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UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS

FACULDADE DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS


CURSO DE GRADUAÇÃO EM COMUNICAÇÃO SOCIAL

BEATRIZ VALLE MARTINS

ISLÃ CONECTADO:
OS ATRAVESSAMENTOS ENTRE MODERNIDADE E TRADIÇÃO NA
CONTA @ISLAMICTHINKING

Belo Horizonte - MG
2017
BEATRIZ VALLE MARTINS

ISLÃ CONECTADO:
OS ATRAVESSAMENTOS ENTRE MODERNIDADE E TRADIÇÃO NA
CONTA @ISLAMICTHINKING

Trabalho de Conclusão de Curso, apresentado como


requisito para obtenção de grau de Bacharel em
Comunicação Social pela Faculdade de Filosofia e
Ciências Humanas da Universidade Federal de
Minas Gerais.

Orientadora: Profª Drª Geane Alzamora

Co-orientadora: Mestre Luciana Andrade

Belo Horizonte – MG
2017

Resumo
1
Este trabalho pretende compreender os atravessamentos entre tradição e
modernidade nas ações da comunidade muçulmana em redes sociais online. Como
objeto de estudo, analisou-se a conta @IslamicThinking no Twitter, que possui 1,6
milhões de seguidores. Foram levantados dados da atividade da conta durante os
meses de agosto setembro de 2016, como o número de publicações, curtidas e
retweets. Os dados foram analisados à luz da Cartografia das Controvérsias
considerando a descrição e a análise de informações da conta, análise do conteúdo
publicado e o estudo de caso das publicações de maior engajamento em cada mês.
Percebeu-se que o modo de existir religioso foi evidente no conteúdo publicado. Ao
mesmo tempo, o uso prioritário do alfabeto inglês no lugar do árabe revelou uma
flexibilidade em relação às tradições islâmicas. A figura de Maomé em uma das
publicações analisadas no Estudo de Caso revelou uma possível relevância do fator
religioso no engajamento do público.

Palavras chave: Religião; Modernidade; Islã; Twitter; redes sociais online;


composição.

Abstract
This work aims to understand the crossings between religion and modernity in
the activity of the muslim community on online social media. As the study's object, we
analysed the account @IslamicThinking on Twitter, that has 1.6 million followers.
Were collected data about the account's activity during the months of August and
September of 2016, such as number of publications, likes, retweets, etc. The data
were analysed in the light of the Cartography of Controversy considering the
description and analysis of the account, analysis of the published content and the
study case of the most engaged publications from each month. It was found that the
religious mode of existence was evident in the published content. Withal, the priority
use of the english alphabet in instead of the arab revealed a flexibility of the islamic
traditions. Muhammad’s image in one of the publications analysed by the study case
revealed a possible relevance of the religious factor in the public engagement.

Keywords: Religion; Modernity; Islam; Twitter; online social media; composition.


2
3
LISTA DE IMAGENS

Figura 1: Captura de tela da publicação em que @IslamicThinking pergunta aos


seguidores se eles estavam em Meca para a peregrinação anual……………….. 32
Figura 2: Publicação da conta @IslamicThinking com maior engajamento no mês de
agosto……………………………………………………………………………………. 41
Figura 3: Respostas à publicação de @IslamicThinking com maior engajamento no
mês de agosto………………………………………………………………………...... 43
Figura 4: Publicação da conta @IslamicThinking com maior engajamento no mês de
setembro……………………………………………………………………………….... 44

4
"Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos."

(Fernando Pessoa)

5
SUMÁRIO

Introdução 7
Capítulo 1: O Islã conectado 13
1.1 O Islã na internet: redes sociais online como ambiente de expressão da fé islâmica
13
1.2 Islã, modernidade, globalização: atravessamentos entre a tradição e a tecnologia
16
1.3 Contradições do conceito de modernidade 19
1.3.1 O problema da temporalidade 21
1.3.2 O problema da negligência aos híbridos 22
1.3.3 A possível solução: pensar a rede 24
Capítulo 2: A conta @IslamicThinking na rede 27
2.1 Composição e Teoria Ator-Rede: uma forma de compreender a atividade da
comunidade muçulmana no Twitter 27
2.1 @IslamicThinking em rede de associações 30
2.2 Metodologia de coleta das publicações e primeiras impressões 35
Capítulo 3: Análise dos dados: rastros das ações de @IslamicThinking 39
3.1 O corpus 39
3.2 Termos e expressões utilizadas 40
3.3 Estudo de caso 43
Conclusão 49
Referências bibliográficas 52

6
Introdução

Considerada atualmente como a segunda maior religião do mundo em


número de adeptos, o Islã é também o grupo religioso que cresce mais
rapidamente.1 A população muçulmana é diversa e heterogênea, constituída por
diferentes denominações como os sunitas e xiitas, estando presente em todas as
grandes regiões do globo. Além do tamanho, a comunidade muçulmana se destaca
também por ser um ator central na economia e na política internacional. Uma das
razões para que a população muçulmana seja objeto de estudo de diversos
pesquisadores é a forma como o modo de existir religioso da comunidade se
envolve em tais contextos, como a economia e a política. Potências mundiais, como
a Arábia Saudita e Emirados Árabes, possuem legislações inspiradas nos dogmas
islâmicos. O ascetismo religioso defendido pela religião também favoreceu o
surgimento de mercados específicos, com o aumento da procura por alimentos,
serviços e até mesmo tecnologias que sejam produzidos de acordo com a lei
islâmica. A união entre religião, economia, política e tecnologia causa espanto ao
mundo ocidental, onde a laicização é um discurso dominante, principalmente na
estruturação dos Estados. O uso religioso das tecnologias de informação, mais
especificamente as redes sociais online, chama atenção justamente por associar
produtos criados no Ocidente ao modo de existir muçulmano. No senso comum,
esses dois elementos parecem entrar em choque por representarem contextos
diferentes. Essa pesquisa surgiu da curiosidade a respeito da relação entre o Islã e
as redes sociais online, na tentativa de compreender de que maneira se dão os
atravessamentos entre o moderno e o tradicional no ambiente online. O primeiro
passo para a compreensão do tema é conhecer alguns elementos basilares da
religião, como seu surgimento e sua expansão.
A história do Islã começou no século VII, na Península Arábica, local que já
era o palco do surgimento e expansão do Judaísmo e do Cristianismo. A figura de
Maomé (570-632 d.C.) é central para a religião muçulmana, considerado o profeta
fundador do Islã.

1
Um estudo realizado em 2012 pelo Pew Research Center’s Forum on Religion & Public Life com
230 países e territórios concluiu que 80% da população mundial se identifica com algum grupo
religioso. A comunidade de indivíduos que se identificam como muçulmanos (23,2%) perde em
7
Maomé viveu na Península Arábica em um momento economicamente
positivo, quando a cidade de Meca retornava aos poucos a possuir elevada
importância política e comercial. Casado aos 25 anos, ele pertencia a um dos clãs
mais importantes da cidade e era um mercador que frequentemente viajava para
realizar seus negócios. Historiadores afirmam que durante essas viagens ele teria
tido contato com as culturas judaicas e cristãs e que esses encontros influenciaram
fortemente a maneira como ele explorava sua espiritualidade.
A tradição conta que Maomé estava sozinho em uma caverna quando
escutou uma voz de origem angelical, que descobriu ser do arcanjo Gabriel. Ele
ordenava que Maomé recitasse suas palavras e, por meio delas, lhe entregou as
revelações divinas (GHALI, 2004. p.9). Essas revelações falavam sobre um Deus
único, todo poderoso, que exigia dos seres humanos adoração e islam, palavra que
significa submissão. Foi a partir dessas revelações que Maomé teria elaborado a
teologia islâmica. As profecias e a cosmovisão que elas fundaram foram eternizadas
pela escrita apenas 30 anos após a morte do profeta, quando a tradição oral já não
era suficiente para manter a unicidade do discurso da comunidade que se ampliava
como nunca visto antes (DEMANT, 2004).
O crescimento dos seguidores de Maomé, já conhecidos nessa época como
muçulmanos, incomodava os administradores de Meca. Devido à repressão sofrida
na cidade, o profeta fugiu com seus seguidores no ano de 622 para a cidade Iatred,
futuramente nomeada Medina. Esse fato marca o início do calendário muçulmano e
tem um importante significado para a história da religião, pois foi em Medina que, ao
tomar o poder militarmente, Maomé foi capaz de colocar em prática o seu projeto
político de submeter a cidade às leis islâmicas. Pouco tempo depois, o líder político
e religioso conseguiu conquistar Meca e outras regiões próximas. Chegada sua
morte em 632 d.C., grande parte da arábia central já estava dominada pela religião
muçulmana (DEMANT, 2004).
Do século VII até o século XXI, o Islã, assim como as outras religiões abraâmicas
universalistas2, passou por expansões, quedas, cismas, adaptações, retornos à
tradição, etc. É importante para este trabalho entender a comunidade islâmica nos

2
Religiões que têm Abraão como um de seus patriarcas. São monoteístas, universalistas e entendem
Deus como a fonte de uma lei moral. As maiores são: judaísmo, cristianismo e islamismo.
8
dias de hoje, considerando principalmente o seu papel no mundo globalizado. Em
2010, a comunidade muçulmana correspondia a cerca de 23% da população
mundial, que na época era estimada em 6,9 bilhões3. Espera-se que até 2030 a
comunidade islâmica cresça em 35%. Isso significa um número de 2,2 bilhões de
pessoas dentro de uma população mundial projetada em 8,3 bilhões de pessoas,
espalhadas pela Ásia, Oriente Médio, Norte Africano, África Sub-saariana, Europa e
Américas. Enquanto espera-se que a população mundial cresça em 35% até 2050, a
expectativa para a comunidade islâmica é de 73%. Caso seja confirmado este ritmo
de crescimento, o número de muçulmanos no mundo deve se equiparar ao de
cristãos na segunda metade do século XXI.
Além da presença física da comunidade muçulmana no mundo, é possível
também enxergar sua relevância na economia mundial. Um artigo produzido pelo
conselho consultivo sênior do Journal of Islamic Marketing aponta o crescimento da
demanda por produtos e mercados que sejam compatíveis com as crenças islâmicas
(WILSON et al. 2013, p. 3). Para os autores, já é possível afirmar inclusive a
insurgência de um mercado islâmico, sendo um dos exemplos mais evidentes o
crescimento da procura por produtos categorizados como Halal (2013). Traduzido de
maneira literal, o termo significa "permitido" ou "legal" e, apesar de ser mais
comumente encontrado no setor alimentício, é usado também para identificar outros
artigos e serviços que sejam produzidos e comercializados sob as premissas
islâmicas - inclui, por exemplo, a não contaminação com elementos suínos ou com o
álcool (BERGEAUD-BLACKER; FISCHER; LEVER. 2016).
Na política internacional, a comunidade islâmica está frequentemente sob os
holofotes. Uma matéria escrita por Robert Kunzig e publicada pela National
Geographic (2016), fala sobre a transformação gerada na Europa pela onda de
imigrantes vindos do Oriente Médio, cujo ápice aconteceu em agosto de 20154. O
autor discorre sobre a situação da Alemanha, nação que recebeu cerca de um
milhão de imigrantes - mais do que qualquer outro país da União Europeia. O país

3
Todos os dados demográficos a respeito da população muçulmana são do Pew Research Center.
Disponível em <http://www.pewforum.org/2011/01/27/the-future-of-the-global-muslim-population/>.
Último acesso em 13 de novembro de 2017.
4
Acessado em 5 de Novembro de 2017.
<https://www.nationalgeographic.com/magazine/2016/10/europe-immigration-muslim-refugees-
portraits/>
9
marcado pelo Nazismo, um dos principais casos de xenofobia da história mundial,
hoje precisa lidar com a chegada de sírios, afegãos, iraquianos, kosovares,
albaneses, etc.5 De acordo com o repórter, uma pesquisa realizada na Alemanha no
ano de 2014, apontava já naquela época que 40% da população escolheria por
limitar a construção de mesquitas chamativas.6 A mesma quantidade afirmou
acreditar que uma pessoa que usa um lenço na cabeça não pode ser alemã. A
aposta de Kunzig ao entrevistar muçulmanos recém-chegados na Alemanha que
foram vítimas de xenofobia no país é mostrar que, para além de uma crise
econômica e populacional, o mal estar relacionado aos novos imigrantes na Europa
é consequência também de um aspecto cultural, em que o Islã é elemento central.
Não há dúvidas de que a comunidade islâmica é relevante quando se pensa o
contexto econômico, político e geográfico. No mesmo sentido, o Islã também é um
dos atores principais quando olhamos para o cenário da comunicação,
especialmente no âmbito das novas tecnologias informacionais, cujo
desenvolvimento tem transformado as percepções sobre a mídia tanto no ambiente
acadêmico quanto na vida cotidiana. Com cerca de 18% da sua população total
utilizando a internet, o Islã está conectado.7 Seja nas bibliotecas virtuais8, nas wikis9,
ou nas redes sociais online, a comunidade islâmica utiliza a internet imprimindo
nessas atividades seus dogmas, práticas e modos de existência.
Por um lado, a internet - cuja materialização pode ser vista no uso cotidiano
das redes socais online - representa o progresso tecnológico, o avanço científico, o
desenvolvimento da técnica. Por outro, a religião aparece como um símbolo do
arcaico, do tradicional, do espiritual. No senso comum, enquanto as redes sociais
online são o símbolo da modernidade, a religião é o símbolo do passado. Poderiam,
portanto, as duas conversarem? À luz da crítica de Bruno Latour (1994) acerca da

5
De acordo com o Pew Research Center, estima-se que 1,2 milhões de muçulmanos tenham
imigrado para a Europa entre 2010 e 2015. Acessado em 5 de novembro de 2017
<http://www.pewforum.org/2015/04/02/muslims/pf_15-04-02_projectionstables80/>
6
Coordenada por Naika Foroutan, do Berlin Institute for Integration and Migration Research, a
pesquisa abrangeu 8.270 residentes alemães.
7
Os resultados encontrados mostram uma grande variação entre os países incluídos na pesquisa. No
Afeganistão apenas 2% usavam a internet, enquanto em Kosovo eram 59%. Acessado em 5 de
novembro de 2017 <http://www.pewforum.org/2013/05/31/among-muslims-internet-use-goes-hand-in-
hand-with-more-open-views-toward-western-culture/>
8
Acessado em 5 de Novembro de 2017 <https://www.emaanlibrary.com/>
9
Acessado em 5 de Novembro de 2017 <http://wikiislam.net/wiki/Main_Page>
10
noção de modernidade, este trabalho busca compreender os atravessamentos entre
o moderno e o tradicional no uso das redes sociais online pela comunidade
muçulmana.
Os objetivos específicos deste estudo são: a) entender a atividade
comunicacional da comunidade islâmica no Twitter; b) investigar o contexto de
composição, conforme conceito proposto por Latour como alternativa para explicar o
que se caracterizou como modernidade. Utilizou-se, para tanto, aspectos conceituais
da Teoria Ator-Rede (TAR), da qual Latour é um dos principais articuladores, que
são relacionados à busca pelos rastros das ações dos atores, à consideração dos
híbridos nas redes de associações e ao conceito de mediação como tradução.
Observou-se a atividade na conta @IslamicThinking em agosto e setembro de
2016. Foram coletadas todas as 139 publicações realizadas no período. Desse
número, retirou-se um subcorpus de 106 publicações cujo conteúdo eram citações.
Deste subcorpus, levantou-se dados a respeito do engajamento dos usuários
(curtidas, tweets, retweets e respostas), o uso de mídias anexadas (gif, fotos,
vídeos, links, etc.) e o conteúdo textual (citações, palavras-chave, alfabeto). Em
seguida, realizou-se uma análise sobre o conteúdo publicado, levando em
consideração elementos da linguagem utilizada. Por fim, realizou-se um estudo de
caso que considerou as publicações de maior engajamento de cada mês.
Como resultado das análises realizadas sobre a atividade de
@IslamicThinking, percebeu-se que a rede social online, como elemento do sistema
técnico característico do "mundo moderno", coexiste com o modo de existir religioso
muçulmano, permeado por elementos do "mundo tradicional”. Ao invés de uma
tendência à secularização, os atravessamentos entre tradição religiosa e rede social
revelam uma situação de composição que, na verdade, aponta para o papel central
da mediação religiosa tanto na atividade da conta @IslamicThinking quanto nas
interações realizadas pelos seguidores. O modo de existir religioso ficou evidente na
escolha das palavras, enquanto o uso prioritário do alfabeto inglês revelou uma
flexibilidade em relação às tradições islâmicas. A presença da figura de Maomé em
uma das publicações analisadas no Estudo de Caso indicou a possível relevância da
religião no engajamento do público.

