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Artigo

LOBO, Tatiani de A.; COSTA, Marli M. M. da


CONFLUÊNCIAS
Revista Interdisciplinar de Sociologia e Direito
Quando os professores Eros Grau incorporados às discussões os profes-
ISSN 1678-7145 || EISSN 2318-4558
(USP) e Antoine Jeammaud (Univer- sores Cristina Mangarelli (Universidad
sité Lyon III) propuseram a realização de la Republica, Uruguai), Eric Soriano
A RESSIGNIFICAÇÃO DA POBREZA
de um colóquio em março de 2011, na (Université Montpellier III), Fernando
cidade de Tiradentes (MG), com o pro- Fontainha (FGV-RJ), Maria Cristina
MUNDIAL: Novas formas de tratamento
pósito de discutir trinta anos de traba- Vidotte (UFG), Olivier Leclerc (Uni-
lho crítico sobre o direito, não imagina- versité Nancy II), Pedro Heitor Barros
Tatiani de A. Lobo e Marli M. M. da Costa
vam que estivessem lançando a semente Geraldo (UFF), Ronaldo Lobão (UFF)
de uma reunião anual perene em que e Tatiana Sachs (Université Paris X). Na
Universidade de Santabrasileiros
diferentes professores Cruz do Sul. e fran- ocasião, todos foram instados a reagir
E-mail: tatianilobo@hotmail.com
ceses passassem a compartilhar uma ao texto base de Michel Miaille, cuja lei-
E-mail:
agenda marlimmdacosta@gmail.com
comum de pesquisas. Naquela tura é agora oferecida ao leitor de Con-
ocasião, entusiasmados com as possibi- fluências. Para além deste texto base, o
RESUMO
lidades de cooperação, seus nove parti- leitor poderá ainda conhecer as contri-
Com
cipantes o presente
– Antoine ensaio, busca-se (Univer-
Jeammaud apresentar questões
buiçõespertinentes
realizadasao pordebate contemporâ-
Cristina Man-
neo sobre a pobreza e demonstrar a importância do tema no cenário mundial. Para tanto,
sité Lyon III), Eric Millard (Université garelli, Eric Millard, Eros Grau, Leonel
discorre-se sobre a construção histórico-social da pobreza e suas características contempo-
Paris X), Eros Grau (USP), Evélyne Sé- Alvim, Maria Cristina Vidote, Rabah
râneas. Aponta-se a limitação dos fatores tradicionalmente apresentados como causadores
vérin (Université Paris X), Leonel Al- Belaidi, Ronaldo Lobão, Tatiana Sachs
da pobreza. Apresentam-se as formas atuais de monitorar o fenômeno e de distribuição
vim (UFF),
mundial Michel Miaille (Université
da pobreza.Colaciona-se que a pobrezae Olivier Leclerc.
é um problema Nelas,mas
mundial, discutem-se
que o Sul
Montpellier I), Rabah Belaidi (UFG), questões epistêmicas
ainda concentra maior pobreza do que o Norte. Apresentam-se novas abordagens sobre as da
noções
po-
Roberto Fragale
breza teóricas Filho (UFF)
da pobreza. O capital e social
Térciotratadede direito
uma ideiae utilizada
redistribuição, a articula-
para verificar a rede
Sampaio Ferraz (USP)
de relacionamento – propuseram-se
dos indivíduos çãoCapacidades
e a Teoria das entre direitoestáeligada
sociedade, alémdede
com a ideia
a oportunidade
renovar o encontro no ano
da liberdade. seguinte.
Estudam-se questões
as políticas específicas
públicas, relacionadas
seu aspecto fragmentário,à dis-
a
Assim, em março de 2012, agora sob o tribuição agrária e à existência de dis-
necessidade de sua implementação sob a égide de novos paradigmas, a fim de possibilitar o
tratamento
tema específicopor
“Redistribuir do fenômeno
meio dodadirei- pobreza,positivos
conforme incitativos
as peculiaridades de cada local. O
à distribuição.
Palavras-chave: pobreza; distribuição mundial da pobreza;
to?”, ocorreu um segundo encontro em cardápio dos temas tratados é amplo,políticas públicas.
Tiradentes
ABSTRACT (MG) cuja organização foi convidativo e antecipa as discussões
assegurada
This essay seekspelos professores
to provide and some Roberto
relevant toque
the animariam
contemporaryodebate
grupoonem seu encon-
poverty issues,
Fragale Filho, Leonel Alvim e Ronal- tro subsequente, sempre
demonstrating the importance of the issue on the world stage. For this purpose, spoke em Tiradentes
about
do Lobão, coordenadores do Núcleo (MG), agora sob o tema
the historical and social construction of poverty and its contemporary features. He pointed“O poder eo
deoutPesquisas
the limitation of the factors traditionally presented as the cause of poverty, as a culture, ge-de
sobre Práticas e Institui- papel político dos juízes”, em abril
ções Jurídicas
netics, geography,(NUPIJ)
etc. We do Programa
presented de 2014,
the current ways ofquando
monitoring o the
presente dossiê,
phenomenon andcons-
the
Pós-Graduação em Sociologia e Direito truído entre 2012 e 2013, ganhou
global distribution of poverty. If collated that poverty is a worldwide problem, but the South fôlego
(PPGSD)
still more da Universidade
concentrated Federal
than the Flu- individuals.
poor North para suaNew apresentação em theoretical
approaches about Confluên-
minense
poverty are (UFF). O grupo
presented. original
The social capital isfoi cias.
an idea Que
used o leitor
to verify thepossa saboreá-lo
relationship networkcomo
of
ampliado, não obstante a ausência jus- antecipação de uma próxima
individuals. and the Capabilities Theory is linked with the idea of freedom of opportunity. We rodada éo
tificada de Evélyne
studied public policy, Sévérin, pois
as well as its foram appearance.
fragmentary nosso maior desejo.
4Keywords: poverty;
CONFLUÊNCIAS global
| Revista distribution
Interdisciplinar of poverty;
de Sociologia public
e Direito. policy
Vol. 18, nº 1, 2016. pp. 04-23
A RESSIGNIFICAÇÃO DA POBREZA MUNDIAL

