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Relatório para

MINISTÉRIO DA DEFESA Apoio à


EXÉRCITO BRASILEIRO Decisão
DIRETORIA DE PATRIMÔNIO IMOBILIÁRIO E MEIO AMBIENTE Nº 46 – Asse Ap
(DIRETORIA DE OBRAS E FORTICAÇÕES DO EXÉRCITO/1956) As Jurd
13/10/2020
1. ASSUNTO:

O presente expediente versa sobre o Projeto de Lei n° 4.5660/2020, de autoria


do Deputado Federal José Nelto - PODEMOS-GO, que pretende instituir para os
Municípios, compensação financeira pela disposição de área em seus respectivos
territórios, em favor da União, conforme exposto no DIEx nº 24025-SPE-2/3
SCh/EME, de 1º de outubro de 2020.

2. REFERÊNCIA:

a. DIEx nº 24025-SPE-2/3 SCh/EME, 1º OUT 20;


b. DIEx nº 696-A4.3/A4/GabCmtEx, de 28 SET 20,
c. Constituição da República Federativa do Brasil, de 5 de outubro de 1988;
d. Lei Federal nº 5.651, de 11 de dezembro de 1970. Dispõe sôbre a venda de
bens, pelo Ministério do Exército, e aplicação do produto da operação em
empreendimentos de assistência social e dá outras providências.
e. Decreto nº 77.095, de 30 de janeiro de 1976. Regulamenta dispositivo do
Decreto-lei n.º 1.310, de 8 de fevereiro de 1974, que trata de arrendamento pelo
Ministério do Exército de imóveis sob sua jurisdição, e dá outras providências;
f. Lei Federal nº 8.666, de 21 de junho de 1993. Regulamenta o art. 37, inciso
XXI, da Constituição Federal, institui normas para licitações e contratos da
Administração Pública e dá outras providências;
g. Lei Federal nº 9.636, de 15 de maio de 1998. Dispõe sobre a regularização,
administração, aforamento e alienação de bens imóveis de domínio da União
h. Portaria nº 513-Cmt Ex, de 11 de julho de 2005. Aprova as Instruções Gerais
de Utilização do Patrimônio Imobiliário da União Jurisdicionado ao Comando do
Exército (IG 10-03); e
i. Portaria nº 011-DEC, de 04 de outubro de 2005. Aprova as Instruções
Reguladoras de Utilização do Patrimônio Imobiliário da União Jurisdicionado ao
Comando do Exército (IR 50-13).
3. ELEMENTOS DE APOIO À DECISÃO

