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Sociologia

Volume único
ENSINO MÉDIO

Movimento
do aprender
Estar em movimento é questionar, é ser autor
do próprio pensamento, é compreender com
Herbert Gerjuoy que o “iletrado de amanhã
não será aquele que não aprendeu a ler, mas
aquele que não aprendeu a aprender”.
O que se faz necessário é aprender.
SERVIÇO SOCIAL DA INDÚSTRIA – SESI
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Dados Internacionais de Catalogação na Publicação


(Bibliotecária responsável: Enisete Malaquias CRB-8 5821)

300.7 SESI-SP
S515s Sociologia : Ensino Médio / SESI-SP ; [Coordenação geral: Maria
José Zanardi Dias Castaldi]. – 1.ed. – São Paulo : SESI, 2012.
264 p. : il. color. ; 28 cm. -- (Movimento do aprender).

Bibliografia
ISBN 978-85-8170-021-2

1. Educação 2. Ensino Médio 3. Sociologia I. Castaldi, Maria José


Zanardi Dias. II. Título. III. Série.

A SESI-SP Editora empenhou-se em identificar e contatar todos os


responsáveis pelos direitos autorais das imagens e dos textos reproduzidos
neste livro. Se porventura for constatada omissão na identificação de algum
material, dispomo-nos a efetuar, futuramente, os possíveis acertos.
Sociologia
Volume único
ENSINO MÉDIO

Movimento
do aprender

8.a Reimpressão
São Paulo, 2020
Gerência de produção editorial e gráfica
Caroline Mori Ferreira

Coordenação Geral
Maria José Zanardi Dias Castaldi

Técnicos Educacionais/Revisores
Elaine Aparecida Herrera Moreira
Iolanda Barros de Oliveira
Roberta dos Reis Neuhold

Elaboração dos Originais


José Luciano Ferreira de Almeida
Silvia Parra

Ilustradores
Alessandra Tozi
Daniel de Souza Gomes
Daniel Freire
Hamilton Santos da Silva
Lílian Ávila
Nilson Müller
Reinaldo Rosa

Produção gráfica
Rafael Zemantauskas
Sirlene Nascimento
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© SESI-SP Editora, 2012


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transmitida sem a permissão expressa do SESI-SP.

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APRESENTAÇÃO
Caro aluno,
O objetivo deste livro é despertar o interesse sobre os estudos da sociedade na
qual vivemos, e fornecer a você, que inicia o Ensino Médio, ferramentas que possibilitem
a compreensão do meio social no qual está inserido. Por meio da Sociologia, é possível
compreender as diversas dimensões que compõem o desenvolvimento da sociedade hu-
mana. O centro desses estudos está na compreensão das relações sociais e suas diversas
características. Com a evolução da humanidade, as relações sociais tornaram-se cada vez
mais complexas e objeto de estudo do ponto de vista da ciência. Foi nesse contexto que a
Sociologia tornou-se a ciência da sociedade, a partir dela os fenômenos sociais passaram
a se constituir como campo de conhecimento.
O livro de Sociologia está organizado com atividades de pesquisa e conta ainda com
um Apêndice que irá orientá-lo em relação às atividades solicitadas, durante o desenvol-
vimento do curso.
As unidades foram escritas, buscando a articulação entre a questão teórico-cien-
tífica e o seu cotidiano, de forma a introduzir uma visão científica aos estudos da sua
realidade social, permitindo compreendê-la e, assim, atuar sobre ela.
Na unidade 1, são apresentados os condicionantes histórico-sociais que deram ori-
gem à Sociologia, ao mesmo tempo em que se introduz o pensamento científico socio-
lógico — estudar a sociedade a partir da diferenciação entre conhecimento científico e
senso comum. Também é objetivo desta unidade a compreensão da importância funda-
mental das revoluções burguesas e do desenvolvimento industrial do capitalismo para o
estudo da sociedade.
Na unidade 2, são analisados os grupos sociais e a relação entre indivíduo e socie-
dade, bases para o desenvolvimento dos processos de socialização. Nessa perspectiva,
a educação possui papel singular no que se refere à reprodução das normas sociais, ao
mesmo tempo em que se constitui como mecanismo decisivo para analisar a sociedade.
A unidade 3 estuda o impacto das novas tecnologias de informação e comunicação
nas relações sociais e os desdobramentos sociais do desenvolvimento científico no con-
texto da globalização como objeto de estudo para a sociologia.
Na unidade 4, a Antropologia é utilizada para analisar a cultura por meio dos temas
da diversidade cultural, do etnocentrismo e do relativismo cultural. A sociedade é estuda-
da desconstruindo-se ideias e conceitos sobre as representações negativas que se incor-
poraram na formação cultural brasileira, principalmente sobre os povos afro-brasileiros
e indígenas.
Na unidade 5, explicitam-se os processos de dominação e de resistência na socieda-
de contemporânea a partir da discussão sobre a relação entre a cultura e ideologia.
Na unidade 6, trata-se de um tema fundamental para a Sociologia — o trabalho na
sociedade — a partir de concepções e funções em vários contextos e em diversas socie-
dades. O tema do trabalho é também analisado a partir do contexto da globalização e do
desenvolvimento científico e tecnológico, evidenciando as contradições sociais.
Na unidade 7, o objeto de estudo são as diferentes formas de organização da so-
ciedade, a estrutura social, a estratificação social e as diferentes formas de distribuição
do poder político e da riqueza. São problematizados os processos de produção das desi-
gualdades sociais na sociedade contemporânea e seus impactos nas diferentes formas de
violência social, econômica, cultural e política.
Na unidade 8, a discussão se refere aos desafios ambientais da atualidade, resulta-
do da relação entre sociedade e natureza, inserindo os debates sobre o desenvolvimento,
com ênfase nos países latino-americanos.
Na unidade 9, a mudança social e seus impactos na organização social, econômica
e política da sociedade são analisadas a partir de movimentos revolucionários como a
Revolução Industrial, a Revolução Francesa, a Revolução Cubana, entre outras.
Na unidade 10, são analisadas as relações de poder e formas de dominação, extra-
polando as presentes nas instituições políticas e econômicas. Também é objeto de estudo
desta unidade a formação do Estado Moderno e as várias possibilidades de regimes polí-
ticos, sistemas eleitorais e partidários, definindo quais são as instâncias de poder político
e suas funções.
Na unidade 11, discute-se a importância da democracia, dos canais de participação
política e da ação dos movimentos sociais na consolidação da cidadania, na conquista de
direitos e definição de políticas públicas.
Na última unidade, a 12, é analisado o papel da indústria cultural e dos meios de
comunicação de massa na formação e pasteurização de gostos, opiniões e comportamen-
tos. Esse tema é relacionado com os conceitos de alienação e consumismo e os impactos
dos movimentos culturais e de contestação na vida social e política.
O livro é finalizado com um apêndice em que são apresentados métodos e técnicas
de pesquisa nas ciências sociais, pesquisas quantitativas e qualitativas, enquetes, ques-
tionários, entrevistas, coletas e análises de dados, entre outros instrumentos utilizados
pela Sociologia.

Os autores
SUMÁRIO
9 As ciências da sociedade

35 Processo de socialização

59 Formas de sociabilidade no contexto das tecnologias de informação e comunicação

77 Cultura
101 Ideologia
117 O mundo do trabalho

139 Estratificação social, desigualdades e violência

157 Meio ambiente e capitalismo

173 Transformações sociais

191 Estado e relações de poder

215 Democracia e cidadania

233 Indústria cultural

248 Apêndice: métodos e técnicas de pesquisa

262 Referências
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[S.I.]

As ciências da

UNIDADE 1
sociedade

DIÁLOGO E REFLEXÕES
Estamos tão envolvidos, no dia a dia, em nossas atividades, que muitas vezes não paramos para refletir
sobre os acontecimentos ao nosso redor. Normalmente, deixamos essa tarefa para os especialistas: os
astrônomos explicam os fenômenos relacionados aos corpos celestes, os economistas interpretam as
oscilações dos preços, os meteorologistas coletam e analisam informações sobre o clima.
E quando se refere aos acontecimentos da sociedade, às relações e interações humanas, também
existem especialistas que estudam e apresentam prováveis respostas aos fatos.
• Quem são esses cientistas?
• Como será que esses cientistas estudam a sociedade?
• Quais instrumentos e métodos utilizam?
9
• Onde realizam as suas pesquisas?
SOCIOLOGIA  As ciências da sociedade

EM FOCO
A situação da classe trabalhadora na Inglaterra, de Friedrich Engels
O jovem alemão Friedrich Engels estava com a vida feita. Rico, bem-nascido,
em uma das mais prósperas famílias de Bremen, cultíssimo – já na adolescência
aprendeu vários idiomas e escrevia poemas – e de boa aparência, foi designado
pelo seu pai para cuidar dos negócios da família em Manchester, na Inglaterra.
Não era um cargo qualquer: era nada menos do que a “oficina do mundo”, a cidade
das chaminés e das máquinas que abastecia o mundo industrializado com tudo
o que ele necessitava. Abrir um escritório em Manchester representava mais, na
época, do que hoje abrir um em Nova Iorque, Los Angeles ou Chicago. Era, para
ser mais direto, o tipo de emprego que qualquer pai zeloso gostaria de dar para o
filhão. E para lá se foi o jovem Engels, armado com algumas garrafas de vinho do
Porto, várias cartas das namoradas, seus melhores ternos e livros – muitos livros:
de Hegel, Feuerbach, Bruno Bauer, Moses Hess, Max Stirner e todos os grandes
nomes da maior glória que sua pátria fragmentada e oprimida podia ostentar
naqueles tempos: a filosofia alemã.
[...] Engels chegou a Manchester, em 1842, interessado tanto nas condições que
levaram a Inglaterra à dianteira do mundo capitalista quanto no destino que
este mundo deixava para a classe trabalhadora, assunto de primeira ordem no
seu círculo intelectual. Só que falar do povo pobre era uma coisa. Outra bem
diferente era vê-lo ao vivo. E não deve ter sido agradável a experiência do menino
bem alimentado ao ver in loco aquela gente maltrapilha, homens, mulheres e
crianças sujos de graxa e pó, magros, de olhos afundados e pele ressecada pelo
frio e pela desnutrição, perambulando pelas ruas dos distritos mais pobres das
metrópoles. Na sua Alemanha natal, bem menos industrializada, o pobre vivia no
campo, em suas casinhas estilo enxaimel, cercada por agradáveis jardins e uma
pequena horta onde a família trabalhava durante o ano de acordo com as suas
possibilidades físicas. O lavrador alemão – assim como o artesão, o carpinteiro
e o tecelão – trabalhava e via o resultado do seu trabalho em suas mãos, ou, no
máximo, nas mãos do patrão. Havia, sim, alguns operários pobres, que ele viu de
longe em uma ou outra visita à fábrica do pai. Mas nada comparável àquele povo
extenuado, abrutalhado pelas 14 horas diárias de trabalho ininterrupto que ele via
na avançadíssima Inglaterra. E o pior é que não podia fazer muito por eles, já que
esta gente que tanto lhe repugnava era nada menos do que os seus empregados
– ou seja, por mais pesada que fosse a sua consciência, era preciso tocar a firma. O
fraco estômago do rico jovem da Renânia tinha de aguentar aquelas barbaridades
durante o dia de trabalho. Quando o expediente acabava, Engels tomava uma
charrete para sua casa em um bairro rico de Manchester, sentava na escrivaninha,
molhava a pena na tina e começava a escrever, indignado, aquilo que viria a ser o
seu primeiro livro: A situação da classe trabalhadora na Inglaterra, publicado agora
no Brasil pela editora Boitempo.
Não foi uma tarefa fácil. Apesar do ardor de jovem rico e sensível que via a pobreza
extrema pela primeira vez – algo facilmente perceptível pelo tom indignado que
Engels emprega na maior parte das vezes –, a confecção do livro exigiu dele um pouco
mais do que o senso de justiça, a arguta observação empírica e a retórica de grande
escritor. Em sua escrivaninha, ao lado do tinteiro e da pena, pousavam dezenas de
relatórios de inspetores de fábricas, denúncias de instituições de caridade, recortes de
reportagens de jornais ingleses, anuários estatísticos e trabalhos de pesquisa social
então incipientes, porém, muito úteis como fonte de pesquisa. É bem provável que
Engels fosse, naquela altura, o dono da mais rica documentação sobre a exploração dos
trabalhadores ingleses de toda a Grã-Bretanha, complementada pelas suas próprias
observações pessoais sobre o estado dos bairros proletários das principais cidades do
10
país. E dessas observações A situação da classe trabalhadora DESDOBRAMENTO
na Inglaterra (ver link disponível em: <http://www.4shared. Charles-Louis de Secondat
com/get/3QVodd3U/engels_a_situacao_da_classe_tr.htm>. Barão de Montesquieu
Acesso 11 ago. 2011) está cheia. Se há um momento em que
as qualidades de Engels como escritor e jornalista aparecem
claramente é quando ele fala das cidades e das paisagens rurais
inglesas, como neste trecho:
A área lanígera do West Riding, no Yorkshire, é
encantadora: uma sucessão de verdes colinas,

g
a.or
cujas elevações se tornam mais e mais abruptas na

mmons.wikimedi
direção oeste até culminarem na crista escarpada de
Blackstone Edge, divisória entre o mar da Irlanda e o
mar do Norte. O vale do Aire, onde se situa Leeds, e o
do Calder, percorrido pela ferrovia Manchester-Leeds,

[S.I.]/co
contam-se entre os mais sugestivos da Inglaterra,
semeados por fábricas, vilas e cidades; as casas
cinzentas de pedra, limpas e atraentes, comparadas
às construções de tijolos cobertos de fuligem do
Lancashire, são graciosas à vista.
Este é um momento especialmente agradável do livro. Engels
gentilmente convida o leitor para viajar pela Merry Old Na França, este autor (Montes-
quieu) geralmente é considerado
England de céu cinzento e terra verdejante, conhecer suas
um precursor da Sociologia e se
metrópoles e suas cidadezinhas, as ruas principais, passear atribui a Auguste Comte o mérito
por elas e, quando quase nos sentimos capazes de respirar o de ter fundado essa ciência – o
agradável ar dos parques e das praças, ele nos joga no chão que é verdade, se fundador for
com apontamentos indignados sobre a miséria dos bairros aquele que criou o termo. Contu-
pobres, a desnutrição, as mortes pela fome e as vidas gastas do, se o sociólogo se define por
diante das máquinas. Quando chega a hora de descrever as uma intenção específica, conhecer
condições de vida dos trabalhadores, Engels dá, na maior parte cientificamente o social enquanto
das vezes, voz aos jornais, revistas e relatórios. Quando fala do tal, Montesquieu é, a meu ver, um
sociólogo, tanto quanto Auguste
que viu nas fábricas em suas andanças pela Inglaterra, não
Comte.

UNIDADE 1
consegue conter a revolta interior e proclama, em altos brados, [...]
“que deverá explodir uma revolução diante da qual a primeira O objetivo de Motesquieu é
Revolução Francesa e 1794 serão uma brincadeira de crianças”. tornar a história inteligível: deseja
PITOL, Celso Augusto Uequed. A situação da classe trabalhadora na Inglaterra, de
compreender o dado histórico. Ora,
Friedrich Engels. Blog Perspectiva, 26 jul. 2008. Disponível em: <http:// este se apresenta a seus olhos sob a
www.boitempo.com/publicacoes_imprensa.php?isbn=978-85-7559-104- forma de uma diversidade quase in-
8&veiculo=Blog%20Perspectiva>. Acesso em: 10 mar. 2011. finita de costumes, ideias, leis e ins-
tituições. O ponto de partida da sua
investigação é precisamente essa
diversidade, que parece incoerente:
a finalidade da pesquisa deveria ser
CONHECIMENTO EM XEQUE a substituição dessa diversidade
incoerente por uma ordem concei-
tual. Exatamente como Max Weber,
Montesquieu deseja passar do lado
Primeiras palavras incoerente a uma ordem inteligível.
Ora, esse processo é próprio do
No século XIX, o pensamento científico passou a incorporar um sociólogo.
novo objeto de estudo: o mundo social. De certo modo, pelo menos um ARON, Raymond. As etapas do pensamento
século antes, o barão de Montesquieu (1689-1755) já havia elaborado sociológico. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes,
1987. p. 21-22.
investigações sistemáticas sobre a organização social e as instituições
políticas, porém, foi de Auguste Comte (1798-1857) o mérito de no-
mear a nascente ciência da sociedade como Sociologia.
A Sociologia surgiu em um contexto específico, marcado por pro-
fundas transformações políticas, sociais, religiosas, culturais e econô-
11
SOCIOLOGIA  As ciências da sociedade

micas. Por isso também ficou conhecida como ciência da crise. Que mudanças foram
essas? Quais fatores e acontecimentos históricos contribuíram para desencadear tais trans-
formações? Por que a Sociologia recebeu essa denominação? Quais são os seus objetos
de estudo?
Essas são algumas das questões que serão respondidas nesta unidade. Para tanto, serão
analisados os contextos de emergência da Sociologia e algumas das ideias difundidas
pelos pensadores tidos como clássicos na Sociologia. A especificidade do conhecimento
científico e como ele se diferencia do senso comum também serão problematizados.

Surgimento da Sociologia
Em um cenário de profundas transformações econômicas, sociais, políticas, religiosas e
culturais nasceu a Sociologia, com o intuito de explicar a nova configuração da sociedade
moderna, utilizando para tanto o método científico.
O surgimento da Sociologia data do século XIX e foi concomitante às mudanças provo-
cadas por duas importantes revoluções, a Francesa e a Industrial. Essas revoluções fizeram
parte de uma série de movimentos e acontecimentos na Europa Ocidental, que redefiniram
a organização política, a esfera da produção, as formas de construção do conhecimento, as
concepções sobre liberdade e igualdade, a noção de indivíduo, o papel da Igreja católica,
os valores, os modos de vida, as crenças religiosas, entre tantos outros aspectos.
Na Europa, a velha ordem feudal dava lugar para a nascente sociedade capitalista,
fundada em um novo modo de produção e em novas relações de trabalho. As máquinas
substituíam o trabalho artesanal, os pequenos proprietários de terra desapareciam. Nascia
o proletariado, a fábrica, a produção e o consumo em massa.
No mesmo período, as cidades inchavam devido à migração da população rural para
a área urbana, sem que houvesse, contudo, infraestrutura suficiente para atendê-la. Não
existiam, na época, condições para suprir toda a demanda populacional, o que resultou
no surgimento ou no agravamento de muitos problemas sociais, tais como a pobreza,
a falta de moradia e de saneamento básico, a violência, a criminalidade, os índices de
suicídio, de alcoolismo, de prostituição.
Entretanto, os processos migratórios não afetaram apenas a estrutura das cidades, co-
laboraram também para o desenvolvimento de uma nova forma de pensar. Os conceitos
indivíduo, individualismo, felicidade e liberdade tornaram-se muito mais expressivos.
Isso porque, ao contrário da vida rural que favorecia o trabalho coletivo, no qual eram
desempenhadas tarefas semelhantes e necessárias à sobrevivência, na rotina urbana,
o local de trabalho se separa da residência, os indivíduos passam a realizar trabalhos
especializados e, pouco a pouco, deixam de se submeter, de forma incondicional, a ins-
tituições tradicionais, como a família, a comunidade e a religião. Essas transformações
foram acompanhadas pelo estabelecimento de ideais referentes à constituição de Estados
democráticos e liberais, da divisão dos poderes, da garantia dos direitos humanos, do
direito ao voto e de uma incipiente soberania popular.
Cabe destacar um fator que contribuiu decisivamente para a formação da Sociologia:
o movimento intelectual, iniciado ainda no século XV, de crítica às concepções sobrena-
turais do mundo e, em contrapartida, de incentivo à investigação racional dos fenômenos
naturais a partir da experimentação e da observação. Os ideais iluministas e a crença no
antropocentrismo destacaram-se no cenário científico, demonstrando que havia outras
formas de conhecer o mundo além daquelas oferecidas pela vertente teológica ou mística.
Essas mudanças ocorrem ao mesmo tempo em que a Igreja católica perde a primazia no
fornecimento de respostas aos fenômenos naturais e sociais. Dessa forma, a Ciência ex-
pandiu sua atuação, propondo outras maneiras de interpretar a realidade e estabelecendo
novos paradigmas.

12
A Revolução Francesa
Se a economia do mundo do século XIX foi formada, principalmente, sob a influência da
revolução industrial britânica, sua políticas e ideologias foram formadas fundamentalmente
pela Revolução Francesa. A Grã-Bretanha forneceu o modelo para as ferrovias e fábricas, o
explosivo econômico que rompeu com as estruturas socioeconômicas tradicionais do mundo
não-europeu; mas foi a França que fez suas revoluções e a elas deu suas ideias a ponto de
bandeiras tricolores de um tipo ou de outro terem-se tornado o emblema de praticamente todas
as nações emergentes, e a política europeia (ou mesmo mundial), entre 1789 e 1917, ser em
grande parte a luta a favor e contra os princípios de 1789, ou, os ainda mais incendiários, de
1793. A França forneceu o vocabulário e os temas da política liberal e radical-democrática
para a maior parte do mundo. A França deu o primeiro grande exemplo, o conceito e o vo-
cabulário do nacionalismo. A França forneceu os códigos legais, o modelo de organização
técnica e científica e o sistema métrico de medidas para a maioria dos países. A ideologia do
mundo moderno atingiu as antigas civilizações que tinham até então resistido a ideias europeias
inicialmente através da influência francesa. Esta foi a obra da Revolução Francesa.
HOBSBAWM, Eric J. A Revolução Francesa In: A era das revoluções, 1789-1848. 25. ed. São Paulo:Paz e Terra, 1989. p. 97-98.

A Revolução Industrial
A segunda grande revolução começou na Grã-Bretanha, no final do século XVIII, antes
de surgir alhures na Europa, na América do Norte e mais além. Foi a Revolução Industrial
– o amplo espectro de transformações sociais e econômicas que cercaram o desenvolvi-
mento de inovações tecnológicas, como a energia e a máquina a vapor. O surgimento da
indústria levou a uma enorme migração de camponeses da terra para as fábricas e para o
trabalho industrial, causando uma rápida expansão de áreas urbanas e introduzindo novas
formas de relações sociais. Isso mudou dramaticamente a face do mundo social, incluindo
muitos de nossos hábitos pessoais. A maioria dos alimentos que comemos e das bebidas
que bebemos – como o café – é agora produzido por meios industriais.
A ruptura com os modos de vida tradicionais desafiou os pensadores a desenvolverem
uma nova compreensão tanto do mundo social, quanto do natural. Os pioneiros da Socio-
logia foram apanhados pelos acontecimentos que cercaram essas revoluções e tentaram
compreender sua emergência e consequências potenciais. Os tipos de questões que esses

UNIDADE 1
pensadores do século XIX buscavam responder – O que é a natureza humana? Por que a
sociedade é estruturada da forma que é? Como e por que as sociedades mudam? – são as
mesmas questões que os sociólogos tentam responder hoje em dia.
GIDDENS, Anthony. O desenvolvimento do pensamento sociológico. In: Sociologia. 4. ed. Porto Alegre: Artmed, 2005. p. 27-28.

1. Fatores presentes nos contextos da Revolução Francesa e da Revolução Industrial podem ser observados na
sociedade atual.

Sendo o Brasil um dos países de maior desigualdade no mundo, onde a riqueza, portanto, é das mais
concentradoras, a adoção de novos impostos sobre a riqueza — como novos tributos sobre as heranças e
a propriedade —, uma maior progressividade na taxação da renda e dos fluxos de capital são políticas que
existem há muito tempo em outros países e podem oferecer os recursos necessários para a reforma tribu-
tária. Não é mais possível que 45% de toda a riqueza e renda nacionais estejam nas mãos de apenas 5 mil
famílias extensas e que os impostos sobre o patrimônio representem apenas 3,4% do total dos impostos
arrecadados pela União, Estados e Municípios.
BAVA, Silvio Caccia. Recuperar as perdas. In: Le Mond Diplomatique Brasil. Fevereiro, 2011, Ano 4, nº 43, p.4-5.

As 400 mil pessoas, aproximadamente, que entre os 23 milhões de franceses formavam a nobreza, a
inquestionável primeira linha da nação, embora não tão absolutamente a salvo da intromissão das linhas
menores como na Prússia e outros lugares, estavam bastante seguras. Elas gozavam de consideráveis privi-
légios, inclusive da isenção de vários impostos (mas não de tantos quanto o clero, mais bem organizado), e
do direito de receber tributos feudais.
HOBSBAWM, Eric J. A Revolução Francesa. In: A Era das Revoluções. São Paulo: Paz e Terra, 2009. p 102. 13
SOCIOLOGIA  As ciências da sociedade

Por outro lado, havia muito mais pobres que, diante da catástrofe social que não conseguiam compre-
ender, empobrecidos, explorados, jogados em cortiços onde se misturavam o frio e a imundície, ou nos
extensos complexos de aldeias industriais de pequena escala mergulhavam na total desmoralização. [...] O
alcoolismo em massa, companheiro quase invariável de uma industrialização e de uma urbanização brusca
e incontrolável, disseminou uma peste de embriaguez em toda a Europa.
HOBSBAWM, Eric J. A Revolução Francesa. In: A Era das Revoluções. São Paulo: Paz e Terra, 2009. p 323.

a) Comparando essas três realidades com o texto inicial de Friedrich Engels, que análise pode ser feita sobre a
questão da pobreza na sociedade?
b) Faça uma pesquisa sobre a distribuição da renda no Brasil, por região, no período de 2000-2010. Sistematize em
uma tabela estatística, discuta com os colegas as desigualdades percebidas. Você pode pesquisar nos sites do
IPEA (Instituto de Pesquisas Avançadas) e do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), disponíveis em:
<http://www.ipeadata.gov.br/> e <http://www.ibge.gov.br>. Acesso em: 21 jul. 2011.

O pensamento sociológico
Por ser uma construção humana, o conhecimento científico reflete (ao mesmo tempo
em que elabora) visões determinadas sobre o ser humano, sobre o mundo e sobre o próprio
conhecimento. Ao se alterarem as concepções que o homem tem sobre si, sobre o mundo
e sobre o conhecimento, altera-se também o empreendimento científico, surgindo, assim,
novas possibilidades de produção de saber e de ação humana.
O surgimento da Sociologia foi caracterizado pela ideia de que o pensamento racional
e científico poderia contribuir para estudar tanto a natureza quanto a vida em sociedade.
Em outras palavras, se a observação e a experimentação levam ao descobrimento das leis
físicas da natureza, podem também ser utilizadas para investigar a sociedade, desvendar
suas leis e restabelecer a ordem de uma sociedade em crise.
Desde a sua formação até a atualidade, o pensamento sociológico passou por profundas
transformações, adquirindo independência em relação às Ciências físicas e biológicas e à
obrigatoriedade de encontrar leis objetivas e universais para explicar os processos sociais.
Mostrou ainda a viabilidade de debruçar-se criticamente sobre a sociedade e analisá-la a
partir de um conjunto de pressupostos teóricos e metodológicos.
O desenvolvimento da Sociologia como Ciência Social foi marcado e moldado pelo
pensamento de três grandes pensadores: Durkheim, Weber e Marx. Os métodos de estu-
do sobre a sociedade, por eles utilizados, definiram o arcabouço teórico que caracteriza
a Sociologia clássica e possibilitaram seu reconhecimento como disciplina no campo
científico.
O método sociológico necessita de uma visão de sociedade que defina as concepções
de homem e de mundo que servirão de fundamento para o estudo. Para Durkheim, a
sociedade é considerada como um sistema orgânico, cada uma de suas partes deve ser
analisada a partir da função que exerce e, para isso, o autor toma como base os princípios
utilizados pelas ciências naturais. Weber acrescenta ao método sociológico a compreensão
da influência dos fatores históricos e culturais na formação da sociedade, além de consi-
derar na análise os significados que os sujeitos atribuem às suas ações. Marx introduz o
conceito da contradição e do conflito. Segundo o autor, a sociedade é um lugar de luta
de diversos interesses.
Questão importante em relação à Sociologia diz respeito à discussão sobre a objeti-
vidade nas Ciências Sociais.
As ciências positivistas consideram uma cisão entre sujeito e objeto, sendo que o objeto
prevalece sobre o sujeito. O objeto existe, é uma realidade dada independente do sujeito
e, portanto, pode ser analisado de forma totalmente neutra, uma vez que esses dois polos
assumem posições totalmente distintas. O referencial teórico é o das Ciências Naturais, que

14
estabelece, formas de garantir a neutralidade do pesquisador. Para Durkheim, a um dado
fenômeno, só é possível conhecê-lo e ajustar-se a ele. A melhor forma de compreender a
realidade, o objeto de estudo, é pelo estudo de todas suas partes, quanto mais precisa, mais
esmiuçada a descrição do objeto, maior a possibilidade de apreendê-lo por completo, e
também maior a possibilidade de o pesquisador manter-se neutro, de estabelecer uma re-
lação objetiva, de afastar-se do fenômeno estudado. Como a realidade está dada, é externa
ao sujeito, o seu objetivo é o de retratá-la e não de interferir nessa realidade. Ao utilizar o
referencial teórico das ciências naturais, naturalizam-se as relações sociais, impedindo a
possibilidade de interferência na realidade.
A análise marxista da questão da objetividade é vista de forma diversa. Sujeito e objeto
formam uma totalidade. O sujeito é sujeito do conhecimento e da ação, uma vez que o
objeto nele interfere e é por ele atingido. O objeto é objeto de conhecimento e de ação,
pois, ao ser estudado, interfere na ação do sujeito. Não há possibilidade de neutralidade,
uma vez que se estabelece uma relação de codependência entre os dois. As pré-noções
não são descartadas, mas devem ser consideradas como questões de análise. A realidade
é estudada não apenas para dela obter o maior conhecimento possível, deve-se ultrapassar
o simples conhecimento teórico, o objetivo é a transformação da realidade. A perspectiva
marxista evidencia como se estabelecem as relações do ser humano com a natureza, as
relações sociais que surgem a partir dessa interação e como as relações sociais são ado-
tadas pelos próprios homens.
A caracterização do método científico moderno, contudo, considera as alterações na
realidade econômica e social, na forma como o ser humano estabelece as relações de pro-
dução, interferindo na visão de mundo e em como considera o que é ciência e qual método
deve ser utilizado para dar confirmação a essa ciência. Transcrevemos abaixo um, trecho
do discurso do professor Moyses Nussenzveig na Academia Brasileira de Ciências:

Diz-se que, assim como o século XX teria sido o da física, o próximo será
o da biologia. Não creio, será o da: BioFisicoQuímicaMatemáticaComputa-
cionalTecnoSociológica! A Natureza ignora nossos preconceitos e recortes
arbitrários. Também faz parte da mentalidade fin de siècle anunciar o Fim
da Ciência e o Fim da História. O Projeto Genoma, em que cientistas

UNIDADE 1
brasileiros deram uma bela demonstração de nossa capacidade de obter
resultados da mais alta relevância quando dispomos de recursos, é apontado
como etapa final da biologia. A descrição correta é a de Sydney Brenner:
não se trata do começo do fim, mas do fim do começo, o começo de uma
grande revolução na biologia e na medicina, que também vai requerer uma
intensa participação das ciências sociais para abordar problemas humanos
e éticos.

Disponível em: <http://www.webciencia.com/03_ciencia.htmj>. Acesso em: 13 jul. 2011.

A Sociologia: objeto e principais problemas


A Sociologia, como modo de explicação científica do comportamento social e das con-
dições sociais de existência dos seres vivos, representa um produto recente do pensamento
moderno. Alguns especialistas procuram traçar suas origens a partir da filosofia clássica da
Grécia, da China e da Índia. Isso faz tanto sentido quanto ligá-la às formas pré-filosóficas do
pensamento. Na verdade, toda cultura dispõe de técnicas de explicação do mundo, cujas
aplicações são muito variadas. Entre as aplicações que elas podem receber, estão as que
dizem respeito ao próprio homem, às suas relações com a Natureza, com os animais ou
com outros seres humanos, às instituições sociais, ao sagrado e ao destino humano. O
mito, a religião e a filosofia constituem as principais formas pré-científicas de consciência
e de explicação das condições de existência social.

15
SOCIOLOGIA  As ciências da sociedade

Tais modalidades de representação da vida social nada têm em comum com a


Sociologia. Elas surpreendem, às vezes com espírito sistemático e com profundidade
crítica, facetas complexas da vida social. Também desempenharam ou desempenham,
em seus contextos culturais, funções intelectuais similares às que cabem à Sociologia na
civilização industrial moderna; pois todas servem aos mesmos propósitos e às mesmas
necessidades de explicação da posição do homem no cosmos. Entretanto, nenhum
desses pontos de contato oferece base à suposição de que essas formas pré-científicas
de consciência ou da explicação da vida social tenham contribuído para a formação
e o desenvolvimento da Sociologia. Em particular, elas envolvem tipos de raciocínio
fundamentalmente distintos e opostos ao raciocínio científico. Mesmo as filosofias
greco-romanas e medievais, que deram relevo especial à reflexão sistemática sobre a
natureza humana e a organização das sociedades, contrastam singularmente com a
explicação sociológica. É que , como notou Durkheim, elas tinham, com efeito, por
objeto, não explicar as sociedades tais e quais elas são ou tais e quais elas foram, mas
indagar o que as sociedades devem ser, como elas devem organizar-se, para serem
tão perfeitas quanto possível
É preciso procurar os fatores específicos da formação da Sociologia nas condições inte-
lectuais e materiais de desenvolvimento do mundo moderno. Três séries de convergências
parecem responsáveis pela lenta, mas progressiva substituição da concepção normativa e
especulativa por uma representação positiva da vida social. Em primeiro lugar, estão os
fatores socioculturais, que exerceram uma influência condicionante geral e que deram sen-
tido unívoco às diferentes formas de concepção do mundo, nascidas das exigências da vida
moderna. Esses fatores operaram principalmente nas esferas práticas, como a econômica,
a administrativa e a política, mas produziram efeitos que alteraram a mentalidade média
do homem comum. Normas, valores e instituições sociais, tradicionalmente encarados
como possuindo um caráter sagrado e intangível, passaram a ser vistos como produtos da
atividade humana, suscetíveis de transformação segundo padrões de “eficiência” a serem
estabelecidos de acordo com a natureza dos fins visados. A explicação das coisas em
função de suas origens adquiriu uma feição eminentemente prática, pois permitiria pôr
em relevo a que necessidades elas correspondiam, em determinadas circunstâncias, e se
impunha ou não alterá-las, em função de novas necessidades. Em outras palavras, foram
os modos secularizados de conceber o mundo e os imperativos à crescente racionalização
das técnicas de controle social que conduziram o homem moderno ao estado de espírito
que assegura um mínimo de autonomia crítica e de objetividade diante das ocorrências
da vida em sociedade.
Em segundo lugar, estão os fatores intelectuais que por assim dizer “canalizaram” a
formação das categorias abstratas, que iriam tornar possível a constituição da Sociolo-
gia. Toda a evolução do pensamento moderno é dominada por influências resultantes
da nova concepção dinâmica, secularizada e racional da vida. A filosofia, o direito e a
história, especialmente, sofreram uma espécie de “revolução copernicana”, caracteriza-
da pelo repúdio progressivo às concepções providencialistas e a-históricas, herdadas do
período medieval, e pela valorização contínua de explicações relativistas, fundadas no
conhecimento da natureza das coisas ou da ordem existente nas relações delas entre si.
Tais desenvolvimentos tiveram enorme importância para a Sociologia. A natureza e as
condições de organização das sociedades humanas constituem temas centrais nessas
disciplinas. A discussão desses temas, à luz das novas concepções, produziu os primeiros
conhecimentos pré-científicos de natureza sociológica. Assim, particularmente durante o
século XVIII, foram moldados vários conceitos essenciais para a Sociologia, surgiram as
primeiras tentativas de explicar o comportamento humano pelas situações de existência e
formou-se a convicção de que os fenômenos sociais variam não porque estejam sujeitos
ao arbítrio dos indivíduos, mas porque são regulados por uma ordem imanente às relações
deles entre si, a qual é variável de uma sociedade para outra.

16
Em terceiro lugar, estão os fatores inerentes à dinâmica do “sistema das Ciências
Sociais”. A evolução das ciências, no mundo moderno, vincula-se diretamente a necessi-
dades de controle racional de condições instáveis do meio artificial, criado pelo homem
na Natureza (cf. Scheler). Por isso, ela adquiriu funções amplas e plásticas, mas precisas
e vitais, e acabou penetrando, de uma forma ou de outra, todas as esferas essenciais da
vida humana. À medida que a civilização urbano-industrial conseguia condições propícias
de desenvolvimento, a ciência assumia a significação e as funções culturais de sistema
dominante de concepção do mundo. Sob esse aspecto, a extensão gradual do ponto de
vista científico a todos os objetos suscetíveis de tratamento científico-positivo aparece
como um processo cultural regular e inelutável. Não se pode afirmar que efeitos desse
processo sejam responsáveis, causalmente, pelo aparecimento da Sociologia, pois é sa-
bido que, com referência aos fenômenos sociais, ele foi precipitado, historicamente, por
duas influências concomitantes. De um lado, pelas pressões que se fizeram sentir, com
intensidade crescente a partir dos meados do século XVIII, no sentido de descobrir técni-
cas racionais de controle dos “problemas sociais”, provocados pela revolução burguesa.
De outro, pelas evidências, de origem extracientífica, de que a sociedade possui “suas
leis” e uma ordem que lhe é própria. Em nossos dias, entretanto, parece evidente que a
simples expansão interna do sistema das ciências, sem o concurso dessas duas influên-
cias, concorreria para o aparecimento da Sociologia ou de uma disciplina científica com
objeto, métodos e problemas equivalentes. O que quer dizer que o ímpeto espontâneo
de evolução das ciências no mundo moderno precisa ser considerado um fator potencial
relevante na formação da Sociologia.
Portanto, a criação da Sociologia, como a de outras entidades culturais, pode ser vista
como um processo no qual concorrem diversos fatores histórico-sociais e culturais. Isso
significa várias coisas. Primeiro, que ela não nasceu, pronta e acabada (como poderia
acontecer com um “sistema filosófico”), da capacidade inventiva de um pensador deter-
minado. Segundo, que seu aparecimento apenas marca o início de um desenvolvimento
mais complexo, que se subordinou, no caso, ao padrão cultural de acumulação lenta mas
contínua de descobertas comprovadas empiricamente, inerente ao conhecimento científico.
Terceiro, que a sua constituição liga-se, primariamente, a certas necessidades intelectu-

UNIDADE 1
ais e sociais, preenchidas na moderna civilização urbano-industrial pelo conhecimento
científico ou por suas aplicações. Por fim, que a capacidade criadora dos pensadores, que
contribuíram de modo original em sua formação, foi estimulada e orientada por incentivos,
tendências e aspirações suprapessoais.
FERNANDES, Florestan. A sociologia: objeto e principais problemas. In: IANNI, Octavio. Sociologia. São Paulo: Ática, 1986. p 63-66

2. O método sociológico, segundo Florestan Fernandes, firmou-se como ciência a partir de


três fatores presentes no desenvolvimento do mundo moderno: 1º autonomia crítica e objeti-
vidade diante dos fenômenos sociais; 2º entendimento de que os fenômenos sociais são regu-
lados por uma ordem própria às relações deles decorrentes, variando entre as sociedades; 3º a
evolução das ciências no mundo moderno englobou as Ciências Sociais segundo o modelo de
pensamento científico.
Leia novamente o texto acima, identificando esses fatores e suas características. A seguir, faça
uma análise do que é relatado por Engels no texto A situação da classe trabalhadora na Inglater-
ra, atendendo ao que é indicado como método científico. Essa atividade pode ser feita em grupo
e, posteriormente, apresentada aos outros grupos.

17
SOCIOLOGIA  As ciências da sociedade

A Sociologia no Brasil
A Sociologia como disciplina acadêmica no Brasil tem uma história recente, destacou-se
a partir do século XX, sobretudo depois da década de 1930, com a fundação da Escola
de Sociologia e Política (1933) e da Universidade de São Paulo (1934). Seu surgimen-
to está relacionado à necessidade de compreensão dos processos de transformação da
sociedade brasileira decorrentes do desenvolvimento econômico do país caracterizado
pelo processo de industrialização em substituição a uma economia essencialmente rural.
Assumem relevância estudos orientados por pressupostos metodológicos que garantam a
construção científica das Ciências Sociais no Brasil. Essa conjuntura incluiu a participação
e grande influência de professores e pesquisadores estrangeiros reconhecidos nessa área
do conhecimento.
Claude Lévi-Strauss, Roger Bastide, Donald Pierson e Radcliff Brown foram alguns entre
muitos sociólogos e antropólogos europeus e norte-americanos que vieram ao nosso país
para difundi-la. Aqui, as Ciências Sociais iniciaram suas investigações estudando o pro-
cesso de formação da sociedade brasileira e as relações etnorraciais. Destacaram-se obras
de autores como Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, Caio Prado Júnior, Octávio
Ianni, Florestan Fernandes e Fernando Henrique Cardoso. A partir de então, as análises
se ampliaram, problematizando as relações patriarcais, aspectos da industrialização e
da urbanização e os problemas delas decorrentes, as condições de desenvolvimento do
país e da América Latina, bem como a organização política do país, a composição dos
partidos políticos e do congresso nacional, a formulação das políticas públicas, etc. Atu-
almente, as Ciências Sociais no Brasil são bastante diversas, estudando variados aspectos
da sociedade contemporânea.
Segundo Lidke, a ênfase dos estudos sociológicos dedicou-se, durante o período de
redemocratização, à temática dos movimentos sociais, posteriormente a Sociologia passou
a dedicar-se ao estudo das identidades e representações sociais dos movimentos urbanos
e rurais, do movimento sindical, dos movimentos de gênero e diversidade sexual, do
movimento negro e dos movimentos ecológicos. Entre outras áreas temáticas destacam-
se a Sociologia do trabalho, a Sociologia política, a Sociologia da cultura, a Sociologia
da educação, os estudos sobre violência e a Sociologia da religião. Recentemente, as
temáticas da globalização, da pós-modernidade e do multiculturalismo destacam-se nos
trabalhos de pesquisa dos sociólogos brasileiros.
Liedke ressalta ainda que as principais influências sobre a Sociologia no Brasil, atualmente,
são as de Bourdieu, Foucault, Giddens, Elias, Habermas e Weber, utilizados como referências
em ensaios e pesquisas.

3. Seguem abaixo temas de reportagens presentes em várias edições da revista Sociologia:


ciência e vida. Escolha um deles e faça uma resenha crítica. Para realizar essa atividade, consulte
no Apêndice as orientações para a elaboração de uma resenha crítica. Você pode encontrar esse
material em bancas de revista ou pelo site, disponível em: <http://sociologiacienciaevida.uol.
com.br/ESSO/>.
• A desigualdade persiste como marca da nossa sociedade.
• Os processos produtivos das organizações sofrem mudanças significativas com o advento
da tecnologia.
• A construção social do masculino e do feminino segundo a Teoria de Gênero.
• Tortura em presos comuns: uma herança dos anos da ditadura militar.
• Vícios da sociedade contemporânea podem representar a era atual.

18
• A violência sofrida e exercida no cotidiano dos jovens brasileiros.
• Shopping Center, cidade artificial: templo de consumo e lazer.
• A questão dos moradores de rua.

Conhecimento científico e senso comum


Existem diferentes formas de conhecer o mundo, ou seja, de tentar compreendê-lo e
expressá-lo: por meio das artes, da religião, da filosofia, da ciência. Na Sociologia, assim
como em outras disciplinas, nossa atenção se concentra na compreensão científica da
sociedade.
Para compreender a especificidade do conhecimento científico, é necessário diferenciá-lo
do senso comum. Observe o que Lakatos e Marconi afirmam:

O conhecimento vulgar ou popular, às vezes denominado senso comum,


não se distingue do conhecimento científico pela veracidade nem pela
natureza do objeto conhecido: o que os diferencia é a forma, o modo ou
o método e os instrumentos do “conhecer”. Saber que determinada planta
necessita de uma quantidade “X” de água e que, se não a receber de forma
“natural”, deve ser irrigada, pode ser um conhecimento verdadeiro e com-
provável, mas, nem por isso, científico. Para que isso ocorra, é necessário
ir mais além: conhecer a natureza dos vegetais, sua composição, seu ciclo
de desenvolvimento e as particularidades que distinguem uma espécie de
outra (LAKATOS; MARCONI, 1991, p. 76).

Essa diferenciação entre senso comum e conhecimento científico é valiosa para a


Sociologia, pois ela sempre atuará com conceitos, relações, acontecimentos e opiniões
oriundos do senso comum, porém sua interpretação e análise são científicas.
E como diferenciamos senso comum e conhecimento científico? O senso comum é o
conhecimento sem um aprofundamento mais detalhado do funcionamento dos fenômenos
ou acontecimentos, que se baseia em valores morais, religiosos e políticos que não pre-

UNIDADE 1
cisam ser necessariamente justificados. Já o conhecimento científico formula explicações
para os fatos por meio de teorias racionais e experimentos comprobatórios, reconhecidos
por uma comunidade científica.

4. Tomando por base o texto acima e os fragmentos reunidos a seguir, reflita sobre o caráter
científico da Sociologia.

Sociologia e senso comum


[...] Os objetos da astronomia precisam ser nomeados, alocados em um conjunto
ordenado e comparados com outros fenômenos similares. Existem poucos equiva-
lentes sociológicos desse tipo de fenômeno limpo e intocado, que nunca tenha sido
preenchido com significados antes que os sociólogos aparecessem com seus ques-
tionários, fizessem anotações em seus cadernos de campo ou observassem docu-
mentos relevantes. As ações humanas e as interações que esses estudiosos realizam
já receberam nomes e já foram analisadas pelos próprios autores, e, dessa maneira,
são objetos de conhecimento do senso comum.
[...] a Sociologia, à diferença do senso comum, empenha-se em se subordinar às
regras rigorosas do discurso responsável. Trata-se de atributo da ciência para se dis-
tinguir de outras formas de conhecimento, sabidamente mais flexíveis e menos vi-
gilantes em termos de autocontrole. Espera-se dos sociólogos, em sua prática, um
grande cuidado para distinguir – de maneira clara e visível – afirmações corroboradas
19
SOCIOLOGIA  As ciências da sociedade

por evidências verificáveis e aquelas que reivindicam seu status a partir de meras ideias provisórias e
não testadas. As regras de responsabilidade discursiva exigem que a “oficina” – o conjunto de procedi-
mentos que conduz às conclusões finais e que, afirma-se, garantiria sua credibilidade – esteja sempre
aberta para fiscalização.
BAUMAN, Zygmunt; MAY, Tim. Aprendendo a pensar com a sociologia. Rio de Janeiro: Zahar, 2010. p. 21.

• Quais características definem o senso comum e o conhecimento científico? Em equipe, organize um quadro.
Apresente-o à sala e, em seguida, realize um debate, observando os aspectos trabalhados, a sua importância
e a necessidade dessa prática em diferentes momentos da vida de cada um de nós.

Panorama da ciência no Brasil e no mundo


Reportagem publicada pela Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São
Paulo) em 11/11/2010, faz uma análise sobre o panorama da ciência no Brasil e no mundo
a partir de relatório editado pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciên-
cia e a Cultura (Unesco), no Dia Mundial da Ciência pela Paz e pelo Desenvolvimento.
O documento é editado a cada cinco anos para apresentar um diagnóstico do desen-
volvimento mundial da ciência. O relatório apresenta análises extensas sobre a evolução
da ciência e tecnologia por regiões no mundo e destaca alguns países que apresentam
características de evolução de políticas ou de investimentos que podem se tornar exem-
plares no contexto global.
O relatório mostra que, ao lado da clássica tríade que sempre se destaca na ciência
e tecnologia – Estados Unidos, Japão e União Europeia –, há a crescente importância
de países emergentes, como a Coreia do Sul, a Índia e a China. E também o Brasil, que
aparece ainda de forma modesta, mas com um papel que lhe permite crescer e avançar,
disse Defourny à agência FAPESP.
Segundo ele, no caso do Brasil, os números indicam grande evolução recente no setor,
mas uma relativa estagnação nos últimos anos.
O país desenvolveu uma base acadêmica competitiva em ciências, mas há ainda uma
série de desafios. A taxa de crescimento no número de doutores, por exemplo, foi de
15% ao ano por muito tempo. Nos últimos três anos, o crescimento continuou, mas foi
de apenas 5% por ano. É um sinal de estagnação. Um dos problemas diagnosticados pelo
relatório no país é a falta de investimento no setor por parte do governo e, especialmente,
das empresas privadas. A pesquisa e desenvolvimento na indústria precisa receber uma
atenção maior até mesmo do que a pesquisa acadêmica, disse.
O relatório indica que o investimento em ciência no Brasil deriva principalmente do
setor público: 55%. O país está abaixo da média da Organização para a Cooperação e
Desenvolvimento Econômico (OCDE) na relação entre o investimento bruto em pesquisa
e desenvolvimento (GERD, em inglês) e o produto interno bruto (PIB) do país.
Para alcançar a média da OCDE de financiamento público à pesquisa e desenvolvi-
mento (P&D), o Brasil precisaria investir um adicional de R$ 3,3 bilhões ao ano, montante
que corresponde a três vezes o orçamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento
Científico e Tecnológico (CNPq).
Nos gastos empresariais com P&D, a média dos países membros da OCDE é o triplo da
encontrada no Brasil. Para igualar esse patamar, seria preciso aumentar os gastos privados
no setor de US$ 9,95 bilhões ao ano para US$ 33 bilhões.

20
5. Após a leitura da reportagem Panorama da ciência no Brasil e no mundo, analise os gráficos: Investimento
global em P&D em termos absolutos e relativos, 2007, retirado do Relatório Unesco sobre Ciência 2010: o atual sta-
tus da ciência em torno do mundo e PIB per capita pelo mundo, 2009, retirado do site do IPEA (Instituto de Pesquisa
Econômica Aplicada). Em grupo, debata a seguinte questão:
O investimento em pesquisa e desenvolvimento, resultado da adoção do pensamento científico pela sociedade,
tem relação direta com o desenvolvimento de um país? Apresente a conclusão para a classe.

Investimento global em P&D em termos absolutos e relativos, 2007


Em países e regiões selecionadas

6 000
Pesquisadores por milhão de habitantes

5 000
EUA
Japão
China
4 000
Alemanha
França
Rep. da Corea
3 000 Reino Unido
Índia
Rússia
2 000 Brasil
África
Turquia
1 000 Irã
Países menos desenvolvidos

0
0.0 0.5 1.0 1.5 2.0 2.5 3.0 3.5

GERD como % do PIB


Observação: o tamanho do círculo reflete o tamanho do GERD para o país do grupo

UNIDADE 1
Pib per capita pelo mundo

US$ 5 mil US$ 10 mil US$ 20 mil Renda Atual


per capita per capita per capita (US$)**
EUA 1971 1978 1988 46,430
Alemanha 1974 1979 1990 36,449
Reino Unido 1978 1986 1996 36,496
França 1974 1979 1990 34,689
Japão 1977 1984 1988 32,443
Coreia do Sul 1989 1995 2007 27,169
Brasil 1996 2010* 2020 8,220

* Estimativas LCA Consultores / ** Em 2009


Fonte: Banco Mundial

21
SOCIOLOGIA  As ciências da sociedade

Auguste Comte e o positivismo


Comte buscou criar uma ciência da
rg
[S.I.]/commons.wikimedia.o

sociedade que pudesse explicar as leis do


mundo social da mesma forma que a Ciência
Natural explicava o funcionamento do mundo
físico.
Anthony Giddens (2005, p. 28).
No cenário das grandes transformações sociais desencadeadas por
movimentos revolucionários, Auguste Comte (1798-1857), filósofo e
matemático francês, preocupou-se com a organização da sociedade.

Retrato do sociólogo francês


Para Comte, a sociedade estava em crise e era necessária uma ciência
Auguste Comte. que indicasse caminhos para restabelecer a ordem. Essa ordem encontrava-se
nos valores, costumes e princípios comuns, e não na diversidade de ideias e costumes. Nesse
sentido, para Comte, a manutenção de padrões culturais seria fundamental para o desenvolvimento
sadio da sociedade, ou seja, para o seu progresso.
Conforme Raymond Aron (1999, p. 80), para Comte,
os fenômenos sociais estão sujeitos a um determinismo rigoroso, que se apresenta
sob a forma de um devenir inevitável das sociedades humanas, comandado pelos
progressos do espírito humano.
Tendo em vista este suposto processo, Comte formulou a “lei dos três Estados”, segundo a qual
os seres humanos teriam passado por três etapas sucessivas. A primeira – teológica – fundava-se na
fé e na religião e, nela, os fenômenos naturais eram explicados a partir da vontade divina. A segun-
da – metafísica – se dedicava ao estudo da realidade, mas formulava conceitos demasiadamente
abstratos para pensar o mundo. Por fim, a terceira etapa do desenvolvimento social – científica ou
positiva – estava em vias de se concretizar: era a sociedade industrial, na qual o conhecimento seria
construído a partir da observação dos fenômenos e da descoberta de suas leis. Por isso, a Sociologia
surgiu justamente nesse período: a ciência positiva da sociedade triunfaria sobre formas abstratas de
pensar o mundo social e político.
Comte pretendia utilizar na Sociologia os mesmos princípios científicos das Ciências Exatas e
Naturais, isto é, a observação e a experimentação. Enquanto os físicos e matemáticos realizavam
experimentos para observar a regularidade dos fenômenos e comprovar suas descobertas, Comte
empregava o mesmo método para estudar os acontecimentos sociais, tentando impor uma análise
estática aos estudos sobre a sociedade. Para ele, a vida social regia-se por leis e princípios básicos
e, por isso, seria possível reunir conhecimentos válidos e confiáveis sobre o seu funcionamento
a partir da observação. Aliás, Comte pensava que a Sociologia só deveria se dedicar ao estudo
de fatos verificáveis a partir de pesquisas rígidas e metódicas. Nelas, os pesquisadores seriam
totalmente neutros, conseguindo se distanciar de tal forma do objeto pesquisado que não seriam
influenciados pelo contexto em que atuavam nem por seus valores pessoais ou prenoções.
Essa forma de analisar a sociedade ficou conhecida como positivismo. Para os positivistas, é
possível definir as leis que regem as ações humanas e sociais, decodificando-as e classificando-as,
da mesma forma que as Ciências Naturais e Exatas fazem com seus objetos de estudo. O soci-
ólogo britânico Anthony Giddens definiu o positivismo como uma ciência dedicada a estudar
unicamente “entidades observáveis que são conhecidas diretamente pela experiência”:
Baseando-se em cuidadosas observações sensoriais, podem-se inferir as leis que
explicam a relação entre os fenômenos observados. Ao entender a relação causal
entre os eventos, os cientistas podem então prever como os acontecimentos futu-
ros ocorrerão. Uma abordagem positivista da Sociologia acredita na produção de
conhecimento sobre a sociedade, baseada em evidências empíricas tiradas a partir
da observação, da comparação e da experimentação (GIDDENS, 2005, p. 28).

22
6. Um dos primeiros cientistas a estudar a sociedade foi Auguste Comte. Ele se tornou
conhecido por desenvolver o pensamento positivista que aplicava a análise científica à so-
ciedade, tendo por objetivo o planejamento da organização social e política da sociedade.
Considerava a família, a religião, a propriedade e o governo instituições sociais permanen-
tes. Sob a orientação do professor, relacione as características que definem o positivismo
e, com essas informações, participe de um debate com seus colegas sobre a validade do
método científico proposto por Comte na atualidade. Considere a preocupação que o pen-
samento positivista possui com relação à ordem.

7. O positivismo de Auguste Comte não se restringiu aos debates acadêmicos. No Brasil, in-
fluenciou fortemente oficiais do Exército que participaram da Proclamação da República (1889).
Por isso, muitas ideias positivistas estiveram presentes na reorganização do Estado
brasileiro, na redefinição das relações com a Igreja, na confecção de símbolos nacio-
nais e na proposição de reformas durante a Primeira República.
• A bandeira do Brasil, adotada a partir do decreto n.º 4, de 19 de novembro de
1889, apresenta o lema da ordem e do progresso. Que justificativa é possível
elaborar, a partir do positivismo, para afirmar a importância de tal elemento na
bandeira?

8. Os textos a seguir tratam da inserção da Sociologia como disciplina na educação básica.


Benjamin Constant propõe o ensino da Sociologia em substituição à Filosofia. Ileizi Silva fala da
retomada da Sociologia no Ensino Médio. O quadro-resumo apresenta um breve histórico da
Sociologia como disciplina no Brasil. As análises estão inscritas em condições históricas especí-
ficas.

O decreto 981, de 8 de novembro de 1890, aprovou a reforma na instrução primária


e secundária do Distrito Federal, na época, localizado no Rio de Janeiro. O ministro da
Instrução Pública, Benjamin Constant, determinou que o Ensino Secundário teria as dis-
ciplinas científicas como eixo, como mostra o texto.
Pelo Decreto n.º 981, de 8 de novembro de 1890, entra o Brasil na era republicana

UNIDADE 1
da educação. O Ensino Secundário, pensado conforme o colégio modelo da capital, o
Ginásio Nacional (Colégio de Pedro II), teve alterado seu programa de estudos. Procu-
rando seguir a orientação comteana, Benjamin Constant torna-o enciclopédico e inclui
todas as ciências da hierarquia positiva. São eliminadas disciplinas, como Filosofia e
Retórica, e surgem outras, como Astronomia, Sociologia e Moral.
VALENTE, Wagner Rodrigues. Positivismo e matemática escolar dos livros didáticos no advento da República. Cadernos
de Pesquisa, n. 109, São Paulo, mar. 2000. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0100-
15742000000100009&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em: 28 ago. 2010.

A Sociologia no contexto das reformas educacionais – 1891/2002


1. (1891 -1941) – Institucionalização da Sociologia no Ensino Médio
1891 – A Reforma Benjamin Constant propõe pela primeira vez, no Brasil, a Sociologia
como disciplina do Ensino Secundário.
1934 – Fundação da Universidade de São Paulo que conta com Fernando de Azevedo
como o primeiro diretor de sua Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras e catedrático de
Sociologia.
1941 – A Reforma Capanema retira a obrigatoriedade da Sociologia dos cursos secun-
dários, com exceção do curso normal.
2. (1942-1981) Ausência da Sociologia como disciplina obrigatória
1949 – No Simpósio O Ensino de Sociologia e Etnologia, Antônio Cândido defende o
retorno da Sociologia aos currículos da escola secundária.
23
SOCIOLOGIA  As ciências da sociedade

1963 –Resolução nº 7, de 23 de dezembro do Conselho Estadual de Educação de São


Paulo, na qual a Sociologia estaria presente como disciplina optativa no curso Clássico,
Científico e Eclético.
1971 – Lei nº 5.692 de agosto, a Reforma Jarbas Passarinho torna obrigatória a pro-
fissionalização no Ensino Médio. A Sociologia deixa também de constar como disciplina
obrigatória do curso Normal.
3. (1982-2001) Reinserção gradativa da Sociologia no Ensino Médio
1982 – Lei 7.044, de 18 de outubro que torna optativa para escolas a profissionaliza-
ção no Ensino Médio.
1983 - Associação dos Sociólogos de São Paulo promove a mobilização da categoria
em torno do “Dia Estadual de Luta pela volta da Sociologia ao 2º Grau”, ocorrido em 27
de outubro.
1996 – Nova Lei de Diretrizes e Bases – Lei nº 9394 de 20 de dezembro, na qual, os
conhecimentos de Sociologia e Filosofia são considerados fundamentais no exercício da
cidadania.
1999 – Ministério da Educação lança os Parâmetros Curriculares Nacionais para o En-
sino Médio (PCNEM) que trazem as competências relativas aos conhecimentos de Socio-
logia, Antropologia e Ciência Política.
2001 – Vetado pelo Presidente da República, o projeto de lei do Deputado Padre Ro-
que do Partido dos Trabalhadores do Paraná, que torna obrigatório o ensino de Sociolo-
gia e Filosofia em todas escolas públicas e privadas.
2002 – Veto presidencial em apreciação no Congresso Nacional.
SARANDY, Flavio Marcos Silva. A sociologia volta à escola: um estudo dos manuais de sociologia para o ensino médio
no Brasil. Dissertacão (Mestrado em Sociologia) – Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2004.p. 59-60.

No dia 7 de julho de 2006 a Câmara de Educação Básica aprovou por unanimidade o


Parecer 38/2007 que alterou as Diretrizes Curriculares Nacionais do Ensino Médio, torna-
do a Filosofia e a Sociologia disciplinas obrigatórias. A Resolução nº 4, de 16 de agosto de
2006, alterou o artigo 10 da Resolução CNE/CEB nº 3/98, que institui as Diretrizes Curricu-
lares Nacionais para o ensino médio, incluindo a filosofia e a sociologia como disciplinas
curriculares obrigatórias. Ainda em 2006 foram publicadas as Orientações Curriculares
Nacionais do Ensino Médio-Sociologia, aperfeiçoando o texto publicado em 2004.(...)
Pensar o ensino de sociologia no ensino médio passa pela nossa compreensão sobre a
educação, ou seja, sobre que tipo de educação desejamos. E isso não é fácil de ser de-
finido porque depende do embate, do conflito entre inúmeros projetos de sociedade
em disputa entre nós cientistas sociais, entre os grupos que têm acesso aos aparatos do
estado, que definem as políticas, entre os professores das redes pública e privada, e assim
por diante. Pensem em como tem sido difícil definir os currículos de ciências sociais nas
universidades. Quanto debate! Assim, o papel da sociologia na formação dos adolescen-
tes e dos jovens dependerá do tipo de escola, de ensino médio e de currículo que iremos
definir ao longo da história.
SILVA. Ileizi Fiorelli. A sociologia no ensino médio: os desafios institucionais e epistemológicos para a consolidação da
disciplina. Cronos, Natal-RN, v. 8, n. 2, p. 403-427, jul./dez. 2007 (p.420-422).

• Elabore um texto explicando a influência do positivismo na reforma educacional promo-


vida por Benjamin Constant – que inseriu, pela primeira vez, a disciplina de Sociologia na
educação básica. Lembre-se de considerar o contexto histórico em sua análise e aproveite
para refletir sobre a importância dessa disciplina atualmente.

9. Os textos a seguir fazem uma discussão sobre a neutralidade na veiculação de notícias


pelos telejornais, referenciando essa questão às propostas feitas pelo positivismo em relação ao
pensamento científico.

24
A neutralidade é possível?
Como Comte antes dele, Durkheim
acreditava que precisamos estudar a
vida social com a mesma objetividade
com que os cientistas estudam o mundo
natural.
Anthony Giddens (2005, p. 29).

Tanto Comte quanto Durkheim procuraram construir uma ciência da sociedade, a


Sociologia, com os princípios das Ciências Naturais, procurando distanciar-se do objeto
de estudo. Por isso, Durkheim denominou o fato social como “coisa”, entendendo que
deveria ser analisado de forma imparcial, neutra e objetiva.
Mas o que seria a objetividade na pesquisa sociológica? Vejamos como o próprio
Durkheim a entendeu:

Mostramos como o sociólogo deveria afastar as noções antecipadas que


formula a respeito dos fatos para poder encarar estes próprios fatos; como
deveria atingi-los por intermédio do exame dos caracteres mais objetivos;
como deveria pedir a eles mesmos o meio de se classificarem em normais
e mórbidos; como, finalmente, deveria inspirar-se no mesmo princípio
para as explicações a tentar, para a verificação das mesmas explicações
(DURKHEIM, 1977, p. 2-3).

Atualmente, a maioria dos cientistas sociais concorda que não é possível estabelecer
a objetividade e a neutralidade absoluta, pois a análise do acontecimento social parte de
um ponto de vista, ou melhor, da interpretação do pesquisador, como explicam Boudon
e Bourricaud em relação ao próprio Durkheim:

À equação social do pesquisador, é preciso acrescentar sua equação


pessoal entre os fatores capazes de perturbar a observação e a análise.

UNIDADE 1
Durkheim pensava que a Sociologia não valia um quarto de hora de
trabalho se ela não pudesse demonstrar sua utilidade social. Pareto, ao
contrário, via na Sociologia uma atividade cognitiva desinteressada:
as ideologias lhe pareciam muito mais úteis socialmente, isto é, mais
influentes do que o esforço desenvolvido pelos sociólogos para com-
preender os fenômenos sociais. Em consequência dessas diferenças
de atitude fundamentais, os dois sociólogos não somente levantaram
problemas diferentes como também deram interpretações diferentes
aos mesmos fenômenos. Preocupado com a integração do indivíduo na
sociedade, Durkheim interpretava os conflitos sociais como um sintoma
patológico. Como não tivesse nenhuma preocupação desse tipo, Pareto
via nos conflitos sociais fenômenos normais (BOUDON; BOURRICAUD,
2004, p. 403).

Portanto, embora a investigação de um acontecimento fundamente-se em métodos


científicos, procurando despir-se de preconceitos, desnaturalizando e relativizando os
processos que estuda, nem por isso estabelece um distanciamento integral e uma postura
totalmente neutra em relação ao seu objeto de estudo.

A espiral da opinião comum: a televisão


aberta do Brasil, argumentos e culturas
[...]
Nos sensos comuns contemporâneos, as mídias tendem a diferenciar, em especial na
prática jornalística, informações de opiniões. As primeiras seriam os dados objetivos, frios
25
SOCIOLOGIA  As ciências da sociedade

e imparciais. As segundas significariam a interpretação destes dados e a tomada de posição


frente aos mesmos. Se em um telejornal faz-se a leitura dos índices do Produto Interno Bruto
brasileiro, ter-se-ia feito circular informações. Se houver algum comentário, segundo o mesmo
modo de pensar sobre os significados desses dados, chegar-se-iam às opiniões.
A tendência ocidental tem sido a de privilegiar a informação e de controlar ou
demonizar a opinião. A primeira seria, de acordo com essa crença, capaz de deixar
para o público a capacidade de opinar. A segunda seria ideologizante, parcial e ten-
denciosa. Obviamente, quando a opinião é favorável ao que está estabelecido, esta
crítica desaparece como que por encanto. A opinião do “âncora” bem pago e fiel aos
pontos de vista da empresa de televisão é vendida como uma decantação da verdade.
O mito positivista da neutralidade possível ainda possui força considerável, mesmo
entre os que se preocupam em informar de modo cristalino e de não torcer os dados,
escondendo a opinião subjacente.
[...]
LOPES, Luís Carlos. A espiral da opinião comum: a televisão aberta do Brasil, argumentos e culturas. Carta Maior, 12 maio 2006.
Disponível em: <http://www.cartamaior.com.br/templates/colunaMostrar.cfm?coluna_id=3071>. Acesso em: 18 julho 2011.

É suficiente examinar a obra de positivistas, de Comte e Durkheim até nos-


sos dias, para se dar conta de que eles estão inteiramente fora da condição
de “privados de preconceitos”. Suas análises estão fundadas sobre premissas
político-sociais tendenciosas e ligadas ao ponto de vista e à visão social de
mundo de grupos sociais determinados. Sua pretensão à neutralidade é às
vezes uma ilusão, às vezes um ocultamento deliberado, e, frequentemente,
uma mistura bastante complexa dos dois. [...] Como A. Comte, Durkheim
não via nenhuma contradição, nenhuma incompatibilidade entre a tendên-
cia conservadora de seu método (de que ele reconhecia) e a neutralidade
ou imparcialidade científica (que ele reivindicava). O pensador acreditava
sinceramente na sua sociologia livre de toda “paixão” ou prenoção, porque
a legitimação da ordem estabelecida lhe parece decorrer da constatação
estritamente objetiva de certas “verdades elementares”.
LOWY, Michel. As aventuras de Karl Marx contra o Barão de Munchhausen: marxismo e positivismo na sociologia do
conhecimento. São Paulo: Busca Vida, 1987 (p.31-32).

a) Selecione uma notícia de grande repercussão social e pesquise como essa notícia foi apre-
sentada por dois veículos de comunicação distintos.
b) Identifique os diferentes enfoques dados à notícia.
c) Analise o teor da notícia, buscando identificar o grau de neutralidade do veículo de comu-
nicação para com o fato noticiado.
Utilize os dois textos como suporte para sua argumentação, considerando os seguintes as-
pectos: o significado de neutralidade empregado pelos autores Comte e Durkheim. A consi-
deração de que a neutralidade do ponto de vista da Sociologia pode estabelecer uma espé-
cie de ocultamento da realidade social. A ausência de análise crítica nos telejornais pode ser
considerada uma prática social para a manutenção do senso comum, colocando-se contra o
desenvolvimento do pensamento analítico e científico sobre a realidade social.

