Giselle Moreira da Mata

Personagens femininas nas comédias de Aristófanes: contribuições para os estudos de gênero na antiguidade grega
Giselle Moreira da Mata

Resumo: O objeto deste artigo se direciona para a contribuição que as personagens femininas de algumas obras aristofânicas oferecem, no sentido de auxiliar nos estudos relativos ao gênero na Antiguidade, na medida em que extraímos delas questões importantes para as discussões ligadas ao feminino na Atenas clássica. Palavras-Chave: Aristófanes. Gênero. Cidadania. Comédia Antiga. Abstract: The object of this paper is directed to the contribution that the female characters, some works of Aristophanes offer, to assist in studies on gender in antiquity, in that it drew important issues for discussions relating to women in classical Athens. Keywords: Aristophanes. Gender. Citizenship. Old Comedy.

Durante o período Clássico, particularmente no século V a.C., a cidade de Atenas acolheu em seu seio uma das maiores expressões do teatro na Antiguidade, o comediógrafo Aristófanes, que se notabilizou como o principal representante da comédia antiga. Seus trabalhos se caracterizaram por traduzir de forma crítica a realidade social, cultural, política e religiosa da sociedade ateniense clássica. Nas-

Giselle Moreira da Mata. Professora, Historiadora Graduada, Especialista e Mestranda pela Universidade Federal de Goiás. E-mail: giselle_da_mata@hotmail.com Texto recebido: 30/03/2009. Texto aprovado: 13/05/2009.

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aos cidadãos. Suas sátiras atingiam a todos. As obras selecionadas neste estudo proporcionam um debate concernente à presença feminina fora do gineceu. 33. a tomada das decisões ligadas a sua comunidade. a esposa do cidadão ateniense. a Mélissa. 1985. koinonia tôn politôn. As instituições gregas.Personagens femininas nas comédias de Aristófanes: contribuições para os estudos de gênero na antiguidade grega 1 MOSSÉ.. 2009 . em meio aos mais brilhantes autores de peças teatrais da Antiguidade grega. o Polités. aos políticos.. Como aponta Claude Mossé. eram aristocratas e viviam mais reclusas que as demais. Claude. isto é. para a representação da esposa do cidadão ateniense em algumas peças teatrais do autor. principalmente por intermédio da lei Pericliana de 451-450 a. p. cujo título lhe permitia fazer parte das Assembléias do demos. O que sabemos ao certo é que se trata de um homem de grande cultura literária e artística. mas são poucos os dados que possuímos acerca de sua vida. às instituições da cidade. Desta maneira. que restringiu a cidadania a filhos de pais e mães atenienses Eupátridai. pertencia a um grupo de indivíduos que pertenciam à aristocracia ateniense.1 As esposas legítimas. 21 | n.C. aos fatores que desencadearam a Guerra do Peloponeso. aos sofistas e as mulheres./Jul. espaço público em que destacamos a presença das Melissaí. Suas personagens femininas abrem espaço para discussão da cidadania democrática ateniense. O cidadão. aos tragediógrafos. no que poderíamos designar de participação política. ceu na cidade de Atenas por volta de 457 a. era aquele que fazia parte da cidade. Normalmente suas atividades cotidianas estavam associadas ao trabalho doméstico. parte minoritária da população formada por proprietários de terras. tendo em vista o importante papel que desempenhavam nestes festivais. de escravos e de direitos políticos. também conhecido como Mélissa. 1 | Jan. analisamos a participação e a integração do segmento.C. Lisboa: Edições 70. Sabendo disto. reprodução dos herdei- 118 Caderno Espaço Feminino | v. Gynaikes. Através do teatro aristofânico emerge a possibilidade da análise da relação entre a cidadania e as mulheres. nos voltamos especialmente. que se destacou entre os estudiosos do mundo antigo. bem como em ritos oficiais citadinos. destacando seus mecanismos de atuação social para coesão e estrutura políade.