a. A Assessoria de Apoio para Assuntos Jurídicos da Diretoria de Patrimônio


Imobiliário e Meio Ambiente (Asse Ap As Jurd/DPIMA) recebeu solicitação de
proceder à análise e emitir parecer técnico acerca do Projeto de Lei n° 4.566/2020, de
autoria do Deputado Federal José Nelto - PODEMOS-GO, que visa instituir
compensação financeira, para os Municípios, pela disposição de área em seus
respectivos territórios, em favor da União.
b. Para a elaboração desta análise técnica, foram utilizados como fonte de
pesquisa os documentos supra referidos. A conveniência de consultar os documentos
narrados foi baseada no atendimento à legislação em vigor relacionada ao tema em
exame.
c. O parlamentar busca justificar seu Projeto de Lei com base no artigo 20 da
Constituição Federal, que lista os bens imóveis da União. Alega que, na maioria das
vezes, a área pública disponível em favor da União encontra-se localizada em
território municipal e, como tal, deixa de ser explorada pelo citado Ente Federado, que
deixa de arrecadar caso a área fosse explorada economicamente por particulares. Por
outro lado, a União faz uso das áreas sem que para tanto proceda com qualquer
repasse em favor do Município.
d. Para o deputado, tal fato se trata de privilégio estabelecido favor da União, em
detrimento dos Municípios, o que não se justificaria, sobretudo em tempos em que se
discute a necessidade de mudanças na forma de transferência da União para Estados
e Municípios. Com a justificativa de minorar desigualdades, o PL estabelece
compensação financeira aos Municípios, a ser paga pela União, pela disponibilização
de áreas públicas localizadas no território municipal em favor da União.
e. O parlamentar também alega que o PL estaria contribuindo para a promoção
da justiça social e para o aumento da eficiência econômica, aumentando a
capacidade de autogestão dos Municípios, possibilitando a esses entes alcançar a
autonomia financeira que tanto se buscou com a elaboração da Constituição Federal
de 1988.
f. O projeto de Lei proposto em sua integralidade incide em penalizar a União por
utilizar áreas de domínio dos municípios disponibilizados, quer sejam para exploração
econômica ou não, decorrendo por via de consequência, compensação pecuniária em
favor dos entes municipais.
g. Além de fazer uma leitura errônea do artigo 20 da CF/88, a proposta do
deputado fere frontalmente o pacto federativo, também chamado de Princípio
Federativo, o qual define a forma de Estado adotada pelo Brasil. A federação é uma
forma de Estado na qual há mais de uma esfera de poder dentro de um mesmo
território e sobre uma mesma população.
h. As entidades integrantes da Federação Brasileira – União, Estados-membros,
Distrito Federal e Municípios, no Brasil – não possuem soberania. No entanto, estas
entidades gozam de autonomia deferida diretamente pela Constituição que,
diferentemente da soberania, corresponde a um quadro interno de competências,
rigidamente demarcadas.
i. A Federação é, portanto, resultado da descentralização política, que se origina
da união indissolúvel de mais de uma organização política, no mesmo espaço
territorial do Estado, compartilhando seu poder. A repartição de competências entre a
União e os Estados-membros constitui o fulcro do Estado Federal.
j. O pacto federativo está materializado na Constituição de 88 em seu art. 1º,
caput:

Art. 1º, CF: A República Federativa do Brasil, formada pela união


indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-
se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos:

E também em seu art. 18:

Art. 18. A organização político-administrativa da República


Federativa do Brasil compreende a União, os Estados, o Distrito
Federal e os Municípios, todos autônomos, nos termos desta
Constituição.

k. Importante ressaltar que o art. 1º explicita o Princípio da Indissolubilidade do


pacto federativo, que determina que a união dos Estados-membros, do Distrito
Federal e dos Municípios não poderá ser desfeita.
l. Em outras palavras, é vedado o direito de secessão em face da federação
brasileira. Este dispositivo, que trata da forma federativa do Estado, é inclusive
cláusula pétrea. Na hipótese da entidade federativa insistir na secessão, poderá a
União intervir para preservar a integridade nacional, à luz do art. 34, I, da CF/88.
m. Assim, no Brasil, a União, os Estados-membros, o Distrito Federal e os
Municípios possuem sua autonomia. No entanto, essa autonomia é limitada pelos
princípios consagrados pela Constituição Federal.
n. A autonomia, atributo que não se confunde com a soberania, se desdobra nas
seguintes capacidades e atribuições:

– Auto-organização: confere aos entes federados a capacidade de


se autoestruturarem por meio de suas Constituições e Leis
Orgânicas.

– Autogoverno: permite que em cada ente federativo haja a


estruturação dos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário.

– Autolegislação: concede aos entes a prerrogativa de criação de


normas jurídicas gerais e abstratas.

– Autoadministração: atribui aos entes o dever de gerir a coisa


pública.
o. Conforme se vê, é possível depreender-se que a cobrança de valores entre os
entes federativos não possui respaldo na autonomia supra referida. Ademais, a
compensação financeira, nos moldes como quer o parlamentar se traduz em cobrança
de valores pecuniários, ou seja, trata-se de um notório caso de tributação municipal
em face da União, o que é vedado constitucionalmente, pois se estaria claramente
violando a imunidade recíproca entre entes federativos.
p. De acordo com o Art. 150, VI, alínea “a” da Constituição Federal, a imunidade
recíproca, sem prejuízo de outras garantias asseguradas ao contribuinte, impede que
a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios instituam impostos
sobre o patrimônio, a renda ou serviços, UNS DOS OUTROS.

