinuar.
tiltil ( vai para a porta seguinte)
E esta aqui? Também é terrível?
n o it e

Não. Tem um pouco de tudo. Guardo aí as Estréias


desocupadas, meus perfumes pessoais, alguns clarões que me
pertencem, como fogos-fátuos, vagalumes, pirilampos. Tam­
bém estão encerrados aí o Orvalho, o Canto dos Rouxinóis, etc.
t il t il

Justamente: Estréias, Canto dos Rouxinóis.. . Deve ser


nessa.
NOITE
Pois então abra, se quiser. Nada disso é lá muito ruim.. .
Tiltil escancara a porta. Logo as Estréias, sob a forma de
lindas môças, envoltas em clarões versicolores, fogem da pri­
são, espalham-se na sala e formam, nos degraus e em redor

12 6
das colunas, graciosas rondas, envoltas numa sorte de penum­
bra luminosa. Juntam-se a elas os Perfumes Noturnos, quase
invisíveis, os Fogos-Fátuos, os Pirilampos e o Orvalho Trans-
parente; por sua vez, o Canto dos Rouxinóis, ao sair em ondas
da caverna, inunda o Palácio da Noite .
m itil (fascinada, batendo palmas)
Ah, que môças lindas!
TILTIL
Como dançam bem!
MITIL
Que cheirinho gostoso!
TILTIL
Que delícia de canto!
MITIL
E aqueles ali, que a gente quase não vê?
NOITE
São os perfumes da minha sombra.
TILTIL
E lá adiante, aquêles, de fios de vidro?
NOITE
São o Orvalho das Florestas e o das Planícies. Chega.
Não acabaria mais. É difícil como o diabo obrigá-los a voltar,
depois que entraram na dança. (Bate palmas.) Vamos, de­
pressa, Estrelas! Não é hora de dançar. O céu está coberto,
há nuvens pesadas. Rápido, vamos, entrem todos, senão, vou
procurar um raio de sol!
Fuga assustada de Estrelas, Perfumes, etc., precipitan­
do-se na caverna, que volta a fechar-se sôbre êles . Ao mesmo
tempo, emudece o Canto dos Rouxinóis.

127
tiltil (indo para a porta do fundo)
Aqui está o portão do meio.

n o ite (gravemente)
Não abra.

t il t i l

Por quê?

NOITE
É proibido.

t il t i l

Então é aí que se esconde o Pássaro Azul. A Luz me


disse. . .
n o ite(maternal)
Escute, meu filho. Fui boa e complacente. Fiz por você
o que não fizera antes por ninguém. Confiei-lhe todos os meus
segredos. Gosto muito de você, enterneço-me com sua meni­
nice e sua inocência, e estou lhe falando como se fôsse sua
mãe. Escute e acredite em mim, meu filho: desista. Não vá
mais adiante, não provoque o Destino, não abra esta porta. . .

tiltil (meio abalado)


Mas por quê?

NOITE
Porque não quero que você se perca. Nenhum daqueles,
está ouvindo? nenhum daqueles que entreabriram esta porta,
mesmo na largura de um fio de cabelo, regressou vivo à luz
do dia. Porque tudo aquilo que se pode imaginar de medonho,
porque todos os terrores, todos os horrores de que se fala na
terra, não significam nada, comparados com o susto mais in­
significante que invade o Homem quando o seu olhar aflora

128
as primeiras ameaças do abismo a que ninguém ainda ousou
dar nome. A tal ponto que, se apesar de tudo você teimar em
pôr o dedo nesta porta, eu mesma, eu mesma lhe pedirei que
espere um pouco, até que eu me esconda na minha tôrre sem
janelas. Agora você é quem sabe; é sua hora de refletir.
Mitil, debulhada em lágrimas, solta gritos inarticulados
de terror, procurando afastar TiltiL
(bate os dentes)
pão
Não faça isso, meu senhorzinho! (Ajoelha-se.) Não vê
que a Noite tem razão,

GATA
É a vida de todos nós que você vai sacrificar.

TILTIL
Tenho de abrir.

m itil (sapateando, entre soluços)


Não quero! Não quero!

t il t il

O Açúcar e o Pão dêem a mão a Mitil e saiam com ela.


Eu vou abrir.
NOITE
Salve-se quem puder! Venham depressa! Está na hora!
Foge.
pão (foge às carreiras)
Esperem ao menos que nós cheguemos à ponta do salão!

g a ta (foge do mesmo jeito)


Esperem! Esperem!

129
Escondem-se por trás das colunas, no outro extremo do
salão. Tiltil fica sozinho com o Cão, junto à porta monumental.

cão (arquejante, entre soluços de pavor contido)


Eu vou ficar. . . Eu fico. . . Não tenho mêdo. . . Eu
fico. . . Fico perto do meu deusinho. . . Fico! Fico. . .

tiltil (acaricia o Cão)


Muito bem, Tilô, muito bem. Me dê um beijo. Nós somos
dois. Agora, cuidado! (Põe a chave na fechadura. Um grito
de horror parte do outro extremo da sala, onde se refugiaram
os medrosos. Mal a chave tocou na porta, os altos batentes se
abrem pelo meio, deslizam lateralmente e desaparecem, à di­
reita e à esquerda, na espessura das paredes, desvendando
de surpresa — irreal, infinito, inefável — o mais inesperado
jardim de sonho e de luz noturna, onde entre estrelas e pla­
netas, clareando tudo aquilo em que tocam, voando continua­
mente de pedraria em pedraria, de raio de lua em raio de lua,
feéricos pássaros azuis circulam constante e harmoniosamente
até os confins do horizonte, tão numerosos que se diria serem
o hálito, a atmosfera azulinea, a própria substância do jardim
maravilhoso. — Tiltil, fascinado, tonto, erguido na luz do
jardim:) Ah! O c é u !... ( Voltando-se para os que fugiram.)
Venham depressa! Estão aqui! São êles, são êles! Finalmente,
vamos pegá-los! Milhares de pássaros azuis! Milhões! Bilhões!
Demais! Venha, Mitil! Venha, Tilô! Venham todos, me aju­
dem! (Atira-se aos pássaros.) Pode-se pegar aos montes! Não
são selvagens, não têm mêdo de nós! Por aqui, por aqui! (Mitil
e os outros acorrem. Entram no jardim deslumbrante, menos
a Noite e a Gata.) Estão vendo? São muitos e pousam nas
minhas mãos! Olhem só, estão comendo raios de luar! Mitil,
onde está você? Há tantas asas azuis, tantas plumas caindo,
que a gente não vê absolutamente nada! Tilô, não vá morder,
não faça mal a êles! Pegue com tôda a delicadeza!

m itil (cercada de pássaros azuis)


Já peguei sete! Ah, como batem asas! Não posso segurar!

130
TILTIL

Eu também não posso, peguei demais! Estão fugindo!


Estão voltando! Tilô também pegou uma porção! Vão nos
arrastar, nos levar para o céu! Ande, vamos sair por aqui! A
Luz está nos esperando, e vai ficar satisfeitíssima! Por aqui,
por aqui!
Fogem do jardim, com as mãos cheias de pássaros que
se debatem, atravessando o salão em meio ao louco palpitar de
asas azulineas, sobretudo ã direita, por onde haviam entrado.
Seguem~se o Pão e o Açúcar, que não apanharam pássaros.
— Ficando só, a Noite e a Gata caminham para o fundo e
miram ansiosamente o jardim.

NOITE
Pegaram?

GATA
Não. Está ali naquele raio de lua. Não puderam alcançar,
era muito alto.
Cai o pano. Logo depois, à frente do pano descido, en­
tram simultâneamente, à esquerda a Luz, à direita Tiltil, Mitil
e o Cão, todos carregados de pássaros que acabam de capturar.
Êstes, porém, já inertes, de cabeça pendente e de asas partidas,
são apenas despojos inanimados em suas mãos.
LUZ
Então, conseguiram pegar?

TILTIL
Pegamos, sim. Quantos a gente quis. Milhares! Estão
aqui. Viu? (Olha os pássaros, e, ao apresentá-los à Luz, per­
cebe que morreram.) Que é isso, não vivem mais? Que foi que
lhes fizeram? Os seus também, Mitil? Os de Tilô também!
4Atírã fòrãrcõm raíva, os pássaros mortos.) Ah, não, é tão
feio! Quem foi que matou? Me sinto tão infeliz!. . .

131
Soluça, escondendo a cabeça sob o bráço.

LU Z (aperta-o nos braços, maternalmente)


l^Jão chore, meu filh o ... Você não apanhou aquêle que
pode viver em pleno dia. Êle foi para outro lugar. Havemos
de encontrá-lo.

cão (olha os pássaros mortos)


Será que se pode comer?
Ficam todos à esquerda .

132
QUINTO QUADRO

NA FLO R E ST A

Floresta. —* Noite. » Luar. Velhas árvores de va­


riadas espécies, notadamente Carvalho, Faia, Olmo;
Álamo, Abeto, Cipreste, Castanheiro, Tília, etc.
Entra a Gata.

g a ta (cumprimenta as árvores, em redor)


Salve, vocês tôdas, árvores!

MURMÚRIO DA FOLHAGEM
Salve!

GATA

Êste é um grande dia. Nosso inimigo vem libertar as


energias de vocês, e entregar-se êle próprio. Foi Tiltil, o filho
do lenhador, que lhes fêz tanto mal. Procura o Pássaro Azul,
que vocês escondem do Homem desde o comêço do mundo,
e que é o único a saber do nosso segrêdo. (Murmúrio entre
as fôlhas.) Que foi que disseram? Ah, é o Choupo que falou.
Pois é, êle traz um Diamante que tem o poder de libertar por
um momento os nossos espíritos; pode obrigar a gente a en­
tregar o Pássaro Azul, e daí por diante estaremos definitiva^
mente à mercê do Homem. (Murmúrio entre as fôlhas.) Quem
fala? Ah, é o Carvalho. Como vai passando? (Murmúrio entre
as fôlhas do Carvalho.) Sempre resfriado? O Alcaçuz não o
trata mais? Ainda é reumatismo? Pode acreditar, é por causa
do musgo; o senhor abusa dêle nos pés. O Pássaro Azul con­
tinua em sua casa? (Murmúrio das fôlhas do Carvalho.) Que
diz? Sim, não há hesitação possível, devemos aproveitar a
ocasião. É preciso que êle desapareça. (Murmúrio das fôlhas.)
Isso lhe agrada? Sim, vem com a irmãzinha. Ela também deve
morrer. (Murmúrio nas fôlhas.) É, o Cão os acompanha; não
houve meio de afastá-lo. (Murmúrio nas fôlhas.) Que diz?
Suborná-lo? Impossível. Já experimentei tudo. (Murmúrio entre
as fôlhas.) Ah, é você, Abeto? Pois é, prepare quatro tábuas.

134
Sim, tem ainda o Fogo, o Açúcar, o Pão. Todos do nosso lado,
menos o Pão, que é bastante duvidoso. Só a Luz é favorável ao
Homem; ela, porém, não virá. Convenci os pequenos de que
deviam sair às escondidas, enquanto ela dormisse. A ocasião é
única. (Murmúrio nas folhas.) Que ouço! A voz da Faia! Sim,
tem razão, é necessário prevenir os Animais. O Coelho está
com o tambor? Mora com você? Bem, êle que dê o toque de
chamada, imediatamente. Estão chegando!

Distanciam-se os rufos do tambor do Coelho. — Entram


Tiltil, Mitil e o Cão.

TILTIL
É aqui?

g a ta (obsequiosa, melíflua, solicita, pulando à frente das


crianças )
Ah, chegou, meu senhorzinho! Como tem boa aparência»
como está bonito, esta noite! Vim antes para anunciar sua
chegada. Tudo vai bem. Desta vez pegaremos o Pássaro Azul,
tenho certeza. Acabei de mandar o Coelho dar o toque de reu­
nir, para convocar os Animais importantes da região. Sente-se
o rumor dêles na folhagem. Escute. Estão um pouco tímidos,
sem coragem de aproximar-se. (Ruídos de animais diversos:
vacas, porcos, cavalos, burros, etc. — Baixo, a Tiltil, chaman­
do-o à parte.) Por que trouxe o Cão? Eu lhe disse que êle
está em péssimas relações com todo o mundo, até com as
árvores. Receio que essa companhia odiosa venha estragar
tudo.

t il t il

Não pude me livrar déle. (Ao Cão, ameaçando-o.) Quer


ir embora, seu estúpido?

CÃO

Quem, eu? Por quê? Que foi que eu fiz?

135
TILTIL
Estou lhe dizendo que vá-se embora. Não precisamos de
você, só isso. Você nos amola, entendeu?

CÃO
Não direi nada. Acompanharei de longe, ninguém me
verã. Quer que mostre minhas habilidades?

g a ta ' (baixo, a Tiltil)


Como tolera uma desobediência dessas? Dê-lhe umas bor­
doadas no focinho. É realmente insuportável!

tiltil (bate no Cão)


Para ensinar você a obedecer depressa!
CÃO (latindo )
Ui! Ui! Ui!
t il t il
Que está dizendo?
CÃO
Tenho de beijar você, porque me bateu!
Beija e acaricia violentamente Tiltil.
t il t il

Vamos, está bem. Basta. Vá-se embora.

MITIL
Não, não. Quero que êle fique. Tenho mêdo de tudo,
quando êle não está perto.

CÃO (aos pulos, quase derrubando Mitil, a quem enche


de carícias bruscas e entusiásticas)
Ah, que menina boa! E bonita! Como é boa! Como é bo­
nita, como é delicada! Tenho de beijá-la! Mais! Mais! Mais!

136
GATA
Idiota! Bem, veremos. Não há tempo a perder. Vire o
Diamante.

TILTIL
Onde é que devo me colocar?

GATA
Neste raio de luar. Assim verá mais claro. Aí! Vire dc
leve.
Tiltil vira o Diamante; imediatamente, longo frêmito agita
ramos e fôlhas. Os troncos mais velhos e mais imponentes se
entreabrem para dar passagem à alma que cada um dêles en­
cerra. O aspecto dessas almas varia conforme o aspecto e o
caráter da árvore que representam. A do Olmo, por exemplo,
é uma espécie de gnomo asmático, barrigudo, ríspido; a da
Tília é plácida, familial, prazenteira; a da Faia, elegante e
ágil; a da Bétula, branca, reservada, inquieta; a do Salgueiro,
enfezada, descabelada, chorona; a do Abeto, comprida, es-
galga, taciturna; a do Cipreste, trágica; a do Castanheiro,
pretensiosa, um tanto "snob”; a do Álamo, vivaz, importuna,
falastrona. Umas saem devagar do tronco, sonolentas, espre-
guiçando-se, como após um cativeiro oti sono secular; outras
desprendem-se de um salto, alertas, diligentes, e tôdas vêm
postar-se em tôrno das duas crianças, embora se mantendo
tanto quanto possível próximas da árvore de que nasceram.
á la m o (primeiro a acordar, grita ensurdecedoramente)
Homens! Homenzinhos! Podemos conversar com êles!
Acabou o Silêncio! Acabou! De onde vieram? Quem é? Quem
são? (Â Tília, que avança tranqüila.) São seus conhecidos,
tia Tília?

TÍLIA
Não me recordo de os ter visto.

137
ÁLAMO
Viu, sim, ora. Você conhece todos os Homens, está sem­
pre passeando em redor das casas dêles.

tília (examina as crianças)


Não, garanto que não conheço. São ainda muito novi-
nhos. Só conheço bem os namorados que vêm me ver ao luar,
e os bebedores de cerveja, que fazem tintim nos copos, debaixo
de meus ramos.

c a s ta n h e iro (afetado, ajeitando o monóculo)


Que é isso aí? Camponeses pobres?

ÁLAMO
Oh, “seu” Castanheiro, o senhor, depois que passou a
freqüentar somente as avenidas das grandes cidades. . .

sa lg u e iro (lamuriento, andando de tamancos)


Ai, meu Deus, ai, meu Deus! Vieram outra vez me cortar
a cabeça e os braços para fazer lenha!

ÁLAMO
Silêncio! Vem saindo o Carvalho do seu palácio. Está
abatido, esta noite. Não acham que envelheceu? Que idade
terá êle? Diz o Abeto que quatro mil anos, mas tenho certeza
que é exagêro. Atenção, êle vai nos dizer o que há.

O Carvalho aproxima-se devagar. Ê fabulosamente ve­


lho, coroado de visgo, e veste longa túnica bordada de musgo
e de líquen. Cego, sua barba branca flutua ao vento. Com
uma das mãos apóia-se no cajado nodoso, e com a outra num
Carvalhinho nôvo, que lhe serve de guia. O Pássaro Azul
está pousado em seu ombro. À sua aproximação, movimento
de respeito entre as árvores, que formam ala e se inclinam.

138
TILTIL

Está com o Pássaro Azul! Depressa, depressa! Por aqui!


Dê-me o Pássaro.

ÁRVORES
Silêncio!

g a ta (a Tiltil)
Tire o chapéu. É o Carvalho.

CARVALHO (a Tiltil)
Quem é você?

t il t il

Tiltil, meu senhor. Quando é que posso levar o Pássaro


Azul?

