EXEGESE E TEOLOGIA DAS CARTAS PAULINAS E GERAIS

Prof. Dr. Sidney de Moraes Sanches

UNIDADE I A COMPREENSÃO DA EXEGESE E TEOLOGIA BÍBLICA NOS DIAS DE HOJE I - Definições e Usos do termo “exegese” e sua distinção de “hermenêutica” e “interpretação” Neste início de estudo, serão tratadas questões introdutórias relativas à metodologia exegética e teológica do Novo Testamento que serão utilizadas em nosso Curso. Nesta primeira aula, adquiriremos noções específicas de exegese, a partir do estudo de um texto de Stanley E. Porter, e Kent D. Clarke: “O que é exegese? Uma Análise de várias definições”.1 1. Definições amplas e sinônimos A exegese é a tarefa mais importante no estudo do Novo Testamento. Entretanto, poucos termos nos estudos bíblicos são usados tão livremente e com tantos diferentes sentidos pelos estudiosos do Novo Testamento. 2 Freqüentemente, exegese tem um relacionamento sinonímico que a aproxima de interpretação e hermenêutica. Conforme os antigos gregos, os 3 termos eram desenvolvimentos da disciplina chamada heurística: o estudo e desenvolvimento dos métodos ou princípios que ajudam a descobrir o sentido e significado de um texto.a Hermenêutica pode ser entendida, de modo geral, como o esforço por entender algo que alguém diz ou escreve. De modo clássico, é a ciência que formula linhas gerais, leis e métodos para interpretar o significado dado por um autor original.

PORTER Stanley E.(Ed.) A Handbook to the Exegesis of the New Testament. Boston/Leiden: Brill, 2002, p. 3-21. Para Henry A. Virkler, hermenêutica é sinônimo de exegese, como o processo que resulta do estudo do cânon-crítica textual-crítica histórica, e que segue para a teologia bíblica e/ou a sistemática. In: Hermenêutica Avançada. São Paulo: Vida, 1998, p. 11. Para Luís Mosconi, hermenêutica é a aplicação ou atualização, resultado da eisegese(ir ao texto)-exegese (o texto em si)-hermenêutica (o texto para nós). Para uma Leitura fiel da Bíblia. São Paulo:Loyola, 2002, p. 111. Para Walter A. Henrichsen, o termo é interpretação, que abrange o processo gramatical-histórico-teológico/doutrinário. Princípios de Interpretação Bíblica. São Paulo: Mundo Cristão, 1997, p.9.
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2 Contemporaneamente, também trata de interpretar o significado do texto para uma audiência que o lê. Exegese, amplamente definida, trata-se da atividade normal de alguém em compreender o que ouve ou lê no seu dia a dia. Quando se trata de textos escritos descreve a tarefa de extrair o significado desse texto, mas também inclui explicar, interpretar, contar, relatar, descrever o seu significado. Classicamente, diz respeito à articulação ou descoberta do significado do texto baseado no entendimento da intenção e objetivos de um autor original. Interpretação é freqüentemente usada intercambiavelmente com as palavras hermenêutica e exegese. Para alguns, os três termos são mesmo sinônimos, sem nenhum conteúdo específico. Existem, porém, algumas distinções que podem definir melhor o que se faz quando se pratica a exegese. Do geral para o específico, o termo interpretação é o mais amplo, pois abrange qualquer comunicação que seja objeto de interpretação: oral, gestual, simbólica e escrita. No caso da hermenêutica e da exegese, seu objeto se restringe ao texto escrito. Elas seriam sub-categorias da interpretação. Hermenêutica se refere às teorias ou filosofias gerais que guiam a exegese. A exegese se refere à prática atual, aos procedimentos, aos métodos usados para entender um texto. Dito de outro modo: a exegese se ocupa com a interpretação visando o entendimento atual do texto, enquanto a hermenêutica se ocupa com a natureza do processo interpretativo e com as condições sob os quais o entendimento básico está sujeito. A exegese conclui: “esta passagem significa isto e aquilo” e a hermenêutica conclui: “este processo interpretativo é constituído pelas seguintes técnicas e pré-entendimentos”. 2. Uso tradicional do termo exegese A exegese, tradicionalmente, é o processo pelo qual o leitor busca descobrir o significado de um texto via um entendimento das intenções do seu autor original. Desse modo, o objetivo clássico da exegese tem sido articular o significado de uma

3 passagem da maneira como o escritor original intencionou que ele fosse entendido por sua audiência. Veja as seguintes definições: “descoberta do que o texto significa em si mesmo, isto é, a intenção original do escritor, e o significado da passagem como ele gostaria que os leitores aos quais foi primeiro intencionado” (Ralph P. Martin). “o termo exegese é usado em um sentido conscientemente limitado para referir a nvestivação histórica de um significado do texto bíblico. Ela responde à questão: o que o autor bíblico quis dizer? Isto tem a ver tanto com o que ele disse (conteúdo em si) e com o porque ele disse (contexto literário). Além disso, a exegese está primariamente interessada com a intencionalidade: O que o autor intencionava que seus leitores originais entendessem” (Gordon Fee). Esta compreensão tradicional de exegese é chamada exegese históricogramatical ou exegese histórica ou exegese própria. Ela está interessada no pano de fundo histórico, na intenção do autor original e no entendimento destas intenções pela primeira audiência. A filosofia hermenêutica para esta abordagem histórico-gramatical foi elaborada, inicialmente, pelo teólogo alemão Karl Keil, em 1788. Para ele, interpretar um autor significava apenas ensinar o que ele intencionou dizer em sua obra. Não interessava se o que ele afirmava era falso ou verdadeiro, em termos filosóficos ou teológicos. Como um historiador descreve um fato do passado, assim um exegeta deveria descrever as palavras de um autor em busca do que ele quis dizer. E este significado tinha apenas um sentido decorrente do uso das palavras e sentenças pelo autor, num entendimento o mais literal possível. 3. Questionamento moderno do uso tradicional do termo exegese Enquanto a ênfase da exegese histórico-gramatical focaliza sobre o que o texto significava originalmente, a exegese moderna focaliza sobre o que o texto tem significado (a história da sua interpretação) e o que o texto significa (sua relevância para hoje).

4 Desse modo, a exegese histórico-crítica é dividida em três sub-disciplinas, segundo Werner Stenger: 1) um conjunto de métodos que buscam descrever a forma lingüística e suas estruturas subjacentes; 2) um conjunto de métodos que buscam pelas circunstâncias que cercam a origem do texto e buscam identificar seus destinatários originais; 3) um conjunto de métodos que investigam a recepção do texto ao longo de sua história até o presente. De acordo com W.G. Kümmel: 1) o exegeta deve procurar aprender com o texto o que ele diz sobre as circunstâncias históricas no tempo de sua composição, seu autor, os leitores aos quais foi endereçado, o meio intelectual que o originou e a história externa e interna do Cristianismo primitivo; 2) o exegeta deve procurar descobrir o significado objetivo do texto, isto é, aprender dele o que ele diz sobre o assunto que é discutido, e o que quer dizer para o intérprete pessoalmente. 4. Métodos Alternativos de exegese Antes de simplesmente corrigir o método histórico-gramatical fundamentado historicamente, um número de recentes intérpretes bíblicos tem reivindicado por desfazer suas principais suposições. Eles rejeitam vários de suas pressuposições baseadas historicamente, e escolhem enfatizar outros critérios exegéticos. Estes métodos exegéticos não podem ser agrupados aleatoriamente, pois eles se originam em diferentes modelos como reação à exegese tradicional e, em outros, de outras disciplinas. As formas alternativas de exegese incluem: a análise do discurso, uma forma de exegese que depende muito das idéias da Linguística moderna; a análise retórica e narratológica, com suas raízes baseadas historicamente, mas muito de sua prática atual se apóia em concepções da literatura moderna; a análise literária, que permanece um campo amplo e diverso; as análises ideológicas, que incluem a crítica da libertação e de gênero; a análise sócio-científica, que retira sua sugestão diretamente do trabalho recente das ciências sociais; e a análise canônica, que reflete diretamente interesses do cânon, não apenas em suas dimensões históricas, mas como um produto da Igreja.

5 Essas formas alternativas de exegese merecem ter seu lugar na metodologia exegética, junto ou no lugar da exegese tradicional. Não devem ser consideradas como acréscimo às práticas classicamente já estabelecidas. Existe um número de problemas na exegese tradicional que essas formas alternativas trabalham com sucesso. Por exemplo, a análise literária não coloca sua ênfase nas origens históricas do texto, mas em sua forma final; a análise canônica, antes de se preocupar com as questões conhecidas da autoria dos livros do Novo Testamento, utiliza o status canônico destes livros como o contexto interpretativo e exegético mais importante. 5. Questões e dificuldades que surgem da exegese A leitura e entendimento do texto bíblico diferem em grau e complexidade de como se lê uma carta pessoal, um jornal diário ou um romance. Isto acontece devido a tres problemas principais. O problema da história A exegese inclui tanto o que o texto significou no passado quanto o que ele significa no presente. A distinção na Lingüística contemporânea que coloca isso em termos de sincronia e diacronia. Quanto à primeira, o objetivo é descrever um texto com base em sua coerência, estrutura e função na sua forma final. Quanto à segunda, o objetivo é explicar os eventos e processos históricos que trouxeram o texto à existência. A exegese que busca responder ao que o texto significa no presente, normalmente se baseia em uma abordagem sincrônica ao texto: o que ele é. A exegese que busca se interessa pelo que o texto significou se apoia pesadamente sobre uma abordagem diacrônica do texto: como ele veio a ser o que é. Por que é difícil ao exegeta ligar essas duas condições de existência do texto? Primeiro, porque o Novo Testamento não foi escrito originalmente para nós, leitores modernos. Mas para audiências antigas. De certo modo, somos observadores intrusos de uma outra realidade que não vivenciamos.

Quem usa uma tradução desses manuscritos depende de certa forma de interpretação do(s) tradutor(es). pois permite que o texto fale por si mesmo. em sua maioria. eles parecem nada ter a dizer. falta-lhe o acesso ao modo como elas eram faladas e usadas nos tempos bíblicos. Forçar um sentido atual ao texto pode gerar muita ambigüidade e distorções em relação ao autor e audiência original. bem diferentes da língua portuguesa. por outro lado. porque a inexistência dos documentos autógrafos. Quinto. porque os manuscritos bíblicos foram compostos em Hebraico. porque há uma grande distância entre os autores do Novo Testamento e os seus leitores atuais. Estas situações colocam a questão das pressuposições do exegeta. Quarto. como parte das condições de mundo no qual se vive. porque existe também uma distância cultural entre os autores do Novo Testamento e leitores atuais. de uma família. de uma comunidade. Mesmo que conheça as línguas bíblicas. Quando confrontados com muitas questões atuais. pois falam para o passado. as antigas versões bíblicas e o trabalho de editores posteriores somam mais problemas à questão de qual texto está em uso. de um grupo. pois seu significado se perdeu para sempre. Por um lado. isso é bom. Muitos exegetas. ele pode deixar de ser relevante para nós. principalmente na sociedade ocidental e globalizada. hoje. O problema das pressuposições Dieter Lührmann entende a exegese é modelada pelas tradições que o exegeta possui e pelas quais aprendeu a ler o texto bíblico. e pelo lugar e papel que a discussão destas tradições representam à exegese. . ou de partes.6 Segundo. Aramaico e Grego. e desnecessária. a existência de milhares de cópias manuscritas de todo o Novo Testamento. pois seu significado não faz o menor sentido hoje. de uma igreja. Terceiro. acreditam ser impossível a interpretação objetiva. Isso tem a ver sobre como cada exegeta entende para si mesmo o status do texto bíblico: orientação principal para a vida. legitimação de uma forma de vida cristã dele mesmo.

