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3 O VALOR AFETIVO DA FAMÍLIA PARA A EDUCAÇÃO

Ser mãe ou pai é muito mais do que prover alimentos, vestimentas e um teto para
morar. Os pais são o porto seguro dos seus filhos e a base que eles tomam como
exemplo e referência para toda a vida. Cabe a eles transmitirem todo amor e segurança
para criarem um vínculo emocional necessário, que seja carregado de confiança. Portanto
devem garantir a subsistência, segurança e proteção dos frutos que trouxeram ao mundo,
assim como criar pelo caminho que julgam correto.
Como citado na Bíblia: “Educa a criança no caminho que deve andar; e até quando
envelhecer não se desviará dele” (BÍBLIA, Provérbios 22,6). Portanto, os responsáveis
devem usar a influência afetiva a favor dos seus filhos desde o seu nascimento,
encaminhado pelo bem e mostrando o certo e o errado.
Como o foco deste estudo é a afetividade e suas contribuições, nada mais
apropriado que estudar os vínculos afetivos desde o primeiro dia de vida do indivíduo.
Sim, a criança começa a estabelecer ligações a partir do momento em que sai do útero de
sua mãe, nesse momento ela começa a adquirir confiança e sua jornada afetiva começa,
cheia de descobertas e novidades.
A afetividade é alicerçada entre o seio familiar. Afeto está intimamente ligado à
emoção, e a relação familiar é submersa em um mundo de emoções. Por isso é correto
dizer que os pais constroem boa parte da estrutura emotiva do seu filho, por meio de sua
convivência e ligação sem igual.
A ausência dessa rica ligação de afeto entre o menor e sua família, pode trazer
problemas no presente e no futuro do mesmo. Por essa razão, a responsabilidade afetiva,
em especial dos seus genitores torna-se ainda maior. Nada pode ser deixado de lado,
pois a construção daquele novo ser requer atenção e muita cautela, e é na infância que
tudo é consolidado, isso cria marcas eternas que jamais serão apagadas.
Nada pode suprir ou substituir o amor e a atenção familiar. O vínculo afetivo é
muito mais intenso do que em outros casos. Um indivíduo pode até encontrar
alternativas que amenizam a carência provocada pela ausência de uma família,
mas certamente não a substituirá. (REGINATTO, 2013, p. 4)

É dos pais, primordialmente, a responsabilidade de desenvolver seus filhos. O


adulto sempre será o espelho da criança, por isso ele deverá usar sua influência para
despertar e refletir para o pequeno, o melhor de si. Alguns dos bons exemplos são os
pequenos hábitos diários, como troca de afeto, palavras carinhosas, brincadeiras,
histórias antes de dormir, etc. O ambiente confortável em que a criança se sinta bem e
acomodada traz uma confiança que, lá na frente, transparecerá no comportamento em
sua adaptação escolar, por exemplo.
Aspectos da dinâmica familiar podem ser muito poderosos na vida da criança,
visto ser no lar que, em geral, ela desenvolve quase todos os repertórios básicos
de seu comportamento, bem como já os tem como funcionais na ocasião em que
tem acesso à escola. (ZAMBERLAN, 1997, p. 41)

Na convivência familiar, acontece também o início de um desenvolvimento muito


importante que é a linguagem. A comunicação entre os pais e seu filho mesmo que ele
nem sequer tenha começado a balbuciar, é muito importante. O bebê responde a
estímulos desde o ventre da mãe, portanto, ouvir a voz, o diálogo, e músicas, contribui
muito para sua cognição e confiança no mundo que está descobrindo, e nos adultos que
em que ele está se relacionando.
A parceria entre os pais, quando bem estabelecida, garante um sucesso maior na
formação de suas crianças como seres sociais. Eles aprendem o respeito com o outro,
vendo seus pais se respeitando. A admiração da sua própria família faz a criança valorizar
os seus antecessores, o contexto de sua família, suas raízes. E crescer propagando
aquilo que lhe foi passado naturalmente preservando assim a história familiar por mais
uma geração.
O que faz a família são a mãe e o pai, que estão juntos ou operam juntos, e o
relacionamento entre eles, acrescido da atmosfera que ambos imprimem ao lar.
Faz igualmente parte uma história familiar à qual a pequena criança individual,
muito lentamente, passa a pertencer, juntamente com a maneira pela qual os pais
congregam as suas próprias famílias de origem. Esse pertencimento ao grupo
familiar provê o indivíduo do sentimento de ter uma raiz, uma linhagem e fornece a
base para que costumes e tradições sejam preservados. (DIAS, 2017, p. 148)

A moralidade também é um aspecto indispensável que é proveniente do seio


familiar, onde firma e constrói a moral do indivíduo em formação. A criança passa a se
colocar no lugar do outro, ter dimensão de certo e errado e aquilo que pode ou não pode
fazer. A instrução vem de seus pais e parentes próximos, que não devem dizer sempre
sim a todas as atitudes de sua cria.
Os princípios morais só são bem estabelecidos quando a relação família-criança é
carregada de confiança e afetividade, e isso muito coopera no convívio social desse
indivíduo. As emoções são imprescindíveis para a harmonia global.
À medida que as crianças se desenvolvem afetivamente, mudanças paralelas
podem ser observadas em seus julgamentos morais. O desenvolvimento do afeto
normativo, da vontade e do raciocínio autônomo influencia a moral e a vida afetiva
da criança operacional concreta. As crianças desenvolvem a capacidade de
perceber o ponto de vista dos outros, de considerar as intenções e de melhor se
adaptarem ao mundo social (WADSWORTH, 1997 p.74).

