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2016 número 1

Pentagrama
Lectorium Rosicrucianum

Um chamado vindo do coração solar –


o Caminho, e a Verdade para sua vida!
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pentagrama – base da consciência da alma

pentagrama
Ano 38 • 2016 número 1 pentagrama
A partir de amostras de DNA, cientistas foram capazes de reconstituir a rota
provável que o Homo sapiens percorreu pela Terra ao longo de milhares de
séculos. O Projeto Genográfico consiste em comparar o DNA de diversos
grupos para determinar se existem diferentes famílias humanas e qual seria
a origem de seus ancestrais. Nosso próprio DNA indica que o Homo sapiens
surgiu na África, há quase duzentos mil anos! Suas peregrinações seguiram
primeiro em direção a leste, e depois a oeste, sempre acrescentando seu
patrimônio genético.
Na base desta pesquisa, há um fascínio que pode ser comparado ao do
buscador espiritual, que quer responder as seguintes questões: De onde
vim? Para onde vou? Quem sou eu? Pouco a pouco algo vai se tornando
tão claro e tão surpreendente, que é como se a Medusa olhasse para nós.
Assim, tomamos consciência, de maneira irrefutável, daquilo que, como
seres humanos, não somos capazes de aprender nem socialmente, nem
através da moral ou do altruísmo: nós somos um! Tomamos consciência de
que somos Um, compartilhamos o mesmo DNA e temos um ancestral
comum: o Homo sapiens. Originalmente, ele era menor, tinha a pele mais
escura e estava muito mais perto da natureza do que nós, seres humanos
motorizados, agarrados ao nosso celular. Além do DNA, nós temos
em comum cada partícula de nosso ser, cada molécula, cada átomo.
Na natureza nada desaparece: inúmeros elementos químicos datam de
bilhões de anos! Eles estavam presentes na origem da vida, conheceram
os dinossauros e percorram uma imensa trajetória para encontrar sua
expressão bem aqui: em você e em mim, antes de continuar seu caminho
através do tempo e do espaço. Ou seria para deixar o espaço e o tempo?
Nesse sentido, somos poeira de estrelas e não apenas pó!
De onde viemos? De todos os lugares. Aonde vamos? Para todos os lugares. Quem
somos nós? Uma maravilhosa expressão do Uno. Um dia uma voz ressou,
dirigindo-se aos seres humanos: “Tu és pó e ao pó voltarás!” Isto também
se aplica ao novo tempo: ”És o Espírito e Espírito voltarás a ser!” Por tudo
isso, amigos leitores, precisamos perseverar em nossa ascensão. Temos
todas as razões para sermos humildes, e ao mesmo tempo, nenhuma razão
A revista Pentagrama é publicada quatro vezes por Diagramação para não abraçar a Publicação
grandeza da criação.
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ano em alemão, inglês, espanhol, francês, húngaro, Studio Ivar Hamelink Acesso gratuito Sede no Brasil
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Através de análises de moléculas de DNA e com a ajuda de inúmeras comunidades indígenas,
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2005 o “Projeto
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Peter Huijs diante das quais a humanidade se encontra:
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Como Países nossa
explicar Baixos origem? Que caminhos
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foram percorridos no povoamento do planeta?e-mail: info@rozekruispers.com
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ISSN 1677-2253

1
Conteúdo

3 Imagens do Mundo (página 3, 7, 64)

4 O sal da Terra
J. van Rijckenborgh

8 A atividade da Fraternidade Universal


Algumas palavras sobre o futuro próximo

14
Quem sou eu? O que sou eu? De onde venho?
O que é que me formou?
Uma jovem rosacruz: a busca de si mesmo em um país
estrangeiro.
E.L.White

20 Reportagem
Semana de Trabalho dos Jovens Rosa-Cruzes – Renova,
2015
M. van der Velden

22 Pensamentos de Hermes
28 Um bom começo
30 Saiba o que você tem de fazer
35 Platão e a sua teoria das Ideias
W.K.C. Guthrie

50 Os livros
Paul Levy: Dispelling Wetiko – Rompendo a Maldição

52 A armadilha da atual situação econômica


61 Crônica
O ponto cego

62 Símbolo
Círculo e ponto

2 conteúdo
imagens do mundo

Esse chamado toca almas incontáveis, microcosmos, essências flamejantes do


Espírito Único, que povoarão o Universo incomensurável com a Luz do Uno...
No dia 12 de junho de 2015, no Parque Gorky, em Moscou, foram inaugurados, ao mesmo tempo: a exposição
“A Teoria do Infinito” e o “Museu Garagem” – um museu idealizado pelo holandês Rem Koolhaas, onde o
japonês Yayoi Kusama instalou espelhos infinitos. Os visitantes mergulham em milhares de luzes cintilantes, que
provocam uma vivência psicológica e sensorial muito especial. Para nós, era como se fosse a luz de milhões de
almas. © www.spletnik.ru/buzz/59771-novoe-zdanie-muzeya-garazh-chto-zhdet-posetiteley.htm

3
O pensamento lúcido de J. van Rijckenborgh e seu grande amor
pela humanidade levaram-no a fundar, com Catharose de Petri,
uma escola moderna de transformação da consciência: o Lecto-
rium Rosicrucianum. A ideia inicial era a de que, ao serem preen-
chidas as lacunas dos conhecimentos situados nos bastidores da
existência, esse fato constituiria uma alavanca para atenuar o
sofrimento do mundo.

O Sal da Terra – imagem congelada do filme de mesmo nome de Wim Wenders e Ribeiro Salgado, 2014. © Sebastião Salgado

4 O sal da terra
O sal da terra

Em todas as áreas, o sal é um ingrediente indispensável. Sem ele, a


vida seria impensável. Por analogia, falamos também do sal místico
como o elemento de base da alquimia espiritual, essencial para as
núpcias alquímicas de Cristão Rosa-Cruz.

O
sal místico está presente em plano divino. O universo inteiro nos en-
todo homem e seu grau de sina que “Deus é Luz”. Há provas dessa Desde o início até as últimas
eficácia determina sua força verdade em todos os setores da vida. Ela conferências que fez, J. van
Rijckenborgh nunca deixou de
espiritual. A ação desse sal nos faz ter consciência de sermos cria-
colocar As Núpcias Alquímicas de
une ou dissolve diversas for- turas à Sua imagem, portadores de Luz.
Christian Rosenkreuz (ano1459)
ças e valores, úteis ou supérfluos para o Assim como o Logos impulsiona o sis-
no centro de nossa atenção,
processo. Além disso, torna o ser huma- tema solar no Universo, nós, portadores
desvelando inúmeras camadas
no apto para seguir seu caminho cósmi- da Luz genuína, entendemos nossa tarefa e muitas chaves ocultas
co evolutivo no espaço-tempo. e podemos ser luzes para o mundo. Ao dessa obra.
Sofrimento e purificação de vida sus- mesmo tempo, somos o sal da terra e a
citados pelo sal místico interagem para luz do mundo!
dar nascimento à consciência-alma, o Não se considere jamais um “eu”, mas
corpo-alma dos iniciados, a veste áurea sempre um “nós”. O sal místico depo-
crística que envolve aqueles que se sitado em você deve ser colocado a ser-
apressam para participar das núpcias viço do “nós”, que é o mundo. Quem
a fim de esposarem a Luz do Espírito já conquistou forças de alma precisa
divino que reside em seu interior. É espalhá-las a seu redor, no mundo:
assim que se cumpre a primeira fase das desse modo, o misterioso sal místico
núpcias alquímicas. Mas, atenção: esse aumentará, graças à sua propriedade
sal místico encontra-se em estado latente fabulosa. Quanto mais for doado, mais
no interior de cada ser humano. você estará preparado para oferecer e
Por mais tempo que o chamado ressoe, desejará doar mais ainda, seguindo o
ele ainda não conseguiu despertar o impulso do coração.
homem da massa. Se isso acontecesse, o Você pode levar essa Luz interior, seu
sal místico poderia perder seu sabor e o espírito divino, para o “nós” a toda a
gênero humano se tornaria inútil para o humanidade. Sua missão não está no

5
nível do “eu”, mas sim no do “nós”. Você só terá sossego quando essa
Luz penetrar os lugares mais sombrios.
Essa é a única obra que responde à ordem divina e exige sacrifício
verdadeiro: o de ser o sal da terra e a luz do mundo. Assim seguimos o
exemplo de Cristo – não descansar nunca antes que toda a onda de vida
humana tenha alcançado sua meta.
Essa proposta nos leva a um comportamento muito especial, esclarecido
pelo Sermão da Montanha.
A vida diária mostra que o Sermão da Montanha ainda não foi assimilado.
É como se ele nos colocasse diante da obrigação de subir uma monta-
nha: ele suscita grandes reticências, pois Cristo nos pede uma completa
transformação do homem e da sociedade.

Se o Sermão da Montanha
fosse aplicado minimamente,
já provocaria uma transformação radical
Todo buscador sério sentirá que o ponto central não é dizer, mas fazer;
e, para fazer bem qualquer coisa, é preciso, primeiro, saber e com-
preender. Quando é dito que somos o sal da terra e a luz do mundo,
isso mostra que Cristo traçou uma senda que pode ser percorrida. Se
compreendêssemos pelo menos “um pingo” das intenções de Cristo, o
resultado seria significativo em escala mundial!
Se o Sermão da Montanha fosse aplicado minimamente, já provocaria
uma transformação radical, tanto em nosso contexto interior quanto no
ambiente que nos rodeia, a ponto de podermos imaginar ter entrado Adeus aos Tetons Mounts,
no Reino dos Céus. Isso seria incontestável para todos os seres humanos no crepúsculo, próximos ao
Jackson Lake Lodge
mortais e se manifestaria em toda a humanidade. (Wyoming, USA) © Dong Nan Xi Bei

6 O sal da terra
imagens do mundo

Entre uma vida terrestre e uma vida solar,


qual delas escolher? A vida solar, é claro!

7
A atividade da Fraternidade

ALGUMAS PALAVRAS SOBRE O FUTURO PRÓXIMO

J
J. van Rijckenborgh já previa um cenário pouco tranquilo e reconfortante para o
mundo e a humanidade. Desde então, aconteceram muitos fatos que poderiam nos
desencorajar. As pessoas verdadeiramente honestas e íntegras são raras neste mundo. A
maioria não ouve o que elas dizem nem lhes dá crédito. Elas não podem ser ouvidas
porque o estado psíquico da maioria dos seres humanos já não permite isso, pois a
humanidade chegou ao ponto mais baixo de sua viagem na matéria. A arte, a ciência
e a religião perderam valor como fontes de auxílio e de perspectivas de vida.
Então, que horizonte restou para o gênero humano?
De repente nos vemos impotentes e sem esperança, como que diante de um muro, e,
apesar disso, somos convidados à autorrealização – tarefa para a qual estamos sendo
preparados, de algum modo. E a questão é colocada novamente: Que perspectiva resta
ao homem? Como ele conseguirá romper os obstáculos que o limitam exterior e in-
teriormente? É nessa situação de impotência geral que se abre uma nova possibilidade
para o trabalho da Fraternidade Universal.

Como responder à condição atual do mundo?


Observando os fatos com um olhar esotérico-gnóstico, lembramos que as
forças ou anjos lunares pertenciam a uma onda de vida anterior à nossa. Em seu
desenvolvimento, essas forças acompanharam nossa própria onda de vida – mas
não fizeram parte dela. Elas acompanharam a humanidade até seu momento mais
sombrio: o nadir da matéria no qual nos encontramos hoje. Porém, elas se retiraram
completamente, como J. van Rijckenborgh explicou.

8 A atividade da Fraternidade Universal


e Universal

Des meeres und der Liebe Wellen (As ondas do mar e do amor) – pintura de Anselm Kiefer, 2011. Uma representação
do drama clássico de Hero, que toda noite fazia a travessia do Helesponto a nado para encontrar sua amada Leandra

9
Boulder (Colorado), manhã de 6 de janeiro de 2015.©Tom Yulsman

Novas energias tomarão conta da humanidade,


provocando reações no interior de cada ser humano

10 A atividade da Fraternidade Universal


É por isso que a Fraternidade Universal, cujo prolongamento é a Escola Espiritual
da Rosacruz Áurea, está preparando o futuro próximo. Afinal, já começou um período
de transição, marcado por grande desordem e catástrofes. A Escola vem falando inces-
santemente sobre isso nos últimos anos, para deixar bem claro o que virá a seguir.

Dizemos que ainda estamos em um processo incorreto, pois pouco nos preocupa-
mos com a ordem cósmica, que exige interrelação, coesão, benevolência e diligên-
cia em todas as coisas: sempre ignoramos e até negamos esses aspectos. Resultado:
estagnação da ordem social, econômica, científica e religiosa, e de outras instâncias
que poderiam impedir a sociedade de se desviar. A atual pobreza de espírito certa-
mente segue lado a lado com isso. A memória da natureza registrou a experiência
de primeira mão de que a humanidade representa uma ameaça, não somente para
o indivíduo, mas também para todo o planeta. Essa experiência direta ainda não é
sentida em total consciência, mesmo quando os modernos meios de comunicação
estão expondo claramente diante de nossos olhos o atual estado do mundo. Diante
disso, qual é a sua resposta?
Esperamos que você compreenda corretamente e seja guiado por esse entendimento!

Veja o que o estado do mundo quer lhe dizer


Não existe nenhuma solução política – a não ser aquela que você põe em
prática em sua própria situação concreta. Ou você é uma pessoa que se indigna,
que condena, que tem medo, que tem certezas, ou é alguém que está pronto
para arregaçar as mangas. Não é verdade que todos os dias você percebe
sutilezas perversas, falsidades, mentiras, tanto nas relações entre os indivíduos
quanto entre as nações?
A partir dos próximos acontecimentos, dizemos que todas essas imposturas e enganos
logo pertencerão ao passado, porque todos poderão ver do que realmente se trata.
A iniciativa da Fraternidade Universal diz respeito a você! Você mesmo terá de colocar
em movimento e ativar a força positiva, essa força-luz que está adormecida dentro de
você, a fim de responder a um poderoso impulso de inspiração espiritual na forma
de uma vibração atmosférica, que cada um – todos os seres humanos de todas as
raças – vão sentir e experimentar.
Todas as Fraternidades – inclusive a nossa e as Fundações Rosacruzes – respondem a
isso e contribuem à sua maneira. Não exteriormente, mediante comunicação ou radio-
difusão, mas com iniciativas provindas de uma atitude interior e com foco no próximo
intenso e poderoso derramamento de radiações eletromagnéticas. Novas energias afeta-
rão toda a humanidade e provocarão, em todos os indivíduos, profunda reação. Desse
modo, todos poderão defrontar-se com seu próprio estado de ser e assim receber força
e a possibilidade de intervir em sua própria situação. Isso terá certa semelhança com
aquilo que na Escola Espiritual é conhecido como o estado de ser da alma-espírito.

O estabelecimento de novos pontos de partida


Faz muitos anos que conversamos em nossa Escola sobre essa transição dimensional.
A mesma coisa tem acontecido em muitos outros grupos incorporados à obra da
Fraternidade Universal. A nova realidade etérica rompe as camadas superiores de

11
Em todos os setores,
a impostura perderá sua razão de ser
nossa atmosfera interna e expulsa as trevas. Isso se manifesta até nos grupos que tra-
balham cada vez mais aberta e cinicamente em prol de seus interesses pessoais, por se
verem enfraquecidos pelo medo e pela busca de vantagens, cheios de arrogância, ódio
e comportamento destrutivo. Para mudar a mentalidade de seus membros, que tam-
bém são nossos irmãos, há somente uma solução: a atuação de uma grande corrente
cósmica de amor impessoal, conscientemente sustentada por milhares e milhares de
corações abertos – por pessoas como nós e você.
Não estamos falando, de maneira nenhuma, de “fim do mundo”. O que está aconte-
cendo hoje pode ser interpretado como o estabelecimento, no éter, de novos pontos
de partida, afinados com a grande lei do amor e da coesão de todas as formas de vida.
Milhões de corações esperam por isso! Eles podem sentir, vivenciar essa realidade,
e serem guiados por ela. Interiormente, essas pessoas estão afastando os véus entre
as vibrações solares e as vibrações terrestres. A consequência disso é o aquecimento
do planeta, mudanças climáticas e, eventualmente, catástrofes naturais. É o Espírito –
começando pelo Logos do Universo e a Vontade do Pai – que se encontra por detrás
disso, que mantém em equilíbrio essas enormes modificações magnéticas no interior
do sistema do planeta Terra. E tudo isso é realizado não a serviço de nossas pobres
personalidades vacilantes, mas a serviço do conjunto da progressão cósmica, no inte-
rior da qual a onda de vida humana se movimenta.