inclinações especiais. pois ele está determinado por sua própria individualidade. Conforme Conzelmann e Lindemann O exegeta deve perguntar pelas pressuposições que traz ao texto. ao contrário. ambiente e mundo dos autores e leitores antigos. O problema da Teologia Talvez a questão mais controversa dentro da exegese é sobre o lugar da Teologia. o exegeta não pode ler o texto bíblico de modo neutro e objetivo. Cada interpretação é pelo menos influenciada pelo próprio ambiente histórico do exegeta. ele deve formular um entendimento inicial. na medida que o exegeta não é uma tabula rasa.. um ponto de referência do que o texto está dizendo.7 A exegese histórico-gramatical afirma que pratica uma exegese objetiva. Por outro lado. aborda o texto com questões específicas ou de um modo específico de levantar questões e assim tem uma certa idéia do assunto com o qual o texto esta lidando. hábitos.. Qual sua tradição ou background? Que perguntas ele espera que o texto responda? Por que ele se dedica a esse texto?. virtudes e fraquezas. ela é necessária e possível se isso significa não pressupor o resultado final da exegese. Isto será verificado pelo próprio texto. mas. Especificamente acerca do caráter descritivo (não-confessional) ou . Não há exegese sem pressuposições. na qual o exegeta se coloca no contexto. Rudolf Bultmann questionou essa espécie de objetividade e neutralidade histórica. vendo as coisas de sua perspectiva original e suprimindo qualquer opinião moderna que afete sua interpretação. uma idéia inicial. Se existem pressuposições. ele afirma que Nenhuma exegese é sem pressuposições. Ao ler o texto. quando escreveu seu ensaio: “É possível a interpretação sem pressuposições?” Para ele.

a interpretação só pode ser feita desde dentro e para uma comunidade de fé.A. A questão mais profunda da exegese diz respeito ao papel do exegeta como proclamador do que o texto significou no passado. sua autoridade ultrapassa a de qualquer outro texto literário. o texto bíblico não é apenas um registro das comunidades antigas. Auxílio Adicional: CARSON D. no sentido teológico. 2002. Para este segundo tipo de caráter da exegese. Belo Horizonte: FATE-BH. Para uma Leitura fiel da Bíblia. que implica em: ele registra as palavras de Deus. em formas históricas mais radicais. São Paulo: Loyola. o que importa é o lugar e papel histórico do texto bíblico na época de sua composição e na forma como se encontra escrito. por: A Exegese e suas Falácias. Um trabalho exegético experimental na Análise Narrativa. Contudo. O problema aqui é que a fé. mas um registro moderno para comunidades atuais. e oferece uma visão dos atuais evangelicais norte-americanos acerca das atuais sugestões acerca da exegese.8 prescritivo (confessional) da exegese. o texto bíblico é um texto sagrado. em uma edição anterior. Análise Exegética de João 19:28-30: Elementos literários e narrativos. reduzir referências sobrenaturais a uma determinada época histórica. no sentido histórico. . Isso implica em: valorizar o significado passado do texto. é a melhor apresentação da realidade. É uma ótima correção à metodologia exegética históricogramatical. 2007 (monografia de graduação). tratar o texto bíblico como uma literatura antiga. descritiva. Para os exegetas que trabalham com esses pressupostos. Para o primeiro tipo de exegese. 2002. e do teólogo como proclamador do que o texto significa no presente. O título original é: Falácias Exegéticas e já foi traduzido. SANTOS Adelindo da Silva. Os Perigos da Interpretação Bíblica. e ao resultado da exegese o indivíduo e a comunidade devem se submeter. de antemão. MOSCONI Luis. As páginas 103-172 trazem uma metodologia exegética baseada na análise literária e sociológica. São Paulo: Vida Nova. já determine os resultados da exegese. ele tem um papel central em guiar a fé e a prática de indivíduos e comunidades.

Boa introdução à metodologia exegética tradicional considerando a crítica filológica-histórica do texto neo-testamentário.com/ II – Análise sêmio-discusiva de Júlio Paulo T. Há uma ótima bibliografia portuguesa. Ele entende que ambas são teorias da ação e do sentido. Ótima introdução adaptada para brasileiros à metodologia histórico-crítica. Boa introdução de um estudioso alemão para os estudantes e acadêmicos alemães. Hermeneutica. formulada por A. 1994. In: Exegese do Novo Testamento. Ótima introdução à metodologia exegética tradicional crítica-histórica do texto neo-testamentário. É muito próprio aos pressupostos modernos da exegese bíblica. É muito próprio aos pressupostos fundamentalistas da exegese bíblica.3 A obra de Júlio Zabatiero “visa a descrever e a demonstrar como interpretar a Bíblia sob a perspectiva do que se pode chamar sêmio-discursiva” (15). Definições e pressupostos. VOLKMANN Martin. J. São Paulo: Hagnos. WEGNER Uwe. Na Internet: http://www. Manual de Exegese. et.1998. Para tal. In: Introdução à Exegese do Novo Testamento. Método Histórico-Crítico. “se especializou na compreensão e explicação de como se produz e se interpreta o sentido de textos” (24). 2006. 1992.al. Rio de Janeiro: CEDI.airtonjo. e com farta bibliografia ao final. ele se baseia em duas teorias da interpretação: a semiótica e a discursiva ou da ação comunicativa. SCHOLZ Vilson. e “não entende 3 de publicações exegéticas em Portugues ou traduzidas para a língua ZABATIERO Júlio Paulo T. São Paulo: Loyola. São Leopoldo: Sinodal. Canoas: ULBRA. Propõe uma metodologia exegética baseada na divisão da análise lingüística contemporânea: Gramática-Semântica-Pragmática. São Paulo: Vida Nova. A interpretação bíblica: meios para descobrir a verdade da Bíblia. 11-27. faremos apresentação superficial e breve análise do método sêmio-discursivo proposto por Júlio Paulo T. 2004. Princípios de Interpretação Bíblica. Zabatiero Em continuidade ao curso. Procura atualizar a metodologia crítica-histórica e acrescenta as aquisições mais recentes da exegese para esta metodologia. ZUCK R. A primeira. p.9 SCHNELLE Udo. Zabatiero. 2007 . Greimas.B.

mas como emocional e corporal. A segunda.” (22) 2) por isso. realização da missão. “se especializou na compreensão e explicação de como funciona a sociedade” (24).. o texto enquanto expressão de um conteúdo simultaneamente pessoal e social.é parte integrante da espiritualidade cristã e da ação ministerial e missionária. A partir das teorias escolhidas. edificação da igreja. 4) a mudança da tarefa da exegese é feita em função da mudança dos objetivos da exegese: a resposta do povo de Deus à ação de Deus no texto bíblico. 3) a mudança da intenção do autor para ação no texto requer a mudança da teoria e do método de interpretação do texto.10 o sentido apenas como produto mental. Ele o expõe do seguinte modo (29): . eclesiais. Dentre elas: 1) a principal tarefa da exegese não é a compreensão do sentido do texto. formulada por Jürgen Habermas. Desde que a leitura da Bíblia “é tarefa de comunidades cristãs.. valoriza sobremaneira o caráter social e conflitivo da produção do sentido. bem como o elemento tensivo e passional na formulação do sentido” (25). missionárias. grupos sociais e da sociedade toda. transformação das pessoas. em termos de: crescimento espiritual. Zabatiero formulou seu método “cujo centro é a compreensão do sentido da ação e que se realiza através de cinco ciclos que giram ao redor do centro e se complementam mutuamente” (26). “e seu enfoque que prioriza a comunicação entre as pessoas como base da construção social da realidade” (26). que priorize a ação testemunhada no texto. o eixo central da exegese é a obra. Isto exige uma mudança do centro da tarefa: por isso o sentido da ação vem ocupar o lugar do sentido do texto enquanto tal. Zabatiero dá algumas razões pelas quais propõe se utilizar das teorias acima para formular seu método. familiares. acadêmicas. mas dos sentidos da ação no texto e a partir do texto.

lugares. Ler o livro. tempo espaço? 3. ler o texto bíblico até ficar amplamente familiarizado com ele. a época em que o texto foi escrito e conhecer o máximo que poder sobre ela. Como o texto organiza essas ações e relações no tempo e no espaço? CICLO 2. quando fazendo o que. pessoas. onde. ou seção do livro.11 FASE PRELIMINAR Familiarizar-se com o texto em seu contexto literário 1. pacientes. assuntos). DIMENSÃO TEOLÓGICA DA AÇÃO . Que elementos do plano de expressão contribuem mais intensamente para a produção do sentido? FASE FINAL Analisar o texto enquanto „plano de conteúdo” CICLO 1: DIMENSÃO ESPAÇO-TEMPORAL DA AÇÃO 1. segmentado e estruturado? 3. 4. 2. Como o texto está delimitado. Anotar suas primeiras impressões e dúvidas sobre o texto (revisá-las a cada ciclo da leitura) 3. FASE PREPARATÓRIA Analisar o texto enquanto “plano de expressão” 1. Quem age.notando as principais interrelações (vocabulário. Definir provisoriamente. Qual é o texto a ser interpretado (do ponto de vista da crítica textual e genética)? 2. ao qual o texto pertence. a quem? 2. Como são caracterizados agentes.

2) cultura. Quais são as possibilidades de sentido teológico da ação e como elas estão organizadas 1) intertextual e interdiscursivamente. dá sentido à ação sob os pontos de vista da 1) sociedade. de suas competências e relações passionais? CICLO 5: DIMENSÃO MISSIONAL DA AÇÃO 1. Constitui a identidade dos agentes a partir de seus objetivos. e 3) religião? CICLO 4: DIMENSÃO PSICOSSOCIAL DA AÇÃO Como o texto. Descreve as relações passionais no texto? 2. Que possibilidade ação e do sentido da ação o texto constitui no diálogo conosco? Como podemos praticá-las e/ou reescrevê-las em nossa realidade? . motivos. em interação com seu mundo-da-vida. em interação com seu mundo-da-vida: 1. 2) estilística e argumentativamente e 3) sintática e tematicamente? CICLO 3: DIMENSÃO SOCIOCULTURAL DA AÇÃO 1. Como o texto.12 1.