Émile Durkheim e o objeto de estudo da Sociologia


Se Auguste Comte nomeou a nascente “ciência da sociedade” como “Sociologia”, coube
a Émile Durkheim (1858-1917) ocupar a primeira cátedra da disciplina, na Universidade de
Bordeaux, França. Ele tentou estabelecer a Sociologia como uma ciência objetiva e imparcial,
definindo o seu objeto de estudo e utilizando os princípios das Ciências Naturais.
26
Durkheim denominou o objeto de estudo da Sociologia como “fato social”, entendido como

toda maneira de agir fixa ou não, suscetível de exercer sobre o indivíduo


uma coerção exterior; ou então ainda, que é geral na extensão de uma
sociedade dada, apresentando uma existência própria, independente das
manifestações individuais que possa ter (DURKHEIM, 1977, p. 11).

Nesse sentido, o fato social possui três características: é exterior, coercitivo e geral.
Ao se inserir, por exemplo, em uma escola, o indivíduo encontra costumes, hábitos
e regras previamente estabelecidos, que independem de sua vontade e que existem fora
de sua consciência. Ele se insere nessa cultura ao se tornar parte dessa escola. Isso, se-
gundo Durkheim, é a característica de exterioridade do fato social: são aspectos que se
sobrepõem aos indivíduos e que já se estabeleceram na sociedade, antes mesmo que eles
fizessem parte dela.
Essa cultura que se encontra na escola torna-se coercitiva, por ser imposta ao indivíduo.
Caso não siga os costumes, hábitos e regras da instituição, o indivíduo será repreendido e exclu-
ído socialmente. É por isso que Durkheim afirmava que o fato social também é coercitivo.
Por fim, a generalidade do fato social reside na repetição do mesmo em uma sociedade.
A partir do momento em que boa parte dos indivíduos vai à escola estudar, ele é geral,
ou seja, abrange uma parcela significativa da sociedade.
Segundo Durkheim, era necessário estudar os fatos sociais como “coisas”, ou seja, sem que o
pesquisador fizesse julgamento de valor, opinasse, demonstrasse sentimentos. Assim, o fato social
deveria ser tratado de maneira imparcial. Além disso, a sociedade não poderia ser entendida como
a somatória dos indivíduos, mas, ao contrário, os indivíduos nasceriam da sociedade.

10. É frequente nos escritos sociológicos a preocupação com o método, o que revela a in-
tenção de consolidar e legitimar a sociologia como ciência. O texto acima discute essa ques-

UNIDADE 1
tão. Relacione-o ao texto Viver e pensar o cotidiano e reflita sobre que análises podem ser feitas
acerca do posicionamento do indivíduo diante dos fenômenos e instituições sociais. Elabore
um quadro comparando a concepção positivista sobre o assunto, presente no primeiro texto, à
visão da Sociologia contemporânea, revelada pelo segundo.

Viver e pensar o cotidiano


Não há restrições para se pensar sociologicamente. Todos nós, sociólogos ou não, po-
demos utilizar esse conhecimento para compreender as relações sociais e o mundo em
que vivemos. A Sociologia é a ciência que estuda as consequências sociais do relaciona-
mento dos indivíduos na sociedade. Daí ela ser uma poderosa arma para nos auxiliar na
luta pelo nosso espaço em um mundo social cada vez mais competitivo e desigual. [...]
Viver é decidir sobre as várias opções que as situações diárias nos apresentam, e a decisão
implica em liberdade de escolha. Porém, essa liberdade sofre limitação de circunstân-
cias sobre as quais não temos o menor controle. [...] Não podemos deixar de perceber
que agimos condicionados pelas experiências que acumulamos no passado. Como nos
socializamos via grupos sociais, estes também limitam o espectro de opiniões que pode-
mos suportar. Nossas ações e percepções acerca de nós mesmos são desenhadas pelas
expectativas dos grupos dos quais fazemos parte. É por isso que, coisas que nos parecem
óbvias, nada mais são do que um conjunto de crenças que mudam conforme as caracte-
rísticas dos grupos aos quais nos filiamos. Ora, o que essas considerações mostram é que
nosso caráter é formado por um longo processo de interação social.
PAIVA, Yago Euzébio Bueno de. Viver e pensar o cotidiano. Revista Sociologia: Ciência e Vida. Numero 32, Dezembro de
2010. p.14-15.
27
SOCIOLOGIA  As ciências da sociedade

A Questão do Método para Durkheim


Não cabe à Sociologia tomar partido e escolher entre as grandes hipóteses que dividem os metafísi-
cos. Não tem nem que afirmar a liberdade, nem o determinismo. Tudo o que espera que se lhe conceda
é que o princípio de causalidade seja aplicado aos fenômenos sociais. E ainda mais, tal princípio é enca-
rado por ela não como uma necessidade racional, mas apenas como um postulado empírico, produto
de legítima indução. Uma vez que a lei de causalidade se verifica em outros reinos da natureza e que,
progressivamente, foi estendendo seu império do mundo físico-químico ao mundo biológico, e deste ao
mundo psicológico, temos o direito de admitir que é igualmente válido para o mundo social. [...]
DURKHEIM, Émile. As regras do método sociológico. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1977. p. 123-124.

A Questão da Objetividade para Weber


Segundo Weber, “a ciência é hoje uma vocação organizada em disciplinas especiais a serviço do
autoesclarecimento e conhecimento de fatos inter-relacionados”. Ela não dá resposta à pergunta: a qual
dos deuses devemos servir? Essa é uma questão que tem a ver com a ética. Em outras palavras, é preciso
distinguir entre os julgamentos de valor e o saber empírico. Este nasce de necessidades e considerações
práticas historicamente colocadas, na forma de problemas, ao cientista cujo propósito deve ser o de procu-
rar selecionar e sugerir a adoção de medidas que tenham a finalidade de solucioná-los. Já os julgamentos
de valor dizem respeito à definição do significado que se dá aos objetos ou aos problemas. O saber empí-
rico tem como objetivo procurar respostas através do uso dos instrumentos mais adequados (os meios, os
métodos). Mas o cientista nunca deve propor-se a estabelecer normas, ideais e receitas para a praxis, nem
dizer o que deve, mas o que pode ser feito. A ciência é, portanto, um procedimento altamente racional que
procura explicar as consequências de determinados atos, enquanto a posição política prática vincula-se a
convicções e deveres. [...]
Mas como é possível, apesar da existência desses valores, alcançar a objetividade nas ciências sociais?
A resposta de Weber é que os valores devem ser incorporados conscientemente à pesquisa e controlados
através de procedimentos rigorosos de análise, caracterizados como “esquemas de explicação condicional”.
A ação do cientista é seletiva. Os valores são um guia para a escolha de um certo objeto pelo cientista. A
partir daí, ele definirá uma certa direção para a sua explicação e os limites da cadeia causal que ela é capaz
de estabelecer, ambos orientados por valores. As relações de causalidade, por ele construídas na forma de
hipóteses, constituirão um esquema lógico-explicativo cuja objetividade é garantida pelo rigor e obediên-
cia aos cânones do pensamento científico. O ponto essencial a ser salientado é que o próprio cientista é
quem atribui aos aspectos do real e da história que examina uma ordem através da qual procura estabele-
cer uma relação causal entre certos fenômenos. Assim produz o que se chama tipo ideal.
QUINTANEIRO, T. et al. Um toque de clássicos. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2003, p. 108-109.

A Questão do Método para Marx


Quando estudamos um país dado do ponto de vista da economia política, começamos por sua po-
pulação, a divisão desta em classes, seu estabelecimento nas cidades, nos campos, na orla marítima; os
diferentes ramos da produção, a exportação e a importação, a produção e o consumo anuais, os preços das
mercadorias, etc. Parece mais correto começar com o real e o concreto, com o pressuposto efetivo; assim,
pois, por exemplo, na economia, pela população, que é a base e o sujeito de todo o ato social da produção.
Todavia, bem analisado, este método seria falso. A população é uma abstração se deixo de lado as classes
que a compõem. Estas classes são, por sua vez, uma palavra vazia se ignoro os elementos sobre os quais
repousam, por exemplo: o trabalho assalariado, o capital, etc. Estes supõem a troca, a divisão do trabalho,
os preços, etc. O capital, por exemplo, não é nada sem trabalho assalariado, sem valor, dinheiro, preços,
etc. Se começasse, portanto, pela população, elaboraria uma representação caótica do todo e por meio de
uma determinação estrita, chegaria analiticamente, cada vez mais, a conceitos mais simples; do concreto
representado, chegaria a abstraçõe (universalidades) cada vez mais tênues, até alcançar as determinações
mais simples. Chegado a este ponto, teria que voltar a fazer a viagem de modo inverso, até dar de novo
com a população, mas desta vez não como uma representação caótica de um todo, porém como uma rica
totalidade de determinações e relações diversas.
MARX, K. O método da economia política. In: Marx, Engels[negrito]. Ática: 1983, p 409-410.
28
11. A sociologia é a ciência que estuda as implicações sociais do relacionamento dos indivíduos vivendo em
sociedade. Para experimentar o método sociológico de pensar, analise as imagens a seguir.

[S.I.]/commons.wikimedia.org

Divulgação/imotion.com.br
Família durante almoço de Ação de Graças, na Pensilvâ- Família durante refeição, em cena do desenho animado
nia, Estados Unidos, em 1942. (FARM SECURITY ADMINIS- norte-americano Os Simpsons, criado por Matt Groenning.
TRATION. Festa de Ação de Graças, nov. 1942. Biblioteca
do Congresso, Pensilvânia).

a) Elabore uma descrição objetiva e imparcial sobre as imagens, tentando afastar-se de seus valores, sentimen-
tos, preconceitos e opiniões pessoais.
b) Relembre quais são, segundo Durkheim, as características do fato social. Em seguida, com-
pare as imagens e responda: quais características do fato social estão presentes em cada
uma delas? Justifique a sua resposta.

As Ciências Sociais: Antropologia, Ciência Política e Sociologia


Estamos finalizando esta primeira unidade do livro e você, como um aluno atento, pode
estar se questionando por que o seu título é “As ciências da sociedade” e não “A ciência da
sociedade”? Se falamos sobre a Sociologia, por que nos referimos às ciências, no plural? Você

UNIDADE 1
conhece outras disciplinas que se dedicam ao estudo da sociedade e de suas instituições?
Pois bem, com o decorrer do tempo, a Antropologia e a Ciência Política se somaram
à Sociologia e, juntas, ficaram conhecidas como Ciências Sociais. As três áreas do co-
nhecimento estudam aspectos da sociedade e seus objetos se entrecruzam. Entretanto,
conseguimos identificar algumas peculiaridades de cada uma delas, principalmente no que
diz respeito aos seus métodos e técnicas de pesquisa. A Sociologia está, desde sua origem,
associada ao estudo da sociedade moderna e, em linhas gerais, investiga o funcionamento
e as mudanças dos sistemas sociais, as relações entre indivíduo e sociedade, as formas
de associação e as interações sociais. Ela pesquisa, por exemplo, o sistema educacional
de uma sociedade, as formas de consumo, a violência, os direitos de cidadania, os movi-
mentos sociais, os meios de comunicação de massa, o trabalho, as desigualdades, entre
tantos outros assuntos. Já a Antropologia detém-se no estudo da cultura de diferentes povos
ou e de aspectos simbólicos presentes em todas as sociedades, inclusive as consideradas
“diferentes” ou distantes” da sociedade ocidental moderna, bem como em grupos específi-
cos dentro dela, investigando suas formas de organização (política, religiosa, social, etc.).
As formas de religiosidade, os povos indígenas, as práticas culturais e de sociabilidade
de grupos urbanos são alguns dos seus objetos de pesquisa. Por fim, a Ciência Política
investiga a organização do Estado, os canais de participação política, a distribuição do
poder e as instituições políticas, tais como os sistemas eleitorais e partidários, as formas
de governo e os regimes políticos.
Nesta unidade, refletimos sobre fatores que contribuíram para o nascimento da So-
ciologia e para a delimitação dos seus objetos de estudo, bem como teorias e conceitos
29
SOCIOLOGIA  As ciências da sociedade

formulados por alguns dos seus precursores. Como a Sociologia investiga questões
muito próximas do nosso cotidiano, também problematizamos em que sentido suas
interpretações se afastam das explicações formuladas pelo senso comum.
Nas próximas unidades, além dos temas, conceitos e teorias investigados pela Socio-
logia, estudaremos conteúdos investigados pela Antropologia e pela Ciência Política.

CIÊNCIA E TECNOLOGIA
A importância da Sociologia
no Ensino Médio
Toda ciência busca compreender um conjunto determinado de fenômenos. Essa
busca tem uma intenção: identificar regularidades e, desse modo, desenvolver
a previsibilidade dos eventos. A isso se pode acrescentar outro componente: a
descoberta de uma utilidade para a previsão. Há, porém, algumas ciências que
se restringem quase que exclusivamente a conhecer os fenômenos. Mas há
também aquelas que, além de prever, podem interferir. Exemplos: a meteorologia
conhece e prevê, mas não pode interferir; a medicina, conhece, prevê e pode
interferir.
A natureza da Sociologia, dada por seu objeto de estudo, a coloca um tanto fora
desse modelo. O que investiga a Sociologia? O funcionamento da sociedade, fruto
das interações sociais, de como os indivíduos e os grupos sociais se relacionam.
A ela interessa compreender como se tece o pensamento e como se realiza a
ação social. Se as ciências da natureza se debruçam sobre “fenômenos fixos”,
os fenômenos que interessam à Sociologia são fenômenos históricos, mutáveis,
derivados de uma multicausalidade. É certo que a ação social sofre a conformação
de fatores determinantes, mas, por outro lado, o indivíduo é tanto um ser de
reprodução como um ser de criação, e esta característica torna mais complexa
a possibilidade de previsibilidade advinda da Sociologia.
Em um certo sentido, podemos dizer, a exemplo de outras ciências, que
os indivíduos e os grupos “descobrem” o social como algo exterior a eles e
determinante de muitas de suas ações. Mas também podemos dizer que os
indivíduos e os grupos “criam” o social. As formas de Estado, o sistema escolar,
as cooperativas, o sistema de segurança, os direitos humanos são exemplos
de criações sociais. Todas estas “invenções” sofreram variações temporais e
espaciais. O Estado grego não é o Estado asteca; o Estado medieval não é o
Estado democrático moderno. Há sem dúvida uma engenharia social, mas esta
nem sempre tem a cara de seus mentores. Tudo isso são complicadores inerentes
ao objeto da Sociologia, o que fornece grande singularidade à disciplina.
A Sociologia é lida com uma gama enorme de fenômenos. A identificação
desses fenômenos é, por si só, já um belo exercício do fazer da disciplina.
Exemplos aleatórios de fenômenos: educação na escola, educação fora da
escola, conhecimentos utilitários, conhecimentos estéticos, assimetria dos
conhecimentos, religiosidade, religião organizada, crenças, trocas econômicas,
trocas simbólicas, globalização, poder do Estado, transgressão, organização do
Estado, legitimidade do Estado, poder local, coronelismo, elites, poder popular,
avanço tecnológico, estagnação moral.
Como uma disciplina científica, a Sociologia faz uso de uma metodologia
a fim de desencravar a verdade dos fenômenos que investiga. Em certos
30
momentos, é preciso quantificar dados, descobrir conexões entre eles, a
fim de se identificar tendências e regularidades. Como qualquer ciência, ela
se orienta pelos fatos. Tomemos um exemplo retirado do parágrafo anterior:
a estagnação moral. Tomando-se essa afirmação como hipótese, alguém que
deseje praticar o pensamento sociológico deverá começar por se perguntar:
A hipótese de estagnação moral se confirma pelos fatos? Para deslindar o
novelo, novas perguntas nascerão: Que pensamento e que posturas têm o
homem contemporâneo com relação à escravidão? E com relação à tortura?
Que direitos são tidos como inerentes à espécie humana e a partir de que
momento passaram a sê-lo? Que direitos são reconhecidos à mulher que
antes não o eram? E à criança? E ao adolescente?
Aqui já podemos fornecer uma primeira pista da importância da Sociologia:
como ciência, ela contribui para a emancipação do indivíduo ao ajudá-lo a pensar
sob a orientação dos fatos. Domar a fantasia e disciplinar a imaginação é tão
importante para se fazer ciência como soltar as amarras e abstrair a realidade
para se fazer arte.
Outra função: se as Ciências Naturais contribuem para uma percepção
organizada do mundo natural, a Sociologia se encarrega de dar ordem a uma
percepção caótica dos fenômenos sociais. Ela tem um papel prático fundamental:
o da desnaturalização dos fenômenos sociais. Daí, ela ajuda a livrar o homem
de ações cegas sobre a realidade social.
Dissemos que a Sociologia se queda à orientação dos fatos. Assim, ela pode
nos ajudar a pensar com mais rigor. Investiguemos uma afirmação, entre inúmeras
outras possíveis, de que há muito adquiriu status de verdade em nossa cultura
cristã: “Bem-aventurados os pobres porque deles é o Reino do Céu”. Como
verificar a veracidade desta assertiva? Como provar que ela é verdadeira? De
princípio é uma afirmativa inverificável. Dois sociólogos americanos, porém,
engenhosos e impertinentes, usaram como metodologia a vida dos santos para

UNIDADE 1
testar a veracidade da afirmação. Eles partiram de uma constatação lógica: Se
são santos, estão no céu. Quem são, então, do ponto de vista da classe social, os
santos? Debruçando-se sobre o catálogo dos santos, constataram que a grande
maioria provinha das classes mais abastadas.
CÂNDIDO, Aécio. A importância da Sociologia no Ensino Médio. In: SEMINÁRIO SOBRE ENSINO DE Sociologia,
2008, Mossoró. Artigo... Mossoró: Centro Acadêmico de Ciências Sociais, Biblioteca Municipal de
Mossoró, jul. 2008. Disponível em: <www.uern.br/professor/arquivo_baixar.asp?arq_id=2864>.
Acesso em: 28 ago. 2010.

O FUTURO EM JOGO

1. (FGV, RJ, 2009) A Sociologia é uma ciência moderna que surge e se desenvolve juntamente com o avanço
do capitalismo. Nesse sentido, reflete suas principais transformações e procura desvendar os dilemas sociais
por ele produzidos. Sobre a emergência da Sociologia, considere as afirmativas a seguir.
I. A Sociologia tem como principal referência a explicação teológica sobre os problemas sociais decorrentes
da industrialização, tais como a pobreza, a desigualdade social e a concentração populacional nos centros
urbanos.
II. A Sociologia é produto da Revolução Industrial, sendo chamada de “ciência da crise”, por refletir sobre a
modificação de formas tradicionais de existência social e as mudanças decorrentes da urbanização e da
industrialização.
31
SOCIOLOGIA  As ciências da sociedade

III. A emergência da Sociologia só pode ser compreendida se for observada sua correspon-
dência com o cientificismo europeu e com a crença no poder da razão e da observação
como recursos de produção do conhecimento.
IV. A Sociologia surge como uma tentativa de romper com as técnicas e métodos das Ciên-
cias Naturais, na análise dos problemas sociais decorrentes das reminiscências do modo
de produção feudal.
Estão corretas apenas as afirmativas:
A) II e III.
B) I e III.
C) II e IV.
D) I, II e IV.
E) I, III e IV.
2. (UFU, 2007) Sobre a concepção de fato social para Émile Durkheim, marque a alternativa
correta.
A) O fato social é um tipo ideal que o sociólogo constrói, sem possibilidade de descobrir leis
e tendências gerais.
B) Os fenômenos sociais decorrem das escolhas racionais que os indivíduos fazem, motiva-
dos estes por tradições, estados afetivos ou objetivos e valores desejados.
C) O método sociológico não deve se fundamentar na observação empírica, pois esta se
restringe às Ciências Naturais.
D) O sociólogo deve olhar para os fenômenos sociais como coisas, controlando suas preno-
ções e se pautando pela objetividade comum a outros ramos da ciência.

CONECTE-SE

FILMES
• As cinzas de Ângela, EUA/Irlanda, 1999.
Paramount Pictures/Divulgação

Narra, de maneira bastante realista, os infortúnios de uma família irlandesa que vive
em uma situação de pobreza extrema, passando fome, dificuldade de moradia, de-
semprego e doenças. O filme ajuda a entender alguns dos problemas sociais decor-
rentes do processo de industrialização e de urbanização, que se tornaram objeto de
estudo das Ciências Sociais.
• Danton: o processo da revolução, França, 1982.
Apresenta uma das fases da Revolução Francesa, quando a situação econômica da
França estava decadente e o povo passava fome e medo. Os detentores do poder,
liderados por Robespierre, iniciam um violento processo político, empregando a
guilhotina como forma de execução. Há o embate entre dois líderes, Robespierre e
Danton, este último criticando os rumos do movimento.

LIVRO
Brasiliense/Divulgação

• O que é sociologia
Autor: Carlos Benedito Martins
Editora: Brasiliense
Para quem quer aprender um pouco mais sobre Socio-
logia, este livro traz o contexto do surgimento dessa ci-
ência, além das primeiras teorias desenvolvidas. Possui
uma leitura acessível e que permite uma compreensão
mais completa sobre a Sociologia.

32
• A situação da classe trabalhadora na Inglaterra

[S.I.]/Boitempo Editorial
Autor: Friedrich Engels
Editora: Boitempo Editorial
Um livro clássico de Engels, autor que, ao lado de Karl Marx, elaborou
algumas das análises mais importantes para a Sociologia e as Ciências
Sociais em geral. Aborda a Revolução Industrial na Inglaterra e suas
consequências sociais.

SITES
• <http://www.cebrap.org.br/v1/index.php>
No site do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (CEBRAP), você
conhecerá os integrantes e as pesquisas desenvolvidas por cientistas
sociais ligados a um dos mais importantes centros de pesquisa do Brasil
no campo das Ciências Sociais. Não deixe de conferir as publicações
disponíveis na Biblioteca Virtual.
• <http://www.museunacional.ufrj.br/>
Conheça um pouco mais sobre os objetos de estudo da Antropologia,
visitando o site do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de
Janeiro (UFRJ).
• <http://www.fflch.usp.br/da/>
Visite o site do Departamento de Antropologia da Universidade de São
Paulo. Confira, principalmente, as linhas de pesquisa e as publicações de
estudantes e professores que desenvolvem investigações sobre diferentes
temas.
• <http://sistemas2.usp.br/jupiterweb/jupDepartamentoLista?codcg
=8&tipo=D>
Acesse o Sistema Júpiter do site da Faculdade de Filosofia, Letras e
Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP) e pesquise as
disciplinas de Antropologia, de Ciência Política e de Sociologia oferecidas

UNIDADE 1
aos estudantes de Ciências Sociais.
• http://sociologiacienciaevida.uol.com.br/ESSO/
A Revista Sociologia é uma publicação bimestral da Editora Escala Ltda.

XEQUE-MATE

[...] a Sociologia, enquanto disciplina, desenvolvera-se no decurso da segunda


metade do século XIX, principalmente, a partir da institucionalização e
da transformação, dentro das universidades, do trabalho realizado pelas
associações para a reforma da sociedade, cujo programa de ação se tinha
ocupado primordialmente do mal-estar e dos desequilíbrios vividos pelo número
incontável da população operária urbana (FUNDAÇÃO CALOUSTE GULBENKIAN,
1996, p. 35).

A partir da citação acima e dos conhecimentos construídos nesta unidade, componha uma
apresentação no PowerPoint ou faça um cartaz sobre alguns acontecimentos que favoreceram o
desenvolvimento da Sociologia nos séculos XIX e XX. Sintetize as informações em um quadro. Na
primeira coluna, coloque as ideias dos principais autores, na segunda, apresente fatos retirados de
notícias, reportagens de jornais ou revistas e outros meios de comunicação que ilustrem as ideias
desses autores. Esse trabalho será apresentado pelas equipes como fechamento da unidade. 33
Estudo Errado
[...]
Manhê! Tirei um dez na prova
Me dei bem tirei um cem e eu quero ver quem
me reprova
Decorei toda lição
Não errei nenhuma questão
Não aprendi nada de bom
Mas tirei dez (boa filhão!)
[...]
Encarem as crianças com mais seriedade
Pois na escola é onde formamos nossa
personalidade
Vocês tratam a educação como um negócio
onde a ganância a exploração e a indiferença são
sócios
Quem devia lucrar só é prejudicado
Assim cês vão criar uma geração de revoltados
Tá tudo errado e eu já tou de saco cheio
Agora me dá minha bola e deixa eu ir embora
pro recreio..
GABRIEL O PENSADOR. Estudo Errado. In: ______. Ainda é
só o começo. Rio de Janeiro: Sony Music Brasil, p1995. 1 CD.
Faixa 6.
r
r.gov.b
mbe.p
[S.I.]/ca

Processo de

UNIDADE 2
socialização

DIÁLOGO E REFLEXÕES
• Quais são as imagens de escola que a letra da canção traz?
• Por que Gabriel O Pensador afirma que “na escola é onde
formamos nossa personalidade”?
• Está estabelecido no Estatuto da Criança e do Adolescente,
artigo 53: “A criança e o adolescente têm direito à educação,
visando ao pleno desenvolvimento de sua pessoa, preparo
para o exercício da cidadania e qualificação para o trabalho”.
Qual o papel da escola para assegurar este direito?

35
SOCIOLOGIA  Processo de socialização

EM FOCO
Polícia russa descobre menina criada presa com cachorros e gatos
Uma menina de cinco anos que passou a vida trancada em um apartamento
acompanhada de cachorros e gatos, na cidade siberiana de Chita, na Rússia,
foi colocada sob os cuidados do governo, nesta quarta-feira (27). Conforme os
policiais, a menina não fala russo e age como se fosse um cachorro.
De acordo com informações do jornal russo “Moskovski Komsomolets”, a mãe da
menina, que tem outros três filhos, foi quem chamou a polícia. Ela disse que teve
a filha sequestrada e que não tinha permissão para vê-la. Quando policiais foram
a casa – onde, além da garota, viviam o pai dela e os avós –, encontraram uma
menina com os animais.
“Por cinco anos, ela foi ‘criada’ por diversos cachorros e gatos, e nunca saiu à rua.
[...] Sem tomar banho, ela usava panos sujos e tinha claros atributos de um animal,
pulando em cima das pessoas”, informou a polícia russa, em um comunicado. O
apartamento que abrigava a menina e os animais não tinha aquecimento nem
sistemas de água e esgoto.
“Nossa primeira impressão quando entramos foi a de que tínhamos ido parar
em algum lixão. O fedor era insuportável e estava cheio de cachorros enormes e
gatos”, disse Larisa Popova, chefe do departamento da infância e adolescência da
polícia de Chita.
Segundo os médicos, à primeira vista, a menina não apresenta graves deficiências
psíquicas embora, aos 5 anos, ela aparente ter 2 ou 3 anos de idade.
Os assistentes sociais do centro de reabilitação para onde ela foi levada relatam
que, quando saem do quarto, a menina, chamada Natashenka, late e arranha a
porta como cachorro. Por enquanto, ela ainda observa assustada todos que a
cercam e se assusta com os barulhos da rua. Conforme os pedagogos do centro
de reabilitação, a menina tem se alimentado bem – ela lambe o prato, jamais
aprendeu a usar talheres.
O pai da menina – que está foragido – pode ser condenado a até três anos de
prisão por “descumprimento das obrigações de educação de uma criança”.
POLÍCIA russa descobre menina criada presa com cachorros e gatos. Folha de S.Paulo, 27 maio 2009.
Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u572409.shtml>.
Acesso em: 27 abr. 2011.

CONHECIMENTO EM XEQUE

Processo de socialização
Iniciamos esta unidade refletindo sobre o papel da escola em nossas vidas. Segundo a
canção de Gabriel O Pensador, Estudo errado, é na escola que formamos nossa persona-
lidade. E você, concorda com ele? Por que você frequenta a escola desde criança? Qual
é o papel da escola para a vida em sociedade?
Essas questões dialogam diretamente com os assuntos que estudaremos no decorrer
desta unidade. Veremos que a escola pode ser entendida como uma instituição que, há
muito tempo e em diversas sociedades, desempenha um papel central na socialização
dos indivíduos e na constituição de suas identidades. Mas o que são instituições sociais?
E o que significa processo de socialização e de constituição da identidade?
36
Quando se fala em instituições, é comum pensarmos em organizações físicas, como
empresas, igrejas, escolas, etc. De fato, esses exemplos também podem ser classificados
como instituições, não porque constituem uma organização jurídica, mas sim porque
reúnem indivíduos com costumes, hábitos, valores e objetivos semelhantes.
Para as Ciências Sociais, as instituições se referem ao agrupamento duradouro, mas não
imutável, de valores, regras, símbolos, ideias e costumes partilhados por indivíduos em um
mesmo grupo. Podem ser instituições de natureza social, política, econômica, religiosa, dentre
tantas outras, cada uma exercendo uma função social específica. Note que uma instituição
não precisa, necessariamente de estrutura física para existir: ela pode ser a família de um in-
divíduo, a religião de um grupo social, o sistema judiciário de um povo, os partidos políticos
de um país. Veja o caso da escola: ela é uma instituição por difundir conhecimentos, regras e
práticas herdados de diversas gerações e não por ser um prédio frequentado por pessoas.
Zygmunt Bauman e Tim May (2010) preferem falar em “grupos de referência”, que
fornecem padrões para definirmos como nos vestir, agir, comer, falar, etc. Esses grupos
podem ser a família, a religião, o trabalho, a mídia, os amigos, os professores, entre tantos
outros que contribuem para o nosso processo de socialização. Para os autores, embora os
indivíduos nem sempre escolham os seus grupos de referência, é necessário haver algum
grau de consentimento para que tais grupos exerçam influência sobre suas ações.
As instituições e grupos sociais são fundamentais para o processo de socialização.
É por meio deste processo que o indivíduo é preparado para a vida em sociedade, in-
teriorizando normas, crenças, regras, saberes e valores. É no processo de socialização,
que pressupõe a interação do indivíduo com o outro, que construímos nossa identidade
individual e coletiva.
Segundo Peter Berger e Thomas Luckmann, o processo de socialização pode ser dividido
em dois momentos: a socialização primária e a socialização secundária. A socialização
primária se refere à primeira socialização do indivíduo, ainda durante a infância. É nesse
momento, que a criança aprende a brincar e a se relacionar com as pessoas ao seu redor,
tornando-se membro de uma sociedade. Já a socialização secundária diz respeito a pro-
cessos posteriores ao da socialização primária, e introduz os indivíduos em outros setores
da sociedade, como o trabalho, a escola, novos grupos de amigos, etc.

UNIDADE 2
1. De acordo com a perspectiva sociológica, o indivíduo é constituído também a partir de aspectos que são
sociais. Explique a influência que o processo de socialização, as instituições sociais e os grupos de referência exer-
cem sobre o indivíduo.

2. A partir da leitura do texto abaixo, elabore uma tabela que apresente um aspecto próprio da socialização
primária e outro aspecto próprio da socialização secundária.

A socialização primária é a primeira que o indivíduo experimenta na infância, é em virtude da qual se


torna membro da sociedade. A socialização secundária é qualquer processo subsequente que introduz um
indivíduo já socializado em novos setores do mundo objetivo de sua sociedade.
[...]
A socialização secundária exige a aquisição de vocabulários específicos de funções, o que significa, em
primeiro lugar, a interiorização de campos semânticos que estruturam interpretações e condutas de rotina
em uma área institucional. [...] Os submundos interiorizados na socialização secundária são geralmente
realidades parciais, em contraste com o mundo básico adquirido na socialização primária. Contudo, eles
também são realidades mais ou menos coerentes, caracterizadas por componentes normativos e afetivos
assim como cognoscitivos.
BERGER, Peter; LUCKMANN, Thomas. A construção social da realidade. 3. ed. Petrópolis: Vozes, 1976. p. 175-185.

37
SOCIOLOGIA  Processo de socialização

3. “Tornar-se humano” é um processo que, como vimos, ocorre em sociedade. Leia o texto a seguir para res-
ponder às questões.

Somos socializados – transformados em seres capazes de viver em sociedade – pela internalização das coer-
ções sociais. Considera-se que estamos aptos para viver e agir em grupo, quando adquirimos as competências
para nos comportar de maneira aceitável e, então, somos considerados livres para assumir a responsabilidade
de nossas ações. Quem são, porém, aquelas pessoas significativas com as quais interagimos e que, assim, nos
socializam?
BAUMAN, Zygmunt; MAY, Tim. Alguém com os outros. In: Aprendendo a pensar com a Sociologia. Rio de Janeiro:
Zahar, 2010. p. 44-45.

a) Considerando a definição de socialização apresentada pelos sociólogos Zygmunt Bauman e Tim May, no ex-
certo do texto, argumente por que a socialização nos transforma em seres capazes de viver em sociedade.
b) Explique o significado da expressão “internalização das coerções sociais”.
c) Reflita sobre a sua história de vida, desde o seu nascimento até hoje, e responda à questão: quem são aquelas
pessoas, grupos e instituições significativos com os quais você interagiu ou interage e que fizeram parte do
seu processo de socialização? Liste suas principais influências. Apresente sua resposta em uma linha do tem-
po, organizada segundo a sua idade.

A linguagem
Vimos que as instituições e grupos sociais favorecem a socialização do indivíduo na so-
ciedade ou no grupo ao qual ele pertence. Refletiremos, nesta unidade, sobre as instituições
e grupos sociais que fazem parte desse processo e que contribuem para a construção da
identidade social e pessoal dos indivíduos. Dentre eles, destacaremos a linguagem, a família,
a escola, a religião e o Estado.
Começaremos pela linguagem. Para os sociólogos Peter Berger e Brigitte Berger (1978),
do ponto de vista sociológico, a linguagem pode ser entendida como uma instituição social.
Mais do que isso, ela é a instituição fundamental da sociedade, além de ser a primeira a ser
inserida na biografia do indivíduo.

4. Leia o texto O que é uma instituição social e grife os trechos que considerar mais importantes para compre-
ender o que Brigitte e Peter Berger denominam como instituição, socialização e linguagem. Em seguida, responda
às questões.

O que é uma instituição social


Definimos a instituição como um padrão de controle ou uma programação de conduta individual imposta
pela sociedade. [...] No sentido usual, o termo designa uma organização que abranja pessoas, por exemplo, um
hospital ou uma universidade. De outro lado, o termo instituição também é ligado às grandes entidades sociais
que o povo enxerga quase como um ente metafísico a pairar sobre a vida do indivíduo, como o Estado, o mer-
cado ou o sistema educacional. Se pedíssemos ao leitor que indicasse uma instituição, ele provavelmente recor-
reria a um desses exemplos. E não estaria errado. Acontece, porém, que a acepção comum do termo parte de
uma visão unilateral: estabelece ligação por demais estreita entre o termo e as instituições sociais reconhecidas
e reguladas por lei. Assim, torna-se importante demonstrar que, sob a perspectiva sociológica, o significado do
termo não é exatamente esse. Por isso, desejamos mostrar que a linguagem é uma instituição.
Muito provavelmente a linguagem é a instituição fundamental da sociedade, além de ser a primeira insti-
tuição inserida na biografia do indivíduo. É fundamental porque qualquer outra instituição, seja quais forem
suas características e finalidades, funda-se nos padrões de controle subjacentes da linguagem. Sejam quais
forem as outras características do Estado, mercado e sistema educacional, eles dependem de um arcabouço
linguístico de classificações, conceitos e imperativos dirigidos à conduta individual: dependem de um univer-
so de significados construídos pela linguagem e que só por meio dela podem permanecer atuantes.
38
Por outro lado, a linguagem é a primeira instituição com que se defronta o indivíduo. Esta afirmativa
pode parecer surpreendente. Se perguntássemos ao leitor qual é a primeira instituição com que a criança
entra em contato, ele provavelmente dirá: a família. E de certa forma não deixa de ter razão. Para a maioria
das crianças, a socialização primária tem lugar no âmbito de uma família específica, que por sua vez re-
presenta uma faceta peculiar da instituição mais ampla do parentesco na sociedade a que pertence. Não
há dúvida de que a família é uma instituição muito importante. Acontece, porém, que a criança não toma
conhecimento desse fato. Ela de fato experimenta seus pais, irmãos, irmãs e outros parentes que possam
estar por perto naquela fase da vida. Só mais tarde percebe que esses indivíduos em particular, e os atos
que praticam, constituem uma das facetas de uma realidade social muito mais ampla: a família. É de supor
que essa percepção ocorra no momento em que a criança começa a comparar-se com outras crianças. Já a
linguagem, muito cedo, envolve a criança nos seus aspectos macrossociais. No estágio inicial da existência,
a linguagem aponta as realidades mais extensas, que se situam além do microcosmo das experiências ime-
diatas do indivíduo. É por meio da linguagem que a criança começa a tomar conhecimento de um vasto
mundo situado lá fora, um mundo que lhe é transmitido pelos adultos que a cercam, mas vai muito além
deles.
BERGER, Peter L.; BERGER, Brigitte. O que é uma instituição social. In: FORACCHI, Marialice M.; MARTINS, José de Souza. Sociologia e Sociedade:
leituras de introdução à sociologia. Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos. 1978. p. 193-195.

a) Por que Peter e Brigitte Berger afirmam que a linguagem é uma instituição social?
b) Além da linguagem, quais outras instituições sociais os autores se referem no texto?

5. Após esses estudos iniciais, volte a analisar a linha do tempo que você construiu na ativi-
dade 3.
a) Complete, se necessário, a linha do tempo com outras instituições e grupos sociais impor-
tantes para o seu processo de socialização.
b) Selecione imagens que representem as instituições e grupos sociais indicados na sua linha
do tempo. Você pode utilizar fotografias, recortes de revistas e jornais, material da internet
ou mesmo produzir os seus próprios desenhos. Organize as imagens de forma cronológica,
ou seja, de acordo com o período da vida em que você entrou em contato com cada uma
das instituições ou grupos citados.

UNIDADE 2
c) Produza um “fotolivro” com as imagens selecionadas. Não se esqueça de colocar legenda
em cada uma delas, indicando a qual grupo ou instituição se refere.

A família
Para Peter Berger e Brigitte Berger a linguagem é uma instituição fundamental da sociedade e é a pri-
meira com a qual o indivíduo se depara quando chega ao mundo. Assim, seria por meio dela que acon-
teceria a socialização primária. Mas, quais outras instituições contribuem para a socialização primária
dos indivíduos?
Além da linguagem, podemos destacar a família como uma das principais instituições que contribui
para o processo de socialização primária. É na família, primeiro ambiente com o qual o indivíduo entra
em contato após o seu nascimento, que ele aprende regras sociais, valores e costumes, e que começa a
identificar, de forma objetiva e subjetiva, o social, categorizando as pessoas, os objetos e as relações ao
seu redor. É na família, portanto, que o indivíduo começa a se tornar membro da sociedade.
A organização familiar varia muito de sociedade para sociedade. Entretanto, podemos dizer que ela
é responsável por reproduzir, proteger e socializar os indivíduos, bem como por regular o seu comporta-
mento, transmitir-lhe regras básicas de convivência, oferecer-lhe afeto e segurança.
No decorrer da sua vivência, a criança passa a conhecer outros mundos para além da família, como a
escola, o grupo de amigos, a vizinhança, dentre tantos outros. Nessa socialização, chamada secundária,

39
SOCIOLOGIA  Processo de socialização

ela identifica outros padrões sociais de comportamento e pensamento, confrontando ou confirmando


aqueles já aprendidos. Assim, as instituições e os grupos sociais dos quais a criança faz parte tornam-se
referenciais para a sua inserção na sociedade.
A socialização, contudo, não termina na infância: ela é contínua e se estende por toda a vida, pois
estamos constantemente conhecendo novas pessoas e vivenciando situações que interferem na forma como
nos relacionamos com o mundo. Isso ocorre quando ingressamos em uma nova escola ou em um novo
trabalho, quando mudamos de bairro ou de cidade, quando temos um novo relacionamento, quando nos
casamos, quando temos filhos, etc.

6. Segundo pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a família brasileira mudou bas-
tante nas últimas décadas do século XX. Leia o texto Nas duas últimas décadas houve uma queda substancial do
tamanho da família, analise os gráficos e tabelas e, em seguida, faça as atividades propostas para compreender as
mudanças diagnosticadas pelo IBGE na organização da família brasileira.

Nas duas últimas décadas houve uma queda


substancial do tamanho da família
O tamanho da família brasileira diminuiu em todas as regiões: de 4,3 pessoas por família em 1981, che-
gou a 3,3 pessoas em 2001. O número médio de filhos por família é de 1,6 filhos.
Em 2002, o número médio de pessoas, na família, se manteve o mesmo em quase todas as regiões e por
isso a média para o país se manteve em 3,3 pessoas, segundo a Síntese de Indicadores Sociais 2003. O nú-
mero médio de filhos apresentou uma diferença mínima em relação ao ano anterior: de 1,6 para 1,5 filhos
na família em domicílios particulares. Veja abaixo o gráfico da situação em 2001:
Número médio de pessoas por família
residentes em domicílios particulares
Brasil 1981 - 2001

5
Número de pessoas

4 4,3 3,9 3,3


3
2
1
0
1981 1990 2001
Fonte: Pesquisa Nacional por Amostra de Dominílios 1981 a 1989,
1990 e 2001. IBGE.

Número médio de pessoas por família


residentes em domicílios particulares
Grandes Regiões 2001
3,8 3,7
3,7
3,6 Número médio de filhos por família,
Número de pessoas

3,6 residente em domicílio particular


3,5
Brasil Grandes Regiões 1999
3,4 3,3 3,3 2
3,3 3,2 3,2
3,2
3,1 1
3
2,9 0
Brasil Norte Nordeste Sudeste Sul Centro- Brasil Norte Nordeste Sudeste Sul Centro-
-Oeste -Oeste
Fonte: Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios 2001. IBGE 2002. Fonte: Síntese dos Indicadores Sociais. IBGE, 2001.

40
Aumentou o número de famílias do tipo mulheres sem cônjuge com filhos.
Mas ainda predomina o padrão histórico de família, casal com filhos. Veja o gráfico abaixo.
Distribuição das famílias por tipo - Brasil - 1992-2002
70
59,4
60 52,8 1992 2002
50
40
30
20 12,9 14,1 15,1 17,9
7,3 9,3 5,2 5,7
10
0
Unipessoal Casal sem Casal com Mulher sem Outros tipos
filhos filhos cônjuge com
filhos
Fonte: IBGE, Síntese de Indicadores Sociais 2003 e IBGE, Síntese de Indicadores Sociais 2000.

O novo padrão de família, mulheres sem cônjuge com filhos, definiu-se mais claramente no Norte e
Nordeste, durante os anos 90.
• Norte – 20,4% das famílias eram famílias de mulheres sem cônjuge com filhos
• Nordeste – 18,5% das famílias eram famílias de mulheres sem cônjuge com filhos

Veja no gráfico.
Famílias de mulheres sem cônjuge com filhos
Grandes Regiões 1992-1999
%
22
20,4

20 18,6 18,5

18 17,1 17,3
17,2
16,5
16 15,1 15 15,1

UNIDADE 2
14 12,9
12
12

10
Brasil Norte Nordeste Sudeste Sul Centro-
-Oeste
1992 1999
Fonte: IBGE, Síntese de Indicadores Sociais 2001.

Porém, esse novo padrão apresentou, no mesmo período (1992-1999), um crescimento relativo maior
no Sudeste e no Centro-Oeste.

Crescimento relativo do tipo "mulheres sem cônjuge com filhos"


Grandes Regiões Crescimento
Norte 9,68%
Nordeste 12,20%
Sudeste 15,33%
Sul 7,50%
Centro-Oeste 13,91%

41
SOCIOLOGIA  Processo de socialização

Cresceu o número de famílias cujas pessoas de referência são mulheres


Desde a década de 80, vem crescendo continuamente, a proporção de mulheres como pessoa de
referência da família. Essa é uma tendência que pode ser observada no gráfico a seguir.
Proporção de famílias com pessoas de referência do
sexo feminino - 1981 - 2001
%
30
27,3
25 26
22,9
20
20,1
16,9 18,2
15

10
1981 1985 1989 1995 1999 2001
Fonte: Pequisa Nacional por Amostra de Domicílios 1981 a 1989, 1990 e 2001. IBGE.

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Nas duas últimas décadas houve uma queda substancial do tamanho da família.
Disponível em: <http://www.ibge.gov.br/ibgeteen/pesquisas/familia.html>. Acesso em: 11 mar. 2011.

a) Segundo o IBGE, o que mudou e o que continua igual na configuração da família brasileira?
b) Descreva os dados apresentados no gráfico Distribuição das famílias por tipo – Brasil, 1992-2002, indicando:
• quais são os tipos de família identificados pelo IBGE;
• que mudanças ocorreram na distribuição das famílias por tipo no Brasil entre 1992 e 2002.
c) A pesquisa do IBGE destaca mudanças significativas no papel da mulher no novo padrão de família brasileira.
Quais são essas mudanças?
d) Além das mudanças citadas no estudo do IBGE, quais outras podem ser identificadas na configuração das
famílias brasileiras?

7. Escolha um dos aspectos analisados pelo IBGE no texto Nas duas últimas décadas houve uma queda substancial
do tamanho da família (tamanho das famílias, número de filhos por família, distribuição dos tipos de família, pessoas de
referência, posição da mulher). Em seguida, pesquise nas Séries Estatísticas e Séries Históricas do próprio IBGE dados
mais recentes sobre o aspecto selecionado. Por fim, descreva os dados atualizados encontrados, indicando se houve ou
não mudanças em relação àqueles apresentados no texto anterior. As Séries Estatísticas e Séries Históricas do IBGE estão
disponíveis em: <http://seriesestatisticas.ibge.gov.br/lista_tema.aspx?op=0&no=6>.

8. O próximo texto também trata das transformações ocorridas na família, a partir da institucionalização de
parcerias entre pessoas do mesmo sexo, já reconhecida legalmente em alguns contextos.

Uma notável virada na história do casamento teve início, na década final do século XX, com a institucio-
nalização oficial do casamento homossexual, ou parceria civil. [...] O reconhecimento da homossexualidade
como forma legítima de sexualidade foi parte da revolução sexual do Ocidente. Ela está agora descriminaliza-
da onde era ainda um delito, e em 1973 foi retirada da lista de desordens mentais da Associação Psiquiátrica
Americana.
Em 1975, a Comissão de Serviços Civis dos EUA retirou sua interdição à contratação de homossexuais.
Logo, a discriminação dos homossexuais é que passou a ser considerada um delito. A igualdade em relação
à orientação sexual esteve nas normas para a nomeação de prefeitos, na Holanda na década de 1980, por
exemplo. Grande avanço internacional foi sua inclusão na Constituição Sul-africana pós-apartheid (em 1996).
[...] Entretanto, o que é interessante nesse nosso contexto particular, são as reivindicações de gays e lésbicas
pelo direito ao casamento e a aceitação parcial de suas exigências. O maior progresso aconteceu no norte da
Europa. [...] As parcerias de mesmo sexo foram inicialmente institucionalizadas na Escandinávia, como tantas
outras coisas da moderna mudança da família. Desde 1970, as autoridades suecas reconheciam alguns direi-
tos gerais de coabitação dos parceiros do mesmo sexo, reconhecimento sistematizado em 1987, no Ato dos
Coabitantes Homossexuais. A primeira legislação nacional sobre parcerias registradas entre casais do mesmo
sexo foi aprovada na Dinamarca, em 1989, e serviu de modelo para outros países escandinavos. Na Holan-
42
da, a lei sobre parcerias registradas está em efeito desde 1998, na França, desde 1999, abrangendo também
relações pessoais solidárias que não apenas homossexuais. [...] No Brasil, um projeto de lei do Partido dos
Trabalhadores, então na oposição, foi apresentado antes das eleições de 2002, mas não foi ainda votado. O
casamento não está desaparecendo. Está mudando.
THERBORN, Göran. Sexo e poder: a família no mundo 1900-2000. São Paulo: Contexto, 2006. p. 329-331.

a) De acordo com o texto, que mudanças ocorreram na instituição família?


b) De que forma o fenômeno da homossexualidade trouxe novas características à instituição familiar?

A escola
Além da família e da linguagem, a escola também exerce um papel
fundamental no processo de socialização do indivíduo. Ainda durante
a socialização primária, a criança é inserida em um novo ambiente,
o qual promove a socialização secundária ou até mesmo a passagem DESDOBRAMENTO
entre a socialização primária e a secundária de uma forma bastante
Pierre Bourdieu (1930-2002)
clara e direta: a escola. Nesse local, a criança tem contato com regras

[S.I.]/lemonde.fr
sociais que já foram transmitidas por seus pais e muitas outras regras
que lhe eram desconhecidas.
Pode-se dizer que se inicia, nesse momento, a vivência de relações
com outro tipo de vínculo. Enquanto se tem, normalmente, um vínculo
muito mais próximo e afetivo na família, na escola as relações estabe-
lecidas compõem-se, com o decorrer dos anos, de um maior grau de
formalidade e de distanciamento.
Os processos ocorridos na escola obedecem desde diretrizes e
propostas curriculares oficiais e orientações pedagógicas, elaboradas
muitas vezes em estruturas externas à escola, até os costumes locais,
determinadas regras de convivência e as expectativas da comunidade
escolar. Esse ambiente impulsiona nos indivíduos a visão crítica sobre Pierre Bourdieu tem origem em
a realidade, e possibilita o acesso aos bens culturais, o aprendizado uma família campesina, frequen-

UNIDADE 2
de condutas e de regras sociais. tou a Escola Normal Superior em
Paris, formando-se em Filosofia. Foi
Para o sociólogo Pierre Bourdieu, as relações e os conteúdos es- assistente do sociólogo Raymond
tabelecidos e apreendidos na escola acompanham as relações de po- Aron, produziu mais de 300 títulos,
der entre classe dominante e classe dominada. Na verdade, Bourdieu entre livros e artigos a respeito
pensava que não havia uma reprodução cultural apenas no sentido de da educação, cultura, literatura,
transferência de informações, cultura e conhecimento, mas também arte, mídia, linguística e política. A
uma reprodução social, ou seja, a absorção de posturas ligadas a cada dominação foi um dos seus princi-
posição social. Por meio da educação escolar, os dominantes assumi- pais temas em discussão, além de
riam as características próprias de uma classe diretiva da sociedade, fazer um trabalho que analisava
a atuação do sociólogo, ou seja,
enquanto os dominados se manteriam na posição de subordinados.
preocupou-se em fazer a sociolo-
Assim, para Bourdieu, a educação não é uma instância de trans- gia da Sociologia.
formação e de democratização da sociedade, mas sim, de manuten- Dentre suas obras, destacamos as
ção e legitimação das desigualdades sociais. Isso porque, para ele, o seguintes:
 Sociologia da Argélia – 1958.
indivíduo tem uma bagagem herdada socialmente, correspondente à
sua formação inicial em um ambiente social e familiar específico. Tal  A reprodução: elementos para
uma teoria do sistema de ensino
bagagem inclui, nos termos de Bourdieu, o capital econômico (bens
– 1978.
e serviços aos quais os indivíduos têm acesso), o capital social (rela-
cionamentos sociais) e o capital cultural (conhecimentos herdados e  O poder simbólico – 1992.
títulos escolares). Para as crianças oriundas de determinadas posições  A dominação masculina – 1999.
na estrutura social, a escola seria um mero prolongamento do seu  A miséria do mundo – 2003.
mundo familiar e, por isso, teriam condições de atender plenamente
às exigências da instituição. Já as crianças oriundas dos grupos domi-
43
SOCIOLOGIA  Processo de socialização

nados continuariam em uma posição desigual, pois não teriam acesso, plenamente, aos conhecimentos
difundidos pela escola.
Isso ocorre, conforme Bourdieu, devido ao habitus adquirido, ou seja, “ao sistema de disposições
duráveis e transponíveis que exprime, sob a forma de preferências sistemáticas, as necessidades objetivas
das quais ele é o produto”, nas palavras de Renato Ortiz (1983).
Se Bourdieu entende que na escola ocorre uma reprodução dos padrões sociais, diferenciando grupos
sociais, outros autores, como Émile Durkheim, compreendem a escola como uma instituição necessária à
transferência das regras sociais e dos conhecimentos das gerações anteriores. O ambiente escolar é, nessa
perspectiva, uma referência necessária à formação de indivíduos, a fim de que se adaptem aos padrões e
às expectativas sociais.

9. Pierre Bourdieu e Émile Durkheim possuem pontos de vista distintos sobre o papel da
escola para a vida em sociedade. Escolha o ponto de vista de um dos autores para defender. Ela-
bore argumentos para sustentar sua defesa e debata com seus colegas. Após o debate, registre
as conclusões a que você chegou sobre a teoria de cada um dos autores sobre o assunto.

10. O texto abaixo foi retirado do artigo A Sociologia da educação de Pierre Bourdieu: limites e
contribuições, de Cláudio e Maria Alice Nogueira. Realize a sua leitura e responda às questões pro-
postas.

A Sociologia da educação de Pierre Bourdieu: limites e contribuições


Cabe, desde já, observar que, do ponto de vista de Bourdieu, o capital cultural cons-
titui (sobretudo, na sua forma incorporada) o elemento da bagagem familiar que teria o
maior impacto na definição do destino escolar. A Sociologia da Educação de Bourdieu
se notabiliza, justamente, pela diminuição que promove do peso do fator econômico,
comparativamente ao cultural, na explicação das desigualdades escolares. Em primeiro
lugar, a posse de capital cultural favoreceria o desempenho escolar na medida em que
facilitaria a aprendizagem dos conteúdos e códigos escolares. As referências culturais,
os conhecimentos considerados legítimos (cultos, apropriados) e o domínio maior ou
menor da língua culta, trazidos de casa por certas crianças, facilitariam o aprendizado
escolar uma vez que funcionariam como uma ponte entre o mundo familiar e a cultura
escolar. A educação escolar, no caso das crianças oriundas de meios culturalmente favo-
recidos, seria uma espécie de continuação da educação familiar, enquanto para as outras
crianças significaria algo estranho, distante, ou mesmo ameaçador. A posse de capital
cultural favoreceria o êxito escolar, em segundo lugar, porque propiciaria um melhor de-
sempenho nos processos formais e informais de avaliação.
Bourdieu observa que a avaliação escolar vai muito além de uma simples verificação
de aprendizagem, incluindo um verdadeiro julgamento cultural e até mesmo moral dos
alunos. Cobra-se que os alunos tenham um estilo elegante de falar, de escrever e até
mesmo de se comportar; que sejam intelectualmente curiosos, interessados e discipli-
nados; que saibam cumprir adequadamente as regras da boa educação. Essas exigências
só podem ser plenamente atendidas por quem foi previamente (na família) socializado
nesses mesmos valores.
NOGUEIRA, Cláudio Marques Martins; NOGUEIRA, Maria Alice. A Sociologia da Educação de Pierre Bourdieu: limites e
contribuições. Educação & Sociedade, ano XXIII, n. 78, abr. 2002, p. 21.

a) Explique o que é o capital cultural segundo o sociólogo Pierre Bourdieu.


b) Por que os autores do texto afirmam que, “[...] do ponto de vista de Bourdieu, o capital cul-
tural constitui (sobretudo, na sua forma incorporada) o elemento da bagagem familiar que
teria o maior impacto na definição do destino escolar”?
44
O conceito de habitus
O conceito de habitus se refere aos esquemas de pensamento, ação, percepção e gosto; construídos
a partir das formas de viver e de pensar dos grupos ou classes sociais.
O habitus é estruturado a partir das instituições de socialização, a começar pela família e pela escola.
Nelas, poderíamos identificar um habitus primário, passível de ser modificado, mas não completamen-
te, pelo habitus secundário, desenvolvido em outras esferas da vida. Entretanto, segundo Bourdieu, o
habitus primário é duradouro e as marcas do grupo familiar e da classe social geralmente perduram
ao longo da vida dos indivíduos. Isso quer dizer que os padrões de comportamento, de pensamento e
de gosto dos indivíduos estão, profundamente, ligados ao lugar que ocupam na estrutura social. Como
não há igualdade de posições na sociedade, as desigualdades são mantidas e legitimadas.

11. Analise os textos abaixo de acordo com o conceito de habitus de Pierre Bourdieu.
Os habitus são princípios geradores de práticas distintas e distintivas – o que o operário come, e, sobretudo,
sua maneira de comer, o esporte que pratica e sua maneira de praticá-lo, suas opiniões políticas e sua maneira
de expressá-las diferem, sistematicamente, do consumo ou das atividades correspondentes do empresário in-
dustrial; mas são também esquemas classificatórios, princípios de classificação, princípios de visão e de divisão
e gostos diferentes. Eles estabelecem as diferenças entre o que é bom e mau, entre o bem e o mal, entre o que é
distinto e o que é vulgar, etc., mas elas não são as mesmas. Assim, por exemplo, o mesmo comportamento ou o
mesmo bem pode parecer distinto para um, pretensioso ou ostentatório para outro e vulgar para um terceiro.
BOURDIEU, Pierre. Razões práticas. Campinas: Papirus, 1996. p. 22.

O campo esportivo é rico em exemplos de distinção. Um mesmo esporte pode ser praticado e assistido
de modos diferentes. No riquíssimo circo da Fórmula l, o ingresso mais barato custa próximo de um salá-
rio-mínimo, o que o enquadra, talvez, dentro do padrão de consumo de funcionários públicos, pequenos
comerciantes e trabalhadores qualificados. A entrada mais cara atinge cifras superiores a três mil dólares.
Com esse ticket pode-se frequentar locais com serviços de buffet, transporte aéreo (helicópteros), serviço

UNIDADE 2
de atendimento médico com urgência e, importantíssimo, tem-se livre acesso aos carros e pilotos oficiais.
O paddock é o espaço dos profissionais liberais bem-sucedidos, das manequins internacionais, dos altos
políticos, dos grandes industriais e dos comandantes das finanças. Isso mostra, de pronto, que o mesmo
esporte destina lugares na plateia totalmente distintos. As fronteiras, não seria necessário dizer, são guar-
dadas por rígidos esquemas de segurança.
A maneira de jogar um esporte também é distintiva. Tomemos por exemplo o futebol praticado por
trabalhadores braçais. O ritmo do jogo tem uma dinâmica mais forte, é mais rápido e a virilidade marca
seu estilo. Já o futebol disputado por profissionais liberais, empresários e, talvez, por professores, dife-
rencia-se pela menor velocidade, chegada mais leve e discussões multiplicadas com o juiz do jogo. Não é
inútil ressaltar que essas comparações devem ser sopesadas e matizadas pelas diferenças de condiciona-
mento físico e de temperamento que marcam cada um dos jogadores. Porém, em geral, os campeonatos
de associações profissionais, de clubes sociais e de várzea estão aí para comprovar: o mesmo esporte é
praticado com vigores diferenciados e com estilos distintos.
AZEVEDO, Mário Luiz Neves de. Espaço social, campo social, habitus e conceito de classe social em Pierre Bourdieu. Revista Espaço Acadêmico,
ano III, n. 24, maio 2003. Disponível em: <http://www.espacoacademico.com.br/024/24cneves.htm>. Acesso em: 14 jan. 2011.

a) De que maneira pode-se explicar o conceito de habitus, de Pierre Bourdieu, utilizando como exemplo as pre-
ferências esportivas relatadas no segundo texto?
b) Qual é a importância da escola no processo de socialização de um indivíduo para a aquisição de gostos e de
determinado estilo de vida?

12. Com base no que você estudou sobre a função da escola, redija uma breve carta para Manolito, a persona-
gem da tirinha abaixo, respondendo à seguinte questão: Por que vamos todos os dias à escola?
45
SOCIOLOGIA  Processo de socialização

QUINO. Toda Mafalda. São Paulo: Martins Fontes,1993. p. 82.

A escola em diferentes épocas e lugares


Sabemos que a escola existe, há muitos séculos, e que vem exercendo uma função
importante na socialização dos indivíduos. Entretanto, a escola que conhecemos hoje
é diferente da escola de outras épocas e lugares. Em Esparta, na Grécia antiga, por
exemplo, priorizavam-se ensinamentos relacionados à guerra e à transformação dos
alunos em bons guerreiros. Mas não é preciso ir muito longe, para notar que a escola
é diferente de acordo com o contexto em que está inserida. Mesmo hoje, no Brasil,
temos escolas bem diferentes umas das outras, embora todas sejam regidas pela mesma
Constituição. Nas escolas dos assentamentos do Movimento dos Trabalhadores Sem-
Terra (MST), são estabelecidas diretrizes relacionadas à realidade dos moradores da
área rural, ou seja, privilegia-se o conhecimento de plantio, a gestão de cooperativas
agrícolas, a produção de alimentos. Nas escolas indígenas, por sua vez, são trabalhados
assuntos que dizem respeito tanto aos saberes indígenas quanto aos não indígenas.

13. Entreviste uma pessoa que frequentou a escola, como aluno, há mais de vinte anos e que,
de preferência, tenha cursado o que conhecemos hoje como Ensino Médio (ou Ensino Secun-
dário). O objetivo da entrevista é diagnosticar o que mudou e o que permanece na escola e
entender a sua importância para a socialização dos indivíduos.
Para a elaboração desta atividade, você deverá realizar os seguintes passos:
• Ler, no apêndice Métodos e técnicas de pesquisa as orientações para realização de uma en-
trevista.
• Elaborar, em grupo, um roteiro de entrevista.
• Escolher e contatar a pessoa que será entrevistada.
• Agendar a entrevista.
• Realizar a entrevista, gravando ou registrando, em diário de campo, as respostas às ques-
tões.
a) Sistematize, em um quadro como o modelo abaixo, as respostas do entrevistado, compa-
rando-as com as suas respostas.

46
Categorias Entrevistado Você

Ano em que estudou

Idade

Escola ( ) Pública ( ) Privada ( ) Pública ( ) Privada

Zona ( ) Urbana ( ) Rural ( ) Urbana ( ) Rural

Níveis de ensino

(educação básica)

Disciplinas

Vestimenta

Regras

Formas de avaliação

Outras informações
b) Apresente os dados coletados, compare a escola descrita pelo entrevistado com a escola que você frequenta
e comente a percepção do entrevistado sobre a importância da escola para a vida dele.
c) Escreva um artigo, analisando os resultados da entrevista. Não se esqueça de utilizar, na análise, os conceitos
que você estudou nesta unidade.

14. Faça uma retrospectiva de sua vida e lembre-se de coisas que você fez, aprendeu ou en-
controu na escola e que, agora, compõem as suas preferências e seus gostos. Complete seu fo-
tolivro com imagens que apresentem estas ações, aprendizagens e descobertas. Não se esqueça
de elaborar legendas que esclareçam o que está sendo representado.

UNIDADE 2
A religião
Uma das instituições que pode ter forte participação na socialização dos indivíduos
é a religião. Da mesma forma que a família e a escola, a instituição religiosa contempla
uma variedade de regras, costumes, práticas e crenças que orientam o comportamento
do indivíduo, auxiliando na sua integração ou diferenciação social.
A religião pode se expressar na socialização primária, por meio de valores e princípios
familiares, mas também na socialização secundária, quando constrói referências sociais
mais generalizadas.
Independentemente de qual seja, a religião fornece aos seus seguidores regras, crenças
e costumes, que favorecem a compreensão do mundo e a postura que se deve ter diante
dele. Como é característica das instituições sociais, a religião exerce controle sobre os
indivíduos, por meio dos parâmetros orientadores das relações, práticas, pensamentos,
concepções de mundo.
De acordo com alguns sociólogos clássicos, a religião apresenta papéis diferentes na
sociedade. Segundo Durkheim, ela diferencia o sagrado e o profano.

47
SOCIOLOGIA  Processo de socialização

Karl Marx interpretava a religião como uma forma de manipular a


massa. A religião, como outras instituições sociais, seria empregada
para explicar a realidade, a qual segundo Marx, era dominada pela
burguesia. A religião, portanto, seguiria os princípios de dominação,
DESDOBRAMENTO a fim de mascarar o processo de desigualdade vivenciado pela classe
trabalhadora; a religião seria como uma anestesia para enfrentar o
Max Weber 1864-1920
dia a dia, mantendo os trabalhadores conformados com sua posição
social.
O sociólogo alemão Max Weber, por sua vez, analisou a relação
.org

entre concepções religiosas e desenvolvimento econômico. Em A


edia

ética protestante e o espírito do capitalismo, Weber associou as


mons.wikim

atitudes difundidas por determinada vertente do protestantismo, a


saber, pelo calvinismo, ao desenvolvimento do capitalismo. Segundo
[S.I.]/com

o autor, os calvinistas dedicavam-se ardorosamente ao trabalho, a


fim de enfrentar a angústia da incerteza, diante da salvação ou da
condenação após a morte. Os lucros obtidos desse trabalho constan-
te não eram gastos e sim acumulados. Assim, Weber verificou que
existia uma racionalidade, ou seja, uma previsão e calculabilidade
Max Weber nasceu na Alemanha, na conduta dos protestantes para alcançar o reino dos céus. Não
estudou Direito, Filosofia, História se tratava de ânsia pelo lucro, mas sim, de se dedicar a Deus, de
e Sociologia e trabalhou como se livrar do pecado e de garantir a salvação por meio do trabalho,
professor. da disciplina, da poupança e da acumulação de riquezas.
Possuía posicionamentos liberais
na política e desenvolveu diversos Esta ética protestante, ou seja, esta conduta baseada em uma inter-
estudos sobre religiões, estabele- pretação religiosa sobre as atividades econômicas favoreceu a orga-
cendo relações entre formações
nização racional do trabalho e da produção e, de forma mais geral, o
políticas e crenças religiosas.
Em 1904 publicou ensaios sobre a próprio fortalecimento do capitalismo. Portanto, para Weber, as con-
objetividade nas Ciências Sociais cepções religiosas de determinadas sociedades poderiam influenciar
e a primeira parte de A ética pro- o seu comportamento econômico.
testante e o espírito do capitalismo,
que se tornaria sua obra mais co-
nhecida e uma peça fundamental
para a reflexão sociológica.
Algumas de suas obras: Artigos 15. Quais são os pontos de vista de Émile Durkheim, de Karl Marx e de Max
reunidos de teoria da ciência; Eco- Weber sobre a religião? Sistematize sua resposta em um quadro.
nomia e sociedade (obra póstuma)
e A ética protestante e o espírito do
capitalismo.
O Estado
O Estado também pode ser entendido como uma instituição social
organizada em torno de um conjunto de funções. Entre tais funções
sociais encontra-se, segundo Allan Johnson (1997, p. 91), a manuten-
ção da ordem, da lei e da estabilidade, a garantia dos direitos e do
bem-estar da população, a resolução dos litígios, o poder fiscal e, nos
termos de Max Weber, o monopólio do uso da força.
Quando se fala em Estado, é necessário analisar toda sua extensão:
o território, a nação, o governo e a soberania. Por meio da amplitude
do Estado, podem-se compreender as diretrizes, os valores, os posi-
cionamentos, as associações que o povo estabelece em seu cotidiano
e a noção de justiça.
Segundo Castro, os elementos constitutivos do Estado definem-se as-
sim:

48
Nação: povo unido pela história e pela
cultura, cuja unidade é mantida pela DESDOBRAMENTO
consciência social. Karl Marx 1818-1883
Território: terras emersas, espaço aé-
reo, rios, lagos, águas territoriais.
Governo: indivíduo ou conjunto de in-

.org
divíduos, legitimamente investido de

edia
autoridade, que estabelece leis, profere

mons.wikim
sentenças e promove sua execução.
Soberania: poder supremo, sem supe-

[S.I.]/com
rior nem concorrente. (CASTRO, 2000,
p. 229).