Introduzindo uma nova dimensão no mundo


Está para acontecer, iminentemente, uma modificação da consciência. Essa mudança
vem como resposta a uma necessidade cósmica, mas também, e sobretudo, ela é susci-
tada pelo despertar do autêntico potencial espiritual do amor altruísta, que é o reflexo
da imagem primordial do homem espiritual. Com isso, iremos perceber a realidade
de maneira totalmente diferente! A nova aurora realmente está trazendo com ela uma
nova dimensão. Nosso coração é receptivo a tudo isso. Com nossa inteligência conse-
guimos entender a razão superior. Com nossas ações amigáveis e diligentes poderemos
contribuir grandemente para introduzir essa nova aurora no mundo.
Houve um tempo em que o ser humano estava unido à imagem primordial divina,
pois era um homem verdadeiramente celeste. Hoje, a plenitude dessa imagem encon-
tra-se muito distante de nós. Contudo, há uma lembrança, como se fosse um espelho
em um espelho, adormecida em cada ser humano, em cada coração que deseja lutar de
maneira justa pelos outros. Todos poderão enxergar essa imagem em consequência da
grande iniciativa cósmica sobre a qual falamos. Os seres humanos irão senti-la como
uma experiência direta, a ponto de vivenciar o poder da matriz original – que nós
denominamos “plano divino para o mundo e a humanidade”. Na Europa, o acolhi-
mento a um grande número de refugiados vindos do Oriente não seria uma primeira
e jubilosa reação a essa vivência? À luz das novas forças ou valores etéricos que estão
disponíveis para suprir as necessidades atuais, poderemos compreender, aliviados,

12 A atividade da Fraternidade Universal


nossa tarefa e nossa missão. É o resultado da ordem profunda e elevada: “Cuidem de
fazer viver a alma!” Ao mesmo tempo, poderemos ver claramente as consequências
geradas pela recusa a essa missão.

Uma comoção agita todo o planeta


Quando falamos sobre abrirmos amplamente a porta para a vida autêntica, observa-
mos como o psiquismo do indivíduo pode ser regenerado na medida do possível e
também como essa experiência e as poderosas atividades da Força-Luz produzirão
uma purificação impressionante! E isso não diz respeito apenas a todos os seres hu-
manos, mas a todas as esferas de vida. Então, poderá ocorrer uma verdadeira revo-
lução social: um novo e grandioso processo, que segue sete vias. Todos participarão
desse processo, pois diz respeito a todo o planeta. Nenhum setor de nossa sociedade
escapará às influências benéficas dessa revolução. Será como se a dimensão atual se
dissolvesse e desaparecesse! A imagem original do ser humano, preservada em toda a
sua pureza nas mais altas esferas da vida, irá envolvê-lo em seu estado de Alma-Espí-
rito. A cada dia ele crescerá em percepção e discernimento. A falsidade e a ambiguida-
des desaparecerão.
Não é difícil imaginar o que tudo isso implicará em termos de mudança moral na
sociedade e nos objetivos desenvolvidos pela ciência. Trata-se de considerável perspec-
tiva, de profunda mudança de consciência, que poderá estabelecer uma formidável re-
volução universal. De tempos em tempos, a Escola Espiritual fala sobre isso, ainda que
com o mínimo de ênfase possível. Nesse processo, seremos todos como que reeduca-
dos com base em novas premissas, de verdadeiros novos pontos de partida. Assim, a
nova iniciativa cósmica da qual falamos irá nos colocar diante da perspectiva de uma
progressão diferente e harmoniosa. Cada um de nós poderá iniciar a via do grande
plano divino para a humanidade e o mundo, porque nosso coração nos anima, nossa
inteligência nos faz compreender, e nossos atos darão testemunho de tudo isso.

Iluminados pela imagem pura do verdadeiro homem


É assim que a verdade e a nova realidade se manifestarão. As máscaras e as aparências
já não predominarão, e o homem verá operar em si, harmoniosamente, mudanças
estruturais. Quando todos os indivíduos forem psiquicamente conduzidos para novos
caminhos, e a “pura imagem” os tiver esclarecido quanto ao ser humano real com
todas as suas possibilidades, o corpo racial perderá em densidade. Os efeitos da força
de gravidade serão modificados – os jovens já são sensíveis a isso, o que os torna ino-
vadores – e a sociedade mostrará, enfim, uma nova face.
Artigo redigido pela redação de Pentagra-
Unidos àqueles que sabem de tudo isso (e que são muitos!), colaboraremos em total ma. Veja também: J. van Rijckenborgh,
abnegação com a Fraternidade Universal. Afinal, quando tudo isso acontecer, a atitude Epílogo do livro As Núpcias Alquímicas,
que se espera de nós será a de um verdadeiro amor servidor. É por isso que quem volume II
puder compreender a natureza desse chamado irá se preparar e se dedicar ao grande
trabalho a serviço de uma humanidade em busca de seu verdadeiro modelo: a ima-
gem original do homem celeste. Essa tarefa requer grande número de colaboradores
que possuam o entendimento apropriado e necessário.

13
A BUSCA DE SI MESMO COMO JOVEM ALUNO DA ROSACRUZ ÁUREA EM UM PAÍS ESTRANGEIRO

Quem sou eu?


O que sou eu?
De onde venho?
O que é que me formou?
Os Pináculos, Parque Nacional de Nambung, nas proximidades de Cervantes, WA, Austrália

14 Quem sou eu? O que sou eu? De onde venho? O que é que me formou?
TEXTO E.L. WHITE

V
ocê está em um lugar desconhecido, cheio de pessoas dife-
rentes, e nunca esteve tão consciente de si como agora. As
pessoas sempre estão por ali, mas você não as conhece. Elas
olham para você com curiosidade. Você precisa fazer o pos-
sível para causar boa impressão. Fica refletindo sobre o que
você é, pensando nas experiências que viveu e no porquê de merecer apro-
vação. Você pode portar-se como se eles não fossem julgá-la, mas sabe que
eles o farão mesmo assim – você também faz isso. Quem são? Eles sabem
de onde você vem, o que aprendeu? Será que aprenderam a mesma coisa?
Você se endireita, dá um passo à frente e se apresenta.
Pelo sotaque, eles arriscam: Canadense? Irlandesa?... Ah! Holandesa! De
repente você é “a holandesa”. Na Holanda você jamais seria uma holande-
sa, pois na Holanda os holandeses não têm grande coisa em comum: têm
religiões diferentes, cor de pele diferente, tradições diferentes e sotaques
diferentes. Na verdade, alguém só é “um holandês” durante os jogos de
futebol, ou quando viaja ao exterior. E quando vai um pouco mais além
da França ou da Itália, mais além da Turquia e de alguns mares e fronteiras
mais distantes – de repente se torna “um europeu”. Ah, a Europa! Com
sua civilização, sua cultura, sua história e suas línguas. O lugar onde tudo
começou. É o que nós pensamos. Nós? Quem somos nós? Nós, “holande-
ses”? Nós, “europeus”? Nós, “de vinte anos”? Nós, “sagitarianos”? Nós,
“vegetarianos”? Todos esses nós e esses eles, são identidades inexistentes! Se
todo mundo pudesse compreender isso, a Terra seria um belo planeta –
ainda mais belo do que já é.
Apesar de tudo, você se sente diferente das pessoas que olham para você
com olhar interrogador, nesse lugar desconhecido. Eles nasceram nesse
lugar e têm uma opinião menos elevada do que a sua a respeito de onde
você vem. Nós, europeus, estamos convictos de termos introduzido a civi-
lização no mundo todo, e por isso, e talvez com razão, somos desprezados
em certos lugares. Esse desprezo, embora um tanto atenuado, agora atinge
você, depois de ter se apresentado de forma um tanto modesta.

15
Aqui, pode-se sentir a aspiração a esse tipo de
unidade, e a formação de uma identidade está
em pleno andamento, mas a tarefa não é fácil

Jovens participando do outdoor festival Camp Doog, WA, Austrália

16 Quem sou eu? O que sou eu? De onde venho? O que é que me formou?
Você se sente uma estrangeira! Não que da Austrália pelos ocidentais começou há
você tenha vergonha de sua origem. apenas duzentos anos. Todos os que estão
Pelo contrário! Mas você é a minoria, e nesta festa têm antepassados que, até por
se sente vulnerável. Olhando as pessoas, volta do século 16, tiveram a mesma His-
você percebe que seus pensamentos e atos tória que você.
nem sempre foram abertos e calorosos Aproveitando a chance de desviar a atenção
como quando você estava em sua casa, de sua pessoa, você pergunta sobre a
confiante. Bem, mas isso foi há muito origem de seu interlocutor. “I’m 100%
tempo; você não pôde e nem pode fazer Aussie, mate!” (Sou 100% australiano,
mais nada. Além do mais, as pessoas que parceiro!). E aí está a resposta. Você lança
estão nessa sala não são todas originárias um olhar ansioso para ele – será que ele
da Europa? Sim! É verdade! A conquista não vê que sou mulher e não um “parcei-
ro”? Sem tempo para corrigi-lo, você faz
a mesma pergunta a um outro. A resposta
é a mesma. Então você pergunta se seus
antepassados eram aborígenes. “Não”: a
resposta é igual. Eles também preferem
se calar sobre suas origens europeias. Por
quê? Será porque os primeiros coloni-
zadores eram detentos? Não. É porque a
identidade europeia não tem mais vez na
Austrália. Aqui as pessoas trabalham duro
para construir uma identidade própria.
Enquanto na Europa estamos descons-
truindo o sentimento de nacionalidade,
fazendo desaparecer fronteiras, na Austrá-
lia as pessoas tentam criar uma identidade
australiana. Isso é bem difícil, pois “o
australiano” não existe mais, assim como
“o europeu”. No entanto, quando as na-
ções europeias adotavam o nacionalismo
como ideologia política, era possível ape-
lar para uma cultura secular de tradições e
costumes, e escolher precisamente aquilo
que fosse capaz de convencer o povo de
sua unidade e fazer coincidir as fronteiras
culturais e políticas de uma nação. Aqui,
na Austrália, percebe-se que as pessoas
desejam esse tipo de unidade. A criação
dessa identidade está em pleno andamen-
to, mas a tarefa não é fácil! Os australia-
nos já não querem ser “os rejeitados”,
“os condenados da Europa”. Ficaram sem
saber em qual cultura se basear. E tiveram
apenas dois séculos para criar suas tradi-
ções comuns.

17
Eles querem separar-se da História euro- des do Século das Luzes, nos filósofos
peia e deixam claro que fazem parte da atemporais ou nos gênios do Oriente.
angloesfera, como todos os países anglófo- Por isso, as pessoas preferem se voltar
nos, como os Estados Unidos e a Nova para outra direção: a simplicidade e a
Zelândia. Mas será que isso é suficiente facilidade são colocadas acima da com-
para se criar uma identidade? Sim, com plexidade humana. Aqui, nada é com-
certeza The australian dream (O sonho aus- plicado, tudo é “too easy, mate” (muito
traliano) substitui o sonho americano. simples, parceiro!)
A Austrália é “o país das possibilidades
ilimitadas”; “o país das minas”, “do Os australianos são colocados nas nuvens
mineral de ferro” e “dos milionários por sua tolerância multicultural, mas so-
que conquistaram o que têm por esforço mente por eles mesmos. Todos são bem-
próprio”. Nada de sangue azul, de aristo- -vindos e tratados com amor, contanto
cracia. Os ricos são corretores, donos de que o formulário solicitando o visto no
minas e cassinos. passaporte seja corretamente preenchido.
Aqui não é possível inspirar-se nos gran- Se para embarcar num avião sua bagagem

Árvore solitária nas dunas de areia de Noverosa, em Doornspijk, Holanda

18 Quem sou eu? O que sou eu? De onde venho? O que é que me formou?
Quando você se lembra de Noverosa,
começa a escutar a si mesmo

de mão deve caber num pequeno com- e olha para outro lado: tudo porque não
partimento metálico, para entrar nessa quer mais explicar ao motorista de táxi
ilha gigantesca pouco povoada, você que os homens com cor de pele diferente
precisa ter vindo de um país ocidental, ter não são inferiores.
boa saúde e menos de trinta anos,. É uma Você quer ser apoiada e procura alguém
“cultura coca-cola com nível de tolerân- parecido com você, mas logo pensa: eles
cia limitado”. A mentalidade é a seguinte: são diferentes!
“Não sou racista. Mas os aborígenes em Você nunca teve de passar pelo desafio do
sua maioria são criminosos”. É isso: se “não julgar” enquanto tentava ver a Luz
afirmar de antemão que você não é ra- nas pessoas ao seu redor (a força da civili-
cista, então pode dizer o que quiser. Isso zação sob a forma de amor!). Então, você
nos faz pensar nas palavras de Voltaire: “É entra em pânico, pois não consegue ver
proibido matar, por isso todos os assassi- essa Luz e, desesperada, fecha os olhos.
nos são punidos, a menos que matem em
grande número e ao som de trombetas.” Então você se lembra de Noverosa e volta
Essas trombetas soam todos os anos no seu olhar para dentro.
continente para lembrar o dia em que os Você ouve os hinos do Templo e sente o
primeiros ingleses desembarcaram. Mas, cascalho do caminho para o Templo sob
por conveniência, as pessoas se esquecem os pés (“Não corra!”), enquanto o perfu-
de que esse dia também marca o início me das flores do Jardim das Rosas penetra
do período de exploração e de genocídio suas narinas. De repente, você finalmente
dos aborígenes, já que agora todos vivem percebe que a simplicidade não é tão
juntos, em paz, embora alguns vivam em tediosa: é só pensar na descrição da força
mansões e outros, em becos bem ao lado. universal, que é uma centelha e vem do
Mas, tudo bem: todos tiveram as mesmas grande fogo que existe em cada coração
oportunidades. Então, que assim seja. humano. O pânico vai embora quando
você percebe que todos têm a mesma
A atmosfera da sala mudou. Quando origem, e que eles certamente sabem
você pensava em ganhar a aprovação com disso e o sentem secretamente. A busca da
suas ideias sobre a igualdade das raças, a unidade – de uma História em comum –
igualdade dos sexos ou sobre o casamen- é a busca de todos.
to homossexual, logo se vê num debate Você sente isso novamente. Você sabe de
acalorado para defender a si mesma e às novo quem realmente é, e qual é sua ver-
suas ideias. dadeira identidade. Você sabe novamente
De repente você percebe que já não de- de onde veio. Aí está uma nova chance, e
fende suas ideias. A tristeza se apodera de você nem sabia que precisava dela. E, de
você. Ou é medo: medo de se esquecer de repente, do outro lado do mundo, você
onde você veio. Ou vergonha – porque, se sente conectada e finalmente está em
às vezes, você se cansa, balança a cabeça casa, onde quer que esteja.

19
Semana de Trabalho dos Jovens Rosa-Cruzes,

A cada verão, centenas Ir para lá de onde? O que ele significa? de estar lá, que vem com uma
de jovens rosa-cruzes de Quantas chances de viajar no Que razões preciso ter para ir sabedoria interior – e, assim,
18 a 30 anos trabalham verão! Tantas ideias passam para lá?” Esse chamado não inconscientemente, a decisão
durante uma semana em pela sua cabeça na hora de foi feito para ser traduzido em de ir para lá já foi tomada.
um centro de conferên- decidir! É sempre uma resistên- palavras. “Ele não depende do Os jovens de hoje têm os pés
cias. Em 2015, esse grupo cia, mas também um cha- espaço-tempo”, diz um jovem. no chão e fazem escolhas
internacional estava em mado. Essa escolha vem da “Viajei 14 horas para chegar. conscientes, mas também
Renova, na Holanda, para cabeça ou do coração? Parece Para mim isso não importa. Eu sabem reconhecer quando
“juntos construírem algo, evidente: jovens precisam ir à tinha de vir. Se eu tivesse que precisam escutar a voz interior
trabalhando em conjunto Semana de Trabalho. Alguns viajar 24 ou 34 horas, eu teria que diz para irem à conferên-
para uma renovação”. nunca faltaram. Mas isso não vindo do mesmo jeito.” cia sem ficar analisando
significa que não há escolha. Mas às vezes há uma hesita- essa voz.
Só quer dizer que a escolha ção, uma vozinha que sopra
não é difícil. Como disse um para você, dizendo que você
jovem: “Tinha outra opção, não está querendo ir, ou que
mas não era uma escolha. Eu você poderia ter a chance de ir
tinha de ir”. É um chamado outro dia. Nesse caso, não se
que ressoa pelo mundo afora trata de uma evidência, mas
e é dirigido a nós! Um impulso sim de uma escolha conscien-
interior, nos diz que precisamos te. Quando a gente pensa na
ir. E nós vamos! Não temos de Escola e começa a se lembrar
dissecar esse sentimento com das Semanas de Trabalho
a cabeça: “Esse chamado vem anteriores, nasce uma vontade

20 conteúdo
Reportagem
reportagem
9 a 16 de agosto de 2015, Renova, Holanda

Estar lá Mesmo quando alguém se incrível que nos ajuda a romper essa é a finalidade da Semana
O que faz uma Semana de Tra- sente sozinho e não fala com com o que é velho e construir de Trabalho!
balho dos Jovens Rosa-Cruzes os outros, já faz parte do gru- o que é novo.
ser tão especial? Qual é seu po – do jeito que ele é. Há grandes chances de você
significado? Os jovens trabalham juntos, Ir embora ter encontrado respostas
“Aqui, durante essa Semana tanto no sentido físico como Chega o final da conferência e para seus questionamentos,
de Trabalho, com todas essas no sentido mental e espi- achamos que o tempo passou uma nova força e energia,
pessoas, posso compartilhar ritual. Juntos, constroem, depressa demais! É hora de a grande motivação de se
minhas ideias e pensamentos”, demolem, mudam coisas de deixar para trás todos os ami- transformar, a alegria, a Luz...
diz um jovem. “Na minha lugar. É uma oportunidade gos e a Semana de Trabalho, e muito mais!
vida diária não consigo fazer muito especial de romper mas não é uma despedida Quando você leva a atmosfera
isso. Nesta vida, sou dife- com os modelos e hábitos de verdade: cada um leva da Semana de Trabalho com
rente e meus pensamentos que nos impedem de alcançar suas lembranças e carrega você e percebe que seu cora-
são especiais. O fato de ser a meta à qual aspiramos. seus amigos em seu coração ção está um pouco mais leve,
diferente cria certa solidão. Os E como é possível se libertar – onde quer que vá – e sabe vê que pode levar sua vida de
que diziam ser meus amigos dessas amarras? Será que que no próximo ano vai vê-los um jeito melhor.
se afastaram. Aqui, todos são elas só estão dentro de nossa novamente. Trabalhamos em uma cons-
como eu. Dividimos nossas cabeça e, para nos livrarmos Não: com certeza não partimos trução que é muito maior que
convicções e ideias. Aqui não delas, basta somente apertar de mãos vazias! Levamos Renova! E trabalhamos no
sou um estrangeiro, um estra- um botão? para casa o resultado de uma mundo inteiro, pedra sobre
nho. Aqui, me sinto em casa!” Não importa a resposta. O fato semana de trabalho espiri- pedra, dia após dia, até que
O grupo é unido porque os é que não se pode negar que tual. Esse resultado é pessoal, a meta seja alcançada.
jovens têm algo em comum. uma conferência é uma força mas também coletivo, pois

Fotos de: Cedric Veldhuis, Rumon Bruins

21
22 conteúdo
Pensamentos de Hermes
Em tempos muito remotos, Hermes foi
chamado “O Príncipe da Luz”. Dizem os
esoteristas que ele realizou sua obra no
Egito em 10350 a.C.. Do ponto de vista
astrológico, sua chegada assinala a era de
Leão, período que vai mais ou menos do
ano 10000 a 8000 a.C.. Foi um período
chamado “Era de Ouro” porque, diz a tradi-
ção, o homem “caminhava com os deuses”.