No esquema oferecido. E continua repetindo as orientações do esquema e dos parágrafos anteriores. mas nenhuma atenção é dada a essa Fase. o método se organiza em três partes: Preliminar. Preparatória e Final. 4 . De que modo isso é feito? Esperava-se que o autor dedicasse algum tempo em detalhar as orientações feitas esquematicamente. 35. 5 Isto fica claro na afirmação: “O trabalho com o texto começa com a análise do plano da expressão” (35). Para a realização do exercício no Novo Testamento.5 O autor diferencia “plano de expressão” de “plano de conteúdo” (35). de fato. Esta tem por objetivo analisar as ações Isto é sugerido pela expressão: “O ponto de partida é a “Fase preliminar”: a familiarização com o texto a ser interpretado” (34). e creio que sim. itens 1-3). cujo conteúdo básico é a análise do “plano de expressão”. oferece um exemplo realizado sob a perícope Marcos 1:9-11 (39.13 Bem. a fase preliminar está inteiramente inserida nesta (p. define plano de expressão como o texto.34). A Fase Preliminar consiste em compreender o texto em seu contexto literário. Está claro que as duas primeiras são introduções à terceira. como item 1) o processo genético de elaboração. Se ele precisa ser efetuado. Isto não exprime necessariamente o contexto literário que o autor sugere. mais até que a pesquisa histórica. Depois. começa na Fase Preparatória. cf. Sem nenhuma parte introdutória.43?) expressão (“Como fazer”).4 Já nos procedimentos para análise do plano de (ou da. segmentação (a subdivisão interna do texto definida por suas marcas linguísticas) e a estruturação (como as diversas subdivisões se vinculam umas às outras). percebe-se que o método. o autor já introduz ao Ciclo 1 da análise do plano de conteúdo: espaço-temporal da ação. A definição técnica é reservada para o final do capítulo (43). diante do método interpretativo a seguir. é clara a pesquisa histórica-gramatical. na qual se dá a realização do método.40). no qual se orienta o procedimento de delimitação da perícope. e plano de conteúdo como o discurso. A análise do plano de expressão envolve três passos (37): delimitação (os limites de um texto definidos por suas marcas linguísticas). ela é indicada na introdução à Análise do Plano da Expressão (33. No esquema introdutório (29). mesmo. 38.

isto é.14 que as pessoas realizam em determinado tempo e lugar. teologia do texto (a forma como determinados temas presentes no texto dialogam com outros textos e com as formações discursivas do contexto do texto). subintitulada: releitura do texto. formações discursivas de uma sociedade. É colocar em diálogo os discursos do texto com os nossos atuais. que inclui “a atitude. Mas o foco está na missionalidade do texto (aquilo que Deus pode paa fazer em resposta ao seu próprio agir no texto). estilo e argumentação (a forma como os padrões de beleza e os padrões de persuasão se unem para convencer o leitores acerca dos acontecimentos do texto). mas significados no texto. Por fim. a posição. 119). dividida em três partes: interdiscursividade (a forma como a sociedade indicada no texto e que está em volta do texto discursa acerca dos acontecimentos do texto). fazer a crítica social do texto e a partir do texto). e interdiscursividade (pergunta pelos efeitos da escolha do texto em um mundo-da-vida (as representações. isto é. não reais. A seguir. dedicado à análise da dimensão teológica da ação. III . da análise dos sentidos que o texto dá às paixões humanas de modo a construir a identidade pessoal de seus sujeitos. o Ciclo 5 analisa a dimensão missional da ação. O Ciclo 4 trata da dimensão psicossocial da ação.Análise Narrativa de Daniel Marguerat e Yvan Bourquin . Ela é dividida em duas partes: narratividade (uma dimensão de qualquer texto que indica as transformações que um sujeito passa na medida em que busca valores e age em sociedade). O Ciclo 3 trata da dimensão sociocultural da ação. como colocar em prática as propostas de ação do texto bíblico. textos. segue o Ciclo 2. a maneira como o texto descreve. discursos. aceita. modifica ou critica as diferentes dimensões da vida humana em coletividade” (103). Corresponderia à atualização do texto na exegese tradicional.

Pour Lire les Récits Bibliques. 1. (Paris: Cerf. O estudo científico da narratividade chama-se Narratologia. JUNIOR Benjamim Abdala. Em que consiste a Análise Narrativa? A Análise Narrativa opera sobre o esquema da comunicação verbal conforme exposto por Roman Jakobson. Introdução à Análise da Narrativa. tratase de perceber. Os traços narrativos. CONTEXTO ↑ DESTINADOR → MENSAGEM ↓ CÓDIGO → DESTINATÁRIO . A Análise narrativa é. no texto. são aqueles que contam uma história. diferentemente de um discurso ou de uma descrição. A Análise narrativa é um tipo de leitura que explora uma arte tão velha quanto o mundo: a arte de narrar. os sinais que balizam e orientam o percurso da leitura. Sua intuição fundamental é esta: toda narrativa é composta tendo em vista exercer um efeito sobre o leitor. BOURQUIN Yvan. a narratividade. um método de leitura do texto que explora e analisa como se concretiza. Ela é uma ciência literária recente. (São Paulo: Scipione. no próprio texto. portanto. pelos quais se identifica uma narrativa. Faremos isso com a ajuda de dois textos: “Entrer dans le monde du récit”. agora. A partir da década de 80 seus princípios passaram a ser aplicados à narrativa bíblica. In: MARGUERAT Daniel. A narratividade é o conjunto das características que fazem de um texto uma narrativa. 1998). outro método exegético que privilegia a orientação sincrônica do texto: a Análise Narrativa. pois os seus teóricos datam dos anos 60 e 70. 1995).15 Apresentaremos.

de um outro lado. diz Jakobson. A Análise Narrativa não se situa no eixo vertical. deve saber o que é uma maçã e o que é a cor vermelha. O destinatário. Sua pergunta é: como o autor comunica sua narrativa ao leitor? Qual a estratégia pela qual o autor organiza e transmite sentido ao leitor? O estudo se baseia sobre a estruturação que permite que a narrativa produza sobre o leitor o efeito pretendido pelo autor. articula e coloca em relação os signos verbais (a linguagem). consiste no envio de uma mensagem da parte de um destinador a um destinatário. reenvia ao mundo representado (a informação) e. o esquema de Jakobson pode ser reformulado da seguinte maneira: INFORMAÇÃO ↑ AUTOR → Enunciado → OBRA(NARRATIVA) ↑ LINGUAGEM No esquema acima. de caráter histórico-linguístico. Além disso. de um lado. → Apelo → LEITOR . a um código lingüístico: o destinatário deve saber diferenciar o fonema maçã do fonema maça e do fonema taça. Porém. a qual. o autor transmite ao leitor uma narrativa. a mensagem reenvia mais além. toda mensagem precisa. mas no eixo horizontal.16 Toda comunicação verbal. Um exemplo é a mensagem: “a maçã é vermelha”. toda mensagem comporta duas fases: o contexto e o código. para ser recebida adequadamente. para entender a mensagem. O contexto é o mundo de representação ao qual ela reenvia. o eixo da comunicação. Estudar a qual realidade o texto se refere é estudar a sua função referencial. Transposto para a leitura de um texto. Em resumo. de um acordo do destinatário e do destinador sobre a realidade representada e sobre o código lingüístico utilizado.

as instruções de interpretação que sugerem ao leitor como o texto deve ser recebido. Quando são textos argumentativos. A exegese sêmiodiscursiva procura pelo texto e ausculta seus códigos de comunicação. No mundo real. a orientação cabe à Análise narrativa. no mundo da narrativa o Narratário aceita ser conduzido pelo narrador. A exegese histórico-crítica se orienta pelo pólo do autor.1 Narrador e Narratário NARRADOR → NARRATIVA → NARRATÁRIO O Narrador é aquele que conta a história. Este tipo de orientação busca pelo agir do texto sobre a recepção do leitor. Na narrativa bíblica é normal a ausência do narrador que cede seu lugar às ações de Deus na história. Quando são textos narrativos. Eles se vinculam um ao outro no ato de ler. a orientação cabe à Análise retórica. O Narratário é aquele que toma conhecimento da narrativa pela sua leitura. procurando pelo efeito da narrativa sobre ele e o modo pelo qual ele coopera para a compreensão do sentido. isto é. 2. portanto discursivos. Pode estar explicitamente presente (um Eu ou uma personagem principal) ou estar ausente (por trás da história). A exegese narrativa se posiciona sobre a recepção do texto pelo seu leitor. em busca do seu sentido para a ação. a VOZ que guia o leitor na narrativa. buscando saber as quais tradições foram recolhidas no texto e como foram transmitidas e interpretadas.17 O eixo da comunicação alinha os três pólos sem os quais nenhuma transmissão é possível: o autor (destinador). . o leitor se interroga sobre a história que o Narrador conta. Ele se utiliza de instrumentos adequados para perceber no texto esses traços pragmáticos. Principais categorias utilizadas na Análise Narrativa 2. No momento em que o leitor começa a ler a narrativa estabelece-se um contrato entre o narrador e o Narratário. Toda exegese que se orienta pela função atribuída à Análise narrativa é chamada pragmática. a mensagem e o leitor (destinatário).

não se trata de um Autor Real. Leitor Implícito . a imagem do Autor Real tal qual ele deseja que ela seja percebida na obra. 2. Eles existem fora do texto. ajuda-lo. Narrador e Autor Implícito O Narrador é a voz que guia o leitor na narrativa e o Autor Implícito é aquele outro que estabelece a estratégia narrativa.2 As Instâncias Narrativas Autor e Leitor Real O Autor Real é a pessoa (ou grupo) de pessoas que escreve o texto (a obra). segundo os narratólogos: interação entre o mundo do texto e o mundo do leitor (Paul Ricoeur). isto é. no qual ele mesmo não habita. Nesse caso. inicia-lo na compreensão. no caso da ficção. Ele pode criar um mundo imaginário. O Autor Implícito está presente na obra pelo modo como escolhe escreve-la e por certos traços e opiniões que vai deixando pelo caminho. Isto porque a relação entre o autor e sua obra é dialética: ele não se dá inteiramente em seu texto. fora da obra. Assim. independentemente do texto. O Leitor Real é o indivíduo ou coletividade à qual ela é inicialmente destinada.18 O Narrador precisa do Narratário para o desenvolvimento da narrativa. Porém. de um modo de ser que esse Autor Real assume ao escrever o seu texto. Cabe ao Narrador guiar o Narratário na leitura. Mas. experiência do leitor pela troca de posição com o narrador (“resposta do leitor”). O papel que cabe ao Narratário pode variar. e não podem ser reconstruídos a não ser pela via da hipótese histórica com resultados bastante decepcionantes do ponto de vista da certeza histórica. cooperação do leitor ao texto oferecendo-lhe interpretação e atualização (Umberto Eco). Ele pode se dar no papel de um narrador que não corresponde exatamente ao que ele pensa. a cada obra literária corresponde um Autor Implícito. de carne e sangue. através dos quais guia o leitor. oferecer-lhe as informações necessárias. o Autor e o Leitor Real são personalidades históricas fora da atenção do leitor que abre o livro.

Tipo 2: O Leitor Implícito: é a imagem abstrata de um leitor ideal à qual se destina o texto. narra desde um ponto de vista particular. cuja identidade passa a ser novamente trabalhada. Isso pode ocorrer da seguinte maneira: Onisciência total: o narrador mostra conhecer tudo sobre o que está contando e introduz comentários e opiniões visando direcionar o leitor. “Eu” como testemunha: o narrador faz parte da história e a conta como um personagem secundário. Onisciência total neutra: o narrador evita comentários e opiniões. preocupações. gênero literário. Ele também pode usar personagens que contam partes da história ou personagens que vivem a história para oferecer outros pontos de vista. Nesse caso. uma imagem do Leitor Real. Pode-se recupera-lo a partir do estudo da enunciação do texto (linguagem. Existem três tipos de Leitores Implícitos: Tipo 1: O primeiro leitor-ouvinte real do texto: é o destinatário contemporâneo do Autor Real.). valores. ela é colocada paralelamente à do Autor Implícito. 2. . para quem ele escreveu. Em função dele que o Autor Implícito estabelecerá sua estratégia. conforme o que ele sabe.19 As leituras pragmáticas se caracterizam pela transferência do pólo do autor para o pólo do leitor. “Eu” como protagonista: o narrador faz parte da história e a conta como um personagem central. Tipo 3: O Leitor Real: É o leitor que efetivamente lê o texto. suas atitudes.3 O ponto de vista Todo Narrador. Trata-se de um Leitor Virtual ou Modelo. portanto. orientações etc. Sua constituição é imprevisível e realiza o jogo entre leitor individual e leitor coletivo. cultura) e das instruções de leitura do texto (valores. deixando o juízo por conta do leitor. reações à narrativa e ao Autor. motivação.

