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16/02/2017 Acórdão 

do Supremo Tribunal de Justiça

Acórdãos STJ Acórdão do Supremo Tribunal de Justiça
Processo: 70/10.3PPLSB
Nº Convencional: 3ª SECÇÃO
Relator: ARMINDO MONTEIRO
Descritores: SEQUESTRO
VIOLAÇÃO
BEM JURÍDICO PROTEGIDO
FACTOS PROVADOS
COACÇÃO
VIOLÊNCIA
MEDIDA CONCRETA DA PENA
Data do Acordão: 23­02­2011
Votação: MAIORIA COM * VOT VENC
Texto Integral: S
Privacidade: 1
Meio Processual: RECURSO PENAL
Decisão: NEGADO PROVIMENTO
Sumário :

I ­ A violação é um grave atentado à liberdade sexual de outra pessoa e
a amplitude da sua moldura penal [de 3 a 10 anos de prisão – cf. art.
164.º, n.º 1, al. a)], reflecte a perspectiva do legislador quanto à
importância daquele bem jurídico atingido.
II ­ O descritivo típico não abdica do uso de violência, ameaça grave,
colocação em estado de inconsciência ou impossibilidade de resistir,
que levem ou constranjam outra pessoa a sofrer cópula consigo [art.
164.º, n.º 1, al. a)] ou, ainda, à introdução vaginal ou anal de partes do
corpo ou de objectos [art. 164.º, n.º 1, al. b)].
III ­ A violência é, tanto a física, como a psíquica, ambas ganhando, no
caso em apreço, relevo e dimensão: foi a insistência do recorrente em
manter relações de sexo com T, que recusou, mas que foi compelida,
também por J, companheira daquele, que lhe bateu com uma camisola
molhada – ante a persistência da recusa –, gerando­se em seu torno um
clima de medo e temor pela sua integridade física, que levou T a anuir,
constrangida e enfraquecida psicologicamente, àquele relacionamento
constrangido, à margem de consentimento espontâneo e livre, assim se
mostrando configurada a acção típica. 
IV ­ De seguida o recorrente e J levaram T até à zona de …., a fim
desta angariar clientes para com eles se prostituir e, durante todo o
tempo em que aí esteve, os movimentos de T foram controlados por
aqueles; não tendo conseguido angariar ninguém, regressaram os três à
habitação e o recorrente trancou T dentro de um quarto cuja porta
fechou à chave, impedindo­a de sair e ali a deixando, durante horas até
à parte da manhã do dia seguinte, contra a sua vontade. 
V ­ Preenchidos os tipos legais de violação e de sequestro, na
determinação da medida concreta da pena, deve sublinhar­se que o
recorrente agiu com firme vontade criminosa, demonstrando forte
desprezo e indiferença pelo seu semelhante, especialmente com o sexo
oposto; conta já com condenações por crime de roubo, dano e
receptação; não tem ocupação laboral certa, nem está integrado
familiarmente; mantém o expresso propósito de continuar a consumir
haxixe; o grau de ilicitude é elevado no modo de execução do crime de
sequestro e as necessidades de prevenção geral e especial, nenhum
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reparo há a fazer às penas aplicadas em 1.ª instância [3 anos e 9 meses
e 1 ano e 4 meses de prisão, para os crimes de violação e de sequestro,
respectivamente e, em cumulo jurídico, na pena única de 4 anos e 3
meses de prisão].
Decisão Texto Integral: Acordam em conferência na Secção Criminal do Supremo Tribunal de
Justiça:
Em P.º comum com intervenção tribunal colectivo sob o
n.º70/10.3PPLSB, na 8.ª Vara Criminal da Comarca de Lisboa , foi
submetido a julgamento AA , decidindo­se , a final , condená­lo:
pela prática de um crime de um crime de violação, previsto e punível
pelo artigo 164º, nº 1, do Código Penal, na pena de 3 (três) anos e 9
(nove) meses de prisão;
pela prática de um crime de um crime de sequestro, previsto e punível
pelo artigo 158º, nº 1, do Código Penal, na pena de 1 (um) ano e 4
(quatro) meses de prisão;
a) em cúmulo jurídico das penas parcelares na pena unitária de 4
(quatro) anos e 3 (três) meses de prisão;
I . O arguido , inconformado com o teor do decidido , interpõs recurso
para a Relação , entretanto endereçado a este STJ , apresentando na
motivação as seguintes conclusões :
A ofendida consentiu manter relações sexuais consigo
O tribunal louvou­se , apenas , para condenar no depoimento da
testemunha CC , sendo que a ofendida BB não compareceu em
julgamento , além de não revelar vestígios de violação .