Sol poente em Essoura, Marrocos ©Frank Fabrice, 2011

23
D
e acordo com os estudiosos, po, “o acompanhante das almas”, nome
a esfinge – que, na época, adotado diretamente da sabedoria egípcia.
fora esculpida em pedra – Assim que o homem adormece ou morre,
tinha a forma de um leão. Hermes o acompanha com seus dois
Também existem arqueólo- companheiros Hypnos (que é o sono) e
gos modernos – os quais apontam para Thanatos (a morte) para as regiões onde
uma época muito mais antiga do que até ele pode continuar seu desenvolvimento
agora se presumia – para os quais ela teria da melhor forma, pois não existe pausa.
sido inequivocamente adornada com Tudo segue processos cósmicos. Hermes
uma cabeça de leão. A própria efígie está leva tudo o que é divino para o Elísio. Por-
orientada exatamente para o leste, direção tanto, ali, na esfera do Sol, esfera de Febo
na qual o Sol se ergue no horizonte. Toda- Apolo, encontramos aquele que, na Terra,
via, digno de nota é que, naquele tempo, contribuiu de algum modo para a luz.
essa direção coincidia com o lugar onde à Hermes é a ligação. Sua morada é “o
noite surgia no céu a constelação de Leão. paradeiro dos bem-aventurados, na clara
Através dos séculos, atribuiu-se ao Luz do Sol”, canta Homero. “É o palácio
Príncipe da Luz certo número de fun- de Cronos, a ilha do tempo eterno, onde
ções e significados, todos relacionados moram os primordiais e libertos Filhos
com “transmitir ensinamentos”. Para os de Deus e todos os heróis cujos nomes
egípcios da época dos faraós ele é Thoth, são imortais. As ilhas ficam bem longe
o deus Íbis. Thoth era o neter (energia, de deuses e homens. Lá, sempre sopra
força) que acompanhava o morto até o uma corrente de ar fresco, as árvores são
trono de Osíris. Diante desse trono, a vida adornadas com maravilhosas flores dou-
desse homem era investigada e sua alma radas que põem um véu enfeitado sobre
era colocada diante da famosa balança. aqueles que ali ouvem palavras sobre a
Ali, seu coração era contrabalançado com Verdade, o Bem e a Justiça”, diz o poeta
o peso de uma pena – a pena de Maat, di- grego Píndaro.
vindade que simboliza a ordem cósmica, Em séculos posteriores, foram os hermé-
o verdadeiro equilíbrio. Ora, certamente ticos que mantiveram intacta a tradicional
o coração não podia ser muito pesado, fórmula hermética da Tabula Smaragdina.
pois era sinal de que sua alma estava Desde os mestres até os discípulos, todos
muito afundada na matéria, mas também visavam realizar em si o sentido gnóstico
não podia ser muito leve, pois isso queria do axioma “Assim como é em cima, é
dizer que a pessoa não havia cumprido embaixo”. Os gnósticos das cidades de
suficientemente sua missão durante a Alexandria e de Sais adaptaram os nu-
viagem terrena! merosos livros de Hermes para o pensa-
Porém, quando a balança apresentava um mento e a linguagem grega e, assim, eles
equilíbrio perfeito, a pessoa podia par- chegaram até nós ainda que de modo
ticipar do combate na falange de Hórus fragmentado. Esses livros também foram
para lavrar e manter os campos celestes de conservados como fragmentos pelos poe-
Jalu. Assim, mais tarde, à medida que era tas eruditos e alquimistas da Arabia Felix
preenchida com mais Luz, ela podia tomar (atual Iêmen). Também devemos muito
assento na barca de Ísis para prosseguir via- aos discípulos da Idade Média, período a
gem até o campo de consciência de Osíris. que chamamos de Idade das Trevas. Ainda
Os gregos davam outros nomes a Hermes assim, foi uma época em que, em muitos
Trismegisto, como o de Hermes Psicopom- lugares, pequenos e grandes, a Luz espiri-

24 conteúdo
Pensamentos de Hermes
tual elevou-se para a esfera do Espírito da dos séculos, de sua sublime passagem. pelo regaço da mãe, assim
Vida em busca do elemento espiritual, do Ao longo da órbita solar, caminhando na- também a alma é formada
ouro espiritual no homem, que parecia quela esfera que o espírito humano ainda no corpo”. E diz Hermes: “O
haver se perdido. consegue captar, lá estava Hermes, o men- corpo vem do regaço da mãe,
Na Renascença, Hermes despertou sageiro dos deuses, com sua Sabedoria: da escuridão para a luz, mas
novamente quando, depois da queda de Mal podendo acreditar, inteiramente vivificado mer- a alma vem no corpo, da luz
Constantinopla, em 1453, Ficino e sua gulhado no sublime, ele observa os deuses que mudam para a escuridão”.
Academia Platônica redescobriram o texto de aparência para elevarem os homens a seu reino. “O Espírito encontra-se na
hermético grego do Corpus Hermeticum. alma e a natureza no corpo. O
Acreditava-se que os escritos eram mais E lá, vagamente atrás do horizonte, onde Espírito é o criador da alma e a
antigos que Platão e Pitágoras (o que, em os deuses ainda se permitem deixar seus alma é a criadora do corpo”.
princípio, confere, pois eles remontam sublimes rastros, a sabedoria hermética E assim ele prossegue: “Agora
à sabedoria primordial) e, assim, Her- ainda pode ser alcançada. Ela é acessível a todo o sentido da vida está
mes alcançou seu status. Nessa época, ele todos os que, com sinceridade e simpli- em que a alma – que, no cor-
era enaltecido ao lado de Moisés e Jesus. cidade, orientam seu caminho na vida de po, está como que nas trevas
Os séculos 14 e 15 foram o período de acordo com ela, visando desenvolver a – lembre-se novamente do
Hermes! Ele teve um retorno glorioso, justa compreensão. Espírito ou da Luz à qual ela
mas perdeu esse status nos séculos 17 Agora Hermes é o pensador que mexe pertence.”
e 18, quando o pensamento racional e e remexe com todas as áreas! Seu pen- E continua: “A alma pene-
iluminista obteve a primazia. Foi só com samento trata da conexão entre Deus, tra no corpo sob pressão; o
o pensamento esotérico dos rosa-cruzes, cosmo e homem e entre corpo, alma e Espírito penetra na alma por
dos alquimistas tardios, dos livre-maçons, Espírito. Não que Hermes tenha dito que decisão”. Quando a alma está
que ele continuou sendo valorizado, já eles sejam o mesmo. Absolutamente! Eles fora do corpo, ela não tem
que todos os procedimentos dessas esco- são claramente diferentes entre si. qualidade nem quantidade;
las tinham raízes em Hermes. E agora, em Ele diz, por exemplo: “Nosso corpo é no corpo, ela recebe, ao mes-
nossa época, seu pensamento está de volta uma ferramenta. Chega a ser um atributo mo tempo, tanto o bem como
até na Ciência, com a Teoria Quântica e da alma”. o mal, uma vez que a maté-
os universos da energia e matéria escura. A esse respeito é preciso refletir um pou- ria faz isso (ele quer dizer: a
Mesmo quando temos a impressão de co. O que Hermes quer dizer com isso? existência na Terra faz isso).
que Hermes esteve adormecido por longo Ele acrescenta: “Do mesmo modo como o A qualidade capacita a alma a
tempo, seus discípulos sabiam, através corpo é formado de maneira prodigiosa tomar essa decisão.

25
Mas, primeiro, vamos abordar a questão
da pressão. O que ele pretende dizer com
isso? Podemos entender quando Hermes Sete astros com órbitas diversas
esclarece no capítulo seguinte: “Sete as-
tros gravitam em longas rotas no átrio do gravitam em torno do átrio do
Olimpo e, com eles, o tempo infinito gira
eternamente. Esses sete são os seguintes: a Olimpo
Lua, que brilha à noite; o tenebroso Cro-

26 conteúdo
nos (Saturno), o encantador Sol; a deusa o Sol e Mercúrio estão em nós. E assim é o conhecimento do que é infinito.
de Paphos (Afrodite ou Vênus), que traz o nosso destino: recebermos do Espírito da Assim como você se comporta
leito nupcial; o valente Marte; Mercúrio Vida lágrimas, riso, ira, geração ou procriação, diante da alma quando ela está
ou Hermes, com suas asas velozes; e Zeus, inteligência, sono e desejo. As lágrimas são de no corpo, assim também ela
o mais velho e a fonte primordial de Cronos ou Saturno; a geração é Júpiter; a se comportará diante de você
onde se originou a natureza. fala é Mercúrio; a fúria é Marte; o sono quando ela tiver deixado o
A eles é atribuído o gênero humano e, as- é a Lua; o desejo é a deusa de Kythera, corpo!”
sim, a Lua, Júpiter, Marte, Vênus, Saturno, Afrodite ou Vênus; e o riso é do Sol, pois, No decorrer dos séculos,
graças a ele, sorri todo mortal sensato e o muitos pensadores chegaram
cosmo infinito com boa consciência”. à conclusão de que o que
Isso era considerado um ensinamento resta para o ser humano é sua
universal. Os planetas nos fornecem as capacidade de tomar a decisão
características humanas gerais e, nesse correta graças a seu anseio de
sentido, todo homem é um microcosmo. ser bom, de praticar o bem
Nessa época, o ser humano via a si e, cheio de alegria, crescer na
mesmo muito menos como um indiví- beleza, na verdade e no bem.
duo do que nos dias de hoje. Os deuses E isso ele aprendeu na Terra,
concediam aos homens atributos pelos graças a seu corpo, graças às
quais, certamente, eram guiados e viviam. dádivas dos deuses em sua
Era assim que acumulavam experiências. alma e graças ao Espírito eter-
De acordo com os herméticos, todos no, imortal, que, no âmago de
esses planetas exerciam influências sobre seu ser e no silêncio, pensa,
a vida. Diziam que o mundo, o cosmo, é pondera, percebe e entrega-se
o corpo de Deus. E o homem é uma ima- permanentemente e é uma
gem em miniatura desse corpo cósmico: eterna alegria. Assim nos ensi-
um microcosmo! “A alma foi obrigada a na Hermes.
entrar no corpo”, diziam os herméticos.
E, com isso, ela passa por experiências
e aprende a ser boa e a ansiar pelo Bem
Absoluto, pela perfeição.
Esse é o objetivo do nascimento neste
mundo, que vale para todos os seres hu-
manos. Nas palavras do próprio Hermes:
“Assim como o corpo deixa o regaço
materno quando está maduro, também
a alma deixa o corpo quando alcança a
perfeição. Ora, assim como o corpo em
estado não amadurecido não está pronto
para deixar o regaço materno, também
a alma não consegue continuar vivendo
quando deixa o corpo em estado de im-
perfeição. A perfeição da alma significa ter

Sol poente a 348 km sobre o Oceano Pacífico.


Foto da (Estação Espacial Internacional) 2003

27
Um bom começo

28 conteúdo
A
vida é cheia de possibilidades para um
bom começo, a todo dia, a toda hora,
para todo ser humano. Normalmente
o começo é rotineiro, até insignifi-
cante. Mas, na verdade, todo começo é
um dos acontecimentos mais importantes de nossa
vida!
No mundo material, vemos que tudo começa pe-
queno. Por maior que seja um rio, ele começa como
um pequeno riacho que até um gafanhoto pode
cruzar sem esforço. A maior inundação começa com
gotas isoladas de chuva. O carvalho, árvore forte
que suportou milhares de tempestades de inverno,
já foi um dia uma pequena semente. E levemos em
conta que, também no mundo espiritual, as maiores
coisas surgem do menor começo. Uma inspiração
pode significar o nascimento de uma descoberta
magnífica ou de uma obra de arte imortal.
Um pensamento puro, firme, pode resultar no
emprego de uma força regenerativa universal! Existe
um bom começo e um começo equivocado. Ambos
têm seus próprios efeitos. Com pensamentos cuida-
dosos, podemos evitar enganos e realizar um bom
começo. Assim, podemos driblar os maus resultados
e apreciar os bons.
Pensamentos puros, altruístas, amorosos e amigáveis
são um bom começo e levam a resultados maravi-
lhosos. Isso é muito simples, óbvio e absolutamente
verdadeiro, porém é inteiramente ignorado, des-
considerado e tão mal compreendido!
Ora, nossa vida toda é uma série de consequências
cujas causas estão em nossos próprios pensamen-
tos! Todo o nosso comportamento é determinado e
moldado por nossos pensamentos. Com efeito, todas
as ações, tanto as boas como as más, são pensamen-
tos que se tornaram visíveis!

29
Saiba o que você tem
30 conteúdo
Saiba o que você tem de fazer
m de fazer
Arte de rua, Bansky, sem data, Londres

31
“P
elo amor de Deus! Faça (1951- )*, que mostra como intenções bem está sempre acompanha-
alguma coisa!”, grita- conscientemente invocadas (como pedi- do do mal. Embora seja verda-
va mamãe. “Saia desse dos ou súplicas), individualmente ou em de que o Bem Único merece
sofá!” Impossível ficar grupo, podem influenciar os fatos. A partir ser buscado, devemos estar
sem fazer nada. Para ela, de experiências realizadas cientificamente, conscientes de que ele não
“a mente ociosa é uma oficina do diabo”. ela demonstra que a consciência governa a faz parte do mundo material.
Na Europa, a grande “palavra de ordem” matéria – mesmo que a ciência tradicional O homem que compreendeu
ainda é, sempre, “trabalhar”. A ética do não queira reconhecer isso. Nossa influên- a importância essencial da
trabalho deveria evoluir no sentido de uma cia sobre tudo o que nos rodeia, baseada serviçabilidade deve praticá-la,
ética de distribuição de tarefas. Assim, o em tudo que imaginamos, é essencial. mesmo que isso sempre seja
tempo livre também seria distribuído de A Escola Espiritual da Rosacruz Áurea um equívoco, mesmo que isso
forma mais justa. Mas e depois? O que fa- considera que, acima de tudo, o serviço pareça sem sentido. E isso, até
zer com esse tempo? Entre alimentar nosso ao próximo está ligado a um trabalho que ele consiga entender que
“grande ego” de consumidor e “servir interior e requer, em primeiro lugar, certa o Universo – como se cos-
ao próximo”, existem muitas gradações calma e equilíbrio. J. van Rijckenborgh tuma dizer hoje em dia – o
possíveis. A noção de “grande ego” vem aconselha que os alunos permaneçam em Plano Divino, de acordo com
do humanista holandês Harry Kunneman perfeita tranquilidade: “Dentro e fora do o conceito rosa-cruz – encon-
(1948- ), que lhe atribui três caracterís- templo, estareis em perfeita quietude de tra um jeito de mostrar ao ser
ticas: torna-se cada vez maior (o consu- alma, entrareis num profundo silêncio, em humano seu real significado e
midor desenfreado); fica inflado (sente-se profunda serenidade. Esse estado de ser a real intenção da vida. Quais
importante); e é muito resistente. É inútil brevemente será de absoluta necessidade são nossos valores? Hoje em
condenar moralmente esse “grande ego”, para vós, para que não vos deixeis absor- dia, no mundo todo, somos
pois ele cai em todos nós como uma luva. ver pelas violentas emoções da natureza arrancados de nossa zona de
E isso també para a economia, a política e da morte. Somente com a paz da alma conforto. As atrocidades estão
a ecologia. Para Kunneman, a humanidade podereis continuar a navegar o mar da vida caindo sobre nossas cabeças e
se comporta como um “grande ego”. Ain- e retornar à casa do Pai.”* as vítimas delas estão batendo
da assim, muitas pessoas optam pela alter- Isso nos faz compreender a frase de Lao à nossa porta. Assim, vamos
nativa de estar a serviço do próximo. Mas Tsé no livro A Gnosis Chinesa¹: “Por isso fazer o que nossas mãos
a questão é como dar um sentido a esse o sábio adota o não fazer; ele exerce o encontrarem para ser feito,
serviço. As necessidades são imensas, tanto ensinamento sem palavras”. Pelo não fazer, mesmo que isso também nos
no plano material quanto no espiritual. tudo se realiza. Somente a auto-entrega ao seja arrancado: se alguém que
Por onde começar? Uma regra simples: silêncio pode dar ao ato concreto a devida possui as riquezas desse mun-
fazer o que as mãos acharem para fazer. intenção. A Voz do Silêncio diz: “Tanto a ação do, vendo seu irmão ou irmã
Quando estamos abertos, o que temos de como a inação podem caber em ti”. Mas em necessidade, lhe fechar o
fazer aparece naturalmente! Você recebeu logo após ela acrescenta este aviso: “Se- coração, onde estará, então,
um talento. Talvez dez. Talvez mil. Utilize- meia boas ações e colherás o seu fruto. A seu amor a Deus? A Voz do Silên-
-os! O filósofo alemão Wilhelm Schmid inação num ato de misericórdia passa a ser cio diz: “Se porventura quiseres
(1953- ) dá a seguinte definição: “Trabalho a ação num pecado mortal”. De qualquer colher a doce paz e a quietude,
é tudo o que eu faço em relação a mim e à forma, devemos agir, pois estaríamos sen- então, discípulo, semeia as
minha vida para poder levar uma vida que do altamente falhos se permanecêssemos sementes do mérito no campo
seja linda e valiosa”. Essa definição ignora passivos nas ocasiões em que a caridade da colheita esperada. Aceita
conceitos como “sálario” e “voluntaria- é uma necessidade. Façamos o que nossas as dores de teres nascido”. Se
do”, e fala sobre a intenção que motiva mãos acharem para fazer! O que fazemos aceitarmos a vida tal como ela
todo e qualquer trabalho e sobre os valores não é o mais importante, visto que, na se apresenta a nós, a partir da
que prevalecem. Outra perspectiva interes- vida material, estamos sujeitos à lei dos assimilação desse repouso da
sante é a da americana Lynne McTaggart opostos, pela qual consequentemente o alma, então a alma receberá