idéias. como essa relação organiza o plano? Se não há. um desenvolvimento e um clímax ou desfecho da tensão? 2. como isso afeta a organização do plano? Há uma relação de causa-efeito entre as ações? Se há. sentimentos ou percepções presentes na narrativa? formular o plano? Existem ações fundamentais para a narrativa e ações periféricas? Como essas ações fundamentais ordenam a lógica do plano? Há uma lógica temporal e espacial na ordem dos acontecimentos? Como ela contribui para o plano? Se não existir. como as ações se sucedem umas às outras? Por fim. Onisciência seletiva: o narrador oferece o que se passa no íntimo de um personagem por deixá-lo falar por si mesmo. discursos. intriga ou enredo que é um conjunto seqüencial de acontecimentos associados a certas ações realizadas por determinados personagens. como o plano se organiza em função de uma tensão narrativa na qual um conflito está em questão? Existem ações.5 O personagem Como esses elementos colaboram com as ações para .20 Onisciência multiseletiva: o narrador oferece o que se passa no íntimo de vários personagens por deixá-los falar por si mesmos. deixando-a por conta do diálogo entre os personagens. As seguintes perguntas podem ser feitas à narrativa no que diz respeito à intriga: Que plano é sugerido a partir da seqüência de ações que são realizadas em cada bloco narrativo? Além das ações. 2. Câmara: o narrador se omite em contar a história. existem pensamentos.4 O plano ou intriga Uma história possui um plano. desejos ou vontades opostas? Há um início. deixando apenas que fragmentos dela sejam apresentados sem qualquer interferência ou organização da sua parte. Dramatização: o narrador se omite em contar a história.

social. isto é. Ele conta algo sobre eles ou usa outros personagens para fazê-lo. um beneficiado? Há algum personagem que exerce a função de modelo ou exemplo para o leitor? Existe algum personagem com a qual o leitor é convidado à empatia. os pensamentos e as crenças e valores de cada um. valores e uma visão de mundo que os governam e permite julgá-los? Há certos papéis que os personagens desempenham em uma história. um opositor. seja por rejeição ou por identificar-se com outro personagem avesso àquele? Como a caracterização dos personagens contribui para o efeito da passagem sobre o Leitor Implícito e para a compreensão da própria narrativa? 2. Outras vezes. levando-o a identificar-se com o personagem? À simpatia: o personagem possui alguma característica que o leitor também possui ou que gostaria de possuir.6 O cenário . étnica.21 Os personagens são apresentados pelo Narrador. etc. mas sem identificar-se com o personagem? À antipatia: o personagem possui características com as quais o leitor não se identifica. familiar. cultural. a linguagem. um auxiliador. ele oferece uma descrição física. um enviado. como as demais histórias contribuem para maior caracterização desses personagens? Há personagens que adquiriram vida própria? Como são avaliados os personagens segundo o plano da narrativa? Há um julgamento sobre suas normas. Algumas questões são úteis na análise dos personagens: Há somente personagens individuais ou também coletivos? Como estes são caracterizados? Há somente personagens simples ou também complexos? Como ambos são caracterizados? Há personagens exclusivos desta passagem ou há personagens que aparecem em outras narrativas? Se há. Por vezes. ele retrata as ações. tais como: um enviador. o personagem possui características que o leitor também possui ou que gostaria de possuir.

De que maneira a construção do cenário espacial contribui para a compreensão da narrativa? Cenário temporal Há referência a algum tempo cronológico? Há referência ao uso locativo do tempo. isto é. etc? IV – Análise Retórica de George Kennedy Apresentaremos. etc? Há a identificação de estruturas de classe? Há a identificação de algum sistema econômico. cultural. social.: acorrentado no cárcere e cuidado na casa do carcereiro)? Há indicação de cenários mais detalhados e menos detalhados? Há indicação do uso dos sentidos como: audição.e. olhar. Os cenários podem ser caracterizados como: Cenário espacial Há descrição de ambiente físico.22 Uma história possui um cenário: lugar ou lugares localizáveis no tempo e no espaço onde os eventos ocorrem e são representados. etc? Há indicação de espaços internos e externos (p. culturais. olfato. indicação de algum período de tempo? Há referência a algum uso tipológico do tempo. referências lingüísticas e culturais. incluindo roupas. outro método exegético que privilegia a orientação sincrônica do texto: a Análise Retórica. meios de transporte. religiosas. isto é. isto é. a vinculação do tempo a algum evento ou personagem particular? Cenário social Há a identificação de instituições políticas.e. tato. etc. a seguir. etc? Há a identificação de costumes sociais.: dentro e fora de uma sinagoga)? Há indicação de lugares onde se executam ações opostas entre si (p. . indicação de algum tempo específico? Há referência ao uso durativo do tempo.

23 Faremos isso com a ajuda dos seguintes textos: “Rhetorical Criticism”. North Carolina: NC Press. e o controle da emoção – é frequentemente de maior importância e é central à teoria retórica como entendida por Gregos e Romanos. 1984). Retórica é aquela qualidade no discurso pelo qual o falante ou escritor busca realizar seus propósitos. 4.. Loyola. Kennedy. New Testament Interpretation through Rhetorical Criticism (North Carolina: NC Press. antigos e atuais.D. religiosos. (São Paulo. ela permite ao exegeta do Novo Testamento ir além da mera constatação das informações contidas no texto para demonstrar de que modo ele pode atuar na vida daqueles que o lêem. 155-190). sobretudo morais. ele afirma Os escritores dos livros do Novo Testamento tinham uma mensagem para entregar e buscaram persuadir uma audiência a crer nela ou crer As obras de: Aristóteles. Rediscovering and Reinventig Rhetoric (Scriptura 50 (1994) 1-40).7 Ao analisar o uso da Retórica nos livros do Novo Testamento. p. também poderão ser consultadas aqui. Ainda. reivindicam a adesão de seus leitores/ouvintes. apelam. 2000. econômicos. New Testament Interpretation through Rhetorical Criticism. ela dá uma atenção maior aos ambientes culturais. 1984. e o orienta acerca de como o leitor recebe os efeitos desta leitura em seu próprio contexto. Na definição de George A. 7 KENNEDY George A. (Orgs.6 A Análise Retórica se dedica a verificar como os textos do Novo Testamento persuadem. Arte Retórica. Por fim. e “Crítica Retórica”. políticos. In: KENNEDY George A. mas o que é conhecido na teoria retórica como “invenção” – o tratamento do assunto em questão.) A Bíblia Pós-Moderna: Bíblia e Cultura Coletiva. o uso da evidência. In: CASTELLI Elizabeth A. 6 . al.H. AMADOR J. a argumentação. nos quais e desde os quais as pessoas discursam umas às outras. etc. et. A escolha e arranjo das palavras são uma das técnicas empregadas.

8 Na compreensão de J. 4. a Retórica se interessa não apenas com as dimensões lógicas e racionais do discurso. o leitor de qualquer idade e lugar se torna uma forma ativa na interpretação. e seus métodos podem ser estudados pela disciplina da Retórica. segundo a Retórica clássica. eles eram retóricos. No caso da Invenção. são duas as classes de provas: externas e internas. “Rediscovering and Re-inventing Rhetoric”.24 mais profundamente.D. AMADOR J. frases e recursos devo usar para dizer o que eu quero?) Memorização: trata da preparação para a entrega do discurso. incluindo o uso de figuras (que palavras. Amador.H. 9 A composição de uma obra. elas são: ethos (trata da condição de habilita o orador a falar aos ouvintes desde uma identificação 8 9 KENNEDY. Entrega: trata das regras para o controle da voz e o uso dos gestos. p. George Kennedy seleciona as três primeiras partes para propor a Análise Retórica do Novo Testamento. A Retórica focaliza sobre o contexto.H. In: Scriptura 50 (1994) 1. produção e persuasão de um texto. Idem. Desse modo. a demonstração de milagres e a indicação de testemunhas.D. Arranjo: que trata da composição das várias partes em um todo completo (como organizar o que vou dizer conforme as estratégias já definidas?) Estilo: envolve tanto a escolha de palavras quanto a composição das palavras em sentenças. se divide em cinco partes: Invenção: que trata do planejamento de um discurso e dos argumentos que serão usados nele (o que eu quero dizer e quais estratégias empregar para dizê-lo?). mas não apenas contextos históricos: a audiência. são elas: citações das Escrituras. mas emotivas e imaginativas também. No caso das provas externas. . No caso das provas internas.

No caso do Arranjo. são retiradas de: SOLCHZ Vilson. Canoas: ULBRA. 2:13-16) e logos (trata de como o assunto é de tal modo racionalmente demonstrado de modo a convencer os ouvintes da sua veracidade). existem três tipos ou gêneros de discurso retórico: judicial (o orador busca que a audiência tome alguma decisão acerca de algum evento ocorrido no passado. Os dedutivos são silogismos cuja uma das partes é oferecida e da qual se conduz o ouvinte a um raciocínio conclusivo. Narrativa (narratio): breve narração dos fatos que antecedem ou justificam a entrega do discurso. O método é o do ataque e defesa 10). 2006. Eles podem ser: da premissa para a conclusão. 204. normalmente a transição sendo feita por um “porque” (Gal 3:6. As referências ao método. Eles podem ser de duas formas: indutivos e dedutivos. epideítico (o orador busca que a audiência reforce alguma decisão que sustenta sua existência no presente. deliberativa (o orador busca que a audiência tome alguma decisão acerca de alguma ação futura. a estrutura geral de uma obra retórica antiga era a seguinte: Introdução (exordium): as principais idéias eram apresentadas aos ouvintes para ganhar-lhes a adesão ao que seria falado a seguir (captatio benevolentiae). p. Os indutivos usam uma série de exemplos para chegar a uma conclusão final. normalmente a transição sendo feita por um “portanto” ou “pois”. Também.7).25 pessoal com eles – Gal. da conclusão para a premissa. 1:1). Princípios de Interpretação Bíblica. Provas (probatio): oferecer as razões para os ouvintes aderirem ao ponto de vista do orador. pathos (trata dos recursos que o orador utiliza para demonstrar suas emoções ou mover as emoções dos ouvintes – 1 Tes. nos três gêneros. 10 . Refutação (refutatio): oferecer as razões porque os ouvintes não deveriam aderir ao ponto de vista contrário ao do orador. O método é o da persuasão e dissuasão). Tese (partitio ou propositio): breve formulação do assunto a ser tratado com a elaboração de um resumo. O método é o do louvor e acusação).

de uma forma ou de outra. que refere a alguma condição específica histórica que controla a resposta retórica. Problema retórico: o tema específico da situação retórica ao qual o orador se dedicará em seu discurso. não de George Kennedy (24). com começo. petições. Stasis Definição do gênero Estudo do Arranjo: a fase própria da Análise Retórica. Ela se divide em duas partes: a dicção ou escolha de palavras. Conforme Kennedy. A divisão na estrutura final entre “apelo” e “conclusão” é de Vilson Scholz (206). Conforme este. quais as suas implicações para orador e audiência. No caso do Estilo. meio e fim. de pensamento e dos gêneros literários. Amador. Ao contrário. o método de Análise Retórica é sugerido da seguinte forma: Preliminares: Unidade retórica: que corresponde à perícope na crítica da forma.11 Conclusão (peroratio): um sumário e repetição dos pontos básicos da argumentação de modo a exaltar as emoções dos ouvintes e levá-los a agir. o modelo de Kennedy acabou por manter a Análise Retórica sob o historicismo da crítica das formas. este trata daqueles elementos no discurso que podem funcionar conforme a intenção do autor.D. Aqueles que o seguiram. Segundo J. Revisão final: o discurso satisfez as exigências retóricas preliminares.26 Apelo (exhortatio): um conjunto de afirmações. as duas divisões são perfeitamente unidas na conclusão. apelos destinados a levar os ouvintes a agir. Nesta. acabaram por fazer da busca pela Situação Retórica um mecanismo de fazer determinar historicamente a compreensão do texto. histórias. e a síntese ou a composição das frases e dos períodos.H. se destaca o uso das figuras de linguagem. 11 . Situação retórica: que corresponde ao sitz in leben da crítica da forma.

figuras etc. notando as dimensões motivacionais e perspectivais do discurso. Enquanto analisa as diversas aplicações dos gêneros retóricos conforme a situação retórica. loci) assumidos pelo retor na seleção tanto do que precisa ser dito e do que não precisa ser dito antes de qualquer esforço de reconstrução histórica ser feito. uma flexibilidade em relação á identificação de formas e estratégias de argumentação tradicionais e modernas. os exegetas que utilizam a Análise Retórica perderam de vista o Arranjo. por um lado. Esta análise também notaria a “contextualidade” gerada por meio da argumentação. isto significa três coisas: 1) que a Análise Retórica deve se dirigir para as estratégias argumentativas dentro do texto. 3) que um modelo de Retórica deveria também se concentrar sobre a presença funcional das estruturas.27 a Análise Retórica faria grande contribuição aos estudos bíblicos caso se concentrasse em seu foco principal: o estudo do argumento. discernido através de acordos (presunções. ou considera os valores presumidos ou explícitos e os topoi argumentativos sobre os quais o argumento está fundado. definindo-as em termos de seu efeito e impacto argumentativo. Para Amador. Este modelo eliminaria qualquer Assumpção imediata que considerasse a situação histórica. mas por outro lado. que de antemão determinam a intenção e o efeito persuasivo do argumento. que busca discernir as modalidades ou posturas relacionais. isto significa que . a partir das quais os gêneros deveriam ser considerados. O resultado será.. e que leva em consideração as mudanças de situação argumentativa através do discurso. 2) que a Análise Retórica de um texto antigo cujo contexto histórico é desconhecido fora da perspectiva da argumentação dirigida para ela deve considerar questões como: as estratégias argumentativas que desenvolve “contextos” nos quais a audiência é suposta se encontrar. e as dimensões perspectivais do argumento. Para Amador. loci. valores. uma descrição mais precisa dos aspectos argumentativos no discurso.