11
12
Capítulo 1: O Islã conectado

1.1 O Islã na internet: redes sociais online como ambiente de expressão


da fé islâmica

Uma matéria da Forbes10, publicada em Março de 2016, explica a criação da


rede social online Muslimface, elaborada com o objetivo de ser um ambiente virtual
"seguro" para os muçulmanos. Em sua descrição, a ferramenta é explicada como
uma plataforma para "conectar muçulmanos ao redor do mundo, promovendo o
desenvolvimento no mundo islâmico por novas iniciativas e projetos" (tradução
nossa)11.
A Muslimface foi construída sob as definições da Sharia, a lei islâmica, para
possibilitar que os usuários permaneçam conectados sem ter que lidar com ações,
hábitos e até mesmo conteúdos que se chocam com os valores básicos de sua
religião. Um exemplo disso é que os usuários só são permitidos adicionar outros do
mesmo gênero, a não ser que possuam alguma conexão sanguínea. O CEO da
empresa, Shoaib Fadie, explica na reportagem que ferramentas de filtragem seriam
responsáveis por suprimir conteúdos abusivos, islamofóbicos ou que de alguma
forma representem ameaça aos seus valores e dogmas religiosos.
A Muslimface é um exemplo de ferramenta digital criada especialmente para
o público muçulmano, mas não é a única no mercado. Apenas no segmento de
redes sociais online como o Facebook, existem outras como a Ummaland, a
TurnToIslam, a SalamWorld etc. Ainda assim, é possível encontrar usuários
muçulmanos nas redes sociais mais utilizadas atualmente pela população mundial,
como Facebook, Instagram e Twitter.
De acordo com a SocialBakers, empresa que mensura e analisa dados de
redes sociais online, o Facebook possuía até setembro de 2017, cerca de 1 milhão e

10
Disponível em: https://www.forbes.com/sites/federicoguerrini/2016/03/30/sharia-friendly-social-
networks-offer-an-alternative-to-facebook-for-muslims-around-the-world/#3323f63545d3 <Acessado
em 21 de setembro de 2017, às 12h25>
11
Texto original: Muslimface.com is a social media platform designed to connect Muslims all over the
world promoting the development in the Islamic world by new initiatives and projects. Disponível em:
https://www.muslimface.com/Content/About <Acessado em 21 de setembro de 2017, às 12h40>
13
280 mil usuários ativos diariamente12. Desse número, 85% utilizam a rede social de
fora dos EUA, país onde ela foi criada. De acordo com as análises da empresa,
entre as três páginas de cunho religioso com maior audiência no Facebook, a
primeira propaga a fé cristã, a segunda propaga a fé judaica e a terceira propaga fé
islâmica13. Entre as cinco páginas de cunho religioso que obtiveram maior
crescimento em seguidores em agosto de 2017, duas publicam em árabe e
promulgam essa mesma fé - das outras três, duas promulgam o judaísmo e uma o
cristianismo.
É possível notar uma tendência semelhante no que diz respeito à
comunidade islâmica no Twitter. Atualmente, são 328 milhões de usuários ativos
mensalmente, escrevendo em mais de 40 idiomas, com mais de 79% das contas
localizadas fora dos EUA14. As estatísticas relativas às comunidades religiosas no
Twitter levantadas pela SocialBakers revelam que as três contas de cunho religioso
mais seguidas publicam em árabe e mencionam a fé islâmica: @NabilAlawadhy,
com 10.143.120 seguidores, @alhabibali, com 4.973.089 e @alsha3rawy, com
3.269.98015. Entre os cinco perfis que mais cresceram em números de seguidores
em agosto de 2017, três promulgam a fé islâmica e publicam na língua árabe
(@NabilAlawadhy, com 10.143.120 seguidores; @adel21212121, com 1.766.697
seguidores; @ayatquran, com 2.051.154 seguidores)16.
Esses dados revelam que a comunidade islâmica está fortemente presente no
ambiente das redes digitais. As possibilidades de divulgação religiosa na internet
fazem com que as redes sociais online sejam vistas como ambiente fértil para a
conversão de novos adeptos. No caso das religiões universalistas como o Islã e o
Cristianismo, a expansão da fé por meio da inclusão de novos convertidos é uma
prerrogativa dogmática.
Peter Demant (2004) explica que, no caso do Islã, existem quatro razões para
que a comunidade muçulmana tenha se expandido tanto nas últimas décadas. Em
12
Diposnível em: https://www.socialbakers.com/statistics/facebook/ <Acessado em 22 de setembro
de 2017, às 14h50>
13
Disponível em: https://www.socialbakers.com/statistics/facebook/pages/total/community/religion/
<Acessado em 22 de setembro de 2017, às 14h59>
14
Disponível em: https://about.twitter.com/pt/company <Acessado em 22 de setembro de 2017, às
11h45>
15
Disponível em https://www.socialbakers.com/statistics/twitter/profiles/community/religion/
<Acessado em: 22 de setembro de 2017, às 11h39.
16
Dados coletados no dia 22 de setembro de 2017, às 15h14.
14
primeiro lugar, está a alta taxa de natalidade encontrada entre os que professam a fé
islâmica. Em segundo lugar está a conversão, já que o chamado para o testemunho
da fé é o principal dogma da religião. O terceiro motivo seria, de acordo com o autor,
o fato de que o abandono ao Islã é considerado uma apostasia17 pelos religiosos.
Por fim, estaria o próprio fundamentalismo muçulmano que faz com que muitos fiéis
retornem às práticas tradicionais como o uso de vestimentas específicas, o consumo
do alimento especial (halal), a prática do Ramadã, etc. Essas ações seriam
responsáveis por reforçar a visibilidade do Islã em comunidades secularizadas e
colaborar com as conversões.
Entre os cinco pilares do Islã, o primeiro diz respeito ao testemunho
direcionado à conversão de novos adeptos. Como explica Demant (2004), o
Shahada é o primeiro grande dogma islâmico. Trata-se da confissão pública de fé no
Deus único, onipotente, onisciente, onipresente, eterno, e inato, além da aceitação
de Maomé como seu grande profeta. Essa confissão deve ser feita frequentemente
pelos muçulmanos, resumida em uma frase que pode ser traduzida para o português
como: "Não há outro deus além de Alá; Maomé é o mensageiro de Deus". Para o
pesquisador Bryan S. Turner (2002), o aparato tecnológico disponível atualmente
tem sido essencial para que o Islã possa aplicar dogmas como este na prática
cotidiana, expandindo seu campo de atuação de maneira nunca antes vista na
história do mundo.
Um estudo realizado pelos pesquisadores Lu Chen, Ingmar Weber e Adam
Okulicz-Kozarynobre (2014) sobre o uso religioso do Twitter nos Estados Unidos,
explica a importância de redes sociais online para esses processos. Os autores
apontam que o fato da comunicação online estar se tornando cada vez mais
frequente nas sociedades contemporâneas torna provável que a comunicação
religiosa também aconteça online. Como toda religião tem como característica
essencial a replicação, as redes sociais online têm funcionado como mediador
fundamental.

Religião é um replicador - ela replica a si mesma, seu dogma,


longitudinalmente (de geração para geração) e horizontalmente

17
De acordo com o dicionário Aurélio (2004), apostasia é o ato de renunciar ou abandonar uma
crença religiosa.
15
(através da população), e neste senso ela depende fortemente das
mídias de transmissão, o Twitter sendo uma delas). (CHEN; WEBER;
OKULICZ-KOZARYNOBRE, 2014, tradução nossa)18

Levando em consideração que a mídia digital online é elemento importante da


expansão da comunidade religiosa, faz-se necessário pensar sobre o que acontece
quando a religião e a redes sociais se cruzam. A tecnologia digital, representada
nesse caso pelas redes sociais, é considerada como um dos pilares da Terceira
Revolução Industrial, que se iniciou na segunda metade do século XX com o
desenvolvimento de computadores, softwares, robôs, etc. Encontrar comunidades
muçulmanas conectadas na internet, um marco do mundo moderno, faz surgir uma
pergunta inevitável: como se dão os atravessamentos entre a modernidade e o Islã?
Para tentar responder essa pergunta é preciso primeiro tentar entender o que
significa modernidade.

1.2 Islã, modernidade, globalização: atravessamentos entre a tradição e


a tecnologia

Um incontável número de pesquisadores já se debruçou sobre a ideia de


modernidade para tentar explicá-la, fazendo com que seja muito difícil encontrar
uma definição única para o conceito. Neste trabalho, adotamos a perspectiva do
sociólogo francês Bruno Latour. Para ele, mais do que descrever um estado, um
contexto, uma situação, a palavra "modernizar" é, na verdade, um grito ao
movimento (2016).
A dificuldade de se encontrar um consenso sobre o que significa modernidade
se dá justamente pelo fato de que o conceito não diz de um estado, mas sim de um
modo específico de compreender as relações entre seres humanos e coisas. O
ponto principal dessa perspectiva estaria no fato de que ela é um chamado para o
futuro onde essas relações são tratadas de um modo particular. Latour (1994)
aponta que, nas sociedades modernas, o progresso é relacionado à separação entre

18
Texto original: Religion is a replicator – it replicates itself, its dogma, longitudinally (from generation
to generation) and horizontally (across population), and in that sense it relies heavily on transmission
media, Twitter being one of them.
16
natureza e sociedade. O grito da modernidade é, portanto, um grito por tal
separação sob a justificativa do progresso.
No século XXI, o termo modernidade quase sempre vem seguido de outro
igualmente complexo: globalização. Isso porque, como aponta Latour (1994), o grito
de modernização também - e talvez principalmente - se dirige às demais nações que
ainda não se tornaram modernas. O pesquisador brasileiro Milton Santos (2012),
geógrafo e professor da Universidade de São Paulo, explica que a globalização é o
ápice da internacionalização do mundo capitalista. É um movimento que busca
disseminar as velocidades das nações "modernas" sobre as demais, sob a
justificativa da instauração do mercado global.
Para explicar como se caracteriza o fenômeno da globalização, Santos
aponta alguns elementos como a convergência dos momentos, o motor único, a
cognoscibilidade do planeta e a unicidade da técnica. Para este estudo, nos
interessa destacar esse último, que diz da importância da evolução técnica para a
conexão entre as nações e, principalmente, para a dominação de um modo
específico de compreender a realidade. Na unicidade da técnica, o computador
aparece como ferramenta central (SANTOS, 2012).
Na perspectiva do autor, as tecnologias da informação desenvolvidas
fortemente no final do último século compõem um sistema de técnicas que
transformaram o planeta como um todo. Ainda que, por exemplo, elas não estejam
em todas as partes de um país, a sua presença em determinados setores afeta o
território por inteiro. Mesmo indiretamente, essas técnicas geram algum tipo de
influência por todo globo e, onde ainda não são hegemônicas, o sistema se
movimenta no sentido de tentar torná-las dominantes. A expansão das tecnologias
de informação em todo o território é de interesse não só das autoridades
administrativas, mas principalmente das empresas globais. Elas são os verdadeiros
donos do jogo, dominando os fluxos de capital e determinando onde e como a
tecnologia se expande.
Como explica Santos (2012), a compartimentarização dos territórios é um
fator que sempre esteve presente na história do mundo. Diferentes impérios,
construídos sobre diferentes sistemas técnicos, eram capazes de coexistir por meio
das alianças e conversas políticas. No contexto atual, essas relações transnacionais

17
se tornaram ainda mais complexas, realizadas tanto pelas instituições políticas
internacionais quando por corporações privadas multinacionais. No entanto, elas
passam a ser afetadas por um elemento cada vez mais evidente: a incompatibilidade
entre velocidades dos fluxos de informação existentes, possibilitadas justamente
pelas inovações técnicas. Para vencer esse impasse, aqueles que já dominam o
sistema técnico procuram tentar induzir os demais a acompanharem seu
desenvolvimento para que a fluidez da atividade seja presente também em outros
territórios. É claro que tal indução é feita de acordo com as necessidades
encontradas por aqueles que dominam o jogo da tecnicidade, que irão definir quem
deve ser incluído na conexão tecnológica e quem ainda pode ficar na espera por
mais algum tempo. Essas divergências geram abismos ainda mais graves entre as
sociedades espalhadas pelo mundo19.
Pensar na unicidade da técnica e nesse esforço do mercado global para a
disseminação da tecnologia pelo mundo é central para este estudo. Isso se dá
porque a internet e principalmente as redes sociais online significaram uma
transformação intensa da vida em sociedade - incluindo a vida religiosa. Os
adventos da era informacional trouxeram não apenas mudanças no dia a dia dos
indivíduos, digitalizando as atividades diárias, automatizando as profissões, etc.,
mas principalmente nas formas de interação social e nos modos de apreensão do
mundo. Nesse novo contexto, pode-se esperar que a cultura Islâmica, que apresenta
uma cosmovisão estruturada e dogmas fundamentais para as relações sociais, entre
em conflito com as novas formas de organização proporcionadas pela tecnologia.
Peter Demant (2004) acredita que os choques entre o Islã e o motor da
modernidade - que por meio da tecnologia atropela a tradição e impõe seu modo de
existir no mundo - configuram como uma das razões para o crescimento e expansão
do fundamentalismo religioso islâmico. Ele explica que o movimento fundamentalista
trata-se do retorno às tradições basilares da religião - como o ascetismo e a
submissão aos dogmas - e teria sido uma resposta do mundo árabe aos movimentos

19
Sob essa perspectiva, entende-se que os atravessamentos entre a cultura islâmica tradicional e os
usos das redes sociais passam também por uma dimensão econômica. Com cerca de 1.6 bilhões de
adeptos, espalhados nos cinco continentes, a compartimentarização dos territórios entre as próprias
comunidades muçulmanas é perceptível. Enquanto a Arábia Saudita ocupa a 20ª posição da lista de
maiores PIBs do mundo, o Afeganistão ocupa o 109º lugar. Ambos com mais de 97% da população
declarada muçulmana.
18
de secularização trazidos pelo advento da modernidade e sua influência ocidental
nas nações do Oriente Médio.
Já para Bryan S. Turner (1994), sociólogo de origem britânica, professor de
Sociologia da Religião no Instituto de Religião, Política e Sociedade na Australian
Catholic University, o Islã foi plenamente capaz de acompanhar e aproveitar-se do
modelo capitalista durante a era moderna. Apesar de muitos autores apontarem a
incompatibilidade do sistema de crenças islâmico e a modernidade, Turner explica
que as religiões abraâmicas sempre possuíram um caráter globalista, desde o início
de sua formação. Foram pensadas de forma universalista, propondo uma verdade
única para todo o planeta e tendo como um de seus objetivos a expansão e
conversão mundial. Por este motivo, o Islã teria, na verdade, se aproveitado do
movimento gerado pelo processo de globalização, permitido pela modernidade, para
expandir suas comunidades no mundo.
Turner (1994) apresenta uma perspectiva divergente, apontando que a
verdadeira complicação está na relação entre o Islã e a pós-modernidade,
caracterizada por ele como um contexto de extensão dos processos de
comoditização da vida, de impacto do consumo de massa em sistemas culturais e
de debates relativos à pluralidade e importância do outro (1994). De acordo com o
autor, o principal problema está mais nas consequências terrenas da pós-
modernidade do que nas consequências no âmbito filosófico, teológico ou
acadêmico. A pós-modernidade seria responsável por gerar um estilo de vida muito
diferente daquele que é pregado pela religião muçulmana, traduzido em consumo,
hedonismo, pluralidade de pensamento, etc. O surgimento e fortalecimento dos
movimentos fundamentalistas islâmicos que pregam o retorno à tradição, o anti-
ocidentalismo e o uso político da lei religiosa seriam, portanto, uma resposta às
consequências cognitivas, sociais e simbólicas da pós-modernidade.