32 Saiba o que você tem de fazer


Arte de rua, Bansky,
sem data, Londres
a inspiração para agir espontaneamen- sa, sempre presente, que nos acompanha
te, a partir de seu próprio interior, em com base na nova compreensão adquirida
um “não-fazer que tudo realiza”. Nos- com a autorrendição. É essa compreensão
so estado de ser irradia através de tudo; que lhe dará o entendimento daquilo que
vamos acompanhar nosso próximo sendo você tem de fazer...
simplesmente humanos! Ninguém ficará
de lado, pois, como diz A Voz do Silêncio²: ¹Rijckenborgh, J. van e Petri, Catharose de, A
“Não creias que sentando-te em florestas Gnosis Chinesa, capítulo 15 (II), p. 163. Editora
escuras, em orgulhosa reclusão, longe dos Rosacruz, 2006, Jarinu - SP
homens [...] isto te levará à meta da liber- ²Blavatsky, H. P., A Voz do Silêncio, tradução de
tação final”. Fernando Pessoa, Fragmento II p. 149-154.
Em meio a todas as aflições e sofrimentos Editora Teosófica, 2011, São Paulo - SP
que despertam em nós intensa compaixão * Lynne McTaggart, O experimento da intenção,
pela humanidade, há uma alegria silencio- Editora Rocco, 2010.

33
ensaio

Alunos do Trinity College, de Cambridge, escutam uma palestra sobre a contribuição da Arqueologia para a
compreensão das mudanças climáticas: 2013, Inglaterra

34 Platão e sua teoria das Ideias


TEXTO W.K.C. GUTHRIE

Platão e sua teoria das Ideias

Neste ensaio destacam-se os tratados universais da


libertação da alma. Os diferentes Diálogos aos quais
W.K.C. Guthrie se refere tratam do planejamento ideal
da Cidade-Estado.
No entanto, e sem nenhuma dúvida, eles podem ser
igualmente considerados uma pura imagem gnóstica
primordial, a mesma em que se basearam os fundadores
da Rosacruz Áurea para conceber a Escola Espiritual.

Ao longo das oito décadas em que viveu, e particularmente


durante seus anos de grande maturidade, Platão se sentiu
cada vez mais atraído pelo mundo do ser-em-si, da consciên-
cia do ser, atraído pelo mundo que se situa além e fora do
campo limitado da percepção sensorial e mesmo além dos
fluxos de pensamentos, ou seja, do espírito móvel; cativado
pelo mundo do imutável e do permanente, que não morre
nem nasce.
É provável que ele não tenha abordado esse tema senão
com os vinte e oito alunos que formavam o grupo central
de sua Escola e que ele recebia em sua morada. Aos outros
estudantes de sua Academia, ele devia expor um sistema
de conhecimentos mais gerais.

35
P
ara melhor compreender o foram desastrosas, particularmente em so e a manifestação de amor
ensinamento de Platão, é pre- Atenas, onde a organização da Cida- à pátria constituíam uma
ciso começar por considerar de-Estado independente era a mais única e mesma prática. Nes-
sua obra o resultado de suas desenvolvida. sa Cidade-Estado, a deusa
duas motivações principais. A Essas rivalidades causaram as consecu- Atenas, protetora da cidade,
primeira delas era a intenção de reto- tivas derrotas de Atenas, mas também, desfrutava da supremacia. A
mar o fio da obra de Sócrates, exata- e sobretudo no plano moral, o sofri- Acrópole – que ainda hoje
mente no ponto em que foi interrom- mento da população diante do cresci- domina a cidade de Atenas,
pida, a fim de perpetuar o ensinamento mento da força de diversos tiranos. Isso coroada por seu grande
de seu mestre e de defendê-lo contra foi acompanhado da aparição de novas templo – era consagrada
inevitáveis questionamentos e ataques. luzes sob a forma de novas ideias filo- exclusivamente a Atenas.
Mas Platão não se deixava apenas guiar sóficas, que contribuíram para minar No dia de sua festa, aconte-
por motivações de natureza pessoal ou ainda mais o sustentáculo das antigas cia a cerimonia mais impor-
pelo respeito a seu mestre. Uma segun- tradições, ou seja, dos usos e costumes. tante do calendário anual.
da motivação o animava também. Era Ora, a gestão e a sobrevida da peque- Essa estreita relação do
o desejo de desenvolver e defender o na unidade da Cidade-Estado que era Estado e do culto se encon-
conceito inacabado da Cidade-Estado Atenas repousava em grande parte em trava também na legislação
como unidade política e socioeconômi- um funcionamento ligado a suas velhas ateniense. As consecutivas
ca independente. tradições. sansões às infrações às leis
Platão pensava poder alcançar seu ob- baseavam sua autoridade na
jetivo retomando o desafio lançado por Impossível imaginar qualquer vida tradicional crença da ori-
Sócrates aos sofistas e aprofundando religiosa pessoal gem divina da legislação,
ainda mais o conceito de Cidade-Es- Para uma compreensão mais ampla pois as leis haviam sido
tado. Mas o destino da Cidade-Estado do assunto, devemos nos dar conta comunicadas aos primei-
livre seria selado pelas conquistas de de quanto, nessa época, o Estado e a ros legisladores do mesmo
Filipe da Macedônia e de seu filho, religião estavam interligados. Não se modo como as Tábuas da Lei
Alexandre o Grande, que tiveram como tratava de substituir a Igreja pelo Esta- o foram a Moisés. Aos olhos
consequência a submersão da pequena do, pois existia somente um conceito dos atenienses, as primei-
unidade da Cidade-Estado nas ondas de unindo essas duas ideias: apenas um ras leis provieram do deus
reinos macedônios que se desenvolviam conjunto de regras e de modos de agir. Apolo, que tinha a função
com base em um modelo semi-oriental. A ideia de Igreja não existia e não se de profeta ou mensageiro
O aumento dos grandes impérios pôs concebia mesmo tal instituição inde- de Zeus, o Pai dos Deuses. A
fim, de maneira radical, ao processo de pendentemente do Estado. grande maioria dos indiví-
declínio que se manifestou após certo Os deuses eram venerados nas ceri- duos nem mesmo imaginava
tempo na Grécia de então. monias organizadas pelo Estado, e a possibilidade de uma vida
Parte das causas desse declínio cer- participar delas fazia parte dos deveres religiosa pessoal. O esforço
tamente foram de ordem política – a comuns do cidadão. Atenas contava com de Atenas por se manter era
começar pelas rivalidades entre cida- grande variedade de templos consagra- tão grande, que uma alter-
des gregas, nas quais as consequências dos a diferentes deuses. O culto religio- nativa proposta por outra

36 Platão e sua teoria das Ideias


corrente de pensamento tinha poucas constituição a ela ligadas naufragassem
chances de êxito. Além do mais, essa irremediavelmente no niilismo ateu
alternativa seria imediatamente vista existente. Os fundamentos tradicionais
como se levasse à criação de uma força da sociedade estavam triplamente amea-
subversiva capaz de atentar contra a çados: pela observação e análise dos
ordem estabelecida; e ousar questioná- fenômenos da natureza, pelo sofismo
-la supunha a vontade de modificar os ateu e pelo pensamento místico. No
fundamentos da sociedade. Mas nenhu- que diz respeito ao terceiro ângulo de
ma defesa de natureza sociopolítica da ataque, é suficiente prestarmos atenção
ordem estabelecida poderia proteger a certo número de livres pensadores,
permanentemente esses fundamentos dentre os quais os mais influentes eram
contra tais ataques. Portanto, era preciso os que se apoiavam nas obras atribuí-
que a elaboração do sistema de organi- das a Orfeu. Seu ensinamento atacava a
zação da Cidade-Estado fosse atribuída ordem estabelecida na medida em que
a um tipo de autoridade transcendente afirmava que a religião se relaciona à
e absoluta. Uma defesa razoável dessa alma de cada um e não a seus deveres
ordem estabelecida e de suas institui- para com o Estado ou a comunidade.
ções seria concebível apenas sobre essa Quanto aos que analisavam os fenôme-
base. Tal ponto de vista dificilmente nos da natureza, sua crítica consistia na
poderia se distanciar de um universo ideia de que os deuses, segundo eles,
fundamentado numa concepção absolu- não podiam de modo algum existir sob
ta do divino. a forma apresentada por Homero.
O terceiro ataque, o da escola sofista,
Antropomorfismo religioso, niilismo, residia na afirmação de que a legis-
ateísmo, contestação lação da cidade não podia ser de fato
Ainda era difícil referir-se a Homero e a uma inspiração divina, uma vez que os
seu panteão de divindades que, quatro deuses eram apenas invenções humanas,

Em Atenas,
séculos antes, haviam sido considera- portanto revogáveis.
dos capazes de tomar a forma humana.

as primeiras
Isso, sem evocar os ataques cínicos que Defesa do helenismo em prol da cidade
ocorreram a esse respeito da parte dos Essas três contestações eram correntes

leis provieram
filósofos ateus chamados sofistas, pois no tempo de Platão. Ora, este tinha
tal visão já estava ultrapassada no tempo espírito prático e havia renunciado à

do deus Apolo,
de Platão. A visão antropomorfa do sua carreira política com o objetivo
mundo divino já não podia se manter de poder se consagrar inteiramente à

que tinha
na sociedade da Atenas do século 4 a.C., elaboração de um sistema de governo.
quando ela alcançara o nível de desen- Duas possibilidades se apresentavam a

a função de
volvimento do pensamento abstrato. ele: ou seguir a tendência do momen-
Mas o fato de a visão antropomórfica to e reconhecer que a concepção da

profeta ou
do panteão ter sido considerada ul- Cidade e a estrutura de sua organização
trapassada não significava que nada pertenciam ao passado – neste caso,

mensageiro
pudesse substituí-la. Isso evidentemente ele poderia contribuir para a demolição
era mais que necessário para garantir da obra e, sobre suas ruínas, tentar

de Zeus
a sobrevivência dessa sociedade que reconstruir uma sociedade e uma
se transformava rapidamente. Além religião novas – ou utilizar todas as
disso, havia o risco de que a moral e a suas forças para manter a Cidade e

37
Naturalmente não era possível tornar públicos os projetos
criminosos de seus inimi-
referir-se a Homero e a seu panteão gos, tomando deles o que
tivesse valor para reforçar
de deuses antropomorfos o sistema tradicional enfra-
quecido. Mas, em qualquer
indisciplinados dos casos, não era necessário
que as abordagens políticas,
religiosas ou metafísicas se
contradissessem. Muito pelo
contrário. Nenhuma mudan-

38 Platão e sua teoria das Ideias


esse ideal: conceber uma reforma preservar evitando compor-
da sociedade tendo como ponto de tamentos individuais indese-
partida não a supressão da Cidade como jáveis e liberdades que, por
forma de organização, porém melho- fim, sempre poderiam fazer
rando-a e consolidando suas institui- surgir forças destruidoras.
ções e práticas. Somente se a Cidade pudes-
se conservar sua homoge-
Fornecer à comunidade inteira uma neidade – sua “harmonia”,
vida feliz assim exprime Platão – ela
Em A República, os membros da classe manteria seu funcionamen-
dirigente estão submetidos ao interesse to por mais tempo. Essa
geral, em um grau de obediência que harmonia baseia-se na ideia
pode parecer excessivo a nossos olhos. de que todos os cidadãos
Aos cidadãos mais eminentes e mais veriam como necessária a
dotados, eram retiradas posses e fa- adequação entre a função a
mília; a educação das crianças deveria desempenhar na Cidade e
ocorrer sob a vigilância da comunida- as capacidades exigidas para
de; direitos e deveres eram atribuídos assumi-la.
segundo um sistema quase incontestá-
vel de distinção de classes que poderia Tomar consciência do con-
chocar nosso mundo e nossa sociedade. ceito e da realidade
Em A República, Platão atribui a um de O fato de Sócrates ter sido
seus auditores a característica segundo o inspirador do platonismo
a qual, nesse novo modelo de socie- não é de admirar, pois ele
dade, os que são chamados a se tornar demonstrou claramente essa
dirigentes não parecem destinados a coerência durante sua deten-
uma vida particularmente agradável: ção. Enquanto seus amigos e
de fato, eles não poderão nem possuir adeptos premeditam liber-
nem alugar uma casa ou qualquer outro tá-lo, ele lhes responde:
bem; deverão viver em comunidade, “Mas dize-me, achas que
como num quartel militar e, conforme se deva ter atenções para
salienta Sócrates para tornar a carac- com todos ou não procurar
A gruta de Platão? Crystal Cave, Parque Nacional da
terística ainda mais cáustica e cínica, comprazer a ninguém, a
Sequoia, Califórnia, EUA “sem mesmo receber pagamento”. Ele ninguém obedecer, nem
se justifica assim: Nosso objetivo ao a um estratego nem a não
ça real no pensamento político poderia criar esta sociedade não é tornar certa importa que magistrado?”
ser obtida sem uma mudança paralela classe feliz ao privilegiá-la, mas propor- Nesse contexto, a pergunta
na concepção geralmente aceita sobre a cionar à comunidade inteira uma vida capital surge diretamente da
natureza e a realidade. Percebendo tudo feliz. A forma de organização proposta teoria do próprio Sócrates.
isso claramente, Platão decidiu agir com em A República é a sequência lógica da De fato, de maneira simples
toda a sua força em defesa do helenis- adesão ao conceito de base da Cidade. e muito original, ele tenta
mo e da salvação da Cidade. O fato de Mas Platão havia compreendido que não fazer as pessoas melhores e
ter publicado A República no início de sua haveria futuro para ela se as consequên- convencê-las de que, para se
carreira de autor e que suas Leis tenham cias dessa forma de organização não tornarem senhoras de sua
surgido pouco antes de sua morte mos- fossem aceitas. Ele pensava mais preci- alma, deveriam trabalhar
tra que ele devotou toda a sua vida a samente que a comunidade deveria se nela por si mesmas, pois