a certo número de obrigações. 2003. Janete Teresinha Weigel e Maraysa Luciana Vicentini no artigo. Podia frequentar prostitutas. As Rãs./Jul. As Nuvens. das quais apenas onze foram preservadas. Optamos pelas peças: Lisístrata.C. Mulheres na Assembléia e Pluto.Giselle Moreira da Mata ros legítimos. O status das mulheres casadas lhes impunha regras de conduta que eram de uma prática sexual estritamente conjugal. A Paz. e 411 a. Quanto à questão sexual deviam se situar no interior da relação conjugal e seu marido devia ser o parceiro exclusivo. A polis ateniense se caracterizou por negar a parti- 2 3 Cerca de onze peças. Lisístrata. p. 1 | Jan.C. Os Cavaleiros. Elas se encontravam sob o poder do cônjuge. desenvolvemos um estudo resgatando. ele era limitado. Maraysa Luciana. Janete Teresinha. Escreveu cerca de quarenta e quatro comédias. WEIGEL. Assembléia das Mulheres e As Mulheres que Celebram as Tesmophorias. que se caracterizaram pela variedade de temas e personagens relacionados ao universo feminino. a partir das personagens femininas aristofânicas. econômica e intelectual. São elas: Os Acarnenses. As Mulheres que Celebram as Tesmophorias. As Aves. Revista Risco. cabendo dar-lhe filhos que seriam seus ulteriores e futuros cidadãos de Atenas. mas nenhuma relação sexual lhe era proibida em razão do vínculo matrimonial. elementos que nos conduziram a reflexões destinadas à compreensão do feminino e de sua participação no interior da polis ateniense durante o período clássico. datadas de entre 392 a. Caderno Espaço Feminino | v. Todavia. v. Ao homem casado não se permitia contrair outro casamento. 42-46. rapazes e escravos. Fios que tecem a crítica Aristofânica.. tudo que possuímos e o estado em que chegaram até os dias atuais constituem apenas uma pequena parte do que ele produziu2. 21 | n. em relação à esposa. apresentadas nos festivais dionisíacos Leneias e Grandes Dionisíacas. Aristófanes escreveu inúmeras obras. As Vespas. Por meio da documentação textual selecionada. à privação dos prazeres sexuais.3 Optamos neste artigo pela utilização de três obras aristofânicas completas. 03. informam que o comediógrafo foi vencedor de vários concursos dramáticos. 2009 119 . Quanto ao cidadão. à exclusão política. Temos conhecimento entre nós de cerca de onze peças. VICENTINI. entre outros. Fios que Tecem a Crítica Aristofânica.

o âmbito político. O fato de conversarem com seus cônjuges lhes fornecia aprendizados relativos à política. 4 ARISTHÓPHANE. Trad. como já mencionamos. portanto. estrangeira e esposa de Péricles. cuja opinião no âmbito privado. sobre as quais neste artigo. Claude. 5 cipação direta das mulheres nas questões que envolviam. chamada Praxágora: “Ao invés de conversar com meu marido sobre 120 Caderno Espaço Feminino | v. portadoras. em assuntos ligados à política. quanto às decisões relativas à Guerra do Peloponeso4. em especial. Existem inúmeros estudos. Tome V. influenciou o marido. Van Daele. com o surgimento do regime democrático. H. representando a Mélissa. Péricles: O inventor da democracia. o que lhes garantia o entendimento para julgar as decisões. O que nos remete a admitir a presença feminina. podemos concluir sobre a possibilidade das esposas terem oferecido assistência aos seus maridos. Recorremos ao exemplo de Aspásia de Mileto. excluída de qualquer gestão política ou jurídica. mesmo que indireta. São Paulo: Estação Liberdade. poderia ter refletido em suas decisões nas assembléias. em especial. de forma a acreditarmos que o fato de não participarem diretamente na política.Personagens femininas nas comédias de Aristófanes: contribuições para os estudos de gênero na antiguidade grega MOSSÉ. modelo feminino confinado ao gineceu. Paris: Les Belles Lettres. 21 | n. predomina o interesse particular pelas esposas legítimas. Representadas nas comédias de Aristófanes. p. 2009 . 1 | Jan. não significava que eram totalmente excluídas da vida pública. por exemplo. Sua exclusão é tratada na historiografia contemporânea. O feminino era composto por algumas categorias. e a forma de se portar semelhante ao homem. 112. o feminino aristofânico consegue persuadir os maridos quanto às decisões tomadas nas Assembléias. em trechos da peça Assembléia das Mulheres5. bem como controvérsias relativas à atuação feminina na sociedade ateniense clássica. 1930. Elas ocupavam em Atenas um lugar discreto. L’ Assembleé des Femmes. eram cônjuges e mães dos cidadãos atenienses. Devido a sua importância no seio da família. Isto fica claro. contemporâneos ao período ou modernos. de uma cidadania indireta. Com notoriedade. Esta afirmação pode ser visualizada na fala da protagonista de Assembléia das Mulheres. renegadas ao segundo plano. não devemos negar à mulher helênica a capacidade de influenciá-la. 2008. Com efeito. Porém./Jul. alguns vestígios de sua existência e atuação nos quadros da polis foram observados. que segundo muitos pesquisadores.