CARVALHO
Tiltil, filho do lenhador?

t il t il

Êle mesmo.

CARVALHO
Seu pai nos tem feito muito mal. Só em minha família êle
matou 600 filhos, 475 tios e tias, 1 200 primos e primas, 380
noras e 1 200 bisnetos!

TILTIL
Não sei, meu senhor. . . Êle não fêz de propósito.

CARVALHO
Que vem fazer aqui? Por que fêz nossas almas saírem
de suas moradas?

139
TILTIL

Desculpe tê-lo incomodado. Foi a Gata que me falou que


o senhor ia nos dizer onde está o Pássaro Azul.

CARVALHO
Sim, eu sei. Procura o Pássaro Azul, isto é, o grande
segrêdo das coisas e da felicidade, para que os Homens tornem
mais dura ainda a nossa escravidão.

TILTIL

De modo algum, meu senhor. É para a filhinha da Fada


Beriluna, que está muito doente.

c a rv a lh o (impondo-lhe silêncio)
Basta! Não vejo os Animais. Onde estão? Isto lhes in­
teressa tanto quanto a nós. As Árvores não devem assumir
sozinhas a responsabilidade das medidas graves que se im­
põem. No dia em que os homens souberem que fizemos o que
vamos fazer, haverá represálias terríveis. Convém pois que o
nosso acôrdo seja unânime, para que nosso silêncio também
o seja.

a b e to (olha por cima das outras árvores)


Os animais estão chegando. Vêm seguindo o Coelho.
Ali estão as almas do Cavalo, do Touro, do Boi, da Vaca,
do Lôbo, do Carneiro, do Porco, do Galo, da Cabra, do Burro,
do Urso. . .

Entrada sucessiva dos Animais; à medida que o Abeto


os enumera, avançam e vão sentar-se entre as Arvores, com
exceção da alma da Cabra, que vagueia aqui e ali, e da alma
do Porco, que fuça raízes.
CARVALHO
Todos estão presentes?

140
COELHO

A galinha não quis abandonar os ovos. A Lebre estava


dando umas voltas. O Veado está com os chifres machucados.
A Rapôsa está doente <— eis aqui o atestado médico. O Pato
não compreendeu, e o Peru ficou furioso.

CARVALHO

Estas abstenções são extremamente lamentáveis. Apesar


disso, temos número suficiente. Sabem de que se trata, irmãos.
Êste menino aqui, graças a um talismã furtado aos podêres da
Terra, pode tomar o nosso Pássaro Azul e arrebatar-nos assim
o segredo que guardamos desde a origem da Vida. Ora, co­
nhecemos bastante o Homem para não ter nenhuma dúvida
sôbre a sorte que êle nos reserva quando estiver de posse
dêsse segrêdo. Eis por que me parece que qualquer hesitação
seria tão estúpida quanto criminosa. A hora é grave. O menino
deve desaparecer antes que seja tarde demais.

TILTIL
Que é que êle está dizendo?

CÃO (anda em volta do Carvalho e mostra-lhe as prêsas)


Viu meus dentes, velho paralítico?

FAIA

Êle insultou o Carvalho!

CARVALHO
É o Cão? Expulsem-no. Não podemos tolerar um traidor
entre nós.
g a ta (baixo, a Tiltil)
Mande o Cão embora. Houve um mal-entendido. Deixe
por minha conta, que eu arranjo as coisas. Mas afaste-o o mais
depressa possível.

141
TILTIL (ao C ão)
Vá-se embora!
CÃO
Deixe eu rasgar os chinelos de musgo daquele velho
gotoso! Vai ser engraçado!

TILTIL
Cale a bôca! Suma! Suma de verdade, bicho ordinário!

CÃO
Bem, bem, eu vou. . . Voltarei quando você precisar de
mim.
g a ta (baixo, a Tiltil)
É melhor acorrentá-lo, senão êle vai fazer tolices. As
Arvores se zangam, e isso acaba mal.

TILTIL
De que maneira? Perdi a corrente.

GATA
Aí vem justamente a Hera, cheia de cordões bem fortes. . .

cão (rosnando)
Eu volto, eu volto! Gotoso! Pigarrento! Bando de ve~
lhotes mirrados, montão de raízes velhas! É a Gata que está
fazendo isso tudo, ela me pagará na mesma moeda! Deixe de
cochichar assim, Judas! Tigre! Traidor! Au! Au! Au!

GATA
Viu? Êle insulta todo mundo. . .

TILTIL
É mesmo, está insuportável, e ninguém mais se entende
Dona Hera, quer prendê-lo?

142
h era (aproxima-se do Cão, bastante medrosa)
Êle morde?
CÃO (rosnando)
Pelo contrário, pelo contrário! Êle vai é beijar você! Espe­
re um pouco, e verá. Venha, venha, seu bôlo de barbantes
velhos!
tiltil (ameaça-o com o cajado)
Tilô!
cão (rasteja aos pés de Tiltil, agitando a cauda)
Que devo fazer, meu deusinho?
TILTIL
Deitar-se como tapête. Obedecer à Hera. Deixe-se amar­
rar. Senão. . .
CÃo (rosna entredentes, enquanto a Hera o amarra)
Barbante! Corda de enforcado! Cabresto de bezerro! Cor­
reia de porco! Olhe, meu deusinho: está me torcendo as
patas. . . me estrangula. . .
TILTIL
A culpa ê sua, você quis. Cale a bôca, fique quieto! Você
é insuportável!
CÃO
Está bem, mas você se engana. Êles têm más intenções.
Tome cuidado, meu deusinho! Está me tapando a bôca! Não
posso mais falar!
h era (depois de amarrar o Cão como um pacote)
Para onde é que devo levá-lo? Está bem amordaçado.
Não dá mais um pio.
carvalho

Prendam-no solidamente aqui, atrás do meu tronco, na


minha raiz grossa. Veremos depois o que convém fazer com

143
êle. (A Hera, ajudada pelo Álamo, leva o Cão para trás do
tronco do Carvalho.) Pronto? Bem, agora que estamos livres
dessa testemunha incômoda, dêsse renegado, deliberemos se­
gundo a nossa justiça e a nossa verdade. Minha emoção
não posso ocultar *— é dolorosa e profunda. É a primeira vez
que temos ocasião de julgar o Homem e fazer-lhe sentir o
nosso poderio. Depois do mal que êle nos fêz, depois das in­
justiças monstruosas que nos infligiu, não creio que reste a
menor dúvida sôbre a sentença que o espera.
TÔDAS AS ÁRVORES e TODOS OS ANIMAIS
Não! Não! Não! É claro! Fôrca! Morte! A injustiça foi
demais! Êle abusou! Há muito tempo! Vamos esmagá-lo!
Comê-lo! Já! Imediatamente!

tiltil (à Gata)
Que é que êles têm? Não estão satisfeitos?

g a ta

Não se preocupe. Ficaram um pouco aborrecidos porque


a Primavera está demorando. Deixe por minha conta, eu ar­
ranjo tudo.
CARVALHO
Esta unanimidade era inevitável. Agora, para evitar re­
presálias, temos de decidir que gênero de suplício será mais
prático, mais cômodo, mais rápido e mais seguro, e deixará
menos sinais acusatórios quando os Homens encontrarem os
corpinhos na floresta.
TILTIL
Que negócio é êsse? Aonde êle quer chegar? Começo a me
aborrecer. Se êle tem o Pássaro Azul, por que não o entrega?

to u ro (avançando)
O mais prático e mais seguro é uma boa chifrada na bôca
do estômago. Quer que eu fure?

144
CARVALHO
Quem falou assim?
GATA
O Touro.
VACA
Seria melhor que ficasse calado. Eu ê que não me meto
nisso. Tenho que pastar a erva daquela campina que se vê lá
longe, no azul do luar. Tenho muito que fazer.

boi

Eu também. Aliás, aprovo tudo prèviamente.

FAIA
Eu cá ofereço o galho mais alto para enforcá-los.

hera
E eu a corda.
ABETO
Eu, as quatro tábuas para o caixãozinho.
c ip r e s t e

E eu o jazigo perpétuo.
sa lg u e ir o

Seria mais simples afogá-los num de meus riachos. Eu


me encarrego disso.
tília (conciliadora)
Ora, ora. . . Será mesmo necessário chegar a êsses ex­
tremos? São tão novinhos! Basta a gente impedi-los de nos
fazer mal, conservando-os presos num cercado que me en­
carrego de fazer. Eu me planto em volta.

145
CARVALHO

Quem está falando? Parece que ouvi a voz melíflua da


Tília.
ABETO
Ela mesma.
CARVALHO
Então há ura renegado entre nós, como entre os Animais?
Até aqui, só tínhamos a deplorar a defecção das Árvores Fru­
tíferas, mas essas não são árvores verdadeiras. . .

p o rco ( revirando olhinhos glutões)


Eu por mim acho que a primeira providência é comer a
menina. Deve ser tão macia. . .

TILTIL
Que é que êle está dizendo? Espere um pouco, pedaço
de. ...
GATA
Não sei o que há com êles. A coisa está tomando mau
aspecto.
CARVALHO
Silêncio! Trata-se de saber qual de nós terá a honra de
dar o primeiro golpe; quem é que afastará de nossas almas o
maior perigo que já corremos desde o nascimento do Homem.

ABETO
Essa honra compete ao senhor, nosso rei e nosso patriarca.

CARVALHO
É o Abeto quem fala? Coitado de mim, estou velho de­
mais. Estou cego, fraco, meus braços entorpecidos não me
obedecem mais. Não, é a você, meu irmão, sempre verde,
sempre reto, é a você, que viu nascer a maior parte destas

146
Árvores, que cabe, na minha (alta, a glória do nobre gesto de
nossa libertação.
ABETO
Obrigado, pai venerável! Mas como eu vou ter a honra
de formar o caixão para as duas vítimas, receio despertar o
justo ciúme de meus colegas. Creio que, depois de nós, a Ár­
vore mais antiga e mais-digna, aquela que possui a maior clava,
é a Faia.
FAIA
Você sabe que eu estou carunchada, e que minha clava
não é segura. O Olmo e o Cipreste, porém, dispõem de armas
poderosas.
o lm o

Eu ficaria muito satisfeito, porém mal posso andar. Esta


noite, uma toupeira me torceu o dedão do p é .. .

CIPRESTE
Eu cã estou pronto. Mas acontece que, como o querido
Irmão Abeto, vou ter, senão o privilégio de dar o ataúde, pelo
menos a vantagem de chorar sôbre o túmulo dêles. Seria uma
acumulação ilícita. Peçam ao Choupo.

ch o u po

A mim? Que estão pensando? Minha madeira é mais


tenra do que carne de menino. Além disso, não sei o que há
comigo: estou tremendo de fe b re ... Reparem nas minhas
fôlhas. Devo ter me resfriado esta manhã, quando o sol nasceu.

c a rv a lh o (explodindo de indignação)
Estão com mêdo do Homem! Até êsses menininhos soli­
tários e desarmados inspiram a vocês o terror misterioso que
fêz de nós eternos escravos! Pois bem, chega! Se é assim, se a
hora é decisiva, eu sozinho, velho, paralítico, trêmulo, cego,
lutarei contra o inimigo hereditário! Onde está êle?
Tateando com o cajado, avança para Tiltil.

147
t i l t i l (tira a faca d o bôlso)
É a mim que êsse velho quer pegar, com o seu cajadão?
A s outras Arvores, soltando um grito d e terror à vista
da faca, arma misteriosa e irresistível d o Homem, se interpõem
e retêm o Carvalho.
ÁRVORES
Cuidado, olhe a faca! Olhe a faca!
c a r v a l h o (debatendo-se)
Me larguem! Faca ou machado, que me importa? Quem
está me segurando? Que é isso: estão todos aqui? Todos estão
querendo. . . ? (Atira fora o cajado.) Está bem, sejal Que
vergonha para nós! Os Animais é que irão nos libertar!
TOURO
Isso! Fica por minha conta! Com uma chifrada só!
b o i E v a c a (retendo-o pelo rabo)
Que é que você tem com isto? Não faça besteira! É um
negócio perigoso, e vai acabar mal, Nós é que iremos sofrer.
Deixe disso, é coisa para Animais Selvagens.
TOURO
Não, não, o caso é meu! Esperem aí. Ou então me se­
gurem, senão eu faço uma desgraçai
t i l t i l (a Mitil, que solta gritos agudos)
Não tenha mêdo! Fique atrás de mim. Estou com a faca.
GALO
Valente, êsse garôto!
t il t il

Então ficou resolvido, é contra mim que êles estão?


BURRO
Claro, meu pequeno. Custou a perceber!

148
PORCO

Pode fazer suas orações, sim? Ê o seu último instante.


Mas não esconda a menina. Quero regalar meus olhos nela.
Vou comê-la em primeiro lugar.

TILTIL

Que foi que eu fiz a vocês?

CARNEIRO

Nada, querido. Comeu meu irmãozinho mais nôvo, minhas


duas irmãs, meus três tios, minha tia, minha vovó.. . Espere um
pouco aí, e quando estiver no chão verá que eu também tenho
dentes.
BURRO

E eu .tenho cascos.

c a v a lo (empina-se orgulhosamente)
Vocês vão ver uma coisa. Preferem que eu corte o garôto
a dentadas, ou que acabe com êle a coices? (Avança magnífica*
mente para Tiltil, que o enfrenta levantando a faca. D e repente,
tomado de pânico, o Cavalo vira as costas e fo g e em disparada.)
Ah, não! Não é justo! Isso não é do jôgo! Êle se defendeu!

g a lo ( não podendo ocultar a admiração)


É mesmo, êsse pequeno não morre de careta!

p o rco (ao U rso e ao L ôbo)


Vamos avançar todos juntos. Eu garanto vocês pela re­
taguarda. Vamos derrubá-los e dividir a garôta quando estiver
no chão.
lôbo

Procurem distraí-los aí; enquanto eu dou a volta.


Contorna Tiltil, ataca-o pelas costas e quase o derruba.

149
TILTIL

Judas! (Ergue-se sôbre um joelho, brandindo a faca e


protegendo como pode a irmãzinha, que grita apavorada. —
Vendo-o meio prostrado, todos os Animais e Árvores se apro­
ximam e procuram atacá-lo. Súbito escurece. Desesperado,
Tiltil pede socorro.) Socorro, socorro! Tilô! Tilô! Onde está
a Gata? Tilô! Tilete! Tilete! Venham! Venham!

GATA (hipocritamente, à distância)


Não posso. . . Machuquei a pata neste instante.

tiltil (apara os golpes e defende-se como pode)


Socorro! Tilô! Tilô! Não agüento mais! São muitos: o
Urso, o Porco, o Burro, o Lôbo, o Abeto, a Faia!. . . Tilô!
Tilô! Tilô! Tilô!
Arrastando seus laços arrebentados, o Cão, salta de trás
do tronco do Carvalho e, empurrando Árvores e Animais, lan­
ça-se diante de Tiltil, a defendê-lo furiosamente.
CÃO (enquanto distribui violentas dentadas)
Pronto, meu deusinho, pronto! Não tenha mêdo! Para a
frente! Sei dar boas mordidas! Tome, esta é para você, Urso,
nesse traseiro gordo! Vamos ver, quem quer mais? Esta é
para o Porco, esta para o Cavalo, e esta para o rabo do Touro!
Aí está! Já rasguei o saiote da Faia e as calças do Carvalho!
O Abeto escafedeu-se! Não faz mal, a coisa pegou fogo!

tiltil (sucumbido)
Não posso mais! O Cipreste me deu um bruto sôco na
cabeça. . .
CÃO
Ai! Foi um sôco do salgueiro! Me quebrou a pata!

t il t il

Voltam à carga, todos juntos! Desta vez é o Lôbol

150
CÃO
Espere ai, que eu dou um jeito nêlel

LÔBO
Imbecil! Nosso irmão! Seus filhinhos morreram afogados
pelos pais dêle!
CÃO
Bem feito! Tanto melhor! Êles se pareciam com você!

TÔDAS AS ÁRVORES e TODOS OS ANIMAIS


Renegado! Idiota! Traidor! Desleal! Palerma! Judasl É a
morte! Deixe o Homem, venha para o nosso lado!

cão (ébtio de ardor e devotamento)


Não, não! Um contra todos? Não e não! Sou fiel aos
deuses! Aos melhores! Aos maiores! (A Tiltil.) Cuidado, que
aí vem o Urso! Cautela com o Touro! Vou pular à garganta
dêle! Ai! Um c o ice ... O Burro me quebrou dois d en tes...

TILTIL
Não posso mais, Tilô! A i!. . . Um sôco do Olmo. . . Olhe,
minha mão está sangrando. . . Foi o Lôbo ou o Porco. . .
CÃO
Espere, meu deusinho. . . Deixe eu lhe dar um beijo. Uma
boa lambidinha, aqui. . . Vai lhe fazer bem. Fique aí atrás
de mim. Êles não têm coragem de voltar. Ué, estão voltando!
Ah, êste golpe é sério! Vamos ficar firmes!

tiltil (deixa-se cair no chão)


Não, não agüento mais. . .
CÃO
Vão chegar! Estou escutando, farejando. . .

151
TILTIL

Onde? Quem?

