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Classica, São Paulo, v. 15/16, n. 15/16, p. 165-175,2002/2003.

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Cultura popular: as inscrições amorosas


da Pompéia Romana

LOURDES M. G. C. FEITOSA
UNICAMP
Núcleo de Estudos Estratégicos (NEE)

RESUMO: Neste artigo discute-se o significado do conceito de cultura e como diversas expe­
riências culturais são construídas no interior de cada sociedade. Para o estudo da Antiguidade
romana, as inscrições parietais significam importantes fontes para a reflexão sobre a cultura
popular, particularmente de Pompéia. Por meio da análise de alguns grafites, questiona-se a
idéia de absorção cultural e como as representações passam pelo crivo e valor popular.
PALAVRAS-CHAVE: cultura popular; inscrições parietais; representações do amor.

Conceituando cultura popular


A partir do século X IX , m uitas reflexões e idéias têm sido m anifestadas sobre o
conceito de “cultura popular” sem que se tenha chegado a algum consenso. O term o cultura
popular passa a ser registrado no início do século XIX, na E uropa, e em bora questionando
o m odelo unívoco de cultura, as distinções atribuídas à expressão m arcaram , entre outras, a
noção de um a reprodução “im perfeita” e “deteriorada” da cultura erudita, ou ainda, de uma
produção própria, porém isolada, restrita ao cam po e ligada a tradições folclóricas de cam ­
poneses analfabetos. A ssim , convencionou-se denom inar cultura erudita, tam bém conheci­
da com o dom inante ou superior, aquela conectada com as elites, e cultura popular, inferior
ou subalterna, aquela produzida e vivenciada pelo p o v o 1.
P rincipalm ente a partir da segunda m etade do século XX, em um contexto de forte
crítica ao colonialism o e à dom inação de classe, estudos de áreas com o A ntropologia, H is­
tória e A rqueologia, passam a questionar o conceito de cultura e suas derivações “cultura
inferior ou prim itiva” e “cultura superior” . A centuadas críticas são apresentadas à idéia de
um centro propagador de cultura, fom entado por grupos dom inantes, e à prática de absor­

1 A ambiguidade e a complexidade que envolvem o termo em sua longa trajetória foram detalha­
das por alguns historiadores como pode ser visto em de Certeau, 1995, p. 71,166; Burke, 1989,
introdução; Ginzburg, 1987, p. 17-8 e Funari, 1987, p. 33-5; 1989 e 1993.
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as inscrições amorosas da Pompéia Romana