mesmo que para isso tivessem que lutar contra seus próprios desejos sexuais..)”. Lisístrata. Nela. presentes em diferentes instâncias sociais. mesmo que de forma indireta e não institucionalizada. Para acabar definitivamente com esta situação. 1 | Jan. Atenas vivia uma situação crítica. apresentada nos últimos anos da Guerra do Peloponeso. Nesta perspectiva. notamos sua atuação nas festividades religiosas. na quais ocuparam importante notoriedade. O fato das mulheres poderem ter ocupado lugares significativos no interior da polis é um dos principais debates que se impõem quanto aos preceitos que as excluíram totalmente da vida pública. Na primeira obra. A tomada da Acrópole e a realização de uma greve de sexo unindo as mulheres de Atenas e outras cidades gregas. Apesar da defesa dos guerreiros. sendo aprovadas ou rejeitadas pelo público masculino. para alcançar o propósito de terem os homens de volta.6 Diante disto. A comédia traz um apelo pela paz.. Ainda nas vias da investigação do feminino. sem avaliar sua relevância e participação na estrutura. identidade e coesão políade. as mulheres em Atenas aparecem sobre novos horizontes negando os determinismos que as enquadraram apenas como esposas e mães. 2009 121 . 21 | n.Giselle Moreira da Mata a carestia da vida e os defeitos das empregadas. elas se integravam por intermédio do matrimônio e pela lei de Péricles. adquiriam uma cidadania. a peça permeia entre jogos de sedução e disputas pelas quais acaba vencendo a sabedoria feminina. Assim. reclusas no ambiente doméstico. Excluídas diretamente da política. Caderno Espaço Feminino | v. 6 Ibidem./Jul. atenienses e espartanos estão envolvidos na Guerra do Peloponeso. As mulheres já estavam cansadas de sofrer pela perda de seus maridos nos campos de batalha. é difícil não reconhecê-las para a integração da ordem que buscavam manter em Atenas. v. eu pedia a ele para me contar o que se passava na assembléia (. Sabemos que. as idéias organizadoras da estrutura política do mundo antigo trazem em si posições contraditórias em relação às competências femininas atuantes como sujeitos sociais. 82-83. a ateniense Lisístrata sugere duas ações sobre as quais se desenvolve toda a peça.

2009 . As intenções morais por trás das críticas eram muito sérias. Num jogo permanente de sedução. Dividindo o protagonismo com Lisístrata em algumas situações. de avanços e de recuos. a Assembléia. vários recursos cômicos foram utilizados pelo autor.Personagens femininas nas comédias de Aristófanes: contribuições para os estudos de gênero na antiguidade grega Nesta peça. os velhos. mal-entendidos. convocando as mulheres espartanas a um jejum sexual que obrigasse aos homens a concessão da paz. a trama foi finalizada com a vitória das mulheres. encontramos a personagem espartana Lampito. 1978. a vida rural e. que. As críticas do poeta atingiam a todos: os chefes políticos. como a paz. Lampito possui uma intervenção mais decidida./Jul. Segundo Pierre Grimal: A comédia de Aristófanes. Nesta obra. Pierre.7 7 GRIMAL. apresentando situações ridículas. os filósofos. a democracia. os tragediógrafos. 21 | n. Lampito declara estar disposta a qualquer sacrifí- 122 Caderno Espaço Feminino | v. o elemento sexual apresentou-se como um forte instrumento para a conquista de seus interesses. O Teatro antigo. os tribunais e os juízes. materializada num acordo de paz entre Atenas e Esparta. a paz tão desejável durante a Guerra do Peloponeso. Lisístrata de Aristófanes é a primeira grande obra pacifista da história da qual se tem notícia. Ela representa a própria Lisístrata em Esparta. o respeito pelos valores. o sentimento muito forte dos prazeres da vida) o autor denuncia tudo o que contrário ao interesse da cidade e ao espírito humanista. Percebemos que entre Lampito e Lisístrata ocorreu um paralelismo. em virtude de dirigir Esparta sob o mesmo plano executado em Atenas por sua amiga. ironias. ao tempo das guerras Medo-Persas. trocadilhos. p. exageros e neologismos. especialmente. os jovens e as mulheres. o amor à pátria e o preço da guerra. tem a função de uma imprensa de oposição. Ao serviço de um ideal político (o conservadorismo. São Paulo: Martins Fontes. Como uma espartana desconfiava do sistema democrático ateniense. o horror a guerra. os militares. em certos aspectos. 1 | Jan. O poeta defendia sempre os valores antigos. onde encontramos a discussão de temas tão sérios quanto os contemporâneos. Como Lisístrata. tinham feito furor em Atenas. 71. caricaturas de personagens reais. as mulheres. mas também o respeito pela vida humana.