Algumas pessoas não percebem a importância


dessa instituição em sua vida, mas é por meio do
Estado que as necessidades básicas de uma socieda-
de são supridas, os direitos e deveres dos cidadãos Karl Marx, cientista social e historiador alemão do
são garantidos e as leis que regulam o funciona- século XIX, exerceu enorme influência sobre o pensa-
mento da sociedade são estabelecidas. mento filosófico e social sobre o mundo capitalista.
Essa concepção é muito próxima do ponto de Revolucionário, foi inspiração para a maior parte das
chamadas revoluções socialistas no leste europeu.
vista de Émile Durkheim. Ele acreditava no Estado
A família de Marx nunca foi rica, mas conseguiu que ele
como um organizador da sociedade, como uma estudasse Direito, Filosofia e História na Universidade de
instituição capaz de manter a coesão social, prin- Bonn e de Berlim. Lá tomou contato com algumas teorias
cipalmente por meio da moral. que o influenciariam bastante, como as de Hegel. Logo se
Já para Karl Marx, o Estado refletia a composi- casaria com Jenny, moça muito rica que trocou uma vida
de luxo pelo casamento com Marx. Enfrentaram muitas
ção dos interesses da classe dominante, ou seja, da
dificuldades financeiras e dos seis filhos que tiveram
burguesia. Tratava-se de uma instituição composta apenas três chegaram à idade adulta.
por burgueses e que era dirigida pelos mesmos, a Para conseguir produzir uma das teorias mais impor-
fim de controlar os operários e obter vantagens para tantes do século XIX (há quem considere também do
a classe dominante. século XX), Marx contou com o apoio de Engels, indus-
trial inglês que percebeu sua genialidade e o susten-

UNIDADE 2
O Estado é considerado essencial- tou, durante muitos anos, além de financiar algumas
mente como instrumento da domi- revistas das quais foram editores.
nação de uma classe. Em consequ- O envolvimento de Marx com diversos movimentos de
ência, um regime político é definido trabalhadores levou-o a ser expulso de alguns países
pela classe que exerce o poder. Os pelos quais passou, tais como a França e a própria
regimes da democracia burguesa são Alemanha. Na França de 1848, houve a queda de Luis
assemelhados àqueles em que a clas- Filipe com a participação popular e também do próprio
se capitalista exerce o poder, embora Marx.
mantenham a fachada das instituições Esses acontecimentos revolucionários influenciaram
livres. Em oposição ao regime econô- alguns outros países europeus e inspiraram Marx a
mico-social feito de classes antagôni- escrever O Manifesto do Partido Comunista, em parceria
cas e baseado na dominação de uma com Engels.
classe sobre as outras, Marx concebe Algumas de suas obras: Miséria da filosofia, Para a
um regime econômico-social em que crítica da economia política, A luta de classe em França
não haja mais dominação de classe. e O capital.
Por isso, por definição, o Estado desa-
parecerá, pois ele só existe na medida
em que uma classe necessita dele para
explorar as outras. (ARON, 1987, p.
180.).

A interpretação weberiana do Estado o concebe


como uma estrutura de dominação legítima e racio-
nalmente organizada. Sua legitimidade se deve à
crença de que a sociedade compartilha as normas

49
SOCIOLOGIA  Processo de socialização

instituídas e o direito de mando daqueles que exercem a autoridade são legais - ou seja,
amparados por leis que todos devem seguir e obedecer.

16. Produza um texto, explicando porque o Estado é uma instituição social, relacionando as
suas funções sociais ao papel que exerce no processo de socialização dos indivíduos.

17. Retome o quadro da atividade 17, inserindo mais uma linha. Complete-o com a concepção de
Estado de Durkheim, Marx e Weber.

18. Em entrevista à revista Anistia Política e Justiça de Transição, do Ministério da Justiça, a professo-
ra argentina Ruth G. Teitel reflete sobre o Estado de Direito. Analise um trecho dessa entrevista.

O Estado de Direito no Brasil


Tomemos o caso do Brasil como exemplo. É evidente que hoje o Brasil está em uma
situação muito mais fortalecida do que no passado em relação ao Estado de Direito,
com um governo eleito e uma democracia estável. Não vive, portanto, um momento
imediatamente pós-autoritário. Nesse contexto, é possível perceber e afirmar que o
sentido que tem Estado de Direito agora é muito diferente daquele que tinha no pas-
sado. Minha visão sobre o que seja o Estado de Direito, e aqui está a questão chave da
relação entre direito e política, é que aquilo que chamamos Estado de Direito sempre
depende da cumulação de um conjunto de fundamentos. Temos como primeiro fun-
damento a igualdade, perante a lei e, consequentemente, o igual tratamento jurídico
entre todos os cidadãos. Esse princípio do Estado de Direito é que fundamenta a ideia
da necessidade das persecuções penais aos crimes não apurados pelo regime repres-
sivo. Mas o conceito de Estado de Direito também comporta outros fundamentos,
como a correição dos procedimentos e a devida arquitetura institucional, que nos
levam a refletir sobre a capacidade dessas instituições de resistir aos contextos polí-
ticos que lhes foram impostos pelos regimes autoritários. Isso é algo que o Brasil terá
de discutir, pois os variados valores e fundamentos que sustentam a ideia de Estado
de Direito presente em um processo de democratização, como a igualdade perante a
lei, a correição dos procedimentos, a responsabilidade de cada um por seus atos, etc.,
não são valores que possam ser trocados por outros, durante o processo transicional.
Por essa razão é que sempre devemos atentar, quando discutimos o restabelecimen-
to do Estado de Direito, para que a pauta da afirmação da justiça não se confunda
com uma pauta estritamente política, como a pauta eleitoral.
TORELLY, Marcelo. Entrevista Ruth G. Teitel. Anistia política e justiça de transição, Brasília, n. 3, p. 29-30, jan/jun 2010.

a) A partir da leitura do texto, elabore uma definição para o conceito de Estado de Direito.
b) Realize uma pesquisa sobre a composição da justiça como instituição no Brasil, apontando
suas características, funções, hierarquia e mecanismos.
Sugestão de fontes para pesquisa:
• <http://portal.mj.gov.br>.
• <http://www.stj.gov.br>.

50
Identidade
Vimos, nesta unidade, que há uma série de instituições e grupos sociais centrais
no processo de socialização dos indivíduos. Estudamos também que é por meio do
processo de socialização que nos tornamos membros de uma sociedade, que interio-
rizamos regras, hábitos, costumes e conhecimentos.
Entretanto, sabemos que o ser humano, ao nascer, não é passivo, inerte aos acon-
tecimentos ao seu redor. Desde criança, ele reage a todos os estímulos que recebe, o
que contribui para a construção do conhecimento e para a compreensão do mundo
em que vive. Portanto, muito do que é transmitido de uma geração para outra se
transforma, exatamente pela capacidade ativa do ser humano de se integrar ao mun-
do e de modificá-lo.
Nesse sentido, podemos dizer que, ao mesmo tempo em que somos influenciados
pelo lugar em que vivemos e pelas pessoas e grupos sociais com os quais convive-
mos, também possuímos a nossa individualidade e construímos a nossa identidade.
A identidade diz respeito às ideias e sentimentos que temos sobre quem somos
em relação a nós mesmos e em relação aos “outros”, aos grupos e às instituições so-
ciais. Ela é relacional e processual, ou seja, está em constante processo de construção
e é sempre constituída na relação do “eu” com o “outro”.
A identidade pode ser dividida em duas dimensões, intimamente relacionadas: a
identidade social e a identidade pessoal ou a autoidentidade. A identidade social diz
respeito à percepção que os outros têm sobre quem somos e àqueles atributos que
nos identificam a uma coletividade. Você pode se identificar como um estudante, um
brasileiro, uma mulher ou um homem, um budista, um adolescente, um ambientalis-
ta, etc.
Se a identidade social envolve uma dimensão coletiva, a identidade pessoal pos-
sui um sentido único, pois abarca a singularidade do indivíduo diante dos outros. A
autoidentidade nos separa como indivíduos distintos.

19. Leia o texto a seguir e reflita sobre o que significa dizer que “receber uma identidade im-

UNIDADE 2
plica na atribuição de um lugar específico no mundo”. Elabore um texto sobre essa questão,
trazendo exemplos do cotidiano para a sua argumentação e levando em consideração as duas
dimensões da identidade (a pessoal e a social).

O indivíduo não somente absorve os papéis e atitudes dos outros, mas nesse mes-
mo processo assume o mundo deles. De fato, a identidade é objetivamente definida
como localização em um certo mundo e só pode ser, subjetivamente, apropriada jun-
tamente com este mundo. Dito de outra maneira, todas as identificações realizam-se
em horizonte que implicam um mundo social específico. A criança aprende que é
aquilo que é chamada. Todo nome implica uma nomenclatura, que por sua vez impli-
ca uma localização social determinada. Receber uma identidade implica na atribui-
ção de um lugar específico no mundo. Assim como essa identidade é subjetivamente
apreendida pela criança (‘eu sou John Smith’), o mesmo se dá com o mundo para
o qual a identidade aponta. A apropriação subjetiva da identidade e a apropriação
subjetiva do mundo social são apenas aspectos diferentes do mesmo processo de
interiorização.
BERGER, Peter; LUCKMANN, Thomas. A construção social da realidade. 3. ed. Petrópolis: Vozes, 1976. p. 177-178.

51
SOCIOLOGIA  Processo de socialização

CIÊNCIA E TECNOLOGIA
Hoje, a maioria acha curso profissionalizante mais eficaz do que o
Ensino Superior para conseguir emprego
Os mais escolarizados têm mais acesso à qualificação profissional
Pesquisa realizada para o Boletim Fundap-Cebrap mostra que o Ensino
Profissionalizante e a qualificação profissional são tidos pela população como
elementos fundamentais para o acesso ao mercado de trabalho, mas a oferta desses
cursos é reduzida e, paradoxalmente, privilegia as camadas mais escolarizadas,
em especial a que tem Ensino Superior. Os segmentos da população de menor
renda e escolaridade, precisamente aqueles que mais precisariam do Ensino
Profissionalizante para ingressar ao mercado e trabalho, não são atendidos
pelas principais instituições que estruturam a oferta de qualificação. Trata-se
de um quadro de baixa oferta e desigualdade de oportunidades que evidencia
os grandes desafios que se colocam para as políticas públicas de educação,
emprego e desenvolvimento social.
Exemplo da visão positiva com relação aos cursos profissionalizantes é o
fato de 52,5% dos entrevistados terem concordado com a afirmação de que,
hoje em dia, um curso profissionalizante é mais importante do que um curso
universitário para a inserção no mercado de trabalho. A afirmação se sustenta
como percepção majoritária em todos os estratos da população, especialmente
entre aqueles com escolaridade até o Ensino Médio incompleto. Isso sugere
certo esgotamento do curso superior como horizonte desejável para amplos
segmentos da população.
Mas, em forte contraste com importância atribuída ao Ensino Profissionalizante,
apenas 21,2% declararam ter tido acesso a alguma forma de qualificação nos
últimos cinco anos e apenas 8,9% dos pesquisados estão matriculados ou fizeram
um curso dessa natureza nos últimos 12 meses. A pesquisa, realizada em setembro
na cidade de São Paulo, ouviu 1 122 pessoas com 18 anos ou mais. A amostra
foi composta levando em consideração o perfil etário e representatividade
socioeconômica em relação ao conjunto da população.
A quase totalidade (95,5%) dos ouvidos declarou que os cursos de qualificação
ajudam a encontrar, melhorar ou preservar o trabalho e a renda. Uma elevada
proporção (46%) disse ter a intenção de fazer um curso desse tipo em breve.
Dos que se declararam desempregados, 56,1% expressaram a vontade de fazer
um curso de qualificação em breve, 29,5% dos ocupados e 26,4% dos inativos
declararam essa mesma intenção.
A população que atribuiu maior importância aos cursos de qualificação e
Ensino Profissionalizante em relação aos cursos universitários corresponde
majoritariamente à parcela com rendimento mais baixo – 42,1% tinham até um
salário mínimo de renda familiar per capita; 36,2%, de 1 a 3 salários mínimos;
10,3%, de 3 a 5 salários mínimos; 7,4%, de 5 a 10 salários mínimos; e apenas
3,3%, mais de 10 salários mínimos.

52
O padrão se repete para a escolaridade. Entre os pesquisados com 0 a 3
anos de escolaridade, apenas 24,6% discordam da afirmação de que cursos
profissionalizantes são mais importantes do que cursos universitários, sendo
que 46,2% dos que possuem 15 anos ou mais de escolaridade discordam dessa
afirmação, conforme mostra o gráfico abaixo.

Opinião: Hoje em dia, um curso profissionalizante é mais importante


do que um curso universitário, no acesso ao mercado de trabalho,
segundo níveis de escolaridade
Município de São Paulo, 2008.

100 %

80 %
Concorda
60 %

40 %
Não concorda
nem discorda
20 %
Discorda
0%
Sem De 4 anos Ensino Ensino Superior
instrução até 7 anos de Fundamental Médio completo completo
ou até escolaridade completo e/ou ou mais
3 anos e/ou Superior
de escolaridade Médio incompleto
incompleto

Fonte: Opinião pública em Foco, 2008/Cebrap-Fundap

Barreira da escolaridade
A escolaridade é o fator que mostra mais claramente a desigualdade: 41%

UNIDADE 2
dos que possuem Ensino Superior fizeram algum curso nos últimos cinco anos,
ao passo que menos de 9% daqueles com baixa escolaridade (mais de 3 a 7 anos
de estudo) tiveram acesso à qualificação profissional. O gráfico abaixo mostra a
relação direta entre acesso a cursos de qualificação e escolaridade.
Acesso a cursos de qualificação segundo níveis de escolaridade
Município de São Paulo, 2008.

100 %

80 %

60 %
Fez curso de qualificação
40 %
Não fez curso de qualificação
20 %

0%
Sem De 4 anos Ensino Ensino Superior
instrução até 7 anos de Fundamental Médio completo completo
ou até escolaridade completo e/ou ou mais
3 anos e/ou Superior
de escolaridade Médio incompleto
incompleto

Fonte: Opinião pública em Foco, 2008/Cebrap-Fundap

53
SOCIOLOGIA  Processo de socialização

A pesquisa apontou uma escala de valorização das instituições que oferecem


cursos de qualificação profissional. Os cursos do chamado Sistema S (SESC, SESI,
SENAI, etc.) são apontados como os de melhor qualidade, em contraste com
os cursos de associações comunitárias, escolas especializadas, igrejas, ONGs e
comércio de varejo (perfumarias, mercados, etc.), que oferecem, principalmente
cursos livres, em geral não submetidos a regulamentações específicas ou não
credenciados.
Uma parcela expressiva dos entrevistados (41,5%) afirmou que faria um
curso de qualificação no Sistema S – as faculdades ou universidades aparecem
em segundo lugar, com 25,7%. A metade dos pesquisados que tiveram
experiência com o Sistema S e com o Ensino Superior revelaram-se satisfeitos
com os cursos que realizaram, pois voltariam a estudar nessas entidades.
Em contrapartida, dos entrevistados que fizeram cursos de qualificação em
associações, igrejas, no comércio ou em escolas especializadas (como de
informática e línguas), nenhum declarou que voltaria a fazer seu curso em
uma dessas entidades. Nesses casos, as escolhas se dariam no sistema S, nas
faculdades e em cursos que, no entendimento dos entrevistados, poderiam
ser oferecidos pelo governo.
[...]
Os mais excluídos
O cruzamento das percepções de qualidade com as condições de renda e
escolaridade mostra um quadro particularmente perverso em termos de acesso
aos melhores cursos. São justamente os mais pobres, com menos escolaridade e
com necessidade premente de qualificação, que tendem a cursar as instituições
menos prestigiosas – 44% dos que fizeram seu curso em associações, igrejas,
comércio e escolas tinham até um salário mínimo como renda familiar per
capita.
Assim, não é por acaso que essa população insatisfeita com a qualidade
revele uma demanda mais elevada por cursos oferecidos pelo governo – a
metade da população que realizou cursos menos prestigiosos faria algum
curso oferecido pelo poder público. Nesse sentido, a opção de vir a realizar
um curso ofertado pelo governo refere-se, mais do que ao conhecimento
de cursos específicos dessa natureza, ao desejo dessa população de realizar
um curso gratuito e à confiança na qualidade dessa opção por oposição à
sua experiência nos cursos livres. De fato, a pesquisa mostrou que há um
grande desconhecimento dos programas orientados a ampliar o acesso
da população à qualificação profissional. Somente 20,5% dos pesquisados
declararam conhecer algum programa, mas mais da metade deles não sabia
ou não respondeu qual era o programa.
A manifestação de interesse em realizar cursos de qualificação e capacitação
profissional está relacionada com os benefícios percebidos pela população em

54
termos de inserção no mercado de trabalho, sobretudo, da população mais
vulnerável em termos socioeconômicos. A maioria das pessoas ouvidas (61,7%)
declarou algum efeito positivo dos cursos, percebido em termos de acesso ao
mercado de trabalho, promoção no cargo ou aumento da renda. Além disso,
da população que declarou que o curso ajudou a obter emprego, 80% estavam
ocupados.
Um aspecto importante está relacionado à empregabilidade da população
mais pobre e menos escolarizada que teve acesso à qualificação profissional.
[...] Do grupo de 4 a 7 anos de estudo e que fez algum curso nos últimos
cinco anos, 87,5% estavam ocupados, ao passo que os que nunca fizeram
e tinham o mesmo nível de escolaridade, apenas 53,4% estavam ocupados.
Trata-se de um forte indicador de que a qualificação é elemento fundamental
na melhora da inserção, no mercado de trabalho da população em piores
condições sociais. Conforme mostrado no último gráfico, a relação positiva
se mantém, embora atenuada, para indivíduos de escolaridade média. No
grupo que tinha a escolaridade entre 8 e 10 anos, a proporção de indivíduos
que estavam ocupados e fizeram curso superava a proporção dos que não
tinham feito.
[...]
HOJE maioria acha curso profissionalizante mais eficaz do que o Ensino Superior para conseguir emprego.
Boletim Fundap-Cebrap Políticas públicas em foco, n. 1, out. 2008. Disponível em: <http://www.boletim-
fundap.cebrap.org.br/n1/?subject=pesquisa>. Acesso em: 24 set. 2010.

UNIDADE 2
O FUTURO EM JOGO

1. (UEM, 2008) Considerando o que afirmam as teorias sociológicas sobre as instituições sociais, assinale o
que for correto.
A) Elas tratam somente das instituições, portanto não consideram nem reconhecem as responsabilidades
pessoais dos indivíduos que interagem na sociedade.
B) Compreendem que organizações sociais, como a família e a tribo, expressam exclusivamente a vontade do
líder da nação ou de um grupo social específico.
C) Entendem que as instituições que vigoram na sociedade são interdependentes, porém uma alteração em
uma instituição jamais provoca modificações nas demais.
D) Algumas delas consideram que as instituições sociais são expressões dos valores morais vigentes em uma
determinada sociedade.
E) Não definem as religiões afro-brasileiras como instituições sociais, pois elas não estão relacionadas à ne-
cessidade física alguma do ser humano.

55
SOCIOLOGIA  Processo de socialização

2. (UEL, 2007, adaptada) Observe a tabela abaixo, com dados da PNAD/Brasil (Pesquisa
Nacional por Amostragem de Domicílios) de 1996, realizada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística).
Educação por pais e escolaridade média do filho

Nível educacional dos pais Anos de estudos dos filhos*

Nunca frequentou a escola 3,2

Elementar incompleto 5,7

Elementar completo 8,3

Primeiro grau incompleto 9,1

Primeiro grau completo 10,5

Segundo grau incompleto 11,3

Segundo grau completo 11,8

Superior incompleto 11,7

Superior completo 13,1

Mestrado ou doutorado 14,0

Total 5,7

*Indivíduo com idade de 25 anos ou mais no período de referência.

PASTORE, José; SILVA, Nelson do Valle. Mobilidade social no Brasil.


São Paulo: Makron Books, 2000. p. 41.

A) De acordo com os dados da tabela, assinale a alternativa correta.


I. O destino educacional dos filhos relaciona-se fortemente com o nível de escolaridade
dos pais, reproduzindo, em linhas gerais, a situação da geração precedente.
II. Existe uma situação de igualdade educacional que garante aos filhos o mesmo nível
de escolaridade dos seus pais.
III. Os números indicam que as taxas de escolaridade dos filhos independem do nível
escolar dos pais.
IV. No processo de mobilidade social, o ponto de partida é igual para todos os filhos, em
razão da homogeneização dos seus níveis escolares.
V. Em todos os níveis do campo educacional, observa-se uma mobilidade descendente
dos filhos em relação aos pais.
B) De que maneira Pierre Bourdieu explicaria a relação da escolaridade dos pais com a es-
colaridade dos filhos?

56
CONECTE-SE

[S.I.]/Universal
FILMES
• Billy Elliot, Inglaterra, 2000.
Billy Elliot é um garoto que gosta muito de dança, mas seu pai
quer que ele seja boxeador. Ao chegar à puberdade, Billy frequenta
escondido as aulas de balé, incentivado pela professora, que
acredita que o menino tem muito talento. É um filme estimulante
para discutir as opções que fazemos e a influência que as relações
familiares e escolares exercem sobre nós.

• O gosto dos outros, França, 2000.


Um empresário bem sucedido vai ao teatro com sua esposa e fica
encantando com a atriz principal. Ela foi sua professora de inglês no
passado e, após sua performance, o empresário tenta se reaproximar,
precisando frequentar outros ambientes e adquirir novos hábitos. Em
paralelo, o filme apresenta a vida da esposa do empresário, do seu
motorista e de uma garçonete, demonstrando as diferenciações nos
estilos de vida.

[S.I.]/Martins Fontes
LIVRO
• Entre os muros da escola
Autor: François Bégaudeau
Editora: Martins Fontes
Este livro apresenta a realidade de uma escola de periferia na França,
relatada por um professor de Francês, François Bégaudeau. O professor
relata situações do cotidiano da sala de aula, mostrando o choque
entre os conteúdos ensinados na escola, de um lado, e por outro os

UNIDADE 2
hábitos, costumes e ideias dos alunos formados fora do ambiente
escolar. O livro foi transformado em filme e estrelado pelo próprio
François Bégaudeau e seus alunos.

XEQUE-MATE

Para concluir o seu fotolivro, desenvolvido no decorrer desta unidade, você deverá produzir um texto
dissertativo sobre o seu processo de socialização, utilizando conceitos como socialização (primária e
secundária), instituições sociais, grupos de referência e identidade. Insira também, no texto, a linha do tempo
que você construiu. A dissertação deverá constar como a apresentação do fotolivro.

57
CONVERSA AO TELEFONE Quando consegui falar
Meu telefone tocou O telefone desligou
Fui correndo atender, Fiquei triste a chorar
A surpresa me sufocou Você nunca mais telefonou
Foi um imenso prazer. Que emoção sentida
Ao ouvir do outro lado Perdi-me nesta viagem
Sua voz que emoção Que foi somente de ida
Meu coração ficou disparado Contigo deixei minha
bagagem
Não pude contê-lo não.
ARANTES, Angelina. Disponível
Você me perguntava em: <http://www.luso-poemas.
net/modules/news/article.
Gostou da ligação? php?storyid=22145>. Acesso em: 29
mar. 2011.
Perguntou também como eu
estava
Não conseguia falar não.
Foi muito forte a emoção
Não a pude conter
Sua voz que vozeirão
Fazia-me estremecer
Quem disse que eu falava
Somente te ouvia
Não emitia uma palavra
Pois o som não saia.
k c
to
es
bl
]/A .I.
[S
Formas de sociabilidade no
contexto das tecnologias de
UNIDADE 3
informação e comunicação

DIÁLOGO E REFLEXÕES
Em Conversa ao telefone, Angelina Arantes cita o telefone como um
meio utilizado pelo indivíduo para se comunicar.
• Quais outros meios existem em nossa sociedade que auxiliam na
comunicação entre as pessoas?
• E você, costuma se comunicar com as pessoas por quais meios?
• Quais são as diferenças entre se comunicar utilizando um ou
outro meio de comunicação?
• É possível, pelos meios de comunicação existentes hoje,
transmitir exatamente a mensagem que você quer? 59
SOCIOLOGIA  Formas de sociabilidade no contexto das tecnologias de informação e comunicação

EM FOCO
Tecnologia, sociedade e transformação histórica
Devido a sua penetrabilidade em todas as esferas da atividade humana, a
revolução da tecnologia da informação será meu ponto inicial para analisar
a complexidade da nova economia, sociedade e cultura em formação. [...]
É claro que a tecnologia não determina a sociedade. Nem a sociedade
escreve o curso da transformação tecnológica, uma vez que muitos fatores,
inclusive criatividade e iniciativa empreendedora, intervêm no processo de
descoberta científica, inovação tecnológica e aplicações sociais, de forma que
o resultado final depende de um complexo padrão interativo. Na verdade,
o dilema do determinismo tecnológico é, provavelmente, um problema
infundado, dado que a tecnologia é a sociedade, e a sociedade não pode
ser entendida ou representada sem suas ferramentas tecnológicas. [...] A
criação e o desenvolvimento da internet nas três últimas décadas do século
XX foram consequência de uma fusão singular de estratégia militar, grande
cooperação científica, iniciativa tecnológica e inovação contracultural. A
internet teve origem no trabalho de uma das mais inovadoras instituições
de pesquisa do mundo: a Agência de Projetos de Pesquisa Avançada (ARPA)
do Departamento de Defesa dos EUA. [...] Em fins da década de 90, o poder
de comunicação da internet, juntamente com os novos progressos em
telecomunicações e computadores provocaram mais uma grande mudança
tecnológica, dos microcomputadores e dos mainframes descentralizados e
autônomos à computação universal, por meio da interconexão de dispositivos
de processamento de dados, existentes em diversos formatos. Nesse novo
sistema tecnológico, o poder de computação é distribuído numa rede montada
ao redor de servidores da web que usam os mesmos protocolos da Internet,
e equipados com capacidade de acesso a servidores em megacomputadores,
em geral diferenciados entre servidores de bases de dados e servidores de
aplicativos.
CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede. São Paulo: Paz e Terra, 2005. p.43,82.

Atualmente, o uso dessa ferramenta tecnológica tornou-se uma prática cotidiana


em todas as dimensões da vida humana, as possibilidades de comunicação
foram extremamente desenvolvidas em quase todas as regiões do mundo.
A comunicação entre as pessoas sofreu uma grande transformação na forma
e no alcance. De forma geral, ocorreu uma mundialização da comunicação,
as fronteiras foram profundamente reduzidas e as possibilidades de contato
profundamente ampliadas. A rede mundial de computadores tornou-se a regra
para o estabelecimento de comunicação nas várias situações do dia a dia.
O gráfico a seguir mostra o acesso e uso da população brasileira com relação à
internet, é -importante destacar que o maior uso dessa ferramenta informacional
se refere à comunicação entre as pessoas e também ao uso na educação e pesquisa
escolar.

60
Percentual das pessoas que utilizaram a internet para cada finalidade, na população de 10 anos ou
mais de idade que utilizou a internet, no período de referência dos últimos três meses, segundo a
finalidade do acesso à internet Brasil - 2005/2008

Transações bancárias ou 19,1


financeiras 13,1

Interação com autoridades 27,4


públicas ou de órgãos do
governo 15,2

Comprar ou encomendar 13,7


bens ou serviços 15,4

Buscar informações e 24,5


outros serviços 25,5

Leitura de jornais e 46,9


Tênis Ulamarevistas 48,6

71,7
Educação e aprendizado
65,9

54,3
Atividade de lazer
68,6

Comunicação com outras 68,6


pessoas 83,2
0 10 20 30 40 50 60 70 80 90 %

2005 2008
Fonte: IBGE, Diretoria de Pesquisas, Coordenação de Trabalho e Rendimento, Pesquisa Nacional por Amostra

UNIDADE 3
de Domicílios 2005/2008. Nota: As pessoas foram incluídas em todos os locais em que acessaram a internet.

[...]
IBGE. Pesquisa Nacional de Amostra de Domicílios (PNAD): Acesso à internet e posse de telefone
móvel celular para uso pessoal – 2008. Disponível em: <http://www.ibge.com.br/home/estatistica/
populacao/acessoainternet2008/internet.pdf>. Acesso em: 29 mar. 2011

CONHECIMENTO EM XEQUE

As novas tecnologias de informação e comunicação e as relações sociais


O uso das novas tecnologias de informação e comunicação não se refere apenas à cria-
ção e ao emprego de instrumentos que facilitem a comunicação, mas inclui a construção
de novas posturas nas relações sociais. Os indivíduos que adotam a internet, o celular e
outras modalidades de telecomunicações, por exemplo, mantêm-se em constante comu-
nicação, como se o processo de se relacionar fosse permanente, mesmo que as pessoas
envolvidas nessa relação não estejam conectadas ao mesmo tempo.
Sabemos que as novas tecnologias facilitaram as interações sociais em um espaço e
tempo diferentes. Não é preciso atender ao telefone para se comunicar, basta ouvir ou
61
SOCIOLOGIA  Formas de sociabilidade no contexto das tecnologias de informação e comunicação

ler as mensagens deixadas. Não é preciso estar on-line para conversar com alguém pela
internet, basta ler e enviar e-mails ou postar mensagens nos sites de relacionamento.
Essas tecnologias, no entanto, não estão disponíveis para todos os indivíduos, grande
parcela da população mundial fica à margem dessas novas possibilidades de relaciona-
mento social.
Esta unidade abordará alguns desses aspectos, refletindo sobre o impacto das mudan-
ças tecnológicas, ao longo do século XX e XXI, sobre o processo de interação social e de
socialização dos indivíduos.

O processo de socialização, estudado na unidade 2, sobretudo na socialização primá-


ria, se realiza por meio da interação face a face, do contato direto e físico com o outro.
Entretanto tem se tornado cada vez mais significativa a interação virtual, possibilitada pelo
uso das tecnologias de informação e comunicação.
A interação face a face ocorre quando um indivíduo se reúne com a família, faz al-
gum passeio com os amigos, negocia algum produto em uma loja, discute com alguém.
É quando o indivíduo consegue perceber fisicamente as reações do outro e demonstrar
suas reações. Até o século XX, antes do advento do telefone móvel e da internet, era muito
mais comum as pessoas se relacionarem pela interação face a face, salvo as comunicações
via carta, telégrafo ou mensageiros. Hoje, este cenário mudou e a interação virtual, por
meio do uso de aparelhos eletrônicos e da internet, passou a conviver e, às vezes, até a
substituir a interação face a face.

1. É possível considerar que as tecnologias da informação trazem benefícios para a socieda-


de em geral. No dia a dia, elas contribuem para o desenvolvimento da comunicação na escola,
em casa, no trabalho ou em outras situações. Pode-se deduzir a partir dos textos Interação face
a face e Materialidades da comunicação vantagens e desvantagens do uso de meios de comuni-
cação para se relacionar com outras pessoas.

Interação face a face


[...]
Na situação face a face o outro é apreendido por mim num vívido presente partilha-
do por nós dois. Sei que no mesmo vívido presente sou apreendido por ele. Meu “aqui
e agora” e o dele colidem, continuamente, um com o outro enquanto dura a situação
face a face. Como resultado, há um intercâmbio contínuo entre minha expressividade e
a dele. Vejo-o sorrir e logo a seguir reagindo ao meu ato de fechar a cara parando de sor-
rir, depois sorrindo de novo, quando também eu sorrio, etc. Todas as minhas expressões
orientam-se na direção dele e vice-versa e esta contínua reciprocidade de atos expressi-
vos é simultaneamente acessível a nós ambos. Isto significa que, na situação face a face,
a subjetividade do outro me é acessível mediante o máximo de sintomas. Certamente,
posso interpretar, erroneamente, alguns desses sintomas. Posso pensar que o outro está
sorrindo quando de fato está sorrindo afetadamente. Contudo, nenhuma outra forma
de relacionamento social pode reproduzir a plenitude de sintomas de subjetividade pre-
sentes na situação face a face. Somente aqui a subjetividade do outro é expressivamente
“próxima”. Todas as outras formas de relacionamento com o outro são, em graus variáveis,
“remotas”.
BERGER, Peter L.; LUCKMANN, Thomas. A construção social da realidade. 3. ed. Petrópolis: Vozes, 1976. p. 47.

62
Materialidades da comunicação
[...]
A partir do desenvolvimento e da disseminação das tecnologias de comunicação, o indivíduo passou a ex-
perimentar duas formas de interagir com o conhecimento e com outras pessoas: uma física, concreta, e outra
virtual, imaterial. As tecnologias de comunicação ampliaram e acentuaram as capacidades humanas de falar,
ouvir e ver. Estas experiências aprimoradas pelo surgimento de artefatos técnicos, ao longo do tempo fizeram
com que o homem pudesse criar mecanismos diferentes para se comunicar cada vez mais. O uso humano
das tecnologias de comunicação faz com que as mídias se tornem novos ambientes sociais com transmissão
de palavras, imagens e sons, transformando lugares de geração de sociabilidade. O acesso facilitado a estes
meios fazem com que a comunicação se torne mais acessível e, assim, passe a aproximar pessoas que, devido
à distância geográfica, nunca poderiam se conhecer; e as que já se conhecem, têm nas mãos novos canais de
comunicação, reforçando os laços já existentes no espaço físico.
PAMPENELLI, Giovana Azevedo. A evolução do telefone e uma nova forma de sociabilidade: o flash mob. Razon Y Palavra, México, n. 41, out./nov.
2004. Disponível em: <http://www.razonypalabra.org.mx/anteriores/n41/gazevedo.html>. Acesso em: 29 de mar. 2011.

a) Discuta com os colegas as vantagens e desvantagens das tecnologias de informação, exemplificando com
fatos do dia a dia.
b) Em grupo, pesquise sobre algumas das grandes inovações e descobertas desenvolvidas pela sociedade, a par-
tir da Revolução Industrial. Construa um painel organizando-as em uma linha do tempo e indique os impactos
nas relações sociais e no processo de socialização dos indivíduos. Anexe figuras, desenhe e inclua informações
sobre a contribuição de cada invento para a sociedade. Por exemplo: o telégrafo, antes do telefone, acelerou
o processo da comunicação à distância.
c) Após organizar essas invenções tecnológicas, cronologicamente, classifique-as entre aquelas que propiciam
interações físicas (face a face) e aquelas que oferecem interações virtuais, para isso complemente com a lei-
tura do texto a seguir.
Internet - mudanças nos modelos da comunicação
A Internet é base das modificações percebidas no contexto sócio- cultural, no final
do século XX, e é a marca do século XXI: uma nova era nas possibilidades de interação e
comunicação social. Representa uma revolução na maneira como os indivíduos e como
as culturas se relacionam umas com as outras. As formas tradicionais de comunicação e

UNIDADE 3
interação, restritas ao local, regional, nacional foram substituídas pela noção de socieda-
de da informação em um contexto global, rompendo fronteiras e democratizando seu
acesso e utilização. A internet é ferramenta fundamental no processo de globalização por
viabilizar a promessa de integração econômica, social, cultural e política.

2. Os textos A midiatização do mundo e As novas mídias e a globalização discutem as rede-


finições ocorridas nos processos de interação social pelo uso das novas tecnologias da infor-
mação.

A midiatização do mundo
Como quase nenhum outro desenvolvimento tecnológico contemporâneo, a Inter-
net representa a mudança tanto fundamental quanto de maior alcance que a revolução
digital representa para as relações de comunicação social. Esta mudança é fundamental
porque estabelece as bases da época emergente da informação e com isso redefine, si-
multaneamente os parâmetros das mais diferentes formas de interação social, cultural,
política e econômica; é de grande alcance porque realiza a construção da sociedade da
informação, sincronicamente, de um único modo no quadro global. No contexto desse
desenvolvimento, a Internet toma um duplo significado: de um lado, a rede realiza de
modo exemplar a base tecnológica da sociedade da informação, que surge da fusão en-
tre os meios digitais com a infraestrutura das telecomunicações. De outro, as proprieda-
des específicas da Internet simbolizam de modo, absolutamente paradigmático as ideias
e os ideais, dos quais se traça nosso quadro da sociedade do futuro.
DOMINGUES, José Maurício. Sociologia e modernidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005. p.117.
63
SOCIOLOGIA  Formas de sociabilidade no contexto das tecnologias de informação e comunicação

As novas mídias e a globalização


As inovações tecnológicas nas comunicações e na informática, a partir dos anos 1970,
expandiram a capacidade de armazenagem e processamento das informações em escala
planetária, com efeitos na economia, na política e na cultura. O crescimento do número
de computadores pessoais promoveu alterações nas relações sociais e nas redes mun-
diais. A multimídia, que apareceu no final dos anos de 1990, é fruto da fusão da mídia
de massa personalizada com a comunicação mediada pelos computadores; sua dissemi-
nação imediata torna-a presente em todas as instâncias da vida. A participação em rea-
lidade virtual, através de jogos eletrônicos, conversações on-line, comunidades virtuais,
são modalidades e partes da cibercultura, cujos processos são interativos e permitem a
integração potencial de texto, imagem e som no mesmo sistema. Interagindo a partir de
pontos múltiplos em rede global e em condições de acesso aberto e preço acessível, tais
processos têm mudado o caráter da comunicação e esta tem moldado a cultura.
ARAUJO. Silvia Maria de. BRIDI. Maria Aparecida. MOTIM. Benilde Lenzi. Sociologia: um olhar crítico. São Paulo: Contexto,
2009. p. 123.

a) Em equipe faça uma enquete (veja o apêndice) com pessoas conhecidas que tenham reali-
zado seus estudos antes do aparecimento da internet sobre as questões:
• Quais eram as tecnologias utilizadas para efetivar a comunicação entre os indivíduos? Qual
o alcance dessas tecnologias? Como interferiam nas relações sociais?
• Alguma dessas tecnologias de comunicação deixou de ser utilizada, após o surgimento da
Internet? Qual? Por quê?
b) Faça um quadro sintetizando o resultado da enquete e apresente para a turma, utilizando
uma tecnologia de informação atual.

Internet, Globalização e Democracia


Segundo Bobbio, o conceito de democracia é resultado de um processo ocorrido no
desenvolvimento da sociedade humana, tendo como resultado o reconhecimento de “al-
guns direitos fundamentais como são os direitos de liberdade, de pensamento, de religião,
de imprensa, de reunião, etc. [...] compreende ainda o direito de eleger representantes
para o Parlamento e de ser eleito.”
BOBBIO, Norberto. Democracia. In: Dicionário de Política. Brasilia: Ed. Universidade de Brasilia. 13ª ed. 2007. p. 323-324.

O processo de desenvolvimento da democracia passa por nova etapa ao integrar o uso


da internet como instrumento para modernizar seus componentes fundamentais. Esse pode
ser considerado como um grande avanço nas relações políticas internas e internacionais.
Por exemplo, a inclusão digital pode ser adotada como política pública e governos podem
disponibilizar os sites de transparência para prestar contas junto à sociedade. Consultas
públicas podem ser realizadas com maior rapidez e participação permitindo que diversas
opiniões possam ser acessadas de imediato.
A internet possibilita a circulação de mensagens independente de fronteiras geográficas,
culturais, econômicas e sociais ao mesmo tempo aproximando indivíduos, grupos sociais
e nações, mas também, desvelando desigualdades entre esses mesmos atores sociais. No
entanto, não se pode afirmar que a facilidade de acesso a informações, por meio das novas
tecnologias de comunicação, seja suficiente para garantir a instauração de uma sociedade
democrática. A internet é mais uma ferramenta nesse processo.

64
3. A internet, por meio das redes sociais, tem-se mostrado importante instrumento com
relação à capacidade de mobilização das pessoas, em torno de fenômenos sociais, políticos,
culturais. A rapidez da comunicação e a força para a mobilização são fatores que, unidos à criati-
vidade e à capacidade crítica das pessoas, podem contribuir para o desenvolvimento político da
sociedade. A fotografia a seguir, representa uma manifestação realizada, em Toronto (Canadá),
em apoio aos protestos da população do Egito contra o presidente ditador Hosni Mubarak, no
início de 2011. Grande parte das análises da mídia sobre esse momento histórico atribuiu a força
e a extensão da mobilização popular ao uso das tecnologias de informação e comunicação por
manifestantes não só do Egito e dos países árabes próximos, mas do mundo todo.
[S.I.]/Reprodução

Globalização e internet causam “efeito dominó”


no mundo árabe, diz professor
Brasília – Embora ainda se considere cedo para analisar as relações entre as recentes
revoltas populares, a combinação entre a rapidez da comunicação, no mundo globaliza-
do, o empobrecimento relativo de algumas regiões da Europa e, até mesmo, a resistência
do mundo ocidental ao programa nuclear iraniano têm influenciado diretamente a “onda
democratizante” nos países árabes.

UNIDADE 3
Para o professor Carlos Eduardo Vidigal, doutor em Relações Internacionais e profes-
sor de história pela Universidade de Brasília (UnB), é certo que há um “efeito dominó”
influenciado por esses e outros fatores, mas é incerto o futuro desses países e a nova con-
figuração geopolítica do mundo árabe. “São anos de regimes autoritários, muitos deles
contando com a simpatia norte-americana. Há um choque entre a manutenção desses
regimes e o mundo globalizado, com tamanha velocidade de informações”, comentou.
O primeiro governo a ruir diante das manifestações populares foi o da Tunísia, que hoje
está sob um governo de transição. As revoltas culminaram com a deposição do presidente
Zine El Abidine Bem Ali, que foi obrigado a deixar o país após 23 anos no poder. No Egito, os
protestos levaram à renúncia o presidente Hosni Mubarak, há 30 anos no poder.
No domingo (13), em mais um Dia da Raiva, manifestantes, no Yemen, exigiram a saída
imediata do presidente AliAbdullah Saleh, que está no poder há 32 anos. Abdullah Saleh
já anunciou que não diputará as eleições presidenciais em 2013, mas os manifestantes
querem sua renúncia imediata, como fez o presidente do Egito.
Na Argélia, mais de 3 mil argelinos se concentraram na Praça Primeiro de Maio, pela
redemocratização do país, no entanto, a polícia conseguiu impedir que os manifestantes
percorressem as ruas da cidade contra o presidente da Argélia, Abdelaziz Bouteflika, que
governa o país desde 1999. O movimento de oposição argelino já está organizando uma
marcha para o próximo sábado (19).
Para Vidigal, as redes sociais representam um fato novo com grande influência nesse
processo. “O uso das redes sociais para as mobilizações, sem dúvida alguma, é um fato
65
SOCIOLOGIA  Formas de sociabilidade no contexto das tecnologias de informação e comunicação

novo, como também é um fato novo o surgimento de democracias verdadeiramente po-


pulares”, destacou o professor.
No Brasil, por exemplo, temos uma democracia que coexiste com a miséria, com
muitos grupos empobrecidos. A princípio, vejo essas revoltas como algo po-
sitivo. A expectativa é que isso se transforme em uma melhor distribuição de
renda. Mas é preciso ficar atento porque o povo nas ruas não agrada muito a
qualquer governo, nem mesmo aos regimes democráticos, criticou.
Nesse contexto, para o professor, os Estados Unidos têm muito a perder com uma
reconfiguração do mundo árabe.
Os atuais regimes ditatoriais são fundamentais para o atual equilíbrio dos Es-
tados Unidos. Um exemplo disso é o que ocorre na Arábia Saudita. Além da
questão econômica, essas revoltas também podem despertar um sentimento
de nacionalismo contrário aos Estados Unidos, o que seria contraproducente
para os negócios norte-americanos.
As sanções internacionais ao programa nuclear iraniano influenciaram as revoltas, na
opinião de Vidigal, ao criarem a simpatia dos povos árabes ao programa do país persa.
Há o seguinte questionamento: Por que outros países puderam desenvolver
seus programas nucleares, e até mesmo chegar ao artefato atômico, sem sofre-
rem pressão do Conselho de Segurança da ONU, liderado pelos Estados Unidos,
França e Grã Bretanha?, analisou.
“Existe um sentimento de solidariedade com o Irã, mesmo não sendo um país árabe”,
destacou.
Por Luciana Lima, da Agência Brasil. Publicado em 14/02/2011http://www.redebrasilatual.com.br/temas/
internacional/2011/02/, acesso em 23/07/2011.

a) As redes sociais tiveram grande importância para o desenvolvimento das revoltas popula-
res no mundo árabe. Refaça a leitura da reportagem e responda à questão: É possível consi-
derar a internet como um instrumento de democratização?
b) Você já teve contato com algum movimento social a partir de redes sociais? Quais?
c) Debata com seus colegas: As redes sociais no Brasil podem contribuir para a conscientiza-
ção política da população? De que forma? Apresente as conclusões para a turma.
d) Descreva a imagem, presente no cartaz de protesto em manifestação acontecida em Toron-
to, Canadá. O que significam os símbolos utilizados para escrever a palavra “Egypt”?

Inclusão e Exclusão Digital


O Mapa da Exclusão Digital (2003) elaborado pela Fundação Getúlio Vargas de-
monstra que a exclusão digital no país ainda é muito grande. De acordo com os dados
dos Retratos Sociais da Inclusão Social Doméstica verifica-se que, em 2001, aproxima-
damente 12% da população, tinha acesso a computadores em seus lares e apenas 8%
acesso à internet. Destes, a maior parcela, aproximadamente 59%, tem escolaridade
superior a 12 anos e se encontram na faixa etária de 40 a 55 anos (35%). Jovens de
até 25 anos representam 22% dos usuários.
Com relação ao acesso às Tecnologias da Informação, nas escolas, a maior participação
é de alunos do Ensino Médio (50%) com destaque para as regiões sudeste e sul (32% a
49%).
A pesquisa constatou ainda que o acesso ao computador e à internet melhora o desem-
penho dos alunos, mas que o fato de ter mais de um computador em casa não melhora
a nota dos alunos.

66
Dados do IBGE, de 2005 indicam que o Proporção da população com acesso a computador no Brasil, por região e cor
Dados de 2010
número de computadores pessoais passou
para 16% e o de acesso à internet alterou- 15
se para 40%.
12
A inclusão digital está relacionada com Norte
o processo de democratização das tecnolo- 9
Nordeste
gias de informação e ultrapassa a condição 6 Centro-Oeste
de mero acesso ao equipamento para a do
Sudeste
conhecimento de como utilizá-lo em seu 3
Sul
favor.
0
4,14 4,32 9,54 14,93 11,73
“O valor efetivo da infor-
mação depende da capa-
cidade dos usuários de in- 50
terpretá-la. Informação só
existe na forma de conhe- 40
Branca
cimento, e conhecimen- 30
to depende de um longo Preta
processo de socialização 20 Amarela
e de práticas que criam a 10 Parda
capacidade analítica que Indígena
0
transforma bits em conhe- 15,14 3,97 41,66 4,06 3,72
cimento. Portanto, comba-
ter a exclusão digital supõe
enfrentar a exclusão escolar.
As políticas de universalização do acesso à Internet nos países em desenvol-
vimento serão uma quimera se não estiverem associadas a outras políticas
sociais, em particular, às da formação escolar. Não haverá universalização
de acesso às novas tecnologias da informação e da comunicação sem a
universalização de outros bens sociais.”

Frank/piadas.com
A exclusão digital diz respeito à grande parte

UNIDADE 3
da população que está à margem do acesso às
tecnologias modernas de informação e, conse-
quentemente da sociedade da informação e de
suas redes sociais. Pesquisa do IBGE indica que
o número de assinantes da telefonia celular, em
2010, é de 104,10 para cada 100 habitantes. Essa
preferência se dá em virtude do valor acessível
dessa tecnologia de comunicação e pela inser-
ção de pessoas não letradas no seu universo, o
mesmo não ocorre com a comunicação por meio
do computador, da internet e das redes sociais.
A exclusão digital, portanto revigora a exclusão
social e política existente na sociedade.

SORJ, Bernardo and GUEDES, Luís Eduardo. Exclusão digital: problemas


conceituais, evidências empíricas e políticas públicas. Novos estud. -
CEBRAP[online]. 2005, n.72 [cited 2011-07-30], pp. 101-117 . Available
from: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-
33002005000200006&lng=en&nrm=iso>. ISSN 0101-3300. doi: 10.1590/
S0101-33002005000200006.

67
SOCIOLOGIA  Formas de sociabilidade no contexto das tecnologias de informação e comunicação

4. Como vimos, parcela significativa da população não possui acesso à internet ou não sabe
manusear computadores e seus recursos. Nesse contexto, é de grande importância o papel da
escola no processo de inclusão digital.

Habilidade e inclusão digital – o papel das escolas


O Brasil tem experimentado inegáveis avanços na inclusão digital e no acesso da po-
pulação à internet, embora os números ainda revelem fortes disparidades, conforme as
regiões do país, as classes sociais e o nível de escolaridade das pessoas. Esses avanços
ocorrem devido ao aumento do número de lares que possuem computadores e de pes-
soas que têm acesso à internet, seja em seus domicílios, no trabalho, nas escolas, ou,
ainda e especialmente, por meio de lan houses, um poderoso instrumento de inclusão
digital nas periferias das grandes cidades.
Contudo, inclusão digital não significa apenas ter acesso a um computador e à
internet. É preciso saber utilizar esses recursos para atividades variadas, classifica-
das em três diferentes patamares, segundo sua relação com o exercício da cidadania.
Num primeiro nível, a internet, hoje especialmente através das redes sociais, permite
a comunicação entre as pessoas, o que já potencializa formas de articulação em torno
de demandas sociais variadas. Num segundo nível, a internet viabiliza a obtenção de
informações e a utilização de serviços de interesse público. Num terceiro patamar,
no entanto, certamente ainda mais importante para a cidadania e a nação, a inclusão
digital deve permitir a geração e a disponibilização de conteúdo, pelas mais diferen-
tes formas – geração de conteúdos multimídia, digitalização de conteúdos variados,
criação de páginas e de blogs, etc.
Para uma efetiva utilização dos recursos computacionais que permitem a inclusão
digital, os usuários precisam adquirir habilidades variadas, que podem ser associadas aos
três patamares antes mencionados. Essas habilidades incluem, por exemplo, a manipu-
lação dos recursos básicos de um computador dotado de um sistema operacional, tais
como a utilização de arquivos de texto e de outras mídias, de diretórios e de periféricos,
assim como, a instalação de programas. Incluem, ainda, a elaboração de documentos
de diversos tipos, o uso de máquinas de busca e de programas de correio eletrônico, o
preenchimento de formulários eletrônicos, entre outras. Além disso, o usuário precisa
ter noções básicas de segurança, compreendendo os diversos tipos de riscos inerentes à
internet, além de ser capaz de tomar as medidas básicas para evitá-los.
A Pesquisa sobre o Uso das Tecnologias da Informação e da Comunicação no Brasil,
realizada anualmente desde 2005, sob coordenação do Comitê Gestor da Internet, revela
não apenas o crescimento da população com acesso a computadores e à internet, mas
também o crescimento nas habilidades. Apenas como exemplos, observamos que, entre
2005 e 2009, o percentual de pessoas que declaram ser capazes de utilizar uma planilha
eletrônica aumentou constantemente, de 18% para 28%, enquanto o percentual de pes-
soas capazes de utilizar um mecanismo de busca na internet também mostrou cresci-
mento constante, passando de 27% para 45%.
No entanto, é extremamente importante observar que, em 2009, 34% das pessoas
declararam a obtenção de habilidades no uso de computadores e da internet por conta
própria. Somando-se a esse dado outros 22% de pessoas que adquiriram habilidades
com amigos, parentes e colegas, chega-se a um percentual total de 56% de pessoas que
obtiveram habilidades de maneira informal. Em contrapartida, o percentual de pesso-

68
as que adquiriram habilidades por meio de cursos de treinamento, gratuitos ou pagos,
alcança 25%, enquanto apenas 8% das pessoas declararam ter obtido habilidades por
meio de instituições formais de ensino.
WAGNER, Flávio Rech. Habilidade e inclusão digital: o papel das escolas. Disponível em: <http://www.cgi.br/publicaco-
es/artigos/artigo64.htm>. Acesso em: 29 mar. 2011.

a) De acordo com o texto, quais são as habilidades necessárias para que alguém possa ser
considerado incluído na cultura digital?
b) Qual a realidade da inclusão digital na sua comunidade escolar? Como ocorre o uso de com-
putadores e o acesso à internet? Leia, no apêndice, as orientações para a aplicação de um
questionário. Em equipe, faça uma entrevista com alunos de outras séries, modalidades e
níveis de ensino, professores, equipe diretiva e pedagógica, coordenadores, funcionários
administrativos, funcionários ligados à segurança e à limpeza. Tome como exemplo o mo-
delo de questionário apresentado na sequência, lembrando que ele poderá ser alterado a
fim de atender aos objetivos da sua pesquisa.

1. Sexo 9. Ao se comunicar pela internet você utiliza o inter-


( ) Feminino netês?
( ) Masculino ( ) Sim
( ) Não
2. Idade: __________
10. Com qual frequência você costuma, em média,
3. Você possui computador?
acessar a internet?
( ) Sim Quantos? __________
( ) Todos ou quase todos os dias.
( ) Não
( ) Mais de uma vez por semana.
4. Você possui acesso à internet em casa? ( ) Mais de uma vez por dia, todos os dias.
( ) Sim
( ) Duas vezes por mês.
( ) Não
11. Quanto tempo você destina à conexão com a
5. Em quais lugares você acessa a internet?
internet?
( ) Casa
( ) até 1 hora semanal
( ) Escola
( ) até 3 horas semanais

UNIDADE 3
( ) Lan house
( ) até 5 horas semanais
( ) Casa de amigos
( ) até 10 horas semanais
( ) Casa de parentes
( ) mais de 10 horas semanais
Outro (especifique): __________________________
12. Você utiliza outras tecnologias de comunica-
6. O que você acessa na internet?
ção?
( ) E-mail
( ) Sim Qual(is)? ______________
( ) Trabalhos escolares
( ) Não
( ) Redes sociais
( ) Jogos, games 13. Quanto tempo destina a essa(s) tecnologias de
Outro (especifique): __________________________ comunicação?
( ) até 1 hora semanal
7. Você possui perfil cadastrado em alguma rede
( ) até 3 horas semanais
social?
( ) até 5 horas semanais
( ) Sim Quais? ________________
( ) até 10 horas semanais
( ) Não
( ) mais de 10 horas semanais
8. Você participa de alguma comunidade virtual?
( ) Sim Quais? _______________
( ) Não

69
SOCIOLOGIA  Formas de sociabilidade no contexto das tecnologias de informação e comunicação

c) Toda pesquisa social passa pelo processo de apresentação e publicação, para isso é necessá-
rio escrever um relatório a partir da análise dos dados coletados. Sistematize os resultados
da pesquisa. Na análise, considere os conteúdos estudados nesta unidade. Com a orienta-
ção de seu professor e, após consulta ao apêndice, escreva um relatório, contendo a análi-
se e suas conclusões. Esse relatório poderá conter gráficos, mapas, ilustrações, tabelas, etc.
Faça a apresentação utilizando multimídia.

Internet, Isolamento Social e Comunidades Virtuais


A transformação nas formas de relacionamento social, decorrentes do acesso à internet,
pode ser relacionada com um direcionamento dos indivíduos para uma era de isolamento
social.
Anthony Giddens, (2005, p.383) analisa essa situação apresentando o resultado de uma
pesquisa do ano 2000, realizada com mais de 4 mil adultos norte-americanos. Segundo
essa pesquisa, usuários regulares da internet (permanecem conectados 5 horas ou mais por
semana), dedicam tempo antes destinado à família, a atividades comunitárias e a outras
mídias, à própria internet, utilizando-a também em atividades profissionais, não somente
no local de trabalho, invadindo, cada vez mais, o tempo/espaço destinado à casa.
A redução dos contatos pessoais se dá pela inserção em redes sociais. Diferentemente
das interações face a face, a interação virtual independe do contato físico, ultrapassando
os limites do espaço e tempo. Destacam-se as comunidades virtuais que se caracterizam
por processos sociais coletivos, com grande troca de experiências e conhecimentos. Es-
sas comunidades, embora não se apresentem fisicamente são reais pela intensa rede de
relacionamentos que estabelecem.
“São redes sociais interpessoais, em sua maioria baseadas em laços fracos, diversifi-
cadíssimas e especializadíssimas, também capazes de gerar reciprocidade e apoio por
intermédio da dinâmica da interação sustentada.”
CASTELLS, Manuel. A Sociedade em Rede. São Paulo: Paz e Terra, 2005. p.446.

Internet e a Linguagem
Por meio da linguagem o indivíduo é capaz de expressar seu pensamento, interpretar, e
decifrar o pensamento do outro. A linguagem, como instituição social, é responsável pela
socialização inicial do indivíduo, possibilitando a troca de experiências e conhecimentos,
viabilizando a percepção da realidade.
A linguagem é o meio pelo qual um grupo social se comunica estabelecendo-se como
referencial e código de comunicação.
A comunicação no ambiente da internet exige a adoção de um código linguístico
que acompanhe a agilidade do ambiente virtual. O internetês responde a essa ne-
cessidade, dispensando regras gramaticais e de acentuação. No ambiente virtual, as
palavras e mesmo expressões são abreviadas e em alguns casos acessíveis somente
aos iniciados.

70
5. O uso da internet reforçou a importância da palavra escrita no cotidiano das pessoas. O
acesso diário, principalmente dos e-mails e mensagens instantâneas como o Messenger, e mais
recentemente do facebook e do twitter, possibilitou uma nova forma de escrita, diferentemente
da escrita formal.

A “skrita” na internet
O “internetês” é conhecido como o português digitado na internet, caracterizado por
simplificações de palavras que levariam em consideração, principalmente, uma suposta
interferência da fala na escrita. O vocábulo aponta ainda para a prática de escrita tomada
como registro divergente da norma culta padrão.
Os avessos a essa prática de escrita consideram que os adeptos do internetês são “assas-
sinos da língua portuguesa”. Nesse contexto, perguntas como “Há um processo de transfor-
mação da escrita com o uso da internet?” ou “Há degradação da escrita com a introdução da
internet na vida das pessoas?” são cada vez mais frequentes.
É, pois, com base nesse critério de pureza projetada como ideal da escrita que muitos
indivíduos fazem a crítica ao internetês, tomando-o como a “não língua portuguesa”. A
imagem de degradação da escrita (e, por extensão, da língua) pelo uso da tecnologia
digital é resultado da ideia de que há uma modalidade de escrita pura, associada seja
à norma culta padrão, seja à gramática, seja à imagem de seu uso por autores literários
consagrados. Haveria, assim, um tipo de escrita sem “interferências da fala”, que deveria
ser seguido por todos, em quaisquer circunstâncias.
As ideias correntes de pureza da escrita e de empobrecimento do português podem
ser encontradas em inúmeros materiais que circulam na sociedade, incluídos comentá-
rios dos próprios usuários da internet. Na rede de relacionamentos Orkut, há quase uma
centena de comunidades com títulos como “Odeiu gnti ki ixcrevi axim!!!”, em referência
às práticas de escrita na internet. Para os que participam dessas comunidades, a escrita
na internet seria uma forma rude de comunicação, algo parecido com os grunhidos que
o ser humano fazia nos tempos da caverna.

UNIDADE 3
Assim concebida, a escrita da/na internet é vista como empobrecimento do idioma.
Esse mesmo conceito é o que, muitas vezes, se atribui aos usos que fazem os indivíduos
não dotados da tecnologia da escrita alfabética, ditos analfabetos ou não letrados.
KOMESU, Fabiana C. A “skrita” na internet. Discutindo Língua Portuguesa, São Paulo, ano 1, n. 1, p. 56-57, 2008.

a) Faça uma pesquisa na internet com o objetivo de criar um glossário dos termos e expres-
sões mais utilizados nas mídias de comunicação via internet.
b) Quais são as características da linguagem do Orkut, do Facebook, do Blog e do Twitter?
c) Participe de um debate em sala de aula sobre as seguintes questões: Existe uma etique-
ta a ser seguida nas comunicações via internet? Os instrumentos de comunicação podem
colaborar com a melhoria da escrita e leitura dos alunos? Utilize uma das ferramentas de
comunicação acima para publicar as suas conclusões.

71
SOCIOLOGIA  Formas de sociabilidade no contexto das tecnologias de informação e comunicação

CIÊNCIA E TECNOLOGIA

Geração Digital
“Em 2004, Martin Lindstrom, consultor da Fortune 500 (Tradicional revista
de negócios, fundada em 1930, no contexto da crise da Bolsa de Nova York....)
já caracterizava as crianças de nossa geração como pessoas mais propensas
a ter um amigo no outro lado do mundo do que na própria rua. E em 2010,
esse perfil está mais que consolidado. As crianças desta geração já acordam
a tuitar um bem-humorado “Bom dia, pessoal! \o/”. Muitos checam seus
e-mails e os primeiros twitts dos amigos em seus smartphones (ou dos pais,
caso ainda não tenham ganhado seu primeiro celular com acesso à internet).
Suas lições de casa e aquela pesquisa para o trabalho de ciências estão em
uma apresentação compartilhada com os amigos da escola no Google Docs.
Mas na aula de informática, o computador da escola bloqueia o acesso ao
Orkut. Não faz mal: pegando algum sinal wi-fi aberto, as crianças verificam
suas fazendinhas do Colheita Feliz pelo celular ou iPod Touch. Em seguida,
com a atenção de volta ao computador do laboratório de informática, elas
ainda dão um jeitinho de acessar o MSN pelo Ebuddy (serviço de internet que
permite ao usuário acessar instant messengers, como o MSN Messenger ou o
Yahoo Messenger, sem necessitar instalar o programa em um computador), já
que o computador da escola não tem o programa, não permite downloads e
nem instalações de novos softwares. Tudo isso para conseguir interagir com
os amigos discretamente, sem que a professora note. [...] Esta nova geração,
que possui uma peculiar relação com seu tempo e espaço, tem sido chamada
de digital natives. Esse termo denomina todas essas crianças, cuja utilização
de tecnologias está completamente integrada à vida: elas cresceram sempre
– ou ao menos constantemente – conectadas. Essas crianças diferem até de
jovens um pouco mais velhos, pois não precisaram aprender como ser “on
line”: já nasceram conectadas e completamente cercadas dessas novas mídias
e tecnologias. Os digital natives estão inseridos em uma nova cultura em que
a identidade é construída a partir de gostos e informações compartilhadas em
grupos ou comunidades virtuais. Sua popularidade é pautada pela quantidade
de amigos virtuais, gadgets que possuem (bem como sua tecnologia) e
placares nos jogos em rede. [...] Extremamente superprotegidas nos mundos
físico e virtual, as crianças ficam impedidas de se mover: restringem-se ao
circuito de suas casas, escolas e (quiçá) clubes. É uma tendência descrita pela
pesquisadora de marketing Faith Popcorn, o encasulamento, causado pela
obsessão por segurança. As crianças fortemente influenciadas e controladas
pelos adultos que as rodeiam, passam cada vez mais tempo em suas casas
e condomínios. Estes são lugares isolados, herméticos e seguros, sem tanta
influência do caótico mundo exterior. Tal processo causa uma verdadeira
confusão mental para os Digital natives que, apesar de participarem de uma
fluida realidade virtual completamente globalizada, permanecem pessoas
“locais”, uma vez que mal saem de seus bairros.
CAVALCANTE. Jackelin Wertheimer. Brincadeira (2.0) de Criança. Digital natives? As crianças navegam na rede
mundial de computadores. In: Revista Sociologia: Ciência & Vida São Paulo: Escala, ..Ano IV – Edição 33 –
Fev/2011, p.19-20.

72
O FUTURO EM JOGO

1. (FUVEST, 2010)

Serviços como o fotolog e o Orkut, tal qual outras ferramentas para mensagens
instantâneas na internet (MSN e ICQ), não devem ser lidos como sintomas de um
mundo que a velocidade da comunicação e as tecnologias digitais teriam tornado
“pequeno”. Ligar-se em rede e “estreitar” o mundo é uma escolha, algo como uma
camada adicional de sociabilidade disponível somente para alguns, e que também,
somente para alguns, faz sentido acionar.
ALMEIDA, Maria Isabel Mendes; EUGÊNIO, Fernanda (Orgs.). Culturas Jovens: novos mapas do afeto. Rio de Janeiro: Jorge
Zahar, 2006. (Adaptado).

Considere o texto acima e as três afirmações:


I. As redes de comunicação propiciadas pela internet têm a propriedade da
conectividade e, ao mesmo tempo, são suscetíveis de funcionar como instrumentos
de integração e exclusão.
II. A revolução tecnológica pode consolidar as desigualdades sociais e também
aprofundá-las, produzindo um distanciamento cognitivo entre os que já convivem
com ela e os que estão sem acesso a ela.
III. Nesse ambiente comunicacional, as fronteiras se relativizam e tem-se a possibilidade
de adicionar, às noções de espaço e tempo tradicionais, uma nova noção de espaço:
o ciberespaço.
Está correto o que se afirma em
A) I, apenas.
B) II, apenas.
C) I e II, apenas.

UNIDADE 3
D) II e III, apenas.
E) I, II e III.

2. (FUVEST, 2007) Verifica-se, no mundo atual, a integração entre as diferentes mídias e os


modos de transmissão das informações (satélites, cabos, computadores, etc.), cujo melhor
exemplo é a internet. Sobre tal integração, pode-se afirmar que:
A) propicia ampla difusão de informações sem, no entanto, garantir condições equitativas
às formas de acesso ao sistema.
B) assegura veracidade às informações veiculadas, independentemente da posição social
e econômica dos interlocutores.
C) facilita a comunicação entre empresas transnacionais e pessoais, oferecendo liberdade
absoluta a todos os que utilizam tal sistema.
D) democratiza o acesso à informação, pois há maior presença desse sistema e dos meios
para contatá-lo nos países e regiões mais populosos do mundo.
E) promove maior união entre os povos, difundindo o inglês e levando os países a absor-
verem a cultura anglo-saxônica.

73
SOCIOLOGIA  Formas de sociabilidade no contexto das tecnologias de informação e comunicação

[S.I.]/Columbia Pictures
CONECTE-SE

FILMES
• A Rede, EUA, 1995.
O filme apresenta uma trama policial, em que Angela Bennett (San-
dra Bullock) recebe graves segredos contidos em um disquete. A fim
de destruí-la, forjam sua identidade pessoal e para ela provar quem é
verdadeiramente, enfrentará grandes dificuldades. Representa as arti-
manhas do mundo computacional.

• Eu, Robô, EUA, 2004.

[S.I.]/Twentieth Century Fox


O filme se passa no ano de 2035, quando o detetive Del Spooner
(Will Smith) sente-se incomodado com a convivência com os ro-
bôs. Estes realizam as tarefas mais pesadas na sociedade (lixeiro,
carregador). Spooner acredita que em algum momento os robôs
se rebelarão, ideia descartada por outros humanos. O cenário fu-
turístico do filme torna-o muito interessante, além de possibilitar
a reflexão sobre a convivência no mundo moderno entre humanos
e máquinas.

• A Rede Social, EUA, 2010.


Baseado no livro de não ficção The Accidental Billionaires, de Ben

[S.I.]/Twentieth Century Fox


Mezrich, A Rede Social (The Social Network) conta a história da in-
venção do site de relacionamentos Facebook e os problemas pes-
soais e legais que envolveram o seu criador e mais jovem bilionário
da história, Mark Zuckerberg.

