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Formação discursiva em Foucault e Pêcheux: diferenças e semelhanças


Michel Foucault e Michel Pêcheux utilizam a noção de formação discursiva para dar conta de seus desenvolvimentos na
análise dos discurso. Para Foucault, trata-se de uma noção que dá conta das contradições internas do próprio discurso, da
própria maneira de se ver seus objetos, enquanto Pêcheux trabalha esta noção através dos processos de identi cação e
assujeitamento, o que prolifera em quantidade a presença das formações discursivas.

by Vinicius Siqueira
Published julho 13, 2020
2 Comentários

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Índice
Introdução;

A formação discursiva para Foucault;

A formação discursiva para Pêcheux;

Suas diferenças;

Considerações nais;

Referências.

Introdução
A noção de formação discursiva é central ao funcionamento da engrenagem de análise discursiva tanto de Michel Foucault como de Michel Pêcheux. É com
esta noção que o sujeito será deslocado do centro da análise e as posições serão colocadas em jogo, a situação imediata será elaborada como parte de um
sistema, em conjunto com a possibilidade de se observar regularidades no discurso.

No entanto, entre Pêcheux e Foucault há diferenças fundamentais que levam o leitor para caminhos diferentes. Cada autor coloca, nesta noção, uma
localização diferente em sua teoria ou procedimento. O objetivo deste artigo é expôr as diferenças fundamentais entre a noção de formação discursiva para
o procedimento analítico de ambos os autores tendo em vista, principalmente, o material enunciativo ambas podem cobrir. Primeiramente, a noção será
apresentada sob o ponto de vista de cada autor, depois, haverá a comparação para posterior conclusão a respeito daquilo que as difere.

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A formação discursiva para Foucault
Para elaborar a noção de formação discursiva, Foucault buscou aquilo que poderia ser considerado uma unidade na formulação dos discursos, aquilo que
poderia lhes conferir uma harmonia. Michel Foucault estabelece diferentes hipóteses de regularidade com diferentes elementos e as coloca à prova[1]:

1. A regularidade do objeto: não é possível estabelecer um discurso através da regularidade de um objeto especí co, pois é perceptível que, no discurso
sobre a loucura, por exemplo, não se fala sempre da mesma loucura. O louco, objeto da psiquiatria, não é o mesmo louco pré-revolução francesa, objeto
da moral e internado por comportamentos que agridem exatamente esta esfera da vida social. “Desta forma, a unidade dos discursos sobre a loucura
não teria a ver com o objeto ‘loucura’ em particular, mas com as regras que permitem a sua emergência em épocas diferentes, que são medidas e
categorizadas de acordo com práticas diferentes”[2].

2. A regularidade dos modos enunciativos: não é possível de nir o discurso pela regularidade das maneiras de apresentar os enunciados, a partir de sua
forma, de seu tipo e encadeamento. Não há um estilo próprio do discurso. A medicina é o exemplo de Foucault, que modi cou seu estilo e se tornou
heterogênea após tornar-se ciência e se retirar dos campos da tradição e  do misticismo.

 Se há unidade, o princípio não é, pois, uma forma determinada de enunciados, não seria, talvez, o conjunto das regras que tornaram possíveis, simultânea ou
sucessivamente, descrições puramente perceptivas, mas, também, observações tornadas mediatas por instrumentos, protocolos de experiências de laboratórios,
cálculos estatísticos, constatações epidemiológicas ou demográ cas, regulamentações institucionais, prescrições terapêuticas?[3]

3. A regularidade dos conceitos: não é possível estabelecer uma unidade do discurso a partir dos conceitos que são construídos por ele. Dentro de uma
discurso, até mesmo dentro de uma mesma escola de pensamento presente num dado discurso, há conceitos que tornam a coerência interna impossível,
que são incompatíveis. O ponto, diz Foucault, não é encontrar uma unidade da coerência dos conceitos, “não buscaríamos mais, então, uma arquitetura
de conceitos su cientemente gerais e abstratos para explicar todos os outros e introduzi-los no mesmo edifício dedutivo; tentaríamos analisar o jogo
de seus aparecimentos e de sua dispersão”[4].

4. A regularidade das estratégias: não é possível, também, de nir uma unidade no discurso a partir das estratégias, temas ou teorias utilizadas num
discurso, como se algum tipo de identidade pudesse ser encontrada na prática discursiva. O exemplo de Foucault para descartar esta hipótese é o
discurso das ciências naturais com base no evolucionismo: até o século XVIII, era mais relacionado com uma ideia de evolução linear interrompida por
catástrofes naturais, mas no século XIX, a teoria foca na relação descontínua das espécies com o meio circundante.

