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SUMÁRIO

DEDICATORIA...................................................................................................2

INTRODUÇÃO....................................................................................................3

1. BREVE ANALISE SOBRE: ASPECTOS HISTÓRICOS DO POVO


HEBREU......................................................................................................................................4

2 . EVOLUÇÃO DO DIREITO ..................................................................................................6

2.1. ESTELA DOS


ABUTRES............................................................................11
2.2. CÓDIGO DE URUKAGINA OU URUINIMGINA.........................................11
2.3. CÓDIGO DE UR-NAMMU..........................................................................12
2.4. CÓDIGO DE ESHNUNNA..........................................................................12
2.5. CÓDIGO DE LIPIT-ISHTAR.......................................................................13
2.6. CÓDIGO DE HAMMURABI........................................................................14
2.7. EGITO ANTIGO..........................................................................................16
2.8. LEI DO TALIÃO..........................................................................................17
2.9. DIREITO HEBREU.....................................................................................18
2.10. DIREITO GREGO.....................................................................................20
2.11. DIREITO ROMANO..................................................................................21

3. INTRODUÇÃO DOS VALORES CRISTÃOS NOS SISTEMAS NORMATIVOS......22

4. ESTADO LAICO VERSUSESTADO


ATEU..................................................24
5. EVOLUÇÃO DO DIREITO BRASILEIRO CONCERNENTE AO
PROTESTANTE................................................................................................26
5.1. PERSEGUIÇÕES AOS CRISTÃOS PROTESTANTES APÓS A
CONQUISTA DA LIBERDADE RELIGIOSA....................................................27
5.2. AMPLIAÇÃO DO DIREITO CONSTITUCIONAL DA LIBERDADE
RELIGIOSA NO BRASIL..................................................................................28
6. LIBERDADE DO DIREITO DO PROTESTANTE..........................................28
6.1. DIREITO DO MENOR.................................................................................32
6.2. ÂMBITO PENAL.........................................................................................32

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7. A LIBERDADE DE CULTO E POLUIÇÃO SONORA...................................34
7.1. IGREJAS CONDENADAS A PAGAREM MULTAS POR CAUSA DA
POLUIÇÃO SONORA.......................................................................................36
8. ASSISTÊNCIA RELIGIOSA..........................................................................38

9. CRENÇA RELIGIOSA...................................................................................40

9.1 A ESCUSA DE CONSCIÊNCIA........................................................................41


10. LIBERDADE DE REUNIÃO EM LUGAR PUBLICO...................................43

11. DESDOBRAMENTOS SOBRE LIBERDADES


RELIGIOSAS.....................................................................................................44

GLÓSSARIO.....................................................................................................47

BIOGRAFIA.......................................................................................................47

DEDICATORIA

Quero de forma pública expressar minha total gratidão em primeiro lugar ao DEUS
criador do universo e salvador da minha alma, pela graça concedida de elaborar esse
estudo aos meus amados irmãos. “Sem seu auxilio nada do que sou seria”.

Agradeço pelo apoio da minha amada esposa Geane Oliveira Melo, sempre presente,
nos momentos de tristezas e alegrias. Minha mãe e pai que são um canal de benção
para minha vida com seus cuidados. Ao meu querido pastor José de Ribamar e
família, que muito contribuí, de forma direta e indireta com meu ministério.

Agradeço também a igreja Assembleia de DEUS em Augusto Corrêa-PA, onde nascir


espiritualmente, e aos meus amigos ali presentes. A congregação Maranata em
Augusto Corrêa-PA, lugar de muitas experiências com DEUS. A Assembleia de DEUS
em Paraiso do Murinin ao qual sirvo hoje como Pastor Auxiliar.

Agradeço ainda aquelas pessoas que de forma direta e indireta contribuem com meu
ministério, muitos nomes não estão escritos nessa folha de papel, mas estão
guardados na minha memória.

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Ao PAI, ao FILHO e ao ESPÍRITO SANTO seja toda honra e glória para todo sempre
Amém.

INTRODUÇÃO

Como igreja, somos peregrinos em um mundo que jaz no maligno, temos certeza que
nossa pátria não é daqui, porém como vivermos em um país laico regido por leis
humanas, devemos ser exemplo de obediência a essas leis, pondo em ponderação as
leis do Reino de DEUS com as leis humanas. Devendo prevalecer sempre as Leis de
DEUS.

Nesse estudo aprenderemos a lidar com as leis brasileiras em um contexto social,


cultural e jurídico. Descobriremos quais benefícios de conhecermos melhor nossos
direitos conforme a constituição em uma primeira analise. Como pessoas vivendo em
uma sociedade capitalista, onde os valores são invertidos, precisamos nos portar de
forma exemplar, lembrando sempre que quando ocorrer conflito de uma lei humana
com a Lei de DEUS, devermos nos manter fiéis a DEUS, mesmo que isso acarrete
consequências penais sobre nós.

Nossa abordagem abrange a evolução do direito pré e pós CRISTO até a atualidade
brasileira. Liberdade de pensamento, religiosa, de prestação de serviço religioso e
muito mais.

Ore a DEUS e medite no estudo do DIREITO CRISTÃO NA ATUALIDADE


BRASILEIRA. Descubra seus direitos, seus limites e como vencer os conflitos, com
argumentos alicerçados na fé cristã e no direito constitucional. JESUS certa vez
ensinou aos seus discípulos “sejam simples como a pomba e prudentes como a
serpente”.

Autor: Pr Thiago Santos Melo

Pastor Auxiliar na Assembleia de DEUS em Paraiso do Murinin – Benevides - PA

Registro na COMIEADEPA n° 2959

Registro na CGADB nº 87773

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Acadêmico de Direito pela faculdade Estácio-PA

Bacharel em Teologia pela Filemom Escola Superior em Teologia

BREVE ANALISE SOBRE: ASPECTOS HISTÓRICOS DO POVO HEBREU

Tendo como tema central nesse estudo o direito cristão, e necessário abordar sua
evolução no tempo, iniciando no povo que é o berço do cristianismo, o povo Hebreu.
Conforme ensina Gusso, (Gusso, Antônio Renato.2003,p.20), apud Johnson, op.
Cit.,p.36, em sua obra Panorama Histórico de Israel:
“De fato Israel aparece, pela primeira vez, como povo em uma inscriçã o datada
como sendo de 1220 a.C., onde o Faraó Mernepta conta suas vitó rias. A vitó ria
pode nã o ter acontecido, pois os Faraó s apresentavam até derrotas como triunfos,
mas a citaçã o prova que Israel já estava fora do Egito por esta época”

No entanto, continua o autor, não é de concordância geral a maneira como Israel se


tornou uma nação. Gusso (apud Johnson) refere que o nascimento da nação
aconteceu no exato momento em que Jacó teve seu nome mudado, por Deus, para
Israel, conforme narrativa de Gênesis 32:22-32 (Bíblia Sagrada, 2000). Mas fazendo
um contraponto, o autor pontua que o mais provável é que, eles, ainda que numerosos
por essa ocasião, não passavam de uma família ou clã que viria a se tornar um povo e
uma nação em especial mais tarde.
Segundo o Historiador Flávio Josefo em sua obra A História do Povo Hebreu,(Josefo,
Flávio, 2004. p.101), na verdade, quando Moisés libertou o povo hebreu escravizado
do Egito, “À multidão do povo podia-se dizer inumerável, pois além das mulheres e
crianças, havia seiscentos mil homens capazes de pegar em armas”
Também é interessante ressaltar o relato bíblico no livro de Êxodo cap.12 sobre a
celebração da festa da Páscoa, que ainda é hoje tradição no meio da nação de Israel
e do povo judeu, lembrando o acontecimento histórico da sua saída do Egito, como
escravos, para uma vida de liberdade. Essa celebração é anual, no dia determinado
pelo Deus dos Hebreus, dia da páscoa.
A festa da páscoa diz respeito, segundo as tradições judaicas, à libertação da
escravidão no Egito, dia em que partiram rumo à terra de Canaã, sob o comando de
Moisés, líder espiritual.
É da mesma forma celebrada na atualidade por quase todas as nações do mundo
ocidental, com algumas diferenças no seu significado.
No meio cristão refere-se, diferentemente do modo judaico, à libertação da escravidão
do pecado para a liberdade em Cristo, que, segundo as narrativas bíblicas e as
tradições, ressuscitou dos mortos exatamente no dia da celebração da Páscoa em
Jerusalém: “O que torna Cristo o cordeiro Pascoal, a Páscoa em si, para o
cristianismo” (Paulo; I Coríntios 5:7, Biblia).
A festa é celebrada, portanto, no mesmo dia a cada ano, tanto para judeus como para
os cristãos, como se pode observar. Para cristãos representa a passagem da morte

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para a vida; para os judeus, a passagem da escravidão no Egito para uma vida de
liberdade. O que condiz perfeitamente com o significado da palavra Páscoa que quer
dizer passagem (Pessach no hebraico) (ibid.I Coríntios 5:7-8 e Ex. 12).
Sabe-se, pelos relatos bíblicos, que o Cristianismo se originou do Judaísmo, o que faz
com que os valores de ambos sejam os mesmos, no sentido da ética.
Essa libertação do Egito, segundo o historiador Flávio Josefo (ibid. 2004,p. 102) levou
o povo hebreu a uma situação inusitada, onde o povo viu-se rodeado de todos os
lados pelo exército dos egípcios, composto de seiscentos carros de guerra, cinquenta
mil cavaleiros e duzentos mil homens de infantaria bem armados, não lhes sendo
possível escapar, porque o mar os cercava de um lado e uma montanha inacessível,
com rochedos que se estendiam pela praia, de outro. Refere o autor: “Eles tampouco
podiam combater, porque não tinham armas, nem resistir a um cerco, porque já
haviam consumido todos os víveres. “Pode-se concluir dessa forma, que não havia
outra solução humanamente possível senão entregar-se nas mãos dos egípcios!
A reação do povo diante de tal situação foi de incredulidade e de revolta contra
Moisés. Mas o grande líder os convenceu a deixar as dúvidas, pois segundo ele:
“Deus quer ser o defensor do seu povo... o qual Ele ama e zela e pode tornar grande o
que é pequeno e fortificar o fraco”(ibid., p. 103).
Assim, com a ajuda e intervenção divinas os israelitas passam o mar vermelho a pé
enxuto. O exército dos egípcios, querendo persegui-los, nele perece completamente
(ibid.,p.103).
Flávio Josefo, como o mais famoso historiador judeu da antiguidade, ainda reitera na
sua narrativa (ibid.,p.105):
“Narrei aqui tudo em particular, segundo o que encontrei escrito nos Livros Santos.
Ninguém deve considerar como coisa impossível que homens que viviam na
inocência e na simplicidade desses primeiros tempos tivessem encontrado, para se
salvar uma passagem no mar, quer se tenha ela aberto por si mesma, quer tenha
acontecido pela vontade de Deus, pois a mesma coisa aconteceu algum tempo
depois aos macedô nios, quando passaram o mar da Panfília, sob o comando de
Alexandre, e quando Deus se quis servir dessa naçã o para destruir o império dos
persas, como o narram os historiadores que escreveram a vida desse Príncipe.
Deixo, no entanto, a cada qual que julgue como quiser.”

Moisés atribuiu o fato, segundo os relatos bíblicos, a uma ação particular de Deus.
Flávio Josefo, como historiador, no entanto, se afasta do sentido sobrenatural ou
religioso dos fatos, usando sua imparcialidade de cientista histórico, para narrar os
fatos, conforme suas pesquisas na época. Assim se abstêm de qualquer conotação de
fé ou religião, quando de forma neutra reitera: ...” cada qual que julgue como quiser”.

Dessa forma, pode-se inferir com o autor, que Israel surgiu, na verdade, inicialmente,
como um povo nômade, que vagava pelo deserto em busca da terra prometida por seu
Deus, para se estabelecerem como nação ao chegarem ao seu destino, Canaã. Essa
região é ocupada na atualidade pelo país de Israel, Estado Democrático de Direito,
estabelecido pela ONU em 1948, após a segunda guerra mundial, como refúgio para
os judeus, os quais padeceram horrores na segunda guerra, através do holocausto
nazista.

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O ápice dessa jornada israelita no êxodo pelo deserto se dá, pelos relatos, tanto de
Josefo, quanto da Bíblia, em Êxodo 19, pelo acontecido no monte Sinai:
Moisés subiu ao monte Sinai, chamado também Horebe, onde perante os olhos
deslumbrados do povo, que em volta do monte tudo contemplava, e lá recebeu de
Deus as tá buas da lei. Duas tá buas que continham escritas pelo dedo de Deus os
Dez Mandamentos. Essa era a lei mosaica, entregue ao povo por Deus através de
Moises, a fim de que o povo tivesse sua primeira lei, que estabelecia assim um
parâ metro de ordem, normas de relacionamento para a paz coletiva, o equilíbrio
social e a sobrevivência do povo.

Mais tarde, nos textos bíblicos mosaicos ainda receberam outras leis de caráter
sanitário, como “o aterro fora do arraial”, que tinha a função de evitar que os detritos
humanos contaminassem o povo; leis de caráter social, como por exemplo, libertar
escravos, mesmo sem o pagamento integral de suas dívidas, após, no máximo sete
anos de escravidão, conforme o exposto no texto bíblico em Deuteronômio, 5º livro
escrito por Moisés, cap.15,v.12; Além de leis de aspectos rituais da religião e de
higiene, que não entram em questão no presente tema proposto.
O relato dos Dez Mandamentos encontra-se em Êxodo 20 no texto bíblico, bem como
nos relatos do historiador Flávio Josefo (ibid. passim).
Cabe ressaltar que não se pode falar de história do povo hebreu sem citar seu livro
sagrado, a Torah, (que são os cinco primeiros livros da Bíblia). E nem se deve fazer
referência aos valores judaico-cristãos sem se atentar ao acontecimento do monte
Sinai, onde, no deserto, surgiu o mais perfeito e abrangente sistema normativo
documentado de que se tem notícia, que, como será estudado mais adiante, ainda faz
parte das leis dos povos contemporâneos: Os Dez Mandamentos!
Antes de se iniciar o estudo em si das leis mosaicas nos ordenamentos jurídicos e seu
aperfeiçoamento pelo cristianismo, é de vital importância traçar um paralelo com os
ordenamentos jurídicos primitivos, anteriores à lei mosaica, a fim de se traçar uma
análise comparativa de ambos.
A Lei Mosaica veio inaugurar a era do direito humanístico. A Primeira referência
positivada aos direitos humanos na história da humanidade: o outro passou a ser visto
como semelhante, um cooperador e não como um adversário de guerra.

EVOLUÇÃO DO DIREITO

Segundo Albergaria, Bruno na sua obra Histórias do Direito, (Albergaria, Bruno. 2011,
p.12-26), o ser humano há cerca de 12 mil anos era caçador e coletor. Lutava
diariamente pela alimentação, pela sua sobrevivência, que era sua maior fonte de
preocupação.

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O ser humano era essencialmente nômade, ou seja, não se fixava definitivamente em
nenhum lugar. Ele se estabelecia provisoriamente onde havia animais para a caça ou
vegetais para coletar, como frutas, raízes, vegetais em geral. Assim o homem primitivo
era considerado nômade, caçador e coletor.
As guerras, lutas e disputas eram em geral motivadas para garantir o melhor local para
sobreviver, que estava associado ao melhor lugar onde conseguisse boas condições
para alimentação e abrigo.
Quando os alimentos acabavam o homem se deslocava para local diferente. No
entanto, provavelmente alguns indivíduos resolviam não seguir os demais e ficavam
para trás. Para se manterem vivos foram gradualmente desenvolvendo formas de
cultivo e começaram também a domesticar e criar animais para seu sustento. Com
esse processo iniciou-se assim aos poucos uma agricultura precária, o pastoreio e a
consequente fixação de aglomerados, as tribos.
Através de estudos arqueológicos, comprovou-se que já a partir de 10 mil anos
a.C., as primeiras plantações de que se tem notícia foram figos no vale do rio
Jordão e as de trigo e cevada na Mesopotâmia. Aí também o homem iniciou a
domesticação e pastoreio de cabras, ovelhas, carneiros, porcos etc. Dessa época
datam as primeiras pinturas em cavernas, cuja história retratava geralmente situações
do quotidiano como as caçadas ou as guerras.
Nessa época também, todos os continentes praticamente já estavam povoados, com
exceção da Antártica. Presume-se que o artefato de cerâmica mais antigo
encontrado até hoje, localizado no Japão, seja de 12 mil anos antes da era
Cristã.
A cidade antiga, ou seja, cidade templo mais antiga encontrada pelos
arqueólogos chama-se GöbekliTepe, localizada na Turquia. Essa, data de 11 mil
anos antes de Cristo.
O pão e a cerveja são os manufaturados mais antigos e datam de aproximadamente 9
mil anos antes de Cristo, da mesma época da cidade templo GöbekliTepe. Também
nesse período a cidade de Jericó, considerada a primeira cidade murada, é levantada.
A mesma está situada próximo ao rio Jordão e a 30km de Jerusalém.
Há 10 mil anos, o feijão, a batata e a pimenta já eram cultivados nas Américas. E
nessa mesma época o boi e o gato eram domesticados no Egito.
Por volta de 6 mil anos o arroz começou a ser cultivado na Tailândia e China e logo se
espalhou pela Europa.
Em meados de 5.500 a.C. o sistema de irrigação foi desenvolvido e utilizado pela
primeira vez na Mesopotâmia, bem como a criação do arado. O vinho foi também
nessa época pela primeira vez produzido na Pérsia. A população mundial era de
aproximadamente 5 milhões de pessoas.
Ainda se tratando da pré-história, quando o homem ainda não havia desenvolvido a
escrita, já havia a necessidade imperativa de criação de regras de conduta impostas
pelos primitivos grupos sociais, para o melhor convívio dessa comunidades.
Pode-se, portanto, inferir com o autor que o Direito (pré-histórico) é mais antigo que a
escrita. Um dos pilares da evolução humana e de sobrevivência dessas comunidades
pré-históricas foi a criação de regras de conduta para o melhor convívio social.