• Os Famosos e os Duendes da Morte, Brasil/França, 2009.


Um garoto de dezesseis anos, fã de Bob Dylan, acessa o mundo
através da Internet, enquanto vê seus dias passarem em uma pe-
quena cidade alemã no interior do Rio Grande do Sul. A chegada de
figuras misteriosas na cidade traz lembranças do passado e o leva
para um mundo além da realidade.

LIVRO
[S.I.]/Larousse do Brasil

• As grandes invenções da humanidade


Autor: Michel Rival
Editora: Larousse do Brasil
Um livro repleto de curiosidades, pois traz a história de diversos in-
ventos da humanidade, desde a roda até a internet, completando 150
invenções.

SITES
• <www.lncc.br>
Site do Laboratório Nacional de Computação Científica. Oferece diver-
sas informações sobre as mais recentes pesquisas nessa área, princi-
palmente para aqueles que se interessam pela computação.

• <http://weblab.tk/projetosnobrasil >.
Site do Laboratório de Inclusão Digital e Educação Comunitária, equi-
pe que se dedica, desde 2000, a pensar e praticar o uso efetivo da tec-
nologia para promover a transformação social.
74
XEQUE-MATE

Parabolicamará africanas e brasileiras – um cesto em forma de


antena na cabeça. Naquela época ainda não era tão
Gilberto Gil
comum se ouvir a palavra
Antes mundo era pequeno

[S.I.]/ Warner Music


globalização. Chamei o
Porque Terra era grande disco de Parabolicamará,
Hoje mundo é muito grande dando nome a alguns
Porque Terra é pequena aspectos de uma possível
Do tamanho da antena
globalização que eu
Parabolicamará
Ê volta do mundo, camará vislumbrava e que também
Ê, ê, mundo dá volta, camará até desejava, de maneira
Antes longe era distante ao mesmo tempo alegre e
Perto só quando dava trágica, como alguém que Contracapa do CD
Quando muito ali defronte deseja firmemente tudo Parabolicamará, de
E o horizonte acabava aquilo que lhe acontece. Gilberto Gil.
Hoje lá trás dos montes Parabolicamará une as
dendê em casa camará palavras parabólica, da antena onipresente hoje
Ê volta do mundo, camará mesmo nos recantos mais pobres do Brasil, com
Ê, ê, mundo dá volta, camará camará, a maneira que os jogadores de capoeira, a
De jangada leva uma eternidade
luta lúdica afro-brasileira, escolheram para chamar
De saveiro leva uma encarnação
Pela onda luminosa seus parceiros, camaradas, enquanto dançam e
Leva o tempo de um raio cantam.
Tempo que levava Rosa O refrão “Ê, volta do mundo, camará”, eu sampleei
Pra aprumar o balaio também de um verso muito comum em qualquer
Quando sentia
roda de capoeira. É uma maneira de cantar a
Que o balaio ía escorregar
Ê volta do mundo, camará vastidão do mundo, que também carrega a certeza
Ê, ê, mundo dá volta, camará de que o mundo vai e volta, e que na próxima volta
Esse tempo nunca passa – na volta também coreografada pela dança-luta –
Não é de ontem nem de hoje quem hoje perde pode se tornar o vencedor. Tudo

UNIDADE 3
Mora no som da cabaça muda, o tempo todo. E só quem sabe entender
Nem tá preso nem foge a mudança pode conquistar a vitória, ou melhor,
No instante que tange o berimbau vitórias, sempre parciais. Quando estava compondo
Meu camará pensava também na história da capoeira. Outro dia
Ê volta do mundo, camará fui conhecer Macau. Há poucos anos, lá em Macau,
Ê, ê, mundo dá volta, camará havia um garoto português que ensinava capoeira
De jangada leva uma eternidade
para garotos angolanos. O mundo certamente dá
De saveiro leva uma encarnação
De avião o tempo de uma saudade muitas voltas e se torna cada vez mais complexo.
Esse tempo não tem rédea [...]
Vem nas asas do vento
GIL, Gilberto. Ministro da Cultura, Gilberto Gil, no Fórum
O momento da tragédia Universal das Culturas, em Barcelona, Espanha. Portal da
Chico Ferreira e Bento Cultura. 13 maio 2004. Disponível em: <http://www.cultura.
Só souberam na hora do destino gov.br/site/2004/05/13/ministro-da-cultura-gilberto-gil-no-
forum-universal-das-culturas-em-barcelona-espanha/>. Acesso
Apresentar em: 30 mar. 2011.
Ê volta do mundo, camará
Ê, ê, mundo dá volta, camará Leia a letra da música Parabolicamará, de Gilberto
GIL, Gilberto. Parabolicamará. In: Parabolicamará. [S.l]: Gil, gravada em 1991, e o depoimento do seu autor
Warner Music, p1992. 1 CD. Faixa 2. durante o Fórum Universal das Culturas, realizado
Ministro da Cultura, Gilberto Gil, no Fórum Universal em Barcelona em 2004. Em seguida, relacione os
das Culturas, em Barcelona, Espanha textos com o que você aprendeu, ao longo desta
unidade, e redija uma dissertação sobre as mudanças
Gravei esta música em 1991. Ela dava título ao desencadeadas pelas tecnologias de informação e
disco que tem a contracapa que vocês estão vendo comunicação e sobre os seus impactos nas relações
projetada no telão. É a foto de minha filha Maria, sociais.
carregando – com o jeito característico das mulheres 75
OE IS
Coexistência
Obra do artista polonês Piotr Mlodozeniec que percorreu o mundo com o grupo U2.
[S.I.]/commons.wikimedia.org
Cultura

UNIDADE 4

DIÁLOGO E REFLEXÕES
• Nessa figura, identificamos letras e símbolos. O que eles
significam para você?
• Os conflitos e guerras acontecem somente por causa do
fanatismo religioso? Justifique e dê exemplos.
• Que outros motivos levam a conflitos entre culturas? E no
interior de uma cultura?
• O que a imagem propõe como ideia de coexistência? Quais
são os desafios para que se consiga concretizá-la? Justifique e
dê exemplos.
77
SOCIOLOGIA  Cultura

EM FOCO
Anatomia de um povo desprezado
Atuais restrições aos ciganos na Europa Ocidental são consequência do
preconceito antigo contra uma população associada ao nomadismo
Os ciganos por vezes aparecem como povo “à parte”, não pertencente a nações
territoriais, com vida nômade ou seminômade, provocando estranheza numa
sociedade com valores associados à sedentarização, como a Europa.
Junto disso, é bom lembrar que, na sociedade moderna, pessoas partem em busca
de novos lugares para viver e se estabilizar, por causas econômicas, políticas e
religiosas. São as migrações.
Ao mesmo tempo, há movimentos associados à “errância”, ao nomadismo ou à
incapacidade de estabelecer relações duradouras com os lugares e as formas
de trabalho mais tradicionais, que são fortemente estigmatizados, levando a
iniciativas de assimilação ou sedentarização forçada. Os povos ciganos já foram
alvo de tais processos, embora muitos mantenham seu estilo de vida característico.
Costumam atuar em ofícios ligados à arte e às atividades mágicas, com uma
existência tida como “aventureira”, suscitando atitudes ambíguas da parte dos
que vivem em sociedades não nômades.
Tem sido este o tom do relacionamento das sociedades ocidentais com os ciganos
ao longo da história, desde que apareceram no continente europeu, causando, ao
mesmo tempo, curiosidade e medo. Não havia registros escritos sobre sua origem
e história. Paralelamente, praticavam uma cultura de transmissão oral, em uma
língua incompreensível e cheia de segredos para os ocidentais.
O nome com que passaram a ser conhecidos já revela esse aspecto. Identificando-
se como refugiados do Egito muçulmano, favoreciam a associação entre os
“egípcios” (égiptiens, egyptians, egitanos) e os nomes gitans, tsiganes em francês,
gypsies em inglês, gitanos em espanhol, ou ciganos em português. Muitos
ciganos consideram tais nomes pejorativos e, mesmo sem consenso, preferem a
designação de povos romani, rom ou roma.
[...]
Os ciganos no Brasil
No século XVI, os primeiros ciganos desembarcaram na Colônia, provavelmente,
ibéricos degredados. Há registros também da presença de ciganos na região
das Minas Gerais no século XVIII, em geral, acusados de “desordeiros”. No Rio de
Janeiro, alguns ciganos enriqueceram com o comércio de escravos.
No século XIX, outros grupos começam a chegar, em meio à política de abertura à
imigração europeia. Tidos como indesejáveis pelos oficiais de imigração na maioria
dos países, ocultavam sua condição tanto às autoridades dos locais de partida
quanto às dos países de chegada. Assim, mesmo sem identificação precisa, nos
séculos XIX e XX, o Brasil recebeu ciganos em meio aos fluxos de imigração alemã,
italiana e do Leste Europeu.
Essa falta de identificação no processo migratório explica a imprecisão das
estimativas atuais quanto ao número de ciganos e descendentes em território
brasileiro. Com exceção de alguns grupos no interior do país, atuando como
artistas de circo, comerciantes e ferreiros, a comunidade cigana é bem pouco
visível na sociedade brasileira.

78
A recente valorização da identidade cigana, em novelas de tevê, em grupos
de música e dança, estimulou alguns a se assumirem ou redescobrir suas “raízes
ciganas”, embora o preconceito e as associações negativas ainda persistam. Um
exemplo de origem cigana pouco conhecida é o de Juscelino Kubitschek de
Oliveira, presidente da República (1956-1961), neto de um imigrante do império
austro-húngaro que chegou a Diamantina (MG) em meados do século XIX.
PÓVOA NETO, Helion. Anatomia de um povo desprezado. Carta Capital, 10 nov. 2010. Disponível em:
<http://www.cartacapital.com.br/carta-na-escola/anatomia-de-um-povo-desprezado>.
Acesso em: 28 mar. 2011.

CONHECIMENTO EM XEQUE

DIVERSIDADE CULTURAL
Imagine dois indivíduos que se conheceram no aeroporto enquanto aguardavam os
vôos de retorno para casa. Um deles é brasileiro e o outro alemão. Culturalmente tanto
o brasileiro quanto o alemão são diferentes, apesar de pertencerem à espécie humana.
As diferenças aparecerão no simples ato de falar, mesmo que partilhem um idioma em
comum, como o inglês. Se forem dividir uma refeição, haverá diferenças sobre os sabores
e tipos de alimentos preferidos. Ao conversarem sobre música, encontrarão diversidade
nas melodias, entre outras. Apesar de pertencermos à mesma espécie humana que guarda
semelhanças com relação a alguns comportamentos e necessidades, os indivíduos estabe-
lecem processos de aproximação cultural justamente porque são diferentes.
Como Laplantine (2007) afirma, a capacidade de variação cultural do ser humano é
imensa. A convivência em grupo, a obtenção de costumes dos antepassados, o ritmo do
cotidiano, a estrutura estabelecida para se viver, o território determinado para a sobrevi-
vência são alguns dos aspectos que auxiliam na construção de uma identidade cultural.

UNIDADE 4
Esta, conforme Stuart Hall:

[...] preenche o espaço entre “interior” e o “exterior” – entre o mundo


pessoal e o mundo público. [...] A identidade costura o sujeito à estrutura.
Estabiliza tanto os sujeitos quanto os mundos culturais que eles habitam,
tornando ambos reciprocamente mais unificados e predizíveis. (HALL,
2003, p. 11-12).

A cultura não depende do caráter biológico para se definir como tal, ela é externa ao
indivíduo, não é determinada pelas características genéticas. Os diversos comportamen-
tos humanos, pautados pela condição natural ou biológica da pessoa, quando formados
na vida social incorporam-se ao jeito do indivíduo que foi estabelecido por sua inserção
cultural. É comum definir alguns comportamentos humanos como naturais, por exemplo:
o jeito de andar, de comer, de falar, etc., porém eles adquirem a condição humana por
serem socialmente definidos.
O próprio estilo de se alimentar diferencia-se de uma sociedade para outra: boa parte
dos indivíduos ocidentais utiliza talheres, os japoneses e chineses utilizam o hashi, os
árabes em algumas ocasiões utilizam a mão. Portanto, as diversidades culturais demons-
tram que não há uma determinação biológica para alguns comportamentos, mas uma
capacidade de adotar padrões próprios do grupo social em que se vive.
Em vários momentos do desenvolvimento humano, as diferenças culturais, raciais e
étnicas foram utilizadas para um grupo social exercer poder e dominação sobre outro
grupo. O exemplo apresentado a seguir demonstra que a relação colonial de dominação
79
SOCIOLOGIA  Cultura

e violência dos ingleses sobre os aborígenes australianos foi construída sob a alegação de
superioridade étnica e racial do povo inglês. A diversidade cultural, nesse contexto, pode
ser considerada um elemento perturbador das relações sociais entre vários povos.
A Oceania sempre foi denominada como o continente desconhecido. Ali se encontra a
Austrália, que ocupa 90,35 % do território e possui 63,45% dos habitantes do continente.
Paradoxalmente, os mais antigos moradores não se chamam australianos. São chamados de
aborígines. Como os indígenas das Américas, eles também não formam um povo único. São
diversos os povos aborígines. Alguns desses são considerados os mais antigos do planeta.
Hoje, chegam a ser uns 200 mil. Falam uma dúzia de línguas; a mais difundida é o kriol,
usada por uns 20 mil.
Dispersos sobre um vasto território (em grande parte no deserto), por milhares de anos vive-
ram da caça e da colheita. Esses povos migraram da Ásia oriental há 25 mil anos. Já os atuais
australianos, chegaram ao país, hoje chamado de Austrália, só no final de 1700, quando o rei
Jorge III, da Inglaterra, decidiu instalar na Austrália, há pouco tempo conquistada, uma colônia
penal. No começo, o contato com os 300 mil habitantes da grande ilha não foi violento. Os
ingleses não queriam exterminá-los, mas contentavam-se em mantê-los à distância.
Porém, no século seguinte, a situação mudou radicalmente: nasceram as cidades à beira-
mar, enquanto o país era ocupado por invasores que buscavam ouro e prata. Nessa época, têm
início as perseguições aos primeiros habitantes. Milhares de aborígines foram massacrados.
Foi nesse período também, que os ingleses passaram a adotar o conceito colonialista da “terra
nullius”, ou seja, o direito australiano afirmaria que, antes da chegada dos britânicos, o país
não pertencia a ninguém. Com isso, se protegiam de eventuais contestações futuras.
Em 1901 as colônias inglesas conquistaram sua independência, o que resultou na federação
australiana, composta por seis Estados. Os brancos somavam cerca de 3 milhões, enquanto os
aborígines ficaram reduzidos a poucas dezenas de milhares e passaram a viver em reservas.
Dois séculos de luta. Disponível em: <http://www.pime.org.br/mundoemissao/indigenasluta.htm>. Acesso em 19 julho 2011.

Ao estudarmos o tema da diversidade cultural em Sociologia é importante compreender a


diferença e a relação entre raça e etnia. A etnia, segundo Scott (2010), tem a ver com a identidade
autoconsciente que é compartilhada com os outros, com base na crença em uma ascendência
comum, pode ter relação com o país de origem, idioma, religião ou costumes, e ser moldada
pelo contato com outros e por experiências de colonização ou migração. Esses vários elementos
que compõem a etnia tornam difícil estabelecer com precisão sua definição.
Com relação à definição de raça há dois sentidos a serem pensados. Segundo Scott (2010)
o primeiro refere-se a um processo histórico, no qual, a relevância social foi relacionada a
certos traços humanos (cor da pele, textura dos cabelos, formato do nariz, entre outros). O
segundo utiliza essa base para classificar as pessoas em grupos distintos estabelecendo-se
diferenças entre os indivíduos. De forma geral tanto a etnia quanto a raça constituem-se
como mecanismos para definição da identidade humana.

1. Os ciganos representam apenas 2% da população da Europa Ocidental, no entanto, sua presença nos
países que a compõem é acompanhada por fortes reações negativas.

“O presidente francês, Nicolas Sarkozy, vem sendo alvo de duras críticas, desde que iniciou uma cru-
zada contra os ciganos que vivem na França, também conhecidos como “roms” ou “viajantes”. Mas, o
preconceito contra este povo está longe de ser uma exclusividade do governo francês: a desconfiança e o
desprezo marcam a trajetória desta minoria, desde o século XV, quando os europeus passaram a rejeitar
a presença de comunidades nômades e sem ocupação fixa.
“Mais do que os judeus ou muçulmanos, os ciganos são o povo mais discriminado da Europa. É uma unani-
midade”, afirma a pesquisadora Nonna Mayer, coautora do Relatório Anual contra o Racismo, Antissemitismo
80
DESDOBRAMENTO

Diferentes raças?
Não existem comprovações científicas de que determinado grupo apresente rigidamente esta ou aquela característica.
Em 1950, a UNESCO convidou renomados cientistas para examinarem se de fato havia alguma comprovação científica
de que a espécie humana poderia ser dividida em diferentes raças. Depois de muito estudo, os cientistas afirmaram
categoricamente: os diferentes grupos humanos, em razão das contínuas migrações, não podem ser divididos em
diferentes raças. A ciência não tem como classificar rigidamente determinado grupo partindo de características físicas,
até porque é visível a miscigenação.
[...]
Apesar das inúmeras tentativas, a ciência jamais conseguiu provar que traços físicos externos permitem a classificação da
espécie humana em diferentes raças. Noutras palavras, não existem “espécies humanas”, mas uma única espécie.
Originados nessa espécie indivisível os diversos grupos desenvolveram diferentes línguas, costumes, culturas, mas
pertencendo todos à mesma espécie: a espécie humana.
BENTO, Maria Aparecida Silva. Cidadania em Preto e Branco. São Paulo: Ática, 2006 (Col. Discussão aberta), p. 19.

e a Xenofobia da Comissão Nacional Consultativa dos Direitos Humanos da França. “A prova


disso é que, junto com os judeus e os homossexuais, os ciganos eram considerados uma raça
inferior por Adolf Hitler, que desejava o extermínio completo deste povo.”

[S.I.]/Acervo da Editora
EUROPA
40º 66 70º ALEMANHA PORTUGAL
º3 70º
2’3 POPULAÇÃO: 81,8 milhões POPULAÇÃO: 10 milhões
0 ”C
írc CIGANOS: 250 mil CIGANOS: 50 mil
u lo P
ola
60º r Ár Mar da Noruega ESPANHA
60º POPULAÇÃO: 46,6 milhões
REINO UNIDO
tico POPULAÇÃO: 58 milhões
CIGANOS: 800 mil CIGANOS: 200 mil
30º 60º
FRANÇA REP. TCHECA
SUÉCIA POPULAÇÃO: 65,4 milhões POPULAÇÃO: 10,5 milhões
CIGANOS: 350 mil CIGANOS: 250 mil

HUNGRIA SUÉCIA
Mar POPULAÇÃO: 9,9 milhões POPULAÇÃO: 9 milhões
Báltico
CIGANOS: 600 mil CIGANOS: 50 mil
Mar do
REINO Norte
UNIDO 50º ITÁLIA SUÍÇA
20º 50º POPULAÇÃO: 60 milhões POPULAÇÃO: 7 milhões

UNIDADE 4
CIGANOS: 150 mil CIGANOS: 50 mil
50º

OCEANO ALEMANHA POLÔNIA POLÔNIA


POPULAÇÃO: 38 milhões
ATLÂNTICO REP. CIGANOS: 50 mil
TCHECA

Baía de HUNGRIA
Biscaia SUÍÇA
FRANÇA
Mar Negro
40º N Localização no mundo
40º
h
reenw ic

PORTUGAL ITÁLIA
O L
no de G

ESPANHA Mar Mar S


Tirreno Mar Egeu
Mar Mediterrâneo Jônico Escala aproximada
ÁSIA
0º Meridia

1:44 500 000


0 445 890 km

ÁFRICA Cada cm = 445 km


10º 10º 20º 30º 40º

Sarkozy também não foi o primeiro francês a se voltar contra os ciganos. No século
XVII, o célebre rei Luis XIV a quem, curiosamente, o atual presidente é com frequência
comparado por suas decisões arbitrárias, decretou que todos os ciganos homens deveriam
ser presos e enclausurados em calabouços, onde permaneceriam pelo resto da vida sem
processo ou julgamento. Suas mulheres e filhos eram enviados para hospícios.”
[...] “O preconceito contra eles sempre existiu na Europa ocidental, sobretudo porque
eles levam um modo de vida diferenciado, não tolerado pelo europeu”, explica Jean-Yves
Camus, especialista em extrema-direita do Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas
(IRIS) em Paris. “É uma cultura que o europeu não consegue apreender, porque baseada no
oposto do que estamos acostumados, ou seja, em um máximo de estabilidade possível.”

81
SOCIOLOGIA  Cultura

A União Europeia não estabeleceu uma política comum face aos ciganos, deixando o
caminho livre para os 27 Estados-membros integrá-los ou não como melhor lhes convier.
A maior parte dos ciganos migra da Romênia e da Bulgária para os países mais desenvol-
vidos, onde procuram novas chances de emprego.
[...] Já a Espanha, depois de ter colaborado com o regime nazista e desejado a eli-
minação dos ciganos, hoje age na mão oposta. Abrigo da maior comunidade cigana da
Europa ocidental, o país acaba de adotar um plano de ação para promover a integração
da população de cerca de 800 mil ciganos. O orçamento do projeto é de 107 milhões de
euros e visa a aprimorar a educação, o alojamento e a saúde dos estrangeiros.
MÜZZELL, Lúcia. Preconceito contra ciganos é generalizado na Europa. Portal Terra. 28 ago. 2010. Disponível em: <http://
noticias.terra.com.br/mundo/noticias/0,,OI4646975-EI8142,00-Preconceito+contra+ciganos+e+generalizado+na+Europa.html>.

a) O mapa indica que os ciganos estão presentes em toda a Europa, mas em todos os países
são considerados como estrangeiros. Quais argumentos são utilizados para justificar o pre-
conceito sofrido pelos ciganos?
b) É possível identificar situação semelhante no Brasil?

2. Leia o texto O estudo do homem em sua diversidade e explique o que o antropólogo Fran-
çois Laplantine quis dizer ao afirmar que “aquilo que os seres humanos têm em comum é sua
capacidade para se diferenciar uns dos outros.”

DESDOBRAMENTO O estudo do homem em sua diversidade


Conceito de cultura [...] Aquilo que, de fato, caracteriza a unidade do homem [...] é
Quando os sociólogos se referem sua aptidão praticamente infinita para inventar modos de vida e
à cultura, estão preocupados com formas de organização social extremamente diversos. E [...] essas
aqueles aspectos da sociedade formas de comportamento e de vida em sociedade que tomávamos
humana que são antes aprendidos todos espontaneamente por inatas (nossas maneiras de andar, dor-
do que herdados. Esses elementos
mir, nos encontrar, nos emocionar, comemorar os eventos de nossa
culturais são compartilhados
por membros da sociedade e
existência...) são, na realidade, o produto de escolhas culturais. Ou
tornam possível a cooperação e a seja, aquilo que os seres humanos têm em comum é sua capacidade
comunicação. Formam o contexto para se diferenciar uns dos outros, para elaborar costumes, línguas,
comum em que os indivíduos modos de conhecimento, instituições, jogos profundamente diver-
numa sociedade vivem as suas sos; pois se há algo natural nessa espécie particular que é a espécie
vidas. A cultura de uma sociedade humana, é sua aptidão à variação cultural.
compreende tanto aspectos
intangíveis – as crenças, as ideias e [...]
os valores que formam o conteúdo LAPLANTINE, François. Aprender antropologia. São Paulo: Brasiliense, 2003. p. 21-22.
da cultura- como também aspectos
tangíveis – os objetos, os símbolos 3. A definição do termo cultura deve ser compreendida como um
ou a tecnologia que representam processo social que é variável, além de dinâmico e plural. Os textos
esse conteúdo. “Povos do Xingu”, de Washington Novaes e A cultura condiciona a visão
GIDDENS. Anthony. O conceito de cultura. In: de mundo do homem, de Roque Laraia, indicam que para conhecer um
Sociologia. Porto Alegre: Artmed, 2005.
povo é preciso conhecer as particularidades de sua cultura, “olhar com
o olhar do outro”.

Povos do Xingu
Chegar perto de um índio, da cultura do índio, exige mudan-
ça radical de perspectiva. Como se o olho passasse a ver pelo
lado oposto – para dentro do inconsciente. Entender o índio, en-
tender sua cultura – e respeitá-los – implica despirmo-nos desta
nossa civilização. Porque o encontro com o índio é um mergulho
em outro espaço e outro tempo. Um espaço aberto, amplo, de
82
céu e terra, Sol e Lua, água e fogo. Um espaço colorido e pródigo, povoado em har-
monia (ainda que às vezes turbulenta na aparência) por animais, vegetais e minerais.
E espíritos. Um tempo prodigiosamente mais lento, que permite o luxo de consumir
meses para polir o arco ou aguçar a flecha. Convida a desfiar os dias na tarefa de dar à
palha o entrelaçado perfeito da esteira ou do teto. Confere à cerâmica a forma exata
fantasiada nas tintas da imaginação.
Tempo para o índio varar noites dançando, até que lhe sangrem os pés. Tempo para
receber o filho que nasce e despedir o ancestral que morre. Tempo para rir e chorar, can-
tar e dançar, plantar e colher. Mas é preciso revirar os olhos e afugentar velhos conceitos,
para de fato enxergar. Abrir os ouvidos ao silêncio. Curtir o detalhe, perceber a minúcia, a
sofisticada simplicidade, quase sempre fruto de uma tradição milenar que passa de boca
a ouvido, mão a mão, geração atrás da outra.”
NOVAES. Washington. Xingu uma flecha no coração. São Paulo: Brasiliense, 1985.p.17-18.

A cultura condiciona a visão de mundo do homem


Ruth Benedict escreveu em seu livro O crisântemo e a espada que a cultura é como
uma lente através da qual o homem vê o mundo. Homens de culturas diferentes
usam lentes diversas e, portanto, têm visões desencontradas das coisas. Por exem-
plo, a floresta amazônica não passa para o antropólogo – desprovido de um razoável
conhecimento de botânica – de um amontoado confuso de árvores e arbustos, dos
mais diversos tamanhos e com uma imensa variedade de tonalidades verdes. A visão
que um índio Tupi tem deste mesmo cenário é totalmente diversa: cada um desses
vegetais tem um significado qualitativo e uma referência espacial. Ao invés de dizer
como nós: “encontro-lhe na esquina junto ao edifício X”, eles frequentemente usam
determinadas árvores como ponto de referência. Assim, ao contrário da visão de um
mundo vegetal amorfo, a floresta é vista como um conjunto ordenado, constituído
de formas vegetais bem definidas.
LARAIA, Roque. Cultura: um conceito antropológico. 14. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2001. p. 67.

UNIDADE 4
Em equipe, escolha uma determinada cultura elencando suas principais características, desde
a língua, culinária, costumes e hábitos que constituem a identidade social desse povo. Sob a
orientação do professor e com base nos dados pesquisados, participe de um seminário no qual
o conceito de cultura será discutido a partir da perspectiva da diversidade.

Etnocentrismo e relativização
Sabemos que a humanidade possui como uma de suas principais características a diversidade cultural.
Cada povo, cada nação possui uma identidade que a caracteriza como tal. A diferença é uma marca da
humanidade, constituída a partir da realidade social que permeia as ações e realizações de cada sociedade.
As relações sociais dentro de um grupo são constituídas a partir de uma identidade entre os membros do
próprio grupo. Cria-se um mundo social próprio, e tudo aquilo que não encontra identidade é considerado
diferente, estranho e passível de rejeição.
Observar uma cultura sem reconhecer suas próprias lógicas e pontos de vista desencadeia um proces-
so que é chamado de etnocentrismo. O etnocentrismo é a tendência que temos de olhar para o mundo
exclusivamente a partir dos parâmetros do grupo ao qual pertencemos, julgando a nossa cultura como
“normal”, “natural” e “correta” e todas as outras como “diferentes”, “estranhas” ou “erradas”. Essa atitude
pode se tornar o fundamento para a invenção de hierarquias entre sociedades e culturas, que passam a ser
vistas como inferiores ou superiores, quando deveriam ser vistas apenas como diferentes. Nesse sentido,
a diversidade cultural se caracteriza como um aspecto que é mobilizado com o objetivo de ampliar as
relações de poder e dominação de um povo sobre outro.
A relativização entre as culturas é outra forma de compreender a diversidade cultural. Ao relativizar a
83
SOCIOLOGIA  Cultura

apreciação dos estilos musicais, alimentares e comportamentais de outras culturas deve


orientar-se pela origem e pelo contexto desses costumes, para que se entenda o signifi-
cado deles em suas próprias realidades, ao invés de rotulá-los a partir do ponto de vista
do observador.
O relativismo cultural orienta a análise para uma compreensão contextual, ou seja, o
cientista social, quando se defronta com o estudo de uma sociedade, irá analisá-la a partir
das referências daquele grupo social, buscando entender os significados dados pelos indi-
víduos integrantes desse grupo. Assim, o cientista social compreenderá o funcionamento
dessa sociedade, sem emitir posicionamentos valorativos. Clifford J. Geertz afirmava que
“a cultura era uma teia de significados e que o cientista social deveria conhecer interpretar
e compreender estes significados culturalmente construídos”. (GEERTZ, 1989).
Ao desenvolver um pensamento com base na relativização da cultura humana estaremos
compreendendo que cada nação, cada povo, cada grupo social é diferente, é singular e
que essa diferença deve ser reconhecida como resultado de um processo social específico.
Ao mesmo tempo essa diferença, na maioria das vezes, produz relações fundamentadas
no etnocentrismo, ou seja, um povo e sua cultura se consideram superior a outra cultura.
Estabelecem-se relações de dominação de um povo sobre outro. Existem vários exemplos
históricos que revelam a dominação de uma cultura sobre outra, entre eles, o caso das
populações indígenas em várias regiões do mundo que foram dizimadas pelos coloniza-
dores – o caso do Brasil retrata bem o desaparecimento de várias tribos indígenas, quando
da chegada dos portugueses ao território brasileiro.

Relativizar
[...] Quando vemos que as verdades da vida são menos uma questão de essência das coisas e mais uma
questão de posição: estamos relativizando. Quando o significado de um ato é visto não na sua dimensão ab-
soluta, mas no contexto em que acontece: estamos relativizando. Quando compreendemos o “outro” nos seus
próprios valores e não nos nossos: estamos relativizando. Enfim, relativizar é ver as coisas do mundo como
uma relação capaz de ter tido um nascimento, capaz de ter um fim ou uma transformação. Ver as coisas do
mundo como a relação entre elas. Ver que a verdade está mais no olhar que naquilo que é olhado. Relativizar
é não transformar a diferença em hierarquia, em superiores e inferiores ou em bem e mal, mas vê-la na sua
dimensão de riqueza por ser diferença.
ROCHA, Everardo. O que é etnocentrismo. São Paulo: Brasiliense, 2006. p. 20. (Adaptado).

Paixão Nacional
[...] As relações entre a seleção “canarinho” e o povo brasileiro, [...], sempre foram com-
plexas, mesmo nos momentos de alegria, quando das conquistas das cinco Copas do
Mundo, por exemplo.
Isso se deve, de certo modo, pelo fato de que, conforme relata o antropólogo Roberto
Da Matta (1989, p 73), “o futebol no Brasil é um veículo básico para a socialização e um
complexo sistema para a comunicação de valores essenciais em uma sociedade altamen-
te segmentada”. Aproximando os universos do futebol e do carnaval, o referido autor
observa que ambas as expressões culturais representam aspectos importantes – básicos
– do meio social brasileiro. [...] De acordo com o antropólogo Luiz Henrique de Toledo
(2002), o futebol deve ser investigado também a partir de questões estéticas, uma vez
que um estilo de jogo pode vir a representar padrões de cultura.
[...] De acordo com o sociólogo Maurício Murad (2007, p.21), “o futebol não é violento
em si, embora haja práticas de violência dentro e fora do campo”. Este esporte, possi-
velmente, pelo seu apelo de massa, representa bem as situações de tensão vividas pela
sociedade, com suas inúmeras contradições e desigualdades.
84
[...] A realização da Copa do Mundo pode possibilitar ao Brasil o exorcismo de um fantasma: o da Copa
de 1950. Segundo o historiador Rubim Leão de Aquino (2002, p71), em referência à tragédia ocorrida no
Maracanã, “[...] o sonho acalentado por milhões transformou-se no pesadelo de um povo. Para muitos, era
a comprovação de constituirmos uma sociedade de incompetentes e fracassados”.
[...] Discutir o futebol (e as relações que ele suscita), portanto, é pensar a sociedade brasileira. Afinal,
somos – e queremos ser! – o país do futebol.
NORONHA, Marcelo Pizarro. Milhões em jogo. In: Sociologia: ciência e vida. Ano II, nº 20, 2008. p.74-77.

4. Baseando-se na ideia de relativização apresentada no texto Relativizar, de Everardo Rocha


e na reportagem Milhões em jogo, de Marcelo Pizarro Noronha, converse com os colegas e iden-
tifique os times de futebol para os quais torcem.
a) Descreva os times de futebol que foram apresentados por seus colegas e as explicações que
cada um deles deu para torcer para esse time e não para outro. Procure manter um olhar
relativizador em sua descrição.
b) Faça uma pesquisa sobre o tema da violência entre torcidas de futebol. O que leva os torce-
dores a se agredirem? Trata-se de uma questão cultural ou instintiva, ou seja, é da natureza
do indivíduo ser agressivo?
c) Você concorda com a afirmativa de que o Brasil quer ser o país do futebol, ou seja, de que a
identidade cultural do país está intimamente relacionada com o futebol? Fundamente sua
opinião com argumentos.

5. O texto Alteridade, de Laplantine apresenta a questão de como é importante conhecer


outras culturas para o conhecimento da própria cultura.

Alteridade
[...] De fato, presos a uma única cultura, somos não apenas cegos à dos outros, mas
míopes quando se trata da nossa. A experiência da alteridade (e a elaboração dessa ex-
periência) leva-nos a ver aquilo que nem teríamos conseguido imaginar, dada a nossa
dificuldade em fixar nossa atenção no que nos é habitual, familiar, cotidiano, e que con-

UNIDADE 4
sideramos “evidente”. Aos poucos, notamos que o menor dos nossos comportamentos
(gestos, mímicas, posturas, reações afetivas) não tem realmente nada de “natural”. Come-
çamos, então, a nos surpreender com aquilo que diz respeito a nós mesmos, a nos espiar.
O conhecimento (antropológico) da nossa cultura passa inevitavelmente pelo conheci-
mento das outras culturas; e devemos especialmente reconhecer que somos uma cultura
possível entre tantas outras, mas não a única.
LAPLANTINE, François. Aprender antropologia. São Paulo: Brasiliense, 2003. p. 21. (Adaptado)..

a) Escolha uma característica da cultura brasileira, música, alimentação, vestuário, esportes,


entre outros e compare com outra cultura, procurando identificar as similaridades e as di-
ferenças.
b) Como o estudo sobre as características de outras culturas pode auxiliar no conhecimento
da nossa própria cultura?

6. Leia o texto Nosso paradigma cultural.


Nosso paradigma cultural
[...] No transcurso da história, diferentes sociedades desenvolveram códigos de valo-
res particulares, determinando com essas singularidades identidades específicas pelas
quais as conhecemos. De modo semelhante, nosso tempo é reconhecido pela utilização
dos valores denominados “ocidentais e cristãos” como referência para suas leituras da
realidade, circunscrevendo com esta nomenclatura o conjunto de premissas utilizadas
para pensar e interpretar o mundo.
85
SOCIOLOGIA  Cultura

O paradigma “ocidental e cristão” foi se constituindo lentamente através de duas


vertentes fundamentais. A primeira delas teve suas origens na Grécia do século VI
a.C., sendo chamada ocidental por haver tido como referência, para firmar sua pró-
pria identidade, os valores sustentados nas culturas orientais. Nesse sentido, é impor-
tante sinalizar que o termo “ocidente” é muito mais que uma designação geográfica
qualquer, pois define uma cosmovisão, um particular estado de espírito incorporado
por uma comunidade.
A segunda vertente introduziu os princípios das tradições sapienciais judaico-cristãs,
contribuindo desse modo para que o conjunto dos valores herdados através da razão de
Atenas e da fé de Jerusalém conformasse o Espírito de Ocidente, origem da identidade
cultural que nos qualifica, assim como o modo pelo qual interpretamos, avaliamos, senti-
mos e pensamos a realidade do mundo.
As fantásticas qualidades dessas duas vertentes alicerçaram o progresso espiritual e
material das inúmeras culturas que compõem a civilização ocidental, mas não obstante
suas virtudes inegáveis, em diferentes momentos da história, tanto a razão quanto a fé
se excederam nas áreas de suas competências, exigindo obediência absoluta para suas
respectivas leituras da realidade.
[...]
PAWLOWICZ, Basílio. Nosso paradigma cultural: a identidade coletiva. Palas Athena. Disponível em: <http://www.
palasathena.org.br/files/Nosso%20paradigma%20cultural.pdf>. Acesso em: 12 jan. 2011.

a) Explique por que Basílio Pawlowicz considera que o “ocidente” é “muito mais que uma de-
signação geográfica qualquer”.
b) Segundo o texto, o ocidente é resultado da razão de Atenas (democracia) e da fé de Jeru-
salém (cristianismo). Procure no cotidiano, exemplos de como esses dois fatores podem ser
considerados característicos da sociedade ocidental.

7. Observe a charge e relacione-a com a frase da antropóloga Ruth Benedict: “a cultura é


como uma lente através da qual o homem vê o mundo”.
Ivo Viu a Uva/ivoviuauva.com.br

BUENO, Rubens. Charges polêmicas. Ivo viu


a uva. 18 fev. 2009, tirinha 113. Disponível
em: Disponível em: <http://www.ivoviuauva.
com.br/?p=501>. Acesso em: 12 jan. 2011.

86
• Como o homem vê o mundo através de sua cultura ele considera o seu modo de vida como o mais correto e
o mais natural, porém pessoas de culturas diferentes usam lentes diferentes e, portanto, têm visões distintas
das coisas. Na charge acima, a “lente” utilizada para enxergar o mundo é a religião.
a) Pesquise em jornais e revistas notícias relacionadas com o tema da charge.
b) Em seguida, em equipe, realize uma pesquisa sobre as religiões que são citadas: islamismo, cristianismo e
hinduísmo. Por exemplo: número de seguidores fiéis, a representação de Deus para os seguidores, a crença na
vida após a morte e a melhor conduta moral, apresentando os dados em um quadro comparativo.

Da diferença ao preconceito, à DESDOBRAMENTO


discriminação e à desigualdade

Pestana/Blogmolotov
No início dos estudos antropológicos, por volta
do século XlX, juntamente com o processo de neo-
colonialismo realizado pela Europa, nos continen-
tes africano e asiático, algumas teorias científicas
postularam uma condição evolutiva das sociedades,
ou seja, a ideia de que haveria uma linha única de
desenvolvimento para todos os grupos humanos,
segundo a qual sociedades inferiores chegariam ao
patamar de superiores.
A inferioridade estava relacionada com estilos de
vida considerados mais simples: a realização de caça e
pesca, plantação, práticas rudimentares de sobrevivên-
cia. Já a superioridade relacionava-se às práticas mais
complexas da vida urbana, como as construções de
concreto, os utensílios na alimentação, as vestimentas
que cobriam todo o corpo, etc.
Isso ocorreu devido aos europeus visualizarem o PESTANA, Maurício. Atriz. 13 maio 2007. Disponível em: <http://

UNIDADE 4
resto do mundo a partir do seu ponto de vista. Quando blogmolotov.blogspot.com/2007/05/hoje-dia-nacional-de-denncia-
contra-o.html>. Acesso em: 23 set. 2011.
descobriram outras sociedades e viram comportamen-
As diferenças entre grupos sociais podem levar a
tos, costumes e hábitos diferentes dos seus, acredita- uma situação de discriminação entre as pessoas.
vam que se tratavam de sociedades menos evoluídas, Cria-se uma representação sobre determinado grupo
que ainda não haviam passado para o nível de civi- social, levando-se em consideração e reforçando
lidade da Europa. aspectos distorcidos e considerados negativos
desse grupo. Esses aspectos são transformados em
O fato de os povos europeus iniciarem a busca de estereótipos e passam a ser um rótulo, uma marca
novas civilizações e as identificarem como estranhas que a representação distorcida criou sobre o grupo
e, em muitos casos, as tomarem como serviçais de si social. A charge acima é representativa com relação
demonstrou uma postura etnocêntrica, concebendo a à criação de estereótipos, na sociedade brasileira,
sua cultura como a correta. relativos à população negra. As relações sociais
instituídas com base em estereótipos, via de regra,
O etnocentrismo refere-se à concepção de mundo produzem relações de dominação entre grupos
a partir de uma única cultura. É comum um indivíduo sociais.
conceber sua cultura como a eleita entre as demais, PESTANA, Maurício. Não quero ser atriz. 13 maio 2007. Disponível em:
procurando reconhecer as outras a partir deste refe- <http://blogmolotov.blogspot.com/2007/05/hoje-dia-nacional-de-
rencial. Isso não foi e nem é especificidade do povo denncia-contra-o.html>. Acesso em: 23 set. 2011.

europeu, qualquer sociedade toma como princípio a


sua cultura para entender o mundo. A problemática
se acentua, quando não se utiliza do relativismo cul-
tural e se mantém uma postura absoluta da realidade,
julgando o “outro” como inferior ou pior.

87
SOCIOLOGIA  Cultura

Este caráter etnocêntrico tem trazido sérios conflitos entre as nações, as sociedades, os
grupos sociais e os indivíduos e está presente nas relações diárias de pequenas cidades
ou grandes centros urbanos.

Estereótipos
[...] Rotulamos e aplicamos estereótipos através dos quais nos guiamos para o con-
fronto cotidiano com a diferença. As ideias etnocêntricas que temos sobre as “mulheres”,
os “negros”, os “empregados”, os “paraíbas de obra”, os “colunáveis”, os “doidões”, os
“surfistas”, as “dondocas”, os “velhos”, os “caretas”, os “vagabundos”, os gays e todos os
demais “outros” com os quais temos familiaridade são uma espécie de “conhecimento”,
um “saber”, baseado em formulações ideológicas, que no fundo transforma a diferença
pura e simples num juízo de valor perigosamente etnocêntrico.
ROCHA, Everardo. O que é etnocentrismo. 5. ed. São Paulo: Brasiliense, 1988. p. 9.

8. Observe a seguinte imagem:


fionac1964/Flickr

Além do pescoço, as mulheres-girafa usam aros nos pulsos e


tornozelos, afinando esses membros também. É um costume
que, segundo pesquisadores, teve origem na África, e para o qual
existem várias explicações, entre elas, o fato de que mulheres
camponesas eram atacadas, durante o trabalho, por tigres que
mordiam seus pescoços, assim o uso do colar seria uma forma de
protegê-las. Esse é um exemplo de que as culturas são pautadas
por uma grande diversidade.

a) Faça uma análise da imagem sobre as mulheres-girafa. Que impacto essa imagem pode
transmitir? As mulheres sofrem na manutenção dessa prática cultural? Para as mulheres-
girafa pode ser um costume normal e, para as mulheres aqui no Brasil, qual seria a reação
diante de tal costume.
b) Pode-se afirmar que o uso dos aros está relacionado a referenciais de beleza. Indique, em
relação à sociedade ocidental, e nela o Brasil, algum exemplo de intervenção no corpo fe-
minino, tendo por objetivo alcançar um ideal de beleza.
c) Em algum momento, em sua análise, é possível identificar uma visão etnocêntrica? Por quê?

9. O texto Popular e culto afirma que, apesar da distinção entre popular e culto, qualquer indi-
víduo em uma sociedade, mesmo pertencendo ao “círculo social dos cultos”, recorre aos conhe-
cimentos populares em seu cotidiano. Converse com seus colegas e cite três hábitos populares
que vocês empregam em seu dia a dia. Esses hábitos podem incluir alimentação, vestimenta,
música, festa, rituais religiosos, etc.

88
Popular e culto
[...] Nas sociedades estratificadas em classes, essas esferas da “cultura” são, na verdade,
atividades especializadas que têm como objetivo a produção de um conhecimento e de
um gosto que, partindo das universidades e das academias, são difundidos entre as di-
versas camadas sociais, como os mais belos, os mais corretos, os mais adequados, os mais
plausíveis, etc. Nesse sentido, “ser culto” é uma condição que engloba vários atributos: ter
razão, ter bom gosto ou, numa palavra, como diz o nosso dicionário, “saber, ter conheci-
mento, estar informado”.
Se olharmos à nossa volta, logo nos damos conta que são muitos e variados os valores
e concepções de mundo vigentes numa sociedade complexa e diferenciada. Numa cida-
de como São Paulo, por exemplo, onde grande parte da população descende de estran-
geiros e migrantes rurais, diversos modos de vida são recriados. [...]
Refletindo com cautela, entretanto, logo perceberemos que por sobre essas diferenças, al-
guns valores e concepções são implementados socialmente, através de complexos mecanis-
mos de produção e divulgação de ideias, como se fossem, ou devessem se tornar, os modos
de agir e de pensar de todos. É essa na verdade uma das funções mais importantes (embora
não a única) das escolas, das igrejas, dos museus e dos meios de comunicação. [...]
Embora nos ensinem a ter um modo de vida refinado, civilizado e eficiente – numa
palavra, “culto” –, não conseguimos evitar que muitos objetos e práticas que qualificados
de “populares” pontilhem nosso cotidiano.
Samba, trevo, maracatu, vatapá, tutu de feijão e cuscuz. Seresta, repente e folheto de
cordel. Congado, reisado, bumba meu boi, boneca de pano, talha, mamulengo e colher
de pau. Moringa e peneira. Carnaval e procissão. Benzimento, quebrante, simpatia e chá
de ervas.
Alguns numa região, outros noutra, com sotaque italiano, japonês, alemão ou árabe,
ou ainda de modo supostamente puro, tudo isso conhecemos muito bem e com tudo
isso convivemos com grande familiaridade. [...]
Nas sociedades industriais, sobretudo nas capitalistas, o trabalho manual e o trabalho

UNIDADE 4
intelectual são pensados e vivenciados como realidades profundamente distintas e dis-
tantes uma das outras. [...]
Embora essa separação entre modalidades de trabalho tenha ocorrido num momento
preciso da história e se aprofundado no capitalismo, como decorrência de sua organização
interna, tudo se passa como se “fazer” fosse um ato naturalmente dissociado de “saber”.
Essa dissociação entre “fazer” e “saber”, embora, a rigor, falsa, é básica para a manuten-
ção das classes sociais, pois ela justifica que uns tenham poder sobre o labor de outros.
[...] indica que, a partir dos lugares de onde se fala com autoridade na sociedade capi-
talista, o que é “popular” é necessariamente associado a “fazer” desprovido de “saber”.
Chegamos aí ao nosso paradoxo. Pois é justamente manipulando repertórios de fragmen-
tos de “coisas populares” que, em muitas sociedades, inclusive na nossa, expressa-se e reafir-
ma-se simbolicamente a identidade da nação como um todo ou, quando muito, das regiões,
encobrindo a diversidade e as desigualdades sociais efetivamente existente no seu interior.
Por mais contraditório que possa parecer, são exatamente esses objetos e modos de
pensar, considerados simplórios, rudimentares, desajeitados e deselegantes, que são re-
produzidos religiosamente em nossas festas e comemorações nacionais. É, frequente-
mente, às chamadas “superstições populares”, que recorremos em nossas aflições e para
resolver o que, de outro modo, nos pareceria insolúvel.
ARANTES, Antonio Augusto. Popular e culto. In: ______. O que é cultura popular? 8. ed. São Paulo: Brasiliense, 1979. p. 9-15.

89
SOCIOLOGIA  Cultura

a) Após a escolha dos hábitos populares, reúna-se com toda a turma e discutam sobre a seguinte questão: É
possível hierarquizar os conhecimentos culturais em uma sociedade, ou seja, que requisito um conhecimento
deve apresentar para ser considerado superior a outro?
b) O que leva a sociedade a criar uma distinção entre essas duas formas de cultura? Em sua opinião a cultura
erudita é superior à cultura popular? Pode-se considerar que essa é uma visão etnocêntrica?

As relações etnorraciais no Brasil


O Brasil é um país que apresenta um cenário muito rico em relação à diversidade cultural.
Mas a existência dessa diversidade não é sinônimo de convivência harmônica entre os grupos
sociais, ainda existe preconceito, discriminação e desigualdade no Brasil. Gilberto Freyre, um
dos primeiros antropólogos brasileiros, realizou uma pesquisa que analisou a composição
étnica do Brasil, a partir da miscigenação entre brancos, índios e negros. O texto a seguir
revela uma visão muito presente no pensamento social brasileiro a partir da década de 1930,
com a publicação da obra clássica de Freyre Casa-Grande e Senzala.

Casa-grande e senzala
[...] Vencedores no sentido militar e técnico sobre as populações indígenas; dominadores
absolutos dos negros importados da África para o duro trabalho da bagaceira, os europeus
e seus descendentes tiveram, entretanto, de transigir com índios e africanos quanto às rela-
ções genéticas e sociais. A escassez de mulheres brancas criou zonas de confraternização
entre vencedores e vencidos, entre senhores e escravos. Sem deixarem de ser relações
– as dos brancos com as mulheres de cor – de “superiores” com “inferiores” e, no maior
número de casos, de senhores desabusados e sádicos com escravas passivas, adoçaram-se,
entretanto, com a necessidade experimentada por muitos colonos de constituírem família
dentro dessas circunstâncias e sobre essa base. A miscigenação que largamente se prati-
cou aqui corrigiu a distância social que doutro modo se teria conservado enorme entre
a casa-grande e a mata tropical; entre a casa-grande e a senzala. O que a monocultura
latifundiária e escravocrata realizou no sentido de aristocratização, extremando a sociedade
brasileira em senhores e escravos, com uma rala e insignificante lambujem de gente livre
sanduichada entre os extremos antagônicos, foi em grande parte contrariado pelos efeitos
sociais da miscigenação. A índia e a negra-mina a princípio, depois a mulata, a cabrocha,
a quadrarona, a oitavona, tornando-se caseiras, concubinas e até esposas legítimas dos
senhores brancos, agiram poderosamente no sentido de democratização social no Bra-
sil. Entre os filhos mestiços, legítimos e mesmo ilegítimos, havidos delas pelos senhores
brancos, subdividiu-se parte considerável das grandes propriedades, quebrando-se assim
a força das sesmarias feudais e dos latifúndios do tamanho de reinos.
FREYRE, Gilberto. Casa-grande e senzala: formação da família brasileira sob o regime de economia patriarcal. Rio de Janeiro:
Maia & Schmidt, 1933. Disponível em: <http://bvgf.fgf.org.br/portugues/obra/livros/pref_brasil/casagrande.htm>.
Acesso em: 12 jan. 2011.

Os estudos de Gilberto Freyre auxiliaram a compreender a mistura de etnias ocorrida


com a vinda dos europeus e africanos, juntando-se aos indígenas aqui nativos. Ao contrário
das teorias anteriores, baseadas na ideia biológica de raça, a teoria de Freyre inovou ao
propor que se compreendesse a sociedade brasileira a partir de sua configuração cultural
e étnica. Ainda assim, Freyre continuou a hierarquizar brancos, negros e indígenas, mes-
mo acreditando que a miscigenação seria responsável pela eliminação das diferenças e,
consequentemente, das desigualdades sociais - ideia que posteriormente foi sintetizada
na expressão “democracia racial”. Entretanto, essa miscigenação, segundo alguns autores,
não favoreceu uma democracia racial, como Freyre acreditava.

90
A democracia racial brasileira
[...]
A democracia racial, enquanto “solução” da questão negra, não significou, todavia,
um esforço em combater as desigualdades de renda e de oportunidades sociais entre
negros e brancos, e só parcialmente, no plano da cultura e da ideologia, representou um
freio à discriminação e ao preconceito. Em termos jurídicos, por exemplo, apenas uma
lei, em 1952, a Lei Afonso Arinos, reconheceu a existência de preconceito racial no país,
punindo-o como contravenção legal, ainda que a sua prática continuasse disseminada
e sem coibição. Todavia, há de se reconhecer que, em termos ideológicos, as crenças
na democracia racial e na origem mestiça do povo brasileiro serviram para solidificar a
posição formal de igualdade dos negros e mulatos na sociedade brasileira.
[...]
Se as migrações internas e a criação de uma sólida cultura nacional, de bases mestiças
e populares, de origens principalmente nordestinas, baianas, cariocas e mineiras, foram
capazes de desarmar a bomba étnica que se formava em São Paulo, antes dos anos 30,
elas não evitaram, porém, a emergência ou continuidade de novos problemas, tais como
o preconceito racial e regional e as crescentes desigualdades raciais. Do mesmo modo, a
crença na democracia racial fora tecida por sobre a lenda da excepcionalidade brasileira,
que deixava de ser plausível à medida que outras sociedades pós-coloniais, como Estados
Unidos e Canadá, superavam a segregação racial através de soluções como o convívio
multirracial e multicultural, numa situação de convivência democrática mais igualitária
em termos de oportunidades de vida.
GUIMARÃES, Antônio Sérgio Alfredo. A questão racial na política brasileira (os últimos quinze anos). Tempo soc. [online]. 2001, vol.13, n.2, pp. 121-142.
Disponível em: <http://dx.doi.org/10.1590/S0103-20702001000200007>. Acesso em 23 ago. 2011.

10. De acordo com o texto Casa-grande e senzala, a miscigenação, no Brasil, impulsionou uma democracia ra-
cial conforme a integração entre os povos, inclusive com a partilha de propriedades entre os mestiços (filhos dos

UNIDADE 4
senhores com as escravas), que antes se destinava apenas aos brancos. Entretanto, vários autores posteriores a
Gilberto Freyre realizaram críticas à sua ideia de democracia racial, afirmando que ela se referia mais a um mito do
que a uma realidade.
a) Realize um pesquisa sobre a desigualdade racial no Brasil atualmente (com relação a níveis de escolaridade,
acesso ao mercado de trabalho, índices salariais, acesso a direitos etc.) e debata com seus colegas, levantando
hipóteses sobre as possíveis causas dessas desigualdades. Quais são os principais argumentos dessa crítica
presentes no texto A democracia racial brasileira?
b) Realize uma pesquisa sobre a desigualdade racial no Brasil atualmente (com relação a níveis de escolaridade,
acesso ao mercado de trabalho, índices salariais, acesso a direitos, etc.) e debata com seus colegas, levantando
hipóteses sobre as possíveis causas dessas desigualdades.
c) Agora que você e seus colegas já possuem dados sobre a desigualdade racial no Brasil e algumas hipóteses
sobre suas causas, elaborem, em grupos, projetos de intervenção social capazes de minimizá-las ou evitar sua
reprodução.

11. O texto A ilusão das relações raciais, de Roberto DaMatta, e a entrevista de Andreas Hof-
bauer, sobre o Racismo no Brasil e o branqueamento da sociedade, reforçam a negação da demo-
cracia racial.

A ilusão das relações raciais


[...] É que, quando acreditamos que o Brasil foi feito de negros, brancos e índios, esta-
mos aceitando sem muita crítica a ideia de que esses contingentes humanos se encontra-
91
SOCIOLOGIA  Cultura

ram de modo espontâneo, numa espécie de carnaval social e biológico. Mas nada disso é
verdade. O fato contundente de nossa história é que somos um país feito por portugue-
ses brancos e aristocráticos, uma sociedade hierarquizada e que foi formada dentro de
um quadro rígido de valores discriminatórios. Os portugueses já tinham uma legislação
discriminatória contra judeus, mouros e negros, muito antes de terem chegado ao Bra-
sil; e quando aqui chegaram apenas ampliaram essas formas de preconceito. A mistura
de raças foi um modo de esconder a profunda injustiça social contra negros, índios e
mulatos, pois, situando no biológico uma questão profundamente social, econômica e
política, deixava-se de lado a problemática mais básica da sociedade. De fato, é mais fácil
dizer que o Brasil foi formado por um triângulo de raças, o que nos conduz ao mito da
democracia racial, do que assumir que somos uma sociedade hierarquizada, que opera
por meio de gradações e que, por isso mesmo, pode admitir, entre o branco superior e o
negro pobre e inferior, uma série de critérios de classificação. Assim, podemos situar as
pessoas pela cor da pele ou pelo dinheiro. Pelo poder que detém ou pela feiura de seus
rostos. Pelos seus pais e nome de família, ou por sua conta bancária. As possibilidades
são ilimitadas, e isso apenas nos diz de um sistema com enorme e até agora inabalável
confiança no credo segundo o qual, dentro dele, “cada um sabe muito bem o seu lugar”.
É claro que podemos ter uma democracia racial no Brasil. Mas ela, conforme sabemos, terá
que estar fundada primeiro numa positividade jurídica que assegure a todos os brasileiros o
direito básico de toda a igualdade: o direito de ser igual perante a lei! Enquanto isso não for
descoberto, ficaremos sempre usando a nossa mulataria e os nossos mestiços como modo de
falar de um processo social marcado pela desigualdade, como se tudo pudesse ser transcrito
no plano do biológico e do racial. Na nossa ideologia nacional, temos um mito de três raças
formadoras. Não se pode negar o mito. Mas o que se pode indicar é que o mito é precisamen-
te isso: uma forma sutil de esconder uma sociedade que ainda não se sabe hierarquizada e
dividida entre múltiplas possibilidades de classificação. Assim, o “racismo à brasileira”, para-
doxalmente, torna a injustiça algo tolerável, e a diferença uma questão de tempo e amor. Eis,
numa cápsula, o segredo da fábula das três raças...
DAMATTA, Roberto A. A ilusão das relações raciais. In: ______. O que faz o Brasil, Brasil? Rio de Janeiro: Rocco, 1984. p.
46-47.

Racismo no Brasil e o branqueamento da sociedade


Se entendermos o branqueamento numa perspectiva antropológica, ou seja, como
uma construção simbólica, a ideia de transformar corpos negros em corpos brancos é
apenas um aspecto de um ideário muito mais profundo e abrangente. A ideologia do
branqueamento costuma ser associada, no Brasil, aos projetos imigracionistas que, na
virada do século XIX para o século XX, trariam milhares de europeus brancos ao país. A
ideia da imigração europeia, que já fazia parte dos primeiros projetos abolicionistas (no
início do século XIX), visava não apenas modernizar a produção. Assim, em 1821, o médi-
co e filósofo Francisco Soares Franco apresentou um projeto no qual propôs que o lento
processo de emancipação deveria ser acompanhado por uma política imigracionista, a
qual deveria ter como objetivo a homogeneização da nação, isto é, a transformação da
“raça negra” em “raça branca”. Um processo que – segundo ele – poderia ser efetuado
num prazo de três gerações. Noventa anos depois, quando o fluxo imigratório estava em
pleno andamento, o antropólogo João Baptista Lacerda repetiria este prognóstico, num
discurso muito citado, no Congresso Universal das Raças em Londres (1911), afirmando
que a imigração europeia e a seleção sexual (preferência por casamentos com brancos)
fariam com que a “raça negra” fosse extinta dentro de um prazo de cem anos.
Andreas Hofbauer. Entrevista para o site Conexão Professor, 2009. Disponível em: <http://www.conexaoprofessor.
rj.gov.br/temas-especiais-11c.asp>. Acesso: 21 jul 2011.

a) Em conjunto com os colegas, reflita sobre os seguintes aspectos da sociedade brasileira:


I. A miscigenação rompeu com as diferenças econômicas e sociais entre os indivíduos? Jus-
tifique sua resposta.
II. Desde a abolição da escravatura até os dias atuais, houve melhoras no acesso aos
92
direitos para a população afrodescendente? Cite dois exemplos que justifiquem
sua resposta.
b) Após a discussão desses aspectos, sob a organização e orientação do professor amplie o
debate para toda a instituição escolar na qual você estuda. Isso pode acontecer a partir de
um ciclo de debates tendo como tema as dificuldades encontradas para manter a igualdade
etnorracial no Brasil.

12. A população indígena também encontra dificuldades de acesso à igualdade social no Bra-
sil. Muitos povos indígenas foram dizimados e tiveram suas culturas profunda e severamente
alteradas. Leia o texto de Aryon Dall’Igna Rodrigues sobre o desaparecimento das línguas indí-
genas faladas no Brasil.

Diversidade e multiplicidade linguística no presente


[...] Presentemente, são faladas no Brasil 181 línguas indígenas. Esse número admite pe-
quena margem de erro para mais ou para menos, devido principalmente à imprecisão, em
alguns casos, da distinção entre línguas e dialetos (estes são variedades de uma língua tão
pouco diferenciadas, que não dificultam a comunicação entre seus respectivos falantes).
Nesse número, podem estar incluídas duas ou três línguas, que deixaram de ser faladas
nos últimos cinco anos. Por outro lado, o Departamento de Índios Isolados da Funai, que
monitora as informações sobre a existência de povos indígenas ainda sem contato aberto
com segmentos da nossa sociedade, admite que são perto de 20 os grupos de pessoas
nessa situação. Alguns desses grupos podem falar línguas compartilhadas com outros já
conhecidos, mas vários deles podem ser detentores de idiomas ainda desconhecidos.
A classificação científica das línguas é de natureza genética: incluem-se em uma mes-
ma classe línguas para as quais há evidências de serem provenientes de uma mesma
língua ancestral, analogamente à situação das línguas românicas ou latinas, que provêm
do latim falado na Europa Ocidental há cerca de 2000 anos. Um conjunto de línguas que
compartilha assim a mesma origem é o que tecnicamente se chama uma “família linguís-
tica”. Na medida em que progride o seu conhecimento, as línguas indígenas brasileiras
vêm sendo classificadas em famílias genéticas. Presentemente, são distinguidas 43 fa-

UNIDADE 4
mílias, algumas das quais consistem em uma só língua e caracterizam o que também
se chama de “língua isolada”, termo pouco significativo, uma vez que frequentemente
esse isolamento decorre de acidentes históricos e, no caso das línguas do Brasil, mais
provavelmente do processo colonizador, que exterminou os povos que falavam outras
línguas de uma mesma família. De algumas famílias, embora haja documentação dos
séculos passados que permite determiná-las ao menos aproximadamente, já morreram
todas as línguas e, portanto, a própria família está morta. Esse é o caso de várias famílias
linguísticas do Brasil oriental, como a karirí, a kamakã e a purí. Por outro lado, entre algu-
mas famílias têm sido reconhecidas propriedades comuns de natureza tal que só podem
ser explicadas por uma origem comum mais remota do que as que justificaram a consti-
tuição de cada família. Nesse caso, postula-se uma classe genética mais abrangente e de
maior profundidade temporal, o “tronco linguístico”. No Brasil, reconhece-se um tronco
bem estabelecido, o tupi, que compreende dez famílias, e outro de caráter ainda bastan-
te hipotético, o macro-jê, abrangendo doze famílias. [...]
A perda da diversidade
A redução de 1 200 para 180 línguas indígenas nos últimos 500 anos foi o efeito de um
processo colonizador extremamente violento e continuado, o qual ainda perdura, não
tendo sido interrompido nem com a independência política do país no início do século
XIX, nem com a instauração do regime republicano no final desse mesmo século, nem
ainda com a promulgação da “Constituição Cidadã” de 1988. Embora esta tenha sido a
primeira carta magna a reconhecer direitos fundamentais dos povos indígenas, inclusive
direitos linguísticos, as relações entre a sociedade majoritária e as minorias indígenas
pouco mudou. Graças à Constituição em vigor, está havendo diversos desenvolvimentos
93
SOCIOLOGIA  Cultura

importantes para muitas dessas minorias em vários planos, inclusive no acesso a projetos de educação
mais específicos e com consideração de suas línguas nativas. Entretanto, ainda são grandes a hostilidade
e a violência, alimentadas não só por ambições de natureza econômica, mas também pela desinformação
sobre a diversidade cultural do país, sobre a importância dessa diversidade para a nação e para a humani-
dade e sobre os direitos fundamentais das minorias.
[...] No plano mundial, tem-se considerado que hoje qualquer língua falada por menos de 100 mil pes-
soas tem sua sobrevivência ameaçada e necessita de especial atenção. Todas as línguas indígenas no Brasil
têm menos de 40 mil falantes, sendo que a mais forte, a tikúna, falada no Alto Solimões, apenas ultrapassa
a marca de 30 mil. O aspecto mais grave está, porém, no outro lado do espectro demográfico, nas línguas
infimamente minoritárias, com populações que não vão além de 1 mil pessoas. Essa é a situação de três
quartos (76%) das nossas línguas indígenas e significa que é tarefa de alta prioridade e urgência a pesquisa
científica que visa à documentação, análise, classificação e interpretação teórica dessas línguas, que em sua
grande maioria só existem aqui. Igualmente prioritária é a promoção de ações que visem a assegurar aos
povos indígenas as condições necessárias para continuar transmitindo suas línguas às novas gerações.
RODRIGUES, Aryon Dall’Igna. Sobre as línguas indígenas e sua pesquisa no Brasil. Ciência e Cultura, São Paulo, v. 57, n. 2, abr./jun. 2005. Disponível
em: <http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?pid=S0009-67252005000200018&script=sci_arttext>. Acesso em: 12 jan. 2011.

• Realize uma pesquisa sobre as comunidades indígenas, buscando identificar como elas estão mantendo sua
cultura em meio à convivência com a cultura “branca”. Acesse o site da Funai (<www.funai.gov.br> e também
do Instituto Socioambiental, disponível em:<http://www.socioambiental.org/>. Acesso em: 22 set. 2011.) e
pesquise o ritmo da vida de uma comunidade indígena, descrevendo o tipo de trabalho, os rituais, as constru-
ções da comunidade, a educação, etc.

CIÊNCIA E TECNOLOGIA
Desigualdade entre negros e brancos cai na educação,
mas com pouco impacto na renda
Matrícula escolar e analfabetismo entre jovens melhoram mais para pretos e
pardos; diferença entre ganhos no trabalho tem leve recuo da PrimaPágina
As disparidades entre negros e brancos têm diminuído na educação, mas isso
ainda não se refletiu em queda da desigualdade de renda na mesma proporção,
indica o quarto Relatório Nacional de Acompanhamento dos Objetivos de
Desenvolvimento do Milênio, lançado pelo governo federal no fim de março,
em Brasília.
Entre a população que trabalha, o rendimento de pretos ou pardos melhorou
um pouco mais que o dos brancos, e a inequidade caiu. Na população como um
todo a pobreza encolheu, mas a redução foi semelhante entre os dois grupos — a
desigualdade, portanto, se manteve. Na avaliação do estudo, “os dados indicam
a persistência de práticas de discriminação”.
A diminuição do abismo entre brancos e negros (pretos ou pardos) não é
um Objetivo do Milênio específico — aliás, a ausência de um enfoque sobre as
desigualdades em geral nos ODM é alvo de críticas de estudiosos. No entanto,
representantes da ONU no Brasil têm destacado a importância de que as metas
sejam atingidas para todos os grupos.
O gênero, a raça, a etnia e o local de nascimento de uma criança
brasileira ainda determinam, em grande parte, suas oportunidades
futuras. Essas desigualdades têm repercussões diretas também
na saúde da mulher e na razão da mortalidade materna, afirma a
coordenadora-residente interina do Sistema das Nações Unidas no
Brasil, Marie Pierre Poirier, na apresentação do relatório.