Sem perceberem que foram enganados. W.Giselle Moreira da Mata cio para o bem estar de sua pátria. As mulheres instauram mudanças quanto à forma de governar. Nas demais. Praxágora lidera várias mulheres que. Mesmo não sendo ateniense. Não será pequeno o perigo se nos apanharem tramando um golpe de audácia como esse. v. para evitar descuidos desastrosos. se passando por homens. Trad. ARISTHOFANES. 100. homens. Vestidas de forma masculina se dirigem à Assembléia infiltradas em meio ao público e à frente da tribuna. 2009 123 . 21 | n.10 8 Eram inteligentes. É em virtude das identidades de Lisístrata e Lampito que compreendemos a natureza da obra de Aristófanes. — devemos repetir sem cessar. “E eu subiria uma montanha de joelhos se soubesse que lá no cume encontraria a paz”. Se não há outro jeito. Ibidem. A protagonista em especial possuía um talento discursivo e retórico. propõem que o governo e todas as decisões políticas fossem entregues às mulheres. Lysistrata. “Está bem!. Ibidem. Oxford: Clarendon Press. que forneceram um apoio decisivo à causa pacifista. os verdadeiros homens acabam entregando o poder nas mãos do grupo feminino. Já é tempo de marcharmos! Lembremo-nos bem mulheres.9 Em Assembléia das Mulheres. homens. unidas e disfarçadas como homens. construções que coroaram Aristófanes mais do que qualquer outro em comédias. é necessário citar ainda a atuação do coro de mulheres. 17. Hall e W. o autor preferiu não sujeitar a personagem espartana a qualquer comparação depreciativa./Jul.. 1907. Conferem um suporte decisivo a Lisístrata e Lampito em oposição aos seus inimigos. que personificam conceitos defendidos pelo autor. F. pois utilizaram sua vitória sobre os homens em beneficio próprio e não para o bem estar de uma coletividade.20. tendo em vista uma intencionalidade pacifista subjacente. Durante o discurso. eram tidas como dissimuladas e mentirosas. resolvem tomar o poder das mãos do sexo oposto. Geldart. v. acabemos com a guerra”. propondo extinguir todas as desigualdades entre os cidadãos. Sem dúvida. v. M. 9 10 Caderno Espaço Feminino | v.. Porém. homens.8 Lisístrata aborda um importante grupo de personagens femininas. 1 | Jan.