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Esse direito não era naturalmente baseado em lei escrita, pois não havia ainda surgido
a escrita, era um direito baseado em costumes (consuetudinário) e oral.
Como não havia escrita, não se encontram achados de documentos escritos relativos
a essa época.
Mas há métodos utilizados a fim de se estudar o direito pré-histórico, que são:
A arqueologia, pela pesquisa de materiais como fósseis, artefatos, cerâmicas,
monumentos, cidades soterradas etc., o que restou da cidade e da vida desses povos,
como objeto de pesquisa, para saber como viviam de fato.
 A comparação, pois ainda existem povos que não desenvolveram a escrita.
Documentos antigos que relatam a existência e a vida de outros povos, como viviam e
se organizavam, sobre o direito e a sociedade da época.
Dessa forma pode-se entender e estudar algumas características do saber jurídico
desses povos:
Por não existir a escrita, o saber jurídico e o conhecimento eram transmitidos
oralmente de geração em geração. Havia assim adágios, provérbios, e canções
populares que iam passando de geração em geração, oralmente.
O costume era a lei principal, a sanção era o desprezo, o isolamento ou até o
banimento ou morte do infrator.
É interessante observar que ainda hoje existem comunidades indígenas que não
dominam a escrita e nem por isso vivem num caos: Eles tem suas regras de conduta
apropriadas para seu estágio de desenvolvimento.
O moderno estado humanista de direito tenta preservar essas comunidades e a cultura
desses povos, como é o caso, por exemplo, dos aborígenes na Austrália e várias
tribos na Amazônia no território nacional brasileiro.
Quando essas comunidades aprendem a escrita elas deixam de existir como tais e o
problema se torna mais complexo do que parece: elas deixam de existir com suas
características culturais peculiares.
Sabe-se que a plena cidadania depende da escrita, da cultura, do acesso à educação
e à informação e do desenvolvimento humano. Por outro lado essas culturas, com o
advento da escrita, seriam extintas em determinados aspectos de sua cultura, o que
fala contra a diversidade cultural e o respeito ao princípio da autodeterminação dos
povos!
Destarte, o estado humanista de direito democrático encontra-se diante de um
impasse problemático: preservar essas culturas, mesmo sendo privadas de uma plena
cidadania, com a proteção do estado, ou inseri-las na civilização do mundo
globalizado?  Ainda não existe um consenso geral sobre isso, pois é uma questão de
extrema complexidade. Há que se considerar também que os países ditos “civilizados”
tiveram seu período de barbárie e que a humanidade passou pelo processo de
desenvolvimento da pré-história, sem a escrita, para a história, com a escrita.
Essas tribos em questão tem suas regras próprias, seus valores e costumes que as
tornam equilibradas. Elas resolvem seus conflitos segundo o direito consuetudinário.

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A diversidade cultural dos povos é um ponto tão importante a ser considerado em
relação à essas culturas, quanto a influência nas mesmas dos benefícios que o
aprendizado da escrita poderia trazer.
 Talvez possa se chegar a um meio termo ou a um consenso: Mantê-las com suas
culturas, mesmo introduzindo a escrita, tentando preservá-las ao máximo, para que
não entrem em extinção, seria talvez uma opção mais plausível. É tema para se
refletir, discutir e decidir, juntamente com as próprias comunidades em questão. As
mesmas podem e devem decidir seus destinos. Esse pode ser um aspecto a ser
considerado pelas nações que enfrentam esses dilemas.
É importante destacar, portanto, que sistemas normativos da antiguidade permanecem
ainda incólumes na atualidade e são causa de discussões e polêmicas sobre sua
sobrevivência e a questão da inclusão ou não da escrita nos mesmos. Outro problema
que é um dilema é a dificuldade da inclusão social desses povos na sociedade
contemporânea, de forma que vivam com plena dignidade e soberania.
A ética cristã seria um importante instrumento norteador na solução desses problemas
complexos, posto que o grande lema deixado por Jesus Cristo, a saber: “Tudo que
quiserem que te façam, faças também ao teu próximo, esta é a lei e os profetas”
(Bíblia, MT. 7:12), sendo observado, não iria prejudicar esses povos na sua
integridade cultural, nem na sua dignidade humana. Ambos os aspectos da
problemática relatada deveriam ser considerados para que eles não sejam
prejudicados ou dizimados.
Tais considerações levam à reflexão de que ordenamentos primitivos ainda subsistem
e que carecem de mudanças para o bem comum e a inserção social de suas
comunidades.
Na esfera do Direito Penal, por outro lado, há características marcantes e
diferenciadas, que vale a pena também serem ressaltadas:
Na obra Teoria do Crime (Geraldo da Silva, José,2007,p.7), no seu estudo sobre a
história do direito penal, o ator explana: “A história do direito penal é a história da
humanidade” (apud E. Magalhães Noronha), sendo esse o ramo mais antigo do direito.
Tal afirmação leva a refletir sobre os aspectos históricos dessa área em particular das
ciências jurídicas.
A vingança privada foi, de acordo com o autor, a primeira fase de evolução do
direito penal (Gn 4.15. Lv 24.19 e 20). O direito de vingança era assim exercido pelo
próprio ofendido e a sociedade não participava da medida retributiva desde a pré-
história (. Muitas comunidades, tribos e famílias foram extintas devido ao processo da
vingança em particular, como meio de solução de conflitos.
Ainda segundo o mesmo autor (ibid., p.8), a vingança ultrapassava, na maioria das
vezes a pessoa do agressor, atingindo sua prole, ou qualquer outra pessoa da família.
A mesma satisfazia apenas o ego do agredido.
Na vingança privada poderia haver, na maioria dos casos, uma desproporção entre a
conduta criminosa e a resposta do agredido. Como, por exemplo, em resposta a um
tapa, o agredido poderia tirar a vida de seu agressor! Nítida desproporção entre a
agressão e o revide. Não havia qualquer compromisso com a verdadeira justiça, nem
com a proporcionalidade.

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Destarte, com a evolução de processos históricos e sociais, para que tribos inteiras
não fossem dizimadas por conta da vingança, o homem chegou, após a compilação
gradual de sucessivos códigos, à necessidade de desenvolver um primeiro código com
razoável aplicação da pena, no que se refere à equidade (proporcionalidade): A lei do
Talião, (que será estudada mais adiante). Com a lei do Talião iniciou-se assim uma
evolução marcante no que toca ao convívio entre os povos antigos, na busca de uma
convivência mais harmônica e maior garantia para a sobrevivência das tribos. O senso
de justiça comum era assim infundido e evitavam-se guerras e conflitos armados, que
eram muito frequentes: nasceu assim com a lei do Talião o Instituto da
Proporcionalidade.
No entanto, a descoberta da escrita foi anterior ao período da lei do Talião, foi um
processo gradual e dinâmico e inaugurou a era da História. Até a invenção da escrita
os códigos eram orais, não respeitavam a proporcionalidade e não tinham um senso
comum ou racional de justiça. A escrita foi um marco importante para a história do
direito, como para a humanidade, no seu processo evolutivo como um todo. Da pré-
história entra-se enfim na era da história!  Sendo assim,pode-se observar, pelos
estudos antropológicos, que mesmo com a introdução da escrita, os sistemas
normativos eram muito rudimentares e impostos pelas autoridades, no caso o rei, que
era juiz e legislador ao mesmo tempo. Eram úteis naquelas comunidades, na sua
época e em seu contexto de vida. Mas não conservavam um núcleo de valores
fundamentais que se perpetuaram através da história!
Na era da história, o homem começou progressivamente a documentar seus feitos e
registrar suas culturas e características, suas leis, suas histórias, com o passar do
tempo.
Um dos primeiros registros históricos da escrita se deu por volta de 4000 a.C., como
os ideogramas da Escrita Vinca e as Tábuas de Tartária. Os desenhos eram como
ideogramas.
A escrita representativa se origina primeiramente na Mesopotâmia, pela escrita
cuneiforme, por volta de 3000 a.C.; os egípcios com os hieróglifos, 2800 a 2700 a. C.,
os romanos cerca de 600 a.C.; os germanos 500 d.C. Algumas tribos brasileiras por
volta de 1900 d.C.!  Até os dias de hoje. Há portanto grande diversidade mundial
quando se fala em domínio da escrita e do aprendizado em geral.
Os primeiros documentos de que se tem notícia são as escritas cuneiformes na
Mesopotâmia. Dessa forma, portanto, a Mesopotâmia é considerada o berço da nossa
civilização.
Além da escrita, a proximidade dos rios facilitou o desenvolvimento da irrigação e da
agricultura. Nessa região. A sociedade era composta por classes de mercadores,
artesãos, comerciantes e sacerdotes. Progressivamente as tribos foram se
transformando nas primeiras cidades da humanidade.
Essas cidades pouco a pouco se transformaram em cidades-estados e posteriormente
em nações e impérios. Uma das principais cidades da Mesopotâmia dentre outras foi
Ur, que chegou a ter perto de 200 mil habitantes.
DETALHE EM DESTAQUE

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Muitos pactos, alianças entre outros ritos presentes na torah (pentateuco) tem amparo
nas legislações da época, que orientava as relações civis e penais da sociedade.
Exemplos: Pacto entre Abimeleque e Abraão (Gn 21. 22-32).
Agar é dada por mulher a Abraão (Gn 16. 3 e 4). Naquela época, a mulher era sempre
a culpada (mesmo que a estéril não fosse ela). Assim, quando ela não conseguia
gerar filhos, seu marido podia divorciar-se e casar com outra. A manobra desesperada
de Sarai para ter um filho por meio de Agar seguia os padrões da época, que
considerava como legítimos filhos do casal os filhos das escravas com seus senhores.
No dia do nascimento, a mulher sem filhos se despia e ficava próxima à mãe que
estava dando à luz. Quando a criança vinha ao mundo, esta era colocada sobre o
ventre da mulher despida. O ritual indicava que a criança nascera em interesse
daquela que não podia ter seus próprios filhos.
O caso de Tamar (Gn 38.6-10). A lei do Levirato e aplicado aqui; de acordo com essa
lei, quando um homem casado morresse sem ter um filho homem, o irmão ou parente
mais próximo deveria casar com a viúva e suscitar nela um filho e herdeiro do primeiro
marido.
Benção patriarcal da primogenitura (Gn 27.19-40). Era o costume social baseado nas
leis da época de conceder ao primeiro filho nascido o direito natural de suceder ao pai
como chefe supremo da família. Da mesma forma que um príncipe herda o direito de
torna-se rei, a primogenitura não é baseada em mérito ou talento, mas apenas na
condição de um filho ter nascido primeiro. Acreditava-se que essa benção era
irrevogável, depois de proferida não poderia ser desfeita. Vale destacar que DEUS não
estava limitado a essa regra, pois em vários momentos na bíblia, percebemos DEUS
agindo diferente e dando as bênçãos, que eram para o primogênito para outro filho,
como no caso de Jacó (Gn 25.23), e de José (Gn 37.5,9).
Benção patriarcal (Gn 49). Costume baseado também nas leis vigentes da época, o
pai proferia a cada filho uma benção profética, que se acreditava acompanhava o filho
por toda a vida.
O senhor não poderia expulsar o filho da escrava segundo a lei da época,
Abraão só fez isso porque o próprio DEUS ordenou.
Uma das grandes diferenças, entre as leis pagãs vigentes, e as leis que DEUS deu ao
seu povo, na época do Pentateuco, era o politeísmo, pois Israel recebeu o
monoteísmo presente nas ordenanças legis.
Nesse contexto, surgem as primeiras normas escritas na Mesopotâmia, dentre as
quais se podem destacar:

ESTELA DOS ABUTRES


O mesmo encontra-se atualmente no museu do Louvre, Paris. Datada de 2450 a.C. é
considerado o mais antigo tratado internacional já encontrado.
Nesses blocos de pedra estão documentados em escrita cuneiforme a História dos
conflitos recorrentes entre as cidades-estados vizinhas de Ur, como Lagash e Umma.
Há a descrição da vitória de Lamesh sobre Umma, como determinação humana e
proteção divina.  A Estela dos Abutres é um tratado entre esses dois povos após a

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guerra, traçando os limites, para que o vencido rei de Umma, não invadisse mais o
território do vencedor, o rei de Lagash.
Pode-se concluir que esse era apenas um tratado de paz, que fixava os limites
territoriais entre dois povos, após uma guerra acirrada.
CÓDIGO DE URUKAGINA OU URUINIMGINA
Bruno Albergaria (ibid. p.18) relata que esse código é datado de 2350 a.C.,sendo um
dos primeiros códigos documentados de normas jurídicas. Contudo jamais foi
encontrado. Isso deixa uma lacuna em relação ao contexto em que foi escrito, bem
como em relação à codificação de suas normas e seus conteúdos.
O que se conhece a respeito do mesmo vem através de outros textos, que lhe fazem
referência.
Sua principal característica, segundo os relatos, é o combate à tirania e uma
valorização da liberdade. A ideia de liberdade individual faz-se valer pela primeira vez
na antiguidade, o que denota um avanço nas leis da época.
Naquele contexto a terra era considerada uma propriedade dos deuses e não havia a
concepção de título de propriedade.
Na mesma época havia tribos que eram animistas e tinham a natureza como objeto
sagrado de adoração. No século XVIII e ainda na atualidade existem tribos indígenas
na América do Norte com essa concepção do sagrado que envolve a natureza, o
conceito da mãe terra, de onde lhes provia o sustento.
Esses aspectos marcavam suas culturas e códigos de leis nas normas de convivência,
em busca da pacificação social.
Tais características animistas podem ainda hoje em dia ser observadas em algumas
culturas tribais na África.
CÓDIGO DE UR-NAMMU
Uma placa de argila de 10cm x 20cm, é o principal artefato encontrado desse código,
escrito em língua suméria, datada de 2100-2050 a.C., descoberta em 1952 d.C.
Outros fragmentos do código também foram encontrados na Mesopotâmia. Faz
referência ao rei Ur-Nammu, da cidade de Ur. A compilação do mesmo foi feita por seu
filho Shulgi. É considerado atualmente o “Código” jurídico mais antigo já encontrado.
Nessa época os reis eram adorados como divindades, o sagrado e o animismo nas
superstições faziam parte de seus valores e regras de convivência.
Dentre algumas normas desse código se destacam:
1. Se um homem cometer um assassinato esse homem deve ser morto
2. Se um homem rouba, deve ser morto.
3. Se um homem viola o direito de outro de deflorar sua mulher, ele poderá matar o
violentador.
Desse código, das 57 normas jurídicas, somente umas 30 foram traduzidas, devido à
deterioração do bloco.
No prólogo, o rei é aclamado como estabilizador das regras. Uma das interessantes
características do código de Ur-Nammu é a aplicação de penas pecuniárias para

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alguns tipos de delito; Deu-se início assim ao instituto da indenização. Pode-se
observar, no entanto, que o mesmo não respeitava o princípio da proporcionalidade.
Um dado histórico interessante é que a cidade de Ur foi a cidade natal de Abraão
(ibid., p.20).
CÓDIGO DE ESHNUNNA
Datado de aproximadamente 1930 a.C., nasceu após a divisão da Babilônia em vários
estados ou cidades-estados, sendo que muitas delas se tornaram inimigas entre si.
Eshnunna destacou-se entre as demais por sua importância econômica e política.
Contém aproximadamente 60 artigos-parágrafos com temática variada.
Os textos foram compilados em duas placas de argila, duplicadas, tendo sido
encontradas em Tell Abu Harmal, sul de Bagdá, Iraque, em 1945 e em 1947.
Pelo texto pode-se observar que a sociedade da Mesopotâmia na época era
constituída de três importantes grupos sociais: o homem livre, os escravos, e
osmuskenum, uma classe social situada entre livres e escravos, apesar de livres eram
oprimidos por serem pobres. Previa a interferência do poder real na esfera econômica,
para estabilizar o custo de vida e minorar o sofrimento das classes desfavorecidas.
Alguns trechos:
Art. 12-O Awilum (livre) que for apanhado no campo de um muskenum (pobre) ao
meio dia junto dos feixes de grã o: pesará dez siclos de prata (indenizaçã o). O que
for apanhado, de noite, junto aos feixes de grã o, morrerá , ele nã o viverá .
Art. 23- Se um awilum nã o tem nada contra um outroawilum, mas penhora a
escrava desse awilum, retém o penhor em sua casa e lhe causa a morte: ele
restituirá duas escravas ao proprietá rio da escrava.
Art.60- Se um vigia foi negligente na guarda de uma casa e um ladrã o arrombou-a:
o vigia da casa que foi arrombada será morto e, sem sepultura, será enterrado
diante do lugar do arrombamento.

