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POEMAS DE AGOSTINHO NETO


A luz brinca na cidade
ADEUS À HORA DA LARGADA o seu quente jogo
de claros e escuros
Minha Mãe e a vida brinca
(todas as mães negras em corações aflitos
cujos filhos partiram) o jogo da cabra-cega.
tu me ensinaste a esperar
como esperaste nas horas difíceis A quitandeira
que vende fruta
Mas a vida vende-se.
matou em mim essa mística esperança
- Minha senhora
Eu já não espero laranja, laranjinha boa!
sou aquele por quem se espera
Compra laranjas doces
Sou eu minha Mãe compra-me também o amargo
a esperança somos nós desta tortura
os teus filhos da vida sem vida.
partidos para uma fé que alimenta a vida
Compra-me a infância de espírito
Hoje este botão de rosa
somos as crianças nuas das sanzalas do mato que não abriu
os garotos sem escola a jogar a bola de trapos princípio impelido ainda para um início.
nos areais ao meio dia
somos nós mesmos Laranja, minha senhora!
os contratados a queimar vidas nos cafezais
os homens negros ignorantes Esgotaram-se os sorrisos
que devem respeitar o homem branco com que chorava
e temer o rico eu já não choro.
somos os teus filhos
dos bairros de pretos E aí vão as minhas esperanças
além aonde não chega a luz elétrica como foi o sangue dos meus filhos
os homens bêbados a cair amassado no pó das estradas
abandonados ao ritmo dum batuque de morte enterrado nas roças
teus filhos e o meu suor
com fome embebido nos fios de algodão
com sede que me cobrem.
com vergonha de te chamarmos Mãe
com medo de atravessar as ruas Como o esforço foi oferecido
com medo dos homens à segurança das máquinas
nós mesmos à beleza das ruas asfaltadas
de prédios de vários andares
Amanhã à comodidade de senhores ricos
entoaremos hinos à liberdade a alegria dispersa por cidades
quando comemorarmos e eu
a data da abolição desta escravatura me fui confundindo
com os próprios problemas da existência.
Nós vamos em busca de luz
os teus filhos Mãe Aí vão as laranjas
(todas as Mães negras como eu me ofereci ao álcool
cujos filhos partiram) para me anestesiar
Vão em busca de vida. e me entreguei às religiões
para me insensibilizar
e me atordoei para viver.
QUITANDEIRA Tudo tenho dado.
Até mesmo a minha dor
A quitanda. e a poesia dos meus seios nus
Muito sol entreguei-as aos poetas.
e a quitandeira à sombra
da mulemba. Agora vendo-me eu própria.
- Compra laranjas
- Laranja, minha senhora minha senhora!
laranjinha boa! Leva-me para as quitandas da Vida
o meu preço é único:
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- sangue. e dividido no espaço!

Talvez vendendo-me Ao passar de tanga


eu me possua. com o espírito bem escondido
no silêncio das frases côncavas
- Compra laranjas! murmuram eles:
Pobre negro!

PARTIDA PARA O CONTRATO E os poetas dizem que são seus irmãos.

O rosto retrata a alma


amarfanhada pelo sofrimento NOITE

Nesta hora de pranto Eu vivo


vespertina e ensangüentada nos bairros escuros do mundo
Manuel sem luz nem vida.
o seu amor
partiu para S. Tomé Vou pelas ruas
para lá do mar às apalpadelas
encostado aos meus informes sonhos
Até quando? tropeçando na escravidão
ao meu desejo de ser.
Além no horizonte repentinos
o sol e o barco São bairros de escravos
se afogam mundos de miséria
no mar bairros escuros.
escurecendo
o céu escurecendo a terra Onde as vontades se diluíram
e a alma da mulher e os homens se confundiram
com as coisas.
Não há luz
não há estrelas no céu escuro Ando aos trambolhões
Tudo na terra é sombra pelas ruas sem luz
desconhecidas
Não há luz pejadas de mística e terror
não há norte na alma da mulher de braço dado com fantasmas.

Negrura Também a noite é escura.


Só negrura...