INTRODUÇÃO Dessa forma, o primeiro tópico será


O presente estudo se propõe a abor- dedicado à construção histórico-social
dar o fenômeno da pobreza, especial- da pobreza e suas características con-
mente no caso latino-americano. Assim, temporâneas. Com efeito, apontar-se-á
apresentar-se-ão as causas, a distribuição a limitação dos fatores historicamente
geográfica e as novas perspectivas teóri- apresentados como causadores da po-
cas que embasam as políticas públicas de breza, como cultura, genética, geografia
redução/eliminação da pobreza. etc. Além disso, explicar-se-á o moni-
O cenário latino-americano de mea- toramento do fenômeno, como o coefi-
do da década de 1990 e do início da dé- ciente de Gini e o IDH.
cada de 2000, momento em que vários Com efeito, o tópico seguinte será
países da região implementaram polí- dedicado ao tema da distribuição mun-
ticas focalizadas de segunda geração, dial da pobreza. Nesse ponto, colacionar-
permeadas por três elementos comuns: -se-á que a pobreza é um problema mun-
foco em famílias pobres e extremamente dial. No entanto, é perceptível que o Sul
pobres com crianças e adolescentes; pre- ainda concentra maior número de indi-
sença de condicionalidades; e perspec- víduos pobres do que o Norte. Na esteira
tiva de acumulação de capital humano dos últimos dados da pesquisa realizada
ao longo prazo. Essa nova estratégia foi pelas Nações Unidas, houve uma nítida
impulsionada pelo cenário de pobreza ascensão do Sul, especialmente nos indi-
de quase metade da população, o qual cadores sociais ligados à educação.
não foi atenuado pelo conjunto de ajus- Outrossim, o último tópico tratará
tes econômicos e estruturais propostos do capital social e da Teoria das Capa-
pelos países capitalistas centrais ao lon- cidades, no qual apresentar-se-ão novas
go da década de 1980. Assim, apresen- abordagens da pobreza. Assim, o capital
tam-se dois diagnósticos diversos para social trata de uma ideia utilizada para
esse fenômeno: o primeiro remete ao verificar a rede de relacionamento dos
fato histórico do modelo de coloniza- indivíduos. Já a Teoria das Capacidades
ção imposto pelos países ibéricos aliado está ligada com a ideia de oportunidade
às atuais políticas de precarização das da liberdade. Por fim, aduzir-se-á so-
relações trabalhistas e privatização dos bre as políticas públicas e seu aspecto
serviços tradicionalmente prestados fragmentário, objetivando demonstrar
pelo Estado, na esteira da teoria política que essa característica as torna menos
neoliberal; a segunda, por sua vez, diz eficientes e descontínuas.
respeito aos argumentos do BIRD e do A pesquisa parte de uma avalia-
FMI sobre a governança defeituosa dos ção interdisciplinar (filosófica, socio-
países latino-americanos. lógica, jurídica e econômica) e crítica,
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proporcionando o debate de diferentes dades foram chamadas a integrar-se na


perspectivas teóricas, sempre visando Revolução Industrial também prepon-
manter a autonomia, o pluralismo e a dera nesse atraso. Dessa forma, o autor
multidimensionalidade analítica. As- denominou essa via de integração como
sim, a proposta é de avaliação crítica atualização histórica1, a qual foi imposta
fraterna, onde é possível indicar e siste-pelo efeito constritor da estrutura social
matizar as diferenças, os problemas, as gerida pelos agentes externos de domi-
contradições e os paradoxos presentes nação (especialmente os países ibéricos)
em cada dimensão teórica, bem como e pelas camadas privilegiadas internas
apresentar as contribuições e os avan- (como as oligarquias nacionais), “obsti-
ços realizados por cada abordagem, nadas a perpetuar-se, seja pela preserva-
reconhecendo a legitimidade de cada ção de modos primitivos de ordenação
uma sobre o objeto de pesquisa. social, seja pela transmudação condicio-
nada à manutenção da ordem global”.
CONSTRUÇÃO HISTÓRICO- Outrossim, o modelo de dominação
-SOCIAL DA POBREZA E SUAS imposto pelos países ibéricos aos povos
CARACTERÍSTICAS CONTEM- latino-americanos foi preponderante
PORÂNEAS para a perpetuação do atraso e da po-
O fenômeno da pobreza sempre foi breza dessa população até a atualidade.
tema de uma série de estudos socioló-
gicos e antropológicos. No entanto, sua Desenvolvendo-se dentro
causa historicamente é atribuída a fato- desse enquadramento, a maio-
res limitados, tais como cultura, genéti- ria das nações americanas evo-
ca, geografia etc. Assim, não é possível luiu como estruturas “atualiza-
prescindir da abordagem histórica da das”. Primeiro, ao se integrarem
construção das sociedades latino-ame- no capitalismo mercantil como
ricanas para compreender a verdadeira formações coloniais de vários
razão da existência e da manutenção da tipos; depois, ao se incorpo-
pobreza nessa região. rar ao imperialismo industrial
Para o antropólogo Darcy Ribeiro como áreas neocoloniais. Em
(2007: 40), a explicação dos contrastes 1 A atualização histórica opera por meio da dominação e
entre as sociedades contemporâneas, do avassalamento de povos estranhos, seguida da ordena-
ção econômico-social dos núcleos em que se aglutinam os
bem como da pobreza dos povos atra- contingentes dominados para o efeito de instalar novas for-
sados na história é sempre “o motor da mas de produção ou explorar antigas atividades produtivas.
Esta ordenação tem como objetivo fundamental vincular os
dinâmica social que se encontra no surto novos núcleos à sociedade em expansão, como parcela do
de uma tecnologia de alta energia”. En- seu sistema produtivo e como objetivo de difusão intencio-
nal de sua tradição cultural, por meio da atuação de agentes
tretanto, o modo pelo qual essas socie- de dominação. (RIBEIRO 2007: 33)
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A RESSIGNIFICAÇÃO DA POBREZA MUNDIAL

todos os estágios dessa progres- tavam a reordenar intencionalmente a


são, eram mais pobres e atrasa- sociedade segundo um projeto próprio
dos do que as sociedades que que a tornasse economicamente viável
as parasitavam e também mais e progressista. Por isso acabaram sendo
pobres e atrasadas do que são todas derrotadas.
hoje. (RIBEIRO 2007: 41) Dessa forma, compreendia-se que,
apesar da colonização de exploração
Apesar de o homem branco euro- exercida na região, o desenvolvimen-
peu ter exercido uma dominação vio- to latino-americano seria espontâneo,
lenta, baseada na tecnologia, em espe- desde que modelos virtuosos de nações
cial por meio do domínio da navegação também colonizadas fossem seguidos.
e das armas, a sociedade como um todo Os Estados Unidos e o Canadá foram
era passiva em face desse estado de coi- apresentados como um exemplo de
sas. A pobreza e a riqueza eram expli- abandono do atraso, tendo em vista o
cadas por conceitos místicos capazes de capitalismo de prodigioso sucesso por
infundir uma atitude de resignação a eles adotado. Nesse diapasão, Ribeiro
certas camadas. Alguns estratos sociais, (2007: 18) aponta que “as formas de
entretanto, revoltaram-se com a domi- produção, de organização do trabalho,
nação europeia, sem, contudo, atingir de regulação da vida social e de con-
algum tipo de reorganização societária cepção do mundo, vigentes naqueles
que favorecesse a população interna. países, surgem como os padrões nor-
Essa situação, na visão de Darcy Ri- mativos desta sociologia justificatória.”
beiro (2007), não pode alterar-se devido No entanto, restou claro que o tipo de
à comunidade de interesses das classes colonização exercida sobre americanos
dominantes e dos agentes externos da e canadenses, de povoamento, favore-
exploração, empenhados ambos em ceu o desenvolvimento dessas nações.
manter a escravidão, o latifúndio, a Dessa forma, torna-se inviável, para o
monocultura de que todos, afinal, vi- autor, compará-los com o restante da
viam. Somente nos estratos inferiores América Latina e improvável que, mes-
era nítido o espírito de rebelião contra mo seguindo o modelo de desenvolvi-
a ordem social, sobretudo entre negros, mento desses países, que o restante da
escravos e índios explorados que cons- América obtenha o mesmo resultado.
tantemente promoviam revoltas com o
objetivo de reordenação social, ideali- Em todos os casos exami-
zando um passado remoto em que não nados, não se trata de simples
existiam senhores nem escravos. Mes- erros. Na realidade, através
mo quando vitoriosas, não se capaci- destas comparações, o que se
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propõe é a tese de uma via es- Na última década, evidenciou-se um