Observa-se aqui também a falta de proporcionalidade entre a transgressão e a pena


(sanção). A sanção era muito severa e havia penas cruéis.
CÓDIGO DE LIPIT-ISHTAR
Esse código tem a data provável em torno de 1870 a.C. (ibid., p.25).
Considerado o segundo código mais antigo já encontrado, seu nome provém do seu
autor e legislador, o rei Lipit-Ishtar que governou entre 1934 e 1924 a.C. na cidade de
Isin, hoje localizada no Iraque.
Trechos:
3-Se um homem é casado e desse casamento há filhos vivos, e uma escrava também
dá filhos ao seu amo e o pai concede à liberdade a escrava e aos seus filhos, os filhos
e a escrava não dividirá a propriedade (herança) com os filhos do seu amo (Gn 21.14).
6-Se um homem alugou um boi e danificou o seu olho, ele vai pagar metade do seu
preço.
8- Se um homem alugou um boi e quebrou o seu chifre, ele deverá pagar um quarto
do seu preço.

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9-Se um homem alugou um boi e danificou a sua cauda, ele vai pagar um quarto do
seu preço.
Pode-se analisar, pelo seu conteúdo, que esse código versava sobre questões gerais
do quotidiano que iam sendo apresentadas, de forma individualizada e ocasional, não
havendo, portanto, uma diretriz programática unificada. Era uma “colcha de retalhos”.
Versava de forma pontual sobre questões de propriedade e conflitos que se
apresentavam diante do rei, juiz e legislador ao mesmo tempo. Aquele governante que
detinha o poder da vida e da morte, como na maioria das civilizações antigas, era a lei.
Havia ainda outros códigos como o código de Gortina, dentre outras legislações
gregas, entre elas a cretense, que permitia até a morte do adúltero surpreendido em
flagrante (vingança privada)
O Código de Manu, da Índia, que condenava o adúltero (a) a “ser queimado sobre um
leito de ferro aquecido ao rubro e que os executores alimentem, incessantemente o
fogo com lenha até que o perverso seja carbonizado”
Vê-se mais uma vez a desproporcionalidade e a vingança privada, características
marcantes do senso de justiça comum da época, principalmente na esfera do direito
penal. Não há que se falar em justiça, mas sim em vingança, que poderia ser ou não
privada. De qualquer forma a mesma seguia os costumes e rituais da época nessa
sociedade.
CÓDIGO DE HAMMURABI
Normas anteriores à lei do Talião não apresentavam o instituto da proporcionalidade,
que levava ao equilíbrio entre a ofensa e a sanção imposta.
A sanção era quase sempre desproporcional ao delito ou infração normativa.
Mas também trazia artigos em que havia núcleo de proporcionalidade e que foram
mantidos pela Lei do Talião:
“Se alguém tira o olho a um outro, dever-se-á tirar-lhe o olho”
(Olho por olho, dente por dente).
Segundo Albergaria (ibid. p.27), esse código é considerado o documento jurídico mais
importante do mundo antigo, antes da Grécia Clássica. Foi encontrado na cidade de
Susã em 1902 e encontra-se atualmente, como um sólido monólito de pedra no museu
do Louvre em Paris.
É um bloco monolítico estela-de pedra com 2,5 m de altura por 1,60m de
circunferência na parte superior e 1,90 na sua base. A legislação abrange 281 leis em
3.600 linhas, tudo em escrita cuneiforme.
Nessa época o rei Hammurabi (1726-1686 a.C.) unificou a Mesopotâmia, Babilônia, e
a unidade política entre os semitas e os sumérios trouxe o ápice e o esplendor dessa
civilização.
Alguns princípios jurídicos são até hoje utilizados advindo desse código, como a
publicidade (o código era visível a todos).
Havia no entanto muitos aspectos da vingança privada na esfera penal e desigualdade
das classes sociais dessa sociedade, que era dividida entre homens livres, a classe
intermediária (pobres) e os escravos propriamente ditos.

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O Rei era visto como figura sagrada, senhor da vida e da morte, “iluminador dos
povos” e escolhido pelos deuses. A Babilônia era exaltada como dádiva dos deuses e
muitas superstições entraram nas leis do código, até mesmo atos irracionais, cruéis e
desumanos, principalmente na esfera penal. A vingança privada foi institucionalizada!
Trechos:
Art.22º Se alguém faz um buraco em uma casa, deverá diante daquele buraco ser
morto e sepultado.
Art. 23º Se alguém comete roubo e é preso, ele é morto. (na verdade, nã o havia
distinçã o entre furto e roubo).
Pode-se observar que não havia ainda o sentido da proporcionalidade, somente em
alguns artigos isolados pode-se observar resquícios desse princípio:
Art.230° Se um arquiteto constró i para alguém e nã o o faz solidamente e a casa que
ele construiu cai e fere de morte o proprietá rio, esse arquiteto deverá ser morto.
Aqui se observa que a falta de proporcionalidade é marcante, com presença de penas
cruéis para determinados delitos.  Mas esse código era o que tinham de mais prático e
que levava essa comunidade à uma certa harmonia, mesmo que seu senso de justiça
não corresponda ao do senso comum: Para a atualidade seria inconcebível condenar
alguém à morte por fazer um buraco na tentativa de furtar algo!
É bem verdade que ainda existe pena de morte em vários Estados dos Estados
Unidos, também em algumas ditaduras, mas a diretriz da justiça através do respeito
aos direitos humanos é o que vem prevalecendo numa democracia, buscando-se
meios outros para se punir crimes hediondos ou impedir “serial killers” de continuarem
a praticar seus crimes: A castração química é uma das alternativas no direito penal
para certos casos isolados de crimes sexuais, por exemplo. Na sociedade pós-
moderna, os direitos humanos, que são tão almejados, devem idealmente caminhar de
mãos dadas com a segurança pública (o que na realidade nem sempre acontece)!

Aprofunde-se mais
HAMURABI Nome amorreu comum, do início do segundo milénio a.C. Pelo menos
dois reis de Yamhad (Alepo) e um governante de Qurda tinham esse nome. Mas seu
mais famoso portador foi o sexto governante da Primeira Dinastia da Babilónia que
reinou por volta de 1792-1750 a.C. (de acordo com Sidney Smith) ou 1728-1686 a.C.
(de acordo com W. F. Albright). Anrafel, rei de Sinar, cujos aliados atacaram Sodoma
(Gn 14.lss.), que alguns anteriormente acreditavam ser uma tradução hebraica de
Hamurabi, deveria ser comparado com as formas amoritas de Amud-pi-el (“suportar é
a palavra para El”) encontradas em Mari, em aprox. 1750 a.C. O Hamurabi da
Babilónia, como todos os governantes das cidades-estados no período antigo do
Oriente Próximo, registrava todos os casos legais que julgava. Ao chegar ao término
de seu reinado, ele submeteu à sua divindade, Shamash, um relato de sua sabedoria
mostrada através da lei e da ordem que havia feito prevalecer em sua terra. Casos
selecionados, e novas leis, foram inscritos em monólitos de pedra erigidos nos
principais Templos da Babilónia. Um desses monólitos, um pilar de granito negro

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(diorito), com 2 metros e meio de altura, produto de um saque feito em Susâ, foi
recuperado por arqueólogos franceses em dezembro de 1901. Atualmente, ele
encontra-se no Museu do Louvre, em Paris. É possível que registros escritos
semelhantes, descrevendo decisões legais, tenham sido conservados peíos reis de
Israel e Judá (JSS, VII [1962], 161-172). Desde o prólogo até as leis de Hamurabi,
assim como as referências feitas em textos contemporâneos de seu reinado (veja
Mari), podem ser traçados os principais eventos de sua época. Primeiramente, o rei
dedicou-se a estabelecer a economia interna; em seguida, o poder da Babilónia
estendeu-se gradualmente até as cidades localizadas ao sul de Uruque (Ereque) e de
Isin, em uma série de campanhas militares. A captura de cidades da região de Diyala
e do Eufrates inferior redundou em um contato direto com os poderosos reis da
Assíria, Mari e Alepo. Uma carta de Mari relata que nessa época Hamurabi dispunha
de 10 a 15 governantes vassalos sob as suas ordens, aproximadamente a metade do
número reivindicado pelo rei de Alepo. Por volta de seu trigésimo oitavo ano,
Hamurabi havia derrotado seu rival Rint-Sin de Larsa, as tribos dos Gutianos e
Eshnunna que viviam nas montanhas, e capturado Mari, no médio Eufrates, a partir de
Zimrí- Lim. Dessa maneira, havia conquistado um império cuja área nunca foi excedida
por nenhum rei da Babilónia, a nâo ser na época de Nabucodonosor II (605-562 a.C.).
As leis de Hamurabi (ANET, pp. 163-180), que em grande medida davam continuidade
à tradição legal de seus predecessores Urukagina de Lagash, Lipit-Ishtar de Iain e Bi
laiama de Esrmunna, davam testemunho de sua habilidade administrativa. Essas 282
decisões e cláusulas jurídicas cobriam um grande espectro de assuntos: casamento,
divórcio, adoção, aprendizado, roubo, assalto, agricultura, comércio, propriedade e
salários. As penas impostas variavam de acordo com a posição do acusado ou da
parte prejudicada, homens livres, dependentes do palácio ou escravos. Eram
impostos: a pena capital e castigos físicos (lex talionis), o confisco de propriedades e
multas financeiras. As mulheres tinham direitos específicos. Tudo isso mostra uma boa
e definida tradição legal que, em seus numerosos aspectos de forma e detalhe,
oferecem um paralelo próximo às seções legais do AT, Por exemplo, a lei sobre a
sangria dos bois (Êx 21.28ss.) ou sobre o incesto (Lv 20.14). Dessa forma, as leis de
Hamurabi proporcionam uma visão extra bíblica das habituais tradições legais
existentes na maior parte do antigo Oriente Próximo.
Bibliografia. G. R. Driver e John C. Miles, The Babylonian Laws, 2 vols., Oxford:
Clarendon Press, 1952, 1955. D. J. W.

EGITO ANTIGO
Pontua ainda Albergaria (ibid., p. 49), a importância dessa cultura antiga:
Segundo o autor não há muitos documentos dessa época, a época dos faraós, há
apenas alguns papiros e hieróglifos.
De tal forma não se sabe ao certo sobre detalhes do Direito do Egito antigo. Mas
pode-se facilmente perceber que era uma sociedade altamente organizada, haja vista
as grandes construções, Pirâmides, Esfinge, artefatos dos Faraós, múmias e o
processo de mumificação e achados arqueológicos do Vale dos Reis.
Uma das características interessantes é que essa cultura misturava a figura do chefe
administrativo (faraó) com a imagem divina (Deus); Todo o poder político era exercido
pela mesma pessoa, que era também adorado e fazia parte do centro da adoração

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desse povo. Ele também centralizava a aplicação da justiça, elaborava as normas, as
aplicava e julgava em última instância.
O Livro dos Mortos, elaborado na época do Império Novo (1580 a.C. e 1160 a.C.),
retratado em diversos papiros (papiro NU, por exemplo), contém algumas passagens
elucidativas do sistema jurídico da época.
Esse documento trata da confissão negativa, na qual a alma (da pessoa que já
morreu) deveria apresentar-se para Osíris e ser julgado conforme fora o seu
comportamento em vida, presidido pela deusa da justiça, Maat.
O morto deveria colocar seu coração em uma balança (símbolo da justiça), e se a
mesma ficasse equilibrada, seria porque a pessoa teria sido em vida um cidadão justo,
honesto e correto. Ao contrário, se a balança não ficasse equilibrada, a pessoa teria
sido ruim em vida e seria assim devorada por Ammut, o monstro devorador dos mortos
e sofreria eternamente.
É interessante inferir com o autor que essa cultura valorizava o juízo final e prestava
culto aos mortos. Vale ressaltar que as pirâmides nada mais eram que túmulos
construídos para os faraós, que através de grande ritual eram mumificados e
sepultados, preparados para serem recebidos no mundo dos mortos. Muitos dos seus
empregados eram enterrados vivos junto com ele nas pirâmides, que possuíam túneis
e labirintos, para se evitar roubos e saques. Eram enterrados com muita riqueza e
pompas.
O culto aos mortos, que ainda existe na atualidade em algumas comunidades, se
origina portanto da antiga cultura egípcia.
Como todo poder emanava do Rei-Faraó, as leis e os tribunais eram organizados por
ele. Pressupõe-se, portanto, que a lei teria sido a principal fonte do direito, com força
nos julgamentos maior do que os costumes.
Cada cidadão egípcio, após seguir rigorosa carreira administrativa, poderia adquirir,
por mérito próprio, altos postos do governo (vide José do Egito -Gênesis 40, Bíblia).
Resta pontuar que nessa época essa cultura era cheia de religiosidade e venerava a
figura do faraó, como a personificação da própria divindade.
LEI DO TALIÃO
A lei do talião estabeleciaos parâmetros da justiça como a equivalência da punição em
relação ao crime, no sentido literal. (Geraldo da Silva, José, 2007, p. 8).
O autor (ibid., p.8) ensina que o termo talião é originado do latim lextalionis, ou seja lex
é lei e talis significa igual a tal. O termo, assim, quer dizer: “tal ou igual”, daí a
expressão “olho por olho, dente por dente”.
Do Talião alguns princípios jurídicos ainda são utilizados hodiernamente: igualdade, e,
principalmente, a proporcionalidade de forma aperfeiçoada e, naturalmente,
respeitando os princípios da dignidade da pessoa humana.
O código de Hammurabi tinha muitos elementos que foram mantidos na lei do talião.
No seu epílogo finaliza assim: “para que o forte não prejudique o mais fraco, a fim de
proteger as viúvas e os órfãos ergui a Babilônia” (Albergaria, Bruno, 2011, p. 27).
Inferindo com os mencionados autores, pode-se concluir que o maior legado da lei do
Talião, portanto, foi a criação do instituto da proporcionalidade, adotado por diversos

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outros sistemas jurídicos da antiguidade, que lhe copiavam o senso do equilíbrio, ou
seja, a proporção entre transgressão e a sanção.
Essa evolução foi marcante para evitar as guerras entre as tribos, que antes, sem o
princípio da proporcionalidade, iriam buscar a justiça, através da vingança privada,
com lutas e violência, chegando a serem dizimadas famílias inteiras, tribos e até
comunidades.
É importante observar que a lei do talião foi contemporânea ao antigo direito hebreu
na época da lei mosaica, pois fazia parte das tradições do povo.
Antes da existência da lei mosaica, os hebreus se utilizavam no seu dia a dia
preponderantemente da lei do Talião (Bíblia, Levítico).
Ainda usaram a Lei doTalião por muito tempo, a qual foi totalmente abolida,
posteriormente, através dos ensinamentos de Jesus Cristo, quando
emblematicamente não aprovou o apedrejamento (caso da mulher adúltera), pois
ensinou novos princípios, como fraternidade, justiça, amor e perdão, fortemente
imbuídas nas leis cristãs e incompatíveis com a lei do Talião.
É interessante observar que, em algumas nações islâmicas, ainda se aplicam
atualmente alguns aspectos da lei do Talião: por exemplo, o apedrejamento de
adúlteras, a decepação de mãos dos que furtam e pena de morte para os que roubam
etc. Ainda que tais fatos possam ser contra a lei em algumas nações, eles não são
coibidos e as penas para os que os praticam são brandas. Pela tradição cultural, as
autoridades se tornam coniventes com esses crimes. Desta forma a comunidade
internacional, por meio da defesa de Direitos Humanos, vem divulgando na mídia
esses acontecimentos, com o fim de coibi-los e de protestar contra a impunidade dos
mesmos.
DIREITO HEBREU
A Torá ou os cinco primeiros livros da Bíblia (Genesis, Êxodo, Números, Levítico e
Deuteronômio), escritos, segundo a tradição, por Moisés, é a LEI, ou seja, a principal
fonte do Direito para os Hebreus. Albergaria (ibid., p.51).
O autor explana que, pelo texto bíblico de Êxodo, Moisés, líder dos judeus no Egito,
após libertar o povo hebreu do domínio do faraó, no Egito, percorreu 40 anos no
deserto até avistar a “terra prometida”.
 Albergaria (ibid. p. 51) continua a narrar que no caminho, no monte Sinai, em Horebe,
Moisés teria recebido de Deus os Dez Mandamentos que o seu povo deveria seguir
(Êxodo, 24:14).  Desses Dez Mandamentos originários, Moisés viria a escrever
posteriormente, por determinação divina, segundo a tradição hebraica, a Torá, ou a
Lei, que são os cinco primeiros livros bíblicos citados acima. Na época, eram cinco
rolos separados. Atualmente e, com o advento da imprensa, estão compilados tanto
na Torá hebraica, como na Bíblia dos cristãos. Bíblia, do grego Biblios, significa
coleção de livros (compilados).  Os “rolos”, feitos de couro na época, foram
posteriormente reescritos pelos escribas, até a invenção do papel.
A data aproximada da outorga dos Dez Mandamentos é entre 1.200 e 1.400 a. C., ou
seja, há aproximadamente 3.400 anos.