Significado contextual: reconstrução histórica: a reconstrução histórica indica as muitas possíveis situações contextuais nas quais o texto pode ser lido e analisado.28 dentro de uma teoria retórica que se esforça por combinar a redescoberta do foco retórico sobre o discurso persuasivo com a reinvenção de uma teoria da argumentação que focalize sobre o impacto de uma audiência quanto ao discurso e a sua recepção e interpretação. parábola. deve ser um esforço para persuadir ou convencer a audiência. metáfora. mas também literário. este texto dentro do cânon (NT) e este dentro da cultura literária maior (Antigo Testamento e outras obras contemporâneas). dançado. e depois. indicando novos estágios ou novas trajetórias. para mudá-la de algum modo. qual a sua estratégia argumentativa. Postura relacional da unidade retórica: deve-se buscar como o orador procura expressar seu ponto de vista para a audiência. mas deve ser argumentativa. com um texto completo (Mateus). p. dramatizado. 12 AMADOR. falado. Idem. Aqui. Há nítida preocupação contemporânea com o lugar do leitor/ouvinte. contexto ainda pode ser determinado pelo meio utilizado: escrito. cantado. etc). o que significa discutir como a intenção do autor e do leitor é colocada dentro do contexto histórico. De todo modo.12 Ele propõe o seguinte modelo: Unidade retórica: esta pode ser uma unidade literária. Pode ser pequena (máxima. . Classificação do argumento: Stasis e situação retórica: somente após o estudo realizado acima. mas devem ser combinadas com unidades argumentativas maiores (sermão da montanha). 5. Mudanças na situação argumentativa: procura-se perceber se a continuidade do discurso em uma unidade retórica maior favorece e conduz mudanças na situação argumentativa. as preocupações com os usos da Análise Retórica não se esgotam aqui. Método da argumentação: trata-se de descobrir os caminhos que modelam a argumentação da unidade retórica. pode-se determinar qual é a questão básica que está em discussão e identificar o gênero retórico.

Loyola. na medida em que o leitor responde aos efeitos argumentativos presentes no texto segundo a intenção retórica do autor. que se ocupa do significado original do texto. al. 13 . Se ela se preocupa com as estratégias textuais que objetivam a persuasão da audiência. nos termos da Hermenêutica. Esta discussão pode ser melhor compreendida. V – A Exegese e a questão da aplicação Nosso estudo prosseguirá explorando a tentativa de responder à seguinte questão: uma vez realizada a atividade exegética. se trata da aplicação. desde o método histórico-gramatical é: FEE Gordon. (Orgs. 14 ZABATIERO Júlio Paulo T. Já nas práticas acadêmicas. São Paulo. a Análise Retórica é de interesse especial. o Uma obra que trata extensivamente desta questão. A primeira. é preciso perceber como. 2000. STUART Douglas. nos termos da Teologia.) A Bíblia Pós-Moderna: Bíblia e Cultura Coletiva. o que fazer com os seus resultados? A esta pergunta serão oferecidas duas respostas. a distinção entre o significado contextual do texto e o sentido atual tende a ser acentuada. mas do leitor para o autor. se trata das configurações para a elaboração de uma teologia bíblica. não se costuma fazer distinção entre o que o texto significava (para o autor e os primeiros leitores) e o que significa (para o leitor ou leitora atuais). 155-190. A esse respeito. et. Uma boa introdução a essa questão é colocada por Júlio Zabatiero:14 Nas práticas não-acadêmicas de interpretação da Bíblia. 1997. Mais ainda. desde algum contexto específico. Idem... a estratégia argumentativa deixa de ser do autor para o leitor. Por fim. é preciso relacionar as unidades retóricas com o leitor atual. o primeiro é a exegese (propriamente dita).29 enquanto receptor e usuário dos textos. caso lido o debate proposto por: CASTELLI Elizabeth A. 146. o leitor contemporâneo é afetado pela leitura do texto que realizou. E a recepção desta persuasão desde o contexto no qual esse leitor contemporâneo se situa.13 A segunda. da atualização do texto bíblico. p. o sentido atual do texto é imediatamente percebido. Entendes o que Lês? São Paulo: Vida Nova. contemporâneo..

e que resulta em mudanças de atitudes. 18 VAN DER MEER. LEITURA BÍBLICA EM GRUPO. 1999. Num EBI procuramos encontrar o que o autor quis dizer. Idem. Idem.16 Entre os evangélicos é comum a aplicação do texto bíblico em termos do método do Estudo Bíblico Indutivo. 8. descrito como “olhar-interpretar-agir”.30 segundo é a atualização (aplicação. para desembocar numa ação escolhida por todo o grupo (agir). São Paulo: ABU.15 A proposta é Descobrir qual é a vontade de Deus sobre uma situação concreta.. p. LEITURA.. 185. a aplicação do texto bíblico em termos do método “ver-julgar-agir”. releitura.Há três passos básicos na realização do EBI: a observação (descobrir os fatos do texto). e não impor nossos sentimentos ou opiniões sobre o texto. É comum.. a partir da análise religiosa de um acontecimento real ocorrido com um dos participantes ou com alguém próximo (ver).. atualização etc. 2002.. O Estudo Bíblico Indutivo. adaptado como “ver-escutar-agir”. o qual se ilumina com a luz da Palavra (escutar). 17 VAN DER MEER Antonia Leonora.) do significado original do texto para a época da leitura.18 Ambos os métodos entendem que a “aplicação” ou o “agir” se trata de uma resposta pessoal ou comunitária à verdade descoberta no texto. entre os católicos na América Latina. São Paulo: Paulinas. a interpretação (determinas o que os fatos significam) e a aplicação (agir a partir das conclusões alcançadas). devido ao arrependimento pela desobediência à verdade bíblica e o desejo sincero de viver de modo agradável a Deus cuja vontade se manifesta no texto.17 A proposta é Leva o interessado a descobrir por si mesmo o significado das Escrituras e a relacionar o que descobriu com a sua vida de cada dia. 15 16 . apropriação. p. cuja teoria recebe o nome de hermenêutica.

Zabatiero faz uma proposta simples: colocar em relação os discursos do texto acerca das coisas que o cercam e os nossos próprios discursos acerca das coisas que nos cercam e. resultando daí uma orientação imediata para a sua repercussão em termos de persuasão ou influências sobre o leitor. 2) a interpretação se foca no leitor. isto é. p 145. Isto pode parecer redundante. a seguir. esse momento é chamado: Dimensão missional da ação. O que ele entende por missional? Segundo ele. a interpretação já é uma atualização. 19 ZABATIERO. no poder do Espírito. O que caracteriza exatamente a dimensão missional da exegese? Trata-se de colocar em prática as propostas de ação do texto bíblico. isto é. “tudo aquilo que Deus nos pede para fazer em resposta ao seu próprio agir no mundo por ele criado. recriar as ações propostas no texto em nossa própria vida. sua dimensão missional..31 Nas exegeses do texto bíblico de orientação sincrônica é comum que a distinção “olhar-ver/interpretar-agir” desapareça. resultando daí uma orientação do leitor para o texto. isto é.tudo o que podemos fazer para responder à vontade de Deus. . Algumas formas de perceber como isso funciona podem ser encontradas nos seguintes modelos de exegese: Conforme a proposta de Júlio Zabatiero. glorificarmos o seu nome”. por dois motivos: 1) a interpretação se foca no texto. na medida em que há interpretação também há atualização. em sua estrutura ou intencionalidade discursiva. na sua recepção do texto desde seu contexto de vida. que nos enviou ao mundo para sermos semelhantes a Cristo e. todo o seu método se concentra sobre o texto como orientador da ação do intérprete. 19 A fim de realizar essa tarefa. pois como o próprio autor admite. minimizando a existência do texto de forma separada do leitor.. Idem.

um texto pode fazer várias coisas com a linguagem. declarar algo sobre as pessoas. Em termos acadêmicos.20 Segundo ele. Se a exegese consegue perceber isso no texto interpretado. é possível estudar um texto desde três níveis ou dimensões: Locutivamente: a construção de frases corretas do ponto de vista do significado. Ilocutivamente: a força comunicativa que acompanha a construção da frase e que serve para orientar o ouvinte/leitor. exprimir uma atitude mental ou emocional. VIEIRA Geraldo Dondici. Parece faltar algo que é provido pela chamada dimensão pragmática do texto. As pessoas falam ou escrevem com vistas a objetivos bem específicos. 143-150. usadas para expressar significados ou transmitir informações. ela SHOLZ. Para cada uma dessas ações existe uma forma lingüística correspondente. Portanto. Ler-Comunicar-Agir. dirigir a conduta de pessoas. 20 21 . Ibidem. p. a leitura está inserida em uma dinâmica de comunicação que objetiva gerar a ação. p 143. Idem. o modo de realizar essa proposta não é oferecido por Zabatiero. ela consegue responder à dimensão missional do texto que pede Zabatiero. denomina-se isso de dimensão pragmática de um texto ou discurso. A pragmática lingüística como método de leitura da Bíblia. mas é também um instrumento usado para fazer coisas. Um texto não é apenas um entrelaçado de significantes ou palavras. Assim. A dimensão pragmática do texto é uma metodologia completa no método exegético chamado Pragmática Linguistica. Perlocutivamente: a resposta do ouvinte/leitor que se alcança a partir da força comunicativa da frase. comprometer as pessoas.32 Entretanto. conforme proposta por Vilson Scholz. 22 Um dos textos-bases é: DE AZEVEDO Valmor Oliveira. da perspectiva da pragmática.21 Desse modo.22 Segundo esse método. avaliar e emitir juízos sobre algo. como: representar uma situação ou descrever as coisas. In: Rhema 01 ( ) 33-41.

pois se entende que o autor organizou o texto de tal modo a induzir o leitor à ação. VIEIRA. antipatia ou empatia com determinado personagem. deliberadamente dirigido à situação contextual do leitor. é tomado como uma sequência de motivos e indicações destinadas a provocar e impulsionar o destinatário par a ação. já pressuposta na recepção e resposta do leitor à persuasão presente no texto bíblico. acerca das configurações para a elaboração de uma teologia bíblica. Análise Retórica. sejam em que aspectos formais se apresentem. simpatia.23 Mas. O conjunto desta sequência de indicações e motivos para a ação é o Modelo de Ação. Idem. são apresentados no texto bíblico para realizar diversas funções próprias da comunicação. p. resposta à intençionalidade do Autor Implícito. 23 AZEVEDO. V – A Exegese e a questão da Teologia Agora. deliberando ou fortalecendo determinadas escolhas em seu contexto. 35. É óbvia a dimensão pragmática presente neste tipo de análise. A noção de “modelo de ação” da Pragmática Lingüística é encontrada sobretudo na Análise Narrativa. com enorme força orientativa. na sua globalidade. sobretudo. cabe responder. ela também pode ser encontrada em metodologias como: Análise Narrativa. . e pelo qual o leitor é conduzido a responder ao autor julgando. O texto. Os textos narrativos. porisso se estuda o texto em busca da trama que suscita a ação do leitor. adequação ou rejeição do ponto de vista do narrador. inclusive nos recursos estilísticos da composição. reflexão a partir da consideração das diversas situações da narrativa. Assim detectar o “Modelo de Ação” de um texto é. na construção do argumento. pois o grande objetivo da Pragmática Lingüística. Mas toda a habilidade retórica do autor está à disposição desta resposta do leitor. nos termos da Teologia. tais como: estímulo ou desestímulo a certo comportamento narrado.33 também está orientada para a prática. Esta se faz.

