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TIPO DE PROVA: MINI-TESTE DATA: 18/11/2020

ANO LETIVO: 2020/2021 1º SEMESTRE

1º CICLO EM SOLICITADORIA

UNIDADE CURRICULAR: DIREITO DO TRABALHO

Em 01.10.2019, Carolina e a “Medilife, Lda.” celebraram um contrato


de trabalho a termo, por 12 meses, que tinha como fundamento o facto de
Carolina se ter acabado de licenciar e jamais ter sido admitida por outra
empresa através de um contrato de trabalho. Carolina foi admitida para o
exercício das funções correspondentes à categoria profissional de Enfermeira,
que seriam exercidas numa das clínicas da empresa, sita em Aveiro.
Em 20.09.2020, a empresa comunica a Carolina a sua intenção de
renovar o contrato, por mais 6 meses, em face da ausência de Sónia,
Rececionista, por motivo de doença, que Carolina iria substituir durante esse
período. Carolina recusou a ordem, por entender que o exercício das funções
de rececionista não se compreendia no objeto do seu contrato, e que Vila Nova
Gaia é muito distante do seu domicílio, sito em Estarreja.
Do contrato de trabalho celebrado constam, entre outras, duas
cláusulas: a primeira, nos termos da qual o período experimental aplicável a
este contrato é de 60 dias; a segunda, segundo a qual é lícito à empresa
aceder ao conteúdo de quasquer mensagens enviadas ou recebidas pelo
trabalhador, independentemente da sua natureza, para fins disciplinares.

Em face da situação acima descrita, responda às seguintes questões,


fundamentando sempre a sua resposta:

IMP.GE.92.0
1. Analise a legalidade do contrato celebrado, bem como da respetiva
renovação. (5 valores)

CT a termo

O art. 139º do CT igualmente admite que seja aposto termo resolutivo, ou seja, pode ser
celebrado contrato em que esteja definido que os efeitos do negócio jurídico cessem a partir de
certo momento.

Contrato de trabalho a termo - liberdade limitada - contende segurança no emprego – art. 53º
da CRP.

I - Admissibilidade de contrato de trabalho a termo certo e incerto.


II - Exigência de razões objetivas e explícitas para a celebração do contrato - art. 140º do CT -
e de requisitos de forma e conteúdo - art. 141º do CT.
III - Encadeamento de contrato termo certo (máximo três renovações), até ao limite de três
anos, como regra - arts. 148º e 149º do CT.

Limitações na sucessão de contrato de trabalho a termo – art. 143º do CT.

Regime do termo resolutivo – art. 139º do CT.

Admissibilidade de contrato de trabalho a termo resolutivo – art. 140º do CT.

O contrato de trabalho a termo resolutivo só pode ser celebrado para satisfação de


necessidade temporária da empresa e pelo período estritamente necessário à satisfação dessa
necessidade.

Transitoriedade do trabalho – art. 140º nºs 1, 2 e 3.

Forma e conteúdo de contrato de trabalho a termo - art. 141º do CT.

A indicação do motivo justificativo do termo deve ser feita com menção expressa dos factos
que o integram, devendo estabelecer-se a relação entre a justificação invocada e o termo
estipulado – nº 3, do art. 141º do CT.

IMP.GE.92.0
O motivo indicado para a contratação de não permitia a celebração de um contrato a termo,
pelo que este se considera um contrato sem termo (art. 147.º, n.º 1, al. b) CT)

2 v.

A renovação deveria obedecer àa regras previstas no art. 149.º.

A renovação deveria ter sido comunicada até 15 dias antes da data da cessação, o que não
sucedeu. Nesse caso, o contrato renovar-se-ia, por igual período, nos termos do art. 149.º, n.º
2 CT.

A prorrogação por período diferente da duração inicial só seria válida se celebrada por escrito
(art. 149.º, n.º 3 CT) e ficaria sujeita às mesmas condições de admissibilidade do contrato,
o que não sucedeu e implicaria a conversão do contrato em contrato sem termo (art. 147.º, n.º
2, al. a) CT).

3 v.

2. Será lícita a ordem no sentido de Carolina exercer funções de


rececionista na clínica da empresa sita em Vila Nova de Gaia? (6 valores)

A ordem para que Carolina passe a desempenhar funções de vendedor comporta uma
modificação das funções desempenhadas por Carolina (ius variandi) - artigo 120º CT -, na
medida em que se trata de funções que não se encontram compreendidas no objeto contratual
inicialmente fixado.