Deve ser absolvido , provendo­se ao recurso .
Quando muito , se não for absolvido , deve o arguido ser condenado em
multa pelo sequestro e 3 anos de prisão pelo crime de violação
E assim conclui .
II . O M.º P.º opôs­se à sua pretensão e neste STJ a Exm.ª Procuradora
Geral­Adjunta apõs o seu visto .
Colhidos os legais vistos , cumpre decidir , considerando que se provou
o seguinte factualismo :
1_A ofendida BB, de 19 anos de idade, conheceu CC, de 15 anos de
idade, cerca de um mês antes dos factos, pelo menos, num café
denominado "Brown's", sito na zona da Baixa­Chiado, estabelecendo­
se, desde então, uma relação de amizade.
2_ BB e CC, trocaram de números de telemóvel e mensagens por
telemóvel e combinaram encontros. Começaram por ter uma relação de
amizade que evoluiu para uma cumplicidade amorosa entre ambas.

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3_ No decurso dessa relação amorosa havida entre as duas, saíram
juntas.
4_ CC visitou BB, duas vezes, pelo menos, no Bairro da Bela Vista.
5_ BB e CC continuaram a relacionar­se, desde então, tendo aquela
confessado a esta, determinado dia, que estava a ter problemas na casa
onde pernoitava, da amiga de nome DD.
6_ Na sequência do que lhe foi confessado por AA, CC convidou­a
para ir morar consigo, no quarto da residencial onde estava a residir,
tendo o convite sido aceite .
7_ A mudança de BB para o quarto nº ... da residencial denominada
".....", sita na Rua ......, nº ...., ...., no Bairro Alto, em Lisboa, onde
residia CC ocorreu na quinta­feira, dia 11 de Março de 2010.
8_Quando aceitou o convite, BB pensava que o quarto era ocupado
apenas por CC.
9_ Ao chegar à residencial, BB apercebeu­se que no mesmo quarto
onde a CC disse que vivia, residia também o arguido AA.
10_ BB pernoitou com ambos, nesse quarto, de quinta­feira para sexta­
feira.
11_ BB estava convencida que a relação entre a CC e o arguido AA era
de mera amizade.
12_ CC foi residir com o arguido AA após ter fugido do colégio onde
se encontrava.
13 _ O mencionado quarto nº15 onde dormiram BB, CC e o arguido
AA encontrava­se registado em nome deste e dispõe apenas de uma
cama de solteiro, um móvel para arrumação de roupa (que continha
roupa de CC e do arguido), e um lavatório, localizando­se a casa de
banho no exterior do quarto.
14_ Na noite de quinta­feira, dia 11 de Março de 2010, BB e CC
dormiram juntas na cama e o arguido dormiu, no chão, sobre um
cobertor.
15_ Nessa noite, no quarto nº15 onde também se encontrava o arguido
AA, BB e CC trocaram carícias entre si.
16_ Na sexta­feira, dia 12 de Março de 2010, o arguido AA saiu pelas
9horas e regressou pelas 17horas e 30 minutos do mesmo dia,
encontrando­se, então, no quarto, apenas a ofendida BB.
17_ Nesse dia, o arguido falou sobre sexo com BB, elogiou o corpo
desta e disse­lhe sentir­se atraído.
18 _ Apesar das conversas de teor sexual e insinuações do arguido, BB
recusou­se a manter relações sexuais com este.

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19_ Na sexta­feira, BB ficou assustada com o teor das conversas do
arguido.
20_ Na sexta­feira, o arguido dormiu na cama.
21_ Na manhã de sábado, dia 13 de Março de 2010, o arguido AA
ausentou­se e só regressou ao quarto da parte da tarde.
22_ Nessa tarde, o arguido falou com BB sobre sexo e manifestou que
pretendia manter relações sexuais com esta.
23_ BB mostrou­se assustada com a conversa e quase chorou.