Idem. Ele entende que a dimensão teológica do texto está contida no discurso ou mensagem presente no texto. 24 25 . Em seu método sêmiodiscursivo. 97-99. Scholz aponta a promessa como um exemplo desta força ilocutiva do texto bíblico. O que a teologia bíblica faz quando se encontra diante de uma promessa de Deus no texto bíblico? Muitas promessas pressupõem uma situação ou condição em que se encontra quem faz a promessa e uma situação ou condição em que se ZABATIERO. somente o leitor cristão pode ser receptivo e reativo à sua dimensão pragmática. Combinações de elementos textuais e discursivos: a totalidade das situações presentes no texto desde o qual ele pode ser lido. pois apenas ele consegue perceber que a mensagem do texto lhe é endereçada devido à força ilocutiva que ele possui na própria realidade do leitor. Estes são organizados através de:24 1. Combinação de estilo e argumentação: trata-se das escolhas estéticas que o autor faz para conduzir sua mensagem e das formas como ele argumenta em função das suas idéias. p. Você pode ver um bom exemplo do que Zabatiero está dizendo quando ele fala da Teologia do texto presente em Marcos 1:9-11. 64. Um aspecto importante é a compreensão de que. com outros textos fora dele e com textos de seu contexto. que podem ser diálogos do texto com ele mesmo. 26 SCHOLZ. 3. Ibidem.25 Também Vilson Scholz26 entende que é possível elaborar a teologia bíblica desde a dimensão pragmática do texto bíblico. 147-150. Combinação de temas: trata-se de assuntos que se combinam para constituir a mensagem do texto. 2. p.34 De novo. Em sua mensagem reside a intencionalidade teológica do autor. vamos contar com a ajuda de Júlio Zabatiero. o Ciclo 2 trata da Dimensão Teológica da Ação. Idem. ainda que dois leitores possam ler com igual entendimento o texto bíblico. E esta pode ser percebida nos sentidos do texto.

No caso específico de Paulo. se Ibidem.35 encontra quem ouve a promessa. Ele o define assim . A Teologia do Apóstolo Paulo. DUNN James D. 30-46. 27 28 . particularmente a articulação coerente da fé e da prática religiosa nele expressa. 29 DUNN. p. num certo sentido. Idem. Aplicando isso à promessa do evangelho. p. Por fim. Scholz apresenta a relação entre a dimensão pragmática do texto bíblico e o próprio teólogo no exercício de sua tarefa.28 Dunn inicia pelo questionamento contemporâneo de alguns da impossibilidade de definir o próprio termo teologia. e tudo o que está envolvido em tal discurso e segue diretamente dele. Ambos os discursos visam mudar a realidade do leitor na medida em que se referem a determinada realidade apresentada no texto bíblico. E é assim porque o texto bíblico que ele usou para elaborar sua teologia já possui a mesma força comunicativa também. quando a palavra antecede a realidade. a promessa somente soa como promessa para aquele que. VI – A Possibilidade da Teologia das Cartas Paulinas Vejamos. agora.27 Também Scholz analisa a relação entre a dimensão pragmática do discurso e a realidade no texto bíblico para a teologia. p. o que acontece com promessas e mandamentos. 2003. Ela acontece de dois modos: quando a realidade é anterior ao discurso. Seu ato teológico também é um ato comunicativo.. o que ocorre com afirmações e relatos de eventos.29 Outra impossibilidade colocada nos dias de hoje se trata da definição de teologia bíblica. em fé. já sabe que se trata de algo que Deus pode e vai cumprir. 31. do Novo Testamento ou de Paulo. O teólogo também quer que aconteça algo quando ele também atua sobre a sua realidade a partir da sua teologia.. pode-se dizer que. 149. A promessa é vazia se aquele que promete não pode cumpri-la.discurso sobre Deus. como James Dunn entende a possibilidade de uma “teologia de Paulo”.G. São Paulo: Paulus.

Por que focar apenas a sua teologia? Dunn oferece as seguintes respostas acerca do que seja uma teologia de Paulo: a) Trata-se de uma descrição da teologia de Paulo ou diálogo com a teologia de Paulo? Em outras palavras.. também ela prescreveria dogmaticamente. isolar a argumentação teológica da argumentação parenética.. . Dunn conclui .. Ele foi missionário. pastor. no contexto do Novo Testamento. 33. p. apóstolo. o que possibilita contato direto com ela em seus escritos.30 b) Trata-se de expor a teologia de Paulo isolada ou não da sua experiência e de suas igrejas? Nesta questão está envolvida a tarefa de isolar a teologia de Paulo da experiência religiosa dele e de suas igrejas. Isto se torna mais difícil de fazer perante a reavaliação do impacto da herança judaica de Paulo em sua vida e obra. em termos literários. mas também entrar teologicamente em diálogo com as exigências que faz e as questões de que trata. a teologia de Paulo é histórico-descritiva ou dogmáticaprescritiva? É comum entre os antigos proponentes tratar a teologia bíblica em geral como puramente descritiva.. Por outro lado. as cartas de Paulo são encharcadas da sua presença. portanto. Portanto. De todo modo. voltando sempre de novo ao próprio texto.36 trata de saber quem ele foi de fato. também teólogo. c) Trata-se de considerar a elaboração retórica como determinante na teologia de Paulo? As cartas de Paulo se tratam de comunicações autoriais dirigidas diretamente 30 Ibidem. outros se recusaram em separar a descrição histórica da proposição cristã que ela contém. mestre. plantador de igrejas. não só penetrar no mundo do pensamento de Paulo. os avanços da Hermenêutica contemporânea demonstraram que não há descrição puramente em qualquer interpretação do pensamento de outra pessoa. a teologia de Paulo se dá em diálogo vivo com todos os ambientes em um mundo do qual ela também fez parte. isto é.o teste de uma boa teologia de Paulo será o grau em que permite ao leitor e à Igreja. Mas.

bem como os gêneros retóricos. falamos a respeito da teologia de qualquer carta específica como tal. a construção do argumento. da seguinte maneira: Quando falamos de “teologia de Paulo”. p. por “teologia de Paulo” entendemos a teologia de Paulo que está por trás das cartas. Ibidem. Ethos-pathos-logos.31 A seguir. 40. como poderíamos chamar a consciência teológica de Paulo. Por “teologia de Paulo” entendemos. a persuasão neles envolvidas devem ser consideradas quando se elabora a teologia de Paulo a partir de suas cartas pessoais. e disposição de ouvir a teologia de Paulo como a sequência de conversas ocasionais. reconhecimento de que a teologia abrangia tanto a vida cristã como o pensamento cristão. Assim. ou os baldes particulares de teologia que tirou dessa cisterna ou corrente?32 31 32 Ibidem. . mais rica. p. essa teologia mais ampla. então. ou Paulo o efetivo autor das cartas como tal? – lembrando em ambos os casos que nem todas as cartas que ele escreveu foram preservadas. ou da teologia de todas as cartas individuais reunidas num todo? Mais insistentemente. mais plena.37 a um grupo de pessoas em circunstâncias específicas. É suposição totalmente justificada que Paul possuía teologia muito mais rica do que aquela que efetivamente confiou ao papel. Esses traços aparecem em suas cartas e alimentam a sua teologia. que supomos estar por trás das cartas e da qual tirou os elementos e ênfases particulares de cada carta? Por “teologia de Paulo” entendemos a cisterna ou corrente. Dunn se coloca a questão da possibilidade de escrever a teologia de Paulo. Dunn resume o que propõe ao escrever a teologia de Paulo: diálogo com Paulo e não apenas descrição daquilo em que ele acreditou. 38.

É essa interação que dá à teologia de Paulo o seu caráter dinâmico. são as fontes ao pensamento teológico de Paulo. uma “teologia de Paulo” estática não seria a teologia de Paulo.38 A resposta de Dunn é que as cartas de Paulo oferecem o acesso. Dunn assume que o caráter teológico multifacetado presente nas cartas de Paulo possui uma questão mais básica: o caráter ou estrutura narrativa que subjaz à sua teologia. a interação entre as diferentes histórias ou níveis que suas cartas evidenciam. Esta espécie de infra-estrutura consta de quatro níveis: História de Paulo e das igrejas que ele formou  História de Jesus e a história de Paulo  História de Jesus e a história de Israel  História de Israel e a história de Deus e sua criação Ele resume esse ponto da seguinte maneira: A realidade da teologia de Paulo é. comum a ele e a todos os demais cristãos. Por fim. polêmicas e encaminhamento de soluções. b) o conhecimento compartilhado das Escrituras judaicas em sua forma grega. Quanto mais conseguimos reconhecer essas alusões. e) questões internas à vida de Paulo e suas igrejas que provocavam debates. Ele se apóia nos seguintes elementos para esta afirmação: a) o uso corrente do Grego koiné que inseria Paulo na língua comum do seu tempo. c) uma proclamação do Evangelho já existente. portanto. d) um substrato enraizado na história de Jesus e seus discípulos. que é maior que a soma das cartas individuais. quanto mais conscientes .

p. quanto mais atentos estivermos às pressuposições e subentendidos. mas devem ser combinadas com unidades argumentativas maiores (sermão da montanha). metáfora. No estudo da teologia das cartas. para mudá-la de algum modo. consideraremos as propostas da dimensão missional.H. judeu farisaico eu se tornou apóstolo de Jesus Cristo aos gentios. 33 Ibidem.46. como parte e complemento da Análise Retórica. e a dimensão pragmática proposta por Vilson Scholz e pela Lingüística Pragmática. quanto mais sensíveis formos às afirmações direcionadas a ouvintes particulares. pois. Pode ser pequena (máxima. etc). de Zabatiero. . parábola. Unidade retórica: esta pode ser uma unidade literária. deve ser um esforço para persuadir ou convencer a audiência. O próprio Paulo. Pois pelo menos muitas destas são as tensões entre as diferentes histórias e níveis. o qual transcrevemos novamente a seguir. De não menor valor no discurso de diferentes narrativas e níveis é a probabilidade de que a interação entre eles ajudará a explicar as tensões que continuamente afloram no estudo da teologia de Paulo. e depois. mas deve ser argumentativa.33 UNIDADE II EXEGESE E TEOLOGIA DAS CARTAS PAULINAS I – Exegese e Teologia da primeira carta aos Tessalonicenses Propomos a exegese das cartas paulinas com o auxílio do método da Análise Retórica proposta por J. 45. tanto mais esperança poderemos ter de escrever uma teologia de Paulo digna deste título.D. Não admira.39 estivermos de como a questão específica funciona dentro das histórias maiores. Amador. que a sua teologização consista em grande medida na tentativa de manter essas tensões unidas num todo coerente. viveu uma das mais dolorosas dessas tensões em si mesmo.