pontânea de desenvolvimento debate internacional pautado no forta-
que, partindo das condições delecimento do papel da proteção social
atraso dos povos subdesenvol- no processo de desenvolvimento. Nos
vidos, progrediria por adiçõesEstados capitalistas é de fácil percepção
de traços modernizadores até os problemas entre o Direito e a contra-
atingir a situação presente das
cultura, uma vez que essas economias
sociedades capitalistas indus-de mercado são responsáveis pelo auge
triais convertidas em modelos da produção de bens, bem como são as
ideais de ordenação social. As-
que apresentam os grandes vícios na
sim é que, aplicados à expli- distribuição das riquezas. O paradoxo
cação da pobreza e da riqueza do mercado competitivo apresenta-se
dos povos das Américas, estes na perspectiva positiva da qualidade,
esquemas descrevem a prospe- do preço e da modernidade, umbilical-
ridade dos norte-americanos e mente ligada ao aspecto negativo, onde
canadenses como antecipações a classe trabalhadora se sujeita a quedas
históricas de um processo co- repentinas em suas condições de tra-
mum de desenvolvimento es- balho e onde o capital se sobrepõe aos
pontâneo. Tal processo, ainda imperativos de justiça social. Percebe-
em curso, estaria afetando, em-se, assim, que a estratégia tradicional-
ritmo distintos, todos os povos
mente adotada conta com a austeridade
americanos e seria conducente à
econômica do Estado e as condições
sua homogeneização em algum favoráveis à produção, acentuando a
tempo do futuro. Os Estados competitividade na medida em que se
Unidos e o Canadá representa- amplia a globalização da economia.
riam, portanto, paradigmas da Contudo, para que esse cenário ca-
evolução sociocultural humana racterize um verdadeiro progresso social,
para a qual se estariam encami-
torna-se imprescindível que a preser-
nhando, mais ou menos tropega-vação das condições essenciais de vida
mente, todos os demais povos do
para as famílias, assegurando-se que as
continente. (RIBEIRO 2007: 18)necessidades de trabalho, saúde, educa-
ção e moradia sejam concomitantemen-
Levando-se em consideração essa te observadas. Nessa perspectiva, Nader
breve contextualização histórica, salien- (2013, p. 22) aduz que se configura uma
ta-se que uma das causas da pobreza na crise social no Estado democrático sem-
região latino-americana foi a forma de pre que “houver maior procura do que
colonização exercida. oferta de trabalho, quando a saúde pú-
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A RESSIGNIFICAÇÃO DA POBREZA MUNDIAL

blica for apenas um projeto, a pobreza estrutura econômico-social. Nessa di-


afastar as crianças das escolas e houver a mensão, sua concretização não significa
classe dos sem-teto e dos sem-terra”. a imediata exigência de prestação esta-
Frise-se, com isso, que, no cenário tal concreta, mas uma atitude positiva,
constitucional brasileiro e dos demais constante e diligente do Estado.
países latino-americanos com seme- Com efeito, as economias de mer-
lhante tradição constitucional, há uma cado são majoritariamente vinculadas
incompatibilidade entre a Carta Maior ao modelo econômico neoliberal , re-
e a teoria econômica neoliberal de sultado da formulação elaborada pelo
Hayek e Nozick, porquanto não se con- Consenso de Washington. Assim, para
substancia em Constituição-Garantia, Santos (2011), as principais inovações
típica do constitucionalismo liberal, institucionais dessa teoria relacionam-
que se limita a estruturar o Estado e -se a restrições drásticas à regulação
a garantir os direitos de defesa, sina- estatal da economia, como a criação de
lizando pela adoção de uma postura novos direitos de propriedade interna-
absenteísta do Estado no domínio das cional para investidores estrangeiros,
relações econômicas. Diferentemente inventores e criadores de inovações
disso, as Cartas latinas, de acordo com suscetíveis de serem objeto de proprie-
Bercovici (2007), veiculam um genuí- dade intelectual, bem como a subordi-
no projeto de transformação social, nação dos Estados nacionais às agên-
inserindo no seu núcleo de identidade cias multilaterais tais como o Banco
a adoção de um Estado Social e Demo- Mundial, o FMI e a OMC.
crático de Direito, bem revelado nas Os teóricos do neoliberalismo, se-
suas cláusulas transformadoras, como, gundo Santos (2011) visualizam uma
por exemplo, o art. 3°, III da Constitui- nova divisão internacional do trabalho,
ção brasileira de1988 que persegue a baseada na globalização da produção
erradicação da pobreza e a redução das no formato desenvolvido pelas em-
desigualdades regionais e sociais. presas multinacionais: as economias
À vista disso, destaque-se que nacionais devem tendencialmente ade-
cláusula transformadora, para Bercovi- quar-se aos preços internacionais; prio-
ci (2007), é aquela que explicita o con- ridade à exportação; políticas monetá-
traste entre a realidade social injusta e a rias e fiscais voltadas para a redução da
necessidade de eliminá-la. Deste modo, inflação e da dívida pública, vigilância
ela impede que a constituição conside- sobre a balança de pagamentos; direi-
re como realizado o que ainda está por tos de propriedade privada invioláveis;
se realizar, implicando na obrigação de setor empresarial do Estado deve ser
o Estado promover a transformação da privatizado; padrões nacionais de es-
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pecialização sobre decisões privadas; Contudo, ao final do século XX e


