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Thomas Kuhn

A Estrutura
das
Revoluções
Científicas
Thomas Samuel Kuhn

1922-1996
A ESTRUTURA DAS REVOLUÇÕES
CIENTÍFICAS

Thomas Kuhn
Traduzido por Paulo Aukar a partir do
texto original publicado em KUHN, Tho-
mas S. The Structure of Scientific Revo-
lutions. 3 ed., Chicago and London: The
University of Chicago Press, 1996.
Versão tipográfica produzida a partir
de código-fonte em LATEX para impressão
em papel A4.
Edição Digital do Tradutor
Santa Maria
2018
CONTEÚDOS iii

Conteúdos

Prefácio iv
I Introdução: Um Papel para a História 1
II O Caminho para a Ciência Normal 9
III A Natureza da Ciência Normal 19
IV A Ciência Normal como Resolução de Charadas 29
V A Prioridade dos Paradigmas 36
VI A Anomalia e a Emergência das Descobertas Científicas 43
VII Crise e Emergência de Teorias Científicas 55
VIII A Resposta à Crise 64
IX A Natureza e a Necessidade das Revoluções Científicas 77
X As Revoluções como Mudanças de Visão de Mundo 93
XI A Invisibilidade das Revoluções 113
XII Como as Revoluções se Resolvem 120
XIII O Progresso Através de Revoluções 133
Posfácio de 1969 145
.1 Paradigmas e Estrutura Comunitária · · · · · · · · · · · · · · · · · · · 146
.2 Paradigmas como a Constelação dos Comprometimentos do Grupo · · 151
.3 Paradigmas como Exemplos Compartilhados · · · · · · · · · · · · · · 156
.4 Conhecimento Tácito e Intuição · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · 159
.5 Exemplares, Incomensurabilidade e Revoluções · · · · · · · · · · · · 164
.6 Revoluções e Relativismo · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · 170
.7 A Natureza da Ciência · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · 172
Prefácio iv

Prefácio

O ensaio que se segue é a publicação do nos meus planos de carreira profissional.


primeiro relato completo de um projeto Uma mudança da física para a história da
de pesquisa concebido originalmente há ciência e, em seguida, gradualmente, um
quase quinze anos. Naquela época eu era retorno que parte dos problemas mais
um estudante de pós-graduação em fí- especificamente históricos para chegar
sica teórica já quase terminando a minha aos interesses mais filosóficos que inici-
tese. O envolvimento acidental com um almente tinham-me conduzido à histó-
curso universitário experimental que tra- ria. Exceto por alguns poucos artigos,
tava da ciência física para não cientistas esse ensaio é o primeiro de meus traba-
ofereceu-me um primeiro contato com lhos publicados em que aqueles interes-
a história da ciência. Para minha com- ses iniciais são dominantes. Em certa me-
pleta surpresa, aquela exposição a teorias dida, antes de tudo é uma tentativa de ex-
e práticas científicas já obsoletas mina- plicar para mim mesmo e para os amigos
ram algumas das minhas concepções bá- como aconteceu de eu ser arrancado da
sicas sobre a natureza da ciência e sobre ciência e deslocado para a sua história.
as razões do seu especial sucesso. Minha primeira oportunidade de in-
vestigar em profundidade as ideias apre-
Tais concepções eu obtivera em parte
sentadas abaixo foi propiciada por três
do meu próprio treinamento científico
anos como Junior Fellow da Society of Fel-
e em parte de um duradouro interesse
lows da Universidade de Harvard. Sem
pessoal pela filosofia da ciência. Qual-
aquele período de liberdade, a transição
quer que tenha sido sua utilidade para
para o novo campo de estudo teria sido
a minha educação e a verossimilhança
muito mais difícil e poderia nem mesmo
que apresentavam mesmo em uma forma
ter-se completado. Parte do meu tempo
abstrata, de algum modo aquelas noções
naqueles anos era devotada especifica-
nem de longe se ajustavam à empresa
mente à história da ciência. Continuei es-
que o estudo histórico mostrava. Não
tudando particularmente os escritos de
obstante, essas concepções a que me re-
Alexandre Koyré, e encontrei pela pri-
firo eram e continuam a ser fundamen-
meira vez os escritos de Émile Meyerson,
tais para muitas discussões da ciência.
Hélène Metzger e Anneliese Maier.1 Mais
Pareceu-me assim que a crise de credi-
bilidade de tais concepções devesse ser 1 Particularmente influentes foram Alexandre
mantida em uma agenda de inquirição. Koyré, Études Galiléennes (3 vols.; Paris, 1939);
O resultado foi uma mudança drástica Émile Meyerson, Identity and Reality, trad. Kate
Prefácio v

claramente que a maioria dos outros es- ticularmente dos psicólogos da Gestalt.
pecialistas recentes, esse grupo mostrou Um outro introduziu-me nas especula-
como era pensar cientificamente em um ções de B. L. Whorf sobre os efeitos da
período em que os padrões do pensa- linguagem para a visão de mundo. W.
mento científico eram muito diferentes V. O. Quine esclareceu-me a questão da
dos atuais. Ainda que eu questione al- distinção analítico-sintético.3 Esse é o
gumas de suas interpretações históricas tipo de exploração aleatória que a Soci-
particulares, o trabalho deles – junta- ety of Fellows permite, e só através dela
mente com The Great Chain of Being de eu poderia ter encontrado a monogra-
A. O. Lovejoy – só foi menos importante fia quase desconhecida de Ludwik Fleck
que as fontes primárias na modelagem da Entstehung und Entwicklung einer wis-
minha concepção daquilo que pode ser a senschaftlichen Tatsache (Basel, 1935).
história das ideias científicas. Em conjunto com uma observação de ou-
Boa parte do meu tempo naqueles tro Junior Fellow, Francis X. Sutton, o tra-
anos, contudo, foi gasta na exploração de balho de Fleck fez-me compreender que
campos aparentemente sem relação com as ideias aqui desenvolvidas requerem
a história da ciência, mas cuja pesquisa sua inclusão na sociologia da comuni-
tem levantado problemas semelhantes dade científica. Ainda que no transcorrer
àqueles para os quais a história estava do livro os leitores não encontrem mui-
chamando a minha atenção. Uma nota tas referências a esses trabalhos e a es-
de rodapé levou-me acidentalmente aos sas conversações, minha dívida para com
experimentos com que Jean Piaget es- eles se dá de tantas maneiras que agora
clarecera tanto os vários mundos da cri- não consigo avaliar e reconstituir plena-
ança em desenvolvimento quanto o pro- mente.
cesso de transição de um daqueles mun- Durante meu último ano como Ju-
dos para o seguinte.2 Um de meus cole- nior Fellow, um convite para fazer con-
gas prescreveu-me a leitura de artigos no ferências no Lowell Institute em Bos-
campo da psicologia da percepção, par- ton forneceu-me a primeira oportuni-
dade para testar minha noção de ciência
Loewenberg (New York, 1930); Hélène Metzger, que, naquele momento, ainda se encon-
Les doctrines chimiques en France du début du trava em desenvolvimento. O resultado
XVIIe à la fin du XVIIIe siècle (Paris,1923), e New- foi uma série de oito conferências públi-
ton, Stahl, Boerhaave et la doctrine chimique (Pa-
cas feitas durante o mês de março de 1951
ris, 1930); e Anneliese Maier, Die Vorläufer Gali-
leis im 14. Jahrhundert (Studien zur Naturphilo- sobre A Busca pela Teoria Física. No ano
sophie der Spätscholastik; Rome, 1949).
2 Por exporem conceitos e processos que tam- 3 Os artigos de Whorf foram desde então reu-

bém emergem diretamente da história da ciên- nidos por John B. Carroll em Language, Thought,
cia, dois conjuntos de investigações de Piaget and Reality – Selected Writings of Benjamin Lee
mostraram-se particularmente importantes: The Whorf (New York, 1956). Quine apresentou suas
Child’s Conception of Causality, trad. de Marjorie opiniões em Two Dogmas of Empiricism, reim-
Gabain (London, 1930), e Les notions de mouve- presso em seu From a Logical Point of View (Cam-
ment et de vitesse chez l’enfant (Paris, 1946). bridge, Mass., 1953), pp. 20-46.
Prefácio vi

seguinte eu comecei a dar aulas especifi- ral Sciences. Uma vez mais eu me pu-
camente de história da ciência. Por quase nha em condições de dedicar total aten-
uma década os problemas de instruir-me ção aos problemas discutidos abaixo. O
num campo – a própria história da ci- que se mostrou ainda mais importante foi
ência – que eu não tinha estudado siste- que passar aquele ano em uma comuni-
maticamente deixaram-me pouco tempo dade composta predominantemente de
para explicitar por escrito as ideias que cientistas sociais pôs-me diante de pro-
me tinham transferido para ele. Por sorte, blemas – problemas que eu não antevira
entretanto, tais ideias mostraram-se uma – sobre as diferenças entre as comuni-
fonte de orientação implícita ou tácita, dades dos cientistas sociais e as comu-
além de também me oferecerem alguma nidades dos cientistas naturais, entre os
estrutura para a formulação de proble- quais eu tinha sido treinado. Fiquei parti-
mas durante boa parte do meu ensino cularmente admirado com a quantidade
avançado. Tenho assim que agradecer e a extensão das discordâncias manifes-
meus estudantes pelas lições inestimá- tas entre os cientistas sociais a respeito
veis sobre a viabilidade das minhas con- do caráter dos problemas e dos méto-
cepções e sobre as técnicas apropriadas dos científicos legítimos. Tanto a histó-
para tornar sua comunicação mais efici- ria quanto o trabalho dos meus contem-
ente. Os mesmos problemas e a mesma porâneos fizeram-me duvidar que os pro-
orientação dão unidade à maior parte dos fissionais das ciências naturais pudessem
estudos predominantemente históricos – dar respostas mais firmes e permanen-
e só na aparência diversificados – que eu tes para tais questões que seus colegas
publiquei desde o final da minha bolsa na das ciências sociais. Não obstante, de al-
Society of Fellows de Harvard. Vários de- gum modo a prática da astronomia, da fí-
les tratam do papel constitutivo exercido sica, da química ou da biologia normal-
por uma ou outra metafísica na investi- mente não se mostram capazes de desen-
gação científica criativa. Outros exami- cadear as controvérsias sobre fundamen-
nam a via pela qual as bases experimen- tos que comumente são endêmicas en-
tais de uma nova teoria são acumuladas tre, por exemplo, os psicólogos e soció-
e assimiladas por pessoas comprometi- logos. O esforço por descobrir a fonte
das com uma teoria velha e incompatível dessa diferença levou-me a reconhecer o
com a teoria nova. Em sua sequência, tais papel, na pesquisa científica, daquilo que
trabalhos descrevem o tipo de desenvol- desde então tenho chamado paradigmas.
vimento que eu chamei abaixo de emer- Tomo-os por trabalhos científicos uni-
gência de uma nova teoria científica e de versalmente reconhecidos que – por um
emergência de uma descoberta científica certo período de tempo – fornecem os
– entre outras relações correlatas. modelos de problemas e de soluções para
O estágio final no desenvolvimento uma comunidade de profissionais da ci-
desse ensaio começou com um convite ência. Quando essa peça encaixou-se em
para passar o ano de 1958-59 no Cen- seu devido lugar, um rascunho desse en-
ter for Advanced Studies in the Behavio- saio emergiu rapidamente.
Prefácio vii

A história subsequente daquele rascu- vocativo e fácil de assimilar. Mas ele tam-
nho não precisa ser recontada aqui, mas bém tem desvantagens, e essas desvan-
umas poucas palavras devem ser ditas so- tagens podem justificar que eu já mos-
bre a forma que ele preservou em meio tre desde o início os tipos de extensão em
às sucessivas revisões. Até que uma pri- amplitude e profundidade que ainda es-
meira versão tivesse sido completada e pero incluir numa versão mais longa. Há
amplamente revisada, eu tinha adian- uma quantidade muito maior de evidên-
tado que o texto apareceria exclusiva- cia histórica disponível do que eu pode-
mente como um volume da Encyclopedia ria explorar no espaço abaixo. Ademais,
of Unified Science. Depois que me propu- essa evidência vem não só da história das
seram esse trabalho pioneiro, os editores ciências físicas, mas também da histó-
souberam manter-me num firme estado ria das ciências biológicas. Minha deci-
de comprometimento, aguardando pelo são de tratar aqui exclusivamente das ci-
resultado com uma paciência e um tato ências físicas foi tomada em parte para
extraordinários. Sou-lhes muito grato – incrementar a coerência desse ensaio e,
particularmente a Charles Morris – pelo em parte, em decorrência da minha ca-
encorajamento que se mostraria essen- pacitação atual. Em acréscimo, a concep-
cial e pelo aconselhamento a respeito do ção de ciência a ser desenvolvida aqui su-
texto resultante. Limites de espaço na gere a fecundidade promissora de muitos
Encyclopedia, contudo, fizeram com que novos tipos de pesquisas históricas e so-
eu tivesse que apresentar meus pontos de ciológicas. Por exemplo, o modo como
vista de uma forma extremamente con- as anomalias – ou violações de expecta-
densada e esquemática. Embora acon- tivas – atraem crescentemente a atenção
tecimentos posteriores tivessem relaxado de uma comunidade científica requer es-
um pouco aquelas restrições – o que per- tudo detalhado. Assim como exige es-
mitiu, ao mesmo tempo, a sua publicação tudo detalhado a irrupção de crises que
independente –, o presente trabalho aca- podem ser induzidas pelo repetido fra-
bou sendo muito mais um ensaio do que casso em fazer uma anomalia conformar-
o livro de proporções muito maiores que se às expectativas dos cientistas. Ou
o meu objeto de investigação ainda certa- ainda: se estou certo de que cada revo-
mente demandará. lução científica muda a perspectiva his-
Já que meu objetivo mais importante é tórica da comunidade que a vivencia, en-
motivar uma mudança na percepção e na tão essa mudança de perspectiva deve al-
avaliação de dados familiares, o caráter terar a estrutura dos livros didáticos pós-
esquemático dessa primeira apresenta- revolucionários e das publicações dos re-
ção não precisa ser necessariamente con- sultados de pesquisa. Um desses efeitos
siderado um inconveniente. Pelo contrá- deveria ser estudado como uma possível
rio, leitores que já foram preparados por indicação da ocorrência das revoluções.
suas próprias investigações para o tipo Refiro-me a uma mudança na distribui-
de reorientação aqui defendida podem ção da literatura técnica citada nas notas
achar o formato de ensaio bem mais pro- de rodapé dos relatos de pesquisa.
Prefácio viii

A drástica necessidade de condensa- efeitos como esses, penso eu, não modi-
ção também me forçou a antecipar a dis- ficaria as teses desenvolvidas nesse en-
cussão de um certo número de proble- saio, mas acrescentaria com certeza uma
mas relevantes. Minha distinção entre dimensão analítica com importância de
períodos pré-paradigma e períodos pós- primeira ordem para a compreensão do
paradigma no desenvolvimento de uma avanço científico.
ciência está, por exemplo, demasiado es- Finalmente – e talvez o mais impor-
quemática. Cada uma das escolas cuja tante de tudo –, as limitações de espaço
competição caracteriza o período pré- afetaram drasticamente meu tratamento
paradigma é guiada por algo muito se- das implicações filosóficas da concep-
melhante a um paradigma. Ainda que ção de ciência historicamente orientada
as considere raras, penso que também desse ensaio. É claro que há essas impli-
haja circunstâncias em que dois paradig- cações filosóficas, e eu tentei apontar e
mas podem coexistir pacificamente no documentar as principais. Ao fazer isso,
período pós-paradigma. A mera pos- contudo, evitei em geral a discussão de-
sessão de um paradigma não é propria- talhada das várias posições tomadas pe-
mente um critério suficiente para o de- los filósofos contemporâneos nas contro-
senvolvimento da transição discutida na vérsias correspondentes. Onde eu mos-
Seção II. E o que é mais importante: ex- trei ceticismo, ele foi mais dirigido a uma
ceto em breves notas marginais, eu não atitude filosófica do que a qualquer uma
disse nada sobre o papel do avanço tec- de suas expressões elaboradas de modo
nológico ou de condições externas de ca- mais completo. Como resultado, alguns
ráter social, econômico e intelectual no daqueles que trabalham dentro de uma
desenvolvimento das ciências. Não pre- dessas posições mais articuladas podem
cisamos, contudo, mais do que examinar ter a sensação de que não os compreendi.
a relação de Copérnico com o calendário Acho que estarão errados quanto a isso,
para descobrir que as condições externas mas esse ensaio não foi calculado para
podem ajudar a transformar uma simples convencê-los. Uma tentativa dessa or-
anomalia em uma fonte de crise aguda. O dem teria requerido um livro muito mais
mesmo exemplo poderia ilustrar o leque longo e de um tipo muito diferente.
de alternativas disponíveis para a pes- Os fragmentos autobiográficos que
soa que procurasse dar fim a uma crise abrem esse prefácio servirão para deixar
propondo uma ou outra reforma revo-
vation of Energy as an Example of Simultaneous
lucionária.4 A consideração explícita de Discovery, Critical Problems in the History of Sci-
ence, ed. Marshall Clagett (Madison, Wis., 1959),
4 Esses fatores são discutidos em T. S. Kuhn, The pp. 321-56; Engineering Precedent for the Work

Copernican Revolution: Planetary Astronomy in of Sadi Carnot, Archives internationales d’histoire


the Development of Western Thought (Cambridge, des sciences, XIII (1960), 247-51; e Sadi Carnot and
Mass., 1957), pp. 122-32, 270-71. Outros efei- the Cagnard Engine, Isis, LII (1961), 567-74. Por-
tos das condições externas intelectuais e econô- tanto, é apenas em relação aos problemas discu-
micas sobre o desenvolvimento científico con- tidos nesse ensaio que ponho os fatores externos
creto estão ilustrados em meus artigos Conser- num plano secundário.
Prefácio ix

mais visível meu reconhecimento da foi um colaborador ainda mais ativo du-
parte mais importante da dívida que rante os anos em que minhas ideias co-
tenho para com meus trabalhos uni- meçaram a tomar forma, e senti muito
versitários e para com as instituições sua falta no estágio final do desenvolvi-
que me ajudaram a dar forma ao meu mento delas. Por sorte, entretanto, de-
pensamento. O restante dessa dívida pois que saí de Cambridge o lugar de
tentarei mostrar através das várias cita- Nash como um interlocutor criativo foi
ções feitas nas páginas que se seguem. assumido por meu colega de Berkeley
Tudo que foi dito acima ou que será dito Stanley Cavell. Que Cavell – um filósofo
abaixo, contudo, permitirá que apenas particularmente interessado em ética e
se entreveja o número e a natureza das estética – tenha chegado a conclusões tão
minhas obrigações pessoais para com congruentes com as minhas próprias, foi
todos aqueles indivíduos cujas sugestões uma fonte de estímulo e encorajamento
e críticas sustentaram e dirigiram o meu para mim. Ademais, ele é a única pes-
desenvolvimento intelectual em um soa com quem eu fui algum dia capaz
ou outro momento. Demasiado tempo de explorar minhas ideias em sentenças
transcorreu desde que as ideias expostas incompletas. Esse modo de comunica-
nesse ensaio começaram a tomar forma. ção atesta a capacidade de compreen-
Uma lista de todos aqueles que certa- são que lhe possibilitou apontar-me o ca-
mente poderiam encontrar sinais de sua minho para romper ou contornar mui-
influência nessas páginas seria quase tas das importantes barreiras encontra-
coextensiva com a lista de meus amigos das enquanto eu preparava a primeira
e conhecidos. Dadas as circunstâncias, versão do meu texto.
devo restringir-me a algumas poucas Desde que aquela versão foi esboçada,
influências significativas que mesmo muitos outros amigos ajudaram-me na
uma memória insatisfatória jamais vai sua reformulação. Penso que eles me
suprimir inteiramente. perdoarão se eu mencionar apenas qua-
Foi James B. Conant – então reitor da tro deles, cujas contribuições provaram
Universidade de Harvard – quem pri- ser as mais influentes e decisivas: Paul
meiro me introduziu na história da ci- K. Feyerabend de Berkeley, Ernest Nagel
ência, e assim iniciou a transformação de Columbia, H. Pierre Noyes do Labora-
da minha concepção da natureza do de- tório de Radioatividade Lawrence e meu
senvolvimento científico. Desde que tal orientando John L. Heilbron, que com
processo começou, ele foi generoso com frequência trabalhou comigo na prepara-
suas ideias, críticas e disponibilidade de ção de uma versão final para impressão.
tempo – incluindo o tempo requerido Achei todas as suas objeções e sugestões
para ler e fazer importantes sugestões de grande ajuda, mas não tenho qualquer
de mudança no meu rascunho datilogra- razão para acreditar – e tenho algumas ra-
fado. Leonard K. Nash – junto com quem zões para duvidar – que qualquer um de-
ensinei durante cinco anos no curso de les, ou qualquer um dos outros mencio-
viés histórico que o Dr. Conant iniciara – nados acima, aprova no todo o texto re-
Prefácio x

sultante.
Meus agradecimentos finais – para
meus pais, esposa e filhos – devem ser de
um tipo um pouco diferente. De manei-
ras que possivelmente serei o último a to-
mar conhecimento, cada um deles tam-
bém contribuiu com ingredientes inte-
lectuais para o meu trabalho. Mas em
graus variados eles fizeram uma coisa
ainda mais importante. Eles permitiram
que meu trabalho fluísse e até mesmo en-
corajaram minha devoção a ele. Qual-
quer um engalfinhado num projeto como
o meu vai reconhecer qual o seu custo
eventual. Simplesmente não sei como
dizer-lhes obrigado.

T. S. K.

Berkeley, Califórnia
Fevereiro de 1962
I Introdução: Um Papel para a História 1

Introdução: Um Papel para a História

Se a história não fosse vista como um vai emergir nem mesmo da história, se os
simples depósito de anedotas e cronolo- dados históricos continuarem a ser pro-
gias, poderia produzir uma transforma- curados e examinados principalmente
ção decisiva na imagem da ciência que para responder questões postas pelo es-
se apoderou de nós. Tal imagem da ci- tereótipo a-histórico tirado dos textos ci-
ência foi extraída – até mesmo pelos pró- entíficos. Em geral parece estar impli-
prios cientistas – principalmente do es- cado nesses textos que o conteúdo da
tudo de trabalhos científicos acabados ciência é exemplificado exclusivamente
tal como eles se encontram expostos nas pelas observações, leis e teorias descri-
obras consideradas clássicas ou, mais re- tas em suas páginas. Quase com igual
centemente, nos livros didáticos em que regularidade, os mesmos livros têm sido
cada uma das novas gerações de cien- lidos como se dissessem que os méto-
tistas aprende o seu ofício. Inevitavel- dos científicos são exclusivamente aque-
mente, contudo, o objetivo desses livros les ilustrados pelas técnicas de manipu-
tem muito mais um caráter pedagógico lação utilizadas na coleta dos dados pre-
e de persuasão. Um conceito de ciência sentes em suas páginas, juntamente com
tirado deles ajusta-se tanto ao processo as operações lógicas empregadas quando
de produção de que resultam os compo- se relaciona aqueles dados com as ge-
nentes com que são constituídos quanto neralizações teóricas que também estão
a imagem de uma cultura nacional tirada presentes ali. O resultado tem sido um
de um folheto turístico ou de um texto es- conceito de ciência com profundas impli-
crito de acordo com a norma oficial da cações sobre a natureza e o desenvolvi-
língua. Esse ensaio tenta mostrar que tais mento da ciência.
livros nos enganaram em sentidos funda-
mentais. Seu objetivo é um esboço do Se ciência é a constelação de fatos, teo-
conceito muito diferente de ciência que rias e métodos reunidos nos livros didáti-
cos ora em uso, então os cientistas são as
pode emergir do registro histórico da pró-
pria atividade de pesquisa. pessoas que, com sucesso ou não, se es-
forçaram por contribuir com um ou ou-
Mas um novo conceito de ciência não tro elemento dessa constelação particu-
I Introdução: Um Papel para a História 2

lar. O desenvolvimento científico torna- historiadores defrontam-se com dificul-


se um processo em que tais elementos fo- dades cada vez maiores para distinguir o
ram adicionados peça por peça – isolada- componente científico presente nas ob-
mente ou em combinação – ao estoque servações e ideias consideradas verda-
sempre crescente da técnica e do conhe- deiras no passado, daquilo que seus pre-
cimento científicos. A história da ciên- decessores na história da ciência pronta-
cia, por sua vez, torna-se a disciplina que mente teriam rotulado como erro e su-
faz a crônica dos sucessivos incrementos perstição. Quanto mais cuidadosamente
e dos obstáculos que inibiram sua acu- eles estudam, digamos, a dinâmica aris-
mulação. Desse modo, o historiador in- totélica, a química flogística ou a termo-
teressado no desenvolvimento científico dinâmica calorífica, mais certos se sen-
parece ter duas tarefas mais importantes. tem de que – em seu todo – aquelas con-
Por um lado ele deve determinar que pes- cepções da natureza que já foram acei-
soa – e em que data – descobriu ou inven- tas algum dia no passado não são menos
tou cada fato, lei e teoria científicos con- científicas, nem mais o produto das pe-
temporâneos. Por outro lado, ele tam- culiaridades humanas individuais e soci-
bém deve descrever e explicar os cipo- ais, que as concepções da natureza acei-
ais de erro, mito e superstição que ini- tas atualmente. Se essas crenças obso-
biram uma acumulação mais rápida dos letas devem ser denominadas mito, en-
componentes do moderno texto cientí- tão os mitos podem ser produzidos pe-
fico. Muita pesquisa já foi dirigida para los mesmos tipos de métodos e mantidos
esses fins e alguma ainda é. pelos mesmos tipos de razões que guiam
Em anos recentes, contudo, alguns his- no presente o conhecimento científico.
toriadores da ciência têm achado cada Se, por outro lado, essas crenças obsole-
vez mais difícil preencher as funções que tas devem ser denominadas ciência, en-
o conceito de desenvolvimento por acu- tão a ciência já incluiu sistemas de cren-
mulação atribui a eles. Enquanto cronis- ças inteiramente incompatíveis com os
tas de um processo que se desenvolve por sistemas de crenças que nós sustentamos
adição, eles descobrem que cada nova hoje. Dadas essas alternativas, o historia-
investigação que fazem torna mais difí- dor deve escolher a última. Teorias obso-
cil – e não mais fácil – responder ques- letas não deixam em princípio de ser ci-
tões como as seguintes. Quando o oxi- entíficas por terem sido descartadas. Essa
gênio foi descoberto? Quem foi o pri- escolha, todavia, torna muito difícil ver
meiro a conceber a conservação da ener- o desenvolvimento da ciência como um
gia? Crescentemente, alguns desses his- processo aditivo. A mesma pesquisa his-
toriadores da ciência suspeitam que es- tórica que apresenta dificuldades em iso-
sas questões são simplesmente o tipo er- lar descobertas e invenções individuais
rado de questão a ser formulada. Talvez cria o terreno para dúvidas profundas so-
a ciência não se desenvolva pela acumu- bre o processo cumulativo que teria sido
lação de descobertas e invenções indivi- constituído por meio dessas contribui-
duais. Ao mesmo tempo, esses mesmos ções individuais à ciência.
I Introdução: Um Papel para a História 3

O resultado de todas essas dúvidas e di- ao tornar explícitas algumas das implica-
ficuldades é uma revolução historiográ- ções dessa nova historiografia.
fica no estudo da ciência, ainda que seja Que aspectos da ciência vão se des-
uma revolução que esteja em seus está- tacar no curso desse esforço? Primeiro,
gios iniciais. Com frequência – e em geral pelo menos na ordem de apresentação,
sem se dar conta inteiramente de que es- está a insuficiência das diretrizes meto-
tão fazendo isso – os historiadores da ci- dológicas, por si mesmas, para ditarem
ência começaram a fazer novos tipos de uma resposta única – ou uma conclu-
perguntas e a traçar linhas de desenvol- são concreta única – para muitos tipos de
vimento diferentes para as ciências. Li- questões científicas. Alguém instruído a
nhas essas que não chegam a ter um cará- examinar fenômenos elétricos ou quími-
ter cumulativo. Em vez de procurar pelas cos, sendo ignorante desses campos mas
contribuições de uma ciência mais antiga conhecendo determinadas diretrizes me-
para o benefício da ciência contemporâ- todológicas – ou seja, sabendo o que é
nea, eles tentam mostrar o modo como ser científico –, pode chegar a qualquer
aquela ciência mais antiga se integra em uma de um leque de conclusões incom-
sua própria época. Eles não perguntam, patíveis. Entre as possibilidades legíti-
por exemplo, sobre as relações das con- mas, as conclusões específicas a que ele
cepções de Galileu com as concepções da pode chegar são provavelmente determi-
ciência atual, mas pelas relações das con- nadas pela sua experiência anterior em
cepções de Galileu com as concepções ci- outros campos, pelos acidentes de sua in-
entíficas do seu grupo. Isto é, seus pro- vestigação e pela sua própria personali-
fessores, seus contemporâneos e seus su- dade. Que crenças sobre as estrelas, por
cessores imediatos. Ademais, esses his- exemplo, ele traz para o estudo da quí-
toriadores da ciência insistem no estudo mica ou da eletricidade? Quais dos mui-
das opiniões daquele grupo e outros si- tos experimentos concebíveis – que são
milares de um ponto de vista – muito di- relevantes para o novo campo – ele rea-
ferente do ponto de vista da ciência atual liza em primeiro lugar? E quais aspectos
– que dá àquelas opiniões o máximo de do fenômeno que resulta desse experi-
coerência interna e o mais preciso ajuste mento mais o impressionam como sendo
possível à natureza. A ciência vista atra- de particular relevância para a elucidação
vés dos trabalhos resultantes – trabalhos da natureza da transformação química
talvez melhor exemplificados pelos escri- ou da afinidade elétrica? Pelo menos
tos de Alexandre Koyré – já não se parece para o indivíduo – mas às vezes também
de modo algum com o mesmo empreen- para a comunidade científica – respostas
dimento discutido pelos escritores da tra- para questões como essas são muitas ve-
dição historiográfica mais antiga. Esses zes determinantes essenciais do desen-
estudos históricos sugerem – pelo menos volvimento científico. Notaremos a se-
por implicação – uma nova imagem da ci- guir – por exemplo na Seção II – que o
ência. O presente ensaio tem o objetivo desenvolvimento inicial da maioria das
de delinear essa nova imagem da ciência ciências caracterizou-se pela competição
I Introdução: Um Papel para a História 4

contínua entre várias concepções distin- cias maduras, as respostas – ou algo que
tas da natureza, cada uma delas derivada substitua plenamente as respostas – para
parcialmente dos ditames da observação questões como essas estão firmemente
e do método científicos, e mais ou me- embutidas na iniciação educacional que
nos compatível com eles. O que diferen- prepara e licencia o estudante para a prá-
ciou essas várias escolas não foi uma ou tica profissional. Uma vez que essa edu-
outra carência de método – elas eram to- cação é rígida e rigorosa, tais respostas
das científicas –, mas aquilo que denomi- chegam a produzir uma moldagem pro-
naremos suas maneiras incomensuráveis funda do intelecto científico. Que elas
de imaginar o mundo e de praticar a ci- possam fazer isso ajuda muito na expli-
ência dentro dele. A observação e a ex- cação da peculiar eficiência da atividade
periência podem e devem reduzir dras- da ciência normal, e também na explica-
ticamente os limites em que a crença ci- ção da direção em que a ciência normal
entífica é admissível. Do contrário, não avança durante qualquer período consi-
teríamos ciência. Mas a observação e a derado. Quando examinarmos a ciência
experiência sozinhas não podem deter- normal nas Seções III, IV e V, pretende-
minar uma configuração particular de tal mos finalmente descrevê-la como uma
crença. Um elemento aparentemente ar- tentativa laboriosa e devotada de forçar
bitrário – composto de casualidade pes- a natureza para dentro das caixas concei-
soal e histórica – é sempre um ingredi- tuais proporcionadas pela educação pro-
ente formativo das crenças esposadas por fissional. Ao mesmo tempo, vamos in-
uma comunidade científica durante um dagar se a pesquisa poderia avançar sem
tempo dado. tais caixas – qualquer que seja o elemento
Contudo, esse elemento de arbitrarie- de arbitrariedade presente em sua ori-
dade não sugere que algum grupo cien- gem histórica e, eventualmente, também
tífico pudesse praticar seu ofício sem um em seu desenvolvimento subsequente.
conjunto presumido de crenças. Ele tam- Com efeito, o elemento de arbitrarie-
bém não diminui a importância da cons- dade está presente e também tem um im-
telação particular de crenças com que o portante efeito no desenvolvimento ci-
grupo está comprometido num dado mo- entífico. Examinaremos esse efeito nas
mento. A pesquisa efetiva dificilmente Seções VI, VII e VIII. A ciência normal
começa antes que a comunidade cien- – a atividade em que os cientistas ine-
tífica pense ter obtido respostas firmes vitavelmente concentram quase todo o
para questões como as seguintes. Quais seu tempo – está implicada na suposi-
são as entidades fundamentais de que ção de que a comunidade científica sabe
o universo é composto? Como elas in- como o mundo é. Boa parte do su-
teragem umas com as outras e com os cesso do empreendimento científico de-
sentidos? Que questões podem ser legi- riva da prontidão com que a comuni-
timamente feitas sobre tais entidades e dade científica defende tal suposição, a
que técnicas podem ser empregadas na um custo considerável quando neces-
busca das soluções? Pelo menos nas ciên- sário. A ciência normal, por exemplo,
I Introdução: Um Papel para a História 5

geralmente suprime as novidades sobre em geral já foram antes rotulados como


os fundamentos porque elas necessaria- revoluções. Assim, nas Seções IX e X –
mente subvertem as devoções científicas onde predominante e diretamente será
básicas. Não obstante, na medida em que esmiuçada a natureza das revoluções ci-
essas devoções científicas retêm um ele- entíficas – lidaremos reiteradamente com
mento de arbitrariedade, a própria na- esses grandes pontos de inflexão no de-
tureza da ciência normal assegura que a senvolvimento científico associados com
novidade não poderá ser suprimida por os nomes de Copérnico, Newton, Lavoi-
muito tempo. Às vezes um problema nor- sier e Einstein. Eles mostram mais cla-
mal – um problema que deveria ser re- ramente que a maioria dos outros episó-
solvido com as regras e procedimentos dios – pelo menos na história das ciên-
conhecidos – resiste aos repetidos assal- cias físicas – a que as revoluções científi-
tos dos mais hábeis membros do grupo cas se referem. Cada uma delas implicou
dentro de cuja competência ele aparece. a rejeição pela comunidade científica de
Em outras ocasiões, algum equipamento uma teoria já sancionada pelo tempo em
projetado e construído para um propó- favor de uma outra teoria, incompatível
sito de ciência normal não funciona da com a primeira. Todas essas revoluções
maneira prevista, revelando uma anoma- produziram uma consequente mudança
lia que não pode, apesar de esforço repe- nos problemas disponíveis à investigação
tido, ser ajustada às expectativas profissi- científica e também uma mudança nos
onais. Dessas e de muitas outras manei- padrões usados pela profissão para de-
ras a ciência normal sai repetidamente da terminar o que deveria ser considerado
trilha conhecida. E quando isso ocorre – um problema admissível e o que deveria
isto é, quando a profissão já não pode se ser considerado uma solução legítima de
esquivar das anomalias que subvertem a um problema. E cada uma transformou
tradição existente de prática científica – a imaginação científica em sentidos que,
, começam as investigações extraordiná- em última instância, precisamos descre-
rias que conduzem a profissão a um novo ver como uma transformação do mundo
conjunto de devoções ou para uma nova no interior do qual é feito o trabalho ci-
base para a prática científica. Os episó- entífico. Tais mudanças – juntamente
dios extraordinários por meio dos quais com as controvérsias que quase sempre
ocorre a transformação dos comprome- as acompanham – são as características
timentos profissionais são aqueles reco- definidoras das revoluções científicas.
nhecidos nesse ensaio como revoluções Essas características emergem com
científicas. Trata-se de complementos da particular clareza de um estudo, por
atividade da ciência delimitada por uma exemplo, das revoluções newtoniana e
tradição – ou ciência normal – que esti- química. Todavia, é uma tese fundamen-
lhaçam essa mesma tradição. tal do presente ensaio que elas também
Os mais óbvios exemplos de revolu- podem ser identificadas no estudo de
ções científicas são aqueles famosos epi- muitos outros episódios que não foram
sódios do desenvolvimento científico que tão obviamente revolucionários. As
I Introdução: Um Papel para a História 6

equações de Maxwell foram tão revolu- gênio ou como a dos raios-X não adici-
cionárias quanto as de Einstein para o ona simplesmente mais um item à popu-
grupo profissional bem menor afetado lação do mundo dos cientistas. Em úl-
por elas. Por consequência, elas sofreram tima instância ela tem esse efeito, mas
a mesma resistência. A invenção de não antes que os cientistas tenham rea-
novas teorias regular e apropriadamente valiado seus procedimentos experimen-
produz a mesma resposta por parte de tais tradicionais, alterado sua concepção
alguns dos especialistas em cuja área de das entidades com que estão familiariza-
competência especializada ela incide. dos há muito tempo e, no processo, mu-
Para essas pessoas, a nova teoria implica dado a rede teórica através da qual eles
uma mudança nas regras que governam lidam com o mundo. Fato e teoria cien-
a prática de ciência normal que vigorou tíficos não são categoricamente separá-
até então. Portanto, inevitavelmente ela veis, exceto talvez dentro de uma tradi-
repercutirá sobre boa parte do trabalho ção específica de prática científica nor-
científico já realizado com sucesso. Eis mal. Eis porque uma descoberta ines-
porque uma nova teoria – por mais espe- perada não é simplesmente fatual em
cial que seja seu âmbito de aplicação – suas implicações. Eis também porque o
raramente ou nunca é só um incremento mundo dos cientistas é qualitativamente
ao que já é sabido. Sua assimilação transformado e quantitativamente enri-
requer a reconstrução da teoria anteces- quecido pelas novidades fatuais e teóri-
sora e também uma reavaliação do fato cas fundamentais.
antecessor num processo que raramente Essa concepção ampliada da natureza
é efetivado por uma só pessoa, e nunca das revoluções científicas é aquela que
é completado de um dia para o outro. será delineada nas páginas que se se-
Não é de admirar que os historiadores guem. Reconheço que a ampliação pre-
tenham tido dificuldade em datar com tendida altera o uso costumeiro. Não
precisão esses processos extensos. O obstante, continuarei a falar inclusive das
vocabulário desses historiadores da ci- descobertas científicas como revolucio-
ência compelia-os a vê-los como eventos nárias porque é precisamente essa pos-
isolados. sibilidade de relacionar suas estruturas
E não são só as invenções de novas teo- com a estrutura, digamos, da revolu-
rias os únicos eventos científicos que têm ção copernicana, que faz essa concep-
impacto revolucionário sobre os especia- ção ampliada da revolução científica pa-
listas em cujo domínio elas ocorrem. As recer tão importante para mim. A ar-
sujeições que governam a ciência normal gumentação precedente aponta como as
especificam não apenas os tipos de enti- noções complementares de ciência nor-
dades que o universo contém, mas tam- mal e revoluções científicas serão desen-
bém, por implicação, as entidades que o volvidas nas nove seções que se seguem
universo não contém. Embora o ponto vá imediatamente. O resto do ensaio tenta
exigir uma discussão extensa, disso se se- desincumbir-se de três questões centrais
gue que uma descoberta como a do oxi- remanescentes. Ao discutir a tradição do
I Introdução: Um Papel para a História 7

livro didático, a Seção XI considera por dos cientistas. Apesar disso, pelo me-
que anteriormente as revoluções cientí- nos algumas das minhas conclusões per-
ficas eram tão difíceis de ver. A Seção tencem tradicionalmente à lógica ou à
XII descreve a competição revolucionária epistemologia. No parágrafo precedente
entre os proponentes de uma velha tra- pode até mesmo parecer que eu violei
dição de ciência normal e os adeptos de a muito influente distinção contemporâ-
uma nova. Ao fazer isso, ela considera o nea entre o contexto de descoberta e o
processo que, em uma teoria da investi- contexto de justificação. Pode algo mais
gação científica, deveria de algum modo que profunda confusão ser indicado por
substituir os procedimentos de verifica- esse amálgama de diferentes campos e
ção e de falsificação tornados tão fami- interesses?
liares pela nossa imagem habitual da ci- Sendo obrigado a desmamar intelectu-
ência. A competição entre segmentos da almente dessas distinções e de outras si-
comunidade científica é o único processo milares, eu não poderia estar mais cons-
histórico que já resultou na rejeição de ciente das suas implicações e de sua
uma teoria previamente aceita e na ado- força. Por muitos anos acreditei que elas
ção de uma outra. Finalmente, a Seção estivessem implicadas na própria natu-
XIII vai indagar como o desenvolvimento reza do conhecimento. Continuo a supor
por meio de revoluções pode ser compa- que, se forem adequadamente remodela-
tível com o caráter aparentemente sem das, elas ainda têm algo importante a nos
paralelos do progresso científico. Para dizer. Não obstante, minhas tentativas de
essa questão, contudo, o presente ensaio aplicá-las – mesmo grosso modo – às si-
não vai oferecer mais que as linhas gerais tuações efetivas em que o conhecimento
de uma resposta. Uma resposta que de- é obtido, aceito e assimilado fizeram-nas
pende das características da comunidade parecer extraordinariamente problemá-
científica. Ou seja, depende de algo que ticas. Em vez de distinções lógicas e
ainda requer muita exploração e estudo metodológicas elementares – que seriam
adicionais. portanto supostos da análise do conheci-
Sem dúvida, alguns leitores já se de- mento científico – elas parecem agora ser
vem ter perguntado se o estudo histó- partes integrantes de um conjunto tradi-
rico poderia efetivar o tipo de transfor- cional de respostas concretas para as pró-
mação conceitual objetivada aqui. Um prias questões que estiveram na base do
arsenal inteiro de dicotomias está dispo- seu desenvolvimento. Essa circularidade
nível para sugerir que ele não poderia fa- não as invalida de todo, mas transforma
zer isso. Dizemos com frequência que essas distinções em partes de uma teo-
a história é uma disciplina puramente ria e, assim fazendo, sujeita-as ao mesmo
descritiva. Contudo, as teses sugeridas exame regularmente aplicado a teorias
acima são geralmente interpretativas e, em outros campos. Se elas devem ter por
às vezes, normativas. Reitero que mui- conteúdo algo mais que pura abstração,
tas das minhas generalizações dizem res- então esse conteúdo deve ser descoberto
peito à sociologia ou à psicologia social quando as observamos sendo aplicadas
I Introdução: Um Papel para a História 8

aos dados que supostamente devem elu-


cidar. Como poderia a história da ciên-
cia falhar como produtora de fenômenos
para a aplicação de teorias sobre o conhe-
cimento que podem ser legitimamente
requisitadas para isso?
II O Caminho para a Ciência Normal 9

II

O Caminho para a Ciência Normal

Nesse ensaio ciência normal significa blemas e métodos de um campo de pes-


pesquisa firmemente baseada em um quisa para sucessivas gerações de cientis-
ou mais trabalhos científicos passados. tas. Tais livros tornaram-se aptos a isso
Trata-se de trabalhos científicos selecio- porque compartilhavam duas caracterís-
nados por alguma comunidade científica ticas essenciais. Os trabalhos científicos
particular para constituírem o alicerce da que esses livros expunham eram sufici-
sua prática corrente, pelo menos durante entemente sem precedentes para atrair
um certo período de tempo. Hoje em um grupo estável de aderentes, e também
dia tais trabalhos são recontados pelos li- para livrar esse grupo de um contexto de
vros didáticos científicos elementares e concorrência entre diferentes modos de
avançados, ainda que raramente em sua fazer ciência. Ao mesmo tempo, esses tra-
forma original. Esses manuais expõem balhos eram suficientemente incomple-
o corpo da teoria aceita, ilustram a te- tos para deixar em aberto toda sorte de
oria com várias de suas aplicações bem problemas para o grupo de cientistas –
sucedidas e comparam essas aplicações agora reestruturado – resolver.
com observações e experimentos exem-
plares. Antes que os livros didáticos se Devo referir-me daqui por diante aos
tornassem populares a partir do início do trabalhos científicos que compartilham
século XIX – e ainda mais recentemente essas duas características como paradig-
nas ciências que se tornaram maduras há mas, um termo que se relaciona intima-
pouco – muitos dos famosos clássicos da mente a ciência normal. Ao escolher o
ciência preencheram uma função similar. termo paradigma quero sugerir que al-
Juntamente com muitas outras obras, A guns exemplos acatados pela prática ci-
Física de Aristóteles, o Almagesto de Pto- entífica efetiva – exemplos que incluem
lomeu, os Principia e a Ótica de New- lei, teoria, aplicação e instrumentação
ton, a Eletricidade de Franklin, a Química juntos – fornecem os modelos a partir dos
de Lavoisier e a Geologia de Lyell servi- quais se desenvolvem certas tradições co-
ram durante um certo tempo para de- erentes da investigação científica. Falo
finir e legitimar implicitamente os pro- de tradições que os historiadores descre-
vem sob rubricas como astronomia pto-
II O Caminho para a Ciência Normal 10

lomaica (ou copernicana), dinâmica aris- sua função? Respostas para essas ques-
totélica (ou newtoniana), ótica corpus- tões e para outras similares mostrar-se-
cular (ou ótica ondulatória), e assim por ão básicas para uma compreensão da ci-
diante. É principalmente o estudo dos ência normal e do conceito de paradig-
paradigmas – incluindo vários que são mas que lhe é associado, quando nos de-
muito mais especializados que aqueles pararmos com elas na Seção V. A dis-
que nomeei ilustrativamente acima – que cussão mais abstrata daquela Seção vai
prepara o estudante para fazer parte da depender, contudo, de nos familiarizar-
comunidade científica particular em que mos previamente com exemplos de ciên-
ele vai desenvolver mais tarde a sua prá- cia normal e de paradigmas em operação.
tica da ciência. Como esse estudante vai Esses dois conceitos relacionados ficarão
se juntar a profissionais que aprenderam mais claros particularmente quando no-
as bases do seu campo a partir dos mes- tarmos que pode haver um tipo de pes-
mos modelos concretos que ele, sua prá- quisa científica sem paradigmas – ou pelo
tica subsequente raramente vai produzir menos sem paradigmas tão inequívocos
algum desacordo aberto acerca daquelas e coercitivos como aqueles que nomea-
bases. Pessoas que foram treinadas para mos acima. A incorporação de um para-
fazer pesquisa com base nos mesmos pa- digma – e o tipo mais esotérico de inves-
radigmas estão subordinadas às mesmas tigação que ele permite – é um sinal de
regras e padrões para a prática científica. maturidade no desenvolvimento de qual-
Essa sujeição e o aparente consenso que quer campo científico.
ela produz são pré-requisitos para a ciên- Se o historiador busca no passado a re-
cia normal. Isto é, são pré-requisitos para constituição do conhecimento científico
a gênese e para a continuidade de uma de um grupo qualquer de fenômenos re-
tradição particular de pesquisa. lacionados, é provável que ele encontre
Uma vez que nesse ensaio o con- alguma variedade aproximada do padrão
ceito de paradigma vai geralmente subs- da história da ótica física ilustrado aqui.
tituir uma série de noções familiares, um Atualmente os manuais de física dizem
pouco mais deve ser dito sobre as razões ao estudante que a luz são fótons, isto é,
para a sua introdução. Por que o traba- entidades quântico-mecânicas que exi-
lho científico concreto – entendido como bem algumas características de ondas e
o delimitador dos compromissos profis- algumas características de partículas. A
sionais – é anterior aos vários conceitos, pesquisa se desenvolve de acordo com
leis, teorias e pontos de vista que podem isso. Ou melhor, desenvolve-se de acordo
ser abstraídos dele? Em que sentido o pa- com uma caracterização mais elaborada
radigma compartilhado é a unidade fun- – e matemática – da qual é derivada a ver-
damental para o estudioso do desenvol- balização mais comum. Essa caracteri-
vimento científico: uma unidade que não zação da luz, contudo, mal tem meio sé-
pode ser satisfatoriamente reduzida aos culo. Antes que ela fosse desenvolvida
componentes logicamente atômicos que no início do presente século por Planck,
poderiam alegadamente substituí-lo em Einstein e outros, os textos de física en-
II O Caminho para a Ciência Normal 11

sinavam que a luz era um movimento de luz era uma modificação do meio que in-
onda transversal – uma concepção enrai- tervinha entre um corpo e o olho. Um
zada em um paradigma que derivou em outro grupo ainda explicava a luz em ter-
última instância dos escritos sobre ótica mos de uma interação do meio com uma
de Young e Fresnel, no começo do século emanação do olho. E ainda havia ou-
XIX. A teoria ondulatória também não foi tras combinações e modificações daque-
a primeira a ser adotada por quase todos las várias concepções da luz. Cada uma
os praticantes da ciência ótica. Durante das escolas correspondentes reforçava-se
o século dezoito o paradigma para esse com base na sua relação com alguma me-
campo era fornecido pela Ótica de New- tafísica particular. Cada uma enfatizava
ton, que ensinava que a luz era consti- o agregado de fenômenos óticos que a
tuída de corpúsculos materiais. Naquele sua própria teoria mostrava maior capa-
tempo os físicos buscavam evidência da cidade para explicar, dando-lhe o cará-
pressão exercida pelas partículas de luz ter de observações paradigmáticas. Ou-
ao colidir com os corpos sólidos. Algo que tras observações eram ajustadas à teoria
os primeiros utilizadores da teoria ondu- com alguma elaboração ad hoc, ou então
latória não fizeram.1 permaneciam como problemas penden-
Essas transformações dos paradigmas tes para uma investigação futura.2
da ótica física são revoluções científicas, Em diversas ocasiões todas aquelas es-
e as sucessivas transições de um para- colas fizeram contribuições significativas
digma para outro pela via da revolução para o corpo de conceitos, fenômenos e
são o padrão típico de desenvolvimento técnicas do qual Newton extraiu o pri-
da ciência madura. Entretanto, tal não é meiro paradigma da física ótica quase
o padrão característico do período ante- uniformemente aceito. Qualquer defini-
rior ao trabalho de Newton. Esse é o con- ção de cientista que não inclua pelo me-
traste que nos interessa aqui. Nenhum nos os membros mais criativos daque-
período entre a antiguidade remota e o fi- las várias escolas vai excluir também seus
nal do século dezessete mostrou alguma sucessores modernos. Aquelas pessoas
concepção sobre a natureza da luz que eram cientistas. Todavia, quem quer que
fosse aceita generalizadamente. Ao invés examine o panorama da ótica física antes
disso, havia um certo número de esco- de Newton pode muito bem concluir que
las e subescolas concorrentes, a maioria embora os praticantes daquele campo
delas adotando uma ou outra variedade fossem cientistas, o resultado líquido da
de teoria epicurista, aristotélica e platô- sua atividade era algo menos que ciên-
nica. Um grupo considerava que a luz cia. Não podendo dar por garantido
fosse constituída de partículas que ema- um corpo comum de crenças, cada um
nam dos corpos materiais. Para outro, a que escrevia sobre a ótica física sentia-
se compelido a construir o campo a par-
1 Joseph Priestley, The History and Present State

of Discoveries Relating to Vision, Light, and Co- 2 Vasco Ronchi, Histoire de la Lumière, trad.

lours (London,1772), pp. 385-90. Jean Taton (Paris, 1956), caps. i-iv.
II O Caminho para a Ciência Normal 12

tir das suas fundações. Nessas circuns- dores lessem os trabalhos uns dos outros,
tâncias, o diálogo dos livros que resul- suas teorias não tinham mais que uma se-
tavam era dirigido com frequência tanto melhança de família.3
aos membros de outras escolas quanto à Um grupo inicial de teorias que se-
natureza. Tal padrão não deixa de ser fa- guiam a prática do século dezessete reco-
miliar a um certo número de campos cri- nheceu a atração e a geração de fricção
ativos da atualidade, nem é incompatível como os fenômenos elétricos fundamen-
com descobertas e invenções significati- tais. Esse grupo tendeu a tratar a repul-
vas. Ele não é, contudo, o padrão de de- são como um efeito secundário devido
senvolvimento que a ótica física adquiriu a algum tipo de ricochete mecânico, e a
depois de Newton, e que outras ciências adiar tanto quanto possível a discussão
naturais tornam familiar hoje em dia. e a investigação sistemática da condução
A história da pesquisa sobre eletrici- elétrica, um efeito recém descoberto por
dade na primeira metade do século de- Gray. Outros eletricistas – o termo é deles
zoito fornece um exemplo mais concreto próprios – consideraram que a atração e a
e melhor conhecido sobre o modo como repulsão fossem em igual medida mani-
se desenvolve uma ciência antes que ela festações elementares da eletricidade, e
adquira seu primeiro paradigma univer- modificaram suas teorias de acordo com
salmente assumido. Durante aquele pe- isso.4 Mas eles tiveram tanta dificuldade
ríodo havia quase tantas concepções so- quanto o primeiro grupo para dar uma
bre a natureza da eletricidade quantos
3 Duane
eram os mais importantes cientistas fa- Roller e Duane H. D. Roller, The De-
zendo experimentos com eletricidade – velopment of the Concept of Electric Charge: Elec-
tricity from the Greeks to Coulomb (Harvard Case
pessoas como Hauksbee, Gray, Desaguli-
Histories in Experimental Science, Case 8; Cam-
ers, Du Fay, Nollet, Watson, Franklin e ou- bridge, Mass., 1954); e I. B. Cohen, Franklin
tros. Todos os seus numerosos conceitos and Newton: An Inquiry into Speculative Newto-
de eletricidade tinham algo em comum: nian Experimental Science and Franklin’s Work in
eles eram derivados de uma ou outra Electricity as an Example Thereof (Philadelphia,
1956), caps. vii-xii. Para alguns detalhes analí-
versão da filosofia mecânico-corpuscular ticos do parágrafo que se segue no texto, estou
que guiava toda pesquisa científica na- em débito com um artigo ainda não publicado do
quela época. Em acréscimo, todos aque- meu orientando John L. Heilbron. Enquanto ele
les conceitos eram componentes de teo- não é publicado, uma reconstituição um pouco
rias científicas reais. Ou seja, eram com- mais extensa e mais precisa da emergência do pa-
radigma de Franklin está incluída em T. S. Kuhn,
ponentes de teorias que foram extraí- The Function of Dogma in Scientific Research, in
das de experimentos e de observações e A. C. Crombie (ed.), Symposium on the History of
que determinavam parcialmente a esco- Science, University of Oxford, Julho 9-15, 1961, a
lha e a interpretação dos problemas adi- ser publicado por Heinemann Educational Books,
cionais com que a pesquisa se compro- Ltd.
4 Esse grupo é de fato notavelmente pequeno.
metia. Contudo, ainda que todos os expe- Mesmo a teoria de Franklin nunca explicou efeti-
rimentos fossem feitos com eletricidade; vamente a repulsão de dois corpos com carga ne-
e ainda que a maioria dos experimenta- gativa.
II O Caminho para a Ciência Normal 13

explicação simultânea dos efeitos da con- plo – os primeiros paradigmas universal-


dução elétrica que não fossem os mais mente aceitos são ainda mais recentes.
simples. Tais efeitos, contudo, ainda for- E permanece uma questão aberta quais
neceram o ponto de partida para um ter- partes da ciência social já teriam adqui-
ceiro grupo. Refiro-me ao grupo que ten- rido algum paradigma, mesmo nos dias
dia a falar da eletricidade como um fluido de hoje. A história sugere que o caminho
que poderia correr através de conduto- para um firme consenso na pesquisa é ex-
res – e não de um eflúvio que emanaria traordinariamente árduo.
de não-condutores. Esse grupo, por sua Todavia, a história também sugere al-
vez, teve dificuldade em conciliar sua te- gumas razões para as dificuldades en-
oria com diversos efeitos de atração e de contradas pelo caminho. Na falta de
repulsão. Só através do trabalho de Fran- um paradigma ou de algum candidato
klin e seus sucessores imediatos emergiu a paradigma, todos os fatos que possi-
uma teoria que podia de algum modo dar velmente poderiam pertencer ao desen-
conta com igual facilidade de quase to- volvimento de uma dada ciência pare-
dos aqueles efeitos e, portanto, que po- cerão igualmente relevantes. Como re-
deria oferecer a uma geração posterior de sultado, nos primórdios a coleta de fa-
eletricistas um paradigma comum para a tos será uma atividade muito mais ale-
sua pesquisa. atória do que aquela que o desenvolvi-
Excluindo aqueles campos como a ma- mento científico subsequente torna fa-
temática e a astronomia cujos primeiros miliar. Ademais, na ausência de uma ra-
paradigmas estáveis datam da antigui- zão para procurar alguma forma especí-
dade; e excluindo também aqueles cam- fica de informação mais recôndita, a co-
pos como a bioquímica que emergiram leta inicial de fatos fica habitualmente
da divisão e recombinação de especiali- restrita ao acervo de dados prontos que
dades já amadurecidas, as situações de- já estão ao alcance da mão. O resultante
lineadas acima são historicamente típi- acúmulo de fatos contém aqueles mais
cas. Embora eu continue a designar esses acessíveis à observação e ao experimento
episódios históricos prolongados com in- casuais, juntamente com alguns dos da-
felizes rótulos simplificadores e escolhi- dos mais esotéricos que podemos conse-
dos, em certa medida, arbitrariamente – guir em ofícios tradicionais como a me-
por exemplo, Newton ou Franklin –, su- dicina, a elaboração de calendários e a
giro que desacordos fundamentais simi- metalurgia. A tecnologia tem frequente-
lares caracterizaram, por exemplo, o es- mente exercido um papel vital na emer-
tudo do movimento antes de Aristóteles gência de novas ciências porque os ofí-
e o estudo da estática antes de Arquime- cios são uma fonte prontamente acessí-
des. Caracterizaram também o estudo do vel de fatos que não poderiam ter sido
calor antes de Black, da química antes de descobertos casualmente.
Boyle e Boerhaave, e da geologia histórica Mas, ainda que esse tipo de coleta de
antes de Hutton. Em partes da biologia fatos tenha sido a origem de várias ciên-
– o estudo da hereditariedade, por exem- cias importantes, quando examinamos,
II O Caminho para a Ciência Normal 14

por exemplo, os escritos enciclopédicos acima com outras como, digamos, aque-
de Plínio ou as histórias naturais baco- cimento por antiperístase (ou por resfri-
nianas do século dezessete, descobrimos amento) que hoje de modo algum po-
que produzem uma bagunça. De certa demos confirmar.7 Só muito ocasional-
forma a gente hesita em chamar científica mente – como no caso da estática, da di-
a literatura resultante. As ‘histórias’ baco-nâmica e da ótica geométrica antigas – fa-
nianas do calor, da cor, do vento, da mi- tos coletados com tão pouco direciona-
neração e assim por diante estão cheias mento de uma teoria preestabelecida fa-
de informação. Dessa, alguma é do tipo lam com suficiente clareza para permitir
recôndito. Mas elas justapõem fatos que a emergência de um primeiro paradigma.
mais tarde mostrar-se-ão reveladores – Essa é a situação que cria as escolas
por exemplo, o calor por mistura – com características dos primeiros estágios do
outros – por exemplo, o calor de montes desenvolvimento de uma ciência. Não
de esterco – que por algum tempo perma- podemos interpretar uma história natu-
neceriam muito complexos para serem ral sem pelo menos um corpo implícito
integrados à teoria de um modo qual- de crenças teóricas e metodológicas en-
quer.5 Além do mais, como toda descri- tretecidas que permita a seleção, a ava-
ção será parcial, a história natural típica liação e a crítica. Se esse corpo de cren-
geralmente omite de seus registros – que ças já não está implícito na coleção de fa-
em grande medida são circunstanciais – tos – caso em que já teríamos à disposição
exatamente aqueles detalhes que mais mais do que ‘meros fatos’ – então ele deve
tarde os cientistas considerarão impor- ser substituído por algo externo como,
tantes fontes de esclarecimento. Quase talvez, uma metafísica em voga, uma ou-
nenhuma das ‘histórias’ da eletricidade, tra ciência ou algum acidente pessoal e
por exemplo, menciona que palha atraída histórico. Não é de admirar, portanto,
por um bastão de vidro friccionado é re- que nos estágios iniciais do desenvolvi-
pelida de novo. Esse efeito parecia me- mento de qualquer ciência pessoas dife-
cânico, não elétrico.6 Ademais, já que a rentes deparando-se com fenômenos do
coleta casual de fatos raramente possui mesmo tipo – mas não com os mesmos
o tempo ou as ferramentas para ser crí- fenômenos particulares – descrevem-nos
tica, as histórias naturais geralmente jus- de maneiras diferentes. O surpreendente
tapõem descrições como a apresentada – e talvez uma singularidade dos campos
que denominamos ciência – é que essas
5 Compare-se com o esboço de uma história divergências iniciais deveriam desapare-

natural do calor no Novum Organum de Bacon, cer em uma escala crescente.