39
isso era de sua própria responsabili- a ocupar-se por si mesmo da saúde de
dade. Ele tentava fazê-las compreender sua alma. O método que ele propu-
que não deveriam se limitar a observar nha para o autoexame e sobre o qual
e respeitar as diferentes formas e ex- insistia tanto era de fato novo naquela
pressões de virtude possíveis – como os época. Os gregos eram em sua maio-
atos justos, corajosos e caridosos – mas ria pragmáticos; eles tinham os dois
que deveriam fazer de tudo para mos- pés bem cravados no chão. A psique e o
trar a si mesmas claramente o sentido e mundo da alma não eram coisas que
o valor das noções de justiça, coragem lhes interessassem diretamente. Eles
e amizade que norteiam os próprios podiam se satisfazer com noções vagas,
atos. É pouco provável que Platão tenha suscetíveis de interpretações diver-
sido o primeiro autor a identificar essa gentes, transmitidas desde Homero e
problemática, mas parece evidente que estabelecidas como definitivas havia
as incessantes e pertinentes questões quatro séculos. A noção de psique, por
apresentadas nesse sentido por Sócrates exemplo, trazia-lhes a imagem de um
aos espíritos céticos de seus contem- sopro ou de uma substância etérea que
porâneos atenienses tenham suscitado animava o corpo, mas que ao mesmo
numerosas interrogações e reações. tempo dependia dele, fazendo-o agir.
Tomemos este exemplo: “Sócrates, seu Quando a morte levava o corpo, a psique
convite a uma conduta virtuosa parte da
suposição capital segundo a qual existiria
se encontrava desprovida de abrigo e
condenada a penetrar numa existência Em sua
algo como a justiça e a virtude indepen-
dentemente de atos concretos nos quais
crepuscular, privada de força. Mesmo os
modernistas do tempo de Sócrates, que maioria, os
estas se manifestam. Ora, é verdadeira-
mente conveniente supor que exista no
esperavam que os mistérios lhes ga-
rantissem uma melhor existência após gregos eram
absoluto, e separadas do homem, uma
justiça e uma virtude? A realidade dos
a morte, ficavam admirados diante da
visão totalmente nova segundo a qual a pragmáticos;
fatos nos mostra que certos homens,
em momentos diferentes e em épocas
psique era a morada de todas as proprie-
dades morais e intelectuais do homem tinham os dois
diferentes, agiram de uma maneira que
qualificamos de justa ou de virtuosa. Mas
e tinha infinitamente mais importân-
cia que o corpo físico. Para encarar a pés bem
nenhum desses diferentes atos pode ser
identificado com a virtude ou a justiça
inevitável crítica e a fim de que todas as
novas concepções pudessem se impor, cravados no
perfeita às quais buscamos precisamente
dar uma definição. No máximo podemos
era necessário introduzir paralelamente
os dois eixos de incidência da filosofia, chão. A psique
dizer que esses exemplos são aproxima-
ções rudimentares da perfeição e que na
que são a metafísica e a moral. As qua-
lidades requeridas para essa tarefa eram e o mundo da
verdade apenas existem atos individuais e
isolados. Se tal conceito universal não de-
excelentes em Platão. De fato, contra-
riamente a Sócrates, ele buscava esta- alma não eram
vesse de fato existir, que se teria a ganhar
em buscar a todo preço tal quimera?”
belecer uma definição da natureza da
própria realidade e alcançar conceitos coisas que lhes
O novo: ocupar-se por si mesmo da
abstratos em estreita ligação com a mo-
ral. Para refletir sobre grandes questões interessassem
saúde de sua alma
Uma segunda objeção que não tardou
como “O que é o ser? O que é real e o
que não é?”, Platão inspirou-se em seus diretamente
a surgir estava na instigação de Sócrates predecessores, Heráclito e Parmênides.

40 Platão e sua teoria das Ideias


Fontes das concepções de Platão ca – visão que as teorias de Heráclito outra forma, os conceitos
O ensinamento de Heráclito diz essen- ameaçavam conduzir ao caos devido à são relativos e não há uma
cialmente que no mundo do espaço mutabilidade das coisas. regra geral.
e do tempo tudo está em movimento Platão estava convencido de que deve- Atualmente, muitos céticos
constante, tudo está submetido a um ria haver respostas a essas questões. Ele considerarão mesmo injusti-
contínuo processo de mudança, que recorreu ao único caminho possível de ficada toda generalização de
a mudança jamais cessa, que, de fato, resolver esse aparente dilema. Ele afir- conceitos. Como consequên-
nada é o mesmo duas vezes. mou que o que é conhecido – portanto cia, eles não concordarão
A consequência desse ensinamento é os objetos de conhecimento – pode sobre a qualidade de um
que de fato não pode haver conheci- ser definido e ter existência, mas esses bom vinho ou de um bom
mento do mundo. Porque se tudo se conceitos não deveriam ser confundi- esportista. É preciso notar
transforma continuamente, e jamais dos com o que percebemos no mundo que no conceito platônico as
permanece idêntico a si mesmo, não é físico. Eles existem num mundo ideal, duas acepções estão presen-
possível conhecer o que há um mo- onde tempo e espaço não estão presen- tes quando se fala da Ideia
mento era diferente. O conhecimento tes. Aqui reside a origem da Ideia platô- ou do Bem.
supõe que haja algo de conhecimento nica, derivada da mesma palavra grega Platão nos diz que essas
estável e permanente. que anteriormente portava o sentido de Ideias são conceitos absolu-
Parmênides opunha-se a essa tese e de- forma ou padrão. tos, separados, que existem
fendia a ideia de uma realidade estável O significado do termo ideia, como o de maneira autônoma além
e imutável. Mas essa realidade somente empregamos correntemente hoje, peca das limitações fornecidas
poderia ser descoberta pela atividade do pela omissão do fato de que as ideias pelo espaço e tempo, caso
espírito, pois ela é de fato separada do podem existir de modo completamente contrário o conhecimento
mundo transitório, objeto dos sentidos. independente além de nossa capacidade se tornaria um sonho fútil,
Somente pode ser conhecido o que é de representação, além mesmo de nosso e seu objeto, uma quimera.
imutável, invariável, eterno, além do próprio espírito. A crença em um mundo
tempo e espaço. Quanto aos sentidos, A acepção platônica de ideia nos leva a de ideias absolutas ou de
eles nos põem em contato com esse representá-la como um tipo de substân- conceitos independentes é
outro mundo de mudanças, perecível e cia, à qual Platão atribuía uma existên- razoavelmente possível para
passageiro. Essas eram as reflexões que, cia autônoma e perfeita. Podemos facil- tentar encontrar uma defini-
depois de Parmênides, Platão usava para mente criar uma ideia original com os ção dessas noções. Assim, é
fazer a ligação com as questões propos- conceitos de bondade e igualdade. Isso possível captar sob um de-
tas por Sócrates com relação aos pre- nos permite dizer que há algo comum nominador comum – como
ceitos a serem ensinados sobre conduta em situações diferentes, como quando o Bom – fenômenos ligados
racional e moral. Além do mais, ele falamos, por exemplo, do bom vinho, a coisas tão diferentes como
acrescentava a isso seu interesse pri- do bom esportista, de oportunidades o vinho e o esportista.
mordial pela matemática pitagórica. iguais ou de um triângulo equilátero. Podemos agora imaginar um
Se não houver uma base comum, mundo ideal onde se situa-
A Ideia, conceito não identificável quando o mesmo conceito é aplicado a riam os conceitos funda-
existente além do espaço-tempo situações diferentes, toda comunicação mentais da natureza, perfei-
Platão queria a todo custo resolver dois entre as pessoas será impossível. Essa tamente puros e eternos.
problemas: de um lado, o da reunião da base comum é chamada ideia, conceito Quanto à existência aparen-
herança de Sócrates com a existência de ou noção, como por exemplo a bon- te do mundo material, ela
normas absolutas de conduta; de outro, dade ou a igualdade. O resultado dessa decorre de seu maior ou
o da existência ou da não-existência de visão não está de acordo com o modo menor envolvimento e parti-
um mundo suscetível de ser compreen- de ver moderno, segundo o qual gostos cipação na existência plena e
dido de maneira puramente científi- e cores não se discutem ou, dito de perfeita do outro mundo.

41
O coração e a razão falam de um Platão ampliou essa primeira ideia a caos e na divisão. Em seu
mundo ideal fim de nela incluir todos os fenômenos tempo, tratava-se obviamen-
Devido ao fato de essa visão das coisas e criaturas da natureza. Consequente- te de um modo totalmente
parecer muito com uma crença reli- mente, hoje somos capazes de consi- novo de ver, e as premissas
giosa e com uma experiência mística e derar formas diferentes, peculiares a eram bem menos evidentes
dificilmente poder ser baseada em ar- uma espécie ou raça – os cavalos, por do que o são para a maioria
gumentos razoáveis, Platão muitas vezes exemplo – como parte do conceito de nossos contemporâneos.
recorreu a comparações e alegorias para mais genérico de “cavalo”. Isso, apesar Por um lado, havia o pensa-
descrever a relação entre os dois mun- da manifestação dessa imagem ideal mento de Heráclito, segun-
dos. Mas ele se ateve explicitamente ao perfeita e absoluta de “cavalo” não do o qual tudo muda, o
pensamento que a razão pode, de fato, poder ser aplicada com exatidão aos que obstaculizava para uma
demonstrar a existência desses dois reflexos limitados e imperfeitos que são abordagem analítico-cien-
mundos. os cavalos do mundo físico. tífica dos fenômenos. Por
No entanto, esse pensamento também Em Fédon, Sócrates diz: “O que me outro, havia o ensinamento
tem um significado que ele junta à parece é que, se existe algo belo além de Parmênides, que alegava,
noção de razão, maior, portanto geral- do belo em si, só poderá ser belo por ao contrário, que tudo que é
mente aceita, que compreende somente participar do belo em si”. real é eterno e imutável.
argumentos lógicos, mecânicos. Segun- Se devêssemos relacionar essa decla-
do Platão, a razão inclui também indis- ração com nossos usos linguísticos e Suposições engendraram
cutivelmente o pensamento conduzido científicos, diríamos que só considera- os alicerces da ciência
pelo sentimento e pelo silêncio con- mos científico um fenômeno que possa moderna
templativo, que leva ao que é correto e ser incluído numa classificação, numa O ensinamento de Platão
razoável. ordem. Isso implica em que devemos tem muito mais pontos de
Aristóteles considerava o emprego de ter conhecimento prévio da classe em contato com nosso pen-
comparações uma imperfeição, mas não que esse fenômeno poderá se encaixar. samento moderno do que
podemos ver Platão procedendo de ou- A maioria das pessoas que conhece- estamos inclinados a admitir
tra forma. Ele fala às vezes desse mundo mos acharia difícil compreender uma num primeiro momento. Sa-
ideal como de um modelo do mundo declaração feita dessa forma e não ber se nosso modo de pen-
físico observável pelos sentidos, como seguiria Platão facilmente quando ele sar se fundamenta no uso de
seu reflexo, conforme as limitações da atribui a essa classificação uma exis- conceitos gerais, abstratos e
matéria o permitem. Outras vezes ele tência própria e independente, como a impessoais que, dessa forma,
fala do mundo físico como partícipe uma Ideia separada do espírito humano. têm um caráter autônomo
da existência do mundo ideal. Uma Essa dedução de Platão repousava numa e absoluto, é uma pergunta
de suas comparações favoritas é a que escolha sua, pois, como Sócrates, ele que de fato não nos fazemos.
estabelece entre o ator de teatro e sua estava firmemente convencido da possi- Nas ciências, por exemplo,
interpretação do papel que ele deve de- bilidade e da realidade de uma aborda- partimos da imutabilidade
sempenhar e o papel e a interpretação gem científico-analítica para estabelecer do que é chamado “lei”.
inicialmente imaginados pelo autor. alguns tipos e princípios básicos. Uma Mas um homem das ciências
abordagem que, por fim, desembocou interrogado a esse respeito
Os conceitos subjacentes à nossa cul- na cultura científico-tecnológica que responderia que a adoção
tura científica tecnocrática conhecemos. de leis procede, na verdade,
Os ensinamentos de Sócrates chegaram Platão e Sócrates também estavam con- unicamente da necessidade
a nós graças a Platão. De fato, foi Sócra- vencidos da necessidade de uma ética de facilitar um uso prático.
tes quem introduziu pela primeiríssima social baseada em normas absolutas, Na realidade, a formulação
vez a questão de Ideia, ou do conceito sem a qual a sociedade estaria irreme- de uma lei nada mais é que
relativo a noções morais e intelectuais. diavelmente condenada a perecer no a formulação de altas proba-

42 Platão e sua teoria das Ideias


bilidades e de aproximações da verdade
e da realidade.
físicos distintos e diferentes.
No entanto, isso não nos é suficiente, Para Platão, a
Parece, no entanto, que tais suposições
puderam se tornar o fundamento de
pois, como na Grécia de Sócrates, hoje
usamos corriqueiramente esses concei- razão inclui tam-
importantes alicerces da taxonomia
científica moderna. E isso baseado em
tos gerais e esses termos abstratos de
modo ainda mais superficial e irrefleti- bém, indiscutivel-
verdades e realidades supostamente
imutáveis, às quais essas leis conferem
do sem nos atermos aos seus verdadei-
ros significados. mente, o pensa-
sua força. Se tivéssemos certeza de que
essas mesmas leis seriam aplicadas no
Platão estava muito consciente de que
esses conceitos abstratos e gerais en- mento conduzido
futuro assim como foram no passado, a
ciência não faria nenhum progresso.
carnavam uma realidade transcendental
não material, se bem que insistisse na pelo sentimento
Nessa abordagem científica trata-se,
portanto, de fé e confiança, desde que
importância de instigar Sócrates a se
dedicar a um profundo autoexame para e pelo silêncio
estejamos abertos para atribuir a esses
conceitos abstratos um valor transcen-
encontrar o significado preciso desses
conceitos. Mas se partimos da hipótese contemplativo,
dental e absoluto.
A notável ambiguidade de nosso pen-
da existência de um mundo perfeito e
eterno, no qual as leis e os modelos do que leva ao
samento moderno é que utilizamos
conceitos e leis como se fossem absolu-
mundo físico perceptível são fixos, e a
seguir de que esses dois mundos são que é correto e
tos e imutáveis, enquanto pensamos, ao
mesmo tempo, que elas não possuem
mais ou menos mesclados e intrincados
de modo que a realidade das formas razoável
de modo nenhum essa existência autô- transcendentes pode ser mais ou menos
noma e absoluta. transmitida às formas físicas, então
Podemos ver a prova no fato de que podemos nos perguntar onde e como
denominações diferentes são utilizadas entramos em contato com essas formas
para designar certas doenças, como a e conceitos abstratos, onde e como pu-
gripe, por exemplo. A gripe é um con- demos reconhecê-los e utilizá-los como
ceito geral que inclui muitos sintomas ponto de referência e verificar que essa
diferentes, suscetíveis de se manifestar ou aquela ação pode ser considerada
sem jamais serem de fato idênticos. boa ou bela.
No entanto, falaremos sempre de gripe
como um dado absoluto existente por Cuidar da alma para a saúde de sua
si e evidentemente real. Nossa expe- própria psique
riência nos faz dizer que há pessoas Tendo chegado a esse ponto, Platão
doentes e não que existe uma doença. confirma outro aspecto do ensinamento
de Sócrates, desenvolvendo-o à luz da
Mescla do abstrato e do concreto tradição religiosa mística dos adeptos
Podemos, portanto, afirmar que, em de Orfeu e de Pitágoras.
certo sentido, Platão defendeu e elevou Esse outro aspecto é a incitação inces-
a determinado nível filosófico o que sante de Sócrates a seus ouvintes de
a maioria de nós admite inconscien- tomar sobre si a responsabilidade do
temente como uma evidência. Isso cuidado da alma para a saúde de sua
significa que existem efetivamente própria psique.
conceitos absolutos, autônomos e Platão entendia que o ponto que religa-
intangíveis que mesclam fenômenos va o mundo eterno e transcendental das

43
ideias ao do espírito ligado ao corpo intemporais e dos conceitos que estão A doutrina do mundo ideal
situava-se nas doutrinas dos reforma- além do mundo físico sensorial. depende inteiramente da fé
dores religiosos no que concerne ao Mais que ser uma catástrofe para a inquebrantável na alma eter-
gênero e à natureza da alma humana. alma, a morte do corpo lhe dá a opor- na, ou seja, do reconheci-
Conforme vimos, a visão corrente dos tunidade de se renovar no néctar e de mento de sua preexistência.
gregos sobre a matéria era vaga e super- viver na vida real. Desse ponto de vista, Somente então o processo
ficial. Eles pensavam que, sobrevindo o o corpo é como uma prisão ou um cai- de aprendizado pode ser
perecimento do corpo, a alma em de- xão, no qual a alma espera ser libertada compreendido como relem-
clínio se encontraria exilada como um para retornar ao mundo ideal onde resi- brança, porque a observação
sem-teto e se dissiparia como fumaça, dia antes de se unir a um corpo. dos fenômenos e dos fatos
conforme diz Homero, reduzida a uma
existência vaporosa, fluida e sem vita-
lidade. Para explicar o caráter insensato
de tal visão das coisas, Sócrates pressio-
nou o raciocínio a ponto de prevenir
seus amigos que assim pensavam de
que, se o dia de sua condenação fosse
uma jornada de tempestade, atravessá-lo
poderia ser para eles algo muito arris-
cado, pois o vento poderia se abater de
tal modo sobre sua alma que a substân-
cia desta seria dispersada pelos quatro
pontos cardeais.
Num clima de crenças desse tipo, não
é de admirar que Sócrates devesse se
mostrar tão radical quando disse que
a alma é bem mais importante que o
corpo e que o homem tem, portanto, o
dever de se preocupar com ela mais do
que com seu corpo físico, talvez mesmo
em detrimento dele.
Diante de tal afirmação, a incredulida-
de de seus contemporâneos era geral.
Como consequência, para dar peso à
maneira de ver de Sócrates, Platão bus-
cou confirmar a verdade de ensinamen-
tos mais antigos, como o de Pitágoras,
que afirma que a alma é de essência
eterna e que, devido à sua natureza, ela
não está em casa num mundo depen-
dente do espaço e do tempo.
A alma viveu numerosas encarnações,
mas, no intervalo que separa cada uma
delas, liberta de sua ligação com o cor-
po, ela entrevê, sempre mais ou menos,
algo do único mundo real dos valores

44 Platão e sua teoria das Ideias


exteriores a nós e que nos cercam é o que sabíamos anteriormente mas
incapazes de fazer surgir a menor forma esquecemos, contaminados que estamos
de conhecimento referente aos aspectos pela existência material e pela ligação
universais, eternos e abstratos dos con- à Terra.
O Simpósio de Platão, obra de An-
ceitos e das ideias que acalentamos. selm Feuerbach, em torno de 1869,
Mas, devido ao fato de a alma ter ante- O imperfeito não conduz por si mes- em que ele representa Ágaton que
riormente vivenciado o mundo real de mo ao conhecimento do perfeito acolhe Alcibíades. O contraste entre o
hospedeiro bêbado e a figura espiri-
onde surgiu e ao qual pertence, é possí- O ponto de partida dessa visão é o posi- tual de Ágaton é a expressão da luta
vel que o fraco e imperfeito reflexo do cionamento segundo o qual o imperfei- interior do pintor. O quadro é cheio
de símbolos que remetem à vida
mundo ideal nesta terra nos relembre to jamais pode conduzir por si mesmo espiritual da Academia de Platão, um
assunto que cativou Feuerbach.