mobilidade dos recursos, dos investi- início do atual século, essa tradição neo-
mentos e dos lucros; regulação estatal liberal foi cedendo lugar a uma visão de
da economia deve ser mínima; e, espe- crescimento pró-pobre. Por conseguin-
cialmente relacionado à esta pesquisa, te, o crescimento econômico deveria vir
a redução do peso das políticas sociais acompanhado de uma componente de
no orçamento do Estado, reduzindo o políticas de proteção social focalizada
montante das transferências sociais, na população pobre e vulnerável, sendo
eliminando a sua universalidade e necessário manejar os diferentes riscos
transformando-as em meras medidas sociais por meio de pilares diferencia-
compensatórias em relação aos estratos dos de solidariedade e poupança, com
sociais inequivocamente vulnerabiliza- um forte apoio para políticas de trans-
dos pela atuação do mercado. ferências condicionadas de renda, bem
Brandão (2013) aponta que a intensi- como políticas de educação e saúde,
dade e os métodos de intervenção estatal fortalecendo o capital humano do país
na economia consistem em questões que (SCHWARZER, 2013).
não se inserem no plano dos consensos Com efeito, importa apresentar a
sobrepostos, mas no âmbito em que se situação da pobreza no cenário mun-
verifica um desacordo moral razoável, dial contemporâneo, assim como suas
razão pela qual devem ser decididas pe- concepções teóricas. Segundo Schmidt
las maiorias políticas, ao invés de imu- (2006), a pobreza é o maior dos flagelos
nizar-se uma doutrina econômica alta- que a humanidade enfrenta no início do
mente controvertida na constituição. novo milênio, uma vez que está asso-
Em outras palavras, o modelo eco- ciado à exclusão e desigualdade social,
nômico disposto no Consenso de manifestando-se em todos os continen-
Washington, nas últimas duas décadas tes, mas com rigor extremo na África,
do século XX, conduziu a uma argu- América Latina e Ásia. Em termos glo-
mentação que coloca em primeiro lugar bais, os números são impressionantes: 1
o crescimento, relegando ao segundo bilhão de pessoas tenta sobreviver com
plano a distribuição de renda. Com isso, menos de 1 dólar por dia e 2,5 bilhões
Schwarzer (2013, p. 438) assevera que o com menos de 2 dólares por dia; 800
papel da rede de proteção social estaria milhões de indivíduos passam fome, 8
concentrado na “amortização dos im- milhões de pessoas morrem por ano em
pactos negativos do ajuste macroeco- consequência da extrema pobreza, 10
nômico” e as políticas de proteção so- milhões de crianças não chegam aos 5
cial públicas de linha demonstraram ser anos de idade pela mesma razão, e as-
ineficientes ou insustentáveis. sim por diante. A desigualdade entre os
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A RESSIGNIFICAÇÃO DA POBREZA MUNDIAL

ricos e pobres é expressa na estimativa criado pela Organização das Nações


de que os 10% mais abastados usufruem Unidas para servir de base empírica dos
54% da renda mundial, enquanto os relatórios de desenvolvimento humano.
40% mais pobres ficam com apenas 5%. O IDH é a média simples de três indi-
Diante disso, restou demonstra- cadores sintéticos parciais: IDH-Longe-
da a relevância do estudo da pobreza vidade, IDH-Renda e o IDH-Educação.
a fim de propor uma construção so- (IPECE 2010: 35)
cial que propicie sua eliminação. No A moderna literatura ocidental re-
entanto, convém ressaltar que, apesar gistra diversas linhas de pensamento
de serem conceitos próximos, pobreza acerca das desigualdades sociais e da
e exclusão social não são sinônimos. pobreza nas sociedades de mercado.
Para SCHMIDT (2006: 1757), pobreza Para SCHMIDT (2006), duas tradições
e exclusão social são conceitos usados intelectuais interessam particularmen-
frequentemente como sinônimos, mas te: a primeira, representada por Karl
possuem um percurso histórico distin- Marx, protagoniza o “econômico” como
to. “O primeiro é antigo na literatura; o valor mais importante, interpretando
segundo se tornou usual nas duas últi- a pobreza à luz dos fatores materiais
mas décadas do século XX”. pertinentes à estrutura econômica; já
A desigualdade social, por sua vez, a segunda, representada por Max We-
é um fenômeno monitorado mundial- ber e Karl Polanyi, é mais “sociológica”,
mente pelo coeficiente de GINI. O interpretando a pobreza à luz tanto dos
coeficiente de Gini é uma medida de fatores econômicos como da cultura,
desigualdade desenvolvida pelo esta- valores e instituições a eles associados.
tístico italiano Corrado Gini, em 1912. Com isso, é possível compreender a
É usualmente utilizado para calcular a origem da pobreza na América Latina, os
desigualdade de distribuição de ren- motivos limitadores do desenvolvimento
da, mas pode ser usada para qualquer regional, bem como de que forma é ve-
distribuição. Ele consiste em um nú- rificada a situação contemporânea desses
mero entre 0 e 1, onde 0 corresponde fenômenos sociais, a fim de possibilitar a
à completa igualdade da renda (todos seguinte abordagem sobre a forma de dis-
têm a mesma renda) e 1 corresponde tribuição da pobreza no mundo.
à completa desigualdade, ou seja, uma
pessoa tem toda a renda e as demais DISTRIBUIÇÃO MUNDIAL DA
não têm nada. (IPECE 2010: 44) POBREZA: A ASCENSÃO DO SUL
Outro orientador de estudos liga- A pobreza é um fenômeno mundial,
dos à pobreza é o Índice De Desenvol- mas está mais presente no Sul do que no
vimento Humano (IDH). Assim, ele foi Norte do mundo. O PNUD 2013 verifi-
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cou que houve redução da pobreza nos em alguns dos países de maior
países sulistas, apontando o fenômeno dimensão, nomeadamente o
da “ascensão do Sul”. No entanto, ainda é Brasil, China, Índia, Indoné-
alarmante o número de indivíduos mise- sia, África do Sul e Turquia.
ráveis dentro da população mundial. Contudo, verificaram-se tam-
Com efeito, percebe-se que existem bém progressos substanciais
igualmente problemas mais comple- em economias menores, como
xos, partilhados pelo Norte e Sul, como Bangladesh, Chile, Gana,
crescente desigualdade em muitos paí- Maurícia, Ruanda e Tunísia.
ses, quer desenvolvidos, quer em de- (PNUD 2013: 1)
senvolvimento, ameaçando a retomada
global e a sustentabilidade do progresso Outro fator percebido foi o rápido
no futuro, além de limitar a redução da crescimento da população escolarizada
pobreza e suscitar graves preocupações em grande parte do Sul, tornando mais
em matéria de ambiente. (PNUD: 2013) premente a criação de emprego em lar-
Outrossim, os países do Sul têm ga escala. Os países do Sul que registram
estimulado o crescimento econômico baixas taxas de dependência só poderão
mundial, contribuindo para o cresci- gerar, de futuro, um “dividendo demo-
mento de outras economias em desen- gráfico” se o aumento da população ativa
volvimento, reduzindo a pobreza e au- for acompanhado por um crescimento
mentando a riqueza em grande escala. igualmente rápido das oportunidades
Contudo, segundo o PNUD (2013), de emprego. Se não estiverem disponí-
essa região demonstrou que políticas veis empregos dignos em número sufi-
públicas bem elaboradas e a prepon- ciente para dar resposta a essa procura
derância do desenvolvimento humano demográfica, poderá surgir, “como con-
podem abrir caminho às oportunida- sequência, uma crescente agitação civil,
des latentes nas suas economias, facili- como o demonstram as insurreições li-
tadas pela globalização. deradas pelos jovens quando da Prima-
vera Árabe.” (PNUD: 2013)
Embora a maioria dos paí- Diante disso, verifica-se que o au-
ses em desenvolvimento tenha mento da taxa de desemprego nas áreas
tido um bom desempenho, do Sul resulta na imigração desses indi-
um grande número realizou víduos para a região Norte. Essa busca
progressos particularmente por melhores condições de vida acaba
significativos — o que se pode por desencadear a redução das garan-
apelidar de “ascensão do Sul”. tias trabalhistas do proletário externo e
Registaram-se rápidos avanços o acirramento das tensões sociais des-
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A RESSIGNIFICAÇÃO DA POBREZA MUNDIAL