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O Corpo bíblico do Antigo Testamento foi elaborado ao longo de vários séculos. O
Novo Testamento, com o advento de Jesus, data de 50 a 100 d.C., ou seja, há
aproximadamente 1.950 anos.
Assim, a Bíblia, como documento histórico, foi escrita em 66 livros (rolos) por mais de
40 autores, ao longo de aproximadamente 1.500 anos.
O autor ainda explana um fato inusitado de achados arqueológicos
Em 1947 foram encontrados alguns pergaminhos de textos bíblicos, os mais antigos
de que se tem notícia! Os documentos foram encontrados em Israel, nas proximidades
do Mar Morto, de forma acidental por beduínos, que adentraram as cavernas locais de
Qumram. Estes textos são cópias exatas e fiéis do livro de Isaías, dentre outros, que,
confeccionados em couro, foram conservados, sem os efeitos deletérios da umidade,
em utensílios especiais de cerâmica, lacrados. Esse foi o achado arqueológico mais
precioso do mundo no sec. XX, de que se tem notícia. Pertence ao museu de
Jerusalém e vai para exposição itinerante em todo o mundo.
Em 2010 foi traduzido um objeto encontrado em Elah, em 2008, denominado
“ostracon”. A tradução foi feita pelo Departamento de Estudos Bíblicos na
Universidade de Haifa. O professor Gershon Galil, tradutor do documento alegou que
“agora pode ser mantido que era altamente razoável que durante o sec. 10 a.C., no
reinado do Rei Davi, havia escribas em Israel, que eram capazes de escrever textos
literários e historiografias complexas, tais como os livros de Juízes e Samuel.”
Continua: pela tradução percebe-se uma preocupação especial com os órfãos e as
viúvas, e o rei era o responsável por trazer um equilíbrio social, amparando-os,
minorando o desequilíbrio social.
O autor traz trechos interessantes do “ostracon”, traduzidos para o Português:
“Defender a criança, o pobre, a viúva, Reabilitar o pobre pelas mãos do rei. Proteger o
escravo e o pobre e suportar o estrangeiro.
No entanto, continua o autor, mesmo após as primeiras transcrições (escritas), antes
da lei mosaica, o Direito Hebreu era transmitido essencialmente via tradição oral.
Somente com Moisés passou a ser escrito.
Em aproximadamente 600 a.C. Nabucodonosor, construtor da Babilônia, tendo se
fixado em Ur, invadiu e destruiu a cidade de Jerusalém. Escravizou seus habitantes e
os levou cativos para a Babilônia.
No tempo de Jesus Cristo a Lei (Torá) e os Profetas, ou seja, o velho Testamento, já
estava totalmente constituído, mas divididos em rolos separados.
O Antigo Testamento tem como característica principal a divinização do Direito. Isto é,
pelas crenças judaicas, o Direito é todo outorgado por Deus, sua única fonte. Toda e
qualquer violação de suas normas é considerado pecado, e, portanto, crime, passíveis
das mais severas penas, tais como a morte e o apedrejamento.
Ainda aplicava-se a Lei de Talião, pela tradição local das tribos, mas é certo afirmar
que o Antigo Testamento foi e continua sendo, relativamente aos Dez Mandamentos,
um dos principais pilares do ordenamento ético-jurídico do mundo ocidental.
O corpo Jurídico do Antigo Testamento pode ser analisado em Êxodo, 20, no texto
bíblico, onde se conhecer os Dez Mandamentos.

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O autor explana ainda que é importante observar que o Código (Dez Mandamentos),
de conteúdo religioso, não prevê qualquer espécie de sansão para ser aplicada; afinal,
o pior dos castigos para os hebreus era justamente o castigo divino, ou seja, ir para o
inferno após a morte. No entanto, pela tradição das comunidades da época, não
deixaram de aplicar ainda as leis do talião.
Algumas sanções de caráter religioso estão escritas em Deuteronômio 28, (5° livro da
Torá e da Bíblia), onde o texto bíblico deixa claro que através da obediência a Deus,
bênçãos iriam alcançar o povo. Mas se violassem suas leis, as maldições iriam
persegui-los, como fome, doença, problemas familiares etc.
Pode-se inferir que, realmente, quando uma família tem uma vida equilibrada, com
valores como verdade, justiça, amor e sem vícios, os filhos são mais saudáveis e
menos propensos à violência, drogas e outros males que atingem a sociedade
contemporânea.
Aqui vale citar uma máxima da sabedoria popular: “Colhe-se o que se planta”.
Outro aspecto interessante é que, ao contrário dos ordenamentos primitivos, os textos
em questão não contém superstições, mas apenas regras de conduta, que são
salutares para uma sociedade harmônica e socialmente equilibrada.
Daí pode-se concluir que o Direito Hebreu foi “sui generis” em todos os seus aspectos.
Sua eficácia é comprovada e ainda prevalece. Não se deixaram caducar quanto à sua
eficácia, no sentido de contribuir ainda hoje para educar uma comunidade de forma
eficaz.

DIREITO GREGO
Ensina ainda Albergaria que a Grécia antiga é considerada o berço da fase áurea do
surgimento das ciências humanas.
Em quase todas as áreas do conhecimento humano houve um enorme progresso,
como por exemplo, o teorema de Pitágoras. Nos esportes, com as Olimpíadas. Na
literatura, com Homero.
No Direito, sua maior contribuição está nos legados no ramo da filosofia, com
Heráclito, Sócrates, Platão e Aristóteles, autores jus naturalistas. Na concepção dos
mesmos o Direito tem origem divina, é imutável e inspirado pela divindade. No
entanto, eram politeístas, não tinham a crença no Deus dos Hebreus, que são
monoteístas. A mitologia grega trazia no imaginário a ideia de um deus para cada área
de atividade humana: o deus da fertilidade, o deus da guerra, o da sabedoria, etc.
Assim, a sua maior contribuição está focada no ramo da filosofia.
Afirma Albergaria (ibid.) que os gregos, na verdade, não foram grandes juristas. Não
construíram uma ciência jurídica autônoma tal como os romanos. Conclui: “não deram
grandes contribuições para o mundo jurídico”.
Mas pontua: “foram fontes de consulta para os juristas romanos”.
Citando a parte mais importante de suas leis, pode-se lembrar a Lei de Drácon, que
contemplava três tipos de homicídio: o intencional (doloso), o não intencional (culposo)
e o legal.

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A pena para o homicídio doloso era a morte.
A publicidade foi um legado importante da lei de Drácon: pela primeira vez na Grécia
clássica todas as normas tornaram-se públicas. Porém, a parte mais importante no
que se refere a essas leis é, sem dúvida, relativa ao direito penal. Aristóteles, na
Política, já afirmara que... “subsistem leis de Drácon, mas ele promulgou-as para uma
constituição já existente. Nenhuma particularidade há nessas leis dignas de nota, a
não ser a severidade resultante da magnitude das penas.” Pontua ainda o autor.
Não se tem notícia de toda legislação de Drácon, mas foi localizado na Grécia uma
estela, (monólito de pedra), com partes da legislação. Atualmente essa estela, datada
de 409/8 a.C., encontra-se o Museu Epigráfico em Atenas.
Citando Albergaria (ibid. p. 62) “Por ser muito severo, o que não contribuía para a paz
social, e nem para manter a sociedade coesa, tentou-se modificar a Lei de Drácon.
Assim em 594 a.C., foi incumbido ao poeta-jurista Sólon que reformulasse outras leis
para a Grécia”.
As leis de Sólon tinham um caráter social marcante. No relato de Aristóteles Sólon foi
“O primeiro a se apresentar como paladino do povo”. Sua obra Ética a Nicômaco
(Aristóteles, 2011. Passim) traz mais explanações sobre virtude e justiça.
Segundo Aristóteles, pontua Albergaria, Sólon sempre censurava os ricos como
promotores dos conflitos, atacando com avidez a riqueza e o espírito de lucro,
querendo dizer, assim, que isso era o ponto principal das questões das lides.
Nesse diapasão Sólon, em sua legislação, proibiu a hipoteca da terra e a escravidão
por endividamento, através da lei “Seis ateia”.
Continua o autor: Aristóteles, para finalizar, defendeu Sólon, referindo-se a ele como
salvador de seu país e de legislador ideal. Todavia, apesar da importância histórica
para sua época, especificamente na proteção do devedor, as leis de Sólon não tiveram
grandes contribuições doutrinárias para o mundo jurídico (ibid., p. 65).

DIREITO ROMANO
Com o nascimento do Império romano, o direito passou por um salto evolutivo
importante, tanto que muitos institutos criados nessa época persistem ainda hoje:
Antes do legado romano, não havia um processo público, nem o direito à ampla
defesa. No entanto, isso estava restrito apenas aos cidadãos romanos. Escravos e
estrangeiros não gozavam desses direitos. As mulheres também eram muito
subestimadas, submissas e não tinham qualquer domínio sobre o poder da família,
que ficava restrito ao homem, o qual era o detentor absoluto do pátrio poder. Cabe
ressaltar que os pais tinham direito de vida e morte sobre os filhos, era como um
direito de propriedade. O pai podia sacrificar filhos deficientes ao nascerem, sob o aval
e testemunha de cinco vizinhos. E podia inclusive vender os próprios filhos. Observa-
se aqui que o pátrio poder era amplamente utilizado, quase ilimitado.
Cabe relembrar que o direito atual, no seu aspecto formal, herdou do direito
romano muitas características: O Processo, como hoje é formalizado, nasceu desse
período. Outras contribuições podem ser citadas como a importância do dia para os
atos processuais, que não poderiam ser realizados a noite, bem como a valorização
do acordo fora dos muros da justiça, daí o velho brocado jurídico: “pacta sunt

21
servanda” (os acordos devem ser cumpridos); o desenvolvimento da Magistratura, foi
muito importante, figura representada na época pela função do Pretor.
O direito das coisas, no que se refere à importância do respeito à propriedade, bem
como o direito de herança foram desse período. Ainda dessa época pode-se citar a
responsabilidade extracontratual ou aquilina, instituto usado até os dias de hoje.
Um dos códigos mais conhecidos dessa época, A lei das XXII tábuas, datada do
século V a.C., evidencia que, apesar das grandes contribuições do direito romano,
esse não havia atingido a busca da humanização do direito. O Império Romano
costumava, por exemplo, aplicar a pena de morte para criminosos em geral, tanto
ladrões, como homicidas, havendo penas cruéis ou desumanas, como a morte na
cruz.
Pode-se relembrar aqui que Jesus Cristo fora condenado à morte de cruz no ano 33
d.C.! No período clássico do Império Romano, após longo processo. Foi considerado
inocente pelas autoridades, o que pode ser constatado no ato simbólico de Pilatos, ao
lavar as mãos; mas este, pressionado pelo povo, condenou Jesus à morte, cedendo
aos levantes populares e com receio de uma revolução.
Outra característica desse período era que o devedor respondia pessoalmente com
relação às suas dívidas. Se não pudesse pagar, se tornaria escravo do credor, até
pagar sua dívida. Atualmente, ao contrário, com os processos evolutivos de
humanização do direito, sabe-se que a responsabilidade do devedor é apenas
patrimonial e não se estende à sua pessoa. (Não é pessoal).
Ensina Albergaria (ibid. p. 100) que, com a queda do Império Romano em 527 d. C., O
Imperador Justiniano, com o intuito de resgatar o esplendor do antigo império, tentou
fazer uma reforma militar e legislativa. Compilou assim as leis imperiais desde a época
de Adriano, tendo sido criado o Corpo Jurídico Civil: Corpus Juris Civilis de Justiniano.
Um dos maiores méritos desse feito foi a unificação de todas as constituições legais
em um único Código, que passou a ser obrigatório em todo o império.
Após o Código, foram criadas as Institutas e as Novelas, que eram novas normas
jurídicas, as quais versavam sobre direito hereditário e matrimonial.
Na verdade, uma das maiores contribuições desse período foi, essencialmente, o
surgimento de uma classe de juristas profissionais e doutrinadores, por meio de um
processo gradual de aplicação dos métodos da filosofia grega ao direito, podendo-se
citar Cícero, que trouxe muitos conceitos sobre o direito e a justiça.

INTRODUÇÃO DOS VALORES CRISTÃOS NOS SISTEMAS NORMATIVOS

Na obra Curso de Filosofia do Direito (Bittar, Eduardo / Almeida, Guilherme,2009.


Passim), os autores ensinam que o processo da ruptura com a lei mosaica por Jesus
foi extremamente salutar. Jesus revogou na verdade os ritualismos e superou assim o
arcaísmo das concepções tradicionais do povo hebraico. Ele não veio desmentir ou

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contradizer os profetas antigos, mas procurou adequar o homem e sua moral a seu
tempo! O bem passa a residir no foco do perdão.
Continuam os autores, citando Mateus 5:17,18:
“Não penseis que vim destruir a lei ou os profetas; eu não vim destruí-los, mas dar-
lhes cumprimento; porque eu vos digo em verdade que o céu e a terra não passarão
antes que tudo o que está na lei não seja cumprido perfeitamente, até um único jota ou
um só ponto”

Os autores explanam que estes argumentos demonstram a existência de uma ordem


superior que se movimenta em ritmo diverso daquele em que se movimenta a ordem
terrena das coisas. É uma ordem que está para além dos sentidos humanos, ou seja,
são de caráter espiritual, em que a justiça aparece como fenômeno imperecível, e de
acordo com a qual o julgamento se exerce de forma inexorável; a eternidade e a
irrevogabilidade são suas características concluem: “a justiça divina se distancia da lei
humana no sentido de que aquela é universal, inexorável, perene, irrevogável. Estas
são as suas características fundamentais” (ibid., p.193).
Pode-se concluir com os autores, que em vista das características específicas dos
ensinamentos de Cristo, esses iriam naturalmente, com a evolução histórica e social
da sociedade humana, se incorporar aos sistemas normativos. Destarte, viriam mais
cedo ou mais tarde a serem positivados, integrando os ordenamentos jurídicos das
nações.
Um primeiro momento histórico que pode-se pontuar, como um dos marcos em que
surgem leis buscando igualdade, liberdade e fraternidade, foi a Revolução Francesa. A
Declaração Universal dos Direitos do Homem de 1789 na França foi o primeiro
momento histórico em que leis buscando a igualdade, ideais de fraternidade e
liberdade para os cidadãos se inspiram em valores cristãos.
Apesar da violência da Revolução, com a morte do Rei e da Rainha da França na
guilhotina, tal fato simbólico demonstra uma ruptura com o antigo regime absolutista.
O Rei dizia “O Estado sou eu”. O povo reclamava, através dos autores iluministas:”
queremos um pacto social” (grifo nosso). Surgiram filósofos e cientistas políticos como
Rousseau, Montesquieu, Locke, dentre outros, que com suas novas ideias viriam
fomentar o desejo de justiça e distribuição da riqueza e do poder. O povo queria
governar e participar das decisões: surgia assim o Estado moderno. Surgem as
primeiras Constituições, como a Constituição Americana por exemplo.
Segundo ensina a obra Direito Constitucional ao Alcance de Todos (Bulos,
UadiLammêgo, 2009. Passim) em relação ao constitucionalismo moderno, esse só
adquiriu consistência no fim do século XVIII, com o fortalecimento de certos princípios,
que passaram a ser adotados pela maioria dos Estados, sob a forma de declarações
de direitos e garantias fundamentais. Tais direitos tinham o condão de proteger o

Indivíduo dos abusos de poder do Estado, situação que era vigente no regime
absolutista.
Continuando com o autor (ibid. p.7), a partir do sec. XVIII, a ideia de constitucionalismo
ficou associada à necessidade de todo Estado possuir uma constituição escrita, para
frear o arbítrio dos poderes públicos.

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Do ponto de vista formal, o constitucionalismo moderno inaugura-se a partir do
advento das Constituições escritas e rígidas dos Estados Unidos da América, de 14 de
setembro de 1787, e da França, de 3 de setembro de1791.
A Carta Americana de 1787 institui o federalismo, a rígida separação dos poderes
legislativo, executivo e judiciário. Seu texto é curto, resume-se a sete artigos e ao
longo do tempo sofreu vinte e seis emendas.
Já a Constituição francesa de 1791 foi a primeira carta escrita da França e de toda a
Europa. Demorou dois anos para ser redigida pela Assembleia Nacional Constituinte
de 1789.
Ensina ainda o autor que um dos traços mais marcantes do constitucionalismo
moderno, dentre outros, é:
 “Reconhecimento principioló gico normativo do Direito, cujos reflexos
repercutiram em todo o mundo, inclusive no Brasil, onde juízes e tribunais aplicam
os princípios da legalidade, da igualdade, da separaçã o de Poderes, do Estado
Democrá tico de Direito, da dignidade da pessoa humana, da razoabilidade, da
reserva de jurisdiçã o, da solidariedade e da equidade.” (ibid., p.10).

Observa-se assim que processos históricos levaram à evolução das leis e à


valorização de princípios que já foram, na verdade, ensinados por Jesus Cristo, tais
como igualdade, solidariedade, equidade, razoabilidade etc.
Outro momento histórico importante que merece ser lembrado foi a segunda guerra
mundial.