SÁBADO NOS MUSSEQUES


VELHO NEGRO
Os musseques são bairros humildes
Vendido de gente humilde
e transportado nas galeras
vergastado pelos homens Vem o sábado
linchado nas grandes cidades e logo ali se confunde com a própria vida
esbulhado até ao último tostão transformada em desespero
humilhado até ao pó em esperança e em mística ansiedade
sempre sempre vencido
Ansiedade encontrada
É forçado a obedecer no significado das coisas
a Deus e aos homens e dos seres
perdeu-se
na lua cheia
Perdeu a pátria acesa em vez dos candeeiros
e a noção de ser de iluminação pública
que pobreza e luar
Reduzido a farrapo casam bem
macaquearam seus gestos e a sua alma
diferente Ansiedade
sentida nos barulhos
Velho farrapo e no cheiro a bebidas alcoólicas
negro espalhados no ar
perdido no tempo com gritos de dor e alegria
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misturados em estranha orquestração para ouvir
a vizinha aos gritos
Ansiedade ralhando contra a pobreza do marido
no homem fardado
alcançando outro homem Ouvem-se
que domina e leva aos pontapés choros histéricos
e depois de ter feito escorrer sangue ruído de cadeiras caídas
enche o peito de satisfação respirações ofegantes
por ter maltratado um homem tilintar doloroso
de louça de ferro esmaltado
e a multidão invade a casa
Outros evitarão passar os desavindos expulsam-na
onde o casse-tête derrubou o homem e depois vem a reconciliação
darão voltas com risinhos de prazer
saltarão muros
pisarão espinhos Ansiedade
pés descalços se cortarão nos alto-falantes do cinema
sobre cacos de garrafas de bocas escancaradas
quebradas por crianças inocentes a gritar swings
e cada mulher ao pé das bilheterias
suspirará de alívio enquanto um carrossel
quando o seu homem entrar em casa arrasta em turbilhão de sonho
luzinhas vermelhas verdes azuis
Ansiedade e também
nos soldados que se divertem a troco de dois mil e quinhentos
emboscados à sombra de cajueiros namorados e crianças
a espera de incautos transeuntes
Ansiedade nos batuques saudosos
A intervalos dos kiocos contratados
ais de dor formando lá do acampamento
lancinam ouvidos o fundo de todo o ruído
ferem corações tímidos
e afastam-se passos Lunda sem fronteiras
em correria angustiante a debruar o sussurro
e depois dos risos da matula da ânsia tumultuante
desenfreada
só silêncio mistério lágrimas de ódio Ansiedade
e carnes laceradas na humilde criança
pelas fivelas dos cinturões que foge amedrontada do polícia
de serviço
Ansiedade
nos que passam Ansiedade
à procura do prazer fácil no som da viola
acompanhando uma voz
Ansiedade no homem que canta sambas indefinidos
escondido em recanto escuro deliciosamente preguiçosos
violando uma criança pejando o ar
do desejo de romper em pranto
Sua riqueza calará o pai
e a criança Com a voz
só tarde passa o grito de saudade
clamará contra o destino que a multidão tem dos dias não vividos
dos dias de liberdade
Ansiedade ouvida e a noite
na contenda de taberna bebe-lhes os anseios de vida