1951. filha de Cronos e Réia. principalmente os sofistas. No final da trama. conhecida como deusa das flores. Ao longo de sua vida. 2009 . filha de Zeus e Deméter12 Em suma. tratava-se de uma reunião de mulheres em que os homens não podiam participar. chamado Eurípides. 111-112. p. Foi considerado um dos grandes nomes da tragédia grega clássica. através de sofismas. 21 | n. 69. v. Eram celebrações femininas em honra a deusa Deméter. uma sátira às teorias de certos filósofos. além de uma crítica às instituições e aos cidadãos de Atenas. uma das doze divindades do Olimpo. grupo de esposas legítimas. as mulheres de Atenas estão preparadas para celebrar sua festa chamada de Tesmophorias. as mulheres governaram a cidade de Atenas com a mesma eficiência com que cuidavam de suas casas. 13 GRIMAL. Assembléia das Mulheres representa. 220 GRIMAL. Pierre. Enfim. na obra As Mulheres que Celebram Tesmophorias. Nos últimos 124 Caderno Espaço Feminino | v. acusado de dirigir acusações infames contra as tesmophóras.11 Por fim. como Aristófanes. Atenas seria como uma única habitação na qual cada um poderia obter. Dicionário da mitologia grega e romana. um dos alvos de críticas prediletos do autor. p. através de fundo comum. graças a reformas de base como a comunidade de bens e de mulheres. 1978. uma das categorias femininas que integravam a polis ateniense. “Afinal de contas eu não ia fazer essa revolução para não me usufruir dela”. deusa das colheitas e das estações do ano. O personagem que se destacou como o espião da história é na verdade uma das personalidades da época. a protagonista expõe claramente que seus anseios pessoais estavam acima de ideais direcionados à igualdade coletiva.13 Desta forma. Inspiradas no princípio de uma relação entre a direção da coisa pública e do lar. como informado no início da peça. Também era uma festa em homenagem a Perséfone ou Koré. 1 | Jan. a personagem atinge suas finalidades. Trata-se de uma obra em que Aristófanes satiriza um estado imaginário administrado por mulheres.Personagens femininas nas comédias de Aristófanes: contribuições para os estudos de gênero na antiguidade grega 11 12 Ibidem. teve seu trabalho marginalizado e satirizado por autores. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. o necessário à sua subsistência./Jul. no qual tudo é de todos e as mais velhas têm prioridade para reclamar o amor dos jovens. observamos a indignação feminina contra Eurípides.

não poderíamos afirmar que se tratasse de algo de todo impossível15.. Marta Mega. conferirem às mulheres o governo da cidade. p. Segundo as perspectivas apresentadas neste trabalho. A fronteira do político se revela particularmente resistente. Não se trata do fato de que as ANDRADE. derrotar guerras e entregar suas vidas pela polis./Jul. foi uma fortaleza proibida. elevandoas à posição de cidadania. Por outro lado. Caderno Espaço Feminino | v. Rio de Janeiro: Laboratório de História Antiga. 21 | n. O fato de atores homens. para.. representações e imaginários. p. já existia em Atenas uma positividade em relação à presença feminina no espaço público. 2007. enquanto mulheres. por si só já caracteriza o fato. 2009 125 . por exemplo. 2001. ainda que apresentada de forma risível em Aristófanes. vestidos de mulher. de que o feminino não podia e nem reivindicava o direito. as personagens femininas Aristofânicas carregam uma série de simbologias. Segundo Andrade. Chegam a dirigir assembléias. como observamos na peça Assembléia das Mulheres. 14 Aristófanes retrata suas personagens. Com freqüência apóiam-se em seus papéis tradicionais. mesmo no âmbito da ficção.Giselle Moreira da Mata anos de sua vida. é necessário destacar a questão que o “travestimento” nos leva a deduzir. e ai tudo vai bem. é interessante versar as formas pelas quais ocorreram as apropriações políticas no espaço teatral em Aristófanes. 1 | Jan. . que o autor usa para questionar a identidade e os valores atenienses segundo suas próprias perspectivas. a comédia de Aristófanes ainda que assumisse uma irrealidade. Na Atenas de Péricles. de participarem da assembléia dos cidadãos. 14 15 16 Ibidem. Michelle. viveu recluso. por muito tempo. p.a política. Minha História das Mulheres. o que gera uma necessidade de refletir sobre a possibilidade de uma cidadania feminina na Atenas Clássica. os mecanismos da fabricação do feminino tendo como modelo ideal o masculino. 8.146. Para Michelle Perrot: agir no espaço público não é fácil para as mulheres. vestirem-se de homens.16 De acordo com Marta Andrade. A cidade das mulheres – cidadania e alteridade feminina clássica. 7. São Paulo: Contexto. Tudo se complica quando ousam agir como homens. discursando e votando como homens. PERROT. talvez em virtude de sua imagem ter sido denegrida ao longo de sua carreira.