Requisitos
1. Interesse empresarial - art. 120.º, n.º 1 CT - neste caso, a substituição de Sónia.
2. Ser uma variação transitória, não podendo exceder dois anos - art. 120º, nºs 1 e 3 CT,
também parece cumprido.
3. Não implicar modificação substancial da posição do trabalhador, nem diminuição da
retribuição – art. 120º, nº 1 e 3 e art. 129º, nº 1, al d) CT.

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4. Serem dadas ao trabalhador as condições de trabalho mais favoráveis que sejam inerentes
às funções - art. 120º, nº 4 CT, o que não seria em princípio o caso.
5. A existência de uma ordem expressa, com indicação do motivo e duração, mencionando, se
for caso disso, o acordo do art. 120, nº 2 - art. 120º, nº 3 CT.

Uma vez que Carolina passaria do exercício de funções de Enfermeira para exercer as funções
de Rececionista, parece que a ordem implicaria a modificação da posição substancial desta,
pelo que a ordem quanto a esta matéria será, em princípio, ilícita.

Assim sendo, Carolina poderia desobedecer legitimamente à ordem (art. 128.º, n.º 1, al. e) CT).
(3 val.)

Paralelamente, a ordem de trabalho para prestar a sua atividade em Vila Nova de Gaia
consubstancia uma ordem de mobilidade geográfica (arts. 194.º a 196.º CT).
In casu, trata-se de uma transferência individual e temporária da trabalhadora (porque por
período não superior a seis meses, art. 194.º, n.º 3 CT)

Requisitos:
1. Interesse da empresa – já acima referido.
2. Não implique prejuízo sério para o trabalhador.

De acordo com a maioria da doutrina, e ao empregador que cabe o ónus da prova da


inexistência de prejuízo sério para o trabalhador - art. 342º CC.

O prejuízo sério a que se refere a lei deve ser apreciado segundo as circunstâncias concretas
de cada caso, devendo a transferência assumir um peso significativo na vida do trabalhador,
abalando, de forma grave, a estabilidade da sua vida, violando, assim, a garantia da
inamovibilidade que o legislador tutela. Cfr. Ac STJ de 3.3.2010, Proc. 933/07.3TTCBR.C1.S,
www.dgsi.pt.

Neste caso tudo indica que à partida Carolina conseguiria demonstrar que a referida medida
lhe causaria prejuízo sério.

Logrando demonstrar a existência de prejuízo sério, Carolina poderá desobedecer à ordem,


não lhe sendo lícito resolver o contrato ao abrigo do n.º 5 do art. 194.º CT (apesar de alguma

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doutrina equacionar a aplicação analófia desta norma às situações de transferência
temporária).

O empregador deve custear as despesas de deslocação ou alojamento impostas pela alteração


temporária – art. 194º, nº 4 CT.

A ordem do empregador deverá ainda respeitar as formalidades previstas no art. 196º CT.

Em caso de transferência temporária, o empregador deve comunicar a transferência do local


de trabalho com a antecedência de 8 dias (art. 196.º, n.º 1 CT).

(3 v.)

3. Aprecie a legalidade de ambas as cláusulas acima mencionadas (6


valores)

A cláusula que prevê um período experimental de 60 dias é nula, porque violadora da


proibição de ampliar o período experimental (art. 112.º, n.º 5 CT) que, neste caso, seria de
30 dias (art. 112.º, n.º 2, al. a) CT).

(2 v.)

Os direitos de personalidoade do trabalhador


O direito à reserva sobre a intimidade da vida privada (art. 16 CT)
A proibição de utilização do conteúdo de mensagens pessoais enviadas ou recebidas pelo
trabalhador (art. 22.º, n.º 1 CT)
As normas legais reguladoras de contrato de trabalho só podem ser afastadas por contrato
individual que estabeleça condições mais favoráveis para o trabalhador, se delas não
resultar o contrário (art. 3.º, n.º 4 CT), que conduziria à nulidade da segunda cláusula.

4 v.

4. Admita agora que o contrato a termo foi validamente celebrado e que


cessou a sua vigência um ano depois, ou seja, em 30.09.2020. A empresa
pretende admitir hoje (18.11.2020) Mafalda para o posto de trabalho que era

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ocupado por Carolina, através de uma relação jurídica de trabalho
temporário, com a duração de 4 meses. Poderá fazê-lo? (3 valores)

Alusão ao regime do trabalho temporário – possíveis contratos celebrados (contrato de trabalho


temporário e contrato por tempo indeterminado para cedência temporária).
Violação da proibição de pactos sucessivos – art. 143.º, n.º 1 CT
Contrato de Mafalda considera-se um contrato sem termo – art. 147.º, n.º 1 d) CT.

3 v.

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