45
ao conhecimento do perfeito. Nenhuma reecontrar o caminho do conhecimento
coisa no mundo físico é matematica- e da perfeição. Esse conhecimento esta-
mente idêntica a outra. Se, em nosso va antigamente presente em nosso espí-
espírito, imaginamos conhecer o ver- rito, mas encontra-se agora em estado
dadeiro significado da palavra igualdade, latente. É preciso que ele seja redesco-
não damos a ela o sentido comparável berto, reativado, para que a inteligência
a uma referência material, como duas possa funcionar. Em realidade, todo
regras ou dois traços. Essas abordagens conhecimento no mundo material é
terrestres devem efetivamente ser estu- uma questão de reminiscência. Quan-
dadas e observadas, no entanto, elas só do o filósofo está na pista do mundo
podem funcionar como indicadores ou ideal, devido ao fato de ter aprendido a
referências para o espírito, permitindo utilizar da justa maneira seus sentidos

Por um lado, havia


o pensamento de
Heráclito, segundo
o qual tudo muda, o
que obstaculizava
uma abordagem
analítico-científica
dos fenômenos.
Por outro, havia
o ensinamento de
Parmênides, que
alegava, ao contrá-
rio, que tudo o que
é real é eterno e
imutável
Platão e a Academia de Atenas. Moisaico, Pompeia, cerca de 79 d.C.

46 Platão e sua teoria das Ideias


e suas faculdades de observação, ele com as consequências que trouxeram um caráter ainda mais ale-
já não precisa se preocupar incessan- para a teoria platônica, é igualmente górico.
temente com as coisas relevantes da representado sob a forma de grandes A composição da alma hu-
esfera física. Ele pode, então, considerar mitos, como os que figuram no final mana é aí apresentada como
o corpo pelo que ele é, dominar os de- dos diálogos. O mais importante deles semelhante a uma parelha
sejos corporais – todos os desejos – de talvez seja o mito de Er*, com o qual alada formada por um carro
modo a liberar a alma e o espírito de termina A República. Ele descreve a inteira puxado por dois cavalos,
uma pesada carga. viagem da alma através da criação, onde cujo cocheiro representa
Então, ele está pronto a se elevar além as diferentes encarnações são identifi- a razão. Ele deve guiar os
do mundo sensorial e a reencontrar cadas, assim como o que se passa nos cavalos, um dos quais é inte-
o conhecimento das formas perfei- intervalos que as separam. Esse mito ligente e impetuoso, mas de
tas. Segundo as palavras que Platão faz descreve igualmente a maneira pela natureza inclinada a obe-
Sócrates dizer, a filosofia pode ajudar a qual a alma se torna refinada e purifi- decer, enquanto o outro é
nos prepararmos para a morte porque cada para, finalmente, escapar para sem- mau e desobediente. Os dois
equipa a alma para estar apta a ocupar pre dos ciclos de nascimentos e mortes. cavalos representam de um
seu lugar de origem no mundo ideal e A razão de nós, seres humanos, não nos lado a parte corajosa, heroi-
aí permanecer, e já não ser novamente lembrarmos da realidade desse mundo ca e capaz de disciplina da
condenada ao cativeiro na camisa de ideal totalmente diferente é explicada natureza humana – inclusive
força de um envoltório perecível. no mito pela obrigação que cada alma de ter vontade; e, de outro
tem de beber do rio do Esquecimento lado, a tendência de nos
A linguagem simbólica se casa com a antes de adotar um novo corpo. Ora, deixarmos levar por nosso
filosofia e a religião como as almas acabam de atravessar componente físico, sensorial
Essa visão da natureza da alma bem uma vasta planície deserta, a tentação e grosseiro.
como a explicação definitiva do con- de beber uma grande quantidade dessa A lenda diz que, num pas-
ceito de conhecimento atravessam, qual água é enorme. Nesse momento pre- sado longínquo, esse carro
um fio condutor, o conjunto do diálogo ciso, as almas demonstram o avanço fez uma viagem seguindo
intitulado Fédon, no qual Platão expõe filosófico que realizaram durante as a borda do céu, de onde o
seus pensamentos analítica e simboli- precedentes encarnações, pois é ali que cocheiro podia ver a verdade
camente, sob a forma do mito que en- a força do domínio que adquiriram é eterna. No entanto, o cavalo
cerra esse diálogo. Porém, mais adiante, verdadeiramente posta à prova. Mas, in- desobediente e caprichoso
é pela estrita lógica, pela via tangível, felizmente, todas as almas se encontram se rebelava tanto o tempo
que ele expõe e tenta demonstrar a na obrigação de beber um pouco – sal- todo, que fez o carro virar.
veracidade dessa concepção do conhe- vo se estiverem predestinadas a escapar Este caiu e imergiu no mun-
cimento que é a reminiscência. Assim é à ligação a um corpo e a reencontrar a do da matéria, da mudança,
em Menon, onde o empregado iletrado ligação eterna com a própria verdade. do espaço e do tempo. Dian-
que tem esse nome deve responder a Tanto aqui como na Grécia antiga, essa te de tantos pontos de vista
questões de ordem matemática. No imagem do rio da água do esquecimen- essenciais de seu sistema de
entanto, nesse diálogo, Platão também to, de que a alma deve beber, ressalta pensamento transmitidos
faz Sócrates dizer que esse ensinamen- o bom uso que Platão faz das lendas dessa forma, certos pesqui-
to provém de sacerdotes e sacerdotisas transmitidas pela tradição para explicar sadores se viram forçados a
que consideram que ser responsável por seus próprios pontos de vista. descobrir se Platão queria
seus atos faz parte de seu dever e de verdadeiramente que suas
sua tarefa. Mais uma vez, portanto, de Abandonando o pensamento lógico- histórias míticas fossem
maneira quase despercebida, a filosofia -analítico para entrar onde os poetas levadas a sério.
e a religião se apresentam de mãos da- e os místicos buscam sua inspiração Talvez a melhor resposta seja
das. O mesmo entrelaçamento dos dois, Em Fédon, encontramos um mito com a que ele confia a Sócrates

47
Visitantes do museu americano de História Natural, em Nova Iorque, diante de um painel ilustrativo
da biodiversidade

em Fédon. Lembremos que a imortali-


dade da alma é o tema e que o debate
mula mágica. Essa é a razão pela qual eu
me demorei com esse mito”.
Platão aí expõe
termina com a história de um mito
na qual são dados numerosos detalhes
A grande vantagem do mito é que o lei-
tor deve abandonar o pensamento ana-
seus pensamen-
sobre a vida da alma após a morte.
Para concluir, Sócrates resume: “Por isso,
lítico lógico e se deixar conduzir e levar
num mundo carregado de emoção, no
tos de modo analí-
Símias, precisamos fazer tudo durante
a vida atual para alcançar a virtude e a
qual os poetas e os místicos encontram
sua inspiração. Não tomamos os mitos
tico e também em
sabedoria. Isso vale a pena, há muito
a esperar. Não convém a um homem
de forma literal, mas como expressão
do que frequentemente escapa às ma-
linguagem simbóli-
inteligente ater-se sem mais ao fato de
que tudo é conforme descrevi. Mas me
lhas grosseiras da rede da argumentação
lógica e precisa.
ca, sob a forma do
parece permitido esperar que ele tome
em consideração as coisas concernentes Redescobrir a Ideia pura e perfeita
mito que encerra
à alma e à sua morada, uma vez que a
alma parece ser eterna. Tal tentativa vale
da qual todas as coisas são apenas
um reflexo
esse diálogo
a pena, é um esforço nobre. Um homem No entanto, antes de terminar, para
deve se lembrar disso como de uma fór- evitar que vejamos Platão apenas como

48 Platão e sua teoria das Ideias


um idealista de olhos fixos em outro realizar sua tarefa a serviço exclusivo
mundo e sem os pés fixos na terra, da comunidade. É inútil dizer que esses
lembremo-nos de como ele também princípios da sociedade platônica não
se ocupa das questões referentes aos fazem da classe dirigente a mais afor-
deveres e à sociedade, conforme vemos tunada; por outro lado, ela pode ser a
na alegoria da caverna, em Político. Nesse mais feliz se a considerarmos do ponto
conto, ele nos faz compreender justa- de vista da luz operante em seus siste-
mente que, tendo escapado da profunda mas esclarecidos. Uma luz que, partin-
obscuridade da caverna, o filósofo se do desses homens, irradiará inevitavel-
sente obrigado a retornar a ela para mente ao redor deles.
revelar a seus companheiros de infor-
túnio a verdade e a realidade que viu e
vivenciou fora dela.
Em Político, Platão diz que é esse tipo
de homem – os filósofos – que deve
constituir a classe dirigente. Para dirigir
com justiça, é preciso que os homens
tenham alcançado certo grau de sa-
bedoria quase divina, pois a tarefa e
o dever dos dirigentes, na sociedade,
consistem em levar as consciências a
contemplar o puro Bem, o qual eles
devem primeiro possuir em si mesmos.
Em outras palavras: eles precisam redes-
cobrir a Ideia pura e perfeita, da qual
todas as coisas criadas são apenas um
fraco reflexo. É por isso que os jovens
devem ter uma educação e uma disci-
plina severas antes de serem julgados
aptos para ser dirigentes. Até a idade
de dezoito anos, diz ele, eles devem
receber uma formação geral, seguida
de treinamento militar e esportivo. A
seguir, durante dez anos, devem ser
instruídos nos ramos da matemática
superior e, por fim, durante cinco anos
ainda, nos ramos mais elevados da
filosofia. O processo todo deve com-
preender, além disso, uma seleção, e é Manifestamos nosso reconhecimento
no mínimo aos trinta anos que esses pela autorização de publicar este artigo,
homens podem ser julgados dignos de traduzido de uma monografia intitulada
Dois ensaios referentes a Platão, previsto
ocupar funções regulares no aparelho para uso interno na Escola de Filosofia no
do Estado. Resulta desse ponto de vista qual é retomado o capítulo V da obra Os
que os filósofos nada podem possuir filósofos gregos de Tales até Aristóteles
de seu; e que o poder político é mais (1950), de W.K.C. Guthrie

um fardo que uma tentação. Eles devem * O mito de Er, o Panfílio; cf. Pentagrama
2 de 2014

49
Dispelling Wetiko – Rompendo a Maldição

“Dispelling Wetiko é um desses raros livros corajosos que nutrem o vírus, o qual vai
têm a intenção de nos levar aonde preferimos não ir: até o matar o portador – que somos
âmago de nossa própria escuridão. No entanto, trata-se de nós. O wetiko se alimenta
uma das viagens mais essenciais de nossa época (...) Sem fartamente com a imagina-
dúvida alguma, é uma leitura indispensável.” ção criativa que lhe falta. É
(Caroline Myss) por isso que, ao não utilizar-
mos o dom divino de nossa
imaginação criativa a serviço
No Dispelling Wetiko (esconjurando e expulsando o wetiko, da vida, o wetiko emprega
rompendo a maldição), o artista-pesquisador Paul Levy desperta nossa imaginação contra nós
nossa atenção para o tema de uma doença psíquica, uma psi- mesmos – e a consequência
cose coletiva que atingiu a humanidade e é chamada de wetiko é a morte. Esse predador, o
pelos indígenas americanos. Uma pessoa que sofre de wetiko é wetiko, luta conosco: ele tenta
acometida por um desejo insaciável e um egoísmo extremo. Ela se apropriar de uma parte de
Paul Levy, nasceu em Nova Ior- passa a explorar a energia vital dos outros e é incapaz de se arre- nosso espírito, a fim de ocupar
que em 1956, estudou Economia pender disso. O autor descreve o wetiko como um vírus secular nosso espaço. Então, ao invés
e Belas Artes. Nos anos 1990 alojado em nossa psique, que se comporta como um anticorpo de sermos seres soberanos que
trabalhou na Fundação Jung.
Depois de passar por intensas ex- desajustado que ataca as partes saudáveis, como um tumor. criam conscientemente por
periências espirituais, montou os Ampliando sua visão, Paul Levy explica como essa “doença” meio de seus pensamentos,
grupos Awakening in the dream
(Despertar no Sonho), nos quais
está se espalhando visivelmente em escala mundial, dando como somos inconscientemente
acompanhava pessoas na desco- exemplo a destruição da Terra, que começou com o desmata- condicionados e formados por
berta da verdadeira natureza de mento da Amazônia (considerada o pulmão do planeta); a polui- esses pensamentos. Quem
suas realidades. É conferencista e
professor, praticante do budismo ção dos oceanos com petróleo; a avidez desmedida do sistema literalmente pensa em nosso
tibetano, e autor de dois livros: de Wall Street; as guerras atrozes; e ainda os atos de violência lugar é o wetiko.” (Paul Levy –
The Madness of George Bush:
que são manchetes dos jornais. Rompendo a Maldição)
A Reflection of our Collective
Psychosis (A Loucura de Georges Tudo isso por causa do fator humano, que está contaminado
Bush: uma reflexão sobre nossa pelo “câncer da alma” e já não sente a mínima empatia pela Esse livro também aborda a Fí-
psicose coletiva) e Wetiko: The
Greatest Epidemic Sickness humanidade. Esse fenômeno já é conhecido e explicado há sica Quântica, que nos ensina
Known to Humanity (Wetiko: muito tempo pelos gnósticos, na doutrina dos Arcontes (ver que não existe separação entre
a maior doença epidêmica Pentagrama nº 6 – 2015). o observador e o observado.
conhecida pela humanidade).
Tudo está interligado, como
Não se diminuir a ponto de se tornar alimento do demônio em um sonho; todos os fenô-
Na visão do autor, as manifestações do espírito humano com menos estão indissociavelmen-
tendência psicótica adquirem certa autonomia e obrigam o ho- te conectados uns aos outros e
mem a se comportar em um nível subliminar, até fazê-lo adotar a cada instante. Esse conhe-
um modo de vida que contraria seu mais profundo ser. Com cimento é fundamental para
essa conduta, toda energia vital se reduz, a ponto de se tornar o termos uma compreensão
alimento do demônio, uma noção que remete a C.G. Jung. adequada de nossa realidade.
“Sem que a pessoa perceba, o wetiko também é capaz de gerar Quando entendermos como
formas-pensamento inconscientes e crenças que, ao surgirem, nossa realidade individual e

50 conteúdo
Livro
livro
Paul Levy

coletiva se manifesta, nesse ser “possuída”, que é o nosso


momento preciso de nossa Self, ou “a integralidade de
tomada de consciência, temos nosso ser, como ele diz. Desse
em nossas mãos o ponto modo, já não lutamos contra
central a partir do qual as o mal, mas nos ligamos com
coisas podem mudar. Segundo aquilo que não pode ser per-
o autor, essa compreensão turbado – e que é a plenitude!
permite uma visão mais ele- Ou seja: “Estar no mundo sem
vada, que possibilita a ação. É ser do mundo”.
assim que temos a chance de Ainda uma última palavra
restabelecer a ligação com “o de Paul Levy: “Apesar de o
vácuo quântico”, esse campo wetiko estar na origem da
infinito de energia viva, de po- desumanidade do homem
tencialidade incomensurável; contra si mesmo, ele é para
podemos nos tornar o Homo a humanidade, ao mesmo
Maximus, o homem perfeito tempo, o maior acelerador que
descrito por Swedenborg. a evolução já conheceu (mas
nunca reconheceu), pois, para submeter à prova da verdade
Vamos deixar que ele nos a natureza adormecida do Uni- inúmeros sinais durante sua
possua ou permitir a cura? verso, ele representa o impulso caminhada. Vale destacar que
O autor propõe uma solução: necessário para o despertar. Paul Levy nos traz ideias que
como a origem dessa doença Assim como normalmente um podem ser utilizadas concre-
está em nosso espírito, é nele vírus se transmuta para resistir tamente para revirar nosso
que devemos encontrá-la. o máximo possível às nossas mundo de cabeça para baixo
Geralmente pensamos que a tentativas de exterminá-lo, o – o que, nesse caso, por si só
iluminação significa a desco- vírus wetiko em coloração com já oferece uma perspectiva
berta da luz em nós mesmos – Mercúrio nos força a passar libertadora.
diz Paul Levy – mas, como esse por uma mutação e por uma
pensamento pode ser parte evolução superior. Paradoxal-
integrante da nossa realidade mente, não nos curamos do
wetiko, seria mais produtivo wetiko, mas somos curados
observarmos nossas próprias por ele”.
trevas reativadas por essa luz. Em sua exposição final, o au-
O autor descreve como o we- tor narra ainda como chegou
tiko nos obriga a prestar aten- às suas próprias tomadas de
ção ao papel do espírito na consciência – e esse é, sem
criação da realidade: da nossa dúvida, o trecho de maior des-
e do mundo ao nosso redor. taque do livro. É uma história
Ele nos chama para voltarmos na qual todo buscador poderá
à parte em nós que não pode se reconhecer, pois terá de

51
Viver de verdade é voltar a tudo o que é natural,
sem ficarmos colados à Natureza, sem dar a ela
uma aura romântica, mas também sem considerá-la
um adversário do gênero humano e daqueles que
seguem o Caminho. Afinal, por si mesma, a natureza
não tem nada de adversário.