qual é a questão básica que está em discussão e identificar o gênero retórico. mas também literário. Uma marca escatológica ressoa no final: o livramento da ira futura (10). 5.” . Mudanças na situação argumentativa: procura-se perceber se a continuidade do discurso em uma unidade retórica maior favorece e conduz mudanças na situação argumentativa. Aqui.. qual a sua estratégia argumentativa. Jesus (10). amor e esperança são as marcas da igreja (3:3) que servem como modelo para todas as demais da Acaia e da Macedônia (3:7). 6. Classificação do argumento: Stasis e situação retórica: somente após o estudo realizado acima. Paulo oferece breve relato autoavaliativo da recepção do Evangelho (de Paulo. cantado. o que significa discutir como a intenção do autor e do leitor é colocada dentro do contexto histórico. Veremos. Estas marcas são desenvolvidas no relato como: a fé em Deus (8). Significado teológico: a dimensão missional (Zabatiero) e a pragmática (Sholz) se dará como discussão propriamente teológica da Unidade Retórica. dançado. demarcada por “irmãos. dramatizado. e. dessa maneira. o amor pelo apóstolo (9) e a espera pelo Filho de Deus. falado. contexto ainda pode ser determinado pelo meio utilizado: escrito. Primeira Unidade Retórica: a fé (2:1-3:13). indicando novos estágios ou novas trajetórias. este texto dentro do cânon (NT) e este dentro da cultura literária maior (Antigo Testamento e outras obras contemporâneas). pode-se determinar a situação retórica. Método da argumentação: trata-se de descobrir os caminhos que modelam a argumentação da unidade retórica. Estas marcas são associadas a três qualificativos operantes: a fé opera o trabalho. Estrutura Retórica: Introdução (1:1-10): à maneira de uma narrativa (narratio).. a partir dela.40 com um texto completo (Mateus). Significado contextual: a reconstrução histórica indica as muitas possíveis situações contextuais nas quais o texto pode ser lido e analisado. Postura relacional da unidade retórica: deve-se buscar como o orador procura expressar seu ponto de vista para a audiência. o amor opera a motivação. a esperança opera a perseverança. a palavra. como acontece nossa compreensão do texto da Primeira Carta aos Tessalonicenses. a mensagem do Senhor. 8) pela igreja e estabelece sua tese (propositio) a ser desenvolvida: fé.

. b) o trabalho.7.10. E Eles: os judeus.12.2.10.7. O diálogo se dá a partir de referências históricas à visita anterior aos tessalonicenses (2:1). . onde vocês é “irmãos”: (2:1.10.7. demarcada por “quanto ao mais.3.5. 3:2.9.18.6..7.19.10.” Terceira Unidade Retórica: a esperança (4:13-5:11). que introduzirá as próximas Unidades Retóricas (amor e a vinda do Senhor) em contraste com as ações de graças da Introdução (2:2)..17. com breve referência aos judeus (2:15.9..6.8.11.16.11.9. d) oração de petição de Paulo (3:11-13).14.16. Silvano e Timóteo (1:1).5).17.11. “nós” retórico? (3:1. 2:15. demarcada pela mudança de tema: “acerca dos que dormem.. Unidade retórica Analisaremos a Primeira Unidade Retórica que trata da fé (2:1-3:13).8. o comportamento e a recepção da pregação de Paulo (2:7-14) pelos tessalonicenses.2. mesmo. onde nós é: Paulo. Paulo” (2:18).4. 3:1.3.5.18.12..6.9.13. com referência aos efeitos do relato de Timóteo sobre Paulo (3:7-10). a ida e retorno de Timóteo (3:5-6).2.3. 3:7).8.12.19.5.14.13. apóstolos de Cristo (2:7).8.4.20. Postura relacional da unidade retórica: O discurso se dá na forma de um diálogo entre: Vocês: 2:1.”.9. com as seguintes lembranças: a) os maus-tratos em Filipos e uma justificativa para eles (2:2-6).5.41 Segunda Unidade Retórica: o amor (4:1-12).” Conclusão (5:12-28): demarcado por “mas exortamos a vocês. A Unidade é um discurso sobre a operosidade da fé e conclui com uma oração para que essa operosidade continue aperfeiçoada no amor que prepara para a vinda do Senhor (3:11-13).12.13.16). “eu.20. c) o tempo que segue após a saída com referência à situação em que os tessalonicenses foram deixados (2:17-3:4). E Nós: 2:1.11.13.6s.4.3. como término adequado à Introdução.

a partir das reminiscências.11). mas em separado. Paulo.2) desde como ele compartilhou da própria situação dos mesmos (2:7-13). com referências ao coração e à saudade (2:17) e ao interesse pessoal (2:18) e à recompensa do trabalho feito (2:19.20). Abundam as provas lógicas do Orador em favor da sua integridade e operosidade. como: bondade. o comportamento atribuído a uma mãe e a um pai (2:7.42 Entre Orador e Ouvintes (5:27). Método da argumentação: A estratégia argumentativa do Orador é uma mescla de: Ethos: É contínua a reminiscência da estadia de Paulo entre os tessalonicenses (2:1. e paternais. Pathos. Esta visa fortalecer a participação na mesma situação como condição para que o Orador seja ouvido a partir dos laços profundos que se estabeleceram entre eles. de acontecimentos presentes. a oração como expressão mais profunda do desejo de revê-los (3:11). a referência ao interesse também dos tessalonicenses (2:6). Logos. É desde essa expectativa iluminada e justificada pelo passado e presente que Orador e Ouvintes se interagem mutuamente. afeição. no presente. como prova de quer agradar a Deus e não aos homens = “aprovados por Deus” (2:4) e “Deus é testemunha” (2:3-6). consolando e dando testemunho para que vivam uma vida digna” (2:11).9). sentimentos de cuidados maternais. Ele inverte a desonra em honra. doação. e se tornam muito mais agudas à distância. de não ser um peso e o trabalho extenuante (2:7. ao transformar a rejeição em Filipos e em Tessalônica. pelos judeus. e da expectativa mútua de se vivenciar juntos novos acontecimentos. amor (2:7). se dá um vínculo mútuo sustentado pela memória de acontecimentos passados juntos. a conduta entre os tessalonicenses de: santidade. justiça e irrepreensibilidade (2:10). As reminiscências estão encharcadas de sentimentos que as envolvem. Silvano e Timóteo e os primeiros cristãos judeus na Judéia. geográfica e temporal. comprovado pela mesmas perseguições que as igrejas na Judéia sofreram dos . e das igrejas da Judéia (2:14). exortando. as perseguições que os tessalonicenses sofreram e sofriam são o bom resultado da recepção da palavra de Deus. Os maus tratos e insultos em Filipos e a “muita luta” (2:2). como a símile do “pai que trata os filhos. o anseio por rever os tessalonicenses.

7 indicam uma mudança do nós (coletivo) para o eu (individual). em seu inverso. semelhante àquele dos tessalonicenses por seus concidadãos. o envio de Timóteo e a alegria por seu retorno a Paulo como prova do seu interesse pessoal (3:1-1. a ser exposto na terceira Unidade Retórica.5. Classificação do argumento: A situação retórica é o ambiente de perseguição e sofrimento que permeiam tanto a atividade apostólica quanto a vivência da igreja após a recepção do Evangelho. Paralelamente.7).. Ela aparece em 1:3 e é reafirmada.4. Já. A fé é termo que aparece como: “vocês. o Cristo e o perseguem de cidade em cidade. A fé atua como elemento realizador (érgon) da atividade da igreja em meio a esse ambiente. cuja atitude fundamental é a firmeza (3:8). pela auto-avaliação de Paulo da sua atividade (2:1. a referência ao interesse pessoal dos tessalonicenses como prova da correção do interesse de Paulo (3:7-10). Estes não permitem que Paulo anuncie a Jesus. não fica claro se o conflito é entre ela e os judeus da cidade.. a operosidade da fé é testada em meio às perseguições e tribulações (3:3. Os versos 3:5. visto que não parece existir . “soubemos da sua fé‟ (3:7).6). Mudanças na situação argumentativa: Os versos 2:15 e 16 indicam uma mudança apontando para uma avaliação do comportamento dos judeus para com as igrejas da Judéia.43 judeus (2:14). enfatizando o tema do pecado e da ira divina. Significado contextual: Atos 16 é a base para a reconstrução histórica desta Unidade Retórica. “ânimo na fé” (3:2). A operosidade da fé é o tema da Unidade Retórica. no caso da igreja em Tessalônica. a oração como prova do inequívoco interesse no bem-estar dos tessalonicenses (3:12-13). Estimular para que a fé continue operosa em meio às perseguições e sofrimentos dá o caráter epidítico a esta Unidade Retórica. Está claro o conflito entre a pregação do Evangelho por Paulo na região da Macedônia e os judeus que vivem na região. Os versos 3:12 e 13 indicam uma mudança para as próximas Unidades Retóricas. com novos temas distintos do tratado até então: a fé. “o que falta à sua fé” (3:10).os que crêem” (2:13). 3:1).2. “a respeito da fé‟ (3:6). “a fé que vocês tem” (3:5).

44 sinagoga ali. visto a mudança de conduta que a recepção do Evangelho operou entre os participantes da igreja ( Significado teológico: A riqueza de lembranças das ações dos apóstolos e da igreja ao longo da Unidade Retórica aponta para uma caracterização da missão realizada em um ambiente adverso e conflituoso. que esta é a tese (propositio) acerca da qual o discurso será desenvolvido daí em diante. o que pede uma fé que seja capaz de não apenas sobreviver perante ele. demarcada por “Irmãos”. estreitamente vinculado .12). Unidade retórica: Analisaremos a Primeira Unidade Retórica que trata da vinda do Senhor (2:117). é acentuada e radicalizada em termos da vinda do Senhor Jesus.. É possível dizer. Silvano e Timóteo e da igreja dos tessalonicenses perante a espera da vinda do Senhor (3:1-16). crendo nele. o que aumenta a maior honra daquele que crê. que trará alívio para a igreja e juízo sobre os seus perseguidores (6-10). A unidade da igreja é afirmada em termos da relação entre ela e os apóstolos em meio à participação nos mesmos sofrimentos e operosidade da fé. Conclusão (3:17.18): com despedida e bênção final. II – Exegese e Teologia da segunda carta aos Tessalonicenses Estrutura Retórica: Introdução (1:3-12): Há uma recuperação das marcas da fé. sendo uma fé para o cotidiano. o recebem. ainda que desagrade àqueles que estão ao redor. Primeira Unidade Retórica: “a vinda do Senhor” (2:1-17). demarcada por “Finalmente. e que requer uma atitude ou operosidade igualmente radical desta fé. à semelhança da Primeira carta. Segunda Unidade Retórica: a vida atual de Paulo. As abundantes palavras-ação que seguem as reminiscências têm em vista operar o agir da fé. irmãos. A esperança.” e concluída pela bênção (16).. Esta fé assim demonstrada agrada a Deus. concluída pela oração de petição (11. Esta se dá no meio no qual se vive. mas também realizar obras ou operar uma vivência conforme a recepção do Evangelho. à luz deste horizonte. Trata-se de um discurso sobre o dia da vinda do Senhor. ou com os seus próprios concidadãos. amor e esperança presentes na Primeira carta (3-5). Fica evidente que o Evangelho se trata de uma mudança radical no estilo de vida daqueles que.