94
94,7 95,4
Negros Brancos 87,5
75,3

37,1

16,5
6,6
2,8

Muito pobres Muito pobres Matriculados no Matriculados no


em 1990 em 2008 fundamental fundamental
1992 2008

O estudo mostra que a tendência de universalização do ensino fundamental


— uma política mais geral, não voltada a determinadas etnias especificamente
— beneficiou negros e brancos. Em 1992, o percentual de pessoas de 7 a 14
anos que frequentavam o Ensino Fundamental era de 75,3% para pretos ou
pardos e 87,5% para brancos. Já em 2008, as porcentagens eram praticamente
iguais: 94,7% no primeiro caso e 95,4% no segundo.
Um dos efeitos disso foi a queda da desigualdade no analfabetismo. Na
faixa etária de 15 a 24 anos, a taxa era de 95,6% para os brancos e 86,8% para
os negros, em 1992. Já em 2008 os números eram parecidos: 98,7% para os
brancos, 97,3% para pretos ou pardos.
No Ensino Médio a desigualdade ainda persiste, embora em nível menor. Em
1992, a proporção de brancos de 15 a 17 anos matriculados no antigo colegial
(27,1%) era quase o triplo da dos negros (9,2%). Em 2008, a diferença havia
caído para 44% (61% entre os brancos, 42,2% entre pretos ou pardos). Quando
se adiciona o componente gênero, porém, a questão se agrava. “As negras

UNIDADE 4
frequentam menos as escolas, apresentam menores médias de anos de estudo
e maior defasagem escolar”, afirma o estudo.
Rendimentos
Se o perfil educacional de negros e brancos ficou mais parecido, poderia
se esperar que o mesmo acontecesse com o rendimento. Não é o que tem
ocorrido. A distância entre trabalhadores brancos e os de cor preta ou parda
diminuiu, mas ainda é grande. Em 2008, estes últimos recebiam somente 56,7%
da remuneração dos primeiros, enquanto dez anos antes o percentual era de
48,4%. “Tal diferencial se deve, em grande medida, à menor escolaridade média
da população preta e parda, que, no entanto, não é suficiente para explicar as
diferenças de rendimentos”, afirma o relatório.
O confronto dos dados de 1998 com os de 2008 mostra que, nos dez anos e
para todas as faixas de escolaridade, os pretos ou pardos sempre estiveram em
situação pior na população ocupada. Ao longo desse período, a desigualdade
caiu entre quem tem até 4 anos de estudos ( no máximo o antigo primário,
portanto) e quem tem de 9 a 11 anos de estudos (Ensino Médio completo ou
incompleto). Mas não mudou entre trabalhadores com 5 a 8 anos de estudos
(antigo ginásio completo ou incompleto) e aumentou entre os que têm superior
completo e incompleto.

95
SOCIOLOGIA  Cultura

Quando se leva em conta não apenas os trabalhadores, mas toda a população,


a desigualdade se mostra estável. O relatório aponta que, em 1990, 37,1% dos
pretos ou pardos viviam abaixo da linha de extrema pobreza do Banco Mundial
(US$ 1,25 ao dia, em dólar calculado pela paridade do poder de compra, que
desconta as diferenças de custo de vida entre os países). Em 2008, a proporção
havia caído para 6,6% — um recuo de 82% no período. Entre os brancos, a queda
foi semelhante (83%): de 16,5%, em 1990, para 2,8%, no ano retrasado.
Os números mostram, portanto, que a proporção de pessoas muito pobres
entre os negros é mais que o dobro que entre os brancos. Sob esse ponto de
vista, a desigualdade racial abre um fosso de cinco anos entre os dois grupos:
a extrema pobreza de pretos e partos de 2008 era a mesma que a de brancos
de 2003. Como afirma o estudo, apesar dos avanços “o objetivo da igualdade
racial requereria uma queda mais acelerada da pobreza extrema entre pretos
ou pardos”.
DESIGUALDADE de cor é menor na educação que na renda. Programa das Nações Unidas para o
Desenvolvimento (PNUD), Brasília, 05 abr. 2010. Disponível em: <http://www.pnud.org.br/noticias/
impressao.php?id01=3437>. Acesso em 23 set. 2011.

O FUTURO EM JOGO

1. (UEL, 2006) “Enunciado de maneira menos formal, etnocentrismo é o hábito de cada grupo de tomar como
certa a superioridade de sua cultura.”
“Todas as sociedades conhecidas são etnocêntricas.”
“A maioria dos grupos, senão todos, dentro de uma sociedade, também é etnocêntrica.”
“Embora o etnocentrismo seja parcialmente uma questão de hábito é também um produto de cultivo
deliberado e inconsciente. A tal ponto somos treinados para sermos etnocêntricos que dificilmente qualquer
pessoa consegue deixar de sê-lo.”
HORTON, P. B. & HUNT, C. L. Sociologia. Tradução de Auriphebo Berrance Simões. São Paulo: McGraw-Hill do Brasil, 1982. p. 46-47.)

Com base nessas informações e nos conhecimentos sobre o tema, considera-se etnocêntrica a seguinte
alternativa:
A) O crescimento do PIB argentino tem sido muito superior ao do brasileiro nos últimos quatro anos.
B) A raça ariana é superior.
C) A produtividade da mão de obra haitiana é inferior à da chilena.
D) Não gosto de música sertaneja.
E) Acredito em minha religião.

2. (Mackenzie, 2010)

E se todos os humanos fossem da mesma cor? Não haveria intolerância ou o argumento de


superioridade racial. Os negros, portanto, não teriam sido escravizados, não teria existido o apartheid
nem o nazismo. Ou seja, a história da humanidade seria completamente diferente. Engano seu. A
natureza humana é bem mais complexa que isso: mesmo se todos tivessem a mesma cor de pele,
textura de cabelo ou formato de olhos, bastaria que algum povo se destacasse no desenvolvimento
técnico e econômico para se sentir superior aos demais. Aí o argumento para o domínio não seria

96
a diferença física, mas, sim, cultural, que justificaria a exploração dos mais fracos
pelos mais fortes e daria origem a todo tipo de intolerância. Em algum momento o
conceito de raça apareceria. [...]
HORTA, Maurício. E se todos os humanos fossem da mesma cor? Superinteressante, ed. 269, set. 2009.
Disponível em: <http://super.abril.com.br/cotidiano/todos-humanos-fossem-mesma-cor-621695.shtml>.
Acesso em: 30 mar. 2011.

Depreende-se corretamente do texto que:


A) não há possibilidade de as pessoas lutarem por igualdade, pois a humanidade é diferente
e complexa por conta da justa exploração dos mais fracos pelos mais fortes.
B) a complexidade da natureza humana é resultado, exclusivamente, de elementos como
código genético e aparência.
C) o conceito de raça é derivado da intolerância, que possibilita os meios para que as dife-
renças sejam eliminadas da convivência humana.
D) só haverá paz entre todos os povos quando as razões para discriminação e intolerância
forem baseadas apenas em características físicas, estabelecidas em torno do conceito de
raça.
E) uma proposta de igualdade entre todos os seres humanos é utópica, já que intolerância
e discriminação podem estar ligadas não só a aspectos físicos, raciais, mas também a
elementos de ordem cultural.

CONECTE-SE

[S.I.]/Warner
FILME
• O último samurai, EUA, 2003.
Neste filme, encenado por Tom Cruise e Ken Watanabe, você encontrará muita ação,
romance e aprendizado cultural. Aprendizado é o que o capitão Nathan Algren
(Tom Cruise) obterá ao ser capturado pelos samurais, seu então líder Katsumoto

UNIDADE 4
(Ken Watanabe). A missão do capitão Nathan era destruir os samurais, mas após a
convivência com estes, passou a admirar sua cultura e, principalmente, seu código de
honra, o que fará o capitão Nathan mudar de ideia em relação à sua missão.

• Babel, França/ EUA/ México, 2006.


Um trágico acidente envolvendo um casal norte-americano no Marrocos é o ponto [S.I.]/Paramount Pictures

de partida dessa produção. O filme conta a história de gente comum, vivendo em


um mundo em constante transformação. A trama se desenvolve em diferentes
locais do globo com personagens que em algum momento se cruzam em situações
aparentemente banais, mas que levam a desfechos inesperados, que afetarão a vida
de todos. Brad Pitt (Doze homens e outro segredo), Cate Blancett (ganhadora do Oscar
por O aviador) e Gael Garcia Bernal (Diários de motocicleta) lideram o brilhante elenco
internacional neste impressionante filme.

• Um gigante de talento, EUA, 1994.


[S.I.]/Paramount Pictures

Jimmy Dolan, ex-jogador de basquete, agora é assistente do treinador Ray Fox,


que em breve irá se aposentar. Mas para ser promovido, Jimmy precisa encontrar
um superatleta, “um gigante de talento”. Jimmy viaja para a África tendo como alvo
Saleh, da tribo Wanabi, que vive num remoto vilarejo e ainda por cima é o sucessor no
comando da tribo. Jimmy precisa recrutar Saleh de qualquer jeito, mas seus planos
podem falhar, quando as táticas de alta pressão que ele usa para convencer Saleh,
provocam engraçadíssimos tumultos entre a família de Saleh e toda a tribo Wanabi.
97
SOCIOLOGIA  Cultura

XEQUE-MATE

O jornal Folha de São Paulo realizou pesquisa sobre atitudes discriminatórias e percepções sobre o racismo na
sociedade brasileira nos anos de 1995 e 2008. Nas duas ocasiões, várias pessoas foram entrevistadas pelo instituto
de pesquisa Datafolha que, após organizar os dados e compará-los, coletou análises variadas de sociólogos e
antropólogos sobre o assunto.
Em grupos, vocês realizarão um exercício semelhante àquele empreendido pelo Datafolha. Irão elaborar um
questionário fechado capaz de revelar atitudes discriminatórias e percepções sobre o racismo na sociedade brasileira
atual e realizarão as entrevistas. Por fim, irão tabular os dados e analisá-los, organizando sua apresentação em
formato de matéria de jornal.
Antes de começar a atividade, leia abaixo a matéria publicada pelo jornal Folha de São Paulo em 2008 e procure
identificar no texto:
a) Que tipos de pergunta foram utilizados?
b) É possível saber quem ou quantas pessoas foram entrevistadas?
c) Quais são os principais dados trazidos pela matéria?
d) Além das respostas às perguntas, que outras variáveis os pesquisadores julgaram importantes para analisar os
resultados (p. ex.: idade, cor da pele, sexo, escolaridade etc.)?
e) Quais são as principais análises e argumentos de cientistas sociais que o jornal apresentou para explicar os da-
dos?
Com essas informações, vocês já têm o suficiente para elaborar sua própria pesquisa. Então, mãos à obra.
Diminuem as manifestações de preconceito
Na comparação com pesquisa de 1995, cai racismo “assumido” e concordância com frases discriminatórias
Seja por mero pudor ou realmente por uma questão de consciência, os brasileiros, hoje, se mostram menos
preconceituosos do que há 13 anos.
Ao repetir neste ano perguntas feitas em 1995, o Datafolha identificou que caiu significativamente o grau
de concordância da população com frases como “negro bom é negro de alma branca” ou “se Deus fez raças
diferentes, é para que elas não se misturem”.
O que não mudou de lá para cá foi a constatação, aparentemente contraditória, de que o brasileiro reconhece
o preconceito no outro, mas não em si mesmo. Ou, como já definiu a historiadora da USP Lilia Moritz Schwarcz,
“todo brasileiro se sente como uma ilha de democracia racial, cercado de racistas por todos os lados”.
Para 91% dos entrevistados, os brancos têm preconceito de cor em relação aos negros. No entanto, quando
a pergunta é pessoal, só 3% (excluindo aqui os autodeclarados pretos) admitiram ter preconceito.
Foi igualmente alto (63%) o percentual de entrevistados que afirmaram que negros têm preconceito em
relação a brancos, mas somente 7% (excluindo os brancos) dizem ter, eles mesmos, algum preconceito.
Também caiu (de 22% para 16%) a proporção de brasileiros que se sentiram discriminados por sua cor. Esse
percentual, no entanto, chega a 41% entre autodeclarados pretos.
Para Schwarcz, o que mudou de 1995 para 2008 foi a popularização do discurso politicamente correto. Ela,
no entanto, demonstra algum ceticismo com relação ao menor percentual de concordância com afirmações
preconceituosas.
“As coisas mudaram, mas nem tanto. As pessoas reagem mais às frases preconceituosas, como se já
estivessem vacinadas. É positivo ver que há maior consciência, mas é preocupante constatar que a ambivalência
98
se mantém. Parece que os brasileiros jogam cada vez mais o preconceito para o outro. “Eles
são, mas eu não.’”
Também historiador, Manolo Florentino, da UFRJ, tem opinião semelhante. “O que
cresceu foi sobretudo o pudor. Para tanto deve ter colaborado, em alguma medida, a
disseminação da praga politicamente correta. Se for este o caso, estaremos mais uma vez
frente à constatação de que nosso racismo é envergonhado, que, afora casos patológicos, o
brasileiro só expressa seu preconceito racial através de carta anônima.”
Constrangimento
O sociólogo Marcos Chor Maio, da Fiocruz, faz leitura mais otimista. O fato de os brasileiros
só admitirem preconceito nos outros – o que pode ser visto como hipocrisia –, para ele,
é um valor: “As pessoas têm vergonha de parecerem racistas, cria-se um constrangimento
enorme. Isso é ótimo”.
Fulvia Rosemberg, pesquisadora da Fundação Carlos Chagas e coordenadora do programa
de bolsas da Fundação Ford, vê na ampliação do debate sobre a questão racial, provocado
principalmente pela discussão das cotas em universidades, uma das causas para a queda do
preconceito.
“Isso não acirrou a oposição branco/negro e parece ter desenvolvido maior consciência
e atenção às relações raciais.”
A socióloga Fernanda Carvalho, do Ibase e uma das coordenadoras do movimento
Diálogos Contra o Racismo, concorda: “Não deixamos de ser um país com forte racismo, mas
evoluímos. Não se discutia tanto a questão do negro. Hoje, as pessoas estão compreendendo

UNIDADE 4
melhor o tema e têm mais consciência de que o preconceito é um valor negativo”.
Yvonne Maggie, antropóloga da UFRJ, tem opinião diferente sobre o racismo no país.
“Os pretos se sentem mais discriminados, mas são eles também os que mais acreditam
no esforço pessoal. Somos uma sociedade que tem optado por não marcar o sentimento da
vida a partir da raça”, diz ela, citando o dado de que 71% dos pretos concordam que, se um
pobre trabalhar duro, melhorará de vida. Entre brancos, o percentual é de 67%.
Maggie diz também que o aumento da escolaridade nos últimos anos deve ter contribuído
para a queda no preconceito. “Pode até ser que o debate sobre raça tenha influenciado,
mas não é possível concluir isso com base na pesquisa. O que temos de concreto nesses
últimos anos foi que houve uma melhoria radical do sistema educacional no Brasil”, diz a
antropóloga.
Segundo o Datafolha, quanto maior a escolaridade, menor a manifestação de preconceito.
Entre a população com nível superior, apenas 5% concordam que negros só sabem fazer bem
música e esporte. Entre os que não passaram do fundamental, a proporção é de 31%.
A idade do entrevistado também influencia. Entre os que têm 41 anos ou mais, 27%
concordam com a frase sobre negros na música e esporte. Entre os mais jovens (16 a 25), a
proporção cai pela metade: 13%.
(ANTÔNIO GOIS, DA SUCURSAL DO RIO)
Folha de São Paulo Especial. “Diminuem as manifestações de preconceito”, matéria publicada em 23 de novembro de
2008. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/especial/fj2311200803.htm, acesso em 17/09/11

99
Fonte: QUINO. Toda Mafalda. 11. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2009. p. 260.

Ideologia
Cazuza
Roberto Frejat
Meu partido
É um coração partido
E as ilusões / Estão todas perdidas
Os meus sonhos / Foram todos vendidos
Tão barato / Que eu nem acredito
Eu nem acredito

Que aquele garoto que ia mudar o mundo


(Mudar o mundo)
Frequenta agora as festas do Grand Monde

Meus heróis / Morreram de overdose


Meus inimigos / Estão no poder
Ideologia
Eu quero uma pra viver
Ideologia
Eu quero uma pra viver
O meu prazer
Agora é risco de vida
Meu sex and drugs / Não tem nenhum rock’n’roll
Eu vou pagar / A conta do analista
Pra nunca mais / Ter que saber / Quem eu sou
Ah, saber quem eu sou
Pois aquele garoto / Que ia mudar o mundo
(Mudar o mundo)
Agora assiste a tudo / Em cima do muro
Meus heróis / Morreram de overdose
Meus inimigos / Estão no poder
Ideologia
Eu quero uma pra viver
Ideologia
Eu quero uma pra viver
CAZUZA; FREJAT, R. Ideologia. Intérprete: Cazuza. In:
CAZUZA. Ideologia. [S.l.]: PolyGram, p1988. 1 CD. Faixa 1.
Billy Alexander/SXC

Ideologia

UNIDADE 5

DIÁLOGO E REFLEXÕES
• A que heróis os autores da canção se referem?
• O que relatam os versos “ideologia / eu quero uma para
viver”?
• De que forma os artistas ou políticos influenciam na maneira
como as pessoas encaram a realidade?
• Por que Mafalda, a personagem da tirinha, se refere
ao cassetete do policial como “borracha para apagar
ideologias”?
101
SOCIOLOGIA  Ideologia

EM FOCO
O que é ideologia
O real não é constituído por coisas. Nossa experiência direta e imediata da realidade
nos leva a imaginar que o real é feito de coisas (sejam elas naturais ou humanas),
isto é, de objetos físicos, psíquicos, culturais oferecidos à nossa percepção e às
nossas vivências. Assim, por exemplo, costumamos dizer que uma montanha é
real porque é uma coisa. No entanto, o simples fato de que essa “coisa” possua
um nome, que a chamemos “montanha”, indica que ela é, pelo menos, uma “coisa-
para-nós”, isto é, algo que possui um sentido em nossa experiência. Suponhamos
que pertencemos a uma sociedade cuja religião é politeísta e cujos deuses são
imaginados com formas e sentimentos humanos, embora superiores aos dos
homens, e que nossa sociedade exprima essa superioridade divina fazendo com
que os deuses sejam habitantes dos altos lugares. A montanha já não é uma coisa:
é a morada dos deuses. Suponhamos, agora, que somos uma empresa capitalista
que pretende explorar minério de ferro e que descobrimos uma grande jazida
em uma montanha. Como empresários, compramos a montanha, que, portanto,
não é uma coisa, mas propriedade privada. Visto que iremos explorá-la para
obtenção de lucros, não é uma coisa, mas capital. Ora, sendo propriedade privada
capitalista, só existe como tal se for lugar de trabalho. Assim, a montanha não é
coisa, mas relação econômica e, portanto, relação social. A montanha, agora, é
matéria-prima em um conjunto de forças produtivas, dentre as quais se destaca o
trabalhador, para quem a montanha é lugar de trabalho. Suponhamos, agora, que
somos pintores. Para nós, a montanha é forma, cor, volume, linhas, profundidade
– não é uma coisa, mas um campo de visibilidade.
Não se trata de supor que há, de um lado, a “coisa” física ou material e, de outro, a
“coisa” como ideia ou significação. Não há, de um lado, a “coisa-em-si”, e, de outro
lado, a “coisa-para-nós”, mas entrelaçamento do físico-material e da significação,
a unidade de um ser e de seu sentido, fazendo com que aquilo que chamamos
“coisa” seja sempre um campo significativo. O Monte Olimpo, o Monte Sinai são
realidades culturais tanto quanto as Sierras para a história da revolução cubana ou
as montanhas para a resistência espanhola e francesa, ou a Montanha Santa Vitória,
pintada por Cézanne. O que não impede ao geólogo de estudá-las de modo diverso,
nem ao capitalista de reduzi-las a mercadorias (seja explorando seus recursos de
matéria-prima, seja transformando-as em objeto de turismo lucrativo).
[...]
É, portanto, das relações sociais que precisamos partir para compreender o que,
como e por que os homens agem e pensam de maneiras determinadas, sendo
capazes de atribuir sentido a tais relações, de conservá-las ou de transformá-
las. Porém, [...] não se trata de tomar essas relações como um dado ou como
um fato observável, pois nesse caso estaríamos em plena ideologia. Trata-se,
pelo contrário, de compreender a própria origem das relações sociais, de suas
diferenças temporais, em uma palavra, de encará-las como processos históricos.
[...] não se trata de tomar a história como sucessão de acontecimentos factuais,
nem como evolução temporal das coisas e dos homens, nem como um progresso
de suas ideias e realizações, nem como formas sucessivas e cada vez melhores
das relações sociais. A história não é sucessão de fatos no tempo, não é progresso
das ideias, mas o modo como homens determinados em condições determinadas
criam os meios e as formas de sua existência social, reproduzem ou transformam
essa existência social que é econômica, política e cultural.
CHAUÍ, Marilena. O que é ideologia. 5. ed. São Paulo: Brasiliense, 1981. p. 16-19. (Adaptado).

102
CONHECIMENTO EM XEQUE

Definições de “ideologia”
Como formamos nossa “visão de mundo”? Conforme estudamos em outras unidades,
os nossos valores, atitudes, crenças e conhecimentos são influenciados pelas diferentes
instituições sociais das quais participamos: família, escola, religião, etc. Assim, nossas
ideias podem estar permeadas de valores, de pré-noções e mesmo de preconceitos for-
mados no interior dos grupos dos quais fazemos parte.
Esse conjunto de valores é que alguns autores chamam de ideologia. Mas ideologia
também pode significar uma teoria, certa maneira de orientar os comportamentos de
determinadas instituições ou pessoas, como a ideologia de um partido político, de uma
igreja ou de uma escola, levando em conta que conduzem a ação dos indivíduos para
esta ou aquela direção.
Um conceito inicial de ideologia é dado por Destutt de Tracy, na obra Eléments
d’Idéologie como um estudo científico das ideias e estas são o resultado da interação
entre organismo vivo e a natureza.
Napoleão Bonaparte tinha uma visão bem própria do termo: ideologia referia-se a
falsas ideias, abstrações da realidade, como aquelas, segundo ele, difundidas por seus
adversários, que formulavam críticas ao seu governo desvinculadas do que de fato acon-
tecia, deformando a realidade.
Nos escritos de Marx, por sua vez, a ideologia adquiriu outra conotação: a de “falsa
consciência” que serve para mascarar a realidade, para que a classe dominante possa dirigir
e controlar os componentes da classe dominada. Ideologia seria um sistema de ideias que
tem por função justificar teoricamente a ação. Nesse caso, a ideologia contribui para a
manutenção das relações sociais de dominação de uma classe social sobre outra.
Para Michael Lowy, ideologia é um conjunto coerente de ideias sobre o homem, so-

UNIDADE 5
ciedade, história e sua relação com a natureza e que está ligado a posições sociais, ou
seja, aos interesses e à situação de certos grupos sociais. Essa definição considera a ideia
de identidade social e de representação social por meio do estabelecimento de imagens
formuladas pelos grupos sociais.
Marilena Chauí adota a concepção marxista ao dizer que as formas ou modalidades de
uma ideologia são determinadas pelas condições sociais particulares em que se encontram
os diferentes pensadores que as elaboram. Para ela a ideologia é um processo pelo qual as
ideias da classe dominante se tornam ideias de todas as classes sociais, consequentemente
são dominantes. A classe que domina no plano material (econômico, social e político)
também domina no plano espiritual (das ideias).
Para Florestan Fernandes o conceito de ideologia se fundamenta na ideia de que o indi-
víduo pensa e age de modo determinado em razão da posição social que ocupa, tornando
explícito que os interesses coletivos motivam determinada teoria. Essa definição auxilia na
compreensão da conduta política dos indivíduos e de grupos sociais na sociedade.
A análise de Gramsci define ideologia como concepção de mundo que se manifesta
na vida coletiva e individual, tendo como objetivo dar unidade a um determinado bloco
social. Pode, portanto, existir mais de uma ideologia – a ideologia dos dominantes – e a
ideologia dos dominados, formando uma contra-ideologia. Essa é uma visão crítica que
considera a possibilidade de uma classe social adquirir consciência de seu papel histórico
na sociedade.

103
SOCIOLOGIA  Ideologia

1. Todo movimento político possui uma visão geral de mundo que passa a fazer parte da
visão individual de cada um de seus adeptos. Os símbolos abaixo representam quatro movimen-
tos sociais e políticos de grande repercussão mundial, representativos de determinadas ideolo-
gias: nazismo, movimento ecológico, comunismo e anarquismo.

1 2

S.I./commons.wikimedia.org
S.I./commons.wikimedia.org
3 4

S.I./Acervo da Editora
S.I./commons.wikimedia.org

a) Escolha um dos símbolos e, em equipe, pesquise os seguintes aspectos: contexto histórico-polí-


tico do movimento social a que se refere, objetivos, concepção de sociedade e indivíduo.
b) Pesquise, na filmografia nacional e estrangeira, filmes que tenham por tema a ideologia
escolhida.
c) Faça uma apresentação, utilizando trechos editados que representem os aspectos definidos
no item (a).

A formação da consciência social


Durkheim e Comte, em seus estudos distinguem a consciência individual da consciência social, sub-
metendo a primeira à segunda. Para eles a realidade é dada, existe externamente ao indivíduo impondo-se
a ele. Os indivíduos fazem representações, imagens sobre essa realidade, amoldam-se a ela, cada um à
sua maneira, dentro dos limites por ela estabelecidos, formando a consciência individual. A sociedade é
resultado da combinação das consciências individuais que se unem para formar o todo da sociedade. Elas
são ligadas da mesma forma que um organismo, se alguma parte apresenta disfunção deve ser tratada para
que a integridade do todo não seja comprometida. De acordo com a concepção desses autores, a ciência
social deve ser neutra, isenta de ideologias, é essencial o afastamento das pressuposições éticas, sociais
ou políticas para atingir a objetividade necessária ao estudo científico. Esse pressuposto não percebe ou
não admite que os preconceitos estejam sempre presentes. A visão organicista da sociedade naturaliza as
desigualdades sociais e tentar combatê-las é ir contra as leis naturais.

“Suas análises estão fundadas sobre premissas político-sociais tendenciosas e ligadas ao


ponto de vista e à visão social de mundo de grupos sociais determinados. Sua pretensão à
neutralidade é às vezes uma ilusão, às vezes um ocultamento deliberado, e, frequentemente
uma mistura bastante complexa dos dois.”

LOWY, Michael. A ideologia positivista: de Comte até nossos dias. In: As aventuras de Karl Marx contra o Barão de Münchhausen.
104 São Paulo: Busca Vida, 1987. p.32
Para Max Weber a consciência social tem uma condição histórica. Indivíduos que ocupam
uma mesma posição de classe manifestam uma mesma visão de mundo, um conjunto de con-
ceitos que explicam o mundo. As mudanças ocorrem na sociedade como consequência das
lutas que ocorrem em função das diversas visões de mundo. A individualidade histórica não
é dada, mas construída; não existe oposição absoluta entre indivíduo e sociedade. As normas
sociais só se tornam concretas quando assumidas pelos indivíduos que têm papel relevante
na sociedade, pois a forma como agem interfere na realidade.

“O conhecimento (ou a ignorância) dos fatos, da verdade objetiva pode


ter uma influência poderosa sobre as opções práticas, éticas, sociais ou
políticas de certos grupos ou camadas sociais.”
LOWY, Michael. A ideologia positivista: de Comte até nossos dias. In: As aventuras de Karl Marx
contra o Barão de Münchhausen. São Paulo: Busca Vida, 1987. p.40 DESDOBRAMENTO

Karl Marx afirma que a subjetividade humana, a consciência que

[S.I.]/commons.wikimedia.org
ela tem de si e da sociedade da qual faz parte é decorrente da sua
materialidade. A visão de mundo que os homens têm e por conse-
quência a visão de si próprio não é isenta de condicionamentos, ao
contrário, ela é adquirida por meio das práticas sociais dos indivíduos
na sociedade de classe permeada por todos os condicionamentos que
essa sociedade passa ao sujeito desde seu nascimento. As sociedades
variam conforme o modo de produção adotado e os homens também
são qualitativamente diferentes de um modo de produção para outro,
assim os homens são o que eles fazem — a forma como produzem é
que determina como pensam. A forma de reprodução material, que é
independente da vontade individual, é que vai determinar a consci-
ência dos homens. Ideologia e Estado para
a teoria marxista
Contrariamente à filosofia alemã, que desce do céu ”De modo geral, Marx entende
para a terra, aqui parte-se da terra para atingir o céu. por ideologia a falsa consciência,
Isto significa que não se parte daquilo que os homens ou falsa representação, que uma
dizem, imaginam e pensam nem daquilo que são classe social tem a respeito de sua
nas palavras, no pensamento, na imaginação e na própria situação, e da sociedade

UNIDADE 5
representação de outrem para chegar aos homens de em conjunto. Em larga medida,
carne e osso; parte-se dos homens, da sua ativida- considera as teorias dos economistas
de real. É a partir do seu processo de vida real que burgueses como uma ideologia
se representa o desenvolvimento dos reflexos e das de classe. Não que atribua aos
repercussões ideológicas deste processo vital. [...] economistas burgueses a intenção
Assim, a moral, a religião, a metafísica e qualquer de enganar seus leitores, ou de se
outra ideologia, tal como as formas de consciência iludirem com uma interpretação
que lhes correspondem, perdem imediatamente toda mentirosa da realidade. Tende a
a aparência de autonomia. [...] Não é a consciência acreditar, porém, que uma classe só
que determina a vida, mas sim a vida que determina pode ver o mundo em função da sua
a consciência. própria situação.”
ARON, Raymond. As etapas do pensamento
MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã. São Paulo: Martins Fontes, 2007. p. 67. sociológico. São Paulo: Martins Fontes, 2002.
p.228.

2. Toda visão de mundo é histórica. Transformações no mundo da pro- “O Estado aparece como a
dução se refletem em uma nova sociedade do trabalho e em um novo tipo realização do interesse geral (por
de trabalhador. Na sociedade atual o trabalho é marcado pelo uso intensivo isso Hegel dizia que o Estado era a
universalidade da vida social), mas,
da tecnologia, o trabalhador é dono da sua força de trabalho, mantém re-
na realidade, ele é a forma pela qual
lações trabalhistas, estabelecidas legalmente, com carga horária e salários
os interesses da parte mais forte e
pré-definidos, tem direito à educação, saúde, habitação, segurança, etc. poderosa da sociedade (a classe dos
a) Como esses fatores influenciam a visão de mundo do trabalhador na proprietários) ganham a aparência
sociedade contemporânea? Como pode ser definida sua concepção de interesses de toda a sociedade.”
de sociedade, família e indivíduo? CHAUÍ, Marilena. O que é ideologia. São
Paulo: Brasiliense, 1999, p.46.

105
SOCIOLOGIA  Ideologia

b) Em uma sociedade em que a organização material da vida, ou modo de produção, se esta-


beleça de forma diversa, a visão de mundo também será diferente. Escolha uma sociedade
de configuração diferente da sociedade ocidental contemporânea e procure identificar as
concepções de sociedade, família e indivíduo.
c) Elabore um texto dissertativo que contenha o resultado de sua pesquisa, refletindo sobre
como são formadas distintas visões de mundo em contextos sociais variados.

DESDOBRAMENTO
A Ideologia da Sociedade do Consumo
Herbert Marcuse faz uma análise sobre a sociedade industrial
Harold Marcuse/commons.wikimedia.org

criando o conceito de homem unidimensional. De acordo com essa


análise, a sociedade industrial altamente desenvolvida dos séculos
XX e XXI estabelece formas de controle que moldam o pensamento
humano tornando-o unidimensional, limitando a subjetividade e a
autorreflexão.
O pensamento unidimensional é um pensamento uniforme, que
adota uma forma de pensar única centrada na utilização da ciên-
Herbert Marcuse, um dos mais cia como instrumento de dominação pela imposição de uma racio-
importantes teóricos do século nalidade técnica. O progresso tecnológico impele a eficiência e o
XX, foi aclamado mundialmente crescimento, com consequente melhoria do padrão de vida, elimina
como o filósofo da libertação e da antagonismos e estabelece a dominação e opressão em massa, o
revolução. Seu trabalho influenciou
uma geração de intelectuais e
controle das consciências humanas que não conseguem se opor ao
ativistas radicais. Seus livros foram aparato tecnológico.
discutidos, atacados e celebrados,
O indivíduo reproduz e perpetua os mecanismos de controle social
tanto nos meios de comunicação
de massa, quanto nas publicações pela falsa percepção de estar incluído em um estilo de vida livre e
acadêmicas. de atendimento às suas necessidades pelo consumismo em massa.
Filho de judeus, Herbert Marcuse A promessa da crescente produtividade da civilização industrial in-
nasceu em Berlim, Alemanha, troduz falsas necessidades como forma de controle e conformação
em 1898. Como um intelectual dentro do sistema. A razão social transforma-se em razão industrial
de esquerda, ingressou, em
impossibilitando a percepção da realidade alienada.
1933, no Instituto de Pesquisa
Social. Fundado em 1923, junto A completa dominação da consciência humana em que o indi-
à Universidade de Frankfurt, víduo abdica da capacidade de conduzir-se com autonomia leva a
tal instituto foi considerado
o primeiro de orientação
uma mobilização total para manutenção da civilização industrial. As
marxista na Europa, composto relações sociais são organizadas e modificadas para o atendimento
por marxistas não ortodoxos, desse objetivo. Assim sustentada, a sociedade moderna torna-se to-
como Max Horkheimer, Theodor talitária utilizando o consumismo em massa como instrumento para
Adorno, Walter Benjamin e sua manutenção.
Jürgen Habermas. O Instituto
tinha como objetivo precípuo O Shopping Center e o fracasso da
desenvolver uma teoria social plenitude do ser social
crítica, de análise e interpretação
da realidade social existente. Esta sociedade de consumo que tem o Shopping Center como
catedral leva a vida humana a se reduzir a trocas comerciais e mo-
netárias. Nessa sociedade, quem tem dinheiro tem mais opções e
mais direitos. No shopping, bem como na sociedade de consumo
em geral, que tem a publicidade como motor, vive-se a lógica do
“compro, logo existo”. Por isso, é o lócus que representa a racio-
nalização do capital, principalmente porque descobriu que deve
unir consumo com lazer.

106
[...] O círculo capitalista da produção e do consumo encontra na catedral as merca-
dorias o seu porto, onde há o rito do consumo, o culto da mercadoria e a religião do
mercado. O tempo que deveria ser livre continua aprisionado à lógica do capital, que
não rege apenas a esfera da produção, mas também a esfera do consumo e do lazer.
Um dos problemas disso tudo é que o homem, mergulhado nos prazeres ilusórios
e efêmeros das mercadorias, perde a capacidade de pensar, refletir e criticar. Portanto,
ele perde a capacidade de transformar o mundo. Estamos vivendo a era do excesso
da informação e da falta de conhecimento. O universo onírico do shopping center
confunde, engana, manipula em nome de uma nova sociabilidade urbana, de uma
qualidade de vida para todos, em nome de um velho e falso pensamento liberal que
defende a democratização via mercado.
Quanto mais pessoas se iludirem achando que o consumo é o único caminho
possível para a felicidade, mais elas vão se coisificando e perdendo as dimensões do
humano, da criatividade e da autonomia. O sucesso da fórmula atual do shopping
center híbrido como lugar privilegiado para a realização do capital traz consigo o
fracasso da plenitude do ser social e de um dos princípios democráticos que é a au-
sência de privilégio. O espaço público – essencial à democracia – converte-se em um
espaço publicitário, o que revela um dos dilemas da política contemporânea que é a
aversão à esfera pública. A liberdade parece possível unicamente pela esfera privada
– o que leva à privatização da cidadania. O shopping é um terreno muito fértil para
esse projeto de sociedade de massa totalmente aberta à propaganda e amplamente
entregue às solicitações mercantis e às modas.
PADILHA, Valquíria. Além dos muros do shopping Center. In: Sociologia: ciência e vida. Edição Especial, Ano I nº 1. 2007. p.64-65.

3. O quadrinho de Quino denuncia a pseudo-felicidade aliada ao consumismo que é trans-


mitida pela mídia.

UNIDADE 5

QUINO. Toda Mafalda. 11. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2009. p. 350.

107
SOCIOLOGIA  Ideologia

a) Faça uma pesquisa e selecione, no mínimo, 5 propagandas exibidas em emissoras de televi-


são, no horário nobre (entre 19h e 22h). Anote os principais produtos anunciados, o tempo
de exibição e a qual público se destinam.
b) Faça a mesma pesquisa com revistas de circulação nacional (uma direcionada para o públi-
co feminino, outra para o público masculino e outra para o público em geral). Verifique o
número de páginas dedicadas à publicidade e propaganda, os principais anunciantes e as
que mais chamarem a atenção.
c) Sob a orientação do professor faça um debate sobre as questões:
• Quais são as reais necessidades de consumo na vida das pessoas?
• Quais valores os produtos e a propaganda revelam e constroem?
• É possível notar diferenças entre os produtos e anúncios voltados para o público masculino
e para o público feminino? Dê exemplos.
Contracultura: Reação à Ideologia da Sociedade Industrial
Surgida nos Estados Unidos a contracultura pode ser considerada como uma ex-
plosão político-cultural com ápice na década de 1960, quando propunha uma críti-
ca anárquica, radical à cultura vigente. Após a segunda grande guerra, a sociedade
ocidental, principalmente nos Estados Unidos, tornou-se extremamente tecnocrática,
privilegiando os aspectos técnico-científicos sobre os sociais e humanos. A vida social
é burocratizada transformando-se em um sistema repressivo e massificante, caracteri-
zado pela racionalidade e valorização excessiva do científico.
Nos anos 1960 esse quadro está fortemente delineado e é quando explode a contra-
cultura, que mais do que um simples movimento de contestação marginal expande-se
a ponto de arregimentar em sua causa milhares de jovens. A contracultura ficou carac-
terizada como um movimento jovem que fazia uma crítica radical à cultura convencio-
nal, incorporando a formas de contestação inovadoras com a pretensão de extrapolar
as formas de atuação da oposição tradicional. Ela rejeita não só os valores estabelecidos
pela sociedade ocidental, mas também e, principalmente, a estrutura de pensamento
que a forma. Desmistifica o pensamento técnico-científico, o racionalismo dominante,
procurando novas formas de apreensão da realidade, incluindo o misticismo e as dro-
gas. A arte é valorizada, e o encontro mais representativo dela com o comportamento
e a contestação está na música – o rock surge como expressão musical da contestação,
feita por jovens para jovens. Surge também de forma paralela o movimento hippie e
diversas formas de contestação contra o status quo. Esse movimento articulou as cam-
panhas contra a guerra do Vietnã e a favor do pacifismo.
Na crítica radical que é feita à cultura convencional são colocados em xeque os con-
dicionamentos da cultura oficial desmistificando seu caráter natural. Nesse contexto,
os movimentos minoritários étnicos e culturais recebem grande apoio e incentivo.
Nessa época, o feminismo passa a discutir a desigualdade entre os sexos, apontando
sua construção cultural. Questiona que homens e mulheres tenham funções sociais
determinadas biologicamente. Refuta a ideologia que legitima a separação de papéis,
denunciando que essa ideologia encobre uma relação de poder entre os sexos. A ques-
tão racial também é questionada tornando-se o negro símbolo de rebeldia contra a
opressão e de recusa de um estilo de vida: a sociedade ocidental repressora, massifi-
cante, reacionária, estéril.

4. Uma característica do movimento hippie ligado à contracultura é o pacifismo. O festival de


Woodstock foi uma manifestação de contestação ao sistema dominante e à guerra.
a) Faça uma pesquisa sobre a música, a estética e a cultura hippie dos anos 1960 e 1970.
b) Faça uma exposição composta de imagens, textos curtos explicativos do festival e canções
que mais chamem a atenção, identificando o tema.

108
5. Observe as imagens a seguir.

[S.I.]/Ablestock

[S.I.]/Liquid Library
[S.I.]/Liquid Library

UNIDADE 5
a) Como a mulher é retratada em cada uma das figuras?
b) Faça uma pesquisa com vinte pessoas em sua escola para saber qual é a porcentagem de
homens e a de mulheres que acreditam ser dever da mulher cumprir cada um dos papéis
representados nas imagens. Para isso, defina com os seus colegas e com o professor a amos-
tra da pesquisa: quem será entrevistado? Apenas os alunos, ou também professores e fun-
cionários da escola? Quantas pessoas cada aluno entrevistará? Quantos homens e quantas
mulheres? Faça o planejamento e utilize o instrumento a seguir para coletar os dados.

É dever da mulher É dever da mulher É dever da mulher


trabalhar fora? limpar a casa? ser mãe?
HOMENS Sim Não Sim Não Sim Não
MULHERES Sim Não Sim Não Sim Não

109
SOCIOLOGIA  Ideologia

c) Tabule os dados coletados em uma planilha, e produza gráficos e tabelas a partir dos resul-
tados obtidos. Organize os dados de tal forma que seja possível confrontar as opiniões de
homens, de um lado, e de mulheres, de outro.
d) A partir dos dados coletados na pesquisa, é possível identificar se há opiniões divergen-
tes, entre os homens e as mulheres, sobre o papel da mulher na sociedade? Justifique sua
resposta, utilizando os dados coletados na pesquisa e explicando-os. Utilize o conceito de
ideologia na sua argumentação.

6. Leia, a seguir, a reportagem que noticiou a morte de Rosa Parks, que ficou conhecida
como um dos ícones do movimento pelos direitos civis nos EUA.

Pioneira pela igualdade dos direitos civis nos EUA morre em Detroit
A costureira norte-americana Rosa Parks, considerada uma das principais responsá-
veis pelo movimento pela igualdade dos direitos civis nos Estados Unidos, morreu na noi-
te desta segunda-feira, em Detroit, aos 92 anos, por causas naturais. Ela morreu cercada
por amigos, segundo Gregory Reed, seu advogado nos últimos 15 anos.
Há cinquenta anos, Parks ficou famosa e ganhou o título de “mãe do movimento pelos
direitos civis” ao se negar a ceder seu lugar para um passageiro branco em um ônibus em
Montgomery, no Estado do Alabama. Na época, leis de segregação racial eram permiti-
das nos Estados Unidos. Era permitido, por exemplo, a separação entre negros e brancos
em transportes e acomodações públicas ou restaurantes.
Ao recusar a ordem do passageiro branco, apesar das leis que a obrigavam a ceder sua
vaga, Parks foi presa e multada, o que provocou a reação da comunidade negra local.
Durante uma entrevista em 1992, Parks tentou explicar seu ato:
Meus pés estavam doendo, e eu não sei bem a causa pela qual me recusei a levantar.
Mas creio que a verdadeira razão foi que eu senti que tinha o direito de ser tratada de
forma igual a qualquer outro passageiro. Nós já havíamos suportado aquele tipo de tra-
tamento durante muito tempo.
Sua prisão provocou um boicote de 381 dias contra as companhias de ônibus locais,
liderado por um então desconhecido pastor, o Reverendo Martin Luther King, que nos
anos seguintes, liderou o movimento pela igualdade de direitos civis.
O boicote, que ocorreu um ano depois do fim da segregação racial em escolas, mar-
cou o início do movimento pela igualdade dos direitos civis, e que atingiu o auge em
1964, com a Lei Federal dos Direitos Civis, que baniu discriminação racial em todos os
estabelecimentos públicos.
Em 1965, os 500 participantes de uma marcha pacífica rumo a Montgomery foram
bombardeados com gás lacrimogêneo e depois violentamente espancados pela polícia.
Três semanas depois, Luther King conseguiu juntar 25 mil pessoas em uma nova mar-
cha rumo à capital do Estado, pedindo o direito ao voto. Quatro meses depois, o presi-
dente Lyndon Johnson assinou uma lei, garantindo que os negros não fossem impedidos
de se inscrever nas listas eleitorais.
Mudanças
Após ser solta, Parks teve dificuldade para encontrar trabalho no Alabama, e se mudou
para Detroit em 1957, onde se tornou uma figura reverenciada pela população local.
Em 1999, durante o governo do democrata Bill Clinton, ela recebeu a Medalha de
Ouro do Congresso, considerada a maior homenagem oficial do governo dos EUA conce-
dida a civis, entre outras diversas honrarias.

110
O Museu Rosa Parks, inaugurado em novembro de 2000, lembra a briga desta mulher,
com atrações como o ônibus de assentos “reservados para brancos” na parte central. Os
visitantes também podem assistir a filmes que contam como era a vida dos negros na
época da segregação racial.
PIONEIRA pela desigualdade dos direitos civis nos EUA morre em Detroit. Folha.com, 25 out. 2005. Mundo. Disponível
em: <http://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u88928.shtml>. Acesso em: 24 out. 2011.

Rosa Parks representou uma oposição tanto às ideologias racistas, quanto às ideologias machis-
tas vigentes na sociedade em que vivia.
a) Realize uma pesquisa sobre outras personagens importantes para os movimentos feminis-
tas ou antirracistas.
b) Elabore uma reportagem inspirada nessa personagem. Seu texto deve conter informações
básicas sobre essa pessoa (nome, data e local de nascimento, etc.), uma breve descrição do
contexto social em que viveu, o movimento social de que participou e sua filiação ideológi-
ca. Se quiser, ilustre seu texto com imagens e fotografias.

CIÊNCIA E TECNOLOGIA
Véu, liberdade e República
A questão “quais as liberdades mais básicas?” tem várias respostas, duas das
quais seriam: 1) isso não faz sentido, pois 2) não há liberdades “mais básicas”.
Discordamos dessas respostas: há, sim, liberdades mais básicas, que constituem os
fundamentos de todas as outras. Quais seriam elas? Liberdades de pensamento,
de expressão, de associação e de ir e vir. Não que outras liberdades não sejam
importantes, mas essas quatro, que garantem aos indivíduos e aos grupos as
condições mínimas para ter e exercer a autonomia decisória permitem que todas
as demais sejam discutidas e estabelecidas, além de terem valor em si mesmas
como valores políticos e sociais.

UNIDADE 5
Pois bem: há algumas semanas aprovou-se na França uma lei que veda aos
muçulmanos, em especial às muçulmanas, o uso de véus, burcas e adereços que
cubram parcial ou totalmente seus rostos e que sejam a manifestação de suas
crenças religiosas. O argumento oficial apresentado é que tais adereços consistem
em instrumentos, implícitos ou explícitos, da dominação social e masculina sobre
as mulheres, subjugando-as e relegando-as a uma posição social não inferior, mas
secundária; em outras palavras, tais adereços seriam instrumentos e símbolos
da degradação das muçulmanas como cidadãs e como seres humanos.
Essa justificativa merece, sem dúvida, a mais profunda reflexão, pois enfatiza
aspectos centrais para o projeto republicano perfilhado pelo Ocidente há pelo
menos 200 anos, começando pela própria França: respeito universal aos seres
humanos, capacidade de manifestação individual e coletiva, integração à vida
coletiva de todos como cidadãos.
Todavia, essa mesma justificativa resulta na negação da autonomia individual
para escolher as crenças; em nome do respeito ao pluralismo religioso, atacam-
se os fundamentos desse pluralismo. É uma situação contraditória, cuja solução
passa necessariamente pelo reafirmar do respeito ao pluralismo, ou melhor,
do insistir em que as liberdades de pensamento e de expressão de fato são
fundamentais e como tais devem ser tratadas.

111
SOCIOLOGIA  Ideologia

No caso específico das muçulmanas francesas é evidente que seu


status social e político não podem ser os mesmos que os de muçulmanas de
outros países: o uso dos adereços deve corresponder à manifestação externa
de valores e escolhas íntimas, isto é, pessoais; dessa forma, elas são antes
cidadãs (francesas) e depois, ou como que “por acaso”, muçulmanas e não
o contrário (ou seja, antes muçulmanas e depois, “por acaso”, francesas).
Dessa forma, respeitam-se os valores pessoais das muçulmanas (e, de modo
geral, dos muçulmanos) tanto quanto se respeitam os valores pessoais e as
manifestações exteriores das crenças de judeus, cristãos, ateus, agnósticos,
budistas, etc. – além de reafirmar-se o republicanismo francês, que de maneira
correta estipula o universalismo jurídico no lugar do comunitarismo.
Voltemos à justificativa oficial: o repúdio à expressão pública do que seria a
submissão e a degradação das mulheres muçulmanas dirige-se, como se percebe
com facilidade, a apenas um único grupo. Assim, embora o argumento em si
seja moral e politicamente digno de consideração, ele é particularista e dirigido
contra uma fé específica. Dessa forma, ele consiste mais em uma renovada
expressão de islamofobia que na defesa do republicanismo. O argumento tem
um inequívoco caráter ad hoc, elaborado de maneira casuística, para dar um
lustro intelectual a uma forma de intolerância.
Para concluir: o que isso tem a ver com o Brasil? Ora, tudo. Não apenas porque
os laços políticos, sociais e econômicos entre Brasil, de um lado, e França e países
islâmicos, de outro lado, têm crescido, como porque os valores políticos e sociais
brasileiros são muito próximos dos da França – de modo que o problema criado
e enfrentado pela França refere-se também a dilemas brasileiros.
LACERDA, Gustavo Biscaia de. Véu, liberdade e República. Gazeta do Povo, 7 out. 2010. Disponível em: <http://
www.gazetadopovo.com.br/opiniao/conteudo.phtml?tl=1&id=1054766&tit=Veu-liberdade-e-Republica>.
Acesso em: 30 mar. 2011.

O FUTURO EM JOGO

1. (UEL – 2006) “[...] uma grande marca enaltece acrescenta um maior sentido de
propósito à experiência, seja o desafio de dar o melhor de si nos esportes e nos
exercícios físicos ou a afirmação de que a xícara de café que você bebe realmente
importa [...] Segundo o velho paradigma, tudo o que o marketing vendia era um
produto. De acordo com o novo modelo, contudo, o produto sempre é secundário
ao verdadeiro produto, a marca, e a venda de uma marca adquire um componente
adicional que só pode ser descrito como espiritual”. O efeito desse processo pode ser
observado na fala de um empresário da Internet comentando sua decisão de tatuar
o logo da Nike em seu umbigo: “Acordo toda manhã, pulo para o chuveiro, olho para
o símbolo e ele me sacode para o dia. É para me lembrar a cada dia como tenho de
agir, isto é, ‘just do it’.” (KLEIN, Naomi. Sem logo: a tirania das marcas em um planeta
vendido. Rio de Janeiro: Record, 2002, p. 45-76.)

112
Com base no texto e nos conhecimentos sobre ideologia, é correto afirmar:
A) A atual tendência do capitalismo globalizado é produzir marcas que estimulam a cons-
cientização em detrimento dos processos de alienação.
B) O capitalismo globalizado, ao tornar o ser humano desideologizado, aproximou-se dos
ideais marxistas quanto ao ideal humano.
C) Graças às marcas e à influência da mídia, em sua atuação educativa, as pessoas tornaram-
se menos sujeitas ao consumo.
D) Por meio da ideologia associada à mundialização do capital, ampliou-se o fetichismo das
mercadorias, o qual se reflete na resposta social às marcas.

2. (UEM, PR, 2008, adaptada) Ao discorrer sobre ideologia, Marilena Chauí afirma que

[...] a coerência ideológica não é obtida malgrado as lacunas, mas, pelo


contrário, graças a elas. Porque jamais poderá dizer tudo até o fim, a ideologia
é aquele discurso no qual os termos ausentes garantem a suposta veracidade
daquilo que está explicitamente afirmado.

CHAUÍ, M. O que é ideologia. São Paulo: Brasiliense, 1981.

Considerando o texto e o conceito de ideologia para Marx, é(são) correta(s):

01. Na maioria das sociedades capitalistas, as desigualdades são ocultadas pelos princípios
ideológicos que afirmam a importância dos seguintes elementos: o progresso, o “vencer na
vida”, o individualismo, a mínima presença do Estado na economia e a soberania popular
por meio da representação.

02. Ideologia corresponde às ideias que predominam em determinada sociedade, portanto


expressa a realidade tal qual ela é na sua objetividade.

UNIDADE 5
04. Uma pessoa pode elaborar uma ideologia, construir uma “questão” individual sem
interferências anteriores e influências comunitárias para a sua sustentação. Assim, com
base em sua própria ideologia, ela poderá refletir e agir em sua sociedade.

08. Na sociedade brasileira a ideologia da democracia racial afirma que índios, negros
e brancos vivem em harmonia, com igualdade de condições. Essa formulação omite as
desigualdades étnicas existentes no país.

16. Ideologia consiste em ideias que predominam na sociedade e que, por isso, são
internalizadas por todos os indivíduos. Portanto não existem possibilidades de se romper
com seus pressupostos.

113
SOCIOLOGIA  Ideologia

CONECTE-SE

FILMES

[S.I.]/Warner
• Matrix, EUA, 1999.
Um analista de sistemas, que vende programas clandestinos, descobre
que a realidade em que vive não passa de uma ilusão, de sofisticada
aparência virtual, produzida por computadores que controlam o planeta.
Este filme é uma excelente metáfora para o conceito de ideologia como
falsa realidade não percebida pelos homens.

• Será que ele é?, EUA, 1997.


Comédia crítica sobre os preconceitos da sociedade contra gays. Ilustra
como uma cidade inteira vê um homem (um professor) e o respeita
[S.I.]/Paramount

porque segue o comportamento esperado pela ideologia homofóbica


do lugar. No momento em que ele se revela homossexual a cidade
inteira esquece seu caráter, se era bom professor, bom vizinho ou bom
companheiro.

• Hair, EUA, 1979.


Um jovem do Oklahoma recrutado para a guerra do Vietnã encontra em
Nova York um grupo de hippies e nesse encontro é confrontado por eles
que têm conceitos nada convencionais sobre o comportamento social.
Há no filme um forte apelo ao pacifismo.

• O Sorriso de Monalisa, EUA, 2003


Professora recém-graduada consegue emprego em conceituado
[S.I.]/Divulgação

colégio de garotas para lecionar aulas de História da Arte. O filme


mostra seu embate contra o conservadorismo da sociedade, dos
colegas e do próprio colégio. Seu exemplo inspira alunas a enfrentarem
os desafios da vida.

• Easy Rider, EUA, 1969.


Clássico dos anos 60, estrelado por Jack Nicholson e Peter Fonda,
que marcou toda uma geração. O filme trata dos principais temas da
contracultura: drogas, sexo, política. Dois motociclistas atravessam os
EUA e basta a sua presença anticonvencional para servir de revelador da
crise, das fobias e da paranoia que se ocultam na América profunda.
[S.I.]/Editora Brasiliense

LIVROS
• O que é ideologia
Autor: Marilena Chauí
Editora: Brasiliense, 1997
Este livro é de fácil compreensão, usa de linguagem simples e permite
que o leitor perceba a gênese e a transformação do conceito de ideologia,
bem como entenda também a forma da burguesia manter seu poder e
sua dominação em relação aos trabalhadores.

114
• Feios

[S.I.]/Editora Galera
Autor: Scott Westerfeld
Editora: Galera, 2010
Em Vila Feia, os adolescentes ficam presos em alojamentos até o aniversário
de 16 anos, quando recebem um grande presente do governo: uma
operação plástica como nunca vista antes na humanidade. Suas feições
são corrigidas à perfeição. Entretanto, há um grupo de rebeldes que não
quer viver na cidade de Nova Perfeição. Qual seria a razão? É um livro de
aventura e mistério, no qual é possível identificar a “ideologia” dos líderes
dessa sociedade fictícia e a forma como ela é disseminada como se fosse
comum a todos.

XEQUE-MATE

A identidade não é algo “natural”, mas é construída.


A Sociologia aponta a infinita precariedade de todas as identidades atribuídas
socialmente. Usando outras palavras, o sociólogo estaria consciente da maquinaria do
palco para se deixar arrebatar pela cena representada. O sociólogo terá dificuldades com
qualquer conjunto de categorias que oferecem designações pra pessoas — “negros”,
“brancos”, “caucasianos” ou “americanos”. De uma forma ou de outra, todas essas
designações tornam-se exercícios de “má fé” assim que se carregam de implicações
ontológicas (ou seja, quando deixamos de perceber que elas são simples categorias,

UNIDADE 5
construções sociais...). A Sociologia os leva a entender que um “negro” é uma pessoa
assim designada pela sociedade, que essa designação libera pressões que tenderão
a transformá-lo na imagem designada, mas também, essas pressões são arbitrárias,
incompletas e, principalmente, reversíveis. A compreensão sociológica leva a um grau
considerável de desencantamento (desilusão). Um homem desencantado constitui um
mau investimento, tanto para movimentos conservadores como revolucionários; para
os primeiros, porque esse homem não possui a necessária dose de credulidade nas
ideologias, e para os segundos, porque ele mostrará dúvida em relação às utopias que
constituem o pão espiritual dos revolucionários.
Berger, Peter. Perspectivas Sociológicas: uma visão humanista. In: Sociologia: ciência e vida. Nº 27, 2010. p.56.

a) O que define a sua identidade? O que atrai sua atenção na sociedade? O que o mobiliza? Qual
sua visão de mundo?
b) Faça uma apresentação, com a mídia que considerar mais apropriada, pode ser em forma de
painel, texto, poesia, vídeo, sobre como se dá sua inserção na sociedade, baseando-se nos
conceitos trabalhados nesta unidade.

115
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O operário em construção Mas fosse comer tijolo!


[...] E assim o operário ia
Era ele que erguia casas Com suor e com cimento
Onde antes só havia chão. Erguendo uma casa aqui
Como um pássaro sem asas Adiante um apartamento
Ele subia com as asas [..]
Que lhe brotavam da mão.
Mas tudo desconhecia Ah, homens de pensamento
De sua grande missão: Não sabereis nunca o quanto
Não sabia por exemplo Aquele humilde operário
Que a casa de um homem é Soube naquele momento
um templo Naquela casa vazia
Um templo sem religião Que ele mesmo levantara
Como tampouco sabia Um mundo novo nascia
Que a casa que ele fazia De que sequer suspeitava.
Sendo a sua liberdade O operário emocionado
Era a sua escravidão. Olhou sua própria mão
Sua rude mão de operário
De fato como podia De operário em construção
Um operário em construção E olhando bem para ela
Compreender porque um Teve um segundo a impressão
tijolo
De que não havia no mundo
Valia mais do que um pão?
Coisa que fosse mais bela.
Tijolos ele empilhava
[...]
Com pá, cimento e esquadria (Vinicius de Moraes)
Quanto ao pão, ele o comia
en/SXC
Allan Sorens

O mundo

UNIDADE 6
do trabalho

DIÁLOGO E REFLEXÕES
• O dito popular: “o trabalho enobrece o homem” pode ser
confirmado na realidade?
• O trabalho define a existência humana?
• Qual é o papel do trabalho na vida de uma pessoa? E qual é seu
papel na vida social?

117
SOCIOLOGIA  O mundo do trabalho

EM FOCO
O ócio pode ser criativo
A criatividade é o maior capital de uma empresa. Apesar dessa máxima pregada
feito mantra pelos consultores e empregadores, a sociedade do trabalhador do
conhecimento ainda é gerenciada por critérios da sociedade industrial. Crítico
desse modelo, o sociólogo italiano Domenico De Masi propôs um modelo social
não centrado na idolatria do trabalho, mas sim, na simultaneidade entre trabalho,
estudo e lazer. Suas ideias se fundamentam na constatação de que hoje teríamos
um maior tempo livre e o ser humano executaria muito mais trabalhos intelectuais
que manuais – cada vez mais realizados por máquinas e ferramentas. Imagine
as transições do mundo, passando da era do caçador/coletor para a era agrícola,
depois para a era industrial até a era do conhecimento.
Cada momento representou um aumento na produtividade de pelo menos 50
vezes o que se conseguia na era anterior. Isto significa que o tempo gasto na
obtenção das coisas necessárias à manutenção da vida diminuiu muito. Além do
mais, é importante lembrar que a expectativa de vida da população, que no caso
do Brasil era de 43 anos em 1940, aumentou muito, ultrapassando os 73 anos.
Nossos avós viviam 300 mil horas e trabalhavam 120 mil, hoje nós vivemos mais
de 700 mil horas e trabalhamos 70 mil horas. Enquanto eles trabalhavam quase
metade da vida, nós trabalhamos um décimo e, não fomos educados para ter
tanto tempo livre.
A empresa tampouco ajuda nisso. As práticas gerenciais da era industrial fazem
com que um executivo que pode realizar o seu trabalho diário em cinco ou seis
horas acabe trabalhando até dez horas. No fim de semana, leva trabalho para a
casa, e quando está em férias liga sempre para o escritório. Quando aos 55 ou 60
anos se aposenta tem ainda 20 ou 30 anos de vida e, muitas vezes não sabe o que
fazer. [...]
Quando De Masi fala em ‘’ócio criativo’’, ressalta-se a forma como uma pessoa deve
utilizar o seu tempo. Trabalho, aprendizado e lazer devem se confundir em todas
as fases da vida.
‘’A grande importância da criatividade reside no fato de que é a partir dela
que surgem inovações e melhores formas de fazer muitas coisas do dia a
dia. A criatividade de um pais ou de uma empresa é medida pelo numero de
patentes registradas por ano’’, lembra Claudio F Pelizari. [...]
GORZONI, Priscila. Admirável trabalho novo? Revista Sociologia, n. 27, 2010. Disponível em: <http://
sociologiacienciaevida.uol.com.br/ESSO/Edicoes/27/artigo162994-4.asp>. Acesso em: 24 abr. 2011.

CONHECIMENTO EM XEQUE

O trabalho e a existência humana


O trabalho define a existência humana, sem trabalho não há sociedade. Para a So-
ciologia o trabalho não é unicamente uma atividade manual e intelectual, ele produz
vários significados e conflitos dentro das relações sociais. É uma atividade humana
intencional que envolve formas de organização, objetivando a produção de bens
necessários à vida humana. É a base de todas as relações humanas, determinando e
condicionando a vida.
118
Para realizar o trabalho o ser humano intervém intensamente sobre a natureza, para
satisfazer suas necessidades, ou seja, tudo aquilo que ele precisa para criar e recriar a sua
vida. É a partir dessa intervenção que se obtêm todos os recursos imprescindíveis para o
desenvolvimento econômico e material de um grupo social, por isso, é possível considerar
que o trabalho é altamente produtor de mudanças não apenas dentro da sociedade, mas
também da natureza.
O desenvolvimento do ser humano deve-se ao trabalho. Ao realizar trabalho, o ser
humano tornou-se independente da natureza e passou a dominar as condições adversas
que a própria natureza impunha aos grupos sociais. Isso não significa que o ser humano
seja agora totalmente independente da natureza, mas que ele consegue em grande parte,
controlar os fenômenos naturais e ao mesmo tempo manipulá-los em benefício próprio.
Por isso, insere-se no âmbito dos meios de produção econômica de uma sociedade,
participa da geração de riquezas e, ao mesmo tempo, contribui para o desenvolvimento
humano.
O trabalho é uma realidade fundamental no estudo das relações sociais. O desenvol-
vimento do trabalho como relação social é inerente à história humana apresentando-se,
no entanto, de forma conflituosa por envolver relações de dominação e de poder. No
centro dessas relações o trabalho ocupa um papel importante, pois ao mesmo tempo em
que promove o desenvolvimento social humano ele também instala relações históricas
de dominação e exclusão de grupos sociais.

1. De acordo com o texto “O trabalho e a existência humana”, não é possível pensar em so-
ciedade sem se referir às relações estabelecidas pelo trabalho. Quais trabalhos você costuma
executar no seu cotidiano? Para quais tem mais habilidade? A que necessidades humanas essas
atividades correspondem? Que relações você estabelece com outras pessoas por meio dessas
atividades?

TRABALHO X EMPREGO
A discussão fundamental é diferenciar trabalho de emprego. Embora muitas pessoas
misturem os dois, eles são totalmente distintos. Trabalho é o esforço humano com um

UNIDADE 6
objetivo específico, envolvendo a transformação da natureza por meio do esforço físico
e mental. Emprego é um conceito que surgiu por volta da Revolução Industrial, é uma
relação entre homens que vendem sua força de trabalho e homens que compram essa
força de trabalho, pagando em troca um valor como remuneração ou salário. O conceito
de emprego também traz em seu bojo a figura jurídica do vínculo regido por legislação
específica.

Debruçando-nos sobre esses dois conceitos, observamos hoje no merca-


do de trabalho uma tendência em valorizar mais aqueles que buscam o
Trabalho e não um Emprego. Os que buscam o trabalho não se prendem
muito ao nível de remuneração que irão receber, desde que, estejam de-
sempenhando atividades que projetem crescimento e aprendizado futuros.
Quem buscar o trabalho é pró-ativo, criativo, determinado, persistente,
voltado para a coletividade e por isto, muitas vezes, engajado em projeto
de voluntariado, inquieto; mais humilde para aceitar tarefas, às vezes,
aquém de sua capacidade ou status e mais vocacionado para lidar com
situações mais instáveis. [...]

GORZONI. Priscila. Admirável trabalho novo? Revista Sociologia – Ciência e Vida, nº 27/2010. p.28.

119
SOCIOLOGIA  O mundo do trabalho

2. Por que a busca pelo trabalho é mais valorizada do que a busca por um emprego? Você
concorda que geralmente as pessoas procuram o melhor emprego e não o melhor trabalho?
Justifique.

Desenvolvimento histórico do trabalho


A história do trabalho se caracteriza por uma diversidade de formas e significados; a
cada tempo histórico corresponde uma forma específica de trabalho. Na Antiguidade e
na Idade Média, o trabalho era visto como uma atividade própria dos menos favorecidos,
como escravos e servos, os nobres e ricos apenas usufruíam dos seus benefícios. No Oci-
dente, no período histórico, anterior à Revolução Industrial, o trabalho vinculava-se ao
esforço físico e castigo e existia uma espécie de aversão ao trabalho.
Na Antiguidade Clássica Greco-Romana o trabalho era realizado por escravos, essa
era uma prática usual dentro das sociedades, em que não havia o trabalho compensató-
rio, caracterizado pelo salário como conhecemos hoje. O trabalho não era uma prática
virtuosa, e sim indigna; possuía uma conotação negativa e era destinado aos indivíduos
desafortunados da sociedade. O trabalhador escravo não era sujeito de direitos, ele era
considerado uma mercadoria e poderia ser descartável. A escravidão não ficou restrita à
História Antiga, em várias regiões do mundo essa prática de trabalho existiu até poucos
séculos atrás assumindo características específicas em cada um desses contextos.
No período medieval, o trabalho era eminentemente agrícola, os servos realizavam
todas as formas de trabalho, enquanto os representantes do clero e os proprietários das
terras usufruíam da riqueza e do poder político. Também nesse período não havia exalta-
ção à realização do trabalho, que permanecia como sinônimo de castigo e penalização
e significava um estado de pobreza e miséria para os servos.
Com a Revolução Industrial, o trabalho passou a ser visto como um meio necessário
ao enriquecimento de qualquer ser humano, podendo ser realizado por qualquer indiví-
duo, de acordo com a estratificação social existente. O trabalho passou a ser visto como
algo altamente virtuoso e necessário para todo e qualquer indivíduo que vislumbrasse o
seu enriquecimento social e material. De uma atividade desprezada passa a ser símbolo
e fonte de riqueza e status social no período moderno industrial.
Sendo o trabalho uma relação social histórica e presente em praticamente todos os
grupos sociais humanos, ele adquire um caráter diferente dentro de cada sociedade. Por
exemplo: as sociedades chamadas indígenas também realizam trabalho para garantir
sua existência, ocorre que a forma de organização do trabalho é bem diferente da que
conhecemos na sociedade moderna. Os grupos indígenas não trabalham para acumular
riquezas, mas para suprir as necessidades do grupo sem a geração de excedentes - já que
o acúmulo não é um valor característico de seu modo de produção. Isso significa que não
existe período fixo de trabalho diário, eles executam as tarefas relacionadas à existência
do grupo destinando o tempo necessário para realizá-las.
Vivemos hoje um contexto de trabalho globalizado. O fenômeno da globalização se
apoia na flexibilidade dos processos de trabalho e padrões de consumo, caracterizando-se
por estabelecer, em nível mundial, taxas altamente intensificadas de inovação no âmbito
econômico. Nesse contexto, surgem relações de trabalho, nas quais, o trabalhador precisa
se preparar para apresentar habilidades que incluem criatividade, capacidade de liderança
e trabalho em equipe.