24_ No quarto, na presença de CC, o arguido insistiu que queria ter
relações sexuais com BB, proferindo, entre outras, as seguintes
palavras "quero espetar­te o pau" .
25_ CC participou na conversa, tomando o partido do arguido e tentou
convencer BB a aceitar ter relações sexuais com aquele.
26_ CC decidiu colaborar com o arguido AA de forma a conseguir que
este mantivesse relações sexuais com BB, não obstante esta se recusar.
27_ CC deixou, no quarto, um bilhete por si escrito dirigido ao arguido
AA dizendo, para além do mais, o seguinte: “ Ela agora é nossa puta de
serviço! Vou pôr­te a dar uma grandafoda com ela. Juro­te Mano ... Até
já ... amo­te".
28_ O arguido AA leu esse bilhete.
29_ No quarto, o arguido disse à BB que se queria masturbar.
30_ CC agarrou numa camisola molhada e bateu com essa peça de
vestuário no corpo de BB, para a forçar a despir­se.
31_ Temendo pela sua integridade física, BB acabou por ceder e
despiu­se.
32_ Após, CC saiu do quarto, permanecendo junto à porta do mesmo,
no corredor, deixando BB sozinha com o arguido.
33_ O arguido colocou um preservativo no seu pénis.
34_ O arguido manteve, então, com BB, e contra a vontade desta,
relações sexuais de cópula completa até ejacular.
35_Ao terminar, o arguido retirou o preservativo e colocou­o no
interior do saco do lixo.
36_Nessa noite, o arguido, CC e BB dirigiram­se os três até à zona do
Cais do Sodré.
37_ BB permaneceu numa esquina durante cerca de uma hora/hora e
meia.
38_Durante esse período , os movimentos de BB foram controlados, ou
pelo arguido, ou por CC.
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39_ BB permaneceu até cerca das 3 horas e 30 minutos, no local, à
espera de clientes que com ela quisessem manter relações sexuais a
troco de dinheiro, sendo a rua frequentada por prostitutas.
40_Como a BB não conseguiu angariar nenhum cliente, regressou ao
quarto, com o arguido e CC.
41_ Aí chegados, o arguido trancou a porta do quarto à chave,
impedindo BB de sair, tendo aí permanecido contra a sua vontade até à
parte da manhã do dia seguinte.
42_ No dia 14 de Março de 2010, após o arguido sair do quarto, CC
disse à BB que só a deixava ir e levar as suas coisas (as duas malas),
caso ela se dirigisse à residência onde anteriormente residira com DD e
ali se apoderasse de um telemóvel pertencente às pessoas que aí
residiam, bem que depois lhe deveria ser entregue.
43_ BB abandonou o quarto, após essa conversa com CC.
44_ No dia 15 de Março de 2010, BB dirigiu­se a uma esquadra da PSP
onde apresentou queixa.
45_ BB deslocou­se ao Hospital de São Francisco Xavier, no dia 15 de
Março de 2010, onde foi submetida a Perícia Médico­ Legal.
46_ Ao obrigar BB a manter consigo relação sexual de cópula
completa, o arguido agiu com o propósito de se satisfazer sexualmente
e de manter relações sexuais vaginais, anais e orais.
47_ O arguido agiu deliberada, livre e conscientemente, querendo e
conseguindo manter com BB relações sexuais vaginais de cópula
completa, contra a vontade da mesma.
48_ BB esteve, durante horas, fechada no referido quarto, contra a sua
vontade e limitada nos seus movimentos.
49_ BB ficou assustada em consequência de ter estado, durante horas,
fechada no referido quarto, contra a sua vontade e limitada nos seus
movimentos, e ter sido obrigada a manter relacionamento sexual com o
arguido contra a sua vontade.
50_O arguido agiu do modo descrito, querendo e sabendo que desse
modo estava a cercear a liberdade de BB como efectivamente veio a
acontecer.
51_ O arguido tinha conhecimento de tais factos e quis agir como o fez.
52_ Agiu o arguido, sempre, de modo livre, deliberado e consciente.
53_ Nas descritas condutas o arguido agiu, em comunhão de esforços e
de intentos, com a menor CC, cada um ciente e aceitando o resultado
das condutas do outro, bem sabendo serem as mesmas proibidas e
punidas pela lei penal.