é algo impensável. na vida política. que as mulheres possuíam um modo próprio de participação social. p. transmitindo informações e. O que não significa. 17 A participação efetiva da mulher na constituição políade. “uma pólis das mulheres”. as opiniões das esposas podiam. era vital a circulação de informações”.Personagens femininas nas comédias de Aristófanes: contribuições para os estudos de gênero na antiguidade grega 17 18 Ibidem. de fato. 19 20 Ibidem. centrado na figura masculina. LESSA. lugar da festa ritual. Para Fábio de Souza Lessa. mesmo na ficção e numa época de crise de valores. uma nova forma de governo. A participação nessas festas marcava o coroamento da vida cívico-religiosa feminina. Ibidem. encontravam a possibilidade de dialogarem entre si. p. Rio de Janeiro: Mauad. que não tivessem sido desenvolvidos espaços de fala feminina como esferas próprias de sua atuação social no interior da cidade18. Desta forma. entretanto. sensibilizar os maridos nas decisões que estes tomavam na Assembléia. particularmente quanto sua influência junto à família. categoria feminina abordada nas obras aristofânicas analisadas. Fábio. Alguns autores trabalham com a hipótese de uma participação da esposa. mulheres desejam para si o regime político. Afirma. simultaneamente. mesmo de forma indireta. p. através da evidência da presença feminina no espaço público. Semelhantes às personagens femininas das obras já analisadas neste trabalho. mesmo diante de uma circulação mais restrita. Tratando-se de uma sociedade de comunicação oral. em O Feminino em Atenas: “a mulher agia como elemento de integração social. 54. 1 | Jan. ainda. Nesta obra aristofânica. para muitos estudiosos. 146. disseminando informações que revitalizavam o processo de identidade junto ao grupo. o drama se concentra na Pnix.20 Já As Mulheres que Celebram as Tesmophorias se tornou um dos principais documentos pelos quais podemos observar a atuação feminina nos rituais oficiais citadinos. O feminino em Atenas. confirmando sua validade para a coesão e a estrutura da polis.19 As esposas. 2004. as mulheres da peça se 126 Caderno Espaço Feminino | v. 21 | n. se mantendo informadas acerca dos acontecimentos e dos saberes que circulavam na sociedade. 2009 . 66. existindo a possibilidade de serem reconhecidas pela sociedade por seu valor para coesão e prosperidade para Atenas./Jul. elas propõem uma invenção. p. 66.

como Medéia. o que torna as mulheres agentes históricos e não apenas um reflexo de submissão ao masculino21. no que se refere ao gênero feminino. 143 Caderno Espaço Feminino | v. entretanto. a Mélissa. Em Lisístrata. com as peças Lisístrata e Assembléia das Mulheres. As mulheres são astuciosas. Ibidem. em seu contexto social. propensas ao vinho e ao amor” 23. “Aristófanes chama a atenção para o fato de que não devemos nos enganar com elas. 54-57. sensuais. Procuramos demonstrar o feminino de uma nova forma. p. não estando atentos para a possibilidade de desvios ao modelo ideal feminino. A boa imagem de esposa legítima. 141. Foi também desta forma que as mulheres apareceram em outras obras no teatro ateniense. é possível pensar os mecanismos sobre os quais possam ter desenvolvido espaços específicos de validação social femininos. no seu aspecto civil. atuando na integração e funcionamento da Cidade-Estado. indispensáveis para procriar e cuidar da casa. personagem de uma tragédia de Eurípides ou simples esposas de Atenas. em Aristófanes. p. O que denota os mecanismos pelos quais podemos integrar a esposa ao exercício da cidadania. 21 22 23 Ibidem./Jul. Nesta acepção. p. Por intermédio das personagens femininas aristofânicas. fossem elas heroínas malditas. unindo homens e mulheres sobre um mesmo campo de estudo. valendo-nos das obras do teatro aristofânico. Ibidem. consiste na legalidade do ato de assumir o controle da cidade de Atenas. 21 | n. não deve nos enganar. tentamos traçar o que Claude Mossé chama de “retrato falado”22. 2009 127 . A diferença de As Mulheres que Celebram as Tesmophorias. O autor nos chama a atenção para uma realidade de mulheres menos ideais. 1 | Jan.Giselle Moreira da Mata revestiram de poder. tagarelas. Mélissa. perigosas e perversas. que viviam em uma sociedade cujo equilíbrio havia sido perturbado pelas guerras. na qual o coro feminino desempenha seu papel como imitação da Assembléia dos homens. As interpretações historiográficas tradicionais constituíram discursos que abordavam apenas os ideais culturais atenienses. Elas eram. como Lisístrata e Praxágora. a protagonista e suas companheiras contam com o jejum sexual para despertarem o desejo dos homens e forçá-los a celebrar a paz. por exemplo.