 Mais do que buscar a permanência dos temas, das imagens e das opiniões através do tempo, mais do que retraçar a dialética de seus con itos para individualizar
conjuntos enunciativos, não poderíamos demarcar a dispersão dos pontos de escolha e de nir, antes de qualquer opção, de qualquer preferência temática, um
campo de possibilidades estratégicas?[5]

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Compreende-se que visar elementos especí cos e suas continuidades não foi produtivo para a acepção de um certo tipo de unidade para os discursos. O
discurso não é uma unidade da maneira como entendemos, ele é uma dispersão. Ao longo da rejeição de cada hipótese, Foucault levanta a hipótese de que é
mais produtivo o estudo desta dispersão enquanto sistema. Por sua vez, o sistema de dispersão carrega consigo uma formação discursiva:

 No caso em que se puder descrever, entre um certo número de enunciados, semelhante sistema de dispersão, e no caso em que entre os objetos, os tipo de de
enunciação, os conceitos, as escolhas temáticas, se puder de nir uma regularidade (uma ordem, correlações, posições e funcionamentos, transformações), diremos,
por convenção, que se trata de uma formação discursiva.[6]

Não é importante procurar uma coerência própria nos objetos, modos de enunciação, escolhas estratégicas ou conceitos; o importante é compreender o
sistema de dispersão que esses elementos podem formar. Dentro de uma mesma formação discursiva, portanto, há o contraditório, há a incoerência, os
opostos estão lá, em luta, regidos pelo mesmo conjunto de regras que de nem a regularidade de sua distribuição em seu espaço próprio. O sujeito, assim, é
um espaço que pode ser ocupado por indiferentes indivíduos que se constituem pelas relações que essa formação pode fornecer e se relacionam com os
outros sujeitos através das diferentes possibilidades de emergência de enunciados. Assim, por exemplo, é possível a polêmica entre diferentes formas de se
discutir a teoria da evolução dentro da mesma formação discursiva.

A formação discursiva para Pêcheux


Michel Pêcheux adiciona a ideologia como elemento novo para elaborar a noção de formação discursiva. Para isso, ele constrói a noção de formação
ideológica que deve ser entendida a partir das relações de classe vigentes em uma formação social determinada.

Em uma formação social dada, há práticas vigentes através dos aparelhos estatais que são a forma concreta dos antagonismos das relações de classe que,
por sua vez, de nem um espaço especí co de posições de classe possíveis e, no que lhes diz respeito, são posições vazias, pois não representam indivíduos
concretos.

A formação ideológica é o “conjunto complexo de atitudes e de representações que não são nem ‘individuais’ e nem ‘universais’, mas que se relacionam
mais ou menos diretamente a posições de classes em con ito umas em relação às outras”[7]. É dentro dela onde há formações discursivas (uma ou várias).
Assim de ne-se a formação discursiva:

 o que pode e deve ser dito (articulado sob a forma de uma arenga, de um sermão, de um pan eto, de uma exposição, de um programa, etc.) a partir de uma posição
dada numa conjuntura dada: o ponto essencial aqui é que não se trata apenas da natureza das palavras empregadas, mas também (e sobretudo) de construções nas
quais essas palavras se combinam […] as palavras “mudam de sentido” ao passar de uma formação discursiva a outra.[8]

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Por sua vez, há um momento de dissimulação na formação discursiva. Ela é responsável por estabelecer a identi cação do indivíduo interpelado em sujeito,
para que se torne sujeito do discurso (e da formação discursiva especí ca que lhe interpela), mas, através da noção de interdiscurso, os nós e articulações
de mais de uma formação discursiva é exposto: existe, assim a possibilidade de contraidenti cação com seu Sujeito. O indivíduo é interpelado em sujeito
pela Ideologia em geral no interdiscurso e interpelado em sujeito do discurso pela formação discursiva, onde acontece o processo de sua identi cação com
o sujeito universal da formação discursiva determinada. Não há etapas separadas, pois sempre-já o indivíduo é/foi interpelado em sujeito pela Ideologia e
pelas diferentes formações discursivas dadas.

Suas diferenças
Aqui, será abordada a diferença da noção de formação discursiva enquanto possibilidade do contraditório e a noção de assujeitamento e interpelação são
essenciais para entender a diferença entre as propostas de Foucault e Pêcheux.

Foucault desconsidera o conceito de ideologia e trabalha com a formação discursiva constituindo os sujeitos, na medida em que o sujeito é uma posição
vazia que pode ser ocupada por indiferentes indivíduos. A formação discursiva comporta, inclusive, posições opostas a respeito do objeto do discurso: ela
é, de certa forma, maior que a noção estabelecida por Pêcheux. Maior num sentido de alcance: a noção de formação discursiva de Foucault estabelece a
relação entre estratégias diferentes, até mesmo opostas e con itantes, regidas por um mesmo conjunto de regras de formação.  Pêcheux trabalha com uma
noção delimitada pelas formações ideológicas.