Vol. VIII dos Works of Francis Bacon, ed. J. Sped-
ding, R. L. Ellis e D. D. Heath (New York, 1869), pp. 7 Bacon, op. cit. pp. 235, 337, diz: A água ligei-

179-203. ramente morna congela-se mais facilmente que a


6 Roller e Roller, op. cit., pp. 14, 22, 28, 43. Só muito fria. Para um relato parcial dos primórdios
depois do trabalho registrado na última dessas ci- da história dessa observação estranha, consulte-
tações que os efeitos repulsivos ganham reconhe- se Marshall Clagett, Giovanni Marliani and Late
cimento geral como inequivocamente elétricos. Medieval Physics (New York, 1941), cap. iv.
II O Caminho para a Ciência Normal 15

Pois elas efetivamente desaparecem conhecidos de repulsão elétrica.9 Para ser


em uma extensão considerável e, a seguir, aceita como um paradigma uma teoria
parece que somem de uma vez por todas. deve parecer melhor que suas competi-
Acrescente-se que seu desaparecimento doras. Todavia, não precisa explicar to-
é usualmente causado pelo triunfo de dos os fatos com que é confrontada. E de
uma das escolas pré-paradigmáticas que, fato nunca faz isso.
por causa de suas próprias crenças e Aquilo que a teoria dos fluidos fez pelo
preconcepções características, enfatizou subgrupo que a sustentou, o paradigma
apenas alguma parte específica de um frankliniano fez mais tarde por todo o
estoque de informação demasiado ex- grupo dos eletricistas. Ele sugeriu quais
tenso e pouco elaborado.Aqueles eletri- experimentos seriam dignos de ser re-
cistas que pensaram a eletricidade como alizados, e quais não deveriam ser rea-
um fluido – e que portanto deram espe- lizados por parecerem experimentos di-
cial ênfase à condução – fornecem um ex- rigidos para manifestações secundárias
celente exemplo para o caso em questão. ou excessivamente complexas da eletrici-
Levados por essa crença – que mal po- dade. O paradigma fez esse serviço muito
deria lidar com a conhecida multiplici- mais eficazmente, em parte porque o fim
dade dos efeitos de atração e de repulsão do debate entre escolas diferentes pôs um
– vários deles tiveram a ideia de engarra- fim na repetida discussão dos fundamen-
far o fluido elétrico. O resultado imedi- tos e, em parte, porque a confiança de
ato de seus esforços foi a garrafa de Ley- que estavam agora no caminho certo en-
den, um artefato que nunca poderia ter corajou os cientistas a empreender tipos
sido inventado por pessoas que investi- de trabalho mais precisos, mais distan-
gassem a natureza de maneira casual ou tes do senso comum e da linguagem do
aleatória. Como esse não era o caso, a gar- dia a dia, e com um empenho mais con-
rafa de Leyden foi desenvolvida de modo centrado e intenso.10 Livres de se preo-
independente por pelo menos dois in-
9 A maior complicação estava no caso da repul-
vestigadores no início dos anos quarenta
são mútua de dois corpos com carga negativa. So-
do século dezoito.8 Quase desde o co- bre isso ver Cohen, op. cit., pp. 491-94, 531-43.
meço de suas investigações sobre a eletri- 10 Dever-se-ia notar que a aceitação da teoria de

cidade, Franklin esteve particularmente Franklin não encerrou o debate por completo. Em
interessado em dar uma explicação da- 1759 Robert Symmer propôs uma versão de dois
quele aparato estranho e, no caso, par- fluidos daquela teoria. Ainda por muitos anos
depois disso os eletricistas ficariam divididos so-
ticularmente revelador. Seu sucesso em bre se a eletricidade era um ou dois fluidos. Mas
fazer isso forneceu os mais eficazes ar- os debates sobre essa questão apenas confirmam
gumentos para tornar sua teoria um pa- aquilo que já foi dito acima sobre a maneira com
radigma, embora ainda fosse uma teoria que um trabalho científico universalmente reco-
incapaz de explicar quase todos os casos nhecido une a profissão. Embora continuassem
divididos sobre esse ponto, os eletricistas rapida-
mente concluíram que nenhum teste experimen-
tal poderia distinguir as duas versões da teoria
8 Roller e Roller, op. cit., pp. 51-54. e que, portanto, elas eram equivalentes. Depois
II O Caminho para a Ciência Normal 16

cupar indistintamente com todo e qual- trabalho. O novo paradigma implica uma
quer fenômeno elétrico, o grupo unido definição nova e muito mais rígida do
dos eletricistas poderia investigar uma campo de ação profissional. Aquelas
seleção de fenômenos com muito mais pessoas que não estiverem dispostas
detalhe, projetando equipamentos muito ou aptas a acomodar seu trabalho a ele
mais especializados para a tarefa e em- deverão dar prosseguimento ao seu tra-
pregando esses equipamentos de modo balho em isolamento ou então juntar-se
muito mais sistemático e persistente do a algum outro grupo.12 Historicamente
que jamais haviam feito antes. A coleta de elas têm simplesmente ficado nos de-
fatos e a articulação da teoria tornaram- partamentos de filosofia, que desovaram
se atividades altamente dirigidas. A efe- tantas ciências especializadas. Como
tividade e a eficiência da pesquisa elé- essas indicações sugerem, somente a
trica cresceram na mesma medida, for- recepção de um paradigma transforma
necendo evidência para uma versão so- um grupo meramente interessado no
cietária do agudo dito metodológico de estudo da natureza em uma profissão
Francis Bacon: A verdade emerge mais ou, pelo menos, em uma disciplina. Nas
prontamente do erro que da confusão. 11 ciências – embora não em campos como
Vamos examinar a natureza dessa a medicina, a tecnologia e o direito,
pesquisa altamente dirigida ou baseada cuja razão de ser é uma necessidade do
em paradigma na próxima seção, mas mundo social externo – a constituição
primeiro devemos indicar brevemente
12 A
como a emergência de um paradigma história da eletricidade oferece um exce-
afeta a estrutura do grupo que pratica lente exemplo que também pode ser encontrado
nas carreiras de Priestley, Kelvin e outros. Franklin
sua profissão no campo em que isso
relata que Nollet – que em meados do século era
ocorre. No desenvolvimento de uma o mais influente dos eletricistas – viveu para ser o
ciência natural, quando um indivíduo último da sua seita, à exceção do Sr. B. – seu aluno
ou um grupo produz pela primeira vez e sucessor imediato. (Max Farrand [ed.], Benja-
uma síntese capaz de atrair quase toda a min Franklin’s Memoirs [Berkeley, Calif., 1949],
pp. 384-86). Entretanto, o mais interessante é no-
próxima geração de cientistas, as escolas tarmos como escolas inteiras resistem, isolando-
mais velhas gradualmente desaparecem. se crescentemente da profissão. Considere-se o
Em parte esse desaparecimento é cau- caso da astrologia, que um dia já foi parte inte-
sado pela conversão de seus membros grante da astronomia. Ou se considere a continui-
ao novo paradigma. Mas sempre há dade de uma respeitável tradição prévia de quí-
mica romântica no final do século dezoito e iní-
algumas pessoas que se aferram a uma cio do dezenove. Essa é a tradição discutida por
ou outra das antigas concepções, e são Charles C. Gillispie em The Encyclopédie and the
simplesmente expulsas da profissão – Jacobin Philosophy of Science: A Study in Ideas
que daí por diante passa a ignorar seu and Consequences, Critical Problems in the His-
tory of Science, ed. Marshall Clagett (Madison,
disso as duas escolas puderam – e realmente o fi- Wis., 1959), pp. 255-89; e The Formation of La-
zeram – explorar todos os benefícios que a teoria marck’s Evolutionary Theory, Archives internati-
de Franklin oferecia (ibid., pp.543-46, 548-54). onales d’histoire des sciences, XXXVII (1956), 323-
11 Bacon, op. cit., p. 210. 38.
II O Caminho para a Ciência Normal 17

de revistas especializadas, a fundação de apenas para seus colegas de profissão. Ou


sociedades de especialistas e a revindica- seja, dirigidos às pessoas cujo conheci-
ção de um lugar especial nos currículos mento de um paradigma compartilhado
têm sido associadas à primeira recepção pode ser presumido, e que se mostram as
de um paradigma único por um grupo únicas capazes de ler os artigos dirigidos
de cientistas. Pelo menos foi esse o caso a elas.
entre o momento – um século e meio Hoje em dia nas ciências, em geral os
atrás – em que o padrão institucional da livros ou são manuais didáticos ou são
especialização científica começou a se reflexões retrospectivas sobre um ou ou-
desenvolver e o momento muito recente tro aspecto da vida científica. O cien-
em que a parafernália da especialização tista que escreve um livro vai mais prova-
adquiriu prestígio por si mesma. velmente ter sua reputação prejudicada
A definição mais rígida do grupo cien- que ampliada. Só no começo – nos es-
tífico tem outras consequências. Quando tágios pré-paradigmáticos de desenvolvi-
individualmente um cientista pode con- mento de diferentes ciências – o livro ge-
siderar o paradigma como pressuposto, ralmente possuía a mesma relação com
ele já não precisa, em seus trabalhos mais as conquistas profissionais que ele ainda
importantes, construir seu campo uma hoje mantém em outros campos da cri-
vez mais, começando pelos princípios e atividade humana. E apenas naqueles
justificando o uso de cada conceito que campos que ainda mantêm o livro como
introduz. Isso pode ser deixado para o es- forma de comunicação – acompanhado
critor de livros didáticos. Dado um ma- ou não de artigos – as linhas da demar-
nual, contudo, o cientista criativo pode cação do terreno profissional continuam
começar sua pesquisa no ponto em que tão imprecisas que o leigo pode ter a es-
esse livro didático termina, e se concen- perança de acompanhar os avanços atra-
trar exclusivamente nos aspectos mais vés da leitura das exposições originais dos
sutís e esotéricos dos fenômenos natu- cientistas. Já na antiguidade, os relatos de
rais que interessam ao seu grupo. Na me- pesquisa da astronomia e da matemática
dida em que ele faz isso, seus relatos de deixaram de ser inteligíveis para uma au-
pesquisa começarão a mudar em senti- diência apenas genericamente educada.
dos cuja evolução foi bem pouco estu- Para as pessoas que não eram da área,
dada até hoje, mas cujos produtos finais na dinâmica os resultados da pesquisa
modernos são óbvios para todos e opres- tornaram-se similarmente ininteligíveis
sivos para muitos. Em geral suas pesqui- na Baixa Idade Média, recapturando a in-
sas não vão mais corporificar-se em li- teligibilidade geral apenas por um curto
vros dirigidos a qualquer um que pudesse período no começo do século dezessete,
ter algum interesse nos problemas da sua até que um novo paradigma substituísse
área, como os Experiments on Electri- aquele que tinha guiado a pesquisa me-
city de Franklin e a Origin of Species de dieval. A pesquisa elétrica começou a
Darwin. Ao invés disso, elas vão apare- precisar de tradução para o leigo no fi-
cer na forma de artigos breves dirigidos nal do século dezoito, e a maioria dos
II O Caminho para a Ciência Normal 18

outros campos da ciência física deixou, Fay e até mesmo de Franklin do que os
em geral, de ser acessível no século deze- textos desses descobridores no campo da
nove. Durante esses mesmos dois sécu- eletricidade do começo do século dezoito
los, transições parecidas podem ser iso- estão dos escritos do século dezesseis.13
ladas nas várias partes das ciências bioló- Em algum momento entre 1740 e 1780
gicas. Em partes das ciências sociais isso os eletricistas tornaram-se capazes pela
pode muito bem estar ocorrendo nos dias primeira vez de considerar que o alicerce
de hoje. Embora tenha-se tornado cos- de seu campo estava sólido. A partir daí
tumeiro deplorar o alargamento do golfo passaram a investigar problemas mais
que separa o cientista profissional de seus concretos e de mais difícil detecção, re-
colegas de outros campos – e isso cer- portando os resultados de suas pesquisas
tamente tem sua conveniência –, muito em artigos dirigidos a outros eletricistas,
pouca atenção é dada à relação essencial em vez de fazê-lo em livros destinados ao
entre tal golfo e os mecanismos intrínse- mundo culto em geral. Como grupo, eles
cos ao avanço científico. atingiram aquilo que os astrônomos já
Desde a remota antiguidade, um tinham obtido na antiguidade; os estudi-
campo depois do outro cruzou a linha di- osos do movimento já tinham obtido na
visória entre aquilo que os historiadores Idade Média; os estudiosos da ótica física
chamam sua pré-história como ciência já tinham obtido no século dezessete
e a sua história propriamente dita. Essas tardio; e a geologia histórica no início do
transições para a maturidade raramente século dezenove. Isto é, tinham obtido
foram tão abruptas ou tão inequívocas um paradigma que se provara adequado
quanto parece estar implícito em minha para guiar a pesquisa do grupo todo. É
discussão necessariamente esquemática. difícil achar outro critério para procla-
Mas também não foram historicamente mar tão claramente que um determinado
graduais a ponto de ser coextensivas com campo tornou-se uma ciência, a não ser
todo o processo de desenvolvimento dos que tenhamos a posição vantajosa da
campos em que ocorreram. Aqueles que retrospecção histórica.
escreviam sobre eletricidade durante
as primeiras quatro décadas do século
dezoito dispunham de muito mais infor- 13 Os desenvolvimentos pós-franklinianos in-
mação sobre os fenômenos elétricos que cluem um imenso aumento na sensitividade dos
seus predecessores do século dezesseis. detectores de carga, as primeiras técnicas confiá-
veis e amplamente difundidas para mensuração
Durante meio século depois de 1740, de carga, a evolução do conceito de capacidade e
uns poucos novos tipos de fenômenos a sua relação com uma renovada e mais refinada
elétricos foram adicionados às suas listas. noção de tensão elétrica, além da quantificação
Não obstante, em aspectos relevantes, os da força eletrostática. Sobre tudo isso ver Roller
escritos sobre eletricidade de Cavendish, e Roller, op. cit., pp. 66-81; W. C. Walker, The De-
tection and Estimation of Electric Charges in the
Coulomb e Volta no último terço do Eighteenth Century, Annals of Science, I (1936),
século dezoito pareciam muito mais 66-100; e Edmund Hoppe, Geschichte der Elektri-
distanciados dos escritos de Gray, Du zität (Leipzig, 1884), Parte I, caps. iii-iv.
III A Natureza da Ciência Normal 19

III

A Natureza da Ciência Normal

Então, qual é a natureza dessa pesquisa vir para substituir o paradigma inicial. Na
– mais profissional e restrita a especia- ciência, no entanto, um paradigma rara-
listas – que a adoção de um paradigma mente é um objeto para ser repetido ou
comum por um grupo de cientistas per- replicado. Em vez disso – como uma de-
mite? Se o paradigma representasse um cisão judicial elaborada a partir do direito
trabalho que já foi feito de uma vez por to- consuetudinário –, o paradigma é um ob-
das, que problemas em aberto ele deixa- jeto de articulações sucessivas e de espe-
ria para o grupo unificado resolver? Tais cificação sob condições novas e mais rígi-
questões parecerão ainda mais premen- das.
tes se observarmos agora uma relação em Para vermos como isso ocorre dessa
que os termos usados até o momento po- forma, devemos reconhecer o quanto
dem ser enganadores. No uso habitual, um paradigma é limitado em amplitude
um paradigma é um modelo ou padrão e precisão quando ele entra em cena.
aceito. Na falta de uma palavra melhor, Os paradigmas obtêm seus status por-
esse aspecto do seu significado permitiu- que são mais bem sucedidos que seus
me no presente ensaio apropriar-me do competidores na resolução de uns pou-
termo ‘paradigma’. Mas logo vai ficar cos problemas que o grupo de cientistas
claro que o sentido de ‘modelo’ e ‘padrão’ veio a reconhecer como graves. Entre-
– que permite a apropriação da palavra tanto, ser bem sucedido não significa ser
– não é aqui exatamente aquele que de- completamente bem sucedido com um
fine usualmente ‘paradigma’. Na gramá- único problema nem ser notavelmente
tica, por exemplo, ‘amo, amas, amat’ é bem sucedido com um grande número
um paradigma porque revela o padrão a de problemas. O sucesso de um para-
ser usado na conjugação de um grande digma – seja ele a análise do movimento
número de outros verbos latinos. Por de Aristóteles, os cálculos das posições
exemplo, ao produzir ‘laudo, laudas, lau- planetárias de Ptolomeu, a aplicação da
dat’. Nessa aplicação padronizada, o pa- balança por Lavoisier ou a matematiza-
radigma funciona quando permite a re- ção do campo magnético de Maxwell –
plicação de exemplos. Qualquer um des- é de início em grande medida apenas
ses exemplos poderia, em princípio, ser- uma promessa que os cientistas apren-
III A Natureza da Ciência Normal 20

dem a ver em trabalhos científicos exem- científico-normal é dirigida para a articu-


plares que ainda estão muito incomple- lação daqueles fenômenos e teorias que o
tos. A ciência normal consiste na reali- paradigma já proporciona.
zação dessa promessa. Tal realização se Talvez tudo isso seja defeito. As áreas
concretiza estendendo o conhecimento investigadas pela ciência normal são
daqueles fatos que o paradigma destaca claramente minúsculas. O empreendi-
como particularmente reveladores, au- mento que estamos discutindo tem uma
mentando o ajuste entre aqueles fatos e visão drasticamente restrita. Mas essas
as predições do paradigma, e articulando restrições – nascidas da confiança dos
ulteriormente o próprio paradigma. cientistas em um paradigma – resultam
Poucas pessoas entre os não profissio- essenciais para o desenvolvimento da
nais efetivos de uma ciência madura che- ciência. Ao focar a atenção sobre um
gam a entender quanto trabalho de aca- pequeno conjunto de problemas relati-
bamento desse tipo um paradigma deixa vamente esotéricos, o paradigma força
para ser feito. Ou então, quão verda- os cientistas a investigar alguma parte da
deiramente fascinante tal trabalho pode natureza em tal grau de detalhamento
mostrar-se em sua execução. Esses pon- e profundidade que seria inimaginável
tos precisam ser compreendidos. As ope- de outro modo. Mas, a ciência normal
rações de acabamento do paradigma são possui um mecanismo embutido que
aquelas que ocupam a maioria dos cien- assegura o relaxamento das restrições
tistas durante toda a sua carreira. Elas que coagem a pesquisa, quando quer
constituem o que estou aqui chamando que o paradigma de que derivam cesse
de ciência normal. Quando examinada de funcionar efetivamente. Nesse ponto
mais de perto – seja historicamente ou os cientistas começam a se comportar
no laboratório contemporâneo –, a ciên- diferentemente, e a natureza de seus
cia normal parece uma tentativa de for- problemas de pesquisa muda. Contudo,
çar a natureza para dentro da caixa pré- enquanto isso não ocorre – ou seja,
moldada e relativamente inflexível que o durante o período em que o paradigma
paradigma fornece. Não faz parte dos prospera – a profissão estará resolvendo
propósitos da ciência normal revelar no- problemas que seus membros mal po-
vos fenômenos. De fato, aqueles fenô- deriam imaginar que resolveriam, e que
menos que não se ajustam à caixa para- nunca se teriam postos a resolver sem
digmática em geral nem são vistos. Tam- o comprometimento com o paradigma.
bém não é propósito dos cientistas que E pelo menos parte do produto desse
fazem ciência normal inventar novas te- trabalho sempre prova ser duradoura.
orias. Aliás, eles em geral são muito in- Para mostrar mais claramente o que se
tolerantes com as teorias inventadas por quer dizer com pesquisa normal ou pes-
terceiros.1 Ao invés disso, a pesquisa quisa baseada em paradigma, deixe-me
tentar classificar e ilustrar os problemas
1 Bernard Barber, Resistance by Scientists to

Scientific Discovery, Science, CXXXIV (1961), 596- 602.


III A Natureza da Ciência Normal 21

de que, sobretudo, consiste a ciência nor- e a amplitude do conhecimento desses


mal. Por conveniência, adio a atividade fatos ocupam uma fração significativa da
teórica e começo pela coleta de fatos. Isto literatura da ciência experimental e ob-
é, começo pelos experimentos e observa- servacional. Complexos aparelhos têm
ções descritos nas revistas técnicas pelas sido repetidamente projetados para tais
quais os cientistas informam seus cole- propósitos. E o desenvolvimento desses
gas dos resultados de suas pesquisas em aparelhos tem demandado talento de pri-
andamento. Ordinariamente, os cientis- meira grandeza, muito tempo de trabalho
tas reportam-se a quais aspectos da na- e considerável suporte financeiro. Sín-
tureza? O que determina a sua escolha? crotrons e radiotelescópios são apenas os
E o que motiva o cientista a prosseguir exemplos mais recentes de até onde os
nessa escolha até que chegue a uma con- operários da pesquisa podem ir quando
clusão, já que quase toda observação ci- um paradigma lhes assegura que os fa-
entífica consome muito tempo, equipa- tos que estão investigando são importan-
mento e dinheiro? tes. De Tycho Brahe a E. O. Lawrence, al-
Penso que haja só três focos normais guns cientistas adquiriram grande repu-
para a investigação científica fatual, e eles tação. No caso desses cientistas, isso não
nem sempre e nem permanentemente ocorreu em razão de qualquer novidade
se distinguem. Em primeiro lugar está de suas descobertas, mas da precisão, da
aquela classe de fatos que o paradigma credibilidade e do alcance dos métodos
mostrou ser particularmente reveladora que eles desenvolveram para a redeter-
da natureza das coisas. Por empregá- minação de um tipo de fato já conhecido
los na resolução de problemas, o para- previamente.
digma faz com que mereçam ser deter-
minados com mais precisão e, ao mesmo Uma segunda classe mais comum,
tempo, faz com que mereçam ser deter- ainda que menor, de determinações
minados em uma variedade maior de si- fatuais é dirigida àqueles fatos que po-
tuações. Em ocasiões diversas, essas de- dem ser diretamente comparados com
terminações fatuais significativas incluí- as predições da teoria do paradigma –
ram: na astronomia, as posições e mag- mesmo que, em geral, essas determina-
nitudes das estrelas, o eclipse das estrelas ções fatuais não pareçam ter qualquer
binárias e o eclipse dos planetas; na física, outra utilidade. Como nós vamos ver
as gravidades específicas e a compressi- logo à frente, quando eu passar dos
bilidade dos materiais, os comprimentos problemas experimentais para os pro-
de onda e as intensidades espectrais, as blemas teóricos, raramente há muitas
condutividades elétricas e os potenciais áreas em que uma teoria científica pode
de contato; e na química, os pesos de ser comparada com a natureza. Princi-
combinação e de composição, os pontos palmente se ela foi formulada em uma
de ebulição e a acidez das soluções, as linguagem predominantemente mate-
fórmulas estruturais e as atividades óti- mática. Mesmo nos dias de hoje, não
cas. As tentativas de aumentar a precisão mais que três dessas áreas são acessíveis
III A Natureza da Ciência Normal 22

à teoria geral da relatividade de Einstein.2 para trazer a natureza e a teoria para um


Ademais, mesmo naquelas áreas em que acordo cada vez mais estreito.3 Essa ten-
a aplicação é possível, ela demanda apro- tativa de demonstrar acordo entre teoria
ximações teóricas e instrumentais que e natureza é um segundo tipo de traba-
limitam severamente o acordo esperado lho experimental que apresenta uma de-
entre teoria e natureza. Aperfeiçoar esse pendência do paradigma ainda mais ób-
acordo – ou encontrar novas áreas em via que o primeiro. A existência do para-
que esse acordo possa em certa medida digma estabelece os problemas a ser re-
ser demonstrado – apresenta um desafio solvidos. Com frequência a teoria do pa-
constante à habilidade e à imaginação radigma está diretamente implicada na
do experimentador e observador. projeção do aparelho adequado para a re-
Telescópios especiais para demons- solução do problema. Sem os Principia,
trar a predição copernicana da paralaxe por exemplo, as mensurações feitas com
anual; a máquina de Atwood, inventada a máquina de Atwood não teriam qual-
quase um século depois da publicação quer sentido.
dos Principia para dar a primeira de- Penso que uma terceira classe de expe-
monstração inequívoca da segunda lei de rimentos e observações exaure as ativida-
Newton; o aparelho de Foucault para de- des coletoras de fatos da ciência normal.
monstrar que a velocidade da luz é maior Trata-se do trabalho empírico empreen-
no ar que na água; o gigantesco contador dido para articular a teoria do paradigma.
de cintilações projetado para demons- Esse trabalho resolve algumas ambigui-
trar a existência do neutrino, etc.; – to- dades residuais da teoria e permite a so-
dos esses aparatos especiais, e muitos ou- lução de problemas para os quais essa
tros como eles, ilustram o imenso esforço teoria já tinha anteriormente chamado
e engenhosidade que foram requeridos a atenção. Essa classe de experimentos
e observações mostra-se a mais impor-
2O único ponto de aferição que há muito é re- tante de todas e a sua descrição requer
conhecido por todos é a precessão do periélio de
uma subdivisão. Nas ciências mais mate-
Mercúrio. A mudança para o vermelho no espec-
tro da luz das estrelas distantes pode ser derivada matizadas, alguns dos experimentos vol-
de considerações mais elementares que a relati-
vidade geral. E o mesmo pode ser possível para 3 Para dois dos telescópios de paralaxe, ver
a flexão da luz em torno do sol – um ponto que Abraham Wolf, A History of Science, Technology,
agora desperta certa disputa. De qualquer modo, and Philosophy in the Eighteenth Century (2d.
as medidas desse último fenômeno permanecem ed.; London, 1952), pp. 103-5. Para a máquina
equívocas. Um ponto de aferição adicional pode de Atwood ver N. R. Hanson, Patterns of Disco-
ter sido estabelecido muito recentemente: a mu- very (Cambridge, 1958), pp. 100-102, 207-8. Para
dança gravitacional da radiação de Mossbauer. os dois últimos equipamentos especiais ver M.
Talvez logo tenhamos outros nesse campo agora L. Foucault, Méthode générale pour mesurer la
ativo, mas que ficou dormente por longo tempo. vitesse de la lumière dans l’air et dans l’eau ...,
Para uma exposição atualizada e concisa do pro- Comptes rendus de l’Académie des sciences, XXX
blema ver L. I. Schiff, A Report on the Nasa Confe- (1850), pp. 551-60; e C. L. Cowan Jr. et al., De-
rence on Experimental Tests of Theories of Relati- tection of the Free Neutrino: A Confirmation, Sci-
vity, Physics Today, XIV (1961), pp. 42-48. ence, CXXIV (1956), pp. 103-4.
III A Natureza da Ciência Normal 23

tados à articulação da teoria são dirigidos ciona a pressão do gás ao seu volume,
para a determinação das constantes físi- a Lei de Coulomb da atração elétrica e
cas. O trabalho de Newton, por exemplo, a fórmula de Joule que relaciona o ca-
indicava que a força entre duas unidades lor gerado na resistência elétrica e a cor-
de massa por unidade de distância seria rente estão todas nessa categoria. Pode
a mesma para todos os tipos de matéria, não parecer óbvio que um paradigma seja
em qualquer posição no universo. Mas pré-requisito para a descoberta de leis
seus próprios problemas mal poderiam como essas. Com frequência ouvimos
ser resolvidos sem a estimativa da gran- falar que tais leis são encontradas pelo
deza dessa atração: a constante gravita- exame de mensurações feitas por si mes-
cional universal. Ninguém inventou um mas, sem um comprometimento teórico.
aparelho capaz de determinar essa cons- Mas a história não oferece respaldo para
tante no século que transcorreu após a um método tão excessivamente baconi-
publicação dos Principia. A famosa de- ano. Os experimentos de Boyle não se-
terminação de Cavendish de 1790 tam- riam concebidos – e se concebidos te-
pouco foi a última. Por causa da sua riam recebido uma outra interpretação,
posição central na teoria física, valores ou até mesmo nenhuma interpretação –
mais precisos da constante gravitacional antes que o ar fosse reconhecido como
foram desde então objeto de repetidos es- um fluido elástico a que todos os concei-
forços por muitos experimentadores pro- tos elaborados para a hidrostática pudes-
eminentes.4 Outros exemplos do mesmo sem ser aplicados.5 O sucesso de Cou-
tipo de trabalho contínuo incluiriam as lomb dependeu da construção, por ele
determinações das unidades astronômi- mesmo, de um aparelho especial para
cas, o número de Avogadro, o coeficiente medir a força entre cargas pontuais.6 Mas
de Joule, a carga eletrônica e assim por di- o desenho daquele aparelho por Cou-
ante. Poucos desses laboriosos esforços lomb dependeu, por seu turno, do reco-
teriam sido concebidos – e nenhum teria nhecimento prévio de que qualquer par-
sido levado a cabo – sem uma teoria do tícula do fluido elétrico age à distância so-
paradigma para definir o problema e ga- bre todas as outras. Era a força entre essas
rantir a existência de uma solução está-
vel. 5 Para a transposição completa dos conceitos

Os esforços para articular o paradigma da hidrostática para a pneumática ver The Physi-
não são, contudo, restritos à determina- cal Treatises of Pascal, trad. I. H. B. Spiers e A. G. H.
Spiers, com uma introdução e notas por F. Barry
ção de constantes universais. Eles tam- (New York, 1937). A introdução original de Torri-
bém podem, por exemplo, visar a leis celli desse paralelismo (Nós vivemos submersos no
quantitativas. A Lei de Boyle que rela- fundo de um oceano do elemento ar.) ocorre na p.
164. Seu rápido desenvolvimento é exposto pelos
4 J. H. P[oynting] revisa cerca de duas dúzias de dois tratados principais.

medidas da constante gravitacional entre 1741 e 6 Os aparelhos que tinham anteriormente me-

1901 em Gravitation Constant and Mean Density dido forças elétricas usando balanças de prato or-
of the Earth, Enciclopædia Britannica (11th. ed.; dinárias, etc., não encontraram qualquer regula-
Cambridge, 1910-11), XII, 385-89. ridade consistente ou simples.
III A Natureza da Ciência Normal 24

partículas – a única força que poderia ser por mudança de estado. Mas o calor po-
seguramente presumida como uma fun- deria ser liberado ou absorvido de mui-
ção simples da distância – que Coulomb tas outras maneiras – por exemplo, por
procurava.7 Os experimentos de Joule combinação química, por fricção e por
também serviriam para ilustrar como as absorção de um gás – e, para cada um
leis quantitativas emergem da articula- desses outros fenômenos, a teoria pode-
ção do paradigma. De fato, a relação en- ria ser aplicada de várias maneiras. Se o
tre paradigma qualitativo e lei quantita- vácuo tivesse capacidade calorífica, por
tiva é tão geral e íntima que, desde Gali- exemplo, o aquecimento por compressão
leu, tais leis têm sido conjeturadas corre- poderia ser explicado como resultando
tamente com a ajuda do paradigma anos da mistura do gás com o vazio. Ou en-
antes que se projete um aparelho para tão poderia ser devido à mudança no ca-
sua determinação experimental.8 lor específico dos gases com a mudança
Finalmente, há uma terceiro tipo de ex- da pressão. Ainda poderíamos enume-
perimento que visa à articulação de um rar várias outras explicações. Muitos ex-
paradigma. Mais que os outros, esse perimentos foram feitos para elaborar es-
tipo de experimento pode assemelhar- sas várias possibilidades e para distin-
se à exploração, e prevalece particular- guir umas das outras. Todos esses ex-
mente naqueles períodos e naquelas ci- perimentos foram desenvolvidos a partir
ências que lidam mais com aspectos qua- da teoria do calórico tomada como pa-
litativos que com aspectos quantitativos radigma, e todos a exploraram no plane-
da regularidade da natureza. Frequente- jamento dos experimentos e na interpre-
mente, um paradigma desenvolvido para tação dos resultados obtidos.9 Uma vez
um conjunto de fenômenos é ambíguo que o fenômeno do calor por compres-
em sua aplicação a um outro conjunto são foi estabelecido, todos os experimen-
de fenômenos estreitamente relacionado tos posteriores nessa área tornaram-se
com o primeiro. Assim, os experimen- paradigmo-dependentes dessa maneira.
tos têm que escolher entre várias ma- Dado um fenômeno, de que outro modo
neiras alternativas de se aplicar o para- poderia ser escolhido um experimento
digma à nova área de interesse. Por exem- para esclarecê-lo?
plo, as aplicações paradigmáticas da te- Mudemos agora para os problemas
oria do calórico restringiam-se ao aque- teóricos da ciência normal, que caem
cimento e ao resfriamento por misturas e dentro de classes muito próximas das
classes dos problemas experimentais e
7 Duane Roller e Duane H. D. Roller, The De- observacionais. Uma parte do trabalho
velopment of the Concept of Electric Charge: Elec-teórico normal – ainda que apenas uma
tricity from the Greeks to Coulomb (Harvard Case pequena parte – consiste simplesmente
Histories in Experimental Science, Case 8; Mass.,
1954), pp. 66-80.
no uso da teoria existente para predizer
8 Para exemplos, ver T. S. Kuhn, The Function

of Measurement in Modern Physical Science, Isis, 9 T. S. Kuhn, The Caloric Theory of Adiabatic

LII (1961), pp. 161-93. Compression, Isis, XLIX (1958), pp. 132-140.
III A Natureza da Ciência Normal 25

informações fatuais que tenham alguma Newton derivou as leis de Kepler do


utilidade social. A elaboração de calen- movimento planetário, e ainda explicou
dários astronômicos, o cálculo das carac- algumas das circunstâncias em que a Lua
terísticas das lentes e a produção de cur- falhava em obedecê-las. Para a Terra,
vas de propagação de rádio são exem- ele derivou os resultados de algumas
plos de problemas dessa ordem. Con- observações esparsas sobre os pêndu-
tudo, geralmente os cientistas acham isso los e sobre as marés. Ele também foi
um trabalho medíocre que deve ser dei- capaz de derivar a Lei de Boyle e uma
xado para engenheiros e técnicos. Rara- importante fórmula para a velocidade
mente algum desses trabalhos vai apare- do som no ar, ainda que com a ajuda de
cer em revistas científicas significativas. suposições adicionais ad hoc. Levando
Mas essas mesmas revistas contêm uma em conta o estado da ciência na época,
grande quantidade de discussões teóri- o sucesso dessas demonstrações impres-
cas de problemas que parecerão quase sionou ao extremo. Não obstante, dada
indiferenciadas para o não cientista. São a generalidade presumida das Leis de
as manipulações da teoria empreendidas Newton, o número dessas aplicações não
porque podem ser confrontadas direta- foi grande. E Newton não desenvolveu
mente com o experimento – e não porque quase nenhuma outra aplicação. Ade-
as predições que delas resultam tenham mais, comparado com o que qualquer
alguma utilidade. Seu propósito é mos- estudante de pós-graduação pode atingir
trar uma nova aplicação do paradigma, hoje com essas mesmas leis, as pou-
ou aumentar a precisão de uma aplicação cas aplicações de Newton nem mesmo
que já foi feita. foram desenvolvidas com precisão.
A necessidade de um trabalho desse Finalmente, os Principia foram desenha-
tipo deriva das enormes dificuldades dos principalmente para problemas da
geralmente encontradas no desenvol- mecânica celeste. De modo algum estava
vimento de pontos de contato entre a claro como adaptá-los para aplicações
teoria e a natureza. Essas dificuldades terrestres, principalmente para aquelas
podem ser brevemente ilustradas por aplicações do movimento forçado. De
um exame da história da dinâmica de- qualquer modo, os problemas terrestres
pois de Newton. Nos primeiros anos já estavam sendo atacados com grande
do século dezoito, os cientistas que en- sucesso por um conjunto muito diferente
contraram nos Principia um paradigma de técnicas desenvolvidas originalmente
consideraram evidente a generalidade por Galileu e Huyghens, e estendidas à
das suas conclusões. Eles tinham todo área continental da Europa durante o sé-
tipo de razão para agir assim. Nenhum culo dezoito pelos Bernoullis, d’Alembert
outro trabalho – pelo menos que tenha e muitos outros. Presumivelmente,
sido do conhecimento da história da poder-se-ia mostrar que as técnicas
ciência – permitira, ao mesmo tempo, empregadas por eles e as técnicas dos
um aumento tão grande na amplitude e Principia fossem casos especiais de uma
na precisão da pesquisa. Para os céus, formulação mais geral, mas por algum
III A Natureza da Ciência Normal 26

tempo ninguém viu muito bem como.10 deveriam obedecer mesmo. Para derivar
Concentremos momentaneamente as Leis de Kepler, Newton foi forçado a
nossa atenção no problema da precisão. negligenciar toda atração gravitacional,
Já ilustramos seu aspecto empírico. Equi- exceto aquela que há entre cada planeta
pamentos especiais – como o aparelho individualmente e o sol. Posto que os
de Cavendish, a máquina de Atwood ou planetas também se atraem mutua-
telescópios aperfeiçoados – foram exigi- mente, apenas um acordo aproximado
dos para fornecer os dados especiais que entre a teoria aplicada e a observação
as aplicações concretas do paradigma de telescópica poderia ser esperado.11
Newton demandavam. Dificuldades pa- É claro que o acordo alcançado era
recidas na obtenção de acordo também mais do que satisfatório para aqueles que
existiram do lado da teoria. Ao aplicar o obtiveram. Exceto para alguns pro-
suas leis aos pêndulos, por exemplo, blemas terrestres, nenhuma outra teoria
Newton foi forçado a tratar o prumo de poderia funcionar com tão boa aproxi-
chumbo como um ponto de massa para mação. Nenhum daqueles que questio-
que pudesse fornecer uma definição naram a validade do trabalho de New-
da extensão do pêndulo com um valor ton o fez pelo seu limitado acordo com
único. A maior parte de seus teoremas – o experimento e a observação. Não obs-
algumas poucas exceções sendo hipoté- tante, essas limitações do acordo deixa-
ticas e preliminares – também ignorou o ram muitos problemas teóricos fascinan-
efeito da resistência do ar. Esses teoremas tes para os sucessores de Newton. Cer-
eram apenas aproximações plausíveis. tas técnicas teóricas, por exemplo, fo-
Não obstante, enquanto aproximações ram requeridas para tratar os movimen-
eles restringiam o acordo a ser esperado tos de mais de dois corpos atraindo-se
entre as predições de Newton e os experi- mutuamente e para investigar a estabili-
mentos efetivos. As mesmas dificuldades dade de órbitas perturbadas. Problemas
aparecem ainda mais claramente na como esses ocuparam os melhores mate-
aplicação da teoria de Newton aos céus. máticos da Europa durante o século de-
Observações telescópicas quantitativas zoito e o início do século dezenove. Eu-
simples indicam que os planetas não ler, Lagrange, Laplace e Gauss fizeram al-
obedecem exatamente às Leis de Kepler. guns de seus mais brilhantes trabalhos
E a teoria de Newton indica que elas não sobre problemas que visavam à melho-
10 C. Truesdell, A Program toward Rediscovering ria do ajuste entre o paradigma de New-
the Rational Mechanics of the Age of Reason, Ar- ton e a observação dos céus. Simulta-
neamente, muitas dessas figuras traba-
chive for History of the Exact Sciences, I (1960), pp.
3-36, e Reactions of Late Baroque Mechanics to lharam para desenvolver a matemática
Success, Conjecture, Error, and Failure in New- exigida por aplicações que nem Newton
ton’s Principia, Texas Quartely, X (1967), pp.281-
97. T. L. Hankins, The Reception of Newton’s Se-
cond Law of Motion in the Eighteenth Century, 11 Wolf, op. cit. pp. 75-81, 96-101; e William

Archives internationales d’histoire des sciences, XX Whewell, History of the Inductive Sciences (rev.
(1967), pp.42-65. ed.; London, 1847), II, pp. 213-71.
III A Natureza da Ciência Normal 27

nem seus contemporâneos da escola de lacionadas desenvolvidas na Europa con-


mecânica da Europa continental sequer tinental pareceram imensamente mais
tentaram desenvolver. Eles produziram, poderosas. Portanto – de Euler e La-
por exemplo, uma imensa literatura e al- grange no século dezoito a Hamilton, Ja-
gumas técnicas matemáticas muito po- cobi e Hertz no século dezenove –, mui-
derosas para a hidrodinâmica e para o tos dos mais brilhantes físicos matemá-
problema das cordas vibratórias. Esses ticos da Europa esforçaram-se repetida-
problemas de aplicação respondem pelo mente para reformular a teoria mecânica,
que é provavelmente o trabalho científico dando-lhe um formato equivalente mas
mais brilhante e absorvente do século lógica e esteticamente mais satisfatório.
dezoito. Outros exemplos poderiam ser Isto é, eles desejavam exibir as lições ex-
descobertos por um exame do período plícitas e implícitas dos Principia e da
pós-paradigma do desenvolvimento da mecânica da Europa continental em uma
termodinâmica, da teoria ondulatória da versão mais coerente logicamente. Uma
luz, da teoria eletromagnética ou de qual- versão que fosse ao mesmo tempo mais
quer outro ramo científico cujas leis fun- uniforme e menos equívoca em sua apli-
damentais são inteiramente quantitati- cação aos recém elaborados problemas
vas. Pelo menos nas ciências mais ma- da mecânica.12
temáticas, a maior parte do trabalho teó- Reformulações parecidas de um para-
rico é desse tipo. digma ocorreram repetidamente em to-
Mas o trabalho teórico nem sempre das as ciências, mas a maioria delas
é desse tipo. Mesmo nas ciências ma- produziu mais mudanças substanciais
temáticas também há problemas teóri- no paradigma que as reformulações dos
cos de articulação do paradigma. E es- Principia citadas acima. Tais mudan-
ses problemas dominam durante os pe- ças resultaram do trabalho empírico des-
ríodos em que o desenvolvimento ci- crito anteriormente como visando à ar-
entífico é predominantemente qualita- ticulação do paradigma. De fato, classi-
tivo. Tanto nas ciências mais quanti- ficar aquele tipo de trabalho como em-
tativas quanto nas ciências mais quali- pírico foi arbitrário. Mais que qualquer
tativas, alguns desses problemas visam outro tipo de pesquisa normal, os pro-
simplesmente à clarificação por meio da blemas de articulação de paradigma são
reformulação. Os Principia, por exem- simultaneamente teóricos e experimen-
plo, nem sempre se mostraram um tra- tais. Os exemplos dados anteriormente
balho de fácil aplicação. Em parte por- servem igualmente aqui. Antes que pu-
que até certo ponto reteve o desajeito ine- desse construir seu equipamento e fa-
vitável de uma formulação feita pela pri- zer mensurações com ele, Coulomb teve
meira vez. Em parte porque muito do seu que empregar a teoria elétrica para deter-
significado estava apenas implícito em minar como o equipamento deveria ser
suas aplicações. Para muitas aplicações
terrestres, de qualquer modo, um con- 12 René Dugas, Histoire de la mécanique (Neu-

junto de técnicas aparentemente não re- châtel, 1950), Livros IV-V.


III A Natureza da Ciência Normal 28

construído. A consequência das mensu- Elas são os eixos em torno dos quais as
rações feitas com o novo equipamento revoluções científicas giram. Mas antes
foi um refinamento na teoria. Ou ainda: de começar o estudo dessas revoluções,
as pessoas que projetaram os experimen- nós precisamos de uma visão mais pano-
tos destinados a distinguir entre as vá- râmica das ocupações da ciência normal
rias teorias do aquecimento por com- que lhes preparam o caminho.
pressão, geralmente eram as mesmas que
tinham elaborado as versões a ser com-
paradas. Eles estavam trabalhando tanto
com fato quanto com teoria. Seu traba-
lho não produziu simplesmente nova in-
formação, mas um paradigma mais pre-
ciso, obtido pela eliminação das ambigui-
dades ainda retidas pelo original sobre o
qual eles trabalhavam. Em muitas ciên-
cias a maior parte do trabalho normal é
desse tipo. Essas três classes de proble-
mas – determinação do fato significativo,
sintonia do fato com a teoria e articulação
da teoria – esgotam, penso eu, toda a lite-
ratura empírica e teórica da ciência nor-
mal.
Há também problemas extraordiná-
rios. E pode muito bem ocorrer que é
a resolução desses problemas que torna
o empreendimento científico como um
todo valer tanto a pena. Mas proble-
mas extraordinários não estão sempre à
disposição dos cientistas. Eles só emer-
gem em ocasiões especiais preparadas
pelo próprio avanço da ciência normal.
Inevitavelmente, portanto, a esmagadora
maioria dos problemas – que até mesmo
os melhores cientistas se põem a resol-
ver – enquadra-se em uma das três cate-
gorias esboçadas acima. O trabalho sob
um paradigma não pode ser conduzido
de nenhuma outra maneira, e desertar
do paradigma é cessar de praticar a ciên-
cia que ele define. Logo descobriremos
que tais deserções efetivamente ocorrem.
IV A Ciência Normal como Resolução de Charadas 29

IV

A Ciência Normal como Resolução de


Charadas

A mais impressionante característica exemplo, pouca atenção foi dada aos ex-
dos problemas da ciência normal que nós perimentos que mediam a atração elé-
acabamos de repassar é quão pouco eles trica com dispositivos como a balança de
objetivam produzir novidades conceitu- pratos. Esses experimentos não pode-
ais ou fenomênicas. Como no caso da riam ser utilizados para articular o pa-
medida do comprimento de onda, às ve- radigma de que derivavam porque não
zes tudo é sabido antecipadamente, ex- produziam resultados consistentes nem
ceto os detalhes mais esotéricos do resul- simples. Portanto, eles permaneceram
tado obtido. Só o leque típico de expec- meros fatos não relacionados e não re-
tativas dos cientistas pode ser um pouco lacionáveis com o avanço contínuo da
mais aberto. As medidas de Coulomb tal- pesquisa sobre eletricidade. Só em re-
vez não precisassem ajustar-se a uma lei trospecto – já estando possuídos por um
do quadrado inverso. As pessoas que tra- paradigma posterior – nós podemos ver
balharam com o aquecimento por com- que características dos fenômenos elétri-
pressão, em geral estavam preparadas cos eles revelam. Coulomb e seus con-
para qualquer um entre vários resulta- temporâneos, é claro, também possuíam
dos. Contudo, mesmo em casos como es- esse paradigma posterior – ou algum pa-
ses, o número de resultados antecipados radigma que, quando aplicado ao pro-
– e portanto assimiláveis – é sempre pe- blema da atração, produzia as mesmas
queno se comparados com o número de expectativas. Isso explica por que Cou-
resultados que a imaginação pode con- lomb foi capaz de projetar o aparelho que
ceber. E o projeto de pesquisa cujo re- deu um resultado assimilável por meio da
sultado não se enquadra nesse conjunto articulação do paradigma. Mas também
mais limitado de resultados antecipados explica por que o resultado a que Cou-
– e portanto assimiláveis – é comumente lomb chegou não surpreendeu ninguém,
considerado um fracasso: um fracasso e vários de seus contemporâneos foram
que não pode ser atribuído à natureza, capazes de se adiantar em predizê-lo. De
mas ao cientista. No século dezoito, por fato, o projeto de investigação cujo obje-
IV A Ciência Normal como Resolução de Charadas 30

tivo já é a articulação do paradigma não chegar ao antecipado por um caminho


visa à inovação inesperada. que ainda tem que ser construído, e isso
Mas, se o objetivo da ciência normal exige a solução de todo tipo de comple-
não são as grandes novidades concretas, xas charadas instrumentais, conceituais
e se o fracasso em se aproximar do resul- e matemáticas. A pessoa bem sucedida
tado antecipado é habitualmente um fra- nisso prova ser uma engenhosa solucio-
casso personificado pelo cientista, então nadora de charadas, e o desafio da cha-
por que esses problemas acabam sendo rada é uma parte importante daquilo que
enfrentados de uma maneira ou de ou- a motiva.
tra? Parte da resposta já foi desenvolvida. As expressões ‘charada’ e ‘solucionador
Pelo menos para os cientistas, os resulta- de charadas’ iluminam vários dos temas
dos da pesquisa normal são significativos que foram adquirindo proeminência nas
porque aumentam a abrangência e a pre- páginas anteriores. Charadas são – aqui
cisão com que um paradigma pode ser emprego esse termo em seu significado
aplicado. Entretanto, tal resposta não ex- inteiramente habitual – aquela categoria
plica o entusiasmo e a devoção que os ci- especial de problemas que servem para
entistas mostram ao resolver problemas testar a engenhosidade ou a habilidade
de ciência normal. Ninguém dedica anos em solucioná-los. Os exemplos de dici-
para, digamos, desenvolver um espectrô- onário são ‘quebra-cabeças’ e ‘palavras-
metro melhor ou dar uma solução mais cruzadas’. São as características que es-
aperfeiçoada ao problema das cordas vi- ses exemplos de charadas compartilham
bratórias simplesmente por causa da im- com os problemas de ciência normal que
portância da informação que vai ser ob- nós precisamos isolar agora. Uma delas
tida. Os dados conseguidos pelo cálculo acabou de ser mencionada. Uma cha-
de efemérides ou pelas mensurações adi- rada não será considerada boa porque
cionais com um aparelho já disponível seu resultado pode ser intrinsecamente
podem ser bem importantes, mas essas interessante ou socialmente importante.
atividades são regularmente desdenha- Pelo contrário, problemas efetivamente
das pelos cientistas. Isso ocorre porque urgentes – como, por exemplo, a cura
essas atividades são em grande medida do câncer ou uma proposta de paz dura-
repetições de procedimentos que já fo- doura – em geral nem apresentam chara-
ram feitos antes. Tal rejeição nos dá uma das. Isso ocorre em grande medida por
pista para o fascínio exercido pelo pro- não estar claro que eles possam ter al-
blema da pesquisa normal. Embora o re- guma solução. Imaginemos um quebra-
sultado possa ser antecipado – em geral cabeças cujas peças são selecionadas ale-
num nível de detalhamento tão grande atoriamente a partir de duas caixas di-
que aquilo que ainda fica para ser conhe- ferentes, cada uma delas contendo um
cido é, em si mesmo, desinteressante – quebra-cabeças diferente. Como pro-
, a maneira de chegar a ele permanece vavelmente esse problema resistiria até
muito duvidosa. Levar um problema de mesmo às pessoas mais engenhosas –
pesquisa normal até à sua conclusão é ainda que em tese pudesse não fazê-lo –,
IV A Ciência Normal como Resolução de Charadas 31

ele não serviria como um teste para a ha- impedi-los de resolver.


bilidade de encontrar uma solução. Em Se, entrementes, os problemas de ci-
qualquer sentido usual, nesse caso não se ência normal são constituídos por chara-
trata de um quebra-cabeças. Embora a das no sentido aqui adotado, não preci-
importância ou utilidade social não seja samos mais perguntar por que os cien-
critério para a formulação de uma cha- tistas atacam-nos com tal paixão e devo-
rada, a garantia de que existe uma solu- ção. Uma pessoa pode ser atraída para
ção é. a ciência por muitas razões. Entre elas
Já vimos, contudo, que uma das coisas está o desejo de ser útil, a excitação de ex-
que uma comunidade científica adquire plorar um terreno novo, a esperança de
com um paradigma é um critério para es- encontrar alguma ordem e o impulso de
colher problemas que, enquanto o para- testar o conhecimento estabelecido. Es-
digma é tido como certo, se pode pre- ses e vários outros motivos também aju-
sumir que tenham soluções. Em grande dam a determinar os problemas específi-
medida são apenas esses problemas que cos em cuja solução ela se engajará no fu-
uma comunidade vai admitir como cien- turo. Ademais – embora o resultado possa
tíficos, ou encorajar seus membros a ten- ser ocasionalmente frustrante –, há boa
tar resolvê-los. Outros problemas – in- razão por que motivos como esses deve-
cluindo muitos que eram padrão no con- riam primeiro atraí-la e a seguir ludibriá-
texto do paradigma anterior – são rejei- la.1
tados como metafísicos, como de inte- De vez em quando o empreendimento
resse de outras disciplinas ou, às vezes, científico como um todo prova que pode
como sendo muito controversos para en- ser de alguma utilidade, abre novos terri-
trar na agenda dos cientistas. Um para- tórios, revela uma ordem e testa crenças
digma pode, nessa medida, isolar a co- aceitas há muito tempo. Não obstante,
munidade científica daqueles problemas o indivíduo engajado num problema de
socialmente importantes mas que não ciência normal quase nunca está fazendo
podem ser reduzidos à forma de cha- qualquer dessas coisas. Uma vez enga-
rada. Ou seja, não podem ser formula- jado, sua motivação será de um tipo bem
dos nos termos das ferramentas concei- diferente. O que o desafia nesse mo-
tuais e instrumentais que o paradigma mento é a convicção de que, sendo sufici-
disponibiliza. Tais problemas podem ser entemente habilidoso, ele terá sucesso na
uma distração. Disso temos uma lição resolução de uma charada que ninguém
brilhantemente ilustrada por vários as- ainda resolveu ou, pelos menos, ainda
pectos do baconismo do século dezessete
e por algumas ciências sociais contem- 1 As frustrações induzidas pelo conflito entre o

porâneas. Uma das razões por que a ci- papel do indivíduo e o padrão global do desenvol-
ência normal parece avançar tão rapida- vimento científico podem, entretanto, ser às vezes
muito sérias. Sobre isso, ver Lawrence S. Kubie,
mente está no fato de que seus profissio- Some Unsolved Problems of the Scientific Career,
nais concentram-se em problemas que só American Scientist, XLI (1953), pp. 569-613; e XLII
a própria falta de engenhosidade poderia (1954), pp. 104-12.
IV A Ciência Normal como Resolução de Charadas 32

não resolveu tão bem. Muitas das maio- uso que eventualmente poderá igualar-
res mentes científicas devotaram toda a se a ponto de vista estabelecido ou pre-
sua atenção profissional a charadas difí- concepção –, então a resolução dos pro-
ceis desse tipo. No mais das vezes, qual- blemas selecionados dentro de uma certa
quer campo particular de especialização tradição de pesquisa mostra algo muito
só oferece essas charadas para o cientista parecido com esse conjunto de caracte-
se ocupar – o que não as torna menos fas- rísticas das charadas. A pessoa que fa-
cinantes para o tipo certo de aficionado. brica um instrumento para determinar os
Voltemo-nos agora para um outro as- comprimentos de onda não pode se con-
pecto mais difícil e mais revelador do tentar com um equipamento que sim-
paralelismo entre charadas e problemas plesmente atribui certos números para
da ciência normal. Para ser classificado certas linhas espectrais. Essa pessoa não
como uma charada, um problema deve é só uma exploradora ou medidora. Pelo
ter outras características além de uma contrário, por meio da análise do seu apa-
solução garantida. Também deve haver rato nos termos da formulação estabele-
regras que limitem a natureza das solu- cida pela teoria ótica, ela deve mostrar
ções aceitáveis e os passos através dos que os números que o seu aparelho pro-
quais elas são obtidas. Para resolver um duz são os mesmos números que cons-
quebra-cabeças não basta, por exemplo, tam da teoria como comprimentos de
produzir uma imagem. Tanto uma cri- onda. Se alguma imprecisão residual na
ança quanto um artista contemporâneo teoria ou algum componente não anali-
poderiam fazer isso distribuindo peças sado do seu aparato a impedem de com-
selecionadas – a título de formas abs- pletar a demonstração, seus colegas po-
tratas – sobre alguma superfície neutra. dem muito bem concluir que ela não
Uma imagem produzida assim poderia mediu coisa alguma. Por exemplo, os
ser muito melhor – e certamente seria máximos de dispersão de elétrons – que
mais original – que a imagem usada na mais tarde foram considerados índices do
feitura do quebra-cabeças. Todavia, tal comprimento de onda do elétron – apa-
imagem não seria uma solução. Para que rentemente não tinham qualquer signifi-
todas as peças sejam usadas, seus lados cado quando foram observados e regis-
uniformes entre si devem ficar por baixo trados pela primeira vez. Antes que eles
e elas devem ser encaixadas umas nas ou- se tornassem medida de alguma coisa,
tras sem forçá-las, até que já não haja la- tiveram que ser relacionados a uma te-
cunas. Tais são as regras que governam oria que predizia o comportamento on-
as soluções dos quebra-cabeças. Restri- dulatório da matéria em movimento. E
ções parecidas sobre as soluções admissí- mesmo depois que aquela relação foi es-
veis das palavras cruzadas, das adivinha- pecificada, o instrumento teve que ser
ções e dos problemas do xadrez podem redesenhado para que os resultados ex-
ser prontamente descobertas. perimentais pudessem ser correlaciona-
Se nós aceitarmos um uso considera-
velmente elastecido do termo regra – um
IV A Ciência Normal como Resolução de Charadas 33

dos inequivocamente com a teoria.2 En- que acabamos de mencionar. São os


quanto essas condições não foram satis- enunciados explícitos de leis científicas
feitas, nenhum problema foi resolvido. e os enunciados explícitos relativos aos
Tipos parecidos de restrições demar- conceitos e teorias científicos. Enquanto
cam as soluções admissíveis para os pro- continuam a ser reverenciados, esses
blemas teóricos. Durante todo o século enunciados ajudam na formulação
dezoito, os cientistas que tentaram deri- das charadas e na delimitação das so-
var das leis newtonianas do movimento e luções aceitáveis. As leis de Newton,
da gravitação o movimento observado da por exemplo, exerceram essas funções
Lua, fracassaram em seu intento. Como durante os séculos dezoito e dezenove.
resultado, alguns deles sugeriram a subs- Enquanto elas fizeram isso, a quantidade
tituição da lei do quadrado inverso por de matéria foi uma categoria ontológica
uma outra lei que divergia dela no caso fundamental para os cientistas físicos, e
das pequenas distâncias. Todavia, para as forças que atuam entre as unidades
fazer isso teriam que mudar o paradigma de matéria foram um tópico dominante
e definir uma nova charada, deixando a da pesquisa.5 Na química, as leis das
charada velha sem resolver. Nesse epi- proporções fixas e definidas tiveram por
sódio os cientistas preservaram as regras um longo tempo uma força inteiramente
até que, em 1750, um deles descobriu similar quando estabeleciam o problema
como elas poderiam ser aplicadas com dos pesos atômicos, limitavam os resul-
sucesso.3 Só uma mudança nas regras do tados admissíveis das análises químicas
jogo poderia ter oferecido uma alterna- e informavam aos químicos o que eram
tiva. os átomos, moléculas, compostos e
O estudo das tradições científico- misturas.6 As equações de Maxwell e as
normais revela muitas regras adicionais. leis da termodinâmica estatística têm
Tais regras fornecem muita informação hoje em dia o mesmo poder e a mesma
sobre os compromissos que os cientistas função.
derivam de seus paradigmas. Em que Regras como essas, todavia, nem são
categorias principais, poderíamos dizer, as únicas e nem mesmo as da variedade
essas regras se enquadram?4 A mais mais interessante revelada pelo estudo
óbvia – e provavelmente a mais coercitiva histórico. Em um nível inferior ou mais
– é exemplificada pelas generalizações concreto que o nível das leis e teorias
há, por exemplo, uma multidão de com-
2 Para uma breve exposição da evolução desses

experimentos ver a página 4 da conferência de C. 5 Para esses aspectos do newtonianismo ver I.

J. Davisson em Les prix Nobel en 1937 (Stockholm, B. Cohen, Franklin and Newton: An Inquiry into
1938). Speculative Newtonian Experimental Science and
3 W. Whewell, History of the Inductive Sciences Franklin’s Work in Electricity as an Example The-
(rev. ed.; London, 1847), II, pp. 101-5, 220-22. reof (Philadelphia, 1956), cap. vii, esp. pp. 255-57,
4 Devo essa questão a W. O. Hagstrom, cujo tra- 275-77.
balho na sociologia da ciência às vezes se inter- 6 Esse exemplo é discutido em detalhe quase

secciona com o meu próprio. no final da Seção X.


IV A Ciência Normal como Resolução de Charadas 34

promissos relativos aos tipos preferidos em termos de forma, tamanho, movi-


de instrumentação e às maneiras de se mento e interação corpuscular. Essa teia
empregar legitimamente os instrumen- de compromissos provou ser tanto me-
tos aceitos. A mudança de atitude frente tafísica quanto metodológica. Enquanto
ao papel do fogo nas análises químicas metafísica, ela asseverou aos cientistas
exerceu uma função vital no desenvolvi- que tipos de entidades o universo conti-
mento da química no século dezessete.7 nha e que tipos de entidades o universo
No século dezenove, Helmholtz encon- não continha. Enquanto metodológica,
trou entre os fisiologistas forte resistên- essa teia de compromissos asseverou-
cia à noção de que a experimentação fí- lhes como devem ser as leis últimas e
sica poderia iluminar seu campo.8 Em as explanações fundamentais. As leis
nosso século, a curiosa história da cro- devem especificar o movimento e a in-
matografia química ilustra uma vez mais teração corpuscular. Uma explanação
a persistência dos compromissos instru- deve reduzir qualquer fenômeno natural
mentais que, tanto quanto as leis e teo- dado a uma ação corpuscular sob aque-
rias, equipam os cientistas com regras do las leis. Mais importante ainda foi que
jogo.9 Quando analisarmos a descoberta a concepção corpuscular do universo as-
dos raios X, encontraremos as razões para severou aos cientistas aquilo que mui-
compromissos dessa ordem. tos dos seus problemas de pesquisa de-
Características menos locais e tempo- veriam ser. Por exemplo, um químico
rais da ciência – ainda que também mu- que, como Boyle, adotou a nova filoso-
dem – são os compromissos de nível mais fia, deu particular atenção às reações que
elevado, quasi-metafísicos, que o estudo poderiam ser vistas como transmutações.
histórico revela com tanta regularidade. Mais claramente que quaisquer outras, as
Por exemplo, logo depois de 1630 – e transmutações mostrariam o processo de
particularmente depois do aparecimento rearranjo corpuscular que está por baixo
dos imensamente influentes escritos ci- de toda transformação química.10 Efei-
entíficos de Descartes –, a maioria dos tos similares do corpuscularismo podem
cientistas físicos passou a presumir que ser observados no estudo da mecânica,
o universo era composto de corpúscu- da ótica e do calor.
los microscópicos e que todos os fenô- Finalmente, em um nível ainda mais
menos naturais poderiam ser explicados elevado, há um outro conjunto de com-
promissos sem os quais nenhuma pessoa
7 H. Metzger, Les doctrines chimiques en France é cientista. O cientista deve, por exem-

du début du XVIIe siècle à la fin du XVIIIe siècle (Pa- plo, estar interessado em compreender
ris, 1923), pp. 359-61; Marie Boas, Robert Boyle
and Seventeenth-Century Chemistry (Cambridge, 10 Para o corpuscularismo em geral ver Marie

1958), pp. 112-15. Boas, The Establishment of the Mechanical Philo-


8 Leo Königsberger, Hermann von Helmholtz,
sophy, Osiris, X (1952), pp. 412-541. Para seus efei-
trad. Francis A. Welby (Oxford, 1906), pp. 65-66. tos sobre a química de Boyle ver T. S. Kuhn, Robert
9 James E. Meinhard, Chromatography: A Pers- Boyle and the Structural Chemistry in the Seven-
pective, Science, CX (1949), pp. 387-92. teenth Century, Isis, XLIII (1952) pp. 12-36.
IV A Ciência Normal como Resolução de Charadas 35

o mundo e em aumentar a precisão e a altamente determinada, mas não precisa


amplitude com que ele foi ordenado. Tal ser inteiramente determinada por regras.
compromisso deve, por sua vez, levá-lo Eis por que no início desse ensaio eu
a examinar – tanto por si mesmo quanto introduzi os paradigmas compartilhados
pelo trabalho dos colegas – algum as- como a fonte de coerência das tradições
pecto da natureza com grande detalha- da ciência normal, em vez de regras, pos-
mento empírico. Se esse exame revela tulados e pontos de vista compartilhados.
bolsões de aparente desordem, então es- As regras, eu sugiro, derivam dos paradig-
ses bolsões devem desafiá-lo a um novo mas. Mas os paradigmas podem guiar a
refinamento de suas técnicas de observa- pesquisa mesmo na ausência de regras.
ção e a uma nova articulação de suas teo-
rias.
Sem dúvida que ainda há outras regras
como as já mencionadas. Regras que têm
valido para os cientistas de todos os tem-
pos. A existência dessa forte rede de com-
promissos – conceituais, teóricos, instru-
mentais e metodológicos – é a principal
fonte da metáfora que relaciona a ciên-
cia normal com a resolução de chara-
das. Porque ela fornece as regras que des-
crevem ao profissional de uma especiali-
dade científica madura como é o mundo
e como é a ciência desse mundo, esse
cientista pode concentrar-se com segu-
rança nos intrincados problemas que tais
regras e o conhecimento existente defi-
nem para ele. O que vai então desafiá-lo
pessoalmente é como levar a charada re-
sidual a uma solução. Nessa e em outras
questões, uma discussão das charadas e
das regras ilumina a natureza da prática
da ciência normal. Contudo, por outro
lado, essa iluminação pode ser significa-
tivamente ilusória. Embora haja regras a
que todos os profissionais de uma espe-
cialidade científica devam aderir em um
certo momento, essas regras não podem
por si mesmas especificar tudo o que a
prática desses especialistas têm em co-
mum. A ciência normal é uma atividade
V A Prioridade dos Paradigmas 36

A Prioridade dos Paradigmas

Para descobrir a relação entre regras,


a determinação das regras compartilha-
paradigmas e ciência normal vamos pri- das. A determinação dos paradigmas
meiro considerar de que modo os histo- compartilhados demanda um segundo
riadores isolam os núcleos especiais de passo. Um passo de um tipo relativa-
comprometimento que acabaram de ser mente diferente. Ao dar esse passo, o his-
descritos como regras aceitas. A inves- toriador deve comparar os paradigmas da
tigação histórica acurada de uma dada comunidade entre si e com os relatórios
especialidade, em um certo período de de pesquisa que essa comunidade está
tempo, revela um conjunto recorrente de produzindo. Assim fazendo, seu obje-
exemplos quasi-padronizados de diver- tivo é descobrir que elementos isoláveis,
sas teorias em suas aplicações conceitu-explícitos ou implícitos, os membros da
ais, observacionais e instrumentais. Sãocomunidade investigada podem ter abs-
os paradigmas da comunidade que os li- traído dos seus paradigmas mais globais
vros didáticos, conferências e exercícios
para utilizar como regras em sua pes-
de laboratório revelam. Estudando-os quisa. Qualquer um que tenha tentado
e praticando com eles, os membros da descrever ou analisar a evolução de uma
comunidade correspondente aprendem tradição particular de pesquisa terá pro-
sua profissão. É claro que o historia- curado, necessariamente, regras e prin-
dor vai encontrar uma zona de penumbra cípios aceitos desse tipo. É quase certo,
ocupada por trabalhos científicos cujo como indica a seção precedente, que esse
status ainda está em dúvida. Mas, em historiador terá pelo menos algum su-
geral, o núcleo resolvido de problemas cesso nessa busca. Mas, se a experiên-
e técnicas vai ser claro. Apesar de am- cia dele tiver sido mais ou menos como
biguidades ocasionais, os paradigmas de a minha própria, ele terá achado a busca
uma comunidade científica madura po- por regras mais difícil e menos satisfató-
dem ser determinados com relativa faci- ria que a busca por paradigmas. Algu-
lidade. mas das generalizações que ele vier a em-
pregar para descrever as crenças compar-
A determinação dos paradigmas com- tilhadas da comunidade científica não
partilhados, contudo, não é o mesmo que
V A Prioridade dos Paradigmas 37

apresentarão qualquer problema. Ou- em geral, é ajudado pela formulação de


tras, entretanto – incluindo algumas da- regras e de suposições, mas que não de-
quelas regras utilizadas acima como ilus- pende delas. Efetivamente, a existência
trações –, parecerão um pouco força- de um paradigma não precisa implicar
das. Se fossem formuladas da maneira nem mesmo um conjunto desenvolvido
exposta na seção anterior – ou de qual- de regras.1
quer outra maneira que possamos imagi- Inevitavelmente, o primeiro efeito des-
nar –, é quase certo que essas regras se- sas afirmações é levantar problemas. Na
riam rejeitadas por alguns membros do falta de um corpo adequado de regras, o
grupo que o historiador estuda. Apesar que restringe o cientista a uma tradição
disso, se quisermos entender uma tradi- científico-normal particular? O que pode
ção de pesquisa em termos de regras, será significar a expressão ‘inspeção direta de
preciso alguma especificação da base co- paradigmas’? Respostas parciais para
mum da área correspondente. Como re- questões como essas foram desenvolvi-
sultado, a busca por um corpo apropri- das na obra tardia de Ludwig Wittgens-
ado de regras para individualizar uma de- tein, ainda que em um contexto muito
terminada tradição de pesquisa normal diferente. Em se tratando de um con-
torna-se uma fonte de frustração pro- texto que é mais elementar e mais fami-
funda e contínua. liar, ajudará se considerarmos primeiro a
Se reconhecermos tal frustração, forma do seu argumento. O que precisa-
contudo, vai ser possível diagnosticar mos saber, perguntava Wittgenstein, para
sua fonte. Os cientistas podem concor- usarmos inequivocamente e sem provo-
dar que um Newton, um Lavoisier, um car controvérsia palavras como ‘cadeira’,
Maxwell ou um Einstein produziram ‘folha’ ou ‘jogo’?2
uma solução aparentemente perma- Essa é uma questão muito antiga e ge-
nente para um grupo de problemas ralmente tem sido respondida quando se
relevantes. Ainda assim, os cientistas diz que, consciente ou intuitivamente,
podem discordar – às vezes sem ter
consciência disso – a respeito de certas 1 Michael Polanyi desenvolveu brilhantemente
características abstratas que tornam um tema muito parecido, argumentando que boa
permanentes aquelas soluções. Isto é, parte do sucesso de um cientista depende do co-
eles podem concordar quanto à identifi- nhecimento tácito. Isto é, do conhecimento ob-
cação que fazem de um paradigma, sem tido pela prática e que não pode ser explicitado
pela verbalização. Ver seu Personal Knowledge
concordar a respeito de uma interpre- (Chicago, 1958), particularmente os capítulos v e
tação ou racionalização completa dele. vi.
A falta de uma interpretação padrão ou 2 Ludwig Wittgenstein, Philosophical Investi-

de uma redução consensual a regras gations, trad. G. E. M. Anscombe (New York,


não vai impedir que um paradigma guie 1953), pp. 31-36. Mas Wittgenstein não diz quase
nada sobre o tipo de mundo necessário para dar
a pesquisa. A ciência normal pode ser suporte ao procedimento de atribuição de nomes
determinada em parte pela inspeção que ele esboça. Parte do tópico que se segue não
direta dos paradigmas. Um processo que, pode portanto ser atribuída a ele.
V A Prioridade dos Paradigmas 38

nós devemos saber o que é uma cadeira, Algo do mesmo tipo certamente tam-
ou uma folha, ou um jogo. Isto é, nós de- bém pode valer para os diferentes proble-
vemos apreender algum conjunto de atri- mas e técnicas de pesquisa que aparecem
butos que todos os jogos – e apenas os dentro de uma certa tradição científico-
jogos – têm em comum. Todavia, Witt- normal. O que esses problemas e técni-
genstein concluiu que não precisamos de cas têm em comum não é o fato de sa-
nenhum conjunto semelhante de carac- tisfazerem algum conjunto explícito – ou
terísticas, dado o modo como utilizamos que poderia ser inteiramente descoberto
a linguagem e o tipo de mundo ao qual – de regras e postulados que dá à tradição
nós a aplicamos. Embora uma discussão científica o seu caráter e a sua possessão
sobre alguns dos atributos compartilha- do intelecto científico. Ao invés disso, es-
dos por um certo número de jogos, ca- ses problemas e técnicas relacionam-se
deiras ou folhas geralmente nos ajude a por semelhança e também por modelar-
aprender como empregar o termo corres- se em uma ou outra parte do corpus ci-
pondente, não há qualquer conjunto de entífico que a comunidade já reconhece
características que seja simultaneamente entre seus produtos legítimos. Os cien-
aplicável a todos os membros de uma tistas trabalham a partir dos modelos ad-
classe, e a eles apenas. Ao invés disso, quiridos através da educação, e através da
quando confrontados com uma atividade subsequente exposição à literatura pro-
que não observamos anteriormente nós duzida em sua área, em geral não conhe-
aplicamos, por exemplo, o termo ‘jogo’ cendo suficientemente – ou nem mesmo
porque aquilo que estamos vendo agora precisando conhecer – que característi-
carrega uma estreita ‘semelhança de fa- cas deram a esses modelos o status de pa-
mília’ com várias atividades que anteri- radigmas da comunidade. E porque as-
ormente aprendemos a chamar por esse sim fazem, os cientistas não precisam de
nome. Em suma, para Wittgenstein jo- nenhum conjunto extenso de regras. A
gos, cadeiras e folhas são famílias natu- coerência apresentada pela tradição de
rais. Cada uma delas constituída por uma pesquisa de que participam pode não im-
rede de semelhanças sobrepostas e entre- plicar nem mesmo um corpo subjacente
cruzadas. A existência de tal rede é su- de regras e suposições que a investiga-
ficiente para dar conta do nosso sucesso ção histórica ou filosófica posterior po-
na identificação dos objetos ou ativida- deria explicitar. Que os cientistas habi-
des correspondentes. Somente se as fa- tualmente não questionem ou debatam
mílias que nós nomeamos se sobrepuses- o que torna legítimos um certo problema
sem e se fundissem gradualmente umas ou uma solução particular é algo que nos
nas outras – isto é, somente se não hou- induz a supor que eles sabem a resposta,
vesse qualquer família natural –, o nosso pelo menos intuitivamente. Mas isso
sucesso em identificar e nomear eviden- pode estar indicando apenas que os ci-
ciaria um conjunto de características co- entistas sentem que nem a questão nem
muns correspondentes a cada um dos a resposta tenham alguma importância
nomes de classes que empregamos. para a pesquisa. Os paradigmas podem
V A Prioridade dos Paradigmas 39

ser anteriores, mais coercitivos e mais ramente como enfeite, ou mesmo como
completos que qualquer conjunto de re- ilustração documental. Pelo contrário, o
gras de pesquisa que pudessem ser ine- processo de aprendizagem de uma teo-
quivocamente abstraídas deles. ria depende do estudo de aplicações, in-
Até aqui esse ponto foi inteiramente cluindo a prática de resolução de proble-
teórico: os paradigmas poderiam deter- mas que se desenvolve tanto com lápis e
minar a ciência normal sem a interven- papel quanto com o uso de instrumentos
ção de regras explicitáveis. Deixe-me em um laboratório. Se, por exemplo, o es-
agora tentar incrementar a clareza e a im- tudante de dinâmica newtoniana chega a
peratividade do que acabo de afirmar, in- descobrir o significado de termos como
dicando algumas das razões para acredi- força, massa, espaço e tempo, ele conse-
tar que os paradigmas efetivamente ope- gue isso menos a partir das definições in-
ram dessa maneira. A primeira – que completas que ele tem no manual – ainda
já foi discutida bem extensamente – é a que eventualmente úteis – que pela ob-
enorme dificuldade de se descobrirem re- servação e pela participação na aplicação
gras que teriam guiado tradições especí- desses conceitos na solução de proble-
ficas de ciência normal. Essa dificuldade mas.
é aproximadamente a mesma que o filó- Tal processo de aprender fazendo – ou
sofo encontra ao tentar expor aquilo que aprender por exercícios repetitivos – con-
todos os jogos têm em comum. A se- tinua através de todo o período da ini-
gunda – da qual a primeira razão apon- ciação profissional. Na medida em que
tada é realmente um corolário – está en- o estudante avança do início da gradua-
raizada na natureza da educação cientí- ção até a tese de doutorado, os problemas
fica. Já deveria estar claro que os cientis- apresentados a ele tornam-se cada vez
tas nunca aprendem conceitos, leis e te- mais complexos e cada vez menos com-
orias em abstrato e por si mesmos. Em pletamente antecedidos de precedentes
vez disso, essas ferramentas intelectuais similares. Mas eles continuarão sempre
são encontradas desde o início implíci- estreitamente modelados nos trabalhos
tas em um agregado que lhes antecede científicos prévios. Da mesma forma que
histórica e pedagogicamente, e que as serão modelados em trabalhos científicos
mostra juntamente com suas aplicações prévios os problemas que normalmente
e por meio de suas aplicações. Uma nova o ocuparão durante a sua subsequente
teoria é sempre anunciada juntamente carreira científica independente. Qual-
com suas aplicações a alguma série con- quer um pode ficar à vontade para su-
creta de fenômenos naturais. Sem essas por que, no decorrer de sua carreira, em
aplicações ela não poderia nem mesmo algum momento e lugar o cientista abs-
candidatar-se à aceitação. Depois que a traiu intuitivamente as regras do seu pró-
teoria é aceita, tais aplicações – ou ou- prio jogo científico. Mas há pouca ra-
tras – acompanham as teorias nos livros zão para se acreditar nisso. Embora mui-
didáticos em que o futuro cientista vai tos cientistas falem bem e com facilidade
aprender seu ofício. Elas não estão lá me- a respeito das hipóteses específicas in-
V A Prioridade dos Paradigmas 40

dividuais que subjazem a um projeto de gia no início do século dezenove.3 Ade-


pesquisa em andamento, eles não estão mais, debates como esses não se desva-
em posição muito melhor que a do leigo necem de uma vez por todas com o apa-
para caracterizar as bases de seu campo, recimento de um paradigma. Embora
e também seus problemas e métodos le- quase não existam durante os períodos
gítimos. Se, de qualquer modo, chega- de ciência normal, eles ocorrem regular-
ram a aprender abstrações dessa ordem, mente um pouco antes e durante as revo-
eles vão mostrar isso em especial atra- luções científicas. Isto é, nos períodos em
vés da habilidade em conduzir pesquisas que os paradigmas são primeiro subme-
bem sucedidas. Entretanto, essa habili- tidos a ataque e depois são submetidos
dade pode ser compreendida sem que se a transformação. A transição da mecâ-
recorra a hipotéticas regras do jogo. nica newtoniana para a mecânica quân-
tica acionou muitos debates sobre a na-
Essas consequências da educação ci- tureza da física e seus padrões, alguns
entífica têm um reverso que fornece uma dos quais ainda em andamento.4 Há pes-
terceira razão para supor que os para- soas que estão vivas até hoje e que podem
digmas guiam a pesquisa pela modela- se lembrar de discussões parecidas en-
gem direta, assim como por regras abs- gendradas pela teoria eletromagnética de
traídas do paradigma. A ciência normal Maxwell e pela mecânica estatística.5 E
pode seguir em frente sem regras, na me- num passado ainda mais distante, a assi-
dida em que a comunidade científica a milação das mecânicas de Galileu e New-
que nos referimos aceita sem questionar ton deu origem a uma série particular-
as soluções de problemas particulares já 3 Para a química, ver H. Metzger, Les doctrines
obtidas. As regras só deveriam se tor-
chimiques en France du début du XVIIe à la fin du
nar importantes – e a característica des- XVIIIe siècle (Paris, 1923), pp. 24-27, 146-49; e Ma-
preocupação em relação a elas só deve- rie Boas, Robert Boyle and Seventeenth-Century
ria desvanecer-se – quando os paradig- Chemistry (Cambridge, 1958), cap. ii. Para a ge-
mas e modelos passassem a ser sentidos ologia, ver Walter F. Cannon, The Uniformitarian-
Catastrophist Debate, Isis, LI (1960), 38-55; e C. C.
pelos cientistas como inseguros. E, de Gillispie, Genesis and Geology (Cambridge, Mass.,
fato, é exatamente isso que ocorre. Em 1951), caps. iv-v.
particular o período pré-paradigma é re- 4 Para as controvérsias sobre a mecânica quân-

gularmente marcado por debates profun- tica, ver Jean Ullmo, La crise de la physique quan-
dos e frequentes sobre os métodos, pro- tique (Paris, 1950), cap. ii.
5 Para a mecânica estatística ver René Dugas,
blemas e padrões de solução legítimos, La théorie physique au sens de Boltzmann et ses
ainda que isso sirva muito mais para de- prolongements modernes (Neuchâtel, 1959), pp.
finir diferentes escolas que para produ- 158-84, 206-19. Para a recepção do trabalho de
zir acordo. Nós já registramos uns pou- Maxwell, ver Max Planck, Maxwell’s Influence in
cos debates desse tipo na ótica e na ele- Germany, in James Clerk Maxwell: A Commemo-
ration Volume, 1831-1931 (Cambridge, 1931), pp.
tricidade. Eles desempenharam um pa- 45-65, esp. pp. 58-63; e Silvanus P. Thompson,
pel ainda maior no desenvolvimento da The Life of William Thomson Baron Kelvin of Largs
química do século dezessete e da geolo- (London, 1910), II, 1021-27.
V A Prioridade dos Paradigmas 41

mente famosa de debates com aristoté- determinado momento apenas um mi-


licos, cartesianos e leibnizianos sobre os núsculo subgrupo? O que foi dito até
padrões legítimos da ciência.6 Quando os agora pareceu implicar que a ciência nor-
cientistas discordam sobre se os proble- mal é um empreendimento único, mo-
mas fundamentais de seu campo teriam nolítico e unificado, que se deve man-
sido resolvidos ou não, a busca de regras ter ou desabar juntamente com qualquer
ganha uma função que ordinariamente um de seus paradigmas, ou então com to-
não tem. Enquanto os paradigmas per- dos eles juntos. Mas é óbvio que a ciên-
manecem seguros, contudo, eles podem cia raramente ou nunca se assemelha a
funcionar sem um acordo sobre raciona- algo assim. Em geral – quando vemos to-
lização ou mesmo sem qualquer tentativa dos os campos científicos juntos – a ciên-
de racionalização. cia se parece muito mais com uma estru-
Uma quarta razão para garantir aos pa- tura desengonçada, que tem pouca coe-
radigmas um status de precedência em rência entre as suas várias partes. Nada
relação às regras e suposições comparti- do que foi dito até agora, contudo, con-
lhadas pode encerrar essa seção. Na In- flita com essa observação muito familiar.
trodução ao presente ensaio sugeri que Pelo contrário. Substituir as regras pelos
pode haver revoluções pequenas e gran- paradigmas deveria tornar mais fácil de
des. Sugeri ainda que algumas revolu- entender a diversidade dos campos e es-
ções afetam somente uma subespeciali- pecialidades científicas. As regras explíci-
dade profissional e que, para tais gru- tas, quando existem, são usualmente co-
pos, mesmo a descoberta de um fenô- muns a um grupo científico muito amplo.
meno novo e inesperado pode ser revo- Mas isso não precisa ocorrer com os pa-
lucionária. A próxima seção vai apresen- radigmas. Os praticantes de campos lar-
tar uma seleção de revoluções desse tipo, gamente separados – digamos, os astrô-
mesmo que ainda hoje esteja longe de nomos e os botânicos taxonômicos – são
ser claro como elas podem existir. Pelo educados pela exposição a trabalhos ci-
que ficou implícito na discussão prece- entíficos muito diferentes, descritos em
dente, se a ciência normal é tão rígida, e livros muito diferentes. E mesmo pessoas
se as comunidades científicas são tricota- que – estando nos mesmos campos ci-
das em malhas tão estreitas, como pode entíficos ou em campos científicos muito
uma mudança de paradigma afetar em próximos – começam estudando vários
6 Para um exemplo da batalha com os aris-
dos mesmos livros e trabalhos científi-
totélicos, ver A. Koyré, A Documentary History
cos, podem adquirir paradigmas bem di-
of the Problem of Fall from Kepler to Newton, ferenciados no decorrer da sua especiali-
Transactions of the American Philosophical So- zação profissional.
ciety, XLV (1955), 329-95. Para os debates com Consideremos, para dar só um exem-
os cartesianos e leibnizianos, ver Pierre Brunet, plo, a comunidade muito ampla e diver-
L’introduction des théories de Newton en France
au XVIIe siècle (Paris, 1931); e A. Koyré, From the sificada formada por todos os cientistas
Closed World to the Infinite Universe (Baltimore, físicos. Todos os membros desse grupo
1957), cap. xi. aprendem hoje em dia, digamos, as leis
V A Prioridade dos Paradigmas 42

da mecânica quântica, e a maioria de- pecialização pode dar a toda essa série de
les emprega essas leis em algum estágio pontos uma força adicional. Querendo
de sua pesquisa ou de seu ensino. Mas saber alguma coisa sobre o que os ci-
eles não aprendem as mesmas aplicações entistas consideravam ser a teoria atô-
dessas leis e, portanto, nem todos são afe- mica, um investigador perguntou a um fí-
tados do mesmo modo pelas mudanças sico de destaque e a um eminente quí-
na prática da mecânica quântica. Em sua mico se um simples átomo de hélio se-
rota para a especialização, uns poucos ci- ria uma molécula ou não. Ambos respon-
entistas físicos aprendem apenas os prin- deram sem hesitação, mas suas respostas
cípios básicos da mecânica quântica. Ou- não foram as mesmas. Para o químico, o
tros estudam em detalhe as aplicações átomo de hélio seria uma molécula por-
paradigmáticas desses princípios à quí- que se comporta como uma, tendo em
mica. Ainda outros estudam as aplica- vista a teoria cinética dos gases. Para o
ções paradigmáticas desses princípios à físico, por outro lado, o átomo de hélio
física do estado sólido, e assim por di- não seria uma molécula porque não apre-
ante. O que a mecânica quântica signi- sentaria um espectro molecular.7 Pre-
fica para cada um deles depende dos cur- sumivelmente ambos estivessem falando
sos que fez, dos livros que leu e das re- da mesma partícula. Mas eles a esta-
vistas que estuda. Disso se segue que vam vendo através dos prismas diferen-
embora uma mudança na lei da mecâ- ciados de seu próprio treinamento para a
nica quântica será revolucionária para to- pesquisa e da sua própria prática cientí-
dos esses grupos, uma mudança que re- fica. As experiências que ambos tinham
percute apenas em uma ou outra aplica- na resolução de problemas disseram-lhes
ção paradigmática da mecânica quântica o que uma molécula deve ser. Sem dúvida
será revolucionária apenas para os mem- que suas experiências tinham tido muito
bros de uma subespecialidade profissio- em comum mas, nesse caso, elas não
nal particular. Para o resto da profissão disseram aos dois especialistas a mesma
tal mudança não será nem mesmo revo- coisa. Na medida em que prosseguirmos,
lucionária. Em resumo, embora a mecâ- nós vamos descobrir quão cheios de con-
nica quântica – ou a dinâmica newtoni- sequências esses tipos de diferenças po-
ana e a teoria eletromagnética – seja um dem ocasionalmente ser.
paradigma para muitos grupos científi-
cos, ela não é o mesmo paradigma para
cada um deles. Portanto, ela pode deter-
minar simultaneamente várias tradições
de ciência normal que se sobrepõem sem
ser coextensivas. Uma revolução produ-
7 O investigador era James K. Senior, com quem
zida dentro de uma dessas tradições tam-
estou em débito pelo seu relato verbal. Algumas
bém não se estenderá necessariamente questões correlatas são tratadas em seu artigo The
às outras. Vernacular of the Laboratory, Philosophy of Sci-
Uma breve ilustração dos efeitos da es- ence, XXV (1958),163-68.
VI A Anomalia e a Emergência das Descobertas Científicas 43