Compadres discutindo Ansiedade


escandalosamente nos bêbados caídos nas ruas
velha dívida de cem mil réis alta noite
entre os murmúrios
da numerosa assistência Ansiedade
nas mães aos gritos
Ansiedade à procura de filhos desaparecidos
nas mulheres
que abandonaram os homens nas mulheres que passam embriagadas
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nos que descobrem multidões passivas
no homem esperando a hora
que consulta o kimbanda
para conservar o emprego Nos homens
ferve o desejo de fazer o esforço supremo
na mulher para que o Homem
que pede drogas ao feiticeiro renasça em cada homem
para conservar o marido e a esperança
não mais se torne
na mãe em lamentos da multidão
que pergunta ao adivinho
se a filhinha se salvará A própria vida
da pneumonia faz desabrochar mais vontades
na cubata nos olhares ansiosos dos que passam
de velhas latas esburacadas
O sábado misturou a noite
nas mulheres implorando nos musseques
compaixão com mística ansiedade
a nossas senhoras e implacavelmente
vai desfraldando heróicas bandeiras
nas famílias rezando nas almas escravizadas.
enquanto oram
bêbados urinam na rua
encostados à parede
afastando-se depois CAMINHO DO MATO
a ridicularizar as rezas
que perceberam Caminho do mato
através das persianas das janelas caminho da gente
gente cansada
Ansiedade na kazukuta óóó-oh
dançada à luz do acetileno
ou de candeeiro Petromax Caminho do mato
em sala pintada de azul caminho do soba
cheia de pó soba grande
e do cheiro a suor dos corpos óóó-oh
e de meneios de ancas
e de contatos de sexos Caminho do mato
caminho de Lemba
Ansiedade Lemba formosa
nos que riem e nos que choram óóó-oh
nos que entendem
e nos que respiram sem compreender Caminho do mato
caminho do amor
Ansiedade amor do soba
nas salas de dança óóó-oh
regurgitantes de gente
onde daí a instantes Caminho do mato
o namorado repreende a noiva caminho do amor
insultos são atirados para o ar do amor de Lemba
enchendo o recinto de questões óóó-oh
que extravasam para a rua
acudindo polícias aos assobios Caminho do mato
caminho das flores
Ansiedade flores do amor.
no esqueleto de pau a pique
ameaçadoramente inclinado
a sustentar pesado teto de zinco SINFONIA

e nos quintais A melodia crepitante das palmeiras


semeados de dejetos e maus cheiros lambidas pelo furor duma queimada
nas mobílias sujas de gordura
nos lençóis esburacados Cor
e nas camas sem colchão estertor
angústia
Ansiedade
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E a música dos homens e em cada consciência
lambidos pelo fogo das batalhas inglórias fervilha o temor de se ouvir a si mesma

Sorrisos A História está a ser contada


dor de novo
angústia
Medo no ar!
E a luta gloriosa do povo
Acontece que eu
A música homem humilde
que a minha alma sente. ainda mais humilde na pele negra
me regresso África
1948 para mim
com os olhos secos.

CONTRATADOS
DEPRESSA
Longa fila de carregadores
domina estrada Impaciento-me nesta mornez histórica
com os passos rápidos das esperas e de lentidão
quando apressadamente são assassinados os justos
Sobre o dorso quando as cadeias abarrotam de jovens
levam pesadas cargas espremidos até à morte contra o muro da violência

Vão Acabemos com esta mornez de palavras e de gestos


olhares longínquos e sorrisos escondidos atrás de capas de livros
corações medrosos e o resignado gesto bíblico
braços fortes de oferecer a outra face
sorrisos profundos como águas profundas
Inicie-se a ação vigorosa máscula inteligente
Largos meses os separam dos seus que responda dente por dente olho por olho
e vão cheios de saudades homem por homem
e de receio venha a ação vigorosa
mas cantam do exército popular pela libertação dos homens
venham os furacões romper esta passividade
Fatigados
esgotados de trabalhos Soltem-se em catadupas as torrentes
mas cantam vibrem em desgraças as florestas
venham temporais que arranquem as árvores pela raiz
Cheios de injustiças e esmaguem tronco contra tronco
caladas no imo das suas almas e vindimem folhagens e frutos
e cantam para derramar a seiva e os sucos sobre a terra úmida
e esborrache o inimigo sobre a terra pura
Com gritos de protesto para que a maldade das suas vísceras
mergulhados nas lágrimas do coração fique para sempre aí plantada
e cantam como monumentos eternos dos monstros
a serem escarnecidos e amaldiçoados por gerações
La vão pelo povo martirizado durante cinco séculos
perdem-se na distância
na distância se perdem os seus cantos tristes África gloriosa
África das seculares injustiças
Ah! acumuladas neste peito efervescente e impaciente
eles cantam... onde choram os milhões de soldados
que não ganharam as batalhas
e se lamentam os solitários
CONSCIENCIALIZAÇÃO que não fizeram a harmonia numa luta unida