1.3 Contradições do conceito de modernidade

As análises de Peter Demant (2004) e de Bryan S. Turner (1994) explicitam


as contradições que surgem em torno do conceito modernidade, eventualmente
relacionado ao uso das tecnologias por comunidades tradicionalistas como as

19
islâmicas. Bruno Latour (1994) nos convida a fazer uma reflexão a respeito do que
significa tal termo e se, na realidade, ele é aplicável a qualquer contexto.
Latour (1994) explica que as definições de modernidade acabam sempre
apontando para a ideia de passagem do tempo, perspectiva que se comprova
quando fazemos uma simples busca do termo no dicionário. A palavra
"modernidade" estabelece um antes e um depois, um passado arcaico (tradicional) e
um futuro progressista. Tal progresso estaria alicerçado sobre algumas garantias,
dentre elas a separação entre natureza e sujeito/sociedade. A contradição está no
fato de que os modernos veem a natureza longe do alcance dos sujeitos e definida
por suas leis universais, mas ao mesmo tempo passível de ser manipulada pelas
mãos humanas. Já os sujeitos, estariam no outro lado dessa reta, submetidos à
transcendência do social e, ao mesmo tempo, libertados pelos seus direitos
individuais. Para Latour essa contradição só se sustentou porque, ao mesmo tempo
em que os modernos (e suas teorias críticas) realizam uma tarefa de purificação,
separando natureza e sociedade, surgem os híbridos: entes que não são nem
puramente sujeitos, nem puramente natureza. São, como caracteriza Latour, ao
mesmo tempo não-objetos e não-sujeitos. No meio desses dois pólos, os híbridos
funcionam como mediadores dessas duas dimensões.
Segundo Latour (1994), as sociedades ocidentais se acreditam superiores às
demais por terem sido capazes de criar uma fronteira teoricamente clara entre
sociedade e natureza. Teriam construído o conhecimento em categorias muito bem
segmentadas, como a economia, a física, a química, a sociologia etc. O trabalho de
purificação, ou seja, de separação dos híbridos entre os pólos natureza e sociedade,
é o que os diferencia dos pré-modernos.
Santos (2012) afirma que a modernidade está relacionada a um movimento
que parte de onde estão aqueles que se chamam de modernos em direção aos pré-
modernos, numa tentativa de torná-los parecidos com os primeiros. Mas, para Latour
(2016), modernidade não é um conceito ou período de tempo, mas uma ordem que
grita aos demais, exigindo esse movimento. O pedido de modernização sugere a
existência de um futuro onde natureza e sociedade são compreendidas
separadamente. No entanto, como aponta Latour (1994), esse estado de separação
não existe, o passado não pode ser abandonado por completo e o progresso não é

20
uma linha do tempo que avança de maneira congruente. Para este estudo, decidiu-
se aprofundar em duas das principais críticas de Latour (1994) a respeito do
conceito de modernidade: a temporalidade e a negligência aos híbridos. Por fim,
aprofundou-se na perspectiva de rede, que o autor sugere como forma de
compreender o social.

1.3.1 O problema da temporalidade

Latour (1994) aponta que a modernidade nos fez acreditar que ela se tratava
de um período de tempo, quando na verdade ela fala de uma temporalidade, uma
forma de historicidade. A modernidade seria uma seta irreversível que atravessa os
séculos, rompe com o passado e torna impossível qualquer retorno. Os modernos
usam a irrupção dos híbridos para calcular os pontos dessa linha do tempo, tendo a
ideia do progresso como elemento central dessa cronologia e usando as revoluções
como marcos temporais.
A máquina a vapor, por exemplo, sinaliza a modernização da Inglaterra. A
Revolução Industrial é o marco histórico, significando uma quebra irreparável com o
passado, apagando tudo o que estivera atrás. Sem qualquer explicação sobre
origem e destino dos híbridos insurgentes, é preciso que todos eles "formem um
sistema completo e reconhecível" pois é apenas dessa maneira que pode-se
enxergar um "fluxo contínuo e progressivo, do qual os modernos proclamam-se a
vanguarda" (LATOUR, pág. 72, 1994).
O problema está justamente quando percebe-se que não é possível organizar
estes híbridos de maneira tão clara. Qualquer um que aproxime a lupa dessa linha
do tempo irá perceber que seus marcos nada têm de coesos. Como explica Latour
(1994), esse fluxo coordenado de progresso não era reconhecível no passado e é
muito menos hoje, quando a insurgência dos híbridos é cada vez mais frequente.
A temporalidade moderna se torna difícil de ser sustentada na medida em que
se percebe que objetos e sujeitos pertencem a diferentes tempos, sendo impossível
categorizá-los em um mesmo sistema. Latour observou que enquanto a ideia
moderna de passagem do tempo fazia acreditar que só é possível ir para frente, os
híbridos mostraram que eram constituídos pela mistura de "épocas, gêneros e
pensamentos" (pág. 69, 1994). Para Latour, os pós-modernos foram capazes de

21
identificar com clareza esse problema, mas ainda assim não ofereceram uma
solução capaz de compreender a complexidade das temporalidades.
A temporalidade proposta pelos modernos sugere que o surgimento da
internet e das redes sociais são pontos nessa linha do tempo. Ainda mais, os
modernos querem nos convencer de que sociedades, incluindo as islâmicas, se
tornam modernas quando passam a adotar seus usos. No entanto, como dizer que a
comunidade muçulmana se tornou moderna se, ao criar uma rede social online,
como no caso da Muslimface, os programadores acionam a Sharia para definir que
tipo de ações os usuários poderão tomar? Ao utilizarem o Twitter - rede social digital
criada no contexto do desenvolvimento da tecnologia da informação - para
promulgar sua fé, que tem como raiz o século VI depois de Cristo, a comunidade
islâmica faz borrar as fronteiras entre modernidade e arcaísmo, revolução e tradição.
Pela perspectiva proposta por Latour - e que pretende-se utilizar na análise
realizada neste trabalho - não faz sentido pensar em um movimento retilíneo da
comunidade muçulmana em direção à modernidade, marcada pela revolução
tecnológica e pela invasão ordenada e cronológica desses objetos (redes sociais
online, por exemplo) em sua cultura. Isso porque, como explica Latour, é impossível
pensar esse movimento como um fluxo congruente, que vai sempre para frente e
apaga o passado. Ao explicar a impossibilidade dessa linha do tempo, Latour cita o
caso da Revolução Iraniana e aponta: "ninguém mais conseguia dizer se estavam
adiantados ou atrasados" (pág. 72, 1994).20

1.3.2 O problema da negligência aos híbridos

Além do problema da temporalidade, Latour (1994) denuncia a incapacidade


das críticas modernas de dar conta daquilo que ele chama de não-objetos e não-
sujeitos: os híbridos, que não são nem sociedade nem natureza. A modernidade nos
garante que as sociedades ocidentais conseguiram separar esses dois polos. Latour
aponta que, para os modernos, a ciência e os laboratórios são exemplos dessa

20
Em 1978, a monarquia iraniana comandada pelo Xá Reza Pahlevi foi deposta, dando lugar a uma
república islâmica teocrática, sob a autoridade do aiatolá Ruhollah Khomeini. A contradição indicada
por Latour é que o governo monárquico do Irã era pró-ocidente, estabelecendo relações econômicas
e políticas com os Estados Unidos, enquanto a república - estrutura política de origem Romana e que
é progressista quando comparada com as monarquias - prioriza a conservação das tradições
propostas pela fé islâmica.
22
teórica separação pois são usados para justificar a transcendência da natureza,
insistindo que os experimentos nada têm de humanos. No entanto, ele aponta que
ciências e técnicas apenas serviram para criar mais elementos híbridos, que são um
pouco sujeitos e um pouco natureza.
Para Latour (1994, p. 130), a separação entre sociedade e natureza, que
marca a modernidade, nunca houve. O que houve - e ainda há - são coletivos cada
vez maiores, formados pelo que ele chama de humanos e não humanos, uns
afetados pelos outros. Ele explica que, para pensar os humanos, é preciso pensar
também na outra parte que os compõem: os não humanos, ou seja, as máquinas, os
objetos, os discursos, a própria natureza, etc. Estes, multiplicados no que se
chamou de modernidade, não podem ser ignorados em qualquer análise. Fazem
parte dos fenômenos, são co-construtores. É por este motivo que, quando olhamos
para os usos das redes sociais online pela comunidade islâmica, precisamos levar
em consideração os elementos não humanos.
Ele explica que, por mais que a purificação dos quase-objetos seja feita
incessantemente pela crítica moderna, o surgimento dos seres híbridos é cada vez
maior, fazendo com que seja impossível fecharmos os nossos olhos diante deles.
Latour (1994) denuncia que o principal pecado dos modernos é justamente apenas
purificar, negando a importância dos híbridos, ou seja, dos seres que não são nem
sujeito/sociedade nem natureza.
A relevância dos híbridos está no fato de que eles realizam um processo
oposto ao de purificação: o de tradução, que vai além do transporte de informação
de um polo - natureza - para o outro - sociedade. Mais do que meros intermediários,
os híbridos precisam ser levados em conta pois o ato de traduzir "necessariamente
implica em transformação" (ARCE, ALZAMORA, SALGADO, 2014).
O diferencial da perspectiva de Latour (1994) é que, para o autor, os não
humanos são atores tão relevantes quanto os humanos. Juntos, agem
"coletivamente em mediações que se sobrepõem umas às outras", sendo que a
mediação é entendida como o processo de tradução entre os polos (ARCE,
ALZAMORA, SALGADO, 2014). Ao invés de manter a postura dos modernos,
valorizando apenas o processo de purificação, Latour (1994) propõe que a pesquisa
se dedique também a entender a tradução, que é onde o social realmente acontece.

23
No que diz respeito ao ambiente das redes sociais online, olhar para a
mediação dos elementos técnicos é ainda mais urgente. André Lemos explica que
na cultura digital as ações dos humanos estão cada vez mais permeadas pelas
ações dos não humanos, sendo que essas conexões geram transformações na
"nossa forma de pensar e de agir em todos os domínios da cultura (família, trabalho,
escola, lazer…)" (2014). É por isso que, ao associar a teoria de Latour ao ambiente
das redes sociais online, ele explica que:

Para compreendermos a complexidade da cultura digital,


torna-se imperativo ir além da separação entre sujeitos
autônomos e objetos inertes, passivos e obedientes, simples
intermediários. (LEMOS, 2014, p. 23).

Seguindo a proposta de Latour (1994), esta investigação privilegiou a


natureza da mediação exercida no Twitter pela comunidade islâmica. É por este
motivo que, como será observado no capítulo seguinte, serão descritos e analisados
aspectos que normalmente são considerados como meramente técnicos, mas que,
neste caso, são elementos fundamentais do processo de compreensão do fenômeno
social em análise.

1.3.3 A possível solução: pensar a rede

Para compreender o social, Latour (1994) nos sugere considerar as relações


entre os diferentes atores, incluindo os não-humanos. É por este motivo que, para
pensar as interações que emergem do Islã conectado na internet, é preciso fazer
uma conta que inclua os diversos atores que compõem o fenômeno: o Corão, a
Sharia, os usuários muçulmanos, os programadores, o Twitter, etc.
Como explica Lemos, a sociologia europeia fundou-se sobre elementos que
conformaram a análise do social a um elemento transcendente, "circunscrito aos
humanos e interdito aos demais atores (animais, vegetais, tecnologias, minerais e
elementos da natureza em geral)" (p. 12, 2014). O autor aponta que a centralidade
do ser humano no estudo sociológico causou uma separação entre o humano e
mundo em que ele vive. No entanto, a importância cada vez mais evidente das
tecnologias digitais no cotidiano, como as redes sociais online, demonstram que
24
essa perspectiva do social focada apenas nos seres humanos não é suficiente para
explicar as interações. Pensando nisso, Lemos (2014) explica a necessidade
exposta por Latour e outros pensadores de se pensar, na verdade, numa ciência das
associações.
A ideia é que passemos a compreender o social não como algo visível que
transcendente aos atores, mas na verdade como aquilo que se forma nas
associações entre os atores humanos e não humanos a partir ações realizadas por
eles. As ações dos atores, realizadas em um processo de constante reassociação e
reagregação, formam redes e buscam sempre a sua estabilidade (ARCE,
ALZAMORA, SALGADO, 2014).
Desse modo, a pesquisa do social que essa nova sociologia propõe deve
passar pela descrição e análise dos entrelaçamentos dessa rede. Esse processo se
dá por meio da procura pelos rastros que são pistas que os atores deixam para trás
a medida que agem (ARCE, ALZAMORA, SALGADO, 2014). Redes mais estáveis
são aquelas em que as ações dos atores estão menos evidentes. É por este motivo
que nesta ciência das associações sugere-se estudar as controvérsias, que são
momentos de instabilidade da rede. Como explica Lemos (2014), as controvérsias
permitem que as associações entre os atores sejam visíveis pois mostram as
diferentes faces de uma mesma questão que estão entrando em conflito.
A relação entre o Islã e o Twitter aparece como uma controvérsia interessante
justamente pelo choque de diferentes elementos que aparentemente não são
coerentes entre si. Se tentássemos analisar o uso do Twitter por comunidades
muçulmanas através do olhar purificador da modernidade - que separa a religião da
ciência, da política e da tecnologia - teríamos dificuldade de até mesmo começar a
compreender a questão. Afinal, como explicar um movimento que relaciona, ao
mesmo tempo, tradição e modernidade? Mas se admitirmos que tais separações
nunca existiram, poderemos sair de um falso lugar de superioridade ocidental e
começar a entender as associações presentes nessa rede em específico. Assim,
não queremos saber se o Islã está se modernizando, mas nossa intenção é
entender como se configuram os atravessamentos dessa rede que faz conversar
tecnologia e tradição, religião e internet, dogmas e redes sociais online.