ses com o proletariado interno. função unicamente de seus interesses,


Nesse diapasão, Harvey (2010) con- permitindo e até provocando “situações
tribui com um dado histórico sobre a limites de exclusão e marginalização
distribuição internacional da mão-de- social.” Mas existe uma lógica contrá-
-obra. Com efeito, nos países em que ria, de inclusão e reconhecimento dos
o capital estava bem desenvolvido, o sujeitos (de todos eles), capaz de pro-
trabalho era bem organizado, razoavel- porcionar uma condição digna de vida
mente bem pago e tinha influência po- (RUBIO 2010: 83).
lítica, o sistema capitalista precisava de
acesso a fontes de trabalho mais baratas Esta claro, porém, que o
e mais dóceis. Assim, foram utilizadas parâmetro de quem controla
uma série de estratégias, dentre elas o esta ordem não é este. Segun-
estímulo à imigração. O Ato de Imigra- do os casos e em função de in-
ção e Nacionalidade de 1965, que aboliu teresses pessoais e concretos,
as cotas de origem nacional, permitiu o existem alguns- os privilegia-
acesso ao capital dos Estados Unidos à dos dos países centrais e a elite
população excedente global (antes ape- dos países periféricos e semi-
nas europeus e caucasianos eram privi- periféricos- que, sim, possuem
legiados). No fim dos anos 1960, o go- o direito de transladar-se de
verno francês começou a subvencionar um lugar a outro, sem impor-
a importação de mão de obra da África tar as causas. O resto, que é a
do Norte, os alemães transportaram os grande maioria, não o possui,
turcos, os suecos trouxeram os iugosla- em que pese seja, pela sobre-
vos, e os britânicos valeram-se dos ha- vivência, o elemento condicio-
bitantes do seu antigo império. nante de seus deslocamentos.
Entretanto, em 1982, sob o viés de [...] As razões de equilíbrio e
uma política de controle da inflação, a competição que exigem a sis-
taxa de desemprego americana subiu tema de mercado demarcam
para mais de 10%. Com isso, os salários os limites dos direitos e o espa-
estagnaram. Esse fenômeno foi acom- ço de não direito dos seres hu-
panhado por uma política de crimina- manos (RUBIO 2010: 83-84).
lização e encarceramento dos pobres,
que colocou mais de 2 milhões atrás das Os grupos considerados como ris-
grades até 2000. (Harvey 2010) cos ao capitalismo, são vítimas da cha-
A imigração faz parte de um proble- mada “fragmentação” (RUBIO 2010: 85),
ma maior, onde existe uma parcela da onde se utiliza da conhecida prática do
comunidade internacional que atua em “dividir para conquistar.” Assim, estes
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LOBO, Tatiani de A.; COSTA, Marli M. M. da

grupos não tem uma “visão total, permi- O aspecto relativo à produção in-
tindo-lhes entender os mecanismos de dustrial e ao comércio internacional
exclusão social” (RUBIO 2010: 85). Eis aí entre as regiões Norte e Sul demonstra
o dualismo que, por vezes, se utiliza do que, ao longo dos últimos anos, houve
discurso do global e universal e por ou- uma reorientação da produção mun-
tras, do discurso local e particular: dial, cada vez mais destinada ao co-
mércio internacional, o que em 2011
Com o problema da imi- representava perto de 60% do produto
gração temos um exemplo mundial. Os países em desenvolvimen-
significativo. É verdade que, to têm desempenhado aqui um grande
devido ao processo expansio- papel: entre 1980 e 2010, aumentaram a
nista do ocidente pelo mun- sua participação no comércio mundial
do, também surgem como de mercadorias de 25% para 47% e a sua
reações identidades defensi- participação no produto mundial de
vas frente ao que se considera 33% para 45%. As regiões em desenvol-
ameaça. Nem todas têm que vimento também têm reforçado as suas
ser positivas e com um aspec- relações: entre 1980 e 2011, o comércio
to emancipador, mas, quando, Sul-Sul aumentou de menos de 8% do
por razões de necessidade, as comércio de mercadorias mundial para
pessoas necessitam mudar- mais de 26%. (PNUD 2013)
-se e transpassar fronteiras
por situações provocadas, em Nos países do Sul, o rendi-
grande parte, pela aplicação mento, a dimensão e as expec-
de um péssimo modelo de tativas da classe média aumen-
desenvolvimento elaborado tam rapidamente. Entre 1990 e
pelo Fundo Monetário Inter- 2010, a quota-parte do Sul na
nacional, pelo Banco Mundial classe média mundial cresceu
ou pelos Sete Grandes junto de 26% para 58%. Segundo as
com suas empresas transna- projeções, até 2030, mais de
cionais, o Ocidente rechaça-a 80% da classe média mundial
e apela à dimensão nacional viverá no Sul e será responsável
para proteger a seus cidadãos por 70% de todas das despesas
reconhecendo seus direitos. de consumo. (PNUD 2013: 14)
Os estrangeiros, que são con-
siderados inúteis para o mer- A elaboração de estudos empíricos
cado, sequer são lembrados mundiais, comparando o desenvolvi-
(RUBIO 2010: 86). mento dos países, não só no viés eco-
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A RESSIGNIFICAÇÃO DA POBREZA MUNDIAL

nômico, mas também no que tange ao tra o “liberalismo de coração mole”