VI

A Anomalia e a Emergência das


Descobertas Científicas

A ciência normal – a atividade de re- deve ser uma via particularmente eficaz
solução de charadas que acabamos de de induzir a mudança paradigmática. É
examinar – é um empreendimento alta- esse tipo de mudança que as novidades
mente cumulativo e extremamente bem de fato e as novidades de teoria produ-
sucedido em seu objetivo, que é a con- zem. Produzidas inadvertidamente por
tínua ampliação do alcance e da preci- um jogo que se joga sob um conjunto de-
são do conhecimento científico. Em to- terminado de regras, essas novidades de
dos esses aspectos ela coincide notavel- fato e teoria requerem a elaboração de
mente com a imagem mais habitual do um novo conjunto de regras para que se-
trabalho científico. Apesar disso, ainda jam assimiladas. Pelo menos para os es-
está faltando mencionar um produto pa- pecialistas em cujo campo particular de
drão do empreendimento científico. A ci- trabalho são produzidas e assimiladas es-
ência normal não visa às novidades de sas novidades, depois que elas se tornam
fato e às novidades de teoria. Quando ela partes da ciência o empreendimento ci-
é bem sucedida, a ciência normal não en- entífico nunca mais voltará a ser exata-
contra nenhuma novidade. No entanto, mente o mesmo de novo.
fenômenos novos e insuspeitados são re- Devemos perguntar agora como mu-
petidamente descobertos pela pesquisa danças desse tipo ocorrem. Primeira-
científica. Ademais, teorias radicalmente mente serão consideradas as descobertas
novas têm sido repetidamente inventa- ou novidades fatuais. Depois serão consi-
das pelos cientistas. A história sugere até deradas as invenções de teoria ou novida-
mesmo que o empreendimento científico des teóricas. Essa distinção entre desco-
chegou a desenvolver uma técnica ímpar berta e invenção ou entre fato e teoria, no
e poderosa para produzir surpresas desse entanto, vai mostrar-se de imediato ex-
tipo. Se quisermos conciliar essa caracte- cessivamente artificial. A artificialidade
rística da ciência com o que foi dito ante- dessa distinção é uma importante chave
riormente, então precisamos admitir que para a compreensão de várias das prin-
a pesquisa subordinada a um paradigma cipais teses desse ensaio. Ao examinar
VI A Anomalia e a Emergência das Descobertas Científicas 44

uma seleção de descobertas no restante da ciência normal – nesse caso, o pro-


dessa seção, rapidamente notaremos que gresso da química pneumática – prepa-
elas não são acontecimentos isolados, rou de modo bem meticuloso o caminho
mas episódios extensos, com uma estru- para uma descoberta. O primeiro preten-
tura que se repete com regularidade. As dente a descobridor que preparou uma
descobertas começam com a consciên- amostra relativamente pura do gás foi o
cia de uma anomalia. Ou seja, começam farmacêutico sueco C. W. Scheele. Toda-
com o reconhecimento de que a natu- via, nós podemos ignorar seu trabalho,
reza violou de algum modo as expectati- uma vez que ele não foi publicado até que
vas paradigmo-induzidas que governam a descoberta do oxigênio já tivesse sido
a ciência normal. A partir daí, elas prosse- repetidamente anunciada em outros lu-
guem com uma exploração mais ou me- gares. Desse modo, o trabalho de Scheele
nos extensa da área da anomalia. E se não teve qualquer efeito sobre o padrão
encerram somente quando a teoria para- que mais nos interessa aqui.2 Cronolo-
digmática foi ajustada de tal modo que o gicamente, o segundo a reclamar a des-
anômalo se transforma no esperado. A coberta do oxigênio foi o cientista e teó-
assimilação de um novo tipo de fato re- logo britânico Joseph Priestley. Ele iso-
quer algo mais que um ajuste que se adi- lou o gás liberado pelo óxido vermelho
ciona à teoria. E até que esse ajuste se de mercúrio em uma prolongada investi-
complete – isto é, até que os cientistas gação normal sobre os ares emitidos por
aprendam a ver a natureza de um modo um grande número de substâncias sóli-
diferente – o novo fato não chega a ser das. Em 1774 ele identificou o gás as-
propriamente um fato científico. sim produzido como óxido nitroso. Em
Para vermos quão estreitamente a no- 1775, impelido por testes adicionais, ele
vidade fatual se entrelaça com a novidade identificou o gás como ar comum com
teórica na descoberta científica, exami- uma quantidade de flogisto menor que a
nemos um exemplo particularmente fa- usual. O terceiro reclamante da desco-
moso: a descoberta do oxigênio. Pelo berta do oxigênio, Lavoisier, começou o
menos três pessoas diferentes podem trabalho que o conduziu ao oxigênio após
reivindicá-la legitimamente e, no início os experimentos de Priestley de 1774 –
dos anos setenta do século dezoito, vá- e possivelmente a partir de um palpite
rios outros químicos contiveram ar enri- dado pelo próprio Priestley. No início
quecido em um recipiente de laboratório, de 1775 Lavoisier relatou que o gás ob-
sem chegar a conhecê-lo.1 O progresso
ris, 1955), caps. ii-iii. Para uma exposição mais
1 Para a discussão ainda clássica da descoberta completa e bibliografia, ver também T. S. Kuhn,
do oxigênio, ver A. N. Meldrum, The Eighteenth- The Historical Structure of Scientific Discovery,
Century Revolution in Science – the First Phase Science, CXXXVI (June 1, 1962), pp. 760-764.
(Calcutta, 1930), cap. v. Um estudo recente 2 Ver, no entanto, Uno Bocklund, A Lost Letter

indispensável – incluindo uma exposição sobre from Scheele to Lavoisier, Lychnos, 1957-58, pp.
a controvérsia da prioridade – é Maurice Dau- 39-62, para uma avaliação diferente do papel de
mas, Lavoisier, théoricien et expérimentateur (Pa- Scheele.
VI A Anomalia e a Emergência das Descobertas Científicas 45

tido pelo aquecimento do óxido verme- torcido na imagem da ciência está atri-
lho de mercúrio era o próprio ar, sem al- buindo à descoberta essa função supos-
teração [apesar de que] ele resulta mais tamente tão fundamental. Examinemos
puro, mais respirável.3 Em torno de 1777 de novo o nosso exemplo. A preten-
– provavelmente com o apoio de uma se- são de Priestley à descoberta do oxigênio
gunda sugestão de Priestley –, Lavoisier está baseada na sua precedência no iso-
concluiu que o gás era uma espécie dis- lamento de um gás que, mais tarde, se-
tinta, ou seja, que era um dos dois princi- ria reconhecido como uma espécie dis-
pais constituintes da atmosfera. Priestley tinta. Mas a amostra de Priestley não era
nunca se dispôs a aceitar essa conclusão. pura e, se algum jeito de reter o oxigênio
Esse padrão de descoberta levanta uma impuro é descobri-lo, então isso foi feito
questão que pode ser formulada sobre por todo mundo que engarrafou o ar at-
todo fenômeno novo que ainda não en- mosférico. Além do mais, se Priestley foi
trou na consciência dos cientistas. Quem o descobridor, quando a descoberta foi
foi o primeiro a descobrir o oxigênio: Pri- feita? Em 1774 ele pensou ter obtido o
estley ou Lavoisier? – Se é que foi al- óxido nitroso, uma espécie que ele já co-
gum dos dois. Qualquer que seja o caso, nhecia. Em 1775 ele viu o gás como ar
quando o oxigênio foi descoberto? Assim desflogistizado, o que ainda não é o oxi-
formulada, essa última questão poderia gênio. E mesmo para os químicos flogísti-
ser feita mesmo que existisse apenas um cos, isso nem era um tipo tão inesperado
pretendente à descoberta. Não nos con- de gás. A pretensão de Lavoisier pode
cerne aqui uma resposta que ajuíze sobre ser mais robusta, mas apresenta os mes-
a precedência do descobridor e sobre a mos problemas. Se recusarmos a palma
data da descoberta. No entanto, se ten- a Priestley, não poderemos dar o prêmio
tarmos produzir uma resposta dessa or- a Lavoisier pelo trabalho de 1775 que o
dem, a natureza da descoberta será ilu- levou a identificar o gás como o próprio
minada. Isso, pela simples razão de que ar em sua inteireza. Presumivelmente de-
não há resposta do tipo usualmente pro- vêssemos aguardar pelo trabalho de 1776
curado. A descoberta não é o tipo de pro- e 1777 que levou Lavoisier não a mera-
cesso sobre o qual tem-se formulado a mente ver o gás, mas a ver o quê o gás era.
pergunta apropriada. O fato de que ela Contudo, mesmo esse prêmio poderia ser
é feita4 é um sintoma de que algo dis- questionado. De 1777 até o fim da sua
vida, Lavoisier insistiu que o oxigênio era
3 J. B. Conant, The Overthrow of the Phlogis- um princípio de acidez atômico e que o
ton Theory The Chemical Revolution of 1775-1789 gás oxigênio só era formado quando esse
(Harvard Case Histories in Experimental Science, princípio se unia com o calórico, a ma-
Case 2; Cambridge, Mass., 1950), p. 53. Esse pan- téria do calor.5 Portanto, devemos dizer
fleto muito útil reimprime muitos dos documen- que o oxigênio ainda não tinha sido des-
tos relevantes.
4 A precedência na descoberta do oxigênio tem

sido repetidamente contestada desde os anos oi- 5 H. Metzger, La philosophie de la matière chez

tenta do século dezoito. Lavoisier (Paris, 1935); e Daumas, op. cit., cap. vii.
VI A Anomalia e a Emergência das Descobertas Científicas 46

coberto em 1777? Alguns podem ser ten- sitação que Priestley teria sido seu des-
tados a fazer isso. Mas o princípio de aci- cobridor, ainda que ficássemos sem sa-
dez só foi banido da química depois de ber exatamente quando. Mas se a obser-
1810, e o calórico persistiu até a década vação e a conceituação, o fato e sua assi-
de sessenta do século dezenove. O oxi- milação à teoria estão inseparavelmente
gênio tornou-se uma substância química ligados na descoberta científica, então a
padrão antes de qualquer uma dessas da- descoberta científica é um processo que
tas. deve levar tempo. Somente quando todas
Claramente, nós precisamos de um as categorias conceituais relevantes estão
novo vocabulário e de novos conceitos preparadas de antemão – caso em que o
para analisar eventos como a descoberta fenômeno já não seria de um novo tipo –
do oxigênio. Embora a sentença o oxigê- podem ocorrer sem esforço, em conjunto
nio foi descoberto sem dúvida seja cor- e num instante o descobrir que e o desco-
reta, ela nos leva a um equívoco quando brir o quê.
sugere que descobrir algo é um ato iso- Admitamos então que a descoberta en-
lado simples que podemos assimilar ao volve um processo de assimilação con-
nosso habitual – e também questionável ceitual extenso, ainda que não necessa-
– conceito de visão. Eis porque nós as- riamente prolongado. Podemos também
sumimos tão prontamente que descobrir, dizer que esse processo envolve uma mu-
como ver ou tocar, deveria ser inequivo- dança de paradigma? Para essa questão
camente atribuível a um indivíduo e a um ainda não pode ser dada nenhuma res-
momento no tempo. Mas atribuir a des- posta geral. Mas, pelo menos nesse caso
coberta a um momento no tempo é sem- que estamos discutindo, a resposta deve
pre impossível, e atribuir a descoberta ser sim. Aquilo que Lavoisier anunciou
a um indivíduo com frequência também em seus escritos a partir de 1777 não era
é. Se ignorarmos Scheele, podemos di- propriamente a descoberta do oxigênio,
zer com segurança que o oxigênio não foi mas a teoria da combustão do oxigênio.
descoberto antes de 1774. E também po- De fato, se a descoberta do oxigênio não
deríamos dizer que o oxigênio teria sido fosse uma parte essencial da emergência
descoberto em torno de 1777 ou logo de- de um novo paradigma para a química, a
pois. Mas dentro desses limites – ou ou- questão da precedência com que come-
tros como esses – qualquer tentativa de çamos jamais teria parecido tão impor-
datar a descoberta deve ser necessaria- tante. Nesse caso e em outros, o valor
mente arbitrária. Isso porque descobrir que se aloca sobre um novo fenômeno
um novo tipo de fenômeno é necessaria- – e portanto sobre seu descobridor – va-
mente um evento complexo. Ou seja, um ria com a nossa estimativa da extensão
evento que envolve o reconhecimento de em que o fenômeno violou as antecipa-
que algo é e também o reconhecimento ções paradigmo-induzidas. Notemos no
do quê é esse algo. Note, por exemplo, entanto, já que isso vai ser importante
que se para nós o oxigênio fosse ar des- mais tarde, que a descoberta do oxigênio
flogistizado, deveríamos insistir sem he- não foi, por si mesma, a causa da mu-
VI A Anomalia e a Emergência das Descobertas Científicas 47

dança na teoria química. Muito antes de presentar as principais maneiras pelas


exercer qualquer função na descoberta quais as descobertas ocorrem, tais exem-
do novo gás, Lavoisier estava convencido plos foram escolhidos por serem diferen-
de que algo estava errado com a teoria tes entre si e, também, por serem diferen-
do flogisto. Assim como também estava tes do exemplo da descoberta do oxigê-
convencido de que corpos em combus- nio. O primeiro exemplo, dos raios X, é
tão absorviam alguma porção da atmos- um caso clássico de descoberta aciden-
fera. Em certa medida ele registrou isso tal. Trata-se de um tipo de descoberta que
no texto lacrado que confiou à Secreta- ocorre mais frequentemente do que os
ria da Academia Francesa em 1772.6 O padrões impessoais dos relatórios cientí-
que o trabalho sobre o oxigênio fez foi dar ficos nos permitem apreender. Sua estó-
muito mais forma e estrutura à sensação ria começa no dia em que o físico Roent-
prévia de Lavoisier de que algo não estava gen interrompeu uma investigação nor-
funcionando. Esse trabalho informou- mal dos raios catódicos porque ele no-
lhe uma coisa que ele já estava preparado tou que uma tela de platinocianeto de bá-
para descobrir: a natureza da substân- rio – que estava a alguma distância do
cia que a combustão retira da atmosfera. seu aparelho blindado – ficou fosfores-
Tal consciência antecipada das dificulda- cente quando a descarga estava se pro-
des deve ter sido uma fração significativa cessando. Investigações adicionais7 indi-
daquilo que capacitou Lavoisier a ver em caram que a causa da fosforescência vi-
experimentos como os de Priestley um nha diretamente do tubo de raios cató-
gás que o próprio Priestley fora incapaz dicos. Indicaram ainda que a radiação
de ver em seus experimentos. Reciproca- emite sombras e que a radiação não po-
mente, o fato de que uma ampla revisão deria ser desviada por um ímã, além de
paradigmática era necessária para ver o muitas coisas mais. Antes de anunciar
que Lavoisier viu deve ter sido a princi- sua descoberta, Roentgen convenceu-se
pal razão por que Priestley foi incapaz de de que aquele efeito não era devido aos
ver a mesma coisa, até o final de sua longa raios catódicos, mas a um agente com
vida. pelo menos alguma similaridade com a
Dois outros exemplos bem mais curtos luz.8
vão reforçar muito do que acabou de ser Até mesmo esse resumo tão breve re-
dito e, ao mesmo tempo, nos transferir vela clamorosas semelhanças com a des-
de uma elucidação da natureza das des- coberta do oxigênio. Antes de fazer expe-
cobertas para uma compreensão das cir- rimentos com o óxido vermelho de mer-
cunstâncias em que as descobertas emer- cúrio, Lavoisier realizou experimentos
gem na ciência. Num esforço para re-
7 Elas exigiram sete semanas de intensa ativi-
6 A mais autorizada exposição da origem da in- dade, durante as quais Roentgen raramente dei-
satisfação de Lavoisier é Henry Guerlac, Lavoisier xou o laboratório.
– the Crucial Year: The Background and Origin 8 L. W. Taylor, Physics, the Pioneer Science (Bos-

of His First Experiments on Combustion in 1772 ton, 1941), pp. 790-94; e T. W. Chalmers, Historic
(Ithaca, N. Y., 1961). Researches (London, 1949), pp. 218-19.
VI A Anomalia e a Emergência das Descobertas Científicas 48

que não produziram os resultados anteci- No entanto, em uma terceira área a


pados pelo paradigma do flogisto. A des- existência de paralelismos significativos
coberta de Roentgen também começou entre as descobertas do oxigênio e dos
com o reconhecimento de que sua tela raios X é bem menos aparente. Diferente-
fosforesceu quando não deveria fazê-lo. mente da descoberta do oxigênio, a des-
Em ambos os casos a percepção da ano- coberta dos raios X não estava implicada
malia – ou seja, a percepção de um fenô- em qualquer subversão óbvia da teoria ci-
meno para o qual o investigador não foi entífica – pelo menos durante a década
prontificado pelo seu paradigma – exer- que sucedeu o evento. Então, em que
ceu um papel essencial na preparação do sentido se pode dizer que a assimilação
caminho para a percepção da novidade. da descoberta dos raios X necessitou uma
Igualmente nos dois casos, a percepção mudança de paradigma? A razão para ne-
de que algo saiu errado foi somente o pre- gar tal mudança é muito forte. É certo que
lúdio da descoberta. Nem o oxigênio nem os paradigmas subscritos por Roentgen e
os raios X emergiram sem um processo seus contemporâneos não poderiam ter
subsequente de experimentação e de as- sido usados para predizer os raios X.10
similação. Em que ponto da investigação Mas os paradigmas aceitos por Roentgen
de Roentgen, por exemplo, poderíamos e seus contemporâneos não proibiam –
dizer que os raios X foram efetivamente pelo menos em algum sentido óbvio – a
descobertos? De modo algum foi naquele existência dos raios X, como a teoria do
primeiro instante em que tudo o que foi flogisto proibira a interpretação dada por
notado foi uma tela fosforescendo. Pelo Lavoisier ao gás de Priestley. Pelo con-
menos um outro investigador também ti- trário, em 1895 a teoria e a prática cien-
nha visto aquela fosforescência e, para tíficas admitiam um certo número de ra-
seu posterior desgosto, ele não chegou a diações: visível, infravermelha e ultravi-
descobrir nada.9 Também já é pratica- oleta. Por que os raios X não poderiam
mente certo que o momento da desco- ter sido aceitos como apenas mais uma
berta não pode ser deslocado para algum forma de uma bem conhecida classe de
ponto da última semana de investigação. fenômenos naturais? Por que os raios
Naquele momento Roentgen estava ex- X não foram, por exemplo, recebidos do
plorando as propriedades da nova radia- mesmo modo que a descoberta de um
ção que ele já tinha descoberto. Só pode- elemento químico adicional? Novos ele-
mos dizer que os raios X emergiram em mentos químicos para preencher luga-
Würzburg entre 8 de novembro e 28 de res vazios na tabela periódica ainda es-
dezembro de 1895. tavam sendo procurados nos dias de Ro-
entgen. Sua busca era um projeto padrão
9 E. T. Whittaker, A History of the Theories of
de ciência normal. Encontrá-los propici-
Æther and Electricity, I (2d ed.; London, 1951),
p.358, n. 1. Sir George Thomson informou-me de 10 A teoria eletromagnética de Maxwell ainda

uma segunda decepção parecida. Alertado por in- não tinha sido generalizadamente aceita, e a te-
contáveis chapas fotográficas veladas, Sir William oria particulada dos raios catódicos era apenas
Crookes também estava na trilha da descoberta. uma entre várias especulações correntes.
VI A Anomalia e a Emergência das Descobertas Científicas 49

ava apenas uma ocasião para congratula- nio potencial da ciência normal. Mas
ções, não para surpresa. eles também modificaram campos que já
Mas os raios X foram saudados não existiam antes – e esse é, agora, o ponto
apenas com surpresa, mas também com mais importante. No processo, eles ne-
choque. Lord Kelvin antes de mais nada garam a tipos de instrumentação previ-
declarou-os uma fraude bem montada.11 amente paradigmáticos o direito a esse
Outros ficaram estupefatos com a evi- título. Em resumo, conscientemente ou
dência, já não podendo duvidar dela. não a decisão de empregar um aparelho
Embora os raios X não fossem vetados em particular – e também a decisão de
pela teoria estabelecida, eles violaram ex- usá-lo de um modo especificado – im-
pectativas profundamente arraigadas. É plica a suposição de que disso resulta-
uma sugestão minha que tais expectati- riam apenas certos tipos de circunstân-
vas estavam implícitas na projeção e na cias. Há expectativas instrumentais da
interpretação de procedimentos de labo- mesma forma que há expectativas teó-
ratório estabelecidos. Em torno dos anos ricas, e elas com frequência exerceram
noventa do século dezenove, o aparelho uma função decisiva no desenvolvimento
de raio catódico estava amplamente de- científico. Uma dessas expectativas ins-
senvolvido em numerosos laboratórios trumentais, por exemplo, faz parte da es-
europeus. Se o equipamento de Roent- tória da demorada descoberta do oxigê-
gen produziu raios X, então um certo nú- nio. Quando usaram um teste padrão da
mero de outros experimentadores tam- bondade do ar, Priestley e Lavoisier mis-
bém deveria estar num momento ou turaram dois volumes do seu gás para um
noutro produzindo aqueles raios sem o volume de óxido nítrico. Agitaram a mis-
saber. Talvez aqueles raios – que certa- tura em água e mediram o volume do re-
mente também poderiam ter outras fon- síduo gasoso. A experiência anterior – a
tes não reconhecidas – estivessem impli- partir da qual desenvolveu-se esse pro-
cados no comportamento previamente cedimento padrão – assegurava-lhes que
explicado, sem que se fizesse referência com ar atmosférico restaria um volume,
a eles. No mínimo, vários tipos de apa- e que para qualquer outro gás, ou para ar
relhos de há muito familiares deveriam poluído, o volume seria maior. Nos expe-
no futuro ser blindados com chumbo. O rimentos com o oxigênio, ambos encon-
trabalho já acabado de projetos normais traram um volume e, consequentemente,
teria agora que ser feito de novo porque identificaram o gás. Só muito mais tarde,
anteriormente os cientistas falharam em e em parte por acidente, Priestley renun-
reconhecer e controlar uma variável re- ciou ao procedimento padrão e tentou
levante. Sem dúvida os raios X abriram misturar óxido nítrico com o seu gás em
um novo campo, somando-o ao domí- outras proporções. Então ele constatou
que com o quádruplo do volume de óxido
11 Silvanus P. Thompson, The Life of Sir William nítrico não restava quase nenhum resí-

Thomson Baron Kelvin of Largs (London, 1910), II, duo. Seu compromisso com o procedi-
p. 1125. mento de teste original – um procedi-
VI A Anomalia e a Emergência das Descobertas Científicas 50

mento sancionado por muita experiência dessa frequência com que tais compro-
anterior – foi ao mesmo tempo um com- missos instrumentais mostram-se equí-
promisso com a inexistência de gases que vocos que a ciência deveria abandonar
poderiam se comportar do mesmo modo os testes padrão e os instrumentos pa-
que o oxigênio.12 drão? Isso resultaria num método de pes-
Exemplos desse tipo poderiam ser mul- quisa inconcebível. Aplicações e proce-
tiplicados se nos referíssemos, digamos, dimentos paradigmáticos são tão neces-
à demorada identificação da fissão do sários à ciência quanto as leis e teorias
urânio. Uma razão pela qual a reação paradigmáticas, e têm os mesmos efei-
nuclear mostrou-se particularmente di- tos. Inevitavelmente eles sempre restrin-
fícil de reconhecer, foi que pessoas que gem o campo fenomênico acessível à in-
sabiam o que esperar quando bombar- vestigação científica. Se reconhecemos
deavam o urânio escolheram testes quí- isso suficientemente, podemos simulta-
micos apontados principalmente para os neamente ver um sentido essencial em
elementos do extremo superior da ta- que descobertas como a dos raios X com-
bela periódica.13 Deveríamos concluir pelem um segmento específico da comu-
nidade científica a uma mudança de pa-
12 Conant, op. cit., pp. 18-20. radigma – e portanto a uma mudança
13 K.K. Darrow, Nuclear Fission, Bell System Te- nos procedimentos e expectativas. Como
chnical Journal, XIX (1940), pp. 267-89. O criptô-
resultado, podemos compreender tam-
nio, um dos dois principais produtos da fissão, pa-
rece ter sido identificado por meios químicos só bém como a descoberta dos raios X dei-
depois que a reação foi bem compreendida. O xaria a impressão de abrir um estranho
bário, o outro produto da fissão, foi quase iden- mundo novo para muitos cientistas, par-
tificado quimicamente em um estágio tardio da ticipando, desse modo, tão efetivamente
investigação porque, como efetivamente aconte-
da crise que conduziu à física do século
ceu, esse elemento tinha que ser adicionado à so-
lução radioativa para precipitar o elemento pe- vinte.
sado que os químicos nucleares estavam procu- Nosso exemplo final de descoberta ci-
rando. O fracasso em separar do produto radioa- entífica, a da garrafa de Leyden, pertence
tivo o bário que tinha sido adicionado finalmente a uma classe que pode ser descrita como
levou – depois que a reação foi repetidamente in-
vestigada por quase cinco anos – ao seguinte rela- teórico-induzida. Inicialmente o termo
tório: pode parecer paradoxal. Muito do que
foi dito até agora sugere que descober-
Como químicos nós deveríamos ser tas antecipadas por predições da teoria
conduzidos pela investigação a mudar
todos os nomes no esquema precedente são partes da ciência normal e não resul-
[de reação] e escrever Ba, La, Ce no lu- tam em nenhum novo tipo de fato. An-
gar de Ra, Ac, Th. Mas como ‘químicos teriormente eu me referi às descobertas
nucleares’ com íntimas conexões com a
física, não podemos nos permitir esse (Otto Hahn e Fritz Strassman, Über den Nachweis
salto que iria contradizer toda a experi- und das Verhalten der bei der Bestrahlung des
ência prévia da física nuclear. Pode ser Urans mittels Neutronen entstehende Erdalkali-
que uma série de estranhos acidentes mettale, Die Naturwissenschaften, XXVII [1939], p.
torne enganadores nossos resultados. 15).
VI A Anomalia e a Emergência das Descobertas Científicas 51

de novos elementos químicos, durante ativo. Ao remover o frasco da máquina e


a segunda metade do século dezenove, tocar a água – ou tocar um condutor co-
como procedendo da ciência normal exa- nectado a ela – com as mãos desprote-
tamente dessa maneira. Mas nem todas gidas, esses investigadores experimenta-
as teorias são paradigmáticas. Durante os vam um forte choque. No entanto, os ele-
períodos pré-paradigma e durante as cri- tricistas ainda não conseguiram produzir
ses que conduzem a mudanças em larga a garrafa de Leyden com aqueles primei-
escala nos paradigmas, os cientistas de- ros experimentos. O dispositivo emergiu
senvolvem habitualmente muitas teorias mais lentamente e, de novo, é impossível
especulativas e incoesas que podem, elas dizer exatamente quando sua descoberta
mesmas, apontar o caminho para a des- foi completada. As primeiras tentativas
coberta. No entanto, essa descoberta de armazenar o fluido elétrico só funcio-
pode não ser exatamente aquela anteci- naram porque os investigadores segura-
pada pela hipótese pouco elaborada ou vam o frasco em suas mãos, ao mesmo
especulativa. Somente quando o experi- tempo em que se mantinham em con-
mento e a teoria provisória articulam-se tato com o solo. Os eletricistas ainda pre-
conjuntamente em uma assimilação do cisariam aprender que a garrafa de Ley-
experimento pela teoria é que a desco- den requer uma capa condutora externa
berta emerge e a teoria se torna um para- e uma capa condutora interna, além de
digma. não chegar propriamente a armazenar o
A descoberta da garrafa de Leyden fluido no frasco. Em algum momento no
mostra todas essas características, assim curso das investigações que lhes mostra-
como outras que já observamos antes. ram tudo isso – e que lhes apresentaram
Quando ela começou, não havia um pa- vários outros efeitos anômalos – o arte-
radigma único para a pesquisa elétrica. fato que denominamos garrafa de Ley-
Ao invés disso, várias teorias – todas elas den emergiu. Ademais, os experimentos
derivadas de fenômenos relativamente que conduziram à sua emergência, mui-
acessíveis – estavam em competição. Ne- tos deles realizados por Franklin, foram
nhuma delas teve muito sucesso no or- também os experimentos que exigiram
denamento da variedade dos fenômenos uma drástica revisão da teoria do fluido,
elétricos como um todo. Esse fracasso fornecendo assim o primeiro paradigma
é a fonte de várias anomalias que for- pleno para a eletricidade.14
neceram o pano de fundo para a desco- Em maior ou menor medida – cor-
berta da garrafa de Leyden. Uma das es- respondendo ao continuum que vai do
colas competidoras entre os eletricistas
considerou que a eletricidade fosse um 14 Para vários estágios na evolução da garrafa de

fluido. Essa concepção levou várias pes- Leyden, ver I. B. Cohen, Franklin and Newton: An
soas a tentar engarrafar tal fluido, segu- Inquiry into Speculative Newtonian Experimental
Science and Franklin’s Work in Electricity as an
rando um frasco cheio de água com as Example Thereof (Philadelphia, 1956), pp. 385-
mãos e encostando a água num condu- 86, 400-406, 452-67, 506-7. O último estágio é des-
tor conectado a um gerador eletrostático crito por Whittaker, op. cit., pp. 50-52.
VI A Anomalia e a Emergência das Descobertas Científicas 52

choque inesperado até o resultado ante- aumento do tempo das exposições, to-
cipado – as características comuns aos das as pessoas identificaram todas as car-
três exemplos acima são características tas. Para as cartas normais, as identifi-
de todas as descobertas das quais emer- cações eram geralmente corretas. Mas
gem novos tipos de fenômeno. Tais ca- as cartas anômalas eram quase sempre
racterísticas incluem: a consciência pré- identificadas como normais, sem apa-
via da anomalia, a emergência gradual rente hesitação ou perplexidade. O qua-
e simultânea do reconhecimento obser- tro de copas preto poderia, por exem-
vacional e conceitual, e a consequente plo, ser identificado tanto como o qua-
mudança nas categorias e procedimen- tro de espadas quanto como o quatro
tos paradigmáticos – mudança essa geral- de copas. Sem qualquer consciência
mente acompanhada de resistência. Há de algum problema, a carta era imedia-
inclusive evidência de que essas mes- tamente ajustada a uma das categorias
mas características estejam embutidas conceituais preparadas pela experiência
na própria natureza do processo percep- anterior. Não se poderia nem mesmo di-
tivo. Em um experimento que merece zer que as pessoas tenham visto algo dife-
ser muito melhor conhecido fora do meio rente daquilo que identificaram. Com um
especializado, Bruner e Postman solici- aumento adicional da exposição às cartas
taram aos participantes do experimento anômalas, as pessoas começavam a he-
que identificassem uma série de cartas sitar e a exibir consciência da anomalia.
de baralho sendo-lhes expostas controla- Quando exposto, por exemplo, a um seis
damente, em curtos períodos de tempo. de espadas vermelho alguém dizia:
Muitas das cartas eram normais, mas al-
É um seis de espadas, mas
gumas foram modificadas para se tornar
tem alguma coisa errada com
anômalas. Por exemplo, um seis de espa-
ele. O preto tem uma borda ver-
das vermelho e um quatro de copas preto.
melha.
Cada sessão experimental era constituída
pela mostra de uma só carta para uma só Um novo aumento no tempo de exposi-
pessoa, em uma série de exposições que ção resultou em ainda mais hesitação e
se tornavam cada vez mais demoradas. confusão. Até que finalmente – e às vezes
Depois de cada exposição perguntava-se não mais que repentinamente – a maio-
à pessoa o que ela tinha visto. A sessão ria das pessoas produzia a identificação
terminava quando ocorriam duas identi- correta sem hesitação. Ademais, depois
ficações corretas sucessivas.15 de fazer isso com duas ou três cartas anô-
Mesmo nas exposições mais rápidas, malas, elas passavam a ter bem pouca di-
muitas pessoas identificaram a maior ficuldade com as outras cartas anôma-
parte das cartas. Depois de um pequeno las que viessem a aparecer. No entanto,
umas poucas pessoas nunca foram capa-
15 J. S. Bruner e Leo Postman, On the Perception zes de fazer o ajuste necessário em suas

of Incongruity: a Paradigm, Journal of Personality, categorias. Mesmo com quarenta vezes o


XVIII (1949), pp. 206-23. tempo médio de exposição exigido pelo
VI A Anomalia e a Emergência das Descobertas Científicas 53

reconhecimento das cartas normais por algo que deu errado antes. Essa consciên-
aquilo que eram, mais de dez por cento cia da anomalia abre um período em que
das cartas anômalas não foram correta- as categorias conceituais são ajustadas,
mente identificadas. E as pessoas que até que o inicialmente anômalo tenha-
falharam dessa maneira experimentaram se tornado o antecipado. Nesse ponto, a
um sentimento agudo de angústia. Uma descoberta foi completada. Eu já tinha
delas exclamou: insistido que tal processo – ou um pro-
cesso muito parecido com esse – está en-
Eu não consigo fazer a volvido na emergência de todas as novi-
sequência, qualquer que seja dades científicas fundamentais. Deixe-
ela. Daquela vez, nem mesmo me assinalar agora que, ao reconhecer
pareceu uma carta. Agora já esse processo, enfim nós podemos come-
não sei de que cor ela é – ou se çar a ver por que a ciência normal – uma
é espada ou copa. Já não estou ocupação não direcionada a novidades e
nem mesmo certo de como se que tende em princípio a suprimi-las –
parece uma espada. Meu Deus!16 deveria, apesar disso, ser tão efetiva em
causar a emergência de novidades.
Na próxima seção também veremos No desenvolvimento de qualquer ciên-
que os cientistas ocasionalmente cia, o primeiro paradigma recebido é usu-
comportam-se dessa maneira. almente considerado muito bem suce-
Seja como metáfora, seja porque reflete dido no enquadramento teórico da maio-
a natureza da mente, esse experimento ria das observações e experimentos mais
psicológico fornece um esquema mara- facilmente acessíveis aos seus pratican-
vilhosamente simples e convincente do tes. O desenvolvimento posterior, por-
processo da descoberta científica. Na ci- tanto, tendo que resolver também os pro-
ência – como no experimento das car- blemas que oferecem maior dificuldade,
tas de baralho –, a novidade só emerge demanda a construção de equipamen-
com a dificuldade manifestada pela resis- tos sofisticados, demanda o desenvol-
tência produzida pelo seu contraste com vimento de competências profissionais
o pano de fundo oferecido pela expecta- e de um vocabulário mais especializa-
tiva. Inicialmente, somente o antecipado dos, além de um refinamento dos con-
e o usual são experienciados. Isso ocorre ceitos que reduz crescentemente sua se-
mesmo num contexto de circunstâncias melhança com seus protótipos habituais
em que mais tarde será observada uma do senso comum. A ciência ter-se-á tor-
anomalia. O aumento da familiarização, nado crescentemente rígida. Dentro da-
entretanto, resulta na consciência de algo quelas áreas em que o paradigma dirige
errado, ou relaciona tal ou qual efeito a a atenção do grupo, por outro lado, a ci-
16 Meu colega Postman diz-me que, apesar de
ência normal leva a um nível de detalha-
conhecer antecipadamente tudo sobre o aparato mento da informação e a uma precisão
e sobre a exibição, não obstante achou desconfor- no encaixe da observação com a teoria
tável ao extremo ver as cartas incongruentes. que não poderiam ser atingidos de ne-
VI A Anomalia e a Emergência das Descobertas Científicas 54

nhum outro modo. Em acréscimo, tanto dicional prepara o caminho da sua pró-
o detalhamento da informação quanto a pria mudança.
precisão do ajuste observação-teoria têm
um valor para os cientistas que ultra-
passa em muito a relevância que pode-
riam apresentar para qualquer fim útil ex-
terno à ciência. Sem a aparelhagem cons-
truída especialmente para funções pre-
vistas, os resultados que levam em úl-
tima instância à novidade não poderiam
ocorrer. E mesmo quando essa apare-
lhagem está disponível, a novidade ge-
ralmente só aparece para pessoas que se
tornaram hábeis em reconhecer que algo
deu errado pela simples razão de que sa-
bem com precisão qual deve ser o resul-
tado esperado. A anomalia só aparece
em contraste com o contexto fornecido
pelo paradigma. Quanto mais preciso e
quanto maior o alcance do paradigma,
mais sensitivo é o indicador de anoma-
lias que ele oferece. E, portanto, tam-
bém o indicador de ocasiões para uma
mudança de paradigma. No modo nor-
mal da descoberta, também a resistên-
cia tem uma utilidade. Ela será explo-
rada mais completamente na próxima se-
ção. Ao assegurar que o paradigma não
vai ser tão facilmente abandonado, a re-
sistência garante que os cientistas não
se distrairão por qualquer coisa, e que
as anomalias que levam a mudanças de
paradigma têm que penetrar até o cerne
do conhecimento existente. O próprio
fato de que uma novidade científica signi-
ficativa geralmente emerge simultanea-
mente em vários laboratórios é um índice
de que a ciência normal tem uma natu-
reza fortemente tradicional e, ao mesmo
tempo, também é um índice da comple-
tude com que esse empreendimento tra-
VII Crise e Emergência de Teorias Científicas 55

VII

Crise e Emergência de Teorias


Científicas

Todas as descobertas consideradas na danças semelhantes – mas geralmente


seção VI foram causas de mudança pa- muito mais amplas – que resultam da in-
radigmática ou contribuíram para que venção de novas teorias.
ela ocorresse. Ademais, todas as mu- Como já argumentei que nas ciências
danças em que essas descobertas estive- fato e teoria, descoberta e invenção não
ram implicadas foram destrutivas e tam- são categórica ou permanentemente dis-
bém construtivas. Depois da assimilação tintos, podemos antecipar a interseção
da descoberta, os cientistas se tornavam entre a presente seção e a seção anterior.1
capazes de explicar um espectro mais Inevitavelmente, ao tratar da emergên-
amplo de fenômenos naturais. Ou en- cia de novas teorias também ampliare-
tão, tornavam-se capazes de explicar com mos nossa compreensão da descoberta.
maior precisão alguns dos fenômenos No entanto, interseção não é identidade.
naturais já conhecidos. Mas tal ganho Pelo menos isoladamente, os tipos de
era obtido somente com o descarte de descobertas considerados na seção an-
algumas crenças e procedimentos consi- terior não foram responsáveis por mu-
derados padrão até então e, ao mesmo danças paradigmáticas como as revolu-
tempo, com a substituição desses com- ções copernicana, newtoniana, química
ponentes do paradigma anterior por ou- e einsteiniana. Também não foram res-
tros. Como tenho argumentado, mudan- ponsáveis pelas mudanças de paradigma
ças dessa ordem estão associadas com to- algo menores – porque mais exclusiva-
das as descobertas feitas através da ci- mente profissionais – produzidas pela te-
ência normal, excluindo apenas aquelas oria ondulatória da luz, pela teoria dinâ-
descobertas previsíveis que foram anteci-
1 A impossível sugestão de que primeiro Pries-
padas em tudo, menos em seus detalhes.
Todavia, as descobertas não são as úni- tley descobriu o oxigênio e que depois Lavoisier
o inventou tem seus atrativos. Já nos defronta-
cas fontes dessas mudanças destrutivo-
mos com o oxigênio enquanto descoberta. Logo
construtivas de paradigma. Na presente à frente vamos encontrá-lo de novo como inven-
seção começaremos a considerar as mu- ção.
VII Crise e Emergência de Teorias Científicas 56

mica do calor ou pela teoria eletromag- ceu da colisão de duas teorias físicas do
nética de Maxwell. De que modo teo- século dezenove que abordavam a radi-
rias como essas podem emergir da ciên- ação do corpo negro, os calores específi-
cia normal, uma atividade ainda menos cos e o efeito fotoelétrico.5 Ademais, em
dirigida para a busca de novas teorias que todos esses casos – exceto no de New-
para a busca de novas descobertas? ton – a consciência da anomalia durou
Se a consciência da anomalia exerce tanto e penetrou tão fundo que, de modo
um papel na emergência de novos tipos apropriado, podemos descrever os cam-
de fenômenos, não deveria surpreender pos afetados por ela como em um estado
ninguém que uma consciência parecida de crise crescente. A emergência de no-
– mas muito mais profunda – seja o pré- vas teorias é geralmente precedida de um
requisito para todas as mudanças aceitá- período de acentuada insegurança pro-
veis de teoria. Penso que, nesse ponto, a fissional porque isso demanda destrui-
evidência histórica é totalmente inequí- ção de paradigma em larga escala e enor-
voca. O estado da astronomia ptolo- mes mudanças nos problemas e técnicas
maica era escandaloso antes da publica- da ciência normal. Como era de se es-
ção da teoria copernicana.2 As contribui- perar, a insegurança é gerada pelo fra-
ções de Galileu ao estudo do movimento casso persistente em fazer as charadas
dependeram estreitamente das dificulda- da ciência normal terem o desfecho de-
des descobertas na teoria de Aristóteles vido. A falência das regras existentes é
pelos críticos escolásticos.3 A nova teo- o prelúdio de uma busca por novas re-
ria da luz e da cor de Newton originou-se gras. Em primeiro lugar, examinemos
da descoberta de que nenhuma das teo- um caso particularmente famoso de mu-
rias pré-paradigma existentes abrangiam dança de paradigma: a emergência da as-
toda a extensão do espectro. Também tronomia copernicana. Na sua fase de
a teoria ondulatória da luz, que substi- desenvolvimento, o seu predecessor foi
tuiu a teoria de Newton, foi anunciada admiravelmente bem sucedido na predi-
em meio a uma crescente preocupação ção das mudanças de posição das estre-
com as anomalias na relação dos efei- las e dos planetas. Refiro-me ao sistema
tos de difração e polarização com a teo- ptolomaico, num processo que transcor-
ria de Newton.4 A termodinâmica nas- reu nos dois últimos séculos antes de
2 A. R. Hall, The Scientific Revolution, 1500-1800
Mass., 1958), pp. 27-45. Para o prelúdio da teoria
(London, 1954), p. 16. ondulatória, ver E. T. Whittaker, A History of the
3 Marshall Clagett, The Science of Mechanics in Theories of Æther and Electricity, I (2d. ed.; Lon-
the Middle Ages (Madison, Wis., 1959), Partes II- don, 1847), pp. 94-109; e W. Wheewell, History of
III. A. Koyré mostra um certo número de elemen- the Inductive Sciences (ed. rev.; London, 1847), pp.
tos medievais no pensamento de Galileu em seus 11, 396-466.
Études Galiléennes (Paris, 1939), particularmente 5 Para a termodinâmica, ver Silvanus P. Thomp-

no Vol. I. son, Life of William Thomson Baron Kelvin of


4 Para Newton, ver T. S. Kuhn,Newton’s Opti- Largs (London, 1910), I, pp. 266-81. Para a teoria
cal Papers, in Isaac Newton’s Papers and Letters in quântica, ver Fritz Reiche, The Quantum Theory,
Natural Philosophy, ed. I. B. Cohen (Cambridge, trad. H. S. Hatfield e H. L. Brose (London, 1922).
VII Crise e Emergência de Teorias Científicas 57

Cristo e nos dois primeiros séculos de- corrigida em um lugar provavelmente iria
pois. Nenhum outro sistema antigo tivera aparecer em outro.6 Essas dificuldades só
uma performance tão boa. Para as estre- eram reconhecidas lentamente porque a
las, a astronomia ptolomaica ainda hoje tradição astronômica era repetidamente
é amplamente utilizada como um dispo- interrompida por fatores externos à ciên-
sitivo de aproximação. Para os planetas, cia e porque, na ausência da imprensa,
as predições de Ptolomeu eram tão boas a comunicação entre os astrônomos era
quanto as de Copérnico. Para uma teo- restrita. Mas a consciência acabou che-
ria científica, no entanto, ter um sucesso gando. Em torno do século treze, Alfonso
admirável nunca é ter um sucesso com- X poderia proclamar que se ele tivesse
pleto. Com relação à posição planetária e sido consultado por Deus durante a cria-
à precessão dos equinócios, as predições ção do mundo ter-lhe-ia dado bons con-
feitas pelo sistema de Ptolomeu nunca se selhos. No século dezesseis, Domenico
ajustaram muito bem às melhores obser- da Novara, o colaborador de Copérnico,
vações disponíveis. O esforço posterior sustentou que nenhum sistema tão com-
de redução dessas discrepâncias deu ori- plicado e impreciso – como se tinha tor-
gem a muitos dos problemas de pesquisa nado o sistema de Ptolomeu – teria a pos-
astronômica normal para vários dos su- sibilidade de estar de acordo com a na-
cessores de Ptolomeu, da mesma forma tureza. O próprio Copérnico escreveu no
que as tentativas parecidas de assimilar prefácio do De Revolutionibus que, no fi-
as observações celestes à teoria newto- nal das contas, a tradição astronômica
niana forneceram muitos problemas de que ele herdara só tinha criado um mons-
pesquisa normal para os sucessores de tro. Em torno do início do século dezes-
Newton no século dezoito. Por algum seis, um número cada vez maior dentre
tempo, os cientistas tiveram toda razão os melhores astrônomos da Europa reco-
para supor que essas tentativas teriam su- nhecia que o paradigma astronômico es-
cesso, precisamente como aquelas tenta- tava fracassando até mesmo na aplica-
tivas que tinham conduzido ao desenvol- ção aos seus próprios problemas tradi-
vimento do sistema de Ptolomeu. Nesse cionais. Tal reconhecimento foi o pré-
caso, dada uma discrepância em parti- requisito para a rejeição por Copérnico
cular, os astrônomos mostravam-se in- do paradigma ptolomaico, e para a busca
variavelmente capazes de fazer algum de um novo paradigma. Seu famoso pre-
ajuste específico no sistema ptolomaico fácio ainda fornece uma das descrições
de círculos compostos. Com o passar clássicas de um estado de crise.7
do tempo, contudo, alguém que exami- O fracasso da técnica normal de reso-
nasse o resultado líquido do esforço de lução de charadas não é, claro, o único
pesquisa normal de muitos astrônomos
6 J. L. E. Dreyer, A History of Astronomy from
poderia observar que a complexidade da
Thales to Kepler (2d ed.; New York, 1953), caps. xi-
astronomia estava crescendo muito mais xii.
rapidamente que a sua precisão. Poderia 7 T. S. Kuhn, The Copernican Revolution (Cam-

observar também que uma discrepância bridge, Mass., 1957) pp. 135-43.
VII Crise e Emergência de Teorias Científicas 58

ingrediente da crise astronômica que Co- começa no século dezessete, com o


pérnico enfrentou. Uma abordagem mais desenvolvimento da bomba de ar e seu
ampla também deveria discutir a pres- uso na experimentação química. Com
são social pela reforma do calendário.8 o uso da bomba de ar e vários outros
Além disso, tal abordagem mais completa dispositivos pneumáticos, durante o
deveria considerar a crítica medieval de século seguinte os químicos passaram
Aristóteles, a ascensão do neoplatonismo a compreender cada vez mais que o
renascentista e ainda outros elementos ar deve ser um ingrediente ativo nas
históricos significativos. Mas o fracasso reações químicas. Mas, com poucas
técnico ainda permaneceria no cerne da exceções – tão equívocas que talvez nem
crise. Em uma ciência madura – e a as- possam ser consideradas exceções –, os
tronomia já se tinha tornado uma na an- químicos continuaram a acreditar que
tiguidade – fatores externos como os ci- o ar era o único tipo de gás. Até 1756,
tados acima são significativos principal- quando Joseph Black mostrou que o ar
mente para determinar o ritmo do fra- em sua combinação química estável
casso, o grau de facilidade com que esse (CO 2 ) era consistentemente distinguível
fracasso pode ser reconhecido e a área em do ar normal, duas amostras de ar eram
que, pela atenção que lhe foi dedicada, o consideradas distintas apenas pelas suas
fracasso ocorre em primeiro lugar. Ainda impurezas.9
que imensamente importantes, questões Depois do trabalho de Black, a inves-
desse tipo estão fora dos limites desse en- tigação dos gases evoluiu rapidamente.
saio. Mais destacadamente nas mãos de Ca-
Se já temos o bastante para deixar vendish, Priestley e Scheele que, juntos,
claro o caso da revolução copernicana, desenvolveram várias novas técnicas ca-
voltemo-nos agora para um segundo pazes de distinguir uma amostra de gás
exemplo, que é até certo ponto diferente: de outra. Todas essas pessoas, de Black
a crise que precedeu a emergência da a Scheele, acreditavam na teoria do flo-
teoria de Lavoisier sobre a combustão gisto e a empregavam com frequência na
do oxigênio. Em 1770 muitos fatores projeção e na interpretação de seus ex-
combinaram-se para gerar uma crise perimentos. Scheele foi efetivamente o
na química. Os historiadores não estão primeiro a produzir oxigênio por meio de
completamente de acordo nem sobre uma elaborada sequência de experimen-
a natureza, nem sobre a importância tos projetada para desflogistizar o calor.
relativa desses fatores. Mas dois deles Não obstante, o resultado líquido de seus
são geralmente aceitos como sendo experimentos foi uma variedade tão in-
de primeira grandeza: a promoção da trincada de amostras e de propriedades
química pneumática e a questão das de gás, que a teoria do flogisto foi-se mos-
relações de peso. A história da primeira trando cada vez menos apta a lidar com

8 Uma pressão que tornou a charada da preces- 9 J. R. Partington, A Short History of Chemistry

são dos equinócios particularmente urgente. (2d ed.; London, 1951), pp. 48-51.
VII Crise e Emergência de Teorias Científicas 59

a experimentação laboratorial. Embora volume, a cor e a textura dos ingredientes,


nenhum desses químicos sugerisse que a por que elas não poderiam alterar tam-
teoria do flogisto devesse ser substituída, bém o peso? Nem sempre o peso fora
eles se tornaram incapazes de aplicá-la considerado uma medida da quantidade
consistentemente. No início dos anos se- de matéria. Ademais, o ganho de peso no
tenta do século dezoito, quando Lavoi- superaquecimento manteve-se como um
sier começou seus experimentos sobre os fenômeno isolado. A maioria dos corpos
ares, havia quase tantas versões da teo- naturais – por exemplo, a madeira – perde
ria do flogisto quantos eram os químicos peso no superaquecimento, como a teo-
pneumáticos.10 Essa proliferação de ver- ria do flogisto diria mais tarde que deve-
sões de uma teoria é um sintoma de crise riam.
bem comum. Em seu prefácio ao De Re- Durante o século dezoito, entretanto,
volutionibus, Copérnico também recla- essas respostas à questão do ganho de
mou disso. peso, que inicialmente eram adequadas,
A ambiguidade crescente e a utilidade ficaram cada vez mais difíceis de manter.
decrescente da teoria do flogisto para Em parte porque a balança foi crescen-
a química pneumática não foram, con- temente usada como ferramenta padrão
tudo, as únicas fontes de crise com que da química, em parte porque o desen-
Lavoisier se defrontou. Ele também es- volvimento da química pneumática tor-
tava muito interessado em explicar o ga- nou não só possível como também dese-
nho de peso que a maioria dos corpos ex- jável reter os produtos gasosos das rea-
perimenta quando abrasados ou supera- ções químicas, os químicos descobriram
quecidos – o que também era um pro- cada vez mais casos em que o ganho de
blema com uma longa história prévia. peso acompanhava o superaquecimento.
Pelo menos alguns químicos islâmicos Simultaneamente, a assimilação gradual
constataram que alguns metais ganham da teoria gravitacional de Newton levou
peso quando superaquecidos. No século os químicos a insistir que o aumento no
dezessete vários investigadores concluí- peso deveria significar aumento na quan-
ram do mesmo fato que o metal supera- tidade de matéria. Essas conclusões não
quecido incorpora algum ingrediente da resultaram na rejeição da teoria do flo-
atmosfera. Mas no século dezessete essa gisto. Essa teoria poderia ser ajustada
conclusão não pareceu uma conclusão de muitas maneiras. Talvez o flogisto ti-
necessária para a maioria dos químicos. vesse peso negativo, ou talvez partículas
Se as reações químicas podiam alterar o de fogo – ou alguma outra coisa – entras-
sem no corpo superaquecido na medida
10 Embora seu interesse principal esteja em um em que o flogisto o deixava. Outras ex-
período um pouco posterior, muito material rele- plicações ainda poderiam ser encontra-
vante está espalhado por J. R. Partington e Dou- das. Mas, se o problema do ganho de
glas McKies, Historical Studies on the Phlogiston
Theory, Annals of Science, II (1937), pp. 361-404; peso não levou à rejeição da teoria, aca-
III (1938), pp. 1-58, 337-71; e IV (1939), pp. 337- bou levando a vários estudos especiais
71. em que ele próprio adquiriu proeminên-
VII Crise e Emergência de Teorias Científicas 60

cia. Um desses estudos – “Sobre o flo- reza – com destaque para Leibniz – cri-
gisto considerado como uma substância ticaram o fato de Newton ter mantido a
dotada de peso e [analisado] em termos concepção clássica do espaço absoluto,
das mudanças de peso que ele produz nos ainda que em versão atualizada.12 Eles
corpos com os quais ele se une” – foi lido se tornaram quase capazes – mas nunca
à Academia Francesa no início de 1772, o suficiente – de mostrar que as posições
o ano que se encerrou com a abertura e os movimentos absolutos não tinham
da famosa anotação lacrada que Lavoi- qualquer função no sistema de Newton.
sier encaminhara à secretaria da Acade- No entanto, eles foram muito bem suce-
mia. Antes que tal anotação tivesse sido didos em assinalar o considerável apelo
escrita, um problema que se mantivera estético que uma concepção totalmente
à margem da consciência dos químicos relativista do espaço e do movimento só
por muitos anos ganhou destaque como viria exibir bem mais tarde. Mas a crí-
uma charada a ser resolvida.11 Muitas tica que eles faziam era puramente ló-
versões diferentes da teoria do flogisto es- gica. Como os primeiros copernicanos
tavam sendo elaboradas para enfrentá- – que criticaram as provas de Aristóteles
lo. Do mesmo modo que os problemas da estabilidade da Terra –, eles nem so-
da química pneumática, os problemas do nhavam que um sistema relativista pu-
ganho de peso estavam tornando cada desse ter consequências observacionais.
vez mais difícil saber com certeza o que Em nenhum momento eles relacionavam
era a teoria do flogisto. Esse paradigma suas concepções com os problemas que
do século dezoito estava gradualmente apareciam quando se aplicava a teoria de
perdendo seu status incontroverso, em- Newton à natureza. Disso resultou que as
bora ainda se acreditasse e confiasse nele concepções desses filósofos da natureza
como uma ferramenta de trabalho. Cada morreram com eles durante as primeiras
vez mais a pesquisa que ele guiava ficava décadas do século dezoito. Todavia, es-
parecendo com as escolas que concor- sas concepções ressuscitariam nas últi-
riam entre si no período pré-paradigma. mas décadas do século dezenove, quando
Esse é um outro efeito típico de crise. passaram a ter uma relação muito dife-
Como um terceiro e final exemplo, va- rente com a prática da física.
mos considerar agora a crise da física no Os problemas técnicos com que uma fi-
fim do século dezenove, que traçou o ro- losofia relativista do espaço acabaria por
teiro para que a teoria da relatividade se relacionar começaram a fazer parte da
emergisse. Uma das raízes daquela crise ciência normal com a aceitação da teo-
pode ser rastreada no final do século de- ria ondulatória da luz em torno de 1815
zessete, quando vários filósofos da natu- e no período que se seguiu àquele ano,
11 H. Guerlac, Lavoisier – The Crucial Year embora não tenham desencadeado ne-
(Ithaca, N.Y., 1961). Todo o livro documenta a
evolução e o reconhecimento inicial de uma crise. 12 Max Jammer, Concepts of Space: The History

Para uma clara exposição da situação no que con- of Space in Physics (Cambridge, Mass., 1954), pp.
cernia Lavoisier, ver p. 35. 114-24.
VII Crise e Emergência de Teorias Científicas 61

nhuma crise até a década de noventa ser agudo.


do mesmo século. Se a luz é um movi- A situação teve nova mudança apenas
mento de onda que se propaga num éter com a aceitação progressiva da teoria ele-
mecânico governado pelas leis de New- tromagnética de Maxwell nas duas úl-
ton, então as observações celestes e os timas décadas do século dezenove. O
experimentos terrestres deveriam tornar- próprio Maxwell era um newtoniano que
se potencialmente capazes de detectar acreditava que a luz e o eletromagne-
seu fluxo através do éter. Das observa- tismo em geral deviam-se ao desloca-
ções celestes, apenas aquelas da aberra- mento variável de partículas de um éter
ção da luz prometeram suficiente preci- mecânico. Suas primeiras versões de
são para fornecer informação relevante. uma teoria da eletricidade e do magne-
Assim, a detecção do curso da luz no éter tismo fizeram uso direto das proprieda-
por meio das mensurações da aberração des hipotéticas com que ele dotou esse
tornou-se um problema de ciência nor- ambiente. Tais propriedades foram eli-
mal. Um equipamento muito especia- minadas da sua versão final, mas Maxwell
lizado foi fabricado para resolvê-lo. Tal ainda acreditava que sua teoria eletro-
equipamento, contudo, não detectou ne- magnética fosse compatível com alguma
nhum fluxo da luz no éter e o problema articulação da concepção mecânica new-
foi transferido dos experimentadores e toniana.14 Desenvolver uma formulação
observadores para os teóricos. Durante adequada foi um desafio para ele e para
as décadas centrais do século dezenove, seus sucessores. Na prática, contudo –
Fresnel, Stokes e outros maquinaram vá- como tem repetidamente acontecido no
rias reformulações da teoria do éter que desenvolvimento científico –, a requerida
visavam à explicação do fracasso na ob- articulação da teoria mostrou-se imensa-
servação do curso da luz no éter. Cada mente difícil de produzir. Assim como a
uma dessas articulações presumia que hipótese astronômica de Copérnico, que
um corpo em movimento arrasta alguma apesar do otimismo de seu autor criou
fração do éter com ele. Cada uma delas uma crise crescente para as teorias do
era suficientemente bem sucedida para movimento que existiam na época, tam-
explicar os resultados negativos não só da bém a teoria de Maxwell – apesar da sua
observação celeste, mas também da ex- origem newtoniana – acabou produzindo
perimentação terrestre – incluindo o fa- uma crise para o paradigma de que bro-
moso experimento de Michelson e Mor- tou.15 Ademais, a área em que essa crise
ley.13 Ainda não havia qualquer con- se tornou mais aguda foi proporcionada
flito, exceto entre as várias articulações.
Como faltassem técnicas experimentais 14 R. T. Glazebrook, James Clerk Maxwell and

relevantes, tal conflito nunca chegou a Modern Physics (London, 1896), cap. ix. Para a ati-
tude final de Maxwell ver seu próprio livro, A Trea-
13 Joseph Larmor, Æther and Matter Including a tise on Electricity and Magnetism (3d. ed.; Oxford,
Discussion of the Influence of the Earth’s Motion on 1892), p. 470.
Optical Phenomena (Cambridge, 1900), pp. 6-20, 15 Para o papel da astronomia no desenvolvi-

320-22. mento da mecânica, ver Kuhn, op. cit., cap. vii.