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54 _ As malas de BB, recuperadas pela Polícia Judiciária, foram­lhe
entregues, posteriormente.
55_ A menor CC tinha, à data dos factos, 15 anos de idade.
56_ CC já sabia que o arguido tinha vontade de estar com BB e já lhe
tinha dito que ia arranjar um "caldinho" entre os dois.
57_ na manhã de domingo, o arguido levantou­se e saiu para o exterior
do prédio.
58_ No Domingo, após BB se ausentar, o arguido não a voltou a ver.
59_ Na manhã seguinte, segunda­feira, a Polícia entra no quarto.
60_ A partir desse dia, o arguido não viu mais BB.
61_ O arguido AA foi condenado nas seguintes penas
por sentença transitada em julgado em 29/9/2000, proferida no
Processo nº 606/95.8SVSB da 2ª secção do 2º Juízo do Tribunal
Criminal de Lisboa, pela prática, em 5/4/1995, de um crime de roubo,
previsto e punível pelo artigo 306º, nº1, do Código Penal de 1982, na
pena de 14 (quatorze) meses de prisão, suspensa na execução pelo
período de dois anos e declarada extinta por despacho proferido em
7/5/2003;
a) por sentença, proferida em 3/6/2004, transitada em julgado em
2/5/2005, proferida no Processo nº 207/2003.9PGLRS do 1º Juízo
Criminal do Tribunal de Pequena Instância de Loures, pela prática, em
20/2/2003, de um crime de dano, previsto e punível pelo artigo 212º,
nº1, do Código Penal de 1982, na pena de 45 (quarenta e cinco) dias de
multa, à taxa diária de €2 (dois euros), substituída por trinta dias de
prisão, suspensa na execução, por despacho de 20 de Março de 2003, e
declarada extinta por despacho proferido em 14/9/2006;
b) Por sentença, proferida em 5/6/2009 e transitada em julgado em
25/6/2009 proferida no Processo nº 564/04.0PGLRS do 2º Juízo do
Tribunal Criminal de Loures, pela prática, em 29/5/2004, de um crime
de receptação, previsto e punível pelo artigo 231º do Código Penal, na
pena de 6 (seis) meses de prisão, substituída por 180 (cento e oitenta)
dias de multa, à taxa diária de € 2 (dois euros),declarada extinta por
despacho proferido em 21/12/2009.
62_ O arguido tem pendentes os processos com o NUIPC
7/09.2PKLSB (ilícito indiciado : crime de roubo); NUIPC
179/07.0PWLSB (ilícito indiciado : crime de resistência e coacção
sobre funcionário); NUIPC 519/02.9PSLSB (ilícito indiciado: crime de
ameaça e coacção); NUIPC 000606/95.8SVLSB (ilícito indiciado :
crime de roubo); NUIPC 479/05.4PRLSB (ilícito indiciado : crime de
roubo); NUIPC 000606/95.8SVLSB (ilícito indiciado : crime de
roubo); NUIPC 714/95.5SVLSB (ilícito indiciado : crime de roubo); e
o NUIPC 715/95.3SVLSB (ilícito indiciado : crime de roubo).

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63_ O arguido é oriundo de uma família numerosa, tendo oito filhos. A
mãe do arguido deixou o agregado quando este era criança, tendo
ficado, então, com dois irmãos, à guarda do seu progenitor, integrando
o agregado da avó paterna. No seu processo de crescimento, a avó
paterna constituiu importante figura de referência.
64_ Abandonou a actividade escolar com cerca de 12/13 anos de idade,
não tendo concluído a 4ª classe de escolaridade.
65_ Inicia actividade laboral aos 16 anos de idade, como empregado de
mesa, num restaurante, e que abandonou, decorrido um ano, por
interferência do progenitor.
66_ Até aos 21 anos de idade , manteve­se sem ocupação laboral.
67_ Aos 18 anos de idade, inicia o consumo de produto estupefaciente
(heroína), tendo efectuado, com êxito, tratamento de recuperação à sua
problemática de dependência.
68_ Aos 21 anos de idade, iniciou a vida em comum com uma
companheira, tendo um filho dessa relação, actualmente com onze anos
de idade e à guarda da progenitora.