25
26
Capítulo 2: A conta @IslamicThinking na rede

2.1 Composição e Teoria Ator-Rede: uma forma de compreender a


atividade da comunidade muçulmana no Twitter

A partir da perspectiva de Latour (1994) que destaca os problema em ver a


modernidade como uma seta para o futuro, somos levados a refletir sobre o que
realmente aconteceu durante todo esse tempo. O autor sugere que, na verdade,
uma das primeiras camadas de sentido do senso comum de modernização é a
secularização. Na modernidade, religião e ciência foram separadas por um abismo,
sendo que a primeira foi cada vez mais deixada para trás e a segunda passou a ser
usada para caracterizar o progresso. Para Latour (2106), tornar-se moderno é não
ter mais espaço para ser religioso, pois a religiosidade é um fator referente ao tempo
arcaico.
Se a modernidade é um fluxo contínuo de progresso, representado pelo
surgimento de máquinas e objetos que caracterizam essa evolução, as redes sociais
online representam um ponto marcante nessa linha do tempo. É por isso que, o uso
dessas ferramentas por uma comunidade marcada pela tradição religiosa ainda
causa espanto aos modernos. Por representarem esse processo contínuo de
modernização, o uso da internet e suas mídias digitais por parte das comunidades
muçulmanas são um indício de que, caso persistam nesse fluxo, essas mesmas
comunidades caminharão em direção à secularização.
No entanto, Latour aponta que, ao contrário do que se imagina, nas
sociedades consideradas modernas os modos de existência religiosos são
transformados e o religioso não deixa de existir. Na verdade, somos levados a
traduzir a religião de outras formas, pois não se pode abandonar o passado por
completo.
No lugar de modernidade, Latour propõe o uso de outro conceito: a
composição. Se modernizar é colocar pontos numa linha do tempo coerente que
segue em direção ao progresso, compor é "ter partes em relação ao espaço"
(LATOUR, 2016, p. 19). Na composição, religioso e tecnológico se entrelaçam,
disputam entre si, coexistem etc. Para entender o conceito de composição é preciso

27
voltar à ideia das redes de associações que Latour (1994) aponta, na qual os
diversos atores, humanos e não humanos, se relacionam em conjunto.
Como uma forma de compreender tais redes e a maneira como os diferentes
atores se relacionam em composição, lançamos mão da metodologia da Cartografia
de Controvérsias proposta pela Teoria Ator-Rede (ANT), da qual Bruno Latour é um
dos principais articuladores21. Ela prevê que, ao tentarmos entender os processos
sociais, estejamos com os olhos voltados para tais redes de associações,
descrevendo detalhadamente os atores envolvidos na questão e as ações que eles
realizam (PEREIRA; BOEACHAT, 2014). Os atores são "entidades humanas e não
humanas" que agem na rede realizando "uma diferença, um desvio, um
deslocamento qualquer no curso dos acontecimentos, das associações" (BRUNO,
2012, p. 12) e as controvérsias são pontos de choque onde a rede está menos
estável e por isso as associações ficam mais evidentes e mais fáceis de identificar.
A Cartografia de Controvérsias propõe que os passos dos atores sejam
descritos por meio dos rastros que suas ações deixam para trás. Como aponta
Fernanda Bruno (2012), as redes sociais online são ambientes onde os atores
necessariamente deixam rastros visíveis e facilmente recuperáveis de suas ações,
ainda que não tenham essa intenção. Pela riqueza de dados, elas são objetos
promissores para entender as controvérsias.
O uso das redes sociais online pela comunidade islâmica é um objeto rico,
cuja rede de associações é complexa, extensa e repleta de controvérsias. Um
exemplo são os debates que foram levantados nas redes sociais online em 2010,
durante a Primavera Árabe22. Entendendo a complexidade do trabalho de
cartografia, este estudo não se propõe a utilizar a metodologia completa, que exige o
acompanhamento a longo prazo de uma controvérsia e seu detalhamento,
configurando um exercício de pesquisa que não pode ser comportado por um
Trabalho de Conclusão de Curso. De maneira mais simples, a proposta se trata de
21
A Cartografia de Controvérsias foi um exercício didático realizado por Latour em seus estudos
sobre a Teoria Ator-Rede. No entanto, foi posteriormente desenvolvida como um processo
metodológico completo, com a ajuda de diversos colaboradores. Um deles é Tommaso Venturini, que
é pesquisador associado do Instituto de Estudos Políticos de Paris (Science Po Paris) e coordenador
do Science Po médialab. (VENTURINI, 2010)
22
Protestos realizados contra governos ditatoriais, que se iniciaram na Tunísia e se espalharam por
18 países do Oriente Médio e Norte da África, em 2010. Uma das principais características desses
protestos foi o uso das redes sociais online pelos civis na organização, divulgação e cobertura
jornalística dos movimentos.
28
realizar uma pesquisa exploratória do tema, utilizando conceitos da ANT, a noção de
modernidade e composição de Latour, além de algumas indicações metodológicas
da cartografia de controvérsias - como a exploração dos rastros. Dessa forma,
pretendeu-se realizar um estudo que ajude a compreender os entrelaçamentos entre
o Twitter e a comunidade islâmica, atores que representam apenas uma pequena
parte dessa complexa rede.
Assim, decidiu-se escolher uma conta no Twitter que fosse um ator relevante
na rede que engloba os atravessamentos entre modernidade e tradição no uso das
redes sociais online pela comunidade muçulmana. Como uma primeira abordagem,
realizou-se a descrição dos aspectos técnicos e quantitativos que envolvem dois
atores identificados na rede de associações em questão: o Twitter e a conta
@IslamicThinking. Em segundo lugar, realizou-se uma análise dos dados coletados
da conta, focando principalmente no conteúdo publicado tanto por @IslamicThinking
quanto pelos usuários que interagiram com a conta. Por fim, realizou-se um estudo
de caso das publicações de maior engajamento23.
As abordagens foram inspiradas na metodologia da Cartografia de
Controvérsias, que propõe a descrição e análise dos rastros deixados pelos atores
em rede. Um dos elementos essenciais dessa metodologia é a tentativa de se evitar
pré-suposições sobre os atores, buscando deixar que eles mesmos revelem seus
posicionamentos. Para isso, espera-se que a cartografia integre diferentes métodos
de pesquisa para encontrar tais rastros e compreender a rede de forma completa
(PEREIRA; BOECHAT. 2014).
O levantamento e análise dos dados de engajamento dos usuários com a
conta em questão (como o número de seguidores, curtidas, retweets, respostas, etc)
são uma das formas de se estudar a rede de associações formada em torno do tema
(PEREIRA; BOECHAT. 2014). Do mesmo modo, a análise do conteúdo publicado
também oferece chaves de compreensão da rede, por ajudarem na identificação das
temáticas religiosas. Por fim, o estudo de caso prevê o conhecimento profundo de
poucos objetos a fim de compreendê-los amplamente. O autor Antonio Carlos Gil
(2008, p.57) sugere que o método seja usado em "pesquisas exploratórias,

23
Os processos metodológicos utilizados na coleta dos dados e no estudo de caso serão detalhados
e justificados no capítulo 2.2.
29
descritivas e explicativas", principalmente quando se tratam de fenômenos
complexos que inviabilizam a realização de experimentos em larga escala, como é o
caso do tema proposto nesta monografia.
A descrição da atividade da conta, a análise dos dados coletados e o estudo
de caso não compõem uma Cartografia da Controvérsia completa. No entanto,
acredita-se que as metodologias combinadas nesta pesquisa exploratória podem
oferecer pistas para o melhor entendimento da questão proposta.

2.1 @IslamicThinking em rede de associações

Uma busca simples do termo "islam" no Twitter traz algumas contas cujo
tema principal é a religião islâmica. Dentre os dez primeiros perfis exibidos,
encontra-se @IslamicThiking, escolhido como objeto desta pesquisa24. Como sugere
o próprio nome, a atividade do perfil se dá em torno da publicação de conteúdos
permeados pelo o que o próprio autor chama de "maneira islâmica de olhar ou
pensar sobre alguma coisa"25.
Algo que difere a conta das demais encontradas na primeira busca, é o fato
de que @IslamicThinking é também a conta de divulgação no Twitter do aplicativo
de mesmo nome, lançado em 2010 para os sistemas iOS e Android. Sendo o único
desenvolvido por Usamah Khan, o aplicativo tem como principal objetivo - de acordo
com a descrição exibida na loja do sistema Android - ser um “grande compêndio de
citações islâmicas, sabedoria e mensagens positivas que podem ser recebidas como
uma notificação de push para dar um pontapé inicial no seu dia” (tradução nossa).
A loja de aplicativos também informa que, até o momento26, Islamic Thinking
recebeu mais de dez mil downloads e cerca de 380 classificações, que juntas
compõem uma nota de 4,7 em 5 estrelas, sendo 1 estrela a pior nota e 5 estrelas a

24
A ordem pode variar de acordo com a situação da conta em questão - número de seguidores, de
publicações, etc. Até outubro de 2017, a conta @islamicthinking ocupava a 8 colocação entre as 10
primeiras contas que aparecem na busca do tempo "islam". A ordem também pode mudar, caso o
usuário siga alguma conta que contenha o termo "islam", pois este será priorizado pelo algoritmo do
Twitter.
25
Esta expressão foi traduzida do site oficial da marca Islamic Thinking. Outras informações a
respeito da marca, do aplicativo e do próprio desenvolvedor também foram retiradas da sessão
"About Me" do site. Disponível em: <http://www.islamicthinking.info/AboutMe> Acessado no dia 16 de
novembro de 2016, às 14h03.
26
Último acesso em 31 de outubro de 2016.
30
melhor27. Os números divulgados pela loja demonstram que a ferramenta é recebida
de maneira positiva pelos usuários. A relevância da conta no Twitter como um ator
central da rede que compõe o uso das redes sociais online pela comunidade
muçulmana também é perceptível não apenas por @IslamicThinking estar entre as
primeiras da busca, mas também pelos números que apresenta.
Até o momento da escrita deste capítulo28, a conta possuía 1,59 milhões de
seguidores, o que a coloca como uma das mais relevante entre as que abordam a
temática do Islam. O engajamento do público com a conta é igualmente notável. Em
setembro de 2016, @IslamicThinking obteve uma média de 498,23
compartilhamentos e 470,85 curtidas por postagem.
Em conjunto com a ferramenta e a conta no Twitter, a marca Islamic Thinking
possui também um site oficial, uma página no Facebook e uma conta no Instagram.
Ainda que o aplicativo e as outras contas sejam objetos que abrem possibilidades de
análise, decidiu-se basear este estudo na conta do Twitter que recebe o mesmo
nome (@IslamicThinking), por meio da qual ele é divulgado.
Primeiro, porque o Twitter é uma rede social construída sobre a ideia de
liberdade de expressão instantânea e ilimitada29. Em termos práticos, ela permite
que os usuários publiquem mensagens de apenas 280 caracteres em seus perfis.
Eles podem lançar mão de recursos como gifs, emojis, fotos, vídeos, links, enquetes,
localização etc.
Diferentemente do Facebook, onde os usuários interagem entre si como
"amigos", o Twitter funciona a partir da noção de seguidores. O internauta cria sua
conta e a partir dela poderá seguir e ser seguido por outros. As publicações dos
usuários que o indivíduo segue ficam concentradas em sua linha do tempo. As redes
estabelecidas entre os atores podem ser acionadas através de ações como a
menção. Um indivíduo pode mencionar outro fazendo um link com seu nome de
usuário - caracterizado pelo símbolo "@" no início, como em @IslamicThiking - em
suas mensagens, estabelecendo conversações. Outro tipo de interação possível é o

27
A Apple Store, loja de aplicativos do sistema iOS, não disponibiliza informações a respeito de
quantos usuários fizeram o download de um determinado aplicativo.
28
5 de novembro de 2017, às 14h22 no horário oficial de Brasília.
29
Informações disponível em: https://about.twitter.com/pt/company <Acessado em 4 de novembro de
2016, às 18:01.
31
compartilhamento das mensagens, chamado de retweet. Por fim, o usuário pode
ainda "curtir" as publicações.
Outro recurso importante do Twitter é a hashtag, simbolizada pelo "jogo da
velha" (#). Toda vez que utilizada antes de uma palavra ou expressão, a hash cria
um símbolo agregador que serve para destacar o discurso. A hashtag deu origem ao
ranking Assuntos do Momento (Trends) disponível na plataforma, que mostra os
temas mais comentados pelos usuários naquele instante. Tais características do
Twitter, mais do que permitir que os usuários realizem as ações que desejam para
promulgar seus discursos, possibilitam também o surgimento dos rastros, tão
essenciais para compreender as redes de associações e os próprios atores.
A teoria de Bruno Latour (1994) nos instiga a pensar as redes sociais online
para além da mera intermediação entre polos de uma troca comunicacional. É
preciso pensar o Twitter como um ator que realiza uma mediação, pois todas essas
atividades possibilitadas pela ferramenta - o tweet, o retweet, a hashtag -
conformam, afetam e transformam a comunicação exercida pelos usuários (PRIMO,
2012).
É preciso destacar também o Twitter como um ator central da rede em
questão, não apenas pela maneira como sua estrutura afeta a comunicação
exercida pelos usuários, mas também pela sua relevância no contexto mundial. De
acordo com o relatório divulgado pela We Are Social sobre o uso do ambiente digital
online em 2016, cerca de 2,31 bilhões de pessoas ao redor do globo,
aproximadamente 31% da população mundial, são usuárias ativas de redes sociais
online30. O Twitter aparece como a quinta rede social mais utilizada pela população
mundial, ficando atrás do Facebook, do Qzone, do Tumblr e do Instagram,
respectivamente. Segundo dados divulgados pela própria plataforma em 30 de junho
de 2016, são 313 milhões de usuários ativos. Sua relevância entre as diversas redes
sociais disponíveis hoje na web coloca o Twitter como um importante ator não
apenas na rede de associações que é o foco deste trabalho, mas também em
diversas controvérsias cujos demais atores agem nessa rede social online.

30
Disponível em: http://wearesocial.com/uk/special-reports/digital-in-2016 <Acessado em 4 de
novembro de 2016 às 17h37.
32
Outra razão para a escolha do objeto está no fato de que a elaboração do
aplicativo está ligada diretamente à relação do desenvolvedor com sua conta do
Twitter. Khan, que também pode ser considerado um dos atores da rede de
associações estudada neste trabalho, explica no site oficial da marca que a ideia do
aplicativo surgiu de seu antigo hábito de enviar SMSs diariamente aos amigos com
mensagens positivas de conteúdo islâmico. Como destaca, sua intenção era fazer
com que os seus amigos pudessem se lembrar de Alá em meio às preocupações e
compromissos do cotidiano.
Após enfrentar um problema técnico em seu aparelho celular e perder todas
as citações que havia produzido, ele decidiu criar uma conta no Twitter para manter
registrado o conteúdo que enviava aos colegas. Sem qualquer tipo de planejamento,
seu perfil passou a acumular um número de seguidores e isso lhe fez pensar que
talvez pudesse expandir sua atuação, fazendo as mensagens alcançarem um
número maior de pessoas. Assim, surgiu a ideia de criar um aplicativo que seguisse
o mesmo conceito, levando diariamente algo da filosofia islâmica para que os
usuários se lembrem de Alá.
Como explica Khan31, as mensagens enviadas pelo aplicativo ao usuário
variam entre sabedorias populares, versos do Corão, citações de grandes
muçulmanos, etc. O que há de em comum em todas seria uma “essência” islâmica,
ou seja, cada mensagem entrega um pensamento islâmico. Em sua última
atualização realizada em 2016 (junho no Android, para a versão 1.3, e julho na iOS,
para a versão 1.6), o aplicativo apresentava, além das citações, algumas imagens,
vídeos, histórias e os calendários islâmico e cristão.
A conta possui uma atividade semelhante à do aplicativo, publicando
mensagens de conteúdo islâmico na web. Ainda que grande parte das postagens
sejam citações, a atividade do perfil não se trata basicamente de uma replicação
automática das citações que aparecem no aplicativo. Isso porque, em certos
momentos, o autor conversa com os usuários, faz perguntas, incentiva o
engajamento pedindo retweets, etc. Na publicação apresentada a seguir (Figura 1),

31
Infomações disponíveis em: http://www.islamicthinking.info/AboutMe <Acessado em 22 de
setembro de 2017>
33
por exemplo, o autor pergunta aos seus seguidores quais deles estariam em Meca
para realizar o Haje32.