ção, ainda vista com o natural, da cultura superior pelos m em bros das classes “subalternas”2.
D entre estas vozes, destacam os o estudioso francês M ichel de Certeau que, já no início dos
anos setenta, tecia duras crítica à generalização do padrão cultural das elites francesas como
o m odelo digno de conhecim ento e perpetuação pela sociedade, de m aneira que “os ineptos
são excluídos não som ente de um a cultura, m as da cultura (um a vez que o sistem a que os
elim ina de um a “instrução” os rouba tam bém de suas tradições próprias)...” (de Certeau,
1995, p. 167; grifos do autor).
C o nsiderar apenas um a cultura em um a sociedade indica a aceitação do conceito de
cultura estabelecido pelos grupos dom inantes, que reconhecem , com o legítim os e verdadei­
ros, apenas os seus próprios valores culturais. Por isso, localizar socialm ente os discursos,
estabelecendo o seu ethos de classe, é tarefa im portante para não se generalizar conceitos e
valores de u m a classe com o os verdadeiros e únicos em toda um a sociedade3.
C om o deslocam ento do enfoque de uma para várias culturas, dentro de um a mesma
sociedade, abre-se a possibilidade de valorizar o universo concebido e articulado pelos dife­
rentes grupos que se estabelecem em seu interior. D essa ótica, pode-se afirm ar que cultura:
“é tudo que resulta do trabalho e da elaboração hum anos... todos são difusores do saber e
exercem um papel ativo na organização do m undo social, em term os económ icos, políticos
e culturais” (Funari, 1989, p. 12-3), já que “cultura não consiste em receber, mas em realizar
o ato pelo qual cada um m arca aquilo que os outros lhe dão para viver e pensar” (de Certeau,
1995, p. 143. G rifo do autor).
D essa perspectiva, a produção cultural de um a sociedade passa a ser fruto da ação e
m anifestação de todos os seus indivíduos, independentem ente do lugar social ocupado por
cada um , o que não significa dizer que produzam a m esm a coisa ou que algum as sejam mais
valiosas e preponderantes que outras. Tam bém , é certa a im possibilidade de se estabelecer,
com precisão, os lim ites dos aspectos culturais de um grupo com relação a outros grupos, da
m esm a m aneira que não é razoável considerá-las estática e desarticulada entre si, e compos­
tas em suas próprias “totalidades” . A ssim , a designação de cultura com o um a coleção de
elem entos e tradições valorosas e im utáveis, sejam elas das elites ou dos populares, não tem
m ais com o ser sustentada. Isto porque estas práticas culturais redefinem -se diariamente na
dinâm ica do cotidiano, nas experiências de integração, conflitos e contradições ocorridas
entre elas na organização social e em seus contatos com culturas externas4. Críticas são
apresentadas às três idéias vinculadas, com um ente, ao conceito de cultura, quais sejam, de

2 Cf., entre outros, de Certeau, 1995 (publicação francesa de 1973); Mezhuiev, 1980; Ginzburg,
1987; Funari, 1989; Burke, 1989; Davis, 1990; Arantes, 1995 e Horsfall, 1996.
3 Como salienta Foucault, é necessário saber quem fala, de onde fala e por quê fala, pois qualquer
argumento possui uma conotação política e realça um caráter de classe (Foucault, 1996, p. 52­
3). Também Michel de Certeau opõe-se à idéia de uma produção sócio-cultural unívoca em uma
sociedade, pois acredita que “o lugar de onde se fala, no interior de uma sociedade, emerge
silenciosamente no discurso e reproduz-se no nível do conteúdo intelectual, com o ressurgimen­
to de um modelo totalitário. Com efeito, a cultura no singular traduz o singular de um meio”. Cf.
de Certeau, 1995, p. 227.
4 Interessantes discussões sobre esta questão podem ser encontradas em Jones, 1997 e Funari,
Hall, Jones, 1999.
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que em um a sociedade existe uma cultura; que a cultura é o que é produzido pelos grupos
dom inantes e, por fim , que a cultura deve ser entendida com o um conjunto de tradições
consolidadas e herm eticam ente transm itidas.
É dessa perspectiva de se olhar para cultura que este trabalho apresenta, a seguir, um
histórico sobre o uso da docum entação epigráfica para o estudo da A ntiguidade, em particu­
lar, dos grafites, para um a análise de aspectos da cultura popular em Pom péia.

0 uso das inscrições romanas como documento histórico


Intensificou-se, nos últim os anos, em diferentes cam pos das C iências H um anas, a
utilização de fontes diversas, além da usual docum entação literária, para a am pliação de
inform ações sobre a organização social de sociedades passadas. A própria releitura de fon­
tes literárias, agora analisada com o um a representação específica das elites, e o uso de
outras evidências históricas com o as fontes epigráficas, arqueológicas, iconográficas, entre
outras, têm trazido valiosas contribuições para este processo de revisão e am pliação das
temáticas discutidas na H istórica.
Pode caracterizar-se a E pigrafia com o a parte da Paleografia que estuda as inscri­
ções, incluindo sua decifração, datação e interpretação. A palavra “inscrição” tem sua ori­
gem no vocábulo latino inscriptio - ação de escrever sobre - e é utilizada em tem pos modernos
para caracterizar um texto entalhado, gravado, traçado ou ainda estam pado sobre superfíci­
es duráveis com o pedras, m etais, cerâm icas, telhas, vidros, reboco de m uros, m osaicos
tesserae (K eppie, 1991, p. 10; Bodel, 2001, p. 2).
D entre as inscrições rom anas encontradas, distinguem -se:
• as m onum entais, gravadas ou esculpidas em letras m aiúscula em m onum entos,
tum bas funerárias, edifícios públicos, dentre outros; usadas, principalm ente, para
divulgação de decretos oficiais, datas com em orativas ou fins honoríficos.