Conforme se denota do artigo constitucional:

Art. 150. Sem prejuízo de outras garantias asseguradas ao


contribuinte, é vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e
aos Municípios:

(...)

VI - instituir impostos sobre:

a) patrimônio, renda ou serviços, uns dos outros;

q. Tal fato é um princípio jurídico constitucional e como tal tem superioridade


sobre as demais normas em sentido estrito, não servindo apenas à tarefa de
integração do direito no caso de lacuna jurídica, podendo exercer, inclusive, efeito
revogatório das regras inferiores que os contrariem. No caso em tela, o PL proposto
seria uma norma inferior à Constituição Federal e, portanto, não se manteria, por
contrariar frontalmente o artigo 150, VI,a transcrito acima.
r. As imunidades tributárias foram atribuídas à categoria de princípios
constitucionais, conforme já dito, por sua preeminência, peso e influência sobre as
outras modalidades legais.
s. Ou ainda, os princípios são diretrizes positivas, são de caráter geral, universal,
indicam um caminho a ser seguido. Já as imunidades, trazem preceitos negativos,
elas demarcam a competência tributária, não permitindo que ocorra tributação com
relação a determinadas pessoas. São espécies de limitações, que irão condicionar o
exercício do poder de tributar.
t. É claro e notório que as áreas da União necessitam estar localizadas
geograficamente em uma área do Brasil, portanto, sempre estarão inseridas dentro de
um ou mais municípios. Isso é lógico e evidente. Dessa forma, não existe a menor
probabilidade do PL proposto prosperar.
u. O que intenciona o parlamentar, é usurpar as áreas da União, pretendendo, na
prática, expropriá-la de seus próprios bens garantidos constitucionalmente, pelo artigo
20. Sendo assim, o projeto de lei não deve ser aprovado, por contrariar os interesses
da União, ferir o pacto federativo e divergir da imunidade tributária.
v. Especificamente, com relação às consequências ou repercussões da
aprovação do projeto para os bens imóveis da União sob administração do Comando
do Exército, regularmente afetados, não se vislumbra quaisquer incidências que lhe
causem embaraço, especialmente por serem bens especiais, sujeitos aos regimes
especiais tanto da Lei nº 5.651/70 quanto do Decreto nº 77.095/76 e, portanto, não
submetidos diretamente ao regime do PL objeto de aprovação intencionado pelo
parlamentar.
w. Dessa forma, pelos argumentos aqui expostos, não existem respaldos legais,
tampouco constitucionais, para a aprovação do PL. Além disso, a justificativa
apresentada pelo deputado, não assegura a aprovação do referido projeto.
Provavelmente será derrubado pela Comissão de Constituição e Justiça da Câmara
dos Deputados, por carecer de objeto e embasamento legal, além de ferir
acintosamente o Pacto Federativo no qual se baseia nossa Lei Maior.
4. CONCLUSÃO:

Diante do exposto nesta apreciação, após análise dos aspectos legais e dos
fundamentos normativos, a Asse Ap As Jurd desta Diretoria é de parecer
DESFAVORÁVEL quanto ao seguimento do Projeto de Lei n° 4.566/2020, de
autoria do Deputado Federal José Nelto - PODEMOS-GO. Falta ao PL
pressupostos e justificativas críveis que lhe sirvam de amparo. Frisa-se a
possibilidade (ainda que remota) de comprometer e obstaculizar os usos dos
imóveis da União jurisdicionados ao Comando do Exército com a imposição de
pagamento de quantias pecuniárias que, na prática, têm caráter de tributos, o que
não é permitido pela legislação pátria que regula a matéria.

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LEONARDO ARAGÃO CRAVEIRO– 1º Ten OTT/Dir
Adjunto da Assessoria de Apoio para Assuntos Jurídicos do DPIMA

Visto por:

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FLORA REGINA CAMARGOS PEREIRA – Cap QCO/Dir
Chefe da Assessoria de Apoio para Assuntos Jurídicos da DPIMA