1 | Jan./Jul. A expressado dos tabus usuais ou palavras. Elas possuem um projeto comum. As três obras selecionadas neste estudo forneceram a dinâmica dos processos pelos quais o feminino se processa em Aristófanes. A cidade foi retratada no nível simbólico e metafórico. p. em geral. e ao mesmo 128 Caderno Espaço Feminino | v. realizam algumas funções na sociedade. ainda. Ibidem. no ritual homônimo ao próprio gênero cômico. Em Assembléia das Mulheres e Lisístrata apontam os homens e suas falhas. As personagens são atenienses cotidianas. Segundo Lessa: “A comédia e o humor.24 Sabendo disto. passando a conduzir a vida pública.27 Não obstante. As temáticas aristofanescas expressavam opiniões de grupos sociais tradicionalistas dos quais pertenciam. uma maior compreensão da vida cotidiana ateniense. p. tagarelas. 204. “Não que Aristófanes estivesse interessado em retratar a vida cotidiana. p. 166. As obras aristofânicas nos fornecem uma visualização das sensibilidades tradicionais em torno do feminino. por exemplo. elas aparecem controladas e representadas pelos homens. Lisístrata. 21 | n. o gênero cômico atuava reforçando as identidades dos grupos sociais. enganadoras. na ausência de seus maridos. além da inversão da ordem social normal estão presentes na comedia de Aristófanes”. o maior poder de ação registrado pelo gênero cômico25. 2009 . duvidosas. decidem o que farão com o tragediógrafo Eurípides. agindo a favor de ambos os sexos no sentido da restauração da vida pública. encontrando uma solução para recuperação de Atenas através de uma nova estrutura política. mas nela se encontra a matéria-prima de suas obras”. onde as mulheres encontravam-se inseridas. Em Lisístrata. 166. foi conhecida como a primeira peça protagonizada por uma personagem feminina. idéias e ações proibidas. Ibidem. p. elas representam. o feminino se tornou presente na polis. O teatro Aristofânico fornece.Personagens femininas nas comédias de Aristófanes: contribuições para os estudos de gênero na antiguidade grega 24 25 26 27 Ibidem. 169. através do teatro. todavia. Ibidem. na informalidade. dos espaços privados e públicos. Nicole Loraux ressalta que o teatro aristofânico define as mulheres como melhores26. caracterizadas como dissimuladas. Elas representavam a vida ateniense no seu dia-a-dia. Em As Mulheres que Celebram as Tesmophorias as esposas atenienses.

Aristófanes enfoca a presença feminina no espaço público. mas não ilegítima. não era reflexo da impossibilidade de uma polis de mulheres. a das mulheres. p. Aristófanes emerge a existência de uma outra Atenas. segundo Andrade “Aristófanes identifica essa possibilidade risível.Giselle Moreira da Mata tempo marcando suas alteridades. desta forma. 28 Ibidem. Com a abordagem de gênero em Aristófanes. estatuto que fundamenta a integração da mulher na polis”. no caso. Ocorre uma integração das mulheres no espaço masculino. Aristófanes deixa claro que o direito das esposas assumirem o poder político é legítimo. novas histórias emergiram e com elas percebemos uma dinâmica na sociedade ateniense. Elas são utilizadas. 1 | Jan. o domínio feminino está disposto dentro da cidade dos homens. Em suma. Os processos de comunicação das esposas nos permitiram vislumbrar que suas vidas como sujeitos históricos vão além do que a historiografia tradicional deixou registrada. mas numa época de crises. gerando coesão e integração dos mesmos. Caderno Espaço Feminino | v. demonstrando a extensão da comunicação das atenienses como um dos elementos de rompimento dos padrões idealizados estabelecidos na dinâmica da cidade. 125. 21 | n. As tesmóforas deliberavam no seu interior. por exemplo. Tratava-se de uma transposição do espaço privado para o público. Em As Mulheres que Celebram as Tesmophorias. em razão do feminino abordado. O riso. Prova da legitimidade de seus argumentos é o fato de não se tratar de qualquer mulher./Jul. Em meio às crises vivenciadas neste período. 2009 129 . os homens. mas as esposas. Elas governam a cidade com a mesma eficiência com que cuidam de suas casas. 28 Em Assembléia das Mulheres. como um recurso para salientar o outro. Os estudos de gênero Aristofânicos contribuem para que possamos alargar os horizontes quanto à vivência dos sujeitos históricos no período estudado trazendo novas reflexões para a historiografia. a atuação das mulheres foi legitimada ao longo dos anos por um discurso masculino que encerrava a vida das atenienses no gineceu.

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