O
Os rosa-cruzes clássicos tinham uma visão positiva da Natureza.
Por isso, inspirados por Paracelso, estimulavam as pessoas a realiza-
rem o estudo do livro M – o Livro do Mundo, o Livro da Natureza. De
um modo geral, nos séculos 16 e 17, a Natureza era uma fonte de
inspiração importante para muitas grandes correntes espirituais, e
também para os cientistas.
Para que possamos explorá-la como um “livro”, é preciso primeiro
reconhecer nosso desvio em relação a tudo o que é natural. Mesmo
que essa tarefa somente possa ser realizada de maneira subjetiva, o
fato de observarmos o que nos separa da Natureza Original vai per-
mitir que ela nos inspire mais corretamente.
A primeira coisa que salta aos olhos é que a Natureza está conta-
minada. Talvez fosse mais exato dizer que ela já não é virgem. Nos
países ocidentais, não sobrou nada da Natureza Original. Tudo foi
trabalhado ou até totalmente transformado, principalmente por cau-
sa de nossos sistemas econômicos que a exploram não somente para

Saudação ao Sol, obra do arquiteto Nikola Bašic,


irradia com todas as suas cores na Península
de Zadar, na Dalmácia (Croácia-Sul). Trezentas
lajes de vidro com células fotossensíveis reagem
simbolicamente, da mesma forma que, não
muito longe, os “órgãos marinhos” respondem
ao ruído das ondas

52 A armadilha da atual situação econômica


A armadilha da atual
situação econômica

53
servir às nossas necessidades, mas também mas, desde o século 17, já havíamos intro-
para lucrarmos com ela. A ganância é tão duzido em nossa cultura o conceito de “na-
antiga quanto a humanidade! tureza humana”, psíquica e espiritual, de
tal modo que o espírito teve de legitimar
O lucro esse modo econômico capitalista e seus
Foi no século 17 que começamos a valo- objetivos. O comércio mundial florescente
rizar a relação entre comércio e lucro. O na Europa do século 17 não foi conduzido
amor pelo lucro era considerado uma vir- pela “Mão invisível”, como Adam Smith,
tude cívica, e buscar seu próprio interesse o filósofo da economia, teve a audácia de
tinha o sentido de dar vitalidade ao “corpo confessar, mas sim por contratos, firmados
comum”, ou seja, à sociedade. sob a pressão e ameaça da artilharia naval,
Esse conceito foi retomado no decorrer com sultanatos, chefes, soberanos, tanto no
do século 20, principalmente pela autora Oriente como na América do Sul.
e filósofa americana Ayn Rand, em seu
romance The Virtue of Selfishness (A virtude do A relação perdida entre microcosmo e
egoísmo), no qual ela escreve: “Para tudo macrocosmo
o que vivemos ´em comum` na sociedade, Mais do que nos oferecer uma com-
seria melhor que cada um buscasse seu preensão aprofundada ou “iluminada” da
benefício, deixando prevalecer seu próprio Natureza, muito aprecidada pelos rosa-cru-
interesse. No fim, o benefício para a co- zes clássicos e muitos outros, a cultura nos
munidade será o melhor possível.” Aí está afastou dela. Ela já não é capaz de nos ofe-
como o interesse individual tornou-se uma recer uma visão mais profunda da relação
virtude cívica e como o espírito mercantil entre microcosmo e macrocosmo – pelo
foi assimilado a uma qualidade mercurial menos não enquanto a ganância pessoal
positiva, muito distante, no entanto, do continuar sendo a motivação principal de
Mercúrio da mitologia grega conhecido nossas ações.
por ser o deus dos ladrões. E também aí É exatamente isso que faz a sociedade ficar
está a razão pela qual o comércio foi colo- cada vez menos humana e mais polarizada.
cado em uma perspectiva cultural unilateral A armadilha sufocante do consumismo
que já há muito tempo estava caminhando impede os indivíduos de descobrir por si
lado a lado com ameaças e violências. mesmos uma nova visão de mundo, uma
A ganância é “natural”? Esse aspecto do inspiração, uma luz. A liberdade está cada
egoísmo tem alguma coisa a ver com uma vez menor e já consegue favorecer um
natureza humana inalterada? projeto de desenvolvimento pessoal. Ao
O professor Inger Leemans, em seu contrário: há cada vez mais situações de
livro The Nature of the Economy (A natureza dependência de “produtos”, mais do que
da Economia), afirmou: “Além disso, o dependência da “terra” e da “matéria”,
capitalismo é o produto da imaginação. É como em outras épocas. Estamos seguindo
preciso um verdadeiro arsenal de conceitos trilhos que estão nos levando à fascinação
para dar a ele uma aparência natural, para a partir do interesse, e depois ao hábito, até
inspirar os comerciantes, dando-lhes plena que, por fim, alcançamos a dependência,
confiança nesse processo econômico e, correndo o risco de ficarmos viciados.
mais ainda, oferecer uma imagem motiva- Nos anos 90, um celular era algo prático.
dora desse processo”. Aos poucos, ele foi se tornando indispensá-
Nós não apenas contaminamos a natureza vel e absolutamente desejável do ponto de
física para tirar dela cada vez mais lucro, vista social. Hoje, falta pouco para sermos

54 A armadilha da atual situação econômica


considerados antissociais quando alguém cimento permitiria o acesso à Sabedoria. em obstáculo, pois ele não
não consegue nos encontrar via celular. Mas, na realidade, quanto mais conheci- consegue estabelecer ligações
mento adquirimos, mais perdemos em entre os diversos elementos
O esquema do desvio Sabedoria, pois quando nos limitamos à que a constituem. Ele é privado
“Da Natureza à cultura, da cultura à reali- primeira, perdemos a segunda. Essa sepa- da força que coloca tudo em
dade virtual”: eis como um pensador con- ração dos dois domínios deve-se à perda relação com o Todo: ele já não
temporâneo esquematizou o processo de da ligação entre elas – e esse laço é o amor. sabe usar o pedal de embrea-
desenvolvimento do homem moderno. Em Por meio do amor, os elementos de Sabe- gem. Ele fica prisioneiro do
um contexto como esse, que possibilidade doria incluídos no conhecimento podem crescimento exponencial das
de sabedoria pode restar para quem deseja ser trazidos ao domínio humano, pois o informações específicas que
ser “natural”? conhecimento é então visto com base na dizem respeito à sua disciplina.
A resposta é: ter acesso a uma Sabedoria razão. Ora, a razão é inseparável do amor.
(Gnosis) que oferece o conhecimento Por outro lado, o processo de desenvol- A informação faz que
da relação entre o microcosmo e o vimento que parte da Natureza Original acabemos por perder
macrocosmo. para chegar unicamente à cultura dos fatos nossa consciência
Durante os quatro últimos séculos, a possi- é um desvio. Realmente: o conhecimento Em termo de desvio, per-
bilidade de nos aprofundarmos na relação “objetivo” ligado a esse tipo de cultura cebemos que o pior é
entre Sabedoria e Conhecimento sempre não constitui um enriquecimento para a quando observamos como
esteve presente, sem que fosse necessário consciência que deseja alcançar a Sabe- a consciência degenera em
fazer qualquer violência contra a Natureza doria. A Sabedoria é o poder de observar informação. Hoje em dia,
por motivos econômicos ou de poder. Que as causas e os resultados, de fazer a liga- naufragamos em um volume
tipo de desenvolvimento resultou disso? ção entre eles, levá-los em consideração, incomensurável de informa-
Para começar, não podemos confundir Sa- para poder apreciá-los – às vezes em uma ção com conteúdo cada vez
bedoria com conhecimento: seus domínios fração de segundo – a fim de escolher a mais pobre. Dissemos acima:
são diferentes. Os “fatos”, as descrições ação mais adequada. Quando a biblioteca a Sabedoria tem a capacidade
de acontecimentos espaço-temporais, as cerebral transborda, o sabiozinho erudito de fazer conexões, enquan-
situações, os processos e suas propriedades a quem ela pertence se distrai. Sua cultura to o conhecimento é o que
foram tidos como “a verdade”, cujo conhe- baseada em fatos pode até se transformar incluímos ao nosso acervo e

TEMOS UM CORAÇÃO DURO COMO PEDRA


Hoje, a consciência humana é muito individualizada. Somos muito O que chamamos de “educação” consiste, na maior parte do
materializados, temos um ego duro como pedra. Temos cons- tempo, em aprender a regular seus instintos por meio do que
ciência de nosso eu no mundo material e o observamos com os sentimos e pensamos. É assim que o eu pouco refinado torna-
sentidos, como se fosse exterior a nós. Esse “eu” só percebe o que -se “educado”. Motivado pelo medo de perder o afeto,
sente como diferente dele: contrastes e oposições. Ex.: observamos a ternura, o amor, ele acaba assimilando o modo de se adaptar
a luz porque conhecemos a escuridão. Com relação às outras pes- aos outros eus. Desse modo, cria-se um equilíbrio no ser
soas, coisas e fenômenos, somos observadores exteriores. Vamos humano entre sua qualidade de indivíduo e de membro de um
imaginar três “eus”. O primeiro: é o “eu” da barriga, instintivo grupo. Sabemos o quanto esse equilíbrio é instável e vemos
e animal – é claramente o mais poderoso e luta para satisfazer que, em caso de ameaça, quem comanda é o eu impulsivo.
necessidades vitais elementares. Graças a ele, o ser humano pode As teorias científicas ocidentais modernas explicam o compor-
subsistir, pois é esse “eu” que sai em busca do indispensável: tamento humano em parte por fatores hereditários, em parte
alimento e calor. O segundo é o “eu” do coração: cria regras e pelas circunstâncias. É assim que aprendemos a levar a vida.
certa sociabilidade. O terceiro é o “eu” da cabeça, do pensamento: Se o resultado de um comportamento for gratificante, ele
contribui para fornecer certa cultura. Geralmente, o primeiro entra será repetido. Essas ideias simples nos fazem compreender o
em conflito com um dos outros dois ou com os dois. comportamento humano.

55
sabemos por nós mesmos, sem necessi- Já não temos nenhuma noção da realidade época já não se trata tanto de
dade de uma fonte externa. Por que será que quando mergulhamos administrar a energia, mas sim
A informação é outra coisa ainda: ela na realidade virtual o real foge de nossa de administrar a informação.
oferece fatos e evidências, por mais consciência? Em primeiro lugar, porque E a produção de informação
abstratos que às vezes sejam, que pre- estamos muito afastados da natureza. precisa ficar completamente
tendem ser um relato da realidade. Mas Depois, porque essas informações que sob a bandeira do consumo-
jamais leremos no Google: “Trata-se pretendem nos oferecer uma imagem da -produção, circulando o mais
apenas de uma opinião; realidade não a tornam mais compreensível rapidamente possível.
isto reflete apenas minha realidade”. para nós, pois são complexas e redundan- Para tanto, os “produtos” de
É que tomamos as informações do tes. Elas nem chegam a se alojar em nossa informação e de comunica-
Google como realidades indiscutí- biblioteca cerebral, que já está lotada. Para ção precisam ser distribuídos
veis e assim tornamos nosso próprio dizer como o filósofo e ativista antinuclear gratuitamente.
conhecimento um pouco mais pobre, alemão Günther Anders: “Não consegui- Em troca, o consumidor paga
e também nosso autoconhecimento. mos refletir sobre aquilo que não podemos por isso dando sua atenção
A enxurrada de informações choca-se captar. Uma coisa sobre a qual não refleti- e seus dados pessoais. Esses
com a ordem “Homem, conhece-te a mos, na verdade já não existe...”. dados vão servir para alimentar
ti mesmo!”. Ou seja: vai contra a pos- novas ofertas “sob medida”.
sibilidade de conhecimento de nosso A administração da informação Tudo isso acontece fora de
próprio microcosmo e sua relação A alma começou sua descida aos infernos nosso campo de observação,
com o macrocosmo. com a Revolução Industrial. Desde essa como se existisse uma fábrica

56 A armadilha da atual situação econômica


NOSSO PENSAR, SENTIR E QUERER SÃO CONSTRUÍDOS POR NÓS ou repele uma energia emocional. Com isso, criamos ao nosso
MESMOS redor um campo emocional, consciente ou inconscientemente.
Além do aspecto físico, a vida humana compreende outros É nesse campo emocional que vivemos, pois nós o inspiramos e
aspectos que são ligados ao nosso corpo: a sensibilidade e o pen- expiramos. O mesmo acontece com o pensar e o agir. Atraímos e
samento. O pensar e o querer são realidades em si mesmas, pro- repelimos forças.
cessos energéticos interiores. Somos o que pensamos, sentimos Assim vai se engendrando uma realidade completamente par-
e queremos. Um mundo de energia específica aos pensamentos ticular: a nossa realidade, que se compara a uma ilha em um
e às emoções assegura nossa ligação com o mundo que nos arquipélago, no mar do mundo físico, mas também no mar das
envolve. Podemos considerar que as leis inerentes a esses proces- emoções e dos pensamentos. Todos nós temos nosso passado
sos são compreensíveis graças à Psicologia Esotérica – ou seja, à vivido pessoalmente, nossas interpretações da realidade. Nosso
observação da relação que temos com essas forças e energias. ego tem seus próprios interesses muito marcados, que se opõem
O que pensamos, sentimos, queremos? Como isso acontece? aos interesses de outras pessoas.
Qual é nossa posição nesse jogo? Sentimos algo que nos faz
mergulhar no desejo, ou, ao contrário, na repulsa, e isso atrai

57
invisível, com linhas de produção onde as jogos, voyeurismo, abandono dos estudos,
almas dos consumidores fossem controla- depressão... Apenas isso!
das e transformadas.
Tudo acontece automaticamente e so- Recriar a Natureza?
mente pode ser reproduzido com base Ah, como estamos afastados da Natureza!
nos dados coletados. Tão afastados que desejamos recriá-la! Mas
Integrado ao labirinto invisível dos servido- o filósofo inglês John Gray nos adverte:
res, cada emissor é um receptor e todas as “No entanto, precisamos reconhecer que,
saídas são entradas. Assim, a materia-prima e se recriarmos a Natureza adaptando-a aos
o produto final dessa cadeia industrial digital nossos próprios desejos, correremos o risco
é o ser humano como um todo. Ele é ao de fazê-la à imagem de nossas patologias”.
mesmo tempo o input quanto o output desse Em dois decênios, os serviços e produtos
processo. Músculos, sistema nervoso, ima- digitais modificaram radicalmente nossas
ginação, capacidade de pensar, desejos e os condições de vida. Se amanhã aconte-
mais íntimos segredos – nada que é humano cesse um blackout da Internet, ou se a
pode ser perdido: tudo precisa ser utilizado “nuvem” desaparecesse em um “buraco
no processo de produção-consumo. negro”, sem dúvida haveria um “infarto
A alma inteira e tudo o que representa sua coletivo” mundial! A vida sobre a Terra
salvação precisam ser transformados em pararia, em grande parte, segundo Hans
produto, em mercadoria. Schnitzler. A infraestrutura digital, esse
império atual, não somente domina
Perturbações psíquicas e desvios de com- nossas ocupações cotidianas como atinge
portamento ligados à era digital certas condições fundamentais específi-
Essa instrumentalização do ser huma- cas da vida humana.
no corre o risco de reduzi-lo a um novo As garras do mundo digital vão deforman-
gênero de “proletário”, como explica Hans do nossa natureza até alcançar esse núcleo
Schnitzler em seu livro O Proletariado Digital. de dignidade pessoal.
O regime “info-crático” ao qual o homem
estaria submisso estaria baseado no poder Retornar à Natureza. Mas qual delas?
de sobrecarga de informações. Será que ainda poderemos voltar atrás?
Mas a expansão invasiva e infinita da es-
fera informativa caminha ao lado de uma
hiperestimulação do cérebro que pode, de CARMA
acordo com Hans Schnitzler, produzir per- Todo comportamento humano, com seus pensamentos e emoções, produz obriga-
turbações psíquicas: problemas de atenção, toriamente alguns efeitos; tudo é, de algum modo, memorizado. O que fazemos a
egocentrismo exacerbado, perturbações nós mesmos e aos outros dá forma a linhas de força e a tensões que um dia deverão
de indentidade, perda de memória, solip- se descarregar no espaço-tempo. Essa regra elementar da Lei do Carma pode ser
sismo (quando o indivíduo acredita que designada por uma expressão moderna: a Lei da Conservação de Energia.
somente ele existe e tudo ao redor é sua Sendo um fator de equilíbrio, o carma protege os seres e o mundo. Alguns o con-
criação), dissociações, sintomas de regres- cebem como o conjunto de acontecimentos que se apresentam a nós no decorrer
do tempo. Mas o carma é também um fluxo de emoções e a coloração, por nossas
são, fantasmas, violência, megalomania
emoções, de tudo o que nos acontece e a tudo o que estamos ligados, pois é difícil,
(quando o indivíduo dá exagerado valor a
para nós, fugir das emoções. Em casos extremos, trata-se realmente de depen-
si mesmo), neuroses que obrigam a pessoa
dências e até mesmo de obsessões que envolvem os planos do pensamento, do
a clicar e a navegar, fetichismo e exibicio-
sentimento e da ação. Essas dependências e obsessões nos governam a partir do eu
nismo com Twitter e Facebook, demência subconsciente que é a soma de nosso passado.
digitais, digi-estresse, sede de informação,