desenvolvimento humano, importa em com base na teoria de que a “vida real”
acompanhar a eficácia do tratamento da é competição e luta, de “natureza ver-
comunidade internacional no esforço melha em unhas e dentes”, na metáfora
de reduzir as desigualdades regionais. A evocativa de Tennyson. Dessa forma, o
tendência de redução da pobreza, que é chamado “darwinismo social” sustenta
acompanhada pelo desenvolvimento que o progresso econômico é a histó-
educacional e econômico da região Sul, ria de competição e sobrevivência dos
demonstra que, apesar de se estar longe mais aptos. Alguns grupos dominam;
de eliminar o problema, também não outros ficam para trás. No fim, a vida
houve retrocesso social. é uma luta e o mundo de hoje reflete
Nesse sentido, Amartya Sen (2010) o resultado dessa luta. Contudo, a his-
compreende que o esforço para a eli- tória demonstrou que o afastamento
minação mundial da pobreza prota- do Estado não resultou em desenvol-
goniza, atualmente, o debate sobre vimento econômico, mas sim em do-
desenvolvimento econômico. Assim, minação de grupos fortalecidos sobre
a eliminação mundial da pobreza e os vulneráveis. Dessa forma, a atuação
de outras carências sociais e econô- estatal em conjunto com o setor priva-
micas veio a ocupar o centro do pal- do é imprescindível para o desenvolvi-
co no engajamento global em favor mento mais igualitário da sociedade.
dos direitos humanos, às vezes tendo
filósofos à frente, como Thomas Po- Embora boa parte da teo-
gge. Além disso, o rápido aumento ria econômica do livre mer-
do interesse por esse tema também cado tenha defendido essa
teve um impacto nas reivindicações concepção, a partir de Adam
de reformas políticas. Com efeito, o Smith economistas reconhe-
reconhecimento global da pobreza ceram que competição e luta
endêmica e da desigualdade sistêmica são apenas um lado da vida
como sérias preocupações dos econômica e que confiança,
direitos humanos exerceu pressão nos cooperação e ação coletiva
países individuais para a realização na provisão de bens públicos
de reformas democráticas internas são o outro lado da medalha.
e deixou clara a necessidade de Assim como a tentativa co-
diretrizes institucionais internacionais munista de banir a compe-
mais justas e eficazes. tição da cena econômica via
Ressalte-se que economistas mo- propriedade estatal fracas-
dernos (SACHS 2005) advertem con- sou redondamente, o mesmo
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LOBO, Tatiani de A.; COSTA, Marli M. M. da

aconteceria com uma tenta- CAPITAL SOCIAL E TEORIA


tiva de gerir uma economia DAS CAPACIDADES: novas abor-
moderna com base apenas dagens da pobreza
nas forças do mercado. Todas A apresentação das causas e da
as economias bem-sucedidas geografia da pobreza principiam a
são mistas, utilizando tanto o compreensão de que o tratamento des-
setor público como o privado se fenômeno ultrapassa o fator de ter
para conseguir o desenvolvi- ou não dinheiro. Assim, convém abor-
mento econômico. Expliquei dar quais são os verdadeiros desafios a
as razões teóricas subjacentes serem enfrentados pelos Estados para
pelas quais mercados e com- que possam propor instrumentos efi-
petição sozinhos não propor- cazes de emancipação do cidadão, dei-
cionarão níveis eficientes de xando de lado a velha política de cri-
infraestrutura, conhecimento, minalização da pobreza.
gestão ambiental e bens. As- Na linha da visível recessão que atra-
sim como isso é verdade para vessam os países mais ricos, em especial
cada país, o mesmo vale in- os Estados Unidos e alguns da Europa,
ternacionalmente. Sem coo- Graziano Sobrinho (2010) aduz que os
peração, muitas economias efeitos da economia liberal estão sendo
nacionais não oferecerão ní- sentidos em todos os quadrantes, espe-
veis eficientes de investimen- cialmente pelos índices de desemprego
to em infraestrutura suprana- em massa, pobreza e xenofobia. Para
cional, conhecimento, gestão manter essa massa de desempregados
ambiental ou bens de mérito ou de subempregados, consequências
entre os pobres do mundo. diretas do capitalismo globalizado, é
(SACHS 2005: 371-372) que o Estado tem utilizado seu braço
coercitivo de controle social: monopó-
Com isso, apresentam-se como posi- lio legalizado do emprego da violência
tivos os indicadores sociais referentes ao física, leis penais cada vez mais rígidas e
Sul, mas também apontam-se desafios controle do desvio.
que ultrapassam o objetivo de redução Com efeito, Schmidt (2006) com-
da pobreza para a utopia de eliminação preende que, em que pesem as notá-
mundial do fenômeno. Nesse viés, sur- veis diferenças entre os países, a pobre-
gem políticas de tratamento que extra- za tem um traço comum em todos os
polam o fator econômico como causa continentes, constitui uma cultura. As-
da pobreza, considerando aspectos mais sim, a cultura da pobreza, essa prisão
complexos e imprevisíveis. em que a sociedade encerra as pessoas,
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A RESSIGNIFICAÇÃO DA POBREZA MUNDIAL

transcende as diferenças de língua, de redes e com menos recursos.


raça e tradição. Por isso, em qualquer Ser rico e possuir mais capital
lugar do mundo não se cura a doença social representa uma vanta-
da pobreza simplesmente distribuindo gem competitiva imensa na
recursos. É necessária uma metodolo- competição por recursos escas-
gia apoiada na compree;nsão de que se sos, pois o capital social facilita
trata de um fenômeno complexo, com a aquisição de capital humano,
raízes na economia, na política, na cul- simbólico e prestígio social.
tura e nas relações sociais. (SCHMIDT 2006: 1764)
Nesse diapasão, convém colacionar
um conceito de intrínseca relação com a Ademais, SCHMIDT (2006) aduz
pobreza e a dificuldade de eliminá-la: o que o capital social dos pobres é fator
capital social. Esse pode ser compreen- de coesão e um impulso para a ação co-
dido como instrumento que os indiví- letiva. Mutirões de limpeza e de cons-
duos possuem para acessarem recursos trução de moradias, auxílio mútuo em
socialmente valorizados em virtude de caso de doenças ou acidentes, manuten-
suas relações com outras pessoas. Para ção coletiva de igrejas e escolas, ações
SCHMIDT (2006), tal recurso – na for- de reivindicação de melhorias junto a
ma de informações, apoios, conheci- autoridades, são exemplos de algumas
mentos – constitui “capital” por habili- ações comuns em comunidades pobres
tar o seu proprietário (indivíduo, grupo dos vários continentes.
ou comunidade) a acessar outras for- A ideia de capital social é preponde-
mas de capital, a posições sociais valo- rante nas pesquisas que determinam a
rizadas, cargos, riquezas, emprego, en- metodologia a ser adotada no enfrenta-
tre outras; e é “social” porque é acessível mento da pobreza. Assim, a abordagem
apenas dentro de uma rede de relações. sobre as bases das políticas públicas
dessa área pressupõe o conhecimento
Diversos autores entendem das principais redes de relacionamen-
que a riqueza está associada to que conectam os indivíduos dentro
ao capital social no sentido de da sociedade, demonstrando que o fato
integração a redes sociais va- de ser pobre tem significado, de acordo
riadas e fartas em recursos (co- com diversas pesquisas, que suas prin-
nhecimentos, informação, rela- cipais relações ocorrem com indivíduos
ções com pessoas influentes e igualmente pobres.
de poder aquisitivo elevado). A
pobreza está associada à parti- A literatura do capital so-
cipação em um número menor cial conseguiu produzir um
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impacto significativo no modo capacidade está, portanto, ligado inti-