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ANTONlNVS^AVGVSTVSEll *

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Fig. 1: Coluna de bronze de Antonino Pio. Roma, 161-169 d.C.


(Fonte: Keppie, 1991, p. 26)
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• as com uns, escritas em letras cursivas, utilizadas pelo povo para registros de fatos
do cotidiano.
Estas inscrições em letras com uns são cham adas de grafites, derivada de graphium,
instrum ento utilizado para o seu desenho. E ste objeto possuía a ponta dura, perm itindo que
as pessoas delineassem , com algum a facilidade, o sulco no form ato das letras desejadas.
E ste traçado sobre as paredes, cham ado em latim de graphio inscripta, era a m aneira mais
com um e frequente das pessoas se expressarem .

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Fig. 2: Imagem de um grafite


CIL, IV, 10241

Também eram usados os grafites pintados - tituli picti - , mas em escala bem menor.

Fig. 3: Grafites pintados (tituli picti) em uma das paredes de Pompéia


(foto da autora)

A s inscrições de sociedades antigas passaram a ser abundantem ente encontradas nas


escavações arqueológicas, a partir do século X V III, estim ulando o ritm o destas escavações
e a própria consolidação da A rqueologia com o área científica.
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N o m undo rom ano, a grande quantidade de grafites obtida em diferentes extensões


de seu dom ínio, instigou a organização, em 1847, de um grupo de estudo, coordenado pelo
pesquisador alem ão T heodor M om m sen, preocupado em catalogar e publicar as inscrições
latinas oriundas de todas as partes da sociedade rom ana (K eppie, 1991, p. 36). D esta m anei­
ra foi originado o C orpus Inscriptionum Latinarum , m ais com um ente conhecido por CIL.
Ficou estabelecido o critério geográfico para a organização deste m anancial docu­
mental, tendo sido atribuídos núm eros para as diferentes regiões como, por exem plo, CIL II -
Espanha, C IL V I - Rom a. A lgum as poucas exceções deste critério regional ficaram para a
coleção de registros sobre a m orte de C ésar - publicadas no volum e I, ou as inscrições
parietais sobre Pom péia, H erculano e outras cidades da região vesuviana - volum e IV (Bodel,
2001, p. 7, 159). M uitos volum es do C IL foram publicados entre os anos de 1870 a 1890,
diversos deles revisados e com plem entados em suplem entos posteriores. Trabalho que con­
tinua a ser realizado e agora conta com versões eletrônicas disponibilizadas em páginas da
web tais com o: http://w w w .bbaw .de/vh/cil/index.htm l ou http://w w w .uni-heidelberg.de/
institute/sonst/adw /edh.
A s in scriçõ es v esuvianas têm sido abundantem ente encontradas em m uros, pare­
des extern as e intern as de edifícios p úblicos, tabernas, locais de trabalho, habitações, ou
seja, em qu ase todos os espaços d isponíveis nas paredes da cidade até então escavadas.
Com o sugere C artelle (1981, p. 81), parece razoável não terem sido achados livros nas
cidades vesuv ian as, na m edida que estes não poderiam suportar as altas tem peraturas, as
cinzas e os la p illi ardentes que os teriam coberto. Situação sem elhante aos livros parece
ter o corrido com as tab u letas de cera, dispositivo usual para escrita e leitura, das quais se
pode ter alg u m a idéia a p artir daquelas encontradas em cofre de m adeira pertencente ao
banqueiro L. C aeciliu s Iucundus. A cera estava derretida, m as com o a ponta do graphium
havia alcan çad o a m adeira que ficava por trás, foi possível reconstruir parte das inform a­
ções, pu b licad as no C IL , S uplem ento I, referido anteriorm ente5. E ntretanto, o volum e de
grafites e os d iferen tes graus de conhecim ento do latim expresso em sua grafia, são ev i­
dências da p rática de escrita e da leitura e, portanto, da existência do alfabetism o na
cidade de P o m p éia6.
A lguns aspectos ajudaram a estabelecer o período em que estes grafites foram escri­
tos. C om o P om péia foi soterrada no ano de 79 d.C., esta é a data lim ite para a sua realiza­
ção. P or outro lado, considerando o forte abalo sísm ico que a cidade sofrera em 62, fazendo
com que m uitas inscrições fossem destruídas ju n to às construções derrubadas, a usual lim ­
peza das áreas de publicidade, assim com o as condições clim áticas que têm interferido na
preservação ou destruição dos grafites7, estim a-se que a grande m aioria destes ícones tenha
sido produzida nos últim os vinte anos da cidade. P recisar o período em que foram escritas é
um aspecto diferenciador entre estas inscrições com uns e outras poucas do m esm o género,