CÃO

Ali, ali! A Luz nos encontrou! Estamos salvos! Meu rei-


zinho, me beije! Salvos! Olhe: êles desconfiaram, vão fugin­
d o . . . Estão com mêdo!

TILTIL

Luz, Luz! Venha aqui depressa! Êles se revoltaram, estão


todos contra nós!

Entra a Luz; à medida que avança, a Aurora se ergue


sôBre a floresta, iluminando-a.

LU Z

Que houve? Que é isso? Ah, coitado, então não sabia?


Vire o Diamante: todos voltarão ao Silêncio e à Escuridão, e
você não verá mais os sentimentos dêles.

Tiltil vira o Diamante. — Tôdas as almas de Árvores


correm logo para seus troncos, que voltam a fechar-se. —« ^4s
almas de Animais também desaparecem; ao longe, pastam uma
Vaca e um Carneiro tranqüilos, etc. — A Floresta recupera a
inocência. Espantado, Tiltil olha em tôrno.

TILTIL

Onde estão? Que ê que êles tinham? Enlouqueceram?

LU Z

Não. São sempre assim, mas a gente não sabe porque


não vê. Bem que eu lhe disse: é perigoso despertá-los quando
não estou perto.

152
tiltil (limpa a faca),
Ê, mas se não (ôsse o Cão, e se eu não tivesse esta faca. . .
Nunca podia imaginar que fôssem tão mausl

LUZ
Bem vê que o Homem está só contra todos, neste mundo.

CÃO
Não está se sentindo mal, meu dcusinho?

TILTIL

Nada de grave. Em Mitil êles não tocaram. E você, que­


rido Tilô? Sua bôca está sangrando... Quebrou a pata?

CÃO
Não vale a pena falar nisso. Amanhã nem se nota mais.
Mas a coisa foi durai

g a ta (sai da moita, mancando)


Se foi. O Boi me deu uma chifrada na barriga. Não se
vê sinal, mas doeu muito. E o Carvalho me quebrou a pata.

CÃO
Gostaria de saber: qual?

m itil (acaricia a Gata)


Coitadinha de T ilet e.. . É verdade? Então onde você
estava, que eu não vi?

g a ta (com hipocrisia)
Mãezinha, fui ferida logo, quando ataquei aquêle Porco
ordinário, que queria comer você. Aí o Carvalho me deu um
sôco forte que me tonteou, e . . .

153
CÃO (à Gata, entre dentes)
Sabe? tenho uma palavrinha para lhe dizer. Não perde
por esperar!
g a ta (queixosa, a Mitil)
Mãezinha, êle está me insultando! Quer me bater * ..
m itil (ao Cão)
Quer deixá-la tranqüila, bicho ordinário?

Saem todos.

PANO

154
QUARTO ATO
SEXTO QUADRO

À FRENTE DO PANO
Entram Tiltil, Mitil, a Luz, o Cão,
a Gata, o Pão , o Fogo, o Açúcar, a
Água e o Leite.

LUZ
Recebi um recado da Fada Beriluna, dizendo que o Pás­
saro Azul provàvelmente está por aqui.

TILTIL
Onde?
LUZ
Aí, no cemitério, atrás dêste muro. Parece que um dos
mortos o escondeu na sepultura. Resta saber qual dêles. Temos
de revistar todos.
TILTIL
Revistar? Como ê que vamos fazer?
LUZ
É simples. À meia-noite, para não importuná-los muito,
você vira o Diamante. Veremos quando saírem da terra. E os
que não saírem, a gente vê no fundo das covas,
TILTIL
Não vão ficar zangados?
LUZ
Absolutamente. Nem vão desconfiar. Não gostam de ser
incomodados, mas afinal de contas, como têm costume de sair
à meia-noite, ninguém se incomodará.
TILTIL

Por que o Pão, o Açúcar e o Leite estão pálidos? Por que


calaram a bôca?
LEITE (cambaleante)
Acho que vou desmaiar. . .

LUZ (baixo, a Tiltil)


Não ligue. Estão com mêdo dos outros.

FOGO ( a o s pulos)
Eu cá não tenho mêdo! Estou acostumado a queimar. An­
tigamente, queimava todos êles. Era bem mais divertido do
que agora.
TILTIL
Por que Tilô está tremendo? Também está com mêdo?
cão (estalando os dentes)
Eu? Eu não tremo. Não tenho mêdo. Mas se você fôr
embora, eu também vou. . .
TILTIL
E a Gata, não diz nada?
gata (misteriosa)
Sei o que é isso. . .
TILTIL (à Luz)
Você vem conosco?
LUZ
Não. Prefiro ficar à porta do cemitério, com as Coisas
e os Animais. Não chegou a hora. A Luz ainda não pode pe­
netrar na casa dos Mortos. Vou deixar você sozinho com
Mitil.

158
TILTIL
E Tilô: pode ficar cora a gente?

CÃO
Posso, posso: eu fico aqui, eu fico. Quero ficar perto
do meu deusinho.

LUZ
Impossível. As ordens da Fada são terminantes. Aliás,
não há razão para ter mêdo.

CÃO
Bem, bem, tanto pior. Se êles forem maus, basta fazer
isto, meu deusinho (Assobia) e verá. Vai ser como na flo­
resta. Au! Au! Au!

LUZ
Vamos, adeus, queridos. Não vou ficar longe. (Beija as
crianças.) Aquêles que eu amo e que também me amam, êsses
me encontrarão sempre. (Às Coisas e aos Animais.) Vocês, por
aqui.
Sai com as Coisas e os Animais. Os meninos ficam sozi­
nhos no meio do palco. Abre-se a cortina para o sétimo quadro.

159
SETIMO QUADRO

NO CEMITÉRIO

Noite. Luar. Cemitério campestre. Numerosos túmulos,


montinhos de relva, cruzes de madeira, lápides fune­
rárias, etc.
Tiltil e Mitil, de pé, janto a uma
coluna funerária.

MITIL
Estou com mêdo!
t il t il (Bastante intranqüilo)
Eu, não. Nunca tive mêdo.
MITIL
Me diga uma coisa, os mortos são maus?
TILTIL
Não. Pois se êles não viveml
MITIL
Você já viu algum?
TILTIL
V i uma vez, há muito tempo, quando eu era pequenino.
MITIL
Como é? Conte.
TILTIL
Completamente branco, muito sossegado, muito frio, não
fa la .. .
MITIL
A gente vai ver alguns?
TILTIL
Claro. A Luz prometeu.

161
MITIL
Onde é que os mortos estão?
TILTIL
Aqui, debaixo da relva ou debaixo dessas pedras grandes.
MITIL
Estão aqui o ano inteiro?
TILTIL
Estão.
m itil (mostra as lápides)
São as portas das casas dêles?
TILTIL
São.
MITIL
Saem quando o dia está bonito?
TILTIL
Só podem sair de noite.
MITIL
Por quê?
TILTIL
Porque estão de camisola.
MITIL
Saem também quando chove?
TILTIL
Quando chove, ficam em casa.
MITIL
É bonita a casa dêles?

162

I
I

TILTIL
Dizem que é muito apertada.
MITIL
Têm filhinhos?
TILTIL
Claro. Têm todos os que morreram.
MITIL
E de que é que vivem?
TILTIL
Comem raízes.
MITIL
A gente vai vê-los, mesmo?
TILTIL
Claro. A gente vê tudo, quando vira o Diamante,
MITIL
E que é que vão dizer?
TILTIL
Não vão dizer nada. Não falam.
MITIL
Por que não falam?
TILTIL
Porque não têm nada para dizer.
MITIL
Por que não têm nada para dizer?
TILTIL
Não amole!
Silêncio.

163
MITIL
Quando você vai virar o Diamante?

TILTIL
Você sabe muito bem que a Luz mandou esperar até
meia-noite, porque então a gente incomoda menos.
MITIL
Por que incomoda menos?
TILTIL
Porque é a hora em que êles saem para tomar a fresca.
MITIL
Já é meia-noite?
TILTIL
Está vendo o relógio da igreja?
MITIL
Estou. Vejo até o ponteiro menor.
TILTIL
Pois bem. Vai dar meia-noite. Olhe: justinho. Escutou?
Soam as doze pancadas da meia-noite.
MITIL
Quero ir embora!

TILTIL
Não é hora disso. Vou virar o Diamante.

MITIL
Não, não! Não faça isso! Quero ir embora! Estou com
tanto mêdo, meu irmãozinho! Um mêdo terrível!

164
TILTIL
Mas não tem perigo.
MITIL
Não quero ver os mortos! Não quero!
TILTIL
Está bem, não verá. Feche os olhos.
m it il (agarra-se à roupa de Tiltil)
Não posso, Tiltil! É impossível! Êles vão sair da terra!
TILTIL
Não fique tremendo assim. Vão sair só um momento.
MITIL
Até você está tremendo! Êles devem ser medonhos!
TILTIL
Está na hora. O tempo vai passando!
Tiltil vira o Diamante. Terrífico minuto de silêncio e imo­
bilidade; depois, lentamente, as cruzes oscilam, os montinhos
se entreabrem, as lápides se levantam.
m it il (aconchega-se ao peito de Tiltil)
Estão saindo! Estão aí!
Então, de tôdas as covas escancaradas, sobe gradualmente
uma floração a princípio mofina e tímida como vapor de água,
depois branca e virgínea, cada vez mais densa e mais alta,
profusa e maravilhosa, a invadir irresistivelmente, pouco a
pouco, tôdas as coisas, transformando o cemitério numa espécie
de jardim nupcial e feérico, sôbre o qual não tardam a erguer-se
os primeiros raios da aurora. Cintila o orvalho, flôres desa-
brocham, o vento murmura nas fôlhas, abelhas zumbem, pás­
saros despertam e inundam o espaço com os primeiros êxtases
de seus hinos ao sol e à vida. Estupefatos, deslumbrados,

.165
Tiltil e Mitil, de mãos dadas, ensaiam alguns passos entre as
flôres, procurando traços de sepultura.
m itil (procura na grama)
Os mortos onde estão?
tiltil (procura também)
Não existem m ortos.. .

PAN O

166
O ITA V O QUADRO

A FR E N T E DA CORTINA , QUE REPRESENTA


BELA PAISAGEM D E N U V E N S
Entram: Tiltil, Mitil, a Luz, o Cão,
a Gata, o Pão, o Fogo, o Açúcar, a
Água e o Leite.

LU Z
Acho que desta vez apanhamos o Pássaro Azul. Eu devia
ter pensado nisso desde o comêço. Só esta manhã, quando
recobrei fôrças no alvorecer, é que a idéia me veio como um
raio de sol.Estamosà porta do jardim encantado onde se
achamreunidas, sob a guarda do Destino, tôdas as Alegrias
e Felicidades do Homem.
T IL T IL
São muitas? Vamos pegá-las? São pequeninas?
LUZ
Há pequenas e grandes, gordas e delicadas. Umas be­
líssimas, outras menos agradáveis. As_mais_vulgares, porém,
há tempos, foram expulsas do jardim e se refugiaram em casa
dás Infelicidades. Porque, fiquem sabendo, as In felicidades
moram num antro vizinho, ligado ao Jardim das Felicidades.
O que separa os dois é só uma espécie de vapor, de cortina
sutil, suspendida a cada instante pelo vento que sopra das
alturas da Justiça ou do fundo da Eternidade. Agora, temos
de nos organizar e tomar certas precauções. Em geral, as F e ­
licidades são muito boas. Algumas, porém, são mais perigosas
e pérfidas do que as grandes Infelicidades. . .
PÃO
Tenho uma idéia. Se são perigosas e pérfidas, não seria
preferível que nós todos ficássemos esperando na porta, para
ajudar as crianças, caso elas sejam obrigadas a fugir?
CÃO
Absolutamente! Absolutamente! Quero ir a tôda parte com
os meus pequenos deuses. Quem estiver com mêdo fique

168
na porta. Não precisamos (Olhando o Pâo.) de poltrões
(Olhando a Gata.) nem de traidores.
FOGO
Eu vou. Parece que é divertido. Vive-se dançando por lá.
PÃO
E come-se, também?
água (gemendo)
Nunca vi na minha vida a menor Felicidadezinha. Faço
questão de ver!
LUZ
Calem-se. Ninguém pediu a opinião de vocês. Resolvi o
seguinte: o Cão, o Pão e o Açúcar acompanham as crianças.
A Água não entra, porque é muito fria, nem o Fogo, que é
muito briguento. Peço ao Leite, com empenho, que se conserve
na porta, porque é muito impressionável. A Gata fará o que
quiser.
CÃQ
Ela está com mêdo.
GATA
De passagem, vou cumprimentar algumas Infelicidades
minhas velhas amigas; que moram perto das Felicidades.
t il t il
Você não vem, Luz?
lu z

Não posso entrar assim em casa das Felicidades. A maio­


ria não me suporta. . .--Mas eu trouxe o véu espêsso que uso
para visitar pessoas felizes. (Desdobra um longo véu e envol­
ve-se nêle, cuidadosamente.) Não vá um raio de minha alma
assustá-las; há muitas Felicidades medrosas, que não são feli­
zes. . . Eis aí: desta maneira, as menos bonitas e até as mais
gordas não precisam recear coisa alguma.
Abve~se a cortina para o nono quadro .

169
NONO QUADRO

NO JARDIM DAS FELICIDADES

Ao abrir-se a cortina, desvenda-se, no primeiro plano


do jardim, uma espécie de sala formada por altas colunas
de mármore, entre as quais, dissimulando todo o fundo,
se estendem pesadas cortinas de púrpura, pendentes de
cordões de ouro. A arquitetura lembra os momentos mais
sensuais e suntuosos da Renascença veneziana ou flamen­
ga (Veronese e Rubens). Guirlandas, cornucópias, torsos,
vasos, estátuas, dourados enxameiam por tôda parte. —'
Ao meio, maciça e feérica mesa de jaspe e prata dourada,
repleta de tochas, cristais, baixelas de ouro e prata, e
atulhada de manjares fabulosos. Em redor da mesa,
comem, bebem, urram, cantam, agitam-se, espojam-se ou
adormecem entre pratos de caça, frutas fantásticas,
ânforas e gomis derrubados, as maiores Felicidades da
Terra, São enormes, incrivelmente obesas e rubicundas,
cobertas de veludos e brocados, coroadas de ouro, pérolas
e pedrarias. Belas escravas trazem continuamente pratos
enfeitados e bebidas espumantes. Música vulgar,
hilariante e grosseira, em que dominam os metais. ^
Luz pesada, vermelha, banha a cena.
Tiltil, Mitil, o Cão, o Pão e o Açú­
car, a princípio bastante intimidados,
comprimem-se à direita, no primeiro
plano, em redor da Luz. Sem nada
dizer, a Gata dirige-se para o fundo,
também à direita, soergue uma cortina
escura e desaparece.

TILTIL
Quem são essas senhoras gordas que se divertem e comem
tantas coisas boas?
LU Z
São as maiores Felicidades da Terra, aquelas que a gente
pode ver a ôlho nu. É possível, embora pouco provável, que o
Pássaro Azul se tenha perdido por um instante no meio aelas.
Assim, não vire ainda o Diamante. Por formalidade, vamos
primeiro explorar esta parte do salão.
TILTIL
Pode-se chegar perto?
LU Z
Certamente. Não são más, embora vulgares, e geralmente
mal-educadas.
TILTIL
Que doces bonitos!
CÃO
E caça! Salsichas! Pernil de carneiro e fígado de vitela!
(Declamatório.) Nada no mundo é melhor, mais bonito e mais
precioso do que fígado de vitela!

171
PÃO
Exceto os Pães-de-meio-quilo, preparados com a fina flor
do frumento. E há uns ali admiráveis! Que beleza! Que beleza!
Maiores do que eu!
AÇÚCAR
Perdão, perdão, mil perdões. Com licença, sim? com li­
cença. Eu não desejaria magoar ninguém, mas não se esque­
çam de que as gulodices que são a glória desta mesa, e cujo
brilho e magnificência ultrapassam, se ouso me exprimir assim,
tudo que existe nesta sala e talvez mesmo em qualquer outra
p arte...
TILTIL
Parecem tão satisfeitas, tão felizes! Como gritam! E riem!
E jantam! Acho que já nos viram.
De fato, umas doze Felicidades, das maiores, se levanta­
ram da mesa e caminham penosamente, segurando os ven­
tres, em direção ao grupo das crianças.
LUZ
Não tenha mêdo, são muito acolhedoras. Provàvelmente
vão convidá-lo para jantar. Não aceite. Não aceite nada, para
não se esquecer de sua missão.

TILTIL
Q quê? Nem um docinho? Êles têm um ar tão gostoso, tão
fresco! E assim recobertos de açúcar, enfeitados com frutas
sêcas, transbordantes de creme!

LUZ
São perigosos e afrouxariam sua vontade. É preciso sa­
crificar alguma coisa ao dever que cumprimos. Recuse delica­
damente, mas com firmeza. Aqui estão.

f e l ic id a d e gorda (estende a mão a Tiltil)


Bom dia, Tiltil.