58 A armadilha da atual situação econômica


Retornar à Natureza que nos liga à nossa
dignidade humana?
Será que isso ainda é possível atualmente,
quando o mercado – por mais que tenha Não conseguimos nos apoiar
sido desmascarado em seu “legítimo”
egoísmo – continua dominando e dita na herança cultural, na memória
cada vez mais as condições sócio-econô-
micas de nossa existência, de acordo com coletiva, nem no imenso tesouro
um regime infocrático totalitário? Nesse
contexto, ficaríamos tentados a acreditar esotérico
que retornar à Natureza Original e respirar
de acordo com suas leis tornou-se real-
mente impossível. Mais ainda se pensar- mesmo escravizados, se tivéssemos cedido construir nossa consciência
mos que as áreas da cultura que gostaría- à tentação dessa escravidão moderna, tentar pode provocar uma reflexão,
mos de aprender, de boa fé, por razões de retornar à Natureza Original seria um mis- um sobressalto interessante na
espiritualidade, conceitos filosóficos ou são perdida. situação quase desesperadora
artísticos (e a Arte alia nobreza e inspi- Mas quem ainda sente sede de Sabedoria? que já descrevemos. Sabemos
ração) estão sendo mais do que nunca Para utilizar como? A Sabedoria geralmente que, perdidos na variedade e
negligenciados. Mal conseguimos nos vem associada à ideia de “transparência”. na complexidade infinitas dos
apoiar em uma herança cultural, em uma Ah, quantos inconvenientes a transparência dados que são colocados à
memória coletiva; menos ainda no imenso traz com ela! nossa disposição, já não temos
tesouro esotérico dos últimos séculos. “As coisas se tornam transparentes quan- a possibilidade de nos ligar
Evidentemente, hoje podemos sempre fazer do elas são niveladas, alisadas e dobradas novamente à Natureza Origi-
uma pesquisa no Google! E, no entanto, suavemente, se acomodando naturalmente, nal. Mas, graças à convicção da
cada vez mais, parece que só vale o que co- sem pregas de capital, de comunicação e de unidade do Todo, da insepara-
nhecemos e vivemos no instante presente. informação.” bilidade dessa grande reali-
Há quinze anos, o autor americano Philip É assim que o filósofo coreano Byung- dade da qual fazemos parte
Roth explicava que, infelizmente, as pessoas -Chul Han faz um resumo desse conceito, enquanto seres humanos,
haviam perdido o interesse pelas verdades de modo lapidar e caricatural. Já o filóso- poderemos estabelecer uma
elevadas oferecidas pelo esoterismo. Elas fo francês Jean Baudrillard diz: “Com o ligação com a Natureza – a
mal eram referências para nossas cons- fim do segredo, essa hiper-transparência Natureza Original – que foi a
ciências – e isso porque vinham de uma é nossa condição fatal. Quando todos os primeira fonte de inspiração, a
realidade oculta, diferente da realidade em enígmas forem resolvidos, as estrelas se suprema realidade de Sabedo-
que vivemos. Ora, os jovens estão buscando apagarão. Quando todo e qualquer segredo ria e de Conhecimento que os
viver e experimentar essa realidade mais for desvelado – mais do que isso, quando o rosa-cruzes clássicos chama-
ampla, não a partir de textos, mas sim de segredo tornar-se obsceno – e cada ilusão vam de “a Rosa Mística”.
imagens. Além disso, as grandes ideologias for percebida, então o Céu abandonará a
e os ensinamentos sincréticos já não têm Terra à sua sorte”. E isso confirma o que os Em busca de uma Escada
grande demanda, como acontece com a rosa-cruzes dizem: “Uma vez desvelados, de Mercúrio
ideologia ligada à economia de mercado. os mistérios perdem seu valor; dessacraliza- Essa Rosa Mística poderia,
dos, eles perdem sua força”. apesar de tudo, florescer nesta
Será que o Céu irá abandonar a Terra? nossa situação, graças a uma
Se, depois de tudo o que falamos sobre a A conexão indispensável mística diferente daquela que,
realidade virtual na tela e o que se segue no No entanto, o fato de saber que o excesso por ser muito natural, se perde
plano técnico e econômico, nos sentís- de informação já não permite que nos- em um encantamento român-
semos um tanto aprisionados e talvez até so cérebro se conecte à nossa alma para tico estático e que se mostrou

59
insuficiente durante os três último sécu-
LUTA OU RECONHECIMENTO
los? É necessário termos uma atitude de
De que natureza é minha relação com o Cosmo, com o Todo, com o imenso e subli-
Alma-Espírito que nos permita a possibi-
me conjunto que é Deus, o Criador? Essencialmente, vejo duas possibilidades – e é
lidade de nos reapropriarmos da Natureza aí que está minha Liberdade.
na Unidade mediante o Único, assim como 1. Luto contra a realidade, contra a Criação. Eu quero que ela seja diferente. Com
redescobrir o que ela traz de mais precioso. isso, eu me isolo e provoco uma série de acontecimentos que terão consequências
Não é a mística humana natural, mas sim no tempo e no espaço.
a mística do ser que poderá nos colocar na Isso acontece porque a imensa Realidade não pode ser fragmentada. Deus é Um!
atmosfera que qualificamos de “espiritual”: Mesmo fragmentada no tempo e no espaço, a Realidade continua Una, indivisível.
a Rosa Mística. Na verdade, tudo o que consigo é fragmentar a mim mesmo – e isso acaba pro-
É isso que objetivamos quando se trata de vocando minha morte. Poderíamos dizer, então, que “comi do fruto da árvore do
uma orientação místico-mágica. conhecimento do bem e do mal”.
J. van Rijckenborgh explica o seguinte 2. Reconheço em mim meu Criador, outro ser além de mim. Assim, conheço o amor,
sobre a nova diretriz a respeito da Natu- o Criador e tudo o que Ele me envia – ou seja, uma força que gera seu Filho, uma
reza, no capítulo “O livro maravilhoso”, força que cria seu Filho, a criação perfeita, que é o Amor. Essa força nos é ofereci-
no livro Confessio Fraternitatis (A profissão da. Por ignorância, por lutar contra ela, eu a crucifico: eu combato e desconheço o
de fé da Fraternidade): “Nós, que exami- Amor. Quando paro de lutar e me rendo, me entregando a esse Amor, ele se torna
namos as relações entre macrocosmo e Um comigo. Juntos, geramos o Dois, que é a Criação a partir da árvore da vida!
microcosmo, vemos o grandioso equi-
líbrio universal. Nós, que escalamos os
degraus estreitos da escada de Mercúrio,
para elevar-nos, conscientemente, aos
mundos invisíveis, vemos as correntes de O encontro em questão é um aconteci-
vida dos reinos da natureza ondularem mento interior, no centro do microcosmo:
no éter. ele ressoa em total harmonia com o estado
Esses degraus estreitos da escada de Mer- natural original do macrocosmo.
cúrio não dizem respeito às influências
mercurianas que impulsionam os ladrões, A mística do ser no século 21
tais como os comerciantes e os espertos do Fonte de Sabedoria e de Conhecimento, a
mercado, que fazem com que a espoliação Natureza Original, chamada de “Deus” por
do mundo perdure. Esses degraus tam- Espinoza, não tem equivalente. A Sabedo-
bém nada têm a ver com a falsa razão da ria dessa Natureza torna o Amor divino
intelectualidade. Essa escada representa manifesto e ao mesmo tempo ressalta a
a subida mística do ser que pertence à obrigação dos seres humanos de se mani-
Razão – uma subida comparável às núpcias festarem como reflexos do estado natural Fontes
- Het digitale proletariaat (O proletariado
alquímicas espirituais. Um dos primeiros a divino, como microcosmos. Filhos e Filhas digital), H. Schnitzler, ed. De Bezige Bij,
descrevê-la foi J. van Ruusbroec, religioso de Deus. Segundo Paulo, a natureza inteira Amsterdã, 2015
reno-flamengo de Brabant. No século 13, aspira intensamente a essa manifestação. - Vrijheid, gelijkheid en gewinzucht (Liber-
ele viu os perigos da mística natural que Definitivamente, para aqueles que estão té, égalité et lucre), suplemento do jornal
NRC-Handelsblad de 8-10-2015
se comprazia ao Sol do Espírito sem se totalmente atolados na realidade virtual – - Ruusbroec in gesprek met het Oosten
envolver com a ação. Ele descreveu isso em da qual eles são co-autores – percorrer esse Boeddhisme en Christendom (Ruusbroec
sua obra Die Gheestelike Bruloght (As Núpcias caminho, realizar essa completa transfor- dialoga com o Oriente – Budismo e cris-
Espirituais), cujo tema principal se resume mação, na força crística não somente é uma tianismo),
P. Mommaers e J. van Bragt, ed. Averbode/
na injunção que contém a necessária mís- solução atraente como, do ponto de vista Kok Kampen, 1995
tica mágica: ”Vede! Lá vem o Esposo: ide da Sabedoria que é Amor, é uma necessida- - The Nature of the Economy (A natureza
ao seu encontro!” de absoluta. da Economia), I. Leemans, Amsterdã, 2015

60 A armadilha da atual situação econômica


crônica

O ponto cego

A partir de um reflexo instintivo, minha percepção clas- da qualidade excepcional de conciliar os contrários, de
sifica entre o bem e mal, a favor e contra, forçando-me construir pontes.
constantemente a tomar partido. Será que sou obri- Então, reconheço a força do princípio hermético “Assim
gado a suportar esse tirano que me faz aceitar e depois como é em cima, é embaixo”. Sim: descubro isso em
rejeitar aquilo que devo viver? É exatamente isso que mim mesmo. Embaixo, sou dominado pela contrariedade
eu faço! E isso sempre cria um ponto cego, uma zona exercida por minhas opiniões. Mas, assim que me abro,
que escapa à minha visão. É que, no ponto exato situado elas se dissolvem como se fossem penetradas pela força
entre as visões opostas, existem – além daquilo que sou unificadora, que nunca dorme nem cochila. Em todas as
– minhas razões pessoais, que encobrem minha obser- contradições, ela absorve o remédio que me convém. Bas-
vação. Então, a zona central fica no escuro e me vejo ta eu ficar atento e colocar “um pouco de água em meu
em um campo de batalha de opiniões e escolhas, onde (suposto) vinho” – em quantidade suficiente, no entanto!
preciso aceitar fazer uma revisão, passo a passo. No fim, – para chegar a tempo ao caminho do meio.
acabo me perguntando qual o verdadeiro resultado A vida perfeita é inspirar e expirar, receber e doar. Quan-
daquilo que considero sucesso ou fracasso.

A frente da medalha, que conheço muito bem, é a


que mais me convém. Mas quando viro do outro
lado, as duas faces mudam de título e de (suposta)
qualidade! Desse modo, sempre acontece que bem e mal,
a favor e contra, trocam de lugar. O amigo vira inimigo;
Sem a Terra, o Céu é insípido,
sem o Céu, a Terra é inabitável

do ligo minhas percepções ao pensamento hermético,


a proibição, permissão. Minhas convicções vão gostando toda ilusão se dissipa e me coloco frente a frente comigo
cada vez mais dos muros que eu mesmo construo e con- mesmo. Assim, me torno o cadinho do Céu e da Terra. O
tra os quais, sem refletir, sempre me choco. Isso dura até ponto cego que eu era se dissolve gradativamente. Então,
a hora em que renuncio a meu ponto de vista para adotar uma centelha da eternidade se revela! O que inicialmente
outro. Assim, questiono o justiceiro impulsivo e ilumino era pedra de tropeço se transforma em degrau: passa a ser
o outro lado da medalha, deliberadamente dissimulado um chão firme onde a vida se manifesta e sobre o qual
desde o início. posso fazer escolhas livremente.
Essa face oculta sempre me faz compreender: “Considere Sem a Terra, o Céu é insípido. Sem o Céu, a Terra é inabi-
o assunto por outro lado”. Nem sempre é fácil, mas vale tável. Olhe à sua volta: observe quantas pessoas se esque-
a pena! É nesse ponto exato, quando eu temia perder ceram disso!Quando reúno as duas esferas e abandono as
meu prestígio, que meu campo de visão se amplia. Não contradições, vejo em minha frente um novo Céu-Terra.
dizem que é preciso “fazer da necessidade uma virtude”? Então, assumo minhas responsabilidades: sou um co-
Ou que “Nada é tão ruim que não sirva para alguma -construtor do Todo!
coisa”? Essas expressões nos mostram de imediato que Ilustração: Peça de ouro na esfinge de Filippe II da Macedônia, com Apolo
necessidade e virtude são conceitos relativos, dotados no verso (359-356 a.C.)

61
62 Círculo e ponto
símbolo

Círculo e ponto

S
ol – Círculo – Espírito.
O primeiro símbolo é um círculo simples (ser eterno infinito) – um
símbolo antigo e universal de unidade, totalidade e infinito. O segundo
símbolo arcaico é um círculo com um ponto no interior . É a primeira
diferenciação: o Logos Solar, assexuado e infinito, conforme nos ensina A
Doutrina Secreta de H.P. Blavatsky. O ponto é o começo – um ponto de transformação, o
turning point, o ponto de conversão.
Portanto, existem o ponto de partida e a expansão. O conjunto de ponto e círculo
também é o símbolo do sistema solar e do Sol, do microcosmo e do ser humano. O
ponto é o espírito, a semente espiritual, onde e através do qual qualquer desenvol-
vimento é possível. O círculo é a casca, que é o cosmos ou a matriz espiritual, um
espaço sagrado.
A tradição gnóstica associa o círculo fechado com a “serpente do mundo”, o ouro-
boros, uma serpente que morde a própria cauda, formando um círculo. Nesse sen-
tido, o ponto de partida universal está representado no símbolo da Escola Espiritual
da Rosacruz Áurea. O novo símbolo apresenta nove elementos, dispostos em uma
ordem precisa. Essa sequência age em tudo que fazemos como Escola:

• Comece pela simplicidade e singularidade do ponto, o ponto de transformação,


o Espírito, e faça uma conexão consciente com o centro, com a rosa, com o coração
de tudo o que foi revelado, que também está no centro de tudo o que você faz,
mesmo nas coisas menores e aparentemente mais insignificantes;
• Conecte as três forças de sua alma – o triângulo de fogo: seu coração, sua cabeça
e suas mãos – com a fonte, que é a razão, o verdadeiro significado que está em
tudo, e deixe o Espírito em você assumir a liderança de sua alma;
• Sustente sua atividade principal (que é a construção de seu próprio ser, com base
no quadrado) e aplique as quatro forças de sua personalidade a serviço do Espírito
e da Alma: vontade, pensamento, desejo e ação – como os quatro cavalos da
carruagem de Apolo;
• Coloque-se em seguida na universalidade do círculo, que abrange tudo e todos,
e que se estende a todos. Manifeste sua vida envolvendo até as menores coisas,
na forma de uma ligação realmente vivente entre Espírito e vida, através das forças
vivas de sua alma renascida!

O ponto – o ponto de transformação – o Espírito


O triângulo da Alma-Espírito renascida
O quadrado da personalidade transfigurada
O círculo do novo campo de vida,
tudo está aqui, manifestado nesta vida!

63
imagens do mundo

Angel´s Landing (Aterrisagem de anjos) 7 horas da manhã no topo do mundo (Utah, EUA). Direitos Reservados © Dong Nan Xi Bei

O Espírito é o mais sutil de tudo o que pode ser percebido.


O Espírito vai além de qualquer outra coisa e é maior:
ele se subordina somente à divindade suprema, que é eterna,
santa e sublime.

64 imagens do mundo
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Anneke Stokman-Griever, Lex van den Brul Nina Rimat, Missemota Arq‘Design
ISSN 1677-2253
COLABORAÇÕES
• O Sal da Terra
• A atividade da Fraternidade Universal
• Quem sou eu? O que é que me formou?
• Saiba o que você tem de fazer
• Pensamentos de Hermes
• A armadilha da atual situação sócio-econômica

SEÇÕES
• Crítica literária: Paul Levy, Dispelling Wetiko
• Reportagem: Semana de Trabalho dos Jovens Rosa-Cruzes 2015
• Rubrica: O ponto cego
• Simbolismo: Círculo e ponto

ENSAIO
• Platão e sua teoria da Ideia

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