5 Referência ao seu uso ver, também, em CIL, IV, 1796.


6 Sobre esta questão conferir Vãanànen, 1937, p. 15; Gigante, 1979, p. 37 e 41; Funari, 1989, p.
28; Franklin, 1991, p. 82 e Varone, 1994, p. 9.
7 A ação atmosférica sobre os grafites tem sido verificada nas regiões escavadas, exigindo cuida­
dos especiais para o não desaparecimento.
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as inscrições amorosas da Pompéia Romana

encontradas em diversas partes do m undo rom ano e que são, em geral, m uito difíceis de
serem datadas (V aananen, 1937, p. 19).
A ação dos grafiteiros era tão intensa e frequente que m esm o com a atuação dos
dealbatores, trabalhadores que tinham a finalidade de lim par as paredes, m uitas são as ins­
crições descobertas em escavações, com o m encionado anteriorm ente. O dealbator atuava
para apagar, das paredes, velhas notícias, m ensagens indesejáveis ou m esm o para deixá-las
lim pas. Parte destes novos espaços era utilizado com recados “oficiais” , entendidos como
anúncios de venda de produtos, propaganda de espetáculos ou cartazes eleitorais, por exem­
plo, escrito, via encom enda, por trabalhadores pagos - os scriptores8. Contudo, de todas as
inscrições catalogadas, a im ensa m aioria corresponde àquelas registradas pelo autor de pró­
prio punho.
Estes grafites têm suscitado grande interesse paleográfico, linguístico e literário, por
diversos aspectos com o, por representarem um as das raras escritas cursivas da Antiguida­
de9; perm itirem analisar os processos de transform ações ocorridos no latim popular e no
erudito (C artelle, 1981, p. 83) e pela difusão da cultura literária fora dos círculos das eli­
te s10. Entretanto, aqui, o interesse é fundam entalm ente em seu caráter histórico-cultural. E
por m eio deste precioso testem unho epigráfico que se consegue conhecer aspectos da vida,
dos costum es e do sentim ento am oroso destes pom peianos.
A preservação da estrutura da cidade e de seus objetos de uso cotidiano leva ao
conhecim ento de sua vida m aterial e os grafites com pletam os dados com inform ações que
revelam opiniões, desejos, experiências e sentim entos que saem diretam ente da alma das
pessoas p ara os m uros da cidade. A ssim , a possibilidade de analisar esta rica documentação
epigráfica faz de P om péia um a fonte ím par para o estudo das relações vivenciadas entre
hom ens e m ulheres populares, que habitaram esta colónia rom ana, e das quais alguns aspec­
tos são apresentados a seguir.