Figura 1: Captura de tela da publicação em que @IslamicThinking pergunta aos seguidores se eles estavam em
meca para a peregrinação anual.

A figura 1 exemplifica o fato de que há no Twitter uma interação que não


acontece por meio do aplicativo. Isso se dá principalmente pela funcionalidade de
resposta que a rede social online oferece, que não está presente no aplicativo.

32
O Haje (em árabe, Hajj) é a peregrinação realizada pelos muçulmanos à sua cidade santa, Meca. A
viagem é considerada como um dever de todo muçulmano adulto, que deve fazê-la pelo menos uma
vez na vida - caso disponha de capacidade física e financeira para tal.
34
2.2 Metodologia de coleta das publicações e primeiras impressões

Com objetivo de percorrer os rastros deixados pelos atores na atividade da


conta @IslamicThinking no Twitter, decidiu-se realizar uma análise do conteúdo
publicado, combinando aspectos quantitativos e qualitativos de pesquisa. Assim,
para este estudo é importante entender, por exemplo, tanto o conteúdo que aparece
nas publicações realizadas, quanto a frequência ou constância dos mesmos, quanto
os números relativos ao engajamento dos usuários com as publicações.
Para realizar a análise, foram coletadas manualmente todas as publicações
realizadas na conta @IslamicThinking ao longo dos meses agosto e setembro de
2016. A decisão por coletar este período se deu principalmente a partir da escolha
do mês de setembro, que compreende dois acontecimentos relevantes para a
cultura islâmica.
Primeiramente, Setembro de 2016 corresponde ao último mês do calendário
islâmico, o Dhu al-hijja. O mês é marcado pelo Haje, mais conhecido com a
peregrinação à Meca, que é um dos rituais mais importantes da religião.
Considerado como o quinto pilar do Islã, o Haje é uma das obrigações dos
muçulmanos adultos. Caso tenham condições, eles devem viajar até a cidade de
Meca, visitar o monte Arafat e a aldeia de Mina, como forma de estabelecer sua
comunhão com Alá. De acordo com a emissora Al Jazeera, mais de um milhão de
pessoas realizaram a peregrinação à cidade santa do Islã no ano de 2016.
Outra data extremamente relevante para o contexto geopolítico mundial que
envolve a comunidade islâmica é o 11 de setembro, dia do principal ataque terrorista
de origem radical muçulmana realizado em solo norte-americano33. Quinze anos
depois do ataque a Nova Iorque, a data ainda é relembrada ao redor do mundo
como marco do terrorismo no século XXI.
O mês de agosto de 2016 corresponde ao penúltimo mês do calendário do
Islã, o Dhu al-Qidah. Este é o mês do descanso, que antecede o mês da
peregrinação. Foi escolhido para servir de base de comparação em relação a
setembro.

33
Em 2001, quatro aeronaves nos Estados Unidos foram sequestradas por terroristas do grupo
radical islâmico Al Qaeda. Uma chocou contra o Pentágono, sede da inteligência militar dos EUA, e
outras duas com as Torres Gêmeas (World Trade Center), que na época eram os edifícios mais altos
de Manhattan, NI. Não há informações claras sobre o que aconteceu com a quarta aeronave.
35
Cada tweet34 do período escolhido foi coletado manualmente através de cinco
passos: a captura da tela, a coleta do link, a coleta do texto, a coleta dos dados de
engajamento (curtidas, retweets, respostas) e a coleta de informações específicas
sobre a publicação (presença de hashtag, imagem, vídeo, gif, etc). Ao total, foram
139 tweets coletados nos dois meses, sendo 76 em agosto e 63 em setembro.
Dentre eles, 106 tratam-se de citações, como as que são enviadas aos usuários do
aplicativo. As demais se dividem desta maneira: 17 são compartilhamentos de
conteúdos do site (aparece uma foto com a primeira frase do texto, ou uma foto com
legenda), 9 correspondem a conversações com os usuários, 6 exibem apenas textos
com links e 1 com uma citação seguida de foto. O recurso da hashtag apareceu em
apenas 8 de todas as publicações coletadas.
Por meio deste primeiro contato com o material, foi possível notar que o autor
utilizou algumas vezes o recurso do retweet35 para trazer suas próprias publicações
à tona novamente. Das 139 publicações, 24 foram compartilhamentos de tweets
realizados pela própria página em momentos anteriores. A grande semelhança entre
essas publicações compartilhadas é que são, em suma, citações que tiveram um
engajamento de destaque - cerca de mil curtidas e mil retweets.
Em relação ao engajamento do público com a conta em agosto, as postagens
obtiveram em média 415,3 retweets e 440,1 curtidas. Em setembro, a média subiu
em ambos: 498,23 retweets e 470,85 curtidas por postagem. Tais números são
frutos de médias simples e por isso não revelam grandes informações a respeito dos
tipos de postagens que mais geraram engajamento. No entanto, esse aumento pode
estar relacionado com o fato de que setembro de 2016 foi marcado pelo Haje.
Durante os cinco dias destinados à peregrinação (entre 10 e 15 de setembro) não
houve atividade na página. No entanto, o ritual foi mencionado cinco vezes, sendo
que a primeira publicação foi feita no dia 9 de setembro e a última no dia 20. É
possível perceber um aumento da média de curtidas e retweets das 9 publicações
realizadas a partir da primeira vez que o Haje é mencionado até a última menção,
quando comparada com a média geral do mês. As 9 publicações receberam uma
média de 603,88 curtidas e 619,11 retweets. Não foi possível encontrar nenhuma

34
Como se refere às postagens realizadas no Twitter pelo usuário.
35
Expressão usada para definir os compartilhamentos de postagens feitas no Twitter.

36
relação clara entre o elemento do mês de descanso e as publicações realizadas no
mês de agosto.
Em relação ao corpus total coletado, percebeu-se que cerca de 76% das
publicações apresentavam apenas citações - ou seja, somente frases com
elementos da cultura islâmica, sem qualquer tipo de mídia complementar como
fotos, gifs ou vídeos. Estas publicações obtiveram um número maior de curtidas e
retweets do que os outros tipos de postagem. Em agosto, as citações receberam
uma média de 500,1 retweets e 502,4 curtidas. Já em setembro, a média subiu para
553,2 retweet e 534,9 curtidas36. Por este motivo, decidiu-se realizar a análise
qualitativa e quantitativa apenas nos tweets que exibem citações.
Todos os 106 tweets selecionados (as citações) tiveram seus textos copiados
para um arquivo de texto, que foi processado no Contador de Palavras e
Processador Linguístico de Corpus, um dos Aplicativos Linguísticos desenvolvidos
pelo Grupo de Linguística da Insite37. Escolheu-se essa ferramenta, pois ela oferece
ao usuário um relatório detalhado a respeito de informações como vocabulário do
texto, frequência de cada palavra e listagem de palavras por ocorrência. São
consideradas também duplas e trincas de palavras e a repetição das mesmas.
Esses dados permitiram uma análise mais detalhada no corpus, possibilitando
encontrar padrões, tendências e exceções no conteúdo.
Em primeiro lugar, realizou-se uma análise dos termos e expressões
levantados pelo Contador de Palavras que pudessem revelar rastros relevantes da
atividade religiosa da conta no Twitter. As informações foram analisadas tanto no
aspecto quantitativo (número de repetições) quanto no aspecto qualitativo (o que
significam, em qual contexto se inserem, qual conceito indicam etc.).
Em segundo lugar, foi realizado um estudo de caso da postagem de maior
engajamento de cada mês coletado. Considerou-se o número de curtidas, retweets e
respostas, o conteúdo verbal e imagético (quando presente) da própria publicação e
das respostas dos demais usuários.

36
Para este cálculo, entendeu-se que seria melhor retirar as publicações de número 5 a 15, todas
do dia 30, pois, apesar de serem frases únicas, tratam-se de uma história contada em 10 tweets.
37
O contador foi configurado para considerar palavras com 2 letras ou mais, para listar duplas, triplas
e quadras de palavras seguidas e para não considerar "enter" como final de frase.
37
Acredita-se que todos esses elementos podem ser considerados como
rastros das ações dos atores envolvidos, tanto dos humanos quanto dos não
humanos. Descrevê-los e analisá-los é essencial para compreender a rede de
associações que envolve o uso do Twitter pelas comunidades muçulmanas
espalhadas no mundo.

38
Capítulo 3: Análise dos dados: rastros das ações de @IslamicThinking

3.1 O corpus
Ao submeter o corpus coletado de 106 citações no Contador de Palavras e
Processador Linguístico de Corpus, foi possível levantar alguns dados a respeito da
atividade da conta @IslamicThinking. Foram encontradas 1774 palavras ao total
(sendo 662 distintas), com 9575 letras.
Um dos primeiros aspectos que chama a atenção nos dados levantados pela
ferramenta é que o alfabeto árabe aparece pouco quando comparado com o alfabeto
latino, que é utilizado pela maior parte dos países no hemisfério ocidental. Enquanto
a letra "e" apareceu 983 vezes, nenhum símbolo do alfabeto árabe foi usado mais do
que duas. Quando observamos as palavras, a situação é semelhante. O uso da
língua inglesa é predominante, sendo a mais utilizada em todo o conteúdo. Das 662
palavras distintas capturadas pela ferramenta, apenas 7 estão escritas com o
alfabeto árabe.
O árabe é um dos elementos fundamentais do Islã, principalmente porque foi
a língua na qual o Alcorão foi primeiramente escrito. A tradição muçulmana
estabelece que o estudo do idioma é uma das principais maneiras de compreender
melhor as profecias escritas no livro sagrado. É por meio do aprendizado da língua
árabe que se pode absorver de maneira profunda os significados da escritura e
"entender a sua beleza por completo", como afirma Izzath Uroosa no livro Learning
Arabic Language of the Qur'an (2009).
Aprender o idioma árabe é, inclusive, uma das recomendações para os
jovens muçulmanos. O livro Understand Qur'an for Elementary School Children
(2004), destinado a ajudar crianças em seus estudos no árabe a partir de citações
diárias do Alcorão, justifica o aprendizado da língua afirmando que entender o livro é
essencial para refletir sobre os versos que ele traz38. Outra justificativa para
aprender o árabe seria o fato de que, como aponta o autor, "felizmente, um

38
Citação original: Allah says very explicitly in His Book, "(This is) a Book (the Qur'an) which We have
sent down to you, full of blessings that they may ponder over its verses, and that men of
understanding may remember [38:29]." If we don't understand the Book, how can we ponder on its
verses!
39
muçulmano passa quase uma hora (o tempo acumulado das cinco orações diárias)
por dia falando com Alá, nosso Criador, em árabe" (2007).
Não se pode dizer ao certo porque o conteúdo é publicado majoritariamente
na língua inglesa. O fato de a conta associar sua localização ao Reino Unido pode
ser uma das explicações. De acordo com um censo realizado em 2011, o número
total de muçulmanos no Reino Unido chegava a 2,7 milhões39. A maior parte dessa
população se identifica como britânica e apenas 6% diz ter dificuldades com o
inglês. Isso mostra que há uma considerável comunidade muçulmana no Reino
Unido que pode compor o público de usuários que interagem com a conta.
Não se pode afirmar que há uma razão consciente para a escolha da língua
inglesa pela conta @IslamicThinking. No entanto, o uso predominante do inglês
possibilita com que membros da comunidade internacional que dominam o idioma
compreendam as citações, ainda que não sejam versados no árabe. Seguindo a
perspectiva da replicação da religião, tratada como prerrogativa dogmática pelos
praticantes da fé, o uso da língua inglesa pode favorecer a conquista de novos
públicos e a conversão de novos fiéis.

3.2 Termos e expressões utilizadas

Entre as palavras que se associam diretamente ao universo da cultura


islâmica, destaca-se o termo "Allah", que aparece 15 vezes, "almighty" que aparece
cinco, "islam" que aparece quatro e "quran" que aparece três vezes no corpus40.
Dentre os termos verbais, destaca-se o "be", que vem do verbo "to be" -
corresponde em português aos verbos ser e estar - que se repete 24 vezes.
Também chama a atenção a repetição de "have", o verbo "ter" em inglês, que
aparece 11 vezes. Outros verbos que também chamam a atenção pelo número de
repetições são: don't (8), do (6), pray (6) say (8), keep (6), make (7), remember (5),
take (3)41. Considerando o alto grau de ambiguidade da língua inglesa, que faz com
que algumas palavras tenham vários significados em diferentes contextos, esses
termos se destacam pois podem estar marcando o tempo verbal imperativo.

39
Dados disponíveis em: <http://www.mcb.org.uk/muslimstatistics/>. Acessado em 30 de outubro de
2017>
40
Tradução nossa dos termos na ordem em que são citados: Alá, todo-poderoso, Islã, Corão.
41
Tradução nossa dos verbos na ordem em que são citados: ter, falar, manter, fazer, lembrar, pegar.
40
Poderiam ser, portanto, frases que apelam ao leitor que execute alguma ação. Por
esse motivo, decidiu-se investigar o corpus original para entender como esses
verbos foram utilizados.
No caso do verbo "be", percebeu-se com a ajuda da ferramenta - que faz
também o levantamento das duplas de palavras - alguns usos no imperativo: (never)
be angry, be kind, be compassionate, be consistent, (don't) be frustrated, be filled, be
grateful, be wary42. Em todos esses casos, as citações sugerem que o leitor "seja"
alguma coisa, que aja de determinada maneira43. Essas ações representam um
modo de ser religioso, uma maneira de existir no mundo que corresponde ao que
prega a fé islâmica. Vê-se, portanto, uma camada do existir religioso que aparece
nos rastros deixados pelas citações publicadas na conta.
Expressões de cunho semelhante também ficaram evidentes nos resultados
relativos às trincas de palavras mais presentes nas publicações da conta
@IslamicThinking. Da lista, três chamam atenção: "is better than" aparece três
vezes, "be kind to" aparece duas vezes e "if you can't" aparece também duas vezes.
Ao buscar no corpus original essas expressões, encontramos citações que sugerem
um tipo de comportamento, um modo de existir. No caso da primeira expressão, que
pode ser traduzida por "é melhor que", as citações originais comparam e
hierarquizam elementos da vida. Em tradução nossa, elas dizem:

1. Estar sozinho significa que você evita má companhia. Mas ter um bom
amigo é melhor que estar sozinho. (Umar Ibn Al-Khattab)
2. A mão de cima é melhor que a mão de baixo e a mão de cima é a que
dá e a mão de baixo é que pede (Muslim)
3. Lembre-se de que uma calamidade que te leva para perto de Alá ( ) é
melhor que uma bênção que te leva para longe de Alá ( ). #islam

A segunda expressão pode ser traduzida por "seja gentil com" e sugere um tipo de
comportamento em relação aos outros. As citações dizem:

42
Tradução nossa dos termos na ordem em que são citados: (nunca) seja irado, seja gentil, seja
compassivo, seja consistente, (não) seja frustrado, seja preenchido, seja grato, seja atento.
43
Dos outros oito verbos destacados (don't, do, pray, say, keep, make, remember e take) seis foram
usados pelo menos uma vez no imperativo.
41
4. Seja gentil com seus parentes e desenvolva o melhor relacionamento
com eles. O todo-poderoso os escolheu por uma razão. Valorize-os
para que não se arrependa.
5. Seja gentil com pessoas cruéis - elas são as que mais precisam
disso.