O paradoxo do trabalho
Afinal, o que é trabalhar? O trabalho, fonte da vida, produção de riqueza é também
fonte de desigualdades sociais e, [...] fonte de contradições. O trabalho pode representar
apenas uma obrigação, um duro ganha-pão que se impõe aos que necessitam trabalhar

120
para viver e não têm escolha, como pode representar a possibilidade de realização pes-
soal para os que gostam de trabalhar ou para os considerados viciados no trabalho – os
workaholics. O trabalho pode significar, também, uma forma de ascender socialmente.
O trabalho deixa marcas em quem o exerce, em seu corpo e em sua mente, e para-
doxalmente, se traduz em realização humana. Ele pode abalar a saúde do trabalhador,
quando gera insegurança, doenças profissionais, acidentes de trabalho ou quando o expõe
a situações estressantes ou o assédio moral – procedimentos no ambiente profissional em
que as empresas exigem determinados comportamentos dos trabalhadores mesmo que
esses lhes constranjam. [...]
Há os que trabalham e os que não têm trabalho; o trabalho da mulher e do homem;
trabalho qualificado e não qualificado; trabalhos que trazem reconhecimento e os des-
prezados; os que pagam bem, os que pagam salário mínimo e os não remunerados;
trabalho formal e informal; trabalho legal e ilegal; trabalho material e imaterial; trabalho
assalariado e trabalho autônomo; trabalho com carteira e sem carteira; trabalho integral
e parcial; trabalho permanente e temporário; trabalho livre e trabalho forçado; trabalho
do especialista e do aprendiz; trabalho criativo e repetitivo; trabalho na agricultura e na
indústria; trabalho direto e terceirizado; trabalho manual e intelectual, trabalho voluntário
e trabalho doméstico. Essas formas de trabalho coexistem, não são autoexcludentes nem
contraposições rígidas. O tipo de trabalho realizado está ligado ao lugar social ocupado
pelos indivíduos na sociedade.
O mundo das coisas, dos objetos, dos bens materiais e imateriais, é resultado do traba-
lho humano. É pelo trabalho que o homem constrói o mundo e, nesse processo, constrói
a si mesmo. Trabalho é dispêndio de energia humana para realizar atividade coordenada
mediante o uso de esforço físico, mecânico ou intelectual – habilidade, força ou criati-
vidade – visando atingir um fim, cumprir uma tarefa, fazer um serviço. O trabalho tem
como meta produzir os bens e serviços necessários à manutenção da vida e atender a
outras demandas e necessidades criadas pelos homens no mercado.

ARAUJO. Silvia Maria. Sociologia: um olhar crítico. São Paulo: Contexto, 2009. p.46-47 (adaptado)

UNIDADE 6
3. Faça uma pesquisa comparativa sobre o trabalho no Brasil e de um país altamente industrializado como a
Alemanha, a Inglaterra, a França ou os Estados Unidos
a) Para a realização da pesquisa, considere os seguintes fatores: a jornada de trabalho, o salário mínimo, a média
salarial e, por fim, a média de escolarização em cada um dos países.
b) Com os dados da pesquisa faça um quadro comparativo utilizando gráficos e tabelas evidenciando as princi-
pais diferenças entre os modelos de trabalho.

c) Elabore um texto argumentativo refletindo sobre como a pesquisa realizada revela “o para-
doxo do trabalho” de que trata o texto de Silvia Maria Araújo.

Trabalho e modos de produção


As mudanças ocorridas nas sociedades e no mundo do trabalho vinculam-se, muito
proximamente, aos modos de produção de cada sociedade e época. O modo de produção
é a forma que cada sociedade desenvolveu para produzir mercadorias e produtos e orga-
nizar a divisão do trabalho. Para Karl Marx, é o modo de produção de cada sociedade o
aspecto responsável por definir todos os outos planos (a religião, a política, a ideologia,
enfim, as relações sociais em geral).
O capitalismo é o modo de produção que superou o feudalismo, resultando em trans-
formações em todas as esferas da vida social. Para Marx, todos os modos de produção
121
SOCIOLOGIA  O mundo do trabalho

são históricos e transitórios: o próprio capitalismo, de acordo com a teoria de Marx, seria
superado pelo comunismo.

As formas econômicas, sob as quais os homens produzem, consomem e


trocam, são, portanto, transitórias e históricas. Conseguindo novas forças
produtivas, os homens modificam o seu modo de produção e, com o modo
de produção, modificam todas as relações econômicas que eram necessá-
rias apenas para esse modo de produção determinado.

MARX, Karl. K. Marx: Crítica a Proudhon. In: K. MARX, ENGELS, F. São Paulo: Ática, 1983, p.433

Comunismo
O modo de produção capitalista já representou um passo evolutivo em relação ao
feudalismo, dado que a maneira como passa a ser extraído o trabalho excedente e as
condições em que isso se dá são mais favoráveis para o desenvolvimento das forças
produtivas, das relações sociais de produção e para a criação de uma estrutura nova e
superior” que resultará de um processo revolucionário, “uma etapa na qual desaparecerão
a coerção e a monopolização, por uma fração da sociedade em detrimento da outra, do
progresso social” [MARX. O Capital, v. II, p. 802].
As referências à sociedade comunista não pretendem ser profecias, como pretendem
alguns, mas reflexões orientadas por princípios como a liberdade e a não-alienação.
É Marx quem afirma que “o comunismo é a forma necessária e o princípio dinâmico
do futuro imediato, mas o comunismo em si não é a finalidade do desenvolvimento
humano, a forma da sociedade humana” [MARX. Manuscritos: economia y filosofia,
p. 156]. O que o comunismo possibilita é submeter à criação dos homens “ao poder
dos indivíduos associados” [MARX; ENGELS. A ideologia alemã, p. 82] e que a di-
visão do trabalho passe a obedecer aos interesses de toda a sociedade. Garantida a
apropriação social das condições de existência, extinguir-se-ia a contradição entre o
indivíduo privado e o ser coletivo, sendo geradas as condições para a liberação das
capacidades criadoras humanas, promovendo a instalação do reino da liberdade o
qual “só começa quando se deixa de trabalhar por necessidade e condições impostas
desde o exterior” [MARX. O Capital, v. III, p. 802]. No texto a seguir, a sociedade
comunista é descrita de maneira alegórica.
Com efeito, desde o momento em que o trabalho começa a ser repartido, cada in-
divíduo tem uma esfera de atividade exclusiva que lhe é imposta e da qual não pode
sair; é caçador, pescador, pastor ou crítico e não pode deixar de o ser se não quiser
perder seus meios de subsistência. Na sociedade comunista, porém, onde cada indi-
víduo pode aperfeiçoar-se no campo que lhe aprouver, não tendo por isso uma esfera
de atividades exclusiva, é a sociedade quem regula a produção geral e me possibilita
fazer hoje uma coisa, amanhã outra, caçar de manhã, pescar à tarde, pastorear à
noite, fazer crítica depois da refeição, e tudo isso a meu bel-prazer, sem por isso me
tornar exclusivamente caçador, pescador ou crítico. [MARX; ENGELS. A ideologia
alemã, p. 40-41].
Nela, se anteveem as possibilidades de um sistema social regulado de acordo com as
necessidades humanas, voltado para as potencialidades criativas que os indivíduos livres
abrigam em seu espírito. [...]
A sociedade comunista seria o resultado de uma “reconstrução consciente da socie-
dade humana”, pondo fim à “pré-história da humanidade” e dando início a uma nova
vida social.
QUINTANEIRO; BARBOSA; OLIVEIRA. Um toque de clássicos. Belo Horizonte: ED. UFMG, 2003 (2ª ed.), p. 58-59.

122
4. Realize uma pesquisa sobre modos de produção diversos. Elabore uma tabela contendo
as principais características de cada um deles, o contexto histórico a que se referem e as relações
sociais que fundamentam. Compartilhe os resultados com seus colegas.

5. O modo de produção capitalista caracteriza-se pelo trabalho assalariado e por várias pos-
sibilidades de inserção no mercado de trabalho.
a) Entreviste pelo menos dois trabalhadores que exerçam profissões diferentes, sendo uma
ligada à atividade intelectual e outra à atividade física. Entre outras, aborde as seguintes
questões na elaboração do seu roteiro de entrevista:
• As condições de trabalho: horas de trabalho, salário, local, higiene, segurança, acessibilida-
de, etc.
• As relações trabalhistas: tipo de contrato de trabalho, assistência médica, auxílio transporte
e de alimentação, níveis hierárquicos, possibilidades de promoção, etc.
• Satisfação com o trabalho: desempenha atividade de sua escolha, atua em profissão relacio-
nada à sua formação escolar, relacionamento com os colegas e com a chefia.
b) Sistematize as respostas e apresente-as em vídeo realizado em equipe com os depoimentos
dos entrevistados.

A divisão social do trabalho


Na atualidade, predomina o modo de produção capitalista na sua fase mais avançada,
ou seja, com industrialização, divisão do trabalho, tecnologia e intervenção de institui-
ções financeiras. No início de seu desenvolvimento, o capitalismo passou por diferentes
etapas, as quais foram sendo aprimoradas com o avanço das tecnologias e das formas de
administração desse sistema produtivo.
Um dos aspectos favoráveis ao desenvolvimento do capitalismo foi a divisão do tra-
balho. Segundo Adam Smith,

UNIDADE 6
Este considerável aumento de produção que, devido à divisão do traba-
lho, o mesmo número de pessoas é capaz de realizar é resultante de três
circunstâncias diferentes: primeiro, ao aumento da destreza de cada tra-
balhador; segundo, à economia de tempo, que antes era perdido ao passar
de uma operação para outra; terceiro, à invenção de um grande número
de máquinas que facilitam o trabalho e reduzem o tempo indispensável
para o realizar, permitindo a um só homem fazer o trabalho de muitos.
(SMITH, 1979, p. 7-12).

Émile Durkheim, diferentemente de Adam Smith, que era um economista, observou


a divisão do trabalho sobre outro ângulo. Estabeleceu uma visão sociológica sobre o
caráter da organização e divisão social do trabalho no capitalismo. Para ele, a partir da
industrialização e urbanização da sociedade ocidental, as relações sociais tornaram-se
mais complexas, resultando em uma especialização dentro das relações de trabalho.
Contrariamente à afirmação de que se aprofunda a diferenciação social, para Durkheim
permanece a ideia de solidariedade que adquire uma forma diferente. Ele vai chamar a
solidariedade de novo tipo, onde os indivíduos dependem cada vez mais uns dos outros,
esse novo tipo de solidariedade possui um caráter positivo.

[...] Por consciência coletiva entende-se a soma de crenças e sentimen-


tos comuns à média dos membros da comunidade, formando um sistema
autônomo, isto é, uma realidade distinta que persiste no tempo e une as
gerações. A consciência coletiva envolve quase que completamente a men-
talidade e a moralidade do indivíduo: o homem “primitivo” pensa, sente e
age conforme determina ou prescreve o grupo a que pertence. Durkheim
123
SOCIOLOGIA  O mundo do trabalho

acusa a existência, em cada indivíduo, de duas consciências, a coletiva


e a individual; a primeira, predominante, compartilhará com o grupo; a
segunda, peculiar ao indivíduo. Nas sociedades “primitivas”, a consciência
coletiva subjuga a individual, e as sanções aplicadas ao indivíduo, que foge
às normas de conduta do grupo, são extremamente severas.

À medida que as sociedades se tornam mais complexas, a divisão de trabalho e as


consequentes diferenças entre os indivíduos conduzem a uma crescente independência
das consciências. As sanções repressivas, que existem nas sociedades “primitivas”,
dão origem a um sistema legislativo que acentua os valores da igualdade, liberdade,
fraternidade e justiça. A coerção social não desaparece, pois a característica da so-
ciedade moderna – os contratos de trabalho – contém elementos predeterminados,
independentes dos próprios acordos pessoais. Exemplo: cabe ao Estado determinar a
duração do período de trabalho, o salário mínimo e as condições em que se realiza
o trabalho físico.
As “primitivas” coletividades humanas são caracterizadas pela solidariedade mecâ-
nica, que se origina das semelhanças entre os membros individuais. Para a manutenção
dessa igualdade, necessária à sobrevivência do grupo, deve a coerção social, baseada
na consciência coletiva, ser severa e repressiva. Essas sociedades não podem tolerar as
disparidades, a originalidade, o particularismo, tanto nos indivíduos quanto nos grupos,
pois isso significaria um processo de desintegração. Todavia, o progresso da divisão
de trabalho faz com que a sociedade de solidariedade mecânica se transforme.
O princípio de divisão do trabalho está baseado nas diversidades das pessoas e dos
grupos e se opõe diretamente à solidariedade por semelhança. A divisão do trabalho
gera um novo tipo de solidariedade, baseado na complementação de partes diversi-
ficadas. O encontro de interesses complementares cria um laço social novo, ou seja,
outro tipo de princípio de solidariedade, com moral própria, e dá origem a uma nova
organização social. Durkheim denomina de solidariedade orgânica esta solidariedade,
não mais baseada nas semelhanças de indivíduos e grupos, mas na sua independência.
Sendo seu fundamento a diversidade, a solidariedade orgânica implica maior autono-
mia com uma consciência individual mais livre.
LAKATOS, Eva Maria. Sociologia Geral. 5. ed. São Paulo: Atlas, 1985. p. 47-49. (Adaptado).

6. Indique no quadro abaixo as características das solidariedades mecânica e orgânica de-


senvolvidas por Durkheim.

Solidariedade mecânica Solidariedade orgânica

a) Qual é a importância dos dois tipos de solidariedade para o desenvolvimento dos vínculos
sociais?
b) Identifique, nas suas relações sociais (família, escola, trabalho, etc.) exemplos de práticas
pautadas pela solidariedade.
c) Compare os exemplos com os de seus colegas de turma, selecione os que sejam mais cons-
tantes e inclua no quadro acima.

124
Divisão social do trabalho: o pensamento de Karl Marx
Karl Marx realizou grande contribuição para a evo-

Victor Soares/www.radiobras.gov.br,
lução da sociologia do trabalho. Ele foi um importante
estudioso do trabalho na sociedade e suas obras são
referência fundamental para todos aqueles que buscam
conhecer a realidade social do trabalho na história hu-
mana.
Para Marx o ser humano vive em sociedade, nela
se realiza também por meio de sua produção mate-
rial e para tanto precisa dividir as tarefas de forma a
viabilizar essa produção. A mercadoria é o produto
do trabalho humano, objeto externo que satisfaz as
necessidades humanas de qualquer espécie. Nesse
processo, Marx destaca o papel da força de trabalho
diante da produção de mercadorias. A força de trabalho pode ser definida como o
conjunto das capacidades físicas e espirituais que existem na corporalidade, na per-
sonalidade viva de um homem e que ele põe em movimento toda vez que produz
mercadorias.
Segundo Marx, o trabalho na sociedade industrial torna o operário um indivíduo
parcial, pois ocorre uma fragmentação do trabalho, durante o processo de produção,
em que o indivíduo passa por um processo de redução humana, tornando-se compa-
rável a uma máquina. Por outro lado, o operário perde a capacidade criativa, perde a
capacidade de dominar o processo de produção das mercadorias, tornando-se o que
Marx vai chamar de alienado. Para estudar essa relação Marx desenvolveu uma teoria
sobre a divisão social do trabalho que introduz o fenômeno da alienação — meca-
nismo pelo qual o trabalhador é expropriado dos resultados produzidos pelo próprio
trabalho.
Ainda para Marx o trabalho na sociedade capitalista é mais complexo do que o existen-
te nas sociedades anteriores. A riqueza produzida por meio do trabalho, no capitalismo,
ocorre de forma coletiva. O problema levantado por Marx está no fato de que a apropria-

UNIDADE 6
ção dessa riqueza ocorre de forma individual o que provoca e aprofunda o processo de
concentração de poder e riqueza, ao mesmo tempo criando pobreza e exclusão social.
A divisão social do trabalho é um processo fundamental para compreender a posi-
ção de cada indivíduo diante do mundo do trabalho. É na divisão social do trabalho
que o individuo estabelece relações com outros indivíduos, e nessa relação constrói
vínculos sociais. Ao mesmo tempo, as relações sociais estabelecidas pelo trabalho,
estruturam as relações de dominação e poder na sociedade.
Karl Marx pode ser considerado o maior crítico da divisão social do trabalho capitalista,
afirmando tratar-se de uma relação de dominação dos proprietários dos meios de produção
(burgueses) sobre aqueles que vendem a força de trabalho (proletários).
As relações sociais que são produzidas a partir do trabalho adquirem o caráter histó-
rico de dominação, porque durante o seu desenvolvimento humano o trabalho produziu
duas dimensões, a primeira relacionada à evolução social, benefícios e avanços para a
sociedade como um todo. A segunda dimensão considera que o trabalho se constituiu,
numa relação que expressa poder e dominação entre os grupos sociais.

125
SOCIOLOGIA  O mundo do trabalho

7. A Organização Internacional do Trabalho (OIT) relata a existência de trabalho escravo ain-


da no século XXI.
[...] Um pequeno agricultor do interior é recrutado para trabalhar numa planta-
ção distante de sua área de origem durante a época da colheita. O recrutador
oferece ao agricultor um adiantamento em dinheiro, sendo que o agricultor
concorda em pagar sua dívida trabalhando na plantação. Já trabalhando na
plantação, o pequeno agricultor tem que comprar comida e outros bens no ar-
mazém da fazenda, todos com preços inflacionados. Ele ou ela endivida-se cada
vez mais, e um círculo vicioso de escravidão por dívida começa. Nenhum sindi-
cato participa desse processo para dar assistência aos trabalhadores – eles estão
isolados e não têm a quem recorrer. Na colheita do próximo ano, o trabalhador
talvez traga sua família, desse modo, ele aumenta a rede do trabalho forçado
e priva seus filhos do direito de ir à escola, por exemplo. Um tipo parecido de
escravidão por dívida existe em sociedades rurais tradicionais dominadas por
grandes proprietários de terra. Em outros casos, envolve o comércio de crianças.
Esses tipos de trabalho forçado se alimentam da pobreza e do desconhecimen-
to que perpetuam a prática.
OIT. Combate ao trabalho escravo. Disponível em: <http://www.ongprojetocidam.org.br/arquivos_upload/Pergun-
tas%20e%20respostas%20-%2019,9%20kb.htm>. Acesso em: 10 jan. 2011.

a) Faça uma pesquisa em jornais e revistas sobre reportagens que abordem o problema do
trabalho escravo no Brasil atual, identificando suas características e as principais regiões de
ocorrência.
b) Como é possível relacionar o conceito de alienação, formulado por Karl Marx, às formas de
trabalho contemporâneas?
c) Participe de um debate com seus colegas de turma tendo por tema as relações de trabalho
no Brasil contemporâneo, com ênfase naquelas que estão às margens da legislação.

Organização do trabalho no Taylorismo/Fordismo e Toyotismo


Em função do processo de divisão social do trabalho, surgiram algumas formas de
administração nas indústrias. O trabalho na sociedade industrial capitalista foi pautado
pelo uso intensivo da racionalidade, dando origem ao campo científico da administra-
ção. A partir dessa racionalidade gerencial foi possível alcançar uma produtividade no
trabalho cada vez maior, com o objetivo de desenvolver formas e práticas de trabalho
que buscassem produzir cada vez mais em tempo cada vez menor. Pode-se dizer que
nesse sistema o rendimento do trabalhador deveria ser a todo o momento maximizado.
Deve-se considerar que o grande desenvolvimento do capitalismo industrial, a partir do
século XIX e XX, ocorreu a partir do momento em que o trabalho passou a ser pensado
cientificamente.
Fotográfo desconhecido/Literary Digest; commons.wikimedia.org

126
O fordismo surgiu a partir do início do século XX, sua principal concepção teórico-prática era a pro-
dução em massa de mercadorias, nesse caso o automóvel Ford. Foram implementadas várias inovações
técnicas cujo objetivo era aumentar drasticamente a produção e ao mesmo tempo reduzir o custo do
produto. Para que isso ocorresse seria necessário criar uma cultura gerencial pautada pela eficiência e
disciplina constante na execução das tarefas por parte dos trabalhadores.

O taylorismo e o fordismo
[...] A abordagem de Taylor ao que ele denominou gerenciamento científico envolvia
o estudo detalhado dos processos industriais, a fim de dividi-los em operações simples,
que pudessem ser cronometradas e organizadas com precisão. De acordo com Taylor,
cada tarefa pode ser examinada rigorosa e objetivamente a fim de determinar “a melhor
maneira” de executá-la.
O taylorismo, como gerenciamento científico veio a ser chamado, não foi apenas um
estudo acadêmico – seu impacto difundiu-se sobre a organização da produção e da tec-
nologia industriais. Muitas fábricas passaram a empregar as técnicas tayloristas a fim de
maximizar o output industrial e aumentar o nível de produtividade dos trabalhadores. Os
empregados eram monitorados de perto pela gerência para assegurar a conclusão rápida e
precisa do trabalho, seguindo as especificações exatas transmitidas pelos superiores. Com
o intuito de estimular a eficiência no trabalho, introduziu-se um sistema de pagamento
de incentivos, por meio do qual os ordenados dos trabalhadores correspondiam aos seus
índices de produtividade.
Taylor preocupava-se em melhorar a eficiência industrial, mas deu pouca importância
às consequências de tal eficiência. A produção em massa exige mercados em massa: foi
o industrial Henry Ford quem primeiro percebeu essa ligação. O fordismo – uma extensão
dos princípios de gerenciamento científico de Taylor – é o termo utilizado para designar o
sistema de produção em massa atrelado ao desenvolvimento dos mercados em massa.
Ford projetou sua primeira fábrica de automóveis em Highland Park, no Michigan, em
1908, para fabricar apenas um produto – o Ford Modelo T –, permitindo assim a introdu-
ção de ferramentas e maquinário especializados projetados para a velocidade, a precisão

UNIDADE 6
e a simplificação da operação. Em que o taylorismo se concentrou em encontrar o modo
mais eficiente de completar tarefas distintas, o fordismo avançou mais uma etapa, unindo
essas tarefas isoladas dentro de um sistema de produção contínua, corrente. Uma das
inovações mais significativas de Ford foi a construção de uma linha de montagem com
esteira rolante. Cada empregado da linha de montagem de Ford especializava-se em uma
tarefa, como colocar a maçaneta da porta do lado esquerdo enquanto as carrocerias dos
carros deslizassem ao longo da linha. Até 1929, quando cessou a produção do Modelo
T, mais de 15 milhões de carros haviam sido produzidos.
GIDDENS, Anthony. Sociologia. 4. ed. Porto Alegre: Artmed, 2005. p. 312.

8. No taylorismo/fordismo existe a preocupação de melhorar a eficiência industrial e nesse


processo intensifica-se a alienação do trabalhador, com a crescente perda da criatividade e do
domínio sobre o processo de produção de mercadorias.

Copyright (c) 1997 POR Thaves. Distribuido em www.thecomics.com.

a) Que características de organização do trabalho são representadas pela charge? Por que elas
levam o personagem a desconhecer a atividade que realiza?
127
SOCIOLOGIA  O mundo do trabalho

b) O controle da linha de produção pode ser relacionado com dominação e poder? Argumen-
te.
c) Que tipo de relação existe entre a tecnologia e o ser humano, no mundo do trabalho.

Toyotismo: origem e características


Nos anos 50, relata Wood Jr. (1992), o engenheiro japonês Eiji Toyoda passou al-
guns meses em Detroit para conhecer a indústria automobilística americana, sistema
dirigido pela linha fordista de produção, no qual o fluxo normal é produzir primeiro
e vender depois, quando já dispunham de grandes estoques. Toyoda ficou impressio-
nado com as gigantescas fábricas, a quantidade de estoques, o tamanho dos espaços
disponíveis nas fábricas e o alto número de funcionários. Para ele, naqueles moldes,
seu país, arrasado por um período pós-guerra, não teria condições de desenvolver uma
forma semelhante de produção.
Relatou isso quando escreveu à sede de sua empresa, dizendo que ia ser necessária uma
nova forma de organização do trabalho, mais flexível e que exigisse menor concentração
de estoques, pois sabia que o Japão possuía um mercado pequeno, capital e matéria-prima
escassos, “[...] a compra de tecnologia no exterior era impossível e a possibilidade de
exportação era remota”. (WOOD JR., 1992).
Para conseguir competir, então, nos grandes mercados, a Toyota precisaria modificar
e simplificar o sistema da empresa americana Ford. Na procura de soluções para esse
encaminhamento, Toyoda e seu especialista em produção, Taichi Ohno, iniciaram um
processo de desenvolvimento de mudanças na produção. Introduziram técnicas em que
fosse possível alterar as máquinas, rapidamente, durante a produção, para ampliar a oferta
e a variedade de produtos, pois para eles era nisso que se concentrava a maior fonte de
lucro. Obtiveram excelentes resultados com essa ideia e ela passou a ser a essência do
modelo japonês de produção.
O espaço para armazenamento da produção era outro obstáculo para os japoneses,
por isso, as mercadorias deveriam ter giro rápido, e a eliminação de estoques, ainda que
parecesse impossível, estava nos projetos de Toyoda. A partir de então, regras criteriosas
foram incorporadas gradativamente à produção, caracterizando o que passou a se chamar
toyotismo (ou Ohnismo, devido aos nomes Toyoda e Ohno). Partiram do princípio de que
qualquer elemento que não agregasse valor ao produto deveria ser eliminado, pois era
considerado desperdício e classificaram o desperdício em sete tipos principais: tempo
que se perdia para consertos ou refugo, produção maior do que o necessário, ou antes
do tempo necessário, operações desnecessárias no processo de manufatura, transporte,
estoque, movimento humano e espera.
A partir do princípio acima citado, planejou-se um modelo de produção composto por:
automatização, just-in-time, trabalho em equipe, administração por estresse, flexibilização
da mão de obra, gestão participativa, controle de qualidade e subcontratação. [...]
FUTATA, Marli Delmônico de Araújo. Breve análise sobre o toyotismo: modelo japonês de produção. Revista Espaço Acadêmico,
n. 47, abr. 2005. Disponível em: <http://www.espacoacademico.com.br/047/47cfutata.htm>. Acesso em: 10 jan. 2011.

128
9. A reestruturação produtiva exige uma nova configuração de trabalhador: polivalente, com
experiência de atuação técnica e intelectual, apto a inserir-se no mercado de trabalho por ter
flexibilidade de adaptação e grande comprometimento com a empresa e seus objetivos.

DUAS LINHAS DE MONTAGEM


A eficiência do sistema Toyota de produção, que reduz estoques pela metade
e aumenta a produção em 40%, levou empresas de diversas áreas a substituir
o modelo introduzido por Henry Ford.

FORDISMO TOYOTISMO
Em 1908, o americano Indústrias de
Henry Ford iniciou a diversos setores
fabricação do modelo adotaram o
T em escala industrial. sistema Toyota
Era o começo da linha de produção para
de produção. ganhar eficiência.

1 Defeitos no produto só eram identificados no final da linha


de produção.
1 Os operários interrompem a produção a qualquer
momento para consertar falhas.

2 Ao seu
empresa fabricava muitas das peças que compunham
produto.
2 A maioria das peças é feita por outras companhias, os
fornecedores.
O estoque é mínimo. Os fornecedores entregam as peças
3 Para não faltar peças, elas eram produzidas
em excesso, gerando estoques.
3 quando a companhia as solicita.
O operário-modelo é aquele que identifica problemas
4 Odiretrizes
operário-modelo era aquele que melhor obedecia às
de seus superiores. 4 e propõe soluções.
O funcionário devia se preocupar apenas com as tarefas O funcionário deve se preocupar com a aplicação que o
5 imediatas. 5 produto terá depois de vendido.

6 Aengenheiros.
empresa devia executar os projetos feitos pelos seus
6 A empresa deve planejar a produção de modo a atender
aos desejos de seus clientes.
Fonte: Consultoria Dario Miyake, da Fundação Vanzolini

a) Compare as características dos dois modelos produtivos, considerando as relações de tra-


balho que se estabelecem a partir delas. Quais as vantagens e desvantagens para o traba-

UNIDADE 6
lhador em cada um dos casos?
b) As características do taylorismo/fordismo e do toyotismo podem ser identificadas atual-
mente no mundo do trabalho? Discuta a questão com seus colegas de turma, procurando
exemplos próximos do seu cotidiano.

Globalização, emprego, desemprego e precarização do trabalho


Ao considerarmos que o trabalho é a principal forma de ação humana e que possibi-
lita sua existência, devemos refletir sobre como sua ausência pode acarretar profundas
dificuldades para o desenvolvimento de uma sociedade.
[S.I.]/The New York Times

129
SOCIOLOGIA  O mundo do trabalho

Inúmeros países enfrentaram grandes crises econômicas e, em decorrência disso, caíram


em profunda recessão e não conseguiram gerar empregos em quantidade suficiente para
a população. Isso significa afirmar que com a crise econômica há diretamente uma crise
social ampliada, com a alteração dos processos internos da sociedade. Trata-se de um
verdadeiro flagelo social que se instala na sociedade; vários economistas são unânimes em
afirmar que o desemprego é hoje um dos maiores problemas que a humanidade enfrenta.
Além de produzir graves crises sociais, o desemprego precariza o trabalho, pois quando
há um grande contingente de trabalhadores desempregados o valor dessa mão-de-obra
reduz-se drasticamente juntamente com os salários.
O fenômeno da globalização trouxe benefícios para a chamada ampliação do ca-
pital e prejuízos para o mundo do trabalho. Ocorreu uma precarizacão do trabalho
em várias dimensões, inicialmente sob a forma de desemprego, — pela racionalização
e uso cada vez mais intensivo da tecnologia com base robótica — e também com a
chamada terceirização da mão de obra, — o estabelecimento das relações de trabalho
na forma temporária.
Do ponto de vista do trabalhador a terceirização trouxe inúmeros prejuízos, entre
eles a instabilidade no emprego, uma vez que no mercado de trabalho globalizado a
estabilidade depende da competição entre as empresas que buscam escala mundial
para sua produção. A forte concorrência entre as empresas em escala global estabe-
lece formas de trabalho cada vez mais frágeis em que os vínculos entre trabalhador e
empresa passam a ser impessoais. Para economistas e sociólogos do trabalho há um
novo paradigma em xeque a partir da economia globalizada. O trabalho chamado de
‘’chão de fábrica’’ passa a ser substituído pelo trabalho gerado pela economia da in-
formação. As relações de trabalho são alteradas e a indústria de transformação perde
espaço para a tecnologia da informação, segundo o que dizem os especialistas nos
trechos da entrevista abaixo.

Jornal da Unicamp – A crise do trabalho e do emprego


Entrevista com o economista Marcio Pochmann (IE) e o sociólogo Ricardo Antunes
(IFCH) que analisam a centralidade do trabalho no mundo contemporâneo, falam sobre
o papel do Brasil, nesse contexto, e especulam por que o capitalismo segue crescendo
sem a correspondente geração de empregos.
Assistimos no universo do trabalho ao advento de novas tecnologias e de áreas do co-
nhecimento até então inexploradas. Ao mesmo tempo, observa-se o declínio das atividades
chamadas de “chão da fábrica”, relegando a atividade industrial a um plano secundário, e
o surgimento de atividades – algumas marcadas pela virtualidade – que fogem ao figurino
do que se convencionou chamar de “emprego”. Que análise o senhor faz da centralidade
do trabalho hoje?
Marcio Pochmann – Estamos diante de uma falsa disjuntiva que vem sendo colocada
pelo pensamento dominante. Ela pressupõe o seguinte: que os trabalhadores aceitem os
empregos possíveis gerados pela nova ordem econômica internacional ou, do contrário,
a alternativa é o desemprego. De uma certa forma, a sociedade está um pouco paralisada
diante desse falso impasse.
[...] Estamos ingressando num capitalismo pós-industrial em que a produtividade é
cada vez mais sustentada no trabalho imaterial. Estamos falando de atividades do setor
terciário, não mais fortemente vinculadas ao setor agrícola, pertencente ao segmento
primário, e às atividades secundárias – como a indústria, por exemplo. São atividades
em que a organização do trabalho é muito diferente. Não é mais o relógio que organiza
decisivamente o tempo de trabalho. Estamos diante de uma outra forma de organização, já
que, o trabalho imaterial está submetido a um regime de maior intensificação. Passamos a

130
conviver, por exemplo, com novas doenças profissionais que são evidentemente situações
de agravamento desse estado de coisas. [...]
Ricardo Antunes – É importante destacar que o mundo do trabalho, não só no Brasil,
mas em escala global, não é hoje unitendencial, mas politendencial ou multitendencial.
Os teóricos do fim do trabalho, essa tese unidimensional de meados dos anos 1980,
equivocaram-se ao dizer que o trabalho estava em vias de desaparição. [...] Eu diria que
sua centralidade hoje se coloca em vários planos. Primeiro: uma tendência prevalente a
não se ter mais o trabalho de que falava Taylor – manual e físico. Estamos numa era em
que o trabalho passa a ser gerador de valor nas suas múltiplas facetas. O dado novo são
aqueles trabalhos que trazem dentro de si níveis de informação – certos nexos de traba-
lho intelectual e até mesmo imaterial – que passam a agregar valor. É sintomático que
o slogan da fábrica da Toyota, na cidade japonesa de Takaoka, seja “bons pensamentos
significam bons produtos”. Um traço importante é que o capital supriu a crise da indústria
taylorista e fordista, a partir de uma nova engenharia produtiva, chamada empresa flexível,
liofilizada, que reduz muito, mas não pode viver sem alguma modalidade de trabalho
humano vivo. Entretanto, aquele trabalhador que nela permanece labora em todas as di-
mensões, manual e intelectual, física e cognitiva. As empresas o chamam de “parceiros,
colaboradores e consultores”. São formas falaciosas que passam a ideia de que ele é um
partícipe, um sócio, um parceiro.[...]
Jornal da Unicamp. Campinas, 9 a 15 de abril de 2007 – ANO XXI – Nº 354. Disponivel:http://www.unicamp.br/unicamp/
unicamp_hoje/jornalPDF/ju354pag06.pdf (Acesso em 04 ago 11)

10. Na lógica do mundo globalizado o trabalhador pode estar inserido no mundo das corporações
empresariais que ampliam suas atividades e formas de atuação em um mercado sem fronteiras terri-
toriais. Após a leitura do texto, realize as atividades propostas.

Movendo-se no mundo x o mundo que se move


[...] No Guardian de 10 de novembro de 1997, Larry Elliot cita Diane Coyle, autora de
The Weightless World, que discorre sobre os prazeres que pessoalmente lhe proporciona
o flexível e admirável mundo novo da computação eletrônica com sua alta velocidade e

UNIDADE 6
mobilidade:
“Para pessoas como eu, uma economista e jornalista, instruída e bem paga, com uma
dose de espírito empreendedor, a nova flexibilidade do mercado de trabalho do Reino
Unido revelou oportunidades maravilhosas.” Mas alguns parágrafos adiante a mesma au-
tora admite que para “pessoas sem qualificações condizentes, sem os adequados recur-
sos de família ou economias suficientes, a crescente flexibilidade acaba significando uma
exploração ainda maior pelos empregadores...” Coyle diz que o recente alerta de Lester
Thurow e Robert Reich sobre o perigo crescente do abismo social cada vez maior nos EUA
entre “uma rica elite enfurnada em condomínios vigiados” e “uma minoria sem trabalho
e empobrecida” não deveria ser tratado com leviandade por aqueles que se aquecem ao
sol da nova flexibilidade do mercado de trabalho britânico... .
Agnes Heller conta que, num dos seus voos de longa distância, conheceu uma mulher
de meia-idade, empregada de uma empresa de comércio internacional, que falava cinco
línguas e possuía três apartamentos em três lugares diferentes.
Ela migra, constantemente, entre diversos lugares e sempre está para cima e para
baixo. E faz isso por conta própria, não como membro de uma comunidade qualquer, em-
bora muitas pessoas façam como ela... O tipo de cultura de que participa não é a cultura
de um determinado lugar, mas a de um tempo. É a cultura do presente absoluto.
Sigamos com ela em suas constantes viagens de Cingapura para Hong Kong, Lon-
dres, Estocolmo, New Hampshire, Tóquio, Praga e assim por diante. Sempre se hospeda
no mesmo hotel Hilton, come o mesmo sanduíche de atum no almoço ou, se preferir,
131
SOCIOLOGIA  O mundo do trabalho

comida chinesa em Paris e comida francesa em Hong Kong. Usa o mesmo tipo de fax,
telefone e computador em todo lugar, vê sempre os mesmos filmes e discute os mesmos
problemas com o mesmo tipo de gente.
BAUMAN, Zygmunt. Globalização: as consequência humanas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999. p. 98-99.

a) Realize uma pesquisa sobre o processo de flexibilização das relações trabalhistas a partir
da globalização, para discutir o argumento do texto segundo o qual a flexibilização pode
significar, para algumas pessoas, estar sujeito a maior exploração pelos empregadores.
b) Debata com seus colegas a seguinte questão: em um mundo globalizado os indivíduos
criam relações sociais marcadas pela homogeneização de hábitos e costumes.
c) Faça uma pesquisa sobre marcas e produtos que podem ser encontrados em vários países
do mundo. É possível identificar valores sociais associados a marcas e produtos? Monte um
painel, indicando as similaridades identificadas e apresente para a turma.

Trabalho infantil
O trabalho infantil é uma das características do mundo globalizado, ele pode ser en-
contrado em várias partes do mundo, inclusive no Brasil. Essa forma de trabalho revela
que há grupos sociais que se encontram em situação de abandono e de vulnerabilidade.
É uma marca de sociedades em que as políticas de Estado para a superação e erradicação
da pobreza não conseguem resultado satisfatório.
O trabalho infantil se constitui como um problema social presente em várias regiões
do território brasileiro, além de ser considerado crime na legislação nacional e principal-
mente diante da Lei 8.069/1990, Estatuto da Criança e do Adolescente. A atual legislação
proíbe crianças com idade abaixo de 14 de realizarem formas de trabalho que possam
ser caracterizados como trabalho infantil. Acima dos 14 anos de idade permite-se exercer
atividade de trabalho apenas como menor aprendiz.
O trabalho infantil pode ser compreendido como toda forma de trabalho realizado
por crianças e adolescentes com idade abaixo daquela estabelecida pela legislação. A
gravidade de o trabalho infantil ser uma realidade no Brasil está no fato de que tanto
crianças quanto adolescentes que vivem essa realidade, na grande maioria das vezes,
deixam de frequentar a escola. As consequências sociais que o trabalho infantil acarreta
para a sociedade podem produzir homens e mulheres que ao protagonizar essa forma de
trabalho não lograram a uma qualificação educacional.

11. O Estatuto da Criança e do Adolescente garante os direitos da criança e do adolescente


no Brasil.
a) Elabore uma entrevista e aplique-a junto aos professores e funcionários de seu colégio com
as seguintes questões:
• Os direitos da criança e do adolescente são respeitados em nossa sociedade?
• O ECA atende a todos os direitos e deveres das crianças e adolescentes?
• As necessidades da família de hoje são atendidas pelo ECA?
• Você é a favor ou contra o trabalho infantil? Por quê?
b) Sistematize as questões e faça uma apresentação para seus colegas. Ilustre a apresentação
com reportagens retiradas de jornais e revistas, envolvendo questões sobre o trabalho in-
fantil.

132
Trabalho informal
Outra realidade existente no Brasil é o trabalho informal. Normalmente, quando
um indivíduo é contratado, ele tem um registro na carteira de trabalho, recebendo os
direitos trabalhistas, por meio do pagamento de taxas ao governo pela empresa e por
ele próprio. Aqueles indivíduos que não são registrados pelas empresas, mas assumem a
posição de profissionais autônomos, também se qualificam como trabalhadores formais,
desde que façam o recolhimento das taxas necessárias. Entretanto, há uma parcela sig-
nificativa de trabalhadores brasileiros que não se enquadram nesse tipo de trabalho, são
os trabalhadores informais. Eles não têm vínculo empregatício com nenhuma empresa
e não recolhem taxas ao governo.

Trabalho informal no Brasil cai ao menor nível da história


Rio de Janeiro – O número de trabalhadores informais no Brasil caiu em 2009 para o
nível mais baixo da história e a renda deles chegou ao maior valor em 14 anos, segundo
um estudo divulgado hoje pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad), com base em dados apresentados
em 2009, indicou que o Brasil tinha, no ano passado, 54,3 milhões de trabalhadores.
Desses, 59,6% tinham carteira assinada, 28,2% eram informais e os 12,2% restantes
eram militares ou funcionários públicos.
A porcentagem de trabalhadores formais é recorde histórico, bem como o de informais,
que em 2004 representavam 33,1% do total.
A informalidade caiu também entre os empregados domésticos, setor que envolve 7,2
milhões de pessoas, dos quais 2 milhões ainda careciam de garantias trabalhistas em 2009.
Para o estudo, foram entrevistadas 399 387 pessoas em 153 837 domicílios, dos cerca
de 58,6 milhões existentes no país.
A pesquisa também detectou um aumento da renda real dos trabalhadores e uma redução
da concentração de renda no índice de Gini, de 0,521 em 2008 para 0,518 em 2009.

UNIDADE 6
[...]
Apesar desses avanços, o número de desocupados subiu de 7,1 milhões de pessoas
em 2008 para 8,4 milhões em 2009, como consequência da crise, mas os economistas
consideram que esse número voltou a cair porque o país voltou a crescer.
A taxa de desemprego subiu de 7,1% da população economicamente ativa (101,1 mi-
lhões) em 2008 para 8,3% em 2009, pondo fim a uma sequência de três anos de queda
do indicador.
A renda mensal média dos trabalhadores no ano passado era de R$ 1 106, valor 20%
mais em termos reais que em 2004.
Embora a renda média das mulheres tenha crescido pelo quinto ano consecutivo, no
ano passado, ainda representava 67,1% da remuneração dos homens. Ainda assim, elas
constituíam 51,3% da população em idade ativa, mas apenas 42,6% dos ocupados e
58,3% dos desempregados.
TRABALHO informal no Brasil cai ao menor nível da história. Uol Economia, 8 set. 2010. Disponível em: <http://economia.uol.
com.br/ultimas-noticias/efe/2010/09/08/trabalho-informal-no-brasil-cai-ao-menor-nivel-da-historia.jhtm>. Acesso em: 11 jan.
2011. (Adaptado).

12. Reúna-se em grupo para discutir sobre os fatores que favorecem a manutenção do tra-
balho informal no Brasil. Após a conversa, redijam um texto argumentativo, apresentando e
contextualizando alguns desses fatores. 133
SOCIOLOGIA  O mundo do trabalho

CIÊNCIA E TECNOLOGIA
DESEMPREGO Como sair dessa?

Entrevista publicada na edição 346, maio de 2004.

A realidade do (des) emprego mexe com a vida dos jovens. A vida familiar,
o estudo, os projetos de futuro são afetados diretamente pela situação de
instabilidade do trabalho em que o Brasil e o mundo se encontram. A antropóloga
Regina Novaes, analisa a situação e aponta caminhos para os jovens que estão
à procura de emprego.

Mundo Jovem: No contexto atual, como o jovem se relaciona com a questão


do trabalho, emprego?

Regina: Os jovens entre 14 e 25 anos estão encontrando, na verdade, um


mercado de trabalho muito mutante, muito restritivo. Sempre houve mudanças
no mercado de trabalho, mas nestes últimos anos, os jovens vão encontrar um
momento pós-industrialização; um momento em que o mundo está com outras
formas de produção, que não são a planta da fábrica e um deslocamento,
inclusive, das relações de trabalho. Então, esses jovens já crescem com uma
experiência anterior, quer dizer, a de seus pais ou dos adultos com quem
vivem de perto: o desemprego. A característica do desemprego já faz parte
da experiência dessa geração. Não só o discurso sobre o desemprego, mas
também, uma experiência mais pessoal, próxima. Esse jovem, então, já está
com a questão do mercado de trabalho colocada como um desafio, como
uma dificuldade de pensar o futuro. Foi feita uma pesquisa no Rio de Janeiro,
muito interessante, constatando que a questão do desemprego afeta todas
as classes sociais. É claro que o discurso é diferente: uma coisa é você falar
de desemprego sendo jovem pobre e morar numa periferia, numa favela,
ser negro ou ser mulher; outra coisa é ser uma pessoa de classe média,
branca, com estudo. O discurso é diferente, mas todos se preocupam com o
desemprego. Entre os medos dos jovens está o medo do desemprego. É claro
que as formas são diferentes. Vai ter gente com medo de não estudar, não ter
o mínimo para poder entrar no mercado de trabalho; como outros que vão
achar que mesmo estudando não vão entrar no mercado de trabalho assim
mesmo; como vai ter outros que têm medo de estudar, entrar no mercado
de trabalho e ser despedido em seguida.

Mundo Jovem: Mas, os jovens mais pobres sofrem mais com o desemprego?

Regina: No caso dos jovens mais pobres, particularmente, há uma coisa


nova. É que além dos elementos de desigualdades sociais que já marcam
o jovem para entrar no mercado de trabalho, que são elementos clássicos,
que a gente já conhece (a cor, gênero, ter ou não ter estudo), tem um

134
outro elemento, que é o local de moradia.Como 80% dos jovens estão na
cidade, hoje, e se a cidade não tiver um planejamento urbano, então você
vai ter justamente todas as periferias inchando em relação à cidade. Aí vai
existir um jovem, se for uma área pobre e violenta, com um novo tipo de
discriminação, que a gente chama de discriminação por endereço. Então
o jovem, além de ter que lidar com a questão de não ter estudado, com a
discriminação racial, de gênero, tem que lidar também com a discriminação
por endereço. Muitas vezes, na hora em que ele vai ser escolhido, em que
vai disputar um posto de trabalho, ele vai perder, porque mora em tal lugar.
Não é só porque ele tem que viver numa periferia, numa favela, numa vila
que ele seja um bandido em potencial. Isso é porque a cidade criminaliza
espaços sociais, onde geralmente convive pobreza e narcotráfico.

Mundo Jovem: Diante do desemprego que preocupa os jovens, que reação


você propõe?

Regina: O que nós temos, de acordo com o próprio mercado de trabalho de


hoje, são várias combinações, várias vocações regionais e locais. Eu acho que
é preciso que esse jovem reaja ao desemprego de acordo com o lugar onde
ele está ou para onde ele quer ir. Se ele está numa área de industrialização,
onde têm grandes empresas, acho que este jovem tem que procurar entrar
nessas empresas com os direitos trabalhistas que foram ganhos no processo
das lutas sociais, no caso do Brasil. Mas é possível que estes jovens descubram
também outras vocações locais. Como falamos antes, em áreas que são vistas
como violentas e pobres, o que é possível o jovem fazer se quiser continuar
naquele lugar? Acho que ele não tem que ficar confinado ao lugar em que
mora, mas se ele deseja ficar, quer apostar naquele lugar, tem que tentar
descobrir vários tipos de vocações lá. Aí entra tudo o que a gente dispõe de
economia solidária, empreendorismo juvenil, coempreendimento. O nome vai

UNIDADE 6
variando, mas a gente vai pensando como o jovem pode se juntar, descobrir
demandas locais e transformá-las em ofertas de produtos e serviços. O
turismo ecológico também tem entrado nessa linha; também a área cultural,
ou seja, nós temos um momento no qual o jovem pode inventar profissões.
E isto de inventar profissões não está ligado ao delírio, mas está ligado a
descobrir potencialidades locais que não foram exploradas nesse modelo de
desenvolvimento que nós temos, que podem ser exploradas para construir
uma alternativa de produção de renda, onde você possa colocar também o
desejo do jovem, o que ele valoriza.

Disponivel em: <http://www.pucrs.br/mj/entrevista-05-2004.php>. Acesso em: 05 ago. 2011.

135
SOCIOLOGIA  O mundo do trabalho

O FUTURO EM JOGO

1. (FGV, 1997) Observe os itens abaixo como análises do desenvolvimento capitalista:

I. A Revolução Industrial significou uma revolução tecnológica, correspondendo à passagem do uso das
ferramentas às máquinas, da energia humana à motriz, do sistema doméstico ao fabril.
II. No capitalismo mais avançado do século XX, de uma maneira geral, é a produção em larga escala que
comanda o mercado, criando as necessidades de consumo e os consumidores.
III. A tendência mundial, nas duas últimas décadas do século XX, é a de aumentar a importância do Estado
não só como planejador, mas como produtor direto.
IV. A crise do final da década de 70 e dos anos 80 provocou um rearranjo e um movimento generalizado
na direção de um novo modelo de crescimento capitalista global. A reorganização da base produtiva
apoiou-se na abertura de novos setores de investimentos, ligados à informática, à biotecnologia, à
química fina, entre outros.
Quais dos itens acima estão corretos:
A) Todos os itens.
B) Os itens I e IV.
C) Os itens I, II e IV.
D) Os itens I e II.
E) Os itens I, III e IV.

2. (UEL, 2007) Segundo Braverman:


O mais antigo princípio inovador do modo capitalista de produção foi a divisão manufatureira
do trabalho [...]. A divisão do trabalho, na indústria capitalista, não é de modo algum idêntica ao
fenômeno da distribuição de tarefas, ofícios ou especialidades da produção [...]. (BRAVERMAN,
H. Trabalho e capital monopolista. Tradução Nathanael C. Caixeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 1981.
p. 70.)

O que difere a divisão do trabalho na indústria capitalista das formas de distribuição anteriores do
trabalho?
A) A formação de associações de ofício que criaram o trabalho assalariado e a padronização de processos
industriais.
B) A realização de atividades produtivas sob a forma de unidades de famílias e mestres, o que aumenta a
produtividade do trabalho e a independência individual de cada trabalhador.
C) O exercício de atividades produtivas por meio da divisão do trabalho por idade e gênero, o que leva à
exclusão das mulheres do mercado de trabalho.
D) O controle do ritmo e da distribuição da produção pelo trabalhador, o que resulta em mais riqueza para
essa parcela da sociedade.
E) A subdivisão do trabalho de cada especialidade produtiva em operações limitadas, o que conduz ao au-
mento da produtividade e à alienação do trabalhador.

136
CONECTE-SE

FILMES
• Fábrica de Loucuras, EUA, 1986.
Essa comédia mostra o choque cultural entre o ocidente e o oriente. Uma empresa localizada
em uma pequena cidade dos Estados Unidos é fechada, boa parte dos moradores da cidade tra-
balha nela. Um dos funcionários vai até o Japão para negociar a reabertura da empresa, e, dessa
forma, consegue o objetivo. Porém, a forma de trabalhar dos japoneses é totalmente distinta da
dos norte-americanos, por isso houve grandes conflitos.

• Tempos modernos, EUA, 1936.


Um dos filmes clássicos de Charles Chaplin, que põe em evidência a vida urbana nos EUA,
após a crise de 1929. Com muito humor e crítica, Carlitos, o personagem principal, transita
entre o mundo da fábrica, caracterizada pela linha de montagem e alta especialização das
atividades, a resistência operária, a prisão e a marginalização, dentre outras situações que
marcam o contexto social em que vive.

• Eles não usam Black-tie, Brasil, 1981.


Em São Paulo, em 1980, o jovem operário Tião e sua namorada Maria decidem se casar
ao saber que a moça está grávida. Ao mesmo tempo, eclode um movimento grevista que
divide a categoria metalúrgica. Preocupado com o casamento e temendo perder o emprego,
Tião fura a greve, entrando em conflito com o pai Otávio, um velho militante sindical, que
passou três anos na cadeia, durante o regime militar.

Divulgação/Editora Original
LIVRO
• Mamãe vai trabalhar e volta já
Autora: Inês de Castro
Editora: Original
Esse livro apresenta histórias de algumas mães que não querem abdicar
do seu papel maternal, mas também querem desenvolver carreiras

UNIDADE 6
profissionais. O livro apresenta as possibilidades de conciliar os dois papéis
femininos, diminuindo os conflitos e obtendo sucesso. É muito interessante
para a nova realidade das mulheres no mundo do trabalho!

XEQUE-MATE

1. Observe a imagem ao lado e reflita sobre o que


[S.I.]/United Artists

ela representa e a que contexto social se refere.


Elabore um vídeo com cenas de filmes que tratem
de processos produtivos e de sua transformação ao
longo da história do sistema capitalista, envolvendo
os seguintes assuntos:
a) Divisão do trabalho.
b) Processos produtivos fordista/taylorista e toyo-
tista.
c) Globalização.
d) Desemprego.

137
Caviar Eu só ouço falar
Você sabe o que é caviar? Mas você sabe o que é caviar?
Nunca vi, nem comi Nunca vi, nem comi
Eu só ouço falar Eu só ouço falar...
Você sabe o que é caviar? Geralmente
Nunca vi, nem comi Quem come esse prato
Eu só ouço falar... Tem bala na agulha
Caviar é comida de rico Não é qualquer um
Curioso fico Quem sou eu
Só sei que se come Prá tirar essa chinfra
Na mesa de poucos Se vivo na vala
Fartura adoidado Pescando muçum...
Mas se olhar pro lado Mesmo assim
Depara com a fome... Não reclamo da vida
Sou mais ovo frito Apesar de sofrida
Farofa e torresmo Consigo levar
Pois na minha casa Um dia eu acerto
É o que mais se consome Numa loteria
Por isso se alguém E dessa iguaria
Vier me perguntar Até posso provar
O que é caviar? Você sabe!...
Só conheço de nome... GRANDE, L. G.; JACAREZINHO, B. do;
DINIZ, M. Caviar. Intérprete: Zeca
Você sabe o que é caviar? Pagodinho. In: ZECA PAGODINHO.
Nunca vi, nem comi Deixa a vida me levar. Rio de Janeiro:
Universal Music, p2002. 1 CD. Faixa 7.
avlx
yz/Fl
ickr

Estratificação
social,

UNIDADE 7
desigualdades
e violência
DIÁLOGO E REFLEXÕES
Leia com atenção a letra da música.
• Relacione a pergunta “Você sabe o que é caviar?” com classes
sociais. É possível identificar a classe social de uma pessoa ou
de um grupo social por seus hábitos alimentares?
• O que a canção quer dizer com os versos “Geralmente/ Quem
come esse prato/ Tem bala na agulha/ Não é qualquer um”?
• Como você definiria classe social?

139
SOCIOLOGIA  Estratificação social, desigualdades e violência

EM FOCO
Brasil fica em 73º lugar entre 169 países
na lista de desenvolvimento humano da ONU
O Brasil ocupa a 73ª posição no ranking do IDH 2010 (Índice de Desenvolvimento
Humano), em uma lista que traz 169 países. A colocação indica que o país
apresenta desenvolvimento humano elevado, de acordo com relatório divulgado
nesta quinta pelo Pnud (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento). A
categoria superior a essa, e máxima, é a dos países de “desenvolvimento humano
muito alto”.
Segundo a Pnud, não é possível fazer uma comparação com o resultado brasileiro
em 2009. Isso porque, neste ano, o relatório traz o “novo IDH” calculado a partir
de metodologia e dados diferentes. O índice continua a ser composto por três
dimensões: educação, saúde e renda.
Na saúde, a variável usada ainda é a expectativa de vida, mas houve mudanças
nos dados relativos à educação e à renda.
O “IDH antigo” levava em conta a alfabetização e as matrículas no primário, ensino
médio e superior. O “novo IDH” é calculado com base nos “anos médios de estudo”
(número médio de anos de educação recebidos por pessoas com 25 anos ou
mais) e nos “anos esperados de escolaridade” (número de anos de escolaridade
que uma criança na idade de entrar na escola pode esperar receber).
Na dimensão renda, mais mudanças: o novo IDH passou a utilizar a RNB (Renda
Nacional Bruta) per capita, em vez do PIB (Produto Interno Bruto) per capita,
incluindo fatores como remessas do exterior e ajuda internacional.
De acordo com Francisco Rodríguez, chefe de pesquisa do Escritório do Relatório
de Desenvolvimento, em Nova York, o “novo IDH” recompensa desempenhos mais
equilibrados – países que crescem nas três dimensões (saúde, educação e renda)
conseguem “nota” melhor do que os países que só têm crescimento de renda, por
exemplo. Os EUA, por essa razão, foram beneficiados.
Para o Brasil, foram registrados 7,2 anos médios de estudo e 13,8 anos esperados
de escolaridade. A expectativa de vida ficou em 72,9 anos e a RNB per capita, em
US$ 10.607 (o valor do dólar é o ajustado pela paridade do poder de compra).
No ranking do IDH 2010, a Noruega é o país que aparece no topo, seguido
por Austrália e Nova Zelândia. Os Estados Unidos são o 4º da lista. Todos eles
apresentam desenvolvimento humano muito elevado, de acordo com o relatório
do Pnud.
Na América Latina, o país mais bem colocado no ranking é o Chile, que ocupa a 45ª
posição, seguido pela Argentina. O país com a pior colocação na lista completa é
o Zimbábue.
O relatório do Pnud calculou o “novo IDH” para o Brasil desde o ano 2000. Para
Flávio Comim, coordenador do relatório no Brasil, o país apresentou avanços
importantes em dez anos. “A expectativa de vida aumentou em quase 3 anos [de
70,19 anos para 72,93 anos]”, lembrou o pesquisador.
AJUSTE PELA DESIGUALDADE
O Relatório do Pnud deste ano trouxe também outras novidades, como o
IDH-D (IDH ajustado à desigualdade). Esse novo índice captou as perdas no
desenvolvimento humano, considerando as desigualdades na distribuição de
saúde, educação e rendimento em 139 países.

140
“O IDH-D também mostra o percentual do IDH que é ‘perdido’ por conta da desigualdade”, afirmou
Comim. Com o ajuste pela desigualdade, o Brasil perde 27,2% de sua pontuação no IDH.
O relatório do Pnud também calculou, neste ano, o IDG (Índice de Desigualdade de Gênero), que
mede a discriminação das mulheres. O Brasil ficou em 80º lugar, numa lista de 138 países, que é
liderada pela Holanda.
EXCLUÍDOS
A mudança no cálculo do IDH provocou a exclusão de 17 países, para os quais não havia, segundo
o Escritório do Relatório de Desenvolvimento, dados disponíveis, entre eles Líbano e Cuba --que
apresentava boa colocação nos relatórios anteriores. No caso de Cuba, não havia, diz o relatório,
dados sobre renda per capita. No do Líbano, faltavam dados sobre escolaridade.
O relatório não inclui o Iraque (que já estava ausente no ano passado), mas inclui o Afeganistão, que
também passou por guerra civil e ocupações militares nos últimos 40 anos. Os dados para o Sudão,
que vive conflito no sul, são referentes apenas ao norte do país africano.

UNIDADE 7

Matéria publicada no jornal Folha de S. Paulo, em 04/11/10. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/poder/825332-brasil-fica-em-


73-lugar-entre-169-paises-na-lista-de-desenvolvimento-humano-da-onu.shtml>. Acesso em 05 maio 2011.

141
SOCIOLOGIA  Estratificação social, desigualdades e violência

CONHECIMENTO EM XEQUE

Estrutura de classes e estratificação social


O estudo da estrutura de classes e estratificação social é um importante instrumento teórico-
metodológico criado pelos sociólogos para entender as diversas formas de organização social,
principalmente das sociedades ocidentais. (Stavenhagen, 2002). Permite entender a forma como
os indivíduos se localizam nas estruturas sociais e as consequências para suas vidas, sendo de
grande interesse para a Sociologia clássica que criou teorias para analisá-las. Marx identifica
duas classes fundamentais da sociedade capitalista, a burguesia e o proletariado. Weber, por
seu lado, considera haver um sistema diversificado e complexo de relações de classe marcado
pela divisão do trabalho.

Podemos falar de classe quando (1) um número de pessoas tem em comum um


componente causal específico de suas chances de vida, na medida em que (2)
este componente é representado, exclusivamente, por interesses na posse de bens
e oportunidades de renda, e (3) é representado sob as condições de mercadorias
e mercados de trabalho.

Weber amplia o conceito de classe e enfoca a diversificação e a complexidade do mercado


de trabalho capitalista.[...]
SCALON. Celi. SANTOS. José Alcides Figueiredo. Desigualdades, Classes e Estratificação Social. In: MARTINS. Carlos Benedito. MARTINS.
Heloisa Helena T. de Souza. Horizontes das ciências sociais no Brasil: sociologia. São Paulo: ANPOCS, 2010. (p.80-81))

Categoria fundamental para estudar a sociedade, a estrutura social organiza a sociedade,


estabelece uma espécie de rede entre os indivíduos e grupos, pautada sempre pelo princípio
da hierarquia e das diferenças sociais. Os sociólogos definem esses itens como condição para
a estratificação social entre os indivíduos e o grupo, daí origina-se o processo social de hierar-
quização das relações sociais. (Scott, 2010)
Existe uma relação entre desigualdade e estratificação social, a realidade dos indivíduos
em relação ao poder político e à riqueza produzida define sua inserção na estrutura social.
A desigualdade social é uma realidade presente em todas as formas de sociedade. Dentro da
estrutura social é que se define a estratificação das pessoas e grupos no processo de produção
das desigualdades sociais.
Estratificação social é um conceito utilizado para descrever as desigualdades que existem entre
os indivíduos e os grupos no interior das sociedades humanas. Refere-se a vários aspectos da vida
social, desde a questão dos bens econômicos e de propriedade, até questões como gênero, credo
religioso, idade, pertencimento etnorracial, entre outros. A estratificação social pode ser compreen-
dida, resumidamente, como resultado de desigualdades sociais entre os agrupamentos de pessoas
pautadas pela diferença, é uma forma de explicar as relações sociais entre os indivíduos, e entre
esses e os grupos sociais. Cada um de nós ocupa na estrutura social uma determinada função e
identidade, numa relação social pautada pela similaridade entre os indivíduos dentro do grupo social.
É essa identidade social que vai configurar um estrato social. (Giddens, 2005).

As sociedades podem ser vistas como constituídas de ‘’estratos” em uma hierar-


quia, na qual, os mais favorecidos encontram-se no topo, e os menos privilegiados
estão mais próximos da base.

GIDDENS. Anthony. Sociologia. Porto Alegre: Artmed, 2005 (p. 234)

As relações sociais desenvolvidas em diferentes momentos históricos têm uma correspon-


dência com certa forma de estratificação social, por exemplo, o caso das castas na Índia, ou
ainda os estamentos na Idade Média na Europa, e por último as classes sociais características
das sociedades capitalistas.
142
O sistema de castas
Ainda que o sistema de castas tenha sido proibido na Índia em 1947, os hábitos rela-
cionados a ele estão presentes no cotidiano da maior parte dos indianos ainda hoje. Afinal,
um costume que perpassa a história de um povo não desaparece por decreto. Algumas
características permanecem na Índia e definem sua estratificação social, como: rigidez da
mobilidade, fazer parte da casta por nascimento, a impossibilidade de mudança de casta,
a hierarquia absoluta, entre outros. Por outro lado, os indianos que pertencem às castas
superiores não concordam em perder os privilégios que decorrem da posição social que
ocupam na estratificação. Os párias continuam sendo humilhados e privados de acesso
a qualquer benefício e privilégio.
Deve-se levar em consideração que o regime de castas existe na India há aproxima-
damente 2600 anos, contudo, o processo de urbanização e industrialização indiana que
ocorreu, na última metade do século XX, contribuiu para um afrouxamento gradual do
sistema de castas. O sistema de castas pode ainda ser encontrado em outras regiões do
mundo, principalmente, no continente africano, entretanto, é na Índia que ele alcançou
grande visibilidade, principalmente para nós do mundo ocidental.

[...] A casta é, realmente, a forma natural pela qual costumam socializa-


rem-se as comunidades étnicas que creem no parentesco de sangue com
os membros de comunidades exteriores e no relacionamento social. Essa
situação de casta é parte do fenômeno de povos párias e se encontra em
todo o mundo. Esses povos formam comunidades, adquirem tradições ocu-
pacionais específicas de artesanatos, ou de outras artes, e cultivam uma
crença em sua comunidade étnica. Vivem numa diáspora rigorosamente
segregada de todo relacionamento pessoal, exceto o de tipo inevitável,
e sua situação é legalmente precária. Não obstante, em virtude de sua
indispensabilidade econômica, são tolerados. [...]

WEBER, M. Ensaios de sociologia. Rio de Janeiro: Guanabara, 1982. p. 221.

O sistema estamental

UNIDADE 7
O que caracteriza a estratificação social nos grupos humanos é o processo de hierarquiza-
ção das relações sociais. O conceito de status criado por Weber define esse processo como
todo componente típico do destino dos homens, determinado por uma estimativa específica,
positiva ou negativa, da honraria.

Ou seja, o que define o status de uma pessoa ou grupo social, mais do que a riqueza, são o prestígio e
a honra concedidos pela sociedade vinculados a lugares, profissões, escolas, comportamentos, formas de
consumo específicos do grupo ao qual pertence. Partilhar de um mesmo status compreende compartilhar
também o mesmo estamento que pode ser definido como um grupo social muito fechado caracterizado
por um conjunto de atividades profissionais semelhantes, uma série de obrigações e sanções, bem como
privilégios. (Weber, 1982)

[...] Essas preferências honoríficas podem consistir no privilégio de usar roupas especiais,
comer pratos requintados que são tabus para outros, portar armas – o que é bastante óbvio
em suas consequências – o direito de dedicar-se a certas práticas artísticas por diletantismo,
não profissionalmente, como por exemplo, tocar determinados instrumentos musicais.

WEBER, M. Ensaios de sociologia. Rio de Janeiro: Guanabara, 1982. p.223.

Estamento é a divisão social existente na França do século XVIII — o sistema de três estados. Nesse
sistema, a nobreza era considerada o primeiro estado, nessa condição, não realizava qualquer atividade
econômica. O clero era o segundo estado e juntamente com os nobres podia cobrar impostos e era isento
de tributos. Finalmente, o terceiro estado era composto por todo o restante da sociedade que não possuía
nenhum privilégio ou direito. Tratava-se de uma estrutura social pautada pela diferença e desigualdade
143
SOCIOLOGIA  Estratificação social, desigualdades e violência

social, elementos inerentes ao processo de estratificação de uma sociedade. Dos 23 mi-


lhões de franceses, população da época, 400 mil compunha a nobreza ou primeiro estado,
parcela da população que gozava de vários privilégios. O terceiro estado representava
todos aqueles quer não eram nobres e nem eram membros do clero. Com o advento da
Revolução Francesa em 1789, fruto do descontentamento da população mais pobre, essa
estrutura social ruiu junto com a monarquia absolutista. A estrutura social com base na
organização dos estamentos foi substituída pela relação de classes sociais, principalmente
com a ascensão da burguesia ao poder político e econômico.