de entender a pobreza e das mamente com o aspecto de oportuni-
estratégias apropriadas para dade da liberdade, visto com relação a
combatê-la por parte de or- oportunidades “abrangentes”, e não ape-
ganismos internacionais. Ór- nas se concentrando no que acontece na
gãos como o Banco Mundial, “culminação”. (SEN 2010)
a ONU e afiliados fazem do É importante ressaltar algumas
capital social o núcleo da estra- características específicas dessa
tégia de combate à pobreza no abordagem que devem ser esclarecidas
mundo, revisando conceitos e a fim de evitar interpretações equivoca-
reorientando suas ações. A real das. Assim, a abordagem das capacida-
transformação da prática a par- des aponta para um foco “informacio-
tir desse novo discurso e a efi- nal para julgar e comparar vantagens
cácia das ações patrocinadas a individuais globais, e não propõe, por
partir dele são discutíveis, mas si mesma, qualquer fórmula específica
não há dúvida de que é um fe- sobre como essa informação pode ser
nômeno inovador e merecedor usada”. (SEN 2010: 266)
da atenção dos pesquisadores. Com efeito, Amartya Sen (2010) aduz
(SCHMIDT 2006: 1772) que os diferentes usos das capacidades
podem surgir em função da natureza das
Já na abordagem das capacidades, a questões que estão sendo abordadas (por
vantagem individual é julgada pela capa- exemplo, políticas que tratam respectiva-
cidade de uma pessoa para fazer coisas mente da pobreza, da incapacidade ou da
que ela tem razão para valorizar. Com liberdade cultural) e, em função da dis-
relação às oportunidades, a vantagem de ponibilidade de dados e material infor-
uma pessoa é considerada menor que a mativo que podem ser usados.
de outra se ela tem menos capacidade –
menos oportunidade real – para realizar A abordagem das capaci-
as coisas que tem razão para valorizar. O dades é uma abordagem ge-
foco, neste caso, é a liberdade que uma ral, com foco nas informações
pessoa realmente tem para fazer isso ou sobre a vantagem individual,
ser aquilo – coisas que ela pode valori- julgada com relação à opor-
zar fazer ou ser. Mas a ideia de liberda- tunidade, e não um “design”
de também diz respeito a sermos livres específico de como uma so-
para determinar o que queremos, o que ciedade deve ser organizada.
valorizamos e, em última instância, o Nos últimos anos, Martha
que decidimos escolher. O conceito de Nussbam e outros têm feito
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A RESSIGNIFICAÇÃO DA POBREZA MUNDIAL

excelentes contribuições em “escolha de um foco informacional” – a


matéria de avaliação social e concentração das capacidades – pode ser
política através da vigorosa muito importante para chamar a atenção
utilização da abordagem das para as decisões que teriam de ser feitas
capacidades. A plenitude e os e a análise de políticas que precisa levar
resultados definitivos dessas em conta o tipo correto de informação.
contribuições têm de ser dis- (SEN 2010: 267)
tinguidos a partir da perspec- Considerando as ideias de capital
tiva informacional em que se social e de capacidades, importa apre-
baseiam. (SEN 2010: 266) sentar as características principais da
atuação estatal. Inicialmente, tem-se
Outrossim, a perspectiva da capa- que essa ocorre com a utilização de po-
cidade aponta para a relevância central líticas públicas, as quais são instrumen-
da desigualdade de capacidades na ava- tos interventivos aptos a possibilitar a
liação das disparidades sociais, mas não mudança social. Ademais, a elaboração
propõe, por si própria, uma fórmula es- dessas políticas deve ser feita em con-
pecífica para as decisões sobre políticas. formidade com o interesse público.
Por exemplo, ao contrário de uma in-
terpretação articulada com frequência, Nesse sentido, a própria
a utilização da “abordagem das capa- construção da ideia de inte-
cidades na avaliação não exige a subs- resse público necessita de uma
crição às políticas sociais que visam ex- ação coletiva entre os diversos
clusivamente igualar as capacidades de setores e atores sociais, tor-
todos, não importando as outras con- nando o processo de formu-
sequências que essas políticas possam lação de uma política pública
ter.” (SEN 2010: 267). um verdadeiro espaço para a
Com isso, ao julgar o “progresso agre- deliberação entre a ação esta-
gado de uma sociedade”, a abordagem tal e sociedade civil, no qual as
das capacidades se centraria na enorme trocas entre ações, interesses
importância da expansão das capacida- e prioridades deverão atuar
des humanas de todos os membros da como interlocutores dessa
sociedade, não estabelecendo, contudo, ação. É desse debate aberto,
plano algum para lidar com os conflitos com argumentos voltados ao
entre, por exemplo, considerações agre- interesse público, o qual leve
gativas e distributivas (embora a agrega- em conta o maior número de
ção e a distribuição sejam avaliadas com possibilidades, que se deve
relação a capacidades). Ainda assim, a pensar a formulação de uma
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LOBO, Tatiani de A.; COSTA, Marli M. M. da