VII Crise e Emergência de Teorias Científicas 62

pelos problemas que acabamos de consi- que fatores externos à ciência exerceram
derar, ou seja, pelos problemas do movi- um papel particularmente relevante, esse
mento com relação ao éter. colapso na atividade normal de resolução
A discussão de Maxwell sobre o com- de problemas – e a proliferação de teorias,
portamento dos corpos em movimento que é o seu sintoma – ocorreu não mais
não fizera qualquer alusão ao arrasto do que uma ou duas décadas antes da enun-
éter. Isso mostrou a enorme dificuldade ciação da nova teoria que venceria a con-
de inserir tal arrasto em sua teoria. Como corrência revolucionária. A nova teoria
resultado, toda uma série de observações vencedora parece uma resposta direta à
anteriores destinadas a detectar o fluxo crise. Embora isso possa não parecer tão
da luz através do éter tornou-se anômala. típico, notemos também que os proble-
Por isso, os anos que transcorreram após mas que fizeram a atividade normal co-
1890 testemunharam uma longa série de lapsar eram todos de um tipo há muito
tentativas – experimentais e teóricas – de reconhecido. A prática anterior da ciên-
detectar o movimento da luz em sua re- cia normal fornecera todas as razões para
lação com o éter, e de integrar na teo- que fossem considerados resolvidos – ou
ria o arrasto no éter. As tentativas de de- quase resolvidos. Isso ajuda a explicar
tectar o movimento no éter foram uni- por que o sentimento de fracasso pôde
formemente mal sucedidas, ainda que al- ser tão agudo quando chegou. Falhar
guns analistas considerassem seus resul- com um novo tipo de problema é em ge-
tados equívocos ou inconclusivos. O es- ral desapontador, mas nunca surpreen-
forço para integrar o arrasto no éter à dente. Problemas e charadas não se en-
teoria de Maxwell produziu várias ini- tregam ao primeiro ataque. Finalmente,
ciativas promissoras – particularmente esses exemplos compartilham uma outra
as de Lorentz e Fitzgerald – que, toda- característica que pode tornar impressio-
via, acabaram por revelar outras chara- nante o exame do papel da crise: pelo me-
das, resultando finalmente naquela pro- nos parcialmente, a solução de cada um
liferação de teorias concorrentes que já deles foi antecipada durante o período
mostramos que acompanham as crises.16 em que não havia qualquer crise na ciên-
Foi confrontando-se com essa conjun- cia correspondente. E na falta de crise,
tura histórica que a teoria especial da re- tais antecipações foram ignoradas.
latividade de Einstein emergiu em 1905.
Esses três exemplos são quase perfei-
tamente típicos. Em cada caso, uma A única antecipação completa é tam-
nova teoria só emergiu depois de um bém a mais famosa. Refiro-me à an-
clamoroso fracasso na atividade normal tecipação do heliocentrismo de Copér-
de resolução de problemas. Além disso, nico por Aristarco no século III a.C. Geral-
excetuando-se o caso de Copérnico em mente se diz que se a ciência grega fosse
menos dedutiva e menos dominada pelo
16 Whittaker, op. cit., I, 386-410; e II (London, dogma, a astronomia heliocêntrica po-

1953), pp. 27-40. deria ter começado seu desenvolvimento


VII Crise e Emergência de Teorias Científicas 63

dezoito séculos mais cedo do que o fez.17 e Mayow – fracassaram em obter audi-
Mas isso seria ignorar todo o contexto ência suficiente, foi não terem feito ne-
histórico. Quando a sugestão de Aris- nhum contato com algum foco reconhe-
tarco foi feita, o sistema geocêntrico – cido de dificuldade na prática da ciência
imensamente mais razoável naquele mo- normal.18 A longa negligência aos críti-
mento – não apresentava nenhuma ne- cos relativistas de Newton pelos cientis-
cessidade que só um sistema heliocên- tas dos séculos dezoito e dezenove tam-
trico pudesse satisfazer, mesmo concei- bém foi devida em larga medida ao fra-
tualmente. Todo o desenvolvimento da casso de um contato similar.
astronomia ptolomaica – incluindo seus Os filósofos da ciência têm demons-
triunfos e seu colapso – situa-se nos sé- trado repetidamente que mais de uma
culos que se seguiram à proposta de Aris- construção teórica sempre pode ser aco-
tarco. Até mesmo a proposta heliocên- plada a uma determinada coleção de da-
trica mais elaborada de Copérnico não dos. A história da ciência indica que nem
era nem mais simples nem mais precisa chega a ser difícil inventar tais alterna-
que a de Ptolomeu. Como veremos mais tivas, particularmente nos estágios inici-
claramente abaixo, os testes observacio- ais de desenvolvimento de um novo pa-
nais disponíveis não ofereciam qualquer radigma. Mas a invenção de alternati-
base para uma escolha entre elas. Nes- vas é exatamente o que os cientistas ra-
sas circunstâncias, um dos fatores que le- ramente fazem, exceto durante o está-
varam os astrônomos ao copernicanismo gio pré-paradigma do desenvolvimento
– um fator que não poderia tê-los levado de suas ciências e em ocasiões muito es-
ao heliocentrismo de Aristarco – foi a re- peciais de sua evolução subsequente. Na
conhecida crise que respondeu, em pri- medida em que as ferramentas que o pa-
meiro lugar, pela inovação. A astronomia radigma oferece continuam a se mostrar
ptolomaica tinha fracassado na resolu- capazes de resolver os problemas que o
ção de seus problemas. Chegara o tempo próprio paradigma define, a ciência se
de dar uma chance a um competidor. move mais rapidamente e penetra mais
Nossos outros dois exemplos não apre- profundamente com o emprego confi-
sentam antecipações similares tão com- ante desse paradigma. A razão disso é
pletas. Mas, seguramente uma das razões clara. Na indústria como na ciência, a
por que as teorias da combustão por ab- substituição das ferramentas é uma ex-
sorção da atmosfera – teorias desenvolvi- travagância a ser reservada apenas para
das no século dezessete por Rey, Hooke uma ocasião que vier a demandá-la. O
significado das crises é a indicação que
17 Para o trabalho de Aristarco, ver T. L. He- elas fornecem de que uma ocasião para a

ath, Aristarchus of Samus: The Ancient Copernicus substituição das ferramentas chegou.
(Oxford, 1913), parte II. Para uma exposição extre-
mista da posição tradicional sobre a negligência
do feito de Aristarco, ver Arthur Koestler, The Sle-
epwalkers: A History of Man’s Changing Vision of
the Universe (London, 1959). 18 Partington, op. cit., pp. 78-85.
VIII A Resposta à Crise 64

VIII

A Resposta à Crise

Vamos presumir que as crises sejam ocupar o seu lugar. Nenhum processo ex-
uma precondição necessária para a plicitado até agora pelo estudo histórico
emergência de teorias inovadoras e, em do desenvolvimento científico chega a se
seguida, perguntar como os cientistas assemelhar ao estereótipo metodológico
respondem à sua existência. Parte da da falsificação pela comparação direta
resposta – tão óbvia quanto importante – com a natureza. Essa observação não
pode ser descoberta quando observamos significa que os cientistas não rejeitem
aquilo que os cientistas nunca fazem teorias científicas, ou que a experiência
quando confrontados com anomalias e o experimento não sejam essenciais
que podem ser até mesmo severas e pro- para o processo em que eles agem dessa
longadas. Embora eles possam começar maneira. Mas essa observação significa –
a perder a fé – e, por consequência, co- o que no fim das contas vai ser um ponto
meçar a considerar alternativas – eles não fundamental – que o ato de ajuizar que
renunciam ao paradigma que os levou à leva os cientistas a rejeitar uma teoria
crise. Isto é, eles não tratam as anoma- previamente aceita será sempre baseado
lias como contraexemplos, embora no em muito mais do que uma comparação
vocabulário da filosofia da ciência seja da teoria com o mundo. A decisão de
exatamente isso que elas são. Em parte, rejeitar um paradigma é sempre, ao
essa generalização é simplesmente o mesmo tempo, a decisão de aceitar um
enunciado de um fato histórico baseado outro paradigma. O ajuizamento que
em exemplos como os dados acima leva a tal decisão envolve a comparação
e, ainda mais extensivamente, abaixo. de ambos os paradigmas com a natureza,
Esses exemplos já insinuam aquilo que e também a comparação de ambos os
o exame da rejeição do paradigma, que paradigmas entre si. Em acréscimo, há
faremos mais tarde, vai revelar mais com- uma segunda razão para duvidar que ci-
pletamente. Isto é, uma teoria científica, entistas rejeitem paradigmas porque são
uma vez atingido o status de paradigma, confrontados por anomalias ou contra-
só é declarada inválida se uma candidata exemplos. Ao desenvolver essa segunda
alternativa já estiver disponível para razão, meu argumento vai prefigurar
VIII A Resposta à Crise 65

uma outra das principais teses desse vado, por exemplo, que a segunda lei
ensaio. As razões para dúvida esboçadas do movimento de Newton se comporta
acima foram puramente fatuais. Ou seja, em grande medida como um enunciado
elas foram contraexemplos de uma teoria puramente lógico, que nenhuma quanti-
epistemológica que prevalece. Assim, se dade de observação poderia refutar – pelo
minha presente posição está correta, elas menos para aqueles que praticam ciência
podem no máximo ajudar a criar uma no marco da teoria newtoniana.1 Na Se-
crise ou, mais precisamente, a reforçar ção X veremos que a lei química das pro-
uma crise que em grande medida já porções fixas – que antes de Dalton era
existe. Elas não podem, por si mesmas, um achado experimental ocasional de
falsificar essa teoria filosófica porque generalidade muito duvidosa – tornou-se
seus defensores farão exatamente aquilo depois do trabalho de Dalton um ingredi-
que já vimos os cientistas fazer quando ente de uma definição de composto quí-
são confrontados pela anomalia. Eles mico que nenhum trabalho experimental
vão elaborar numerosas articulações e poderia, por si mesmo, perturbar. Algo
modificações ad hoc para a sua teoria, muito parecido com isso vai acontecer
no intento de eliminar qualquer conflito com a generalização de que os cientis-
aparente. De fato, muitas dessas modifi- tas não conseguem rejeitar paradigmas
cações e qualificações relevantes já estão quando se deparam com anomalias ou
presentes na literatura. Se, portanto, contraexemplos.
esses contraexemplos epistemológicos Embora seja pouco provável que a his-
devem constituir algo mais que um tória tenha registrado seus nomes, sem
irritante secundário, será porque eles dúvida algumas pessoas foram compeli-
estarão contribuindo para tornar per- das a desertar da ciência por causa da
missível a emergência de uma análise sua inabilidade em tolerar crises. Como
nova e diferente da ciência, dentro da os artistas, os cientistas criativos devem
qual eles já não serão mais uma fonte ocasionalmente ser capazes de viver em
de dificuldade. Ademais, se um padrão um mundo fora dos eixos. Em outro lu-
típico – que observaremos mais tarde nas gar cheguei a descrever essa necessidade
revoluções científicas – é aplicável aqui, como a tensão essencial implícita na in-
então essas anomalias simplesmente já vestigação científica.2 Mas a rejeição da
não mais parecerão fatos. De dentro de
1 Ver particularmente a discussão de N. R. Han-
uma nova teoria do conhecimento, em
son, Patterns of Discovery (Cambridge, 1958), pp.
vez disso, elas podem parecer muitíssimo 99-105.
com tautologias. Isto é, podem parecer 2 T. S. Kuhn, The Essential Tension: Tradi-

muitíssimo com enunciados de situa- tion and Innovation in Scientific Research, in The
ções que não se conseguiria conceber Third (1959) University of Utah Research Confe-
que pudessem ter sido de outra forma. rence on the Identification of Creative Scientifc Ta-
lent, ed. Calvin W. Taylor (Salt Lake City, 1959), pp.
Ainda que tenha tomado séculos de 162-77. Para um fenômeno comparável entre os
difícil pesquisa fatual e teórica para ser artistas, ver Frank Barron, The Psychology of Ima-
articulada, já foi frequentemente obser- gination, Scientific American, CXCIX (September,
VIII A Resposta à Crise 66

ciência em favor de uma outra ocupação ser visto, de um outro ponto de vista,
é, penso, o único tipo de rejeição de pa- como um contraexemplo e, desse modo,
radigma a que os contraexemplos podem como uma fonte de crise. Copérnico viu
levar por si mesmos. Uma vez encon- como contraexemplos aquilo que a maio-
trado um primeiro paradigma que nos ria dos outros sucessores de Ptolomeu ti-
ofereça o meio para investigar a natureza, nha visto como charada na compatibili-
e já não poderá mais haver pesquisa feita zação da observação com a teoria. Lavoi-
na ausência de um paradigma qualquer. sier viu como contraexemplo aquilo que
Rejeitar um paradigma sem simultanea- Priestley vira como uma charada de reso-
mente substituí-lo por um outro é rejeitar lução bem sucedida na articulação da te-
a própria ciência. Tal ato volta-se contra oria do flogisto. Einstein viu como con-
a pessoa e não contra o paradigma. Ine- traexemplo aquilo que Lorentz, Fitzge-
vitavelmente essa pessoa será vista pe- rald e outros tinham visto como charadas
los colegas como o carpinteiro que põe a na articulação das teorias de Newton e de
culpa em suas ferramentas. Maxwell. Ademais, mesmo a existência
O mesmo tópico pode ser apresentado de crise não transforma, por si mesma,
ao reverso, mas com não menos efetivi- uma charada num contraexemplo. Não
dade: não pode haver uma coisa tal como há uma tal linha divisória nítida. Em vez
pesquisa sem contraexemplos. O que disso, ao proliferar as versões do para-
é mesmo que diferencia a ciência nor- digma, a crise flexibiliza as regras da re-
mal da ciência em estado de crise? Cer- solução normal de charadas em sentidos
tamente não é porque a ciência normal que, em última instância, permitirão que
não se confronta com contraexemplos. um novo paradigma emerja. Penso que
Pelo contrário, aquilo que anteriormente haja somente duas alternativas: ou ne-
denominamos as charadas que consti- nhuma teoria científica chega a confron-
tuem a ciência normal só existem porque tar um contraexemplo, ou todas as teorias
nenhum paradigma que fornece a base científicas confrontam contraexemplos a
para a pesquisa científica chega a resol- todo momento.
ver completamente todos os seus proble- Como pode a situação ter-se mostrado
mas. Os pouquíssimos paradigmas que de maneira diferente? Essa questão ne-
aparentemente chegaram a fazer isso – cessariamente leva à elucidação histórica
por exemplo, a ótica geométrica – cessa- e crítica da filosofia, mas esses tópicos es-
ram rapidamente de produzir qualquer tão barrados aqui. Nós podemos, con-
problema de pesquisa tornando-se, em tudo, pelo menos apontar duas razões
vez disso, ferramentas para engenharia. pelas quais a ciência pareceu fornecer
Excetuando aqueles que dizem respeito uma ilustração tão apropriada da gene-
apenas aos instrumentos de investiga- ralização que afirma que verdade e fal-
ção, todo problema que a ciência nor- sidade são única e inequivocamente de-
mal vê como uma charada também pode terminadas pela confrontação do enun-
ciado com o fato. A ciência normal
1958), 151-66, esp. 160. empenha-se – e deve empenhar-se con-
VIII A Resposta à Crise 67

tinuamente – em levar a teoria e o fato a trema parcialidade. Mas não há a menor


um acordo cada vez mais estreito. Assim, razão para tal indiciamento.
essa atividade pode ser vista facilmente Como então, para retornar à questão
como teste ou como busca de confirma- inicial, os cientistas respondem à consci-
ção ou de falsificação. Apesar disso, o ob- ência de uma anomalia no acordo entre a
jetivo da ciência normal é resolver cha- teoria e a natureza? O que acabou de ser
radas para cuja existência mesma a vali- dito indica que mesmo uma discrepância
dade do paradigma deve ser presumida. desproporcionalmente maior que a expe-
Um fracasso na obtenção de uma solu- rimentada em outras aplicações da teoria
ção desacredita apenas o cientista, não a não precisa requerer uma resposta muito
teoria. Aqui, ainda mais que acima, se profunda, qualquer que seja ela. Sem-
aplica o provérbio que afirma que quem pre há algumas discrepâncias. Mesmo as
põe a culpa nas ferramentas é um pobre discrepâncias mais obstinadas acabam,
carpinteiro. Ademais, a maneira como em geral, respondendo à prática cientí-
a pedagogia da ciência enreda a discus- fica normal. Muito frequentemente os ci-
são de uma teoria em observações so- entistas dispõem-se a esperar, particular-
bre suas aplicações exemplares tem aju- mente se há muitos problemas disponí-
dado a reforçar uma teoria da confirma- veis em outras partes de seu campo. Já
ção extraída predominantemente de ou- observamos, por exemplo, que durante
tras fontes. Dada a mais ínfima razão para os sessenta anos posteriores ao cálculo
assim fazer, a pessoa que lê um texto ci- original de Newton, o movimento pre-
entífico pode facilmente considerar que visto do perigeu da Lua permaneceu só
as aplicações sejam evidências da teoria, a metade daquilo que a observação me-
isto é, razões pelas quais a teoria deveria dia. Enquanto os melhores físicos mate-
ser acreditada. Mas os estudantes de ci- máticos da Europa se mantiveram numa
ência aceitam as teorias com base na au- luta mal sucedida com essa discrepância
toridade do professor e com base na auto- bem conhecida, apareceram propostas
ridade do texto, não por causa de evidên- ocasionais para modificar a lei newtoni-
cia. Que alternativas eles teriam? Ou que ana do quadrado inverso. Mas ninguém
competência? As aplicações apresenta- levou muito a sério tais propostas e, na
das nos livros didáticos não estão lá por prática, a paciência com essa anomalia
serem evidências, mas porque aprendê- relevante comprovou-se justificada. Em
las é parte da aprendizagem do para- 1750, Clairaut foi capaz de mostrar que
digma que está na base da prática cien- somente a matemática da aplicação es-
tífica corrente. Se as aplicações fossem tava errada e que a teoria de Newton po-
expostas como evidência, então a pró- deria permanecer como antes.3 Mesmo
pria negligência dos manuais em sugerir nos casos em que sequer um mero erro
interpretações alternativas – ou discutir
problemas para os quais os cientistas fra-
cassaram na produção de soluções para- 3 W. Wheewel, History of the Inductive Sciences

digmáticas – acusaria seus autores de ex- (rev. ed.; London, 1847), II, pp. 220-1.
VIII A Resposta à Crise 68

pareceria possível,4 uma anomalia per- encontrasse, raramente conseguiria fa-


sistente e reconhecida nem sempre in- zer algum trabalho significativo. Por-
duz à crise. Ninguém questionou seria- tanto, temos que perguntar o que faz
mente a teoria newtoniana por causa das uma anomalia parecer digna de investi-
discrepâncias – por longo tempo reco- gação conjunta por parte dos cientistas.
nhecidas – entre as predições da teoria Para essa pergunta, no entanto, provavel-
e a velocidade do som, e entre as predi- mente não haja uma resposta que valha
ções da teoria e o movimento de Mercú- para todos os casos. Os casos que exa-
rio. A primeira discrepância foi por fim e minamos são característicos, mas dificil-
inesperadamente resolvida através de ex- mente poderiam ser considerados pres-
perimentos sobre o calor realizados com critivos. Às vezes uma anomalia porá
um propósito muito diferente. A segunda em questão generalizações explícitas e
desvaneceu-se com a teoria geral da re- fundamentais do paradigma, como foi
latividade, depois de uma crise em cuja o caso do problema do arrasto no éter
criação ela não teve papel algum.5 Apa- para aqueles que aceitaram a teoria de
rentemente nenhuma delas pareceu sufi- Maxwell. Ou então, como no caso da re-
cientemente fundamental para desenca- volução copernicana, uma anomalia sem
dear a inquietação que acompanha uma importância científica fundamental pode
crise. Poderiam ter sido reconhecidas desencadear uma crise quando as aplica-
como contraexemplos, e ainda assim ser ções que ela frustra têm uma importân-
postas de lado para trabalho posterior. cia prática especial. Nesse caso, a anoma-
Quando é para uma anomalia desen- lia tinha importância prática para a pro-
cadear uma crise, disso se segue que jeção do calendário e para a astrologia.
em geral ela deve ser bem mais que Ou ainda, como na química do século de-
uma simples anomalia. Em algum ponto zoito, o desenvolvimento da ciência nor-
sempre vai haver dificuldades no ajuste mal pode transformar uma anomalia que
paradigma-natureza. A maioria dessas anteriormente não fora mais que uma
dificuldades é superada mais cedo ou preocupação secundária em uma fonte
mais tarde. Com frequência isso ocorre de crise. Refiro-me ao problema das re-
através de processos que nem poderiam lações de peso, que adquiriu um statuss
ter sido previstos. O cientista que pa- muito diferente depois da evolução das
rasse para examinar toda anomalia que técnicas da química pneumática. Po-
demos presumir que ainda haja outras
4 Talvez porque a matemática envolvida é mais circunstâncias que podem tornar par-
simples ou de um tipo que já se tornou familiar em ticularmente premente uma anomalia,
algum outro campo. e várias dessas circunstâncias poderão
5 Para a velocidade do som ver T. S. Kuhn, The
combinar-se. Já notamos, por exemplo,
Caloric Theory of Adiabatic Compression, Isis, que uma fonte da crise enfrentada por
XLIV (1958), pp. 136-37. Para a mudança secu-
lar no periélio de Mercúrio, ver E. T. Whittaker, A Copérnico foi a simples extensão – pro-
History of the Theories of Æther and Electricity, II longada – do período de tempo durante o
(London, 1953), p.p. 151, 179. qual os astrônomos empenharam-se sem
VIII A Resposta à Crise 69

sucesso na redução das discrepâncias re- ência normal tornam-se crescentemente


siduais do sistema de Ptolomeu. desfocadas. Embora ainda haja um pa-
Quando, por essas razões e outras radigma, poucos cientistas mostram-se
como elas, uma anomalia deixa de pa- claramente concordes a respeito do que
recer apenas mais uma charada da ci- ele seja. Mesmo soluções de problemas
ência normal, já teve início a transição resolvidos anteriormente – soluções que
para a crise e para a ciência extraordiná- eram tomadas como padrão – são postas
ria. Nesse momento, a própria anomalia em questão.
já é reconhecida enquanto tal pela profis- Quando se torna aguda, essa situação
são. Cada vez mais atenção lhe é devo- chega a ser, por vezes, reconhecida pe-
tada por um número cada vez maior den- los cientistas envolvidos. Copérnico re-
tre as mais eminentes pessoas do campo clamava que em sua época os astrôno-
em que ela aparece. Se a anomalia con- mos eram tão
tinua a resistir – o que não é usual –
, muitas delas chegam a ver sua reso- inconsistentes em suas investi-
lução como o objeto de sua disciplina. gações astronômicas que eles
Para tais cientistas o campo de investi- não conseguem explicar ou ob-
gação já não vai mais se assemelhar exa- servar nem mesmo a periodici-
tamente àquilo que era anteriormente. dade anual. Com eles
Em parte, sua aparência diferente resulta
– ele continuava –
basicamente do novo ponto em que se
fixa a investigação científica. Uma fonte acontece como quando um ar-
ainda mais importante de mudança está tista reúne mãos, pés, cabeça
na natureza divergente das numerosas e outros membros a partir de
soluções parciais que a concatenação das diversos modelos para compor
atenções sobre o problema disponibiliza. suas imagens. Cada parte está
Os primeiros ataques ao problema re- excelentemente desenhada, mas
sistente certamente terão seguido as re- elas não se combinam na uni-
gras do paradigma muito de perto. Mas dade de um corpo. E uma vez que
com a continuação da resistência, um nú- essas partes não se ajustam umas
mero cada vez maior dos ataques ao pro- às outras, o resultado só pode ser
blema terá envolvido alguma articulação um monstro e não um homem.6
menor – ou não tão menor – do para-
digma. Nenhuma delas será muito pare- Inibido pelo uso corrente de uma lingua-
cida com a outra. Cada uma delas poderá gem menos florida, Einstein só escreveu
ter sucesso parcial, mas nenhuma de- que
las terá sucesso suficiente para ser aceita
como paradigma pelo grupo. Através foi como se o chão tivesse sumido
dessa proliferação de articulações diver- debaixo dos pés, não se podendo
gentes – cada vez mais elas serão descri- 6 Citado em T. S. Kuhn, The Copernican Revolu-

tas como ajustes ad hoc – as regras da ci- tion (Cambridge, Mass., 1957), p. 138.
VIII A Resposta à Crise 70

ver em lugar algum uma base só- sobre o quê são esses efeitos? Só dois de-
lida sobre a qual construir.7 les parecem ser universais. Todas as cri-
ses começam com o paradigma se tor-
E Wolfgang Pauli – nos meses que antece-
nando cada vez mais vago e, em virtude
deram o artigo de Heisenberg sobre me-
disso, desenvolvendo um consequente
cânica matricial que apontou o caminho
afrouxamento das regras da ciência nor-
para uma nova mecânica quântica – es-
mal. Isto posto, a pesquisa realizada du-
creveu para um amigo que
rante a crise se parece muito com a pes-
no momento a física se encontra quisa do período pré-paradigma, ainda
de novo em terrível confusão. De que o seu foco de investigação seja me-
qualquer modo, tem sido muito nor e mais claramente definido. Acres-
difícil para mim. Desejaria ter centemos que todas as crises encerram-
sido um comediante de cinema se em um dos três modos seguintes. Às
ou algo assim, sem nunca ter ou- vezes a ciência normal acaba por se mos-
vido falar de física. trar capaz de lidar com o problema pro-
Esse testemunho é particularmente im- vocador da crise, a despeito do desespero
pressionante quando contrastado com as daqueles que o viram como o fim do pa-
palavras do mesmo Pauli menos de cinco radigma existente. Em outras ocasiões,
meses depois. o problema resiste mesmo com aborda-
gens novas e aparentemente radicais. En-
O tipo de mecânica de Hei- tão, os cientistas concluem que não terão
senberg deu-me novamente es- solução à vista no presente estado de seu
perança e alegria de viver. É certo campo. O problema é etiquetado e posto
que ele não oferece uma solu- de lado para uma geração futura que dis-
ção para o enigma, mas eu acre- ponha de ferramentas mais desenvolvi-
dito ser possível marchar para a das. Ou, finalmente – e esse é o caso que
frente de novo.8 mais nos interessa aqui –, a crise pode de-
Reconhecimentos explícitos de falên- sembocar no desenvolvimento de novos
cia como essas são extremamente raros. candidatos a paradigma e na batalha que
Todavia, os efeitos de uma crise não de- se segue em prol da aceitação de um deles
pendem inteiramente de seu reconheci- por toda a comunidade científica. Esse
mento consciente. Que podemos dizer último modo de encerramento de uma
7 Albert Einstein, Autobiographical Note, em
crise vai ser considerado extensivamente
Albert Einstein: Philosopher-Scientist, ed. P. A.
nas últimas seções desse ensaio, mas de-
Schilpp (Evanston, Ill., 1949), p. 45. vemos antecipar um aperitivo do que di-
8 Ralph Kronig, The Turning Point em Theoreti- remos nelas para completar essas notas
cal Physics in the Twentieth Century: A Memorial sobre a evolução e a anatomia do estado
Volume to Wolfgang Pauli, ed. M. Fierz e V. F. Weis- de crise.
skopf (New York, 1960), pp. 22, 25-6. Boa parte
desse artigo descreve a crise na mecânica quân- A transição de um paradigma em crise
tica durante os anos imediatamente anteriores a para um novo paradigma a partir do qual
1925. possa emergir uma nova tradição de ciên-
VIII A Resposta à Crise 71

cia normal está longe de ser um processo versa.10 Todavia, esse paralelo pode nos
cumulativo. Ou seja, está longe de ser iludir. Os cientistas não veem algo como
um processo realizado pela articulação algo diferente. Eles apenas veem algo. Já
ou extensão do velho paradigma. Trata- examinamos alguns dos problemas que
se de uma reconstrução do campo a par- são criados quando se diz que Pries-
tir de uma nova fundamentação. Uma re- tley viu oxigênio como ar desflogistizado.
construção que muda algumas das gene- Ademais, o cientista não preserva a li-
ralizações teóricas mais elementares do berdade subjetiva de figurar visualmente
campo científico, assim como muitos de para alternar entre a frente e o verso das
seus métodos e aplicações paradigmáti- maneiras de ver. Não obstante, a con-
cos. Durante o período de transição ha- versão da Gestalt – particularmente por-
verá uma interseção grande – mas nunca que isso é tão familiar hoje em dia – é
completa – entre os problemas que po- um protótipo elementar útil para o que
dem ser resolvidos pelo velho paradigma ocorre em uma transformação paradig-
e os problemas que podem ser resolvidos mática em larga escala. O adiantamento
pelo novo paradigma. Mas haverá tam- que acabamos de fazer pode nos aju-
bém uma diferença decisiva na maneira dar a reconhecer a crise como um pre-
de solucionar os problemas. Quando a lúdio plausível para a emergência de no-
transição se completa, a profissão terá vas teorias. Particularmente por já ter-
mudado a concepção de seu campo cien- mos examinado a versão em pequena es-
tífico, seus métodos e seus objetivos. Um cala do mesmo processo quando discuti-
historiador atento, examinando um caso mos a emergência das descobertas cientí-
clássico de reorientação de uma ciência ficas. Precisamente porque a emergência
por mudança paradigmática, descreveu- de uma nova teoria rompe com uma tra-
o como segurar a outra ponta do bastão, dição de prática científica e introduz uma
ou seja, um processo que envolve nova tradição – conduzida sob regras di-
ferentes e dentro de um universo discur-
manipular o mesmo agregado de sivo diferente – é de se imaginar que isso
dados que antes mas – por lhe ocorra somente quando a tradição cientí-
dar um marco estrutural dife- fica mais antiga é sentida como tendo se
rente –, situando-o em um novo desestruturado severamente. Essa nota,
sistema de relações mútuas.9 entretanto, não é mais que a preliminar
de uma investigação do estado de crise.
Outros que também notaram esse as-
As questões a que ela conduz, desafortu-
pecto do avanço científico enfatizaram
nadamente, exigem muito mais a com-
sua similaridade com uma conversão da
petência do psicólogo que a competên-
Gestalt visual. Os riscos no papel que an-
cia do historiador. Como é a pesquisa ex-
tes eram vistos como um pássaro, agora
traordinária? Como os cientistas proce-
são vistos como um antílope, e vice-
dem quando tomam consciência de que
9 Herbert Butterfield, The Origins of Modern

Science, 1300-1800 (London, 1949), pp. 1-7. 10 Hanson, op. cit., cap. i.
VIII A Resposta à Crise 72

algo deu errado num nível tão fundamen- casos de Copérnico, de Einstein e da te-
tal que o seu treinamento não os equi- oria nuclear contemporânea, por exem-
pou para lidar com a situação? Tais ques- plo –, um tempo considerável transcorre
tões requerem muito mais investigação, e entre a primeira consciência de desar-
essa investigação não deveria ser exclu- ranjo e a emergência de um novo pa-
sivamente histórica. O que se segue vai radigma. Quando isso ocorre, o histo-
ser muito mais conjetural e menos com- riador pelo menos pode captar algumas
pleto do que aquilo que expusemos antes. indicações de como é a ciência extraor-
Pelo menos em embrião, geralmente um dinária. Defrontado com uma anoma-
novo paradigma emerge antes que uma lia que, em teoria, é supostamente fun-
crise se tenha desenvolvido o bastante ou damental, geralmente o primeiro esforço
sido explicitamente reconhecida. O tra- do cientista vai ser individualizá-la com
balho de Lavoisier fornece um caso as- maior precisão e lhe dar uma estrutura.
sim. Sua nota selada foi depositada na Ainda que agora esteja consciente de que
Academia Francesa menos de um ano de- elas possam não se mostrar as mais ade-
pois do primeiro estudo exaustivo das re- quadas, o cientista vai pressionar as re-
lações de peso na teoria do flogisto, e an- gras da ciência normal com mais deter-
tes que as publicações de Priestley tives- minação que nunca para, na área da di-
sem revelado toda a extensão da crise na ficuldade, ver com precisão onde e até
química pneumática. E ainda: as primei- que ponto pode fazê-las funcionar. Si-
ras formulações que Thomas Young fez multaneamente, o cientista vai procurar
da teoria ondulatória da luz apareceram maneiras de amplificar a área colapsada,
num estágio muito inicial de uma crise torná-la mais nítida e, talvez, também
em desenvolvimento na ótica. Essa crise mais sugestiva do que foi quando mos-
passaria quase despercebida, a não ser trada nos experimentos cujos resultados
pelo fato – que não teve qualquer partici- pensava-se conhecer antecipadamente.
pação de Young – de que ela se transfor- Por fim, no derradeiro esforço – mais do
mou num escândalo científico internaci- que em qualquer outra parte do desen-
onal uma década após os seus primeiros volvimento pós-paradigma da ciência –
escritos. Em casos como esse pode-se di- ele ficará muito parecido com a imagem
zer que uma perturbação menor do pa- mais usual que temos do cientista. Em
radigma e o estágio mais inicial do rela- primeiro lugar, com frequência ele vai pa-
xamento das regras da ciência normal fo- recer uma pessoa que procura aleatori-
ram suficientes para induzir em alguém amente, tentando diferentes experimen-
uma nova maneira de olhar o seu campo tos só para ver o que acontece, e pro-
científico. Muito daquilo que se interpôs curando por algum efeito cuja natureza
entre a primeira percepção da encrenca ele não pode estimar. Ao mesmo tempo
e o reconhecimento de uma alternativa – já que nenhum experimento pode ser
deve ter sido em grande medida incons- concebido sem algum tipo de teoria –,
ciente. o cientista em crise vai constantemente
Em outros casos, entretanto – como os tentar produzir teorias especulativas que,
VIII A Resposta à Crise 73

se bem sucedidas, podem abrir caminho reconhecida que os cientistas voltam-se


para um novo paradigma e, se mal suce- para a análise filosófica como um dis-
didas, podem ser descartadas com rela- positivo para decifrar os enigmas do seu
tiva tranquilidade. campo. Normalmente os cientistas não
A exposição feita por Kepler de sua precisariam ou desejariam ser filósofos.
prolongada batalha com o movimento Com efeito, a ciência normal habitual-
de Marte e a resposta de Priestley sobre mente mantém a filosofia criativa a uma
a proliferação de novos gases fornecem certa distância, provavelmente por boas
exemplos clássicos do tipo de pesquisa razões. Na medida em que o trabalho
mais aleatória produzida pela consciên- de investigação normal pode ser condu-
cia da anomalia.11 Mas provavelmente zido com o uso do paradigma como mo-
as melhores ilustrações entre todas vêm delo, regras e suposições não precisam
da pesquisa contemporânea na teoria do ser explicitadas. Na Seção V falamos que
campo e sobre partículas fundamentais. todo o conjunto de regras procurado pela
O imenso esforço exigido para detectar análise filosófica não precisa nem mesmo
o neutrino pareceria justificado se não existir. Mas isso não quer dizer que a
fosse uma crise que tornou necessário ver busca dos pressupostos – mesmo os que
até que ponto as regras da ciência normal não existem – não possa ser um jeito efi-
poderiam ser esticadas? Se as regras não caz de enfraquecer as garras da tradição
tivessem sido tão obviamente quebradas cravadas na mente do cientista e suge-
em algum ponto não revelado, teria a hi- rir as bases de uma nova tradição de pes-
pótese radical da não conservação da pa- quisa. Não é acidente que a emergên-
ridade sido sequer sugerida ou testada? cia da física newtoniana no século dezes-
Esses experimentos foram em parte ten- sete e a emergência das mecânicas rela-
tativas de localizar e definir a fonte de um tivista e quântica no século vinte tives-
conjunto ainda difuso de anomalias, do sem que ser precedidas e acompanhadas
mesmo modo que muitas outras pesqui- por análises filosóficas dos fundamentos
sas da física durante a década passada. da tradição de pesquisa então vigente.12
Esse tipo de pesquisa extraordinária Nem é um acidente que nesses dois pe-
geralmente é acompanhado por outro, ríodos o assim chamado experimento em
ainda que nem sempre isso ocorra. Penso pensamento tenha exercido um papel tão
ser nos períodos em que a crise já foi crítico no desenvolvimento da pesquisa.
Como mostrei em outro lugar, a expe-
11 Para uma exposição do trabalho de Kepler so- rimentação analítica em pensamento –

bre Marte, ver J. L. E. Dreyer, A History of Astro-


nomy from Thales to Kepler (2d. ed.; New York, 12 Para o contraponto filosófico que acompa-

1953), pp. 380-93. Imprecisões ocasionais não nhou a mecânica do século dezessete, ver René
impedem que a síntese de Dreyer ofereça o ma- Dugas, La mécanique au XVIIe siècle (Neuchâtel,
terial que necessitamos aqui. Para Priestley, ver 1954), particularmente o cap. xi. Para o episódio
seu próprio trabalho, especialmente Experiments similar do século dezenove, ver o livro anterior do
and Observations on Different Kinds of Air (Lon- mesmo autor, Histoire de la mécanique (Neuchâ-
don, 1774-1775). tel, 1950), pp. 419-43.
VIII A Resposta à Crise 74

que é tão proeminente nos escritos de – foram predições feitas a partir da nova
Galileu, Einstein, Bohr e outros – é intei- hipótese. O sucesso dessas predições
ramente calculada para expor o velho pa- ajudou a transformar a nova hipótese em
radigma ao conhecimento existente, de um paradigma a ser daí por diante ela-
modo a isolar a raiz da crise com uma cla- borado. Ainda podemos indicar outras
reza que não pode ser obtida no laborató- descobertas – como as cores de ranhuras
rio.13 e de placas grossas – que eram efeitos que
Com o desenvolvimento – isola- antes já eram vistos com frequência e às
damente ou em conjunto – desses vezes eram registrados, mas que, como o
procedimentos extraordinários, pode oxigênio de Priestley, foram assimilados
ocorrer uma outra coisa. Ao concentrar a outros efeitos já bem conhecidos de
a atenção científica sobre uma área maneiras que impediram que fossem
problemática restrita, e ao preparar a vistos pelo que eram.15 Um relato similar
mente científica para reconhecer ano- poderia ser feito das múltiplas desco-
malias experimentais pelo que elas são, bertas que foram uma concomitante
a crise geralmente faz as descobertas permanente da emergência da mecâ-
proliferarem. Nós já observamos como a nica quântica desde cerca de 1895. A
consciência da crise distingue o trabalho pesquisa extraordinária ainda deve ter
de Lavoisier sobre o oxigênio do trabalho outras manifestações e efeitos, mas nessa
de Priestley. Ademais, o oxigênio não foi área nós mal começamos a descobrir as
o único gás que os químicos conscientes questões que precisam ser feitas. Se bem
da crise foram capazes de descobrir no que, talvez, nada mais seja necessário
trabalho de Priestley. E também: novas acrescentar nesse ponto. As observações
descobertas da ótica acumularam-se precedentes deveriam ser suficientes
rapidamente pouco antes e durante a para mostrar como a crise simultanea-
emergência da teoria ondulatória da luz. mente fragiliza os estereótipos e fornece
Algumas dessas descobertas, como a po- os dados adicionais para uma mudança
larização por reflexo, foram o resultado de paradigma a partir dos fundamentos.
de acidentes que o trabalho concentrado Às vezes a forma do novo paradigma é
numa área encrencada torna prováveis.14 antecipada na estrutura que a pesquisa
Outras descobertas – como o foco de luz extraordinária deu à anomalia. Einstein
no centro da sombra de um disco circular escreveu que antes que ele tivesse um
substituto para a mecânica clássica, já
13 T. S. Kuhn, A Function for Thought Experi- podia ver a inter-relação entre as ano-

ments, in Mélanges Alexandre Koyré, ed. R. Taton e malias conhecidas da radiação do corpo
I. B. Cohen, a ser publicado pela Hermann (Paris)
em 1963. 15 Para as novas descobertas da ótica em geral,
14 Malus – o descobridor da polarização por re- ver V. Ronchi, Histoire de la lumière (Paris, 1956),
flexo – estava apenas começando o seu trabalho cap. vii. Para uma explicação anterior de um des-
de preparação do ensaio para o prêmio da Aca- ses efeitos, ver J. Priestley, The History and Present
demia sobre a refração dupla, um assunto ampla- State of Discoveries Relating Vision, Light and Co-
mente reconhecido pelo seu estado insatisfatório. lours (London, 1772), pp. 498-520.
VIII A Resposta à Crise 75

negro – o efeito fotoelétrico – e calores tradicionais da ciência normal, são par-


específicos.16 Em geral, uma estrutura ticularmente suscetíveis de ver que as
como essa não é conscientemente vi- regras da ciência normal já não definem
sualizada antes da hora. Em vez disso, um jogo que possa ser jogado, e para
o novo paradigma – ou uma proposta conceber um novo conjunto de regras
suficientemente desenvolvida dele para que possa substituí-las.
permitir articulação posterior – emerge A transição que resulta em um novo
todo de uma vez na mente de uma pessoa paradigma é uma revolução científica,
profundamente imersa na crise, às vezes um assunto que finalmente estamos pre-
no meio da noite. Qual a natureza desse parados para abordar diretamente. Pri-
estágio final – isto é, como um indivíduo meiro notemos, contudo, um último e
inventa (ou acha que inventou) uma aparentemente enganador aspecto para
nova maneira de dar ordem aos dados, o qual as últimas três seções prepararam
que agora já estão todos concatenados o caminho. Até a Seção VI – em que
– deve permanecer inescrutável aqui, e o conceito de anomalia foi introduzido
isso pode ficar permanentemente assim. pela primeira vez –, os termos ‘revolu-
Aqui vamos considerar apenas uma ção’ e ‘ciência extraordinária’ podem ter
coisa sobre esse estágio final. Quase parecido equivalentes. O mais relevante
sempre as pessoas que realizaram essas é que nenhuma dessas duas expressões
invenções fundamentais de um novo pareceu significar mais que ‘ciência não
paradigma ou eram muito jovens, ou normal’, numa circularidade que certa-
muito novas no campo cujo paradigma mente terá incomodado pelo menos al-
elas mudam.17 Talvez esse ponto nem guns – imagino que poucos – leitores. Na
precise ser explicitado pois, obviamente, prática, essa circularidade não precisaria
se trata de pessoas que, por estarem – ter feito isso. Estamos próximos de des-
em decorrência de sua prática anterior cobrir que uma circularidade semelhante
– pouco comprometidas com as regras é característica das teorias científicas. In-
16 Einstein, loc.
comodativa ou não, contudo, essa circu-
cit.
17 Essa laridade acabou sendo qualificada. A pre-
generalização do papel da juventude na
pesquisa científica fundamental é tão comum a sente seção do ensaio e as duas seções
ponto de se tornar um clichê. Como se não bas- precedentes destacaram numerosos cri-
tasse, uma olhadinha em quase toda lista de con- térios para a identificação de um colapso
tribuições fundamentais à teoria científica vai for- da atividade da ciência normal – critérios
necer uma confirmação impressionista. Não obs-
tante, a generalização requer investigação siste-
que de modo algum dependem de que o
mática em uma escala maior. Harvey C. Lehman colapso seja seguido de uma revolução.
(Age and Achievement [Princeton, 1953]) fornece Quando confrontados com uma crise, os
muitos dados úteis. Mas seus estudos não pro- cientistas tomam uma atitude diferente
curam individualizar as contribuições que envol- para com os paradigmas existentes. E
vem reconceituação fundamental. Nem inquirem
sobre as circunstâncias especiais – se é que há al- a natureza da sua pesquisa mudará cor-
guma – que podem acompanhar uma produtivi- respondentemente. A proliferação de ar-
dade individual relativamente tardia nas ciências. ticulações concorrentes, a determinação
VIII A Resposta à Crise 76

de tentar qualquer coisa, a clara manifes-


tação de descontentamento e o recurso à
filosofia e ao debate sobre os fundamen-
tos são todos sintomas de uma transição
da ciência normal para a ciência extraor-
dinária. A noção de ciência normal de-
pende mais de todas essas coisas que da
noção de revoluções.
IX A Natureza e a Necessidade das Revoluções Científicas 77

IX

A Natureza e a Necessidade das


Revoluções Científicas

As observações que acabamos de fa- ção – geralmente restrita a um segmento


zer nos permitem, por fim, considerar osda comunidade política – de que as ins-
problemas que dão título a esse ensaio. tituições existentes deixaram de apre-
Que são as revoluções científicas e qual é
sentar saídas adequadas para os proble-
a sua função no desenvolvimento cientí- mas postos por um contexto que elas
fico? Boa parte da resposta dessas ques-mesmas ajudaram a criar. De maneira
tões já foi antecipada nas seções anteri-
muito parecida, as revoluções científi-
ores. Em particular, a discussão prece- cas são deflagradas pela percepção cres-
dente indicou que aqui são considerados cente – aqui também restrita a um ín-
revoluções aqueles episódios de desen- fimo subconjunto da comunidade cien-
volvimento não cumulativo em que um tífica – de que um paradigma existente
paradigma velho é substituído, no todo deixou de funcionar adequadamente na
ou em parte, por um paradigma novo e exploração de um aspecto da natureza
incompatível com ele. Entretanto, tem para o qual o próprio paradigma chegou
mais coisa a ser dita, e uma parte essen-
a abrir o caminho. No desenvolvimento
cial disso pode ser introduzida quando político e no desenvolvimento científico
fazemos a seguinte pergunta: por que a sensação de disfunção que pode levar
uma mudança de paradigma deveria ser à crise é pré-requisito da revolução. Ade-
chamada de revolução? Tendo em vista mais, tal paralelismo – ainda que supos-
as diferenças enormes e essenciais entretamente tensione a metáfora – não vale
o desenvolvimento político e o desenvol-só para as grandes mudanças paradigmá-
vimento científico, que paralelismo podeticas, como aquelas atribuídas a Copér-
justificar a metáfora que detecta revolu-
nico e Lavoisier, mas também vale para
ções em ambos? as mudanças de paradigma muito meno-
res, associadas a um novo tipo de fenô-
Um aspecto desse paralelismo já deve meno, a exemplo do oxigênio e dos raios
estar aparente. As revoluções políticas X. As revoluções científicas, como obser-
são deflagradas pela crescente percep-
IX A Natureza e a Necessidade das Revoluções Científicas 78

vamos no final da Seção V, devem pa- duos torna-se crescentemente alienado


recer revolucionárias apenas para aque- da vida política, adotando um compor-
les cujos paradigmas foram afetados por tamento cada vez mais desviante den-
elas. Como no caso das revoluções bal- tro dela. Então, na medida em que a
cânicas do início do século vinte, para crise se aprofunda, muitos desses indi-
quem está de fora as revoluções cientí- víduos aderem a alguma proposta con-
ficas podem parecer partes normais do creta para a reconstrução da sociedade
processo de desenvolvimento. Os astrô- no marco de uma nova estrutura institu-
nomos, por exemplo, poderiam aceitar cional. Nesse ponto, a sociedade já está
os raios X como mera adição ao conhe- dividida em campos ou partidos concor-
cimento, já que seus paradigmas não fo- rentes. Um dos campos ou partidos pro-
ram afetados pela existência da nova ra- cura defender a velha ordem institucio-
diação. Mas para pessoas como Kelvin, nal, enquanto os outros procuram insti-
Crookes e Roentgen – cuja pesquisa li- tuir uma nova ordem institucional. E, já
dava com a teoria da radiação ou com os tendo ocorrido a polarização, o recurso à
tubos de raios catódicos – a emergência política fracassa. Em um conflito revo-
dos raios X necessariamente violou um lucionário os partidos devem, em última
paradigma, ao mesmo tempo que criou instância, recorrer às técnicas de persu-
um outro. Eis por que esses raios só po- asão de massas – com frequente inclu-
deriam ser descobertos quando algo co- são do uso da força – porque eles dife-
meçou a dar errado na ciência normal. rem quanto à matriz institucional em que
Esse aspecto genético do paralelismo a mudança política deve ser realizada e
entre o desenvolvimento político e o de- avaliada, e porque eles não reconhecem
senvolvimento científico já não deveria nenhum marco suprainstitucional para
deixar mais dúvidas. Mas ainda tem a arbitragem da transformação revoluci-
um segundo aspecto desse paralelismo, e onária. Embora as revoluções tenham
mais profundo, que depende do signifi- exercido um papel vital na evolução das
cado do primeiro aspecto. As revoluções instituições políticas, esse papel depende
políticas visam à mudança das institui- do fato delas serem parcialmente eventos
ções políticas por vias que essas próprias extrapolíticos e extrainstitucionais.
instituições políticas proíbem. Seu su- A parte restante desse ensaio visa a de-
cesso, portanto, requer o abandono par- monstrar que o estudo histórico da mu-
cial de um conjunto de instituições em fa- dança paradigmática revela característi-
vor de outro. Durante a transição, a so- cas muito parecidas na evolução das ci-
ciedade não chega a ser plenamente go- ências. Do mesmo modo que a escolha
vernada através de instituições. De iní- entre instituições políticas concorrentes,
cio, basta a crise para enfraquecer o pa- a escolha entre paradigmas concorrentes
pel das instituições políticas, do mesmo mostra-se uma escolha entre modos in-
modo como já vimos a crise enfraque- compatíveis de vida comunitária. Por ter
cer o papel dos paradigmas científicos. tal caráter, essa escolha não é e não pode
Um número cada vez maior de indiví- ser meramente determinada pelos proce-
IX A Natureza e a Necessidade das Revoluções Científicas 79

dimentos de avaliação da ciência normal. bém o impacto das técnicas de argumen-


Os procedimentos da ciência normal de- tação persuasiva que se mostram eficien-
pendem de um paradigma em particular, tes nos grupos muito especializados que
e é precisamente esse paradigma que está constituem as comunidades de cientis-
em questão. Quando os paradigmas en- tas. Para descobrir por que essa questão
tram em um debate sobre paradigmas – da escolha de paradigma nunca pode ser
como devem entrar mesmo, em um de- inequivocamente resolvida somente pela
terminado momento – seu papel é neces- lógica e pelo experimento, devemos exa-
sariamente circular. Cada grupo usa seu minar concisamente a natureza das di-
próprio paradigma quando defende um ferenças que separam os defensores de
paradigma. um paradigma tradicional de seus suces-
É claro que a circularidade resultante sores revolucionários. Esse exame é o
não torna errados os argumentos, ou principal objeto da presente seção, e tam-
mesmo ineficazes. A pessoa que ar- bém da próxima. Entretanto, já obser-
gumenta em defesa de um paradigma vamos numerosos exemplos dessas dife-
tendo esse mesmo paradigma por pre- renças. Ninguém duvidará que a história
missa pode, não obstante, oferecer uma pode nos fornecer muitos outros. Aquilo
exibição clara daquilo que será a prática que provavelmente será mais objeto de
científica para aqueles que vierem a ado- dúvida do que a sua própria existência –
tar essa nova concepção da natureza. Tal e, portanto, aquilo que deve ser conside-
exposição pode ser imensamente persu- rado em primeiro lugar –, é se tais exem-
asiva. Em geral ela será poderosamente plos fornecem informação essencial so-
convincente. Ainda assim, qualquer que bre a natureza da ciência. Admitindo que
seja a sua força, o status do argumento a rejeição de um paradigma não fosse
circular é só o da persuasão. Ele não pode mais que um fato histórico, o que ela es-
ser transformado em um argumento logi- clareceria além da credulidade e da per-
camente coercitivo, ou mesmo em um ar- plexidade humanas? Há razões intrínse-
gumento probabilisticamente coercitivo cas para que tanto a assimilação de um
para aqueles que se recusam a entrar no novo tipo de fenômeno quanto a assimi-
círculo. As premissas e valores comparti- lação de uma nova teoria científica de-
lhados pelos dois partidos que estão de- vam demandar a rejeição de um para-
batendo sobre paradigmas não são sufi- digma mais antigo?
cientemente extensos para isso. Ocorre Observemos já de início que se essas
nas escolhas de paradigma o mesmo que razões existem, elas não derivam da es-
nas revoluções políticas. Não há qual- trutura lógica do conhecimento cientí-
quer padrão que seja mais elevado que fico. Em princípio, um novo fenômeno
a aceitação pela comunidade correspon- poderia emergir sem incidir destrutiva-
dente. Para descobrir como as revolu- mente sobre qualquer parte da prática ci-
ções científicas se efetivam temos, por- entífica passada. Embora a descoberta
tanto, que examinar não apenas o im- de vida na Lua fosse destrutiva para para-
pacto da natureza e da lógica, mas tam- digmas hoje existentes – já que esses pa-
IX A Natureza e a Necessidade das Revoluções Científicas 80

radigmas nos dizem coisas sobre a Lua tipo incompatível.


que parecem incompatíveis com a exis- É claro que a ciência – ou algum ou-
tência de vida ali –, descobrir vida em al- tro empreendimento talvez menos efici-
guma parte menos conhecida da galáxia ente – poderia ter-se desenvolvido desse
não seria. Do mesmo modo, uma nova te- modo inteiramente cumulativo. Muita
oria não teria necessariamente que con- gente acreditou nisso, e a maioria ainda
flitar com qualquer uma de suas prede- parece supor que a cumulatividade é o
cessoras. Ela poderia tratar exclusiva- ideal que o desenvolvimento histórico
mente de fenômenos não conhecidos an- deveria explicitar, ao menos se ele não
teriormente – assim como a teoria quân- tivesse sido tão frequentemente distor-
tica, que passou a lidar com fenômenos cido pelo imponderável do caráter hu-
subatômicos desconhecidos antes do sé- mano. Há importantes razões para essa
culo vinte.1 Ou ainda, a nova teoria po- crença. Na Seção X vamos descobrir quão
deria simplesmente ser uma teoria de ní- estreitamente a concepção da ciência cu-
vel mais elevado que as teorias conheci- mulativa está imbricada com uma episte-
das anteriormente. Refiro-me a uma te- mologia dominante que considera o co-
oria que interligasse todo um grupo de nhecimento como uma construção feita
teorias de um nível inferior, sem mu- pelo intelecto diretamente a partir de da-
dar substancialmente qualquer uma de- dos sensoriais em estado bruto. E na Se-
las. Atualmente, a teoria da conservação ção XI examinaremos o sólido suporte
da energia proporciona conexões desse dado pelas eficazes técnicas pedagógi-
tipo entre a dinâmica, a química, a ele- cas da ciência ao mesmo esquema histo-
tricidade, a ótica, a teoria termal e as- riográfico do desenvolvimento científico
sim por diante. Outros relacionamentos por acumulação. Não obstante, apesar
que compatibilizam teorias velhas e no- da imensa plausibilidade dessa imagem
vas podem ser concebidos. Isoladamente ideal, multiplicam-se os motivos para fi-
ou em conjunto, poderiam exemplificar carmos cogitando se essa é mesmo uma
o processo histórico pelo qual a ciência imagem da ciência. Depois do período
se desenvolveu. Se assim fosse, o de- pré-paradigma, a assimilação de todas as
senvolvimento científico seria genuina- novas teorias e de quase todos os novos
mente cumulativo. Novos tipos de fenô- tipos de fenômenos efetivamente exigiu
meno simplesmente descortinariam or- a destruição de um paradigma anterior e
dem em um aspecto da natureza em que o consequente conflito entre escolas con-
antes nenhuma ordem tinha sido vista. correntes do pensamento científico. Se-
Na evolução da ciência, o conhecimento gundo a norma do desenvolvimento ci-
novo substituiria a ignorância em vez de entífico, a aquisição cumulativa de novi-
substituir um outro conhecimento de um dades não antecipadas mostra-se como
uma exceção quase inexistente. A pes-
1 Frisemos todavia – e isso é significativo – que soa que leva a sério o fato histórico tem a

a teoria quântica não lida só com fenômenos su- obrigação de suspeitar que a ciência não
batômicos. tende para o ideal que nossa imagem de
IX A Natureza e a Necessidade das Revoluções Científicas 81

sua cumulatividade tem sugerido. Tal- terminadas leis. Os exemplos de desco-


vez a ciência seja um empreendimento de berta por destruição do paradigma exa-
um tipo muito diferente. minados na Seção VI não nos defrontam
Todavia, se fatos resistentes podem com um mero acidente histórico. Não há
afastar-nos tanto do caminho, então um qualquer outro caminho que possibilite a
segundo exame do terreno que já percor- efetiva geração de descobertas.
remos pode sugerir que a aquisição cu- O mesmo argumento aplica-se ainda
mulativa da novidade não só é efetiva- mais claramente à invenção de novas te-
mente rara, mas improvável em princí- orias. Há, em tese, apenas três tipos de
pio. A ciência normal, que é cumulativa, fenômenos sobre os quais uma nova teo-
deve seu sucesso à habilidade dos cien- ria poderia ser desenvolvida. O primeiro
tistas regularmente selecionarem proble- tipo consiste de fenômenos que já foram
mas que podem ser resolvidos com téc- bem explicados pelos paradigmas exis-
nicas conceituais e instrumentais simila- tentes. Esse tipo de fenômeno raramente
res àquelas que já existem.2 No entanto, a dá motivo ou ponto de partida para a
pessoa que está se esforçando para resol- construção de uma teoria. Quando isso
ver um problema definido pelo conheci- ocorre – como no caso das três antecipa-
mento e pela técnica existentes não está ções famosas que discutimos no final da
simplesmente olhando de modo aleató- Seção VII –, as teorias que resultam rara-
rio à sua volta. Essa pessoa sabe o que mente são aceitas, já que a natureza não
quer atingir, e isso a leva a desenhar seus oferece base alguma para ajuizamento.
instrumentos e dirigir seus pensamentos Uma segunda classe de fenômenos con-
de acordo com o objetivo em vista. A no- siste daqueles cuja natureza é indicada
vidade não antecipada – a nova desco- pelo paradigma existente, mas cujos de-
berta – pode emergir apenas na medida talhes só podem ser compreendidos atra-
em que as antecipações desse cientista vés de uma articulação complementar da
sobre a natureza e sobre seus instrumen- teoria. Esses são os fenômenos a que
tos mostrem-se equivocadas. Em geral, a os cientistas dirigem sua investigação du-
importância da descoberta resultante vai rante a maior parte do tempo. Todavia, tal
ser proporcional à extensão e à resistên- investigação objetiva a articulação de pa-
cia da anomalia que a prefigurou. En- radigmas existentes e não a invenção de
tão é óbvio que deve haver um conflito novos paradigmas. Só quando as tentati-
entre o paradigma que revela a anomalia vas de articulação paradigmática falham
e o paradigma que torna a anomalia um que os cientistas vão encontrar o terceiro
fenômeno explicado de acordo com de- tipo de fenômeno: as anomalias reconhe-
cidas, cujo traço característico é a obs-
2 É por isso que uma excessiva preocupação
tinada recusa em ser assimilada aos pa-
com problemas cuja resolução terá efeitos úteis – radigmas existentes. Somente esse tipo
independentemente da sua relação com o conhe-
cimento e com a técnica científicos existentes – de fenômeno dá lugar a novas teorias.
pode tão facilmente inibir o desenvolvimento da Os paradigmas proporcionam para todos
ciência. os fenômenos uma posição teoricamente
IX A Natureza e a Necessidade das Revoluções Científicas 82

determinada no campo perceptivo do ci- lógica não é historicamente sustentável,


entista, exceto para as anomalias. ainda que continue a ser uma concepção
Mas, se novas teorias são elaboradas permissível da relação entre teorias que
para resolver anomalias que se manifes- se sucedem.
tam na relação de uma teoria existente Imagino que um século atrás podería-
com a natureza, então uma nova teoria mos parar por aqui na defesa da neces-
bem sucedida deve, quanto a algum tó- sidade das revoluções. Mas, hoje isso
pico, permitir predições que são diferen- infelizmente não pode ser feito porque
tes das predições derivadas de sua prede- a concepção desenvolvida acima sobre
cessora. Tal diferença não poderia ocor- essa matéria não pode ser mantida se for
rer se as duas teorias fossem logicamente aceita a interpretação da natureza e da
compatíveis. No processo de assimilação função da teoria científica que prevalece
da anomalia, a segunda teoria deve to- contemporaneamente. Tal interpretação
mar o lugar da primeira. Mesmo uma te- – intimamente associada com os primór-
oria como a da conservação da energia – dios do positivismo lógico e não rejei-
que hoje se parece com uma superestru- tada categoricamente por seus sucesso-
tura lógica que se relaciona com a natu- res – restringiria de tal forma o alcance e
reza apenas através de teorias estabeleci- o significado de uma teoria aceita, que ela
das independentemente – não se desen- possivelmente não pudesse conflitar com
volveu historicamente sem destruição de qualquer teoria posterior que fizesse pre-
paradigma. Em vez disso, ela emergiu de dições sobre alguns dos mesmos fenô-
uma crise em que o ingrediente essen- menos naturais sobre os quais ela tam-
cial foi a incompatibilidade entre a dinâ- bém fizera. O caso mais robusto e me-
mica newtoniana e algumas consequên- lhor conhecido dessa concepção restrin-
cias, recentemente formuladas, da teo- gida da teoria científica emerge nas dis-
ria do calórico sobre o calor. Só depois cussões da relação entre a dinâmica eins-
que a teoria do calórico foi rejeitada, pôde teiniana contemporânea e as equações
a conservação da energia tornar-se parte dinâmicas mais antigas que descendem
da ciência.3 E só depois de integrar a ci- dos Principia de Newton. Do ponto de
ência por algum tempo que a teoria da vista do presente ensaio, essas duas te-
conservação da energia chegou a pare- orias são fundamentalmente incompatí-
cer uma teoria de um tipo lógico mais veis no sentido ilustrado pela relação da
elevado, e não uma teoria em conflito astronomia copernicana com a astrono-
com suas predecessoras. É muito difícil mia ptolomaica. A teoria de Einstein só
ver como novas teorias poderiam ascen- pode ser aceita com o reconhecimento de
der sem essas mudanças destrutivas nas que a teoria de Newton está errada. Como
crenças sobre a natureza. A inclusividade essa é hoje a visão de uma minoria4 , de-
vemos examinar as mais preponderantes
3 Silvanus P. Thompson, Life of William Thom-

son Baron Kelvin of Largs (London, 1910), I, 266- 4 Ver, por exemplo, as observações de P. P. Wie-

81. ner em Philosophy of Science, XXV (1958), p. 298.