As classes sociais para a Sociologia


Estudar a estrutura social possibilita compreender os meios pelos quais os indivíduos
estabelecem vínculos cooperativos, mas também, relações de contradição e afastamento ou
estranhamento, o processo histórico de constituição dos grupos sociais apresenta conexões
pautadas pela identidade e grupos sociais que não possuem identidade alguma.
O surgimento das classes sociais está ligado ao desenvolvimento histórico da socie-
dade, suas categorias se referem a condições determinadas pelo contexto sócio-histórico
específico ao qual pertence o que dificulta a comparação de classes sociais surgidas em
períodos distintos.
As classes não são imutáveis no tempo: formam-se,
desenvolvem-se, modificam-se à medida que se vai
transformando a sociedade, são o resultado destas
contradições e, por sua vez, contribuem para o de-
senvolvimento das mesmas. [...] Um dos aspectos
fundamentais do conceito de classes é que estas não
existem isoladas, mas somente, como parte de um
sistema de classes. As classes sociais só existem em
relação umas com as outras. O que define e distingue
DESDOBRAMENTO
as diversas classes são as relações específicas que se
estabelecem entre elas.
Proletariado: Classe social
STAVENHAGEN, Rodolfo. Classes sociais e Estratificação Social. In: FORACCHI, Marialice Mencarini.
constituída pelos indivíduos que MARTINS, José de Souza. Sociologia e Sociedade: leituras de introdução à Sociologia. Rio de Janeiro:
são proprietários apenas e tão LTC, 2002. (p.242,244)
somente da força de seu trabalho
Karl Marx é considerado o criador da teoria das classes sociais. Ele
o qual vendem em troca de salário.
Na sociedade capitalista, essa classe
deu início aos estudos sobre a estrutura social do capitalismo que, para
é constituída pelos trabalhadores e ele, é definida por duas classes sociais — a burguesia e o proletariado.
a relação que define a venda de sua Essas classes sociais são fundamentais para o desenvolvimento histórico
força de trabalho pode ser formal, da sociedade capitalista: a burguesia se estabelece como classe social
regulada por normas, ou informal dominante, são os proprietários dos meios de produção, (indústrias,
o que torna precária as condições terras, entre outros); no lado oposto, está a classe dos proletários (tra-
de vida. balhadores) que é proprietária somente da força de trabalho, que é
Burguesia: No capitalismo comprada pelos burgueses.
atual é a classe dominante. No
sentido moderno, a burguesia é A questão das contradições sociais entre as classes é uma das prin-
reconhecida como a classe social cipais ideias que Marx estabeleceu dentro de sua teoria sociológica;
que detém os meios de produção para ele a marca histórica das classes sociais reside no permanente
e que, portanto, detém o poder conflito pela disputa do controle do poder político e econômico.
econômico e político dentro da
sociedade capitalista. Nos séculos A afirmação de Marx de que a história da sociedade é a história da
XVI e XVIII, apresentava-se como luta de classes retoma a questão das desigualdades dentro da estrutura
classe revolucionária, surgiu com o social, a ideia de que a origem e o desenvolvimento das classes sociais
renascimento comercial e urbano, estão fundamentados nas relações pautadas pela existência de grupos
tendo grande importância no e indivíduos, hierarquicamente desiguais. Na sociedade industrial,
declínio do sistema absolutista.
144
amplamente estudada por Marx, o processo de produção de desigualdades é sua marca
e é definida pela permanente oposição e conflito entre as duas principais classes sociais.
Para Marx as desigualdades sociais constituem um processo histórico que caracteriza,
principalmente a sociedade industrial, é a partir delas que a estrutura social se estabelece
como produtora e reprodutora de conflitos.

1. O que está sempre presente na estrutura social é a ideia de hierarquia. Veja as imagens
abaixo.

100

90 AB
80 CD
70 EF
60
50

40

30

20

10

0
2005 2010

Distribuição da população brasileira por classe social.

A pirâmide distribui a população brasileira em três camadas, considerando classes sociais, A, B,


C, D, E e F definidas em função do poder de compra e consumo.

UNIDADE 7

Entre os anos de 2005 e 2010 houve significativa alteração na configuração da pirâmide com
aumento expressivo das classes C e D (classe média).
a) Com base nos dados apresentados nas pirâmides dos anos de 2005 e 2010 é possível afir-
mar que a desigualdade diminuiu no país? Pesquise na mídia uma notícia que justifique sua
resposta.
b) Como a charge acima pode ser analisada? Debata com os colegas e justifique sua opinião
pautada nos textos estudados.

145
SOCIOLOGIA  Estratificação social, desigualdades e violência

“As classes sociais estão no centro da concepção de historia de Engels e Marx. As classes
sociais são classes de natureza econômica, portanto, são fundadas sobre uma base material.
Mas elas são muito mais do que a mera tecnologia da produção econômica. As classes sociais
são definidas por um tipo crucial de relação que articula vários aspectos da sociedade, quais
sejam o aspecto material, o econômico e o político. [...]. As classes são os principais atores no
palco da historia. São as classes que protagonizam as lutas econômicas e políticas, que fazem
alianças e que produzem transformações históricas. Cada classe tem sua própria cultura, seu
próprio ponto de vista. Portanto, as ideias e as crenças de cada período histórico e de cada
setor da sociedade são determinados pelo posicionamento específico das classes. [...] Engels e
Marx não inventaram o conceito de classes sociais; isso era parte de uma terminologia comum
de seus antepassados europeus. O que eles fizeram foi dar início a uma teoria das classes que
deveria mostrar suas causas e suas consequências.”
COLLINS, Randall. Quatro tradições sociológicas. Petrópolis, RJ: Vozes, 2009 (p.62, 63, 64) Adaptado.

2. Segundo Collins as classes são os principais ato-


Rogerio Medeiros Pinho/morgueFile
res no palco da história, elas são protagonistas do de-
senvolvimento e das transformações sociais. Na ima-
gem ao lado, captada na cidade de São Paulo, a favela
de Paraisópolis vive lado a lado com condomínios de
luxo do bairro do Morumbi.
a) Que relação pode ser feita entre desigualdade so-
cial e organização espacial em contextos urbanos
a partir da foto acima?
b) De que forma desigualdade, hierarquia e cidada-
nia se relacionam nesta imagem?
c) Procure outras imagens em jornais e revistas e
monte um painel, no qual possam ser identifica-
das diferenças entre classes sociais e como se dá a
interação social no espaço urbano.
d) Exponha o painel para a turma e para todo o co-
légio.

Estratificação e desigualdade social


Todas as formas de pensar a estratificação social analisadas anteriormente, levam-nos
a refletir sobre as desigualdades sociais presentes em nosso cotidiano. As desigualdades
sociais, econômicas, culturais, estão ligadas ao processo histórico de hierarquização das
relações entre os indivíduos e os grupos sociais. As desigualdades sociais são uma marca
histórica das relações entre os seres humanos e entre esses e a sociedade.
Embora a humanidade tenha conquistado grande progresso tecnológico em todas as
áreas, a concentração de riqueza continua crescendo e as desigualdades sociais permane-
cem em várias regiões do mundo, o que demonstra que o desenvolvimento econômico e
tecnológico não é sinônimo de igualdade social. No Brasil, a desigualdade social é con-
sequência histórica de sua forma de colonização, da tradicional acumulação de riquezas
dos privilegiados, da marginalização de setores da sociedade e de práticas burocráticas
que facilitam a corrupção. Ainda que a pobreza tenha diminuído, como as estatísticas
têm demonstrado, existe um grande contingente de excluídos, ou seja, observa-se que é
necessário um longo processo de inclusão social para que a desigualdade desapareça.
Toda essa desigualdade verificada na sociedade pode gerar diversos tipos de conflitos,
como a violência urbana, especialmente, entre os jovens. A juventude de uma forma
146
geral constitui-se como a parcela da população que fica mais exposta diante dos vários
problemas sociais como desemprego, violência, drogadicão, entre outros.

Violência: fenômeno social


A violência é um processo histórico. Cada sociedade dentro de um contexto sócio-
histórico específico cria normas sociais e culturais de relacionamento entre os indivíduos.
Esse conjunto de normas se institucionaliza e serve de parâmetro para a definição do
significado da violência em determinado período histórico.
Violência pode ser caracterizada por qualquer “ato violento que, no sentido jurídico,
provocaria, pelo uso da força, um constrangimento físico ou moral”. (GUIMARÃES, 2004,
p.73). A violência pode ser física ou simbólica, a primeira é a agressão que atinge o corpo
da vítima, a segunda, atinge o plano psicológico, e é tão danosa quanto a primeira, tendo
em vista que pode deixar traumas por muitos anos. Assim, a violência não se restringe
ao ato de bater em alguém. Ameaçar, coagir, humilhar e falar mal, também podem ser
considerados atos de violência.
Quando a violência não é aquela praticada pela polícia como representante do Esta-
do, dentro das normas estabelecidas para proteção do cidadão, ela é considerada uma
violência ilegítima, portanto, um crime. O crime decorre de uma prática social que é
reprovada, por ser uma ação que não condiz com a moral de uma determinada socie-
dade, esse fenômeno tem como característica produzir a fragmentação em determinados
grupos sociais.

Pode-se afirmar que, atualmente, passa-se por um processo de banalização da violência


que corresponde à disseminação da violência entre a população civil, ao consequente
armamento individual, à ampliação da ação das organizações criminosas e a uma expan-
são de empresas relacionadas à segurança no que se refere à segurança individual, mas
também, a investimento em tecnologias voltadas a promover o sentimento de segurança
como a blindagem em carros, sistemas monitorados de alarme, sistemas de câmeras de
segurança, entre outros.

UNIDADE 7
A violência é um dos maiores problemas que a sociedade enfrenta atualmente, trata-
se de uma prática que reduz fortemente a construção e a afirmação dos vínculos sociais.
Ao mesmo tempo, produz grandes prejuízos tanto do ponto de vista material quanto
emocional, de uma forma geral todos nós estamos sujeitos e vulneráveis aos processos
de violência social.
A realidade dos centros urbanos violentos associada à população jovem numerosa e
em muitos casos excluída da esfera econômica e cultural, desses locais, resulta no envol-
vimento cada vez mais intenso de jovens em atos relacionados à violência urbana.

Juventude, medo e violência


São abundantes os casos em que jovens e adolescentes são tomados como “ameaça à sociedade” ou
“vítimas dela”, porque, estando em formação, seriam mais facilmente influenciáveis, inclusive – e aqui
haveria um grande perigo – pelo mundo do crime. Ouvimos, diversas vezes de diferentes profissionais, de
policiais a assistentes sociais, passando por sociólogos e psicólogos, formando um contraditório conjunto,
que jovens delinquentes são mais perigosos do que os não jovens, porque “são muito influenciáveis”,
“ficam muito mais nervosos”, “nada têm a perder” ou “são frios”, como se tais atributos fossem naturais
à idade. É, particularmente, do jovem visto como representante do perigo e como ameaça à sociedade
que trataremos. [...]
Em relação aos jovens como vítimas e como algozes, é fundamental que saibamos que eles são
muito mais vulneráveis – e, portanto, vítimas – que vitimizadores. Dados da UNESCO indicam que
se a taxa total de homicídio manteve-se basicamente a mesma entre 1980 e 2002, observa-se um
aumento brutal das mortes entre jovens de 15 a 25 anos.
147
SOCIOLOGIA  Estratificação social, desigualdades e violência

Como explica Waiselfisz (2004), “os avanços da violência homicida das últimas
décadas no Brasil são explicados, exclusivamente, pelos incrementos dos homicídios
contra a juventude”. Em dados estatísticos, isto significa que, se para a população
total, entre os anos 1980 e 2002, a taxa de homicídios por cem mil habitantes va-
riou de 21,3 para 21,7, em relação ao grupo etário entre 15 e 25 anos, nota-se um
aumento de 30,0 (por cem mil jovens), em 1980, para 54,5 (por cem mil jovens), em
2002. E ainda, se os homicídios são responsáveis por 62,3% dos óbitos na população
total, correspondem, por sua vez, a 88,6% da causa da morte entre jovens. Se con-
siderarmos o item raça separadamente, nota-se que os homicídios de jovens pardos
e negros são 65,3% maiores que os homicídios de jovens brancos. [...] Em relação
ao encarceramento de jovens, constatamos que a grande maioria encontra-se nesta
condição por ter cometido furtos e pequenos roubos e um pequeno grupo condenado
por homicídio. No caso dos internos na Fundação Estadual de Bem-Estar do Menor
de São Paulo, roubos e furtos somam a maioria dos crimes, a saber, 70,6%. Por sua
vez, os homicídios perfazem 8,0%. Os dados acima são um bom demonstrativo do
fato de que os jovens, principalmente os negros, são as principais vítimas da violência
homicida, ao mesmo tempo em que, entre os crimes por eles cometidos, na amostra
que utilizamos, os homicídios representam uma pequena fração.
Não obstante, tal cenário em que os jovens aparecem como vítimas, perdura no imagi-
nário social a representação do jovem perigoso que, em gangues, perambula pela cidade,
pronto para atacar os incautos. A invenção da gangue, por sua vez, parece constituir-se
na justificativa moral para o aumento da repressão aos jovens, da redução da menoridade
penal e do endurecimento das penas.
MORAES, Pedro Bodê de. Juventude, medo e violência. Disponível em: <http://www.ipardes.gov.br/pdf/cursos_eventos/
governanca_2006/gover_2006_01_juventude_medo_pedro_bode.pdf>. Acesso em: 25 mar. 2011.

3. A repressão a jovens considerados com comportamento violento tem aumentado na sociedade brasileira.
a) Em equipe faça uma pesquisa em notícias de jornais e revistas sobre as formas mais comuns de violência praticada
pelos jovens. Pesquise também sobre as formas de violência mais frequentemente sofridas pelos jovens.
b) Em seguida apresente as informações encontradas para os demais alunos da sala. Procure fazer um breve
comentário sobre essas violências e opine sobre as causas e consequências delas na vida social dos jovens.

Desembargador: classe social influi na liberação de jovens


“A classe social interfere em decisões que envolvem a internação de jovens infratores”,
opina o desembargador Antônio Carlos Malheiros, coordenador da infância e da juventude
do Tribunal de Justiça de São Paulo. Na segunda-feira (15), cinco adolescentes de classe
média alta, acusados de agressão na Avenida Paulista, foram liberados da Fundação Casa,
antiga Febem. No grupo de vítimas, havia homossexuais e a polícia investiga se a violência
foi motivada por preconceito.
“Não quero acreditar que nesse caso isso (influência da classe social) aconteceu, mas
pode influenciar, sim”, lamentou Malheiros. Em entrevista à Terra Magazine, ele defendeu
a condenação dos jovens. “Como cidadão, me revoltou muito, não consigo entender a
violência gratuita, o que me faz pensar a favor da internação imediata”, opina. O processo,
porém, ainda não foi concluído.
Apesar da crítica, ele avalia que a Justiça falha no caso de internações imediatas –
antes de um julgamento. O Estatuto da Criança e do Adolescente prevê que um menor
não pode ficar internado sem julgamento por mais de 45 dias. Passar esse prazo, porém
não é raro. “É uma falha da estrutura do Judiciário”. A situação piora para os mais pobres
porque, em muitas dessas situações, a Defensoria Pública gratuita está sobrecarregada
148
e não apresenta o pedido de habeas corpus para que o réu aguarde o julgamento em
liberdade, defende.
No Rio de Janeiro, por exemplo, a Justiça organiza uma espécie de mutirão no
Instituto Padre Severino, na Ilha do Governador, para que jovens que estão há mais
de 45 dias internados sejam julgados antes do Natal. Assim, os julgados inocentes
poderiam passar as festividades em casa.
Em 2008, um menor chegou a ficar detido por 266 dias sem julgamento no Piauí,
acusado de homicídio. O adolescente só foi liberado após decisão do Supremo Tribunal
Federal, que defendeu que ele aguardasse julgamento em liberdade.
No caso dos jovens paulistas, pesou a favor da liberação o fato de os pais estarem
presentes e de serem estudantes, o que a Justiça avalia como alguma garantia de que
eles não voltariam a cometer infrações.
Os quatro adolescentes passaram a madrugada de domingo para segunda numa
unidade da Fundação Casa, na capital, e foram soltos pela tarde. Há ainda um maior
de idade envolvido, que também responderá em liberdade. Houve uma sequência de
agressões no domingo com três vítimas. Todos os suspeitos responderão por roubo,
lesão corporal gravíssima e formação de quadrilha. O maior de idade ainda pode
responder por corrupção de menores, segundo o delegado do caso, Alfredo Jang em
reportagem do Terra.
SOUSA, Dayanne. Desembargador: classe social influi na liberação de jovens. Terra Magazine, [S.l.], 16 nov. 2010. Política.
Disponível em: < TTP://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI4794626-EI6578,00-Desembargador+Classe+social+influi+na+lib
eracao+de+jovens.html>. Acesso em: 11 jan. 2011.

4. Considerando a discussão sobre classes sociais, violência e impunidade, realize as atividades abaixo:
a) Pesquise sobre o papel do Conselho Tutelar de sua cidade como uma instituição ligada às questões das crian-
ças e adolescentes. E procure conhecer melhor o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), especialmente
o capítulo sobre medidas sócio-educativas.
b) Pesquise, em jornais e revistas, matérias sobre criminalidade juvenil e justiça penal, analisando de que ma-

UNIDADE 7
neira a classe social influencia nos julgamentos dos jovens acusados. Traga exemplos para discutir com seus
colegas em classe.
c) Com a orientação do professor participe de um debate sobre as seguintes questões: o Estatuto da Criança
e do Adolescente favorece a criminalidade entre crianças e jovens adolescentes? Deveria haver uma maior
punição para os menores infratores? A classe social interfere nas penas para jovens infratores?

anulararam o julgamento. Já em 1996, Viveros foi


condenado a dez anos de reclusão, mas conseguiu
Violência de gênero recorrer.
A Lei 11 340/06, conhecida com Lei Maria da Com a ajuda de ONGs, Maria da Penha conse-
Penha, ganhou este nome em homenagem à Maria guiu enviar o caso para a Comissão Interamericana
da Penha Maia Fernandes, que lutou por vinte anos de Direitos Humanos (OEA), que, pela primeira vez,
para que seu agressor fosse preso. atendeu uma denúncia de violência doméstica. Vi-
Maria da Penha foi casada com Marco Antonio veros foi preso em 2002, para cumprir apenas dois
Herredia Viveros. Em 1983, ela levou um tiro nas anos de prisão.
costas enquanto dormia. Viveros alegou que tinham Lei Maria da Penha: n.º 11 340, de 7 de agosto
sido atacados por assaltantes. Maria da Penha saiu de 2006.
paraplégica. Meses depois, Viveros empurrou Maria
da Penha da cadeira de rodas e tentou eletrocutá-la [...]
no chuveiro. Art. 1.º Esta Lei cria mecanismos para coibir e
O primeiro julgamento só aconteceu 8 anos prevenir a violência doméstica e familiar contra a
após os crimes. Em 1991, os advogados de Viveros mulher, nos termos do § 8.º do art. 226 da Cons-
149
SOCIOLOGIA  Estratificação social, desigualdades e violência

tituição Federal, da convenção sobre a eliminação asseguradas as oportunidades e facilidades para viver
de todas as formas de violência contra a mulher, sem violência, preservar sua saúde física e mental e
da convenção interamericana para prevenir, punir seu aperfeiçoamento moral, intelectual e social.
e erradicar a violência contra a mulher e de outros
[...]
tratados internacionais ratificados pela República
Federativa do Brasil; dispõe sobre a criação dos Jui- Art. 5.º Para os efeitos desta Lei, configura violên-
zados de Violência Doméstica e Familiar contra a cia doméstica e familiar contra a mulher qualquer
Mulher; e estabelece medidas de assistência e prote- ação ou omissão baseada no gênero que lhe cause
morte, lesão, sofrimento físico, sexual ou psicológico
ção às mulheres em situação de violência doméstica
e dano moral ou patrimonial:
e familiar.
BRASIL. Lei n.º 11 340, de 7 de agosto de 2006. Previdência da República
Art. 2.º Toda mulher, independentemente de clas- – Casa Civil: subchefia para assuntos jurídicos, Brasília, DF, 7 ago. 2006.
se, raça, etnia, orientação sexual, renda, cultura, ní- Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil/_ato2004-2006/2006/lei/
l11340.htm>. Acesso em: 11 jan. 2011.
vel educacional, idade e religião, goza dos direitos
fundamentais inerentes à pessoa humana, sendo-lhe

DESDOBRAMENTO
A coordenadora da bancada feminina na Câmara,
16/09/2011 - Maioria aprova a Lei Maria da deputada Janete Rocha Pietá (PT-SP), lembra que a Lei
Penha, mas acha que punição deveria ser mais Maria da Penha é considerada uma das três melhores
rigorosa, diz pesquisa do mundo na área de proteção à mulher pelo Fundo
(Agência Câmara) A Lei Maria da Penha (11.340/06), de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher,
que protege a mulher vítima de violência doméstica, mas é necessário colocá-la totalmente em prática. “Falta
foi aprovada por 95,5% dos entrevistados em implementar tudo o que está na lei, a partir de políticas
pesquisa realizada pela Câmara dos Deputados; 77,5% públicas integradas, incluindo as áreas de educação,
dizem conhecer o conteúdo da lei, mesmo que em parte; cultura e saúde”, explica.
90,7% acham que os agressores deveriam ser punidos com Mulheres estão mais encorajadas a denunciar
mais rigor. agressões, diz deputada
Há cinco anos, no dia 22 de setembro de 2006, a lei entrava A deputada Jandira Feghali (PCdoB-RJ), que foi relatora
em vigor. [...] Realizada entre 30 de junho e 11 de agosto da Lei Maria da Penha na Câmara, afirma que, nos últimos
de 2011, a sondagem sobre a percepção da população cinco anos, as mulheres se viram mais encorajadas a
brasileira em relação aos cinco anos de vigência da lei foi denunciar seus agressores, por conta da existência da
realizada mediante ligação espontânea para o Disque- lei e pelo melhor preparo das instituições. Segundo ela,
Câmara (0800 619 619), serviço telefônico gratuito. o elevado número de denúncias de agressões contra a
Dos 1.295 entrevistados, 77,5% declararam conhecer o mulher apontado em pesquisas recentes não significa
conteúdo da lei, ainda que parcialmente; 90,7% acham aumento da violência doméstica. “Aumentou o número de
que a punição dos agressores deveria ser mais rigorosa. denúncias, e não de casos de violência”, diz.
“São pessoas que já podem, minimamente, invocar a lei Jandira Feghali defende a destinação de mais recursos
para exercer seus direitos”, diz a consultora da pesquisa, do orçamento do Poder Judiciário e do Poder Executivo
Giovana Perlin, especialista em estudos de gênero, família para a criação de juizados especiais, delegacias da
e sexualidade. “Levando-se em conta que o percentual dos mulher, abrigos e para a qualificação de profissionais
que aprovam as medidas é maior do que o percentual dos especializados em atender as mulheres. A deputada vem
que conhecem o conteúdo da lei, alguns entrevistados cumprindo o que chama de “roteiro feminino no poder” –
aprovam medidas punitivas mesmo sem conhecê-las”, isto é, visitas a mulheres em cargos no poder para ajudar a
complementa. sensibilizar para o problema da violência doméstica.
Giovana destaca que não houve diferenças estatísticas A diretora do Instituto Patrícia Galvão, Jacira Melo,
significativas na percepção de homens e mulheres. também defende a criação de mais centros de referência
“Ambos mostram intolerância em relação à violência de apoio à mulher e de casas de abrigo para as mulheres
contra mulher”, afirma. agredidas. Segundo ela, existe na sociedade um pacto de
Segundo a diretora-executiva do Instituto Patrícia Galvão, silêncio sobre a violência doméstica e, quando a mulher
Jacira Melo, a pesquisa da Câmara revela uma mudança rompe esse silêncio, ela começa a correr riscos maiores de
na percepção da população sobre a violência doméstica. agressão por parte dos homens.
“Antigamente, a sociedade brasileira tinha a percepção Disponível em: http://www.agenciapatriciagalvao.org.br/index.
de que era um problema privado. Hoje a sociedade php?option=com_content&view=article&id=2102&catid=43. Acesso em
reconhece a violência doméstica como um problema 22/09/2011.
social sério, que necessita de intervenção do Estado.”

150
5. As estatísticas sobre a violência em relação à mulher, no ao de 2010, indicam que mais da metade dos casos estão
relacionados à violência física seguido pela violência psicológica e moral, representando quase 96% do total de ocorrências
registradas nas centrais de atendimento à mulher.
a) Faça uma enquete no seu colégio junto a professoras e funcionárias sobre a Lei Maria da Penha. Pergunte se elas
conhecem o texto, o conteúdo dessa Lei e qual sua importância para coibir a violência contra as mulheres. Faça
as mesmas perguntas para os professores e funcionários e sistematize as respostas de acordo com o gênero dos
entrevistados.
b) Faça uma pesquisa em jornais sobre casos que possam ilustrar os dados estatísticos apresentados no enun-
ciado acima.
c) Com os dados das duas pesquisas elabore uma matéria de jornal sobre a realidade social da violência contra
mulheres.

6. “O campo de atuação profissional é de fundamental importância para a autonomia dos indivíduos, para a
construção de identidade, para o reconhecimento social, para o acesso a bens de consumo, entre outras dimen-
sões tanto materiais quanto simbólicas, cada vez mais importantes em nossas sociedades neste século XXI. Por
isto, a forma como os diferentes grupos populacionais se inserem no mercado de trabalho retrata uma faceta
fundamental da desigualdade. [...]”.
SEPM, UNIFEM, IPEA. Retrato das desigualdades de gênero e raça: análise preliminar dos dados (3ª ed.). Brasília, 2008.

Rendimento médio habitualmente recebido pela PEA ocupada residente nas seis maiores RMs, Brasil,
mai / 02 e mai / 11 (em R$ - mai / 11, INPC)

Belo Rio de
Recife Salvador São Paulo Porto Alegre
Horizonte Janeiro

Maio 2002

Homens Brancos 1.828,29 2.572,84 2.021,23 2.387,81 2.358,73 1.711,36


Mulheres Brancas 1.316,66 2.004,50 1.342,73 1.528,35 1.537,85 1.084,09

UNIDADE 7
Brancos 1.596,22 2.307,19 1.720,92 2.013,95 2.011,68 1.444,29
Homens Pretos & Pardos 1.004,41 1.003,86 1.002,18 1.100,40 1.056,08 1.001,31
Mulheres Pretas & Pardas 681,76 733,77 693,10 766,20 799,64 726,45
Pretos & Pardos 875,55 885,82 871,33 957,47 954,18 880,51
PEA Total 1.079,19 1.080,70 1.261,63 1.508,65 1.703,10 1.368,11
Maio 2011
Homens Brancos 1.755,87 2.971,26 2.516,18 2.557,61 2.296,67 1.799,02
Mulheres Brancas 1.258,78 1.876,48 1.547,40 1.853,15 1.657,29 1.354,90
Brancos 1.515,74 2.445,61 2.060,24 2.235,16 2.007,40 1.594,15
Homens Pretos & Pardos 946,12 1.204,76 1.244,06 1.224,00 1.223,85 1.093,02
Mulheres Pretas & Pardas 748,33 912,36 843,01 858,63 905,84 814,57
Pretos & Pardos 862,79 1.069,32 1.060,79 1.067,82 1.083,76 966,96
PEA Total 1.077,36 1.283,94 1.477,73 1.682,43 1.667,90 1.508,10
Nota: PEA total inclui amarelos, indígenas e cor ignorada
Fonte: IBGE, microdados PME. Tabulação LAESER (banco de dados Tempo em Curso)
Fonte: http://www.laeser.ie.ufrj.br/pdf/tempoEmCurso/TEC%202011-07.pdf, acesso em 22/09/2011.

151
SOCIOLOGIA  Estratificação social, desigualdades e violência

• A tabela acima traz dados sobre o rendimento da população economicamente ativa (PEA)
nas principais regiões metropolitanas (RMs) do país. Escolha uma cidade para comparar
com São Paulo e escreva um texto analisando as desigualdades de rendimento em 2002 e
2011, considerando duas variáveis: gênero e “cor/raça”.

CIÊNCIA E TECNOLOGIA
Mulheres na ciência
A presença da mulher na ciência alcançou grande desenvolvimento nas ultimas
décadas, cada vez mais as mulheres ocupam um espaço no mundo científico antes
ocupado pelo homem. Foi uma luta política que remonta ao início do século XX,
a partir das reivindicações por mais direitos, entre eles, a igualdade no trabalho
e na pesquisa científica. Na sociedade, a participação das mulheres na política,
no trabalho, na educação, e na ciência e tecnologia decorreu de mobilizações
que produziram o reconhecimento cada vez maior da sua importância para o
estabelecimento de uma igualdade entre os gêneros.

“Historicamente, a ciência sempre foi vista como uma atividade realizada


por homens. Durante os séculos XV, XVI e XVII, séculos marcados por diversos
eventos e mudanças na sociedade que possibilitaram o surgimento da ciência que
conhecemos hoje, algumas poucas mulheres aristocráticas exerciam importantes
papéis de interlocutores e tutores de renomados filósofos naturais e dos
primeiros experimentalistas. Não obstante suas qualidades e competências, não
lhes eram permitido o acesso às intensas e calorosas discussões que aconteciam
nas sociedades e academias científicas, que se multiplicaram no século XVII por
toda a Europa e tornaram-se as principais instituições de referência da ainda
reduzida comunidade científica mundial. No século XVIII, essa situação pouco
se modificou e o acesso das mulheres a essa atividade, com poucas exceções,
deveu-se principalmente à posição familiar que elas ocupavam: se eram esposas
ou filhas de algum homem da ciência podiam se dedicar aos trabalhos de suporte
da ciência, tais como, cuidar das coleções, limpar vidrarias, ilustrar ou traduzir
os experimentos e textos. O século seguinte é marcado por ganhos modestos
no acesso de mulheres às atividades científicas, como a criação de colégios de
mulheres, mesmo assim, elas permaneceram às margens de uma atividade que
cada vez mais se profissionalizava. A mudança nesse quadro inicia-se somente
após a segunda metade no século XX, quando a necessidade crescente de
recursos humanos para atividades estratégicas, como a ciência, o movimento de
liberação feminina e a luta pela igualdade de direitos entre homens e mulheres
permitiram a elas o acesso, cada vez maior, à educação científica e à carreiras,
tradicionalmente ocupadas por homens.”
LETA. Jacqueline. As mulheres na ciência brasileira: crescimento, contrastes e um perfil de sucesso. ESTUDOS
AVANÇADOS 17 (49), 2003. p.271. Disponível em :<http://www.scielo.br/pdf/ea/v17n49/18408.pdf>.
Acesso em: 1 ago. 2011.

152
Mulheres cientistas ainda sofrem
com estereótipos no meio acadêmico
Pesquisadoras são 67% no campo de letras e 33% nas exatas.
Áreas em que atuam os cientistas do Brasil (em %)
Mulheres Homens

80
70
60
50
40
30
20
10
0
Ciências Ciências Ciências Ciências Ciências Ciências Engenharias Linguística,
Agrárias Biológicas da Saúde Exatas e Humanas Sociais Letras e Artes
da Terra Aplicadas

Fonte: DGP – CNPQ de 2006 / Isabel Tavares

Em 1906, um atropelamento tirou a vida do cientista francês Pierre Curie. A


tragédia causou comoção, pois, três anos antes, ele e sua mulher, Marie Salomea
Curie, haviam sido contemplados com o Nobel de Física. Sua morte foi registrada
pelo jornal norte-americano The New York Times num elogioso artigo, no qual
Marie apareceu como “assistente” do marido. Aparentemente, nem o fato de ela
ter sido a primeira mulher laureada convenceu o jornalista de que ela pudesse
ter feito uma contribuição relevante na investigação de ponta. O jornal apenas
reproduzia os padrões do senso comum da época – os mesmos que a carreira

UNIDADE 7
de Marie Curie estava redefinindo. Ela, que fora a primeira mulher na França a
alcançar o título de doutora, herdou o emprego do marido e tornou-se a primeira
mulher a dar aulas na Universidade Sorbonne – e a primeira a atingir o status de
professor titular em uma universidade. Em 1911, tornou-se a primeira pessoa a
receber, pela segunda vez um Nobel, desta vez em Química. E sozinha. [...]
Disponivel em : http://g1.globo.com/vestibular-e-educacao/noticia/2011/03/mulheres-cientistas-ainda-sofrem-
com-estereotipos-no-meio-academico.html. (Acesso em 01 ago 11)

O FUTURO EM JOGO

1. (UEM, 2009, adaptada) Para o antropólogo (Luiz Eduardo Soares) a violência e


o crime não são fáceis de explicar, devendo-se evitar, sobretudo, a armadilha da
generalização. Refere-se, neste caso, ao costume que se tem de definir pobreza,
desigualdade e vontade política como causas de criminalidade. Explicações como esta,
segundo o antropólogo, ajudam a exorcizar o medo, mas não contribuem para esclarecer
a complexidade da violência. [...] É reconhecida a defesa que este autor tem feito de
políticas públicas preventivas voltadas, sobretudo, para os jovens mais vulneráveis,
abrindo-lhes perspectivas de reforço da autoestima (ROCHA, Lucia. Uma luz sobre a
violência. Revista de Sociologia, ano 2, n. 15, p. 25). Assinale o que for correto:
153
SOCIOLOGIA  Estratificação social, desigualdades e violência

A) Determinadas pesquisas apontam que um dos fatores da violência é a falta de limites


resultantes do enfraquecimento das referências afetivas essenciais.
B) O autor do texto considera simplista a associação direta entre criminalidade e pobreza.
C) O autor do texto defende que investimento em políticas públicas direcionadas para crian-
ças e jovens é uma estratégia ineficiente de combate à violência.
D) Segundo o autor citado, para viver em sociedade, o homem precisa abandonar o seu es-
tado de natureza, caracterizado pela agressividade e busca violenta pelo prazer.

2. (UEM – 2009, adaptado) Assinale o que for correto a respeito do conceito de estratificação
social.
A) A estrutura estamental, dividida principalmente entre nobreza, clero e plebeus, predomi-
nou na Europa do Antigo Regime e esteve associada ao sistema de castas.
B) As classes sociais são estruturas típicas do sistema feudal e caracterizam-se pela imobi-
lidade.
C) A sociedade capitalista é uma forma histórico-social que aboliu os processos de diferen-
ciação econômica; porém, manteve a hierarquia social baseada em princípios de prestí-
gio político e profissional.
D) O sistema escravista, adotado no Brasil entre os séculos XVI e XIX, pode ser considerado
uma forma de estratificação social que estabelece distinções sociais entre duas catego-
riais de pessoas: senhores e escravos.

Divulgação/Editora Record
CONECTE-SE

LIVROS
• Um amor anarquista
Autor: Miguel Sanches Neto
Editora: Record
Um grupo de italianos chega ao Brasil para construir uma
comunidade em que não haja estratificação social. É a co-
lônia Cecília, fundada em Palmeira, no Paraná, em 1890.
Essas pessoas tentaram viver de maneira igualitária, mas
enfrentaram grandes dificuldades para isso.
Divulgação/Editora Record

• Dois irmãos
Autor: Milton Hatoum
Editora: Companhia das Letras
O livro narra a história de Yaqub e Omar, filhos de
libaneses, que moram em Manaus e mantém relações
complexas com a mãe, o pai, a irmã, bem como a
empregada Domingas e seu filho. Essas relações sociais
revelam como a tradição das castas pode ser carregada
para outros lugares, como quando os libaneses dessa
narrativa vêm para o Brasil.

154
FILMES

Divulgação/Buena Vista International


• Cidade de Deus (Brasil, 2002)
Direção: Hector Babenco. 135 min.
Conta a histórica de dois garotos durante a ocupação do conjunto habita-
cional Cidade de Deus, no Rio de Janeiro. Enquanto um dos meninos se-
gue mesmo destino de outros garotos, tornando-se um bandido, o outro
resiste e torna-se um fotógrafo. Nesse filme, podem-se observar aspectos
como a estratificação social, a violência física e simbólica.

• Caçador de Pipas (2007, EUA).


Direção de Marc Forster, é a história de Amir e Hassan, dois meninos
afegãos que nasceram e foram criados juntos. Amir, filho do patrão.
Hassan, filho do empregado. Embora Amir tivesse amizade por Has-

Divulgação/Paramount Pictures
san, nunca o tratara como irmão ou como amigo, e sim como empre-
gado e companheiro de brincadeiras. Depois de fugir do Afeganistão,
descobriu que eles eram meio-irmãos. Brutalmente assassinado pelos
talibãs, Hassan deixou um filho pequeno, que ficou em poder de um
antigo rival seu e de Amir, um sociopata pedófilo. Quando soube que
tinha um sobrinho no Afeganistão, Amir resolveu arriscar-se para res-
gatar o menino.
Nesse filme, é possível analisar o conceito de castas, presente também em
muitos países muçulmanos.

• Elefante, 2003, EUA.


Retrata um dia comum em uma escola secundária de Portland, Oregon,
interior dos Estados Unidos que é alterado pela tragédia protagonizada
por dois alunos que com um arsenal atacam seus colegas de escola.

UNIDADE 7
XEQUE-MATE

Produza com seus colegas uma peça de teatro que relacione desigualdades sociais e violência
física e simbólica e apresente-a. Para esta atividade, a turma será dividida em quatro grupos.
Observe as orientações a seguir. A peça poderá abordar a questão da violência na escola
relacionando-a à violência urbana ou ainda optar pelo tema do bullyng. Esse tema exigirá
pesquisa prévia, pode ser realizada por meio da internet, esclarecendo seu significado e
consequências.
Grupo 1: os integrantes prepararão o texto que será utilizado pelos atores. O texto poderá ser
apresentado ao professor de Língua Portuguesa para revisão.
Grupo 2: os integrantes serão os atores.
Grupo 3: os integrantes ficarão responsáveis pelo cenário e figurino.
Grupo 4: os integrantes promoverão um debate com a platéia, depois da apresentação,
discutindo as razões da violência e como enfrentá-la no cotidiano.

155
Estou aqui para falar em nome das gerações que
estão por vir. Estou aqui para defender as crianças
com fome, cujos apelos não são ouvidos. Estou
aqui para falar em nome dos incontáveis animais
morrendo em todo planeta, porque já não têm
mais lugar para onde ir.
Não podemos mais permanecer ignorados.
Hoje tenho medo de tomar sol por causa dos
buracos na camada de ozônio. Tenho medo de
respirar esse ar porque não sei que substâncias
químicas o estão contaminando.
Eu costumava pescar em Vancouver com meu
pai até o dia que pescamos um peixe com
câncer. Temos conhecimento que animais e
plantas estão sendo destruídos a cada dia e
em vias de extinção. Durante toda a minha
vida eu sonhei ver grande manadas de animais
selvagens, florestas tropicais repletas de
pássaros e borboletas.
Mas, agora, eu me pergunto: será que meus
filhos vão poder ver tudo isso? Vocês se
preocupavam com essas coisas quando tinham
a minha idade? Todas essas coisas acontecem
bem diante dos nossos olhos e mesmo assim
continuamos agindo como se tivéssemos todo
o tempo do mundo e todas as soluções.
(Trecho do discurso de Severn Suzuki, uma garota
Ivan Prole/SXCa

canadense de 13 anos, que participou da Conferência da


ONU para o Meio Ambiente aqui no Brasil em 1992)
Cindy Kelly/SXC

Disponível em: <http://vivaitabira.com.br/viva-colunas/


index.php?IdColuna=419>. Acesso em: 13 jan. 2011.
Meio ambiente

UNIDADE 8
e capitalismo

DIÁLOGO E REFLEXÕES
• Que mensagem Severn Suzuki transmitiu em seu discurso?
• Existe diferença entre a situação apresentada por Severn em
1992 e a vivenciada hoje?
• As soluções para os problemas apontados por ela, no final do
século XX, já foram encontradas. Justifique sua resposta.

157
SOCIOLOGIA  Meio ambiente e capitalismo

EM FOCO
Sustentar: Entendendo as bases filosóficas para a Ecologia e
seu desdobramento mais recente
Uma expressão que entrou na moda, ainda mais com a candidatura verde à
presidência do Brasil, é “desenvolvimento sustentável”. Sem tomar partido –
porque esta coluna não deve ter cor partidária – procuremos entender as bases
filosóficas para a Ecologia e seu desdobramento mais recente.
Ecologia é uma Ciência, praticada por ecólogos. Ecologia é também uma causa,
pela qual lutam ecologistas. A maior parte dos ecologistas não tem formação
científica na área, portanto não são ecólogos. Mas vamos falar da Ecologia como
causa, como proposta. Não é uma proposta política tradicional. Na Política,
em geral, se opõem dois ou mais lados. Um ganha e outros perdem. A Política
funciona pelo conflito, com um resultado que distribui perdas e ganhos.
Já a causa “verde” traz algo bem diferente: propõe que todos ganhemos. Do
jeito que vai o mundo todos havemos de perder. Um exemplo: o general
Westmoreland devastou o Vietnã, na guerra dos norte-americanos àquele país,
usando o desfolhante chamado “agente laranja”. Contou-se que seu próprio filho
teria morrido, anos depois, contaminado por esse veneno. A história é falsa, mas
seria possível e vale como lenda. Porque a Ecologia é assim: num mundo finito,
quem intoxica pode acabar intoxicado.
Esta é a grande diferença de uma política “ecológica”. Sai da oposição tradicional
capital-trabalho, esquerda-direita, em que um ganha o que o outro perde. É
verdade que os primeiros verdes a fazer política, na década de 1970, eram mais
de esquerda, pois atacavam o caráter predatório do capitalismo. Fábricas poluem.
A ditadura militar no Brasil dizia: “Se o desenvolvimento trouxer poluição, venha
para cá”. Mas, se a desconfiança do capitalismo levava os verdes um pouco para
a esquerda, por outro lado eles sentiam que esta os tratava como irmãos mais
novos, quase infantis. Por isso, os verdes decidiram ir à luta por conta própria. Na
Alemanha, chegaram ao poder federal. Em outros países, mesmo sem atingir a
direção dos negócios políticos, forçaram mudanças, nas ideias e nas ações.
[...]
Mas uma alteração significativa ocorreu nos últimos anos. Foi a difusão da ideia de
“desenvolvimento sustentável” ou de sustentabilidade. Um dos sinais mais fortes de
que algo estava mudando foi que vários economistas assumiram essa causa. Não
se trata mais, apenas, da preservação das espécies em perigo, da defesa de plantas
contra a destruição: nos anos 1970, ficaram famosos vários jovens que se prenderam
a árvores, em São Paulo e outras cidades, para impedir que fossem derrubadas por
prefeituras ou empreiteiros. Isso aconteceu com uma paineira que ficava na entrada
da USP e que dava nome ao lugar. Hoje, a questão não é mais tão ou só romântica. O
interesse econômico ingressou na causa ecológica. Ainda são poucos economistas e
empresários, mas começam a mudar o panorama da Economia e da empresa.
A convicção é esta a que já aludi: do jeito que vai o mundo, ele deixará de ser
habitável pela espécie humana – como no filme Wall-E. Não é uma situação
em que uns ganham e outros perdem. Uns podem ganhar até muito, mas só a
curto prazo – porque, a longo, perdemos todos. Portanto, é preciso assegurar
que a melhora das condições de vida, inclusive das vastas populações ainda sem
acesso às vantagens do mundo moderno, se faça sem destruir nosso futuro. Este
discurso hoje se faz com cálculos, gráficos, demonstrações – e propostas. Há
nele um elemento apocalíptico, de possível destruição do mundo? Há, mais ou

158
menos (porque não é a destruição do planeta, é o fim dele como lugar habitável para nós). Mas é
o primeiro apocalipse com demonstração científica. Mas, talvez, o mais interessante seja a ideia do
jogo que não é de alguns ganhando e outros perdendo, mas de todos perdendo – no cenário atual
– e todos ganhando, se as coisas mudarem. Daí que o projeto sustentável cause uma polêmica. Para
alguns, é a chance da cooperação de todos. Para outros, é um embuste, que mascara os conflitos
irredutíveis que há na sociedade. Mas, seja como for, questões novas entraram na cena política, para
além do mero crescimento e distribuição de renda. No fundo, é a questão da vida não apenas com
quantidade, mas com qualidade. E teremos de discutir isso de agora em diante.
RIBEIRO, Renato Janine. Sustentar: entendendo as bases filosóficas para a ecologia e seu desdobramento mais recente. Revista
Filosofia, portal Ciência e Vida, ed.63, São Paulo, nov. 2011. Disponível em: <http://portalcienciaevida.uol.com.br/ESFI/Edicoes/50/
artigo182863-1.asp>. Acesso em: 17 nov. 2011.

CONHECIMENTO EM XEQUE

DESDOBRAMENTO

Relações entre natureza e sociedade O desenvolvimento sustentável


somente pode ser entendido como
A crise ambiental envolve todos os seres vivos do planeta. Pensar
um processo no qual, de um lado,
a crise ambiental como crise social significa compreender que as for- as restrições mais relevantes estão
mas sociais de vida sofrem as consequências da mudança climática, relacionadas com a exploração
do desmatamento, da degradação ambiental, da crise urbana, entre dos recursos, à orientação do
outros. Para superar o problema ambiental exige-se da sociedade uma desenvolvimento tecnológico e
mobilização consciente sobre a gravidade do momento, buscando saí- o marco institucional. De outro,
das diante dessa crise. A necessidade de mobilizar a sociedade para o o crescimento deve enfatizar os
problema do meio ambiente demanda a constituição de novas relações aspectos qualitativos, notadamente
sociais entre os indivíduos e entre esses e a natureza. Essas relações os relacionados com a equidade, o
uso de recursos – em particular da
são determinantes para uma transformação que objetive a sustentabi-

UNIDADE 8
energia – e a geração de resíduos
lidade ambiental e perpassa pela dimensão econômica uma vez que e contaminantes. Além disso,
as riquezas produzidas pelo trabalho advêm da natureza. a ênfase no desenvolvimento
Sob a ótica da sociologia é fundamental refletir sobre a relação deve fixar-se na superação dos
déficits sociais, nas necessidades
homem e natureza como construção histórica, cultural e social. Du-
básicas e na alteração de padrões
rante milhares de anos, a humanidade constituiu-se a partir dessa de consumo, principalmente
relação e na atualidade há a necessidade de transformá-la, no sentido nos países desenvolvidos, para
de preservar a natureza, pois ela é o outro lado da relação e sem ela a poder manter e aumentar os
sociedade estará condenada ao desaparecimento. Surgem novas formas recursos-base, sobretudo os
de relação entre homem e natureza, como a agricultura familiar, a agrícolas, energéticos, bióticos,
economia solidária, a busca de energias alternativas, entre outros. minerais, ar e água. Assim, a
ideia de sustentabilidade implica
a prevalência da premissa de
que é preciso definir limites às
possibilidades de crescimento e
delinear um conjunto de iniciativas
que levem em conta a existência
de interlocutores e participantes
sociais relevantes e ativos por meio
de práticas educativas e de um
processo de diálogo informado,
o que reforça um sentimento
de corresponsabilidade e de
constituição de valores éticos. Isto
JUNGES, Mario Arthur. Desmatamento sustentável. Jornal NH. 3 jun. 2008. também implica que uma política
Disponível em: <http://fontanablog.blogspot.com/2008_06_03_archive.html>
Acesso em: 17 nov. 2011. 159
SOCIOLOGIA  Meio ambiente e capitalismo

de desenvolvimento para

[S.I.]/novaquimica
uma sociedade sustentável não
pode ignorar nem as dimensões
culturais, nem as relações de
poder existentes e muito menos
o reconhecimento das limitações
ecológicas, sob pena de apenas
manter um padrão predatório de
desenvolvimento.
JACOBI, Pedro Roberto. Educacao ambiental,
cidadania e sustentabilidade. Cadernos de
Pesquisa (Fundacao Carlos Chagas). São
Paulo, v.118, 2003. p.195.

Disponível em: <http://sosriosdobrasil.blogspot.com/2011/04/poluicao-da-agua-no-brasil-e-no-mundo.html>.


Acesso em: 19 out. 2011.

O problema da degradação ambiental é uma realidade que marca o final do século


XX e início do século XXI. A natureza tem limites e temos presenciado o esgotamento
do meio natural que, a cada momento que passa, revela sinais de que é necessário
repensar o atual modelo de sociedade. A indústria teve e tem um papel fundamental
no desenvolvimento da humanidade, esse é um dado inegável, porém é urgente que
os indivíduos reflitam sobre o custo desse desenvolvimento. Especialistas têm alertado
sobre a gravidade do problema, a natureza tem demonstrado pontos de esgotamento
ambiental, as alterações climáticas são uma realidade que temos presenciado concre-
tamente no nosso dia a dia. Ao mesmo tempo, devemos compreender o meio ambiente
não somente como natureza, mas também, e principalmente para a Sociologia, como
meio social. As grandes cidades são espaços de desorganização ambiental, e incluem
a questão da moradia, do lixo produzido, da ocupação irregular de áreas de manan-
ciais, entre outros. As metrópoles se tornaram exemplos, em sua grande maioria, da
degradação ambiental urbana, há uma desordem nas grandes cidades que se reflete
diretamente na vida das pessoas. As projeções não são animadoras, torna-se neces-
sário refletir sobre esses problemas que além de envolveram a natureza, envolvem
fundamentalmente as relações sociais.
O desenvolvimento sustentável é uma das dimensões que a sociedade tem discutido
com relação à questão ambiental. As formas de socialização voltadas para o desenvol-
vimento sustentável exigem das pessoas uma transformação nos hábitos de consumo e
destinação do lixo urbano. Transformar a cultura de uma sociedade exige uma profunda
alteração no processo de formação do indivíduo e sua socialização, sendo decisivo o
papel da família, de novas formas de trabalho e da educação ambiental.

Os impactos sobre o meio ambiente


Enquanto a maioria da população brasileira deseja entrar na sociedade de consumo,
parte significativa pretende ascender ao padrão da classe média alta. Concretizar essas
aspirações, porém, tem um alto custo: a superexploracão do trabalho e a subestimação
dos custos ambientais.
Neste século, a questão ambiental coloca desafios centrais para o futuro da huma-
nidade. Se nas décadas passadas ainda era tolerável considerar o meio ambiente como
uma variável menor nas reflexões sobre o desenvolvimento, hoje não há duvida de que
ele passou, para o bem ou para o mal, a parâmetro principal de uma análise que se pre-
tenda responsável. Em resumo, empobrecemos e sujamos o planeta de maneira progres-
160
sivamente irreversível. Tiramos dele os recursos

Jorge da Silva/Conexão Ambiental


naturais não-renováveis, tais como os minerais e
o petróleo, e os renováveis, a água e a biomassa,
a grande novidade foi chegarmos a ponto de fazer
com o que era renovável se tornar não renovável.
Poluímos ar, águas e solos em escalas que ultra-
passam os limites locais e afetam regiões inteiras,
países vizinhos e até outros continentes.
Admitida essa premissa, é preciso questionar
sobre quais os caminhos para um desenvolvi-
mento ambientalmente sustentável. Um deles
mantém o modelo atual. Para isso, aposta na
continuidade da aliança entre ciência, tecnolo-
gia e empresas na solução dos problemas am-
bientais. Faltará petróleo e a alimentação enca-
recerá? A nanotecnologia pode tornar a energia SILVA, Jorge. Lugar de lixo é no lixo. 29 set. 2001. Disponível
solar mais eficiente e barata do que é hoje e a em: <http://www.google.com.br/imgres?q=imagens+charges
+degradacao+ambiental&hl=ptBR&tbm=isch&tbnid=F2IDhn
agricultura do futuro promete ganhos de produ- gXrKfBVM:&imgrefurl=http://cantinholiterariososriosdobrasil.
tividade nunca vistos ao combinar engenharia wordpress.com >. Acesso em: 19 out. 2011.
genética, informática e química avançadas. [...]
O desenvolvimento não é um mecanismo cego
que age por si. O padrão de progresso dominante descreve a trajetória da sociedade
contemporânea em busca dos fins tidos como desejáveis, fins que os modelos de
produção e de consumo expressam. É preciso, portanto, rediscutir os sentidos. Nos
marcos do que se entende predominantemente por desenvolvimento, aceita-se rever
as quantidades (menos energia, menos água, mais eficiência, mais tecnologia), mas
pouco as qualidades: que desenvolvimento, para que e para quem?
LEROY. Jean Pierre. Encruzilhadas do Desenvolvimento. Le Monde Diplomatique Brasil. Ano 1- Número 12 -
Julho de 2008. p.8-9.

A partir das mudanças promovidas pelo capitalismo, pela globalização, pelas tecnolo-

UNIDADE 8
gias e pelo desenvolvimento, o cenário das cidades e das áreas rurais foi se alterando. As
próprias relações sociais transformaram-se e o meio urbano trouxe novas características
para o dia a dia da vida social. Hábitos de trabalho e de consumo passaram a fazer parte
da cultura das pessoas e a mudança de uma cultura rural para uma cultura urbana afas-
tou o homem da natureza, principalmente com relação às formas de trabalho realizadas
dentro do processo industrial.
Os problemas ambientais não são de fácil resolução, envolvem diretamente a ques-
tão do trabalho na sociedade e do próprio sistema industrial que historicamente se
constituiu a partir da exploração sobre a natureza. A crise ambiental envolve o sistema
econômico predominante, a indústria e as formas de consumo. Transformar essa cultura
envolve revolucionar o atual sistema produtivo e as relações sociais e econômicas
dele decorrentes.

1. A relação entre sociedade e natureza tem revelado uma crise ambiental sem precedentes.
Este é o momento de repensar e buscar alternativas para essa relação, considerando o papel da
educação no processo de transformação de uma cultura que agride e destrói a natureza, para
uma cultura sustentável pautada pelo respeito à ecologia. Em equipe realize uma pesquisa so-
bre o significado da ‘’Sociedade sustentável” e o que ela propõe. Na prática social que benefícios
poderia trazer? Como fonte de pesquisa, você pode utilizar vários recursos, vídeo, reportagens
de jornais e revistas, depoimentos televisivos, entre outros.

161
SOCIOLOGIA  Meio ambiente e capitalismo

Sociedade e Economia Solidária: Enfrentamento da Crise Ambiental


Os problemas ambientais mobilizam a sociedade por meio de vários movimentos
sociais que buscam alternativas transformadoras diante da crise ambiental. Uma das al-
ternativas, que surgiu nos últimos anos como forma de enfrentamento dessa crise, foi
a Economias solidária, que propõe repensar o modelo de desenvolvimento econômico
introduzindo novos valores na relação entre homem, sociedade e natureza objetivando
o desenvolvimento de novas forças produtivas e relações de produção, promovendo um
processo sustentável de crescimento econômico que preserve a natureza e promova uma
redistribuição da renda em favor da população excluída da produção social.
A Economia solidaria é uma forma de promoção da sustentabilidade social, ou seja,
a base econômica da sociedade é questionada a partir da noção de inclusão social. As
desigualdades sociais passam a ser compreendidas como uma realidade que coloca em
risco o desenvolvimento sustentável da sociedade, já que as crises sociais são em grande
medida fruto da má distribuição da renda econômica. A relação entre Economia solidária
e crise ambiental se encontra na busca de mecanismos coletivos para pensar e desenvolver
ações econômicas a partir da sustentabilidade ambiental.
A Economia solidária se diferencia de outras formas de organização econômica
pelo fato de que se apoia no trabalho coletivo, é no espírito da coletividade que
se desenvolve essa ideia. Exige a apropriação de novos valores e pressupostos que
extrapolam os mecanismos meramente econômicos, fundamentando-se na lógica do
bem-estar social de todos.

Economia Solidária
Nós costumamos definir economia solidária como um modo de produção que
se caracteriza pela igualdade. Pela igualdade de direitos, os meios de produção são
de posse coletiva dos que trabalham com eles – essa é a característica central. E a
autogestão, ou seja, os empreendimentos de economia solidária são geridos pelos
próprios trabalhadores, coletivamente, de forma inteiramente democrática, quer dizer,
cada sócio, cada membro do empreendimento tem direito a um voto. Se são pequenas
cooperativas, não há nenhuma distinção importante de funções, todo o mundo faz o
que precisa. Agora, quando são maiores, aí há necessidade que haja um presidente,
um tesoureiro, enfim, algumas funções especializadas, e isso é importante, sobretudo
quando elas são bem grandes, porque aí uma grande parte das decisões tem que ser
tomada pelas pessoas responsáveis pelos diferentes setores. Eles têm que, estritamen-
te, cumprir aquilo que são as diretrizes do coletivo, e, se não o fizerem a contento,
o coletivo os substitui. É o inverso da relação que prevalece em empreendimentos
heterogestionários, em que os que desempenham funções responsáveis têm autoridade
sobre os outros.
SINGER, Paul Israel. Economia Solidária. Entrevista. Estudos Avançados São Paulo, USP, 22 (62), 2008. p.289.

2. A economia solidária pode desenvolver-se a partir do cooperativismo. Em equipe, faça uma pesquisa sobre
o Cooperativismo como sistema social e econômico, procurando responder as questões:
a) Quais são as principais características e como funciona?
b) Qual a relação entre o cooperativismo e economia solidária?
c) Procure exemplos de cooperativas no ambiente rural e urbano, identificando suas especificidades.

162
As grandes intervenções na natureza
‘’Quando uma floresta cai é irreversível’’
São Paulo, 20 de agosto, 17h. Sany Kalapalo, índia xinguana, empunha o megafone e
repete o que vem dizendo no seu blog: ‘’O governo brasileiro está insistindo em construir
em terras indígenas a terceira maior hidrelétrica do mundo, prejudicando vários povos
que necessitam do rio para sobreviver’’. Aplausos. ‘’Não podemos deixar isso acontecer,
temos de gritar pelas florestas do nosso Brasil.’’Chove, a noite cai. Mesmo assim, centenas
de pessoas, entre elas ambientalistas e integrantes das comunidades indígenas Kapalo,
Kamayurá e Xavante, entre outras, escutam Sany, de 21 anos. Estamos nas cercanias do
Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), alvo
mor do protesto. Em fevereiro de 2010, vale lembrar, o Ibama emitiu a licença prévia
para a construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, no Rio Xingu, Pará. Em seguida,
o governo federal autorizou o empreendimento. A manifestação contra a construção de
Belo Monte teve início por volta de 14h, diante do Museu de Arte de São Paulo (Masp).
Segundo a Polícia Militar, cerca de mil pessoas participaram do protesto, mas organiza-
dores falam em 2 mil manifestantes.
‘’Na primeira manifestação, em 5 de março, havia somente 12 pessoas,’’ me disse Sany.
‘’Mas como você vê, a coisa está crescendo”. E neste Dia Internacional da Ação em Defesa
da Amazônia, ativistas manifestaram pela mesma causa, no Rio de Janeiro, Brasília, e em
mais 12 cidades. Segunda-feira, 22, haverá protestos contra Belo Monte em 16 países,
entre eles Reino Unido, Alemanha e Turquia.
Já às mesas da privilegiada área paulistana onde ocorre a manifestação, também cha-
mada com orgulho pelos seus habitantes de Manhattan Paulista, a construção da usina no
rio Xingu não chega a ser um tema de predileção. Por essas e outras, caciques, guerreiras,
ambientalistas com cocares, aquele ativista com uma enigmática máscara branca, e mais
a massa de manifestantes com megafones e faixas chamam a atenção.
Empunhando um megafone, agora na Rua Bela Cintra, um dos líderes do protesto
grita: ‘’Estamos em sintonia com os indignados do mundo. Nós somos gregos, espanhóis,

UNIDADE 8
irlandeses. Sim, somos ainda fracos, mas vamos barrar a construção de Belo Monte’’.
Para Felipe Soares, músico de 34 anos, Belo Monte ‘’prejudica o ecossistema, e é um
desrespeito aos povos indígenas’’. Outra questão levantada por Soares, e por vários outros
entrevistados, é a ausência da mídia nessa luta contra Belo Monte. O motivo? ‘’Existe um
conúbio entre grupos políticos e as empreiteiras e a mídia, você sabe bem disso, tem o
rabo preso com essa gente’’, retruca um ativista que pede para não ser citado.
Já a guerreira Sany, há nove anos em São Paulo e com intenções de estudar engenharia
florestal, prefere expor suas ideias sem buscar refúgio no anonimato. No seu blog lê-se: ‘’O
governo brasileiro insiste nesta construção, violando diversos acordos internacionais, ferindo
a Declaração dos Direitos Humanos, por um projeto que coloca em risco a vida de diversos
povos nativos do Brasil, por uma gama de dinheiro que está enchendo os bolsos dos políticos
envolvidos, em especial o senhor José Sarney, atual presidente do Senado brasileiro.
Assim como Soares, Sany diz ‘’sentir falta’’ de uma cobertura mais assídua por parte
da mídia do movimento contra Belo Monte. Por sua vez, Marquinho Mendonça, divulga-
dor da causa, observa: ‘’Reivindicamos uma comissão, incluindo todas as categorias, ou
seja, ambientalistas, biólogos, ativistas, etc., para debater a construção de Belo Monte’’.
Contudo, o governo federal não parece disposto a dialogar. E, como diz Mendonça, ‘’essa
é a briga mais importante de todas porque quando uma floresta cai é irreversível’’.
CARTA, Gianni. Quando uma floresta cai é irreversível. Revista Carta Capital. São Paulo, 21 ago. 2011. Disponível em: <http://
www.cartacapital.com.br/destaques_carta_capital/%E2%80%98quando-uma-floresta-cai-e-irreversivel%E2%80%99>.

163
SOCIOLOGIA  Meio ambiente e capitalismo

3. O caso da usina de Belo Monte é representativo de uma polêmica que coloca em oposição
alguns agentes. De um lado, ativistas do movimento ambientalista e a população da região, de
outro, o governo e os interesses do mercado.
a) Procure na internet, em jornais e revistas informações sobre a polêmica existente a respeito
da construção da usina de Belo Monte. Identifique os argumentos dos movimentos sociais
que são contra a construção da usina e a posição do Estado e dos grupos empresariais que
são a favor da construção da usina. Faça um quadro comparativo sobre as duas versões e
apresente para os colegas.
b) Pesquise outros casos de intervenções no meio ambiente que, assim como a construção da
usina de Belo Monte, causaram polêmicas e conflitos. Identifique as diferenças e semelhan-
ças entre os argumentos em disputa em cada um dos casos.

Sociedade, natureza e crise alimentar


O crescimento da população mundial aumenta a demanda por alimentos. Paralelamente
ao aumento da produção mundial de alimentos, ocorreu uma degradação ambiental, isso
porque o uso de uma tecnologia intensiva na agricultura produziu uma agressão à nature-
za. Essa agressão ocorre por meio do uso de novas técnicas agrícolas e dos agrotóxicos.
Logo, a agricultura torna-se ao mesmo tempo uma saída para a fome no mundo e um dos
maiores problemas ambientais.
A crise alimentar envolve várias questões sociais, ambientais e econômicas. De forma
geral os países mais pobres sofrem com a alta nos preços dos alimentos. No Brasil, o
Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (CONSEA), tem a função de
articular o governo e a sociedade para o desenvolvimento de ações, na área da alimentação
e nutrição, com o objetivo de enfrentar o problema da fome no nosso país. Criado em
2003 esse órgão presta assessoria à Presidência da República, formulando políticas para
garantir o direito humano à alimentação. A criação do Consea teve como principal inspi-
ração entre outras, a figura do sociólogo Herbert de Souza, o Betinho. No ano de 1993,
ele fundou um movimento social chamado de Ação da Cidadania, que desenvolveu um
amplo programa de luta contra a miséria por meio do combate à fome e ao desemprego.
A luta pela erradicação da fome do solo brasileiro foi uma das suas principais campanhas
que mobilizou grande parte da sociedade civil brasileira. O fato de ser um sociólogo dava
a Betinho uma visão ampliada da realidade social brasileira sendo profundo conhecedor
das condições sociais do povo pobre brasileiro. Aliado a Betinho estava o bispo da cidade
de Duque de Caxias no Rio de Janeiro, Dom Mauro Morelli.
Deve-se levar em consideração que a miséria está relacionada à questão ambiental
na medida em que as relações sociais são pautadas pela desigual distribuição da renda,
questão analisada em unidade anterior. Para a Sociologia, pensar os problemas ambientais
demanda, antes de tudo, pensar sobre as desigualdades sociais e problemas como a fome,
desemprego, falta de moradia nas metrópoles, violência urbana, analfabetismo, entre outros
que são processos que impactam diretamente a realidade social e ambiental. A relação
entre sociedade e meio ambiente é fundamental para pensar uma transformação cultural
do processo de destruição da natureza. A educação ambiental pode ser considerada como
uma das principais formas de superação do processo histórico de destruição da natureza
sob a perspectiva do desenvolvimento social e econômico.

Entenda a crise dos alimentos


A recente alta nos preços dos produtos agrícolas foi motivada por uma série de fatores
conjugados e se tornou uma crise mundial. O maior temor, além da falta de suprimentos, é
que cresçam as revoltas populares pela falta de comida, o que já foi registrado em diversos
países, como Haiti, Indonésia, Camarões e Egito. Nesse sentido, diversas instituições inter-
nacionais já se manifestaram, como a ONU, Banco Mundial, FMI e Bird, por exemplo.
164
Entenda os principais motivos que desencadearam a crise:
Desenvolvimento global - A longa fase de prosperidade mundial, com especial força
nos países emergentes, fez crescer significativamente o consumo de alimentos no mundo.
Antes de se iniciar a atual crise de crédito nos Estados Unidos, o mundo não passava por
uma crise financeira com dimensões globais desde o final da década de 1990.
Assim, os seguidos anos de calmaria deram condições para que o comércio exterior
disparasse, o que gerou renda nos países mais pobres – estas nações são referência histó-
rica tanto na produção de matérias-primas como para base de empresas multinacionais.
Com mais dinheiro no bolso, a população desses países, entre eles Brasil e China, passou
a consumir mais, sendo que os alimentos foram os primeiros produtos a terem seus con-
sumos elevados, causando um descompasso entre oferta e demanda.
População - A população mundial está em franca expansão. Segundo a ONU (Or-
ganização das Nações Unidas), passará de 6,5 bilhões de pessoas em 2005 para 8,3
bilhões em 2030 e 9 bilhões em 2050. O efeito do aumento do número de pessoas que
se alimentam ganha ainda mais peso porque a maioria delas nasce na Ásia e na África,
onde o consumo de alimentos cresce em ritmo mais rápido devido ao desenvolvimento
econômico desses continentes.
Secas - Alguns dos principais produtores mundiais de alimentos, como o Brasil e a Aus-
trália, passaram, recentemente por fortes secas, que atingiram a produção. Na Austrália a
seca já perdura por seis anos, enquanto que o Brasil e o Leste Europeu tiveram problemas
entre 2005 e 2006. Com a quebra de safra nesses países, os estoques foram reduzidos e
agora estão perigosamente baixos devido ao aumento no consumo.
[...]
Biocombustíveis - Diversas entidades, como a ONU (Organização das Nações Unidas)
e o FMI (Fundo Monetário Mundial), reclamam do desvio de parte da produção agrícola
para a produção de biocombustíveis. O resultado, segundo eles, é que a oferta cai ainda
mais em um momento de alta na demanda, causando a elevação dos preços. O caso mais
criticado é o do milho, usado nos Estados Unidos para a produção de álcool, que levou
à disparada do preço do produto, no mercado internacional já no ano passado. Também

UNIDADE 8
criticam a substituições de lavouras tradicionais pelas de cana-de-açúcar, em um ataque
direto ao Brasil --principal exportador de álcool do mundo e que usa a cana-de-açúcar
para extrair o produto.
Travamento às exportações - Diante do risco de desabastecimento, grandes países
produtores de alimentos estão impedindo a exportação, agravando o cenário nos países
importadores. Os casos mais recentes, foram vistos com o trigo argentino e o arroz in-
diano e vietnamita.
ENTENDA a crise dos alimentos. Folha.com. São Paulo. 25 abr. 2008. Mercado. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/
folha/dinheiro/ult91u395708.shtml>. Acesso em: 19 out. 2011.