172
TILTIL (espantado)
A senhora me conhece? Quem é a senhora?

FELICIDADE GORDA
Sou a mais gorda entre as Felicidades, a Felicidade-de-
ser-rico. Em nome de minhas irmãs, peço a você e a sua família
que venham honrar o nosso jantar infinito. Ficarão no meio
do que hã de melhor entre as verdadeiras e grandes Felicidades
dêste mundo. Permitam que lhes apresente as principais den­
tre nós. Aqui está minha nora, a Felicidade-da-vaidade-satis-
feita, cujo rosto é tão graciosamente balofo. (A Felicidade-da-
vaidade-satisfeita cumprimenta com ar protetor.) Aqui estão
a Felicidade-de-beber-quando-não-se-tem-mais-sêde, e a Fe-
licidade-de~comer-quando-não-se-tem-mais-fome, que tem per­
nas de macarrão. (Cumprimentam, cambaleantes.) Aqui, a Fe-
licidade-de-ignorar-tudo, surda como uma porta, e a Feli-
cidade-de-não-compreender-nada, cega como uma toupeira.
Esta é a Felicidade-de-não-fazer-nada, e a outra, a Felicida-
de-de-dormir-mais-do-que-o-necessário; tem mãos de miolo de
pão, e olhos de geléia de pêssego. Aqui, finalmente, a Risada
Espessa, aberta até as orelhas, e à qual ninguém pode resistir.. .

jRisada Espêssa cumprimenta, retorcendo-se tôda.

t il t il (aponta para uma Felicidade Gorda, que


se mantém um pouco afastada)
E aquela ali, que não tem coragem de se aproximar, e
virou as costas?

FELICIDADE GORDA
Não insista, aquela está um pouco constrangida. Não pode
ser apresentada a crianças... (Segura as mãos de Tiltil.)
Venham. A festa vai recomeçar. É a décima segunda vez desde
o amanhecer. Só estávamos à espera de vocês. Não escutam
os berros dos convivas, a chamá-los? Não posso apre­
sentar todos, são extremamente numerosos. (Dá o braço às

173
duas crianças.) Com licença, vou conduzi-los aos dois lugares
de honra.
TILTIL
Muito obrigado, Dona Felicidade Gorda. Lamento de­
veras, mas agora não posso. Estamos com muita pressa,
procuramos o Pássaro Azul. Não sabe, por acaso, onde êle
está escondido?

FELICIDADE GORDA
Pássaro Azul? Espere um pouco. Sim, sim, recordo-me.
Falaram-me sôbre êle há tempos. Creio que é um pássaro não
comestível. Em todo caso, êle nunca apareceu em nossa mesa.
Quero dizer que é pouco apreciado. Mas não fique triste: te­
mos tantas coisas melhores. Vocês vão participar de nossa vida,
verão tudo que fazemos.

TILTIL
Fazem o quê?

FELICIDADE GORDA
Ora, estamos sempre ocupadas em não fazer nada. Não
há unTmiflUtS de descanso. É preciso beber, ê preciso comer,
é preciso dormir. Absorve muito.

TILTIL
É divertido?

FELICIDADE GORDA
Claro. Se é necessário, e não há outra coisa neste mundo...

LUZ
A senhora acha?

f e l ic id a d e gorda (apontando a Luz, baixo, a Tiltil)


Quem é essa dona mal-educada?

174
Durante a conversa, uma chusma de Felicidades Gordas,
de segunda categoria, cerca o Pão, o Açúcar e o Cão, arras­
tando-os para a orgia. De uma hora para outra, Tiltil os vê
reunidos fraternalmente à mesa, comendo, bebendo e agitan-
do-se com frenesi.
TILTIL
Venha aqui, Luz! Êles foram para a mesa!

LUZ
Chame-os, senão vai acabar mal!

TILTIL
Tilô! Tilô! Aqui! Venha imediatamente está ouvindo? E
você, Açúcar e Pão, quem lhes deu licença para me deixar?
Que fazem aí, sem autorização?

PÃO (de bôca cheia)


Você não podia falar conosco mais delicadamente?

TILTIL
O quê? É o Pão que me trata com essa falta de cerimônia?
Que foi que você viu? E você, Tilô, é assim que obedece? V a­
mos, venha cá e fique de joelhos, ouviu? de joelhos! Depressa!

CÃO (a meia voz, na extremidade da mesa)


Eu, quando como, não estou para ninguém, e não escuto
coisa alguma. . .
açúcar (melífluo)
Desculpem. Nós não podíamos deixar assim hospedeiros
tão amáveis. . . Ficariam melindrados.

FELICIDADE GORDA
Estão vendo? Êles dão o exemplo. Venham, estamos à
espera de vocês. Não admitimos recusa. Vamos fazer uma doce
violência. . . Ei, Felicidades Gordas, me ajudem! Vamos levá-
los à fôrça para a mesa. Êles têm de ser felizes, mesmo contra
a vontade!

A s Felicidades Gordas, entre gritos de alegria, e aos pulos,


arrastam as crianças, que se debatem, enquanto a Risada E s-
pêssa agarra violentamente a Luz pela cintura.

LUZ

Vire o Diamante, enquanto é tempo!


Tiltil obedece à Luz, e logo o palco se banha de claridade
inefávelmente pura, divinamente rósea, harmoniosa e ligeira.
Os pesados ornamentos do primeiro plano e as espêssas tape -
Çarias vermelhas se desprendem e desaparecem, desvendando
[fabuloso e suave jardim de paz ligeira e de serenidade, espécie
de palácio de verdura, com perspectivas harmoniosas, onde a
magnificência das folhagens, pujantes e luminosas, exuberantes
e contudo disciplinadas, a embriaguez virginal das flôres e a
fresca alegria das águas correntes, fluindo e esguichando de
tôda parte, parecem levar até os confins do horizonte a pró­
pria idéia de felicidade. A mesa da orgia desfaz-se sem deixar
sinal; os veludos, brocados e coroas das Felicidades Gordas,
ao sôpro luminoso que invade o palco, soerguem-se, rasgam-se
e caem, com as máscaras hilariantes, aos pés dos convivas atur­
didos. Êstes se afinam a olhos vistos, como bexigas furadas
piscando ante raios desconhecidos que os ofuscam. Vendo-s-c
enfim tais quais são em verdade, isto é, nus, horríveis, flácidos
e lamentáveis, põem-se a soltar urros de vergonha e terror, dis-
tinguindo-se nitidamente os da Risada Espessa, que dominam
todos os demais. Só a Felicidade-de-não-compreender-nada
continua perfeitamente calma, enquanto suas colegas se agitam
como loucas, procuram fugir e esconder-se nos cantos que lhes
parecem mais sombrios. Contudo, não há mais sombra no jar­
dim deslumbrante. Por isso, em desespero, a maioria resolve
transpor a cortina ameaçadora que, à direita, em um ângulo,
fecha a abóbada da caverna das Infelicidades. Cada vez que
uma delas, em meio ao pânico, levanta uma dobra d e cortina,

176
sobe da cavidade do antro uma tempestade de injúrias, impre-
cações e maldições. O Cão, o Pão e o Açúcar, de orelhas mur-
chas, vão juntar-se ao grupo das crianças e, envergonhadíssi­
mos, escondem-se atrás delas.
t il t il (vendo fugir as Felicidades Gordas)
Como são feias, meu Deus! Para onde vão?

LUZ

Palavra de honra, acho que perderam a cabeça. Vão se


refugiar em casa das Infelicidades, e receio muito que fiquem
lá para sempre.

t il t il (olha em redor, maravilhado)


Ah! Que delícia de jardim, que beleza! Onde estamos?

LUZ
Não mudamos de lugar. Seus olhos é que mudaram de
esfera. Agora percebemos a verdade das coisas; vamos ver
a alma das Felicidades que suportam o brilho do Diamante.

t il t i l

Que beleza! E o tempo, tão bonito! É como se a gente


estivesse em pleno verão. Olhe, parece que estão se aproxi­
mando, e que vêm nos procurar.

De fato, o jardim começa a povoar-se com formas angé­


licas, que parecem sair de longo sono e deslizam harmoniosa­
mente entre as árvores. Trajam vestes luminosas, de matizes
suaves e sutis: desabrochar de rosa, sorriso de água, azul de
aurora, orvalho de âmbar, etc.
luz

Estão se aproximando algumas Felicidades amáveis e


curiosas, que nos darão informações.

177
TILTIL
São suas conhecidas?
LUZ
São. Conheço tôdas. Vou muitas vêzes à casa delas^ po­
rém não sabem quem sou.
TILTIL
São tantas, tantas! Saem de todos os lados!

LUZ
Antigamente, o número era maior ainda. Mas as Felici­
dades Gordas foram muito más para elas.
TILTIL
Não tem importância. Sobraram tantas.
LUZ
Você verá muitas outras, à medida que a influência do
Diamante se espalhar pelo jardim. Há na Terra muito mais
Felicidades do que se imagina. A maioria dos Homens é que
não sabe descobri-las.
TILTIL
Ali vêm umas pequeninas. Vamos correr ao encontro
delas?
LUZ
É inútil. As que nos interessam passarão por aqui. Não
temos tempo de travar relações com tôdas.
O bando d e Pequenas Felicidades, aos pulos, e às garga­
lhadas, acorre d o fundo da folhagem , e dança em redor dos
meninos.
TILTIL

Que bonitas, ah, que bonitas! De onde vêm? Quem são?

178
LUZ
São as Felicidades Infantis.

TILTIL
Pode-se falar com elas?

LUZ

Não adianta. Elas cantam, dançam, riem, porém não sa­


bem falar.

tiltil (excitadíssimo)
Bom dia! Bom dia! E aquela gorda ali, que está rindo!
Que rostos mais bonitos, que amor de vestidos! Todo mundo
aqui é rico?

LUZ

Não. É como em tôda parte: há muito mais pobres do


que ricos.

TILTIL

Onde estão os pobres?

LUZ
A gente não distingue. A felicidade, de uma criança está
sempre revestida do que há de mais helojno çéu e na je rra .

tiltil (não se contendo)


Quero dançar com elas!

LUZ
É absolutamente impossível. Não há tempo. V ejo que não
estão com o Pássaro Azul. Aliás, estão com pressa, não repa­
rou? Já passaram. Também elas não têm tempo a perder, a
infância é muito curta.

179
Outro grupo de Felicidades, um pouco maiores do que as
primeiras, irrompe no jardim, cantando com tôda a fôrça: “Es­
tão aqui! Estão aqui! Já nos viram! Já nos viram!” e dança em
redor dos meninos uma alegre farândola; no fim, a que parece
chefiar o grupinho dirige-se para Tiltil, estendendo-lhe a mão.

FELICIDADE
Bom dia, Tiltil!

TILTIL
Mais outra que me conhece. (Â Luz.) Estou começando
a ficar conhecido em tôda p arte.. . Quem é você?,

FELICIDADE

Não está me reconhecendo? Aposto que não reconhece


nenhuma das que estão aqui.

t il t il (um tanto embaraçado)


É, não s e i.. . Não me lembro de ter visto vocês.

f e l ic id a d e

Ouviram? Eu tinha certeza. Êle nunca nos viu! (As outras


felicidades do grupo caem na gargalhada.) Meu caro Tiltil,
você nos conhece até demais. Estamos sempre em redor de
você. Comemos, bebemos, acordamos, respiramos, vivemos a
seu lado.

t il t il

Sim, é claro, perfeitamente, eu sei, eu me lembro. . . Mas


gostaria de saber como você se chama. . .

f e l ic id a d e

Estou vendo que não sabe de nada. Sou a chefe das Feli-
cidades-de-nossa-casa; e essas tôdas aí são as Felicidades que
moram lá.

180
TILTIL

Então há Felicidades em casa da gente?


As Felicidades caem na gargalhada.
FELICIDADE

Ouviram? Se há Felicidades na casa! Mas, pobrezinho, a


casa está cheia delas até não caber mais! Nós rimos, cantamos,
criamos alegria a ponto de recuar as paredes e descobrir o teto.
Pois apesar de tudo isso, você não vê nada, não escuta nada.
Espero que, de futuro, seja um pouco mais inteligente. En­
quanto isso, aperte a mão das mais importantes. Depois, ao
voltar para casa, há de reconhecê-las fàcilmente. Afinal, no
fim de um belo dia, saberá animá-las com um sorriso, agrade-
cer-lhes com uma palavra amável, pois fazem realmente o
que podem para tornar leve e deliciosa a vida de você. Em
primeiro lugar, esta sua servidora, a Felicidade-de-ter-saúde.
Não sou a mais bonita, porém sou a mais séria. Vai me reco­
nhecer? Esta aqui, a Felicidade-do-ar-puro, é quase transpa­
rente. Aqui está a Felicidade-de-amar-os-pais, vestida de cin­
zento e sempre um pouco triste, pois nunca se repara nela. Eis
a Felicidade-do-céu-azul, que naturalmente se veste de azul; a
Felicidade-da-floresta, que não menos naturalmente se veste
de verde, e que você verá sempre que se debruçar à janela. Eis
aqui ainda a boa Felicidade-das-horas-de-sol, que é côr de dia­
mante, e a Primavera, côr de esmeralda maluca. . .

TILTIL

Vocês são bonitas assim, todos os dias?

f e l ic id a d e

Claro. Todo dia é domingo, em tôdas as casas, quando a


gente está de olhos abertos. Depois, quando cai a tarde, há a
Felicidade-do-pôr-do-sol, mais linda que tôdas as rainhas do
mundo; é seguida pela Felicidade-de-ver-surgir-as-estrêlas,
dourada como um deus antigo. Depois, quando faz mau tem­
po, há a Felicidade-da-chuva, coberta de pérolas; e a Felici-

181
dade-do-fogo-de-inverno, que aquece as mãos geladas, com
o seu lindo manto de púrpura. Não falei da melhor de tôdas,
porque é quase irmã das Grandes-Alegrias límpidas, que você
verá daqui a pouco: a Felicidade-dos-pensamentos-inocentes,
a mais clara de nós tôdas. E tem mais ainda. Realmente, somos
muitas. Não acabaria nunca a enumeração, e antes de mais
nada tenho que prevenir as Grandes-Alegrias, que estão lá em
cima, ao fundo, perto das portas do céu, e não sabem ainda
que vocês chegaram. Vou mandar lá a Felicidade-de-pisar-des-
calço-no-orvalho, que é a mais ágil. (À Felicidade que acaba
de designar, e que se aproxima dando cabriolas.) Vá!
Nesse momento, uma espécie de diabinho vestido de malha
preta, empurrando todo mundo e soltando gritos inarticulados,
aproxima-se de Tiltil, e pula doidamente, aplicando-lhe pipa-
rotes, cacholetas e pontapés incontroláveis.
TILTIL (assustado, com profunda indignação)
Quem é êsse selvagem?

f e l ic id a d e

Bem, é o Prazer-de-ser-insuportável, que fugiu da caver­


na das Infelicidades. Não se sabe onde prendê-lo. Foge de
qualquer lugar, e as próprias Infelicidades não querem mais
saber dêle.
O diabrete continua a azucrinar Tiltil, que tenta em vão
defender-se; depois, subitamente, e às gargalhadas, desaparece
sem motivo, como aparecera.
t il t il

Que é que êle tem? É meio maluco?

LUZ
Não sei. Parece que você mesmo é assim, quando não
se comporta bem. Mas, enquanto isso, temos de indagar sôbre
o Pássaro Azul. É possível que a chefe das Felicidades-de-
nossa-casa saiba onde êle está.

182
TILTIL
E onde está?
FE L IC ID A D E

Não sabe onde está o Pássaro Azul!


Tôdas as Felicidades-de-nossa-casa caem na gargalhada.
t il t il ( vexado)
Pois se não sei mesmo. Não há motivo para rir.
Novas gargalhadas.
f e l ic id a d e

Vamos, não fique zangado. E deixemos de brincadeira,


Êle não sabe, que é que vocês querem? Nem por isso é mais
ridículo do que a maioria dos Homens. Mas a pequena Feli-
cidade-de-pisar-descalço-no-orvalho já preveniu as Grandes-
Alegrias, e elas caminham em nossa direção.
Com efeito, altas e belas figuras angélicas, trajando vestes
luminosas, aproximam-se lentamente.
t il t il

Que bonitas! Por que não riem? São infelizes?

LUZ

Não é quando rimos que somos mais felizes.

t il t il

Quem são?
f e l ic id a d e
As Grandes-Alegrias.

t il t il

Sabe como se chamam?

183
FELICIDADE
Naturalmente. Brincamos sempre juntas. Aqui está, pri­
meiro, à frente das outras, a Grande-Alegria-de-ser-justo, que
sorri cada vez que uma injustiça é reparada — eu sou muito
môça, ainda não a vi sorrir. Atrás dela, veja a Alegria-de-ser-
bom, que é a mais feliz, porém a mais triste. É muito difícil
impedir que ela vá procurar as Infelicidades para consolá-las.
À direita, a Alegria-do-trabalho-concluído, ao lado da Alegria-
de-pensar. Em seguida, a Alegria-de-compreender, sempre à
procura da irmã, a Felicidade-de-não-compreender-nada.

TILTIL
Eu vi a irmã dela! Foi para a casa das Infelicidades, em
companhia das Felicidades Gordas.