“boa política pública”. No de- rizontal (assegurar que os objetivos


bate público, os argumentos individuais e as políticas desenvolvi-
individuais tendem a não ser das por várias entidades se reforcem
expostos por seu caráter par- mutuamente), vertical (assegurar que
cial, ou, se expostos, tendem as práticas das agências, autoridades e
a ser refutados pelo público. órgãos autônomos se reforcem mutua-
(BITENCOURT 2013: 50) mente com os compromissos políticos
mais amplos) e temporal (assegurar que
Nesse viés, a Organização para a as políticas continuem sendo efetivas
Cooperação Econômica e Desenvolvi- ao longo do tempo e que as decisões de
mento (OCDE) aponta os seguintes fato- curto prazo não oponham aos compro-
res como causadores da ineficiência das missos de longo prazo).
políticas públicas: a crescente escassez de Diante disso, uma teoria multipara-
recursos no setor público; a percepção digmática da fragmentação de políticas
de que o estilo de governo está se tor- comunga dos pressupostos normativos
nando mais complexo; a importância do da perspectiva institucional-racionalis-
mercado internacional; a orientação de ta, ao mesmo tempo em que reconhece
curto prazo do processo decisório, devi- a natureza empírica disruptiva dos pro-
do à curta duração dos ciclos eleitorais; cessos de formulação e implementação
a insuficiência de mecanismos transpa- de políticas. Dessa perspectiva, os pro-
rentes de informação e de avaliação; e cessos de formulação e implementação
os problemas de implementação em um de políticas são considerados problemá-
contexto de fragmentação institucional. ticos, sujeitos à fragmentação, embora
(MARTINS 2006: 275-276) passíveis de convergência. A racionali-
Com efeito, Martins (2006: 276) dade, ainda que limitada, sujeito a uma
aponta a fragmentação como uma das série de restrições, deve ser buscada; es-
principais características negativas truturas podem e devem ser, em alguma
de uma política pública. Assim, o au- extensão, otimizadas para produzir re-
tor aduz que ela “é o resultado de um sultados mais convergentes com os pro-
processo descoordenado, inconsistente e pósitos visados. Em suma, a principal
incoerente de formulação/implementação proposição causal/associativa de uma
de políticas, programas ou projetos. A teoria da fragmentação de políticas pú-
fragmentação pode ser atribuída à falta de blicas dá-se entre estruturas e processos:
coerência, consistência e coordenação.” arranjos estruturais fragmentadores ge-
Martins (2006) compreende, ainda, ram processos fragmentadores, que, por
que a coerência nas políticas públicas, sua vez, geram políticas fragmentadas.
por sua vez, tem três dimensões: ho- Essa é a lógica do mecanismo causal a
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A RESSIGNIFICAÇÃO DA POBREZA MUNDIAL

que se referiu Scharpf (apud MARTINS e ao Canadá, restando inapropriada a


2006) como parte essencial da constru- expectativa de desenvolvimento espon-
ção teórica modular. tâneo da América Latina.
Com isso, compreende-se a necessi- A distribuição geográfica da pobre-
dade de resgatar a dimensão de projeto za ainda é desigual, restando ao Sul o
nacional, preferencialmente expresso maior número de indivíduos. Apesar
sob a forma de um plano de desenvol- dessa região ter ascendido, segundo
vimento, mais abrangente do ponto de as últimas pesquisas, surge o desafio
vista temático e temporal que um plano de criação de empregos para os jovens
de governo, sem prejuízo de formas de mais bem qualificados profissionalmen-
promoção do pensamento estratégico. te. Já o Norte está lidando com questões
Para Martins (2006), esse plano deve relativas à imigração advinda do Sul,
ser uma referência estratégica e progra- acrescida dos efeitos da crise capitalista
mática dinâmica e flexível. de 2008, a qual proporcionou à região
Assim, visualiza-se a importância uma drástica redução de direitos sociais
de um sistema de planejamento que su- historicamente conquistados.
porte a gestão do plano, desdobrando-o A utilização de novas ideias na com-
em objetivos e metas e proporcionando preensão da pobreza possibilita a reo-
meios para sua revisão, monitoramento rientação do tema do fato de ter ou não
e avaliação. Ademais, importa que o sis- dinheiro para estudos mais específicos a
tema de planejamento esteja conectado cada forma de pobreza. Assim, será pos-
com as organizações governamentais sível municiar as políticas públicas com
de tal forma que a implementação dos novos dados para enfrentar o problema.
programas de governo seja inserida nas A proteção social dos indivíduos
suas agendas programáticas. mais vulneráveis tornou-se uma cons-
tante no âmbito das Cartas elaboradas
CONCLUSÃO no contexto do constitucionalismo
A verdadeira causa e manutenção contemporâneo. Contudo, a efetivida-
da pobreza na região latino-americana de desse novo paradigma depende da
foi a forma como os países colonizados elaboração e da implementação de
foram integrados à Revolução Indus- uma adequada política pública, a qual
trial, chamada de atualização histórica. requer, invariavelmente, a aplicação de
Essa, foi imposta pelos agentes externos recursos públicos. Do contrário, relega-
de dominação e pelas camadas privile- riam-se os dispositivos constitucionais à
giadas internas. Visualiza-se, assim, a instância de meras cartas de boas inten-
justificativa para que essa região seja tão ções, no lugar de verdadeiras cláusulas
atrasada em relação aos Estados Unidos de transformação social. Descreve-se,
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LOBO, Tatiani de A.; COSTA, Marli M. M. da

assim, o grande desafio do Estado con- MENTO, Daniel. (Coord.). A constitu-


temporâneo: estimular o crescimento cionalização do direito – fundamentos
econômico em conjunto com o desen- teóricos e aplicações específicas. Rio de
volvimento humano. Essa dupla expan- Janeiro: Lumen Juris, 2007, p. 168 e ss.
são não ocorre na América Latina, uma BITENCOURT, Caroline
vez que o capital financeiro emigra para Muller.  Controle jurisdicional de po-
outro país sempre que as condições do líticas públicas.  Porto Alegre: Núria
mercado desfavorecem sua permanên- Fabris, 2013.
cia. Com isso, o objetivo estatal de arre- BRANDÃO, Rodrigo. São os Direi-
cadar mais para implementar melhores tos Sociais Cláusulas Pétreas? Em que
políticas públicas não é viabilizado, den- Medida. In: NEVES, Thiago Ferreira
tre outros motivos, pelo deslocamento Cardoso (org.). Direito e Justiça Social:
constante e incontrolável do capital fi- por uma sociedade mais justa, livre e
nanceiro internacional. solidária: estudos em homenagem ao
A pobreza é um tema recorrente Professor Sylvio Capanema de Souza.
nas pesquisas de diversos organismos São Paulo: Atlas, 2013.
internacionais, movendo inúmeras GRAZIANO SOBRINHO, Sérgio
ações que objetivam sua redução ou Francisco Carlos. Globalização e socie-
eliminação. O ensaio buscou justificar dade de controle: a cultura do medo e
a necessidade de implementação de po- o mercado da violência. Rio de Janeiro:
líticas públicas elaboradas sob a égide Lumen Juris, 2010.
de novos paradigmas, possibilitando o HARVEY, David. O enigma do ca-
tratamento específico do fenômeno da pital e as crises do capitalismo. Tra-
pobreza, conforme as peculiaridades dução: João Alexandre Peschanski. São
de cada local. Diante disso, espera-se Paulo: Boitempo, 2010.
ter contribuído para cumprir o papel IPECE. Entendendo os principais
que cabe à academia, qual seja, acirrar indicadores sociais e econômicos.
o debate, refutar determinados mitos e FREIRE JUNIOR, José; MEDEIROS,
teses equivocadas, explicitar as diver- Cleyber Nascimento; SULIANO, Da-
gências, tudo com base em um pensa- niel Cirilo; CARVALHO, Eveline Bar-
mento crítico alternativo. bosa Silva; MAGALHÃES, Klinger
Aragão; TROMPIERI NETO, Nicolino
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