69_ Decorridos três anos, ocorreu a separação, tendo o arguido
regressado para o agregado familiar da sua avó paterna e retomado o
consumo de produto estupefaciente (heroína).
70_ Permaneceu no agregado da avó paterna durante pouco tempo,
passando a residir na rua e sem paradeiro certo.
71_ Manteve, por seis anos, o consumo de produto estupefacientes –
heroína e cocaína.
72_ Esteve internado no Hospital Júlio de Matos, por um curto período
de tempo.
73_ Posteriormente, foi acolhido por uma irmã, no quarto onde esta
residia.
74_ À data dos factos, a sua ocupação era arrumar carros, obtendo
dessa forma a quantia diária de cerca de € 25 (vinte e cinco euros).
75_ Residia no quarto nº.... da Residencial “........”, sita na Rua da ........,
no Bairro Alto, em Lisboa, situação que já se verificava há algumas
semanas, sendo a sua subsistência assegurada com a quantia obtida
como arrumador de carros.
76_ Estava abstinente do consumo de drogas duras, mantendo o
consumo de haxixe .
77_ Não tinha projectos de vida definidos.
78_ Com o falecimento da sua avó paterna, facto entretanto ocorrido, e
sendo ténues os laços estabelecidos entre si e o seu pai, o arguido não
possui referências familiares consistentes.
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79_ Expressou o propósito de, restituída que lhe seja a liberdade,
retomar o consumo de haxixe.
80_ Manifesta o propósito de ter uma ocupação laboral na área da
pavimentação ou prestar trabalho, como polivalente, na construção
civil.
III . O arguido suscita a questão da falta de comprovação do crime de
violação , e subsidiariamente, a medida concreta da pena , a entender­se
diferentemente , pugnando, também , por uma pena de multa para o
crime de sequestro e a redução a 3 anos de prisão , quanto à violação ,
mas em todo o caso ambas de suspender na sua execução .
A anomalia da insuficiência da prova para a decisão de facto proferida
não se confunde com a insuficiência da matéria de facto para a decisão
de direito, vício previsto no art.º 410º n.º 2 a) , do CPP , tendo lugar
sempre que o tribunal se quedou por uma deficiente fixação dos factos ,
não indagando , sendo­lhe possível , factos resultantes da acusação ,
defesa e os que emanaram da discussão da causa , de relevo à decisão
da causa segundo as várias soluções plausíveis da questão de direito .
A insuficiência da prova produzida em julgamento que o arguido
aponta no sentido de autorizar a conclusão de que a ofendida consentiu
na cópula é insindicável por este STJ ; este STJ não controla a
valoração do elenco factual fornecido pelas provas a que as instâncias
procederam , porque não teve contacto imediato com elas , ao nível da
imediação , concentração e oralidade , princípio que conhece excepções
pois nem tudo o que respeita à aquisição de matéria de facto é matéria
de facto , cabendo ao tribunal de recurso averiguar a legalidade do uso
dos poderes de livre apreciação dos meios de prova e , particularmente
do princípio “ in dubio pro reo “ , para que o arguido apela , enquanto
limite normativo daquele princípio de livre apreciação , reservando­se a
aplicação do princípio para os casos em que se conclua que o tribunal ,
face a um estado de dúvida , decidiu em desfavor do arguido ou , então
, quando pelo simples exame da decisão recorrida , por si só ou em
conjugação com as regras da experiência comum , ressalte essa dúvida
razoável , nomeadamente por erro notório na apreciação da prova –Acs.
deste STJ , de 6.12.2006 , P.º n.º 06P3520 , 15.2.2007 , P.º n.º 3174705­
3.ª SEC. e de 8.7.2004 , P.º n.º 1121/04­5.ª .
Vale dizer que o diferente juízo de convicção expresso pelo arguido em
sobreposição ao do tribunal de condenação não correspondendo a
válida impugnação da matéria de facto , que se mantém intocável face à
livre apreciação a que as provas são submetidas, nos termos do art.º
127.º , do CPP , de que se excepcionam os documentos autênticos , a
confissão e a prova pericial
A livre apreciação das provas significa que o julgador em face dos
resultados da indagação em julgamento não é determinado por critérios
formais , sendo , antes , a convicção probatória do julgador aquela que
assuma através de um juízo objectivo­material , atípico e concreto ,
segundo o mérito do caso concreto . Ao contrário do que sucede no
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sistema de prova legal , no qual a conclusão probatória é pré­fixada
legalmente , mediante inferências probatórias prescritas por lei em
abstracto relativamente a cada meio de prova e ao modo como é
utilizado e de aplicação formal e obrigatória para o juiz .