IX A Natureza e a Necessidade das Revoluções Científicas 83

objeções a ela. ções, eles traíram os padrões da ciência


O cerne dessas objeções pode ser de- quando as formularam. Todavia, na me-
senvolvido como se segue. A dinâmica dida em que a teoria newtoniana sem-
relativista não poderia ter mostrado que pre foi uma teoria verdadeiramente ci-
a dinâmica de Newton está errada por- entífica apoiada por evidência válida, ela
que a dinâmica de Newton ainda é usada ainda hoje continua a sê-lo. Einstein te-
com grande sucesso pela maioria dos en- ria mostrado estar erradas apenas as pre-
genheiros e, em aplicações selecionadas, tensões extravagantes para a teoria. Pre-
por muitos físicos. Ademais, a precisão tensões que efetivamente nunca fizeram
desses usos da teoria mais antiga pode parte da ciência. Expurgada dessas extra-
ser evidenciada a partir da própria teoria vagâncias meramente humanas, a teoria
que – em outras aplicações – a substituiu. newtoniana nunca teria sido desafiada –
A teoria de Einstein poderia ser usada e nunca poderia ter sido.
para mostrar que as predições feitas a
partir das equações de Newton seriam
tão boas quanto permitem nossos instru- Alguma variante desse argumento é
mentos de medida, em todas as aplica- mais que suficiente para tornar imune ao
ções que satisfizessem um pequeno nú- ataque qualquer teoria já utilizada por
mero de condições restritivas. Por exem- um grupo de cientistas competentes. A
plo, se a teoria newtoniana deve oferecer tão vilipendiada teoria do flogisto, por
uma boa solução aproximada, então as exemplo, pôs em ordem um grande nú-
velocidades relativas dos corpos conside- mero de fenômenos físicos e químicos.
rados devem ser pequenas quando com- Ela explicou por que os corpos queima-
paradas com a velocidade da luz. Sujeita a vam – porque eles eram ricos em flo-
essa condição e a algumas outras, a teoria gisto –, e por que os metais tinham tan-
newtoniana parece ser derivável da teoria tas propriedades em comum, à diferença
einsteiniana, da qual seria, portanto, um de seus minérios: todos os metais eram
caso especial. compostos por diferentes terras elemen-
Mas, continua a objeção, nenhuma te- tares combinadas com flogisto. Esse úl-
oria teria a possibilidade de conflitar com timo, sendo comum a todos os metais,
um de seus casos especiais. Se a teoria produzia propriedades comuns. Adicio-
einsteiniana parece tornar errada a teo- nalmente, a teoria do flogisto explicava
ria newtoniana, isso só acontece porque um certo número de reações em que os
alguns newtonianos foram descuidados ácidos eram formados pela combustão
a ponto de afirmar que a teoria newto- de substâncias como o carbono e o enxo-
niana permitia a obtenção de resultados fre. Também explicava o decréscimo de
absolutamente precisos ou que a teoria volume quando a combustão ocorre em
newtoniana era válida também em velo- um volume de ar confinado. Ou seja, o
cidades relativas muito altas. Uma vez flogisto liberado pela combustão estraga
que esses newtonianos não poderiam ob- a elasticidade do ar que o absorveu, assim
ter qualquer evidência para suas afirma- como estraga a elasticidade de uma mola
IX A Natureza e a Necessidade das Revoluções Científicas 84

de aço.5 Se houvesse apenas os fenôme- o que acabamos de afirmar também seja


nos que os teóricos do flogisto seleciona- virtualmente uma tautologia. Sem com-
ram para a sua teoria, tal teoria jamais po- promisso com um paradigma não pode-
deria ter sido desafiada. Um argumento ria haver ciência normal. Ademais, tal
similar será suficiente para toda teoria compromisso deve estender-se a áreas e
que já tenha sido algum dia aplicada com a graus de precisão para os quais não
sucesso a um conjunto qualquer de fenô- haja precedentes claramente reconheci-
menos. dos. Se assim não fosse, o paradigma
Mas para salvar teorias dessa maneira, não poderia fornecer charadas que ainda
seu âmbito de aplicação deve restringir- não tivessem sido resolvidas. Além disso,
se a tais fenômenos e ao nível de precisão não é só a ciência normal que depende
da observação com que já concorda a evi- do compromisso com um paradigma. Se
dência experimental disponível.6 Levada uma teoria existente restringe o cientista
um passo adiante – e esse passo dificil- apenas às aplicações existentes, então
mente pode ser evitado uma vez que foi não poderia haver quaisquer surpresas,
dado o primeiro passo –, uma limitação anomalias ou crises. Mas essas últimas
desse tipo proíbe ao cientista a preten- são exatamente os sinalizadores que de-
são de falar cientificamente sobre qual- marcam o caminho para a ciência ex-
quer fenômeno que já não tenha sido ob- traordinária. Se as restrições positivis-
servado. Se mantida dessa forma, tal res- tas sobre o âmbito de aplicabilidade le-
trição proíbe ao cientista utilizar uma te- gítima de uma teoria forem acatadas lite-
oria em sua própria pesquisa, sempre que ralmente, deve parar de funcionar o me-
essa pesquisa entre em uma área ou bus- canismo que diz à comunidade cientí-
que um grau de precisão para os quais fica quais problemas devem levar à mu-
a prática anterior com a teoria não ofe- dança dos fundamentos. Quando isso
reça algum precedente. Essas proibições ocorre, a comunidade científica vai ine-
são logicamente irrefutáveis. Aceitá-las, vitavelmente retornar a algo muito pa-
todavia, implicaria o fim da investigação recido com o seu estado pré-paradigma.
pela qual a ciência pode prosseguir em Ou seja, vai voltar para uma condição em
seu desenvolvimento. que todos os membros da comunidade
Nesse ponto, já podemos presumir que praticam ciência, mas em que o produto
bruto dessa prática mal chega a se asse-
5 James B. Conant, Overthrow of the Phlogiston
melhar à ciência. É realmente de admi-
Theory (Cambridge, 1950), pp. 13-16; e J. R. Par-
tington, A Short History of Chemistry (2d ed.; Lon-
rar que o preço do avanço científico sig-
don, 1951), pp. 85-88. A mais completa e simpá- nificativo seja um compromisso que está
tica exposição das realizações da teoria do flogisto sempre exposto ao risco de estar errado?
foi feita por H. Metzger em Newton, Stahl, Boerha- O mais importante é que há uma re-
ave et la doctrine chimique (Paria, 1930), Parte II. veladora lacuna lógica no argumento do
6 Compare-se com as conclusões obtidas com

um tipo de análise muito diferente por R. B. positivista. Uma lacuna que nos reintro-
Braithwaite, Scientific Explanation (Cambridge, duz de imediato na natureza da mudança
1953), pp. 50-87, esp. p. 76. revolucionária. Pode a dinâmica new-
IX A Natureza e a Necessidade das Revoluções Científicas 85

toniana ser realmente derivada da dinâ- sentam nos Ni ’s espaço, tempo e massa
mica relativista? Essa derivação seria pa- einsteinianos. Contudo, os referentes fí-
recida com quê? Imaginemos um con- sicos desses conceitos einsteinianos de
junto de enunciados E 1 , E 2 , , E n que, jun- modo algum são idênticos aos dos con-
tos, compreendem as leis da teoria da ceitos newtonianos que têm o mesmo
relatividade. Esses enunciados contêm nome.7 A não ser que mudemos as de-
variáveis e parâmetros que representam finições das variáveis nos Ni ’s, os enun-
posição espacial, tempo, massa em re- ciados que derivamos não são newtoni-
pouso, etc. Desses enunciados – conju- anos. Mas se nós mudarmos as defini-
gados com o aparato da lógica e da mate- ções das variáveis, já não poderemos di-
mática – podemos deduzir todo um con- zer apropriadamente que derivamos as
junto de outros enunciados, incluindo al- leis de Newton. Pelo menos não em qual-
guns que podem ser aferidos pela obser- quer dos sentidos generalizadamente re-
vação. Para provar a adequação da dinâ- conhecidos hoje do termo derivar. É claro
mica newtoniana como um caso especial que nosso argumento explicou por que as
da dinâmica relativista devemos adicio- leis de Newton sempre pareceram funci-
nar aos Ei ’s enunciados como (v /c )2 << 1, onar. Assim fazendo ele justificou, diga-
restringindo assim a amplitude dos parâ- mos, o motorista de um automóvel que
metros e variáveis. Esse conjunto ampli- age como se vivesse num universo new-
ado de enunciados passa, a partir daí, a toniano. Um argumento do mesmo tipo
ser manipulado para produzir um novo é usado para justificar o ensino de uma
conjunto de enunciados N 1 , N 2 , , Nm que astronomia geocêntrica para agrimenso-
é formalmente idêntico às leis do movi- res. Mas o argumento ainda não fez o que
mento de Newton, à lei da gravidade, e ele deve alegadamente fazer. Isto é, ele
assim por diante. Aparentemente a di- não mostrou que as leis de Newton são
nâmica newtoniana foi derivada da di- um caso limitador das leis de Einstein.
nâmica einsteiniana submetida a umas Na passagem para o limite não tivemos
poucas condições limitadoras. que mudar apenas as formas das leis. Ti-
Não obstante, essa derivação é espú- vemos que, simultaneamente, alterar os
ria – pelo menos até esse ponto. Embora elementos estruturais fundamentais de
os Ni ’s sejam um caso especial das leis que é composto o universo a que tais leis
da mecânica relativista, esses enunciados se aplicam.
não são as leis de Newton. Ou pelo me- Essa necessidade de mudar o signifi-
nos não podem ser as leis de Newton, ex- cado de conceitos estabelecidos e fami-
ceto se reinterpretadas de um modo que liares é central ao impacto revolucioná-
seria impossível até mesmo durante um
7 A massa newtoniana é conservada e a massa
certo período já posterior ao trabalho de
Einstein. As variáveis e parâmetros que einsteiniana é conversível em energia. Somente
em velocidades relativamente baixas as duas po-
nos Ei ’s einsteinianos representavam po- dem ser medidas do mesmo modo, e mesmo
sição espacial, tempo, massa, etc., ainda nesse caso elas não devem ser concebidas como
ocorrem nos Ni ’s. E eles ainda repre- sendo a mesma.
IX A Natureza e a Necessidade das Revoluções Científicas 86

rio da teoria de Einstein. Embora mais Assim, vamos assumir a partir de agora
sutil que as mudanças do geocentrismo que as diferenças entre paradigmas su-
para o heliocentrismo, do flogisto para cessivos são necessárias e inconciliá-
o oxigênio ou dos corpúsculos para as veis. Podemos então dizer, mais explici-
ondas, a transformação conceitual resul- tamente, de que tipos são essas diferen-
tante não é menos decisivamente destru- ças? O tipo mais aparente já foi ilustrado
tiva de um paradigma previamente es- repetidamente. Sucessivos paradigmas
tabelecido. Podemos até mesmo che- imaginam e narram de modo diferente
gar a vê-la como um protótipo para as os objetos que constituem o universo e
reorientações revolucionárias na ciên- também o comportamento desses obje-
cia. A transição da mecânica newtoniana tos. Isto é, eles diferem a respeito de ques-
para a mecânica einsteiniana ilustra com tões tais como a existência de partículas
particular clareza a revolução científica subatômicas, a materialidade da luz e a
como um deslocamento da rede concei- conservação do calor ou da energia. Es-
tual através da qual os cientistas veem o tas são as diferenças substantivas entre
mundo, precisamente porque não envol- os paradigmas sucessivos, e não reque-
veu a introdução de objetos ou conceitos rem ilustrações adicionais. Mas os pa-
adicionais. Essas observações deveriam radigmas não diferem apenas quanto à
ser suficientes para mostrar aquilo que já sua substância, já que eles não se dirigem
poderia ter sido reconhecido se a cena fi- apenas à natureza. Os paradigmas tam-
losófica fosse outra. Pelo menos para os bém se dirigem – no sentido inverso – à
cientistas, a maioria das diferenças apa- própria ciência que os produziu. Os pa-
rentes entre as teorias científicas descar- radigmas são a fonte dos métodos, da es-
tadas e suas sucessoras são reais. Embora fera de problemas e dos padrões de solu-
uma teoria obsoletada sempre possa ser ção aceitos por qualquer comunidade ci-
vista como um caso especial de sua su- entífica madura em um período de tempo
cessora atualizada, ela deve ser transfor- dado. Disso resulta que a recepção de um
mada para esse propósito. E a transfor- novo paradigma geralmente requer a re-
mação é tal que só pode ser empreendida definição da ciência correspondente. Al-
com o posicionamento vantajoso da vi- guns problemas antigos podem ser rele-
são retrospectiva, ou seja, sob a direção gados a uma outra ciência ou declarados
explícita da teoria mais recente. Ademais, totalmente não-científicos. Outros pro-
mesmo que tal transformação fosse um blemas que anteriormente não existiam
estratagema legítimo a ser empregado na ou eram triviais podem, com o novo para-
interpretação da teoria mais antiga, o re- digma, tornar-se os próprios arquétipos
sultado de sua aplicação seria uma teoria de um trabalho científico significativo.
tão restrita que ela só poderia reenunciar Com a mudança dos problemas, geral-
aquilo que já fosse conhecido. Essa ree- mente também muda o padrão que dis-
nunciação poderia ser útil por causa de tingue uma solução efetivamente cientí-
sua economicidade, mas não seria sufici- fica de uma mera especulação metafísica,
ente para orientar a pesquisa científica. de um jogo de palavras ou de uma perfor-
IX A Natureza e a Necessidade das Revoluções Científicas 87

mance matemática. A tradição científico- os nervos sobre os quais elas se moviam.8


normal que emerge de uma revolução ci- Em um período anterior, explicações
entífica não apenas é incompatível mas, em termos de qualidades ocultas foram
em geral, é efetivamente incomensurável parte integrante do trabalho científico
com a tradição que havia antes. produtivo. Todavia, o novo compro-
misso do século dezessete com a expli-
O impacto do trabalho de Newton so- cação mecânico-corpuscular mostrou-se
bre a tradição normal de prática científica imensamente frutífero para várias ciên-
do século dezessete oferece um exem- cias, livrando-as de problemas que ti-
plo impressionante desses efeitos mais nham resistido a uma solução universal-
sutis da mudança de paradigma. Antes mente aceita, e sugerindo outros para
de Newton nascer a ciência nova do sé- substituí-los. Na dinâmica, por exem-
culo já tinha, por fim, sido bem suce- plo, as três leis do movimento de Newton
dida na rejeição das explicações aristo- são menos um produto de experimentos
télicas e escolásticas, cujos termos visa- inovadores e mais um resultado da ten-
vam a expressar as essências dos corpos tativa de reinterpretar observações bem
materiais. Dizer, como faziam essas ex- conhecidas nos termos dos movimentos
plicações, que uma pedra caía porque e interações dos corpúsculos primários
sua natureza direcionava-a para o centro neutros. Consideremos apenas uma ilus-
do universo era uma afirmação feita de tração concreta. Uma vez que os cor-
modo a parecer um mero jogo de pala- púsculos neutros só podiam agir uns so-
vras tautológico – algo que ela não tinha bre os outros por contato, a concepção
sido anteriormente. A partir da rejeição mecânico-corpuscular da natureza diri-
das explicações aristotélicas e escolásti- giu a atenção científica para um objeto de
cas, todo o fluxo das aparências senso- estudo totalmente novo: a alteração dos
riais – incluindo cor, sabor e até mesmo movimentos das partículas por meio de
o peso – passou a ser explicado em ter- colisões. Descartes anunciou o problema
mos de tamanho, forma, posição e mo- e forneceu sua primeira suposta solução.
vimento de corpúsculos elementares de Huyghens, Wren e Wallis desenvolveram-
uma matéria básica. A atribuição de ou- na ainda mais, em parte pela experimen-
tras qualidades, além das mencionadas, tação com as colisões dos bulbos dos
aos átomos elementares era um recurso pêndulos mas, principalmente, com a
ao oculto e, portanto, fora dos limites da aplicação de características bem conhe-
ciência. Molière captou precisamente o cidas do movimento aos novos proble-
novo princípio quando ele ridicularizou mas. Newton, por fim, embutiu esses re-
o médico que explicava a eficácia soporí- sultados nas suas leis do movimento. A
fera do ópio atribuindo-a à sua potência ação e a reação equivalentes da terceira
dormitiva. Durante a última metade do 8 Para o corpuscularismo em geral, ver Marie
século dezessete, muitos cientistas prefe- Boas, The Establishment of the Mechanical Phi-
riam dizer que a forma arredondada das losophy, Osiris, X (1952), 412-541. Para o efeito da
partículas do ópio permitia-lhes acalmar forma da partícula no sabor, ver ibid., p. 483.
IX A Natureza e a Necessidade das Revoluções Científicas 88

lei são mudanças na quantidade de movi- ticar a ciência sem os Principia ou fazer
mento experimentadas pelas duas partes essa obra conformar-se com os padrões
em uma colisão. A mesma mudança do corpusculares do século dezessete, os
movimento fornece a definição de força cientistas gradualmente aceitaram a
dinâmica implícita na segunda lei. Nesse concepção de que a gravidade seria efe-
caso, como em muitos outros durante o tivamente inata. Em meados do século
século dezessete, o paradigma corpuscu- dezoito, tal interpretação já fora quase
lar engendrou um novo problema e en- universalmente aceita, e o resultado foi
gendrou também boa parte da solução uma genuína reversão – o que não é a
desse problema.9 mesma coisa que uma regressão – a um
Ademais, embora boa parte do tra- padrão escolástico. Atrações e repulsões
balho de Newton estivesse direcionada inatas juntaram-se a tamanho, forma,
para problemas e padrões implícitos posição e movimento como proprieda-
derivados da concepção mecânico- des primárias fisicamente irredutíveis da
corpuscular, o efeito do paradigma matéria.10
que resultou de seu trabalho foi uma A mudança resultante nos padrões e
mudança progressiva – e parcialmente no campo de problemas da ciência física
destrutiva – nos problemas e padrões uma vez mais teve consequências impor-
legítimos da ciência. A gravidade – inter- tantes. Em torno dos anos quarenta do
pretada como uma atração inata entre século dezoito, por exemplo, os eletri-
qualquer par de partículas de matéria cistas já podiam falar da virtude atrativa
– era uma qualidade oculta no mesmo do fluido elétrico sem provocar o ridí-
sentido em que já o fora a tendência culo com que o médico de Molière fora
para cair da escolástica. Portanto, en- saudado um século antes. Ao assim fa-
quanto os padrões do corpuscularismo zer, os fenômenos elétricos passaram a
permaneceram em vigor, a busca de uma exibir uma ordem diferente daquela que
explicação mecânica da gravidade foi os cientistas mostravam quando os viam
um dos problemas mais desafiadores como os efeitos de um eflúvio ou des-
para aqueles que aceitaram os Principia carga mecânica que poderia atuar ape-
como paradigma. Newton dedicou muita nas por contato. Em particular, quando
atenção a esse problema, assim como o a ação elétrica a certa distância tornou-
fizeram muitos dos seus sucessores do se um objeto de estudo à parte pela sua
século dezoito. Aparentemente a única importância própria, o fenômeno que
opção era rejeitar a teoria de Newton pelo hoje chamamos carga por indução pôde
seu fracasso em explicar a gravidade. ser reconhecido como um dos seus efei-
Essa alternativa também foi amplamente tos. Anteriormente, quando esse fenô-
adotada. No final, nenhuma dessas meno chegava a ser constatado, ele ti-
concepções triunfou. Incapazes de pra- 10 I. B. Cohen, Franklin and Newton: An Inquiry

into Speculative Newtonian Experimental Science


9 R. Dugas, La mécanique au XVIIe siècle (Neu- and Franklin’s Work in Electricity as an Example
châtel, 1954), pp. 177-85, 284-98, 345-56. Thereof. (Philadelphia, 1956), caps. vi-vii.
IX A Natureza e a Necessidade das Revoluções Científicas 89

nha sido atribuído à ação direta de at- ríodo de seu desenvolvimento. Por en-
mosferas elétricas ou aos vazamentos ou quanto, vamos nos contentar com ape-
fugas de energia elétrica inevitáveis em nas mais duas ilustrações – e bem mais
qualquer laboratório de eletricidade. A concisas. Antes da revolução química,
nova concepção dos efeitos de indução uma das tarefas da química era explicar
foi, por sua vez, a chave para a aná- as qualidades das substâncias químicas
lise que Franklin fez da garrafa de Ley- e as mudanças que essas qualidades so-
den e, desse modo, foi simultaneamente friam durante as reações. Com a ajuda de
a chave para a emergência de um novo um pequeno número de princípios ele-
– e newtoniano – paradigma para a ele- mentares – um dos quais era o flogisto –
tricidade. Tampouco foram a dinâmica o químico deveria explicar por que algu-
e a eletricidade os únicos campos cientí- mas substâncias são ácidas, outras meta-
ficos afetados pela legitimação da busca linas, outras combustíveis, e assim por di-
por forças inatas da matéria. O grande vo- ante. Foi obtido algum sucesso nessa di-
lume de literatura do século dezoito sobre reção. Nós já observamos que o flogisto
afinidades químicas e série de substitui- explicava por que os metais eram tão se-
ção também deriva desse aspecto supra- melhantes entre si. E ainda poderíamos
mecânico do newtonianismo. Os quími- ter desenvolvido um argumento similar
cos que acreditaram nessas atrações di- para os ácidos. Entretanto, a reforma de
ferenciais entre várias espécies químicas Lavoisier acabou por descartar os prin-
organizaram experimentos que não po- cípios químicos, privando a química de
deriam ter sido imaginados antes, além algum poder efetivo – e de muito poder
de empreenderem a busca por novos ti- potencial – de explicação. Para compen-
pos de reações. Sem os dados e concei- sar essa perda foi necessária uma mu-
tos químicos desenvolvidos naquele pro- dança nos padrões. Isto posto, durante
cesso, o trabalho posterior de Lavoisier e, boa parte do século dezenove o fracasso
mais particularmente, o trabalho de Dal- na explicação das qualidades dos com-
ton seriam incompreensíveis.11 Mudan- postos não chegou a ser uma condenação
ças nos padrões que governam os pro- para qualquer teoria química.12
blemas, conceitos e explicações permis- E também: Clerk Maxwell comparti-
síveis podem transformar a ciência. Na lhou com outros proponentes da teoria
próxima seção vou até mesmo sugerir um ondulatória da luz no século dezenove a
sentido em que essas mudanças podem convicção de que as ondas de luz deve-
transformar o mundo. riam propagar-se através de um éter ma-
Outros exemplos dessas mudanças não terial. Esquematizar um meio mecânico
substantivas entre paradigmas que se su- para dar suporte a tais ondas foi um pro-
cedem podem ser recuperados da histó- blema padrão para muitos de seus mais
ria de qualquer ciência, em qualquer pe- hábeis contemporâneos. Contudo, a sua

11 Para a eletricidade, ver ibid., caps. viii-ix. Para 12 E. Meyerson, Identity and Reality (New York,

a química, ver Metzger, op. cit., Parte I. 1930), cap. x.


IX A Natureza e a Necessidade das Revoluções Científicas 90

própria teoria – a teoria eletromagnética nham argumentado que a história da ci-


da luz – não deu nenhuma explicação de ência registre um contínuo aumento da
um meio capaz de dar suporte às ondas maturidade e do refinamento da concep-
de luz. E não foi só isso. A teoria de ção das pessoas sobre a natureza da ciên-
Maxwell claramente tornou ainda mais cia.14 Porém, a defesa de um desenvol-
difícil do que antes proporcionar essa ex- vimento cumulativo dos problemas e pa-
plicação. Tais razões levaram a uma am- drões da ciência é ainda mais difícil de se
pla rejeição inicial da teoria de Maxwell. fazer que a defesa da cumulatividade das
Mas, assim como a teoria de Newton, a teorias. Ainda que seu abandono pelos ci-
teoria de Maxwell mostrou-se de difícil entistas do século dezoito tenha sido fru-
descarte. Quando atingiu o status de pa- tífero, a tentativa de explicar a gravidade
radigma, a atitude da comunidade para não foi dirigida a um problema intrinse-
com ela mudou. A insistência de Maxwell camente ilegítimo. As objeções às forças
na existência de um éter mecânico pas- inatas não eram nem que elas fossem ine-
sou a parecer cada vez mais uma afirma- rentemente não-científicas, nem que elas
ção da boca para fora – algo que enfatica- fossem metafísicas em algum sentido pe-
mente podemos dizer que ela não foi –, e jorativo. Não há quaisquer padrões ex-
as tentativas de esquematizar esse tal éter ternos que permitam juízos dessa ordem.
mecânico foram abandonadas. Os cien- O que ocorreu não foi nem um declínio,
tistas deixaram de pensar que não fosse nem uma ascensão de padrões. O que
científico falar de um deslocamento elé- ocorreu foi simplesmente uma mudança
trico sem especificar o que estava sendo exigida pela adoção de um novo para-
deslocado. Novamente, o resultado foi digma. Ademais, tal mudança foi rever-
um novo conjunto de problemas e pa- tida desde então – e ainda poderia sê-lo
drões. Um conjunto que, nesse caso, teve uma vez mais. No século vinte, Einstein
muito a ver com a emergência da teoria foi bem sucedido na explicação das atra-
da relatividade.13 ções gravitacionais. Tal explicação fez a
Essas alterações características na con- ciência retornar para um conjunto de câ-
cepção dos problemas e padrões legíti- nones e problemas que são, no aspecto
mos da comunidade científica não teriam particular dessas atrações gravitacionais,
tanto significado para a tese desse en- mais parecidos com as explicações dadas
saio, se pudéssemos supor que elas sem- pelos predecessores de Newton do que
pre tivessem ocorrido com a substitui- com as explicações dadas pelos seus su-
ção de um tipo metodologicamente infe- cessores. E ainda: o desenvolvimento da
rior por algum tipo metodologicamente mecânica quântica reverteu a proibição
superior. Mas, nesse caso, seus efeitos metodológica que se originou na revolu-
também pareceriam cumulativos. Não 14 Para uma tentativa brilhante e inteiramente
surpreende que alguns historiadores te- atualizada de ajustar o desenvolvimento cientí-
fico a esse leito de Procusto, ver C. C. Gillispie, The
13 E. T. Whittaker, A History of the Theories of Edge of Objectivity: An Essay in the History of Sci-
Æther and Electricity, II (London, 1953), 28-30. entific Ideas (Princeton, 1960).
IX A Natureza e a Necessidade das Revoluções Científicas 91

ção química. Agora os químicos tentam – da ciência em outros aspectos. E é isso


e com grande sucesso – explicar a cor, o que se põe agora. Nossos exemplos mais
estado de agregação e outras qualidades recentes mostram particularmente que
das substâncias usadas e produzidas em não é só um mapa que os paradigmas
seus laboratórios. Uma reversão parecida proporcionam aos cientistas. Eles tam-
pode estar a caminho até mesmo na teo- bém fornecem algumas das diretrizes
ria eletromagnética. Na física contempo- essenciais para a elaboração de mapas.
rânea o espaço não é o substrato inerte Quando aprende um paradigma, o cien-
e homogêneo empregado nas teorias de tista adquire teoria, métodos e padrões
Newton e de Maxwell. Algumas de suas juntos – geralmente, em uma mistura
novas propriedades não são muito dife- inextricável. Portanto, quando mudam
rentes daquelas que em certo momento os paradigmas usualmente há mudanças
foram atribuídas ao éter. Talvez algum significativas nos critérios que determi-
dia possamos até mesmo chegar a saber nam a legitimidade dos problemas e das
o que é um deslocamento elétrico. soluções propostas.
Os exemplos precedentes ampliam Essa informação nos faz voltar ao
nossa compreensão das maneiras com ponto em que começou a presente seção.
que os paradigmas dão forma à vida Isso ocorre porque ela nos oferece a
científica ao mudar a ênfase das funções primeira indicação explícita de por que a
cognitivas para as funções normativas escolha entre paradigmas concorrentes
dos paradigmas. Anteriormente, nós levanta regularmente questões que não
examinamos principalmente o papel podem ser resolvidas pelos critérios da
do paradigma como um veículo para a ciência normal. Na área – tanto mais
teoria científica. Nesse papel a função significativa quanto é incompleta – em
do paradigma é instruir o cientista sobre que duas escolas científicas discordam
as entidades que a natureza contém sobre o que é um problema e sobre o que
– assim como sobre as entidades que é uma solução, elas vão entrecruzar argu-
a natureza não contém –, e sobre as mentos sem conseguir compreender-se
maneiras como essas entidades se com- mutuamente no debate relativo aos
portam. Tal informação engendra um méritos de seus respectivos paradigmas.
mapa cujos detalhes serão elucidados Nos argumentos parcialmente circulares
pela investigação científica madura. que regularmente daí resultam, mostra-
Como a natureza é demasiado complexa se como cada paradigma satisfaz mais
e variada para ser explorada ao acaso, ou menos os critérios que ele fixa para si
esse mapa é tão essencial quanto a obser- mesmo, deixando de preencher apenas
vação e o experimento para o contínuo uns poucos critérios dentre aqueles
desenvolvimento da ciência. Os paradig- ditados pelo seu oponente. Também há
mas mostram-se como constitutivos da outras razões para a incompletude do
atividade de investigação por meio das contato lógico que tão consistentemente
teorias que neles estão implícitas. No caracteriza os debates sobre paradigmas.
entanto, os paradigmas são constitutivos Por exemplo, uma vez que entre dois
IX A Natureza e a Necessidade das Revoluções Científicas 92

paradigmas concorrentes nenhum deles


deixa sem resolver o mesmo conjunto de
problemas, os debates sobre paradigma
sempre envolvem a seguinte questão:
quais são os problemas mais significati-
vos para se resolver? Do mesmo modo
que a questão dos padrões concorrentes,
essa questão de valores só pode ser
respondida em termos de critérios que
se situam completamente fora da ciência
normal. É exatamente esse recurso a
critérios externos que mais obviamente
tornam revolucionários os debates sobre
paradigmas. Entretanto, algo ainda
mais fundamental que padrões e valo-
res também está em questão. Até aqui
eu só argumentei que os paradigmas
são constitutivos da ciência. Agora eu
desejo mostrar um sentido em que os
paradigmas são também constitutivos da
natureza.
X As Revoluções como Mudanças de Visão de Mundo 93

As Revoluções como Mudanças de


Visão de Mundo

Quando examina o registro da investi- dida em que o único acesso dos cientis-
gação científica passada a partir da posi- tas a esse mundo dá-se através do que
ção vantajosa da historiografia contem- eles veem e fazem, temos vontade de di-
porânea, o historiador da ciência pode zer que depois de uma revolução eles es-
ser tentado a exclamar que quando mu- tão reagindo a um mundo diferente.
dam os paradigmas, o mundo mesmo É no papel de protótipos elementares
muda com eles. Levados por um novo para essas transformações do mundo do
paradigma, os cientistas adotam novos cientista que as demonstrações familia-
instrumentos e observam em novos lu- res de uma conversão na Gestalt visual
gares. O que tem ainda maior relevância mostram-se tão sugestivas. O que eram
é que durante as revoluções os cientistas patos no mundo do cientista antes da re-
veem coisas novas e diferentes quando volução, tornam-se coelhos depois dela.
exploram com os instrumentos familia- A pessoa que primeiro vê o exterior da
res em lugares que já examinaram antes. caixa olhando-a por cima, mais tarde vê
De algum modo, é como se a comuni- o interior da caixa olhando-a por baixo.
dade profissional tivesse sido repentina- Ainda que mais graduais e quase sempre
mente transportada para um outro pla- irreversíveis, transformações como essas
neta onde os objetos familiares são vistos também acompanham o treinamento ci-
sob uma luz diferente, e onde a esses ob- entífico. Olhando para o contorno de um
jetos familiares juntaram-se objetos não mapa o estudante vê linhas sobre o pa-
familiares. É claro que não acontece nada pel, enquanto o cartógrafo vê a represen-
exatamente assim. Não há qualquer re- tação visual de um terreno. Olhando para
assentamento geográfico. Fora do labo- uma fotografia de uma câmara de bolhas
ratório, os negócios do cotidiano conti- o estudante vê uma confusão de linhas
nuam como antes. Entretanto, mudan- retorcidas e quebradas, enquanto o físico
ças de paradigma levam os cientistas a ver vê um registro familiar de eventos sub-
diferentemente o mundo em que eles se nucleares. Só depois de um certo nú-
envolvem por meio da pesquisa. Na me- mero de transformações de visão como
X As Revoluções como Mudanças de Visão de Mundo 94

essas que o estudante se torna um habi- se ele tivesse sido treinado para funcio-
tante do mundo do cientista, passando a nar sem óculos. O resultado não poderia
ver aquilo que o cientista vê e reagindo deixar de ser extrema desorientação, le-
do mesmo modo que o cientista. No en- vando a uma aguda crise pessoal. Mas,
tanto, o mundo em que o estudante entra depois que esse participante da pesquisa
a partir daí não é fixado de uma vez por começa a aprender a lidar com seu novo
todas pela natureza do ambiente, por um mundo, todo o seu campo visual dá uma
lado, e pela natureza da ciência, por ou- cambalhota. Isso ocorre geralmente de-
tro. Ao contrário, o mundo do cientista pois de um período intermediário em que
é determinado conjuntamente pelo am- a visão fica totalmente confusa. A partir
biente e pela tradição científico-normal daí, os objetos são vistos novamente do
que o estudante foi treinado para por em mesmo jeito que eram vistos antes que
prática. Portanto, em tempos de revolu- os óculos inversores fossem postos. A as-
ção – quando muda a tradição científico- similação de um campo visual que an-
normal – a percepção que o cientista tem tes era anômalo reagiu sobre o próprio
de seu ambiente precisa ser reeducada. campo visual, mudando-o.1 Tanto literal
Em algumas situações familiares, o cien- quanto metaforicamente, a pessoa que se
tista precisa aprender a ver uma nova Ges- acostumou com as lentes inversoras sofre
talt. Depois que isso é feito, o mundo da uma transformação revolucionária da vi-
sua pesquisa parecerá, aqui e acolá, in- são.
comensurável com o mundo que ele ha- Os participantes do experimento com
bitou antes. Essa é uma outra razão por as cartas de baralho anômalas – expe-
que escolas guiadas por paradigmas dife- rimento discutido na Seção VI – viven-
rentes estão, de algum modo e em certo ciaram uma transformação muito pare-
grau, sempre intercambiando incompre- cida. Até que fossem instruídos por meio
ensões. de uma prolongada exposição que o uni-
Em suas formas mais usuais, é claro, os verso continha cartas anômalas, eles só
experimentos da Gestalt ilustram apenas viram os tipos de cartas para as quais
a natureza das transformações percepti- tinham sido equipados pela experiência
vas. Eles não nos dizem nada sobre o pa- anterior. Ademais, assim que a experi-
pel dos paradigmas ou sobre o papel da ência proporcionou as categorias adicio-
experiência previamente assimilada nos nais requeridas, os participantes do expe-
processos de percepção. Mas, sobre eles rimento tornaram-se capazes de ver to-
há um rico acervo de literatura psicoló- das as cartas anômalas à primeira inspe-
gica, boa parte dela desenvolvida a par-
tir do trabalho pioneiro do Hanover Ins- 1 Os experimentos originais foram feitos por

titute. O participante de uma experiên- George M. Stratton e publicados em Vision


cia psicológica que põe óculos com len- without Inversion of the Retinal Image, Psycholo-
gical Review, IV (1897), pp. 341-60, 463-81. Uma
tes inversoras, inicialmente vê o mundo revisão mais atualizada foi produzida por Harvey
inteiro de cabeça para baixo. No começo, A. Carr, An Introduction to Space Perception (New
seu aparato perceptivo funciona como York, 1935), pp. 18-57.
X As Revoluções como Mudanças de Visão de Mundo 95

ção longa o suficiente para permitir que perimentos psicológicos sejam sugesti-
as identificações fossem feitas. Outros vos, eles não podem, dada a natureza do
experimentos ainda demonstram que o caso, ser mais que isso. Eles mostram ca-
tamanho, a cor, etc., de objetos exibidos racterísticas da percepção que poderiam
experimentalmente também variam de ser centrais ao desenvolvimento cientí-
acordo com o treinamento e a experiên- fico. Mas eles não demonstram que a
cia anteriores do participante.2 A explo- observação cuidadosa e controlada que
ração da rica literatura experimental de o cientista-pesquisador exercita chegue
onde foram tirados esses exemplos faz- a compartilhar daquelas características.
nos suspeitar que algo como um para- Ademais, a própria natureza desses ex-
digma é pré-requisito para a própria per- perimentos torna impossível fazer qual-
cepção. O que uma pessoa vê depende ao quer demonstração direta desse ponto.
mesmo tempo daquilo para o que ela olha Se o exemplo histórico deve fazer esses
e daquilo que a sua experiência visual- experimentos psicológicos parecerem re-
conceitual prévia lhe ensinou a ver. Na levantes, devemos antes considerar que
falta de um treinamento assim pode ha- tipos de evidência nós podemos e que ti-
ver apenas – na frase de William James – pos de evidência nós não podemos espe-
uma confusão de brilhos e zumbidos. rar que a história forneça. O participante
Em anos recentes, vários dos interes- de uma demonstração da psicologia da
sados na história da ciência começaram Gestalt sabe que a sua percepção mudou,
a achar os experimentos descritos acima precisamente porque ele pode alternar
imensamente sugestivos. Em especial repetidamente as figuras propiciadas por
N. R. Hanson usou as demonstrações da um desenho enquanto segura o mesmo
Gestalt para elaborar algumas das mes- livro ou folha de papel em suas mãos. Ci-
mas consequências da crença científica ente de que nada mudou em seu ambi-
que me interessam aqui.3 Outros cole- ente, esse participante dirige crescente-
gas observaram repetidamente que a his- mente a atenção para as linhas sobre o
tória da ciência faria um sentido melhor papel para o qual está olhando, e não para
e mais coerente se pudéssemos supor a figura que pode ser ora pato, ora coelho.
que os cientistas ocasionalmente viven- Por fim, ele pode até mesmo aprender
ciaram mudanças de percepção como as a ver tais linhas sem enxergar qualquer
descritas acima. Contudo, embora os ex- uma das figuras. Então ele poderá dizer –
2 Para exemplos, ver Albert H. Hastorf, The
algo que não poderia fazer legitimamente
Influence of Suggestion on the Relationship
antes – que são essas linhas que ele re-
between Stimulus, Size and Perceived Distance, almente vê, mas que ele as vê alternada-
Journal of Psychology, XXIX (1950), pp. 195-217; mente como pato e como coelho. Pela
e Jerome Bruner, Leo Postman, e John Rodri- mesma razão, o participante do experi-
gues, Expectations and the Perception of Color, mento com as cartas de baralho anôma-
American Journal of Psychology, LXIV (1951), pp.
216-27. las sabe – ou, mais precisamente, pode
3 N. R. Hanson, Patterns of Discovery (Cam- ser persuadido – que a sua percepção
bridge, 1958), cap. i. deve ter mudado porque uma autoridade
X As Revoluções como Mudanças de Visão de Mundo 96

externa – o coordenador do experimento ceptivas acompanham as mudanças de


– assegura-lhe que, independentemente paradigma –, não podemos esperar que
do que ele viu, ele estava olhando para os cientistas testifiquem diretamente es-
um cinco de copas preto o tempo todo. sas mudanças. Olhando para a Lua, o
Como em todos os experimentos psicoló- converso ao copernicanismo não diz: Eu
gicos similares, em ambos os casos a efe- via um planeta, mas agora eu vejo um sa-
tividade da demonstração depende dela télite. Essa frase implicaria um sentido
ser analisável dessa maneira. Sem que em que o sistema ptolomaico tivesse sido
houvesse um padrão externo com res- revisado em determinado momento. No
peito ao qual uma alternância de visão lugar disso, um converso à nova astrono-
pudesse ser demonstrada, não se poderia mia diz: Cheguei a considerar a Lua como
tirar qualquer conclusão sobre possibili- um planeta (ou então, Eu via a Lua como
dades perceptivas alternadas. um planeta), mas eu estava equivocado.
Com a observação científica, no en- Esse tipo de afirmação é recorrente na
tanto, a situação é exatamente o oposto. conjuntura que se segue às revoluções ci-
O cientista não pode ter qualquer re- entíficas. Se essa conjuntura usualmente
curso acima e além daquilo que vê com camufla uma mudança na visão científica
os seus olhos e com os seus instrumen- – ou alguma outra transformação mental
tos. Se houvesse uma autoridade mais que tenha o mesmo efeito –, não pode-
elevada a quem recorrer para mostrar que mos esperar um testemunho direto sobre
sua visão mudou, então essa autoridade essa mudança. De preferência, devemos
mesma tornar-se-ia a fonte de seus da- procurar evidência indireta e comporta-
dos, e o comportamento de sua visão se mental de que, com um novo paradigma,
tornaria uma fonte de problemas – exa- agora o cientista vê de um modo diferente
tamente como o comportamento da vi- daquele que via antes.
são do participante de um experimento Retornemos então aos dados e inda-
é uma fonte de problemas para o psicó- guemos que tipos de transformações no
logo. Os mesmos tipos de problemas se- mundo do cientista o historiador que
riam levantados se o cientista pudesse acredita em tais mudanças pode desco-
mudar alternadamente, como o partici- brir. A descoberta de Urano por Sir Wil-
pante dos experimentos da psicologia da liam Herschel oferece um primeiro exem-
Gestalt. O período durante o qual a luz foi plo. É um exemplo que apresenta estreito
às vezes uma onda e às vezes uma partí- paralelo com o experimento das cartas
cula foi um período de crise: um período anômalas. Em pelo menos dezessete oca-
em que alguma coisa estava errada. Esse siões diferentes entre 1690 e 1781, um
período só terminou com o desenvolvi- certo número de astrônomos – incluindo
mento da mecânica ondulatória e com a vários dos mais eminentes observadores
compreensão de que a luz era uma en- da Europa – viu uma estrela em posi-
tidade autoconsistente que difere tanto ções que, atualmente, supomos que de-
das ondas quanto das partículas. Nas ci- vem ter sido ocupadas naquele período
ências, portanto – se as conversões per- por Urano. Um dos melhores observa-
X As Revoluções como Mudanças de Visão de Mundo 97

dores daquele grupo efetivamente viu a neta – não parece, contudo, ter afetado
estrela em quatro noites sucessivas em apenas a percepção do objeto anterior-
1769, sem notar que o seu movimento po- mente observado. Suas consequências
deria ter sugerido uma identificação di- tiveram um alcance muito maior. Em-
ferente. Ou seja, sem notar que aquilo bora a evidência seja equívoca, prova-
não era uma estrela. Herschel observou o velmente essa mudança paradigmática
mesmo objeto pela primeira vez 12 anos menor impulsionada por Herschel tenha
depois, mas com um telescópio muito ajudado a preparar os astrônomos para
mais aperfeiçoado que ele mesmo tinha a rápida descoberta, depois de 1801, de
feito. Isso levou-o a notar um tamanho numerosos planetas menores ou asteroi-
aparente do disco que não era comum des. Em virtude de seu tamanho pe-
entre as estrelas. Havia alguma coisa es- queno, eles não mostram a magnitude
tranha. Então ele deixou para resolver o anômala que alertou Herschel. Não obs-
problema depois que pudesse fazer no- tante, preparados para encontrar plane-
vas observações. Essas novas observa- tas adicionais, os astrônomos tornaram-
ções mostraram o movimento de Urano se capazes, com instrumentos padrão,
em meio às estrelas, o que fez com que de identificar vinte deles nos primeiros
Herschel anunciasse que tinha visto um cinquenta anos do século dezenove.5 A
novo cometa! Só vários meses depois história da astronomia proporciona mui-
– após algumas tentativas frustradas de tos exemplos de mudanças paradigmo-
ajustar o movimento observado à órbita induzidas da percepção científica. Algu-
de um cometa – um outro astrônomo, mas delas até mesmo bem menos equí-
Lexell, sugeriu que aquela poderia ser vocas. Pode-se conceber que tenha sido
uma órbita planetária.4 Quando essa su- um acidente, por exemplo, que os astrô-
gestão foi aceita, o céu dos astrônomos nomos ocidentais só começassem a ver
profissionais perdeu várias estrelas e, ao mudança num céu anteriormente imutá-
mesmo tempo, ganhou um novo planeta. vel no transcurso do meio século que se
O corpo celeste que fora observado es- seguiu à proposta do novo paradigma por
poradicamente por quase um século pas- Copérnico? Os chineses – cujas crenças
sou a ser visto de modo diferente depois cosmológicas não vetavam mudanças no
de 1781. Isso aconteceu porque ele não céu – registraram o aparecimento de mui-
poderia mais ser ajustado às categorias tas novas estrelas nos céus em data muito
perceptivas (estrela ou cometa) forneci- mais antiga. Mesmo sem a ajuda de um
das pelo paradigma que prevalecera até telescópio, acrescente-se que os chine-
então, do mesmo modo que aquela carta ses registraram sistematicamente o apa-
de baralho anômala. recimento de manchas solares bem antes
A mudança de visão que tornou os as- 5 Rudolph Wolf, Geschichte der Astronomie
trônomos capazes de ver Urano – o pla- (München, 1877), pp. 513-15, 683-93. Note-se
particularmente a dificuldade que a exposição de
4 Peter Doig, A Concise History of Astronomy Wolf tem para explicar essas descobertas como

(London, 1950), pp. 115-16. uma consequência da Lei de Bode.


X As Revoluções como Mudanças de Visão de Mundo 98

que elas fossem vistas por Galileu e seus do verbo ‘ver’, poderemos rapidamente
contemporâneos.6 As manchas solares reconhecer que já encontramos muitos
e uma nova estrela também não foram outros exemplos das transformações na
os únicos exemplos de mudança celeste percepção científica que acompanham a
a emergir nos céus da astronomia oci- mudanças de paradigma. O uso esten-
dental imediatamente depois de Copér- dido de ‘percepção’ e de ‘visão’ vai exigir
nico. Usando instrumentos tradicionais logo à frente uma defesa explícita. An-
– alguns tão simples quanto um pedaço tes disso, contudo, deixe-me ilustrar a sua
de barbante – os astrônomos do período aplicação na prática.
mais avançado do século dezesseis des-
cobriram repetidamente que os cometas
percorrem livremente o espaço anterior- Observemos de novo, por um mo-
mente reservado aos planetas e estrelas mento, dois dos nossos exemplos pré-
imutáveis.7 A facilidade e rapidez com vios da história da eletricidade. Durante
que os astrônomos viram novas coisas ao o século dezessete, quando suas pesqui-
olhar para velhos objetos com os velhos sas eram guiadas por uma ou outra teo-
instrumentos nos faz ter vontade de di- ria do eflúvio, os eletricistas viam pedaci-
zer que depois de Copérnico os astrôno- nhos de palha ricochetearem nos – ou se
mos passaram a viver em um mundo di- desprenderem dos – corpos eletrificados
ferente. De qualquer modo, suas pesqui- que as atraíram. Pelo menos é isso que os
sas passaram a ser desenvolvidas como se observadores do século dezessete diziam
esse fosse o caso. ter visto. E nós não temos nenhuma ra-
Os exemplos anteriores foram selecio- zão a mais para duvidar de seus relatos
nados da astronomia porque os relató- de percepção, do que temos para duvi-
rios de observação celeste são frequente- dar dos nossos próprios. Postado diante
mente transmitidos em uma linguagem do mesmo aparato, um observador mo-
de termos de observação relativamente derno iria ver repulsão eletrostática no lu-
puros. Somente nesses relatórios pode- gar de um rebote mecânico ou gravitacio-
mos ter a esperança de encontrar algo nal. Mas historicamente – com uma exce-
como um paralelismo completo entre as ção universalmente ignorada –, a repul-
observações dos cientistas e as obser- são eletrostática não seria vista até que
vações dos participantes de experimen- o gerador eletrostático de Hauksbee ti-
tos feitos pelos psicólogos. Mas nós não vesse ampliado enormemente seus efei-
precisamos insistir num paralelismo tão tos. A repulsão que se segue à eletrifi-
completo. Temos muito a ganhar com cação por contato foi, entretanto, apenas
o relaxamento do nosso padrão. Se es- um entre muitos efeitos de repulsão que
tivermos satisfeitos com o uso cotidiano Hauksbee viu. Por meio de suas pesqui-
6 Joseph Needham, Science and Civilization in
sas – exatamente como nas conversões
China, III (Cambridge, 1959), pp. 423-29, 434-36. da Gestalt – a repulsão tornou-se repen-
7 T. S. Kuhn, The Copernican Revolution (Cam- tinamente uma manifestação fundamen-

bridge, Mass., 1957), pp. 206-9. tal da eletrificação. A partir daí foi a atra-
X As Revoluções como Mudanças de Visão de Mundo 99

ção que passou a exigir explicação.8 Os onde Priestley e seus contemporâneos vi-
fenômenos elétricos visíveis no começo ram uma terra elementar. E ainda houve
do século dezoito foram mais sutis e mais outras mudanças. Como resultado da
variados que os fenômenos elétricos vis- descoberta do oxigênio, no fundo Lavoi-
tos pelos observadores do século dezes- sier passou a ver a natureza diferente-
sete. Ou ainda: depois da assimilação do mente. E na falta de algum recurso àquela
paradigma de Franklin, o eletricista pas- hipotética natureza fixa que ele viu di-
sou a ver algo diferente daquilo que via ferentemente, o princípio de economia
antes ao olhar para a garrafa de Leyden. compele-nos a dizer que, depois de des-
O dispositivo tornara-se um condensa- cobrir o oxigênio, Lavoisier passou a tra-
dor para o qual já não eram requeridos balhar num mundo diferente.
nem vidro nem formato de vaso. No lu- Dentro em pouco devo indagar sobre
gar disso, as duas capas condutoras – uma a possibilidade de evitar essa estranha
das quais não fazia parte do equipamento locução. Mas primeiro invoquemos um
original – passaram a ser proeminentes. exemplo adicional de seu uso. No caso,
Como tanto as discussões escritas quanto um uso que derivou de uma das melho-
as representações gráficas foram gradu- res partes da obra de Galileu. Desde a
almente evidenciando, duas placas de antiguidade remota que muita gente tem
metal com um não-condutor entre elas visto um ou outro corpo pesado, atado
tornaram-se o protótipo dessa classe de a um fio ou corrente, oscilando de um
equipamento.9 Simultaneamente, outros lado para o outro até chegar ao repouso.
efeitos indutivos receberam novas descri- Para os aristotélicos – que acreditavam
ções. E ainda outros desses efeitos indu- que um corpo pesado fosse movido pela
tivos foram notados pela primeira vez. sua própria natureza a partir de uma po-
Mudanças desse tipo não estão restri- sição mais elevada até chegar a um es-
tas à astronomia e à eletricidade. Já ob- tado de repouso em uma posição infe-
servamos que algumas transformações rior – o corpo oscilante estava simples-
de visão similares podem ser obtidas na mente tendo dificuldade para cair. Se-
história da química. Já dissemos que La- guro pela corrente, ele só poderia atingir
voisier viu oxigênio onde Priestley vira ar o repouso no ponto mais baixo, depois de
desflogistizado, e onde outros nem che- um movimento de vai e vem que duraria
garam a ver coisa alguma. No entanto, um tempo considerável. Galileu, por ou-
ao aprender a ver o oxigênio, Lavoisier tro lado, olhando para o corpo oscilante
também teve que mudar sua visão de viu um pêndulo. Ou seja, um corpo que
muitas outras substâncias familiares. Ele quase poderia ter êxito na repetição do
teve que ver, por exemplo, um composto mesmo movimento sucessivas vezes, até
o infinito. Vendo as coisas desse modo,
8 Duane Roller e Duane H. D. Roller, The Deve-
Galileu também observou outras propri-
lopment of the Concept of Electric Charge (Cam-
bridge, Mass.), pp. 21-29. edades do pêndulo, assim como cons-
9 Ver a discussão na Seção VII e a literatura a truiu em torno delas muitas das partes

que leva a referência ali citada. mais significativas e originais da sua nova
X As Revoluções como Mudanças de Visão de Mundo 100

dinâmica. Das propriedades do pêndulo, pelo propulsor que deu início ao movi-
por exemplo, Galileu derivou seus únicos mento. Jean Buridan e Nicole Oresme –
argumentos completos e plausíveis a res- os escolásticos do século catorze que ele-
peito da independência do peso em re- varam a teoria do ímpeto às suas mais
lação à taxa de queda, do mesmo modo perfeitas formulações – são as primeiras
que o relacionamento da altura vertical pessoas de que se tem conhecimento que
com a velocidade final dos movimentos viram nos movimentos oscilatórios uma
na descida de um plano inclinado.10 To- certa porção daquilo que Galileu também
dos esses fenômenos naturais ele viu de viu nesses movimentos. Buridan des-
maneira diferente daquela que ele via an- creve o movimento de uma corda vibrató-
tes. ria como um movimento em que primei-
Por que ocorreu a conversão visual? ramente o ímpeto é implantado quando
Em virtude do gênio de Galileu, é claro. a corda é percutida. A seguir, o ímpeto
Mas observe-se que o gênio não se ma- é consumido no deslocamento da corda
nifesta aqui por meio de uma observação que está contrariando a resistência de seu
mais acurada ou objetiva do corpo osci- próprio tensionamento. A tensão conduz
lante. Descritivamente, a percepção aris- a corda para traz, implantando um ím-
totélica é tão acurada quanto a galileana. peto crescente até que o ponto médio do
Quando Galileu relatou que o período de movimento é atingido. Depois disso o ím-
tempo da oscilação do pêndulo era in- peto desloca a corda na direção oposta,
dependente da amplitude para amplitu- contrariando de novo o tensionamento
des de até 90 ◦ , sua concepção do pêndulo da corda. Isso prossegue em um pro-
levou-o a ver muito mais regularidade do cesso simétrico que pode continuar inde-
que aquela que podemos descobrir nisso finidamente. Mais tarde, no mesmo sé-
atualmente.11 O que parece estar envol- culo, Oresme esboçou uma análise pare-
vido nesse caso de Galileu foi a explora- cida da pedra balançando, naquilo que
ção, por uma pessoa genial, das possi- hoje aparece como a primeira discussão
bilidades de percepção disponibilizadas de um pêndulo.12 Sua visão é claramente
por uma mudança no paradigma medie- muito próxima daquela visão com que
val. Galileu não chegou a se formar com- Galileu abordou o pêndulo pela primeira
pletamente como um aristotélico. Pelo vez. Pelo menos no caso de Oresme – e é
contrário, ele foi treinado para analisar o quase certo que no caso de Galileu tam-
movimento nos termos da teoria do ím- bém –, tal visão tornou-se possível pela
peto. Falo de um paradigma medieval tar- transição do paradigma aristotélico origi-
dio que sustentava que a continuidade nal para o paradigma escolástico do ím-
do movimento de um corpo pesado é de- peto na explicação do movimento. Até
vido a um poder interno nele implantado que o paradigma escolástico fosse inven-
10 Galileo Galilei, Dialogues concerning Two New

Sciences, trad. H. Crew e A. de Salvio (Evanston, 12 M. Clagett, The Science of Mechanics in the

Ill., 1946), pp. 80-81, 162-66. Middle Ages (Madison, Wis., 1959), pp. 537-38,
11 Ibid. pp. 91-94, 244. 570.
X As Revoluções como Mudanças de Visão de Mundo 101

tado, não havia pêndulos para o cien- tempo que a dinâmica newtoniana. Esse
tista ver. Só havia pedras balançando. Os paradigma serviu tanto à ciência quanto
pêndulos foram trazidos à existência por à filosofia. Sua exploração – como a ex-
algo muito parecido com uma conversão ploração da própria dinâmica newtoni-
paradigmo-induzida da Gestalt. ana – foi frutífera para uma fundamen-
No entanto, temos mesmo que descre- tação intelectual que talvez não pudesse
ver aquilo que separa Galileu de Aristó- ser obtida de outra forma. Mas, como o
teles – ou Lavoisier de Priestley – como exemplo da dinâmica newtoniana tam-
uma transformação de visão? Essas pes- bém indica, mesmo o sucesso passado
soas efetivamente viam coisas diferentes mais retumbante não dá nenhuma ga-
ao olhar para os mesmos tipos de obje- rantia de que uma crise não vai se insta-
tos? Haveria algum sentido legítimo em lar algum dia. Atualmente, a pesquisa em
que pudéssemos dizer que elas desen- partes da filosofia, da psicologia, da lin-
volviam suas pesquisas em mundos di- guística e até mesmo da história converge
ferentes? Tais questões não podem mais para sugerir que o paradigma tradicional
ser adiadas já que, obviamente, há um iniciado por Descartes deixou, de algum
modo muito mais costumeiro de descre- modo, de se ajustar a seus resultados.
ver todos os exemplos históricos esboça- Essa dificuldade de ajuste também é tor-
dos acima. Muitos leitores certamente nada cada vez mais aparente pelo estudo
gostariam de dizer que aquilo que muda histórico da ciência a que está dirigida
com um paradigma é só a interpretação aqui, necessariamente, a maior parte da
que o cientista faz das observações. Es- nossa atenção.
sas, por sua vez, seriam fixadas de uma Nenhuma dessas áreas disciplinares
vez por todas pela natureza do ambiente geradoras de crise produziu até agora
e pela natureza do aparato perceptivo. uma alternativa viável para o paradigma
De acordo com essa visão, tanto Priestley epistemológico tradicional. No entanto,
quanto Lavoisier viram o oxigênio, mas elas começam a sugerir o que serão al-
eles interpretaram suas observações di- gumas das características que essa al-
ferentemente. Tanto Aristóteles quanto ternativa paradigmática terá. Eu, por
Galileu teriam visto pêndulos, mas am- exemplo, estou agudamente consciente
bos diferiram em suas interpretações so- das dificuldades criadas quando digo que
bre aquilo que viram. quando Aristóteles e Galileu olhavam
Permitam-me dizer logo de uma vez para pedras que balançavam, o primeiro
que essa concepção muito generalizada via uma queda sendo contida e o se-
sobre o que ocorre quando os cientis- gundo via um pêndulo. De uma forma
tas mudam intelectualmente sobre tópi- ainda mais fundamental, as mesmas di-
cos fundamentais não pode ser nem erro ficuldades se apresentam por meio das
completo, nem mero equívoco. Em vez frases que abrem essa seção: embora o
disso, essa concepção é uma parte essen- mundo não mude com uma mudança de
cial de um paradigma filosófico iniciado paradigma, depois dela o cientista traba-
por Descartes e desenvolvido ao mesmo lha em um mundo diferente. Não obs-
X As Revoluções como Mudanças de Visão de Mundo 102

tante, estou convencido de que devemos uma dessas interpretações pressupôs um


aprender a tornar significativas afirma- paradigma. Elas eram partes da ciência
ções que, pelo menos, se assemelhem a normal, um empreendimento que, como
elas. O que ocorre durante uma revolu- já vimos, visa a refinar, estender e ar-
ção científica não é inteiramente redutí- ticular um paradigma que já existe. A
vel a uma reinterpretação de dados in- Seção III proporcionou muitos exemplos
dividuais e estáveis. Um pêndulo não é em que a interpretação exerceu um pa-
uma pedra que cai, nem o oxigênio é ar pel central. Aqueles exemplos tipificam a
desflogistizado. Consequentemente, os vasta maioria da pesquisa científica. Em
dados que os cientistas coletam a partir decorrência de um paradigma aceito, em
desses objetos diferentes são, como vere- cada um deles o cientista sabia o que era
mos logo à frente, eles mesmos diferen- um dado, sabia quais instrumentos pode-
tes. O que tem ainda maior importância riam ser usados para apreendê-lo, e tam-
é que o processo pelo qual tanto o indiví- bém sabia que conceitos eram relevantes
duo quanto a comunidade fazem a tran- para a sua interpretação. Dado um para-
sição da queda contida para o pêndulo digma, a interpretação de dados é central
– ou do ar desflogistizado para o oxigê- para o empreendimento que os explora.
nio – de modo algum se assemelha com Mas esse empreendimento interpreta-
uma interpretação. Como poderia se as- tivo – e esse foi o tema do penúltimo pará-
semelhar a uma interpretação na ausên- grafo – só pode articular um paradigma.
cia de dados fixos para o cientista inter- Não pode revisá-lo. Os paradigmas não
pretar? No lugar de ser um intérprete, o são de modo algum passíveis de revisão
cientista que interioriza um novo para- pela ciência normal. Ao contrário, como
digma se parece com a pessoa que usa já vimos, a ciência normal leva apenas
lentes invertidas. Confrontando-se com a ao reconhecimento de anomalias e cri-
mesma constelação de objetos que antes ses. E as anomalias e crises são encerra-
– e sabendo que faz isso – o cientista, não das por um evento relativamente repen-
obstante, encontra-a totalmente trans- tino e desestruturado que se assemelha a
formada em muitas de suas particulari- uma conversão da Gestalt. Os cientistas
dades. geralmente falam que de repente tudo fi-
Nenhuma dessas considerações tem a cou claro em uma charada até então obs-
intenção de indicar que os cientistas não cura, ou que o clarão de um relâmpago
interpretem observações e dados de um iluminou essa charada e fez com que seus
modo que lhes é próprio. Pelo contrá- componentes fossem vistos de uma nova
rio. Galileu interpretou observações so- maneira, permitindo pela primeira vez a
bre o pêndulo. Aristóteles interpretou ob- sua solução. Em outras ocasiões, a ilumi-
servações sobre pedras em queda. Mus- nação relevante chega durante o sono.13
schenbroek interpretou observações so-
bre uma garrafa d’água carregada de ele- 13 [Jacques] Hadamard, Subconscient, intuition,
tricidade. Franklin interpretou observa- et logique dans la recherche scientifique (Confé-
ções sobre um condensador. Mas cada rence faite au Palais de la Découverte le 8 Décem-
X As Revoluções como Mudanças de Visão de Mundo 103

Nenhum sentido habitual do termo in- ciência normal guiada por elas não pode-
terpretação ajusta-se a esses relâmpagos ria ter produzido as leis que Galileu des-
de intuição por meio dos quais nasce um cobriu. Ela só poderia – e por um outro
novo paradigma. Essas intuições depen- caminho o fez – ter levado à série de crises
dem da experiência obtida com o para- a partir das quais emergiu a concepção
digma velho. Falo tanto da experiência galileana da pedra balançando. Galileu
anômala quanto da congruente. No en- viu a pedra balançando de modo muito
tanto, tais intuições não estão vincula- diferente como resultado daquelas crises,
das logicamente àquela experiência, nem e de ainda outras mudanças intelectuais,
expressam conexões que correspondam quais sejam: o trabalho de Arquimedes
a cada particularidade daquela experi- sobre corpos flutuantes tornou o meio
ência, como seria o caso de uma inter- algo não essencial; a teoria do ímpeto
pretação. Pelo contrário, as intuições a fez do movimento algo simétrico e dura-
que me refiro sintetizam grandes porções douro; o neoplatonismo dirigiu a atenção
daquela experiência e as transformam de Galileu para a forma circular do movi-
no agregado experiencial muito diferente mento.15 Assim, ele só mediu o peso, o
que vai, a partir daí, vincular-se gradati- raio, o deslocamento angular e o tempo
vamente ao novo paradigma – mas não ao de cada oscilação. Esses foram precisa-
paradigma velho. mente os dados que podiam ser inter-
Para aprender mais sobre o que es- pretados para produzir as leis galileanas
sas experiências podem ser, voltemos por do pêndulo. Nesse caso, a interpretação
um momento a Aristóteles, Galileu e o mostrou-se quase desnecessária. Dados
pêndulo. Que dados a interação entre os paradigmas de Galileu, as regularida-
seus diferentes paradigmas e seus ambi- des de tipo pendular tornavam-se acessí-
entes comuns torna acessíveis a cada um veis quase à primeira vista. De que ou-
deles? Vendo a queda contida o aristoté- tro modo poderíamos explicar a desco-
lico iria medir – ou pelo menos discutir; berta de Galileu segundo a qual o período
o aristotélico raramente media – o peso da oscilação do bulbo do pêndulo é intei-
da pedra, a altura vertical a que a pedra ramente independente da amplitude da
foi alçada e o tempo requerido para atin- oscilação – uma descoberta que a ciên-
gir o repouso. Junto com a resistência do cia normal que brotou do próprio Gali-
meio, tais foram as categorias conceitu- leu teve que erradicar, e que hoje pratica-
ais desenvolvidas pela ciência aristotélica mente não somos capazes de documen-
para lidar com um corpo em queda.14 A tar? Regularidades que não poderiam ter
existido para um aristotélico – e que, de
bre 1945 [Alençon, n. d.]), pp. 7-8. Uma exposi- fato, não são exemplificadas com preci-
ção muito mais completa – embora restrita exclu-
sivamente às inovações matemáticas – é a obra do I. B. Cohen, a ser publicado pela Hermann (Paris)
mesmo autor The Psychology of Invention in the em 1963.
Mathematical Field (Princeton, 1949). 15 A. Koyré, Études Galiléennes (Paris, 1939), I,
14 T. S. Kuhn, A Function for Thought Experi- pp. 46-51; e Galileo and Plato, Journal of the His-
ments, in Mélanges Alexandre Koyré, ed. R. Taton e tory of Ideas, IV (1943), pp. 400-428.
X As Revoluções como Mudanças de Visão de Mundo 104

são pela natureza em nenhum lugar – fo- lástica mudou a maneira de ver o movi-
ram consequências da experiência ime- mento. A pedra movida pelo ímpeto ga-
diata da pessoa que viu a pedra oscilando nhava cada vez mais ímpeto na medida
do mesmo modo que Galileu. em que retrocedia em relação a seu ponto
Talvez esse nosso exemplo não passe de partida. Distância de – em vez de dis-
de imaginação, já que os aristotélicos não tância para – tornou-se, portanto, o parâ-
deixaram nenhum registro de discussões metro relevante. Ademais, a noção aris-
sobre pedras balançando. No marco de totélica de velocidade foi bifurcada pe-
seu paradigma isso era um fenômeno los escolásticos em conceitos que, logo
extraordinariamente complexo. Mas os depois de Galileu, se tornaram nossas
aristotélicos discutiram o caso mais sim- velocidade média e velocidade instantâ-
ples de pedras caindo sem que houvesse nea. Mas, quando vista através dos pa-
algum embaraço incomum. E podemos radigmas de que essas concepções eram
ver que as mesmas diferenças de visão es- parte, a pedra caindo – como o pêndulo
tão presentes nessa discussão. Contem- – exibia as leis que a governavam quase
plando uma pedra em queda, Aristóte- por inspeção. Galileu não foi uma das
les via uma mudança de estado ao in- primeiras pessoas a sugerir que as pe-
vés de um processo. Para ele, as medi- dras caem com um movimento unifor-
das relevantes eram, portanto, a distân- memente acelerado.18 Além disso, ele te-
cia total coberta e o tempo total decor- ria desenvolvido seu teorema sobre esse
rido. Esses parâmetros não produzem tópico – juntamente com muitas das suas
aquilo que chamaríamos velocidade, mas consequências – antes que fizesse os ex-
velocidade média.16 Similarmente – por- perimentos com o plano inclinado. Tal
que a pedra era impelida por sua pró- teorema foi só mais uma regularidade de
pria natureza para atingir seu ponto fi- toda uma rede de novas regularidades
nal de repouso –, Aristóteles via o rele- acessíveis ao gênio no mundo – mundo
vante parâmetro da distância, em qual- conjuntamente determinado pela natu-
quer instante da duração do movimento, reza e pelos paradigmas – em que Galileu
como a distância para o ponto final, no e seus contemporâneos cresceram. Vi-
lugar da distância desde a origem do mo- vendo naquele mundo, Galileu ainda po-
vimento.17 Esses parâmetros conceituais deria explicar, quando lhe foi oportuno,
subjazem e dão sentido a quase todas as por que Aristóteles vira o que viu. No en-
bem conhecidas leis do movimento. No tanto, o conteúdo imediato da experiên-
entanto, em parte por meio do paradigma cia de Galileu com as pedras em queda
do ímpeto e em parte por meio de uma não foi o mesmo da experiência de Aris-
doutrina conhecida como a latitude das tóteles.
formas, a crítica desenvolvida pela esco- Como é de se esperar, de modo algum
16 Kuhn, A Function for Thought Experiments, está clara a necessidade de que nos pre-

in Mélanges Alexandre Koyré (ver nota 14 para a ocupemos tanto com a experiência ime-
referência completa).
17 Koyré, Études, II, pp. 7-11. 18 Clagett, op. cit., caps. iv, vi e ix.
X As Revoluções como Mudanças de Visão de Mundo 105

diata. Isto é, de modo algum está clara sência de uma alternativa desenvolvida,
a necessidade de que nos preocupemos acho impossível renunciar inteiramente
com os aspectos perceptivos que um pa- a esse ponto de vista. Contudo, ele já não
radigma põe em tal destaque que eles funciona eficazmente. Nos dias de hoje,
manifestam suas regularidades quase por parecem-me vãs as tentativas de fazê-lo
inspeção. Tais aspectos devem obvia- funcionar com eficiência por meio da in-
mente mudar quando mudam os com- trodução de uma linguagem observacio-
prometimentos do cientista com os pa- nal neutra. As operações e mensurações
radigmas. Mas eles estão longe daquilo que um cientista empreende no labora-
que em geral temos em mente quando fa- tório não são o dado da experiência mas,
lamos dos dados crus ou da experiência mais precisamente, o coligido com difi-
bruta de que, alegadamente, procede a culdade. Elas não são aquilo que o ci-
investigação científica. Talvez a experiên- entista vê – pelo menos não antes que
cia imediata devesse ser posta de lado de- sua pesquisa esteja bem avançada e a
vido à sua fluidez. Em vez disso, talvez de- sua atenção esteja focalizada. Elas são
vêssemos discutir as operações concretas mais especificamente indicações concre-
e as mensurações que o cientista realiza tas do conteúdo de percepções mais ele-
em seu laboratório. Ou talvez a análise mentares. Como tais, elas são seleci-
devesse ser conduzida a uma distância onadas para exame cuidadoso só por-
ainda maior do imediatamente dado. Ela que prometem uma oportunidade para a
talvez devesse, por exemplo, ser condu- elaboração proveitosa de um paradigma
zida em termos de alguma linguagem ob- aceito. Muito mais claramente que a ex-
servacional neutra: uma linguagem pro- periência imediata de que em parte deri-
jetada para se adequar às impressões re- vam, as operações e as mensurações são
tinais que mediatizam aquilo que o ci- paradigmo-determinadas. A ciência não
entista vê. Somente seguindo um des- se ocupa de todas as manipulações labo-
ses caminhos podemos ter a esperança ratoriais possíveis. Em vez disso, a ciência
de encontrar um reino em que a experi- seleciona aquelas manipulações de labo-
ência volte a ser estável de uma vez por ratório que são relevantes para a justapo-
todas. Um reino em que o pêndulo e a sição de um paradigma com a experiên-
queda contida não são percepções dife- cia imediata que, por sua vez, foi até certo
rentes, mas diferentes interpretações dos ponto determinada pelo próprio para-
dados inequívocos proporcionados pela digma. Como resultado disso, cientis-
observação de uma pedra que balança. tas com diferentes paradigmas engajam-
Mas a experiência sensorial é fixa e se em diferentes manipulações de labo-
neutra? As teorias são simplesmente in- ratório concretas. As mensurações que
terpretações artificiais de dados fixos? O são feitas a propósito do pêndulo não
ponto de vista epistemológico que mais são as mensurações relevantes no caso
frequentemente orientou a filosofia oci- da queda contida. Também não são as
dental nos últimos três séculos decreta operações relevantes para a elucidação
um imediato e inequívoco sim! Na au- das propriedades do oxigênio uniforme-
X As Revoluções como Mudanças de Visão de Mundo 106

mente as mesmas que as operações re- é uma linguagem que – como as lingua-
queridas na investigação das característi- gens empregadas nas ciências – contém
cas do ar desflogistizado. uma multidão de suposições sobre a na-
Talvez ainda venha a ser formulada tureza, parando de funcionar quando es-
uma linguagem observacional pura. Mas, sas expectativas são violadas. Nelson Go-
três séculos depois de Descartes nossa odman aponta exatamente para isso ao
esperança de que isso ocorra ainda de- descrever os objetivos do seu The Struc-
pende exclusivamente de uma teoria da ture of Appearance:
percepção e da mente. E a moderna
experimentação psicológica está rapida- É providencial que nada mais
mente proliferando fenômenos com que esteja em questão[do que fenô-
a teoria cartesiana já não consegue lidar. menos que sabemos que exis-
O pato-coelho mostra que duas pessoas tem]. Isso porque a noção de
com as mesmas impressões retinais po- casos ‘possíveis’ – de casos que
dem ver coisas diferentes. As lentes inver- não existem mas que poderiam
soras mostram que dois homens com im- ter existido – está longe de ser
pressões retinais diferentes podem ver a clara.19
mesma coisa. A psicologia proporciona
Nenhuma linguagem que assim se res-
uma grande quantidade de outras evi-
tringe para expressar um mundo inteira-
dências para o mesmo efeito, e as dúvi-
mente conhecido por antecipação pode
das que derivam disso são prontamente
produzir meros informes neutros e obje-
reforçadas pela história das tentativas de
tivos sobre o dado. A investigação filosó-
formular uma linguagem de observação
genuína. Nenhuma tentativa atual feita 19 N.
Goodman, The Structure of Appearance
para atingir tal fim sequer chegou perto (Cambridge, Mass., 1951), pp. 4-5. Essa passagem
de uma linguagem de perceptos puros merece ser transcrita mais extensamente:
universalmente aplicável. E aquelas ten- Se todos e tão somente os residen-
tativas que mais se aproximaram de de- tes de Wilmington em 1947 que pe-
sam entre 80 e 82 kg têm cabelo ruivo,
senvolver uma linguagem dessa ordem então ‘ruivo residente em Wilmington
reforçam poderosamente várias das prin- em 1947’ e ‘residente de Wilmington
cipais teses desse ensaio. Desde o iní- em 1947 pesando entre 80 e 82 kg’ po-
cio, elas pressupõem um paradigma ti- dem ser integrados em uma definição
rado de uma teoria científica corrente, ou construcional. ... A questão se ‘poderia
ter havido’ alguém a quem um desses
de alguma fração do discurso cotidiano. predicados poderia ser aplicado mas
A seguir, elas tentam expurgar esse para- não o outro não se sustenta ... uma vez
digma de todos os termos não lógicos e que já determinamos que não há uma
não perceptuais. Em uns poucos reinos pessoa assim. ... É providencial que
do discurso esse esforço chegou a avan- nada mais esteja em questão, já que
a noção de casos ‘possíveis’ – de casos
çar bastante, com resultados fascinantes. que não existem mas que poderiam ter
Não há dúvida de que vale a pena realizar existido – está longe de ser clara.
esforços desse tipo. Mas o seu resultado
X As Revoluções como Mudanças de Visão de Mundo 107

fica ainda não produziu sequer uma su- se lembrarmos de novo que nem o ci-
gestão de como seria uma linguagem ca- entista nem o leigo aprendem a ver o
paz de fazer isso. mundo em parcelas ou item por item. Ex-
Nessas circunstâncias, podemos pelo ceto quando todas as categorias concei-
menos suspeitar que os cientistas estão tuais e todas as categorias manipulativas
certos em princípio, assim como na já foram preparadas com antecedência
prática, quando eles tratam oxigênio e – por exemplo para a descoberta de um
pêndulos – e talvez também átomos e elemento transurânico adicional ou para
elétrons – como ingredientes fundamen- avistar uma nova casa –, tanto o cientista
tais da sua experiência imediata. Como quanto o leigo separam áreas conjuntas
resultado da experiência paradigmo- inteiras do fluxo de experiência. A criança
estruturada da espécie, da cultura e, que transfere a palavra ‘mamãe’ de todos
finalmente, da profissão, o mundo do ci- os humanos para todas as mulheres e a
entista acabou por se povoar de planetas seguir apenas para a sua mãe, não está
e pêndulos, condensadores e agregados apenas aprendendo o que significa ‘ma-
minerais, entre muitos outros conjuntos mãe’ ou quem é sua mãe. Simultanea-
de espécie similar. Comparados com mente, ela está aprendendo algumas das
esses objetos da percepção, a leitura de diferenças entre homens e mulheres, as-
medidores e as impressões retinais são sim como está aprendendo alguma coisa
construtos intrincados a que a experiên- sobre as maneiras como, entre todas as
cia tem acesso direto apenas quando o mulheres, apenas uma vai ter determina-
cientista – para os propósitos específicos das formas de comportamento para com
da sua pesquisa – manipula uma e outra ela. Suas reações, expectativas e crenças
para que produzam tal efeito. Isso não – de fato, boa parte do seu mundo per-
é sugerir que os pêndulos, por exemplo, cebido – mudam correspondentemente.
são as únicas coisas que um cientista Pela mesma razão, os copernicanos que
possivelmente veria ao olhar para uma negaram ao Sol o seu tradicional título
pedra balançando.20 Mas é sugerir que de ‘planeta’ não estavam apenas apren-
o cientista que olha para uma pedra dendo o que significava um planeta, ou
balançando não possa ter experiência o que era o Sol. Ao invés disso, eles esta-
alguma que seja, em princípio, mais vam mudando o significado de ‘planeta’,
elementar que ver um pêndulo. A alter- de modo que ele pudesse continuar a fa-
nativa não é alguma hipotética visão fixa. zer distinções úteis em um mundo em
A alternativa só pode ser visão através de que todos os corpos celestes – e não só o
um outro paradigma: um paradigma que Sol – estavam sendo vistos de um modo
torne a pedra balançando algo diferente. diferente do modo como tinham sido vis-
Tudo isso pode parecer mais razoável tos até então. A mesma observação pode-
ria ser feita sobre qualquer um dos nos-
20 Já observamos que os membros de uma outra sos exemplos anteriores. Ver oxigênio no

comunidade científica poderiam ver nisso uma lugar de ar desflogistizado, ver o conden-
queda contida. sador no lugar da garrafa de Leyden, ou
X As Revoluções como Mudanças de Visão de Mundo 108

ver o pêndulo no lugar da queda contida atenção nas operações de laboratório que
era apenas uma parcela de uma conver- municiam o cientista com indicadores
são integradora de um grande número de concretos, ainda que fragmentários, da-
fenômenos químicos, elétricos e dinâmi- quilo que ele já viu. Um sentido em
cos inter-relacionados na constituição da que tais operações de laboratório mu-
visão do cientista. Os paradigmas deter- dam com os paradigmas já foi observado
minam amplas áreas da experiência ao repetidamente. Depois de uma revolu-
mesmo tempo. ção científica, muitas das antigas ma-
Entretanto, é só depois que a experi- nipulações e mensurações tornam-se ir-
ência foi determinada desse modo que a relevantes e outras diferentes se põem
busca por uma definição operacional ou em seu lugar. Não se aplicam ao oxigê-
por uma linguagem observacional pura nio todos os mesmos testes aplicados ao
pode começar. O cientista que pergunta ar desflogistizado. Mas mudanças desse
quais mensurações ou impressões reti- tipo nunca são totais. O que quer que
nais fazem do pêndulo o que ele é, já ele possa estar vendo, depois de uma
deve ser capaz de reconhecer um pên- revolução o cientista ainda está exami-
dulo quando vê um. Se em vez disso ele nando o mesmo mundo. Ademais – ainda
visse uma queda contida, sua pergunta que ele possa tê-los empregado anteri-
nem poderia ser feita. E se ele visse um ormente de modo diferente –, muito da
pêndulo, mas o visse do mesmo modo sua linguagem e a maior parte de seus
que viu um diapasão ou uma roda osci- instrumentos de laboratório ainda são os
latória de relógio, sua pergunta não po- mesmos que eram antes. Como resul-
deria ser respondida. Pelo menos não tado, a ciência pós-revolucionária inva-
poderia ser respondida da mesma ma- riavelmente inclui muitas das mesmas
neira, porque já não seria a mesma per- manipulações – executadas com os mes-
gunta. Portanto – embora elas sejam mos instrumentos e descritas nos mes-
sempre legítimas e são às vezes extraordi- mos termos – que sua predecessora pré-
nariamente produtivas –, as questões so- revolucionária. Se essas manipulações
bre impressões retinais ou sobre as con- renitentes chegaram a sofrer alguma mu-
sequências de manipulações específicas dança, essa modificação deve residir em
de laboratório pressupõem um mundo suas relações com o novo paradigma ou
que já foi perceptiva e conceitualmente em seus resultados concretos. Pela intro-
subdividido de certa maneira. Em certo dução de um último e novo exemplo, vou
sentido, tais questões são componentes sugerir agora que esses dois tipos de mu-
da ciência normal, já que dependem da dança ocorrem. Examinando o trabalho
existência de um paradigma. E resulta re- de Dalton e seus contemporâneos, va-
ceberem respostas diferentes no caso de mos descobrir que uma mesma operação
uma mudança de paradigma. – quando ela se conecta à natureza atra-
Para concluir essa seção, vamos daqui vés de um novo paradigma – pode se tor-
por diante deixar de lado as impressões nar o indicador de um aspecto muito di-
retinais e novamente concentrar nossa ferente da regularidade da natureza. Ade-
X As Revoluções como Mudanças de Visão de Mundo 109

mais, veremos que em seu novo papel a assimilação do trabalho de Dalton. Os


a velha manipulação vai ocasionalmente químicos do século dezoito reconheciam
produzir resultados concretos diferentes. dois tipos de processos. Considerava-se
No decorrer de boa parte do século que tinha ocorrido uma união química
dezoito e entrando no século dezenove, quando a mistura produzia calor, luz,
os químicos europeus acreditaram quase efervescência ou alguma outra coisa do
universalmente que os átomos elemen- mesmo tipo. Se, por outro lado, as partí-
tares de que consistiam todas as espé- culas presentes na mistura pudessem ser
cies químicas eram mantidos juntos por distinguidas a olho nu ou separadas me-
forças de afinidade mútua. Assim, uma canicamente, tinha-se apenas mistura fí-
certa quantidade de prata mantém-se sica. Mas em um grande número de ca-
aglutinada por causa das forças de afi- sos intermediários – sal na água, amálga-
nidade entre os corpúsculos de prata.21 mas, vidro, oxigênio na atmosfera e assim
De acordo com a mesma teoria, a prata por diante – esses critérios toscos eram de
dissolvia-se em ácido (ou o sal se dissol- pouco uso. Guiada por seu paradigma,
via na água) porque as partículas de ácido a maioria dos químicos via todo esse le-
atraíam as partículas de prata (ou as par- que intermediário como químico, já que
tículas de água atraíam as partículas de os processos de que esse leque se com-
sal) mais fortemente do que as partícu- punha eram todos governados por forças
las de ambos os solutos atraíam-se mu- do mesmo tipo. Sal na água ou oxigênio
tuamente. E ainda: o cobre dissolver- no nitrogênio eram exemplos de combi-
se-ia numa solução de prata e precipi- nação química, do mesmo modo que a
taria a prata porque a afinidade do co- combinação produzida pela oxidação do
bre com o ácido era maior que a afini- cobre. Os argumentos para que se vis-
dade do ácido com a prata. Uma grande sem as soluções como compostos eram
quantidade de outros fenômenos era ex- muito fortes. A própria teoria da afini-
plicada do mesmo modo. No século de- dade era bem atestada. Ademais, a for-
zoito, a teoria da afinidade eletiva era um mação de um composto explicava a ho-
paradigma da química admirável e am- mogeneidade observada em uma solu-
plamente – às vezes até mesmo frutife- ção. Se, por exemplo, o oxigênio e o ni-
ramente – desenvolvido para projetar e trogênio fossem apenas misturados – e
analisar a experimentação química.22 não combinados na atmosfera – então o
A teoria da afinidade, contudo, traçou gás mais pesado deveria acomodar-se no
a linha demarcatória entre as misturas fundo. Dalton, que considerava que a at-
físicas e os compostos químicos de um mosfera fosse uma mistura, nunca foi ca-
modo que deixou de ser familiar desde paz de explicar satisfatoriamente por que
o oxigênio não conseguia fazer isso. A as-
21 Mesmo depois de Lavoisier esses corpúsculos
similação da sua teoria atômica acabou
eram eles mesmos pensados como sendo com-
postos de partículas ainda mais elementares. criando uma anomalia onde antes não
22 H. Metzger, Newton, Stahl, Boerhaave et la

doctrine chimique (Paris, 1930), pp. 34-68.