A terceira expressão significa "se você não pode" e também sugere uma forma de
se comportar. As citações dizem:

6. Se você não pode rezar nela (sua roupa), você não deve sair de casa
nela.
7. Se você não pode rezar lá, então você não deve estar lá (bares,
festas, etc).

É possível perceber que essas citações representam conselhos para os


seguidores, indicações de como agir de acordo com a moral religiosa islâmica. São
rastros dos modos de existência religiosos que, como aponta Latour (2016),
deveriam deixar de existir na perspectiva moderna que ele critica. Acreditar na
modernidade é acreditar que o comportamento religioso é característico do tempo
arcaico, que ele representa um passado para onde não se pode voltar e do qual não
se quer recuperar nada. Na secularização inerente ao pensamento moderno, que
separa religião de ciência - e, consequentemente, da tecnologia - a religião tende a
desaparecer, sendo apagada pelos novos elementos insurgentes na linha do tempo.
No entanto, como mostra o caso da conta @IslamicThinking, isso não
acontece. Os elementos religiosos aparecem nos termos utilizados, na sugestão de
um modo de vida diferenciado, na valorização de uma moral específica. Ao contrário
do que o pensamento moderno pressupõe, o religioso parece ser capaz de coexistir
com o tecnológico, cujos elementos são considerados marcos da linha do tempo que
delineia o progresso. Relacionam-se, como propõe Bruno Latour (2016), em um
contexto de composição, funcionando como um complexo sistema em que arcaico e
tecnológico, tradicional e revolucionário se misturam.

42
3.3 Estudo de caso

Para realizar o estudo de caso das publicações com maior índice de


engajamento durante os meses de coleta, agosto e setembro de 2017, foram
consideradas as publicações com o maior número de curtidas, retweets e respostas
em cada um dos meses coletados.
Em agosto de 2017, a publicação de maior engajamento foi feita às 19h00 do
dia 26. Como mostra a figura 2, a citação recebeu 1.214 retweets, 951 curtidas e 9
respostas44.

Figura 2: Publicação da conta @IslamicThinking com maior engajamento no mês de agosto.

É preciso considerar que o Twitter não é apenas um condutor, que serve


como canal para que um usuário passe informações para outros. Ele é um
mediador, ou seja, "algo que age transformando; diferentemente do simples
intermediário, que transporta sem alterar" (BRUNO, 2012). Por esse motivo, é
importante pensar que as interações realizadas pelos usuários com a conta
@IslamicThinking são, desde o início, conformados pela estrutura da rede social.
Não se pode, como no caso do Facebook, esclarecer se sua reação à publicação é
de espanto ou raiva. A única reação possível de ser expressada no Twitter é a da
curtida. Além disso, não se pode fazer uma resposta ao tweet inicial com mais do
que 280 caracteres. Todas essas características do Twitter afetam o modo de agir

44
Dados atualizados pela última vez no dia 30 de outubro de 2017.
43
dos usuários, cuja chance de executar ações que transcendam essas funções é
mínima.
No caso do compartilhamento, tende a se pensar que ele representa a
apropriação do conteúdo pelo usuário, que de alguma forma se identifica com aquilo
- seja positiva ou negativamente. As curtidas, por sua vez, podem representar essa
identificação e até mesmo uma concordância com o conteúdo. É evidente que as
interações possibilitadas pelo Twitter podem ser usadas com outras funções ao
serem apropriadas pelos usuários. Pode-se curtir uma publicação ironicamente, por
exemplo, ou compartilhar um tweet adicionando outro texto que o nega. No entanto,
mesmo que se busque sair das fronteiras estabelecidas, ainda assim as ações
continuam sendo conformadas pelas barreiras impostas pela rede social online.
Sobre o conteúdo do tweet indicado na figura 1, chama a atenção o fato de
que a citação não possui uma autoria clara. Não há nem mesmo as aspas, que
podem caracterizar a citação como pertencente a outrem. Outro aspecto que se
destaca é o primeiro termo da citação, que se trata do verbo sorrir no modo
imperativo. A frase sugere que o leitor sorria, pois "apesar de você estar tendo um
dia ruim, você tem comida, água limpa, roupas, uma casa e sua saúde". Também
chama a atenção o uso da palavra "blessed", que em tradução nossa significa
"abençoado". Característicos do contexto religioso, tais termos representam mais
uma vez a camada de um modo de existir que perpassa o uso da rede social.
Dentre as 9 respostas recebidas, apenas 5 estão visíveis, como mostra a
imagem a seguir45.

45
O Twitter permite que os usuários manipulem a privacidade de suas contas, sendo possível tornar
suas publicações visíveis apenas aos seguidores aceitos.
44
Figura 3: Respostas à publicação de @IslamicThinking com maior engajamento no mês de agosto.

Dos cinco usuários, dois utilizam o alfabeto árabe. O primeiro utiliza-o junto
com a língua inglesa e o segundo publica utilizando apenas o árabe. Um terceiro
usuário utiliza duas palavras que, embora não estejam escritas com o alfabeto
árabe, também não estão escritas em inglês. Esses detalhes, ainda que pareçam
marginais, demonstram a complexidade da rede de associações entre atores que
promulgam a fé islâmica e atores que, para o senso comum, são característicos da
modernidade, do avanço tecnológico, do progresso. A versatilidade do uso das duas
línguas por @AbuMubarak1378 na resposta dada à conta @IslamicThinking
representa a composição que Latour sugere, ao conectar elementos que
aparentemente não são coerentes, como as duas línguas que se diferenciam a
começar pelo uso de dois alfabetos diferentes.
Já a publicação de maior engajamento no mês de setembro de 2016 trata de
uma citação de Maomé, feita no dia 27 de setembro de 2017, às 12h28. A frase
recebeu 5.079 retweets e 4.681 curtidas - mais que o triplo de interações recebidas

45
pela segunda publicação com maior engajamento em setembro e quase cinco vezes
mais do que a publicação com maior engajamento em agosto46.

Figura 4: Publicação da conta @IslamicThinking com maior engajamento no mês de setembro.

Em relação às respostas dos usuários, encontrou-se aspectos semelhantes


aos que foram vistos na publicação em agosto. Dentre as 32 respostas, apenas 25
são visíveis. Destas, 7 são publicações em que os usuários usam o alfabeto árabe
ou misturam-no com o alfabeto latino, especificamente com a língua inglesa.

46
Dados levantados pela última vez no dia 30 de outubro de 2017.
46
Expressões árabes no alfabeto latino como Salam e Allahu Akbar47 também foram
encontradas. Assim como na primeira publicação, esses usos demonstram a
presença do modo de existir religioso em meio ao ambiente das redes sociais online.
Algumas características da publicação podem explicar a razão da mesma ter
recebido um número tão elevado de interações. O primeiro aspecto mais evidente é
o uso de uma imagem, que surge como outra mídia sobreposta ao texto. Na imagem
presente na figura 4, é possível notar também um texto escrito na língua árabe. No
entanto, ao comparar com outras publicações do mesmo mês que também usaram
imagens, percebeu-se que nenhuma outra recebeu um número tão considerável de
interações. Ao contrário, quando comparada com as que exibem apenas uma
citação, as publicações com imagens receberam menos interações dos usuários.
Esses dados nos fazem pensar que talvez o grande diferencial desta
publicação seja o seu conteúdo e não necessariamente a sua forma. Entre as 107
publicações que contém uma citação, ela é a única que se trata de uma fala explicita
do profeta Maomé (Muhammad em inglês). Há de se considerar que Maomé é,
depois de Alá, a figura mais relevante da religião islâmica. Conforme explicado no
capítulo 1, o Shahada, primeiro dogma islâmico, é a confissão pública de fé tanto em
Alá - Deus único, onipotente, onisciente, onipresente eterno e inato - quanto em
Maomé, seu grande profeta.
A religião aparece como sendo um provável mediador central que transforma
e afeta a interação dos outros usuários e que, em certa medida, parece favorecer o
engajamento. Assim como o Twitter realiza uma mediação que conforma a maneira
como os usuários publicam seus conteúdos e interagem uns com os outros na
internet, a religião e seus modos de existência também o fazem.
Os dados encontrados na descrição do objeto e os resultados encontrados
tanto no estudo do corpus quanto no estudo de caso, sugerem que tradição e
modernidade à luz de Latour, não são elementos que se excluem. Percebeu-se que
a tradição religiosa está fortemente presente tanto no conteúdo publicado pela conta
@IslamicThinking quanto nas interações dos usuários. A presença de verbos e
expressões que sugerem uma moral, um modo de existência, trazem à tona o

47
A primeira é a contração da expressão Salaam Aleikum, que pode ser traduzida como "Que a paz
esteja sobre vós". A segunda pode ser traduzida para "Deus é grande".
47
religioso. O resultado específico do estudo de caso leva a pensar que, na realidade,
o religioso pode ser um elemento que favorece o engajamento do público, gerando
mais curtidas, retweets e respostas.
Ao mesmo tempo, percebeu-se o uso predominante da língua inglesa, ainda
que a tradição islâmica preconize o aprendizado do árabe. Neste caso, o elemento
tradicional (o idioma árabe) aparece apenas ocasionalmente, dando lugar a uma
outra língua cuja origem está no Ocidente. No entanto, pode-se pensar também que
o uso predominante do idioma pode possibilitar uma maior compreensão do
pensamento islâmico por uma comunidade internacional que não é versada no
árabe, mas compreende o inglês, favorecendo a prerrogativa dogmática da
expansão da comunidade de adeptos. Essa reflexão a respeito do uso das
diferentes línguas também evidencia o contexto de composição proposto por Latour
(2016).
Outro resultado encontrado foi a relevância do Twitter como ator na rede em
questão. Pode-se dizer que o uso das citações, frases e imagens como conteúdo é
conformado pela estrutura do Twitter, afinal, a rede social online - ao contrário do
aplicativo, por exemplo - não permite a publicação direta de textos longos. Ao
mesmo tempo, a própria interação dos usuários é conformada - e até limitada - pela
estrutura da rede social.
Entendeu-se, portanto, que os atravessamentos entre tradição e modernidade
podem ser pensados, na verdade, como atravessamentos entre tradição e
tecnologia que se dão em um contexto de composição e não exclusão. Como sugere
Latour (2016), não é possível pensar em um movimento de apagamento do passado
ou de completa secularização. Ao contrário, passado e presente se atravessam e se
enredam por meio da composição entre a religião e as redes sociais online.

48
Conclusão

Ocupando a posição de segunda maior religião do mundo48, o Islã desperta


curiosidade não apenas pelo número de adeptos, mas também pela relevância na
economia, na geopolítica e também na comunicação. Trata-se de uma das
comunidades religiosas mais ativas nas redes sociais online como o Twitter e o
Facebook, destacando-se nos rankings de contas religiosas com o maior número de
seguidores em ambas as plataformas.
Enquanto o senso comum – e até mesmo as pesquisas científicas –
caracterizam em geral a modernidade como uma época, Bruno Latour (1994) nos
sugere pensá-la como uma forma de historicidade, uma maneira de enxergar a
passagem do tempo. Nesse sentido, a modernidade seria como uma seta em
direção ao futuro que apaga o passado. À frente está o progresso, marcado pela
separação entre natureza e sociedade, enquanto atrás fica o passado arcaico,
marcado por fronteiras borradas entre os dois polos. Essa linha do tempo seria
construída por meio da congruente insurgência dos híbridos: seres que não são nem
humanos nem natureza.
Para Latour (2016), a modernidade possui uma importante – quiçá primordial
– camada de sentido: a secularização. O abandono do modo de existir religioso seria
fruto da vitória da técnica. No entanto, não é isso que se vê quando se aproxima
uma lupa às redes de associações entre os atores. Como Latour (2016) aponta, o
modo de existir religioso persiste, apenas sendo transformado em outras formas de
expressão. Tradicional e tecnológico - num contexto onde tecnologia é quase
sinônimo de modernidade – andam juntos.
Além da possível coexistência desses elementos que antes na modernidade
deveriam ser estudados separadamente, Latour (1994) nos fornece outra chave
teórica importante. Para entender o que aconteceu no último século é preciso olhar
para as redes de associações geradas entre os atores e não basta apenas levar em
conta os humanos: os não humanos também exercem ações nas redes. Os híbridos,
nem humanos nem natureza, não são necessariamente intermediários entre
48
Estudo realizado pelo Pew Research Center. Disponível em:
<http://www.pewforum.org/2017/04/05/the-changing-global-religious-landscape/> Último acesso
realizado em 13 de novembro de 2017.
49
natureza e humanidade. Ao agirem, têm a capacidade de transformar as interações
e por isso podem ser considerados como mediadores nas redes de associações.
É por esta razão que, ao olhar para a comunidade muçulmana nas redes
sociais online e tentar compreender os atravessamentos entre tradicional e
moderno, optamos por considerar tanto a atividade da própria conta
@IslamicThinking, quanto os fatores técnicos que envolvem o Twitter. Pode-se dizer
que as possibilidades de interação, como a curtida, o retweet, a resposta, a limitação
dos 280 caracteres, as mídias permitidas (imagem, gif, vídeo, localização) e outras
características técnicas conformam a interação entre os usuários. Por este motivo, é
preciso pensar no Twitter como um ator que realiza uma mediação sobre a atividade
da comunidade islâmica na internet.
Também é importante destacar que a incompatibilidade entre religioso e
moderno que é explicada pela camada de secularização presente no conceito de
modernidade não são evidentes na atividade de @IslamicThinking. O que se vê é,
na verdade, um contexto de composição, como aponta Latour (2016), em que
elementos religiosos persistem como relevantes. A atividade da conta
@IslamicThinking sugere que tradicional e moderno, arcaico e tecnológico podem
coexistir num mesmo contexto.
Ao realizarmos a análise do conteúdo publicado por @IslamicThinking foi
possível perceber que o modo de existir religioso não foi suprimido pela rede social
online, uma ferramenta que faz parte do sistema de técnicas considerado como
moderno. Ao contrário, percebeu-se que o modo de existir religioso foi acionado
frequentemente, como demonstrado na análise dos verbos e expressões usados no
imperativo, no sentido de estimular os seguidores a se comportarem de uma
maneira específica.
A composição também ficou evidente no uso predominante da língua inglesa,
com a inserção ocasional do árabe, tanto pela conta @IslamicThinking quanto pelos
usuários que interagiram por meio das respostas. Percebeu-se que, ao mesmo
tempo que se distancia da valorização do árabe preconizada pela tradição
muçulmana, o uso do inglês também pode abrir outros caminhos para a expansão
da comunidade islâmica ao possibilitar o entendimento do conteúdo pela
comunidade internacional que compreende tal língua.