Manifestações do sentimento amoroso


O s m uros de Pom péia dem onstram o quanto era com um m ulheres e hom ens registra­
rem a felicidade de um am or com partilhado, a tristeza pela distância da am ada, os ciúmes,
os lam entos e as decepções por causa de um relacionam ento rom pido. N estas m uitas mani­
festações, encontram -se traços da inserção da cidade em um contexto m ais am plo da socie­
dade rom ana. A lém da prevalência do argum ento historiográfico contem porâneo a favor da
participação económ ica de Pom péia no com ércio interprovincial, exportando e importando

8 Conferir menções a estes trabalhadores em CIL, IV 222, 230, 1190 e 3529.


9 Outros exemplos de letras cursivas são encontrados nas escritas hierática e demótica egípcia,
nas tabuletas de cera pompeianas e em registros esparsos descobertos na região do império
romano.
10 Por meio da análise de Gigante, é possível verificar o grande número de referências da literatura
grega, helenística e romana nos grafites, confirmando a afinidade dos populares pompeianos
com a leitura e a escrita. Cf. Gigante, 1979, p. 26.
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produtos", tam bém é possível verificar a influência literária épica, elegíaca e dram ática de
Roma, m as tam bém da cultura grega e helenística, principalm ente nos epigram as eróticos,
nestas representações do sentim ento afetivo (G igante, 1979, p. 37). M uitas passagens de
autores com o H om ero, T iburtino, Virgílio, O vídio, Catulo, Lucrécio são atestadas nos gra-
fites.
E ste contato e aprendizado literário poderia ter ocorrido tanto por m eio da escola,
como por m eios pedagógicos alternativos, principalm ente para o conhecim ento da língua e
cultura grega, com o o contato com im igrantes, com o com ércio, prestação do serviço m ili­
tar, além das representações teatrais e da atuação dos circulatores, pessoas que prom oviam
entretenimentos itinerantes, com funções de cantar, declam ar poesias ou ler trechos de li­
vros (H orsfall, 1996, p. 28, 47).
U m a questão a ser discutida diante desta m anifestação popular, que por vezes m en­
ciona obras da literatura aristocrática, é se isto caracterizaria um a absorção e subm issão
intelectual à cultura erudita. A análise de algum as inscrições parietais am orosas de Pom péia
possibilita refletir sobre o assunto.
M uitas das inscrições encontradas são de m enções rápidas e suscitadas diretam ente
do coração, com o este grafite que, m esm o sem a assinatura de seu autor, não deixou no
anonimato o seu am o r por um a Taine: D ulcis am or perias eta (pro ita). Taine bene am o
dulcíssima, m ea d ulc (C IL, IV, 8137) [O xalá pereça, doce amor. A m o tanto a Taine m inha
dulcíssima am a d a ]12, o m esm o fez M arcos: M arcus Spedusa am at (CIL, IV, 7086) [M arcos
ama Spedusa], E algum rival de M arcelo provavelm ente tenha sido o autor deste registro:
Marcellus P raenestinam amat, et rtort curatur (CIL, IV, 7679) [M arcelo am a Prenestina, e
não é correspondido].
U m outro apaixonado repetiu os versos de H orácio para exaltar aqueles que am avam
e repreender os que representavam em pecilhos aos am antes: (Q uis)quis am at ualeat pereat
qui rtescit am are. B is tanto p erea t quisquis am are uetat (CIL, IV, 4091) [Viva quem ama,
que m orra quem não sabe am ar! D uas vezes m orra quem proíbe o am or]13. Idéia não com ­
partilhada pela pessoa que opinou sobre isso, talvez por estar sofrendo a dor de um a desilu­
são am orosa: Q uisquis am at p ereat (CIL, IV, 4659) [M orra quem quer que ame!]. A inda
uma outra reproduziu o poem a de Propércio para expressar sem elhante decepção: Q uisquis
amat calidis non deb et fo n tib u s uti, nam n em o fla m m a s ustus amare p o test (CIL, IV, 1898)
[Qualquer um que am a não deve se banhar em fontes quentes, pois ninguém que esteja
escaldado pode am ar as cham as],
C atulo serviu de inspiração a um a jovem que havia am ado e estado “nas nuvens”
pela felicidade de seu am or e que, depois, chorava o abandono de seu querido: O utinam
liceat collo com plexa tenere. B raciola et teneris oscula fe rre labe(l)lis. I nunc, uentis tua
gaudia, p u p u la , crede. C rede m ihi, leuis est natura uirorum . Saepe ego cu(m ) m edia