X As Revoluções como Mudanças de Visão de Mundo 110

havia qualquer anomalia.23 ações, o químico alemão Richter chegou


Alguém poderia ser tentado a dizer que inclusive a observar novas regularidades,
os químicos que viam soluções como que agora são abrangidas pela lei dos
compostos diferiam de seus sucessores equivalentes químicos.24 Mas nenhum
apenas em matéria de definição. Em químico fez uso dessas regularidades, ex-
certo sentido, esse pode ter sido o caso. ceto em receitas. E nenhum deles – pelo
Mas esse não é o sentido que faz das de- menos até quase o final do século – pen-
finições meras conveniências convencio- sou em generalizá-las. Dados os contra-
nais. No século dezoito, as misturas não exemplos óbvios – como o vidro e o sal
eram inteiramente distinguidas dos com- na água –, nenhuma generalização se-
postos pelos testes operacionais – e talvez ria possível sem o abandono da teoria da
nem pudessem ter sido. Mesmo se os quí- afinidade e sem a reconceituação dos li-
micos tivessem procurado por tais testes, mites do domínio do químico. Tal con-
isso não seria senão a busca de critérios sequência tornou-se explícita no finalzi-
que fizessem da solução um composto. nho do século em um debate entre os quí-
A distinção mistura-composto era parte micos franceses Proust e Berthollet. O
de seu paradigma – parte do modo como primeiro afirmava que todas as reações
eles viam todo o seu campo de investiga- químicas ocorriam em proporção fixa. O
ção – e, como tal, ela era anterior a qual- segundo dizia que não. Cada um coletou
quer teste de laboratório em particular, impressionante evidência experimental
ainda que a distinção mistura-composto para a sua concepção. Não obstante, o
não fosse anterior à experiência da quí- que cada um falava não podia produzir
mica como um todo. qualquer efeito sobre o outro, e o seu de-
Mas, enquanto a química era vista bate permaneceu completamente incon-
dessa maneira, os fenômenos químicos clusivo. Onde Berthollet via um com-
exemplificavam leis diferentes daquelas posto que poderia variar proporcional-
que emergiram com a assimilação do mente, Proust via só uma mistura física.25
novo paradigma de Dalton. Em par- Para resolver essa controvérsia não po-
ticular, enquanto as soluções continu- deria ser relevante nem o experimento
aram compostos nenhum montante de nem uma mudança na convenção defini-
experimentação química poderia, por si cional. As duas pessoas estavam funda-
mesmo, produzir a lei das proporções fi- mentalmente intercambiando projeções
xas. No final do século dezoito era am- mutuamente incompatíveis, do mesmo
plamente sabido que alguns compostos modo que Galileu e Aristóteles.
comumente continham proporções fixas Essa era a situação durante os anos em
segundo o peso de seus elementos cons-
24 J. R. Partington, A Short History of Chemistry
tituintes. Para algumas categorias de re-
(2d ed.; London, 1951), pp. 161-63.
23 Ibid., pp. 124-29, 139-48. Para Dalton, ver 25 A. N. Meldrum, The Development of the Ato-

Leonard K. Nash, The Atomic-Molecular Theory mic Theory: (1) Berthollet’s Doctrine of Variable
(Harvard Case Histories in Experimental Science, Proportions, Manchester Memoirs, LIV (1910), pp.
Case 4; Cambridge, Mass., 1950), pp. 14-21. 1-16.
X As Revoluções como Mudanças de Visão de Mundo 111

que John Dalton empreendeu a investi- gia. Para Dalton, qualquer reação em que
gação que acabaria por levar à sua fa- os ingredientes não entram em propor-
mosa teoria química atômica. Mas até ção fixa não poderia ser, por isso mesmo,
os mais avançados estágios dessa inves- um processo puramente químico. Uma
tigação, Dalton nem era um químico e lei que a experimentação não poderia ter
nem estava interessado na química. Em estabelecido antes do trabalho de Dalton
vez disso, ele era um meteorologista in- tornou-se, depois da aceitação desse tra-
vestigando os – para ele – problemas da balho, um princípio que nenhum con-
absorção de gases pela água e a absor- junto específico de mensurações quími-
ção da água pela atmosfera. Em parte cas poderia abalar. Como resultado da-
porque seu treinamento deu-se em uma quele que é, talvez, nosso exemplo mais
especialidade diferente, e em parte por completo de uma revolução científica, as
causa de seu próprio trabalho naquela es- mesmas manipulações químicas assumi-
pecialidade, ele abordou aqueles proble- ram um relacionamento com a genera-
mas com um paradigma diferente do pa- lização química muito diferente daquele
radigma dos químicos contemporâneos. que tinham tido antes.
Em particular, ele viu a mistura de ga- Nem é preciso dizer que as conclu-
ses ou a absorção de um gás pela água sões de Dalton foram amplamente ata-
como um processo físico. Um processo cadas quando de seu primeiro anún-
em que as forças de afinidade não exer- cio. Berthollet, em particular, jamais
ciam papel algum. Para ele, portanto, a convenceu-se. Considerando a natu-
homogeneidade que se observa nas solu- reza da controvérsia, ele não necessari-
ções era um problema. Mas um problema amente deveria ter-se convencido. Mas,
que ele imaginava poder resolver se pu- para a maioria dos químicos o novo pa-
desse determinar em suas misturas expe- radigma mostrou-se convincente preci-
rimentais os tamanhos e pesos relativos samente naquilo que o paradigma de
das várias partículas atômicas. Foi para Proust não tinha sido. Isso porque o
determinar esses tamanhos e pesos que novo paradigma de Dalton tinha impli-
Dalton finalmente voltou-se para a quí- cações de alcance muito mais amplo do
mica, supondo desde o início que, no res- que o de ser apenas um novo critério
trito leque de reações que ele achava que para distinguir uma mistura de um com-
eram químicas, os átomos só poderiam posto. Se, por exemplo, os átomos só
combinar-se um a um ou em alguma ou- podiam combinar-se em razões simples
tra razão simples de números inteiros.26 de números inteiros, então um reexame
Essa suposição natural permitiu-lhe de- dos dados químicos existentes deveria
terminar os tamanhos e os pesos das par- explicitar exemplos de proporções múl-
tículas elementares, mas também fez da tiplas e de proporções fixas. Os quími-
lei da proporção constante uma tautolo- cos pararam de escrever que dois óxi-
dos de, digamos, carbono continham 56
26 L. K. Nash, The Origin of Dalton’s Chemical por cento e 72 por cento de oxigênio por

Atomic Theory, Isis, XLVII (1956), 101-16. peso. Em vez disso, eles passaram a es-
X As Revoluções como Mudanças de Visão de Mundo 112

crever que um peso de carbono combi- da química dados que sustentassem sua
naria tanto com 1.3 quanto com 2.6 pe- teoria física, ele encontrou alguns regis-
sos de oxigênio. Quando os resultados tros de reações que concordavam com
das antigas manipulações foram registra- ela. Mas ele dificilmente poderia evitar
dos dessa forma, uma razão de 2:1 saltou o encontro de outros que não se ajus-
aos olhos. Isso ocorreu na análise de mui- tavam à sua teoria. As próprias medi-
tas reações bem conhecidas, e de novas das obtidas por Proust sobre os dois óxi-
reações também. Em acréscimo, o para- dos de cobre produziram uma razão de
digma de Dalton tornou possível assimi- 1.47 : 1 para o peso do oxigênio, no
lar o trabalho de Richter e ver sua plena lugar da razão 2 : 1 exigida pela teo-
generalidade. Ele também sugeriu no- ria química. E Proust é precisamente a
vos experimentos, particularmente os de pessoa de quem se poderia esperar obter
Gay-Lussac sobre a combinação de volu- a razão proporcional daltoniana.28 Isto
mes. Esses novos experimentos, por sua é, ele foi um admirável experimentador
vez, produziram ainda outras regularida- e sua concepção da relação entre mis-
des: regularidades com que os químicos turas e compostos estava muito próxima
jamais sonharam. O que os químicos to- da concepção de Dalton. Mas é traba-
maram de Dalton não foram novas leis lhoso fazer a natureza ajustar-se ao pa-
experimentais, mas uma nova maneira radigma. Por isso as charadas da ciên-
de praticar a química. O próprio Dalton a cia normal são tão desafiadoras, e tam-
denominara novo sistema de filosofia quí- bém por que mensurações empreendidas
mica. Ela mostrou ser frutífera tão rapi- sem um paradigma tão raramente levam
damente que só uns poucos entres os quí- a alguma conclusão. Portanto, os quími-
micos mais velhos da França e da Grã- cos não poderiam simplesmente aceitar a
Bretanha foram capazes de lhe opor re- teoria de Dalton com base na evidência.
sistência.27 Como resultado, os quími- Boa parte dela ainda era negativa. Em vez
cos passaram a viver em um mundo em disso, mesmo depois de aceitar a teoria,
que as reações químicas comportavam- eles tiveram que martelar a natureza até
se de um modo muito diferente da ma- que ela se ajustasse ao desenho num pro-
neira como se tinham comportado ante- cesso que, no caso, duraria quase o pe-
riormente. ríodo de uma nova geração. Quando isso
Na medida em que tudo isso teve foi feito, mesmo a composição porcen-
prosseguimento, ocorreu uma outra mu- tual de compostos bem conhecidos ficou
dança típica e muito importante. Aqui diferente. Os próprios dados mudaram.
e acolá os próprios dados numéricos da
química começaram a mudar. Quando 28 Para Proust, ver Meldrum, Berthollet’s Doc-

Dalton começou a buscar na literatura trine of Variable Proportions, Manchester Me-


moirs, LIV (1910), p. 8. A história detalhada das
27 A. N. Meldrum, The Development of the Ato- mudanças graduais nas medidas da composição

mic Theory: (6) The Reception Accorded to the química e dos pesos atômicos ainda tem que ser
Theory Advocated by Dalton, Manchester Me- escrita, mas Partington, op. cit. fornece muitas
moirs, LV (1911), pp. 1-10. sugestões úteis para ela.
X As Revoluções como Mudanças de Visão de Mundo 113

Esse é o último dos sentidos em que nós


podemos ter vontade de dizer que depois
de uma revolução os cientistas trabalham
em um mundo diferente.
XI A Invisibilidade das Revoluções 114

XI

A Invisibilidade das Revoluções

Ainda devemos perguntar como as re- dade ao exemplo histórico. Ademais –


voluções se encerram. Antes disso, no embora esse ponto só possa ser inteira-
entanto, acho que precisamos fazer uma mente desenvolvido na última seção –, a
última tentativa de reforçar a convicção análise que se impõe agora vai começar
da própria existência das revoluções. Até a indicar um dos aspectos do trabalho ci-
o momento eu tentei mostrar as revolu- entífico que mais claramente o distingue
ções por meio de ilustrações. Os exem- de qualquer outra ocupação criativa, com
plos poderiam ser multiplicados até en- exceção, talvez, da teologia.
joarmos. Todavia, claramente, a maio- Como fonte de autoridade eu tenho
ria desses exemplos – que foram seleci- em mente principalmente os manuais ci-
onados pela sua familiaridade – não tem entíficos, juntamente com os trabalhos
sido vista costumeiramente como revo- de popularização e os trabalhos filosófi-
luções, mas como adições ao conheci- cos modelados naqueles manuais. Es-
mento científico. Essa mesma concep- sas três categorias têm uma coisa em co-
ção poderia ser extraída de quaisquer ou- mum.1 Elas reportam-se a um corpo já
tras ilustrações que adicionássemos, mas articulado de problemas, dados e teoria.
tais acréscimos já não teriam qualquer Mais comumente, reportam-se ao con-
efeito. Então sugiro que há razões muito junto particular de paradigmas com que
boas para que as revoluções tenham-se a comunidade científica está comprome-
mostrado quase invisíveis. Tanto os ci- tida no momento em que são escritos. Os
entistas quanto os leigos tiram boa parte próprios livros didáticos ou manuais vi-
da imagem que têm da atividade cien- sam a comunicar o vocabulário e a sin-
tífica criativa de uma fonte legítima que taxe de uma linguagem científica con-
disfarça sistematicamente – em parte por temporânea. As publicações de divulga-
importantes razões funcionais – a exis- ção científica popular tentam descrever
tência e o significado das revoluções ci-
entíficas. Só quando a natureza dessa au- 1 Considero que até recentemente não estavam
toridade é reconhecida e analisada pode- disponíveis quaisquer outras fontes significativas
se ter a esperança de dar plena efetivi- de informação sobre a ciência, à exceção daquela
propiciada pela prática da investigação.
XI A Invisibilidade das Revoluções 115

as mesmas aplicações presentes nos ma- para a perpetuação da ciência normal, os


nuais em uma linguagem mais próxima manuais têm que ser reescritos no todo
da vida cotidiana. A filosofia da ciência – ou em parte quando quer que mudem a
particularmente aquela do mundo de lín- linguagem, a estrutura de problematiza-
gua inglesa –, por sua vez, analisa a es- ção e os padrões da ciência normal. Em
trutura lógica do mesmo corpo estabe- resumo, os livros didáticos têm que ser re-
lecido de conhecimento científico. Em- escritos na nova conjuntura que se segue
bora um tratamento mais amplo tivesse a uma revolução científica. Uma vez re-
que lidar com as distinções muito reais escritos, eles inevitavelmente disfarçam
entre esses três gêneros, são suas simi- não só o papel das revoluções científi-
laridades que mais nos interessam aqui. cas que os produziu, mas também a pró-
Os três registram o produto estável de re- pria existência dessas revoluções. A me-
voluções científicas passadas, expondo nos que tenha experimentado pessoal-
assim as bases da tradição científico- mente uma revolução durante o seu pró-
normal corrente. Para preencher sua fun- prio tempo de vida, o sentido histórico
ção, eles não precisam fornecer informa- do cientista ativo – e também do leigo
ção autêntica sobre o itinerário pelo qual que lê a literatura derivada do manual –
tais bases foram inicialmente reconheci- estende-se apenas até o resultado da re-
das e, depois, abraçadas pela profissão. volução mais recente em um certo campo
Pelo menos no caso dos manuais, há até científico.
mesmo boas razões para que eles devam Os manuais, assim, primeiro truncam
ser sistematicamente mistificadores nes- a percepção que o cientista tem da histó-
ses assuntos. ria de sua disciplina. Depois, operam no
Apontamos na Seção II que uma cres- sentido de oferecer um sucedâneo para
cente confiança nos manuais ou seus aquilo que deletaram. É característica
equivalentes era uma concomitante inva- dos manuais conterem só uma pitada de
riável da emergência de um primeiro pa- história. Isso aparece num capítulo in-
radigma em qualquer campo da ciência. trodutório ou – como é mais frequente –
A seção que conclui esse ensaio vai argu- em referências dispersas aos grandes he-
mentar que a dominação da ciência ma- róis de uma época anterior. Com base
dura por tais textos diferencia significati- nessas referências, estudantes e profes-
vamente seu padrão de desenvolvimento sores passam a se sentir como participan-
do padrão de desenvolvimento de outros tes de uma tradição histórica de longa du-
campos. Para o momento, vamos dar por ração. Todavia, a tradição – derivada do
assentado que, numa extensão sem pre- livro didático – à qual os cientistas che-
cedentes em outros campos, o conheci- gam a ter a sensação de pertencer é uma
mento que tanto o leigo quanto o cien- tradição que, de fato, nunca existiu. Por
tista têm da ciência baseia-se nos livros razões que são ao mesmo tempo óbvias e
didáticos ou manuais e em outros tipos – altamente funcionais, os manuais cientí-
poucos – de literatura derivada deles. En- ficos – e um bom número de histórias da
tretanto, por serem veículos pedagógicos ciência mais antigas – referem-se apenas
XI A Invisibilidade das Revoluções 116

àquela parte do trabalho dos cientistas riam dar um status artificial para a sin-
do passado que pode facilmente ser vista gularidade, para o erro e para a confusão
como contribuição à enunciação e à so- humanos. Por que dignificar aquilo que
lução dos problemas paradigmáticos dos os melhores e mais persistentes esforços
próprios livros didáticos atuais. Em parte da ciência possibilitaram descartar? A de-
por seleção e em parte por distorção, os preciação do fato histórico está profun-
cientistas de épocas anteriores estão im- damente – e, o que também é provável,
plicitamente representados como se ti- funcionalmente – impregnada na ideolo-
vessem trabalhado sobre o mesmo con- gia da profissão científica. Curiosamente,
junto de problemas, e como se estives- a mesma profissão que deposita o mais
sem de acordo com o mesmo conjunto alto de todos os valores nos detalhes fa-
de cânones estabelecidos que a revolu- tuais de todo tipo. Whitehead captou o
ção mais recente na teoria e no método espírito a-histórico da comunidade cien-
fez parecerem científicos. Não é de ad- tífica quando escreveu que uma ciência
mirar que os manuais – e a tradição his- que hesita em esquecer seus fundadores
tórica implicada neles – têm que ser re- está perdida. Em todo caso, ele não es-
escritos depois de cada revolução cien- tava totalmente certo. As ciências, como
tífica. E também não precisa causar es- qualquer outro empreendimento profis-
panto que, na medida em que os manu- sional, têm necessidade de seus heróis e
ais são reescritos, a ciência volte a parecer da preservação de seus nomes. Parece
altamente cumulativa. Claro que os cien- auspicioso que no lugar de esquecer tais
tistas não são o único grupo que tende a heróis os cientistas tenham sido capazes
ver o passado de sua disciplina como se de esquecer seus trabalhos – ou de os re-
ele se desenvolvesse linearmente apenas visar.
para produzir a sua posição superior no O resultado é uma tendência persis-
presente. A tentação de escrever a histó- tente em fazer a história da ciência pare-
ria em retrospectiva está em toda parte e cer linear ou cumulativa. Essa tendência
se repete o tempo todo. Mas os cientis- afeta os cientistas até mesmo quando eles
tas são afetados em maior escala pela ten- avaliam sua própria investigação. Por
tação de reescrever a história, em parte exemplo, as três exposições conflitantes
porque os resultados da pesquisa cien- que Dalton fez a respeito do desenvolvi-
tífica não mostram qualquer dependên- mento de seu atomismo químico fazem
cia óbvia do contexto histórico da inves- parecer que ele estava interessado desde
tigação e, em parte porque – exceto du- cedo exatamente naqueles problemas de
rante as crises e revoluções – a posição combinações proporcionais dos elemen-
contemporânea do cientista parece ser tos químicos cuja resolução o tornaria fa-
muito segura. Um detalhamento histó- moso posteriormente. De fato, aqueles
rico maior – quer do presente, quer do problemas parecem ter-lhe ocorrido jun-
passado da ciência –, ou uma responsa- tamente com suas soluções. E isso só
bilidade maior para com o detalhamento ocorreria quando o seu próprio trabalho
histórico que é apresentado só consegui- criativo já estava muito próximo de se
XI A Invisibilidade das Revoluções 117

completar.2 O que todas as exposições Mas é justamente esse tipo de mudança


de Dalton omitem são os efeitos revoluci- na formulação das perguntas e das res-
onários, quando transpostos para a quí- postas que conta – muito mais que a no-
mica, de um conjunto de questões e con- vidade das descobertas empíricas – para a
ceitos que anteriormente se restringiam à transição da dinâmica aristotélica para a
física e à meteorologia. Foi isso que Dal- galileana, e para a transição da dinâmica
ton fez, e o resultado foi uma reorienta- galileana para a newtoniana. Ao camuflar
ção da química. Uma reorientação que tais mudanças, a tendência do livro didá-
ensinou os químicos a fazer novas ques- tico em tornar linear o desenvolvimento
tões sobre velhos dados e deles tirar novas da ciência oculta um processo que reside
conclusões. no coração dos mais significativos episó-
E ainda: Newton escreveu que Gali- dios do desenvolvimento científico.
leu tinha descoberto que a força de gra- Cada qual dentro do contexto de uma
vidade constante produz um movimento determinada revolução, os exemplos pre-
proporcional ao quadrado do tempo. De cedentes mostram os primórdios de uma
fato, o teorema cinemático de Galileu reconstrução da história que regular-
adquire essa forma quando integrado à mente se finaliza nos textos da ciência
matriz dos próprios conceitos dinâmi- pós-revolucionária. Todavia, muito mais
cos de Newton. Mas Galileu não disse está envolvido nessa finalização do que
nada disso. Sua discussão sobre corpos a multiplicação das interpretações envie-
em queda raramente faz alusão a forças. sadas que ilustramos acima. Essas cons-
Muito menos a uma força gravitacional truções tendenciosas tornam invisíveis as
uniforme que causasse a queda dos cor- revoluções. O arranjo nos textos do ma-
pos.3 Ao dar a Galileu o crédito da res- terial que teve a sua visibilidade preser-
posta para uma pergunta que os para- vada implica um processo que, se exis-
digmas desse último não permitiam que tisse, negaria uma função para as revolu-
fosse feita, o relato de Newton esconde o ções. Tanto quanto possível, os livros di-
efeito de uma pequena mas revolucioná- dáticos tratam cada um dos vários experi-
ria reformulação das questões que os ci- mentos, conceitos, leis e teorias da ciên-
entistas passaram a fazer sobre o movi- cia normal corrente em separado e como
mento – e também das respostas que os que dispostos em uma sequência em que
cientistas passaram a se dispor a aceitar. são apresentados um após o outro. Isso
2 L. K. Nash, The Origins of Dalton’s Chemical
é feito porque seu objetivo é familiari-
Atomic Theory, Isis, XLVII (1956), pp. 101-16.
zar rapidamente o estudante com aquilo
3 Para a observação de Newton, ver Florian Ca- que a comunidade científica contempo-
jori (ed.), Sir Isaac Newton’s Mathematical Princi- rânea pensa que sabe. Do ponto de vista
ples of Natural Philosophy and his System of the pedagógico essa técnica de apresentação
World (Berkeley, Calif., 1946), p. 21. Essa passa- é inquestionável. Mas quando combi-
gem deveria ser comparada com a própria discus-
são de Galileu em seu Dialogues Concerning Two nada com o jeito geralmente a-histórico
New Sciences, trad. H. Crew e A. de Salvio (Evans- da escrita da ciência e com as eventu-
ton, III., 1946), pp. 154-76. ais narrativas tendenciosas – mas bem
XI A Invisibilidade das Revoluções 118

sistematizadas – descritas acima, é mais mundos no interior dos quais eles prati-
que provável que se produza a seguinte caram seu trabalho investigativo? Ou a
e avassaladora impressão: a ciência atin- constância da composição química é um
giu seu estado atual por meio de uma elemento – e, no caso, um elemento indu-
série de descobertas e invenções indivi- bitável – integrado a uma nova trama na
duais que, quando reunidas, constituem associação de fato e teoria que Dalton en-
o corpo moderno do conhecimento téc- treteceu com a experiência química an-
nico especializado. A ordem de apresen- terior, num processo que transformaria
tação do livro didático implica que desde aquela experiência? Ou então, similar-
os primórdios do empreendimento ci- mente: a aceleração constante produ-
entífico os cientistas esforçaram-se para zida por uma força constante é um mero
atingir os objetivos particulares que es- fato que os estudiosos da dinâmica sem-
tão incorporados nos paradigmas da atu- pre procuraram, ou é uma resposta para
alidade. Em um processo que se com- uma questão que só foi levantada pela
para geralmente com a adição de tijolos primeira vez dentro da teoria newtoniana
na construção de um edifício, um a um e que essa teoria poderia responder com
os cientistas foram adicionando mais um base no corpo de informação disponível
fato, mais um conceito, mais uma lei e antes mesmo que a questão fosse levan-
mais uma teoria ao corpo de informação tada?
que está armazenado no texto científico Essas questões estão aqui sendo feitas a
contemporâneo. respeito daquilo que aparece na forma de
Mas esse não é o caminho pelo qual fatos descobertos um a um na ordem de
uma ciência se desenvolve. Muitas das apresentação do livro didático. Mas, ob-
charadas da ciência normal contemporâ- viamente elas também têm implicações
nea só passaram a existir depois da revo- para aquilo que o manual apresenta na
lução científica mais recente. São raras forma de teorias. Essas teorias, é claro,
aquelas charadas que podem ser rastrea- ajustam-se aos fatos. Mas isso só ocorre
das retrospectivamente até o começo his- quando se transforma a informação dis-
tórico da ciência em que elas ocorrem na ponível previamente em fatos que nem
atualidade. As gerações mais antigas en- sequer existiam para o paradigma prece-
frentaram seus próprios problemas, com dente. Isso significa que também as te-
seus próprios instrumentos e com seus orias não se desenvolvem passo a passo,
próprios padrões de solução. E não foram para se ajustar a fatos que já estavam
só os problemas que mudaram. Toda a lá todo o tempo. Ao contrário, as teo-
rede de fato e teoria que o paradigma do rias emergem juntamente com os fatos a
livro didático ajusta à natureza também que se ajustam de uma reformulação re-
mudou. A constância da composição volucionária da tradição científica prece-
química, por exemplo, é um mero fato dente. Uma tradição precedente em que
experimental que os químicos poderiam a relação cognitivo-mediada entre o cien-
ter descoberto por meio de experimen- tista e a natureza não era a mesma.
tos realizados dentro de qualquer um dos Um último exemplo pode esclarecer
XI A Invisibilidade das Revoluções 119

essa descrição do impacto da exposição cia que se alimenta quando esse tipo de
do livro didático sobre a nossa imagem do equívoco é formulado e, a seguir, é em-
desenvolvimento científico. Todo texto butido na estrutura técnica do livro di-
básico de química deve discutir o con- dático. Do mesmo modo que os concei-
ceito de elemento químico. Quando a no- tos de ‘tempo’, ‘energia’, ‘força’ e ‘partí-
ção é introduzida, quase sempre sua ori- cula’, o conceito de elemento é o tipo de
gem é atribuída ao químico do século de- ingrediente do manual didático que em
zessete Robert Boyle, em cujo livro Scep- geral sequer foi inventado ou descoberto.
tical Chymist o leitor atento vai encon- A definição de Boyle, em particular, pode
trar uma definição de ‘elemento’ muito ser rastreada regressivamente pelo me-
próxima daquela hoje em uso. A referên- nos até Aristóteles. E também pode ser
cia à contribuição de Boyle conscientiza rastreada progressivamente passando-se
o principiante de que a química não co- por Lavoisier até chegar aos textos mo-
meçou com as sulfonamidas. Ademais, dernos. No entanto, isso não quer dizer
também lhe diz que uma das tarefas tra- que a ciência possuiu o moderno con-
dicionais do cientista é inventar concei- ceito de elemento desde a antiguidade.
tos desse tipo. Como parte do arsenal Definições verbais como a de Boyle têm
pedagógico que transforma uma pessoa pouco conteúdo científico quando consi-
num cientista, essa atribuição a Boyle é deradas por si mesmas. Elas não são es-
imensamente bem sucedida. Não obs- pecificações lógicas de significado plenas
tante, ela ilustra uma vez mais o padrão – se é que isso existe. Elas estão muito
histórico equivocado que ilude estudan- mais perto de serem subsídios pedagó-
tes e leigos sobre a natureza do empreen- gicos. Dentro de um manual ou de al-
dimento científico. guma outra apresentação sistemática, os
De acordo com Boyle – que nisso estava conceitos científicos para os quais essas
totalmente certo – sua definição de ele- definições apontam só ganham significa-
mento químico não era mais que uma pa- ção plena quando relacionados com ou-
ráfrase de um conceito químico tradicio- tros conceitos científicos, com procedi-
nal. Boyle apresentou essa definição ape- mentos de manipulação e com aplica-
nas para argumentar que não existe uma ções paradigmáticas. Disso se segue que
coisa tal como um elemento químico. En- conceitos como o de elemento químico
tão, como história, a versão que o ma- dificilmente podem ser inventados inde-
nual dá da contribuição de Boyle é total- pendentemente de um contexto. Ade-
mente equivocada.4 É claro que tal equí- mais, dado o contexto, tais conceitos ra-
voco é trivial, como qualquer outra repre- ramente demandam invenção, uma vez
sentação errônea de dados. O que não que eles já estão à disposição. Tanto
é trivial, contudo, é a impressão da ciên- Boyle quanto Lavoisier mudaram o signi-
ficado de ‘elemento’ em sentidos impor-
4 T. S. Kuhn, Robert Boyle and Structural Che- tantes. Mas eles não inventaram a no-

mistry in the Seventeenth Century, Isis, XLIII ção e nem mesmo modificaram a fórmula
(1952), 26-29. verbal que funciona como sua definição.
XI A Invisibilidade das Revoluções 120

Como já vimos, nem Einstein inventou


ou até mesmo redefiniu explicitamente
‘espaço’ e ‘tempo’ de modo a dar-lhes um
novo significado dentro do contexto de
seu trabalho.
Qual, portanto, foi a função histórica
de Boyle naquela parte do seu trabalho
que inclui a famosa definição? Ele era
um líder de uma revolução científica que,
ao mudar a relação de ‘elemento’ para a
manipulação química e para a teoria quí-
mica, transformou a noção de elemento
em uma ferramenta muito diferente da-
quela que fora antes e, nesse processo,
transformou tanto a química quanto o
mundo do químico.5 Outras revoluções
– incluindo aquela centralizada em torno
de Lavoisier – foram necessárias para dar
ao conceito de elemento químico sua
forma e sua função. Mas Boyle oferece
um exemplo típico do processo envol-
vido em cada um desses estágios e, tam-
bém, daquilo que acontece nesse pro-
cesso quando o conhecimento existente
é consolidado em um manual didático.
Mais do que qualquer outro aspecto indi-
vidual da ciência, a forma pedagógica de-
terminou a nossa imagem da natureza da
ciência e o papel da descoberta e da in-
venção em seu avanço.

5 Marie Boas, em seu Robert Boyle and

Seventeenth-Century Chemistry (Cambridge,


1958), trata em muitas passagens das contri-
buições positivas de Boyle para a evolução do
conceito de elemento químico.
XII Como as Revoluções se Resolvem 121

XII

Como as Revoluções se Resolvem

Os livros didáticos que discutimos râneos. Como elas se habilitam e o que


até agora são produzidos apenas depois devem fazer para converter a profissão
que a revolução científica foi concluída. inteira ou, pelo menos, para converter
Tornam-se a partir daí a base para uma os subgrupos profissionais relevantes ao
nova tradição de ciência normal. To- seu próprio modo de ver a ciência e o
davia, ao tratar da questão da estrutura mundo? O que leva o grupo a abandonar
desses manuais didáticos, nós deixamos uma tradição de pesquisa normal em
de lado um passo importante. Como favor de outra?
é o processo pelo qual um candidato a
paradigma substitui o seu antecessor? Para vermos o quanto essas questões
Toda nova interpretação da natureza – se impõem, lembremo-nos de que as res-
seja ela uma descoberta ou uma teoria – postas que elaboramos para elas são as
emerge primeiro na mente de um ou de únicas reconstruções que o historiador
poucos indivíduos. Eles são os primeiros pode oferecer para a inquirição feita pelo
que aprendem a ver a ciência e o mundo filósofo sobre o teste, sobre a verificação
de um modo diferente. Sua habilidade e sobre a falsificação das teorias cientí-
para fazer a mudança é facilitada por ficas estabelecidas. Na medida em que
duas circunstâncias que os diferencia está engajado na ciência normal, o ope-
da maioria dos outros membros da rário da pesquisa é um resolvedor de pro-
profissão. Invariavelmente sua atenção blemas e não um testador de paradig-
foi concentrada sobre os problemas que mas. Embora ele possa, quando desen-
provocaram a crise. Ademais, em geral, volve a busca para a solução de um pro-
são pessoas tão jovens – ou tão novas no blema em particular, experimentar um
campo em que a crise é administrada – certo número de abordagens alternativas
que uma prolongada prática da ciência e rejeitar aquelas que falham em produ-
ainda não chegou a impregná-las tão zir o resultado desejado, esse operário da
profundamente da visão de mundo e das pesquisa não está testando o paradigma
regras determinadas pelo paradigma em quando faz isso. Em vez disso, ele é como
vigor, quanto o fez com seus contempo- o jogador de xadrez que, com um pro-
blema posto física ou mentalmente di-
XII Como as Revoluções se Resolvem 122

ante de si no tabuleiro, tenta várias alter- parar teorias também caracteriza a situ-
nativas de movimento na busca de uma ação histórica em que uma nova teoria
solução. Essas tentativas virtuais – se- é aceita. Muito provavelmente essa situ-
jam elas feitas pelo jogador de xadrez ou ação aponta para uma das direções em
pelo cientista – ajuízam apenas as alter- que as discussões futuras sobre a verifi-
nativas tentadas, e não as regras do jogo. cação deveriam avançar. Em suas for-
Elas são possíveis apenas quando o para- mas mais usuais, contudo, cada uma das
digma é considerado seguro. Portanto, o teorias probabilísticas da verificação re-
teste do paradigma só ocorre depois que corre a uma ou outra linguagem obser-
o fracasso persistente na resolução de um vacional pura ou neutra, como foi discu-
problema relevante desencadeou a crise. tido na Seção X. Uma teoria probabilís-
E mesmo assim, ele só ocorre depois que tica propõe que comparemos a teoria ci-
o reconhecimento da crise já levou à pro- entífica dada com todas as outras que po-
dução de um candidato alternativo para deríamos imaginar, desde que se ajustas-
o paradigma. Nas ciências, a situação sem à mesma coleção de dados observa-
de teste de paradigmas jamais consiste dos. Outra teoria probabilística demanda
– como no caso da resolução de proble- a construção imaginária de todos os tes-
mas – na simples comparação de um pa- tes a que uma dada teoria científica po-
radigma específico com a natureza. Em deria alegadamente submeter-se.1 Apa-
vez disso, o teste ocorre como parte da rentemente, alguma construção dessa or-
competição entre dois paradigmas rivais dem é necessária para o cálculo de pro-
pela adesão da comunidade científica. babilidades específicas, sejam elas abso-
Quando examinada mais atentamente, lutas ou relativas. Fica, todavia, difícil
essa formulação apresenta paralelismos ver como tal construção pode ser bem
inesperados – e provavelmente signifi- sucedida. Como eu já propus, se não
cativos – com as mais populares teo- pode haver qualquer sistema de lingua-
rias contemporâneas sobre a verificação. gem ou de conceitos científica ou em-
Poucos filósofos da ciência ainda bus- piricamente neutro, então a construção
cam critérios absolutos para a verificação proposta que alterna testes e teorias deve
das teorias científicas. Ao notar que te- processar-se dentro de uma ou outra tra-
oria alguma pode, em qualquer circuns- dição paradigmo-fundada. Restringida
tância, ser exposta a todos os testes re- desse modo, essa construção não teria
levantes possíveis, os filósofos da ciên- acesso a todas as experiências possíveis
cia não perguntam se uma teoria pode nem a todas as teorias possíveis. Disso
ser verificada. Em vez disso, indagam so- resulta que as teorias probabilísticas ao
bre a sua probabilidade à luz da evidên- mesmo tempo camuflam e iluminam a
cia que efetivamente existe. Para respon-
1 Para um breve esboço dos principais direci-
der essa questão, uma escola importante
onamentos das teorias da verificação probabilís-
é levada a comparar a habilidade das di- tica, ver Ernest Nagel, Principles of the Theory of
ferentes teorias para explicar a evidên- Probability, Vol. I, No. 6 da International Encyclo-
cia disponível. Tal insistência em com- pedia of Unified Science, pp. 60-75.
XII Como as Revoluções se Resolvem 123

situação de verificação. Como insistem, solve os problemas com que é confron-


embora essa situação dependa da com- tada em um momento qualquer. Nem as
paração de teorias com a evidência am- soluções já obtidas são sempre perfeitas.
plamente aceita, as teorias e as observa- Pelo contrário, é exatamente a incomple-
ções em questão estão sempre intima- tude e a imperfeição do ajuste existente
mente relacionadas com aquelas que já entre dado e teoria que definem muitos
existem. A verificação é como a seleção dos problemas que caracterizam a ciên-
natural: ela destaca a mais viável den- cia normal, não importa quando. Se um
tre as alternativas que se apresentam em fracasso qualquer no ajuste dado-teoria
uma situação histórica particular. Se tal fosse a base para rejeitar a teoria, todas as
escolha é a melhor que poderia ser feita se teorias deveriam ser rejeitadas o tempo
ainda tivéssemos outras alternativas, ou todo. Por outro lado, se apenas um fra-
se os dados fossem de um outro tipo, não casso severo no ajuste dado-teoria justi-
é uma questão que possa ser utilmente ficasse a rejeição da teoria, então os pop-
feita. Não há qualquer ferramenta dispo- perianos necessitariam de algum critério
nível que pudéssemos utilizar na busca de improbabilidade ou grau de falsifica-
de uma resposta para ela. ção. Se tentarem desenvolver esse cri-
Uma abordagem muito diferente para tério é quase certo que eles encontrarão
toda essa rede de problemas foi desen- a mesma trama de dificuldades que tem
volvida por Karl R. Popper. Ele nega rondado as várias teorias da verificação
completamente a existência de qualquer probabilística.
processo de verificação.2 Em vez disso, Muitas das dificuldades apontadas po-
ele enfatiza a importância da falsificação. dem ser evitadas quando reconhecemos
Isto é, enfatiza a importância do teste que que essas duas visões predominantes e
exige a rejeição de uma teoria estabele- opostas sobre a lógica subjacente à in-
cida por causa de seu resultado negativo. vestigação científica tentaram comprimir
Claramente, esse papel atribuído à falsifi- dois processos largamente separados em
cação é muito parecido com o papel que apenas um. A experiência anômala de
nesse ensaio é atribuído às experiências Popper é importante para a ciência por-
anômalas. Ou seja, com o papel aqui atri- que produz competidores para um pa-
buído às experiências que preparam o ca- radigma existente. Mas a falsificação –
minho para uma nova teoria quando pro- ainda que certamente ocorra – não acon-
vocam crises. Apesar de tudo, as expe- tece com a emergência de uma anoma-
riências anômalas não podem ser iden- lia ou instância falsificadora, ou simples-
tificadas com as experiências falsificado- mente por causa dela. Em vez disso, trata-
ras. De fato, eu duvido que essas últimas se de um processo subsequente e sepa-
existam. Como foi repetidamente enfa- rado que poderia igualmente ser cha-
tizado antes, nenhuma teoria sempre re- mado de verificação, já que consiste no
triunfo de um novo paradigma sobre o ve-
2 K. R. Popper, The Logic of Scientific Discovery lho. Ademais, é nesse processo conjunto

(New York, 1959), esp. caps. i-iv. de verificação-falsificação que a compa-


XII Como as Revoluções se Resolvem 124

ração probabilística de teorias exerce um mas que cada um deles resolvesse. Mas,
papel central. Tal formulação em dois de fato, essas condições nunca são com-
estágios, penso, tem a virtude de uma pletamente preenchidas. Pelo menos em
grande verossimilhança, além de poder alguma medida, os proponentes de para-
nos possibilitar um começo de explica- digmas em competição estão sempre fa-
ção do papel do acordo – ou do desacordo lando as mesmas palavras com significa-
– entre fato e teoria no processo de veri- dos diferentes. Ao defender suas posi-
ficação. Pelo menos para o historiador, ções, nenhum dos lados vai conseguir ex-
não faz muito sentido sugerir que a veri- plicitar todas as postulações não empí-
ficação é o acordo do fato com a teoria. ricas de que o outro necessita para que
Todas as teorias historicamente significa- haja compreensão mútua. Como Proust
tivas concordaram com os fatos, mas fi- e Berthollet discutindo sobre os compos-
zeram isso apenas mais ou menos. Não tos químicos, os diferentes contendores
há resposta mais precisa para as ques- são, pelo menos parcialmente, compeli-
tões de se-ou-quão-bem uma teoria to- dos a uma fala mutuamente ininteligível.
mada individualmente ajusta-se aos fa- Ainda que cada um possa ter a esperança
tos. Mas questões muito parecidas com de converter o outro ao seu modo de ver
essas podem ser formuladas quando as a sua ciência e os seus problemas, nin-
teorias são tomadas coletivamente, ou guém pode ter a esperança de provar o
mesmo em pares. Faz bastante sentido seu caso. A concorrência entre paradig-
perguntar qual de duas teorias disponí- mas não é o tipo de batalha que pode
veis melhor se ajusta aos fatos. Embora ser resolvida através de provas. Já vi-
nem a teoria de Priestley nem a teoria mos várias razões por que os proponen-
de Lavoisier, por exemplo, concordas- tes de paradigmas concorrentes devem
sem precisamente com as observações fracassar em fazer pleno contato com os
existentes, poucos contemporâneos he- pontos de vista um do outro. Coletiva-
sitaram mais de uma década para con- mente, essas razões têm sidos descritas
cluir que a teoria de Lavoisier oferecia como a incomensurabilidade das tradi-
um ajuste melhor aos fatos. Essa formu- ções de pesquisa pré-revolucionárias e
lação, contudo, faz com que a tarefa de pós-revolucionárias. Vamos recapitulá-
escolher entre paradigmas concorrentes las brevemente aqui. Em primeiro lugar,
pareça mais fácil e mais familiar do que os proponentes de paradigmas competi-
efetivamente é. Se houvesse apenas um dores discordarão com frequência acerca
conjunto de problemas científicos, ape- da lista de problemas que qualquer can-
nas um mundo dentro do qual esses pro- didato a paradigma deve resolver. Seus
blemas fossem trabalhados e apenas um padrões ou suas definições de ciência não
conjunto de padrões para a solução de- são os mesmos. A teoria do movimento
les, a concorrência entre paradigmas po- deve explicar a causa das forças de atra-
deria ser resolvida mais ou menos roti- ção entre as partículas de matéria, ou ela
neiramente por meio de algum processo pode simplesmente registrar a existência
como o de contar o número de proble- de tais forças? À diferença da teoria de
XII Como as Revoluções se Resolvem 125

Aristóteles e da teoria de Descartes, a di- que desdenhou a teoria geral da relati-


nâmica de Newton foi amplamente re- vidade de Einstein porque o espaço não
jeitada porque ela implicava a segunda pode ser encurvado – e não se tratava
resposta para a questão. Quando a te- propriamente desse tipo de coisa – não
oria de Newton foi aceita, consequente- estava simplesmente errado ou equivo-
mente tal questão foi banida da ciência. cado. Nem estavam errados ou equivo-
Essa mesma questão, todavia, a teoria ge- cados os matemáticos, físicos e filóso-
ral da relatividade pode orgulhosamente fos que tentaram desenvolver uma versão
afirmar ter resolvido. Ou ainda, como foi euclidiana da teoria de Einstein.3 O que
disseminado no século dezenove, a teo- se supunha anteriormente como espaço
ria química de Lavoisier inibiu os quími- era necessariamente plano, homogêneo,
cos de perguntar por que os metais eram isotrópico e não afetado pela presença da
tão parecidos – uma pergunta que a quí- matéria. Se assim não fosse, a física new-
mica flogística não só fez como respon- toniana não teria funcionado. Para fazer
deu. A transição para o paradigma de a transição para o universo de Einstein,
Lavoisier, como a transição para o para- toda a teia conceitual – cujos fios são es-
digma de Newton, significou a perda não paço, tempo, matéria, força, e assim por
apenas de uma questão permissível, mas diante – teria que ser mudada e nova-
também de uma solução bem sucedida. mente lançada sobre o todo da natureza.
Entretanto, essa perda não foi sequer per- Apenas as pessoas que se submeteram
manente. No século vinte as questões so- coletivamente a essa transformação – em
bre as qualidades das substâncias quími- conjunto com aquelas pessoas que não
cas reintroduziram-se na ciência, junta- conseguiram passar por isso – mostrar-
mente com algumas repostas para elas. se-iam capazes de descobrir com preci-
Contudo, nisso está envolvido muito são aquilo sobre o que concordavam e
mais que a incomensurabilidade dos pa- aquilo sobre o que discordavam. A comu-
drões. Uma vez que os novos paradigmas nicação que atravessa a linha de frente
nascem dos velhos, eles ordinariamente revolucionária é inevitavelmente parcial.
incorporam boa parte do vocabulário e Apontando um outro exemplo, conside-
do aparato, tanto conceitual quanto ma- remos as pessoas que chamaram Copér-
nipulativo, que o paradigma tradicional nico de louco porque ele proclamou que
empregara anteriormente. Mas eles rara- a Terra se movia. Eles não estavam nem
mente empregam os elementos empres- pouco, nem muito errados. Parte do que
tados exatamente da maneira tradicio-
nal. Velhos termos, conceitos e experi- 3 Sobre as reações leigas ao conceito de espaço

mentos são postos em novas relações en- curvo ver Philipp Frank, Einstein, His Life and Ti-
tre si dentro dos novos paradigmas. Em- mes, trad. e ed. Por G. Rosen e S. Kusaka (New
bora o termo não seja muito adequado, York, 1947), pp. 142-46. Sobre algumas das ten-
tativas de preservar os ganhos da teoria geral da
o resultado inevitável é aquilo que deve- relatividade no interior do espaço euclidiano, ver
mos denominar uma incompreensão en- C. Nordmann, Einstein and the Universe, trad. Por
tre duas escolas concorrentes. O leigo J. McCabe (New York, 1922), cap. ix.
XII Como as Revoluções se Resolvem 126

queriam dizer com a palavra Terra signifi- ciência em mundos diferentes, os dois
cava posição fixa. Pelo menos a Terra de- grupos de cientistas veem coisas dife-
les não podia ser movida. Por outro lado, rentes quando olham a partir do mesmo
a inovação de Copérnico não era simples- ponto e na mesma direção. Repitamos
mente mover a Terra, mas uma maneira que isso não quer dizer que eles possam
totalmente nova de considerar os proble- ver qualquer coisa a seu bel-prazer. Am-
mas da física e da astronomia. Tratava-se bos estão olhando para o mundo e aquilo
de um modo de ver que mudou necessa- que veem não mudou. Mas, em algu-
riamente o significado de Terra e de movi- mas áreas eles veem coisas diferentes.
mento.4 Sem essas mudanças, o conceito Ao mesmo tempo, eles veem essas coisas
de uma Terra que se move era loucura. em diferentes relações umas com as ou-
Por outro lado, tão logo essas mudan- tras. Eis porque uma lei que não pode
ças foram elaboradas e compreendidas, sequer ser demonstrada para um grupo
tanto Descartes quanto Huyghens pude- de cientistas, pode ocasionalmente pare-
ram entender que o movimento da Terra cer intuitivamente óbvia para um outro
era uma questão sem qualquer conteúdo grupo de cientistas. É também por isso
para a ciência.5 que, antes que eles possam satisfazer a
Esses exemplos apontam para o ter- expectativa de uma comunicação mútua
ceiro e mais fundamental aspecto da in- plena, um ou outro dos grupos em com-
comensurabilidade dos paradigmas con- petição deve vivenciar a conversão que
correntes. Em um sentido que eu não temos chamado de mutação paradigmá-
consigo explicar suficientemente, os pro- tica. Precisamente porque é uma tran-
ponentes de paradigmas concorrentes sição entre incomensuráveis, a transição
praticam sua atividade em mundos dife- entre paradigmas concorrentes não pode
rentes. Um desses mundos contém cor- ser feita passo a passo, nem pode ser for-
pos que caem lentamente num meio que çada pela lógica ou por uma experiência
lhes opõe resistência. Um outro mundo neutra. Do mesmo modo que qualquer
contém pêndulos que repetem seu movi- transformação estrutural, a transição en-
mento indefinidamente. Em um desses tre paradigmas ocorrerá de uma só vez –
mundos as soluções são compostos. No embora não necessariamente em um ins-
outro as soluções são misturas. Um des- tante –, ou então não ocorrerá.
ses mundos está integrado numa matriz Como, então, os cientistas são levados
de espaço plana. O outro está integrado a fazer essa transposição? Em parte a res-
numa matriz de espaço curva. Ao fazer posta está em que eles muito frequente-
mente não a fazem. O copernicanismo
4 T. S. Kuhn, The Copernican Revolution (Cam- fez poucos conversos por quase um sé-
bridge, Mass., 1957), capítulos iii, iv e vii. A exten- culo após a morte de Copérnico. O tra-
são em que o heliocentrismo era mais que uma balho de Newton não foi universalmente
questão estritamente astronômica é o tema prin-
cipal do livro inteiro. aceito – particularmente na parte conti-
5 Max Jammer, Concepts of Space (Cambridge, nental da Europa – por mais de meio sé-
Mass., 1954), pp. 118-24. culo depois que os Principia foram pu-
XII Como as Revoluções se Resolvem 127

blicados.6 Priestley nunca aceitou a teo- mais cedo ou mais tarde morrem
ria do oxigênio, nem Lord Kelvin aceitou e uma nova geração se educa
a teoria eletromagnética, e assim por di- familiarizando-se com ela.8
ante. As dificuldades de conversão foram
muitas vezes notadas pelos próprios ci- Esses fatos e outros semelhantes são de
entistas. Em uma passagem de particular conhecimento muito generalizado para
perspicácia, Darwin escreveu o seguinte que precisemos dar-lhes maior ênfase.
no final da sua On the Origin of Species: Todavia, eles precisam passar por uma re-
avaliação. No passado, em geral se con-
Embora eu esteja plenamente siderava que eles indicavam que, por se-
convencido da verdade das con- rem apenas humanos, os cientistas nem
cepções expostas nesse volume [] sempre admitiriam seus erros, mesmo
de modo algum espero conven- quando confrontados com uma prova ri-
cer os naturalistas mais experi- gorosa. Meu argumento é que nessas
entes, cujas mentes foram forra- questões nem a prova nem o erro es-
das por uma multidão de fatos – tão em causa. A transferência de sujei-
todos eles concebidos a partir de ção de um paradigma para outro equi-
um ponto de vista diretamente vale a vivenciar uma conversão que não
oposto ao meu – durante anos a pode ser forçada. Resistência persistente
fio Mas olho para o futuro com – particularmente daqueles cujas carrei-
confiança. Ou seja, olho para os ras produtivas foram devotadas a uma
jovens naturalistas em ascensão tradição mais antiga de ciência normal –
que estão se habilitando para ver não é uma violação dos padrões cientí-
os dois lados da questão com im- ficos, mas uma indicação da própria na-
parcialidade. 7 tureza da pesquisa científica. A fonte de
resistência é a convicção de que, no fim
Examinando a própria carreira em sua das contas, o paradigma mais velho ainda
Scientific Autobiography, também Max vai resolver todos os seus problemas. É
Planck registrou tristemente que a convicção de que a natureza pode ser
submetida ao molde representado pelo
Uma nova verdade científica paradigma. Em tempos de revolução,
não triunfa por convencer seus inevitavelmente essa convicção se parece
oponentes, fazendo-os ver a luz. com rigidez e obstinação – como efetiva-
Uma nova verdade científica mente às vezes se torna. Mas ela também
triunfa porque seus oponentes é algo mais. Essa mesma convicção é o
6 B. Cohen, Franklin and Newton: An Inquiry que torna possível a ciência normal ou ci-

into Speculative Newtonian Experimental Science ência resolvedora de problemas. E é ape-


and Franklin’s Work in Electricity as an Example nas através da ciência normal que a co-
Thereof (Philadelphia, 1956), pp. 93-94.
7 Charles Darwin, On the Origin of Species 8 Max Planck, Scientific Autobiography and

(authorized edition from 6th english ed,; New Other Papers, trad. F. Gaynor (New York, 1949), pp.
York, 1889), II, 295-96. 33-34.
XII Como as Revoluções se Resolvem 128

munidade de cientistas profissionais tem estudo que não foi feito anteriormente.
sucesso. Em primeiro lugar, sucesso na Temos que nos contentar no momento
exploração do alcance potencial e no de- com um exame muito parcial e impres-
senvolvimento da precisão do paradigma sionista. Em acréscimo, tudo o que já
mais velho. Em segundo lugar, sucesso foi dito até agora combina-se com o re-
em isolar a dificuldade através de cujo es- sultado desse exame para sugerir que
tudo pode emergir um novo paradigma. quando perguntamos mais sobre persu-
Ademais, dizer que a resistência é ine- asão e menos sobre prova, a questão
vitável e legítima – e que a mudança de da natureza do argumento científico não
paradigma não pode ser legitimada por tem uma resposta uniforme. Individu-
alguma prova – não é o mesmo que di- almente, os cientistas abraçam um novo
zer que nenhum argumento seja rele- paradigma por todo tipo de razões e, usu-
vante ou que os cientistas não possam almente, por vários tipos de razões ao
ser persuadidos a mudar de opinião. Em- mesmo tempo. Algumas dessas razões –
bora às vezes seja preciso toda uma ge- por exemplo, a adoração do Sol que aju-
ração para que a mudança surta efeito, dou fazer de Kepler um copernicano –
as comunidades científicas têm sido re- situam-se inteiramente fora da suposta
petidamente convertidas para novos pa- esfera da ciência.9 Outras devem depen-
radigmas. Além disso, essas conversões der das singularidades biográficas e da
não ocorrem a despeito do fato de que personalidade do cientista. Até mesmo
os cientistas sejam humanos, mas exa- a nacionalidade e a prévia reputação do
tamente porque eles são humanos. Em- inovador e de seus professores podem
bora alguns cientistas – particularmente às vezes exercer um papel significativo.10
os mais velhos e os mais experientes – O que importa é que devemos aprender
possam resistir indefinidamente, a mai- perguntar de um modo diferente. Nosso
oria deles pode ser sensibilizada de um interesse, portanto, não estará nos argu-
modo ou de outro. As conversões ocorre-
9 Para o papel da adoração do Sol no pensa-
rão um pouco de cada vez até que, depois
mento de Kepler ver E. A. Burtt, The Metaphysical
da morte dos últimos recalcitrantes, toda Foundations of Modern Physical Science (ed. rev.;
a profissão estará de novo exercendo seu New York, 1932), pp. 44-49.
ofício sob um único – mas agora diferente 10 Para o papel da reputação, consideremos o se-