Medo no ar! Atraia-se o raio sobre a árvore majestosa


para assustar os animais dos campos
Em cada esquina e queimar a insantidade dos santos e dos preconceitos
sentinelas vigilantes incendeiam olhares Rompa aos gritos a juventude da terra e dos corações
em cada casa na irreverente certeza do Amanhã nosso
se substituem apressadamente os fechos velhos apressando a libertação dos amarrados
ao tronco esclavagista
das portas dos torturados no cárcere
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dos sacrificados no contrato através das consciências
dos mortos pelo azorrague e pela palmatória como o presente
dos ofendidos
dos que atraiçoam Não abstrato
e denunciam a própria pátria incolor
entre ideais sem cor
Não esperemos os heróis sem ritmo
sejamos nós os heróis entre as arritmias do irreal
unindo as nossas vozes e os nossos braços inodoro
cada um no seu dever entre as selvas desaromatizadas
e defendamos palmo a palmo a nossa terra de troncos sem raiz
escorracemos o inimigo
e cantemos numa luta viva e heróica Mas concreto
desde já vestido do verde
a independência real da nossa pátria. do cheiro novo das florestas depois da chuva

Cadeia do Aljube de Lisboa, Agosto de 1960 da seiva do raio do trovão


as mãos amparando a germinação do riso
sobre os campos de esperança
CONFIANÇA
A liberdade nos olhos
O oceano separou-me de mim o som nos ouvidos,
enquanto me fui esquecendo nos séculos das mãos ávidas sobre a pele do tambor
e eis-me presente num acelerado e claro ritmo
reunindo em mim o espaço de Zaires Calaáris montanhas luz
condensando o tempo vermelha de fogueiras infinitas nos capinzais
violentados
Na minha história harmonia espiritual de vozes tam-tam
existe o paradoxo do homem disperso num ritmo claro de África

Enquanto o sorriso brilhava Assim


no canto de dor o caminho das estrelas
e as mãos construíam mundos maravilhosos pela curva ágil do pescoço da gazela
para a harmonia do mundo.
John foi linchado
o irmão chicoteado nas costas nuas
a mulher amordaçada NA PELE DO TAMBOR
e o filho continuou ignorante
As mãos violentas insidiosamente batem
E do drama intenso no tambor africano
duma vida imensa e útil e a pele percutida solta-me tantãs gritantes
resultou certeza de sombras atléticas
à luz vermelha do fogo de após trabalho
As minhas mãos colocaram pedras
nos alicerces do mundo Esmago-me na pele batida do tambor africano
mereço o meu pedaço de pão. vibro em sanguinolentas deturpações de mim mesmo
à vontade das percussões alcoólicas
sobre a pele esticada do meu cérebro
O CAMINHO DAS ESTRELAS
Onde estou eu? quem sou eu?
Seguindo
o caminho das estrelas Vibro no couro pelado do tambor festivo
pela curva ágil do pescoço da gazela em europas sorridentes de farturas e turismos
sobre a onda sobre a nuvem sobre a fertilização do suor negro
com as asas primaveris da amizade nas áfricas envelhecidas pela vergonha de serem áfricas
nas áfricas renovadas do brilho firme do sol e
Simples nota musical transformação
indispensável átomo da harmonia sedosa e explosiva do universo
partícula dentro do movimento de mim mesmo na vibração ritmada
germe da pele cerebral do tambor africano
cor ritmada para o esforço de dançar a dança suave das
na combinação múltipla do humano palmeiras

Preciso e inevitável Vibro


como o inevitável passado escravo em áfricas humanas de sons festivos e confusos
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(que línguas pronunciais em mim irmãos Ó vozes dolorosas de África!
que não vos entendo neste ritmo?)

Nunca me pensei tão pervertido A VOZ IGUAL


ó impureza criminosa dos séculos coloniais
(que história é essa da lebre e da tartaruga Neste amanhecer vital
que contas neste novo ritmo de fogueira para os acontecimentos extraordinários
à noite por montes e rios, por anharas e preconceitos
minha avozinha de pele negra de África) caminhamos já vitoriosos
sobre a condição moribunda
Mas não tão longe nem tão pervertido
quanto as vibrações Uma amanhecer vital
da pele do meu cérebro em que se transformam as sensações orgânicas
esticada no tambor das minhas mãos sobre o solo pátrio
pela África humana
As flores apenas pétalas e aroma
As mãos entrelaçadas sobre mim os homens apenas homens
em gozo de vida em gargalhadas em alegrias o lavrador possuindo a terra em associação perene
de lagos libertados por amplos verdes o operário da fábrica consciencialiando a máquina
para os mares e a nossa voz gritando igual no seio da Humanidade
dão-me o tom da minha áfrica na mesma hora em que a mentira
dos povos negros do continente que nasce se esconde na covarde violência

fora dos abismos escurecidos da negação os homens saídos dos cemitérios da ignorância
ao lado de ritmos de dedos congestionados das ossadas insepultas dos arrabaldes das cidades
sobre a pele envelhecida do tambor nas sanzalas e nas terras estéreis
dentro do qual vivo e vibro e clamo: são os eleitos
avante! os participantes efetivos no festim da nova vida
1953 e das suas vicissitudes