11 Conferir, entre outros autores, Delia Corte, 1954; Étienne, 1967; Guarinello, 1985; Funari, 1989
e Laurence, 1994.
12 Proposta de interpretação de Cartelle, 1981, p. 97.
13 As indicações sobre as inspirações literárias apresentadas nos grafites são de Gigante, 1979. As
traduções das inscrições são da autora, salvo quando indicado de outra maneira.
172 Lourdes M. G. C. Feitosa: Cultura popular:
as inscrições amorosas da Pompéia Romana

uigilare(m ) perdita nocte. H aec m ecum m edita(n)s: m uitos Fortuna quos supstulit alte, hos
m odo proiecto s subito praecipitesque prem it. Sic Venus ut subito coiunxit corpora amantum,
D iuidit lu x et se (paries quid?) (C IL, IV, 5296) [Oh, se fosse possível m anter m eus braços
enlaçados ao teu pescoço e levar m eus beijos aos teus doces lábios! M as agora vai, menini-'
nha, entreg a teus prazeres ao vento. C reia em m im , inconstante é a natureza dos varões.
M uitas vezes, eu, apaixonada, na m adrugada, em vigília, pensava com igo mesm a: muitos
alçados pela F ortuna ao topo, foram , súbita e precipitadam ente, rebaixados. A ssim , Vênus,
tão logo ju n te os corpos dos am antes, divide a lu z...]14.
A m anifestação de lam ento deste poem a foi, segundo G igante, influenciada pelo
m odelo da elegia am orosa rom ana; entretanto, a característica popularesca e um a certa sim­
plicidade de estilo foram m antidas pela com positora (G igante, 1979, p. 212). Tecnicamente
“d efeituo so ” , segundo a regra literária erudita, estes versos expressam a criatividade e flui­
dez de um a com posição cuja m ensagem revela-se espontânea e direta, em harm onia com a
linguagem pop u lar em que foi criada.
U m outro aspecto m uito significativo nos versos pom peianos é a representação feita -
da deusa V ênus. O próprio nom e de Colonia C ornelia Veneria Pom peiorum atribuído a
P om péia no m om ento em que foi anexada por Sila ao im pério R om ano, indica a importân-, .
cia de V ênus com o deusa protetora da cidade e de seus am antes. O m odelo em pintura maisl
fam oso (V ênus em um a concha) foi encontrado no peristilo de um a casa de Pom péia (II, 3,1

Figura 4.1: Vênus em uma concha (De Carolis, 2000: 36)

C om o pode ser visto na figura, a deusa é representada com um form oso corpo e
ricam ente adornada com jó ia s, em um a pintura em quarto estilo sob inspiração helenística15.