– paradigma. Devemos, portanto, per- guinte: Lord Raleygh, quando sua reputação já ti-
guntar como a conversão é implemen- nha sido consolidada, submeteu à British Asso-
ciation um artigo com alguns paradoxos da ele-
tada e como se resiste a ela. trodinâmica. Seu nome foi acidentalmente omi-
Que tipo de resposta para tal ques- tido quando o artigo foi enviado pela primeira vez.
tão nós podemos esperar? Precisamente Nessa ocasião, o artigo foi liminarmente rejeitado
porque ela pergunta sobre técnicas de como o trabalho de algum formulador de parado-
persuasão e sobre argumento e contra- xos. Logo depois, agora com o nome do autor no
devido lugar, o artigo foi aceito com uma profu-
argumento em uma situação em que não são de pedidos de desculpas (R. J. Strutt, 4th Baron
pode haver qualquer prova, nossa ques- Raleygh, John William Strutt, Third Baron Raleygh
tão é de um tipo novo e requer um tipo de [New York, 1924], p. 228).
XII Como as Revoluções se Resolvem 129

mentos que de fato convertem um ou precisão quantitativa claramente melhor


outro indivíduo. Nosso interesse estará que seu competidor mais velho. Em com-
naquele tipo de comunidade que, como paração com as tabelas calculadas a par-
um grupo especializado, mais cedo ou tir da teoria de Ptolomeu, a superiori-
mais tarde sempre se reestrutura. Tal pro- dade quantitativa das Tabelas Rudolfi-
blema, contudo, eu adio para a seção fi- nas de Kepler foi um fator relevante na
nal. No momento passo a examinar ape- conversão dos astrônomos ao copernica-
nas os tipos de argumento que se mos- nismo. O sucesso de Newton em predi-
tram particularmente efetivos nas bata- zer observações astronômicas quantita-
lhas pela mudança paradigmática. tivas foi provavelmente a razão isolada
Provavelmente a alegação isolada que mais importante para o triunfo de sua te-
mais prevalece entre os proponentes de oria sobre competidores mais razoáveis,
um novo paradigma é que eles agora po- mas que apresentavam apenas um cará-
dem resolver os problemas que levaram o ter qualitativo. E no presente século, o
antigo paradigma à crise. Quando pode fulgurante sucesso tanto da lei da radia-
ser feita legitimamente, essa alegação é ção de Planck quanto do átomo de Bohr
com frequência a mais efetiva possível. rapidamente persuadiu muitos físicos a
Na área em que essa alegação é apresen- adotarem-nos, ainda que, vendo a ciên-
tada, sabe-se que o paradigma esteve em cia física em seu conjunto, essas duas
dificuldade. Tal dificuldade foi explorada contribuições criaram muito mais pro-
repetidamente e as sucessivas tentativas blemas do que resolveram.11
de removê-la fracassaram. Mas, experi- No entanto, a alegação de ter resolvido
mentos cruciais – aqueles capazes de fa- problemas que provocaram a crise é ra-
zer uma distinção particularmente pre- ramente suficiente por si mesma. E nem
cisa entre dois paradigmas – foram reco- sempre pode ser legitimamente feita. De
nhecidos e atestados antes mesmo que fato, a teoria de Copérnico não era mais
um novo paradigma fosse inventado. As- acurada que a de Ptolomeu, além de não
sim, Copérnico alegou que tinha resol- levar diretamente a qualquer aperfeiço-
vido o problema da extensão do ano civil amento no calendário. Ou ainda, a teo-
– um problema que incomodava há longo ria ondulatória da luz não foi – pelo me-
tempo. Newton alegou que tinha recon- nos por alguns anos depois de seu pri-
ciliado a mecânica terrestre com a mecâ- meiro anúncio – nem mesmo tão bem su-
nica celeste. Lavoisier afirmou que tinha cedida quanto sua rival corpuscular na
resolvido os problemas de identificação resolução dos efeitos de polarização, que
dos gases e suas relações de peso. Eins- eram a principal causa da crise na ótica.
tein reivindicou que tinha tornado a ele- Às vezes, a prática científica mais livre
trodinâmica compatível com uma ciên-
11 Para os problemas criados pela teoria quân-
cia do movimento reformulada.
tica ver F. Reiche, The Quantum Theory (Lon-
Alegações desse tipo têm uma particu- don, 1922), caps., ii, vi-ix. Para os outros exem-
lar probabilidade de ser bem sucedidas se plos nesse parágrafo ver as referências anteriores
os novos paradigmas apresentarem uma nessa seção.
XII Como as Revoluções se Resolvem 130

que caracteriza a pesquisa extraordinária sequência necessária, ainda que absurda,


vai produzir um candidato a paradigma da sua teoria.13 Devido ao seu poder de
que, inicialmente, de modo algum ajuda impacto – e também porque não tinham
a resolver os problemas que provocaram sido tão obviamente explicitados desde o
a crise. Quando isso ocorre, a evidência começo na construção da nova teoria –
deve ser arrancada de outras partes do argumentos como esses mostram-se par-
campo, como acontece com frequência. ticularmente convincentes. Às vezes essa
Nessas outras áreas podem ser desenvol- força extra pode ser explorada mesmo
vidos argumentos particularmente per- que o fenômeno em questão tenha sido
suasivos se o novo paradigma permite a observado muito tempo antes que a te-
predição de fenômenos inteiramente in- oria que dá conta dele tenha sido apre-
suspeitados durante a vigência do antigo sentada pela primeira vez. Einstein, por
paradigma. exemplo, parece não ter antecipado que
A teoria de Copérnico, por exemplo, su- a teoria geral da relatividade explicaria
geriu que os planetas deveriam ser como com precisão a bem conhecida anoma-
a Terra, que Vênus deveria apresentar fa- lia no movimento do periélio de Mercú-
ses e que o Universo deveria ser muito rio. Quando isso ocorreu, ele experimen-
mais vasto do que se supunha até en- tou um notável sentimento de triunfo.14
tão. Como resultado – quando sessenta Todos os argumentos em prol de um
anos depois de sua morte o telescópio novo paradigma discutidos até agora fo-
repentinamente mostrou montanhas na ram baseados na habilidade comparativa
Lua, as fases de Vênus e um imenso nú- dos competidores para resolver proble-
mero de estrelas que anteriormente nin- mas. Para os cientistas, tais argumen-
guém suspeitava que existissem –, tais tos são ordinariamente os mais signifi-
observações trouxeram para a nova teo- cativos e persuasivos. Mas, por razões a
ria muitos novos conversos, particular- que deveremos voltar logo à frente, es-
mente entre os não astrônomos.12 No ses argumentos não são nem individu-
caso da teoria ondulatória da luz, uma almente nem coletivamente imperativos.
das mais importantes fontes de conver- Afortunadamente, há também um outro
sões profissionais foi ainda mais dramá- tipo de consideração que pode levar os
tica. A resistência francesa colapsou re- cientistas a rejeitar um paradigma velho
pentinamente e de modo relativamente em favor de um novo. Falo dos argu-
completo quando Fresnel mostrou-se ca-
paz de demonstrar a existência de um 13 E. T. Whittaker, A History of Æther and Electri-
foco branco circular no centro da sombra city, I (2.ed.; London, 1951), p. 108.
14 Ver ibid., II (1953), pp. 151-80, para o desen-
de um disco circular. Tratava-se de um
efeito que nem mesmo ele tinha anteci- volvimento da relatividade geral. Para a reação de
Einstein diante do acordo preciso da teoria com
pado mas que Poisson, inicialmente um
o movimento observado do periélio de Mercúrio,
de seus oponentes, mostrou ser uma con- ver a carta citada em P. A. Schilpp (ed.), Albert
Einstein, Philosopher-Scientist (Evanston, Illinois,
12 Kuhn, op. cit., pp. 219-25. 1949), p. 101.
XII Como as Revoluções se Resolvem 131

mentos que raramente são tornados in- dar com os problemas apresentados pela
teiramente explícitos e que apelam para proliferação de novos gases – algo que
o senso estético e de adequação do indi- Priestley fez com grande sucesso em seu
víduo: a nova teoria é considerada mais contra-ataque. Casos como o do foco
limpa, mais adequada ou mais simples branco de Fresnel são extremamente ra-
que a velha. Provavelmente, esses argu- ros. Em geral, só muito tempo depois
mentos sejam mais efetivos na matemá- que o novo paradigma foi desenvolvido,
tica que nas ciências. As versões mais pri- aceito e explorado que argumentos apa-
mitivas da maioria dos novos paradigmas rentemente decisivos são produzidos, a
são toscas. No momento em que o apelo exemplo do pêndulo de Foucault para de-
estético pleno pode ser desenvolvido, a monstrar a rotação da Terra ou do experi-
maioria da comunidade científica já foi mento de Fizeau para mostrar que a luz
convencida por outros meios. Não obs- se move mais rapidamente no ar que na
tante, a importância das considerações água. Produzi-los é parte da ciência nor-
de ordem estética às vezes pode ser deci- mal e seu papel não é exercido nos de-
siva. Embora em geral elas atraiam ape- bates de paradigmas, mas nos textos pós-
nas uns poucos cientistas para a nova te- revolucionários.
oria, é precisamente desses poucos que o Antes que esses textos sejam escritos, e
triunfo definitivo dessa nova teoria pode enquanto o debate prossegue, a situação
depender. Se eles não a tivessem assu- é muito diferente. Usualmente os opo-
mido com presteza por razões em grande sitores de um novo paradigma podem
medida individuais, o novo candidato a legitimamente reclamar que até mesmo
paradigma poderia jamais ter sido sufi- na área produtora da crise ele é bem
cientemente desenvolvido para transfor- pouco superior ao seu rival tradicional.
mar em devotos os membros da comuni- Está claro que o novo paradigma lida me-
dade científica como um todo. lhor com alguns problemas, e que expli-
Para vermos por que são importantes citou algumas novas regularidades. Mas
essas considerações de caráter mais es- os opositores do novo paradigma con-
tético e subjetivo, lembremo-nos daquilo tinuam a achar que o paradigma mais
a que se refere o debate de paradigmas. velho possa ser melhor articulado para
Quando um novo candidato a paradigma enfrentar os novos desafios, do mesmo
é proposto pela primeira vez, ele em ge- modo que fizera com os desafios ante-
ral resolveu apenas uns poucos proble- riores. Tanto o sistema astronômico de
mas com os quais foi confrontado, e a Tycho Brahe, que era centrado na Terra,
maior parte das soluções ainda está longe quanto as versões mais avançadas da te-
da perfeição. Até Kepler, a teoria coper- oria do flogisto foram respostas aos desa-
nicana aperfeiçoara muito pouco as pre- fios apresentados por um novo candidato
dições das posições planetárias feitas por a paradigma. E todas essas respostas tive-
Ptolomeu. Quando Lavoisier viu o oxi- ram considerável sucesso.15 Ademais, os
gênio como o próprio ar em sua intei-
reza, sua teoria de modo algum podia li- 15 Sobre o sistema de Brahe, que era completa-
XII Como as Revoluções se Resolvem 132

defensores do modo de proceder e da teo- revoluções de maior alcance. Some-se


ria tradicionais quase sempre conseguem a isso os contra-argumentos produzidos
apontar problemas que seu rival não re- por aquilo que chamei anteriormente de
solveu e que, segundo seu ponto de vista, incomensurabilidade entre paradigmas,
sequer são problemas. Até que se desco- e então já não teremos quaisquer revolu-
brisse a composição da água, a combus- ções nas ciências.
tão do hidrogênio foi um forte argumento Mas os debates entre paradigmas nem
em favor da teoria do flogisto e contra de longe dizem respeito à habilidade de
a teoria de Lavoisier. E mesmo depois resolver problemas, ainda que por boas
de seu triunfo, a teoria do oxigênio ainda razões eles sejam narrados nesses ter-
não conseguia explicar a preparação de mos. A questão é bem outra. Ou seja,
um gás combustível a partir do carbono – trata-se da questão de qual dos para-
um fenômeno que os partidários do flo- digmas deveria, no futuro, guiar a pes-
gisto tinham apontado como um forte quisa sobre muitos daqueles problemas
apoio ao seu ponto de vista.16 Mesmo que nenhum dos competidores ainda de-
na área da crise, o balanço de argumento clara poder resolver inteiramente. Uma
e contra-argumento pode certamente ser decisão entre maneiras diferentes de se
muito equilibrado. E fora daquela área, o praticar a ciência é requerida e, nas cir-
balanço com frequência favorecerá a tra- cunstâncias, essa decisão deve basear-se
dição. Copérnico desmantelou uma ex- menos nas realizações passadas e mais na
plicação do movimento da Terra já sanci- expectativa quanto ao futuro. Uma deci-
onada pelo tempo, sem apresentar uma são desse tipo só pode ser tomada com
substituta. O mesmo fez Lavoisier a res- base na fé.
peito das propriedades comuns aos me- É por isso que a crise que antecede a
tais, e assim por diante. Em resumo, revolução mostra-se tão importante. Os
se um novo candidato a paradigma ti- cientistas que não a vivenciaram rara-
vesse que ser avaliado desde o início por mente renunciam à sólida evidência dos
gente incrédula que examinasse apenas problemas já resolvidos com o paradigma
a sua capacidade de resolver problemas, mais velho para seguir algo que pode
as ciências experimentariam bem poucas ser facilmente provado e amplamente re-
conhecido como um simples fogo-fátuo.
mente equivalente ao de Copérnico do ponto de Mas só a crise não é suficiente. Tem que
vista geométrico, ver J. L. E. Dreyer, A History of haver uma base para a fé no paradigma
Astronomy from Thales to Kepler (2.ed.; New York,
1953), pp. 359-71. Sobre as últimas versões da te-
escolhido, ainda que ela não precise ser
oria do flogisto e seu sucesso, ver J. R. Partington nem racional nem, em última instância,
e D. McKie, Historical Studies of the Phlogiston correta. Alguma coisa deve fazer com que
Theory, Annals of Science, IV (1939), pp. 113-49. pelo menos alguns cientistas sintam que
16 Sobre o problema apresentado pelo hidrogê-
a nova proposta está na trilha certa. E às
nio ver J. R. Partington, A Short History of Chemis-
try (2.ed.; London, 1951), p. 134. Sobre o monó- vezes são apenas considerações pessoais
xido de carbono ver H. Kopp, Geschichte der Che- de caráter estético não suficientemente
mie, III (Braunschweig, 1845), 294-96. articuladas que fazem isso. Pessoas che-
XII Como as Revoluções se Resolvem 133

garam a ser convertidas por considera- digma pode ter poucos apoiadores e, oca-
ções desse tipo naqueles momentos em sionalmente, os motivos dessas adesões
que a maioria dos argumentos tecnica- podem ser conjeturais. Todavia, se são
mente articulados apontava para um ou- competentes, esse apoiadores pioneiros
tro caminho. Nem a teoria astronômica vão aperfeiçoar o paradigma, vão explo-
de Copérnico, nem a teoria da matéria de rar suas possibilidades e mostrar como
De Broglie dispunham de um ponto de seria pertencer a uma comunidade gui-
apoio muito maior que esse para ganhar ada por ele. Na medida em que isso pros-
adeptos quando foram introduzidas pela segue – e se o paradigma está destinado
primeira vez. Ainda hoje a teoria geral a vencer o seu combate – o número e a
da relatividade de Einstein atrai pessoas força dos argumentos persuasivos em seu
com base em considerações de ordem es- favor aumentarão. Mais cientistas serão
tética – um apelo que poucas pessoas fora assim convertidos e a exploração do novo
da matemática mostraram-se capazes de paradigma terá continuidade. Gradual-
sentir. mente o número de experimentos, ins-
Não estou sugerindo que novos pa- trumentos, artigos e livros baseados no
radigmas triunfem em última instância paradigma será multiplicado. Conven-
por meio de alguma mística estética. cidas da fecundidade da nova concep-
Pelo contrário, poucas pessoas desertam ção, ainda mais pessoas adotarão o novo
uma tradição científica exclusivamente modo de praticar a ciência normal, até
por esse tipo de razão. Com frequência que restem, por fim, apenas alguns pou-
aqueles que o fizeram, equivocaram-se. cos intransigentes. Mas, mesmo esses,
Mas, para que um paradigma possa efe- não podemos dizer que estejam errados.
tivamente triunfar ele precisa ganhar o Embora o historiador sempre possa en-
apoio de alguns pioneiros: aqueles que contrar pessoas – Priestley, por exemplo –
vão desenvolvê-lo até o ponto em que que foram irrazoáveis quando resistiram
se possam produzir e multiplicar argu- tão longamente à mudança, não vai en-
mentos capazes de convencer até os mais contrar um ponto em que a resistência se
teimosos. E mesmo esses argumentos, torne ilógica ou acientífica. No máximo,
quando entram em cena, não são indi- o historiador pode ter vontade de dizer
vidualmente decisivos. Porque os cien- que a pessoa que continua a resistir de-
tistas são pessoas razoáveis, um ou outro pois que toda a sua profissão já se conver-
argumento vai acabar persuadindo vá- teu deixou, por esse fato mesmo, de ser
rios deles. Mas não há nenhum argu- um cientista.
mento isolado que poderia ou que deve-
ria persuadi-los todos. No lugar de uma
conversão global do grupo, o que ocorre é
uma crescente mudança no mapa das su-
jeições, comprometimentos e aceitações
profissionais.
No começo, um novo candidato a para-
XIII O Progresso Através de Revoluções 134

XIII

O Progresso Através de Revoluções

No presente ensaio, as páginas prece- bates têm paralelos nos períodos pré-
dentes levaram minha descrição esque- paradigma dos campos que hoje são cha-
mática do desenvolvimento científico tão mados sem hesitação de ciência. Seu
longe quanto possível. Todavia, elas não resultado geral ostensivo é uma defini-
podem oferecer propriamente uma con- ção desse termo intrigante. Argumenta-
clusão. Se essa descrição chegou a cap- se que a psicologia, por exemplo, é uma
tar a estrutura essencial da evolução con- ciência porque possui tais ou quais ca-
tínua de uma ciência, ao mesmo tempo racterísticas. Outros objetam que as tais
ela terá posto um problema singular. Por características ou não são necessárias ou
que o empreendimento esboçado acima não são suficientes para fazer de um de-
deveria mover-se continuamente para o terminado campo uma ciência. Em geral,
futuro em sentidos diferentes da, diga- investe-se nisso muita energia e se des-
mos, arte, teoria política ou filosofia? Por perta uma grande paixão. Quem está de
que o progresso é um pré-requisito re- fora fica confuso para saber por quê. O
servado quase exclusivamente para as quanto se pode depender de uma defi-
atividades que nós denominamos ciên- nição de ‘ciência’? Uma definição pode
cia? As respostas mais habituais para essa dizer a uma pessoa se ela é cientista ou
questão foram negadas no corpo desse não? Nesse caso, por que os cientistas na-
ensaio. Devemos concluir perguntando turais – ou os artistas – não se preocu-
se podemos encontrar substitutas para pam com a definição do termo? Inevita-
elas. Note-se imediatamente que parte velmente passa-se a suspeitar que a con-
da questão é inteiramente semântica. Em trovérsia se põe num nível mais funda-
grande medida o termo ciência é reser- mental. Provavelmente, questões como
vado para designar campos que progri- as seguintes estejam realmente sendo fei-
dem em sentidos óbvios. Em lugar al- tas: por que o meu campo não consegue
gum isso se mostra mais claramente que avançar do modo como, digamos, a física
nos recorrentes debates sobre se uma ou avança? Que mudanças na técnica, no
outra das ciências sociais contemporâ- método ou na ideologia permitiriam ao
neas é realmente uma ciência. Esses de- meu campo avançar como a física? Essas,
XIII O Progresso Através de Revoluções 135

no entanto, não são questões que pudes- clivagem entre as ciências e as artes. Le-
sem ter como resposta um acordo ou uma onardo da Vinci foi apenas uma entre as
definição. Ademais – se o precedente das muitas pessoas que iam e vinham livre-
ciências naturais serve –, tais questões mente entre campos que só mais tarde
não cessarão de ser uma fonte de preocu- seriam categoricamente diferenciados.2
pação quando uma definição for encon- Ademais, mesmo depois que esse rodí-
trada. Deixarão de ser uma fonte de pre- zio contínuo cessou, o termo ‘arte’ con-
ocupação apenas quando os grupos que tinuou a ser aplicado tanto à tecnologia
agora duvidam do seu próprio status che- e aos ofícios – que também eram vistos
garem ao consenso sobre as suas realiza- como progressivos –, quanto à pintura e
ções passadas e presentes. Pode ser signi- à escultura. Só quando essas últimas re-
ficativo, por exemplo, que os economis- nunciaram inequivocamente à represen-
tas discutam menos que os profissionais tação como seu objetivo e começaram a
de alguns outros campos da ciência social reaprender a partir de novos modelos ini-
sobre o seu campo ser ou não uma ciên- ciais, que a clivagem – que hoje já é pre-
cia. Seria porque os economistas sabem sumida por nós – adquiriu sua alegada
o que é uma ciência? Ou é, então, sobre profundidade atual. E, para inverter os
economia que eles concordam? campos uma vez mais, mesmo hoje parte
Ainda que não seja mais de caráter sim- da nossa dificuldade em ver as profun-
plesmente semântico, tal ponto tem um das diferenças entre a ciência e a tecnolo-
reverso que pode ajudar a explicitar as co- gia deve estar relacionada ao fato de que
nexões inextricáveis entre nossas noções o progresso é um atributo óbvio dos dois
de ciência e progresso. Por muitos sé- campos.
culos – tanto na antiguidade quanto, no- Todavia, reconhecer que tendemos a
vamente, nos primórdios da Europa mo- ver como ciência qualquer campo em
derna – a pintura foi reconhecida como que o progresso é nítido só pode deixar
a disciplina cumulativa. Durante aque- mais clara a nossa presente dificuldade,
les períodos supunha-se que o objetivo não resolvê-la. Permanece o problema
do artista fosse a representação. Críticos de compreender por que o progresso
e historiadores, como Plínio e Vasari, re- deveria ser uma característica tão no-
gistrariam com veneração a série de in- tável desse empreendimento que apre-
venções – que vão do escorço ao chia- senta as técnicas e objetivos que esse en-
roscuro – que tornaram possíveis repre- saio descreveu. Essa questão põe-se na
sentações cada vez mais perfeitas da na- forma de várias questões em uma, e de-
tureza.1 Mas, particularmente durante a vemos examiná-las cada uma em sepa-
Renascença, aqueles também foram pe- rado. Contudo, em todos os casos – ex-
ríodos em que quase não se sentia uma ceto o último – sua resolução em parte
2 Ibid., p. 97; e Giorgio Santillana, The Role of
1 E.H. Gombrich, Art and Illusion: A Study in Art in the Scientific Renaissance, em Critical Pro-
the Psichology of Pictorial Representation (New blems in the History of Science, ed. M. Clagett (Ma-
York, 1960), pp. 11-12. dison, Wis., 1959), pp. 33-65.
XIII O Progresso Através de Revoluções 136

vai depender de uma inversão da nossa nos contribuem para o progresso – ainda
visão normal da relação entre a ativi- que contribuam apenas para o progresso
dade científica e a comunidade que a pra- daquele grupo que compartilha de suas
tica. Nós devemos reconhecer como cau- premissas. Nenhuma escola criativa re-
sas aquilo que habitualmente foi consi- conhece uma categoria de trabalho que
derado serem efeitos. Se pudermos fazer por um lado seja um sucesso de criati-
isso, as expressões ‘progresso científico’ vidade, mas que por outro lado não seja
e até mesmo ‘objetividade científica’ po- um acréscimo à realização coletiva do
dem chegar a parecer redundantes. De grupo. Se duvidamos – como muitos du-
fato, um aspecto dessa redundância aca- vidam – que campos não científicos pro-
bou de ser ilustrada. Um determinado gridem, isso não pode ser porque esco-
campo faz progresso porque é uma ci- las individuais não façam qualquer pro-
ência, ou é uma ciência porque faz pro- gresso. É mais provável que essa dú-
gresso? vida ocorra porque nesses campos sem-
Pergunte agora por que um empre- pre há escolas concorrentes, cada uma
endimento como a ciência normal de- das quais fica constantemente questio-
veria progredir, e comece a relembrar nando as próprias fundações das outras
suas características mais salientes. Nor- escolas. A pessoa que argumenta que a
malmente, uma comunidade científica filosofia, por exemplo, não fez progresso
madura trabalha a partir de um para- algum enfatiza, em defesa dessa tese, que
digma individual ou a partir de um con- ainda há aristotélicos – e não que o aristo-
junto de paradigmas estreitamente inter- telismo não tenha conseguido fazer qual-
relacionados. Muito raramente comuni- quer progresso.
dades científicas diferentes investigam os Essas dúvidas sobre o progresso, no
mesmos problemas. Nesses casos excep- entanto, também aparecem nas ciên-
cionais, os grupos sustentam vários pa- cias. No transcorrer do período pré-
radigmas em comum. Visto de dentro paradigma – período em que há uma
de qualquer comunidade singular, entre- multiplicidade de escolas concorrentes –
tanto – seja uma comunidade de cien- é muito difícil encontrar qualquer evi-
tistas ou de não cientistas –, o resultado dência de progresso, exceto no interior
do trabalho criativo bem sucedido é pro- das escolas. Esse é o período descrito na
gresso. Como seria possível que o pro- Seção II como aquele em que os indiví-
gresso fosse algo diferente? Acabamos de duos praticam ciência, mas em que os re-
notar, por exemplo, que enquanto os ar- sultados de seu trabalho não se agregam
tistas tiveram a representação como ob- à ciência tal como a conhecemos. Tam-
jetivo, os críticos e os historiadores nar- bém durante os períodos de revolução –
raram o progresso daquele grupo aparen- quando os dogmas de um campo cientí-
temente unânime. Outros grupos criati- fico estão novamente em questão –, repe-
vos exibem um progresso do mesmo tipo. tidamente expressam-se dúvidas sobre a
O teólogo que articula o dogma e o fi- possibilidade mesma de progresso conti-
lósofo que refina os imperativos kantia- nuado, no caso de um ou outro dos para-
XIII O Progresso Através de Revoluções 137

digmas opostos vir a ser adotado. Aque- dem concentrar-se exclusivamente sobre
les que rejeitaram o newtonianismo pro- os fenômenos mais sutis e esotéricos que
clamaram que a fé desse último em for- lhes dizem respeito. Inevitavelmente isso
ças inatas faria a ciência voltar à Idade aumenta a efetividade e a eficiência com
das Trevas. Os que se opuseram à quí- que o grupo como um todo resolve novos
mica de Lavoisier sustentaram que a re- problemas. Outros aspectos da vida pro-
jeição dos princípios químicos em favor fissional aperfeiçoam ainda mais essa efi-
dos elementos de laboratório era a rejei- ciência muito especial.
ção de uma explicação química bem su- Alguns desses aspectos são con-
cedida por pessoas que estavam se refugi- sequência do isolamento sem paralelo
ando por traz de um mero nome. Embora das comunidades científicas maduras
expressos de modo mais moderado, sen- frente às demandas da laicidade e da
timentos similares também estão subja- vida cotidiana. Esse isolamento nunca
centes à oposição de Einstein, Bohr e ou- foi completo. No momento estamos
tros à interpretação probabilística domi- discutindo apenas uma questão de grau.
nante da mecânica quântica. Em suma, Todavia, não há quaisquer outras comu-
só durante os períodos de ciência normal nidades profissionais em que o trabalho
o progresso parece ao mesmo tempo ób- do indivíduo criativo é dirigido aos outros
vio e assegurado. No transcorrer de tais membros da profissão – e também ava-
períodos, no entanto, a comunidade ci- liado por eles – com tanta exclusividade.
entífica não poderia ver os resultados de Mesmo o mais impenetrável dos poetas
seu trabalho de nenhuma outra maneira. ou o mais abstrato dos teólogos são, de
Então, com respeito à ciência normal, longe, muito mais preocupados que o
parte da resposta ao problema do pro- cientista com a aprovação leiga do seu
gresso está simplesmente no olho do ob- trabalho criativo – ainda que eles possam
servador. O progresso científico não é estar bem pouco preocupados com a
de espécie diferente do progresso em ou- aprovação geral. Essa diferença mostra-
tros campos. Mas a ausência, na maior se cheia de consequências. Precisamente
parte do tempo, de escolas competido- porque o cientista está trabalhando ape-
ras que ficam se questionando mutua- nas para uma audiência de colegas – uma
mente quanto aos objetivos e padrões audiência que compartilha com ele os
torna o progresso de uma comunidade mesmos valores e as mesmas crenças –,
científico-normal muito mais fácil de ver. ele deve considerar como dado um único
Essa, contudo, é apenas parte da res- conjunto de padrões. Ele não precisa se
posta. E de modo algum é a parte mais preocupar com aquilo que algum outro
importante. Por exemplo, nós já obser- grupo ou escola vai pensar. Portanto,
vamos que, uma vez que a recepção de ele pode liquidar um problema e passar
um paradigma comum livra a comuni- para o próximo mais rapidamente que
dade científica da necessidade de ree- aqueles que trabalham para um grupo
xaminar constantemente seus princípios mais heterodoxo. De maior importância
básicos, os membros da comunidade po- ainda é o fato de que o isolamento da
XIII O Progresso Através de Revoluções 138

comunidade científica em relação à adota a leitura paralela das fontes origi-


sociedade permite ao cientista individual nais. Algumas dessas fontes são clássi-
concentrar sua atenção sobre problemas cos na área. Outras, são relatos contem-
que ele tem bons motivos para acreditar porâneos de pesquisa que os profissio-
que será capaz de resolver. À diferença nais escrevem para os pares. Como resul-
do engenheiro, de muitos médicos e da tado, o estudante de qualquer uma des-
maioria dos teólogos, o cientista não sas disciplinas é constantemente consci-
precisa escolher problemas porque eles entizado da imensa variedade de proble-
necessitem solução urgente. Também mas que os membros do seu futuro grupo
não precisa escolher problemas sem le- tentaram resolver no curso do tempo. É
var em conta as ferramentas disponíveis ainda mais importante o fato de que o es-
para sua solução. Inclusive nesse aspecto tudante tem constantemente diante de si
o contraste entre os cientistas naturais um certo número de soluções incomen-
e muitos cientistas sociais mostra-se suráveis para aqueles problemas – solu-
instrutivo. Os cientistas sociais tendem, ções que ele deve, no final das contas,
em geral, a escolher o problema a ser avaliar por si mesmo.
investigado – por exemplo, os efeitos da Contraste-se essa situação com aquela
discriminação racial ou as causas do ciclo que podemos encontrar pelo menos nas
de negócios – principalmente devido à ciências naturais modernas. Nesses cam-
importância social de se chegar a uma pos o estudante apoia-se principalmente
solução. Mas isso, os cientistas naturais em manuais, até que ele comece sua pró-
quase nunca fazem. De qual dos grupos pria pesquisa no terceiro ou quarto ano
alguém poderia esperar que resolvesse de trabalho na pós-graduação. Muitos
problemas a uma taxa mais rápida? currículos dessa formação científica não
Os efeitos do isolamento em relação à solicitam nem mesmo aos estudantes de
sociedade envolvente são imensamente pós-graduação a leitura de trabalhos que
intensificados por uma outra caracterís- não foram escritos especialmente para
tica da comunidade científica profissio- estudantes. Os poucos currículos que
nal: a natureza de sua iniciação educaci- prescrevem a leitura suplementar de ar-
onal. Na música, nas artes gráficas e na tigos de pesquisa e monografias restrin-
literatura o profissional adquire sua edu- gem tal prescrição aos cursos mais avan-
cação sendo exposto às obras dos outros çados e, assim mesmo, limitam-se aos
artistas – principalmente às obras de ar- materiais que partem mais ou menos do
tistas mais antigos. Nesses campos, os li- ponto em que os textos didáticos disponí-
vros didáticos – com exceção dos com- veis pararam. Até os estágios mais avan-
pêndios e guias de criações originais – çados da educação de um cientista, os
têm somente um papel secundário. Na manuais substituem sistematicamente a
história, na filosofia e nas ciências sociais literatura científica criativa que os tornou
a literatura de livros didáticos tem uma possíveis. Poucos cientistas desejariam
importância maior. Mas mesmo nesses modificar essa técnica educacional. Isso
campos, o curso elementar da graduação porque confiam em seus paradigmas, e é
XIII O Progresso Através de Revoluções 139

essa confiança que torna possível tal téc- vadores. Não obstante, dada uma gera-
nica educacional. Afinal, por que o estu- ção para que se efetive a mudança, a ri-
dante de física, por exemplo, deveria ler gidez individual que predomina nos pe-
os trabalhos de Newton, Faraday, Eins- ríodos de ciência normal é compatível
tein ou Schrödinger quando tudo o que com uma comunidade que tem capaci-
ele precisa saber sobre esses trabalhos dade para se converter de um paradigma
já está recapitulado de um modo muito a outro quando a ocasião exige. Essa
mais resumido, mais preciso e com uma compatibilidade se evidencia particular-
forma muito mais sistemática em muitos mente quando levamos em conta que é
dos manuais didáticos mais atualizados? exatamente a rigidez individual que for-
Sem querer defender a duração excessiva nece à comunidade o sensor preciso de
a que ocasionalmente esse tipo de educa- que alguma coisa está dando errado.
ção tem sido levado, não se pode deixar Assim, em seu estado normal a co-
de notar que em geral ele tem sido imen- munidade científica é um instrumento
samente eficiente. imensamente eficiente para resolver os
É óbvio que essa educação é rígida e problemas ou charadas que o seu para-
limitada. Provavelmente mais do que digma define. Ademais, inevitavelmente
qualquer outra, à exceção talvez da edu- o resultado da resolução de tais proble-
cação em alguma teologia ortodoxa. Mas mas deve ser progresso. Até aqui não há
para o trabalho científico-normal – isto é, qualquer problema. Ao chegar até esse
para o trabalho de resolução de charadas ponto, contudo, nosso exame apenas põe
no interior da tradição que os manuais o foco de luz sobre a segunda e mais im-
definem – o cientista está quase perfei- portante parte do problema do progresso
tamente equipado. Além disso, ele tam- nas ciências. Por que o progresso tam-
bém está bem equipado para uma outra bém deveria ser o concomitante aparen-
tarefa: a geração de crises importantes temente universal das revoluções cientí-
por meio da ciência normal. Deixemos ficas? Uma vez mais, ainda, há muito
claro que quando irrompem essas crises para se aprender ao questionarmos sobre
o cientista já não está tão bem prepa- o que mais poderia resultar de uma revo-
rado para enfrentá-las. Embora as crises lução. As revoluções se encerram com a
prolongadas provavelmente se traduzam vitória total de um dos dois campos opo-
em uma prática educacional menos rí- nentes. Qual grupo vencedor ousaria di-
gida, o treinamento científico não chega a zer que o resultado da sua vitória não foi
ser desenhado de modo a produzir a pes- um progresso? Isso seria mais ou me-
soa que descobrirá com facilidade uma nos como admitir que o grupo estivesse
abordagem nova e inventiva. Mas, tão errado e que os seus oponentes estives-
logo alguém aparece com um novo candi- sem certos. Pelo menos para os mem-
dato a paradigma – usualmente uma pes- bros do grupo vencedor, o novo contexto
soa jovem ou uma pessoa nova no campo criado pela revolução deve ser um pro-
científico em questão – a perda na rigi- gresso. E eles estão numa excelente posi-
dez só se desenvolve nos indivíduos ino- ção para assegurar que também os futu-
XIII O Progresso Através de Revoluções 140

ros participantes da sua comunidade ve- explicação do progresso através de revo-


rão o passado da mesma maneira. A Se- luções pode parar nesse ponto. Fazer isso
ção XI descreveu em detalhe as técnicas implicaria que, nas ciências, o direito
com que isso é feito. Agora, nós acaba- deriva do poder. Essa é uma formulação
mos de recorrer a um outro aspecto da que também não estaria completamente
vida científica profissional estreitamente errada se ela não suprimisse a natureza
relacionado. Quando repudia um para- do processo e da autoridade pelos quais
digma que até há pouco estava em vigor, é feita a escolha entre paradigmas. Se
a comunidade científica renuncia – en- apenas a autoridade – e particularmente
quanto um material adequado para a lei- a autoridade não-profissional – fosse a
tura profissional – à maioria dos livros e árbitra dos debates sobre paradigmas, o
artigos em que aquele paradigma se sis- produto desses debates ainda poderia ser
tematiza. A educação científica não faz uma revolução. Mas ele não seria uma
uso de algo que equivalha ao museu de revolução científica. A própria existência
arte ou à biblioteca dos clássicos. O resul- da ciência depende de que o poder de
tado é, às vezes, uma distorção drástica escolher entre paradigmas pertença
da percepção que o cientista tem do pas- aos membros de um tipo especial de
sado da sua disciplina. Mais que os pro- comunidade. Como precisamente essa
fissionais de outros campos criativos, ele comunidade especial deve ser – se a
chega a ver esse passado como se condu- ciência deve subsistir – pode ser indicado
zisse em linha reta até a posição presente pela precariedade com que a humani-
da disciplina. Em suma: ele chega a vê- dade tem subsidiado o empreendimento
lo como progresso. Nenhuma alternativa científico. Toda civilização de que temos
está disponível ao cientista enquanto ele registro teve uma tecnologia, uma arte,
permanece em seu campo. uma religião, um sistema político, e
Inevitavelmente, essas observações assim por diante. Em muitos casos tais
vão sugerir que o membro de uma co- facetas da civilização foram tão desen-
munidade científica madura – como o volvidas quanto as nossas próprias. Mas
personagem típico do livro 1984 de Ge- só as civilizações que descendem da
orge Orwell – é a vítima de uma história Grécia Helênica possuem algo mais que
reescrita pelos poderes estabelecidos. uma ciência muito rudimentar. A maior
Ademais, essa sugestão não é completa- parte do conhecimento científico é um
mente inapropriada. Há perdas e ganhos produto da Europa nos últimos quatro
nas revoluções científicas, e os cientistas séculos. Nenhum outro lugar ou tempo
tendem a ser particularmente cegos
às perdas.3 Por outro lado, nenhuma nos estudos é para eles o mais recompensador.
Mas, usualmente também é o grupo mais frus-
3 Os historiadores da ciência deparam-se fre- trante no início. Porque os estudantes das ciên-

quentemente com essa cegueira de uma forma cias naturais já têm todas as respostas certas na
particularmente manifesta. O grupo de estudan- ponta da língua, é particularmente difícil fazê-
tes que chega até esses historiadores vindo das ci- los analisar uma ciência mais antiga em seus pró-
ências da natureza é o grupo cujo aproveitamento prios termos.
XIII O Progresso Através de Revoluções 141

deu tanto apoio a essas comunidades para juízos inequívocos. Duvidar que
muito especiais que estão na origem da os cientistas compartilhem alguma base
produtividade científica. desse tipo seria admitir a existência de
Quais são as características essenciais padrões incompatíveis de produção cien-
dessas comunidades? Obviamente, elas tífica. Tal admissão levantaria inevitavel-
requerem muito mais estudo. Nessa área, mente a questão de se a verdade nas ciên-
apenas as generalizações mais conjetu- cias pode ser uma.
rais são possíveis. Não obstante, um certo Essa pequena lista de características
número de requisitos para a participa- comuns às comunidades científicas foi
ção em um grupo científico profissional extraída inteiramente da prática da ciên-
já deve, evidentemente, estar claro. O cia normal. E é assim que deveria ser.
cientista deve, por exemplo, estar inte- Essa é a atividade para a qual o cien-
ressado em resolver problemas sobre o tista foi ordinariamente treinado. Note-
comportamento da natureza. Em acrés- se, contudo, que apesar de ser pequena,
cimo, embora seu interesse pela natu- a lista já é suficiente para destacar e di-
reza possa ser global quanto à extensão, ferenciar as comunidades científicas dos
os problemas com que o cientista traba- outros grupos profissionais. Apesar da
lha devem ser problemas de pormenor. sua fonte ser a ciência normal, note-se
Adquire maior importância ainda o fato também que a lista inclui muitas das ca-
de que as soluções satisfatórias podem racterísticas especiais da reação do grupo
não ser meramente pessoais. Elas de- durante as revoluções e, particularmente,
vem ser aceitas como soluções por mui- durante os debates sobre paradigmas. Já
tos. O grupo que as compartilha, no en- observamos que um grupo desse tipo
tanto, não pode ser tirado aleatoriamente deve ver uma mudança de paradigma
da sociedade como um todo. Esse grupo como progresso. Agora, nós podemos
é, em vez disso, a bem definida comuni- reconhecer que tal percepção é autor-
dade dos pares profissionais do cientista. realizadora. A comunidade científica é
Ainda que não escrita, uma das mais for- um instrumento supremamente eficiente
tes regras da vida científica é a proibi- para a maximização do número e da pre-
ção dos apelos aos chefes de estado ou cisão dos problemas resolvidos através da
às massas populares em geral quanto a mudança de paradigma.
matéria científica. O reconhecimento da Porque a unidade básica da produção
competência exclusiva de um grupo pro- científica é o problema resolvido; e por-
fissional e a aceitação de seu papel como que o grupo sabe satisfatoriamente quais
árbitro exclusivo das produções profissi- problemas já foram resolvidos, poucos ci-
onais têm outras implicações. Enquanto entistas poderão ser persuadidos com fa-
indivíduos e em decorrência de seu trei- cilidade a adotar algum ponto de vista
namento e experiência compartilhados, que põe novamente em questão muitos
os membros do grupo devem ser vistos problemas que já foram anteriormente
como os únicos possuidores das regras dados como resolvidos. A própria natu-
do jogo, ou de alguma base equivalente reza deve ser a primeira a minar a segu-
XIII O Progresso Através de Revoluções 142

rança profissional, ao fazer os trabalhos lhe. No processo, a comunidade vai arcar


científicos anteriores parecerem proble- com perdas. Em geral, alguns velhos pro-
máticos. Ademais, mesmo quando isso blemas devem ser banidos. Acrescente-
já ocorreu e um novo candidato a para- se a isso que com frequência a revolução
digma já foi acionado, os cientistas ainda estreita o foco dos interesses da comuni-
ficarão relutantes em aceitá-lo, a menos dade profissional, aumenta seu grau de
que se convençam de que duas condições especialização e diminui sua capacidade
de primeira importância estejam sendo de comunicação com outros grupos, se-
preenchidas. Primeiro, o novo candi- jam eles científicos ou leigos. Embora a
dato a paradigma deve parecer resolver ciência certamente cresça em profundi-
algum problema não resolvido e ampla- dade, ela não pode crescer em amplitude
mente reconhecido, que não poderia ser do mesmo modo. Se isso ocorre, o au-
enfrentado de nenhuma outra maneira. mento da amplitude se manifesta prin-
Segundo, o novo paradigma deve prome- cipalmente na proliferação das especiali-
ter preservar uma fração relativamente dades científicas e não na esfera de ação
grande da competência na resolução de de qualquer especialidade tomada indi-
problemas que se foi acrescentando à ci- vidualmente. No entanto, apesar dessas e
ência por meio dos paradigmas prece- de outras perdas das comunidades indi-
dentes. A inovação, por si mesma, não vidualmente, a natureza de tais comuni-
é um objetivo nas ciências. Pelo menos dades proporciona uma garantia virtual
não do mesmo modo que em muitos ou- de que tanto a lista dos problemas re-
tros campos criativos. Como resultado, solvidos pela ciência quanto a precisão
os novos paradigmas – embora eles ra- das soluções individuais dos problemas
ramente ou nunca possuam todas as ca- vão aumentar cada vez mais. A natureza
pacidades de seus predecessores – cos- da comunidade proporciona tal garantia,
tumeiramente preservam uma boa parte pelo menos se houver uma maneira qual-
dos segmentos mais concretos da produ- quer de proporcioná-la. E poderia haver
ção passada, e ainda permitem a adição um critério melhor que a própria decisão
de outras soluções concretas de proble- do grupo científico?
mas. Esses últimos parágrafos apontam as
Dizer tudo isso não é sugerir que direções em que eu acredito que uma so-
a competência para resolver problemas lução mais refinada do problema do pro-
seja uma base única ou inequívoca para a gresso nas ciências deva ser procurada.
escolha de um paradigma. Nós já aponta- Talvez elas indiquem que o progresso ci-
mos muitas razões por que não pode ha- entífico não seja exatamente aquilo que
ver um critério desse tipo. Dizer tudo isso foi imaginado até agora. Mas, ao mesmo
é sugerir que uma comunidade de espe- tempo, elas mostram que um certo tipo
cialistas científicos vai fazer tudo o que de progresso vai inevitavelmente carac-
puder para preservar a continuidade do terizar o empreendimento científico en-
acumulado de dados que ela tem a pos- quanto esse empreendimento subsistir.
sibilidade de tratar com precisão e deta- Na ciência não precisa haver qualquer
XIII O Progresso Através de Revoluções 143

outro tipo de progresso. Para sermos em qualquer tempo dado? Ajuda real-
mais precisos, talvez tenhamos que re- mente imaginar que há alguma explica-
nunciar à noção, explícita ou implícita, de ção completa e objetiva da natureza, e
que as mudanças de paradigma condu- que a medida adequada da produção ci-
zem os cientistas e todos os que com eles entífica é a extensão em que ela nos leva
aprendem para uma aproximação cres- para mais perto desse fim último? Se nós
cente da verdade. podemos aprender a substituir a evolu-
Já é hora de observarmos que até che- ção para aquilo que desejamos saber pela
garmos a essas poucas últimas páginas, evolução a partir daquilo que sabemos,
o termo ‘verdade’ foi introduzido nesse um trançado de problemas frustrantes
ensaio apenas em uma citação de Fran- pode desvanecer-se no processo. Em al-
cis Bacon. E mesmo naquelas páginas, gum lugar dessa rede, por exemplo, deve
o termo ‘verdade’ foi introduzido apenas estar localizado o problema da indução.
como uma fonte da convicção do cien- Ainda não posso antecipar em qual-
tista de que regras incompatíveis para fa- quer detalhe as consequências dessa
zer ciência não podem coexistir senão concepção alternativa do avanço cien-
durante as revoluções: aqueles períodos tífico, mas ela ajuda a reconhecer que a
em que a principal tarefa da profissão é transposição conceitual aqui recomen-
eliminar todos os conjuntos de regras, ex- dada tem estreita proximidade com a
ceto um. O processo de desenvolvimento transposição conceitual empreendida
descrito nesse ensaio foi um processo pelo Ocidente há apenas um século.
de evolução desde os primórdios primi- Essa concepção alternativa do avanço
tivos. Um processo cujos estágios suces- científico é particularmente vantajosa
sivos são caracterizados por uma com- porque em ambos os casos o principal
preensão da natureza que adquire deta- obstáculo à transposição conceitual é o
lhamento e refinamento crescentes. Mas mesmo. Quando Darwin publicou pela
nada do que foi ou do que será dito aqui primeira vez a sua teoria da evolução
faz do processo de desenvolvimento da em 1859, o que mais irritou muitos pro-
ciência um processo de evolução para fissionais não foi nem a noção de que
qualquer coisa. Inevitavelmente, tal va- as espécies se modificam, nem a possí-
zio terá angustiado muitos leitores. Nós vel descendência humana a partir dos
estamos profundamente acostumados a macacos. A evidência apontando para a
ver a ciência como um empreendimento evolução – incluindo a evolução humana
que se lança constantemente para mais – fora-se acumulando durante décadas.
perto de algum fim que por natureza já A ideia de evolução já fora sugerida antes
está antecipadamente fixado. e largamente disseminada. Embora a
Mas, é mesmo preciso que haja tal fim? evolução – enquanto tal – encontrara
Não podemos explicar tanto a existên- resistência particularmente entre os
cia da ciência quanto o seu sucesso nos grupos religiosos, ela não foi a maior
termos de uma evolução a partir do es- das dificuldades que os darwinianos
tado de conhecimento da comunidade, tiveram que enfrentar. A maior dificul-
XIII O Progresso Através de Revoluções 144

dade brotou de uma ideia muito mais mão humanos – órgãos cujo desenho ti-
sintonizada com a própria concepção de nha anteriormente fornecido poderosos
Darwin. Todas as teorias evolucionistas argumentos para a existência de um su-
pré-darwinianas bem conhecidas – as premo artífice e de um plano prévio – fo-
teorias de Lamarck, Chambers, Spen- ram produtos de um processo que se mo-
cer e dos Naturphilosophen alemães – veu constantemente desde os primórdios
consideraram que a evolução fosse um primitivos, ainda que para nenhum fim.
processo finalisticamente direcionado. A crença de que a seleção natural – resul-
A ideia de espécie humana e de flora tando da mera competição entre organis-
e fauna contemporâneos era pensada mos pela sobrevivência – poderia ter pro-
como estando presente desde a criação duzido os humanos juntamente com os
primeira da vida, talvez na mente de animais superiores e as plantas foi o as-
Deus. Tal ideia ou plano proporcionou pecto mais dificultoso e perturbador da
a direção e a força condutora de todo teoria de Darwin. O que poderia signifi-
o processo evolucionário. Cada estágio car ‘evolução’, ‘desenvolvimento’ e ‘pro-
novo do desenvolvimento evolucionário gresso’ na ausência de um fim específico?
era uma realização mais perfeita de um Para muitas pessoas, tais termos repenti-
plano que já estava presente desde o namente pareceram autocontraditórios.
início.4 A analogia que relaciona a evolução
Para muitas pessoas a abolição desse dos organismos com a evolução das
tipo teleológico de evolução foi a mais ideias científicas pode ser facilmente
significativa e a menos palatável das su- levada ao exagero. Mas com respeito às
gestões de Darwin.5 A Origem das Es- controvérsias dessa seção de encerra-
pécies não reconhecia qualquer meta es- mento ela é quase perfeita. O processo
tabelecida por Deus ou pela natureza. descrito na Seção XII como a resolução
Ao invés disso, a seleção natural – ope- das revoluções é a seleção do modo mais
rando em um dado ambiente e com os or- adequado de praticar a ciência futura por
ganismos vivos disponíveis no presente meio do conflito dentro da comunidade
– era responsável pela gradual mas per- científica. O resultado líquido de uma
sistente emergência de organismos mais sequência de tais seleções revolucioná-
complexos, mais vantajosamente estru- rias – separadas por períodos de ciência
turados e imensamente mais especiali- normal – é o conjunto maravilhosa-
zados. Até mesmo órgãos tão maravi- mente adaptado de instrumentos que
lhosamente adaptados como o olho e a nós chamamos conhecimento científico
moderno. Os sucessivos estágios desse
4 Loren Eiseley, Darwin’s Century: Evolution processo de desenvolvimento são carac-
and the Men Who Discovered It (New York, 1958), terizados por um aumento na articulação
caps. ii, iv-v. e na especialização. E o processo em seu
5 Para uma exposição particularmente aguda

de uma famosa batalha de Darwin com esse pro- todo pode ter ocorrido – como supomos
blema, ver A. Hunter Dupree, Asa Gray, 1810-1888 agora que o fez a evolução biológica –
(Cambridge, Mass., 1959), pp. 295-306, 355-83. sem o benefício de um fim estabelecido.
XIII O Progresso Através de Revoluções 145

Isto é, pode ter ocorrido sem o benefício patível com a visão evolucionária da ci-
da fixação de uma verdade científica ência desenvolvida aqui. Desde que essa
permanente, da qual cada estágio do visão também seja compatível com a me-
desenvolvimento do conhecimento ticulosa observação da vida científica, há
científico seria um exemplar melhor. fortes argumentos para empregá-la nas
Quem quer que tenha seguido o ar- tentativas de resolver a multidão de pro-
gumento até aqui vai, no entanto, sen- blemas que ainda restam.
tir a necessidade de perguntar por que
o processo evolucionário deveria funcio-
nar. Como deve ser a natureza, incluindo
os humanos, para que a ciência seja de
algum modo possível? Por que as comu-
nidades científicas deveriam ser capazes
de chegar a um firme consenso, inatingí-
vel em outras áreas? Por que o consenso
deveria persistir através de uma mudança
de paradigma depois da outra? E por
que a mudança de paradigma invariavel-
mente produz um instrumento em todos
os sentidos mais perfeito que aqueles co-
nhecidos anteriormente? Excetuando-se
a primeira, de um certo ponto de vista
tais questões já foram respondidas. Mas
de um outro ponto de vista, elas estão
tão abertas quanto estavam quando esse
ensaio começou. Não é só a comuni-
dade científica que deve ser especial. O
mundo de que essa comunidade cien-
tífica é parte também deve possuir ca-
racterísticas muito especiais. Mas nós
não estamos mais perto de saber o que
elas devem ser, do que estávamos no iní-
cio. Esse problema de como deve ser o
mundo de modo que se possa conhecê-lo
não foi, contudo, criado por esse ensaio.
Pelo contrário, esse problema é tão velho
quanto a própria ciência. E permanece
sem resposta. Mas ele não precisa ser res-
pondido nesse lugar. Qualquer concep-
ção da natureza compatível com o cresci-
mento da ciência pela competição é com-
Posfácio de 1969 146

Posfácio de 1969

Nos dias que correm já faz quase sete próprio pensamento se desenvolve pre-
anos que esse livro foi publicado pela pri- sentemente.3
meira vez.1 Durante esse período, tanto a Várias das dificuldades-chave do meu
reação dos críticos quanto meu trabalho texto original articulam-se em torno do
posterior aumentaram minha compreen- conceito de paradigma, e minha discus-
são de várias questões que ele levanta. são começa com elas.4 Na subseção que
Quanto ao fundamental, minha opinião se segue logo à frente eu sugiro que é
quase não mudou. Todavia, hoje eu reco- desejável dissociar o conceito de para-
nheço aspectos de sua formulação inicial digma da noção de comunidade cientí-
que criaram dificuldades gratuitas e in- fica; indico como isso pode ser feito e
compreensões. Uma vez que tais incom- discuto algumas das consequências sig-
preensões foram minhas mesmo, sua eli- nificativas da separação analítica resul-
minação permite-me conquistar um ter- tante. Em seguida, eu considero aquilo
reno que deveria em última instância for- que ocorre quando se investiga o para-
necer a base para uma nova versão do li- digma por meio do exame do compor-
vro.2 Não obstante, saúdo a oportuni- tamento dos membros de uma comu-
dade de esboçar as revisões requeridas,
comentar algumas das críticas mais rei- 3 Outras indicações podem ser encontradas em

teradas e sugerir as direções em que meu dois de meus ensaios recentes: Reflexions on my
Critics, in Imre Lakatos and Alan Musgrave (eds.),
1 Esse posfácio foi inicialmente preparado por Criticism and the Growth of Knowledge (Cam-

sugestão de meu ex-aluno e velho amigo Dr. Shi- bridge, 1970); e Second Thoughts on Paradigms,
geru Nakayama da Universidade de Tóquio, para in Frederick Suppe (ed.), The Structure os Scien-
inclusão em sua tradução desse livro para o japo- tific Theories (Urbana, Ill., 1970 or 1971), ambos
nês. Sou grato a ele pela ideia, pela paciência na sendo impressos no momento. Vou citar o pri-
espera de sua maturação, e pela permissão de in- meiro desses ensaios como Reflections e o vo-
cluir o resultado na edição de língua inglesa. lume em que ele aparece como Growth of Kno-
2 Para a presente edição eu não tentei realizar wledge. O segundo ensaio será referido como Se-

qualquer reescrita sistemática. Restringi as alte- cond Thoughts.


rações a uns poucos erros tipográficos e a duas 4 Para uma crítica particularmente persuasiva

passagens que continham erros individualizáveis. da minha apresentação inicial dos paradigmas
Um deles é a descrição do papel dos Principia de ver: Margaret Masterman, The Nature of a Para-
Newton no desenvolvimento da mecânica do sé- digm, em Growth of Knowledge; e Dudley Sha-
culo dezoito, nas páginas 25-27. O outro concerne pere, The Structure of Scientific Revolutions, Phi-
à resposta às crises na página 69. losophical Review, LXXIII (1964), 383-94.
Posfácio de 1969 147

nidade científica previamente determi- lha entre duas teorias incompatíveis, ins-
nada. Tal procedimento torna rapida- tando, em conclusão breve, que pessoas
mente explícito que em boa parte do li- que mantêm pontos de vista incomensu-
vro o termo ’paradigma’ é usado em dois ráveis devam ser pensadas como mem-
sentidos diferentes. Por um lado, ele sig- bros de comunidades de linguagem dife-
nifica a constelação completa de cren- rentes, e que seus problemas de comu-
ças, valores, técnicas, etc., compartilhada nicação devam ser analisados como pro-
pelos membros de uma dada comuni- blemas de tradução. Três questões resi-
dade. Por outro lado, ele denota um tipo duais são discutidas nas Subseções finais
de elemento presente naquela constela- 6 e 7. A primeira considera a acusação de
ção: as soluções concretas de charadas que a visão de ciência desenvolvida nesse
que, quando empregadas como mode- livro é relativista do começo ao fim. A
los ou exemplos, podem substituir as re- segunda começa indagando se meu ar-
gras explícitas como uma base para a so- gumento realmente sofre, como foi dito,
lução das charadas restantes da ciência de uma confusão entre os modos descri-
normal. O primeiro sentido do termo – tivo e normativo. Ela se encerra com bre-
chamemo-lo sociológico – é o objeto da ves notas sobre um tópico que merece
Subseção 2, abaixo. A Subseção 3 é dedi- um ensaio separado: a extensão em que
cada aos paradigmas enquanto trabalhos as principais teses do livro podem ser le-
passados exemplares. gitimamente aplicadas a outros campos
Pelo menos filosoficamente, o segundo além da ciência.
sentido de ‘paradigma’ é o mais profundo
dos dois. As alegações que fiz em seu .1 Paradigmas e Estrutura Comunitá-
nome são a fonte principal das controvér- ria
sias e incompreensões que o livro provo-
cou. São em especial a fonte da acusa- O termo ‘paradigma’ entra nas páginas
ção de que faço da ciência um empreen- precedentes logo de início, e a sua ma-
dimento subjetivo e irracional. Tais ques- neira de entrar é intrinsecamente circu-
tões são consideradas nas Subseções 4 lar. Um paradigma é aquilo que os mem-
e 5. A primeira argumenta que termos bros de uma comunidade científica com-
como ‘subjetivo’ e ‘intuitivo’ não podem partilham e, inversamente, uma comuni-
ser aplicados apropriadamente aos com- dade científica consiste das pessoas que
ponentes de conhecimento que descrevi compartilham um paradigma. Nem toda
como tacitamente implicados em exem- circularidade é viciosa – vou defender
plos compartilhados. Embora tal conhe- um argumento de estrutura similar mais
cimento não seja, sem mudança essen- tarde, nesse Posfácio –, mas essa circu-
cial, sujeito a paráfrase em termos de re- laridade é uma fonte de reais dificulda-
gras e critérios, ele é, não obstante, siste- des. As comunidades científicas podem
mático, amplamente testado e, em algum e deveriam ser individualizadas sem que
sentido, revisável. A Subseção 5 aplica se recorra previamente aos paradigmas.
esse argumento ao problema da esco- Desse modo, os paradigmas podem ser
Posfácio de 1969 148

descobertos por meio da averiguação do comunidade que subjaz extensivamente


comportamento dos membros de uma aos capítulos antecedentes desse livro.
comunidade dada. Se esse livro estivesse Trata-se de uma noção que hoje é ampla-
sendo reescrito, ele começaria, portanto, mente compartilhada por cientistas, so-
com uma discussão da estrutura comuni- ciólogos e um certo número de historia-
tária da ciência – um tópico que se tornou dores da ciência.
recentemente um significativo objeto da Nessa perspectiva, uma comunidade
investigação sociológica e que os histo- científica consiste dos praticantes de
riadores da ciência também estão come- uma especialidade científica. Eles foram
çando a levar a sério. Resultados prelimi- submetidos a processos educativos e
nares, muitos dos quais ainda não publi- iniciações profissionais similares em
cados, sugerem que as técnicas empíricas uma extensão sem paralelo na maioria
requeridas para a exploração da estru- dos outros campos. No percurso, eles
tura comunitária da ciência não são tri- absorveram a mesma literatura técnica
viais. Contudo, algumas dessas técnicas e tiraram dela as mesmas lições. Usual-
estão à mão e outras estão com o desen- mente os limites dessa literatura padrão
volvimento garantido.5 A maioria dos ci- marcam os limites de um objeto de in-
entistas em ação responde sem pestane- vestigação científica, e cada comunidade
jar questões sobre suas afiliações comu- científica tem seu objeto de investigação
nitárias, dando por certo que a respon- específico. Há escolas nas ciências. Isto
sabilidade pelas diversas especialidades é, escolas que abordam o mesmo objeto
correntes é distribuída entre grupos com de investigação a partir de pontos de
participação determinada, pelo menos vista incompatíveis. Mas elas são de
em linha gerais. Portanto, vou aqui pre- longe mais raras que em outros campos.
sumir que meios mais sistemáticos para a Ademais, sua competição em geral ter-
identificação desses grupos serão encon- mina rapidamente. Como resultado, os
trados. Ao invés de apresentar resultados membros de uma comunidade científica
de pesquisa preliminares, deixe-me ver- vêm-se e são vistos pelos outros como
balizar brevemente a noção intuitiva de pessoas responsáveis com exclusividade
pela perseguição de um conjunto de
5 W. O. Hagstrom, The Scientific Community metas compartilhadas, entre as quais o
(New York, 1965), caps. iv e v; D. J. Price e D. de treinamento de seus sucessores. Dentro
B. Beaver, Collaboration in an Invisible College, de tais grupos a comunicação é relativa-
American Psychologist, XXI (1966), 1011-18; Di-
ana Crane, Social Structure in a Group of Scien-
mente plena e o ajuizamento profissional
tists: A Test of the ‘Invisible College’ Hypothesis, relativamente unânime. Por outro lado,
American Sociological Review, XXXIV (1969), 335- porque a atenção de diferentes comuni-
52; N. C. Mullins, Social Networks among Biolo- dades científicas é focada em diferentes
gical Scientists, (diss. de Ph.D., Harvard Univer- objetos, a comunicação profissional que
sity, 1966), e The Micro-Structure of an Invisible
College: The Phage Group (artigo apresentado no cruza as fronteiras intergrupais é por
encontro anual da American Sociological Associ- vezes árdua, resultando em frequentes
ation, Boston, 1968). incompreensões. Além disso, quando
Posfácio de 1969 149

se dá sequência a ela, pode evocar dis- sumo que isso pode e será feito pelo me-
cordâncias significativas e previamente nos com relação à cena contemporânea e
insuspeitadas. às partes mais recentes da cena histórica.
Comunidades – nesse sentido – exis- Tipicamente, isso pode produzir comuni-
tem, é claro, em numerosos níveis. A co- dades de, talvez, cem membros e, ocasio-
munidade mais abrangente é a de todos nalmente, significativamente menos. Em
os cientistas naturais. Em um nível um geral, individualmente os cientistas – par-
pouquinho inferior os principais grupos ticularmente os mais hábeis – pertence-
científicos profissionais são as comuni- rão a vários desses grupos, seja simulta-
dades dos físicos, químicos, astrônomos, neamente ou em sucessão.
zoólogos e outras assemelhadas. Nesses Comunidades desse tipo são as unida-
agrupamentos mais amplos, a condição des que esse livro apresentou como as
de membro da comunidade é facilmente produtoras e convalidadoras do conheci-
determinada, exceto em suas margens. O mento científico. Os paradigmas são algo
domínio do nível mais avançado daquilo compartilhado pelos membros de tais
que se investiga, a participação em as- grupos. Sem referência à natureza des-
sociações profissionais e a leitura de re- ses elementos compartilhados, muitos
vistas especializadas ordinariamente são aspectos da ciência descritos nas pági-
mais que suficientes para isso. Técnicas nas precedentes sequer podem ser com-
similares também vão isolar os subgru- preendidos. Mas outros aspectos podem,
pos mais importantes: químicos orgâni- embora eles não tenham sido apresenta-
cos – e talvez, entre eles, os químicos de dos de modo independente em meu texto
proteínas –, físicos do estado sólido e fí- original. Portanto, antes que nos volte-
sicos de altas energias, radioastrônomos mos diretamente para os paradigmas, é
e assim por diante. É apenas no nível importante que consideremos uma sé-
inferior próximo imediato que emergem rie de questões que requerem referência
os problemas empíricos. Para tomar um apenas à estrutura da comunidade.
exemplo contemporâneo, como se pode- Provavelmente a mais impressionante
ria isolar o grupo fago antes da sua con- dessas questões é aquilo que denominei a
sagração pública? Para esse propósito transição do período pré-paradigmático
dever-se-ia recorrer à frequência dos ci- para o período pós-paradigmático no de-
entistas a conferências especializadas, à senvolvimento de um campo científico.
distribuição de rascunhos datilografados Trata-se da transição que esbocei na Se-
ou provas de impressão anteriores à pu- ção II, acima. Antes que ela ocorra, um
blicação, e acima de tudo às redes formais certo número de escolas compete pela
e informais de comunicação, incluindo
aquelas evidenciadas na correspondên- titute of Scientific Information, 1964); M. M. Kes-
sler, Comparison of the Results of Bibliographic
cia e nas interconexões de citações.6 Pre- Coupling and Analytic Subject Indexing, Ame-
rican Documentation, XVI (1965), 223-33; D. J.
6 Eugen Garfield, The Use of Citation Data in Price, Networks of Scientific Papers, Science, CIL

Writing the History of Science (Philadelphia: Ins- (1965), 510-15.


Posfácio de 1969 150

dominação de um campo dado. Em encorajados pela observação de que seu


sequência, na onda de algum trabalho ci- próprio campo, ou escola, tem paradig-
entífico notável, o número de escolas é mas vão provavelmente sentir que algo
grandemente reduzido – ordinariamente importante é sacrificado pela mudança.
é reduzido a um –, dando início a um Mais importante, pelo menos para os
modo de prática científica mais eficiente. historiadores, a segunda questão diz res-
Esse último restringe-se a um grupo de peito à identificação implícita, ponto a
iniciados e se orienta para a resolução de ponto, das comunidades científicas com
charadas, algo em que o trabalho de um os objetos de investigação científica. Eu
grupo científico pode se transformar tão agi repetidamente como se, digamos,
somente quando seus membros dão por ‘ótica física’, ‘eletricidade’ e ‘calor’ de-
presumidas as fundações de seu campo. vessem nomear comunidades científicas
A natureza dessa transição para a ma- porque nomeariam objetos para a inves-
turidade merece uma discussão mais tigação. A única alternativa que meu
completa do que ela recebeu no livro, texto pareceu permitir foi que todos esses
particularmente por parte daqueles inte- objetos integrassem a comunidade dos
ressados no desenvolvimento das ciên- físicos. Identificações desse tipo, entre-
cias sociais contemporâneas. Para esse tanto, não resistirão a exame, como apon-
fim, pode ajudar a indicação de que a taram repetidamente meus colegas his-
transição não precisa – hoje penso que toriadores. Não houve qualquer comu-
não deveria – ser associada com a pri- nidade dos físicos antes de meados do
meira aquisição de um paradigma. Os século dezenove. A partir daí a comu-
membros de todas as comunidades cien- nidade dos físicos formou-se pela fusão
tíficas – incluindo as escolas do período de partes de duas comunidades anteri-
pré-paradigmático – compartilham tipos ormente separadas: a matemática e a fi-
de elementos que em conjunto eu rotu- losofia natural (physique expérimentale).
lei como ‘um paradigma’. O que muda Aquilo que hoje é objeto de investigação
com a transição para a maturidade não para uma só e ampla comunidade, foi no
é a presença de um paradigma. O que passado distribuído de diversas maneiras
muda é a natureza do paradigma. Só de- entre diversas comunidades. Outros ob-
pois da mudança a investigação normal jetos mais limitados – por exemplo, o ca-
de resolução de charadas é possível. Mui- lor e a teoria da matéria – subsistiram por
tos dos atributos de uma ciência desen- longos períodos sem se tornar a provín-
volvida que eu associei acima com um cia especial de qualquer comunidade ci-
paradigma, portanto, atualmente eu dis- entífica isolada. Tanto a ciência normal
cutiria como consequência da aquisição quanto as revoluções são, contudo, ativi-
de um paradigma que identifica charadas dades fundamentalmente comunitárias.
desafiadoras, oferece as dicas para que Para que se as descubra e analise, deve-se
elas sejam solucionadas e garante que os em primeiro lugar desemaranhar a estru-
cientistas mais espertos vão ser bem su- tura cambiante das ciências no decorrer
cedidos nisso. Apenas aqueles que foram do tempo. Em primeira instância, um pa-
Posfácio de 1969 151

radigma governa um grupo de cientistas, tenham-se tornado propriedade comum


e não um objeto de investigação. Qual- como resultado da teoria atômica de Dal-
quer estudo da pesquisa direcionada por ton, depois disso era bem possível para os
um paradigma – ou da pesquisa que des- químicos basear seu trabalho nessas fer-
mantela um paradigma – deve começar ramentas e discordar, às vezes veemente-
pela delimitação do grupo ou grupos res- mente, sobre a existência de átomos.
ponsáveis. Algumas outras dificuldades e incom-
Quando a análise do desenvolvimento preensões serão, acredito, dissolvidas da
científico é abordada dessa maneira, é mesma maneira. Em parte devido aos
provável que várias dificuldades que fo- exemplos que escolhi e em parte de-
ram focos de atenção crítica se desvane- vido à minha vagueza sobre a natureza
çam. Alguns comentadores, por exemplo, e o tamanho das comunidades relevan-
usaram a teoria da matéria para sugerir tes, uns poucos leitores desse livro con-
que eu superestimo drasticamente a una- cluíram que minha preocupação é pri-
nimidade dos cientistas em sua devoção mariamente ou exclusivamente com as
a um paradigma. Em termos comparati- grandes revoluções, a exemplo daque-
vos, eles assinalam que até recentemente las associadas com Copérnico, Newton,
as teorias da matéria foram tópicos de Darwin ou Einstein. Um delineamento
contínuo desacordo e debate. Concordo mais claro da estrutura da comunidade,
com a descrição, mas não acho que seja contudo, ajudaria a reforçar a impressão
um contraexemplo. Teorias da matéria um tanto diferente que eu tentei criar.
não eram – pelo menos até em torno de Para mim, uma revolução é um tipo es-
1920 – a província especial ou o objeto de pecial de mudança que envolve um certo
investigação de qualquer comunidade ci- tipo de reconstrução dos comprometi-
entífica. No lugar disso, elas eram ferra- mentos do grupo. Mas a revolução não
mentas para um grande número de gru- precisa ser uma mudança de grande am-
pos de especialistas. Membros de dife- plitude, nem precisa parecer revolucio-
rentes comunidades às vezes escolhem nária para os que estão fora da comu-
ferramentas diferentes e criticam a esco- nidade em questão, que pode consis-
lha feita por outros. É mais importante tir em talvez menos de vinte cinco pes-
ainda o fato de que uma teoria da maté- soas. É exatamente porque esse tipo de
ria não é a espécie de tópico sobre o qual mudança – pouco reconhecida ou discu-
mesmo os membros de uma comunidade tida na literatura da filosofia da ciência –
particular devam necessariamente con- ocorre tão regularmente nessa escala me-
cordar. A necessidade de acordo depende nor, que a transformação revolucionária,
daquilo que a comunidade faz. Na pri- em contraponto com a mudança cumu-
meira metade do século dezenove, a quí- lativa, precisa ser tão empenhadamente
mica oferece um exemplo disso. Embora compreendida.
várias das ferramentas fundamentais da Uma última alteração, intimamente re-
comunidade – proporção constante, pro- lacionada com a precedente, pode ajudar
porção múltipla e pesos combinados – a tornar mais fácil tal compreensão. Al-
Posfácio de 1969 152

guns críticos duvidaram de que a crise – a duas maneiras diferentes, pelo menos.7
consciência generalizada de que algo saiu A maior parte daquelas diferenças, penso
errado – precede tão invariavelmente a agora, é devida a inconsistências estilís-
revolução, como eu dei a entender no ticas que podem ser eliminadas com re-
meu texto original. Nada relevante para lativa facilidade. Por exemplo, as Leis de
o meu argumento, contudo, depende de Newton às vezes são um paradigma, às
que as crises sejam um pré-requisito ab- vezes são partes de um paradigma e às ve-
soluto das revoluções. Elas precisam ser zes são paradigmáticas. Mas, com esse
apenas o prelúdio usual que oferece, por trabalho editorial feito, dois usos muito
assim dizer, um mecanismo de autocor- diferentes do termo paradigma subsisti-
reção que assegura que a rigidez da ci- riam, e eles requerem separação. O uso
ência normal não permanecerá incontes- mais global é o objeto dessa subseção. O
tada para sempre. As revoluções tam- outro será considerado na próxima.
bém podem ser induzidas de outras ma- Depois de isolar uma comunidade
neiras, embora eu pense que isso seja particular de especialistas com técnicas
raro. Em acréscimo, gostaria de indicar como aquelas que acabamos de discutir,
agora aquilo que a falta de uma discus- pode-se proveitosamente perguntar. O
são adequada da estrutura da comuni- quê os membros da comunidade com-
dade obscureceu no livro: as crises não partilham que responde pela relativa
precisam ser geradas pelo próprio traba- plenitude de sua comunicação profissio-
lho da comunidade que as experimenta nal e pela relativa unanimidade de seus
e que, às vezes, como resultado, sujeita- juízos profissionais? Para tal questão,
se a uma revolução. Novos instrumen- meu texto original autoriza a seguinte
tos como o microscópio eletrônico ou resposta: um paradigma ou um conjunto
novas leis como as de Maxwell podem de paradigmas. Mas, para esse uso – à
desenvolver-se em uma comunidade e a diferença daquele discutido abaixo –,
sua assimilação criar uma crise em outra. o termo não é apropriado. Os próprios
cientistas diriam que compartilham uma
.2 Paradigmas como a Constelação teoria ou um conjunto de teorias. Eu me
dos Comprometimentos do Grupo alegrarei se o termo paradigma puder
ser, no fim das contas, reapropriado para
Voltemo-nos agora para os paradigmas esse uso. Tal como usado correntemente
e perguntemos o quê eles possivelmente na filosofia da ciência, contudo, o termo
podem ser. Meu texto original não deixa teoria conota uma estrutura de longe
qualquer outra questão mais obscura ou mais limitada em natureza e abrangência
mais importante. Uma leitora simpati- que aquele aqui requerido. Até que o
zante – que compartilha minha convic- termo paradigma possa ser expurgado de
ção de que paradigma dá nome aos ele- suas implicações atuais, adotar um outro
mentos filosóficos centrais do livro – pre- vai evitar confusão. Para os propósitos
parou um índice analítico parcial e con-
cluiu que o termo é utilizado de vinte 7 Masterman, op. cit.
Posfácio de 1969 153

presentes, eu sugiro matriz disciplinar. empreendimento de resolução de chara-


Disciplinar porque se refere à possessão das. Ainda que o exemplo da taxonomia
comum dos cientistas de uma disciplina sugira que a ciência normal possa avan-
particular. Matriz porque é composta por çar com poucas dessas expressões, o po-
elementos ordenados de várias espécies, der da ciência parece aumentar muito ge-
cada um deles requerendo especifica- neralizadamente com o número de ge-
ção ulterior. Todos ou a maioria dos neralizações simbólicas que os cientistas
objetos de comprometimento do grupo têm à sua disposição. Essas generaliza-
que meu texto original transforma em ções parecem-se com leis da natureza,
paradigmas, partes de paradigmas ou pa- mas a sua função para os membros do
radigmáticos são constitutivos da matriz grupo geralmente não é só essa. Às ve-
disciplinar. Como tal, eles formam um zes a generalização se apresenta como,
todo e funcionam em conjunto. Todavia, por exemplo, a Lei de Joule-Lenz: Q =
eles não devem mais ser discutidos como RI 2 . Quando essa lei foi descoberta, os
se fossem da mesma classe. Não tentarei membros da comunidade já sabiam a que
fazer aqui uma lista exaustiva, mas consi- correspondiam Q, R e I. Essa generali-
derar os principais tipos de componentes zação simplesmente lhes dizia algo so-
de uma matriz disciplinar vai esclarecer a bre o calor, a resistência elétrica e a cor-
natureza da minha presente abordagem rente elétrica que eles desconheciam an-
e simultaneamente preparar para o meu teriormente. Mas, como indica a dis-
ponto principal, que se segue. cussão feita anteriormente no livro, mais
Um importante tipo de componente frequentemente as generalizações sim-
vou rotular de generalizações simbólicas. bólicas servem, simultaneamente, para
Tenho em mente aquelas expressões, uti- uma segunda função: uma função que
lizadas sem questionamento ou discor- em geral é nitidamente deixada de lado
dância pelos membros do grupo, que po- pelos filósofos da ciência em suas análi-
dem ser moldadas em uma forma lógica ses. Generalizações como f = ma e I =
como (x )(y )(z )φ(x , y , z ). Elas são os com- V /R funcionam em parte como leis, mas
ponentes formais ou prontamente for- em parte funcionam como definições de
malizáveis da matriz disciplinar. Às ve- alguns dos símbolos que elas ordenam.
zes elas já são encontradas em forma sim- Ademais, o peso relativo entre suas for-
bólica: f = ma ou I = V /R . Outras ças legislativas e definicionais insepará-
vezes são ordinariamente expressas em veis altera-se no decorrer do tempo. Em
palavras: os elementos combinam-se em outro contexto, esses tópicos deveriam
proporções constantes de peso, ou à ação encontrar compensação em uma análise
iguala-se a reação. Se não fosse a acei- detalhada, já que o comprometimento
tação de expressões como essas, não ha- com uma lei é muito diferente do com-
veria qualquer ponto de apoio a que os prometimento com uma definição. Em
membros do grupo científico pudessem geral as leis são corrigíveis pouco a pouco,
amarrar suas poderosas técnicas de ma- mas as definições, sendo tautologias, não
nipulação lógica e matemática em seu são. Por exemplo, parte daquilo que a
Posfácio de 1969 154