Os homens
FOGO E RITMO cuja voz descansou sob a condição e sob o ódio
e construíram os impérios do Ocidente
Sons de grilhetas nas estradas as riquezas e as oportunidades da velha Europa
cantos de pássaros mantendo os seus pilares sobre a angústia pulsátil dos
sob a verdura úmida das florestas braços
frescura na sinfonia adocicada sobre a indignidade e a morte dos seus filhos
dos coquerais os homens sacrificados nos traços paralelos das vias
fogo férreas
fogo no capim cujo sangue se encontra nas armagamassas
fogo sobre o quente das chapas do Cayatte lançado com pontes e estradas
também prenderam as águas nas barragens
Caminhos largos com as suas mãos formidáveis e com os seus mortos
cheios de gente cheios de gente deram ao brilho das metrópoles ouro e diamantes
cheios de gente e das entranhas da terra mungiram óleos e fartura
em êxodo de toda a parte para os sorrisos ingratos
caminhos largos para os horizontes fechados e na sua bondade na sua visionária esperança
mas caminhos pediram às estrelas
caminhos abertos por cima apenas o complemento espiritual do dia escravo
da impossibilidade dos braços. Povo genial heroicamente vivo
onde outros pereceram
Fogueiras de vitalidade inultrapassada na História
dança alimentou continentes e deu ritmos à América
tam - tam deuses e agilidade nos estádios
ritmo centelhas luminosas na ciência e na arte

Ritmo na luz Povo negro


ritmo na cor homens anônimos no espírito da triste vaidade branca
ritmo no som agora construindo a nossa pátria
ritmo no movimento a nossa África
ritmo nas gretas sangrentas dos pés descalços e no traço luminoso dos dias magníficos de hoje
ritmo nas unhas arrancadas definem a África solidária e esforçada
Mas ritmo contra os desvarios duma natureza incongruente
ritmo na independência
num mundo novo com a voz igual
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reencontrar-se nas tradições e nos caminhos feiticeiros
Chegada a hora das transformações cósmicas no medo no furor dos rios e cataratas
que atingem a terra e catalisam os fenômenos na floresta na religião na filosofia
o raio mortífero da revolução a essência para a nova vida de África