No sistema de apreciação livre o julgador toma a liberdade de formar a
sua convicção sobre a realidade , os factos , a feição do caso submetido
a apreciação , com base no juízo que advém e se inspira no caso
concreto , na sua individualidade histórica , tal como exposto e
adquirido representativamente no processo ( Cfr. Prof. Castanheira
Neves , Sumários de Processo Penal , 1967/69, Os princípios
Fundamentais do Direito Processual Criminal , pág. 47 e segs.) .
De acordo com o princípio da livre convicção probatória o tribunal
podia alicerçar a sua convicção numa só testemunha ,
independentemente da existência de vestígios orgânicos de violência
física da cópula e de a ofendida não ter comparecido à audiência , mas
o tribunal até complementou esse elemento de prova com outros,
relevando , por ex.º , ainda , para a convicção probatória do colectivo a
informação de serviço, de fls. 2 e 3, o auto de denúncia, relatórios
periciais, relatos de diligência externa, os autos de busca e de apreensão
de fls. 20 e 21, a reportagem fotográfica de fls. 21 a 24 , os fotogramas
de fls. 27 a 29;o papel, manuscrito de fls. 25; a folha junta a fls. 26,
manuscrita; o auto de apreensão de fls. 53 e fotogramas de fls. 54 o
termo de entrega de fls. 72; o exame pericial ao telemóvel apreendido
ao arguido, de fls. 73 a 82 e a ficha biográfica , de fls. 97 e 98;
IV . Donde manter­se intocável a matéria de facto fixada pelo tribunal ,
destacando –se de forma sintética , que o arguido no dia 13 de Março
de 2010, no Bairro Alto , em Lisboa , no quarto onde este vivia com a
testemunha , a menor CC, na presença desta, manifestou o desejo de
manter relações sexuais com BB que se mostrou “assustada” , quase
chorando . , ante essa proposta ,
O arguido insistiu que queria ter relações sexuais , tomando a CC o
partido do arguido, tentando convencer a BB a aceitar ter relações
sexuais com aquele, apesar daquela recusar , terminando por agarrar
numa camisola molhada e bater com essa peça de vestuário no corpo de
BB, para a forçar a despir­se.
Temendo pela sua integridade física, BB acabou por ceder e despiu­se.
O arguido manteve, então, com BB, e contra a vontade desta, relações
sexuais de cópula completa até ejacular.
Ao obrigar BB a manter consigo relação sexual de cópula completa, o
arguido agiu com o propósito de se satisfazer sexualmente e de manter
relações sexuais .
Um parêntesis : O colectivo teve como credível o depoimento da menor
CC , mantido em “circunstâncias que lhe eram desfavoráveis” ,

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enfatizando que a ofendida foi forçada a despir­se , manteve relações
sexuais contra a sua vontade e num clima de medo .
V.A violação é um grave atentado à liberdade sexual de outra pessoa ,
por isso a amplitude da moldura penal ­3 a 10 anos de prisão , nos
termos do art. º 164.º n,º 1 a) , do CP –reflecte a perspectiva do
legislador quanto à importância daquele bem jurídico atingido .
O descritivo típico não abdica do uso de violência , ameaça grave ,
colocação em estado de inconsciência ou impossibilidade de resistir ,
que levem , constranjam outra pessoa a sofrer cópula consigo –n.º 1 a)
–ou , ainda , e , nos termos da al.b) , à introdução vaginal ou anal de
partes do corpo ou mesmo objectos .
A violência é , tanto a física , como a psíquica , ambas ganhando, no
caso, relevo e dimensão de causa , pois foi a insistência do arguido em
manter relações de sexo com a ofendida , que recusou , compelida ,
também , pela CC , que lhe bateu com uma camisola molhada , ante a
persistência na recusa, gerando –se em seu torno um clima de medo e
temor pela sua integridade física , que levou a ofendida a anuir, coagida
e enfraquecida psicologicamente , àquele relacionamento constrangido
, à margem de consentimento espontâneo e livre na cópula, mostrando­
se configurada a acção típica .