Após os crimes de genocídio e as atrocidades cometidas nesse momento histórico em


1945, houve a necessidade de se repensar sobre a paz e a segurança dos povos.
Criou-se a ONU e a Declaração Universal dos Direitos do Homem em 1948.
Nesse documento pode-se observar também princípios como igualdade entre as
nações, respeito à soberania e à autodeterminação dos povos e busca de solução
pacífica de conflitos. Evitar guerras através de sanções comerciais, por exemplo, no
sentido de coibir a violência e o desrespeito aos valores fundamentais do homem,
como sua dignidade e sua vida.
Tais valores também foram ensinados por Cristo de forma simples, tendo ele mesmo
vivido todos os seus ensinamentos.

Diante do exposto, pode-se refletir que a positivação desses princípios só aconteceu,


após a experiência humana traumática e dolorosa da segunda guerra mundial, e não
foi uma escolha consciente do ser humano, ou seja, foi a única solução plausível que
foi encontrada, para que uma outra tragédia não viesse a se repetir. Contudo, esses
valores, como solidariedade, igualdade, amor, perdão, respeito e justiça já haviam sido
pré-estabelecidos há quase 2000 anos, através dos ensinamentos cristãos.
A Constituição brasileira de 1988 herdou, do artigo 1º da Declaração dos Direitos do
Homem de 1948, o conteúdo para o artigo 5º, que reza sobre os direitos e garantias
individuais, a dignidade da pessoa humana, direito à vida, liberdade e segurança.
Influenciada marcantemente pela Declaração dos Direitos Humanos da Carta das

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Nações Unidas, a Constituição brasileira é uma Carta humanística, que busca atingir a
pacificação social por meio do combate à pobreza, e de ações afirmativas para
minimizar as desigualdades sociais.
Concluindo, a introdução dos valores cristãos nos sistemas normativos não foi um
processo de escolha do ser humano, mas foi fruto de experiências históricas
traumáticas. A sociedade viu-se compelida a enxertar os princípios éticos cristãos em
suas Leis, como solução e prevenção de conflitos, para que atrocidades e injustiças
não viessem a se repetir e destruir a civilização humana no futuro.
ESTADO LAICO VERSUS ESTADO ATEU
Existe um entendimento equivocado do que seja a diferença entre um estado ateu e
um estado laico. O Estado ateu propriamente dito bane toda espécie de religião ou
crença. Reprime todas as formas de crenças. Isso pode ser observado no início do
comunismo, quando da afirmação Marxista no contexto da obra O Capital, de que a
Religião seria o ópio (substância entorpecente, amarga e de odor forte) do povo (Marx,
Karl, 1867. Passim). No início do sec. XX, os países de regime comunista, ou
Marxista, tentaram abolir a ideia de Deus de suas sociedades. Tal tentativa, na
verdade, restou infrutífera, pois após a queda dos regimes comunistas e socialistas na
década de 90, houve um renascer da religiosidade, que sempre esteve imbuída no
inconsciente coletivo do povo.
Observa-se, portanto, nos dias de hoje, que as Igrejas, em sua maioria Ortodoxas,
predominam nesses países, demonstrando dessa forma, que o ser humano precisa de
uma relação com o divino e o sagrado para o seu bem-estar espiritual e emocional.
Passando do âmbito do estado para o ponto central do indivíduo, como sujeito de
direitos e deveres, a liberdade de consciência, que engloba, por sua vez, a liberdade
de pensamento e de crença, passa a ser tutelada pelo estado, no intuito de resguardar
o cidadão, da interferência do mesmo, em questões de foro íntimo do indivíduo.
O Estado laico assim, ao contrário do ateu, procura amparar em seu bojo, todas as
religiões, o que o torna um estado neutro, ou seja, que não deve, nem pode adotar
qualquer religião como sendo a oficial; posto que protege e tutela o direito de livre
pensamento e crença, a livre escolha assim de qualquer religião pelo indivíduo, de
acordo com sua própria consciência.
Dessa forma, pode-se refletir que é salutar que o Estado Democrático de Direito seja
de fato laico, pois ele deixaria de ser democrático se adotasse uma religião única,
passando assim a ser teocrático.
Portanto, em relação ao âmbito do indivíduo, como sujeito de direitos e obrigações, é
muito importante que seu direito de liberdade de crença seja de tal forma legalmente
tutelado pelo estado.
A liberdade de pensamento e de crença é tutelada na nossa Constituição Federal de
1988 em seu artigo 19, inc.I e art.150, inc. VI.
A Laicidade foi introduzida no ordenamento jurídico francês em 1880 e confirmada no
Brasil, pelo artigo 1º da Constituição de 1958, que a torna também um dos caracteres
básicos da república, sendo que a laicidade do estado se torna a base ideológica do
regime da liberdade religiosa; ensina Nilson N. da S. Júnior, renomado
constitucionalista em artigo de Âmbito Jurídico. É interessante observar que a
Constituição brasileira do Império de 1824 previa ainda expressamente que a religião

25
católica seria a religião oficial do Império. Nesse período, outros cultos não poderiam
ter propagação pública e só poderiam ser realizadas em âmbito doméstico. Nessa
época, o estado brasileiro não era laico, portanto. A República ainda não existia, nem
a democracia plena.
Pode-se concluir, pois, que o moderno estado democrático de direito é e deve ser
essencialmente laico.  Assim, pode-se entender o porquê de que os cinco primeiros
Mandamentos do Decálogo, que tem um caráter religioso, não se incorporam aos
ordenamentos jurídicos democráticos. Isso porque um dos pilares da democracia é a
liberdade de consciência, de pensamento e de crença. Povos que professam outras
religiões que não são de origem cristã, ficam, portanto, livres para adotarem suas
próprias religiões e crenças, sem que haja conflitos. O Estado laico é dessa forma
preventivo quanto à existência de conflitos religiosos.
Segundo Ihering em sua obra A Luta pelo Direito (Ihering, Rudolf von, 2006):
” O fim do direito é a paz, o meio de que se serve para consegui-lo é a luta.
Enquanto o direito estiver sujeito à s ameaças da injustiça –e isso perdurará
enquanto o mundo for mundo -, ele nã o poderá prescindir da luta...luta dos
governos, dos povos, das classes sociais, dos indivíduos”.
De acordo com o autor, sempre haverá luta para que se chegue à paz social. De tal
modo, para se evitar injustiças, lutas e desigualdades, é que o estado democrático se
faz laico, respeitando e tutelando o direito dos povos de terem a livre escolha de
adotarem a religião que quiserem, contribuindo para a pacificação social.
Concluindo, Os ordenamentos do Decálogo, entregues a Moisés, estão nos
ordenamentos jurídicos das nações, apenas no que se referem ao relacionamento dos
homens, dos povos entre si. Os cinco primeiros Mandamentos, que se situam mais na
esfera espiritual e dizem respeito ao relacionamento dos homens com Deus, não
foram positivados nas leis dos povos, mas permanecem na esfera da espiritualidade.
EVOLUÇÃO DO DIREITO BRASILEIRO CONCERNENTE AO
PROTESTANTE
O Brasil já teve oito constituições: 
Constituição de 1824 - Outorgada por D. Pedro I 
Constituição de 1891 - Promulgada pelo Congresso Constituinte. 
Constituição de 1934 - Promulgada pela Assembleia Nacional Constituinte. 
Constituição de 1937 - Promulgada pelo Estado Novo. 
Constituição de 1946 - Constituição da República Populista. 
Constituição de 1967 - Promulgada pelo ato Institucional N°4. 
Constituição de 1969 - Nova redação da constituição de 1967. 
Constituição de 1988 - Promulgada pela Assembleia Nacional Constituinte
Outorgada: deriva do verbo outorgar; dar, de maneira solene, geralmente em
cerimônia criada para o efeito. Atribuir, conferir.
Promulgada: deriva do verbo promulgar; ordenar oficialmente a publicação de uma lei.
Da descoberta do Brasil em 1500 até a primeira Constituição Federal de 1891, a
religião dominante era o catolicismo e, todos aqueles que pertencessem à sociedade
brasileira deveriam ser católicos. O catolicismo romano estava no auge, dominando o
mundo e influenciando governos, e no Brasil não foi diferente, pois o Estado e a Igreja
eram aliados políticos.

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Havia, portanto, entre o Estado e a Igreja uma aliança política, sendo escolhida a
religião Católica para ser a beneficiada pelo que se denominou Padroado Real, que
como acima foi definido referia-se a concessão de Poderes do Estado à Igreja, com
intuito de através da religião ser facilitado o trabalho de colonização das terras
brasileiras. Entre outros acordos, firmou-se entre o Estado e a Igreja (Católica), o
compromisso de catequização dos antigos habitantes da nova terra, os indígenas. O
objetivo de catequizá- los, através dos Padres Jesuítas, encontrava respaldo da Coroa
Portuguesa, pois, convertendo os ao catolicismo, evitava-se os conflitos entre os
primeiros donos das terras descobertas e seus novos concorrentes vindos de Portugal.
Portanto, todos quantos professassem uma fé colidente com aquela ensinada pelos
Sacerdotes Católicos eram perseguidos de forma cruel. As Ordenações que aqui
tinham força de Lei, amparavam toda e qualquer forma de discriminação aos
denominados hereges e apóstatas da doutrina Católica Apostólica Romana, sendo
inclusive tipificado como crime a heresia e a apostasia nas Ordenações Filipinas,
como veremos à seguir:
Dos Hereges e Apóstatas: O conhecimento do crime de heresia pertence
principalmente aos juízes eclesiásticos. E porque eles não podem fazer as
execuções nos condenados no dito crime por serem de sangue, quando
condenarem alguns hereges, os devem remeter a nós com as sentenças que
contra eles derem, para os nossos desembargadores as verem, aos quais
mandamos que as cumpram, punindo os hereges condenados, como por
direito devem [...]. (Ordenações Filipinas, 1999, p. 55-56, apud Soriano, 2002,
p. 68-69)
Com a transição do período Colonial para o período Monárquico, foi Instituída a
primeira Constituição (Imperial) do Brasil, em 1824, e a mesma Constituição negava
Liberdade Religiosa à todos que não fossem Católicos, porque assim era a dicção do
artigo 5º:
Art. 5º: A Religião Católica Apostólica Romana continuará a ser a religião do
Império. Todas as outras Religiões serão permitidas com seu culto
doméstico, ou particular em casa para isso destinadas, sem forma alguma
exterior de Templo. Como visto, permitia-se às religiões não Católicas o culto
doméstico, conquanto que o local da celebração não mantivesse forma
exterior de Templo.
Havia, assim, pela Carta Constitucional de 1.824 apenas a garantia de crenças, pois
com a referida Constituição não existia mais a heterodoxia (que significa a tipificação
como crime da prática da heresia e apostasia, que se dava pelo fato de alguém seguir
outra regra de fé diferente da ensinada pela Igreja Católica).
A primeira Constituição Republicana do Brasil, entrou em vigor em 1.891, e seu
grande precursor foi o brilhante jurista Rui Barbosa, tendo em vista que este
engrossou a fileira daqueles que lutaram pela Liberdade Religiosa no país. A nova
Carta Magna separou o Estado da Igreja, definitivamente, atendendo às
reivindicações, e se enquadrando ao novo sistema que era o Republicano, em que em
outras partes do mundo respeitava o direito à liberdade religiosa.
Portanto, a Constituição Federal de 1891 foi responsável por esta tão importante
conquista da Liberdade Religiosa no nosso país, adquirida por preço de sangue. O
artigo 72, § 3º da referida Constituição Federal, assim era descrito:

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Todos os indivíduos e confissões Religiosas podem exercer pública e
livremente o seu culto, associando-se para esse fim e adquirindo bens,
observadas as disposições comuns.

PERSEGUIÇÕES AOS CRISTÃOS PROTESTANTES APÓS A CONQUISTA


DA LIBERDADE RELIGIOSA

Mesmo com a conquista da Liberdade religiosa, a história do Brasil nos mostra que os
líderes de denominações não Católicas e seus fiéis continuaram sofrendo ameaças de
todos os tipos, pois as Autoridades faziam vistas grossas aos problemas de
perseguições religiosas enfrentadas pelos fiéis de diversas religiões, em especial aos
Cristãos protestantes, que continuavam sendo considerados pelos Padres como
Hereges ou Apostatas.
Boanerges Ribeiro (1991, p. 25), escritor e historiador, enfatiza que no período da
República Velha as religiões não católicas, principalmente as evangélicas, passaram a
fazer parte do cenário nacional, pois segundo ele: “Alastrou-se a Reforma por todo o
Brasil e por todas as classes sociais”. No Brasil em 1557, quarenta anos após a
Reforma Protestante, desembarcou no Rio de Janeiro um grupo de Huguenotes sendo
eles os primeiros protestantes na história do país. Foram capturados pelos Jesuítas, e
mortos pelas mãos dos mesmos.

AMPLIAÇÃO DO DIREITO CONSTITUCIONAL DA LIBERDADE RELIGIOSA


NO BRASIL
As Constituições Federais posteriores à de 1891, mantiveram o Instituto Jurídico da
Liberdade Religiosa, inspirando-se na Constituição Republicana pioneira do Brasil,
porém, sempre com ressalvas como a Constituição Federal de 1934 que garante a
Liberdade religiosa e o livre exercício de cultos, mas condicionava a Liberdade
religiosa à ordem Pública e aos bons costumes. Tal redação foi mantida pelas
Constituições sucessoras, que apenas retiraram ou ampliaram algum ponto do
original. Malgrado as Constituições que sucederam a de 1891 terem conservado o
Instituto Jurídico da Liberdade Religiosa, somente com a entrada em vigor da nossa
atual Constituição Federal de 1988, considerada como “Constituição Cidadã”, foi que
houve ampliação do direito de Liberdade Religiosa no Brasil, abrangendo todos quanto
possuem uma religião e até mesmo aqueles que preferem abster-se de qualquer
forma de exteriorização da fé (como os ateus). Nesse sentido, dispõe seu artigo 5º,
inciso VI: “É inviolável a liberdade de consciência e crença, sendo assegurado o livre
exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da Lei a proteção aos locais de
culto e suas liturgias”. Atualmente, há uma vasta proteção prevista na atual
Constituição Federal à todas as religiões pregadas no país, como verificamos através
dos dispositivos constitucionais abaixo relacionados:
Artigo 5º [...] VI – é inviolável a Liberdade de consciência e de crença sendo
assegurado o livre exercício dos cultos religiosos [...] e, garantida na forma da
Lei, a proteção aos locais de culto e suas liturgias; VII – [...] é, assegurada, nos
termos da Lei, a prestação da assistência religiosa nas entidades civis e
militares de internação coletiva; VIII – [...] ninguém será privado de direitos
por motivo de crença religiosa ou de convicção filosófica ou política, salvo se

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as invocar para eximir-se de obrigação legal a todos imposta e recusar
cumprir prestação alternativa, fixada em Lei. Artigo 19 – É vedado à União,
aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios: I – estabelecer cultos
religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou
manter com eles relação de dependência ou aliança, ressalvada, na forma da
Lei, a colaboração de interesse público.

LIBERDADE DO DIREITO DO PROTESTANTE

PREÂMBULO
Nós, representantes do povo brasileiro, reunidos em Assembleia Nacional Constituinte
para instituir um Estado Democrático, destinado a assegurar o exercício dos direitos
sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a
igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e
sem preconceitos, fundada na harmonia social e comprometida, na ordem interna e
internacional, com a solução pacífica das controvérsias, promulgamos, sob a proteção
de Deus, a seguinte CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL.
O Estado brasileiro, apesar de laico, não é ateu, como comprova o preâmbulo
constitucional, e, além disso, trata-se de um direito subjetivo e não de uma obrigação,
preservando-se, assim, a plena liberdade religiosa daqueles que não professam
nenhuma crença”.
Todas as Constituições brasileiras, excetuadas a Constituição de 1891 e a Carta
Política de 1937, invocam em seus preâmbulos, de forma expressa, que são
promulgadas "sob a proteção de Deus". A Constituição Imperial de 1824, que deu
início à História Constitucional do Brasil foi jurada em nome da Santíssima Trindade.
Baseado no artigo mais longo, conhecido e comentado da constituição federal com 78
incisos, pode-se observar o tema liberdade de uma forma genérica, da qual o direito
do protestante através de uma boa hermenêutica jurídica é espécie. Vejamos os
incisos que seguem em análise.
Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-
se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à
vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:
IV - é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato;
A liberdade de pensamento prevê o direito de exprimir, através de qualquer meio, o
intelecto humano, isto é, trata-se da possibilidade/direito de exteriorização ou não do
pensamento, sem qualquer restrição, caracterizando a “liberdade de o indivíduo adotar
a atitude intelectual de sua escolha: quer um pensamento íntimo, quer seja a tomada
de posição pública; liberdade de dizer o que se crê verdadeiro”. Essa preocupação
com a exteriorização do pensamento foi tratada na Declaração de Direitos do Homem
de 1789, segundo a qual “ninguém pode ser perturbado por suas opiniões, mesmo

29
religiosas, desde que a sua manifestação não inquiete a ordem pública estabelecida
pela lei”.

Nesta seara surge a diferenciação entre liberdade de consciência e liberdade de


pensamento. Liberdade de consciência é o mandamento nuclear da liberdade de
pensamento, pois o pensamento é a exteriorização da consciência humana, em outras
palavras:

“A consciência é, pois o recinto mais recôndito do homem. Consequentemente ela é


em princípio indevassável, salvo processo de caráter cirúrgico ou químico, como a
lavagem cerebral.