FELICIDADE
Eu sabia! Foi pelo mau caminho, as más companhias a
perverteram completamente. Não conte isso à irmã. Ela havia
de querer procurá-la, e com isso perderíamos uma das alegrias
mais belas. Ali está ainda, entre as maiores, a Alegria-de-ver-o
que-é-belo, que todo dia traz novos raios à claridade que reina
aqui.
TILTIL
E aquela, bem longe, entre nuvens de ouro, que mesmo
eu ficando na ponta dos pés, mal consigo ver?

FELICIDADE
É a grande Alegria-de-amar. Por mais que se esforce, você
ainda é muito pequenino para vê-la inteiramente.

TILTIL

E lá adiante, bem no fundo, aquelas que estão encobertas


e não se ap ro xim am?
FELICIDADE
São as Alegrias que os Homens ainda não conhecem.

184
T IL T IL

Que é que as outras estão querendo? Por que se afastam?

FE L IC ID A D E

Porque uma Alegria nova está chegando, talvez a mais


pura de tôdas.
t il t il
Qual é?

f e l ic id a d e

Não a reconheceu ainda? Repare bem, arregale os olhos


até o fundo da alma. Ela já viu você, já viu! Está correndo e
lhe estende os braços! É a Alegria de sua mãe, a Alegria-in-
comparável-do-amor-materno.
Depois de aclamá-la, as outras Alegrias, vindas de tôda
parte, afastam-se em silêncio, diante da Alegria-do-amor-ma-
terno.
AMOR M ATERN O

Tiltil! Mitil! São vocês? São vocês mesmo que estou


vendo aqui? Eu não esperava! Estava tão sozinha em casa, e
de repente vocês dois sobem ao céu, onde as almas das mães
cintilam alegremente. Mas, antes de tudo, quero beijos, uma
porção enorme de beijos. Todos dois em meus braços: não há
nada no mundo que dê mais felicidade. Tiltil, você não ri? Nem
você também, Mitil? Não conhecem o amor de mamãe? Repa­
rem em mim: não são meus olhos, meus lábios, meus braços?

t il t il

Claro que estou reconhecendo, mas eu não sabia. . . Você


se parece com mamãe, mas é muito mais bonita.

AMOR M A TERN O

Mas é evidente: eu não envelheço mais. E cada dia que


passa me dá fôrça, juventude, felicidade. Cada sorriso de você
me remoça um ano. Lá em casa isto não se vê, mas aqui se
vê tudo, e é verdade.
TILTIL (maravilhado, contempla-a e beija-a alternadamente)
E êsse vestido tão bonito, ê feito de quê? De sêda, de pra­
ta, de pérolas?
AMOR MATERNO

Não. É de beijos, de olhares, de carícias. Cada beijo que


se dá, põe nêle um raio de luar ou de sol.

TILTIL
Engraçado, eu nunca podia imaginar que você fôsse tão
rica. Mas onde é que escondia êste vestido? No armário de que
papai tem a chave?

AMOR MATERNO
Não, eu uso sempre êste vestido, mas não se vê, porque
a gente não vê nada quando está de olhos fechados. Tôdas
as mães são ricas, quando gostam dos filhos. Não há mães
pobres, feias ou velhas. O amor delas é sempre a Alegria mais
bonita de tôdas. E quando parecem tristes, basta receberem,
ou darem um beijo para que tôdas as suas lágrimas se tornem
estréias, no fundo dos olhos.

tiltil ( olha-a, espantado)


É mesmo, é verdade! Seus olhos esíão cheios de estré­
ia s .. . E são mesmo seus olhos, mas estão muito mais bonitos.
E é a sua mão também, com aquêle anelzinho. . . Tem aquela
mesma queimadura de quando você foi acender o lampião. Mas
está muito mais branca, e a pele é tão fina. Até parece que há
uma luz escorrendo nela. Não trabalha, como a sua mão lá
de casa?
AMOR MATERNO
Pois olhe, é exatamente a mesma. Não reparou que ela
fica branquinha e cheia de claridade, quando faz carinho em
você?

186
TILTIL

É incrível, mamãe: a voz também é a sua, mas você fala


muito melhor do que lá em casa.
AMOR M ATERN O

Lá em casa a gente tem muito que fazer, não há tempo.


Mas aquilo que não se diz, ouve-se do mesmo jeito. Agora que
já me viu, será que vai me reconhecer com o meu vestido ras­
gado, quando amanhã você voltar para casa?
T IL T IL

Não quero voltar. Já que você está aqui, quero ficar aqui
também enquanto você estiver.
AM OR M A TERN O

Mas é a mesma coisa, é lá que eu estou, é lá que nós es­


tamos. Você só veio aqui para perceber, para ficar sabendo,
afinal, como é que deve me ver lá em casa. Compreendeu,
Tiltil? Você supõe estar no céu, mas o céu está em tôda parte
onde nós nos beijamos. Não há duas mães, e você não tem
outra. Cada menino só tem uma e é sempre a mesma, sempre a
mais linda, mas é preciso conhecê-la e saber olhá-la. Mas,
como você fêz para chegar aqui e descobrir um caminho que
os Homens têm procurado desde que apareceram na Terra?
tiltil (mostra a Luz que, por discrição, se afastou um pouco)
Foi ela que me conduziu.
AM OR M A TERN O
Quem?
T IL T IL

A Luz.
AM OR M ATERN O

Eu nunca a vi. Disseram-me que ela gostava muito de


você, e que era muito boa. Por que se esconde? Nunca mostra
o rosto?

187
TILTIL

Mostra, sim. Mas tem mêdo das Felicidades terem mêdo


se virem tudo claro demais.

AM OR M A TERN O

Então não sabe que vivemos esperando por ela? (Chama


as outras Grandes-Alegrias.) Venham, venham, irmãs. V e­
nham, corram tôdas, é a Luz que veio finalmente nos visitar!
Frêmito entre as Gr andes-Alegrias, que se aproximam.
Gritos: “A Luz está aqui! A Luz, a Luz!”

A L E G R IA -D E -C O M P R E E N D E R (afasta as outras, para vir


beijar a Luz)
Você é a Luz, e não sabíamos! Há anos e anos que nós
a esperávamos! Está me reconhecendo? Sou a Alegria-de-com-
preender, que procurou tanto você. Somos muito felizes, mas
não enxergamos para além de nós mesmas.

a l e g r ia - d e- se r - ju sto (beija a Luz, por sua vez)


Está me reconhecendo? Sou a Alegria-de-ser-justo, que
chamou tanto por você. Somos muito felizes, porém não enxer­
gamos para além de nossas sombras.

a l e g r ia - d e - v e r - o - q u e -é-belo (beija-a também)


E a mim, não reconhece? Sou a Alegria-da-beleza, que
gosta tanto de você. Somos muito felizes, porém não enxerga­
mos para além de nossos sonhos.

A L E G R IA -D E -C O M P R E E N D E R

Viu, irmã, viu? Não nos faça esperar mais. Somos bas­
tante fortes, bastante puras. Retire, pois, êsse véu que nos
oculta ainda as últimas verdades e as últimas felicidades. Olhe,
minhas irmãs se ajoelham a seus pés. Você é a nossa rainha,
a nossa recompensa.

188
LUZ (aconchega mais o véu)
Irmãs, minhas belas irmãs, eu obedeço ao meu Senhor.
Ainda não chegou a hora, que um dia talvez soará. Então
voltarei sem temores e sem sombras. Adeus. Levantem-se. V a­
mos nos beijar mais uma vez, como irmãs que se encontram à
espera do dia que vai clarear daqui a pouco.

am or m atern o (beijando a Luz)


Você foi boa para meus queridinhos.

LU Z

Serei sempre boa para aquêles que se amam.


a l e g r ia - d e -co m preen der (aproxima-se da Luz)
Queria que o último beijo fôsse dado na minha testa.
Beijam-se longamente e, ao se separarem e erguerem as
cabeças, têm lágrimas nos olhos.
(espantado)
t il t il

Por que estão chorando? (Repara nas outras Alegrias.)


Ué, vocês também. . . Por que é que todo mundo está com
lágrimas nos olhos?

LUZ

Silêncio, meu filho. . .

PANO

189
Q UI N T O ATO
DÉCIMO QUADRO

N O R E IN O D O F U T U R O

Salas imensas, no Palácio do Azul, onde esperam as


crianças que vão nascer. ^ Infinitas perspectivas de
colunas de safira, sustentando abóbadas de turquesa,
Tudo, desde a luz e as lajes de lápis-lazúli até as
pulverulências do fundo, onde se perdem os últimos
arcos, até os menores objetos, é de um azul irreal,
intenso, feérico. Somente os capitéis e os socos das
colunas, as chaves de abóbadas e alguns bancos cir-
culares são de mármore branco ou de alabastro. ^
À direita, entre colunas, grandes portas opalinas, cujas
fôlhas, ao findar a cena, serão fechadas pelo Tempo,
e que se abrem sôbre a V ida Atual e o cais do Am a­
nhecer. P or tôda parte, e encher harmoniosamente a
sala, chusma de crianças trajando longas vestes azuladas.
^ E stas brincam, aquelas passeiam, outras conversam
ou devaneiam; muitas dormem, outras tantas trabalham,
entre colunatas, nas invenções futuras; os utensílios,
instrumentos e aparelhos que constroem, as plantas,
flôres e frutos que cultivam ou colhem, têm o mesmo azul
sobrenatural e luminoso da atmosfera geral do Palácio.
^ Entre as crianças, revestidas de azul mais pálido e
mais diáfano, desfilam e tornam a desfilar algumas
figuras de porte elevado, de uma beleza soberana e
silenciosa, semelhantes a anjos.
Entram à esquerda, como furtiva­
mente, esgueirando-se por entre as
colunas do primeiro plano, Tiltil, Mitil
e a Luz. A chegada provoca certo
movimento entre os Meninos-Azuis,
que logo acorrem de todos os lados
e se agrupam em redor dos insólitos
visitantes, contemplando-os curiosa­
mente.

TILTIL
Onde estão o Açúcar, a Gata e o Pãozinho?
LU Z
Não podem entrar. Ficariam conhecendo o Futuro, e não
obedeceriam mais.
TILTIL
E o Cão?
LU Z

Também não é conveniente que êle saiba o que o espera


no decorrer dos séculos. Todos ficaram presos no subterrâneo
da igreja.
TILTIL
Onde é que estamos?
LU Z
No Reino do Futuro, entre as crianças que ainda não nas­
ceram. Uma vez que o Diamante nos permite enxergar bem nesta
região que os Homens não percebem, provàvelmente encontra­
remos aqui o Pássaro Azul.

19 3
T IL T IL
Claro que encontraremos, pois tudo aqui é azul. (Olha em
redor.) Que beleza tudo isso, meu Deusl
LU Z
Olhe os meninos chegando.
T IL T IL
Zangados?
LU Z
Não. Repare que estão sorrindo, embora espantados.
m e n in o s - a z u is (acorrem cada vez mais numerosos)
Meninos Vivos! Venham ver Meninos Vivos!
T IL T IL
Por que é que nos chamam de Meninos Vivos?
LUZ
Porque êles ainda não vivem.
T IL T IL
Então, que é que êles fazem?
LU Z
Esperam a hora de nascer.
T IL T IL
Hora de nascer?
LU Z
É. Daqui saem tôdas as crianças que nascem na Terra.
Cada qual espera o seu dia. Quando os Pais e as Mães enco­
mendam um filho, abrem-se as portas que você está vendo à
direita, e descem os bebês.
T IL T IL
São tantos, tantos!

194
LU Z

Há muitos outros ainda. Nem todos se vêem; seria impos­


sível. Pense um pouco: tem de haver uma quantidade suficien­
te para chegar até o fim do mundo. Ninguém seria capaz de
fazer a conta.

T IL T IL

E aquêles vultos grandes, azuis? Quem são?

LU Z

Não se sabe ao certo. Supõe-se que sejam Anjos da Guar­


da. Dizem que vão à Terra logo depois das Crianças. É proibi­
do interrogá-los.
T IL T IL

Por quê?
LU Z

É um segrêdo da Terra.

T IL T IL

E os outros, pequenos, posso falar com êles?

LU Z

Pode, mas é preciso travar relações. Olhe, está ali um


mais curioso do que os outros. Chegue perto e fale com êle.

T IL T IL

Que é que vou dizer?

LU Z

O que quiser. Faça de conta que é um amiguinho seu.

T IL T IL

Posso lhe dar a mão?

195
LU Z

Evidentemente. Não irá fazer mal a você. Mas que é isso,


não fique assim tão acanhado. Vou deixar os dois sozinhos,
ficarão mais à vontade. Além disso, preciso conversar com a
Grande-Figura-Azul.

TILTIL(aproxima-se do Menino-Azul e estende-lhe a mão)


Bom dia! (Tocando com o dedo a roupa azul do Menino.)
Que é isso?

m e n in o (tocando com o dedo, gravemente, o chapéu de Tiltil)


E isso?
t il t il

Isso? Meu chapéu. Você não tem?

MENINO
Não. Para quê?
T ILT IL

Para dar bom-dia. Além disso, quando faz frio. . .

MENINO
Que é fazer frio?
T ILT IL

Quando a gente fica tremendo assim: Chiii! e sopra as


mãos, mexe assim com os braços. . .
Agita os braços, vigorosamente.
MENINO

É frio, na terra?
T IL T IL

Às vêzes é, no inverno, quando a gente não tem fogo.

196
MENINO
Por que não tem?
T ILT IL

Porque custa caro e é preciso dinheiro para comprar lenha.

MENINO

Que é dinheiro?
T ILT IL

Êsse negócio que serve para pagar.

MENINO
Ah!
T ILT IL

Uns têm, outros não têm dinheiro.

MENINO
Por quê?
T ILT IL

Porque não são ricos. Você é rico? Que idade tem?

MENINO

Vou nascer daqui a pouco. Dentro de doze anos. É bom


nascer?
TILTIL
Ah, é. Tão divertido!

MENINO

Como que você fêz?

T IL T IL

Não me lembro mais. Há tanto tempo!

197
MENINO
Dizem que é tão bonito, a Terra, os V ivos.. .

TILTIL
É, mais ou menos. Tem passarinhos, doces, brinquedos.
Uns têm tudo; mas quem não tem, pode olhar para os outros.
MENINO
Dizem que as mães esperam à porta. São boas mesmo?

TILTIL
Ah, isto são. Melhores do que tudo quanto existe. As
vovós também são, mas é pena: morrem tão depressa. . .

MENINO
Morrem? Que é isso?

TILTIL
Vão-se embora de noite, c não voltam mais.

MENINO
Por quê?

TILTIL

Eu é que sei? Talvez fiquem tristes.

MENINO
A sua foi embora?

TILTIL
Minha vovó?

MENINO
Sua mamãe ou sua vovó, sei lá.

198
T IL T IL
Ah, não é a mesma coisa. As vovós vão primeiro, e já é
bem triste. A minha era muito boa.
MENINO
Que é que têm seus olhos? Fazem pérolas?
T IL T IL
Não são pérolas, não.
MENINO
Então que é?
T IL T IL
Nada. É essa porção de azul, que me dói um pouco na
vista.
MENINO
Como se chama isso?
TILTIL
O quê?
MENINO
Isso que está caindo.
TILTIL
Nada. Um pouco de água.
MENINO
Dos olhos?
TILTIL
É, sai às vêzes, quando a gente chora.
MENINO
Que é chorar?

199
T IL T IL
Eu não chorei, não. A culpa é dêsse azul. Mas se tivesse
chorado, era a mesma coisa.

MENINO
Vocês choram muito?
T IL T IL
Os meninos, não; as meninas. Aqui ninguém chora?

MENINO
Acho que não.
T IL T IL
'B em , você vai aprender. Que é isso com que você está
brincando, essas asas brancas, enormes?

MENINO
Isso? É a invenção que vou levar para a Terra.

T IL T IL
Invenção? Você é inventor?

MENINO
Claro, pois você não sabe?^Quando eu estiver na Terra
hei de inventar a Coisa-que-faz-a-gente-feliz.

T ILTIL
É boa de comer? Faz barulho?

MENINO
Não. Não se escuta nada.
TILTIL
Que pena.

200
MENINO

Trabalho nela todo dia. Está quase pronta. Quer ver?

TILTIL
Quero. Onde está?
MENINO

Ali. Você pode ver, entre estas duas colunas.


o u t r o m e n in o -a z u l (aproxima-se de Tiltil e puxa-o
pela manga)
Quer ver a minha, quer?