14 Nos versos finais deste poema segue-se a proposta de interpretação de Funari, 1995, p. 183.
15 O estilo iconográfico da época helenística é repetido com frequência nas pinturas, mosaicos e
esculturas de Pompéia, como pode ser observado em De Carolis, 2000.
Cíassica, São Paulo, v. 15/16, n. 15/16, p. 165-175, 2002/2003. 173

Bela, perfeita, rica e soberba. Os grafites populares, entretanto, m ostram um a interpretação


particular de V ênus. T rata-se de um a deusa presente no cotidiano destas pessoas, próxim a
de seus pedidos e aflições: S ei quid am or ualeat nostei, sei te hom inem seis, com m iseresce
mei, da ueniam ut ueniam . F ios Veneris m ihi de... (CIL, IV, 4971) [Se conheces a força do
amor, e a natureza hum ana, tenha pena de m im, me faças o favor de me conceder os teus
favores. F lo r de V ênus, para m im ...], e identificada às garotas reais deste grupo social:
(Non) ego tam euro Venerem de m arm orii, fa c ta m s... carmin... (CIL, IV, 3691) [Eu não me
preocupo, em m eus versos, por um a V ênus feita de m árm ore, mas por um a de carne e
osso...], ou ainda: S i quis non uidi(t) Venerem quam na... pupa(m ) m ea(m ) aspiciat talis et
e... (C IL, IV, 6842) [Se tem alguém que não viu a V ênus que pintou A peles, que olhe a
minha garota: é tão bon ita quanto ela!]
E a ela, a responsável pela proteção dos am antes e de seu bom convívio, que são
direcionadas as lam úrias de um coração partido e inconform ado com a dor de um a desilusão
am orosa: Q uisquis a m a t ueniat; Veneri u o lo fra n g ere costas. Fustibus et lum bos debilitare
deae: sip o t(is) illa m ihi tenerum pertunderepectus, quit ego non possim caput illae frangere
fuste? (C IL , IV, 1824) [A todos os que am am , perm issão. Q uero quebrar as costas de V ênus
com o bastão e deix ar o seu lom bo m achucado. Se ela pode trespassar meu terno coração,
por que não poderia eu rom per sua cabeça com um bordão?]. Estas inscrições são exem plos
do sentido que V ênus tom a entre populares de Pom péia, um a deusa próxim a à condição de
hum anidade, a com panheira que recebe os sinceros sentim entos das alm as em jú b ilo ou
tristeza, experim entados em cada vivência de amor.

Considerações finais
A lguns aspectos podem ser realçados nesta reflexão. O prim eiro é que, no interior de
cada sociedade, constituem -se diferentes experiências culturais, frutos das práticas cotidia-
nas, dos contatos, influências e em bates originados entre os grupos sociais e das m ais varia­
das respostas apresentadas.
Sobre os valores culturais populares da P om péia Rom ana do século I d.C, as inscri­
ções parietais caracterizam -se com o raros e im portantes vestígios destes grupos. N este arti­
go, são destacadas algum as leituras am orosas apresentadas em grafites e m ostrado, onde se
identifica um contato cultural com obras aristocráticas, um a releitura ao gosto e fluidez
popular. T am bém , com o sím bolos gerais, aqui em particular a deusa V ênus, recebem dife­
rentes representações a partir das concepções e valores considerados por cada grupo.

Referências Bibliográficas
Documentação Antiga:
CIL - C orpus Inscriptionum Latinarum . v. IV. Berlim : A kadem ie Verlag, desde 1863.
174 Lourdes M. G. C. Feitosa: Cultura popular:
as inscrições amorosas da Pompéia Romana

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ABSTRACT: This article studies the meaning of “culture" and explores the ways of different
cultural experiences constructed inside the society. Roman wall inscriptions are important sources
and thorough the study of graffito inscriptions it is possible to think about the role of learned
culture in people’s ethos. Popular values and feelings are shown in wall inscriptions, translated
by the author.
KEYWORDS: popular culture; wall inscriptions; representations of love.

Agradecimentos:
M eus sinceros agradecim entos a Pedro Paulo A. Funari, a H ércules de A. Feitosa e à
FAPESP. A s idéias apresentadas são de m inha responsabilidade.