Para Pêcheux, a formação discursiva trabalha dentro de uma formação ideológica, ou seja, posições de classe cobertas por formações ideológicas diferentes
geram formações discursivas diferentes para objetos similares. A identi cação do sujeito com a formação discursiva é elemento central aqui: quando
desidenti cado, pode ser interpelado por outra formação discursiva e se tornar sujeito de outro discurso.

Por exemplo, numa hipótese de que há um certo discurso político no Brasil, Foucault trabalharia com as diferentes opiniões e formas de se lidar com a
política como estratégias diferentes nesta mesma formação discursiva, assim, o político comunista e o político reacionário estariam numa mesma
formação discursiva movendo estratégias diferentes. Em Pêcheux, o político comunista é interpelado por uma formação discursiva distinta daquela que
interpela o político reacionário. Comunistas e bolsonaristas seriam sujeitos de formações discursivas diferentes que podem até mesmo se comunicar, se
entrecruzar, mas ainda assim impossíveis de serem iguais, na medida em que são a concretude linguística advinda de posições de classe diferentes sob
formações ideológicas diferentes.

Considerações nais
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Apesar de funcionarem de maneira parecida, deve-se compreender que ambas as noções de formação discursiva são distintas principalmente pela presença
da noção de ideologia na obra de Pêcheux, herança do trabalho de Althusser, e de sua respectiva dependência das noções de assujeitamento e interpelação.

Foucault absorve as arengas através do entendimento de que a formação discursiva é um sistema de dispersão, um sistema que não tem o compromisso
com a unidade, com a coerência. Ele compreende que a formação discursiva é o local da luta, pois é aquilo que permite qualquer forma de atividade num
nível discursivo.

Referências
[1] FOUCAULT, Michel. As formações discursivas IN: A Arqueologia do Saber. 8ª edição, Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2012, p.41-45.

[2] SIQUEIRA, Vinicius. As formações discursivas – Arqueologia do Saber. Colunas Tortas, 2015. Acesso em 11 jul 2020. Disponível em
<<https://tinyurl.com/ydxylse3>>.

[3]  FOUCAULT, Michel. As formações discursivas… p.42.

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[4]  FOUCAULT, Michel. As formações discursivas… p.43.
[5]  FOUCAULT, Michel. As formações discursivas… p.45.

[6]  FOUCAULT, Michel. As formações discursivas… p.47.

[7]   HAROCHE, C. PÊCHEUX, M. HENRY, P.  A Semântica e o Corte Saussuriano: Língua, Linguagem, Discurso. Linguasagem – Revista Eletrônica de
Popularização Cientí ca em Ciências da Linguagem. Acessado em 2 de abril de 2017. Disponível em <<https://tinyurl.com/y9jbvcvv>>.

[8]  HAROCHE, C. PÊCHEUX, M. HENRY, P. A Semântica e o Corte Saussuriano: Língua, Linguagem, Discurso.

Vinicius Siqueira
Instagram: @poressechaopradormir
Pós-graduado em sociopsicologia pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo e editor do Colunas Tortas.
Atualmente, com interesse em estudo do biopoder nos textos foucaultianos.
Autor dos e-books:

Fascismo: uma introdução ao que queremos evitar;


Análise do Discurso: Conceitos Fundamentais de Michel Pêcheux;
Foucault e a Arqueologia;
Modernidade Líquida e Zygmunt Bauman.

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Publicado em Michel Foucault, Michel Pêcheux | Tagueado como Análise do Discurso


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2 Comentários

Franklin de Lima disse:


julho 25, 2020 às 6:02 pm

Nos meus estudos sobre a FD de Foucault e de Pêcheux eu me peguei perguntando sobre uma coisa e queria fazer um comentário e espero que faça algum
sentido e seja pertinente, o que quero comentar/perguntar.

Como os textos de ambos os autores são escritos em outra língua que não a nossa, no caso o francês, nos põe numa posição de con ar na tradução. Eu vejo e
concordo com as suas palavras no texto a cima. Porém um elemento me causa curiosidade:

No recorte do conceito de Foucault sobre a FD no nal da frase tem: “diremos, por convenção, que se trata de”
Vou chamar de elementos só de forma rápida.

O uso dos elementos “convenção” e “trata de” me faz entender que, Foucault não de ne exatamente o que é a FD e sim, diz: “convêm tratar como uma
FD”. Parece-me que não havendo titulo melhor, ele sugere que tratemos desse modo assim, ca fácil de entender ou de classi car. Isso altera o
entendimento de formação discursiva em Foucault, ou não?

Acho que seria interessante observar, caso haja, mais traduções da arquelogia do saber para que pudéssemos nos debruçar sobre esses pormenores das
traduções, inclusive…

Não sei se é pertinente esse meu pensamento…

Responder

Vinicius Siqueira disse:


julho 26, 2020 às 3:49 pm

Olá, Franklin!

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É pertinente sim. Mas acredito que a questão de Foucault é justamente não se sentir na obrigação de conceituar as ferramentas que utiliza. Daí a
precaução no enunciado.

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