aceitação da Lei de Ohm demandou foi ças em modelos particulares. Ademais,


uma redefinição de corrente e de resis- eu expandiria a categoria dos modelos
tência. Se tais termos tivessem continu- para que incluísse também a variedade
ado a significar o que significavam anteri- relativamente heurística: “o circuito elé-
ormente, a Lei de Ohm não poderia estar trico pode ser considerado como um sis-
certa. Por isso ela sofreu oposição tão vi- tema hidrodinâmico em estado estável”;
gorosa, ao contrário, digamos, da Lei de “as moléculas de um gás comportam-se
Joule-Lenz.8 Provavelmente essa situa- como minúsculas bolas de bilhar elásticas
ção seja típica. Atualmente eu suspeito em movimento aleatório”. Embora a força
que todas as revoluções envolvem, entre das sujeições do grupo varie – com con-
outras coisas, o abandono de generali- sequências não triviais – ao longo de um
zações cuja força tinha sido, em alguma espectro que vai dos modelos heurísticos
medida, aquela das tautologias. Einstein até os modelos ontológicos, todos os mo-
mostrou que a simultaneidade era rela- delos têm funções similares. Entre outras
tiva ou ele alterou a própria noção de si- coisas, eles fornecem ao grupo as analo-
multaneidade? Estariam errados aqueles gias e metáforas preferidas ou permissí-
que detectavam um paradoxo na expres- veis. Assim fazendo, os modelos ajudam
são relatividade da simultaneidade? a determinar aquilo que vai ser aceito
Consideremos a seguir um segundo como uma explanação e como uma reso-
tipo de componente da matriz discipli- lução de charada. Inversamente, eles aju-
nar. Sobre esse componente muito já dam na determinação da lista de chara-
foi dito no meu texto original sob rubri- das não resolvidas e na avaliação da im-
cas tais como paradigmas metafísicos ou portância de cada uma delas. Note-se,
partes metafísicas dos paradigmas. Te- contudo, que os membros da comuni-
nho em mente os comprometimentos dade científica podem não ter que com-
compartilhados de crenças como: “o ca- partilhar nem mesmo os modelos heurís-
lor é a energia cinética das partes cons- ticos, ainda que o façam com frequência.
titutivas dos corpos”; “todos os fenôme- Já indiquei que a participação na comu-
nos perceptíveis são devidos à interação nidade dos químicos durante a primeira
de átomos qualitativamente neutros no metade do século dezenove não exigia a
vazio”, ou – alternativamente – “todos crença em átomos.
os fenômenos perceptíveis são devidos à Um terceiro tipo de elemento da matriz
matéria e à força, ou aos campos”. Re- disciplinar devo descrever aqui como va-
escrevendo o livro agora, eu descreve- lores. Em geral eles são bem mais ampla-
ria tais comprometimentos como cren- mente compartilhados entre as diferen-
tes comunidades que as generalizações
8 Para partes significativas desse episódio
simbólicas ou os modelos. Os valores fa-
ver: T. M. Brown, The Electric Current in Early zem muito para proporcionar uma per-
Nineteenth-Century French Physics, Historical
Studies in the Physical Sciences, I (1969), 61-103, cepção de comunidade aos cientistas na-
e Morton Schagrin, Resistance to Ohms Law, turais como um todo. Embora os valores
American Journal of Physics, XXI (1963), 536-47. funcionem o tempo todo, sua importân-
Posfácio de 1969 155

cia particular emerge quando os mem- ticular. Juízos de simplicidade, consis-


bros de uma determinada comunidade tência, plausibilidade, etc., variam enor-
devem identificar uma crise ou, posteri- memente de indivíduo para indivíduo.
ormente, quando têm que escolher en- O que para Einstein foi uma inconsis-
tre modos incompatíveis de praticar a tência insuportável da teoria quântica –
sua disciplina. Provavelmente os valo- uma inconsistência que tornava impos-
res mais profundamente enraizados di- sível o prosseguimento da ciência nor-
gam respeito às predições. Elas deveriam mal –, para Bohr e outros foi uma di-
ser acuradas. As predições quantitativas ficuldade que poderia ser solucionada
são preferíveis às qualitativas. Qualquer por meios normais. Naquelas situações
que seja a margem permissível de erro, em que os valores devem ser aplicados,
elas devem ser consistentemente efetiva- tem ainda maior importância que dife-
das em um dado campo, e assim por di- rentes valores tomados isoladamente di-
ante. Entretanto, também há valores uti- tem com frequência escolhas diferentes.
lizados no julgamento das teorias como Uma teoria pode ser mais precisa, mas
um todo. Antes de mais nada e acima de menos consistente ou plausível que ou-
tudo, elas devem permitir a formulação tra. Sobre isso a teoria quântica também
e a resolução de charadas. Onde possí- oferece um exemplo. Em resumo, em-
vel, elas deveriam ser simples, autocon- bora os valores sejam amplamente com-
sistentes, plausíveis e compatíveis com partilhados pelos cientistas – e ainda que
outras teorias utilizadas correntemente. a sujeição a eles seja profunda e também
Hoje penso que seja uma fragilidade do constitutiva da ciência –, a aplicação dos
meu texto original que tão pouca atenção valores é às vezes consideravelmente afe-
tenha sido dada a valores tais como a con- tada pelos traços individuais de persona-
sistência interna e externa na considera- lidade e de biografia que diferenciam os
ção das fontes de crise, e como fatores da membros do grupo.
escolha da teoria. Ainda existem outros
tipos de valores – por exemplo, a ciência
deveria (ou não precisa) ser socialmente Para muitos leitores dos capítulos pre-
útil? –, mas os apontados acima deveriam cedentes essa característica da operacio-
exemplificar o que tenho em mente. nalização dos valores compartilhados pa-
Um aspecto dos valores compartilha- receu uma fragilidade relevante da mi-
dos, entretanto, requer menção especial. nha posição. Pela razão de eu insistir
Em uma extensão maior que outros com- em que aquilo que os cientistas compar-
ponentes da matriz disciplinar, os valores tilham não é suficiente para determinar
podem ser compartilhados por pessoas a concordância uniforme sobre questões
que se diferenciam quanto à sua aplica- tais como a escolha entre teorias concor-
ção. Juízos sobre exatidão são relativa- rentes ou a distinção entre uma anoma-
mente – ainda que não inteiramente – es- lia ordinária e uma anomalia provoca-
táveis de um período a outro e de um dora de crise, ocasionalmente sou acu-
cientista para outro em um grupo par- sado de glorificar a subjetividade e até
Posfácio de 1969 156

mesmo a irracionalidade.9 Mas, essa re- tada por um colega –, a ciência colapsa-
ação ignora duas características apresen- ria. Se, por outro lado, ninguém reagisse
tadas pelos juízos de valor em qualquer às anomalias ou às teorias novinhas em
campo. Primeiro, os valores compartilha- folha enveredando por caminhos de alto
dos podem ser importantes direcionado- risco, haveria poucas revoluções – ou ne-
res do comportamento do grupo, mesmo nhuma. Em questões como essas, o re-
que os membros do grupo não os apli- curso aos valores compartilhados em de-
quem exatamente do mesmo modo. Não trimento das prescrições compartilhadas
fora esse o caso, não haveria quaisquer que governam a escolha individual pode
problemas filosóficos especiais sobre te- ser a maneira da comunidade distribuir o
oria do valor ou sobre estética. As pes- risco e assegurar o sucesso de longo prazo
soas não pintavam de modo idêntico du- de seu empreendimento.
rante os períodos em que a representação Voltemo-nos agora para um quarto
era um valor primário, mas o padrão de tipo de elemento da matriz disciplinar.
desenvolvimento das artes plásticas mu- Não se trata de elemento de outra espé-
dou drasticamente quando aquele valor cie, mas do último elemento que devo
foi abandonado.10 Podemos imaginar o discutir aqui. Para ele o termo pa-
que aconteceria nas ciências se a consis- radigma seria inteiramente apropriado,
tência cessasse de ser um valor primá- tanto do ponto de vista filológico quanto
rio. Segundo, a variabilidade individual do ponto de vista autobiográfico. Esse
na aplicação dos valores compartilhados é o componente dos compartilhamentos
pode estar a serviço de funções essenciais do grupo que me levou inicialmente a
para a ciência. Os pontos a que os valores escolher a palavra paradigma. Uma vez
devem ser aplicados também são invari- que o termo adquiriu vida própria, con-
avelmente aqueles em que riscos devem tudo, vou substituí-lo aqui por exempla-
ser assumidos. A maioria das anomalias res. Inicialmente, quero dizer com exem-
é resolvida por meios normais. A maio- plares as soluções concretas de proble-
ria das propostas de novas teorias prova- mas que os estudantes encontram desde
se errada. Se todos os membros da co- o começo da sua educação científica, seja
munidade respondessem a cada anoma- nos laboratórios, nos exames ou no fi-
lia como se ela fosse uma fonte de crise – nal dos capítulos dos livros didáticos ci-
ou abraçassem cada nova teoria apresen- entíficos. A esses exemplos comparti-
9 Ver particularmente: Dudley Shapere, Mea-
lhados deveriam, entretanto, ser adici-
ning and Scientific Change, in Mind and Cosmos:
onadas pelo menos algumas das solu-
Essays in Contemporary Science and Philosophy, ções técnicas de problemas encontradas
The University of Pittsburgh Series in the Philo- na literatura de periódicos que os cien-
sophy of Science, III (Pittsburgh, 1966), 41-45; Is- tistas encontram durante suas carreiras
rael Scheffler, Science and Subjectivity (New York, de pesquisa posteriores à formação edu-
1967); e os ensaios de Sir Karl Popper e Imre Laka-
tos em Growth of Knowledge. cacional, e que também lhes mostram
10 Ver a discussão no começo da Seção XIII, pelo exemplo como seu trabalho deve ser
acima. feito. Mais que os outros tipos de compo-
Posfácio de 1969 157

nentes da matriz disciplinar, as diferen- aplicação. Todavia, eu tentei argumen-


ças entre conjuntos de exemplares pro- tar que essa alocação do conteúdo cog-
porcionam o refinamento da estrutura nitivo da ciência está errada. Depois que
comunitária da ciência. Todos os físi- o estudante já resolveu muitos proble-
cos, por exemplo, começam aprendendo mas, ele apenas pode adquirir uma fa-
os mesmos exemplares: problemas tais cilidade maior para resolver outros pro-
como o plano inclinado, o pêndulo cô- blemas. Mas no início – e ainda por
nico e as órbitas keplerianas, além do uso mais algum tempo –, resolver problemas
de instrumentos como o vernier, o ca- é aprender coisas significativas sobre a
lorímetro e a ponte de Wheatstone. Na natureza. Na falta de tais exemplares, as
medida em que seu treinamento prosse- leis e teorias que ele possa ter aprendido
gue, entretanto, as generalizações simbó- anteriormente teriam escasso conteúdo
licas que eles compartilham passam a ser empírico.
crescentemente ilustradas por exempla- Para indicar o que tenho em mente,
res diferentes. Embora tanto os físicos volto brevemente às generalizações sim-
do estado sólido quanto os físicos da te- bólicas. Um exemplo amplamente com-
oria dos campos compartilhem a equa- partilhado é a Segunda Lei do Movimento
ção de Schrödinger, apenas as suas apli- de Newton, geralmente escrita como f =
cações mais elementares são comuns aos ma . O sociólogo, digamos, ou o linguista
dois grupos. que descobre que a expressão correspon-
dente é proferida e recebida de modo não
.3 Paradigmas como Exemplos Com- problemático pelos membros de uma
partilhados dada comunidade não terá, sem muita
investigação adicional, aprendido sobre
O paradigma como exemplo comparti- aquilo que tanto a expressão quanto os
lhado é o elemento central daquilo que termos que a constituem significam. E
hoje considero o aspecto mais inovador não terá aprendido sobre como os cien-
e menos compreendido desse livro. Por- tistas da comunidade afixam a expres-
tanto, os exemplares vão requerer mais são à natureza. Efetivamente, o fato de
atenção que os outros componentes da que eles a aceitem sem questionamento
matriz disciplinar. Os filósofos da ci- e a utilizem como um ponto de entrada
ência não têm, em geral, discutido os para a manipulação lógica e para a ma-
problemas que um estudante encontra nipulação matemática, por si mesmo não
nos laboratórios ou nos textos científi- implica que eles concordem completa-
cos. Pensa-se que esses problemas ape- mente sobre questões tais como signifi-
nas ofereçam um exercício prático para cado e aplicação. Claro que eles con-
a aplicação daquilo que o estudante já cordam em extensão considerável. Do
sabe. É dito que o estudante não pode contrário, o fato emergiria rapidamente
aprender a resolver quaisquer proble- de sua conversação subsequente. Mas,
mas, a menos que já tenha aprendido pode-se muito bem perguntar em que
antes a teoria e algumas regras de sua ponto e por quais meios eles chegaram a
Posfácio de 1969 158

fazê-lo. Quando confrontados com uma dantes quanto aos historiadores da ciên-
situação experimental dada, como eles cia fornece uma pista. Os estudantes re-
aprenderam a selecionar as forças, mas- gularmente relatam que leram um capí-
sas e acelerações relevantes? tulo do livro didático, compreenderam-
Embora esse aspecto da situação rara- no perfeitamente mas, não obstante, ti-
mente ou nunca é notado, na prática o veram dificuldade em resolver um certo
que os estudantes têm que aprender é número de problemas relacionados no fi-
ainda mais complexo que isso. Não é exa- nal do capítulo. Ordinariamente, tam-
tamente o caso que a manipulação ló- bém, tais dificuldades dissolvem-se do
gica e a manipulação matemática sejam mesmo modo. Com ou sem a assistên-
aplicadas diretamente a f = ma . Ao cia de seu instrutor, o estudante descobre
examinar essa expressão, ela se mostra algum modo de ver seu problema como
como um esboço de lei ou como um es- um problema que ele já encontrou. En-
quema de lei. Na medida em que o estu- xergando a semelhança, captando a ana-
dante ou o cientista em ação movem-se logia entre os dois ou mais problemas dis-
de uma situação problema para a outra, a tintos, ele pode inter-relacionar os sím-
generalização simbólica a que essas ma- bolos e afixá-los à natureza do jeito que
nipulações se aplicam muda. Para o caso já se mostrou bem sucedido antes. O es-
da queda livre, f = ma torna-se m g = boço de lei – digamos, f = ma – funcio-
2
m ddt 2s . Para o pêndulo simples, f = ma nou como uma ferramenta que informou
2 ao estudante quais similaridades procu-
é transformada em m g sin Θ = −ml ddtΘ2 . rar, assinalando a Gestalt em que a situ-
Para um par de osciladores harmônicos ação deve ser vista. A habilidade resul-
interagindo, f = ma se transforma em tante para ver várias situações como se-
duas equações, a primeira das quais pode melhantes umas às outras – ou seja, como
2
ser escrita m 1 ddts21 + k 1 s1 = k 2 (s2 − s1 + sujeitas a f = ma ou a alguma outra ge-
d ). Para situações mais complexas – tal neralização simbólica – é, penso, a prin-
como o giroscópio – a equação adquire cipal coisa que o estudante adquire ao re-
outras formas, cuja semelhança de famí- solver problemas exemplares, seja com
lia com f = ma fica ainda mais difícil de lápis e papel ou num laboratório conce-
descobrir. Ademais, enquanto aprende bido adequadamente para isso. Depois
a identificar forças, massas e acelerações que o estudante já resolveu um certo nú-
em várias situações físicas não encon- mero de problemas – algo que pode variar
tradas anteriormente, o estudante tam- muito de um indivíduo para outro – ele
bém aprende a formular a versão apropri- passará a ver as situações que o confron-
ada de f = ma por meio da qual inter- tarão como cientista dentro da mesma
relacioná-las. Com frequência aprende a Gestalt que os outros membros de seu
formular uma versão para a qual não te- grupo de especialistas. Para ele não se
nha antes encontrado algum equivalente tratarão mais das mesmas situações que
literal. Como ele aprendeu a fazer isso? encontrou quando seu treinamento co-
Um fenômeno familiar tanto aos estu- meçou. Apesar disso, ele terá assimilado
Posfácio de 1969 159

a maneira de ver testada pelo tempo e au- altura máxima que pode ser atingida
torizada pelo grupo. com a velocidade adquirida durante
O papel das relações de similaridade aquele intervalo. O ascenso do centro
adquiridas também se mostra clara- de gravidade das partículas individuais
mente na história da ciência. O cientista deve assim igualar-se ao descenso do
resolve charadas modelando-as em centro de gravidade da água no tanque e
soluções de charadas anteriores, em no jato. A partir dessa visão do problema,
geral somente com um mínimo recurso a longamente procurada velocidade do
às generalizações simbólicas. Galileu efluxo decorreu prontamente.11
achava que a bola rolando por uma in- Esse exemplo deveria começar a deixar
clinação só adquire velocidade suficiente claro o que quero dizer por aprender dos
para retornar à mesma altura vertical problemas a ver as situações como simi-
em uma segunda inclinação de uma lares umas às outras, e como sujeitas à
vertente qualquer. E ele aprendeu a ver aplicação da mesma lei científica ou es-
tal situação experimental como se fosse boço de lei. Simultaneamente, ele deve-
o pêndulo, com um ponto de massa no ria mostrar por que eu me refiro ao con-
lugar do bulbo. Assim Huyghens resolveu seguinte conhecimento da natureza ad-
o problema do centro de oscilação de quirido enquanto se aprende as relações
um pêndulo físico, imaginando que o de similaridade – e depois incorporados
corpo extenso do último fosse com- em um modo de ver situações físicas –, ao
posto de pontos pendulares galileanos, invés de regras e leis. Os três problemas
os nexos entre os quais podendo ser no exemplo – todos eles exemplares para
instantaneamente desfeitos em qual- os físicos da mecânica do século dezoito
quer ponto do balanço. Depois que – desenvolvem uma só lei da natureza.
os nexos fossem desfeitos, os pontos Conhecida como o princípio da vis viva,
pendulares balançariam livremente, ela era usualmente formulada como: O
mas o seu centro de gravidade coletivo descenso atual iguala-se ao ascenso po-
– quando cada um atingisse seu ponto tencial. A aplicação da lei feita por Ber-
mais elevado – ascenderia apenas até noulli deveria sugerir o quão significativa
a altura de que o centro de gravidade ela era. Não obstante, a enunciação ver-
do pêndulo estendido começara a cair,
11 Para esse exemplo, ver: René Dugas, A His-
como no caso do pêndulo de Galileu.
Finalmente, Daniel Bernouille descobriu tory of Mechanics, trad. J. R. Maddox (Neuchâ-
tel, 1955), pp. 135-36, 186-93, e Daniel Bernouille,
como fazer com que o fluxo da água a Hydro-dinamica, sive de viribus et motibus fluido-
partir de um orifício se parecesse com rum, comentarii opus academicum (Strasbourg,
o pêndulo de Huyghens. Determina o 1738), Sec. iii. Para a extensão em que a mecâ-
descenso do centro de gravidade da água nica progrediu durante a primeira metade do sé-
no tanque e no jato durante um intervalo culo dezoito pela modelagem de uma solução de
problema em outra, ver Clifford Truesdell, Reacti-
de tempo infinitesimal. Então imagina ons of Late Baroque Mechanics to Success, Con-
que a seguir cada partícula de água se jecture, Error, and Failure in Newtons Principia,
move separadamente para cima, até a Texas Quarterly, X (19670, pp. 238-58.
Posfácio de 1969 160

bal da lei, tomada por si mesma, é virtu- vés de se basear na lógica e na lei. Mas
almente impotente. Apresente-a a um es- essa interpretação equivoca-se em dois
tudante contemporâneo de física que co- pontos essenciais. Primeiro: se estou,
nhece as palavras e pode resolver todos em todo caso, falando sobre instituições,
esses problemas, mas que agora emprega elas não correspondem a indivíduos. Elas
meios diferentes. Em seguida, imagine são, mais precisamente, as possessões
que palavras – ainda que todas fossem testadas e compartilhadas dos membros
bem conhecidas – poderiam ter sido di- de um grupo bem sucedido. O noviço
tas para uma pessoa que não conhecesse adquire-as por meio do treinamento que
nem mesmo os problemas. Para essa pes- é parte de sua preparação para a parti-
soa a generalização só poderia começar a cipação no grupo. Segundo: essas ins-
funcionar quando aprendesse a reconhe- tituições não são, em princípio, inanali-
cer descensos atuais e ascensos potenci- sáveis. Pelo contrário, atualmente estou
ais como ingredientes da natureza. E isso fazendo experiências com um programa
é aprender algo anterior à lei sobre situ- de computador projetado para investigar
ações que a natureza apresenta, e sobre suas propriedades em um nível elemen-
situações que a natureza não apresenta. tar.
Esse tipo de aprendizagem não é adqui- Sobre esse programa eu não teria nada
rido por meios exclusivamente verbais. para dizer aqui,12 mas a sua simples men-
Mais precisamente, trata-se de um tipo ção já ajudaria na compreensão de minha
de aprendizagem em que as palavras são tese mais essencial. Quando falo de co-
dadas juntamente com exemplos concre- nhecimento implícito em exemplos com-
tos de como elas funcionam no uso. Na- partilhados, não estou me referindo a um
tureza e palavras são aprendidas juntas. modo de conhecer que seja menos siste-
Tomando emprestada uma vez mais a útil mático e menos analisável que o conhe-
expressão de Michael Polanyi, o que re- cimento implícito em regras, leis ou crité-
sulta desse processo é conhecimento tá- rios de identificação. Em vez disso, tenho
cito que é aprendido fazendo ciência, ao em mente uma maneira de conhecer que
invés de adquirindo regras para fazê-la. é mal interpretada se for reconstruída em
termos de regras que primeiro são abs-
.4 Conhecimento Tácito e Intuição traídas dos exemplares, para em seguida
funcionar em seu lugar. Ou, para apre-
Essa referência ao conhecimento tácito – sentar o mesmo tópico diferentemente,
e a simultânea rejeição das regras – isola quando falo em adquirir por meio dos
um outro problema que incomodou mui- exemplares a habilidade para reconhe-
tos de meus críticos e pareceu fornecer cer uma situação dada como similar a
uma base para as acusações de subjeti- algumas situações e dissimilar a outras
vidade e irracionalidade. Alguns leito- que já foram vistas antes, não estou suge-
res pressentiram que eu estava tentando
fazer a ciência assentar-se sobre intui- 12 Alguma informação sobre essa matéria pode

ções individuais não analisáveis, ao in- ser encontrada em Second Thoughts.


Posfácio de 1969 161

rindo um processo que não seja potenci- de uma sensação. Entre as poucas coi-
almente explicável nos termos de um me- sas que sabemos com segurança sobre
canismo neurocerebral. Em vez disso, es- isso estão: que estímulos muito diferen-
tou pleiteando que a explicação, pela sua tes podem produzir as mesmas sensa-
natureza, não vai responder a questão Si- ções; que o mesmo estímulo pode pro-
milar com relação a quê?. Tal questão é a duzir sensações muito diferentes; e, fi-
demanda de uma regra – no caso, do cri- nalmente, que o caminho do estímulo à
tério pelo qual situações particulares são sensação é em parte condicionado pela
agrupadas em conjuntos de similaridade educação. Indivíduos criados em dife-
–, e eu estou argumentando que, nesse rentes sociedades comportam-se em cer-
caso, deveríamos resistir à tentação de se tas ocasiões como se vissem coisas di-
buscar critérios – ou pelo menos um con- ferentes. Deveríamos reconhecer que
junto completo de critérios. Não estou tudo se passa dessa forma, se não fôsse-
me opondo a todo e qualquer sistema. mos tentados a identificar os estímulos
Estou me opondo a um tipo particular de em correspondência exata com as sensa-
sistema. ções. Mencione-se que dois grupos cu-
Para dar substância a esse tópico, devo jos membros têm sistematicamente dife-
fazer uma breve digressão. O que se se- rentes sensações na recepção dos mes-
gue parece óbvio para mim agora, mas mos estímulos vivem em certo sentido em
o recurso constante a expressões como mundos diferentes. Postulamos a exis-
mudanças de mundo em meu texto ori- tência de estímulos para explicar nossas
ginal sugere que não foi sempre assim. Se percepções do mundo, e postulamos sua
duas pessoas posicionam-se no mesmo imutabilidade para evitar tanto o solip-
lugar e olham fixamente na mesma dire- sismo individual quanto o solipsismo so-
ção, nós devemos concluir que elas re- cial. Não tenho qualquer reserva sobre
cebem estímulos de estreita similaridade, nenhum desses postulados. Mas nosso
sob pena de solipsismo.13 Mas as pes- mundo não é povoado em primeira ins-
soas não veem estímulos. Nosso conhe- tância pelos estímulos, mas pelos obje-
cimento deles é altamente teórico e abs- tos de nossas sensações. E essas não pre-
trato. No lugar dos estímulos, as pessoas cisam ser as mesmas nem de indivíduo
têm sensações. E não estamos com qual- para indivíduo nem de grupo para grupo.
quer propensão para supor que as sen- É claro que, na medida em que indivíduos
sações de nossos dois espectadores se- pertencem ao mesmo grupo – comparti-
jam as mesmas.14 Pelo contrário, muito lhando assim a educação, a linguagem, a
processamento neural ocorre entre a re- experiência e a cultura –, temos boa razão
cepção de um estímulo e a consciência para supor que suas sensações sejam as
mesmas. De que outro modo poderíamos
13 Se ambas pudessem fixar seus olhos no
compreender a plenitude de sua comuni-
mesmo lugar, os estímulos seriam idênticos.
14 Os céticos poderiam lembrar que a cegueira cação e a uniformidade social de suas res-

para as cores não foi notada em lugar algum até postas comportamentais a seu ambiente?
que John Dalton a descrevesse em 1794. Eles devem ver coisas, processar estímu-
Posfácio de 1969 162

los, praticamente das mesmas maneiras. ríamos dizer que aquilo que foi adqui-
Mas não temos nenhuma evidência simi- rido por meio dos exemplares são regras
lar para a imutabilidade da sensação a e habilidade em aplicá-las? Tal descrição
partir de onde começa a diferenciação e a é tentadora porque nossa visão de uma
especialização dos grupos. Suspeito que certa situação como sendo similar a ou-
mero provincianismo nos faz supor que tras que já encontramos antes deve ser
o caminho dos estímulos à sensação é o o resultado de um processamento neu-
mesmo para os membros de todos os gru- ral inteiramente governado por leis físi-
pos. cas e químicas. Nesse sentido, uma vez
Retornando agora aos exemplares e re- que tenhamos aprendido a fazer isso, o
gras, aquilo que venho tentando sugerir é reconhecimento da similaridade deve ser
isso, ainda que de modo preliminar. Uma tão plenamente sistêmico como o bater
das técnicas fundamentais pela qual os de nossos corações. Mas, precisamente
membros de um grupo – seja toda uma esse paralelo sugere que o reconheci-
cultura ou uma subcomunidade de es- mento da similaridade também pode ser
pecialistas dentro dela – aprendem a ver involuntário: um processo sobre o qual
as mesmas coisas quando confrontados não tenhamos qualquer controle. Se as-
com os mesmos estímulos é a exposição a sim é, então não podemos concebê-lo
exemplos de situações que seus anteces- como algo que gerenciemos pela aplica-
sores no grupo já aprenderam a ver como ção de regras e critérios. Falar do reco-
parecidas entre si e como diferentes de nhecimento de similaridades nesses ter-
outros tipos de situações. Essas situações mos implica que tenhamos acesso a alter-
similares podem ser sucessivas apresen- nativas; que poderíamos, por exemplo,
tações do mesmo indivíduo. Sucessivas ter desobedecido uma regra ou aplicado
apresentações da mãe, digamos, que é erradamente um critério; ou que tenha-
por fim reconhecida à primeira vista pelo mos feito experiências com alguma ou-
que é, e como diferente do pai ou da irmã. tra maneira de ver.15 Considero que tudo
Elas podem ser apresentações de mem- isso são coisas que não podemos fazer.
bros de famílias naturais – digamos dos Ou, mais precisamente, tudo isso são
cisnes, por um lado, e dos gansos, por ou- coisas que não podemos fazer até que
tro lado. Ou elas podem, para os mem- tenhamos tido uma sensação, percebido
bros de grupos mais especializados, ser algo. Quando isso ocorre, com frequên-
exemplos de situação newtoniana. Isto
é, exemplos de situações que se asseme- 15 Esse ponto jamais precisaria elaboração se to-
lham em sua sujeição a uma versão da das as leis fossem como as Leis de Newton e todas
forma simbólica f = ma , e que são dife- as regras fossem como os Dez Mandamentos. No
rentes daquelas situações a que se apli- primeiro caso, infringir uma lei seria absurdo. No
cam, por exemplo, os esboços de lei da segundo caso uma rejeição de regras não parece-
ria implicar um processo não governado por lei.
ótica. Desafortunadamente, as leis de trânsito e outros
Consideremos por enquanto que algo produtos similares da legislação podem ser infrin-
desse tipo efetivamente ocorre. Pode- gidos, o que facilita a confusão.
Posfácio de 1969 163

cia procuramos critérios para pôr essas Não obstante fazermos tudo isso, os pro-
coisas em uso. Após ter tido uma sensa- cessos envolvidos devem ser em última
ção ou percebido algo, podemo-nos en- instância neurais. São, portanto, gover-
gajar em uma interpretação: um pro- nados pelas mesmas leis psicoquímicas
cesso deliberativo pelo qual escolhemos que governam por um lado a percepção
entre alternativas, algo que não é possível e, por outro, o batimento de nossos cora-
na própria percepção. Talvez, por exem- ções. Mas o fato de que o sistema obe-
plo, algo esteja esquisito naquilo que aca- dece às mesmas leis nos três casos não
bamos de ver – lembremo-nos das car- nos dá nenhuma razão para supor que
tas de baralho anômalas. Ao virar a es- nosso aparato neural esteja programado
quina, vemos nossa mãe entrando em para operar da mesma forma na interpre-
uma loja do centro da cidade, num mo- tação e na percepção, ou até mesmo nos
mento em que pensávamos que ela esti- nossos batimentos cardíacos. Portanto,
vesse em casa. Ponderando sobre o que nesse livro estou me opondo à tentativa
vimos, de repente exclamamos: Aquela – que remonta a Descartes, mas não an-
não era minha mãe porque ela é ruiva. tes dele – de analisar a percepção como
Entrando na loja, vemos a mulher de um processo interpretativo; como uma
novo e não podemos compreender como versão inconsciente daquilo que fazemos
ela poderia ter sido tomada pela minha apenas depois de termos percebido.
mãe. Ou, talvez, vemos as penas da cauda O que torna essa integridade da per-
de uma ave aquática com a cabeça sub- cepção digna de ênfase é, claro, o tanto
mersa, pegando alimento no fundo de de experiência passada corporificada no
uma lagoa rasa. É um cisne ou um ganso? aparato neural que transforma os estí-
Ponderamos sobre o que vimos, compa- mulos nas sensações. Um mecanismo
rando mentalmente as penas da cauda perceptivo programado apropriada-
com aquelas dos cisnes e gansos que vi- mente tem valor para a sobrevivência.
mos antes. Ou talvez, como protocien- Dizer que os membros de diferentes
tistas, nós simplesmente queremos saber grupos podem ter diferentes percepções
alguma característica – a brancura dos quando confrontados com os mesmos
cisnes, por exemplo – dos membros de estímulos não implica que possam ter
uma família natural que já podemos re- toda e qualquer percepção. Em muitos
conhecer com facilidade. De novo, pon- ambientes um grupo que não pudesse
deramos sobre aquilo que tínhamos per- discernir lobos de cães não poderia
cebido previamente em busca do que os durar. Nem poderiam subsistir como
membros de uma dada família têm em cientistas os membros de um grupo
comum. contemporâneo de físicos nucleares
Todos esses são processos deliberati- que fossem incapazes de reconhecer as
vos, e neles nós procuramos e sistemati- trajetórias das partículas alfa e dos elé-
zamos critérios e regras. Isto é, nós ten- trons. É precisamente porque tão poucas
tamos interpretar sensações já disponí- maneiras de ver vão servir que aquelas
veis para analisar aquilo que nos é dado. que resistiram aos testes do uso do grupo
Posfácio de 1969 164

são dignas de ser transmitidas de uma ainda que provavelmente não por exame
geração para outra. Do mesmo modo, é direto. Mas falar desse jeito do ver e da
porque elas foram selecionadas pelo seu sensação também se põe a serviço de fun-
sucesso no transcorrer do tempo histó- ções metafóricas de um modo que não é
rico que devemos falar da experiência e feito no corpo do livro. Não vemos elé-
do conhecimento como incorporados no trons, mas suas trajetórias – ou então bor-
percurso que vai do estímulo à sensação. bulhas de vapor numa câmara de nuvens.
Talvez conhecimento seja a palavra Não vemos propriamente corrente elétri-
errada, mas há razões para empregá- cas, mas a agulha de um amperímetro
la. Aquilo que, constituído no processo ou galvanômetro. Ademais, nas páginas
neural, transforma estímulos em sensa- precedentes, particularmente na Seção X,
ções tem as seguintes características: foi agi repetidamente como se percebêsse-
transmitido pela educação; por tentativa mos entidades teóricas como correntes,
e erro foi considerado mais efetivo que elétrons e campos; como se aprendêsse-
seus competidores históricos no ambi- mos a fazer isso por meio do exame de
ente geral de um grupo; e, finalmente, exemplares; e como se nesses casos tam-
sujeita-se a mudança tanto pela educa- bém fosse errado substituir a fala do ver
ção posterior quanto pela descoberta de pela fala do critério e da interpretação. A
inadequações em relação ao ambiente. metáfora que transfere ver para contex-
Tais são as características do conheci- tos como esses dificilmente é uma base
mento que explicam por que eu uso o suficiente para tais alegações. No longo
termo. Todavia, é um uso estranho, já que prazo ela precisará ser eliminada em fa-
uma outra característica está ausente. vor de um modo mais literal de discurso.
Não temos nenhum acesso direto àquilo O programa de computador acima re-
que está no nosso saber. Não temos ferido começa a sugerir maneiras pe-
quaisquer regras e generalizações com las quais isso pode ser feito, mas nem
que expressar esse conhecimento. As re- o espaço disponível nem a extensão da
gras que poderiam assegurar tal acesso minha presente compreensão permitem
deveriam referir-se aos estímulos, não às que eu elimine a metáfora aqui.16 Em
sensações. E podemos conhecer os es-
tímulos apenas por meio de uma elabo- 16 Para os leitores de Second Thoughts as se-
rada teoria. Na falta dessa teoria, o co- guintes notas concisas podem ser orientadoras.
nhecimento corporificado na trajetória A possibilidade do reconhecimento imediato dos
membros das famílias naturais depende da exis-
do estímulo à sensação permanece tácito. tência, subjacente ao processo neural, de espa-
Ainda que seja obviamente preliminar ços perceptivos vazios entre as famílias a ser dis-
e requeira correção em todos os seus de- criminadas. Se, por exemplo, houvesse um con-
talhes, o que acabou de ser dito sobre a tinuum perceptivo de aves aquáticas alinhando-
sensação foi dito com a intenção da li- se de cisnes a gansos, deveríamos ser obrigados
a introduzir um critério específico para distingui-
teralidade. No mínimo, trata-se de uma los. Uma observação similar pode ser feita para
hipótese sobre a visão que deveria ser as entidades não observáveis. Se uma teoria fí-
submetida a investigação experimental, sica não admite a existência de qualquer outra
Posfácio de 1969 165

vez disso, tentarei fortalecê-la com bre- nho que adota é mais curto e diferente do
vidade. Ver as gotículas de água ou uma caminho adotado pela pessoa que inter-
agulha contraposta a uma escala numé- preta as gotículas.
rica é uma experiência perceptiva rudi- Ou então, consideremos o cientista que
mentar para a pessoa não familiarizada inspeciona um amperímetro para deter-
com câmaras de nuvens e amperímetros. minar o número sobre o qual a agulha
Dessa forma, essa experiência perceptiva parou. Sua sensação provavelmente é a
requer reflexão, análise e interpretação – mesma que a do leigo, particularmente se
ou até mesmo a intervenção de uma au- esse último já leu anteriormente outros
toridade externa – antes que se possa che- tipos de medidores. Mas ele vê o medidor
gar a conclusões sobre elétrons ou cor- – de novo, basicamente de modo literal –
rentes. Mas é muito diferente a posição no contexto do circuito inteiro, além de
da pessoa que já aprendeu a respeito des- saber algo sobre a sua estrutura interna.
ses instrumentos e tem muita experiên- Para ele a posição da agulha é um critério,
cia exemplar com eles, havendo diferen- mas apenas um critério do valor da cor-
ças correspondentes no modo como ela rente. Para interpretá-lo ele precisa de-
processa os estímulos vindo deles e que terminar apenas em que escala o medi-
a atingem. Reparando no vapor de sua dor deve ser lido. Para o leigo, por outro
respiração em uma fria tarde de inverno, lado, a posição da agulha de nada é crité-
sua sensação pode ser a mesma de um rio, exceto de si mesma. Para interpretá-
leigo. Mas ao olhar uma câmara de nu- la, ele deve examinar toda a disposição
vens ela não vê – aqui literalmente – go- dos fios internos e externos, experimen-
tículas, mas trajetórias de elétrons, partí- tar as baterias e magnetos, e assim por di-
culas alfa, e assim por diante. Tais traje- ante. No uso metafórico de ver – não me-
tórias são, se você quiser, critérios que ela nos que no uso literal –, a interpretação
interpreta como índices da presença das começa onde a percepção termina. Os
partículas correspondentes. Mas o cami- dois processos não são a mesma coisa, e
aquilo que a percepção deixa para a in-
coisa que se assemelhe a uma corrente elétrica,
terpretação completar depende radical-
então um pequeno número de critérios – que po- mente da natureza e da magnitude da ex-
dem variar consideravelmente de caso a caso – periência e do treinamento anteriores.
será suficiente para identificar correntes, ainda
que não haja qualquer conjunto de regras que es-
pecifiquem as condições necessárias e suficientes .5 Exemplares, Incomensurabilidade
para a identificação. Esse tópico sugere um co- e Revoluções
rolário plausível que pode ser ainda mais impor-
tante. Dado um conjunto de condições necessá- O que acabou de ser dito proporciona
rias e suficientes para a identificação de uma en- uma base para o esclarecimento de ou-
tidade teórica, tal entidade pode ser eliminada da tro aspecto do meu livro: as considera-
ontologia de uma teoria por substituição. Na falta
de tais regras, contudo, essas entidades não são ções que faço sobre incomensurabilidade
elimináveis. A teoria continuará a demandar a sua e suas consequências para cientistas que
existência. debatem entre teorias a escolha daquela
Posfácio de 1969 166

que vai suceder a teoria atual.17 Nas Se- irracionalidade.


ções X e XIII eu argumentei que os par- Consideremos de início minhas obser-
tidos que se formam para esses debates vações sobre a prova. Quero ressaltar algo
veem diferentemente algumas das situ- simples e de há muito familiar na filoso-
ações experimentais e observacionais a fia da ciência. Debates para a escolha de
que ambos recorrem. Uma vez que os teoria não podem ser moldados em uma
vocabulários com que eles discutem tais fôrma que se assemelhe integralmente a
situações consistem, não obstante, dos uma prova lógica ou matemática. Nessa
mesmos termos, esses partidos devem última, premissas e regras de inferência
estar afixando alguns desses termos à na- são estipuladas desde o início. Se houver
tureza de maneira diferente, tornando- desacordo sobre as conclusões, as par-
se a comunicação entre eles inevitavel- tes do debate que se segue podem retra-
mente parcial. O resultado disso é que a çar seus passos um a um, confrontado-
superioridade de uma teoria sobre outra os com o que foi previamente estipulado.
é algo que não pode ser provado no de- No final desse processo, um ou outro
bate. Em vez disso, insisti, cada partido deve admitir que cometeu um equívoco:
deve tentar converter o outro pela persu- que violou uma regra previamente aceita.
asão. Somente os filósofos equivocaram- Depois dessa admissão ele não tem mais
se seriamente na interpretação do in- qualquer recurso, e a prova de seu opo-
tento dessas partes do meu argumento. nente se torna conclusiva. Mas, se em vez
Vários deles, contudo, reportaram que eu disso ambos descobrem que diferem no
acredito no seguinte:18 os proponentes que respeita ao significado ou à aplicação
de teorias incomensuráveis não se po- das regras estipuladas – descobrem que
dem comunicar mutuamente de modo seu acordo anterior não oferece base sufi-
algum. Como resultado, em um debate ciente para a prova –, o debate prossegue
para uma escolha de teoria não pode ha- na forma que ele inevitavelmente adquire
ver recurso a boas razões. Em vez disso, a durante as revoluções científicas. Tal de-
teoria deve ser escolhida por razões que bate é sobre premissas, e seu recurso é a
no fundo são pessoais e subjetivas. Al- persuasão como um prelúdio à possibili-
gum tipo de apercepção mística seria res- dade da prova.
ponsável pela decisão efetivamente al- Nada concernente a essa tese relativa-
cançada. Mais do que quaisquer outras mente familiar implica que não haja boas
partes do livro, as passagens em que se razões para ser persuadido, e também
assentam essas interpretações equivoca- que tais razões não sejam no fim das con-
das foram responsáveis por acusações de tas decisivas para o grupo. Não implica
nem mesmo que as razões para a escolha
17 Os tópicos que se seguem são tratados com
sejam diferentes daquelas habitualmente
maior detalhamento nas Seções v e vi das Reflec- listadas pelos filósofos da ciência: preci-
tions.
18 Ver os trabalhos citados na nota 9, acima, e são, simplicidade, fecundidade e outras
também o ensaio de Stephen Toulmin em Growth que tais. O que essa tese deveria sugerir,
of Knowledge. contudo, é que razões como essas funci-
Posfácio de 1969 167

onam como valores, podendo assim ser diferentemente. Isto é, elas falam a partir
aplicadas de diferentes maneiras, indi- de pontos de vista que eu chamei de inco-
vidual e coletivamente, por pessoas que mensuráveis. Elas sequer podem ter a es-
contribuem para reverenciá-las. Se duas perança de se entender, quanto menos de
pessoas discordam, por exemplo, a res- persuadir. Mesmo uma resposta provisó-
peito da fecundidade de suas teorias – ou ria para tal questão demanda maior espe-
se elas concordam sobre isso, mas discor- cificação da natureza da dificuldade. Su-
dam sobre a importância relativa da fe- ponho que, pelo menos em parte, tal res-
cundidade e, digamos, da possibilidade posta adquira a seguinte forma.
de se chegar a uma escolha –, nenhuma A prática da ciência normal depende
delas pode ser acusada de um equívoco. da habilidade adquirida dos exemplares
Não podem ser acusadas nem mesmo de para agrupar objetos e situações em con-
estar sendo não científicas. Não há qual- juntos de similaridade que são primiti-
quer algoritmo neutro para escolha de te- vos no sentido de que o agrupamento
oria. Não há procedimento decisório sis- é feito sem uma resposta à questão Si-
temático algum que, se aplicado apro- milar em relação a quê?. Um aspecto
priadamente, deva levar cada indivíduo central de qualquer revolução é, desse
do grupo à mesma decisão. Nesse sen- modo, que algumas relações de similari-
tido, é mais a comunidade de especialis- dade mudam. Objetos que antes eram
tas, e menos o indivíduo, que formula a agrupados no mesmo conjunto, são agru-
decisão efetiva. Para compreender por pados em conjuntos diferentes depois da
que a ciência se desenvolve como o faz, revolução, e vice-versa. Pensemos no Sol,
não é preciso desfiar os detalhes de bi- na Lua, em Marte e na Terra antes e de-
ografia e personalidade que conduzem pois de Copérnico. Pensemos no mo-
cada indivíduo a uma escolha particu- vimento da queda livre, no movimento
lar, conquanto esse tópico seja particu- pendular e no movimento planetário an-
larmente fascinante. O que se deve en- tes e depois de Galileu. Ou pensemos
tender, entretanto, é a maneira com que nos sais, nas ligas e na limalha da mis-
um conjunto de valores compartilhados tura de enxofre e ferro depois de Dal-
interage com as experiências particulares ton. Já que a maioria dos objetos con-
compartilhadas por uma comunidade de tinuam a ser agrupados juntos mesmo
especialistas para assegurar que a maio- nos conjuntos alterados, os nomes dos
ria dos membros do grupo vai achar, em conjuntos são habitualmente preserva-
última análise, um conjunto de argumen- dos. No entanto, a transferência de um
tos mais decisivo que outro. subconjunto é ordinariamente parte de
Tal processo é persuasão, mas apre- uma transformação crítica na rede de
senta um problema mais profundo. Duas inter-relações entre os objetos. Transfe-
pessoas que percebem a mesma situação rir os metais do conjunto dos compos-
diferentemente – mas que, apesar disso, tos para o conjunto dos elementos exer-
empregam o mesmo vocabulário em seu ceu um papel essencial na emergência de
debate – devem estar usando as palavras uma nova teoria da combustão, da aci-
Posfácio de 1969 168

dez e da combinação física e química. Ra- gum recurso. Os estímulos que incidem
pidamente tais mudanças alastraram-se sobre elas são os mesmos. Do mesmo
por toda a química. Portanto, não é de modo, é o mesmo seu aparato neural
surpreender que, quando essas redistri- geral, conquanto diferentemente progra-
buições ocorrem, duas pessoas cujos dis- mados. Ademais, exceto em uma pe-
cursos tinham anteriormente fluído apa- quena – ainda que crucial – área da expe-
rentemente com plena compreensão po- riência, até sua programação neural deve
dem repentinamente encontrar-se res- ser quase a mesma, já que elas compar-
pondendo aos mesmos estímulos com tilham uma história que excetua apenas
descrições e generalizações incompatí- o passado imediato. Como resultado, há
veis. Tais dificuldades não serão senti- compartilhamento do mundo cotidiano,
das por igual em todas as áreas de seu há compartilhamento de quase todo o
discurso científico. Mas essas dificulda- mundo científico e há compartilhamento
des vão emergir e se agrupar mais densa- de quase toda a linguagem. Com tanto
mente em torno dos fenômenos de que em comum, elas deveriam ser capazes de
depende mais centralmente a escolha da descobrir boa parte daquilo em que di-
teoria. ferem. As técnicas exigidas não são, to-
Embora comecem por se evidenciar na davia, quer diretas, quer agradáveis, quer
comunicação, esses problemas não são parcela do arsenal normal do cientista.
meramente linguísticos e não podem ser Os cientistas raramente reconhecem es-
resolvidos simplesmente pela estipula- sas técnicas pelo que efetivamente são,
ção das definições dos termos problemá- e raramente as utilizam por mais tempo
ticos. Uma vez que as palavras sobre as que o requerido para induzir à conversão
quais se aglomeram as dificuldades fo- ou para convencer-se de que a conversão
ram em parte aprendidas da aplicação não será conseguida.
direta a exemplares, os participantes de Em poucas palavras, aquilo que os par-
uma falha na comunicação não podem ticipantes de um colapso na comuni-
dizer Eu uso a palavra elemento (ou mis- cação podem fazer é reconhecer cada
tura, ou planeta, ou movimento livre) de um como membro de diferentes comu-
modos determinados pelos seguintes cri- nidades de linguagem e, daí por diante,
térios. Isto é, eles não podem recorrer tornar-se tradutores.19 Tomando as pró-
a uma linguagem neutra que ambos vão
19 A já clássica fonte para a maior parte dos as-
usar da mesma maneira e que seja ade-
pectos relevantes de uma tradução é W. V. Quine,
quada à enunciação de suas duas teorias, World and Object (Cambridge, Mass., and New
ou que seja adequada às consequências York, 1960), caps. i e ii. Mas Quine parece su-
empíricas de ambas as teorias. Parte da por que duas pessoas que recebem o mesmo es-
diferença é anterior à aplicação das lin- tímulo devam ter a mesma sensação e, portanto,
guagens em que as teorias, apesar disso, tem pouco a dizer sobre a extensão em que o tra-
dutor deve ser capaz de descrever o mundo a que
estão refletidas. está sendo aplicada a linguagem sendo traduzida.
As pessoas que vivenciam tais fracassos Para esse último ponto ver E. A. Nida, Linguistics
da comunicação devem, contudo, ter al- and Ethnology in Translation Problems, in Del Hy-
Posfácio de 1969 169

prias diferenças entre seus discursos in- persuasão não precisa ter sucesso e, se
tragrupais e intergrupais como objeto de ela tiver sucesso, não precisa ser acompa-
estudo, primeiro eles podem tentar des- nhada ou seguida de conversão. As duas
cobrir os termos e locuções que são uti- experiências não são as mesmas. Essa
lizados sem problemas dentro de cada é uma importante distinção que só há
comunidade mas que, não obstante, são pouco tempo reconheci plenamente.
focos de encrenca nas discussões inter- Considero que persuadir alguém
grupais.20 Quando conseguem isolar tais é convencê-lo de que minha própria
áreas de dificuldade na comunicação ci- concepção é superior e que, portanto,
entífica, eles podem recorrer aos voca- deveria tomar o lugar da concepção
bulários cotidianos que compartilham, dele. Às vezes se consegue isso sem
num esforço de maior elucidação de seus recurso a algo que se assemelhe a uma
embaraços. Isto é, cada um pode ten- tradução. Quando isso não ocorre, vá-
tar descobrir aquilo que o outro veria e rias das explanações e enunciados de
diria quando apresentado a um estímulo problemas endossados pelos membros
ao qual a sua própria resposta verbal se- de um grupo científico serão opacos
ria diferente. Se eles puderem abster-se para os membros de outro grupo. No
suficientemente de explicar o comporta- entanto, cada comunidade de linguagem
mento anômalo como consequência de pode ordinariamente produzir desde o
mero erro ou loucura, podem, com o início uns poucos resultados concretos
tempo, tornar-se bons prognosticadores de pesquisa que, embora descritíveis em
do comportamento um do outro. Cada sentenças compreendidas do mesmo
um terá aprendido a traduzir a teoria do modo por ambos os grupos, ainda não
outro – e suas consequências – na sua podem ser narrados pela outra comuni-
própria linguagem e, simultaneamente, dade em seus próprios termos. Se o novo
descrever em sua linguagem o mundo a ponto de vista perdura por algum tempo
que aquela teoria se aplica. É isso que o e continua a ser frutífero, os resultados
historiador da ciência faz ou deveria re- de pesquisa verbalizáveis desse modo
gularmente fazer ao lidar com teorias ci- provavelmente crescerão em número.
entíficas obsoletas. Para algumas pessoas não mais que tais
Já que a tradução, uma vez exercida, resultados já serão decisivos. Elas podem
permite aos participantes de um colapso dizer:
de comunicação vivenciar vicariamente
Eu não sei como os proponen-
algo dos méritos e defeitos dos pontos de
tes da nova concepção obtêm su-
vista uns dos outros, torna-se uma pode-
cesso, mas devo aprender. O que
rosa ferramenta para a persuasão e tam-
quer que estejam fazendo, é niti-
bém para a conversão. Mas mesmo a
damente correto
mes (ed.), Language and Culture in Society (New
York, 1964), pp. 90-97. . Essa reação chega de modo particu-
20 Locuções que não apresentam tais dificulda- larmente fácil para as pessoas que estão
des podem ser traduzidas pela mesma denotação. entrando agora na profissão, já que elas
Posfácio de 1969 170

ainda não adquiriram os vocabulários es- mais cega teimosia pode, no final das
pecializados e os comprometimentos de contas, responder pela continuidade da
qualquer um dos grupos. resistência.
Argumentos enunciáveis no vocabulá- Sendo esse o caso, um segundo aspecto
rio que os dois grupos usam do mesmo da tradução – há muito familiar aos his-
modo, contudo, geralmente não são de- toriadores e linguistas – torna-se crucial-
cisivos. Não são decisivos pelo menos mente importante. Traduzir uma teoria
até um estágio muito avançado na evolu- ou visão de mundo para a sua própria lin-
ção das concepções opostas. Entre aque- guagem não é fazer sua a linguagem tra-
les já integrados à profissão, poucos serão duzida. Para que isso ocorra é preciso que
persuadidos sem algum recurso às com- alguém se torne um nativo. Isto é, des-
parações mais extensas que a tradução cobrir que esse alguém está pensando e
permite. Mesmo que o preço sejam com agindo na – e não simplesmente fazendo
frequência sentenças de grande extensão a tradução da – língua que lhe era estran-
e complexidade,21 muitos resultados adi- geira. Todavia, essa transição não é algo
cionais de pesquisa podem ser traduzi- que um indivíduo possa fazer por deli-
dos de uma comunidade de linguagem beração ou escolha, conquanto boas se-
para outra. Na medida em que a tradu- jam suas razões para desejar fazer isso.
ção se processa, ademais, alguns mem- Em vez disso, em algum ponto do pro-
bros de cada uma das comunidades tam- cesso em que aprende a traduzir, ele se
bém podem começar a compreender vi- dá conta de que a transição ocorreu e que
cariamente como um enunciado anteri- ele deslisou para dentro da nova lingua-
ormente opaco poderia assemelhar-se a gem sem que uma decisão tenha sido to-
um esclarecimento para os membros do mada. Ou então – do mesmo modo que
grupo oposto. É claro que a disponibili- muitos daqueles que se depararam pela
dade de técnicas como essas não garante primeira vez com, digamos, a relatividade
a persuasão. Para a maioria das pessoas a ou com a mecânica quântica na meia
tradução é um processo ameaçador, além idade –, ele se encontra totalmente persu-
de ser completamente alheio à ciência adido pela nova concepção mas, apesar
normal. disso, é incapaz de internalizá-la e sentir-
De qualquer modo, contra- se em casa no mundo que a nova concep-
argumentos estão sempre disponíveis e ção ajuda a moldar. Intelectualmente tal
não há regras que prescrevam como um pessoa fez sua escolha, mas a conversão
equilíbrio possa ser atingido. Não obs- requerida para que essa escolha se efetive
tante, como os argumentos empilham-se esquiva-se dela. Contudo, ela pode usar
uns sobre os outros e desafio após de- a nova teoria. Mas fará isso como um es-
safio são vencidos com sucesso, só a trangeiro em um ambiente que lhe é es-
tranho – uma alternativa disponível ape-
21 Penso na controvérsia Proust-Berthollet in- nas porque já há nativos ali. Seu trabalho

teiramente conduzida sem que se recorresse ao será parasitário do trabalho dos nativos,
termo elemento. já que lhe falta a constelação de disposi-
Posfácio de 1969 171

ções mentais que os futuros membros da um mero relativismo em um aspecto que


comunidade adquirirão pela educação. seus críticos não conseguiram ver. To-
A experiência de conversão que com- mados como um grupo – ou em grupos –
parei a uma mutação da Gestalt se man- os profissionais das ciências desenvolvi-
tém, portanto, no coração do processo re- das são, tenho argumentado, fundamen-
volucionário. Boas razões para uma es- talmente resolvedores de charadas. Em-
colha fornecem motivos para a conver- bora os valores de que por vezes dispõem
são e o clima em que ela mais provavel- em momentos de escolha de teoria tam-
mente ocorrerá. Em acréscimo, a tra- bém derivem de outros aspectos de seu
dução pode proporcionar os pontos de trabalho, a habilidade demonstrada para
acesso para a reprogramação neural que, formular e resolver charadas apresenta-
embora inescrutável no momento, deve das pela natureza é, no caso de um con-
subjazer à conversão. Mas nem boas ra- flito de valores, o critério dominante para
zões nem a tradução constituem a con- a maior parte dos membros de um grupo
versão, e é esse processo que devemos ex- científico. Do mesmo modo que qual-
plicar para compreender um tipo essen- quer outro valor, a habilidade para re-
cial de mudança científica. solver charadas mostra-se equívoca em
sua aplicação. Apesar de a comparti-
lharem, duas pessoas podem diferir nos
.6 Revoluções e Relativismo
ajuizamentos que extraem de seu uso.
Em particular uma consequência da po- Mas o comportamento de uma comuni-
sição que acabamos de delinear incomo- dade que torna proeminente a habilidade
dou um certo número de meus críticos.22 de resolver charadas será muito diferente
Eles acham meu ponto de vista relati- do comportamento de uma comunidade
vista, especialmente como está desenvol- que não valoriza essa habilidade. Nas ci-
vido na última seção desse livro. Mi- ências, acredito, o elevado valor atribuído
nhas considerações sobre tradução põem à habilidade de resolver charadas tem as
em destaque as razões para a acusação. seguintes consequências.
Afirmo que os proponentes de diferentes Imaginemos uma árvore evolucioná-
teorias são como membros de diferentes ria que representasse o desenvolvimento
comunidades linguístico-culturais. Re- das modernas especialidades científicas
conhecer esse paralelismo sugere que em a partir de suas origens comuns, diga-
algum sentido ambos os grupos podem mos, na filosofia natural primitiva e nos
estar certos. Quando aplicada à cultura e ofícios. Uma linha riscada de baixo para
seu desenvolvimento essa posição é rela- cima – nunca se dobrando para trás –, do
tivista. tronco até a ponta de algum galho, traça-
Mas, se aplicada à ciência pode não ser. ria uma sucessão de teorias relacionadas
Em todo caso, essa posição está longe de por descendência. Considerando quais-
quer duas teorias escolhidas em pontos
22 Shapere, Structure of Scientific Revolutions e não muito próximos de suas origens, de-
Popper em Growth of Knowledge. veria ser fácil elaborar uma lista de cri-
Posfácio de 1969 172

térios que capacitassem um observador ximidade cada vez maior – ou se aproxi-


descomprometido a distinguir repetidas mam cada vez mais conclusivamente – da
vezes a teoria anterior da teoria mais re- verdade. Aparentemente, generalizações
cente. Entre os critérios mais úteis esta- como essa referem-se não às soluções de
riam: precisão da predição – particular- charadas e às predições concretas deriva-
mente da predição quantitativa –, a pro- das de uma teoria, mas à sua ontologia.
porção entre objetos especializados e ob- Isto é, ao ajuste entre as entidades com
jetos de utilidade pública, e o número de que a teoria povoa a natureza e aquilo que
diferentes problemas resolvidos. Menos está realmente aí.
úteis para esse propósito – embora tam- Talvez haja alguma outra maneira de
bém sejam importantes determinantes salvar a noção de verdade para aplica-
da vida científica – seriam valores como ção a teorias em seu todo, mas essa não
simplicidade, alcance e compatibilidade vai servir. Penso que não haja qual-
com outras especialidades. Tais listas não quer via teórico-independente para re-
são ainda as que se exige, mas não tenho construir frases como realmente aí. A
dúvidas de que elas podem ser completa- noção de um ajuste entre a ontologia de
das. E se elas podem ser completadas, en- uma teoria e sua contraparte real na na-
tão o desenvolvimento científico, como o tureza agora me parece falaciosa em prin-
biológico, é um processo unidirecional e cípio. Ademais, como historiador, fico
irreversível. As teorias científicas mais re- impressionado com a implausibilidade
centes são melhores que suas antecesso- dessa visão. Não duvido de que a mecâ-
ras para a resolução de charadas, nos am- nica de Newton, por exemplo, se avantaja
bientes em geral muito diferentes a que sobre a mecânica de Aristóteles, e de que
são aplicadas. Essa não é uma posição re- a mecânica de Einstein se avantaja sobre
lativista e mostra o sentido em que con- a de Newton como instrumentos de re-
victamente acredito no progresso cientí- solução de charadas. Mas não posso ver
fico. qualquer direção coerente de desenvol-
Entretanto, essa posição é carente de vimento ontológico nessa sucessão. Pelo
um elemento essencial quando a com- contrário, em alguns importantes aspec-
paramos com a noção de progresso que tos – embora de modo algum em todos
mais prevalece entre os filósofos da ciên- – a teoria geral da relatividade de Eins-
cia e entre os leigos. Uma teoria cientí- tein está mais próxima da teoria aristoté-
fica é usualmente reconhecida como me- lica que qualquer uma dessas duas está
lhor que suas predecessoras não apenas da teoria de Newton. Embora a tentação
no sentido de que ela é um instrumento de descrever tal posição como relativista
melhor para descobrir e resolver chara- seja compreensível, a descrição me pa-
das, mas também porque ela é, de algum rece errônea. Inversamente, a ser relati-
modo, uma representação melhor da- vismo essa posição, não consigo ver que
quilo que a natureza realmente é. Ouve- o relativista perca alguma coisa necessá-
se com frequência que sucessivas teorias ria para explicar a natureza e o desenvol-
desenvolvem-se no sentido de uma pro- vimento da ciência.
Posfácio de 1969 173

.7 A Natureza da Ciência ginas precedentes apresentam um ponto


de vista ou teoria sobre a natureza da ci-
Concluo com uma breve discussão de ência e, como outras filosofias da ciência,
duas reações recorrentes ao meu texto a teoria tem consequências para o modo
original. A primeira delas, crítica. A se- como os cientistas deveriam comportar-
gunda, favorável. Mas nenhuma das duas se para que seu empreendimento tenha
muito correta. Embora nenhuma das sucesso. Ainda que não precise estar cor-
duas se relacione com o que foi dito até reta – não mais que qualquer outra teo-
agora – nem uma se relacione com a outra ria –, ela proporciona uma base legítima
–, ambas foram suficientemente frequen- para repetidos deves e deverias. Inver-
tes para requererem pelo menos alguma samente, um conjunto de razões para le-
resposta. var a sério a teoria é que os cientistas, cu-
Uns poucos leitores do meu texto ori- jos métodos foram desenvolvidos e sele-
ginal notaram que me movo alternada- cionados pelo seu sucesso, comportam-
mente entre modos descritivos e norma- se de fato como a teoria diz que eles de-
tivos, num trânsito particularmente des- veriam. Minhas generalizações descriti-
tacado em passagens ocasionais que se vas são evidência para a teoria precisa-
abrem com Mas isso não é o que os cientis- mente porque também podem ser deri-
tas fazem, e se encerram com a alegação vadas dela, enquanto que em outras con-
de que os cientistas não deveriam fazer cepções da natureza da ciência elas cons-
assim. Alguns críticos consideram que tituem um comportamento anômalo.
estou confundindo descrição com pres- Penso que a circularidade de tal argu-
crição, violando assim o teorema filosó- mento não é viciosa. As consequências
fico sancionado pelo tempo É não pode do ponto de vista sendo discutido não
implicar deve.23 são esgotadas pelas observações sobre as
Na prática esse teorema já virou um quais ele se baseou no início. Mesmo an-
chavão e não é mais reverenciado por tes que esse livro fosse publicado pela pri-
toda parte. Vários filósofos contemporâ- meira vez, eu já achava que partes da te-
neos descobriram importantes contextos oria que ele apresenta fossem uma ferra-
em que o normativo e o descritivo estão menta útil para a exploração do desen-
inextricavelmente mesclados.24 É e deve volvimento e do comportamento cientí-
de modo algum estão sempre separados ficos. Uma comparação do presente pos-
como pareceram. Mas não é necessário fácio com as páginas do texto original
nenhum recurso às sutilezas da filosofia pode sugerir que ela continuou a exercer
linguística contemporânea para desema- esse papel. Nenhum ponto de vista mera-
ranhar o que pareceu confuso em relação mente circular pode proporcionar tal ori-
a esse aspecto de minha posição. As pá- entação.
23 Para um dos muitos exemplos, ver o ensaio de
Para uma última reação a esse livro, mi-
P. K. Feyerabend em Growth of Knowledge. nha resposta deve ser de um tipo dife-
24 Stanley Cavell, Must We Mean What We Say? rente. Um certo número daqueles que ti-
(New York, 1969), cap. i. veram prazer em lê-lo vivenciaram isso
Posfácio de 1969 174

menos porque ele ilumina a ciência e Esse livro, entretanto, foi projetado
mais porque leram suas principais teses para tratar de um outro tipo de ques-
como se elas também fossem aplicáveis tão. Um ponto que foi bem menos vi-
a muitos outros campos. Compreendo sível para muitos de seus leitores. Em-
o que eles querem dizer e não gostaria bora o desenvolvimento científico possa
de desencorajá-los em suas tentativas de parecer-se com o desenvolvimento em
alargar o posicionamento. Todavia, sua outros campos muito mais do que geral-
reação me deixou perplexo. Na medida mente se supôs, ele é também surpreen-
em que o livro retrata o desenvolvimento dentemente diferente. Pelo menos de-
científico como uma sucessão de perío- pois de um certo ponto em seu desenvol-
dos compelidos pela tradição pontuada vimento, dizer, por exemplo, que as ciên-
por rupturas não cumulativas, suas teses cias progridem de um modo não encon-
são indubitavelmente de aplicação am- trado em outros campos não foi de todo
pla. Mas é assim mesmo que elas de- errado – o que quer que o próprio pro-
veriam ser, já que foram emprestadas de gresso possa ser. Um dos objetivos do li-
outros campos. Historiadores da litera- vro foi examinar tais diferenças e come-
tura, da música, das artes, do desenvol- çar a explicá-las.
vimento político e de muitas outras ati- Consideremos, por exemplo, a reite-
vidades humanas de há muito descrevem rada ênfase, acima, na ausência ou –
seus objetos da mesma maneira. A perio- como eu deveria dizer agora – na re-
dização em termos de rupturas revoluci- lativa escassez de escolas competidoras
onárias no estilo, no gosto e na estrutura nas ciências desenvolvidas. Ou então re-
institucional tem estado entre suas ferra- cordemos minhas considerações sobre a
mentas padrão. Se fui original com res- extensão com que os membros de uma
peito a conceitos como esses, foi princi- dada comunidade científica constituem
palmente porque os apliquei às ciências, a única audiência e os únicos juízes do
campos que foram largamente pensados trabalho daquela comunidade. Ou pen-
como se se desenvolvessem de um modo semos de novo na natureza específica da
diferente. É concebível que a noção de educação científica, sobre a resolução de
paradigma como um trabalho concreto – charadas como um objetivo, e sobre o sis-
um exemplar – seja uma segunda contri- tema de valores que o grupo científico
buição. Suspeito, por exemplo, que al- aciona em períodos de crise e decisão.
gumas das dificuldades notórias que cer- O livro individualiza outras característi-
cam a noção de estilo nas artes podem cas do mesmo tipo, nenhuma delas ne-
desvanecer-se se as pinturas pudessem cessariamente exclusiva da ciência. To-
ser vistas como modelando-se umas nas davia, no conjunto essas características
outras, em vez de serem produzidas em mantêm a ciência em seu nicho particu-
conformidade com algum cânone de es-
cussão mais extensa daquilo que há de especial
tilo.25 nas ciências, ver T. S. Kuhn, Comment [on the Re-
lations of Science and Art], Comparative Studies
25 Para esse ponto, assim como para uma dis- in Philosophy and History, XI (1969), 403-12.
Posfácio de 1969 175

lar.
Ainda há muito mais a se aprender so-
bre esses traços da ciência. Abri esse
posfácio enfatizando a estrutura comu-
nitária da ciência. Devo encerrá-lo su-
blinhando a necessidade de um estudo
similar e, acima de tudo, comparativo
das comunidades correspondentes em
outros campos. Como alguém elege e
como alguém é eleito para a participa-
ção em uma comunidade em particu-
lar? Qual é o processo e quais são os
estágios de socialização para integrar o
grupo? O que o grupo coletivamente vê
como seus objetivos? Que desvios indi-
viduais ou coletivos vai tolerar? Como
ele controla a aberração não permissível?
Uma compreensão mais completa da ci-
ência também vai depender de respostas
a outros tipos de questões, mas não há
nenhuma área em que muito mais tra-
balho é tão intensamente requerido. O
conhecimento científico, como a lingua-
gem, é intrinsecamente a propriedade
comum de um grupo, ou então nada
é. Para compreendê-lo precisaremos co-
nhecer as características dos grupos que
o criam e usam.

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