"Liberdade de expressã o. Garantia constitucional que nã o se tem como absoluta.


Limites morais e jurídicos. O direito à livre expressã o nã o pode abrigar, em sua
abrangência, manifestaçõ es de conteú do imoral que implicam ilicitude penal. As
liberdades pú blicas nã o sã o incondicionais, por isso devem ser exercidas de
maneira harmô nica, observados os limites definidos na pró pria Constituiçã o
Federal (CF, artigo 5º, § 2º, primeira parte). O preceito fundamental de liberdade
de expressã o nã o consagra o ‘direito à incitaçã o ao racismo’, dado que um direito
individual nã o pode constituir-se em salvaguarda de condutas ilícitas, como sucede
com os delitos contra a honra. Prevalência dos princípios da dignidade da pessoa
humana e da igualdade jurídica" (HC 82.424, Rel. Min. Maurício Corrêa, DJ
19/03/04)

“A liberdade de expressã o constitui-se em direito fundamental do cidadã o,


envolvendo o pensamento, a exposiçã o de fatos atuais ou histó ricos e a crítica.”
(HC 83.125, Rel. Min. Marco Aurélio, DJ 07/1/03)

VI - é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o


livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção
aos locais de culto e as suas liturgias;

A liberdade de crença foi introduzida no pensamento jurídico através da Declaração de


Direitos da Virgínia (1776), o qual ditava que “todos os homens têm igual direito ao
livre exercício da religião, segundo os ditames da consciência”. A primeira emenda à
Constituição americana (1789) previa que o “Congresso não poderá passar nenhuma
lei estabelecendo uma religião, proibindo o livre exercício dos cultos”.

Na França, em 1789, a Declaração de Direitos do Homem, no artigo 10, determinava


que “ninguém deve ser inquietado por suas opiniões mesmo religiosas, desde que sua
manifestação não perturbe a ordem pública estabelecida pela lei”. Posteriormente, em
1795, a Convenção Nacional ordenou a separação da Igreja do Estado. Nesta seara,
“Napoleão assinou, em 1802, uma concordata com a Igreja Católica, tornando-a igreja
oficial do Estado [...] e em 1803, confraternizou com as igrejas protestantes”, e em
1905 foi novamente votada a separação entre Igreja e o Estado.

“A liberdade religiosa não consiste apenas em o Estado a ninguém impor qualquer


religião ou a ninguém impedir de professar determinar crença. Consiste ainda, por
um lado, em o Estado permitir ou propiciar a quem seguir determinada religião o

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cumprimento dos deveres que dela decorrem (em matéria de culto, de família ou de
ensino, por exemplo) em termos razoáveis. E consiste, por outro lado (e sem que haja
qualquer contradição), em o Estado não impor ou não garantir com as leis o
cumprimento desses deveres. (...)

Se o Estado, apesar de conceder aos cidadãos, o direito de terem uma religião, os


puser em condições que os impeçam de praticá-la, aí não haverá liberdade religiosa.
“E também não haverá liberdade religiosa se o Estado se transformar em polícia das
consciências, emprestando o seu braço – o braço secular – às confissões religiosas
para assegurar o cumprimento pelos fiéis dos deveres como membros dessas
confissões.”

Sendo a liberdade de pensamento o núcleo valorativo do tema sob análise, “cada


indivíduo deve ser livre para poder manifestar sua escolha em relação à fé em matéria
transcendental, escolhendo acreditar ou não em um Deus (ou em vários deuses),
escolhendo ter ou não uma religião”, como descrevem a Declaração Universal dos
Direitos Humanos e o Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos:

“Declaração Universal dos Direitos Humanos, artigo 18. Toda pessoa tem direito
à liberdade de pensamento, de consciência e de religião; este direito implica a
liberdade de mudar a religião, assim como a liberdade de manifestar a religião ou
convicção, sozinho ou em comum, tanto em público como em privado, pelo ensino,
pela prática, pelo culto e pelos ritos.

Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos, artigo 18. 1. Toda pessoa terá
direito à liberdade de pensamento, consciência e religião. Esse direito incluirá a
liberdade de ter ou adotar uma religião ou crença de sua escolha e a liberdade de
manifestar sua religião ou crença, individualmente ou coletivamente, pública ou
privadamente, por meios de cultos, celebrações, práticas e ensino. 2. Ninguém será
submetido a coerções que possam restringir sua liberdade de ter ou adotar uma
religião ou uma crença de sua escolha. 3. A liberdade de manifestar a própria
religião ou as próprias crenças só poderá estar sujeita a limitações estabelecidas em
lei e que se façam necessárias para proteger a segurança, a ordem, a saúde ou a
moral pública ou os direitos fundamentais e as liberdades das demais pessoas. 4. “Os
Estados-Partes no presente pacto comprometem-se a respeitar a liberdade dos pais
e, quando for o caso, de tutores legais, de assegurar a educação moral e religiosa de
seus filhos, de acordo com suas próprias convicções.”

Nessa seara, José Afonso da Silva afirma:

“Na liberdade de crença entra a liberdade de escolha da religiã o, a liberdade de


aderir a qualquer seita religiosa, a liberdade (ou o direito) de mudar de religião,
mas também compreende a liberdade de não aderir a religião alguma, assim como
a liberdade de descrença, a liberdade de ser ateu e de exprimir o livre agnosticismo.
Mas nã o compreende a liberdade de embaraçar o livre exercício de qualquer
religiã o, de qualquer crença, pois também a liberdade de alguém vai até onde nã o
prejudique a liberdade dos outros.”

Neste raciocínio, Maria Lúcia Karam disserta:

31
“[...] livre, o indivíduo, naturalmente, deve poder pensar e acreditar naquilo que
quiser. É esse o campo da liberdade de pensamento, de consciência e de crença. É
um campo que diz respeito somente ao indivíduo, nã o podendo sofrer qualquer
interferência do Estado. É um campo essencialmente ligado à pró pria idéia
existente de democracia, pois sem um pensamento livre nã o existe a possibilidade
de escolha que está na base dessa idéia.”

O direito à liberdade de religião é inerente à condição humana, e a religiosidade é um


fenômeno sociológico que ganha importância jurídica, graças aos princípios
constitucionais de liberdade.
O art. 5º, VI da Constituição Federal de 1988 dispõe que “é inviolável a liberdade de
consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e
garantida, na forma da lei, a proteção dos locais de culto e suas liturgias”. Tal princípio
engloba a liberdade de consciência, a liberdade de crença e a liberdade de culto.
A inviolabilidade da liberdade de consciência, de crença e de culto constitui a resposta
política adequada aos desafios do pluralismo religioso, permitindo desarmar o
potencial conflituoso entre as várias concepções. 
Trata-se de um Estado Laico, que não se confunde com um Estado ateu, mas sim um
Estado onde se respeitam todos os credos e sua exteriorização. Assim sendo, não há
confusão com a Igreja, onde os legitimados são aqueles escolhidos pelo povo,
pontuando a importância da democracia em um Estado Laico.
No Brasil, a Laicidade teve início no ano de 1890, com o Decreto nº 119-A, o qual
extinguiu a união entre os Estado brasileiros e a religião, sendo tal condição
confirmada posteriormente na Constituição de 1891 e todas as demais, inclusive a
atual, datada do ano de 1988. Na formulação de Giumbelli, 
“o caráter abrangente e sistemático do projeto laicizante da República expressou-se
não apenas em um conjunto de medidas articuladas (que, como vimos, abrangia as
cerimônias e registros civis, o ensino leigo, os cemitérios públicos), mas também já no
próprio decreto 119ª, que adotava os princípios da “separação”, da “igualdade” e da
“liberdade” em torno de uma noção genérica de “religião”. 

DIREITO DO MENOR: Baseado nesse inciso conjuntamente com outros


disciplinados na constituição federal, nenhum professor pode obrigar seu filho a
participar de algo que venha feri sua liberdade e consciência religiosa. Não pode
descontar pontos de avaliação. Exemplo: participar de festa junina entre outros.
Veja o que diz o ESTATUTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE (Lei n.
8069/13/06/1990 o ECA)! Art. 16 O direito à liberdade compreende os seguintes
aspectos: II – opinião e expressão; III – crença e culto religioso e V – participar da vida
familiar e comunitária, sem discriminação.
Atente para isso também! Você como estudante tem todo direito de ter um espaço na
escola, na universidade para manifestar sua crença. Exemplo: se funcionar programa
radiofônico na escola, espaço cultural, entre outros.

ÂMBITO PENAL

32
Nesse momento destacaremos a penalidade cabível a quem escarnecer da
nossa crença e símbolos que manifeste essa crença.

Art. 208 - Escarnecer de alguém publicamente, por motivo de crença ou funçã o


religiosa; impedir ou perturbar cerimô nia ou prá tica de culto religioso; vilipendiar
publicamente ato ou objeto de culto religioso:

Pena - detençã o, de um mês a um ano, ou multa.

Pará grafo ú nico - Se há emprego de violência, a pena é aumentada de um terço,


sem prejuízo da correspondente à violência.

Elementos Objetivos do Tipo:

a) Escárnio por motivo de religião:

O verbo escarnecer se traduz, dentro do contexto do presente dispositivo, como


zombar, troçar, ridicularizar, humilhar, achincalhar. Conforme preleciona Rogério
Greco (2008, pág. 888), para que ocorra o crime em tela, faz-se imprescindível que o
escarnecimento aconteça em local público (publicamente). Isto é, “significa que se o
agente escarnece da vítima em lugar reservado, onde se encontravam somente os
dois (vítima e agente), o fato poderá se configurar em outro delito, a exemplo do
crime de injú ria”. 

Ademais, vale frisar que a conduta realizada particularmente, sem que chegue ao
conhecimento das pessoas em geral, não se amolda de maneira adequada ao tipo
penal. Desnecessário é que o ofendido esteja presente ou ainda que o escárnio se
realize face a face; todavia, deverá dirigir-se a pessoa determinada e não contra
grupos religiosos em geral. Tal fato justifica, no caso em apreço, a figura do sujeito
passivo imediato ser a pessoa em particular, “alguém”. Por derradeiro, a conduta
supramencionada deve ser perpetrada por motivo de crença ou função religiosa da
vítima.

No contexto em estudo, compreenda-se crença como no sentido de fé religiosa.  No


que concerne à função, não deve ser interpretada no sentido do direito administrativo,
ao revés, faz menção a atividade exercida por padres, bispos, pastores, freiras ou
rabinos no desempenho da missão religiosa.

“Para a configuraçã o do art. 208 é necessá rio que o escá rnio seja dirigido a
determinada pessoa, sendo que a assertiva de que determinadas religiõ es
traduzem ‘possessõ es demoníacas’ ou ‘espíritos imundos’ espelham tã o-somente
posiçã o ideoló gica, dogmá tica, de crença religiosa” (TACr SP, RJDTACr 23/374).

b) Impedimento ou perturbação de culto religioso:

A segunda conduta criminalizada pelo artigo 208 tange ao impedimento ou


perturbação de culto religioso. Em linhas doutrinárias, pode-se intuir o impedimento
em duas esferas distintas. A primeira está atrelada a evitar que comece, por óbice,
dificultar, inibir, tolher, por empecilho, obstar. Já a segunda está associada paralisar a
cerimônia já em andamento, não permitir que esta progrida regularmente, interromper.

33
 Ao lado disso, preleciona-se perturbação como: tumultuar, embaraçar ou atrapalhar
cerimônia religiosa, não permitir que os atos religiosos aconteçam de modo normal,
agitação. Face ao fato de se tratar de crime de forma livre, essas condutas podem se
corporificar mediante vaias, gritos, ruídos, violência. Bitencourt (2009, pág. 790),
destaca também que “perturba a cerimônia ou a prática de culto religioso quem a
tumultua, desorganiza e altera seu desenvolvimento regular”.

Cerimônia é a realização de culto religioso praticada de maneira solene, ou seja,


aquele praticado com determinado aparato, como por exemplo: congressos,
casamento, velório, batizado. Guilherme de Souza Nucci (2009, pág. 866) cita ainda
que “cerimô nia é a exterioriza de um culto (ritual, adoraçã o, reverência) através de
uma reuniã o solene”. Prática de culto religioso, é o ato religioso despido de
solenidade, como é o caso de orar, ebd, vigílias etc.

“Prá tica de culto é algo mais singelo, consistente no simples exercício do ritual que
a religiã o solicita” (NUCCI, 2009, pág. 866).

É imprescindível que a conduta impeditiva ou turbadora deve, essencialmente, dirigir-


se contra culto ou cerimônia religiosa. Entretanto, é irrelevante o local em que esta ou
aquele se realiza, isto é, se ocorre no interior do templo religioso ou fora. Bitencourt
(2009, pág. 790) tece ainda que “o culto ou cerimônia religiosa protegidos pela lei não
podem atentar contra a moral e os bons costumes, como magia negra, macumba,
etc.”. “Gritar palavrões durante uma culto” (RT 491/518). “Configura-se o delito, ainda
que a cerimônia não fique interrompida, mas tenha de ser abreviada pelo tumulto
causado” (TACrSP, RT 533/349).

c) Vilipêndio público de ato ou objeto religioso:

A terceira modalidade esculpida no dispositivo legal diz respeito à conduta de


vilipendiar publicamente ato ou objeto de culto religioso. Entende-se como o verbo
vilipendiar, as condutas de aviltar, envilecer, menosprezar, menoscabar, depreciar,
desprezar, afrontar, ofender, insultar, ultrajar ato ou objeto religioso. A figura penal em
estudo visa, precipuamente, preservar o sentimento religioso, como também a
liberdade de culto. Vale destacar que a conduta delituosa exaurida pode ocorrer dentro
ou fora do templo religioso, ou ainda em locais fechados.

Nos termos da lei, apresenta-se ato de culto religioso são as cerimônias e práticas
religiosas versadas no tópico anterior; objeto religioso são todos aqueles que servem
para a celebração desses atos, comumente consagrados para a liturgia religiosa,
incluídos nesse numerário: altar, púlpito, paramentos, turíbulos, imagens de santos,
vestes solenes, crucifixos, etc.

A parada gay do ano de 2015 no estado de São Paulo teve atos que tipificam crimes
no código penal brasileiro, como exemplo o ato de penetrar um crucifixos no ânus e
quebra de imagens de escultura, tidas como símbolo religioso católico.

Bitencourt (2009, pág. 790) exalta que estão excluídos do rol acima apresentado os
objetos que não integram a essência do culto propriamente dito, tais como: bancos,
instrumentos musicais, luminárias, entre outros. Além disso, deve-se salientar que “é
indispensá vel que os objetos do culto estejam destinados ao culto pois, se se
encontrarem expostos à venda, nã o tipificará o crime” (BITENCOURT, 2009, pá g.
790).   

34
EXEMPLOS DE CONFLITOS DE LIBERDADE RELIGIOSA
ADIn. DETERMINAÇÃO DE LEITURA DA BÍBLIA ANTES DO INÍCIO DAS AULAS
NAS ESCOLAS MUNICIPAIS EM CALENDÁRIO LETIVO. Violação ao princípio da
liberdade religiosa ao privilegiar uma. Arts. 5º, caput e inc. VI, CF e art. 8º, CE. AÇÃO
JULGADA PROCEDENTE. (Ação Direta de Inconstitucionalidade Nº 70017748831,
Tribunal Pleno, Tribunal de Justiça do RS, Relator: Paulo Augusto Monte Lopes,
Julgado em 05/02/2007). Outro exemplo de invocação do princípio da liberdade
religiosa foi a controvérsia acerca da possibilidade de candidato a concurso público,
em razão de ser membro da Igreja Adventista do Sétimo Dia, ter como justificada sua
ausência no dia de sábado, em curso de formação. O Tribunal de Justiça do Distrito
Federal e Territórios julgou procedente a ação judicial em favor de candidato, sob o
argumento de que o texto constitucional respalda todas as crenças, consagrando o
Estado Democrático de Direito com sua máxima liberdade religiosa. 

A LIBERDADE DE CULTO E POLUIÇÃO SONORA

No tocante à realização de cultos religiosos surge uma questão interessante, pois em


princípio, constitui um direito fundamental do indivíduo, previsto no artigo 5º, inciso VI,
da Constituição da República Federativa do Brasil.
No entanto, em que pese aludida garantia, tal preceito não autoriza a poluição sonora.
Com efeito, o dispositivo é claro ao assegurar o livre exercício dos cultos religiosos e
garantir, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e suas liturgias. Pois bem,
deve-se conciliar essa liberdade com a preservação do meio ambiente, objeto da
Resolução CONAMA 001/90, que prescreve a observância dos padrões estabelecidos
pela Associação Brasileira de Normas Técnicas – ABNT.
A expressão "na forma da lei" significa, de acordo com a legislação em vigor, que a
norma do CONAMA ajusta-se à competência que lhe foi dada pela Lei 6.938/81.
A Resolução 001/90 resolve:
I – A emissão de ruídos, em decorrência de quaisquer atividades industriais,
comerciais, sociais ou recreativas, inclusive as de propaganda política, obedecerá, no
interesse da saúde, do sossego público, aos padrões, critérios e diretrizes
estabelecidos nesta Resolução.
Nem dentro dos templos, nem fora deles, podem os praticantes de um determinado
credo prejudicar o direito ao sossego e à saúde dos que forem vizinhos ou estiverem
nas proximidades das práticas litúrgicas.
A NBR 10.152 determina que o nível de ruído em igrejas e templos deve ser de, no
máximo, 50 decibéis.