T IL T IL

Quero, sim. Que é?

seg u n d o m e n in o

Trinta e três remédios para prolongar a vida. Ali, naque­


les frascos azuis.

te r c e ir o m e n in o(destaca~se da multidão)
Pois eu trouxe uma luz que ninguém conhece. (Ilumina-se
inteiramente com uma chama extraordinária.) Curioso, não?
q u a r t o m e n i n o (Puxa Tiltil pelo braço)

Venha ver minha máquina que voa como um pássaro


sem asas.
q u in t o m e n in o

Não, não. Primeiro a minha, para achar os tesouros escon­


didos na luz!
Os Meninos-Azuis se acotovelam em redor de Tiltil e Mitil,
gritando todos ao mesmo tempo: “Não, não, venha ver a minhal
Não, a minha é mais bonita! A minha é espantosa! A minha é
tôda de açúcar! A dêle não tem nada demais! Êle roubou a
minha idéia!”, etc. Em meio a essas exclamações desordenadas,

201
os Meninos Vivos são arrastados na direção das Oficinas
Azuis; ai, cada inventor faz uma demonstração de sua máquina
ideal. Ê um redemoinho cerúleo de rodas, discos, volantes,
engrenagens, polias, correias, objetos estranhos e ainda sem
nome, envoltos nos azulineos vapores do irreal. A chusma de
aparelhos bizarros e misteriosos se projeta e paira sob as abóba­
das, ou rasteja ao pé das colunas, enquanto crianças desenrolam
mapas e plantas, abrem livros, desvendam estátuas azuladas,
trazem flôres enormes e frutos gigantescos, que se diria forma­
dos de safiras e de turquesas.
M EN IN IN H O A ZU L(curvado ao pêso de margaridas
azuis, colossais)
Vejam minhas flôres!
T ILT IL
Que é isso? Nunca vi.
MENININHO-AZUL
São margaridas.
T IL T IL
Não é possível. Do tamanho de uma roda!
MENININHO-AZUL
E que perfumadas!
TILTIL (cheira-as)
Fabuloso!
MENININHO-AZUL
Vão ficar assim, quando eu estiver na Terra.
T IL T IL
Quando vai ser?.
MENININHO-AZUL
Daqui a 53 anos, 4 meses e 9 dias.

202
Chegam dois Meninos-Azuis, trazendo, como um lustre
pendurado a uma vara, espantoso cacho de uvas, cujos bagos
sãó maiores do que peras .
UM DOS MENINOS QUE CARREGAM O CACHO
Que é que você acha de minhas frutas?.

T IL T IL
É um cacho de peras.

MENINO

Nada disso. São uvas. Serão tôdas assim, quando eu tiver


30 anos. Descobri o meio.

o u t r o m e n in o(esmagado sob uma cesta de maças


azuis, do tamanho de melões)
E eu? Vejam minhas maçãs.

TILTIL
São melões.
MENINO

Não, senhor. São maçãs, e das menos bonitas. Tôdas serão


dêsse jeito, quando eu fôr vivo. Descobri o processo.

o u t r o m e n in o(traz, num carrinho de mão, melões


azuis, maiores do que abóboras)

E meus melõezinhos?

TILTIL
São abóboras.

MENINO DOS M ELOES

Quando.eu fôr para a terra, os melões hão de ficar orgu­


lhosos, Serei hortelão do Rei dos Nove Planêtas.

203
TILTIL
Rei dos Nove Planêtas? Onde está êle?

(avança orgulhosamente; parece


REI DOS NOVE p l a n ê t a s
ter quatro anos, e com grande dificuldade se mantém de
pé , sôbre perninhas tortas)
Aqui!
t il t il

Muito bem. Você não é lá muito grande.. .

r e i dos n o v e p la n ê ta s (grave e silencioso)


O que vou fazer será grande.

TILTIL
Que é que você vai fazer?

REI DOS NOVE PLANÊTAS


Vou fundar a Confederação Geral dos Planêtas Solares.
tiltil (embasbacado)
É mesmo?
REI DOS NOVE PLANÊTAS
Todos farão parte dela, menos Saturno, Urano e Netuno,
que estão a distâncias exageradas e incomensuráveis.
Retira-se com dignidade.
TILTIL
Êle é bem interessante.

UM MENINO-AZUL
Está vendo aquêle ali?

TILTIL
Qual?

204
MENINO

Aquêle que dorme perto da coluna.

T IL T IL
E então?

MENINO

Vai levar a alegria pura à face da Terra.

T ILT IL

Como?

MENINO

Por meio de idéias que ninguém teve ainda.

T IL T IL

E aquêle outro, aquêle gordinho que meteu o dedo no nariz:


que vai fazer?

MENINO

Vai encontrar o fogo para aquecer a Terra, quando o Sol


esfriar.

T ILT IL

E aquêles dois de mãos dadas, que vivem se beijando?


Irmão e irmã?

MENINO

Não, são engraçadíssimos. . . São os Namorados.

T ILT IL

Que é isso?

205
MENINO

Não sei. O Tempo é que diz assim, para caçoar dêles.


Ficam o dia inteiro de olhos mergulhados nos olhos, se bei*
jando, se dizendo adeus. . .

TILTIL

Por quê?

MENINO

Acho que não podem seguir juntos.

T ILT IL

E o pequenino todo cor-de-rosa, de cara tão séria, que está


chupando o polegar?

MENINO

Parece que êle deve apagar a Injustiça da face da Terra.

T IL T IL
Hein?
MENINO

Dizem que é um trabalho duríssimo.

T IL T IL

E aquêle ruivinho, que anda como se não enxergasse? É


cego?

MENINO

Ainda não, mas vai ficar. Olhe bem para êle; parece que
tem de vencer a morte.

T ILT IL

Que quer dizer isso?

206
MENINO
Não sei ao certo, mas dizem que é grandioso. . .

' t il t il(indica a multidão de crianças adormecidas


junto às colunas, em degraus, bancos, etc.)
E aquêles todos que estão dormindo — são tantos! Não
fazem nada?

MENINO
Pensam em alguma coisa.

TILTIL
Em quê?
MENINO
Ainda não sabem. Mas devem levar alguma coisa para a
Terra. É proibido sair de mãos vazias.

TILTIL
Quem proíbe?

MENINO
O Tempo, que fica junto à porta. Você verá quando êle
abrir. É bem cacête. . .

UM m e n in o (que acaba de chegar, beijando Tiltil e


Mitil com efusão)
Bom dia! Tudo bem? Me dê um beijo, vamos. Você tam­
bém, Mitil. Não se espante de eu saber seu nome, pois vou ser
seu irmão. Acabaram de me dizer que você estava aqui. Eu
estava ali no canto da sala, empacotando minhas idéias. Diga
a Mamãe que estou pronto.

TILTIL
Como? Você quer ir lá para casa?

207
MENINO

Claro, no ano que vem, no Domingo de Ramos. Não me


atormente muito enquanto eu fôr pequeno. . . Estou tão satis­
feito por ter beijado vocês antes da hora. Diga a Papai para
consertar o berço. É bom, lá em casa?

TILTIL
Mais ou menos. Mamãe é muito boa.
MENINO
E a comida?
TILTIL
Depende. Há dias até em que a gente ganha doce, não é
Mitil?
MITIL
No dia de Ano-Bom e no 14 de julho. Mamãe é quem faz.
TILTIL
Que é que você tem no saco? Vai nos levar alguma coisa?
(orgulhosíssimo)
m e n in o
Levo três doenças: escarlatina, coqueluche e rubéola.
TILTIL
Ainda bem, se fôr só isso. E depois, que é qüe vai fazer?
m e n in o
Depois? Vou-me embora.
TILTIL
Assim, não vale a pena ir.
MENINO
Pensa que a gente pode escolher?

208
Nesse momento, eleva~se e espalhasse uma espécie de vi­
bração prolongada>intensa e cristalina, que parece emanar das
colunas e das portas de opala , banhadas por uma claridade
mais viva.

TILTIL
Que é isso?

UM MENINO
É o Tempo. Vai abrir as portas.
Logo se propaga um vasto rebuliço na multidão dos Meni~
nos~Azuis. A maior parte larga suas máquinas e seus trabalhos;
muitos que dormiam, acordam ; uns e outros volvem cs olhos
para as portas de opala, e delas se aproximan.
LUZ (indo para perto de Tiltil)
Vamos nos esconder atrás das colunas. Não convém que
o Tempo nos descubra.

TILTIL
De onde é que vem êsse ruído?

UM MENINO
É a Aurora que se levanta. Está na hora em que as crian­
ças que vão nascer hoje descerão à Terra.

TILTIL
Como é que vão descer? Há escada?

MENINO
Você vai ver. O Tempo está puxando o ferrôlho.

TILTIL

Que é o Tempo?

209
MENINO
Um velho que vem chamar os que viajam.

TILTIL
É mau?
MENINO
Mau não é, mas não atende a ninguém. É inútil suplicar;
se não fôr a vez, êle repele os que querem ir.

TILTIL
Vocês gostam de partir?

MENINO
“ Não gostamos de ficar, mas ficamos tristes quando parti­
mos. Olhe, está abrindol

As grandes portas opálinas giram lentàmente sôbre os gon-


zos. Ouvem-se, qual música longínqua, rumores da Terra. Uma
claridade vermelha e verde penetra na sala; o Tempo, velho
alto, de barba esvoaçante, munido de foice e ampulheta, surge
no pórtico, enquanto se percebe a ponta das velas brancas e dou­
radas de uma galera encostada à espécie de cais, formada pelos
vapores róseos da Aurora.
TEMPO (no limiar)
Os de hora marcada estão prontos?

m e n in o s - a z u is (rompem a multidão e correm de


todos os lados)
Estamos aqui! Estamos aqui! Estamos aqui!

TEMPO
Um a um! Outra vez aparecem muitos além dos chamados.
Sempre a mesma coisa! A mim não me enganam, (Repele uma

210
criança.) Não é a sua vez. Volte amanhã. Você também não;
vá para trás, e volte daqui a dez anos. Um décimo terceiro
pastor? Bastam doze; não há necessidade, não estamos mais no
tempo de Teócrito, ou de Virgílio. Mais médicos? Êles já são
tantos, que na Terra os moradores estão se queixando.. . E os
engenheiros, onde estão? Precisamos de um homem de bem, um
só, a título de fenômeno. Afinal, onde está o homem de bem?
É você? (O menino diz 4'sim‘ com a cabeça.) Parece tão fra-
quinho.. . Não vai viver muito tempo. Olá, vocês aí, tão depres­
sa, não! E você, que traz? Nada de nada? De mãos vazias?
Então não pode passar. Prepare alguma coisa, um crime sensa­
cional, se quiser, uma doença. . . Para mim tanto faz. Mas é pre­
ciso alguma coisa. (Percebe um menino que outros empurram
para a frente e que resiste com tôda a fôrça.) Você aí, que é que
tem? Sabe perfeitamente que está na hora. Pedem um herói
para combater a Injustiça; é você, tem de embarcar.
MENINOS-AZUIS
Êle não quer, senhor.
TEMPO
Não quer, como? Que ê que êsse monstrinho está pensan­
do? Nada de reclamações, não temos tempo!
m e n in o (empurrado)
Não! Não quero! Prefiro não nascer! Prefiro ficar aqui!
TEMPO
Não se trata de querer ou não. Chegou a hora, está acaba­
do. Vamos, depressa, para a frente!
o u t r o m e n in o (passa à frente)
Ah, me deixem passar! Eu fico no lugar dêle. Soube que
meus pais são velhos e me esperam há muito.
TEMPO
Nada disso. Hora é hora, tempo é tempo. Não acabaria
mais se eu fôsse escutar vocês. Um quer, outro não quer, é muito

211
cedo, é muito tard e.. . (Afasta as crianças que invadem o pór­
tico.) Perto demais, não, meninos. Para trás, curiosos. Os que
não viajam não têm nada que ver aqui fora. Estão com pressa?
Quando chega a vez, ficam com mêdo e recuam. Vejam só, ali
estão quatro que tremem como varas verdes. (A um menino que,
no momento de atravessar o pórtico, se volta bruscamente.)
Então, que há? Que é que você tem?
TEMPO
Esqueci a caixa com dois crimes que tenho de cometer.
OUTRO MENINO
E eu, o potinho com a idéia para esclarecer as multidões.
TERCEIRO MENINO
Esqueci o enxêrto da minha pêra mais bonita,
TEMPO
Corram e procurem depressa. Restam apenas 612 segun­
dos. A galera da Aurora já içou as velas, para mostrar que está
esperando. Você vão chegar muito tarde e não nascerão mais.
Vamos, depressa, embarquem! (Segura um menino que tenta
passar entre suas pernas para chegar ao cais.) Ah, você não,
essa é boá! É a terceira vez que tenta nascer antes da hora. Se
o pegar de nôvo, ficará esperando eternamente, junto da minha
irmã Eternidade, e você sabe que não é lá muito divertido. Como
é, estão prontos? Todo mundo a postos? (Passa em revista, com
o olhar, as crianças reunidas no cais ou já sentadas na galera.)
Falta um. Não adianta se esconder, daqui o vejo na multidão.
A mim não enganam. Vamos, você aí, Namorado, diga adeus
à sua pequena.
As duas crianças, que têm o nome de Namorados, abraça­
das ternamente, e com desespero nos rostos lividos, dirigem-se
ao Tempo e se ajoelham a seu pés .
MENINA
‘‘Seu’* Tempo, me deixe seguir com êlel

212
MENINO
"Seu" Tempo, me deixe ficar com ela!

TEMPO
Impossível. Faltam apenas 394 segundos.

MENINO
Prefiro não nascer.

TEMPO
A escolha não depende de vocês.

m e n in a (suplicante)
"Seu” Tempo, vou chegar tarde demais!

MENINO
Não estarei mais lá quando ela descer!

MENINA
Nunca mais o verei!

MENINO
Vamos ficar sozinhos no mundo!

TEMPO
Não tenho nada com isso. Reclamem da Vida. Eu uno
e separo segundo me mandaram. (Segura o menino.). Venha.

m e n in o (debate-se)
Não, não, não! Ela também!

m e n in a ( agarra-se à roupa do menino)


Solte! Solte!

213
TEMPO
Que é isso, não é para morrer, é para viver. (Arrasta o me­
nino.) Venha cál
MENINA (estende passionalmente os braços para o
menino, que é levado à fôrça)i
Um sinal! Só um sinal! Diga como é que vou reconhecer
você!
MENINO
Hei de amar você a vida inteira!

MENINA
Vou ser a menina mais triste! Você me reconhecerá!
Cai e fica estendida no chão.
TEMPO

Seria melhor vocês esperarem. E agora, pronto. (Consulta


a ampulheta.) Faltam só 63 segundos.
Última e intensa agitação entre as crianças que embarcam
e as que ficam. Trocam-se adeuses apressados: ‘'Adeus, Pedro!
«— Adeus, João! — Está levando tudo que é necessário? Anun­
cie meu pensamento! — Não esqueceu nada? — Procure me
reconhecer! — Hei de encontrar você! — Não perdeu suas
idéias? *— Não se debruce demais no Espaço! — Mande notí­
cias! — Dizem que é impossível. . . — Mande, experimente de
qualquer modo. — Mande dizer se é bonito! Irei ao seu encon­
tro! — Vou nascer no trono!” etc., etc.
tem po (agita as chaves e a foice)
Basta! Basta! A âncora já foi levantada!

Passam e desaparecem as velas da galera. Vão enfraque­


cendo os gritos infantis lá dentro: “ Terra! terra! Já estou vendo!

214
É bonita! Ê clara! É grande! . . . " Depois, como á sair do fundo
do abismo, canto extremamente longínquo, de alegria e espe­
rança.
t il t il (à Luz)
Que é? Êles não cantam mais, parece que as vozes mu­
daram . . .

LUZ
Sim, é o canto das Mães que vêm ao encontro dêles.

Enquanto isso, o Tempo fecha as portas opalinas. Volta-se


para lançar um último olhar ao salão, e subitamente percebe
Tiltil, Mitil e a Luz.
tem po (estupefato, furioso)
Que negócio é êsse? Que estão fazendo aqui? Quem são
vocês? Por que não são azuis? Por onde entraram?

Avança, ameaçando-os com a foice.


luz (a Tiltil)
Não responda! Apanhei o Pássaro Azul. . . Está escondido
no meu capote. Vamos embora. Vire o Diamante, e tle perderá
o nosso rumo.

Fogem pela esquerda, entre colunas do primeiro plano.

PANO

215
SEXTO ATO
DECIMO PRIMEIRO QUADRO

ADEUS

O cenário representa um muro, com pequeno portão.


Amanhece.
Entram Tiltil, Mitil, a Luz, o Pão,
Açúcar, o Fogo e o Leite.

LUZ
Você não é capaz de adivinhar onde estamos.

TILTIL
Claro que não, Luz. Não sei.

LUZ
Não reconhece êste muro, êste portãozinho?

TILTIL
É um muro vermelho, com um portãozinho verde.

LUZ
Isso não lembra nada a você?

TILTIL
Lembra que o Tempo nos botou pela porta afora.

LUZ
Como as pessoas são engraçadas no sonho! Não reconhe
cem as suas próprias mãos.

TILTIL
Quem está sonhando, eu?
LUZ
Talvez seja e u .. . Quem sabe? Pois êste muro rodeia uma
casa que você viu mais de uma vez depois do seu nascimento.

TILTIL
Uma casa que eu vi mais de uma vez?

LUZ
Isso mesmo, "seu” dorminhoco. A casa de onde nós saímos
aquela noite, há exatamente um ano.

TILTIL
Exatamente um ano? Como?