pulveriza a submissão do homem Ressuscitar o homem


e na força da amizade se encontram as mãos nas explosões humanas do dia a dia
se beijam as faces na marimba no chingufo no quissange no tambor
no movimento dos braços e corpos
Na hora das transformações humanas
o chilreio infantil da mocidade feliz nos sonhos melodiosos da música
cantando em rodas ensaiadas pelos avós na expressão do olhar
falando nas nossas línguas a tradição da nossa terra e no acasalamento sublime da noite com o luar
harmonizando as vozes na hora da independência da sombra com o fogo do calor com a luz
reconquistando o solo pátrio a alegria dos que vivem com o sacrifício gingado dos dias
para o nosso homem
preenche-lhe o vazio Reencontrar
Cantam nas praças e nos templos da sabedoria nos sagrados refúgios das horas de angústia
as raparigas os poetas o brilho das estrelas os homens perdidos nos labirintos alcoólicos
mergulhadas as raízes no húmus ancestral da África vícios da escravidão
e socorro extremo para a fome crônica
Chegados à hora dos dias de frio e de calor de tristeza e de alegria
fervilha a impaciência nos corações que lutam dos dias de farra e dos dias de rusga
pelo fumegar das fábricas e chiar dos guindastes dos minutos importantíssimos da existência [imediata
homens e rodas, suor e ruído imprevisível indispensável
conjugados na construção da pátria libertada com ódios amizades traições riso choro força
conscientemente na construção da pátria fadiga energia ânimo desânimo silêncio
sem que o germe da exploração lhe penetre ruídos de terremoto soltos pelas mãos
ansiosas de êxito e de esquecimento
sem que a voz nauseabunda do capataz e de sonoras palavras nas letras das músicas desesperadas
anuncie o cair do chicote lançadas nos bailes de sábado sobre as poeiras dos quintais
e os homens felizes na incomodidade de hoje e o desejo incontido de se realizar
nos campos de batalha, nas prisões, no exílio de ser homem
construindo o Amanhã, para uma terra nossa uma pátria de encontrar o calor supremo na superfície carnal do outro
nossa a voz amiga na laringe longínqua do outro
independente afagando um pouco a vida
num artifício monstro da liberdade ansiada
Construção
e Reencontrar nos álcoois
reencontro No sangue demoníaco das entranhas feiticistas da terra
onde se espelham os horizontes infernais da morte
Chegados à hora e se cruzam razão e loucura
caminha o povo infatigável para o reencontro bílis amaríssima no encarceramento da prudência
para de novo se descobrir e fazer e da capacidade
nas melodias e nos cheiros ancestrais buscar nos álcoois
na modificação progressiva dos sacrifícios aos deuses o amor à cultura à investigação à criação
nas violências sagradas e nos ritos sociais à explicação dos cosmos
na revivificação e na carinhosa adoração dos mortos o domínio da seta veloz sobre a vida do antílope
no respeito dos vivos
nas orgíacas práticas do nascimento e da morte da água sobre as chamas ateadas pelo raio
na iniciação da vida e do amor a forma e o âmago
no milagroso pacto entre o homem e o cosmos do estilo africano de vida

Reencontrar a África no sorriso Do caos para o reinício do mundo


no choque diário com os fantasmas da vida para o começo progressivo da vida
na consagração da sabedoria e da paz entrar no concerto harmonioso do universal
livres do constrangimento livres da opressão livres digno e livre
povo independente com voz igual
Reencontrar-se nos campos de trabalho a partir deste amanhecer vital sobre a nossa esperança.
na socialização
na entreajuda gloriosa nos campos Ponta do Sol, Arquipélago de Cabo Verde,
nas construções Dezembro de 1960
nas caçadas
na coletivização das catástrofes e alegrias
na congregação dos braços para o trabalho O IÇAR DA BANDEIRA
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(Poema dedicado aos Heróis do povo angolano) O dia estava escolhido
e chegava a hora
Quando voltei
as casuarinas tinham desaparecido da cidade Até o riso das crianças tinha desaparecido
e também vós
E também tu meus bons amigos meus irmãos
Amigo Liceu Benje, Joaquim, Gaspar, Ilídio, Manuel
voz consoladora dos ritmos quentes da farra e quem mais?
nas noites dos sábados infalíveis - centenas, milhares de vós amigos
alguns desaparecidos para sempre
Também tu para sempre vitoriosos na sua morte pela vida
harmonia sagrada e ancestral
ressuscitada nos aromas sagrados do Ngola Ritmos Quando eu voltei
Também tu tinhas desaparecido qualquer coisa gigantesca se movia na terra
e contigo os homens nos celeiros guardavam mais
os Intelectuais os alunos nas escolas estudavam mais
a Liga o sol brilhava mais
o Farolim e havia juventude calma nos velhos
as reuniões das Ingombotas mais do que esperança era certeza
a consciência dos que traíram sem amor mais do que bondade era amor

Cheguei no momento preciso do cataclismo matinal Os braços dos homens


em que o embrião rompe a terra umedecida pela chuva a coragem dos soldados
erguendo planta resplandecente de cor e juventude os suspiros dos poetas

Cheguei para ver a ressurreição da semente Tudo todos tentavam erguer bem alto
a sinfonia dinâmica do crescimento da alegria nos homens acima da lembrança dos heróis
E o sangue e o sofrimento Ngola Kiluanji
eram uma corrente tormentosa que dividia a cidade Rainha Ginga
Todos tentavam erguer bem alto
Quando eu voltei a bandeira da independência.

In: NETO, Agostinho. Sagrada Esperança. 10ª ed.


Lisboa, Sá da Costa, 1978.

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