Antes de ingressar na escola, a criança já deve ter seus estímulos bem


estabelecidos. A família deve apresentar jogos, brincadeiras, contação de história, livros,
cores, músicas, brinquedos de encaixe, etc. É certo que se o menor for estimulado desde
sua casa a manusear abjetos e a ter o hábito de ouvir e acompanhar leituras, é certo que
ao entrar na escola, os desejos de ler, construir coordenação e desenvolver a fala,
estarão muito mais aguçados.
A partir do momento que a criança é integrada no ambiente escolar, é
imprescindível a participação da família, tendo em vista que a escola sozinha não
consegue formar o aluno em sua totalidade. Completamente tudo sobre o
desenvolvimento do indivíduo, requer a parceria entre família e escola. Uma agindo sem
a outra além de não ser eficaz, pode atrapalhar quem está no centro dessa problemática:
a criança.
No Brasil existem leis que asseguram os direitos da criança e as obrigações dos
seus responsáveis em relação a sua jornada escolar, tendo os pais, o dever de cumprir e
acompanhar a jornada escolar do seu filho, contribuindo para o bom andamento da sua
formação. O cumprimento, ou não, das atribuições da lei, fala muito sobre a afetividade
naquela família.
No Estatuto da Criança e do adolescente, consta um artigo, no qual são citados os
deveres e quem deve assegurá-los, e a família, claro, está em primeiro lugar no que se
refere a educação da criança. Segundo a lei nº 8.069 de 1990 do ECA:
Art. 4º É dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do poder
público assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos referentes à
vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à
profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência
familiar e comunitária.

A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), cita em alguns de seus


artigos a importância da família, e a sua associação direta com a educação dos alunos. A
LDB 1996, propõe:
Art. 1º A educação abrange os processos formativos que se desenvolvem na vida
familiar, na convivência humana, no trabalho, nas instituições de ensino e
pesquisa, nos movimentos sociais e organizações da sociedade civil e nas
manifestações.
culturais.
Art. 2º A educação, dever da família e do Estado, inspirada nos princípios de
liberdade e nos ideais de solidariedade humana, tem por finalidade o pleno
desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da cidadania e sua
qualificação para o trabalho.

Art. 6º É dever dos pais ou responsáveis efetuar a matrícula dos menores, a partir
dos sete anos de idade, no ensino fundamental.

A necessidade pela convivência com pessoas além do ciclo familiar vai aparecer, a
criança deve estar preparada para dividir ambientes, brinquedos, atenções que até então
eram só seus. O preparo para esse contato também é transmitido pela família, que por
meio da afetividade criada por eles, já tem autonomia suficiente para fazer o filho confiar
que aquele novo lugar que ele passará a frequentar será seguro e feliz.
Por trás da ideia de família, existe um reconhecimento da necessidade inicial da
criança pequena de uma versão simplificada da sociedade, que possa ser usada
para os propósitos do crescimento emocional essencial, até que o
desenvolvimento crie, na criança, uma capacidade para utilizar um círculo mais
amplo, e, na verdade, um círculo que se amplia cada vez mais. (WINNICOTT,
1996, p. 70).

A responsabilidade dos pais, principalmente na infância de seus filhos, é serem


presentes e priorizarem sua atenção para eles, a partir do momento que os responsáveis
tentam jogar em outras mãos -como na escola por exemplo- a educação dos seus filhos,
acabam perdendo as rédias dessa formação, já que é deles, a obrigação principal.
No caso das crianças, responsabilidade significa ocupar-se dos filhos. E isso toma
tempo. Não basta pagar e terceirizar os cuidados. Mesmo que isso seja
necessário, e quase sempre o é, é preciso ocupar-se dos filhos e supervisionar
pessoalmente a terceirização. O intolerável é os pais se desencarregarem dos
filhos, exatamente quando estes necessitam de sua presença pessoal. Os filhos
sempre têm, mesmo que não consigam verbalizá-lo, o argumento fatal: não
pedimos para nascer. (DIAS, 2017, p. 153).

O afeto é de grande valia para que os responsáveis gerem estímulos educacionais


positivos em seus filhos. Uma criança pequena como a de educação infantil, não tem
maturidade necessária para perceber que a escola e as coisas que ela oferece são
positivas e que agregam valor. Quando estimulado pelas pessoas em que mais confia no
mundo, o pequeno passa a perceber que aquela ida à escola é necessária, importante e
que lá é um espaço que vai além de obrigação.
Transmitir a educação com amor, esse é o ponto chave para que os pais consigam
agregar valor à educação adquirida na escola, eles são educadores insubstituíveis e
precisam saber disso. Tudo que a criança adquire pelos através dos pais, é de um valor
imensurável.
REFERÊNCIAS
A BÍBLIA. A. T. Provérbios. In BÍBLIA. Português. Bíblia Sagrada. Nova Tradução na
Linguagem de Hoje. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 2009.

BRASIL, Lei nº 8.069 de 13 de julho de 1990.

BRASIL, Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996.

DIAS, Elsa Oliveira. Família e amadurecimento: do colo à democracia. Natureza


humana: São Paulo, v. 19, n. 2, p. 144-162, dez. 2017 . Disponível em:
http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1517-24302017000200009
Acesso em: 12 set. 2020

REGINATTO, Raquel. A importância da afetividade no desenvolvimento e


aprendizagem. Lagoa Vermelha, RS: Revista de educação do IDEAU Vol. 8, n. 18, 2013.
Disponível em: https://www.caxias.ideau.com.br/wp-
content/files_mf/97ec1d6cfd138ed1e3f855a7040094a111_1.pdf Acesso em: 14 set. 2020.

WADSWORTH, Barry J. Inteligência e afetividade da criança na teoria de Piaget. 5º


ed. São Paulo: Pioneira, 1997.

WINNICOTT D.W. Pensando sobre as crianças. Porto Alegre: Artes Médicas. (Trabalho
original publicado em 1996).

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