LUZ
Não arregale os olhos como se fôssem grutas de safira. É
ela, sim, é a casa gostosa de seus pais.

tiltil (aproxima-se da porta)


Mas eu acho. . . Realmente. . . Me parece que. . . Êsse
portãozinho. . . Estou reconhecendo a fechadura. Êles estão aí?
Mamãe está aqui perto? Quero entrar depressa, para beijar
Mamãe!
LUZ
Um momento. Estão dormindo a sono sôlto; não convém
que êles acordem sobressaltados. Aliás, êste portão só vai abrir
quando chegar a hora.

t il t il

Que hora? Temos de esperar muito?

LU Z
Ah, não. Só uns minutinhos.

220
TILTIL
Não está satisfeita de entrar? Que é que você tem, Luz?
Ficou pálida, parece doente.

LUZ
Nada, meu filho. Estou um pouco triste, porque vou
deixá-los.
TILTIL
Nos deixar?
LUZ
É preciso. Não tenho mais nada a fazer aqui. Acabou o
ano, a Fada vai voltar e pedir o Pássaro Azul.

TILTIL
Mas eu não tenho o Pássaro Azul! O da Saudade ficou
completamente prêto, o do Futuro completamente vermelho,
os da Noite morreram, e eu não pude pegar o da Floresta.
É culpa minha se êles mudam de eôr, fogem ou morrem? A
Fada vai se zangar? Que é que ela vai dizer?

LUZ
Fizemos o possível. Parece que o Pássaro Azul não existe,
ou então muda de côr quando entra na gaiola.

TILTIL
E a gaiola, onde está?

PÃO
Aqui, senhor. Foi entregue a meus cuidados especiais du­
rante esta longa e perigosa viagem. Hoje que minha missão
chega ao fim, vou restituí-la, intata e bem fechada, tal qual a
recebi. (Como orador que toma a palavra.) Agora, em nome de
todos, seja-me permitido acrescentar algumas palavras.. .

221
FOGO
Êle não está com a palavra!

ÂGUA
Silêncio!
PÃO
As interrupções malévolas de um inimigo desprezível, de
um rival invejoso.. . (Ergue a voz.) não me impedirão de cum­
prir o dever até o fim. Portanto, em nome de tod os..

FOGO
No meu, não. Tenho língua.

pã o

Portanto, em nome de todos, e com emoção contida mas


sincera e profunda, eu me despeço de duas crianças predesti­
nadas, cuja alta missão termina hoje. Ao dizer-lhes adeus com
tôda a emoção, tôda a ternura que a mútua estima. . .

T IL T IL

Como? Está dizendo adeus? Então você também vai nos


deixar?
pão

Ai de mim! É preciso. . . Vou deixá-los, é verdade, mas


a separação será apenas aparente. Vocês não me ouvirão mais
falar.
fo g o

Não se perde muito com isso.

ÁGUA
Silêncio!

222
pão (muito digno)
Isso não me atinge. Mas, como ia dizendo: vocês não me
ouvirão mais, não me verão mais sob forma animada. Seus
olhos irão se fechar para a vista invisível das coisas, mas eu
estarei sempre lá, na arca, na prateleira, na mesa, ao lado da
sopa. Eu que, ouso dizê-lo, sou o mais fiel comensal, o mais
velho amigo do homem.. .

FOGO

E eu, então?

LUZ
Vamos, os minutos correm, está quase na hora que nos
fará voltar ao silêncio. Beijem depressa as crianças.

fo g o (precipita-se)
Primeiro eu, primeiro eu! (Beija violentamente os meni­
nos.) Adeus, Tiltil, Mitil! Adeus, queridos! Lembrem-se de
mim se algum dia precisarem de alguém para tocar fogo em
alguma parte.

MITIL

Ai! Ai! Está me queimando!

t il t il

Ai! Ai! Torrou meu nariz!

LUZ
Que é isso, Fogo? Modere suas efusões. Você não está
lidando com a lareira.
ÂGUA

Idiota!

223
PÃO

Mal-educado!

água (aproxima-se das crianças)


Vou beijar vocês sem lhes fazer mal, meus filhos. Ter­
namente.

FOGO
Cuidado, que ela molha!

ÁGUA
Sou doce e amorosa. Sou boa para as criaturas humanas.

FOGO
E os afogados?
ÁGUA
Queiram bem às Fontes, procurem ouvir os Riachos.
Estou sempre nêles.

FOGO
Ela inundou tudo!

ÁGUA
À tardinha, quando vocês se sentarem à beira da água
nascente — há muitas nascentes aqui, na floresta — procurem
compreender o que elas dizem. Não posso mais. . . As lágri­
mas me sufocam, não me deixam fa la r..

FOGO
Não parece.

ÁGUA
Lembrem-se de mim quando virem a jarra. Também me
acharão no pote, no regador, na cisterna e na torneira.

224
açúcar (naturalmente hipócrita e dulçotoso)
Se sobrar um lugarzinho na lembrança, recordem-se de
que às vêzes minha presença foi doce para vocês.. . Não posso
dizer mais nada. As lágrimas são contrárias ao meu tempe­
ramento, e me fazem bastante mal quando molham meus pés.

PÃO
Jesuíta!
fo g o (em falsete)
Pirulitos! Balas! Caramelos!

TILTIL
Afinal, para onde foram Tilete e Tilô? Que estão fazendo?
No mesmo instante, ouvem-se gritos agudos, da Gata.

m it il (alarmada)
Tilete está chorando! Foi maltratada!
A Gata entra correndo, eriçada, despenteada, vestes rôtas,
de lenço no focinho, como se estivesse com dor de dente. Solta
miados furiosos, perseguida de perto pelo Cão, que a enche
de cabeçadas, sôcos e pontapés.
CÃO (bate na Gata)
Tome! Apanhou bastante? Quer mais? Tome! Tome!

l u z , t il t i l e m it il (correm a separá-los)
Está maluco, Tilô? Ora essa, pare com isso! Vamos
acabar com isso! Onde já se viu? Espere! Espere!

São separados à fôrça.


LUZ

Que é isso? Que aconteceu?

225
GATA (lamurienta, enxugando os olhos)
Foi êle, Dona Luz. . . Me injuriou, botou pregos na
minha sopa, me puxou pelo rabo, me moeu de pancada. E
eu não tinha feito nada, absolutamente nada, nada!

cão (imita-a)
Nada, nada, absolutamente nada! (À meia voz, zombe­
teiro.) Tanto faz, você já levou uma boa e levará mais ainda.
m it il (apertando a Gata nos braços)
Pobrezinha da Tilete, me conte onde é que está o dodói. . .
Eu também vou chorar!

lu z (ao Cão, severamente)


Sua conduta é tanto mais indigna quanto você escolheu
para nos dar êsse triste espetáculo o momento, já bastante
penoso por si mesmo, em que nos vamos separar dêsses pobres
garotos.

cão (volta subitamente a si)


Nos separar dêsses pobres garotos?

LUZ
Pois é, está chegando a hora que você sabe. Vamos voltar
ao Silêncio. Não poderemos mais falar com êles.

CÃO (solta de repente verdadeiros urros de desespero, e atira-


se às crianças, enchendo-as de carícias violentas e
tumultuosas)
Não, não! Não quero! Não quero! Hei de falar sempre!
Você vai me compreender agora, não é, meu deusinho? Pois
é, a gente dirá tudo um ao outro, tudo, tudo! Eu vou ter muito
juízo.. . Vou aprender a ler, a escrever, a jogar dominó! Vou
andar sempre limpinho! Não furto mais nada na cozinha! Quer

226
que eu faça alguma coisa extraordinária? Quer que eu beije
a Gata?
m it il (à Gata)
E você, Tilete? Não tem nada para nos dizer?

g a ta (afetada, enigmática)
Eu gosto de vocês dois, tanto quanto merecem.

LUZ
Agora, meus filhos, é a minha vez de dar o último beijo
em vocês..

t il t il e m it il (agarram-se às vestes da Luz)


Não, Luz, não! Fique conosco! Papai não vai implicar.
Diremos a Mamãe que você foi boa!

LUZ
Ah, não posso. Esta porta está fechada para nós, e eu
tenho de deixá-los.

t il t il

Para onde você vai, sozinha?

LUZ
Não é para longe, meus filhos. Ao País do Silêncio das
Coisas,
t il t il

Não, não quero.. . Vamos com você. Eu conto a Mamãe.

LUZ
Não__çhorem, queridos^ Não tenho voz, como a Água;
tenho ^só essa claridade, que o Homem nao percebe. Mas

227
velarei sôbre êle até o fim do mundo. Lembrem-se.. deLjgue
sou eu que falo a vocês em cada raio deTuar que se derrama,
em cada estrêla que sorri, em cada aurora que se levanta, em
cada lampião que se acende, em cada pensamento bom e claro
de suas almas. (Batem oito horas atrás do muro.) Entrem,
entrem!
Empurra as crianças para dentro do portãozinho, que se
cntreabre e volta a fechar-se. — O Pão enxuga uma lágrima
furtiva, o Açúcar e a Água, tôda em pranto, fogem precipi­
tadamente e desaparecem à direita e à esquerda, nos basti­
dores. Latidos do Cão, lá dentro. O palco fica vazio por um
instante, depois, abre-se ao meio o cenário do muro e do
portãozinho, para o último quadro.

228
DECIMO SEGUNDO QUADRO

D ESPER TA R

Mesmo interior do primeiro quadro, porém tudo, pare­


des e atmosfera, se diria incomparável e feèricamente
mais fresco, mais risonho, mais feliz. A luz do dia
filtrasse, jovial, pelas frestas das janelas fechadas.
À direita, ao fundo do quarto, em
suas caminhas, Tiltil e Mitil dormem
profundamente. — A Gata, o Cão e
os Objetos estão nos lugares que
ocupavam no primeiro quadro, antes
de chegar a rad a. — Entra Mamãe
Til.

MAMÃE TIL (com alegre fingimento de zanga, na voz)


Vamos, de pé, seus pequenos preguiçosos! Não têm vergo­
nha? Jã deu oito horas, o sol está em cima da floresta! Como
dormem, santo Deus, como dormem! (Inclina-se e beija as crian­
ças.) Estão corados... Tiltil cheira a lavanda, Mitil a jun-
quilho. (Beija-as outra vez.) Que coisa gostosa, uma criança.
Mas não podem dormir até meio-dia. Não se deve deixar que
fiquem preguiçosos. Depois, já me disseram que não é muito
bom para a saúde. (Sacode suavemente Tiltil.) Vamos, vamos,
Tiltil!

TILTIL (acordando)
O quê? Onde está a Luz? Não, não vá embora. ..

MAMÃE TIL
A Luz? Ué, está aí, não é de hoje. A claridade é tanta
que parece meio-dia, mesmo com os postigos fechados. Espere
um pouco, eu vou abrir. (Empurra os postigos; o quarto é inva­
dido pela claridade deslumbrante do dia alto.) Pronto, aí
está. Que é que você tem? Parece cego.

t il t il (esfrega os olhos)
Mamãe, mamãe! É você?

230
MAMÃE TIL

Claro que sou eu. Quem podia ser?

TILTIL

É você. . . É, sim, é vocêl

m a m ã e t il

Sou eu, sim. Não mudei de cara esta noite. Que é que
você tem para me olhar com êsse jeito enfeitiçado? Meu
nariz virou pelo avêsso?

TILTIL

Ah, que bom tornar a ver você. Há tanto tempo, tanto


tempo! Tenho de beijar você agora m esm o... Mais, mais!
Esta é mesmo a minha cama! Estou em casa!

MAMÃE TIL
Que é que você tem? Ainda não acordou? Não está
doente, louvado seja Deus? Vamos, mostre a língua. Então,
levante-se e vá se vestir!

TILTIL

Ué, estou de camisola!

m a m ã e t il

Claro. Vista sua calça e seu casaquinho. Estão ali na


cadeira.

TILTIL

Foi assim que eu fiz tôda a viagem?

m a m ã e t il

Que viagem?

231
TILTIL
Ora, no ano passado.

MAMÃE TIL
Ano passado?

TILTIL
É sim, ora! No Natal, quando eu fui embora.

MAMÃE TIL
Foi embora? Você não saiu do quarto. Botei você na
cama ontem à noite, e encontrei você esta manhã. Sonhou
isso tudo?

TILTIL
Você não compreende. Foi no ano passado, quando eu
viajei com Mitil, a Fada, a Luz. . . como a Luz é boa! o Pão,
o Açúcar, a Água, o Fogo. Êles brigavam o tempo todo.
Você ficou zangada? Não ficou muito triste? E Papai, que
foi que êle disse? Eu não podia recusar. . . Deixei um bilhete,
explicando.

MAMÃE TIL
Que história é essa que você está contando? Vejo que
está doente, ou senão, ainda não acordou direito. (Dá-lhe
uma palmada amistosa.) Vamos, acorde. Agora está melhor?

TILTIL
Posso garantir. Mamãe. Você é que ainda está dormindo.

MAMÃE TIL
Como? Eu ê que ainda estou dormindo? Estou de pé
desde seis horas. Já arrumei a casa tôda e acendi o fogo!

232
TILTIL

Pois pergunte a Mitil se não é verdade. Puxa, que aven­


turas nós vivemós!

MAMÃE TIL
Então, Mitil? Que foi?

TILTIL

Ela estava comigo. Vimos vovô e vovó.

m am ãe t i l ( cada vez mais estupefata)


Vovô e vovó?!

t il t il

É, sim, no País da Saudade. Era no caminho. Êles estão


mortos, mas passam bem. Vovó fêz para nós uma torta de
ameixas muito gostosa. Vimos os irmãozinhos: Roberto, João
com a piorra dêle, Madalena, Pierrette, Paulina, até Riquette. . .

MITIL
Riquette está engatinhando.

TILTIL
Paulina continua com a verruga no nariz.

MITIL

Vimos você também, contem à noite.

MAMÃE TIL
Ontem à noite? Não há nada demais: fui eu que deitei
você na cama.

233
TILTIL
Não, não, foi no Jardim das Felicidades. Você era muito
mais bonita, mas estava parecida. . .

MAMÃE TIL
Jardim das Felicidades? Não sei o que é isso.

t il t il (contempla-a, e depois beija-a)


É, você estava mais bonita, mais gosto mais assim.

m it il (beija-a igualmente)
Eu também, eu também.

m amãe TIL (enternecida, porém muito preocupada)


Meu Deus, que é que êles têm?! Vou perdê-los, como
perdi os outros! (Grita, subitamente aterrorizada.) Papai Til!
Papai Til! Venha cá! Os meninos estão doentes!
Entra Papai Til, muito calmo, de machado na mão.
PAPAI TIL
Que há?

t il t il e MITIL (correm alegremente para beijar o pai)


Papai! É Papai! Bom dia, Papai! Trabalhou muito durante
o ano?

PAPAI TIL
Hein? Que é isso? Não estão com ar de doença, estão
com muito boa cara.

m a m ã e t il (lacrimejante)
Quem pode se fiar nisso! Vai acontecer como aconteceu
com os outros. Também tiveram muito boa cara até o fim.

234
um belo dia Deus os levou. Não sei o que êles têm. Ontem
à noite botei os dois tranqüilamente na cama; quando acordam
agora de manhã, tudo vai mal. Nem sabem mais o que dizem;
falam em viagem ... Viram a Luz, vovô, vovó, que estão
mortos mas passando bem. . .

TILTIL
Vovô continua com a perna de pau.

m it il

E vovó com reumatismo.

MAMÃE TIL

Ouviu? V á depressa chamar o doutor!

PAPAI TIL
Não, não. Ainda não morreram. . . Espere, vamos ver
(Batem à porta da casa.) Entre!
Entra a Vizinha, velha parecida com a Fada do I ato;
caminha apoiada ao bordão.
VIZINHA
Muito bom dia, boas-festas para todos!

TILTIL

É a Fada Beriluna!

VIZINHA
V im pedir um pouco de lenha para o meu caldeirão de
Natal. Está bem fresquinho, esta manhã. Bom dia, meninos,
tudo vai bem?

TILTIL
Dona Fada Beriluna, eu não achei o Pássaro Azul.

235
V IZ IN H A

Que é que êle está dizendo?

M A M Ã E T IL

Não queira saber, senhora Berlingot. Estão dizendo boba­


gens. Ficaram assim desde que acordaram. Devem ter comido
alguma coisa indigesta.

V IZ IN H A

Então, Tiltil, não está reconhecendo a tia Berlingot, sua


vizinha, senhora Berlingot?

T IL T IL

JEstou, sim. A senhora é a Fada Beriluna. Não está


zangada?

V IZ IN H A
Beri. . . o quê?

T IL T IL
Beriluna.

V IZ IN H A

Berlingot, você quer dizer Berlingot.

T IL T IL

Beriluna, Berlingot, como a senhora quiser, o fato é que


Mitil, que sabe perfeitamente.. .

M A M Ã E T IL

Que coisa, até Mitil!

P A P A I T IL

Ora, ora. Isso passa. Vou dar umas palmadas nêles.

236
VIZINHA

Deixem, não vale a pena. Sei o que é isso. É apenas tim


pouco de sonho. Com certeza dormiram num raio de luar.
Minha filhinha, que anda bem doente, às vêzes também fica
assim.

M A M Ã E T IL

A propósito, como vai sua filhinha?

V IZ IN H A

Assim, assim. Não pode se levantar. O doutor disse que


é dos nervos. De qualquer modo, sei muito bem o remédio dc
que ela precisa. Ainda agora de manhã me pediu isso como
presente de Natal. É uma idéia que não tira da cabeça.