4. Conforme foi visto nos textos acima, a questão alimentar articula aspectos sociais, econômicos e ambientais.
a) Realize uma pesquisa sobre a temática da segurança alimentar, identificando que regiões são mais afetadas
pela crise de alimentos atualmente. Escolha uma região para realizar um estudo aprofundado, levantando
dados demográficos, econômicos, climáticos, entre outros. Redija um texto apresentando os dados e levan-
tando hipóteses explicativas para a situação.
b) Herbert de Souza foi um personagem importante na história recente do país, tendo atuação marcante no
período de redemocratização, após o fim da ditadura militar no Brasil. Faça uma pesquisa biográfica sobre o
sociólogo Herbert de Souza, destacando sua importância social e política na luta pelo fim da fome no Brasil.
Você pode acessar o site do IBASE, disponível em:(<http://www.ibase.br/pt/perfil-betinho/>. Acesso em: 29
ago. 2011.
165
SOCIOLOGIA  Meio ambiente e capitalismo

AGRICULTURA ORGÂNICA: operacionalizando o


conceito de agricultura sustentável
Até o século XIX, os alimentos eram produzidos sem o uso de adubos químicos e agro-
tóxicos. Naquela época, os agricultores produziam o que hoje conhecemos como “alimen-
tos orgânicos”. Depois de algumas décadas, contaminando o planeta com a agricultura
química ou convencional, algumas correntes ligadas à agricultura sustentável – como é
o caso da agricultura orgânica – surgem como um resgate de ensinamentos da natureza
combinando com tecnologias modernas de produção.
[...]
Agricultura orgânica: fazendo as pazes com a natureza
A agricultura orgânica da atualidade representa a fusão de diferentes correntes de pen-
samento que podem ser agrupadas em quatro grandes vertentes: agricultura biodinâmica,
biológica, orgânica e natural.
Desde o final do século XIX, existia na Europa e, mais especificamente, na Alemanha,
um movimento por alimentação natural que preconizava uma vida mais saudável. Esse
movimento fazia parte de uma corrente de pensamento que contestava o desenvolvimento
industrial e urbano da época.
No início do século XX, mais especificamente na década de 1920, surgiram as primei-
ras correntes alternativas ao modelo industrial ou convencional de agricultura. Segundo
TATE (1994), o avanço lento destes movimentos e suas repercussões práticas ocorreram
em função do forte lobby da agricultura química, ligada a interesses econômicos de uma
agricultura moderna em construção. [...]
DAROLT, Moacir. “Agricultura orgânica: operacionalizando o conceito de agricultura sustentável”. Agenda XXI – Diálogos Paraná:
capacitação de multiplicadores. Governo do Paraná. 2006, p. 23.

Cultivando Consumidores
[...] Comparados com a população de uma forma geral, os consumidores de produtos
orgânicos ou agroecológicos se aproximam muito de um consumidor consciente. Segundo
pesquisa do Instituto AKATU (2004), um consumidor consciente apresenta diferença no ato
de ir às compras, em relação à maioria da população; mostra disposição em transformar
em prática os valores com que se identifica; tende a se preocupar com as gerações futuras
e com o coletivo; usa o seu poder de consumidor cidadão.
Diversas pesquisas têm mostrado que o consumidor orgânico é normalmente, um pro-
fissional liberal ou funcionário público, em maioria do sexo feminino, com idade variando
entre 31 a 50 anos. Apresenta nível de instrução elevada, tendo em sua maioria cursado o
ensino superior. A maioria é usuário da internet com renda entre 9 e 12 salários mínimos.
São pessoas que têm o hábito de praticar esportes com frequência e, mesmo morando na
cidade, procuram um estilo de vida que privilegie o contato com a natureza, o que faz
com que frequentem parques e bosques regularmente. Esses dados indicam que locais de
feiras orgânicas ou agroecológicas têm maior sucesso em áreas naturais (parques, bosques,
praças etc.). Além disso, são pessoas preocupadas com saúde e qualidade de vida, que
privilegiam terapia e medicina alternativas.
Grosso modo, podemos dizer que existem dois tipos de consumidores orgânicos
(tabela 1). O primeiro tipo refere-se ao grupo dos consumidores mais antigos, que
estão motivados, são bem informados e exigentes em termos de qualidade biológica
do produto. Esses consumidores são os frequentadores das feiras verdes de produtos
orgânicos e têm um nível de consciência ambiental maior em relação aos demais
consumidores.

166
Um segundo tipo, mais recente, ainda pouco estudado, é o consumidor das grandes
redes de supermercados, que, apesar de ser uma pessoa comprometida com a questão
ambiental, compra mais por impulso e de forma menos regular, quando comparado ao
grupo anterior. Nesse sentido, são necessárias estratégias de fidelização do consumidor
antigo e retenção ou manutenção do novo consumidor.

Características Consumidor novo Consumidor antigo


Ato de ir às compras de
Ocasional Regular (fiel)
produtos orgânicos
Tempo de consumo < 5 anos > 5 anos
Preferência de compra Supermercados Feiras e lojas
Preço suplementar
(disposição para 10-20% 20-30%
pagar mais)
Saúde, meio ambiente e
Qualidade percebida Saúde e segurança alimentar
qualidade de vida
Procedência (origem
Freios para compra Preço e falta de informação
do produto)
Valores Comprometido Consciente
DAROLT, Moacir. “Agricultura orgânica: construindo novas relações entre agricultores e consumidores”. Agenda XXI – Diálogos
Paraná: capacitação de multiplicadores. Governo do Paraná. 2006, p.29-30.

5. Procure conhecer o perfil dos consumidores existentes em sua região.


a) Com o auxílio de um questionário, previamente elaborado pela classe, entreviste familiares, vizi-
nhos e amigos buscando as seguintes informações:
• perfil socioeconômico do entrevistado;

UNIDADE 8
• quantas refeições realiza durante o dia;
• locais em que realiza as refeições;
• onde compra os alimentos utilizados em casa;
• que alimentos costuma comprar (industrializados, in natura);
• Se analisa os componentes nutricionais dos alimentos adquiridos;
• Se conhece a agricultura orgânica;
b) Sistematize os dados e apresente-os em forma de gráficos.

Capitalismo, globalização e meio ambiente


O aspecto econômico da globalização tem profundos impactos no meio ambiente
em decorrência das alterações implementadas nos sistemas produtivos que provocam,
por consequência, alterações nos hábitos de consumo das áreas envolvidas nesse
processo.
As alterações nos sistemas produtivos ocorrem em nível mundial, resultando em uma
redistribuição das funções econômicas dos vários países, uma vez que um produto final
pode ter peças e componentes produzidos em várias partes do mundo, dependendo dos
custos dos insumos que compõem os produtos em cada região (mão de obra, impostos,
transportes, rede de escoamento dos produtos e também exigências ambientais). Paí-
167
SOCIOLOGIA  Meio ambiente e capitalismo

ses que ofertam melhores condições para as indústrias tornam-se mais atraentes nesse
novo sistema produtivo ocasionando um processo de migração industrial em busca de
menores custos.
Nas décadas de 1970 a 1980 a economia mundial passou por um período de re-
estruturação econômica e de reajustamento social e político com novas experiências
na organização industrial e vida social e política como resposta do capitalismo à
crise econômica definida pela “crise do petróleo” em 1973. Organizações caracteri-
zadas pela dispersão e mobilidade geográfica e respostas flexíveis nos mercados de
trabalho e consumo, apoiados por inovações tecnológicas marcam um processo que
intensifica, a longo prazo, a competição internacional e inter-regional. Os países mais
desenvolvidos ficam responsáveis pela pesquisa e implantação de novas tecnologias,
enquanto os países em desenvolvimento dedicam-se à produção em grande escala.
(HARVEY,1994).
A América Latina se insere no segundo grupo, assumindo um processo de industria-
lização caracterizado pelo baixo custo da mão de obra e por uma menor exigência em
relação à proteção do meio ambiente decorrente de uma legislação menos restritiva que
a existente nos países mais desenvolvidos economicamente. Daí resulta o comércio in-
ternacional de produtos naturais de origem vegetal e animal, além da extração de madei-
ras nobres, prejudicando seriamente o meio ambiente tanto pela degradação das zonas
rurais resultante de práticas agrícolas danosas quanto pela perda de qualidade de vida
nos ambientes urbanos resultante da poluição (do ar, do solo, da água) que acompanha
o processo de industrialização e urbanização desordenado.
No entanto, a tendência mundial de desenvolvimento sustentável compõe um dos
pilares da nova economia capitalista, que a partir do final dos anos 1990 identificou
fragilidades em sua expansão e a necessidade de novas ferramentas para se perpetuar
levando à reflexão sobre as novas modalidades de produção e consumo, considerando o
fortalecimento de instituições voltadas à preservação do meio ambiente. Os acordos e as
agendas internacionais, como a Agenda 21, resultado da Conferência das Nações Unidas
sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento, realizada no Rio de Janeiro em 1992 são
exemplos desse tipo de cuidado e preocupação que, embora amplamente reconhecidos
como válidos têm surtido pouco efeito frente a fortes interesses econômicos e ao desem-
prego existente em grande parte dos países do mundo.

6. (UEL, 2004, adaptada) A Agenda 21 é o principal documento da Conferência das Nações Unidas sobre o Meio
Ambiente e Desenvolvimento Humano, da qual são signatários cerca de 170 países, entre eles, o Brasil. Trata-se de
uma proposta de desenvolvimento sustentável calcada em um planejamento do futuro com ações de curto, mé-
dio e longo prazo, inclusive definindo recursos e responsabilidades. Contudo, o não cumprimento da Convenção
sobre Mudanças Climáticas, que previa o congelamento das emissões atmosféricas aos níveis de 1990, é uma das
evidências do pequeno avanço na implementação da Agenda 21. Durante a Cúpula Mundial de Desenvolvimento
Sustentável ocorrida em Johannesburgo em 2002, a falta de engajamento dos países ricos foi notável, apesar des-
ses serem responsáveis por aproximadamente 82% das emissões que causam o efeito estufa. Os Estados Unidos,
que respondem por 29% dessas emissões, recusaram-se a assinar o Protocolo de Kyoto.
• Analise as afirmações abaixo e verifique qual delas é correta. Depois faça uma pesquisa e justifique sua res-
posta. Sua pesquisa pode ser realizada no site do Ministério do Meio Ambiente, que traz informações precio-
sas sobre a Agenda 21 (www.mma.gov.br).
a) O crescimento econômico dos países periféricos, decorrente da implementação da Agenda 21, beneficia direta-
mente as multinacionais, dada a possibilidade de ampliarem seus lucros.
b) A adesão dos países periféricos à Agenda 21 inviabiliza a implementação de seus parques industriais, pois são
estes países os maiores poluidores do planeta.
c) As metas estabelecidas na Agenda 21 inviabilizam as atividades industriais e, consequentemente, implicam
na desestruturação da economia dos países ricos.
168
d) As atividades que poluem o ambiente e degradam as condições de vida da população são imprescindíveis ao
desenvolvimento socioeconômico, daí a ausência de interesse na implementação da Agenda 21.
e) A proposta de desenvolvimento sustentável da Agenda 21 é inconciliável com o modelo de crescimento pre-
datório baseado na exploração indiscriminada da força de trabalho e dos recursos naturais do planeta.

CIÊNCIA E TECNOLOGIA
Dinamarqueses vão importar lixo para geração de energia
A produção de biogás e outros produtos a partir de lixo está dando tão certo
na Dinamarca que o país deve importar resíduos a partir de 2016.
Nesse ano, ficará pronta uma nova usina de processamento de lixo da
cooperativa Amagerforbrænding, hoje a segunda maior do país.
A ideia é comprar resíduos de países do norte e do leste da Europa, como
Alemanha e Polônia, para dar conta da capacidade total da usina.
Hoje, a Dinamarca processa 100% do lixo que produz em empresas privadas
e em cooperativas sem fins lucrativos (esse é o caso da Amagerforbrænding).
A população separa o lixo em casa e também leva os recicláveis até postos
de troca.
“Os dinamarqueses estão bastante acostumados a trocar garrafas de plástico
e latas de alumínio por moedas”, disse à Folha a ministra do Clima e Energia da
Dinamarca, Lykke Friis. A Amagerforbrænding processou, no ano passado, cerca
de 400 mil toneladas de lixo, ou 400 caminhões carregados todos os dias.
Adeus aos fósseis
O tratamento de lixo reduz a emissão de CO2, principal gás do aquecimento
global. Além disso, no caso da Dinamarca, o biogás produzido a partir do lixo

UNIDADE 8
substitui os combustíveis fósseis que seriam usados para aquecimento das casas.
De acordo com Vivi Nør Jacobsen, da cooperativa, 4 kg de lixo processados na
usina equivalem a 1 L de óleo para aquecimento das casas.
“A atividade da usina está dentro da proposta do governo de acabar com o
uso de combustíveis fósseis no país até 2050”, explica Jacobsen.
A Amagerforbrænding também tem uma proposta de aproximar o processamento
do lixo da sociedade.
A nova fábrica será em Copenhague, assim como, a atual, que é de 1970 e se
destaca por ser limpa e colorida. A diferença é que a usina que será inaugurada
ficará ainda mais perto do palácio real dinamarquês e funcionará como um
espaço público, tendo até pista de esqui.
“Queremos mostrar que uma usina de processamento de lixo não precisa
ser feia e fedida”, explica Jacobsen. No Brasil, algumas iniciativas de reciclagem
funcionam bem. Por exemplo, quase todas as latinhas de alumínio são recicladas
no país. Os lixões a céu aberto continuam predominando no Brasil pelo menos até
2014. Esse é o prazo final estipulado pela Política Nacional de Resíduos Sólidos,
sancionada no ano passado, para que todos os lixões sejam completamente
fechados. O objetivo é ter aterros sanitários para os resíduos que não possam
ser tratados – e reaproveitar o restante.
RIGHETTI, Sabine. Dinamarqueses vão importar lixo para geraação de energia. Folha.com. 11 jul. 2011.
Ambiente. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/ambiente/941759-dinamarqueses-vao-importar-
lixo-para-geracao-de-energia.shtml>. Acesso em: 19 out. 20111.

169
SOCIOLOGIA  Meio ambiente e capitalismo

O FUTURO EM JOGO

1. (UEG, 2008, adaptada) Analise as afirmações abaixo e coloque verdadeiro (V) ou falso
(F) sobre a relação entre homem e natureza ao longo da história.
A) Até o século XVIII, a relação entre homem e natureza dava-se de forma harmônica em
virtude das sanções morais impostas pela Igreja Católica.
B) A partir da Revolução Industrial, o processo de degradação do meio ambiente pelo
homem acelerou-se.
C) Na Idade Média, as florestas eram compreendidas como locais de inocência e pureza
ética em virtude de sua associação com o Paraíso bíblico.
D) A histórica vocação agrária da economia brasileira resultou na preservação de grandes
biomas no país, tais como a Amazônia, o Cerrado e a Mata Atlântica.

2. (ENEM, 2006) A montanha pulverizada. Esta manhã acordo e não a encontro. Britada
em bilhões de lascas deslizando em correia transportadora entupindo 150 vagões no trem-
monstro de 5 locomotivas, trem maior do mundo, tomem nota, foge minha serra, vai
deixando no meu corpo a paisagem mísero pó de ferro, e este não passa.
ANDRADE, Carlos Drummond de. Antologia poética. Rio de Janeiro: Record, 2000.

A situação poeticamente descrita acima sinaliza, do ponto de vista ambiental, para a


necessidade de:
I. manter-se rigoroso controle sobre os processos de instalação de novas mineradoras.
II. criarem-se estratégias para reduzir o impacto ambiental no ambiente degradado.
III. reaproveitarem-se materiais, reduzindo-se a necessidade de extração de Minérios.
É correto o que se afirma:
A) apenas em I.
B) apenas em II.
C) apenas em I e II.
D) apenas em II e III.
E) em I, II e III.
Divulgação/Fox Entertainment

CONECTE-SE

FILMES
• O dia depois de amanhã, EUA, 2004.
Este filme retrata bem as catástrofes causadas pelas ações inconsequen-
tes dos seres humanos sobre o meio ambiente. O filme fica interessante
pela história de um paleoclimatologista que segue o caminho contrário
de todos os demais. As pessoas estão migrando para o sul, pois o nor-
te está congelando, em decorrência de transformações climáticas. Esse
cientista vai em busca do filho em Nova York, vivendo muitas emoções.
170
• Dersu Uzala, Japão, 1975.

[S.I.]/Divulgação
Este filme trata da relação do homem com a natureza em duas ver-
sões. Dersu Uzala é um camponês mongol que serve de guia para
um militar russo, líder de uma expedição de levantamento topo-
gráfico na Sibéria. Dersu é um exemplo de humildade e sabedoria,
conhece o espaço onde vive e demonstra respeito pelas forças da
natureza. De outro lado, o militar tem por missão reconhecer e de-
marcar o território pertencente à Rússia, mas não tem intimidade
com a região que está fiscalizando e sobrevive pela ajuda do guia,
Dersu Uzala. Quando retorna a seu ambiente, a grande cidade, e
posteriormente recebe em sua casa Dersu, a relação se inverte, o
camponês tem dificuldade em se adaptar ao espaço urbano. O fil-
me mostra de maneira poética e sensível as diferenças culturais en-

[S.I.]/Divulgação
tre o camponês e o pesquisador russo.

• Ilha das Flores – Brasil, 1989.


Este filme retrata a sociedade atual, tendo como enfoque os problemas
sociais, econômicos e culturais, na medida em que contrasta a força do
apelo consumista, os desvios culturais retratados no desperdício, e o
preço da liberdade do homem, como ser individual e responsável pela
própria sobrevivência. O filme destaca a luta pela sobrevivência diária
e a degradação do ser humano, vivendo em sociedade e tornando-se
invisível a ela.

LIVRO

[S.I.]/Thesaurus
• Amazônia: a grande cobiça internacional
Autor: Gélio Fregapani

UNIDADE 8
Editora: Thesaurus
O autor desse livro possui grande experiência na Amazônia, apresen-
tando a geopolítica e as riquezas dessa região. O livro demonstra por-
que países estrangeiros se interessaram tanto pelos atributos dessa
floresta brasileira. Vale conferir!

XEQUE-MATE

1. Por meio do conhecimento desenvolvido nessa unidade, reúna-se com um grupo de colegas e elabore
um projeto de conscientização ambiental e social, seguindo os passos:
a) Trabalhe o tema da Sustentabilidade e crise alimentar.
b) Promova uma reflexão sobre o aspecto da fome como consequência das desigualdades sociais. Registre
as reflexões que julgar mais importantes para o projeto.
c) Elabore uma campanha na escola para conscientização de toda a comunidade escolar acerca da susten-
tabilidade social e ambiental.
171
[S.I.]/infoescola.com

Eraldo Peres/savecoffscoast.com
A mobilização social pelo impeachment do presidente Fernando Collor de Mello fez
parte de um importante processo de transformações políticas e sociais no Brasil.

A inserção do uso de novas tecnologias de informação e comunicação no


Roberto Stuckert Filho/commons.wikimedia.org

cotidiano de alguns povos indígenas também expressa uma mudança social.

[S.I.]/Acervo da Editora

A eleição da Presidenta Dilma Rousseff é um exemplo de mudança


social com relação ao papel da mulher na sociedade.
Transformações

UNIDADE 9
sociais

DIÁLOGO E REFLEXÕES
• O que você sabe sobre o impeachment do ex-presidente
Collor de Mello? Que tipo de mudança esse evento produziu
na política brasileira? Quem foram os cara-pintadas naquele
período?
• Por que a imagem de um indígena diante do computador
pode revelar uma mudança social? Explique o impacto que
essa imagem provoca.
• Com relação à eleição da primeira mulher para ocupar o
cargo de presidente do país, porque esse fato pode ser
caracterizado como uma mudança social? 173
SOCIOLOGIA  Transformações sociais

EM FOCO

Cortina de Ferro

[S.I.]/flc.org.br

A queda do muro de Berlim na Alemanha

Antes e Depois Da Queda do Muro de Berlim

Em nove de novembro de 1989 vivi uma emoção redobrada. o que mais me tocou
é que esse dia histórico aconteceu no mesmo período em que comemorávamos o
aniversário de 90 anos de minha avó, no norte da Alemanha.

Trechos editados e depoimento coletado pela jornalista Sucena Shkrada Resk.


“Eu não me esqueço até hoje da experiência de viver tantos contrastes... Quando
estive em Berlim, em 1980, com minha mãe Ingrid e avó Margarethe, que são
alemãs, o que ficou gravado em minha memória foi a passagem pelo muro, feita
por táxi. Antes de ultrapassar a fronteira entre a parte Ocidental e Oriental, o
carro foi vasculhado de cima abaixo. Fiquei chocada, pois isso acontecia em um
mesmo país. Na verdade, eram dois muros, divididos por um campo minado,
que limitavam o direito de ir e vir das pessoas e representavam dois regimes
políticos.
Na parte oriental, o cenário era composto por uma população que vivia em
extrema precariedade. Não era difícil encontrar pessoas catando papelão nas
ruas. Minha tia-avó morava na área rural de lá, onde havia falta de alimentos
e de óleo para a calefação das casas. Era uma cidade cinza, com muitas ruínas
da guerra. Parecia um túnel do tempo que nos ligava ao ano de 1945. A torre
de rádio da praça Alexanderplatz, de 325 metros, representava um dos poucos
símbolos que contrastavam com essas cenas. Ao voltar para o lado ocidental, o
perfil de consumismo de bens capitalistas destacava outra realidade.

174
Os anos passaram e em 1989 estava de volta para visitar familiares e fazer
um estágio de quatro meses em um jornal alemão, pois havia acabado de me
formar em História na Universidade de São Paulo (USP). A atmosfera por lá era
tensa. As embaixadas alemãs já haviam sido ocupadas em outros países, como
em Varsóvia, na Polônia. Muitas pessoas temiam que houvesse massacres,
como ocorreu na China. Passavam muitas notícias na TV alemã, com cenas de
manifestações em Leipzig e em Berlim.
Era uma situação extremamente bizarra. De um lado, havia um esforço para
acabar com um sistema autoritário e opressor, e de outro, vivia-se o dia a dia
capitalista. Para passar de uma Berlim a outra a pé, a gente conseguia o visto de
um dia. Eu estava acompanhada, desta vez, pelo meu namorado na época. Foi
então, que vivenciei uma das situações mais amedrontadoras de minha vida, no
Controle de Passaportes de Ocupantes de Carros (Check Point Charlie).
Tínhamos de atravessar os bloqueios separadamente. O controle de passaporte
para pedestres ficava na estação Friedrichstrasse, onde eram mantidas chancelas
na passagem. Passei por uma e a porta se fechou. Depois tive de passar por um
corredor e um policial começou a verificar meus documentos. Revirou, olhou.
Então comecei a ficar nervosa. Por fim, fui liberada. Minutos pareceram horas.
Quando estava do lado de fora, consegui ver meu companheiro, que suava frio.
Mas depois o susto passou.
Pudemos observar que muitos monumentos históricos da Berlim Oriental
estavam em escombros. O que restava de certa suntuosidade era a avenida
chamada Karl Marx, com típica arquitetura socialista. Ao sair desse eixo, havia
um estado de decadência dos patrimônios urbanos. Havia filas em frente às
lojas, causadas pela falta de produtos. Nós éramos obrigados a trocar o marco
ocidental pelo oriental. Isso acontecia para que pudessem capitalizar, já que

UNIDADE 9
não poderíamos novamente trocar o dinheiro no outro lado.
Praticamente não havia lugar onde consumir. As poucas lojas de departamentos
eram destinadas a turistas. Dava para comprar discos em vinil de músicas
clássicas e livros de autores de esquerda. Na parte de alimentação, era difícil
encontrar muitos lugares. Chegamos a ir a um restaurante onde a atendente
gritava que devíamos sentar em outra mesa, apesar de o lugar estar vazio. Não
compreendíamos o que estava acontecendo.
Havia muitos policiais nas ruas. Dava para perceber que a situação era
insustentável. Tínhamos de tomar cuidado com qualquer tipo de atitude. Não
podíamos, por exemplo, tirar fotos de militares. Enquanto isso, o lado ocidental
era uma ilha dentro da Alemanha, composta por consumismo, propaganda e
marketing.
Em nove de novembro de 1989, vivi uma emoção redobrada. O que mais
me tocou é que esse dia histórico aconteceu no mesmo período em que
comemorávamos o aniversário de 90 anos de minha avó, no norte da Alemanha.
Um dos convidados desapareceu em dado momento e voltou com um jornal
na mão, que estampava ‘O Muro Caiu’. Minha avó disse: ‘Não acredito que ainda
estou podendo presenciar isso em vida’. Nessa hora foram risos, choros, berros
e abraços.

175
SOCIOLOGIA  Transformações sociais

Voltei para o Brasil, me casei, e praticamente uma década depois, retornei a


Berlim, onde morei de 1998 a 2006, com meu marido. Fiquei na antiga Alemanha
Oriental e presenciei o cotidiano da difícil reunificação. Nas ruas, ainda havia
escombros, casas em estado de deterioração em contraponto a locais em
processo de modernização. Com o projeto de reconstrução, muitos alemães
tiveram de ir para bairros periféricos, porque os alugueis tiveram um aumento
de preço.
Onde morávamos, recordo-me de uma comerciante que conseguiu lucrar com
essa transformação ao vender materiais de construção. Em outros pontos foram
criados bairros boêmios com intelectuais onde havia música, livrarias e ateliês.
Com isso, retomou aos poucos a vida cultural. Mas o que mais nos impressionou
é que nos deparamos com a dificuldade de fazer amizades por lá. As pessoas
eram muito fechadas, principalmente com relação aos imigrantes. Mas com
certeza, para as gerações mais velhas, todo o processo foi mais complicado do
que para os mais jovens. É impossível apagar tantas décadas de isolamento.”
LISBOA, Karen Macknow. Antes e depois da queda do muro de Berlim. Revista Leituras da História[negritar], ed. 24,
2009. Testemunha ocular.

CONHECIMENTO EM XEQUE

A dinâmica das mudanças sociais


A sociedade se caracteriza pelo movimento e pela dinâmica, por isso, o estudo dos
processos de transformações sociais é fundamental para a Sociologia. Torna-se impossível
compreender o desenvolvimento social sem estudar as transformações que constituem
processos permanentes dentro da história, alterando as estruturas sociais no tempo e no
espaço, provocando rupturas na identidade e na forma de ser de uma determinada so-
ciedade. As transformações sociais envolvem vários aspectos da vida social: a política, a
economia, a cultura, os hábitos, os costumes, o trabalho, a família, entre outros.
A mudança é uma propriedade fundamental da sociedade. Isso se expressa muito
bem na metáfora da ‘’vida social’’. Tal como a própria existência, a vida social consiste
em mudanças incessantes: quando elas cessam, a vida para [...] A noção mais geral de
mudança é a de alguma alteração no estado de determinada entidade, que ocorre com
o passar do tempo. Para enfatizar a qualidade dinâmica dessa entidade particular a que
chamamos sociedade, a sociologia contemporânea frequentemente aplica o conceito de
campo social, que compreende as fluídas redes de ações, interações, relações e insti-
tuições sociais.
SCOTT, John. Mudança e desenvolvimento. In: SCOTT. John. (org.) Sociologia: conceitos-chave. Rio de Janeiro: Zahar, 2010.
p.136.

É uma característica dos seres humanos e dos grupos sociais produzir mudanças, que
se originam das relações sociais e também das relações entre homem e natureza. Todos
nós somos, de uma forma ou de outra, participantes das mudanças que ocorrem no co-
tidiano da realidade social.
176
As mudanças produzem rupturas que provocam desestabilização social e mal estar
entre os grupos sociais; toda mudança rompe com a tradição, ou seja, com o que está
estabelecido e sedimentado pela vida social.
Marx e a revolução
Para Marx as transformações sociais são fruto dos conflitos entre as classes sociais e
são responsáveis pela mudança de um modo de produção para outro, assim, a revolução
é fundamental. Por exemplo: para Marx a passagem da sociedade capitalista para a socia-
lista somente é possível a partir do desenvolvimento da luta de classes. São as condições
reais de existência dos indivíduos que os conduzem, por meio das contradições sociais,
a promover as transformações dentro da sociedade.
Segundo Marx, na contradição entre forças e relações de produção, surge a luta de
classes. Nos períodos revolucionários, isto é, nos períodos de contradição entre forças e
relações de produção, uma classe está associada às antigas relações de produção, que
constituem um obstáculo ao desenvolvimento das forças produtivas, enquanto outra classe
é progressista, representa novas relações de produção que, em vez de ser um obstáculo
no caminho do desenvolvimento de forças produtivas, favorecerão ao máximo o desen-
volvimento dessas forças.
[...]
Essa dialética das forças e das relações da produção sugere uma teoria das revoluções.
Com efeito, dentro dessa visão histórica, as revoluções não são acidentais, mas sim a
expressão de uma necessidade histórica. As revoluções preenchem funções necessárias,
e se produzem quando ocorrem determinadas condições.
As relações de produção capitalistas se desenvolveram a princípio no seio da socie-
dade feudal. A Revolução Francesa se realizou no momento em que as novas relações de
produção capitalistas atingiram certo grau de maturidade. [...] Marx prevê um processo
análogo para a passagem do capitalismo ao socialismo. As forças de produção devem
desenvolver-se no seio da sociedade capitalista; as relações de produção socialistas devem
amadurecer dentro da sociedade atual, antes que se produza a revolução que marcará o
fim da pré-história da humanidade. [...] Era preciso o amadurecimento natural das forças
e das relações de produção do futuro antes que ocorresse a revolução. Marx diz que a

UNIDADE 9
humanidade nunca coloca problemas que não pode resolver. [...]
Ele distingue as etapas da história humana a partir dos regimes econômicos, e deter-
mina quatro regimes, ou, para empregar sua terminologia, quatro modos de produção: o
asiático, o antigo, o feudal e o burguês.
ARON, R. As etapas do pensamento sociológico. 6. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2002. p. 202-204.

A Revolução Francesa de 1789, política e mudança social


A França de 1789 era um país em grave crise econômica, tendo em vista que o alto
clero e a nobreza tinham consumido as riquezas do país com suas regalias e, além dis-
so, o auxílio que os franceses estavam prestando aos americanos, que lutavam por sua
independência, levou a nação ao colapso agrário e ao desabastecimento. As relações
políticas e sociais eram pautadas pela existência de grandes desigualdades sociais e havia
uma concentração do poder político na figura do rei que governava de forma absoluta. O
descontentamento da população com as condições sociais e com a pobreza levou a um
processo de ruptura social por meio de uma rebelião social de grandes proporções.
A Revolução Francesa produziu grande repercussão dentro e fora da Europa, várias
monarquias europeias foram obrigadas a ceder poder político à população e a nobreza
francesa foi despojada violentamente do poder.
O rei viu-se obrigado a convocar a Assembléia dos Estados Gerais, tendo como objetivo
manipular a situação, manter os privilégios de nobres e clero e sobrecarregar os burgueses
e trabalhadores. Como resposta a esse acontecimento, os representantes do povo se auto-
177
SOCIOLOGIA  Transformações sociais
Eugène Delacroix/ commons.wikimedia.org

proclamaram Assembleia Nacional.


Era o sinal da organização burguesa
que pretendia derrubar o rei, procla-
mar a República e conquistar poder
político.
A reação do rei foi violenta, mas
a burguesia tinha apoio popular, que
foi às ruas de maneira organizada
e armada, o que auxiliou muito na
derrubada do Antigo Regime. No
campo, os trabalhadores rurais mais
radicalizados saíram do controle
burguês e influenciaram na consti-
tuição da Declaração dos Direitos do
Homem e do Cidadão, que defendia
a igualdade de direitos, entre outras
coisas, como o direito à propriedade
privada, à resistência e à opressão.

DELACROIX, Ferdinand Victor Eugène. A Liberdade guiando o povo. 1830. Óleo


sobre tela, 260 cm × 325 cm. Museu do Louvre, Paris.

1. O conceito de liberdade é construído pela humanidade com sentidos diferentes de acordo com o momento
histórico. O quadro de Delacroix representa o idealismo democrático da Revolução Francesa.
a) Com base no quadro A Liberdade guiando o povo, discuta com seus colegas sobre quais são os significados
possíveis para ideia de liberdade, apresentando-os no formato de um mural.
b) Quais imagens atuais podem representar a liberdade? Procure gravuras ou faça você uma representação da
idéia de liberdade e acrescente ao mural.

Revolução Industrial, economia e as transformações sociais


A Revolução Industrial também pode ser considerada como produtora de grandes
transformações nas relações sociais. Teve início na Inglaterra e, junto com a Indepen-
dência dos EUA e a Revolução Francesa, propiciou a passagem da Idade Moderna
para a Contemporânea. A Revolução Industrial trocou a ferramenta pela máquina e
auxiliou na consolidação do capitalismo e todas as suas consequências. Essas trans-
formações ocorreram entre os ingleses cerca de um século antes de acontecerem em
outros países, principalmente em função de três fatores: havia uma grande quantidade
de capital acumulado, de colônias consumidoras e fornecedoras de matérias-primas e
grande disponibilidade de mão de obra barata, dispensada do campo.
O trabalhador teve sua condição de vida completamente alterada, tendo em vista
que homens, mulheres e crianças passaram a morar em cortiços nas cidades, trabalhan-
do excessivamente e por horas a fio, vivendo com salários irrisórios e sem nenhuma
proteção legal. Nesse contexto, o desemprego, a fome, a prostituição e o alcoolismo
eram problemas constantes.
Contra essa exploração, os trabalhadores reagiram de formas diferenciadas, for-
mando movimentos como os ludistas, que destruíam as máquinas, os cartistas, que
exigiam melhores condições de trabalho, e ainda outros movimentos, que evoluiriam
mais tarde para o movimento sindical que conhecemos hoje.

178
2. A imagem a seguir representa as fábricas na época da Revolução Industrial e a maneira como elas foram
tomando diversos espaços, antes destinados à agricultura, consolidando as novas cidades.
[S.I.]/Acervo da Editora

Revolução Industrial: fábricas e poluição.

a) Qual a relação entre a inserção de novas tecnologias no mundo do trabalho e as mudanças na vida social?
b) Os movimentos dos trabalhadores deram origem aos sindicatos que são instituições que os representam pe-
rante a sociedade. Escolha uma categoria de trabalhadores e faça uma busca sobre a formação do sindicato
dessa categoria.
c) Faça uma apresentação para os colegas utilizando a mídia que considerar mais apropriada.

A geopolítica das manifestações


Os movimentos sociais se caracterizam pela ação junto à sociedade por meio do pro-
testo político como forma de ligar a sociedade civil com o sistema político, ultrapassando

UNIDADE 9
ou desconsiderando os caminhos institucionais de participação política. Esses movimentos
podem ser analisados em termos psicológicos como “comportamento coletivo” ou quanto
a seu papel na estabilidade da sociedade. (SCOTT, 2010).
A geopolítica compreende o uso político, em determinado espaço, de relações sobre
disputa de poder ou correlação de forças nos aspectos econômico, tecnológico, social e
cultural, permitindo compreender as relações entre política e espaço geográfico. A geopo-
lítica fornece subsídios para a compreensão de disputas de poder a partir de delimitação
de fronteiras, questões étnicas e ambientais.
[...] Assim como grandes terremotos são precedidos por atividade sísmica significativa,
a atual desordem econômica foi precedida pelo aumento do numero de revoltas e protes-
tos no último ano. Destes, os mais importantes foram sem duvida as revoltas por comida
que eclodiram em uma dúzia ou mais de países, como resultado do forte aumento nos
preços dos alimentos. Entre os eventos registrados, tivemos revoltas em Bangladesh, em
Camarões, na Costa do Marfim, no Egito, na Etiópia, no Haiti, na Índia, na Indonésia, na
Jordânia, no Marrocos e no Senegal.
Talvez a mais violenta dessas insurreições tenha ocorrido no Haiti, onde milhares de
manifestantes invadiram o palácio presidencial, em Porto Príncipe, exigindo fornecimento
de comida, e foram rechaçados por tropas do governo e forças de paz das Nações Uni-
das; em outro confronto dessa natureza, na cidade de Les Cayes, ao sul do país, quatro
pessoas morreram quando manifestantes e forças de paz da ONU trocaram tiros. Como
resultado desses incidentes, o primeiro ministro do Haiti, Jacques-Édouard Alexis, foi
forçado a renunciar.
179
SOCIOLOGIA  Transformações sociais

Apesar de não estarem diretamente ligadas à crise econômica de setembro de 2008, as


revoltas por comida de abril e maio de 2008, pelo fato de mostrarem deficiências impor-
tantes na economia global, poderiam ter sido vistas como uma indicação dos problemas
que viriam.
Entre a primavera de 2007 e a primavera de 2008, o preço médio das commodities
agrícolas dobrou no mundo todo, trazendo grandes dificuldades para centenas de milhões
de pessoas que vivem na pobreza ou que são forçadas a dedicar uma grande parte de sua
renda diária para comprar comida.
[...]
KLARE. Michael. A geopolítica das manifestações. Le Monde Diplomatique Brasil, São Paulo: Ano 2, Número 22, Maio de 2009.
p.12.

3. A persistência da fome no mundo está vinculada à ideia de que a desigualdade social é inevitável. Alguns
movimentos sociais existentes ao longo da história humana questionam essa afirmativa, como foi apresentado no
texto de Michael Klare. Escreva uma dissertação, tomando como parâmetro, as questões abaixo:
• Existe relação entre processos de transformação social e crises econômicas e/ou alimentares? Justifique.
• Faça uma pesquisa sobre a atuação da FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação)
na busca pelo fim da fome no mundo.
• Faça uma pesquisa sobre as commodities. O que são? Qual é o papel do Brasil na produção desses bens eco-
nômicos? Quais são as principais commodities produzidas pelo Brasil?

A Revolução Cubana: transformação social comunista


A partir da década de 50 do século XX,
[S.I.]/protest-anpassung-1968.de

a ilha de Cuba, sob o governo de Fulgên-


cio Batista, era considerada uma espécie
de quintal das grandes corporações empre-
sariais norte-americanas. A população era
extremamente pobre e sofria diante dos gra-
ves problemas econômicos e sociais; havia
uma pequena elite privilegiada que vivia dos
cassinos frequentados por norte-americanos
milionários. No campo político, existia uma
forte repressão aos inimigos políticos do
governo. Essa tensa realidade de exclusão
social e de violência política contra os ini-
migos do governo ditatorial foram suficientes
para fazer brotar um movimento guerrilheiro
que buscava mudanças sociais.
Com a vitória da revolução, a orienta-
ção do novo governo tinha como bandeira
política a melhoria das condições de vida
da população empobrecida. Posteriormen-
te o novo governo passou a ganhar contor-
nos políticos de um estado marxista, com
a estatização de todos os bens econômi-
Os dois principais lideres da Revolucao Cubana de 1959 : Ernesto Che cos e a priorização da dimensão social, da
Guevara e Fidel Castro. saúde e educação entre outros. O gover-
180
no liderado por Fidel Castro adotou
entre outras propostas políticas, a
realização de uma reforma agrária
e estatização das indústrias do país.
Adotava-se assim o regime comu-
nista na ilha que se situa a apro-
ximadamente 100 km dos Estados
Unidos, o maior país capitalista do
mundo. Os interesses dos Estados
Unidos foram contrariados o que
provocou, em vários momentos,
conflitos entre os dois países. De-
vido principalmente aos conflitos
entre os dois países e boicotes rea-
lizados pelos Estados Unidos diante
do novo governo comunista na ilha
de Cuba, Fidel Castro e seus guer-
rilheiros acabaram se aproximando
cada vez mais e de forma definitiva PISMESTROVIC, Petar. Barack Obama pulls Cuba closer (Barack Obama se
da ex-União Soviética, composta aproximando de Cuba). Kleine Zeitung[negrito], Áustria, 21 abr. 2009. Disponível
por diversos países que formava um em: <http://www.artizans.com/image/PIS630/barack-obama-pulls-cuba-closer/>.
bloco comunista. Acesso em: 5 dez. 2011.

Durante décadas, Cuba foi sus-


tentada pela ex- União Soviética; como grande produtora de açúcar, a ilha destinava
boa parte desse rico produto econômico ao bloco soviético. Por outro lado, os Estados
Unidos decretaram o embargo comercial a Cuba, proibindo diversos países, entre eles
países latino-americanos, de manterem relações comerciais com a ilha comunista.
Do ponto de vista social, o governo cubano proporcionou grandes avanços nas áreas
da educação, saúde, esporte entre outros. Esses avanços produziram sensível melhora
nas condições de vida da população mais pobre e a qualidade de vida atingiu níveis
semelhantes aos países mais desenvolvidos, principalmente nas taxas de natalidade e de

UNIDADE 9
mortalidade e nos índices de expectativa de vida.
Com o fim do bloco comunista a partir do ano de 1990, principalmente com a
grande crise da ex-União Soviética, a ilha de Cuba passou a viver uma enorme cri-
se econômica, pois perdera o apoio do bloco soviético que até então sustentava a
economia cubana. A partir da doença que se abateu sobre seu principal líder Fidel
Castro, obrigando-o a sair da cena política e, em 2008 com a eleição do democrata
Barack Obama nos Estados Unidos, passou-se a observar uma possível aproximação
entre os dois países.

4. Um mito. Essa é a melhor descrição para o que se transformou a imagem de Ernesto Guevara de la Serna,
mais conhecido como Che Guevara, após a sua morte. Cultuado pelos ideais socialistas, ou apenas uma imagem
da moda usada por milhares de jovens que nem mesmo conhecem sua trajetória, o guerrilheiro argentino conti-
nua vivo na História atual.
a) Realize uma pesquisa sobre a biografia de Che Guevara procurando apontar sua atuação em relação à mudan-
ça social e quais fatores transformaram sua imagem em um mito.
b) Elabore um painel utilizando imagens de Cuba antes da Revolução Cubana e atuais, caracterizando as mudan-
ças pelas quais a sociedade cubana passou.

181
SOCIOLOGIA  Transformações sociais

Transformações políticas e sociais na América Latina –


o exemplo da Bolívia
Recentemente, vários países da América Latina têm
implementado mudanças de diversas ordens, entre elas
AP Photo/Juan Karita

a mudança política. Na Bolívia, a eleição do indígena


Evo Morales pôs fim ao domínio de uma elite conside-
rada branca que dominava há vários séculos a política
desse pais. Historicamente, a Bolívia foi dominada pe-
los espanhóis, as populações de origem indígena foram
oprimidas e passaram por um longo processo de es-
cravidão e exploração da sua mão-de-obra na extração
de minerais que eram exportados para a Europa. Assim
como a Bolívia, vários países da América Latina passa-
Eleição de Evo Morales na Bolívia como primeiro indígena ram por esse processo. A população boliviana foi por
a governar o pais. séculos governada por descendentes de espanhóis que,
mesmo após a independência desse país, continuaram
exercendo poder político, elegendo permanentemente
representantes das classes sociais elitistas.

Evo Morales toma posse como primeiro


presidente indígena na Bolívia
O líder cocaleiro Evo Morales toma posse como presidente da Bolívia neste domingo – o primeiro
indígena a presidir o país. Morales assume a Presidência após vencer – com 54% dos votos – as eleições
de 18 de dezembro, melhor desempenho de um candidato desde que o país retornou à democracia,
em 1982. Os bolivianos esperam que o novo líder traga estabilidade ao país – um dos mais pobres da
América Latina.
Os dois últimos presidentes bolivianos tiveram que renunciar após fortes protestos da população nas
ruas. Em uma demonstração sem precedentes de apoio internacional, 12 chefes de Estado estarão pre-
sentes na posse de Morales – em sua maioria, líderes latino-americanos de esquerda. “Nós, os pobres,
temos o direito de governar a Bolívia, os indígenas pobres têm o direito de chegar à Presidência”, afirmou
Morales aos seus partidários neste sábado, em um ritual indígena nas ruínas de Tiwanaku.
Coca
Morales, 46, nasceu em um vilarejo da região montanhosa da Bolívia, onde era pastor de lhamas e viu
quatro de seus seis irmãos morrerem na infância. “Pela primeira vez, um indígena ocupa a Presidência
e visita vários países. Isto provoca orgulho em pessoas como eu”, afirmou Simon Alanoca, um aimará
que deixou o campo para trabalhar na cidade indígena de El Alto. Morales chegou ao poder por meio
de sua atuação como líder cocaleiro. Ele é um forte opositor à erradicação do cultivo da coca defendida
pelos Estados Unidos. O cultivo limitado de coca é legal na Bolívia para suprir a produção de chás e
para ser usada em rituais religiosos. A produção de cocaína é ilegal.
http://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u91812.shtml Acesso 23 ago 11.

5. Faça uma pesquisa em equipe sobre os impactos que a eleição de Evo Morales produziu para a população
boliviana.
a) Pesquise o processo de nacionalização promovida por seu governo sobre a principal riqueza boliviana que é
o gás natural.
b) Quais transformações sociais a eleição de Evo Morales trouxe para o país? Faça uma pesquisa sobre a realidade
social boliviana relacionando aspectos econômicos, indicadores sociais, IDH, aspectos culturais, entre outros.
182
Transformações sociais no Brasil
Vimos até agora diversos exemplos de transformações sociais e de movimentos sociais pelo mundo. Mas
e o Brasil? Como aconteceram as mudanças sociais em nosso país? Muitos autores da sociologia brasileira
se debruçaram sobre este assunto. Entre outros, temos Florestan Fernandes, um dos principais sociólogos
brasileiros, que escreveu em seu livro A Revolução Burguesa no Brasil a sua interpretação da constituição
do Estado brasileiro e ao fazer isto promoveu um grande estudo sobre as transformações sociais e políticas
ocorridas em nosso país.
Segundo ele, o longo caminho de construção do capitalismo no Brasil é, na verdade, a história da-
quilo que ele chama de Revolução Burguesa e que teria passado por quatro etapas: política, econômica,
sociocultural e socioeconômica. Na primeira etapa, leva-se em consideração a abertura dos portos (1808)
e a independência (1822), bem como as alterações econômicas, políticas e sociais que transformaram o
Brasil de colônia de Portugal a país com governo próprio. Na segunda, são verificadas as transformações
ocorridas a partir da relação entre o capital estrangeiro e a economia nacional decorrentes do processo
político visto na fase anterior. A terceira etapa, que é o processo sociocultural, pode ser caracterizada pelo
aparecimento de novos atores sociais, como o fazendeiro do café e o imigrante, que foram fundamentais
às grandes modificações econômicas e políticas ocorridas no Brasil.
A última etapa, que é o processo socioeconômico, caracteriza-se pela ordem social baseada na compe-
titividade provocada pela abolição da escravatura (1888) e pela proclamação da República (1889). Temos
no Brasil o surgimento da forma capitalista de produção com o advento do trabalho industrial.
A primeira etapa é marcada pela independência (1822), vista por Florestan Fernandes como a primeira
importante revolução social ocorrida no Brasil, tendo em vista que ela cria uma espécie de autonomia
política ao dar um primeiro passo para a construção de uma sociedade realmente nacional.
Entretanto, a independência trouxe contradições, por exemplo, a convivência entre elementos revolu-
cionários e conservadores. Revolucionários devido à busca pela autonomia e conservadores, num primeiro
momento, pela manutenção da escravidão e pela falta de condições materiais e ideológicas das elites, tão
necessárias para a construção de um país.
Mas, apesar do conservadorismo, Florestan Fernandes defende que a elite brasileira foi aos poucos ab-
sorvendo a ideologia liberal e foi por meio dela que encontrou argumentos para lutar por sua própria eman-
cipação e por um projeto de Estado Nacional. A ideologia liberal considera o indivíduo como centro da

UNIDADE 9
sociedade e do processo político. Entretanto, esse liberalismo apresentava certa dualidade, pois, por um lado,
representava um novo tipo de dependência com o exterior, mas, por outro lado, apresentava um caminho
para a autonomia, não de todo o Brasil, mas da elite que passaria a controlar o futuro da coletividade.
Na segunda etapa, a continuidade da escravidão e da agricultura monocultora e exportadora mostra
que o Brasil mudaria muito lentamente. Todavia, com a abertura dos portos, o comércio externo era
controlado dentro do país e o que não era vendido passou a ser consumido internamente, possibilitando
novos padrões de consumo. As elites passaram a ter maior participação nos lucros e a desempenhar novos
papéis políticos e sociais.
Na terceira etapa, caracterizada pelas mudanças socioculturais, o fazendeiro de café tem um papel
fundamental, pois passa a diversificar suas atividades, investe no comércio e na indústria, modifica-se en-
quanto produtor, pensando estritamente como um agente econômico. Também é importante citar a vinda
dos imigrantes, personagens importantes desse período. Vieram ao Brasil, na sua maioria, com a mentalidade
burguesa e conhecimento nas áreas do comércio e da indústria. Com esse perfil, assumiram as funções
de agricultores, assalariados, industriais e comerciantes. Eles trouxeram consigo dinamismo e agressividade
econômica, e foi assim que aos poucos foram conseguindo posições mais importantes no cenário nacional,
seja como aliados da burguesia brasileira, seja como opositores anarquistas.
Na última etapa, caracterizada pelas alterações socioeconômicas, Florestan Fernandes nos mostra que,
com a Proclamação da República, a burguesia consolida sua dominação por meio de um Estado que as-
segura direitos a todos os cidadãos. Entretanto, diversos traços escravistas e o autoritarismo nas repressões
aos movimentos sociais puderam ser notados por muitas décadas. Estas quatro etapas de muitas mudanças
sociais foram fundamentais para a construção do Estado Nacional brasileiro.

183
SOCIOLOGIA  Transformações sociais

DESDOBRAMENTO
6. As transformações sociais no Brasil ocorreram por um
processo lento e gradual de acomodação, marcado pela in-
Duas teorias: do Desenvolvimento e da serção subordinada do país no capitalismo internacional.
Dependência
a) O que significa Revolução Burguesa? Quais são os princí-
A Teoria da Dependência surgiu no quadro
pios que sustentam o ideário Liberal? Faça uma pesqui-
histórico latino-americano do início dos
anos 1960, como uma tentativa de explicar o sa abordando as duas questões procurando identificar
desenvolvimento sócio-econômico na região, em características da sociedade brasileira relacionadas aos
especial a partir de sua fase de industrialização, dois conceitos.
iniciada entre as décadas de 1930 e 1940.
b) O golpe militar de 1964, que instalou a ditadura mili-
Em termos de corrente teórica, a Teoria da
Dependência se propunha a tentar entender a
tar durante 20 anos no país, também pode ser definido
reprodução do sistema capitalista de produção como uma “contra revolução burguesa” aliada a uma
na periferia, enquanto um sistema que criava “modernização tardia” do país. Faça uma pesquisa sobre
e ampliava diferenciações em termos políticos, o que foi o “milagre econômico brasileiro” e suas carac-
econômicos e sociais entre países e regiões, terísticas.
de forma que a economia de alguns países era
condicionada pelo desenvolvimento e expansão
de outras.
Com o objetivo de analisar e entender
essa mesma dinâmica, havia surgido, alguns
Desenvolvimento e capitalismo na
anos antes, a Teoria do Desenvolvimento. América Latina
Esta, estruturada a partir da superação do
domínio colonial, do surgimento de novas A América Latina possui uma história social e econô-
nações e do advento de burguesias locais mica que envolve processos de luta política, dominação
desejosas de expandir sua participação na e libertação. Essa história é caracterizada pela dificuldade
economia mundial – bem como das novas em constituir Estados nacionais realmente autônomos e
concepções de modernidade, identificadas a democráticos. A independência em relação às metrópo-
partir da “racionalidade econômica moderna” – les europeias, a constituição do Estado como República,
buscava explicações acerca das desigualdades
com seu caráter democratizante, o que significou o fim
promovidas pelas relações econômicas
internacionais, principalmente assentada na
da escravidão e o aumento da participação popular, de-
idéia de que o desenvolvimento correspondia ram curso ao processo de industrialização do continente,
ao desdobramento do aparelho produtivo em porém persistiu o atraso em relação às economias desen-
função da classificação desse em termos dos volvidas. A industrialização e o crescimento econômico
setores primário, secundário e terciário. não foram suficientes para superar o subdesenvolvimento
A idéia central na Teoria do Desenvolvimento e a dependência (SOARES, 2008).
é o entendimento do desenvolvimento enquanto
Países subdesenvolvidos podem ser entendidos como
um continuum evolutivo. Os países avançados
se encontrariam nos extremos superiores desse aqueles que fizeram parte do sistema colonial caracte-
continuum, que se caracterizava pelo pleno rizando-se por um baixo nível de desenvolvimento das
desenvolvimento do aparelho produtivo, de forças produtivas e por uma estrutura sócio-econômica
forma que o processo de desenvolvimento heterogênea e precária ocupando espaço subordinado no
econômico que neles ocorreu seria um fenômeno sistema internacional do capitalismo (NOBRE, 2000).
de ordem geral, pelo qual todas os países que se
esforçassem para reunir as condições adequadas O desenvolvimento social e econômico dos países
para tal deveriam passar. Enquanto isso, as nações latino-americanos não ocorreu de forma simétrica, exis-
atrasadas se encontrariam em um estágio inferior tem grandes diferenças entre eles e persistem as desi-
de desenvolvimento, com baixa expressão em gualdades sociais dentro desses países. Há países como
termos do desdobramento de seu aparelho Paraguai e Bolívia nos quais existe grande dificuldade para
produtivo, em decorrência de sua incipiente a implementação de um desenvolvimento econômico e
industrialização. social consistente. Países como Brasil e Argentina, por
outro lado, apresentam desenvolvimento sólido e com
DUARTE, Pedro Henrique E., GRACIOLLI, Edilson J. A teoria base sustentável, sem excluir do horizonte desses países
da dependência: interpretações sobre o (sub)desenvolvimento constantes crises sociais e econômicas.
na América Latina. V Colóquio Internacional Marx e Engels,
2007 – Unicamp. Disponível em http://www.unicamp.br/ O progresso e o desenvolvimento latino-americano
cemarx/anais_v_coloquio_arquivos/arquivos/comunicacoes/gt3/
sessao4/Pedro_Duarte.pdf. Acesso em 02 out 2011 caracterizam-se pela inserção do continente no capitalis-
mo periférico. Trata-se de sociedades e economias subde-
184
senvolvidas que mantém relações de dependência e submissão aos interesses das economias dos centros
hegemônicos, apesar do caráter emergente desses países, principalmente do Brasil. Essa condição decorre do
processo histórico de dominação europeia sobre os países da América Latina: pela transferência de riquezas
(principalmente ouro e prata) para a Europa, incrementando o processo da acumulação capitalista daquele
continente; pela livre concorrência na produção capitalista e pela determinação de função específica na
divisão internacional capitalista do trabalho em situação de subordinação que persiste inalterada.
A desigualdade ainda é o problema crucial da América Latina. Mesmo quando os indicadores oficiais
marcam índices positivos e crescentes de renda per capita, a desigualdade entre o setor mais rico e o mais
pobre da população aumenta e se expressa na má distribuição da renda, na iniquidade e na exclusão. [...]
Combater esse problema depende também da capacidade dos Estados – para além de sua legitimidade
democrática – de promover inclusão e distribuição das riquezas.
MATTA, Maria Pia. Mídia e democracia na América Latina. Le Monde Diplomatique Brasil. São Paulo, Agosto de 2011. p.8.

7. Faça uma pesquisa, em equipe, buscando informações sobre o IDH – Índice de Desenvolvimento Humano,
de dois estados brasileiros pertencentes a diferentes regiões. Busque também informações sobre os índices de
desenvolvimento econômico – indústria, comércio, serviços, etc. Analise os dados obtidos, comparando os índi-
ces, e elabore uma apresentação utilizando gráficos e tabelas que identifiquem as diferenças sociais e econômicas
entre os estados.

O Mercosul
A integração dos países latino-americanos como saída para o subdesenvolvimento.
O que interessa à presente discussão é o significado da articulação de estruturas econômicas hetero-
gêneas no sistema econômico nacional. A inegável desigualdade das formas de produção coexistentes
e seus efeitos sobre o estilo de vida das populações do campo ou sobre o desenvolvimento econômico
regional tem levado alguns cientistas sociais a interpretações dualistas rígidas. Pode-se chegar, por ai, à
conhecida imagem dos dois Brasis, e a desdobramentos ainda maiores, já que é fácil deslocar-se no tempo

UNIDADE 9
percorrendo o espaço.
FERNANDES, Florestan. Sociedade de classes e subdesenvolvimento. São Paulo: Global, 2008. p.60

A realidade peculiar dos países latino-americanos refere-se ao pro-


cesso de dependência histórica diante das economias centrais, Estados
Unidos e Europa principalmente. As dificuldades colocadas como
entraves a um desenvolvimento homogêneo entre os países latino-
americanos relacionam-se à ausência de uma unificação e identidade
de interesses entre esses países. Ao contrário dos países europeus,
que há décadas constroem uma identidade comum, a América Latina
permanece, sem sucesso, na tentativa de unificação entre os diversos
países da região.
A criação do Mercosul é uma tentativa importante para a cons-
trução de uma identidade econômica e social latino-americana; com
todas as dificuldades possíveis e presentes nesse processo a forma-
m
co

ção de um mercado comum latino-americano pode ser considerada


la.
co

como fundamental para o desenvolvimento econômico e social dessa


iles
as
br

região. No entanto, há que se considerar que o Brasil, como a maior


/
.I.]
[S

economia do bloco, passa a ocupar uma posição de destaque eco-


nômico e político.
Por outro lado observa-se que, na prática, o Mercosul enfrenta
dificuldades de ordem interna e externa; internamente, há dificul- A integração dos países latino-
dades políticas e econômicas entre os países membros, tanto o Brasil -americanos como saída para o
subdesenvolvimento. 185
SOCIOLOGIA  Transformações sociais

quanto a Argentina buscam afirmar uma liderança no continente sul americano o que
tem provocado conflitos e desarranjos dentro do bloco. A questão externa diz respeito
à presença e influência dos Estados Unidos na América do Sul – há um claro interesse
norte-americano pela implosão do bloco sul-americano, haja vista a necessidade de esse
país conservar a hegemonia econômica diante do Mercosul.

Mercosul e unidade latinoamericana


O Mercosul (Mercado Comum do Sul) foi criado em 26 de
Norberto Duarte/AFP

março de 1991, a partir de um tratado de cooperação econô-


mica e comercial. Esse acordo ficou conhecido como Tratado
de Assunção, capital do Paraguai, local em que foi assinado.
O Mercosul é um bloco econômico inicialmente formado por
Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai. Posteriormente, outros
países aderiram ao bloco, ou estão em processo de adesão,
entre eles, Venezuela, Chile, Colômbia, Equador e Peru. A
formação do Mercosul busca proporcionar a livre circulação
de bens, serviços e produtos entre os Estados membros do
bloco. De forma prática isso significa que entre esses países
passa a ocorrer redução ou mesmo eliminação das tarifas
alfandegárias (impostos de exportação e importação e outras
taxas) onerosas ao comércio no continente. De certa forma essa relação comercial entre
os países membros proporciona uma dinamização econômica na região de abrangência
do Mercosul. Ao mesmo tempo, há interesses políticos pelo fortalecimento do bloco, em
contraposição à presença de produtos e mercadorias dos Estados Unidos ou mesmo do
bloco europeu ou da zona do euro.
A criação do Mercosul significou importante avanço em relação à autonomia da Améri-
ca Latina diante de uma realidade globalizada em que a competição econômica tornou-se
uma regra favorável às economias centrais. O papel da América Latina no cenário interna-
cional ampliou-se por força do processo de constituição do bloco econômico comercial.
A posição do Brasil diante do Mercosul é o de maior país produtor e consumidor de
produtos, observa-se que o país passou a ocupar um lugar de destaque nas últimas déca-
das. O Brasil adquiriu papel de liderança regional no Mercosul em função do tamanho de
seu território e pela importância da sua economia. O Mercosul, no entanto, privilegia as
negociações do mercado de bens, não tendo investido esforços na integração econômica
de serviços, ou investimentos, nem o estabelecimento de políticas comuns.
As políticas exteriores dos países da América Latina continuam profundamente in-
fluenciadas, ou totalmente determinadas, conforme o caso, pelas relações econômicas,
políticas e militares que esses mesmos países mantêm com os Estados Unidos. Na medida
em que a América Latina continua a ser uma área de influência e manobra dos Estados
Unidos, os países latino-americanos, individualmente ou em grupo, somente se definem
em suas relações externas a partir dos Estados Unidos.
IANNI, Octavio. Imperialismo na América Latina. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1974. p.3

A análise de Octavio Ianni é identificável nos dias atuais com a persistência da influên-
cia dos Estados Unidos sobre a América Latina. A presença norte-americana se estabelece
a partir de negócios econômicos, sob a forma de investimentos que grandes empresas
mantêm no continente latino-americano. Os Estados Unidos se articulam de forma a não
ceder espaço para a construção de um mercado comum com base no Mercosul, uma
vez que os interesses são diversos e não atendem diretamente aos objetivos da presença
norte-americana na região.

186 8. O Mercosul completou 20 anos no sábado. A assinatura do Tratado de Assunção uniu Bra-
sil, Argentina, Uruguai e Paraguai em torno de um projeto de integração regional. Nota conjunta dos chanceleres
destaca o crescimento do comércio entre os países membros, de 4 bilhões e meio de dólares em 1991 a 45 bilhões
de dólares em 2010. O bloco tem como membros associados Bolívia, Chile, Peru, Equador e Colômbia. A Venezuela
aguarda a aprovação do Congresso Nacional do Paraguai para compor o bloco. O Congresso paraguaio se nega
a ratificar sua entrada, alegando violações da cláusula que exclui como sócios países com regimes autoritários.
Disponível em http://www.novabrasilfm.com.br/noticias/nova-noticia/mercosul-faz-20-anos-e-destaca-crescimento-dos-paises-membros/ Acesso 03 out 11

Organize uma “Feira das Nações” envolvendo os países componentes do MERCOSUL. Cada equipe deverá escolher
um país que participa do bloco.
a) Pesquise características do país escolhido por sua equipe: cultura (idioma, religião, música, comidas típicas,
trajes tradicionais, curiosidades, etc) economia (informações sobre indústria, agricultura, pecuária, etc.), prin-
cipais produtos que produz, sistema político, mapas com sua localização, como é sua participação no MER-
COSUL.
b) Sob a orientação do professor organize estandes para apresentação dos dados obtidos sobre cada país.

CIÊNCIA E TECNOLOGIA
BRICS - Agrupamento Brasil-Rússia- Isso mudou a partir da Reunião de Chanceleres
Índia-China-África do Sul dos quatro países organizada à margem da
61ª. Assembléia Geral das Nações Unidas, em
A ideia dos BRICS foi formulada pelo 23 de setembro de 2006. Este constituiu o
economista-chefe da Goldman Sachs, Jim O´Neil, primeiro passo para que Brasil, Rússia, Índia e
em estudo de 2001, intitulado “Building Better China começassem a trabalhar coletivamente.
Global Economic BRICs”. Fixou-se como categoria Pode-se dizer que, então, em paralelo ao
da análise nos meios econômico-financeiros, conceito “BRICs” passou a existir um grupo
empresariais, acadêmicos e de comunicação. Em que passava a atuar no cenário internacional,
2006, o conceito deu origem a um agrupamento, o BRIC. Em 2011, após o ingresso da África do
propriamente dito, incorporado à política externa Sul, o mecanismo tornou-se o BRICS (com “s”
de Brasil, Rússia, Índia e China. Em 2011, por maiúsculo ao final).
ocasião da III Cúpula, a África do Sul passou

UNIDADE 9
a fazer parte do agrupamento, que adotou a Como agrupamento, o BRICS tem um caráter
sigla BRICS. informal. Não tem um documento constitutivo,
não funciona com um secretariado fixo nem
O peso econômico dos BRICS é certamente tem fundos destinados a financiar qualquer
considerável. Entre 2003 e 2007, o crescimento de suas atividades. Em última análise, o que
dos quatro países representou 65% da expansão sustenta o mecanismo é a vontade política de
do PIB mundial. Em paridade de poder de compra, seus membros. Ainda assim, o BRICS tem um
o PIB dos BRICS já supera hoje o dos EUA ou grau de institucionalização que se vai definindo,
o da União Européia. Para dar uma ideia do à medida que os cinco países intensificam sua
ritmo de crescimento desses países, em 2003 interação.
os BRICs respondiam por 9% do PIB mundial,
e, em 2009, esse valor aumentou para 14%. Em Etapa importante para aprofundar a
2010, o PIB conjunto dos cinco países (incluindo institucionalização vertical do BRICS foi a
a África do Sul), totalizou US$ 11 trilhões, ou elevação do nível de interação política que, desde
18% da economia mundial. Considerando o PIB junho 2009, com a Cúpula de Ecaterimburgo,
pela paridade de poder de compra, esse índice alcançou o nível de Chefes de Estado/Governo.
é ainda maior: US$ 19 trilhões, ou 25%. A II Cúpula, realizada em Brasília, em 15 de
abril de 2010, levou adiante esse processo. A
Até 2006, os BRICs não estavam reunidos III Cúpula ocorreu em Sanya, na China, em 14
em mecanismo que permitisse a articulação de abril de 2011, e demonstrou que a vontade
entre eles. O conceito expressava a existência política de dar seguimento à interlocução dos
de quatro países que individualmente tinham países continua presente até o nível decisório
características que lhes permitiam ser considerados mais alto. A III Cúpula reforçou a posição do
em conjunto, mas não como um mecanismo.
187
SOCIOLOGIA  Transformações sociais

BRICS como espaço de diálogo e concertação alimentar, agricultura e energia também já


no cenário internacional. Ademais, ampliou a foram tratados no âmbito do agrupamento, em
voz dos cinco países sobre temas da agenda nível ministerial. As Cortes Supremas assinaram
global, em particular os econômico-financeiros, documento de cooperação e, com base nele,
e deu impulso político para a identificação e o foi realizado, no Brasil, curso para magistrados
desenvolvimento de projetos conjuntos específicos, dos BRICS. Já se realizaram, ademais, eventos
em setores estratégicos como o agrícola, o de buscando a aproximação entre acadêmicos,
energia e o científico-tecnológico. empresários, representantes de cooperativas.
Foi, ainda, assinado acordo entre bancos de
Além da institucionalização vertical, o BRICS
desenvolvimento. [...].
também se abriu para uma institucionalização
horizontal, ao incluir em seu escopo diversas Em síntese, o BRICS abre para seus cinco
frentes de atuação. A mais desenvolvida, fazendo membros espaço para (a) diálogo, identificação
jus à origem do grupo, é a econômico-financeira. de convergências e concertação em relação a
Ministros encarregados da área de Finanças diversos temas; e (b) ampliação de contatos e
e Presidentes dos Bancos Centrais têm-se cooperação em setores específicos.
reunido com frequência. Os Altos Funcionários Fonte: http://www.itamaraty.gov.br/temas/mecanismos-inter-
Responsáveis por Temas de Segurança do BRICS regionais/agrupamento-brics, acesso em 13 de outubro de
já se reuniram duas vezes. Os temas segurança 2011.

O FUTURO EM JOGO

1. (FUVEST, 2009) Desde o final da década de III. A Região Norte tem o segundo menor deficit
1970, no Brasil, os movimentos sociais urbanos têm habitacional e a menor participação no PIB na-
reivindicado o chamado Direito à Cidade, em que cional. Isso significa que o deficit habitacional
a moradia é elemento fundamental. Acerca desse é um problema desvinculado da produção/dis-
tema, considere os gráficos, seus conhecimentos e tribuição de riqueza.
as seguintes afirmações: Está correto o que se afirma em:
BRASIL A) I, apenas.
Deficit habitacional Participação no PIB B) I e II, apenas.
% por região % nacional por região C) I e III, apenas.
40 60
50
D) II e III, apenas.
30
40 E) I, II e III.
20 30
20 2. (FUVEST, 2009) A partir da redemocratização
10
10
do Brasil (1985), é possível observar mudanças
0 0
N NE SE S CO N NE SE S CO econômicas significativas no país. Entre elas:
Regiões Regiões
A) exclusão de produtos agrícolas do rol das princi-
Fonte: IBGE, 2006/2007.
pais exportações brasileiras.
I. A Região Sudeste responde por mais da me- B) privatização de empresas estatais em diversos se-
tade do PIB nacional, sendo, porém, a região tores como os de comunicação e de mineração.
com maior deficit habitacional. Consequente-
C) ampliação das tarifas alfandegárias de importa-
mente, forte concentração de capital não sig-
ção, protegendo a indústria nacional.
nifica acesso à moradia.
D) implementação da reforma agrária sem paga-
II. A Região Nordeste tem o segundo maior defi-
mento de indenização aos proprietários.
cit habitacional e a terceira maior participação
E) continuidade do comércio internacional voltado,