A poluição sonora é tratada também na Lei nº 3.688, de 3 de outubro de 1941 – Lei


das Contravenções Penais -, cujo art. 42 considera a poluição sonora uma
contravenção referente à paz pública: “Art. 42. Perturbar alguém o trabalho ou

35
sossego alheios: I - com gritaria ou algazarra; II – exercendo profissão incômoda ou
ruidosa, em desacordo com as prescrições legais; III – abusando de instrumentos
sonoros ou sinais acústicos; IV – provocando ou não procurando impedir barulho
produzido por animal de que tem a guarda: Pena – Prisão simples de quinze dias a
três meses, ou multa.”

Esta figura consiste em causar perturbação à tranqüilidade das pessoas mediante


gritaria ou algazarra, exercício de profissão ruidosa, abuso de instrumentos sonoros ou
sinais acústicos e provocação de barulho por intermédio de animais.
Importante ressaltar que aludida contravenção não penaliza todo e qualquer ruído
pequeno, de leve rumor, que em indivíduos mais irritadiços podem causar incômodos.
Desse modo, excluem-se rumores usuais de uma casa, como o arrastar de móveis, as
festinhas normais de aniversário, que são manifestações expansivas da alegria e nas
quais não se nota a intenção de querer molestar ou ofender. [30]
O seu objetivo é assegurar a tranqüilidade do cidadão perturbado pelo ruído.
Para os fins da Lei, algazarra pode ser conceituada como o barulho produzido por
vozes, enquanto gritaria, por sua vez, é a sucessão de gritos fortes, de uma ou várias
pessoas.
No aspecto penal, a poluição sonora também foi recepcionada pela Lei de Crimes
Ambientais, tipificada no artigo 54.
Inicialmente, o Anteprojeto da Lei 9.605/98, no seu artigo 59, tratava expressamente
do crime de poluição sonora, que compreendia a seguinte conduta:
Art. 59. Produzir sons, ruídos ou vibrações em desacordo com as prescrições
legais ou regulamentares, ou desrespeitando as normas sobre emissão ou
imissão de ruídos e vibrações resultantes de quaisquer atividades.
Pena – detenção, de três meses a um ano, e multa.
Tal dispositivo foi vetado pelo Presidente da República, fundamentando para tanto
que:
O bem juridicamente tutelado é a qualidade ambiental, que não poderá ser perturbada
por poluição sonora, assim compreendida a produção de sons, ruídos e vibrações em
desacordo com as prescrições legais ou regulamentares, ou desrespeitando as
normas sobre emissão e imissão de ruídos e vibrações resultantes de quaisquer
atividades. (...)
Tendo em vista que a redação do dispositivo tipifica penalmente a produção de sons,
ruídos ou vibrações em desacordo com as normas legais ou regulamentares, não a
perturbação da tranquilidade ambiental provocada por poluição sonora, além de prever
penalidade em desacordo com a dosimetria penal vigente, torna-se necessário o veto
do art. 59 da norma projetada.
O veto ocorreu porque Excelentíssimo Senhor Presidente da República atendeu aos
anseios da comunidade evangélica e da denominada bancada evangélica no
Congresso Nacional, que viam no sobredito artigo, caso fosse sancionado, um óbice
para o exercício da liberdade dos cultos religiosos em geral, pois os mesmos,
comumente, envolvem atividades sonoras, como cânticos e toque de instrumentos
musicais.

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Art. 54. Causar poluição de qualquer natureza em níveis tais que resultem ou
possam resultar em danos à saúde humana, ou que provoquem a
mortandade de animais ou a destruição significativa da flora:
Pena – reclusão, de um a quatro anos, e multa.
Se o crime é culposo:
Pena – detenção, de seis meses a um ano, e multa.
O Objeto jurídico do delito em estudo é a preservação do meio ambiente
ecologicamente equilibrado, que propicie boas condições de desenvolvimento à vida e
à saúde humanas, bem como recursos adequados à subsistência da fauna e da flora,
para as gerações presentes e futuras.

IGREJAS CONDENADAS A PAGAREM MULTAS POR CAUSA DA


POLUIÇÃO SONORA
1. A igreja evangélica Em Cristo Nova Vida, de Herval d'Oeste, terá de indenizar
em R$ 5 mil a família de uma vizinha, por perturbação da paz. Nilva Terezinha, que
morreu antes do fim do julgamento, reclamava na Justiça que a igreja, localizada na
frente de sua residência, emitia sons e ruídos excessivos, provocados pelos cultos
realizados no local.

O então presidente da igreja também deverá arcar com os danos morais. Na época
dos fatos, o pastor era o representante da instituição religiosa, fato incontroverso nos
autos, sendo igualmente responsável pelos danos ocasionados à falecida, expôs o
relator, desembargador Jairo Fernandes Gonçalves.

Com a morte de Nilva, cujo delicado estado de saúde teria se agravado com a
perturbação sonora, sua família assumiu a ação e será beneficiária da indenização. A
decisão do Tribunal de Justiça, unânime, manteve a sentença da comarca de origem.

2. Igreja Evangélica Assembleia de Deus foi acusada de perturbar o sossego dos


moradores vizinhos ao seu templo na região do Tatuapé. O recurso, apresentado
pelas partes em litígio, reclamava do teor da sentença do juiz Cláudio Pereira França,
da 2ª Vara Cível do Tatuapé. O magistrado condenou a igreja a pagar indenização de
R$ 7 mil, por danos morais. O valor seria depositado no Fundo Estadual de Reparação
de Interesses Difusos Lesados.

Perícia feita pelo Instituto de Criminalística (IC), da Polícia Civil, constatou nos dias 26
e 27 de abril de 2002 que o nível médio de ruído, no local, foi de 88 decibéis, quando o
permitido ficaria ente 50 e 60 decibéis. De acordo com o processo, o ruído perdurou
por seis anos, até 2003 quando a acusada realizou obras para solucionar o problema.

37
A Câmara Especial determinou que a igreja não poderá fazer ensaios e cultos, sem
tomar as precauções para evitar a emissão de sons e ruídos acima daqueles
permitidos pela legislação em vigor. No caso de descumprimento, estará sujeita a
pagar multa diária de R$ 1 mil. A Assembleia de Deus ainda foi condenada a realizar
as obras necessárias para impedir a dispersão de som no templo.

3. Igreja Católica condenada por poluição sonora

O Ministério Público ajuizou a presente ação civil pública em relação à Capela Nossa
Senhora do Rosário e ao Município de Florianópolis, alegando: 

Consoante teor da documentação inclusa nos autos do 

Inquérito Civil Público n° 06.2008.000490-4 

ASSISTÊNCIA RELIGIOSA

VII - é assegurada, nos termos da lei, a prestação de assistência religiosa nas


entidades civis e militares de internação coletiva;

Como consequência da liberdade de crença, a liberdade de culto prevê que a


externação espiritual necessita de um local físico para sua manifestação, isto é, a
liberdade de culto é a exteriorização pública (popular) da liberdade de crença, bem
como é o suporte para manifestação da liberdade de cultuar a religião escolhida,
anteriormente, pela pessoa humana. Em outras palavras:

“A religião não pode, como de resto acontece com as demais liberdades de


pensamento, contentar-se com a sua dimensão espiritual, isto é: enquanto realidade
ínsita à alma do indivíduo. Ela vai procurar necessariamente uma externação, que,
diga-se de passagem, demanda um aparato, um ritual, uma solenidade, mesmo que a
manifestação do pensamento não requer necessariamente”.

A exteriorização da liberdade de crença e a proteção quanto realização do culto,


assegura os locais destinados à externação da liberdade de crença, isto é, os templos:

“[...] a liberdade de culto, forma outra porque se extravasam as crenças íntimas


(art. 5º, VI). A liberdade do culto religioso é garantida, bem como os locais de seu
exercício e as liturgias, na forma determinada pela lei. Assim, a lei definirá o modo
de proteçã o dos locais consagrados aos cultos e à s cerimô nias”.

38
“Liberdade de culto: a religiã o nã o é apenas sentimento sagrado puro. Nã o se
realiza na simples contemplaçã o do ente sagrado, nã o é simples adoraçã o a Deus.
Ao contrá rio, ao lado de um corpo de doutrina, sua característica bá sica se
exterioriza na prá tica dos ritos, no culto, com suas cerimô nias, manifestaçõ es,
reuniõ es, fidelidades aos há bitos, à s tradiçõ es, na forma indica pela religiã o
escolhida.”

A liberdade de culto fortalece a liberdade de crença, pois na vigência da Constituição


Imperial 1824 previa-se a liberdade de crença, mas se negava a liberdade de culto
pública, já que a exteriorização da religião que não fosse a católica somente poderia
ocorrer na privacidade do lar do cultuador. Com a Proclamação da República, passou-
se a proteger não somente a liberdade de crença, mas também o local do culto. O
artigo 5º, inciso VI, da atual Constituição prescreve, taxativamente, a liberdade de
culto e a proteção aos locais da exteriorização da liberdade de crença. Essa proteção
inibe o ataque fiscal do Estado. Isto é, a liberdade de culto é assegurada pela
Constituição de 1988, que veda qualquer obstáculo quanto à manifestação da
liberdade de crença.

A externação da liberdade de crença não é absoluta, já que a prática de liturgias não


pode afrontar valores e regras sociais já impostas pela sociedade. O culto deve ser
exercido em harmonia com os demais direitos fundamentais, evitando-se a colisão
com outro direito fundamental, já que não é permitido ao Estado sobrepor a liberdade
de culto a outros valores também protegidos pelo Sistema Constitucional, como a
proteção à vida e à dignidade da pessoa humana.

A liberdade de crença e de culto tornou o Brasil um Estado laico, autorizando o


nascimento, em território nacional, de várias religiões, isto é, foi conferida a igualdade
plena entre os cultos religiosos. Essa liberdade permitiu a constituição e
funcionamento dos cultos sob a máscara da personalidade jurídica prevista pela
legislação civilista, isto é, as organizações religiosas “funcionam sob o manto da
personalidade jurídica que lhes é conferida nos termos da lei civil, conforme prescreve
o § 1º, do artigo 44, do Código Civil:

“Art. 44. São pessoas jurídicas de direito privado: (...)

IV - as organizações religiosas; (...)

§ “1º - São livres a criação, a organização, a estruturação interna e o


funcionamento das organizações religiosas, sendo vedado ao poder público
negar-lhes reconhecimento ou registro dos atos constitutivos e necessários ao
seu funcionamento.”

Com o reconhecimento dos cultos através da personalidade jurídica conferida pelo


ordenamento jurídico, nasce o dever jurídico do Estado de não impor dificuldades e/ou
embaraços na criação de organizações religiosas, haja vista a obrigação constitucional
do Estado de não embaraçar a criação de entidades religiosas através da tributação
de impostos sobre templos religiosos, a qual será melhor explanada no último capítulo.

O não embaraço não significa a possibilidade de criação de templos religiosos pelo


próprio Estado, já que há proibição de criação de templos religiosos pelo Estado, que,
entretanto, tem o dever de não constranger, não embaraçar, não dificultar a criação e
a manutenção dos templos religiosos pelas organizações religiosas. 

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Trabalhando na mesma sintonia, Celso Ribeiro Bastos e Ives Gandra da Silva Martins
aduzem:

“A liberdade religiosa consiste na livre escolha pelo indivíduo da sua religiã o. No


entanto, ela nã o se esgota nessa fé ou crença. Demanda uma prá tica religiosa ou
culta como um dos seus elementos fundamentais, do que resulta também inclusa,
na liberdade religiosa, a possibilidade de organizaçã o desses mesmos cultos, o que
dá lugar à s igrejas. Esse ú ltimo elemento é muito importante, visto que da
necessidade de assegurar a livre organizaçã o dos cultos surge o inevitá vel
problema da relaçã o destes com o Estado”.

Note-se que dever de não embaraçar e de não constranger a criação e manutenção


dos templos religiosos pelo Estado não significa que exista vínculo de dependência ou
aliança, como preceitua o artigo 19, inciso I, da Constituição de 1988 que proíbe,
textualmente, qualquer vínculo direto entre o Poder Público e as organizações
religiosas.

No entanto, o artigo 5º, inciso VII, da Constituição de 1988 prescreve que “é


assegurada, nos termos da lei, a prestação de assistência religiosa nas entidades civis
e militares de internação coletiva”, ou seja, poderá ocorrer colaboração entre o Estado
e as organizações religiosas, nos termos da lei. Essa colaboração deve trilhar o
caminho da igualdade, já que o Estado não poderá privilegiar uma religião em
detrimento de outra. Assim, não há prestação de assistência religiosa pelo Estado,
face ao seu caráter laico, mas tal prestação deverá ser realizada pelas organizações
religiosas. Neste pensar, Anna Cândida de Cunha Ferraz pacifica o assunto em foco:

“[o artigo 19, inciso I, da Constituição de 1988 ] indica, com segurança, a adoção,
no Brasil, da separação entre Estado e Religião, já de pronto revela, também, que o
modelo adotado é o da separação atenuada: de um lado, porquanto toca de perto o
problema da liberdade de consciência e de crença, admitindo os cultos religiosos; de
outro, vez que determina a neutralidade do Estado, no sentido de não subvencionar ou
não adotar cultos religiosos, bem como não embaraçar-lhes o funcionamento,
proibindo qualquer dependência ou aliança entre os cultos e seus representantes,
ressalvando, apenas, na forma da lei, a colaboração de interesse público.”

Neste mister, a Constituição de 1988 protege a liberdade de crença e culto, bem como
às organizações religiosas. A liberdade de culto é a exteriorização popular da
liberdade de crença e está assegurada a sua manifestação. O impedimento de
embaraço é traduzido nas palavras de Kildare Gonçalves Carvalho:

“A Constituiçã o assegura, nos termos da lei, a prestaçã o de assistência religiosa nas


entidades civis e militares de internaçã o coletiva (art. 5º, VII), mas no artigo 19, I,
veda à Uniã o, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios (vedaçõ es de
natureza federativa) estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná -los,
embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes
relaçõ es de dependência ou aliança, ressalvada, na forma da lei, a colaboraçã o de
interesse pú blico. E para evitar que o Estado crie embaraços à liberdade de
religiã o, o texto constitucional instituiu a imunidade de impostos sobre os templos
de qualquer culto (art. 150 VI b).”

 Dessa forma, essa proteção não se limita somente à possibilidade de externação do


pensamento religioso, estendendo-se também aos locais da prática de liturgias.

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Impõe-se ao Estado o dever de não embaraçar e não restringir o exercício regular dos
cultos religiosos.

CRENÇA RELIGIOSA

VIII - ninguém será privado de direitos por motivo de crença religiosa ou de


convicção filosófica ou política, salvo se as invocar para eximir-se de
obrigação legal a todos imposta e recusar-se a cumprir prestação alternativa,
fixada em lei;

A constituição Federal prevê que ninguém será privado de direitos por motivos de
crença religiosa ou de convicção filosófica ou política, salvo se as invocar para eximir-
se de obrigação legal a todos impostas e recusar-se a cumprir prestação alternativa,
fixada em lei, pois:

"a liberdade de consciência constitui o núcleo básico de onde derivam as demais


liberdades do pensamento. É nela que reside o fundamento de toda
a atividade político-partidária, cujo exercício regular não pode gerar restrição aos
direitos de seu titular".

Igualmente, o art. 15, IV, da carta federal, prevê que a recusa de cumprir obrigação a
todos imposta ou prestação alternativa acarretará a perda dos direitos políticos.

Dessa forma, dois são os requisitos para privação de direitos em virtude de


crença religiosa ou convicção filosófica ou política: não-cumprimento de uma
obrigação a todos imposta e descumprimento de prestação alternativa, fixada em lei.

O direito à escusa de consciência não está adstrito simplesmente ao serviço militar


obrigatório, mas pode abranger quaisquer obrigações coletivas que conflitem com as
crenças religiosas, convicções políticas ou filosóficas, como, por exemplo, o dever de
alistamento eleitoral aos maiores de 18 anos e o dever de voto aos maiores de 18
anos e menores de 70 anos (CF, art. 14, parágrafo 1º, I e II), cujas prestações
alternativas vêm estabelecidas nos arts. 7º e 8º do Código Eleitoral (justificação ou
pagamento de multa pecuniária), e, ainda, à obrigatoriedade do Júri.

A ESCUSA DE CONSCIÊNCIA

A Declaração de Direitos da Virginia (1776) que precedeu a Declaração de


Independência dos Estados Unidos da América (1776), já introduzia o pensamento
jurídico da mais completa liberdade religiosa na forma da consciência de cada um,
sendo baluarte do pensamento democrático a garantia a escusa de consciência.
Estabelece o Art. 5º, VIII, da Constituição Republicana:
Art. 5º: (…) VIII – "ninguém será privado de seus direitos por motivo de
crença religiosa ou de convicção filosófica ou política, salvo se a invocar para
eximir-se de obrigação legal a todos imposta e recusar-se a cumprir
prestação alternativa, fixada em lei".