O crime de violação , que deixou de ser crime de mão própria , agrega
à cópula , equiparando­os , os actos de penetração vaginal e anal , está
numa relação de concurso aparente ( regra da especialidade ) com a
coacção sexual , visto que os actos sexuais mais graves de violação
integram os menos graves de coacção sexual ; a violação é uma
especialização da coacção sexual ( cfr. Comentário do Código Penal ,
pág. 508 , de Paulo Pinto de Albuquerque )
V. Após terminar a relação sexual o arguido, CC e BB dirigiram­se os
três até à zona do Cais do Sodré., a fim de a última angariar clientes
para com eles se prostituir .
BB permaneceu numa esquina durante cerca de uma hora/hora e meia.
Durante esse período , os movimentos de BB foram controlados, ou
pelo arguido, ou por CC.
BB permaneceu até cerca das 3 horas e 30 minutos, no local, à espera
de clientes que com ela quisessem manter relações sexuais a troco de
dinheiro, sendo a rua frequentada por prostitutas.
Como a BB não conseguiu angariar nenhum cliente, regressou ao
quarto, com o arguido e a CC
Aí chegados, o arguido trancou a porta do quarto à chave, impedindo
BB de sair, tendo aí permanecido contra a sua vontade até à parte da
manhã do dia seguinte.
A BB esteve, durante horas, fechada no referido quarto, contra a sua
vontade e limitada nos seus movimentos.
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O arguido privou­a assim , em absoluto , contra a sua vontade , do
direito fundamental de liberdade da sua deslocação , de movimentação,
trancando­a , à chave , por horas , no interior do quarto , onde a violara
, crime de sequestro punível com pena de prisão até 3 anos ou com
pena de multa , nos termos do art.º 158.º n.º 1 , do CP .
Se ao crime forem aplicáveis , em alternativa , prisão ou multa , o
tribunal dá preferência à segunda sempre que esta realize de forma
adequada e suficiente as finalidades da punição –art.º 70.º , do CP
As finalidades da punição –art.º 40.º , do CP ­são exclusivamente
preventivas , de prevenção geral , de protecção dos bens jurídicos , e
especial , de reintegração social do agente , numa concepção
pragmática da pena , impressa pelo Prof Figueiredo Dias , numa visão
utilitarista da pena , com tradução no art.º 40.º, do CP, contestada por
Faria Costa , Sousa e Brito e José Veloso , reclamando uma teleologia
retributiva , pelo que o critério a seguir na escolha da espécie da pena
há­de partir da opção pela pena de substituição e só quando ela é
inadequada à satisfação dos fins de prevenção geral , de defesa da
ordem jurídica , se deve optar pela pena privativa de liberdade ( Profs.
Anabela Rodrigues e Figueiredo Dias , in BMJ 380, 20 , 1993 , Direito
Penal Português , 333) .
A medida da pena concreta , a que se procede no faseamento
determinativo ,sequente , depende da culpa e das necessidades de
prevenção , intervindo , ainda , circunstâncias que , não fazendo parte
do tipo , atenuam ou agravam a responsabilidade penal do agente –art.º
71.º n.ºs 1 e 2 , do CP . .
A medida da pena é fortemente influenciada pela medida da
necessidade de tutela dos bens jurídicos face ao caso concreto , de um
acto de valoração global da situação , havendo uma medida óptima de
protecção dos bens jurídicos e das expectativas comunitárias ; estas
consentem , todavia , uma certa perda de protecção e de eficácia ,mas
há , no entanto , um limite abaixo do qual já não é possível descer sob
pena de se por irremediavelmente em causa a sua função .
O arguido agiu com firme vontade criminosa , reiterando a sua intenção
de manter cópula com a ofendida apesar da sua recusa , até o conseguir
num clima de envolvente coacção , o sequestro que se lhe seguiu, sendo
de hipotizar que o haja feito , em retaliação , pelo facto de a ofendida
não ter logrado angariar clientes em zona de prostituição , para onde ,
de noite , a ofendida foi conduzida , é altamente condenável ,
evidenciando o arguido forte desprezo e indiferença pelo seu
semelhante , especialmente pelo o sexo oposto , carecendo de pena para
interiorizar as consequências do seu procedimento , finalidade
preventivo­especial mais sentida quando confrontado o seu passado
criminal onde já avultam condenações –sem esconder um número
considerável de processos crimes pendentes ( 8) ­, fazendo crer que tem
dificuldade em manter conduta lícita .