50
Ao contrário da secularização, encontrou-se na verdade uma possível relação
dos elementos religiosos ao aumento do engajamento do público com a conta, por
meio do estudo de caso das publicações que receberam o maior número de
curtidas, retweets e respostas. A publicação que chamou mais a atenção foi a do
mês de setembro, sendo a única que apresentava uma citação de Maomé em todo o
conteúdo coletado durante os dois meses. Ela recebeu pelo menos três vezes mais
interações que a segunda publicação com maior engajamento no mesmo mês e
quase cinco vezes mais do que a publicação com maior engajamento em agosto.
Acredita-se que esse engajamento pode ter sido gerado pelo fator religioso,
considerando que a figura do profeta Maomé é a mais importante no Islã, após Alá.
Dessa forma, concluiu-se que pensar os atravessamentos entre tradição e
modernidade no uso das redes sociais pela comunidade muçulmana parte de um
processo de reinterpretação do conceito de modernidade. Os resultados das
análises realizadas sobre o corpus confirmam a perspectiva proposta por Latour
(1994; 2016), que nos sugere pensar esses atravessamentos entre diferentes atores
como parte de uma rede sociotécnica, em que elementos de diferentes contextos e
temporalidades (a religião, o dogma, a tradição, as redes sociais, as línguas inglesa
e árabe, etc) se relacionam num movimento de composição. O modo de existir
religioso não desapareceu, ainda que grupos islâmicos estejam utilizando
ferramentas tecnológicas que representam a linha do tempo da modernidade.
Como já foi explicitado neste trabalho, a comunidade muçulmana
corresponde a mais de um quinto da população mundial. Assim, o caso da conta
@IslamicThinking é apenas uma pequena fatia do que compõe a atividade do Islã
em rede social. Portanto, o tema não se esgota neste trabalho e pode se desdobrar
em outras pesquisas mais abrangentes, que busquem esclarecer ainda mais os
atravessamentos entre moderno e tradicional no uso das redes sociais online pela
comunidade islâmica. Isso pode ser feito tanto por meio de uma busca mais
aprofundada na própria conta @IslamicThinking quanto pela expansão do objeto de
pesquisa para outras contas, abarcando uma parcela maior da atividade muçulmana
na internet. A Cartografia de Controvérsias proposta pela Teoria Ator-Rede também
pode ser uma dos caminhos possíveis para o prosseguimento deste estudo.

51
Referências bibliográficas

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simple starter course for Elementary School children based on Daily Recitations.
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Muhammad-PBUH-The-Prophet-And-Messenger.pdf?x86612
52
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<https://portalseer.ufba.br/index.php/contemporaneaposcom/issue/view/1012> Data
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53
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Disponível em: http://journals.sagepub.com/doi/10.1177/0963662510387558. Acesso
em: 14 de novembro de 2017.

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KARTAJAYA, Hermawan; SOBH, Rana; LIU, Jonathan; SCOTT, Linda. Crescent
Marketing, Muslim geographies and Brand Islam: reflections from the JIMA Senior
Advisory Board. Journal of Islamic Marketing, Londres, V. 4, nº 1, 2013.

54
APÊNDICE A – Tabela das publicações feitas por @IslamicThinking em agosto de
2016

Nº Dia Citação Texto escrito Mídia (tipo) Retweets Curtidas Hashtag Momento? Link

1 30 Many a time, it's not what we say but how we 782 620 https://twitter.com/IslamicThinking/status/770622345463656448
say it that hurts people. Always choose the best
words.

2 30 Don't be frustrated when you see no results after 1.3k 974 https://twitter.com/IslamicThinking/status/770486203011493890
trying. There's a lesson there. You may be
struggling but it doesn't mean you're failing!

3 30 ♥ - Good things come to those who pray. 540 423 https://twitter.com/IslamicThinking/status/770440925407567872

4 29 If you can't pray there, you shouldn't be there 251 305 https://twitter.com/IslamicThinking/status/770399395368079361
(bars, parties, etc).

5 29 If you can't pray in it (your outfit), you shouldn't 301 364 https://twitter.com/IslamicThinking/status/770350366256951296
leave home in it.

6 29 That hijab so neatly assembled on your head, 643 644 https://twitter.com/IslamicThinking/status/770305045657247744


has a thousand times more beauty than a crown
on a Queen's head.

7 29 Focus buff.ly/2bt3VCo Link 26 32 https://twitter.com/IslamicThinking/status/770259793713979392

8 29 Can everyone check to see if there app is up & Link 36 48 https://twitter.com/IslamicThinking/status/770240996504469504


running. Any issues let me know, jazākAllāh.
Also to download free:
http://www.islamicthinking.co.uk

9 A man who teaching his son reading Quran in Link, texto, 116 234 https://twitter.com/IslamicThinking/status/770218213904875520
one of the mosques in Muscat, Oman. foto

10 29 What is important is not what happens to us, but 522 411 https://twitter.com/IslamicThinking/status/770123896758624256
how we respond to what happens to us.

11 29 “They are those on whom (Descend) blessings 244 265 https://twitter.com/IslamicThinking/status/770078530365521920


from Allah, & Mercy, & they are the ones that
receive guidance” (2:157)

12 27 How far that little candle throws his beams! So 238 262 https://twitter.com/IslamicThinking/status/769625662592323584
shines a good deed in a weary world.

13 27 It's sweet when someone knows every detail 802 643 https://twitter.com/IslamicThinking/status/769580240930795524
about you. Not because you keep reminding
them, but because they pay attention.

14 27 A man is not finished when he is defeated. He is 438 414 https://twitter.com/IslamicThinking/status/769534948952907776


finished when he quits.

15 27 The upper hand is better than the lower hand 328 292 https://twitter.com/IslamicThinking/status/769444357267136513
and the upper hand is the one that spends and
the lower hand is the one that asks (Muslim)

16 27 Expect more from yourself but less from others. 747 582 https://twitter.com/IslamicThinking/status/769399094037114880
Remember: "You are in control of your life and
not others!"

17 27 Smile, because although you may be having a 1.3k 983 https://twitter.com/IslamicThinking/status/769353825941647361


bad day, you have food, clean water, clothes, a
home and your health. You are blessed.

18 26 A person goes to the gym to keep their body in 456 542 https://twitter.com/IslamicThinking/status/769312220417298433
shape, but the strongest person kneels to their
LORD to keep their soul in shape.

19 26 - RT: When you slip, you can regain your balance; 841 790 https://twitter.com/IslamicThinking/status/768406263701049344
24 when your tongue slips, the damage is done. So
be wary of gossip. It steals a person's dignity.

20 26 - RT: Be kind to your siblings and develop the best 1.1k 934 https://twitter.com/IslamicThinking/status/768357189052461056
24 relationship with them. The Almighty has chosen
them for a reason. Value them lest you regret.

21 26 - RT: Don’t ever look down on anyone. To you he 1k 835 https://twitter.com/IslamicThinking/status/768266668447596544


24 may be inferior, but he may be among the
closest to the Almighty. So treat people with
respect.

22 24 Why do some people give up so easily; just 848 749 Why do some people give up so easily; just because they didn't
because they didn't get what they asked for? get what they asked for? Keep at it. He's listening. It'll come.
Keep at it. He's listening. It'll come. Don't quit. Don't quit.

23 24 No matter what you're going through, remember 809 608 https://twitter.com/IslamicThinking/status/768538442330468352


that this life's a blessing. Complain & argue less.
Instead, learn to love & appreciate more.

24 24 Never let one mistake or one sin that you 1k 1,2k https://twitter.com/IslamicThinking/status/768493157814263808
commit drive you away from the Almighty.
Repent daily. Renew your intent. Keep your
heart pure.

25 24 Nothing will come to you if you don't try. If you 636 590 https://twitter.com/IslamicThinking/status/768447934899912704
want to get close to the Almighty, set daily goals.
Push yourself. Be consistent.

26 24 How often have you spread news & stories 581 485 https://twitter.com/IslamicThinking/status/768312028352155650
about others without verifying, only to be proven
wrong later on? Stay away from such major sins.

27 22 Eat when you desire and stop while you still 575 526 https://twitter.com/IslamicThinking/status/767723135227596800
desire, so that you may learn self-control

28 22 Don't ask Allah (‫ )ﷻ‬to make life easier but Link, texto, 296 340 https://twitter.com/IslamicThinking/status/767681482919931904
instead ask Him to make you a stronger person. foto
Photo:

29 22 Every journey requires provisions, so let piety be 349 379 https://twitter.com/IslamicThinking/status/767632520460505088


your provision in the journey from the life in this
world to the Hereafter.

30 22 Everyday… - Link, texto, 156 176 https://twitter.com/IslamicThinking/status/767587221427871744


foto

31 22 Photo: Islamic Decorative Tiles at Shah Jahan Link, texto, 42 91 https://twitter.com/IslamicThinking/status/767541817730629632


Mosque in Thatta, Pakistan foto

32 21 Spend a moment writing someone today, and 258 280 https://twitter.com/IslamicThinking/status/767500281777123328


bring a little pleasure to a dear one far away.

33 18 "Supplication is the provision of the believer, Link 83 118 https://twitter.com/IslamicThinking/status/766273617881665540


solace of the worshipper, refuge for the one
afraid,..." http://buff.ly/2b0zTZn

34 18 Wasting time is worse than death, because


death separates you from this world whereas
wasting time separates you from Allah. (Ibn
888 885
55
https://twitter.com/IslamicThinking/status/766092396815851520

Qayyim)

35 16 Photo: When someone criticizes or disagrees Link, texto, 90 119 https://twitter.com/IslamicThinking/status/765594132102406144


with you, a small ant of hatred and antagonism foto
is born in your...

36 16 “Then when you have taken a decision, put your 1.2k 954 https://twitter.com/IslamicThinking/status/765548669160529920
trust in Allah” [Qur’an, 3:159]

37 16 "Do not try to run away from trials and Link 134 182 https://twitter.com/IslamicThinking/status/765507144032645120
tribulations, but endure them with patience.
They cannot be..." http://buff.ly/2biYRCq

38 16 If you are about to sleep in your comfortable 658 682 https://twitter.com/IslamicThinking/status/765458190850985985


30 22 Everyday… - Link, texto, 156 176 https://twitter.com/IslamicThinking/status/767587221427871744
foto

31 22 Photo: Islamic Decorative Tiles at Shah Jahan Link, texto, 42 91 https://twitter.com/IslamicThinking/status/767541817730629632


Mosque in Thatta, Pakistan foto

32 21 Spend a moment writing someone today, and 258 280 https://twitter.com/IslamicThinking/status/767500281777123328


bring a little pleasure to a dear one far away.

33 18 "Supplication is the provision of the believer, Link 83 118 https://twitter.com/IslamicThinking/status/766273617881665540


solace of the worshipper, refuge for the one
afraid,..." http://buff.ly/2b0zTZn

34 18 Wasting time is worse than death, because 888 885 https://twitter.com/IslamicThinking/status/766092396815851520


death separates you from this world whereas
wasting time separates you from Allah. (Ibn
Qayyim)

35 16 Photo: When someone criticizes or disagrees Link, texto, 90 119 https://twitter.com/IslamicThinking/status/765594132102406144


with you, a small ant of hatred and antagonism foto
is born in your...

36 16 “Then when you have taken a decision, put your 1.2k 954 https://twitter.com/IslamicThinking/status/765548669160529920
trust in Allah” [Qur’an, 3:159]

37 16 "Do not try to run away from trials and Link 134 182 https://twitter.com/IslamicThinking/status/765507144032645120
tribulations, but endure them with patience.
They cannot be..." http://buff.ly/2biYRCq

38 16 If you are about to sleep in your comfortable 658 682 https://twitter.com/IslamicThinking/status/765458190850985985


bed, please take a second to pray for those who
don't have that luxury.

39 16 #storytime Starfish Link, texto, 24 34 #storytime https://twitter.com/IslamicThinking/status/765412795500392448


foto

40 16 Photo: “Acquire knowledge, and learn tranquility Link, texto, 148 179 https://twitter.com/IslamicThinking/status/765367548330307584
and dignity.” - (Umar ibn al-Khattab RA) foto

41 14 After thousands of our own mistakes, we never 1.2k 921 https://twitter.com/IslamicThinking/status/764914623518744577


hate ourselves. But even a single mistake from
others, we hold grudges.

42 14 The people in Jannah will be conversing Link, texto, 123 186 https://twitter.com/IslamicThinking/status/764869302017200131
amongst themselves and Allah says:“They will foto
say, “Indeed, we were pr…

43 14 If you have trust in Allah as you ought then He Link, texto, 152 201 https://twitter.com/IslamicThinking/status/764823938279075840
will feed you as He feeds the bird, it goes out... foto

44 14 One of the most humble things you can do is to 937 662 https://twitter.com/IslamicThinking/status/764782368888594432
allow yourself to be taught by someone.

45 14 "Does man think that he is to be left to wander 360 340 https://twitter.com/IslamicThinking/status/764733348682031104


without an aim?" (75:36)

46 14 Let us be grateful to the people who make us 995 705 https://twitter.com/IslamicThinking/status/764688070671265793


happy. They are the charming gardeners who
make our souls blossom.

47 14 The most precious reward during life is to busy 749 722 https://twitter.com/IslamicThinking/status/764642777128902656
yourself with most suitable and useful matters in
their exact and suitable time.

48 13 And ask forgiveness of your Lord and then Link, texto, 65 119 https://twitter.com/IslamicThinking/status/764601176507748352
repent to Him. Indeed, my Lord is... foto

49 5 Remember a calamity that brings you close to 584 662 #islam https://twitter.com/IslamicThinking/status/761702095665987584
Allah (‫ )ﷻ‬is better than a blessing that takes you
away from Allah (‫)ﷻ‬. #islam

50 5 ‫وَالنَّجْمِ إِذَا هَوَى‬ Link 87 128 https://twitter.com/IslamicThinking/status/761653172981080065


I call to witness a star as it sets [or collapses].
apses]. (
51 5 #SometimesYouHaveTo show gratitude for your 254 319 #Sometime https://twitter.com/IslamicThinking/status/761607985940561923
blessings & other times you have to pray to Allah sYouHaveT
(‫ )ﷻ‬to fulfil your needs. o

52 5 #SomethingILearnedLongAgo If you have 302 246 #Somethin https://twitter.com/IslamicThinking/status/761562669455376385


nothing good to say, say nothing at all. gILearnedL
ongAgo

53 5 Helping others is how we help ourselves. 663 509 https://twitter.com/IslamicThinking/status/761426675691360257

54 3 A professional is someone who can do his best 446 421 https://twitter.com/IslamicThinking/status/760928295420559362


work when he doesn't feel like it.

55 3 A promise is a cloud; fulfilment is rain. And 335 326 https://twitter.com/IslamicThinking/status/760837803748057089


remember rain is a blessing.

56 3 Be kind to UNKIND people - they need it the 363 414 https://twitter.com/IslamicThinking/status/760796129848135680


MOST.

57 3 Lead such a life, that, when you die, the people 420 432 https://twitter.com/IslamicThinking/status/760747252415692800
may mourn you, and while you are alive they
long for your company.

58 3 May our deeds attract Allah's love so that our 479 511 https://twitter.com/IslamicThinking/status/760701771702468609
lives may be filled with peace, happiness &
freedom from any calamity. Amin

59 3 Talk sense to a fool and he calls you foolish. 323 263 https://twitter.com/IslamicThinking/status/760656666685804544

60 2 The best way to find yourself is to lose yourself 382 343 https://twitter.com/IslamicThinking/status/760614967964041216
in the service of others.

61 2 There's no one on this earth like your mother. Link, video, 130 157 #CherishH https://twitter.com/IslamicThinking/status/760613267106652160
#CherishHer texto er

62 2 RT: Rasulullah (‫ )ﷺ‬said, "The more civil and 1.1k 1.1k https://twitter.com/IslamicThinking/status/748112560445067264
kind a Muslim is to his wife, the more perfect in
faith he is."

63 2 RT: Do not do good deeds so that people 1.2k 943 https://twitter.com/IslamicThinking/status/748743096293167105


mention you. The true believer hides his good
deeds just as he hides his sins.

64 2 RT: Allah (‫ )ﷻ‬does not look at your physical 856 802 https://twitter.com/IslamicThinking/status/750237826642485249
features or your wealth,but He looks at your
hearts and deeds. (Muslim)

65 2 RT: As-Salāmu `Alaykum family. You guys Foto, 81 186 https://twitter.com/IslamicThinking/status/713512873373409283


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Add me on snapchat: islamic.snaps

66 2 The quieter you are, the more you are able to 658 479 https://twitter.com/IslamicThinking/status/760294115863035906
hear.