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Reza o art. 143 da Constituição Brasileira:
Art. 143. O serviço militar é obrigatório nos termos da lei.
§ 1º – às Forças Armadas compete, na forma da lei, atribuir serviço
alternativo aos que, em tempo de paz, após alistados, alegarem imperativo
de consciência, entendendo-se como tal o decorrente de crença religiosa e de
convicção filosófica ou política, para se eximirem de atividades de caráter
essencialmente militar.
§ 2º – As mulheres e os eclesiásticos ficam isentos do serviço militar
obrigatório em tempo de paz, sujeitos, porém, a outros encargos que a lei
lhes atribuir.
Através desta garantia constitucional ninguém é obrigado, nem mesmo pela própria
Constituição, a agir contra sua consciência e contra seus princípios e axiomas
religiosos.
São vários os exemplos de escusa de consciência. Os mais corriqueiros ocorrem no
seio escolar, como daquele aluno do ensino fundamental que se opõe, em razão da
formação familiar protestante, a participar de festas escolares eminentemente
católicas, como é o caso das tradicionais “festas juninas” alusivas ao dia de São Pedro
e São Paulo (dia 29 de junho), Santo Antônio (dia 13 de junho) e São João Batista (dia
24 de junho).
Neste caso a escola não poderá obrigar o aluno a participar do evento, entretanto,
caso seja necessário a participação para realização de algum trabalho escolar, a
organização educacional deverá proporcionar prestação alternativa, semelhante à
tarefa dos demais alunos, sem quaisquer desproporcionalidade ou abusos, caso que
também se incorria em afronta a liberdade de crença e ao princípio constitucional da
isonomia.
Outro exemplo seria daquele vestibulando adventista (Igreja Adventista do Sétimo Dia)
que não pode, por motivo de crença, prestar o vestibular entre o entardecer de sexta-
feira e o entardecer de sábado, desta forma a Universidade/Faculdade deverá oferecer
o dia seguinte ou o dia anterior para a realização do vestibular, e como prestação
alternativa, manter o aluno no sábado, dia da prova, na Universidade, fazendo outras
atividades permitidas para sua crença neste dia, sob pena de prejudicar o sigilo do
conteúdo das provas do vestibular (cantando, orando, estudando a bíblia, etc.).
No mesmo diapasão, o serviço militar obrigatório, que, como visto acima, possui
previsão expressa da objeção de consciência, todavia, também carente da prestação
alternativa para objeção de escusa, através de disposição constitucional expressa no
art. 143, § 1º.
Ensina o ilustre professor Celso Ribeiro Bastos:
“[é] o direito reconhecido ao objetor de não prestar o serviço militar nem de engajar-
se no caso de convocação para a guerra, sob o fundamento de que a atividade
marcial fere as suas convicções religiosas ou filosóficas. É verdade que o Texto fala
em ‘eximir-se de obrigação legal a todos imposta’, e não especificamente em ‘serviço
militar’. É fácil verificar-se, contudo, que a hipótese ampla e genérica do Texto
dificilmente se concretizará em outras situações senão aquelas relacionadas com os
deveres marciais do cidadão (…). Na redação atual, fica certo que em primeiro lugar
há uma possibilidade de invocação ampla da escusa de consciência. Mas desde que
feita valer para evadir-se o interessado de uma obrigação imposta a alguns ou a
muitos, mas não a todos. É o que deflui a primeira parte do dispositivo: ‘ninguém

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será privado de qualquer dos seus direitos por motivo de crença religiosa ou de
convicção filosófica ou política’. A regra não prevalece se a invocação se der diante
de obrigação legal a todos imposta. Aqui o Texto oferece a possibilidade de uma
prestação alternativa fixada em lei. Esta não apresenta ainda um cunho
sancionatório. Limita-se a constituir uma forma alternativa de cumprimento da
obrigação. Caso, contudo, haja recusa ainda do cumprimento, aí sim é que se abre a
oportunidade para aplicação de pena de privação de direitos. De quais? O Texto
aponta a resposta no art. 15, IV: perda ou suspensão dos direitos políticos.
De qualquer sorte a prestação alternativa de compensação quando da objeção de
consciência é mister constitucional, “anote-se que a prestação alternativa é um direito
constitucionalmente assegurado. Não pode a autoridade se negar a oferece-lo.
Contudo, uma vez concedido, o aluno não pode negar-se a executá-lo; pode apenas
contestar aspectos relacionados ao conteúdo do próprio ato, como a
proporcionalidade e a compatibilidade com a proteção à liberdade de culto.
Assim sendo, a escusa de consciência remonta às declarações universais do homem
construídas na busca da igualdade e da dignidade da pessoa humana. É uma garantia
constitucional oponível a qualquer momento e, em qualquer esfera, desde que, o
objetor se submeta a prestação alternativa equivalente, nem menor e, muito menos,
nem maior que a obrigação escusada, sob pena de ferir de morte os princípios da
liberdade religiosa e da isonomia, conquistada sob ávidas penas, após os horrores da
idade média.

LIBERDADE DE REUNIÃO EM LUGAR PUBLICO

XVI - todos podem reunir-se pacificamente, sem armas, em locais abertos ao


público, independentemente de autorização, desde que não frustrem outra
reunião anteriormente convocada para o mesmo local, sendo apenas exigido
prévio aviso à autoridade competente;

Da leitura do artigo, extraímos os requisitos para que tenhamos reuniões legítimas e


legais, quais sejam: 1) reunião pacífica, sem armas; 2) em locais abertos ao público; 3)
não necessita de autorização; 4) não deve frustrar outra reunião previamente
convocada para o mesmo local; 5) é necessário aviso prévio à autoridade competente.
São desse modo, esses 05 (cinco) os requisitos previstos na Lei Suprema, para que
uma reunião possa ocorrer tranquilamente, dentro da textura constitucional.
Nesse sentido, Luís Roberto Barroso, ao tratar das colisões entre normas
constitucionais, leciona ser possível a colisão entre a liberdade de reunião e o direito
de ir e vir, caso em que cita como exemplo uma passeata que bloqueie integralmente
uma via de trânsito essencial. (Cf. BARROSO, Luís Roberto. O Novo Direito
Constitucional Brasileiro. Contribuições para a Construção Teórica e Prática da
Jurisdição Constitucional no Brasil. Belo Horizonte: Editora Fórum, 1ª. ed., 2ª.
reimpressão, 2013, p. 261)
Ora, segundo as lições do autor, basta que uma passeata bloqueie totalmente o
trânsito de uma via essencial, para que seja passível de sofrer restrições. Nessa linha,
podemos pensar que quem não pode o menos, não pode o mais, numa reflexão óbvia.

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Assim, reunir-se portando armas, com fins não pacíficos, configurando atitude mais
grave do que a descrita pelo autor, não deve ser admitida, como, de fato, não o é por
nossa Constituição Federal de 1988, logo em seu primeiro requisito.

EXEMPLO NA PRÁTICA: por dois anos consecutivos a festa de uma


congregação a qual fui congregado coincidiu com outra festa, que atrapalhou a nossa.
Nesse caso, se for provado que uma das festas estava agendada primeira que a outra,
a que agendou depois, terá que ser interrompido pelo período que dura a outra. Essa
comunicação será dada ao órgão competente, secretaria de cultura e eventos na
maioria das vezes.

DESDOBRAMENTOS SOBRE LIBERDADES RELIGIOSAS

PEDRO LENZA

 Ensino Religioso nos Colégios;


 Feriados Religiosos;
 Casamento Perante Autoridades Religiosas;
 Transfusão de Sangue nas “Testemunhas de Jeová”;
 Curandeirismo;
 Fixação de Crucifixos em Repartições públicas, dentre tantos;
 Imunidade Religiosa;
 Guarda Sabática.

ENSINO RELIGIOSO NOS COLÉGIOS

O art. 210, § 1.º, estabelece que o ensino religioso, de matrícula facultativa, constituirá
disciplina dos horários normais das escolas públicas de ensino fundamental.
Dessa forma, determinada escola não poderá reprovar aluno pelo fato de não
frequentar a aula de ensino religioso. Conforme visto, o ensino religioso será de
matrícula facultativa.

FERIADOS RELIGIOSOS

Avançando, lembramos que, quando da vinda do Papa Bento XVI, no ano de


2007, para o Brasil, buscava-se declarar 11 de maio, dia da canonização de Frei
Galvão, feriado religioso.
A matéria foi bastante discutida no Congresso Nacional e, ao final, a Lei n.
11.532, de 25.10.2007, sem conotação religiosa, acabou instituindo o dia 11 de maio
como o Dia Nacional do Frei Sant’Anna Galvão, passando referida data a constar

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oficialmente no calendário histórico-cultural brasileiro e, assim, não se reconhecendo,
em razão da laicidade, o feriado religioso.

CASAMENTO PERANTE AUTORIDADES RELIGIOSAS

O casamento é civil e gratuita a celebração (art. 226, § 1.º).


O casamento religioso tem efeito civil, nos termos da lei (art. 226, § 2.º).
Portanto, se, conforme visto, não existe religião oficial e se a liberdade de crença
religiosa está assegurada, podemos afirmar que o casamento em centro espírita ou
mesmo em templo, catedral, sinagoga, terreiro, casa religiosa, enfim, o casamento
celebrado por líder de qualquer religião ou crença tem o mesmo efeito civil do
casamento realizado na religião católica, aplicando
-se, por consequência, o art. 226, § 2.º.O STF ainda não enfrentou o tema. Contudo,
existem importantes julgados proferidos por Tribunais de Justiça, como o da Bahia
(MS n. 34.739 -8/2005) e o do Rio Grande do Sul (AC 70003296555 — 8.ª C. Cív. —
Rel. Des. Rui Portanova — j. 27.06.2002) no sentido de dar o correto efeito civil.

TRANSFUSÃO DE SANGUE NAS TESTEMUNHAS DE JEOVÁ

Avançando a análise, não deve ser reconhecido o crime de constrangimento ilegal (art.
146, § 3.º, I, CP) na hipótese das testemunhas de Jeová se estiver o médico diante de
urgência ou perigo iminente, ou se o paciente for menor de idade, pois, fazendo uma
ponderação de interesses, não pode o direito à vida ser suplantado diante da liberdade
de crença, até porque a Constituição não ampara ou incentiva atos contrários à vida.
Conforme noticiado pela Assessoria de Comunicação Social do TRF1, no julgamento
do Agravo de Instrumento 2009.01.00.010855-6/GO (26.02.2009), o Desembargador
Federal Fagundes de Deus “... registrou que no confronto entre os princípios
constitucionais do direito à vida e do direito à crença religiosa importa considerar que
atitudes de repúdio ao direito à própria vida vão de encontro à ordem constitucional —
interpretada na sua visão teleológica. Isso posto, exemplificou o magistrado que a
legislação infraconstitucional não admite a prática de eutanásia e reprime o
induzimento ou auxílio ao suicídio. Dessa forma, entende o magistrado que deve
prevalecer ‘o direito à vida, porquanto o direito de nascer, crescer e prolongar a sua
existência advém do próprio direito natural, inerente aos seres humanos, sendo este,
sem sombra de dúvida, primário e antecedente a todos os demais direitos’”.

CURANDEIRISMO

O art. 284 do Código Penal tipifica o exercício do curandeirismo, que é crime contra a
saúde pública: prescrevendo, ministrando ou aplicando, habitualmente, qualquer
substância; usando gestos, palavras ou qualquer outro meio; fazendo
diagnósticos. O tema ainda não chegou ao STF, mas, conforme vem sendo decidido
por alguns tribunais estaduais, em casos concretos e específicos, não estará
configurado o crime se a promessa de cura decorrer de crença religiosa e dentro de
um contexto individual de razoabilidade.

CRUCIFIXOS EM REPARTIÇÕES PÚBLICAS

Outro ponto bastante polêmico foi a questão dos crucifixo sem repartições públicas.
Como admiti-los diante da regra de ser o Brasil um país leigo, laico ou não
confessional? A única saída, que vem sendo adotada por algumas decisões (cf.
Pedidos de Providências n. 1344, 1345, 1346 e 1362/CNJ, no âmbito do Judiciário), é
a ideia de se tratar de símbolo cultural e não religioso. O entendimento, reconhecemos

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não se mostra convincente, tanto é assim que uma das determinações do novo
Presidente do TJ/RJ, em sua posse em 03.02.2009, foi à retirada dos crucifixos e a
desativação da capela.

IMUNIDADE RELIGIOSA

Avançando, estabelece o art. 150, VI, “b”, a denominada imunidade religiosa ao


estabelecer, sem prejuízo de outras garantias asseguradas ao contribuinte, a vedação
à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios de instituir

Impostos sobre templos de qualquer culto (devendo o assunto ser aprofundado no


direito tributário). Essa regra se mostra bastante relevante, pois impede que o Estado
utilize, eventualmente, de seu poder de tributar para embaraçar o funcionamento dos
cultos religiosos ou igrejas (art. 19, I). Conforme estabeleceu o STF, “a imunidade
prevista no art. 150, VI, “b”, CF, deve abranger não somente os prédios destinados ao
culto, mas, também, o patrimônio, a renda e os serviços ‘relacionados com as
finalidades essenciais das entidades nelas mencionadas’. O § 4.º do dispositivo
constitucional serve de vetor interpretativo das alíneas ‘b’ e ‘c’ do inciso VI do art. 150
da CF.” (RE 325.822, Rel. p/ o ac. Min. Gilmar Mendes, j. 15.12.2002, Plenário, DJ de
14.05.20 04).
Isso posto, surge a questão ainda pendente no STF: a maçonaria tem imunidade
tributária religiosa? O tema está sendo discutido no RE 562.351, havendo pedido de
vista pelo Min. Marco Aurélio em 13.04.2010. Atualmente
(Matéria pendente) existem 04 votos afirmando não ser a maçonaria religião e, assim,
por esse fundamento, não poder ser beneficiada pela imunidade religiosa. Segundo o
voto do Min. Ricardo Lewandowski, “... a maçonaria é uma ideologia de vida e não
uma religião, assim, a entidade não poderia ser isenta de pagar o IPTU. Segundo ele,
a prática maçom não tem dogmas, não é um credo, é uma grande família. ‘A j u d a m
se mutuamente aceitando e pregando a ideia de que o homem e a humanidade são
passíveis de melhoria, aperfeiçoamento. Como se vê é uma grande confraria que
antes de tudo prega e professa uma filosofia de vida, apenas isso’, disse” (Notícias
STF, de 13.04.2010 — pendente. Cf., também, Inf. 582/STF)

GUARDA SABÁTICA

Outro ponto polêmico é a obrigatoriedade ou não de o Estado ter que designar data
alternativa para realização de concursos públicos, quando a data da prova tiver sido
fixada em dias que devam ser guardados, como acontece com os Adventistas do
Sétimo Dia (sábado— dia de repouso e de culto) e os Judeus (Shabat — do pôr do sol
da sexta-feira até o pôr do sol do sábado). O tema está para ser aprofundado pelo
STF no julgamento da ADI (ação direta de inconstitucionalidade, vide) 3.714, ajuizada
em 20.04.2006 pela Confederação Nacional dos Estabelecimentos de Ensino
(Confenen), contra a Lei Paulista n. 12.142/05, que assegura a “guarda sabática” se
houver alegação de motivo de crença religiosa (convém lembrar que apesar da
referida lei ter sido totalmente vetada pelo Governador do Estado de São Paulo, a
Assembleia Legislativa derrubou o veto, restabelecendo o ato normativo) (matéria
pendente de julgamento pelo STF).

A questão foi retomada, no julgamento da STA 389, que buscava a suspensão do


Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) marcado para os dias 5 e 6 de dezembro
de 2009.O STF, por maioria, manteve o dia da prova e não fixou dia alternativo, até
porque, no Edital, havia a possibilidade de pedido de “atendimento a necessidades
especiais” e a prova poderia ser realizada no mesmo dia, após as 18h, devendo os

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candidatos, contudo, apresentarem-se com os demais, ficando isolados e aguardando
para a realização da prova.
O STF, naquele momento, entendeu que a previsão regimental era suficiente e, então,
não determinou a designação de dia alternativa (vencido o Min. Marco Aurélio). Essa
tem sido a saída de alguns concursos que permitem a realização da prova após as
18h do sábado, mas exigem que os candidatos permaneçam isolados e no local,
devendo se apresentar no dia marcado para todos.
O tema ainda vai ser definido pelo STF, mas, em nosso entender, ante o risco de
provas com graus distintos e possíveis favorecimentos de um lado ou do outro, parece
que essa tem sido a melhor alternativa, qual seja, todos se apresentarem no mesmo
dia e haver a necessidade de se aguardar em local isolado, pelo menos em uma
análise inicial.

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GLOSSÁRIO:
STF; supremo tribunal federal.
TRF; tribunal regional federal.
ADI; Ação direta de inconstitucionalidade; quando o STF é provocado para resolver,
assunto concernente à inconstitucionalidade de uma lei.
CONFRARIA; congregação, irmandade, sociedade, associação.
BIOGRAFIA:

REVISTAS:
Revista do Núcleo de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais Universidade Federal de Sergipe:
Dossiê Sociologia da Religião. Ano XI, nº 14, jan./jun., 2009, p. 239.

CRFB/88 Comentada

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