M A M Ã E T IL

Eu sei, ainda é o pássaro de Tiltil, não é? Afinal, Tiltil,


quando é que você vai oferecê-lo à coitadinha?

T IL T IL
O que, Mamãe?

M A M Ã E T IL

O pássaro. Você não precisa dêle. Nem olha para êle!


E ela está doida de vontade, há tanto tempo.

T IL T IL

Ah, é verdade, o meu p ássaro... Onde está êle? Ah,


aqui está a gaiola. Viu, Mitil? É a mesma que o Pão levava.
É sim, ela mesma; a diferença é que agora, só tem um pássaro.
Então o outro foi comido? Olhe aqui: é azul! Mas é a minha
rolinha! Está muito mais azul do que quando eu viajei! É o
Pássaro Azul que nós procurávamos! Fomos tão longe, e
êle estava a q u i... Mas é incrível! Está vendo o pássaro,
Mitil? Que dirá a Luz? Vou tirar a gaiola. (Sobe a uma

237
cadeira e tira a gaiola, que entrega à Vizinha.) Tome, Dona
Berlingot. Ainda não está completamente azul; mas vai ficar,
a senhora verá. Leve depressa para sua filhinha.

V IZ IN H A

Hein? De verdade? Você está me dando mesmo, sem


mais nem menos, de graça? Meu Deus, ela vai ficar tão
feliz! (Beija Tiltil.) Quero beijar você! Vou-me embora! Vou-
me embora!
TILTIL

É, vá depressa. Tem uns que mudam de côr.

VIZINHA
Afoito para contar a vocês o que ela disse!
Sai.
t il t il (depois de olhar demoradamente em redor)
Papai, Mamãe, que foi que vocês fizeram com a casa?
Ê a mesma de antes, mas está muito mais bonita.

PAPAI TIL
Mais bonita, como?

T IL T IL

Mais bonita, ora! Tudo pintado de nôvo, reformado,


brilhante, limpinho. Não era assim no ano passado.

PAPAI TIL

No ano passado?

t il t il (vai à janela)
E a floresta que a gente vê daqui! É enorme, linda! Até
parece nova! Como a gente é feliz aqui! (Vai abrir a arca.)

238
Onde está o Pão? Ué, estão bem sossegados. E êsse aqui é
Tilô. Bom dia, Tilô, bom dia! Ah, você brigou um bocado na
floresta, hein?
MITIL
E Tilete? Ela me reconhece perfeitamente, mas não fala
mais.
TILTIL
“Seu” P ã o .. . (Apalpa a cabeça.) Que é isso, não tenho
mais o Diamante! Quem foi que tirou meu chapèuzinho verde?
Não faz mal, não preciso mais dêle. — Ah! o Fogo! Êle é
camarada! Está crepitando, rindo, para irritar a Água. ( Corre
à torneira.) — E a Água? Bom dia, Água! Que é que ela
diz? Continua falando, eu é que não compreendo mais como
antes.
MITIL
Não estou vendo o Açúcar.

TILTIL
Ai, meu Deus, me sinto tão feliz! Muito! Demais!

MITIL

Eu também, eu também!

MAMÃE TIL

Por que estão rodando assim?,

PAPAI TIL

Deixe, não se preocupe. Brincam de ser felizes.

TILTIL
Eu por mim, gostava mais era da Luz. Onde está o
lampião dela? Será que se pode acendê-lo? (Olha ainda em

239
redor.) Meu Deus, tudo é tão bonito, estou tão satisfeito da
vidal

Batem à porta da rua.

PAPAI TIL
Entre!
Entra a Vizinha, dando a mão a uma menina de beleza
maravilhosamente loura, que segura a rolinha de Tiltil.
V IZ IN H A

Estão vendo o milagre?

M A M Ã E T IL

Não é possível! Está andando?

V IZ IN H A

Está, ou por outra, corre, dança, voa! Quando viu o


pássaro, deu um salto assim para a janela, para ver na luz
se era mesmo a rolinha de Tiltil. Depois, pluft! saiu para a
rua, voando feito um a n jo .. . Eu mal podia acompanhar.

t il t il (aproxima-se, maravilhado)
Ah, parece tanto com a Luz!

M IT IL

É bem menor.

T IL T IL

Claro. Mas vai crescer.

V IZ IN H A

Que é que êles estão dizendo? Pioraram?

240
MAMÃE TIL
Estão melhor. Isso passa. Depois do almôço, nem se
nota mais.

v iz in h a (impele a menina para os braços de Tiltil)


Vamos, filhinha, vá agradecer a Tiltil.
Tiltil, subitamente intimidado, dá um passo para trás.
MAMÃE TIL
Que é isso, Tiltil, que é que você tem? Está com mêdo .
da menina? Vamos, dê-lhe um beijo. Não, um beijo grande.
Mais ain d a... Você, que em geral é tão desembaraçado!
Mais outro. Mas que é que você tem? Parece que vai chorar. ..

Depois de beijar desajeitadamente a menina, Tiltil pára


um momento diante dela, e os dois se olham em silêncio; a
seguir, ê/e acaricia a cabeça do pássaro.
TILTIL
Será mesmo bem azul?

MENINA
É sim. Estou contente. ..

TILTIL
Já vi outros mais azuis. Acontece que os completamente
azuis, sabe? por mais que a gente faça, não apanha nenhum.

MENINA
Não faz mal, êste é bem bonito.

TILTIL
Êle já comeu?

241
MENINA

Ainda não. Que é que êle come?

TILTIL
Tudo: trigo, pão, milho, cigarra.

MENINA

E como é que êle come?

TILTIL
Bicando. Você vai ver, eu vou mostrar.
Vai tomar o pássaro das mãos da menina; instintivamente
ela resiste; aproveitando-se da hesitação do gesto, a rolinha se
desprende e voa.
m e n in a (grita, desesperada)
Êle fugiu, mamãe!
Soluça doridamente.
TILTIL
Não é nada, não chore.. . Eu pego de nôvo. (Encaminha-
se para a frente do palco e dirige-se ao público.) — Se algum
de vocês encontrar o Pássaro Azul, queira ter a bondade de
trazê-lo aqui em casa. Precisamos dêle para ser felizes, quando
formos grandes. . .

PANO

242
BIBLIOGRAFIA
O s lugares de edição Bruxelles e Paris indicados sem nome de editor,
leiam-se respectivamente:

Bruxelles, P . Lacomblez.
Paris, Charpentier et Fasquelle.
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Pièce en trois actes •

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247
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Paris (1 8 5 9 milheiro: 1938.)
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Lisboa, Livraria Clássica, E d. 1925 ( 5a edição).
TRADUÇÃO BRA SILEIRA :
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Monteiro Lobato, São Paulo, O Pensamento, 1945,

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248
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1904. L E M IR A C L E D E S A IN T A N T O IN E
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D A S W U N D E R D E S H E IL IG E N A N T O N IU S .
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Tradução de Alexandre Teixeira de M attos:
Londres, Methuen, 1918.

A M IR A C L E O F S A IN T A N T H O N Y and five other plays.


New York, Boni and Liveright, 1917. (T h e M odem library of
the world’s best books.)
Xilogravuras de André Delignères:
Paris, E . Joseph, 1919. (Petites curiosités littéraires.)

1907. r i N T E L L I G E N C E D E S F L E U R S .
Paris. (6 5 9 milheiro: 1938.)
Xilogravuras de J. M . Canneel. Frontispicio a água-forte de
Louis Danse:
Anvers, Ed. du Dauphin, 1923. (L es M aftrcs belges.)

249
TRADUÇÃO PO RTU G U ÊSA:
A IN T E L IG Ê N C IA D A S F L O R E S . T rad . de Cândido de
Figueiredo.
Lisboa, Livraria Clássica Editora, 1921 (3* ed.)

1 9 0 9 . L ’O IS E A U B L E U
Fécrie en cinq actes et 10 tableaux.
Moscou, Théâtre artist., 30 de setembro de 1908;
Paris, Théâtre Rcjane, 2 de março de 1911 .
A s diversas edições comportam de 4 a 6 atos e até 12 quadros.
Paris.
Ilustrações em côres de J. Touchet.
Paris, Piazza, 1909.
Féerie en 6 actes et 12 tableaux:
Paris, 1911. (989 milheiro: 1938.)
Féerie .
14 aquarelas orig. de G. Lepage:
Paris, Le Livre, 1925.

L A T R A G É D IE D E M A C B E T H , de W illiam Shakcspeare.
Trad. nouvelle, introduetion et notes.
Paris, Ulllustration théàtrale, 29 de agôsto de 1909 . (N 9 123)
Paris, 1910. (6 9 milheiro: 1919.)

1 9 1 0 . M A R IE -M A G D E L E IN E .
Publicado primeiro em trad. alemã e inglesa,

M A R IA M A G D A L E N A .
Drame en trois actes.
T rad . alemã de F . von Oppeln^Bonikowski:
Iéna, E . Diederichs, 1909 (1 9 1 0 ) .

M A R Y M AG D ALEN E.
T rad . inglêsa de A . Teixeira de M attos:
Londres, Methuen, 1910.
Drame en trois acíes. Casino de Nice, 18 de março de 1913.
Paris, Châtelet, 25 de maio de 1913:
Paris. ( 6 9 milheiro: 1919.)

250
TRADUÇÃO PO R TU G U ÊS A:
M A R IA M A D A L E N A .
Drama em três atos .
T rad . dc José F . Ferreira Martins:.
Nova Goa, 1916.

1911. L A M O R T .
Publicado primeiro em trad. inglêsa incompleta:

DEATH .
T rad . de A . Teixeira de M attos:
Londres, Methuen, 1911.

O U R E T E R N IT Y .
Tradução completa pelo mesmo.
Londres, Methuen, 1913.
Primeira ed. francesa:
Paris, 1913. (70* milheiro: 1938.)
Xilogravuras de Georges Tcherkassoff:
Paris, A . Fayard, 1933. (L e Livre de demain, n9 131.)

TRADUÇÃO PO RTU G U ÊSA :


A M O R T E . T rad . de Cândido de Figueiredo.
Lisboa, Livraria Clássica Ed. 1924 ( 3 ’ ed.)

1914. L ’H ô T E IN C O N N U .
Publicado primeiro em inglês.

T H E UN KN O W N G U EST.
T rad. de A . Teixeira de M attos:
Londres, Methuen, 1914.
Primeira edição francesa:
Paris 19 17. (3 6 9 milheiro: 1938.)

1916. L E S D ÉBR IS D E LA G U E R R E .
Paris. (1 9 9 milheiro: 1938.)

251
1919. L E S F IA N Ç A IL L E S .
Publicado primeiro em inglês.
New York, Schubert Theatre, 18 nov. 1918.

T H E B E T R O T H A L , O R T H E B L U E BIR D C H O O S E S .
Féerie en cinq actes. Suite à “L ’Oiseau Bleu\
T rad. de A . Teixeira de M attos:
Londres, Methuen, 1919. (2.* édition: 1921.)
Ilustrações de Herbert Paus:
New York, Dodd, M ead & C 9, 1926.
Féerie en cinq actes et onze tableaux:
Paris, 1922.

L E S S E N T IE R S D A N S LA M O N T A G N E .
Paris. (2 4 9 milheiro: 1938.)

L E B O U R G M E S T R E D E S T IL M O N D E .
Trois actes, suivi de:

L E S E L D E LA V IE .
Deus actes. Buenos Aires, 1918; Paris, Théâtre Moncey, 1919.
Paris.
Xilogravuras de Picart Le Doux:
Paris, E . Joseph, 1919*
Paris, 1920.
Xilogravuras de Hermann Paul}
Paris, Duelos et Colas, 1928.

1921. L E GR A N D S E C R E T .
P^ris. (2 5 9 milheiro: 1938)

1926. LA V IE D ES T E R M IT E S .
Paris. (1 0 4 9 milheiro: 1938.)
Gravuras de Georges Gorvel:
Versailles, J. V ariot, 1928.
Gravuras de J. E . Laboureur:
Paris, 1’Artisan du livre, 1930.
TRADUÇÃO BRASILEIRA :
A V ID A D A S T É R M IT A S . Trad. de Carlos Lôbo de Oliveira.
Rio de Jeneiro, Livraria Antunes, 1933*

252
1928. LA V I E D E L ’E S P A C E .
Paris. (5 0 9 milheiro: 938.)

1929. L A G R A N D E F É E R I E .
Paris. (3 0 9 milheiro: 1938.)

1930. L A V I E D E S F O U R M IS .
Paris. (7 6 9 milheiro: 1938.)
Gravuras de J. E . Laboureur:'
Paris, TArtisan du livre, 1930.

TRADUÇÃO PORTUGUÊSA-,
A V ID A D A S F O R M IG A S .
Trad. de João de Barros.
Lisboa. E d . A . M . Teixeira e Cia. Imp. Portug., 1933.

1932. L ’A R A IG N É E D E V E R R E .
Paris. (4 0 9 milheiro: 1938.)

1933. LA G R A N D E L O I.
Paris. (3 0 ç milheiro: 1938.)

1934. A V A N T L E G R A N D S IL E N C E .
Paris.

1935. L A P R IN C E S S E IS A B E L L E .
Pièce en 20 tableaux.
Paris.

1936. L E S A B L IE R .
Paris.

L ’O M B R E D E S A IL E S .
Paris.

1937. D E V A N T D IE U .
Paris. ( Bibliothèque Charpentier.)

253
1939. LA G R A N D E P O R T E .
Paris.

1942. L 'A U T R E M O N D E O U L E C A D R A N S T E L L A IR E .
New York, E d. de la Maison française, 1942.
Paris, 1946

1948. JE A N N E D 'A R C .
Pièce en 12 tableaux.
Monaco, E d . du Rocher.

1954. IN S E C T E S E T F L E U R S .
La Vie des abeilles, la Vie des fourmis, V Intelligence des
fleurs , VAraignée de verre, les Parfums, les Pigeons.
— 34 aquarelas de Hans Erni.
Paris, N .R .F .

1959. T H Ê A T R E IN É D IT . I:
IJA bbé Setúbal (Lisbonne, Théâtre national, 1941); Les Trois,
Justiciers et le Jugement dernier.
Paris, dei Duca.

O BRA S R E U N ID A S

1901. T H É Â T R E D E M A U R IC E M A E T E R L IN C K .
Avec une préface inédite de Vauteur, illustré de 10 compositions
originales lithographiées par Auguste Donnay .
Bruxelles, Edm. Deman. (3 vol. in-89, tiragem de 110 ex.)

1901. T H É Â T R E .
I : La Princesse Maleine, Tlntruse, les Aveugles. (1 9 0 1 )
I I : Pelléas et Mélisande, Alladine et Palomides, Intérieur,
La M ort de Tintagiles. (1 9 0 2 )
III: Aglavaine et Sélysette, Ariane et Barbe-Bleue, Soeur
Béatrice. (1 9 0 1 )
Bruxelles, P . Lacomblez: Paris, Per Lamm. (23* ed. 1911^1912;
a 24a, 1911, não passou do tomo I.)

254
Paris, Fasquclle, 1918, 1919, 1918. (3 vol. còmo a precedente»
2» ed.: 1929.)
Í NDI CE

Gunnar Ahlstrõm,
“Pequena História” da Atribuição do Prê­
mio Nobel a Maurice Maeterlinck............ 7
C. D. af W irsén,
Discurso de R ecepção .................................... 21
François Albert-Buisson,
Vida e Obra de Maurice Maeterlinck... 33
M A U R IC E M A E T E R L IN C K ,
O PÁSSARO A Z U L .................................... 55
Ato I. Quadro I : A choupana de le­
nhador ......................................... 57
Ato II. Quadro II: No palácio da fada . 85
Quadro III: No pais da sauda­
de ................................................ 97
Ato III . Quadro I V : No palácio da noite 113
Quadro V : Na floresta............ 133
Ato I V . Quadro V I: A frente do pano. 155
Quadro VII: No cemitério . . . . 160
Quadro VIII: A frente da cor­
tina que representa bela pai­
sagem de nuv en s ...................... 167
Quadro I X : N o jardim das
felicidades ............................... 170
Ato V . Quadro X : No reino do futuro 191
Ato V I. Quadro X I: A d e u s ...................... 2 1 7
Quadro X II: D espertar ............ 229
Bibliografia. ................................................................. 243
O PASSARO AZUL
de
MAURICE MAETERLINCK

Faz parte da
B I B L I O T E C A DOS P R Ê M IO S N O B E L D E L I T E R A T U R A
ideada pelas edições R om baldi, de Paris,
patrocinada pela
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e pela
FU N D A Ç Ã O N O B E L

C O L A B O R A R A M N E S T A ED IÇ A O
CRISTOBAL DE ACEVEDO
(concepção t direção literária)
GÉRARD ANGIOLINI
(direção artística)
PAULO RÓNAI
(adaptação e supervisão)

TOUCHAGUES
(ilustrações)
MICHEL CAUVET
(retrato do autor e ornatos tipográficos)
*
Impresso por
C o m p a n h ia M e lh o r a m e n to s de São P a u lo
Indústrias de Papel

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