67 1 The path to success is to take massive, 295 236 https://twitter.com/IslamicThinking/status/760252579830005761


determined action.

68 1 RT: Waking up to a positive message everyday. Foto 171 208 https://twitter.com/IslamicMoments/status/739811154810245120


It can be opened on the app to save for later or
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69 1 RT: Preview pics of the new IslamicThinking Foto 89 93 https://twitter.com/IslamicMoments/status/739812230678614017


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:)

70 1 "Allah will aid a servant (of His) so long as the 267 292 https://twitter.com/IslamicThinking/status/760203862867312640
servant aids his brother."

71 1 Never have I dealt with anything more difficult 735 684 https://twitter.com/IslamicThinking/status/760158503587737600
than my own soul, which sometimes helps me
and sometimes opposes me. - Imam Al-Ghazali

72 1 If I know better, but don't do better, things won't 493 348 https://twitter.com/IslamicThinking/status/760113283793846272
get better.

73 1 Ambition is expecting the best of yourself. 544 451 https://twitter.com/IslamicThinking/status/760071382751408128


Arrogance is believing you are better than
others.

74 1 Nobody is sinless. But I pray to Allah that I sin 828 605 https://twitter.com/IslamicThinking/status/760022424519843840
less.

75 1 Silence is sometimes misinterpreted but never 628 435 https://twitter.com/IslamicThinking/status/759977053924028416

76 1
misquoted.

Photo: “How many times did you stand and Link, texto, 151 247
56
https://twitter.com/IslamicThinking/status/759931833651982337
make Dua for your friend to be guided? For foto
your mom to be guided?...

Média Geral 415,3881 440,135

Média das 500,1333 502,437


citações
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70 1 "Allah will aid a servant (of His) so long as the 267 292 https://twitter.com/IslamicThinking/status/760203862867312640
servant aids his brother."

71 1 Never have I dealt with anything more difficult 735 684 https://twitter.com/IslamicThinking/status/760158503587737600
than my own soul, which sometimes helps me
and sometimes opposes me. - Imam Al-Ghazali

72 1 If I know better, but don't do better, things won't 493 348 https://twitter.com/IslamicThinking/status/760113283793846272
get better.

73 1 Ambition is expecting the best of yourself. 544 451 https://twitter.com/IslamicThinking/status/760071382751408128


Arrogance is believing you are better than
others.

74 1 Nobody is sinless. But I pray to Allah that I sin 828 605 https://twitter.com/IslamicThinking/status/760022424519843840
less.

75 1 Silence is sometimes misinterpreted but never 628 435 https://twitter.com/IslamicThinking/status/759977053924028416


misquoted.

76 1 Photo: “How many times did you stand and Link, texto, 151 247 https://twitter.com/IslamicThinking/status/759931833651982337
make Dua for your friend to be guided? For foto
your mom to be guided?...

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Média das 500,1333 502,437


citações

57
APÊNDICE B – Tabela das publicações feitas por @IslamicThinking em setembro de
2016
Publicações na conta @IslamicThinking em Setembro e Agosto
Nº Dia Citação Texto escrito Mídia (tipo) Retweets Curtidas Hashtag Link

1 30 Photo: “But those who feared their Lord will be driven to Link, foto, 55 97 https://twitter.com/IslamicThinking/status/781995804382863360
Paradise in groups until, when they reach it while... texto

2 30 Cool I can now share #StoryTime stories as a moment. 13 44 #StoryTime https://twitter.com/IslamicThinking/status/781991564419723265


Share my last tweet guys if you like the story. #muchlove #muchlove

3 30 ⚡ "Starfish" Link, foto, 65 97 https://twitter.com/IslamicThinking/status/781989932873183232


texto

4 30 Moral: Small Things can make big 558 407 https://twitter.com/IslamicThinking/status/781989245191917568


changes/impact. A little good goes a long way.

5 30 He turned back to the man and said: “To THAT 75 123 https://twitter.com/IslamicThinking/status/781989207845834753
one, it made a difference.”

6 30 He then stooped down and pick up one more 63 92 https://twitter.com/IslamicThinking/status/781989186043777024


starfish and threw it back into the ocean.

7 30 You can’t possibly make a difference.” The 68 98 https://twitter.com/IslamicThinking/status/781989141215084548


person looked at the man for a moment.

8 30 As he came up to the person, he said: “You must 67 98 https://twitter.com/IslamicThinking/status/781988962164281345


be crazy. There are thousands of miles of beach
covered with starfish.

9 30 As he approached, the person continued the 64 86 https://twitter.com/IslamicThinking/status/781988905801412608


task of picking up starfish one by one and
throwing them into the surf.

10 30 The man was struck by the apparent futility of 71 94 https://twitter.com/IslamicThinking/status/781988891632996352


the task. There were far too many starfish. Many
of them were sure to perish.

11 30 There had been a storm and as the result of the 70 80 https://twitter.com/IslamicThinking/status/781988838386372608


storm they had been thrown onto shore.

12 30 As the man approached, he could see that there 61 88 https://twitter.com/IslamicThinking/status/781988819075796992


were hundreds of starfish stranded on the sand.

13 30 Off in the distance he could see a person going 111 130 https://twitter.com/IslamicThinking/status/781988791309467648
back and forth between the surf’s edge and the
beach. Back and forth this person went.

14 30 Once a man was walking along a beach. The 88 118 https://twitter.com/IslamicThinking/status/781988761299288064


sun was shining and it was a beautiful day.

15 28 There are two things a person should never be 257 266 #thinkaboutit https://twitter.com/IslamicThinking/status/781222038107217921
angry at, what they can help & what they cannot.
#thinkaboutit

16 28 The only place you find success before work is 198 228 https://twitter.com/IslamicThinking/status/781176978124730368
in the dictionary.

17 28 The man with a toothache thinks everyone 281 330 https://twitter.com/IslamicThinking/status/781131421574426625


happy whose teeth are sound. The poverty-
stricken man makes the same mistake about the
rich man.

18 28 Thinking that we are perfect & that others need 558 424 https://twitter.com/IslamicThinking/status/781089824165994496
to be corrected is like, cleaning the mirror
instead of cleaning our face.

19 28 The sign of their love (for Allah ‫ )ﷻ‬is in their 223 375 https://twitter.com/IslamicThinking/status/781040860750307328
adherence to the Sunnah of His Prophet (‫)ﷺ‬. -
Hasan Al-Basri

20 28 Photo: “Prayer is as natural an expression of faith as Link, foto, 136 197 https://twitter.com/IslamicThinking/status/780995475415629824
breathing is of life”. texto

21 28 One always has time enough, if one will apply it 288 336 https://twitter.com/IslamicThinking/status/780950168220893184
well. Meaning time used efficiently has greater
barakah.

22 27 Learning is not attained by chance. It must be 270 279 https://twitter.com/IslamicThinking/status/780908643889938432


sought for with ardour and attended to with
diligence.

23 27 "So as long as your are in the aid of others... Foto 3000 2700 https://twitter.com/IslamicThinking/status/780851545487380485
God will always be in your aid.” - Muhammad ‫ﷺ‬

24 25 If you do the little jobs well, the big ones will tend 378 399 https://twitter.com/IslamicThinking/status/780089516505915393
to take care of themselves.

25 25 Focus Link 15 40 https://twitter.com/IslamicThinking/status/780044219897503744

26 25 If the appearance is more important than the 995 835 https://twitter.com/IslamicThinking/status/780012286748614656


soul, then why would the soul rise up to the sky
after death & we bury the body in the ground?

27 25 You don't need a beautiful voice to recite the 755 710 https://twitter.com/IslamicThinking/status/780002674934710272
Quran. All you need is a sincere heart.

28 25 Dua is universal. It heals everything. Photo: Link, foto, 244 272 https://twitter.com/IslamicThinking/status/779953650668019712
texto

29 25 Islam isn't about understanding what is 532 520 https://twitter.com/IslamicThinking/status/779908293531734016


forbidden, rather it is understanding what is
better.

30 25 “They say New York city never sleeps, have they Link, foto, 376 477 https://twitter.com/IslamicThinking/status/779863062002208768
seen Makkah?” texto

31 24 Purify yourself with the Quran, & beautify your 394 469 https://twitter.com/IslamicThinking/status/779821466842005504
actions with the Sunnah.

32 24 - RT: A delayed answer to your prayer DOESN'T 1300 1200 https://twitter.com/IslamicThinking/status/760883043112521728


22 mean Allah is unconcerned but rather He has a
larger purpose for his timing. Trust Him.

33 24 - RT: The more you know, the less you need to 1100 741 https://twitter.com/IslamicThinking/status/761381341011251200
22 say.

34 24 - RT: When you hate, no great things you can 919 618 https://twitter.com/IslamicThinking/status/761471880297607168
22 create.

35 24 - RT: The choices that you make, make the 645 587 https://twitter.com/IslamicThinking/status/763532706189811712
22 person that you become.

36 22 A smart person knows what to say. A wise 522 468


person knows when to say it.

37 22 To be alone means that you avoid bad company. 786 673 https://twitter.com/IslamicThinking/status/778957043197734913
But to have a true friend is better than being
alone (Umar Ibn Al-Khattab)

38 22 Do not render vain your deeds by a reminder of 249 324 58


https://twitter.com/IslamicThinking/status/778915497203171328
your generosity to people to whom you have
helped purely for the sake of Allah SWT.

39 22 Silence is the best answer to the stupid. The fool 621 488 https://twitter.com/IslamicThinking/status/778866432822112256
has his answer on the tip of his tongue.

40 22 Knowledge acquired as a child is more lasting 185 229 https://twitter.com/IslamicThinking/status/778775916398927872


than an engraving on stone.

41 21 Joy is what happens when we allow ourselves to 424 359 https://twitter.com/IslamicThinking/status/778734304054476800


recognise how good things really are.

42 21 Keep yourself busy in remembering your faults, 740 621 https://twitter.com/IslamicThinking/status/778685378152628226


that you wont have time to remember the faults
of others.
actions with the Sunnah.

32 24 - RT: A delayed answer to your prayer DOESN'T 1300 1200 https://twitter.com/IslamicThinking/status/760883043112521728


22 mean Allah is unconcerned but rather He has a
larger purpose for his timing. Trust Him.

33 24 - RT: The more you know, the less you need to 1100 741 https://twitter.com/IslamicThinking/status/761381341011251200
22 say.

34 24 - RT: When you hate, no great things you can 919 618 https://twitter.com/IslamicThinking/status/761471880297607168
22 create.

35 24 - RT: The choices that you make, make the 645 587 https://twitter.com/IslamicThinking/status/763532706189811712
22 person that you become.

36 22 A smart person knows what to say. A wise 522 468


person knows when to say it.

37 22 To be alone means that you avoid bad company. 786 673 https://twitter.com/IslamicThinking/status/778957043197734913
But to have a true friend is better than being
alone (Umar Ibn Al-Khattab)

38 22 Do not render vain your deeds by a reminder of 249 324 https://twitter.com/IslamicThinking/status/778915497203171328


your generosity to people to whom you have
helped purely for the sake of Allah SWT.

39 22 Silence is the best answer to the stupid. The fool 621 488 https://twitter.com/IslamicThinking/status/778866432822112256
has his answer on the tip of his tongue.

40 22 Knowledge acquired as a child is more lasting 185 229 https://twitter.com/IslamicThinking/status/778775916398927872


than an engraving on stone.

41 21 Joy is what happens when we allow ourselves to 424 359 https://twitter.com/IslamicThinking/status/778734304054476800


recognise how good things really are.

42 21 Keep yourself busy in remembering your faults, 740 621 https://twitter.com/IslamicThinking/status/778685378152628226


that you wont have time to remember the faults
of others.

43 21 “How temporary are people and how infinite is 837 667 https://twitter.com/IslamicThinking/status/778639960098365440
Allah.”

44 21 Three keys to more abundant living: caring 395 387 https://twitter.com/IslamicThinking/status/778594883577778176


about others, daring for others, sharing with
others.

45 21 Had the pleasure of meeting @NavaidAziz in both 31 90 https://twitter.com/IslamicThinking/status/778560916866600960


Makkah & Madinah randomly. Alhamdulillah.

46 20 Retweet: @IslamicThinking loved the pics from the app. 3 22 https://twitter.com/Abdul_AZ/status/778214988443820032


And Ameen:)

47 20 The daily updates should be up and running soon. I the 51 88 #hajj2017 https://twitter.com/IslamicThinking/status/778214224761946112
mean time download our free app for daily notifications.
:) #hajj2017

48 20 As-Salāmu `Alaykum family, I'm back after completing 99 629 https://twitter.com/IslamicThinking/status/778214003407552512


the hajj with my family, may Allāh (‫ )ﷻ‬accept it from all of
us.

49 20 - RT: As you breath right now, another person 1200 1000 https://twitter.com/IslamicThinking/status/769493414605881345
16 takes his last. So stop complaining, & learn to
live your life with what you got.

50 20 - RT: Arrogance diminishes wisdom. 639 511 https://twitter.com/IslamicThinking/status/769674605296508928


16

51 20 - RT: You don't know what the future holds, but 1000 718 https://twitter.com/IslamicThinking/status/769716141027684352
16 you know Who holds it. So know where to turn
to.

52 20 - RT: One thing we badly need today is for people 1100 882 https://twitter.com/IslamicThinking/status/770580605536989185
16 to be compassionate rather than judgemental.
Anyone can blame but it takes a good heart to
feel.

53 16 Ya Allāh (‫ )ﷻ‬bless me with good health, so I can 766 902 https://twitter.com/IslamicThinking/status/776628840957444096


make Sajdah with ease till my dying day.

54 9 Who is in Makkah this year for Hajj? 54 169 https://twitter.com/IslamicThinking/status/774347107855720451

55 9 May Allāh (‫ )ﷻ‬accept everyone's hajj & may 526 673 https://twitter.com/IslamicThinking/status/774329167525576704
Allāh (‫ )ﷻ‬make it easy for all of us. Amīn.

56 9 - 4 RT: In the midst of the storm, Allah will give you 1200 978 https://twitter.com/IslamicThinking/status/766137573852995585
something that soothes your pain.
(ً‫)إنَّ مَعَ العُسْرِ يُسْرا‬

57 9 - 4 RT: Your life in this world is like a shade that 402 386 https://twitter.com/IslamicThinking/status/766182958474661888
covers you briefly, then disappears.

58 9 - 4 RT: Things turn out for the best for the people 722 589 https://twitter.com/IslamicThinking/status/766231953850916864
who make the best out of the way things turn
out.

59 9 - 4 RT: ”A believer to another believer is like a 412 411 https://twitter.com/IslamicThinking/status/766318939248988161


building whose different parts enforce each
other." (Bukhari)

60 9 - 4 RT: O Allah (‫ )ﷻ‬enable me to love the poor. 415 540 https://twitter.com/IslamicThinking/status/761520929369366528


Aameen.

61 9 - 4 RT: Islam wasn't sent for the perfect people, 717 605 https://twitter.com/IslamicThinking/status/770169210681036801
Islam was sent to PERFECT the people.

62 9 - 4 RT: If you really want what you're praying for 1300 1100 https://twitter.com/IslamicThinking/status/770531561179578368
you'll never be tired of waiting. The Almighty
knows. The beauty lies in the struggle. Trust
Him.

63 4 Since my birth, my mother has made me happy 1700 1500 https://twitter.com/IslamicThinking/status/772518940983566337


without a price. Ya Allah (‫)ﷻ‬, make her happy
and guard her.

Médias 498,2381 470,857


Gerais:

Citações 553,2428 524,923

LFV:

59

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