17). O determinado assunto do discurso é “a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo e nossa reunião com ele” (1). Postura relacional da unidade retórica: Nós – Paulo. O pronome “nossa” indica que o assunto é de interesse de ambos os lados do discurso que participarão no mesmo acontecimento. A intenção do discurso é manifesta na oração final.14) e aqueles que perecerão. . e extrapola os limites da epístola (2. Há orientação bem direta.15). Paulo e os demais possuem certo conhecimento acerca da chegada do dia do Senhor que é ignorado pela igreja (3) e que passa agora a revelar como a verdade acerca deste dia (7-12). Paulo sabe também que o evangelho que era dele e foi passado para eles é o meio para a posse da glória do Senhor Jesus Cristo (14). já possuído por Paulo e os demais: o conhecimento da vontade de Deus de salvar a igreja desde o princípio (13). de Paulo e os demais para a igreja: “não deixem” (2. O interesse no discurso é impedir que eles sejam enganados dessa forma (3). O conhecimento dos fatos que antecedem o dia do Senhor repousa sobre outro conhecimento. na qual se pede a Deus que a igreja seja animada e fortalecida para fazer o bem (17). e Eles – os que estão fora da igreja ou da eleição.5. e Vós – a igreja dos tessalonicenses. Ela é contínua. Uma oração coroa toda a atividade comunicativa estabelecida onde a esperança constitui a consolação que anima os corações da igreja e fortalece para agir.3. A igreja aos tessalonicenses se torna critério e paradigma desde o qual se prova aqueles que serão salvos no dia da vinda do Senhor (13. Silvano e Timóteo. na qual informam sobre a chegada do dia do Senhor (2). marca a atividade comunicativa que se pretende realizar.5. Método da argumentação: Há uma clara preocupação no discurso com o estado da igreja dos tessalonicenses: não permitir que eles fiquem abalados ou alarmados com alguma suposta correspondência atribuída a Paulo. no meio de uma vivência sofrida e turbulenta (16.15).45 à condição atual dos tessalonicenses que repercute em uma leitura da condição de toda a humanidade perante a vinda do Senhor (9-12). de caráter admoestatório. Silvano e Timóteo. O discurso pretende demonstrar que.

“não creram”. A igreja conhece a verdade acerca desse mistério encoberto aos que são enganados (7). Trata-se de descrever quem está do lado certo. .12) que produz a apostasia. Pathos: a igreja é conduzida a confiar na escolha de Deus como segurança de que não será enganada e de que será salva no dia da vinda do Senhor (13). para distinguir da falsa carta (15). o afastamento de Deus (3. porque sujeita ao engano de Satanás. mais uma vez: denunciar a condição degradante. daqueles que estão fora da igreja e a perseguem (9-12).15).14) e a posição dos apóstolos. com vistas a enganá-la (2. O dia do Senhor é a destruição do Perverso que propaga o engano (8). mas não apenas deste. a vinda do Senhor é argumento para. Classificação do argumento: A situação retórica é a questão da indefinição acerca do dia da vinda do Senhor Jesus e do que ele significa para os que crêem nele e os que não crêem. e sim de todo aquele que creu no engano. 10. Mudanças na situação argumentativa: Não há mudanças na situação argumentativa. 12). e do lado errado. O que dá uma característica marcadamente deliberativa a esta Unidade Retórica. sem sucesso (3). e o esforço bem sucedido de Satanás de enganar os que estão fora da igreja por meio do Perverso (10).11) encobrem a verdade (10.5. Há uma relação lógica entre aqueles que tentaram enganar a igreja.4). de Deus e do evangelho dos apóstolos.46 Em função desse objetivo retórico. mesmo contra o testemunho da verdade (“rejeitaram”. Eles são certificados de que fizeram a escolha certa pelo Evangelho dos apóstolos (14). O engano e a mentira (10. Logos: O dia da vinda do Senhor é apenas uma maneira de colocar questões de “verdade” e “mentira” que estabelecem a diferença entre a igreja dos tessalonicenses e os demais concidadãos. O argumento é construído desde o: Ethos: é afirmado todo um relacionamento entre os apóstolos e a igreja que justifica o reconhecimento e rejeição de uma comunicação espúria. que tem a forma no evangelho que Paulo pregou aos tessalonicenses (14). fortalecer a condição de eleição da igreja (13. fortalecida no ensino de viva voz ou de carta. de Satanás e do perverso.

1. O falso discurso será combatido por Paulo por meio do seu discurso verdadeiro.47 Significado contextual: Uma carta ou comunicação de Paulo que chegou à igreja dos tessalonicenses gerou inquietação e alarme acerca da definição do dia da vinda do Senhor. III – Exegese e Teologia da carta aos Gálatas Estrutura Retórica: Introdução (1:1-10): Há breve defesa do seu apostolado por Paulo (1) e do evangelho que ele anunciou às igrejas da Galácia (2). o grande adversário da vinda do Senhor. dentro do qual se encontra a sua tese (propositio): somente o Evangelho de Cristo anunciado por Paulo aos gálatas é o evangelho verdadeiro. Conclui com uma nova defesa do seu apostolado que combina bem com o v. ao final. dos personagens que confrontam a vinda do Senhor – Satanás e o Perverso. Significado teológico: São enormes a repercussão do discurso desta Unidade Retórica para a reflexão teológica acerca da expectativa escatológica de Paulo e que ele transmitia às suas igrejas. Tudo indica que esta teologia depende daquela inicialmente desenvolvida na Primeira epístola (4:135:11). O agir. Também é clara uma teologia incipiente da igreja à luz dessas condições escatológicas. além de ter firme esperança no livramento que Deus trará naquele dia. A análise do ambiente que cerca o apóstolo e a igreja também é tipicamente descrito em termos da degradação do pecado gerado pelo engano atribuído ao Perverso. de origem absoluta em Satanás. se trata de não se deixar enganar ou seduzir e se apegar firme às orientações do apóstolo. mas que segue em descontinuidade com ela. Segue um relato (narratio) (6-9) das circunstâncias polêmicas que movem Paulo a elaborar seu discurso. na qual diversas unidades retóricas são sobrepostas à . Assuntos como: a iminência do dia da vinda do Senhor. neste ambiente. pois ela é separada dos demais pela vontade de Deus e será salva da ira que Deus derramará sobre as impiedades dos que não creram no Evangelho. O que segue é uma sequência argumentativa acumulativa. personagem que são incógnitas – o que detém o Perverso. mas. dos sinais que a precedem.

. de início. no intuito de oferecer uma única prova conclusiva aos gálatas de que o seu (de Paulo) Evangelho é verdadeiro: a recepção da promessa do Espírito só é possível pelo Evangelho de Cristo. Esses argumentos podem ser relacionados como seguem: Primeira Subunidade Retórica (3:1-5): argumentação quanto ao passado: a promessa de Deus de dar o Espírito é recebida pelo Evangelho de Cristo (3:5). Quarta Subunidade Retórica (4:8-20): argumentação quanto ao presente: referência ao encontro pessoal passado com os gálatas visa reorientar a experiência atual dos gálatas (4:19). Quinta Subunidade Retórica (4:21-31): reafirmação da argumentação quanto ao presente: apelo à exegese bíblica (4:31). por “ó gálatas insensatos!”. que afirma a presença de um ensino ao qual se opor: “quem os enfeitiçou?”. de início. por meio de uma sequência de argumentos que se sobrepõe acumulativamente. Esta é uma reminiscência da afirmação da apresentação inicial da carta (1:4. que se entregou por nossos pecados”). Segunda Unidade Retórica (3:1-6:10): Delimitado. A conclusão deles é que a promessa do Espírito está baseada no Evangelho. pelo termo característico “Irmãos” (1:11). Terceira Subunidade Retórica (3:15-4:7): argumentação quanto ao passado: a promessa dada a Abraão é recebida por todos por meio da fé no Evangelho de Cristo e torna a todos filhos de Deus (3:26-29. “Jesus Cristo. que visam re-apresentar o Evangelho de Cristo pregado por Paulo anteriormente: “Não foi diante dos seus olhos que Jesus Cristo foi exposto como crucificado?” (1). Segunda Subunidade Retórica (3:6-14): argumentação quanto ao passado: a promessa foi dada gratuitamente a Abraão (6:14). Primeira Unidade Retórica (1:11-2:21): Delimitado. a partir de uma sucessão de narrativas visando oferecer uma base histórica para o julgamento das igrejas da Galácia (1:13-2:14). Este argumento é encerrado com uma reflexão teológica conclusiva a partir da base histórica do encontro com Pedro (2:1521). Paulo reconstrói as origens do Evangelho de Cristo por ele anunciado.48 medida que o discurso avança.4:6).

que pode ser identificada como segue: antes de conhecerem a Paulo. deixaram tudo aquilo pelo Evangelho que Paulo lhes pregou (11-16). de quem se fizeram amigos. que se encontra subdividida em sete Subunidades Retóricas. com suas aplicações para os crentes individuais e as igrejas. se relacionavam com os “falsos deuses” e eram governados pelos “princípios elementares” (8-10). Postura relacional da unidade retórica: Na Quarta Subunidade Retórica (4:8-20). Selecionaremos as Subunidades Retóricas quarta. deve-se andar pelo Espírito (5:25).6:1-10): aplicação da argumentação quanto ao presente: Individualmente. O que importa é ser uma nova criação” (15.5:11.49 Sexta Subunidade Retórica (5:1-12): consequências da argumentação quanto ao presente: o Espírito é a fonte da esperança pelo Evangelho de Cristo (5:5).6:12) Os dois são reunidos por Paulo para descrever a sua vivência e para reafirmar a vivência dos gálatas.6:14. Quando conheceram a Paulo enfermo.16). de natureza narrativa histórica. e implica uma reavaliação dos gálatas a respeito de sua decisão presente quanto a prosseguir ou não com a recepção do Evangelho uma vez efetuada no passado.10. As quatro Subunidades Retóricas seguintes dizem respeito a um argumento cujo gênero é deliberativo. Coletivamente. e entre o discurso de Paulo e o deles (17-20). quinta e sexta (4:8-5:12) para avaliar o argumento presente de Paulo. Conclusão (6:11-18): Dois temas da Introdução são retomados: a defesa do apostolado (1:1. O resultado do discurso está na conclusão final: “De nada vale ser circuncidado ou não. . estão conhecendo a outros que se colocam entre eles e Paulo. e implica uma reavaliação dos gálatas a respeito de sua decisão passada quanto à recepção do Evangelho. não havendo a menor afinidade entre Paulo e estes. Unidade retórica: Neste estudo. As três primeiras Subunidades Retóricas dizem respeito a um argumento cujo gênero é judicial.17) e a morte de Jesus Cristo na cruz (1:4. Sétima Subunidade Retórica (5:13-26. privilegiaremos Segunda Unidade Retórica. Depois de Paulo. deve-se semear para o Espírito (5:8).3:1. as quais melhor facilitam o avanço da argumentação do discurso paulino.

Há um “vocês” no verso 4.31). Paulo se dirige (“eu. a princípio: “os que querem estar debaixo da Lei” (21) e. Paulo”) diretamente aos gálatas (“vocês”). Método da argumentação: . trata-se de uma conversa entre Paulo e os gálatas.12). o que caracterizaria mais um grupo além dos dois já mencionados (os irmãos) e alguém aparentemente de fora ou também de dentro (10. a quem chama. Depois. no restante da conversa: “irmãos” (28.50 Na Quinta Subunidade Retórica (4:21-31). a primeira referência pessoal inclui a Paulo e os gálatas em um nos comum (1). que pode ser retórico ou dirigido a uma parte dentre os gálatas. A exegese de Gênesis 21:10 é dirigida a eles. Na Sexta Subnidade Retórica (5:1-12).

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