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O modo de execução do crime de sequestro , trancando a porta do
quarto à chave, por algumas horas e o contexto em que surge , pelo
grau elevado de ilicitude revelado, justifica, inteiramente, a pena de
prisão , que se impõe por prementes e evidenciadas razões de
prevenção especial , de conformação futura ao respeito pelo bem
fundamental da liberdade ambulatória ; ambas as penas , de resto , a
imposta pelo sequestro e a de violação, são também plenamente
sustentadas pela necessidade de contenção dos impulsos criminosos de
potenciais delinquentes , que , nessa área criminal , são abundantes ,
pondo em crise a segurança e a tranquilidade dos demais cidadãos .
VI . A pena aplicada em medida igual ou inferior a 5 anos , em
princípio , deve–art.º 50. , do CP­, ser suspensa na sua execução , por
respeitar , em regra , a delitos de pequena e média gravidade ,
mostrando o legislador a sua preferência por essa medida de
substituição , atendendo ao seu carácter pedagógico e ao facto de
apresentar a vantagem de não desinserir o condenado do seu meio
social , profissional e familiar .
Faz depender a lei a suspensão , além de um pressuposto formal , de a
prisão não exceder 5 anos , ainda de um pressuposto de índole material,
se for de concluir que a simples censura do facto e ameaça da execução
da pena realizarão de forma adequada e suficiente as finalidades da
punição –art.º 50.º n.º1 , do CP ­ , pela formulação de um juízo de
prognose favorável, repousando na personalidade do agente , suas
condições de vida e as circunstâncias anteriores e posteriores ao facto .
O arguido não apresenta uma ocupação profissional estável( é
arrumador de carros , auferindo cerca de 25 € por dia ) nem nunca a
exerceu , viciado no consumo de heroína e haxixe , liberto actualmente
do consumo da heroína, sem referências familiares consistentes , que
lhe possam dar apoio no futuro , mantendo o expresso propósito de
continuar a consumir haxixe , com o que de deletério pessoal e
socialmente refrange , mormente a continuação à sua ligação ao
marginalismo , é obvio que o arguido não oferece quaisquer garantias
de se preservar , no futuro , à margem do crime , de arrepiar caminho ,
de que a medida adoptada se não revele pura inutilidade , um puro
desperdício , um risco prudencial que valha a pena correr ,
comunitariamente aceite e tolerável .
VII . Nestes termos se confirma o acórdão recorrido , negando­se
provimento ao recurso .
Taxa de justiça : 7 Uc,s .
Lisboa, 23 de Fevereiro de 2011
Armindo Monteiro (Relator)
Santos Cabral (Com voto de vencido)*
Pereira Madeira (Com voto de desempate)

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______________________
*A integração dos elementos constitutivos do crime de violação previsto no artigo 164 do
Código Penal pressupõe a existência de violência ou ameaça grave.
Independentemente de qualquer consideração sobre as circunstâncias do encontro das três
personagens intervenientes o certo é que a única referência a violência refere­se á circunstância
de a denominada BB ter batido com uma peça de roupa molhada no corpo da denominada CC.
Não se indica que tal facto tenha sido praticado na sequência de qualquer acordo prévio com
vista a constranger a mesma CC e nem sequer se demonstrou uma relação de causalidade entre
tal acto e o acto sexual que se seguiu.
Afirmar que este acto foi contra vontade da ofendida não é suficiente para se afirmar a
existência dos elementos constitutivos do crime de violação que não se encontra devidamente
caracterizado
Salienta­se que tal afirmação se produz independentemente da perplexidade que causa a matéria
de facto considerada provada e, nomeadamente, o facto de, no meio de Lisboa, num
estabelecimento de hospedagem publico e durante a tarde, a vitima não ter esboçado um pedido
de ajuda ou um gesto de insubmissão perante o acto violento.
Santos Cabral

http://www.dgsi.pt/jstj.nsf/954f0ce6ad9dd8b980256b5f003fa814/0697f548d34088a680257861004a5f5d?OpenDocument 13/13